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Naturalismo e Biologização das Cidades na Constituição da Idéia de Meio Ambiente Urbano

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visões fantasmagóricas 
inclinadas a recusar o caráter artificial da existência em geral, poderemos pensar que 
o naturalismo só alcançou seu apogeu no século XX. (Rosset, 1989:273). 
Afinal, aceitar o acaso e o artifício significaria abdicar da estabilidade e da solidez dos 
princípios ordenadores. Isso significa admitir o presente como apenas “um conjunto de fatos 
que são, por vezes, suscetíveis de uma certa ressonância, aliás limitada, mas incapazes de 
durar por muito tempo (...)” (idem, ibidem, p.299). Rosset afirma que a aceitação da 
existência real como artifício implica uma concepção trágica dessa existência, que implica “o 
reconhecimento da impotência em pensar o que se experimenta e a renúncia a toda forma de 
controle intelectual da existência” (idem, ibidem, p.300), traduzida não num sentimento de 
impotência, mas em uma fundamental alegria perante a vida. 
Ao mostrar o alcance do naturalismo, estendendo-o a quase toda a história da filosofia, 
Rosset talvez menospreze a importância dos movimentos internos a esse próprio naturalismo 
(uma ideologia de dominação é sensivelmente diferente de uma ideologia baseada na culpa), e 
é necessário reconhecer as condições sociais que engendram uma e outra – isso implica que as 
idéias não poderão ser mantidas isoladas de seus contextos históricos e tratadas como 
abstrações teóricas. Ainda assim a obra de Clément Rosset tem o mérito de evidenciar uma 
característica fundamental do naturalismo que, de certa forma, é também a do urbanismo em 
sua origem: o desgosto da modernidade, a recusa do real: “só o passado e o futuro detêm a 
atenção naturalista, a exigência presente representa um acidente passageiro e desastroso” 
(Rosset, 1989:299). O impulso reformador parece profundamente imbuído do espírito 
naturalista de “melhorar a natureza”, sacrificando o real – e as pessoas reais – a um ideal de 
ordem e de necessidade60. 
 
60 Rosset distingue três maneiras de se praticar o artifício: “pretender-se artificial por desgosto de uma natureza 
(prática naturalista), por nostalgia de uma natureza ausente (prática quase artificialista), por prazer diante da 
ausência de natureza (prática artificialista)” (Rosset, 1989:87-8). O urbanismo se inseriria, desta forma, no 
modelo da prática naturalista do artifício. 
A ação humana na idéia de Natureza 64 
Naturalismo e biologização das cidades na constituição da idéia de meio ambiente urbano 
O abandono de todo naturalismo em prol de uma prática inteiramente artificialista é, 
de fato, uma tarefa difícil: aos olhos de um mundo naturalista, significaria um comportamento 
amoral (ou mesmo imoral). Ao urbanista que se dispusesse a abraçar o artificialismo, restaria 
buscar se tornar um “herói” e buscar, nos termos definidos por Baltazar Gracian: 
Inicialmente, domínio das aparências, isto é, arte de jogar com as aparências em 
benefício próprio, arte de se mostrar, em quaisquer circunstâncias, sob a luz mais 
lisonjeira. (...) Domínio das circunstâncias: o herói possui a arte de aproveitar as 
ocasiões, mediante uma técnica que não é a da previsão, mas da intuição da 
oportunidade no momento em que esta se apresenta (...). Enfim, domínio da 
mobilidade; isto é, a arte de se mover no instável e no frágil. (...) Nos três casos, há a 
mesma intuição trágica da inutilidade de qualquer investigação e possessão; a mesma 
concepção da vida como frivolidade e “divertimento” (Rosset, 1989:189-90). 
A estranheza que tal proposta provocaria a um planejador urbano, acostumado à busca 
da “previsão”, “ordenação” e à tentativa de encontrar (ou impor) um “princípio” às cidades 
revelaria claramente, segundo o argumento de Rosset, o traço naturalista de suas concepções. 
O urbanismo como disciplina nasce sob o signo do naturalismo: mesmo sua prática projetual 
reitera a idéia de imposição de ordem, principalmente na idéia de “melhoramento”. Por outro 
lado, a mera adesão a um artificialismo que se apresenta como celebração do acaso, do 
transitório e da renúncia poderia ser distorcida à forma de um esvaziamento do conteúdo 
político inerente a esse naturalismo urbanístico. Denunciar esse conteúdo é um dos objetivos 
tácitos deste trabalho, mas aderir simples e cegamente ao “trágico” não. Construir um novo 
urbanismo afirmativamente humano, quiçá artificialista, e ao mesmo tempo evitar sua 
despolitização (já que numa sociedade desigual não daria para pensar nem mesmo o acaso 
atuando da mesma forma sobre todas as pessoas) é tarefa para um longo processo de 
reformulação, que certamente ultrapassa o escopo deste trabalho. 
Nos próximos capítulos, alguns aspectos particulares dessa relação entre urbanismo e 
naturalismo serão investigados com maior cuidado. Primeiramente, o urbanismo fazendo-se 
valer (conscientemente ou não) dessa concepção naturalista para afirmar-se como “ciência”: a 
imposição de um modo de ver a cidade que, em última análise, representa de fato um olhar 
A ação humana na idéia de Natureza 65 
Naturalismo e biologização das cidades na constituição da idéia de meio ambiente urbano 
exterior e alheio ao seu próprio objeto; a construção de um método de “ordenação” da 
interpretação teórica, mas também da intervenção concreta, sobre as cidades; a abstração da 
diversidade, da complexidade e da dinâmica social das cidades em um modelo interpretativo 
totalizante, cujo ápice é a consagração da “analogia biológica” das cidades. Implícita nessas 
diversas posturas, uma fundamental negação da cidade existente, característica do 
modernismo urbanístico, mas também um conjunto de preconceitos sociais direcionados à 
“massa” da população urbana, principalmente suas parcelas mais pobres. A cidade, tomada 
então como natureza, negará o que lhe é mais caracteristicamente humano (ou artificial). 
Em seguida, o urbanismo tendo de se reformular perante um naturalismo reforçado, 
que se valerá de velhos antagonismos reducionistas (como cidade x campo) para condenar a 
cidade, enquanto artifício, em sua totalidade. Longe de sair em defesa do humano, afirmando 
a cidade como o locus de uma experiência social muito característica e irredutível, o 
urbanismo acabará por incorporar os pressupostos teóricos desse novo naturalismo, buscando 
enquadrar o urbano em novas categorias biológicas ou tendo que responder à contínua 
acusação que imputa à urbanização a culpa de causar a “degradação do meio ambiente”. 
 
Naturalismo e biologização das cidades na constituição da idéia de meio ambiente urbano 
 
 
 
 
PARTE II 
DOS MIASMAS ÀS MOSCAS – A NATURALIZAÇÃO DA 
CIDADE PELA MEDICINA E BIOLOGIA 
A cidade é uma estranha senhora 
Que hoje sorri e amanhã te devora 
(Luiz Enriquez & Sérgio Bardotti, versão de Chico Buarque, “A Cidade Ideal”) 
A cidade apresenta suas armas 
Meninos nos sinais, mendigos pelos cantos 
E o espanto está nos olhos de quem vê 
O grande monstro a se criar 
(Herbert Vianna, “Selvagem”) 
A investigação sobre a noção de natureza apontou como um momento crítico e 
fundador a transformação das sensibilidades na sociedade ocidental na segunda metade do 
século XIX. Este capítulo parte desse ponto para investigar um aspecto importante do 
“naturalismo” contemporâneo, que é o que se convencionou chamar “biologização do social”, 
tomando como caso particular a consolidação da analogia biológica das cidades. Assim, serão 
investigadas três vertentes das disciplinas biomédicas que, durante o século XIX e primeira 
metade do século XX, contribuíram para consolidar essa analogia como uma representação 
possível e – mais do que isso – recorrente na interpretação da cidade. São essas vertentes a 
própria Medicina, particularmente aquela ligada à Saúde Pública, depois a Eugenia (de fato 
Dos miasmas