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COM MARIA AO PÉ DA CRUZ: UM GUIA PARA PERSEVERAR NA CAMINHADA QUARESMAL 1 COM MARIA AO PÉ DA CRUZ: UM GUIA PARA PERSEVERAR NA CAMINHADA QUARESMAL 2 Caríssimos irmãos e irmãs, paz e fogo! O caminho quaresmal é, de certa forma, síntese de toda nossa pe- regrinação terrestre. Os acontecimentos da vida nos desafiam, o antigo adversário a todo tempo nos tenta, buscando nos distrair do caminho de santidade proposto por Deus e, nós cristãos podemos contar com a graça divina para vencê-los. Com a Santíssima Virgem Maria não foi diferente, a jovem de Nazaré foi constantemente provada, sua vida foi desafiadora e toda baseada na fé, sobretudo a partir do momento em que recebe a incumbência de ser a mãe do Filho de Deus na carne. A esposa do castíssimo José manteve-se de pé mesmo na hora mais cru- cial de seu Filho, sua morte de cruz. Façamos, pois, o itinerário percorrido pela Santa Mãe de Deus e nossa, desde a Anunciação, quando se deu a Encarnação do Verbo de Deus, até o calvário. Fundamentados nas Sagradas Escrituras, no Sa- grado Magistério e na Sagrada Tradição da Igreja Católica Apostólica Romana, permitiremos ser auxiliados por alguns teólogos que podem contribuir com essa explanação, bem como nos ajudar a percorrer, ao lado de Nossa Senhora, nossa caminhada quaresmal como peregrinos da esperança. 1. O ponto de partida, um caminho é apontado. Quando Isabel estava no sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré, a uma virgem prometida em casamento a um homem de nome José, da casa de Davi. O nome da virgem era Maria. O anjo entrou onde ela estava e disse: “Alegra-te cheia de graça! O Senhor está conti- go”. Ela perturbou-se com essas palavras e pôs-se a pensar no que significaria a saudação. O anjo então disse: Não temas Maria! Encontraste graça junto a Deus. Conceberás e darás à luz um filho, e lhe porás o nome de Jesus. Ele será cha- mado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi. Ele reinará para sempre sobre a casa de Jacó e o seu reino não terá fim”. Maria então perguntou ao anjo: “Como acontecerá isso, se não conheço homem algum?” O anjo respondeu: “O Espírito Santo descerá sobre ti, e o poder do Altíssimo te cobrirá com sua sombra. Por isso, aquele que vai nascer é santo e será chamado Filho de Deus. Também Isabel, tua parenta, concebeu um filho na velhice; já está no sexto mês aquela que era chamada estéril, pois para Deus nada é impossível.” Então Maria disse: “Eis aqui a serva do Senhor! Faça-se em mim segundo a vossa palavra”. E o anjo saiu de sua presença (Lc 1, 26-38). COM MARIA AO PÉ DA CRUZ: UM GUIA PARA PERSEVERAR NA CAMINHADA QUARESMAL 3 “Alegra-te cheia de graça! O Senhor está contigo” (Lc 1,28). No diálogo do anjo Gabriel com a jovem nazarena há um convite para que Maria se alegre ao participar de um novo tempo que se iniciaria em Je- sus Cristo. Ao discorrer sobre o convite, o teólogo claretiano, José Cris- to Rey García Paredes frisa que a palavra grega χαιρε (Alegra-te) pode- ria ter sido substituída por Lucas por sua homônima hebraica: Shalom, e defende que faria mais sentido que o anjo Gabriel a usasse. Contudo, essa expressão desperta uma atenção para que exegetas entendam que não se tratava de uma saudação convencional. Ela pode ser lida numa categoria de alegria global que coloca essa cena no mesmo patamar de textos veterotestamentários como um chamamento a uma alegria es- catológica. “Não temas, terra, exulta e alegra-te (χαιρε), porque Iahweh fez grandes coisas” (Jl 2,21). Certamente essa saudação fez com que Maria se perturbasse talvez já imaginando a Boa Nova que viria após. O mensageiro de Senhor Deus ainda diz que ela não estaria sozi- nha na missão que anunciaria, a de ser Mãe do Filho de Deus na carne. Seguramente, não seria um projeto fácil de ser assimilado, a maternida- de demanda energia para gerar, dar à luz e ensinar um outrem a estar pronto para os desafios de se viver. E o contexto que tal fato ocorreu era de um cenário extremamente violento, um império opressor, uma cultura que não qualificava a mulher enquanto indivíduo. Clodovis Boff, teólogo e frei da Ordem dos Servos de Maria, sobre isso diz: quando se confronta Maria na Anunciação com a mulher em seu tempo, nota-se o quanto sua reação representa uma ruptura com o modelo cultural vigente. A mulher da sua época não era um sujeito verdadeiramente autônomo. Dependia o mais das vezes de um homem, pai, marido, irmão ou filho que fosse. Maria não: Ela está só diante do anjo e se decide em plena responsabilidade (BOFF, 2006, p. 415). Nessa tarefa Maria viveria realidades nada fáceis, sobre ela se de- positava a expectativa de doar a Deus seu corpo e sua vida para gerar, trazer ao mundo e ensinar o Filho de Deus a dia a dia armar sua tenda entre os homens. Há ainda um fato que devemos considerar, Maria não tinha consciência da missão que desempenharia, ela não teve a possibi- lidade de prever o futuro e antever os fatos. Ela precisou viver de fé, a cada dia sendo surpreendida. Contudo, ela “não joga o jogo da ‘perso- COM MARIA AO PÉ DA CRUZ: UM GUIA PARA PERSEVERAR NA CAMINHADA QUARESMAL 4 nagem’, segundo um papel prefixado culturalmente, mas se comporta como ‘pessoa’ que se autodetermina a partir de sua consciência livre e em função da Graça” (BOFF, 2006, p. 415). Entendemos pois, que desde o chamado, a vida de Maria de Na- zaré foi desafiadora, encontrou muitos obstáculos. Deu à luz num es- tábulo, fugiu para o Egito para poupar seu filho da morte ordenada por Herodes a todos os recém nascidos. Perde seu filho na caravana e agoniada o reencontra no templo entre os doutores da lei. De fato o velho Simeão não mentiu quando disse acerca da espada que traspas- saria sua alma. Sim, Maria é tão humana como nós e sua peregrinação foi dolorosa, sua vida foi um calvário, sofrimento, incertezas, mas ela se manteve de pé, certamente continuava recordando das palavras do anjo e guardando-as no coração. Em nosso tempo, o Concílio Vaticano II, com seu caráter pastoral, se propôs a pensar Maria de uma forma enraizada no existencial huma- no. Nesta direção, o cardeal Raniero Cantalamessa, aponta que “a ca- tegoria fundamental com a qual procuramos compreender a santidade única de Maria já não é a do privilégio, mas a da fé” (CANTALAMESSA, 1992, p. 72-73). Este modo de conceber Maria a dispõe em contato com homens e mulheres deste tempo, pois a apresenta como uma de nós, possibilita-nos enxergar a Maria de Nazaré sob o manto e adornos de Nossa Senhora de tantos títulos de honra. O Magistério, sempre em comunhão com a fé transmitida ao longo da história, todavia vivendo o que João XXIII chamou de aggiornamen- to, (como que trazer a Igreja e a Palavra para o hoje), reafirma o primeiro dogma mariano, Maria, Theotókos, (Maria, Mãe de Deus), quando de- clara que “a Virgem Maria, que na Anunciação do Anjo recebeu o Verbo de Deus no coração e no corpo e trouxe ao mundo a Vida, é reconhe- cida e honrada como verdadeira Mãe de Deus e do Redentor” (Lumen Gentium 53) e destaca que sua união indissolúvel com o Cristo a faz ser Mãe do Filho de Deus, filha predileta do Pai de Jesus e sacrário do Espírito Santo. COM MARIA AO PÉ DA CRUZ: UM GUIA PARA PERSEVERAR NA CAMINHADA QUARESMAL 5 Neste concílio, Maria é chamada filha de Adão (LG 53). Essa afirma- tiva, embora pareça simples e óbvia, traz em si uma importante mensa- gem, a Mãe de Jesus é unicamente de natureza humana, não é preexis- tente, mas tem sua procedência terrena, uma árvore genealógica que a insere no mesmo plano que cada um de nós se encontra, o de criaturas. A Igreja reconhece que seu consentimento com a palavra divina a fez Mãe de Deus e que em algum momento ela foi favorecida com a graça para desempenhar tamanha função, contudo, ela segue sendo a jovem de Nazaré, filha de Joaquim e Ana, como nos conta a tradição. O Magistério reafirma que Maria estava unida ao seu Filho desde sua concepçãovirginal até a sua morte. E essa união é manifestada em diferentes momentos. Como Mãe, ela participou de eventos importan- tes na vida de Jesus: Ela concebeu, gerou, nutriu a Cristo, apresentou-O ao Pai no tem- plo, compadeceu com seu Filho que morria na cruz. Assim, de modo inteiramente singular, pela obediência, fé, esperança e ardente carida- de, ela cooperou na obra do Salvador para a restauração da vida sobre- natural das almas. Por tal motivo ela se tornou para nós mãe na ordem da graça (LG 61). Entendendo essa maternidade na ordem da graça, a Igreja defende que a missão de Maria não terminou, mas se estende com a sua Assun- ção. Participante da mediação em Cristo ela “segue em granjear-nos os dons da salvação eterna” (LG 62). Ainda que seja invocada como advogada, intercessora, medianeira, ela nada acrescenta ou diminui na eficácia de Cristo, que é o único Mediador, como lemos em ITm 2,5, entretanto colabora com o plano salvífico de Deus, sobretudo quando a temos como modelo de obediência, adesão à fé em Cristo e perseve- rança na caminhada terrena. Para o presente tempo em que enfrentamos desafios complexos que provoca grande quantidade de sofrimento para a família humana, contemplar Maria, sobretudo no período quaresmal, é como mergulhar numa fonte de esperança. Uma vez que a entendemos toda de Deus e tão humana, é possível fazer brotar em nós a expectativa de um novo COM MARIA AO PÉ DA CRUZ: UM GUIA PARA PERSEVERAR NA CAMINHADA QUARESMAL 6 amanhã. Não apenas na dor e no sofrer, que são inerentes ao existen- cial humano, mas em todas as dimensões de nossa vida podemos ter em Maria um porto seguro, uma inspiração para nosso ato de fé. 2. Um caminho eternizado. Junto à cruz estavam de pé sua mãe e a irmã de sua mãe, Maria de Cléofas e Maria Madalena. Jesus ao ver sua mãe e, ao lado dela, o discípulo a quem amava, disse à mãe: “Mulher, eis aí teu filho!” Depois disse ao discípulo: “Eis aí tua mãe!” A partir daquela hora o discípulo a acolheu em sua casa. (Jo 19, 25-27) Admitindo a experiência de dor que fazemos na condição de se- res humanos, Cantalamessa (1992, p. 88) lembra que ao ficar junto à cruz de Jesus de pé e em silêncio, um fato heroico por si só, Maria não deve ser lida como sofredora apenas, mas como quem acreditou, como quem viveu de fé. Desta cena ao pé da cruz também Maria nos sur- preende por suas atitudes de humildade e valentia. Passou sua vida no escondimento, sob a sombra do Altíssimo. Na hora da cruz, da dor, ela se coloca em evidência, digna e silenciosa. Sua experiência já a insere no plano glorioso de Deus e nela “a Igreja já atingiu a perfeição, pela qual existe sem mácula e sem ruga (Cf. Ef 5,27), os cristãos ainda se es- forçam para crescer em santidade vencendo o pecado” (LG 65). Pecado este que traz sofrimento, vazio existencial para o gênero humano. A imagem de uma mulher sofredora não é atraente aos homens e mulheres atuais, uma vez que a contemporaneidade, caracterizada pelo subjetivismo e individualismo, rejeita a condição de uma pessoa aninhada no sofrimento, pois o sofrer causa repulsa e sentimento de derrota, o que não encontra espaço na sociedade da ostentação, dos prazeres. Entretanto, a personalidade de Maria não é de quem passi- vamente se acostuma com o sofrer, mas sim de quem medita os sinais no coração e sabe o momento certo de agir e assumir o protagonis- mo imbuído pela graça. Logo, isso a faz inspiração também para a era contemporânea, visto que nossas alegrias e esperanças, as tristezas e angústias são também as de homens e mulheres de todos os tempos, pois são aspectos antropológicos. COM MARIA AO PÉ DA CRUZ: UM GUIA PARA PERSEVERAR NA CAMINHADA QUARESMAL 7 Teologicamente é importante esclarecer que Maria não é uma es- pécie de “quarta” pessoa da Trindade e tampouco Mãe de Deus em sua essência trina. Em relação à Deus Pai, Maria é criatura amada, dotada de graça e escolhida para desempenhar uma missão única e irrepetível em toda a humanidade, receber o Verbo de Deus em seu corpo e gerá-lo em suas entranhas, possibilitando que ele possa ter um rosto humano, genética humana. Concorda com essa percepção o Magistério quando indica que Jesus “trabalhou com mãos humanas, pensou com inteligência hu- mana, agiu com vontade humana, amou com coração humano. Nascido da Virgem Maria, tornou-se verdadeiramente um de nós, semelhante a nós em tudo, exceto no pecado” (Gaudium et Spes 22). Logo, em relação ao Filho, Maria é mãe amorosa, ela o educa, mas também dele aprende e se torna seguidora, discípula, a primeira cristã, guardava no coração tudo o que passava com o Filho. Ela o acompanha em sua travessia terrena que culmina no derradeiro da cruz. Do Espírito Santo, Maria é um receptáculo pleno de graça e por Ele guiado. Por ter se sujeitado ao propósito de Deus, Ela é um templo vivo, um vaso honorífico. Ela estava presente no dia do Pentecostes, do cumprimento da promessa (cf. At 2), logo Ela é comunidade com Deus e os apóstolos de Jesus. Maria se torna modelo de oferta porque é livre, sobre isso já es- clarecemos quando abordamos o diálogo entre ela e o anjo. Tomar a decisão sem a tutela de um homem para lhe assegurar é sinal de sua liberdade diante de Deus. Vencendo essa barreira ela, por assim dizer, estava pronta para uma vida oblativa, de entrega. A nossa vocação en- quanto Igreja não é diferente. Se em outra virtude somos chamados à oração, confrontar nossa vida com a Palavra, aqui somos instados a agir como oramos, ou simplesmente orar e agir, testemunhar com a vida. Finalmente pudemos compreender como a Mãe de Jesus, no seu existencial humano, é a chave para que a Igreja, continuadora da pro- clamação da Boa Nova, possa seguir seus passos e fazer também um caminho de crescimento até atingir a estatura de Cristo sendo ela imi- COM MARIA AO PÉ DA CRUZ: UM GUIA PARA PERSEVERAR NA CAMINHADA QUARESMAL 8 tadora da Virgem Mãe. Concluímos que Maria de Nazaré, em sua condição de pobreza ou sou na fé e sendo parceira de Deus tornou-se Dei genitrix, portanto, a glória que vemos em suas variadas imagens, em suas vestes, não são suas, mas reflete a glória de Deus. Assim a Igreja, instituída na graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, é permanentemente geradora de Deus até que Ele volte e deve fazer sua glória fulgurar sobre a terra para que seus filhos, novo povo de Deus, aprendam com a Mãe Igreja a imitar a Mãe de Jesus, Nossa Senhora de tantos povos, nomes e títulos. Isto posto, caríssimos, rogo a Deus que na peregrinação deste tem- po litúrgico que chamamos Quaresma, mantenhamos o bom ânimo e, entendamos que toda a nossa vida será de combate e confrontos com o tentador, porém há um Deus conosco, um Emanuel que nos conce- deu uma Mãe. Sob seu patrocínio e intercessão, caminhemos! Rezemos juntos a mais antiga oração direcionada à Santíssima Virgem Maria, datada no século III: “À vossa proteção recorremos Santa Mãe de Deus, não desprezeis nossas súplicas em nossas necessidades, mas livrai-nos sempre de todos os perigos. Oh Virgem gloriosa e bendita.” Padre Rômulo Moreira Administrador paroquia da Paróquia Maria Estrela da Evangelização/BH Diretor espiritual da RCC Minas Gerais COM MARIA AO PÉ DA CRUZ: UM GUIA PARA PERSEVERAR NA CAMINHADA QUARESMAL 9 REFERÊNCIAS BÍBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo: Paulus, 2002. BOFF, Clodovis. Mariologia Social: o significado da Virgem para a Sociedade. São Paulo: Paulus, 2006. (Coleção Teologia Sistemática). CANTALAMESSA, Raniero. Maria, um espelho para a Igreja. Tradução de Lino Rampazzo. Aparecida, São Paulo, Editora Santuário, 1992. CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. São Paulo: Edições Loyola, 2000. CONCÍLIO VATICANO II. Constituição dogmática Gaudium et Spes sobre a Igreja no mundo de hoje. 26. Ed. Petrópolis: Vozes, 1997. CONCÍLIO VATICANO II. Constituição dogmática Lumen Gentium sobre a Igreja. 26. Ed. Petrópolis: Vozes, 1997. PAREDES, José Cristo Rey García, Mariologia: síntese bíblica,histórica e sistemática. Tradução de José Joaquim Sobral. São Paulo: Editora Ave-Maria, 2011.