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A síndrome metabólica (SM) é um conjunto de fato-res associados a risco aumentado de doença cardiovascu- lar aterosclerótica (DCVA), diabetes mellitus tipo 2 (DM2) e suas complicações. Consiste em cinco fatores de risco metabólico, que incluem: dislipidemia aterogênica, hipertensão arterial sistêmica, glicemia elevada, um estado protrombótico e proinflamatório Fisiopatologia: Apesar de a agregação dos fatores metabólicos não ocorrer ao acaso, a SM ainda não tem seus mecanismos patogênicos determinados. Parece que essa agregação dos fatores metabólicos depende de outros dois fatores importantes: suscetibilidade metabólica e excesso de gordura corporal. Muitas pessoas com suscetibilidade metabólica têm resistência à insulina. Se esta é causa ou consequência, ainda é incerto. Múltiplos fatores predispõem a essa suscetibilidade, como defeitos genéticos na via de sinalização da insulina, distúrbios nos adipócitos, inatividade física, disfunção das mitocôndrias, variabilidade poligênica em indivíduos e em certos grupos étnicos, idade avançada, disfunções endócrinas e certos medicamentos. A obesidade, especialmente aquela com acúmulo excessivo de gordura abdominal, é o principal fator etiológico que predispõe à resistência insulínica e à SM. A SM é relativamente incomum na ausência de algum excesso de gordura corporal, embora alguns grupos étnicos apresentem resistência à insulina sem obesidade, como os asiáticos. O estudo Dallas avaliou a influência da gordura corporal total e sua distribuição com os fatores de riscos metabólicos de acordo com sexo e etnia. A gordura de tronco mostrou ter correlação positiva maior do que o percentual de gordura total com os fatores de risco metabólicos, em especial a dislipidemia. A circunferência abdominal para ambos os sexos foi preditiva para a presença dos fatores de riscos metabólicos, enquanto a relação cintura/quadril não foi demonstrada de modo estatisticamente significativo. O excesso de gordura visceral está mais fortemente associado à resistência à insulina e à SM do que em qualquer outro compartimento em que esteja depositada, como a gordura depositada no segmento inferior. O tecido adiposo participa ativamente na fisiopatologia da SM, mediante sua função armazenadora de energia, seu papel endócrino, ele age no controle da hemostasia da energia, mediante a integração dos sinais endócrinos, metabólicos e inflamatórios. Entretanto, com a obesidade, esse tecido sofre disfunção, com alteração na morfologia e na atividade dos adipócitos. Uma variedade de proteínas biologicamente ativas é secretada, e esses produtos têm sido implicados como causadores de um ou outro fator de risco metabólico, como os ácidos graxos não esterificados (AGNE), citocinas inflamatórias, como fator de necrose tumoral α (TNF-α) e interleucina 6 (IL-6), e fatores protrombóticos, como plasminogen-activator inhibitor type 1 (PAI-1), leptina, resistina e adiponectina • AGNE: o tecido adiposo perde a capacidade de controlar a produção dos AGNE e contribui para atividade aberrante da função endócrina, com potenciais consequências em termos de disfunção metabólica, resistência à insulina e risco de doença cardiovascular. Os AGNE em excesso causam deposição de gordura em tecidos ectópicos, como fígado e músculos, o que parece predispor à resistência à insulina e à dislipidemia. Estudos postularam que os AGNE inibem a oxidação da glicose, o que mais tarde, associado à deficiência secretória de insulina, resultará em hiperglicemia. No fígado, os AGNE causam acúmulo de gordura, o que reduz a ação da insulina e aumenta a neoglicogênese e o débito de glicose hepática, acentuando a hiperglicemia naqueles que têm baixa secreção de insulina, além de promover o desenvolvimento da dislipidemia aterogênica, isto é, níveis elevados de triglicerídeos, apolipo-proteína B (apo-B) e LDL-c pequeno e denso. Níveis séricos elevados de triglicerídeos reduzem o HDL-c mediante troca dos ésteres de HDL-c por VLDL rico em triglicerídeos. Essa redução é intensificada pela aumentada síntese da lipase hepática que ocorre em pessoas com esteatose hepática induzida pela obesidade. • Citocinas inflamatórias: nos obesos, ocorrem maiores síntese e liberação de citocinas inflamatórias, IL-6 e TNF-α. É incerto se essas citocinas circulantes promovem resistência à insulina no músculo, se causariam aumento da síntese hepática de proteína C reativa (PCR) e fibrinogênio, ou se ativariam os macrófagos nas placas aterogênicas. O TNF-α produzido mais no tecido adiposo resistente à insulina, diminui a atividade da tirosina cinase do receptor da insulina, o que levanta a possibilidade de ser este um dos mediadores da resistência à insulina na obesidade Sindrome metabolica e no diabetes. • PAI-1: seus níveis estão mais elevados em obesos, com predomínio de gordura visceral. Essa elevação, junto com o fibrinogênio, contribui para o estado protrombótico. O nível aumentado de PAI-1 reduz a atividade fibrinolítica. • Outras adipocinas: as adiponectinas, em tecidos sensíveis à insulina, participam na modulação do metabolismo da glicose e dos lipídios. A associação de níveis reduzidos de adiponectinas com obesidade, resistência à insulina, doença coronariana (DAC) e dislipidemia indica que essa proteína pode ser um importante novo marcador da SM. Menores níveis de adiponectinas são encontrados em pacientes com hipertensão arterial e diabéticos, quando comparados a indivíduos não diabéticos, e são ainda particularmente mais baixos naqueles com DAC. A adiponectina atenua a expressão de adesão molecular do TNF-α no endotélio vascular, o que é imputado como etapa inicial da aterosclerose. No estudo de Hotta os níveis de adiponectinas estiveram correlacionados com os níveis de triglicerídeos. A hipertrigliceridemia é um dos principais componentes clínicos da síndrome de resistência à insulina (RI) e está frequentemente acompanhada de níveis plasmáticos elevados de PAI-1. A leptina é produzida especificamente pelos adipócitos e transmite o sinal de saciedade para o sistema nervoso central (SNC), além de afetar o metabolismo da glicose e a sensibilidade da insulina, entretanto, ainda precisa ser determinado se a associação desse hormônio com a SM independe da obesidade Outros mecanismos: A proteína adipocyte-fatty acid binding protein (A-FABP), liberada na corrente sanguínea a partir dos adipócitos, tem sido correlacionada com quadro da SM. Os efeitos aterogênicos da A-FABP parecem ser mediados por sua ação direta nos macrófagos, mediante modificações do fluxo de colesterol e ativação de várias vias inflamatórias, independente de seus efeitos no metabolismo dos lipídios e na sensibilidade à insulina O funcionamento do circuito osso-cérebro foi elucidado a partir da evidência recente de que a osteocalcina exerce sinalização direta nos neurônios do núcleo arqueado hipotalâmico para controlar a homeostase óssea em um circuito fechado de feedback negativo que envolve o neuropeptídeo Y (NPY). Exposição crônica e excessiva à osteocalcina nesses neurônios leva à inibição da formação óssea O NPY, produzido no SNC, encontra-se aumentado na obesidade e atua diminuindo a formação óssea, via aumento da esclerostina. Além disso, o NPY diminui a produção de osteocalcina, a qual exerce sinalização direta nos neurônios do núcleo arqueado hipotalâmico, via Glut-1, inibindo retroativamente o NPY. A redução da osteocalcina desencadeia diminuição na produção pancreática de insulina e dificulta a ação periférica desta nos adipócitos. Diagnóstico Atualmente, cinco critérios são propostos para definição da síndrome OMS Critérios DM2, Intolerância à glicose, glicose de jejum alterada ou resistência à insulina + dois dos seguintes ObesidadeIMC > 30kg/m2 ou relação cintura/quadril > 0,90 (homem) ou > 0,85 (mulher) Triglicerídeos (TG) TG ≥ 150mg/dL HDL-c HDL-c 300 mg/dL ou TG > 400 mg/dL em parentes de 1° grau); com doenças que cursam com DLP secundárias; a quem se pretende administrar medicamentos que podem causar DLP; adultos com idade > 20 anos com fatores de risco para doença coronariana (DM, doença ateroesclerótica, história familiar de doença coronariana, tabagismo, hipertensão, obesidade); homens com idade > 35 anos e mulheres com idade > 45 anos como rastreamento. Valores de referência de lípides, conforme avaliação de risco cardiovascular estimado, para adultos acima de 20 anos segundo a Sociedade Brasileira de Cardiologia Classificação: Colesterol total (mg/dL) 40: Desejável (com ou sem jejum) TG (mg/dL) 20% para homens ou > 10% para mulheres; aterosclerose na forma subclínica, significativa, documentada por metodologia diagnóstica; aneurisma de aorta abdominal; doença renal crônica com taxa de filtração glomerularentre 70 e 189 mg/dL e presença de estratificadores de risco ou doença aterosclerótica subclínica; Risco intermediário: ERG entre 5 a 20% para homens e 5 a 10% para mulheres; DM tipos 1 ou 2 sem estratificadores de risco ou doença aterosclerótica subclínica; Risco baixo: ERG 1,5 mm Índice tornozelo-braquial (ITB) 10 unidades Agatston Presença de placas ateroscleróticas na angiotomografia de coronárias LDL entre 70 e 189 mg/dL, com ERG > 20% para homens e > 10% para mulheres Tratamento A redução dos níveis de colesterol não HDL já é aceita como fator importante na prevenção de eventos cardiovasculares e cerebrovasculares, como demonstraram diversos estudos e metanálises. Da mesma forma, o aumento do HDL é visto como fator de proteção. A instituição recomenda o tratamento de DLP para 4 grupos de pacientes: Com doença cardiovascular clínica (presença de alguma das seguintes doenças: síndrome coronariana aguda, história de infarto do miocárdio, angina estável ou instável, revascularização coronariana ou de outros locais, AVC, ataque isquêmico transitório, doença arterial periférica, incluindo aneurisma de aorta, de origem presumivelmente aterosclerótica); Recomendacões de uso de estatina para adultos > 21 anos segundo a American Heart Association Doença aterosclerótica Idade 75 anos – dose moderada LDL > 190 mg/dL Dose alta DM tipo 1 ou 2, 40-75 anos Dose moderada Escore de risco em 10 anos ≥ 20% Dose alta Escore de risco em 10 anos ≥ 7,5% e 400 mg/dL. Ácido nicotínico: melhora todo o perfil lipídico, reduzindo o LDL em 5 a 25% e o TG em 20 a 50%, além de aumentar o HDL em 15 a 35%. Alta frequência de efeito colateral; Ômega-3: pode ser usado isoladamente, quando há refratariedade ou intolerância aos fibratos, ou em associação com outras drogas, lembrando-se que sua eficácia está associada ao uso de doses altas; Alguns medicamentos estão atualmente em fase de estudo para confirmar eficácia no tratamento da DLP. Tratamento da hipertrigliceridemia Deve ser o alvo primário do tratamento das DLP quando sua concentração ultrapassa 1.000 mg/dL (pelo risco iminente de pancreatite) e o alvo secundário nas DLP mistas, após o controle de LDL. Inicialmente, sempre se deve avaliar a possibilidade de DLP secundária, tratar as doenças de base e, se possível, retirar medicamentos que possam ser a causa da hipertrigliceridemia. As metas do tratamento são: Em indivíduos com doença aterosclerótica estabelecida ou de alto risco, manter TG 500 mg/dL pelo risco de pancreatite; Naqueles que não atingiram as metas: após 3 meses de mudança de estilo de vida. As estatinas de meia-vida curta (fluvastatina, lovastatina e sinvastatina) devem ser administradas à noite. A associação de estatinas com ezetimiba permite reduzir 20% a mais os níveis do LDL, podendo ser usada em casos de elevações persistentes do LDL, apesar de doses adequadas de estatinas, em casos de hipercolesterolemia familiar homozigótica ou como primeira opção terapêutica conforme indicação clínica. A ezetimiba é empregada na dose única de 10 mg ao dia, sendo administrada a qualquer hora do dia. Está disponível no mercado brasileiro como medicamento isolado ou em associação com sinvastatina. O uso de estatinas requer alguns cuidados: dosagem dos níveis basais de bilirrubina direta, creatinofosfocinase (CPK), também chamada de creatinocinase (CK), e transaminases, devendo ser repetidos na primeira reavaliação ou quando houver aumento de dose. Aquelas pessoas com aumento de CK de 3a 7 vezes o limite superior da normalidade (LSN) ou com dor muscular devem ser monitoradas cuidadosamente, devendo suspender a medicação se houver aumento progressivo da CK, aumento da CK acima de 10 vezes o LSN ou persistência dos sintomas musculares. Naquelas com sinais de hepatotoxicidade (icterícia, hepatomegalia, aumento de bilirrubina direta e do tempo de protrombina), recomenda-se a suspensão da estatina e pesquisa da etiologia. Nas assintomáticas, uma elevação das transaminases isolada e superior a 3 vezes o LSN deve ser confirmada por meio de novo exame, e a etiologia deve ser investigada. Nesses casos, a redução da dose ou a suspensão da estatina deverá ser baseada no julgamento clínico. Cabe ressaltar que não há contraindicação ao uso de estatinas em pessoas com doença hepática crônica ou esteatose não alcoólica. Entretanto, seu uso é contraindicado na presença de hepatopatias agudas. Na presença de hipertrigliceridemia isolada ou HDL baixo baixo, opta-se por fibratos (1a escolha) ou ácido nicotínico, ou ambos. Quando os triglicérides forem muito elevados (> 500 mg/dL), são recomendados inicialmente, junto com as medidas não farmacológicas. Os efeitos colaterais são infrequentes. Casos de rabdomiólise têm sido descritos com a associação de estatinas com genfibrozila, devendo ser evitada. Recomenda-se atenção especial nos portadores de doença biliar, no uso concomitante de anticoagulante oral, cuja posologia deve ser ajustada, e nas pessoas com função renal diminuída. O ácido nicotínico pode ser usado em pessoas com HDL baixo isolado, mesmo sem hipertrigliceridemia associada, e como alternativa aos fibratos e estatinas ou em associação com esses fármacos em portadores de hipercolesterolemia, hipertrigliceridemia ou dislipidemia mista. Sugere-se iniciar com uma dose de 500 mg ao dia, com aumento gradual, em geral para 750 mg e depois para 1.000 mg, com intervalos de 4 semanas a cada titulação de dose, buscando-se atingir 1 a 2 g diários. Na hiperlipidemia mista, a conduta dependerá dos níveis de triglicérides: ● Acima de 500 mg/dL: introduzir um fibrato, adicionando, se necessário, o ácido nicotínico. Após reavaliação, caso haja necessidade de redução adicional da colesterolemia, acrescenta-se uma estatina. ● Abaixo de 500 mg/dL: iniciar o tratamento com uma estatina isoladamente ou associada à ezetimiba.18 É importante lembrar-se de que a alteração dos lipídeos pode ser secundária ao hipotireoidismo (clinicamente manifesto ou subclínico), devendo ser tratada com posterior avaliação da necessidade de introduzir medicamentos para dislipidemia. Metas LDL Risco em 10 anos > 20% Nível de LDL no qual se inicia MEV: ≥ 100 (mg/dL) Nível de LDL no qual se considera terapia medicamentosa (mg/dL): ≥ 130 (100-129 – medicamento é opcional) Alguns estudos sugerem uso de medicamento nesta categoria se LDLpessoas com hiperuricemia desenvolve gota durante a vida. Em níveis fisiológicos de pH, o ácido úrico existe em grande medida como urato, a forma ionizada, dada a sua fraca propriedade acídica (pKa, 5,8). Consideradas como parte da síndrome de resistência à insulina, hiperuricemia e gota estão associadas a múltiplas comorbidades cardiovasculares-metabólicas, incluindo obesidade, hipertensão, diabetes tipo 2, infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral e nefrolitíase por urato os fatores de risco modificáveis incluem obesidade, dieta ocidental, consumo de álcool, sedentarismo e uso de diurético Fatores desencadeantes de gota: Produção excessiva: Doenças mieloproliferativas Síndrome de lise tumoral, Psoríase; Anemia hemolítica; Aumento da atividade da fosforibosil-pirofosfato sintetase (PRPP); Deficiência da hipoguaninal- fosforibosil-transferase (HPRT); Obesidade; Hemorragias ou transfusões; Início de alopurinol; Deficiência de G6PD; Dieta rica em purinas; Trauma; Álcool; Varfarina; Rápida perda de peso; Idiopática Excreção diminuída: Insuficiência renal crônica; Desidratação; Doença renal policística; Obesidade; Hipotireoidismo; Diuréticos; Levodopa; Hipertensão; Hiperparatireoidismo; Álcool; Drogas (ciclosporina; pirazinamida; etambutol; baixas doses de salicilatos); Deficiência de G6PD; Cetoacidose diabética Quadro clínico Crise aguda de gota e período intercrítico: A gota inicial se caracteriza por exacerbações agudas e recorrentes. Em homens, em geral, a crise ocorre entre a 4ª e 5ª décadas de vida, sendo em mulheres um pouco mais tardiamente a depender da idade de menopausa e outros fatores desencadeantes como uso de tiazídicos. Normalmente apenas uma articulação é inicialmente acometida, embora com o tempo possa haver o desenvolvimento de exacerbações de gota oligoarticulares ou poliarticulares. A articulação metatarsofalângica do hálux é envolvida em 70 a 90% dos casos (podagra), seguida pelas articulações tarsais, tornozelos e joelhos. Também pode haver envolvimento de dedos, punhos e cotovelos, mais frequentemente em pacientes idosos ou com doença avançada. As exacerbações da gota costumam começar à noite ou no início da manhã, sendo uma das condições mais dolorosas experimentadas pelos seres humanos. As articulações acometidas tornam- se rapidamente quentes, avermelhadas, dolorosas e substancialmente inchadas, com um aspecto clínico que, com frequência, simula o da celulite (pseudocelulite). As exacerbações típicas tendem a regredir espontaneamente no transcorrer de 1 a 2 semanas, com a maioria dos pacientes exibindo intervalos de duração variável sem sintomas residuais até o próximo episódio (gota intercrítica). Sintomas associados como febre, calafrios e adinamia podem ocorrer, mimetizando artrite séptica. Em geral após anos de exacerbações de gota sem tratamento, pode ocorrer a artrite gotosa crônica, muitas vezes associada à sinovite continuada, a tofos subcutâneos, a deformidades e à destruição óssea. Gota tofácea crônica e complicações: Um sinal clínico característico de pacientes com gota não tratada são as nodulações chamadas de tofos, que acometem principalmente joelhos, cotovelos e dedos, além da clássica apresentação em pavilhão auricular. A apresentação radiográfica da gota vai desde cistos ósseos e edema de subcutâneo até a sua concomitância com erosões com margens escleróticas, “imagens em mordida de rato”. No entanto, em geral, há preservação do espaço articular e ausência de osteopenia justa-articular. Alguns órgãos podem sofrer agressão pela deposição de cristais, sendo o rim o mais frequentemente afetado, em torno de 25%, com formação de cálculos de ácido úrico, podendo ocorrer ainda deposição no interstício, ocasionando a nefropatia intersticial por urato Diagnóstico faz-se importante a análise de líquido sinovial, através da punção articular com pesquisa de Gram, cultura e pesquisa de cristais com birrefringência negativa, ou seja, amarelos quando paralelos ao compensador vermelho na microscopia de luz polarizada. A celularidade do líquido sinovial na gota tem características claramente inflamatórias, tipicamente entre 20.000-100.000 leucócitos/mm3 com predomínio de polimorfonucleares. É importante lembrar que no líquido sinovial da artrite séptica pode haver presença de cristais de monourato concomitantemente, daí a importância do Gram e culturas para o diagnóstico diferencial dessas doenças. Para a vasta maioria dos pacientes, a tríade monoartrite aguda em topografia compatível, hiperuricemia (pode estar ausente em até 25% dos casos na crise aguda) e uma resposta dramática ao tratamento sela um diagnóstico presuntivo aceitável, definida como resolução do quadro clínico em 48 horas e não recorrência em 1 semana. Também podem ser usados os critérios propostos pelo American College of Rheumatology. São eles: Presença de cristais de monourato de sódio nas articulações; tofo com prova de presença de cristal de ácido úrico por método químico ou luz polarizada; Presença de 6 das 12 características clínicas, laboratoriais e radiográficas a seguir: > 1 crise de artrite aguda; pico de inflamação desenvolvido em 24 horas; 1 evento de monoartrite aguda; rubor articular presente; 1ª metatarsofalângica acometida por dor ou edema; podagra unilateral; envolvimento unilateral de qualquer metatarsal; tofo suspeito; hiperuricemia; edema doloroso de uma articulação sem erosão ou cisto em RX; cistos subcorticais sem erosões; cultura negativa no líquido sinovial durante a crise articular. Tratamento O tratamento do paciente com gota distingue-se em 2 momentos, o do crise aguda e o do período intercrítico. Crise aguda: AINEs administrados em doses anti- inflamatórias plenas são efetivos na grande maioria dos pacientes (p. ex., indometacina 25-50 mg, 3×/dia; naproxeno 500 mg, 2×/dia; ibuprofeno 800 mg, 3×/dia; e celecoxibe 800 mg seguidos por 400 mg 12 horas depois e, então, 400 mg, 2×/dia) e manter por 5-7 dias. Colchicina, um alcaloide da família Colchicum autumnale que regula proliferação celular, é usado com sucesso no tratamento da crise aguda há séculos, sendo seu principal fator limitante o surgimento de náusea, vômitos e diarreia com doses crescentes. A dose inicial segundo o consenso de 2012 do American College of Rheumatology é de 1,0 mg na hora zero, depois 0,5 mg de 2 a 3x dia por 7 dias. A partir de então, 2 a 3x dia por 7 dias. Para indivíduos com função renal diminuída, corticosteroides passam a ser a droga de 1ª linha. Prednisona até 0,5 mg/kg/dia por 7 dias é uma medida bastante eficaz nesses casos Período intercrítico: Após a resolução da crise aguda se faz necessário um tratamento de longo prazo para que as complicações citadas anteriormente sejam evitadas. Para isso, pelo menos 2 dosagens de ácido úrico sérico e em urina de 24 horas são necessárias para definir se o paciente é um hipoexcretor (90% dos casos), hiperprodutor ou uma associação desses 2 mecanismos. Hipoexcretores: pode-se iniciar a administração de benzbromarona com dose inicial de 25 mg, podendo chegar a 200 mg/dia, em dose única; no entanto, doses > 100 mg/dia são raramente necessárias. Esta medicação é efetiva para pacientes com clearance de creatinina acima de 20 mL/min. Hiperprodutores ou com duplo mecanismo: devem ser tratados com inibidores de xantina-oxidase. O alopurinol tem dose que varia de 100 a 600 mg/dia em tomada única. Iniciar preferencialmente com 100 mg/dia e ir aumentando paulatinamente até atingir meta de ácido úricomg, 1 a 2x por dia nos primeiros 6 meses. Uma opção terapêutica promissora é o lesinurade com dose de 200 mg/dia, devendo este medicamento ser utilizado sempre junto com o alopurinol. É contraindicado em clearance de creatinina