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SUMÁRIO
COMO INTERPRETAR OS DOGMAS MARIANOS
MATERNIDADE DIVINA
VIRGINDADE PERPÉTUA DE MARIA
IMACULADA CONCEIÇÃO
ASSUNÇÃO DE MARIA AO CÉU EM CORPO E ALMA
A MEDIAÇÃO DE MARIA: O QUINTO DOGMA?
COMO INTERPRETAR OS DOGMAS MARIANOS
I. POR QUE SE FALA TANTO HOJE DE MARIA, QUANDO A
BÍBLIA FALA TÃO POUCO DELA?
É verdade, são poucas as passagens do Novo Testamento (NT) que
falam de Maria: apenas 142 versículos. Contudo, são versículos
riquíssimos, carregados de sentido. Eles frutificaram ao longo da história. A
mariologia é um dos casos mais típicos do “desenvolvimento dos dogmas”.
Pode-se aplicar a ela a parábola do “grão que cresce sozinho”: a terra
produz primeiro a planta, depois a espiga e, por último, o grão abundante
na espiga (Mc 4,28).
De resto, a consciência da importância da Virgem começou já dentro do
NT. É só comparar a “mariologia primária” (grão debaixo da terra) de S.
Marcos e de S. Paulo com a “alta mariologia” de S. João (espiga cheia),
passando pela “mariologia biográfico-espiritual” de Lucas. No verdadeiro
desenvolvimento do dogma, nada se inventa, tudo se descobre. Vai-se do
implícito ao explícito. Surgem então novas perspectivas, não propriamente
dados novos.
II. QUANTOS SÃO OS DOGMAS MARIANOS E COMO ELES
SE RELACIONAM ENTRE SI?
Os dogmas marianos são quatro ao todo. A história dos dogmas
marianos mostra que os dois primeiros (Maternidade e Virgindade) seguem
um modelo de desenvolvimento diferente dos dois últimos (Imaculada e
Assunção), como mostra o quadro comparativo a seguir:
MATERNIDADE E
VIRGINDADE IMACULADA E ASSUNÇÃO
Declarados no Oriente Declarados no Ocidente
Nos primeiros séculos Nos dois últimos séculos
Por decisão de concílios Por decisão de papas
Contra os hereges (dentro da Igreja) Contra ideias do tempo (fora da
Igreja)
Clara base na Bíblia Base na Tradição, só indireta na
Bíblia
Comuns às Igrejas cristãs em geral Dogmas exclusivos da Igreja Católica
Eles se articulam segundo a “conexão dos mistérios” (nexus
mysteriorum: DH1 3016). Estão organizados em duas duplas:
– 1ª dupla: Maternidade e Virgindade. É um mistério só, mas com
dois aspectos. A Maternidade é o dogma central; a Virgindade é um
aspecto que realça a Maternidade;
– 2ª a dupla: Imaculada (começo da vida de Maria) e Assunção (final
de sua vida). Esses dois dogmas, assim como a Virgindade, estão a
serviço da Maternidade: a Imaculada a prepara e a Assunção a coroa.2
III. ONDE SE FUNDAMENTAM OS DOGMAS MARIANOS?
Os dogmas estão fundamentados na Bíblia, lida, porém, de acordo com a
Tradição, como costuma fazer a exegese católica. Expliquemos:
1- Bíblia
A Bíblia contém materialmente toda a Revelação. Também os quatro
dogmas: os dois primeiros explicitamente ou quase; os dois últimos, só
implicitamente. Para explicitá-los, é necessária justamente a Tradição. Esta
não substitui a Bíblia, mas a esclarece e a interpreta, conferindo-lhe
“certeza” (cf. Dei Verbum 9).
2- Tradição
A tradição é a própria Bíblia enquanto lida piedosamente pela Igreja ao
longo dos séculos. Essa leitura viva não fica só na “letra”, mas chega ao
“espírito” da Palavra, capta seu sentido profundo e o torna pleno e claro.
Trata-se da grande Tradição (com T maiúsculo, a Parádosis), que é
imutável em sua substância, mas cresce em sua compreensão. É diferente
das “pequenas tradições” (com t minúsculo), que são mutáveis e superáveis.
A Tradição (Igreja compenetrando-se da Palavra de Deus) constitui o
“princípio formal” da Escritura – “formal” no sentido de interpretativo ou
explicitante. Isso significa que só a Tradição nos dá “certeza” dogmática em
relação às verdades da fé, no caso, referentes à Virgem. A sola Scriptura
dos Evangélicos é um princípio estreito, que leva frequentemente à idolatria
da Bíblia. Contra isso, deve-se dizer que a Esposa de Cristo é a Igreja, não a
Bíblia. Esta contém apenas as “cartas de amor” do Esposo. E mesmo essas
cartas não contêm todos os “segredos” do Esposo, pelo menos não
claramente.
A Tradição se transmite por vários canais, especialmente os seguintes:
a) “O senso dos fiéis” (sensus fidelium). É a intuição ou percepção que o
Povo de Deus (sempre com seus Pastores) tem acerca da verdade da fé. É
um “faro espiritual” ou “instinto de fé”. São as “razões do coração” que crê,
as quais valem de modo todo especial na mariologia, pois se trata de uma
figura queridíssima ao coração dos fiéis. Quando o Povo de Deus acredita
em alguma coisa “em muitos lugares, por muito tempo e através de muita
gente” (quod ubique, quod semper, quod ab omnibus), como dizia S.
Vicente Lerinense, ele não se engana. É a “infalibilidade in credendo” (no
crer), que complementa a “infalibilidade in docendo” (no ensinar), a qual é
da competência dos Pastores (Lumen Gentium [LG] 12). Ora, os dogmas
marianos apelam de modo decisivo, especialmente os dois últimos, para o
“senso dos fiéis”. Este se manifesta de muitas formas, especialmente por
meio destes três subcanais:
– o culto, seja ele litúrgico, seja da piedade popular;
– os Santos Padres, na qualidade de intérpretes do sentimento dos fiéis,
particularmente em suas homilias; e
– outras formas, como os apócrifos, as imagens e pinturas, os exemplos
dos santos, as aparições etc.
b) O magistério (concílios, papas e bispos). Além de “passar adiante” a
doutrina da fé, compete à instância da autoridade sagrada discernir as
“descobertas” mariológicas do povo fiel e aprovar as boas.
c) A teologia. Ela também desenvolve a Parádosis, mas agora de modo
metódico. Devemos reconhecer que a razão teológica teve, em geral, muita
dificuldade em aceitar os dogmas marianos. Não é de admirar, pois o Pai
ama esconder seus segredos aos “sábios e entendidos” e revelá-los aos
“pequeninos” (cf. Mt 11,25).3
IV. MARIA: MULHER MISTERIOSA
Os dogmas são “mistérios”, maravilhas, milagres – palavras que evocam
tudo o que Deus operou em Maria. As verdades dogmáticas são “abismos
de luz”. São como janelas que se abrem para o mistério infinito. Ficar no
texto dos dogmas, sem ver o que tem por baixo, é ficar examinando a janela
em vez de lançar o olhar ao panorama que dela se descortina.
Portanto, os dogmas nos fazem ver a face mais interna e mais profunda
da pessoa da Mãe de Deus. Mostram-na como uma “Mulher misteriosa”,
verdadeiramente “divina e maravilhosa”. Revelam como o próprio Deus vê
Maria, em toda a sua verdadeira grandeza. Os dogmas representam a
mariologia “esotérica”, aquela que nos faz contemplar a Virgem como que
tirando o véu e fazendo ver seu rosto de luz e de beleza. Os dogmas não são
para “principiantes”, mas para os “iniciados”. Eles evidenciam, na Toda-
bela, a que extremos chegou Deus em sua potência, amor e sabedoria. Por
isso suscitam a contemplação, a celebração e, enfim, o anúncio.
V. QUE SIGNIFICAM OS DOGMAS MARIANOS? 
FALAM FINALMENTE DO QUÊ?
Os dogmas marianos falam natural e diretamente de Maria: são
privilégios, graças muito especiais que ela recebeu de Deus. Mas não só
isso; eles falam também de Cristo: a Virgem recebeu essas graças, em
função de Cristo. Finalmente, os dogmas falam de nossa salvação:
representam tarefas que Maria assumiu em proveito de toda a humanidade.
Em outras palavras, os dogmas falam da Virgem para falar de Jesus e
também de nós. Assim, a verdade sobre Maria serve de “muro de proteção”
para as verdades referentes a Cristo e à nossa Salvação. Desse modo,
impugnar um dogma mariano é como derrubar esse muro e deixar a
doutrina de Cristo e de nossa salvação exposta a ataques e saques.
A seguir faremos a exposição de cada dogma, seguindo um esquema em
três partes: 1. dados da fé – o que devemos crer; 2. explicação do dogma –
o que ele significa, primeiro para Maria mesma e depois, para Cristo e 3.
finalmente, as aplicações do dogma – para nossa vida hoje.
MATERNIDADE DIVINA
I. DADOS DA FÉ
1- Bases bíblicas
a) Mãe de meu Senhor (Lc 1,43). “Senhor” é na Bíblia um nome divino:
é aplicado a Deus e ao Messias-Rei enquanto representante de Deus.
b) Ele será grande e será chamado Filho do Altíssimo (Lc 1,32). Maria,
portanto, éauxiliadora e adjutriz”.
Na sequência do n. 62, o Concílio ensina que a “única mediação” do
Redentor não é uma mediação fechada, mas aberta; não é exclusiva, mas
inclusiva: ela suscita cooperação. Usa para isso duas analogias ilustrativas:
1ª) só Deus é bom, mas ele faz as criaturas tomarem parte em sua bondade;
e 2ª) só Cristo é Sacerdote, mas ele faz os ministros e todo o povo de Deus
participarem de seu sacerdócio.
Por fim, o Magistério conciliar sublinha mais uma vez que a mediação
de Maria não aparece como algo de interposto entre nós e Cristo, como se a
Virgem fosse uma intermediária. Não, ela cumpre uma mediação que, de
certa forma, “imediatiza” nossa relação com o Mediador de modo que: “…
os fiéis, encorajados por esta maternal proteção, mais intimamente adiram
ao Mediador…”. De resto, o Concílio já havia declarado no número anterior
que a “missão materna de Maria… favorece a união imediata com Cristo”.
Diríamos, pois, que ela não está entre nós e Cristo, mas como que ao nosso
lado, para nos levar diretamente a Ele. Maria pode, assim, ser vista como o
caminho mais direto, curto e rápido para Cristo.
Tudo isso pode ser visualizado no esquema seguinte:
Que vemos aí? Vemos, por um lado, o lugar da mediação de Maria em
relação à única mediação de Jesus e, por outro, a relação entre a mediação
de Maria (via intercessão) e a mediação da Igreja (via pregação e
sacramentos). Note-se que tanto Maria como a Igreja refletem a dimensão
feminino-materna da mediação de Cristo, a primeira na glória e a segunda
na história. O essencial é perceber que ambas representam alargamentos ou
extensões da única mediação de Cristo.
III. CONCLUSÃO
A ideia da mediação de Maria é bíblica. Toda a vida da SS. Virgem foi
mediação para Deus. Por Ela Deus entrou no mundo, como se vê bem na
Anunciação. Por Ela Cristo inaugurou sua vida pública em Caná e continua
até hoje a revelar sua glória, sobretudo aos pequeninos, despertando assim a
fé em sua pessoa divina.
Que essa convicção religiosa, tão sentida pelo povo de Deus, seja ou não
declarada dogma não é questão de verdade, mas apenas de oportunidade.
1 DH = Denzinger-Hünermann, São Paulo: Paulinas/Loyola, 2007. Trata-se de uma coleção
clássica de documentos do Magistério, que os expõe em ordem cronológica. Existe agora,
em português, uma coleção semelhante, que segue, porém, a ordem temática:
COLLANTES, J. (org.). A fé católica: documentos do magistério da Igreja. Anápolis/Rio
de Janeiro: Lumen Christi, 2003; há aí uma lista de correspondências com DH.
2 Para a história dos dogmas marianos, cf. SÖLL, G. Storia dei dogmi mariani. Roma:
LSA, 1981; talvez o melhor trabalho no gênero.
3 Para uma visão mais aprofundada dos dogmas marianos, cf. TEMPO-RELLI, C. Maria,
mulher de Deus e dos pobres: releitura dos dogmas marianos. São Paulo: Paulus, 2010, p.
263. Pode-se encontrar uma explanação dos quatro dogmas em qualquer tratado
sistemático de mariologia, como: BOFF, L. O rosto materno de Deus. Petrópolis: Vozes,
1979; FORTE, B. Maria, a mulher ícone do mistério. São Paulo: Paulinas, 1991;
GEBARA I. e BINGEMER, M. C. Maria, mãe de Deus e mãe dos pobres. Petrópolis:
Vozes, 1987; MURAD, A. Maria, toda de Deus e tão humana. Valência/São Paulo:
Siquem/Paulinas, 2004.
4 Para localizar as citações que aqui fazemos dos Padres da Igreja, cf. os manuais clássicos
de teologia dogmática, como os de L. OTT, TANQUEREY ou BART-MANN, inclusive os
modernos, como o de J.-C. R. GARCÍA PAREDES, Mariología (“BAC manuales”, 1995),
e também os dicionários teológicos (os verbetes relativos aos quatro dogmas marianos), em
particular DE FIORES, S.; MEO, S., (dir.). Dicionário de mariologia. São Paulo: Paulus,
1995.
5 Cf. LUTERO, M. O louvor de Maria (O Magníficat). São Leopoldo: Sinodal, 1999, p.
60.
6 Sermão 25,7-8, reportado no Ofício divino, leitura da festa “Apresentação de N. Senhora”
de 21 de novembro, e citado em CNBB, Com Maria rumo ao novo milênio. São Paulo:
Paulinas, 1998, p. 92.
7 A versão portuguesa em uso tem a tradução fraca: “E permanecendo virgem”.
8 Cf. Protoevangelho de Tiago, XX,1-4, publicado sob o título História do nascimento de
Maria. Petrópolis: Vozes, 1988.
9 Quadrinha que teve o condão de “convencer” finalmente o comandante Rolim, fundador
da TAM, acerca da virgindade de Maria, como conta na revista de bordo da companhia:
Classe, n. 77, 1999, p. 5.
10 Cf. por exemplo BOFF, L., O rosto materno de Deus, op. cit., p. 160.
11 Para toda a questão da virgindade de Maria, particularmente in partu, cf. PERRELLA, S.
(OSM). Maria, vergine e madre. Milão: San Paolo, 2004, para o qual escrevi um posfácio.
12 Pio IX, em 1857, achando-se em Ímola, onde fora bispo, revelou, por solicitação da
Superiora do orfanato que ele mesmo fundara, as impressões que sentiu no momento
solene em que pronunciou a fórmula dogmática: “Quando comecei a publicar o decreto
dogmático, sentia minha voz impotente para se fazer ouvir pela imensa multidão (50 mil
pessoas) que se apinhava na Basílica Vaticana. Mas, quando cheguei à fórmula da
definição, Deus deu à voz de Seu Vigário tal força e tal vigor sobrenatural, que fez ressoar
toda a Basílica. E eu fiquei tão impressionado por tal socorro divino que fui obrigado a
suspender, por um instante, a palavra para dar livre desafogo às minhas lágrimas. Além
disso, enquanto Deus proclamava o dogma pela boca de Seu Vigário, ele mesmo deu a meu
espírito um conhecimento tão claro e tão grande da incomparável pureza da SS. Virgem
que, abismado na profundidade desse conhecimento, o qual linguagem alguma poderia
descrever, minha alma ficou inundada de delícias inenarráveis, delícias que não são
terrenas e que não se poderiam provar senão no céu. Nenhuma prosperidade, nenhuma
alegria deste mundo poderia dar daquelas delícias a menor ideia. E não temo em afirmar
que o Vigário de Cristo precisou de uma graça especial para não morrer de doçura, sob a
impressão de tal conhecimento e de tal sentimento da beleza incomparável de Maria
Imaculada. Tu, minha caríssima filha, foste felicíssima no dia de tua primeira comunhão e
mais ainda no dia de tua profissão religiosa. Eu mesmo conheci o que significa ser feliz no
dia da ordenação sacerdotal. Ora bem, reúne todas essas felicidades, com outras ainda,
multiplica-as sem medida para fazer todas juntas uma só felicidade, e tu terás, assim, uma
pequena ideia do que provou o Papa no dia 8 de dezembro de 1854”: ap. BERTETTO, D. Il
Papa dell’Immacolata Pio IX. Brescia: Civiltà, 1972, p. 63-65.
13 Nesse sentido preciso, cf. o eruditíssimo trabalho de SERRA (OSM), A. “Una spada
trafiggerà la tua vita”. Quale spada? Bibbia e tradizione giudacio-cristiana a confronto.
Palazzago (BG)/Roma: Servitium/Marianum, 2003.
14 Veja também Catecismo da Igreja Católica, n. 966. Conta-se que, na hora da definição
dogmática, o Céu quis dar um sinal de aprovação: a celebração solene na Praça de São
Pedro, que se abrira com o céu fechado, no momento da proclamação dogmática foi
subitamente iluminada pelo sol em todo o seu esplendor.
15 Sobre esse teólogo, D. Moacyr Grechi, Servo de Maria e atual arcebispo de Porto Velho
fez em 1961 um trabalho monográfico no “Marianum” de Roma.
16 A Editora Vozes publicou esse apócrifo sob o título: Morte e assunção de Maria,
Petrópolis, 1991.
17 C. Balic’ recolheu, do início até o Concílio de Trento, nada menos que 145 testemunhas
“assuncionistas”.
18 O melhor estudo histórico-doutrinal sobre a Assunção é de JUGIE, M. La mort et
l’Assomption de la Sainte Vierge. Cidade do Vaticano, 1944.
19 Os textos de Mateus 2,11 (Magos) e de Lucas 1,32-33 (Visitação) fazem alusões a Maria
como Rainha-mãe (Ghebirah).
20 Cf. tese de doutorado de BÜREN, F. J. P. van. La tierra en el cielo. Roma: Gregoriana,
2004.
21 Em uma das catequeses de quarta-feira, João Paulo II mostrou-se inclinado para a tese
mortalista.
22 A Comissão Teológica Internacional no documento A esperança cristã na Ressurreição,
de 1990, Vozes, 1994 se opõe à escatologia da “morte total” seguida da “ressurreição
imediata”, e repropõe a ideia do tempointermédio entre o pós-morte e o fim dos tempos.
23 Cf. BOFF, C. Mariologia social. São Paulo: Paulus, 2006, p. 523-545
24 Cf. nesse sentido a tese de doutorado, de 1983, na Gregoriana, de PIZZARELLI, A. La
presenza di Maria…, Cinisello Balsamo, 1990.
25 Cf. JUNG, C. G. Resposta a Jó, in Obras completas. Petrópolis: Vozes, 1979. vol. XI/4,
p. 103-112.
26 Cf. para uma síntese com bibliografia: MEO, S. Mediadora in MEO, S. e DE FIORES,
S. (dir.), Dicionário de mariologia, op. cit., p. 865-876. Retomamos aqui parte do que
escrevemos em Introdução à mariologia. Petrópolis: Vozes, 2004, p. 105-110 e p. 123-125.
27 Cf. Newsweek de 25 de agosto de 1997 (com a imagem da Virgem na capa), p. 41- 47.
Mais informações em Il Regno, nº 16 (15 set. 1997), p. 469.
28 Cf. Il Regno, nº 17 (1º out. 1997), p. 530-533.
10-08255
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Capa: Rui Cardoso Joazeiro
Edição digital: agosto 2012
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) 
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Boff, Clodovis M.
Dogmas marianos: síntese catequético-pastoral / Clodovis M. Boff. 
São Paulo: Editora Ave-Maria, 2010. 520kb; epub
ISBN 978-85-276-1370-5
1. Cristianismo 2. Espiritualidade 3. Fé 4. Maria, Virgem, Santa - Teologia 5.
Religiosidade I. Título.
CDD-232.91
Índices para catálogo sistemático:
1. Dogmas marianos: Teologia dogmática cristã 232.91
2. Mariologia: Teologia dogmática cristã 232.91
Diretor Geral: Marcos Antônio Mendes, CMF
Vice-Diretor: Oswair Chiozini, CMF
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	Como interpretar os dogmas marianos
	Maternidade divina
	Virgindade perpétua de Maria
	Imaculada Conceição
	Assunção de Maria ao céu em corpo e alma
	A mediação de Maria: o quinto dogma?
	Notas
	Créditosa Mãe do Filho de Deus.
c) Eis que uma Virgem conceberá e dará à luz um filho, que se chamará
Emanuel, que significa: Deus-conosco (Mt 1,23 e Is 7,14).
Note-se que o NT usa em geral a expressão “Mãe de Jesus” para falar de
Maria. Sabemos, porém, que Jesus é Deus. Logo, Maria é Mãe de Deus.
2- Magistério
O Concílio de Éfeso (431) declarou que Maria é “Mãe de Deus”
(Theotókos, Dei Genitrix, Deipara); porém, “segundo a carne” assumida
pelo Verbo. Trata-se, contudo, de uma declaração indireta, já que o Concílio
retoma, aprovando claramente, uma carta (a segunda) de S. Cirilo a
Nestório, na qual diz: “Eles (os Santos Padres) não duvidaram em chamar a
Santa Virgem de Theotókos… porque nasceu d’Ela o Verbo… segundo a
carne” (DH 251).
Já em outra carta de Cirilo a Nestório, que não se sabe bem se o Concílio
aprovou ou não, temos o seguinte anatematismo (condenação), que,
contudo, vai na linha da carta anterior: “Se alguém não confessa que o
Emanuel é Deus no verdadeiro sentido da Palavra, e que, por isso, a Santa
Virgem é Theotókos porque gerou, segundo a carne, o Verbo que é de Deus,
seja condenado” (DH 252).
É que o patriarca da Constantinopla Nestório só aceitava o título “Mãe
de Cristo” (Christotókos) ou o de “Portadora de Deus” (Theotochos).
O título Theotókos foi confirmado como “verdadeiro” pelos Concílios
ecumênicos subsequentes: Calcedônia em 451 (DH 300-301),
Constantinopla II em 553 (DH 427) e Constantinopla III em 681 (DH 555).
Veja também o Catecismo da Igreja Católica, n. 495, 466-467 (Mãe de
Deus); e n. 967-970 (Mãe dos fiéis).
3- Senso dos fiéis
Nos primeiros séculos, o termo Theotókos era usado pelos pagãos para
deusas-mães como Cibele, Astarté, Ishtar e especialmente a grande deusa
egípcia Ísis, “mãe do deus” Hórus, muito cultuada na Antiguidade. O povo
cristão assumiu Theotókos, e aplicou-o àquela que é a verdadeira “Mãe de
Deus”: Maria. Esse nome já se encontra na prece de súplica mais antiga
(entre o século III e IV) dirigida a Maria, o Sub tuum praesidium: “À vossa
proteção recorremos, Santa Mãe de Deus” (cf. LG 66 e nota 21). O grande
Orígenes ( † ca. 253) já tinha aplicado esse apelativo à Virgem, não sem
levantar polêmicas dentro da Igreja.
Hoje, o título “Mãe de Deus” é familiar ao povo fiel. Está na segunda
parte da Ave-Maria: “Santa Maria, Mãe de Deus”. Ademais, a imagem
mariana mais popular é a da “Mãe com o Menino”. Assim aparece a Virgem
nas catacumbas desde o século II. Assim também a pintam frequentemente
os artistas cristãos, intérpretes do sentimento popular.
II. EXPLICAÇÃO DA MATERNIDADE DIVINA DE MARIA
1- Como Maria pode ser Mãe de Deus se Deus é eterno?
Era a objeção dos nestorianos. Nessa linha, o grande teólogo Teodoro de
Mopsuéstia († 427) declarava a própria noção de Theotókos uma “loucura”.
Contudo, o Concílio de Éfeso e os seguintes explicaram que Maria é
verdadeiramente Mãe de Deus, mas “segundo a carne”, ou seja, segundo a
humanidade de Jesus. Pois Jesus é uma pessoa, e ser mãe é ser mãe de uma
pessoa, que, no caso, é Deus. É justamente como uma relação de pessoa a
pessoa que o Vaticano II coloca na Lumen Gentium a maternidade da
Virgem (LG 56-59).
Os Santos Padres, como Sto. Atanásio, Sto. Inácio de Antioquia e Sto.
Irineu, fazem notar que as Escrituras (Lc 1,35; Gl 4,4) e os Credos
professam que Jesus nasceu de Maria e não em Maria ou por Maria, como
diziam alguns heréticos de ontem (gnósticos) e “crentes” de hoje. Para os
Padres da Igreja, Maria é a origem de Cristo e não mero lugar. É fonte da
água salvadora (cf. Jo 4), e não simples aqueduto pelo qual teria passado o
corpo do Verbo, como dizia Valentino († 160), o chefe dos gnósticos.4
De fato, assim como se diz que Deus (Cristo) sofreu e morreu, também
se pode dizer que ele teve uma mãe. Igualmente, não são simplesmente as
mãos do artista que tocam guitarra, mas sua pessoa, fazendo naturalmente
uso das mãos.
2- Dignidade quase infinita de Maria por ser Mãe de Deus
É o que afirma S. Tomás de Aquino. O Beato Duns Scotus, “doutor
mariano”, declara que, depois de “Filho de Deus”, o título mais elevado é o
de “Mãe de Deus”. Ela é a “Primeira depois do Único” (Y. Congar). É a
“infinitamente única” (Ch. Péguy). Além disso, como enfatiza Sto.
Agostinho, os dois sexos ficam honrados no plano de Deus: um pelo “Filho
de Deus” e outro pela “Mãe de Deus”.
É bom saber que os grandes reformadores, como Lutero, Calvino e
Zwínglio, admitiam o título “Mãe de Deus”. A propósito, eis o que diz
belamente Lutero:
Foram dadas a Maria tantas e tão grandes coisas que ninguém as
pode compreender… Por essa razão, ela é uma pessoa especial dentre
todo o gênero humano. Ninguém se iguala a ela, porque ela tem um
Filho com o Pai celeste. E que Filho! […] Por isso, toda a glória de
Maria está encerrada nesta única palavra: “Mãe de Deus”. Ninguém
pode dizer algo de maior sobre Ela, ainda que tivesse tantas línguas
como há folhas nas árvores, hastes de grama nos campos, estrelas no céu
ou grãos de areia no mar. É preciso meditar no coração sobre o que
significa ser Mãe de Deus5.
3- A maternidade de Maria foi plenamente consciente e voluntária
A gravidez de Maria não foi de modo algum uma “gravidez indesejada”.
Isso se vê bem na Anunciação de Lucas, que mostra a Virgem como uma
mulher consciente, livre e decidida (fiat). Diz o Vaticano II: “Os Santos
Padres julgam que Deus não se serviu de Maria como de instrumento
meramente passivo, mas julgam-na cooperando para a salvação humana
com livre fé e obediência” (LG 56).
Jesus mesmo ensina que “mãe” para Ele era quem ouvia sua palavra e a
punha em prática (cf. Lc 8,21; 11,27-28). Aos seus olhos, era o que mais
contava. Ora, Maria foi mãe também e sobretudo por sua fé. Por isso, os
Santos Padres latinos, como Sto. Agostinho e S. Leão Magno, enfatizavam
que Maria “concebeu antes na mente e depois no ventre”. O Doutor de
Hipona chega a dizer: “Maria é mais feliz por ter sido discípula do Senhor
do que mãe carnal do Senhor”6.
Ademais, se é verdade que “mãe é sempre mãe”, a maternidade de Maria
cobre toda a sua vida, da concepção ao Calvário, estendendo-se à sua
existência no céu e prolongando-se até o fim dos tempos. “Esta
maternidade… perdura ininterruptamente… até a perpétua consumação dos
eleitos” (LG 62). Poderíamos acrescentar: e continuará eternidade afora,
pois – repetimos – mãe é mãe para sempre.
4- A Theotókos está a serviço de Cristo e de nossa Salvação
Confessar que Maria é Mãe de Deus é afirmar o realismo do mistério da
Encarnação do Verbo: Jesus é verdadeiro homem, podendo sofrer e assim
nos salvar. Esse dogma tem, pois, valor cristológico. Além disso, tem uma
dimensão soteriológica: é para nossa salvação. Diz nesse sentido S. Paulo:
Deus mandou seu Filho, feito de mulher… para que nós recebêssemos a
adoção filial (primeira evocação histórica de Maria no NT e a única em S.
Paulo).
Por conseguinte, dizer “Maria” é dizer “Cristo” e é finalmente dizer
nossa salvação. Assim, Ela contém em pequeno o mistério da salvação por
inteiro. Por isso, S. João Damasceno diz: “A palavra Theotókos contém toda
a economia (salvífica)”. S. Leão Magno é mais explícito: a fé em Maria
“virgem-mãe” é como o resumo de toda a doutrina cristã. De fato, dizer
“mãe” é afirmar a humanidade de Cristo e dizer “virgem” é afirmar a sua
divindade. E nisso se concentra todo o Catecismo.
5- Maria, Mãe dos fiéis
Por mandato de seu Filho unigênito, Maria tornou-se aos pés da cruz
mãe dos discípulos na pessoa de João, o discípulo (Jo 19,25-28). O “senso
dos fiéis” percebeu cedo essa verdade, enquanto os teólogos começaram a
refletir sobre ela bastante tarde, isto é, apenas a partir do século VIII, com
Ambrósio Autperto.
Maria é nossa mãe precisamente porque é mãe de Cristo. Quer dizer: é a
maternidade divina que é a base da Maternidade espiritual de Maria. Santo
Agostinho declara que, se Maria é mãe da Cabeça, ela é também mãe dos
membros. Ela é, portanto, mãe do “Cristo total” (cf. LG 53).
6- Maternidade divina de Maria: razão de seu poder de mediação
Porque mãe, Maria é medianeira.Pois, pelo fato de Ela ter sido
mediadora da encarnação, isto é, porque teve a “participação mais alta e
mais real na humanidade de Cristo” (A. Müller), Ela pode ser hoje a nossa
medianeira junto a Deus.
Ela goza, junto ao único Mediador, de um verdadeiro “direito materno”
(cf. LG 60-62; Redemptoris Mater, II e III). Com razão sentencia o povo:
“Peça à mãe, que o Filho atende”. Todavia, o poder da Virgem diante de
Deus é um poder de ordem moral, como o da rainha-mãe junto ao trono do
rei. É um “direito de impetrar, não de imperar” (Duns Scotus). Ela não é a
onipotência criadora e salvadora, mas a “onipotência suplicante”.
Lutero aceitava para Maria o título de “intercessora”, por ser um título
de humildade, mas não o de “advogada” e menos ainda o de “mediadora”,
que seriam, ao seu ver, por demais presunçosos, aplicados a Ela.
III. APLICAÇÕES DO DOGMA DA MATERNIDADE DIVINA
1- Primeiro, a doxologia: louvação a Deus pelas coisas maravilhosas que
operou em Maria, especialmente a Encarnação – tudo em vista da nossa
salvação. E também confiança na poderosíssima mediação da Mãe de Cristo
junto ao seu Filho divino.
2- Depois, a imitação: somos, como Maria, chamados a encarnar a
Palavra, também no concreto do dia a dia e na vida em sociedade (trabalho,
escola, política, mercado, mídia etc.). Como “mulher da encarnação”, a
figura de Maria afasta a ideia de uma religião intelectualista e alienada.
Referindo-se à maternidade da Virgem, ensina Puebla: “Sem Maria
desencarna-se o Evangelho, desfigura-se e transforma-se em ideologia, em
racionalismo espiritualista” (n. 301).
3- Maria é também o protótipo de nossa maternidade espiritual, a se
realizar mediante o compromisso de fé. Cada um pode ser “mãe de Cristo”
crendo na Palavra e praticando-a, como ensina Jesus (Lc 8,21). Assim, cada
um pode “conceber” Cristo em seu coração pela fé e “gerá-lo” por meio do
próprio testemunho de vida.
4- Os agentes pastorais, em particular, podem olhar para Maria como
exemplo de uma outra dimensão da maternidade espiritual, aquela que se dá
mediante o trabalho pastoral. Como? Gerando Cristo vivo nos corações dos
outros, pelo anúncio da Palavra e pela administração da graça sacramental,
e, antes ainda, pelo próprio testemunho de vida (cf. LG 65).
5- Para as mães, em especial, Maria ensina a superar uma maternidade
meramente biológica (carnal), fechada sobre o próprio filho ou filha, para
elevar-se a uma maternidade mais alta: a maternidade espiritual
(comunicando a fé e a graça), a maternidade moral (transmitindo valores) e
mesmo a maternidade comunitária (abrindo-se aos filhos dos outros), como
Maria fez, assumindo todos os humanos como seus filhos.
VIRGINDADE PERPÉTUA DE MARIA
I. DADOS DA FÉ
1- Bases bíblicas
Que a Virgem tenha sido mesmo virgem, este é um dado claramente
atestado no NT. E ele veicula duas tradições autônomas a respeito da
virgindade de Maria, uma reforçando a outra:
a) A tradição de Mateus 1,18-25, com nada menos que quatro
referências à virgindade da Mãe de Jesus:
– Antes de coabitarem, aconteceu que Ela concebeu por virtude do
Espírito Santo (v. 18);
– O que n’Ela foi concebido vem do Espírito Santo (v. 20);
– Eis que uma Virgem conceberá e dará à luz um filho… (v. 23);
– E, sem que José a tivesse conhecido, ela deu à luz o seu filho (v. 25).
b) A tradição de Lucas 1,34-35: Como se fará isso, pois não conheço
homem? O Espírito Santo descerá sobre ti… Por isso, o ente santo que
nascer de ti será chamado Filho de Deus. A Bíblia usa conhecer para “ter
relações”. Ora, Maria aqui diz que não as teve.
2- Magistério
a) Professa o Credo apostólico: “Nasceu da Virgem Maria”. E também o
Credo Niceno-Constantinopolitano: “E se encarnou pelo Espírito Santo no
seio da Virgem Maria”. Lá onde a tradução diz simplesmente “Virgem
Maria”, a versão original grega dos dois credos diz de modo mais
expressivo: “Maria, a Virgem” – a Virgem por excelência.
b) O Concílio de Constantinopla II (553) fala na “sempre-virgem (aei-
parthenos) Maria” (DH 427).
c) Já o Sínodo de Latrão (649), regional mas de valor universal, faz da
virgindade perpétua de Maria um autêntico dogma:
Se alguém não professa, segundo os Padres, que Maria, a sempre
Virgem imaculada, é própria e verdadeiramente Mãe de Deus, já que
Ela, nos últimos tempos, própria e verdadeiramente concebeu sem
sêmen por obra do Espírito Santo, deu à luz… o Deus Verbo e
permaneceu inviolada também depois do parto, seja condenado (DH
503).
d) Ensina a Constituição do Papa Paulo IV de 1555, confirmada por dois
outros papas, que Maria é virgem “antes do parto, no parto e depois do
parto” (DH 1880). É uma expressão lapidar, que retoma didaticamente o
que disse o Sínodo de Latrão e que se tornou corrente na catequese.
e) Veja ainda para este tema: Catecismo da Igreja Católica, n. 496-507.
3- Senso dos fiéis
A grande Tradição (Parádosis) da Igreja é unânime em afirmar a
virgindade perpétua da Mãe de Jesus, não só na palavra dos Santos Padres e
pela liturgia (como veremos mais à frente), mas sobretudo por meio do
“senso dos fiéis”. Deste último, eis algumas ilustrações, tiradas dos Santos
Padres:
a) “Os amantes de Cristo não suportam ouvir dizer que a Theotókos
deixou um dia de ser virgem” (S. Basílio).
b) “Afirmar que Maria deixou de ser virgem é um crime abominável e
uma blasfêmia” (Sto. Ambrósio).
c) “Não dá para pensar, em absoluto, que… naquela carne em que
nasceu a Verdade possa perecer a integridade” (virginal) (Sto. Agostinho).
d) “Aos corações dos fiéis repugna submeter Maria à maldição de Eva”
(Pascásio Radberto, século IX, referindo-se ao “parto entre dores” de Gn
3,16).
A expressão “a Virgem” tornou-se cedo (desde o século II) o nome
próprio de Maria, como foi o caso da designação “Cristo” para Jesus. Os
Santos Padres usam “Virgem” três vezes mais do que “Mãe de Deus”
(3.567 contra 1.009). Refere Sto. Epifânio: “Quem, por acaso, e quando
ousou pronunciar o nome de Maria sem acrescentar de imediato ‘a Virgem’,
quando interrogado?”. Aliás, até hoje, “a Virgem” é o nome que o povo
mais usa para se referir a Maria. Tornou-se até uma exclamação corrente:
Virgem Maria, Virgem, Vixe, Ixe.
Note-se que sempre houve na história contestações contra a virgindade
de Maria, como veremos melhor logo adiante. Mas a elas a grande Igreja
nunca cedeu. Guardou a fé da grande tradição, convencida de que a
virgindade de Maria pertence à esfera do mistério e do milagre. Essa é uma
área da exclusiva competência de Deus, como explica o Anjo à perplexa
Nazarena: A Deus nenhuma coisa é impossível (Lc 1,37).
Por sua parte, os grandes reformadores Lutero, Calvino e Zwínglio
nunca duvidaram da virgindade perpétua de Maria. Infelizmente, a maioria
dos evangélicos acabou, com o tempo, perdendo essa herança preciosa.
Mesmo para o Islã, Maria é sempre virgem, como se vê no Corão
(19,20; 21,91; 66,12). Para o livro santo dos muçulmanos, os judeus,
negando a virgindade de Maria, nada mais fazem que levantar contra Ela
uma “calúnia enorme” (4,155).
II. EXPLICAÇÃO TEOLÓGICA DA VIRGINDADE DE
MARIA
1- A virgindade implica:
a) em primeiro lugar, a “virgindade do corpo”: é a normal integridade
física. Para os Padres da Igreja, a virgindade de Maria compreendia sua
integridade biológica, sem, contudo, se reduzir a ela;
b) depois, a “virgindade dos sentidos”: é a não experiência de relação
sexual;
c) enfim, a “virgindade do coração”: é a entrega total e perpétua a Cristo
e a seu Reino. Essa é a essência da virgindade, que Maria realizou de forma
insuperável.
Portanto, a virgindade de Maria não é mera virgindade simbólica ou
metafórica, como pensam alguns antropólogos (por exemplo, J. Campbell)
e muitos “modernos”. Não; os fatos da revelação são sempre muito
“encarnados”, corpóreos e mesmo viscerais, embora sempre a serviço do
Espírito.
2- A virgindade de Maria é integral, não só no sentido da real entrega de
corpo e alma a Deus, mas também no sentido de uma entrega perpétua. Em
outras palavras, a Santíssima Virgem não foi só toda de Deus, mas foi
também sempre de Deus.Portanto, a sua prestação não foi passageira, mas
permanente e total, sem resto algum. Maria é a “virgem absoluta” (S.
Tomás).
Por isso mesmo, Maria se sentiu tão plenificada por Cristo, o
consumador de tudo, que não podia conceber “outro filho”. O amor ao seu
Filho único respondia totalmente às suas expectativas de mulher (A. Serra).
Depois que foi invadida e possuída totalmente pelo Espírito de Deus, Ela
não podia pertencer mais a homem nenhum. Por isso afirmava Orígenes: “A
dignidade de Maria exige que aquele corpo, destinado a servir ao Verbo e
sobre o qual descera o Espírito Santo… não conhecesse relação sexual com
homem nenhum”.
É isso que faz de Maria “a virgem” por antonomásia, ou a “sempre-
virgem” (aeiparthenos), ou ainda a “virgem perpétua”. Na iconografia
oriental, a figura da Theotókos traz em geral no véu três estrelas,
simbolizando justamente sua tríplice virgindade.
3- A reflexão teológica cedo especificou os três momentos do
mistério/milagre da virgindade perpétua de Maria: antes do parto, no parto e
depois do parto. Isso já nos inícios do século IV, com S. Zeno de Verona, S.
Pedro Crisólogo e Sto. Agostinho. Expliquemos isso:
a) Antes do parto. É um dado incontestável do NT. Mas sempre houve
gente que negou a virgindade de Maria até mesmo na concepção de Cristo
(Jesus seria filho de José ou de outro), e isso fora da Igreja cristã e também
dentro dela:
– fora da Igreja: o filósofo pagão Celso, Juliano Apóstata, os judeus,
propagando a lenda negra da “origem ilegítima” de Jesus, assim como os
racionalistas de hoje;
– dentro da Igreja cristã: os ebionitas, alguns gnósticos tais como
Carpócrates e Cerinto, bem como vários exegetas atuais, que tratam a
virgindade de Maria como mito, lenda ou mero símbolo. É preciso, porém,
dizer que essas posições críticas, na verdade heréticas, são coisa de
minorias, das quais o povo fiel sempre tomou distância e que o Magistério
da Igreja reprovou terminantemente.
b) Depois do parto. À semelhança dos “crentes” de hoje, já no século IV
houve quem afirmasse que Maria teria tido outros filhos, apelando para a
expressão do NT “irmãos de Jesus”. É o caso dos antidicomarianitas
(contrários à integridade virginal de Maria), do ariano Eunômio, do bispo
Bonoso e especialmente do leigo Helvídio, este brilhantemente refutado por
S. Jerônimo. A tradição da Igreja explicou os “irmãos de Jesus” de duas
maneiras:
– seriam os filhos de José de um primeiro casamento, como consta de
alguns apócrifos. Tal é a explicação mais aceita ainda hoje pelas Igrejas
grega e síria;
– seriam os parentes próximos de Jesus. Disso há várias provas:
(1) É o modo bíblico de falar. Por exemplo, os primos Abraão e Lot se
chamam entre si de “irmãos” (Gn 13,8); (2) Tiago e José, chamados em
Marcos 6,3 “irmãos de Jesus”, são em verdade filhos de outra Maria, como
se sabe lendo, mais adiante, Marcos 15,47 e 16,1; e (3) Jesus moribundo
não teria confiado sua Mãe ao Discípulo amado caso tivesse tido outros
irmãos carnais, como já observara Orígenes.
c) No parto. Este é o ponto mais delicado. O parto virginal, como a
concepção virginal, só se explica porque a Deus nenhuma coisa é
impossível (Lc 1,37). Diz Sto. Agostinho: “Nessas coisas, a razão do fato
está na onipotência de quem o fez”. S. Tomás afirma, sem hesitação, que o
parto de Maria foi “totalmente miraculoso”. Nesse ponto particular, a
Parádosis da Igreja mostra uma convergência deveras impressionante:
– Primeiro, na liturgia. O mais antigo prefácio mariano, que remonta ao
século VIII e é fixado em 1095, reza: “E conservando a glória de sua
virgindade, Maria deu ao mundo a Luz eterna…”.7 A oração da missa de 19
de dezembro diz: “Ó Deus, que revelastes ao mundo o esplendor de vossa
glória pelo parto virginal de Maria…”. Ademais, como fez notar Sto.
Ambrósio, o Credo apostólico declara expressamente: “Nasceu da Virgem
Maria”, e não apenas “foi concebido da Virgem Maria”.
– Depois, nos Padres. Sto. Inácio de Antioquia fala do parto da Virgem
como um “mistério clamoroso” (“parto admirável”, diz Pio XII na Mystici
Corporis). Há nesse ponto, entre os Padres, imensa unanimidade, com
somente duas exceções (na verdade uma e meia): apenas Tertuliano e
Orígenes, e este só em parte, dizem que o parto da Mãe de Jesus foi natural,
não miraculoso. No século IV, um monge, Joviniano, afirmava que Maria
“concebeu virgem, mas não gerou virgem”. Foi, porém, rebatido por
gigantes como Ambrósio, Jerônimo e Agostinho.
– Também no Magistério. Já vimos acima as afirmações magisteriais em
favor da virgindade em geral, incluindo in partu.
Quanto a esse ponto particular, eis a formulação discreta do Vaticano II:
nascendo de Maria, Cristo “não lhe violou, mas consagrou a integridade
virginal” (LG 57).
– Enfim, no senso dos fiéis. Bastam aqui duas ilustrações interessantes.
Vários apócrifos atestam a virgindade no parto, como a Ascensão de Isaías
(n. XI), as Odes de Salomão (n. XIX) e especialmente o Protoevangelho
segundo Tiago (n. XIX-XX). Este último registra que havia na comunidade
um falatório sobre se Maria, depois de ter gerado Jesus, tinha ou não
continuado virgem. Descreve então, segundo um realismo bem popular, a
“prova ginecológica” do toque a que a Santa Virgem foi temerariamente
submetida e da qual saiu vitoriosa.8 Há uma quadrinha popular que remonta
à Idade Média e que se espalhou pelos quatro cantos da cristandade. Ela
reza, na versão portuguesa:
No seio da Virgem mãe
Encarnou divina graça:
Entrou e saiu por ela
Como o sol pela vidraça9.
Perguntemos agora qual é o sentido teológico da virgindade “no parto”.
É, em verdade, um sentido riquíssimo e belíssimo:
Primeiro, é um “parto divino”, isto é, digno de Deus ou conveniente à
dignidade do Verbo (Papa Hormisdas, Sto. Ambrósio, S. Tomás etc.). O
corpo da Virgem foi comparado por Sto. Ambrósio e S. Jerônimo à
“Porta oriental” do novo templo descrito por Ezequiel (44,2), porta que
ficaria sempre fechada e só se abriria à passagem do “Príncipe do Povo”.
O corpo da Virgem é também visto como o jardim fechado, a fonte
selada, só acessível ao Amado, Deus (Ct 4,12).
Segundo, é um “parto paradisíaco”, como teria sido o de Eva, antes
do pecado. A Imaculada não foi submetida à maldição do “parto com
dores”, fruto do pecado (Gn 3,16).
Terceiro, é enfim um “parto messiânico”, como o da Jerusalém do
fim dos tempos, a qual antes de sentir as dores, deu à luz um filho (Is
66,7), segundo Sto. Irineu e S. João Damasceno. Como os milagres em
geral, esse também é a antecipação da plenitude da redenção no “mundo
novo”, onde “o parto se dá na alegria, sem dor” (S. Gregório de Nissa).
A tanto chegou a potência do Redentor na “primeira dos redimidos”!
Note, contudo, que há hoje teólogos (A. Mitterer, J. Galot, D. Fernández,
L. Boff etc.) que interpretam a virgindade no parto de modo simbólico, isto
é, não como “integridade fisiológica” (Maria teria tido um parto normal,
com dor), mas apenas como “integração espiritual”, pois ela teria integrado
plenamente na fé os incômodos da gravidez e as dores do parto.10
Entretanto, essa posição, embora não desaprovada formalmente pela
Igreja, atrita claramente com o sentido realista que a grande tradição deu à
virgindade in partu, apesar de certo matiz “encratista” ou antissexo que se
insinuou em vastos setores da cristandade quanto à compreensão da
virgindade.11
III. APLICAÇÕES DO DOGMA DA VIRGINIDADE DE
MARIA
1- Virgindade de Maria: sinal da identidade de Jesus como o
Messias divino
A fé na Virgindade de Maria garante a fé na divindade de Jesus
(enquanto a Maternidade garante a fé na humanidade de Cristo). Em termos
existenciais, a Virgem é sinal de que o Messias não é criação da potência
humana, mas do poder do Altíssimo, que é o Espírito Santo. Ela testemunha
que o Salvador vem do céu e não da terra, que é graça de Deus e não
conquista do homem, como explica muito bem o grande teólogo protestante
K. Barth.
É esse também o sentido profundo que subjaz às narrações de Mateus e
Lucas acerca da concepção virginal de Jesus. A expressão do Credo “oqual
foi concebido do Espírito Santo, nasceu da Virgem Maria” se refere
respectivamente ao lado divino (poder do Espírito Santo) e ao lado humano
(limitação de Maria como virgem) do mistério da Encarnação.
2- A virgindade de Maria marca o início do novo Povo de Deus
Declara Tertuliano: “O Iniciador do novo nascimento devia nascer de
forma nova”. Ou seja, a Virgindade de Maria mostra que, assim como Jesus
nasceu da Virgem por obra do Espírito Santo, também o povo da Nova
Aliança não nasce simplesmente da carne e do sangue, mas nasce
virginalmente da Igreja e espiritualmente do Espírito Santo.
É isso que sugere a genealogia de Mateus 1: o velho Povo de Deus
(natural) nasce do homem e da mulher e se perpetua por via carnal,
enquanto o novo Povo (sobrenatural) provém da Virgem e do Espírito
Santo, perpetuando-se mediante a fé. S. João diz o mesmo: os filhos de
Deus não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade
do homem, mas sim de Deus (Jo 1,13).
3- Como Maria, a Igreja gera os filhos de Deus sendo virgem e mãe
Os fiéis são gerados virginalmente pela Igreja, enquanto fecundada pelo
Espírito Santo através da Palavra e dos Sacramentos. Daí ser a Igreja ao
mesmo tempo virgem (enquanto concebe esta vida como obra do Espírito
Santo) e mãe (enquanto gera a vida divina em nós). É o que ensina o
Vaticano II, na linha de Sto. Ambrósio e de outros Santos Padres (cf. LG
64).
Isso vale também para os pais terrenos. Eles começam gerando filhos
para este mundo. Agora, se querem gerá-los para a Igreja e o Reino, não
lhes basta a geração carnal, pois a fé não se transmite com a carga
hereditária; precisam ainda gerar os filhos na fé e para a fé. E esse é um
parto ao mesmo tempo virginal e espiritual.
4- Cristo veio pelo caminho da virgindade: relativização do sexo
A virgindade não é em absoluto a condenação do sexo, pois esse foi
feito pelo Criador e tem sua função própria: a vida e o amor humanos –
realidades que a graça pode assumir e elevar (sacramento do matrimônio).
Mas a escolha por Cristo de uma mãe virgem significa certamente a
relativização da sexualidade genital. Mostra que esta não tem o poder de
conferir a vida nova, espiritual, salvífica, a vida da graça. O sexo é apenas
sinal daquela vida mais alta, não seu instrumento. Ora, isto é muito
relevante num mundo como o nosso, onde o sexo é idolatrado.
Aliás, também o celibato consagrado (dos Padres e das Irmãs) não é
desprezo da sexualidade, mas um modo de assumi-la, relativizando sua
mera expressão carnal e superando-a em vista de um amor transgenital, ou
seja, agápico de caridade.
IMACULADA CONCEIÇÃO
I. DADOS DA FÉ
1- Magistério
Na bula Ineffabilis Deus (1854), Pio IX declarou infalível a doutrina da
Imaculada Conceição. Eis os termos solenes da definição dogmática, na
qual cada linha foi pesada e tem, pois, seu sentido:
Em honra da Santa e indivisível Trindade,
para decoro e ornamento da Virgem Mãe de Deus,
para a exaltação da fé católica
e para o incremento da Religião cristã,
com a autoridade de Nosso Senhor Jesus Cristo,
dos santos Apóstolos Pedro e Paulo e com a Nossa,
DECLARAMOS, PRONUNCIAMOS E DEFINIMOS
como doutrina revelada por Deus o seguinte:
A Beatíssima Virgem Maria,
no primeiro instante de sua concepção,
por singular graça e privilégio de Deus onipotente,
em vista dos méritos de Jesus Cristo,
Salvador do Gênero humano,
FOI PRESERVADA IMUNE
DE TODA MANCHA DE PECADO ORIGINAL. 
Essa doutrina, pois, deve ser crida firmemente
e inviolavelmente por todos os fiéis.
Portanto, quem presumir deliberadamente
(que Deus não o permita!)
pensar em seu coração uma opinião contrária a essa definição,
conheça e saiba que se condena a si mesmo
por seu próprio juízo,
que fez naufrágio na fé,
que se separou da unidade da Igreja
e que incorreu automaticamente nas penas estabelecidas pelo
Direito… (DH 2803)12.
Veja também o Catecismo da Igreja Católica, n. 490-493.
2- Senso dos fiéis
Esta é a fonte principal para o dogma da Imaculada. Quer dizer: o Povo
de Deus, meditando e degustando a Palavra de Deus, compreendeu que a
Mãe de Jesus tinha sido, desde sempre, toda pura, sem mancha alguma. De
resto, Pio IX, antes de declarar o
dogma, sondou as bases católicas para se certificar do consenso dos fiéis
e nele se apoiar a respeito desta questão.
a) Este mesmo sentimento, mais vivido que falado pelo povo, o qual se
indigna quando ouve dizer que haveria algum pecado na SS. Mãe de Deus,
ganha expressão na voz dos Santos Padres.
– Sto. Agostinho declara, decidido: “Quando se trata de pecado em
Maria, pela honra devida ao Senhor, não quero nem discutir”. É impossível
“entregar Maria ao Diabo”, sequer por um só momento.
– Dionísio o Cartuxo, citado por Pio IX, afirma: “É horroroso para nós
dizer que esta mulher, que iria esmagar a cabeça da Serpente, tenha sido
alguma vez esmagada por ela…”.
É esse também o sentimento de uma convertida do início do século XX,
Miss B. A. Baker, que assim se exprimiu: “Depois que descobri Cristo
como Deus, a mera suposição de uma falta em Maria me parecia infligir a
ele um ultraje”.
b) O Magistério também se fez porta-voz do senso dos fiéis, invocando
como argumento decisivo para a definição dogmática o que a Ineffabilis
Deus chama de “senso da Igreja” e “conspiração dos Pastores e fiéis”.
Note que o Concílio de Basileia (em 1439, quando já era infelizmente
ilegítimo) tinha aprovado a doutrina da Imaculada, apelando para o
sentimento popular, que declarou estar “em harmonia com a fé católica”.
Por sua parte, o Concílio de Trento, embora não fale do pecado original em
Maria, afirma o “privilégio especial” de sua isenção em relação a todo
pecado atual (DH 1573).
c) Outras expressões do senso dos fiéis quanto à verdade da Imaculada:
– O Protoevangelho de Tiago. Este conta como Ana concebeu Maria, a
saber: na ausência de Joaquim, para mostrar assim que Ela foi concebida de
modo milagroso e puro;
– A festa da Imaculada. Era celebrada pelo povo desde o século VIII no
Oriente, e desde o século IX no Ocidente. No começo chamou-se festa da
“Conceição de Ana” (concepção ativa), depois, no Ocidente, passou a
chamar-se festa da “Conceição da B. V. Maria” (concepção passiva);
– O voto de sangue. Para defender a doutrina da Imaculada, estava-se
disposto a derramar o próprio sangue. Esse voto começou no século XIV e
atingiu seu cume no século XVII. Tal voto foi feito seja por universidades
(Paris, Oxford, Cambridge, Viena, Salamanca, Coimbra, Quito, Lima), seja
por ordens religiosas (jesuítas, franciscanos), seja por cidades (Lima,
Caracas, Trujillo), seja ainda por inteiras monarquias (Espanha, Portugal);
– As aparições de N. Sra. das Graças (1830) e de N. Sra. de Lourdes
(1857). A primeira preparou a fé no dogma da Imaculada e a segunda a
confirmou;
– A abundante iconografia do povo e dos artistas sobre a Imaculada.
Representam-na ora esmagando a cabeça do Dragão, ora em meio a rosas e
lírios, ora como a Tota pulchra, ou simplesmente como N. Sra. das Graças
ou de Lourdes.
3- Tradição dos Santos Padres
Meditando as Escrituras, os Padres descobrem o mistério da Imaculada
especialmente em duas passagens: (1) Esta te ferirá a cabeça (Gn 3,15:
Protoevangelho); e (2) Eis aqui a Serva do Senhor (Lc 1,38). Nesta última
expressão, os Padres veem Maria como a Nova Eva, que, ao contrário da
primeira, sempre disse sim a Deus. Além disso, os Santos Padres exploram
algumas figuras veterotestamentárias e veem nelas evocações do mistério
da Imaculada Conceição:
a) a esposa dos Cânticos: Ela é sem mancha (4,7), torre inexpugnável
(4,4), jardim fechado e fonte selada (4,12), bela como a lua, brilhante como
o sol, temível como um exército em ordem de batalha (6,10), a princesa-
noiva que ascende apoiada em seu esposo real (cf. 8,5; cf. também Sl 44);
b) a Tenda do Encontro com Deus (Ex 31,1-11), a morada divina
(Shekinah: cf. Lc 1,35), o Templo da Glória (1Rs 8);
c) a Arca da Aliança (Ex 25,10; 1Sm 4–6; 2Sm 6; Sl 131; Ap 11,19);
d) outras figuras: a escada de Jacó (Gn 28,12), a sarça ardente (Ex 3,2-
3), aSabedoria (Sb 8; Sr 24,14-31) etc.
– É digno de nota o fato de que os Doutores (teólogos) só entenderam
tarde aquilo que o sentimento espiritual do povo tinha cedo captado.
Grandes inteligências teológicas, fixadas na ideia da universalidade do
pecado e da redenção, opuseram-se à crença na Imaculada, entre as quais S.
Bernardo, Pedro Lombardo, Sto. Alberto Magno, Alexandre de Halles, S.
Tomás, S. Boaventura, Melchior Cano, o cardeal Cajetano e muitos outros.
Concediam apenas uma “purificação” da Virgem no seio materno, logo
após a sua concepção, mas esta, de todo o modo, teria ocorrido no pecado.
Os que mais contradiziam a crença na Imaculada eram os teólogos
dominicanos, enquanto os seus maiores defensores eram os franciscanos,
talvez porque eram mais próximos do povo e de seu senso de fé. As
disputas entre as duas correntes eram tão ardorosas que chegavam não raro
às vias de fato, obrigando, às vezes, tanto o poder eclesiástico como o civil
a intervir para separar os contendores e serenar os ânimos.
Note também que os Islâmicos, que têm Maria em altíssimo conceito,
acreditam que ela nasceu sem pecado. Dizem que todo recém-nascido é
mordido nas costas pelo maldito, por isso chora. Essa regra sofreu apenas
duas exceções: Jesus e Maria. Nem mesmo Maomé teria sido isento dela.
4- Bases bíblicas
Além das referidas anteriormente, valem em especial:
a) Cheia de graça (Lc 1,28). A expressão kecharitomen é única em toda
a Bíblia. Ela surpreendeu a própria Virgem (Lc 1,29). Significa literalmente
a-graci-ada, mas o sentido profundo é “plenamente agraciada”, “repleta de
graça”, como viu muito bem o cultíssimo S. Jerônimo, que traduziu por
gratia plena (cheia de graça). Maria devia, portanto, ser cheia de graça
desde o primeiro instante de sua concepção.
b) O Poderoso fez em mim maravilhas (em grego megála; em hebraico
ghedolot) Lucas 1,49. O dogma da Imaculada é uma das maravilhas que
Deus realizou em Maria.
II. EXPLICAÇÃO TEOLÓGICA DA IMACULADA
1- O privilégio da Conceição imaculada está finalizado em Cristo
Às razões trazidas pela definição dogmática da Ineffabilis Deus é preciso
acrescentar esta: a graça da Imaculada está a serviço da Encarnação
redentora de Jesus. É o que diz a liturgia da missa dessa festa: “Ó Deus, que
preparaste uma digna habitação para vosso Filho pela imaculada conceição
da Virgem Maria…” (Oração); “Puríssima devia ser aquela que geraria o
Cordeiro sem mancha” (Prefácio). Mais: este dogma está finalizado à nossa
salvação. Ele também se cumpre “por nós, homens, e pela nossa salvação”.
2- Imaculada: manifesto em favor da graça original
A doutrina em foco diz que a graça é anterior ao pecado e mais forte do
que ele. Na Imaculada, a graça triunfou totalmente, e isso desde o começo
de sua existência. A Toda-pura surge como a Nova Eva, a Mulher do
Paraíso, a Novíssima Criatura. “Ela vem mais cedo que o pecado” (G.
Bernanos).
De fato, a Virgem Imaculada é o fruto primeiro e melhor da potência
redentora de Cristo. “Ela foi redimida de modo mais sublime”, isto é,
preventiva e radicalmente (LG 53). É precisamente porque o Povo fiel está
convencido do poder soteriológico de Cristo, atuando até a raiz do pecado e
mesmo antes dele, que acredita na Conceição imaculada de Maria.
Note que a ideia de “redenção preventiva” ou “pré-redenção” é do
franciscano Duns Scotus, o grande advogado do dogma da Imaculada. Dizia
que o perfeitíssimo Redentor devia remir de modo perfeitíssimo a Virgem
perfeitíssima. Scotus usou muito um argumento que tinha sido elaborado
por discípulos de Sto. Anselmo ( † 1109), como Eadmero, e que soa:
“(Deus) pôde, convinha, então fez” (potuit, decuit, ergo fecit).
III. APLICAÇÕES DO DOGMA DA IMACULADA
1- Confiança inabalável na força radical da graça redentora
A graça do Redentor pode sanar nossa vida pela raiz. Pode nos tornar
“imaculados” (cf. Ef 1,4; está na primeira leitura da festa da Imaculada).
Devolve-nos a justiça original. Faz-nos voltar ao Paraíso (cf. Ap 22,1-2).
Até aí vai a eficácia do perdão de Cristo: ele nos refaz de alto a baixo,
nos recria totalmente. O perdão não fica apenas na reparação. Vai até a
renovação: tornamo-nos novamente novos. O perdão redentor nos
“revirginiza”, por assim dizer.
Certo, o modo de redenção para nós é curativo, enquanto para a Virgem
foi preventivo. Contudo, o efeito final é o mesmo: o surgimento da nova
criatura, o tornar-nos imaculados.
2- Maria Imaculada: no centro da luta contra o mal
A Toda-santa pode ser associada a uma concepção agonística ou
combativa da fé. Ela inspira a luta contra toda injustiça em nós e no mundo.
Mas não parece, pode-se pensar. Pois não foi Maria isenta de todo
pecado, inclusive da concupiscência, essa inclinação ao fechamento egoísta
sobre si mesmo, essa dificuldade de dizer sim ao Amor? De fato, Ela foi a
parceira perfeita de Deus. Correspondeu plenamente à sua graça. Viveu
com Deus uma reciprocidade plena. Ela foi a esposa sempre fiel que “faz a
alegria” de seu Esposo divino (cf. Is 62,5). Tudo isso parece dizer que para
a Virgem Imaculada tudo era fácil.
Mas não é verdade. A verdade é que a SS. Virgem também foi tentada,
como Eva no Paraíso, como o próprio Cristo, como cada um de nós. Dela
foi profetizado: Uma espada transpassará a tua alma (Lc 2,35). Isso
significa: a espada da Palavra de Deus atravessará toda a tua vida, fazendo
sentir suas exigências extremas.13
João Paulo II sublinhou o fato de que a Mulher nova enfrentou durante
toda a sua vida uma luta gigantesca contra o maligno (cf. Redemptoris
Mater 47 e 52). A grande diferença conosco é que ela nunca cedeu ao
Sedutor, mas foi sempre sim a Deus. Disso tudo podemos concluir que a
Imaculada permanece, para nós, como exemplo máximo de lutadora, que
não sofreu a menor derrota do maligno.
3- Visão realista do pecado e visão esperançosa da graça
O contexto histórico da declaração do dogma da Imaculada (meados do
século XIX) era o racionalismo, com sua visão idealista da onipotência da
razão, a qual traria o progresso, a liberdade e a felicidade para todos.
Proclamando o dogma da Imaculada, a Igreja ensina, ao contrário, um
“realismo otimista”:
a) “realismo”, porque sabe que subsiste sempre o poder do pecado e sua
imensa influência nos corações e nas estruturas da sociedade, sendo
eliminado totalmente apenas no fim dos tempos. Nada, pois, do mito
ingênuo e ilusório de um “paraíso na terra”;
b) “otimista”, porque a Igreja sabe também que existe mais ainda a força
da graça redentora, pela qual podemos resistir vitoriosamente ao pecado e
que pode criar corações e situações melhores que as anteriores. Pois, onde
abundou o pecado, superabundou a graça (Rm 5,20).
ASSUNÇÃO DE MARIA AO CÉU EM CORPO E
ALMA
I. DADOS DA FÉ
1- Magistério: declaração dogmática
Há uma definição dogmática infalível acerca da Assunção: está na
constituição Munificentissimus Deus (Deus generosíssimo), de Pio XII, de
1950. Eis os termos soleníssimos em que foi proclamado o dogma em 1º de
novembro de 1950:
Depois de termos elevado a Deus
nossas insistentes preces de súplica
e de termos invocado a luz do Espírito da Verdade;
para a glória de Deus onipotente,
que na Virgem Maria derramou sua especial benevolência;
para honra de Seu Filho, Rei imortal dos séculos
e Vencedor do Pecado e da Morte;
para a maior glória de sua augusta Mãe;
e para a alegria e exultação de toda a Igreja;
pela autoridade de Nosso Senhor Jesus Cristo,
dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo e pela Nossa,
PRONUNCIAMOS, DECLARAMOS E DEFINIMOS
ser dogma revelado por Deus que:
a Imaculada Mãe de Deus, sempre Virgem Maria,
terminado o curso de sua vida terrena,
FOI ASSUNTA À GLÓRIA CELESTE EM CORPO E ALMA.
Por isso, se alguém (que Deus não o permita!) ousasse negar ou pôr
em dúvida voluntariamente o que foi por nós definido, saiba que
decaiu da fé divina e católica (DH 3903-3904)14.
2- Senso dos fiéis
O dogma da Assunção é, além da Imaculada, outra “vitória” do senso
dos fiéis, que não se engana em questões de fé (infalibilitas in credendo; cf.
LG 12). O sensus fideliumnão funda dogma algum, mas testemunha a
verdade de um dogma. Pio XII, na constituição Munificentissimus Deus,
refere-se ao argumento decisivo da chamada “conspiração dos bispos e dos
fiéis”. A fé na Assunção é um factum ecclesiae. Isso se mostra claramente
nas várias expressões do sensus fidelium, especialmente no chamado
movimento assuncionista.
a) De fato, o movimento assuncionista jogou sobre Roma uma avalanche
de petições em favor do dogma. Eis as etapas desse processo:
– Os primeiros a fazer tal solicitação foram: o Pe. Cesário Shguanin (†
1769), Servo de Maria, quase duzentos anos antes da definição.15 Veio
depois, em 1863, a rainha da Espanha, Isabela, sob sugestão de Sto.
Antônio M. Claret. Pio IX respondeu a esses pedidos que a Assunção era,
sim, uma verdade de fé, mas que não tinha ainda chegado o tempo de sua
definição.
– Outros entusiastas se jogaram na iniciativa: D. Luigi Vaccari,
beneditino e depois bispo, que tentou mobilizar os bispos no Vaticano I para
declarar o dogma, tendo sido freado pelo Santo Ofício; o advogado, hoje
beato, Bártolo Longo, fundador do Santuário de Pompei, no início do
século XX, que recolheu milhares de assinaturas dos peregrinos em favor
do novo dogma. Graças aos missionários, esse movimento se espalhou pela
África, pela Ásia e pela Oceania. No Brasil, em particular, recolheram-se
100 mil assinaturas. A reação dos Papas Pio X e Bento XV foi mandar
aprofundar a questão do ponto de vista teológico.
– Já a partir dos anos 30 do século XX, mais e mais petições foram se
acumulando em Roma graças ao trabalho de promoção do dogma de
homens como o padre jesuíta Salvador, de novo o beato B. Longo (12 vol.
em 1929) e o padre estadunidense Mateus Crawley. Mais de 150 mil
imagens da Assunta foram distribuídas pelo mundo. Resultado: de 1863 até
1921 tinham sido recolhidas mais de 1,6 bilhão de assinaturas em favor do
dogma; e de 1921 até 1940, quase 6,5 bilhões. De cada cinco dioceses no
mundo, quatro tinham feito esse pedido. Em 1942, esses documentos foram
reunidos por G. Hentrich e R. G. de Moos em dois grandes volumes.
– Enfim, como fizera Pio IX para o dogma da Imaculada, também Pio
XII consultou, em 1946, os bispos do mundo inteiro para verificar o
sentimento do povo fiel a respeito da doutrina da Assunção. Mais de 98%
responderam positivamente. (Isso é democracia! Mas é uma “democracia de
verificação”, não “democracia de constituição”, como as modernas.)
b) Expressões do “senso dos fiéis”. Como dissemos, este foi decisivo
para a definição do dogma da assunção, como pode ser verificado ao longo
da história pelas seguintes mediações:
– Apócrifos assuncionistas. Começaram talvez ainda no século II nos
círculos judeo-cristãos e explodiram no Oriente a partir do século VI.
Falavam do fim da vida de Maria em termos de dormição (kóimesis), de
trânsito ou de descanso. O relato, embora contado em muitíssimas e
variadas versões, continha cinco episódios:
• Um anjo anuncia a Maria sua morte próxima.
• Todos os apóstolos são milagrosamente transportados ao redor de
seu leito.
• A Virgem morre como todo ser humano (o que favorece a tese
mortalista).
• No enterro, os judeus fazem protestos contra Ela, chamando-a a
“mãe do sedutor”.
• Depois de sepultada, Maria ressuscita e é levada ao Paraíso.16
É um pouco estranho que, antes da explosão dos apócrifos
assuncionistas pelos anos 500, só haja indícios vagos do destino final da
Virgem. A hipótese do Pe. B. Bagatti (que no início dos anos 1970
encontrara no Vale de Josafat, em Jerusalém, o túmulo em que Maria fora
depositada) é a seguinte: nos primeiros séculos, o túmulo de Maria estava
sob os cuidados dos judeo-cristãos, de modo que a grande Igreja, da qual
eles se separaram, acabou perdendo contato com a tradição do “trânsito”
corporal de Maria.
– Festas. O Povo começou a celebrar a festa litúrgica da Assunção,
fixada em 15 de agosto (seria o dies natalis de Maria, como para os santos),
desde o século VI, na Basílica que a imperatriz Eudóxia (século V) tinha
mandado construir no lugar do “passamento” de Maria em Jerusalém. O
imperador Maurício (582-602) levou esta festa para Bizâncio e a difundiu
por todo o Império, de modo que se tornou, com o tempo, a maior festa
mariana, promovendo assim a crença na Assunção.
Já no Ocidente a festa teve início no século VII em Roma, com uma
procissão solene que começava com a famosa oração “Veneranda”:
É para nós digno de veneração este dia (veneranda dies) em que a
Santa Mãe de Deus sofreu a morte temporal. Não podia, entretanto, ficar
submetida aos laços da morte Aquela que gerou de si mesma e encarnou
o vosso Filho, Senhor nosso.
Essa festa, já então chamada de Assunção, era realizada com grande
solenidade na corte de Carlos Magno, ao qual o Papa Adriano I enviara
aquela oração. Sublinhava-se então fortemente o aspecto da Assunção
corporal da Virgem.
– Homilias. Na festa da Assunção, os homiliastas começaram a exaltar
Maria, falando de sua Assunção também corporal, como Teoktenos, Bispo
de Lívia, perto de Jericó (século VI). Usavam-se aí os chamados
“argumentos de conveniência”, aplicando à Virgem gloriosa diversas
imagens bíblicas (cf. infra). Explicava-se que a Virgem fora arrebatada ao
céu ao modo de Henoc (Gn 5,24) e de Elias (2Re 2,3.5.9.10).
– Imagística. O povo devoto e seus artistas começaram a representar a
Virgem subindo ao céu, transportada por Cristo ou pelos anjos; ou ainda a
Virgem reinando no céu, como a Mulher do Apocalipse (cap. 12).
3- Santos Padres
Para o dogma da Assunção, o papel dos Santos Padres não é relevante.
Foi um dos motivos pelos quais o célebre patrólogo B. Altaner, em 1948 e
1950, se pronunciou contra a declaração do dogma da Assunção. Mas o Pe.
Filograssi objetou dizendo que, se há consensus fidelium, isso é sinal (não
prova) de que aquela verdade deve estar no depósito revelado.
Antes do século VIII, na Patrística, há apenas débeis indícios sobre a
Assunção corporal, e isso somente a partir do final do século IV, com Sto.
Efrém, Timóteo de Jerusalém e Sto. Epifânio. Este, no Panarion (377),
declara que as Escrituras nada nos dizem sobre o fim da Virgem e que,
portanto, é preferível ficar numa atitude de silêncio e de meditação. Os
grandes Padres da “idade de ouro” (séculos IV e V) nada dizem sobre o
tema. Aliás, para preencher esse estranho silêncio foram inventados dois
“falsos” (cf. infra).
Foi só na Patrística tardia que emergiu a doutrina da Assunção corporal.
No Ocidente, o primeiro a defendê-la foi Gregório de Tours, no século VI.
Depois vieram Sto. Ildefonso, no século VII, e S. Beda, no século VIII. Foi,
porém, no Oriente e a partir do século VIII que o tema da Assunção
começou a ganhar um maior desenvolvimento, graças especialmente às
homilias de Padres como Germano de Constantinopla, André de Creta, João
Damasceno e Teodoro Estudita.
No século IX surge um “falso”, a carta Cogitis me (vós me obrigais)
atribuída a S. Jerônimo (século IV), mas que era em verdade da mão do
monge Pascásio Radberto. Aí se levantam dúvidas sobre a autenticidade do
apócrifo Transitus e em particular sobre o aspecto corporal da glorificação
da Virgem, sem, contudo, excluí-lo de todo. Esse escrito teve grande
influência na Igreja latina: bloqueou por muito tempo o desenvolvimento da
crença na Assunção, também por ter sido usado no Breviário romano
durante setecentos anos, até a reforma de Pio V (1568).
Mas, para rebater esse escrito, surgiu lá pelo século XII um outro, o
Livro da Assunção da Beata Maria Virgem. Este era mais um “falso”, posto
agora sob o nome de Sto. Agostinho (século V). A base de sua
argumentação teológica é esta: “carne de Cristo – carne de Maria”. Esse
escrito contribuiu muito para manter viva a consciência assuncionista, pois
contava com o reconhecimento de Sto. Alberto, de S. Tomás, de S.
Boaventura e de outros doutores.17 Uma versão desse escrito foi inserida na
Legenda áurea de Jacopo de Varazze († 1298), difundindo mais ainda entre
o povo a devoção da Assunção.18
4- Bases bíblicas
Não há nenhum texto explícitoe direto da Bíblia que fale da Assunção
de Maria (como, de resto, não há da Theotókos, da Trindade e dos Sete
Sacramentos). O que há são temas bíblicos, a partir dos quais a
Comunidade eclesial, em sua tradição viva, chegou à descoberta (não à
invenção) desse novo dogma. Este não está na Escritura, mas se deduz a
partir da Escritura. Não é, pois, este ou aquele texto, mas o conjunto da
mensagem bíblica que depõe em favor da glorificação também corporal da
Mãe de Jesus. Portanto, o “último fundamento” desta verdade está na
Bíblia, como afirma a proclamação dogmática (DH 3900).
As ideias comuns de todos esses temas são duas: a íntima associação de
Maria ao destino do Filho e sua santidade plena. Uma e outra coisa levaram
o Povo de Deus a descobrir a verdade da glorificação imediata e total da
Mãe de Deus. Eis os principais temas bíblicos que sustentam esse dogma:
a) A Mulher vitoriosa sobre a serpente: Ela te ferirá a cabeça (Gn 3,15).
Maria, portanto, vence o pecado e também suas consequências: a morte e
sua corrupção.
b) A Nova Eva: como Ela não comeu do “fruto da morte” (Gn 3,6/Lc
1,38), Ela também não podia morrer corporalmente.
c) A nova Arca: como a madeira da velha Arca devia ser incorruptível,
por isso tinha que ser de acácia, mais ainda devia permanecer incorruptível
o corpo imaculado e virginal de Maria, inteiramente consagrado a Cristo e à
sua missão, não podendo, portanto, ser destruído pela morte (Ap 11,19).
Segundo os Santos Padres, vale para a Assunta o que se diz da arca:
Levantai-vos, Senhor, para vir ao vosso repouso, vós e a arca de vossa
majestade (Sl 131,8). Ora, na Ascensão, Cristo se levantou; logo, Maria,
sua arca, deve tê-lo seguido.
d) A Mãe perfeita: Jesus, filho perfeito, como manda o quarto
mandamento, deve ter honrado perfeitamente sua perfeita mãe. Como,
podendo e devendo, não iria fazê-lo, senão elevando-a ao céu, também com
o corpo?
e) A Rainha-mãe: A Mãe do Rei merecia ser colocada à direita do Filho,
vitorioso da morte (Sl 44).19 Também a Rainha-esposa se senta no trono do
Rei: Quem é esta que sobe do deserto apoiada em seu Amado? (Ct 8,5).
f) A Mulher vestida de sol: ela é subtraída ao ataque do mortífero dragão
(Ap 12, que corresponde à primeira leitura da festa da Assunção). A Igreja
viu na “Mulher” a figura da Virgem glorificada, “imagem escatológica da
Igreja” (LG 68).
g) Maria, a primeira pessoa humana tocada plenamente pelo poder da
ressurreição de Cristo (Fl 3,10). Pois ensina S. Paulo: Assim em Cristo
todos reviverão. Cada qual, porém, em sua ordem – como primícias,
Cristo; em seguida, os que forem de Cristo… (1Cor 15,22-23). Ora, a
Virgem foi a criatura que mais “pertenceu” a Cristo. Ela será, portanto, a
primeira a receber o efeito de sua Ressurreição, ressuscitando logo após a
morte. K. Rahner, em escrito póstumo, diz que Maria, para ser a Redimida
primeira e integral, tinha que ressuscitar e tornar-se, assim, o elo entre o
“Primogênito dentre os mortos” e a humanidade à espera da ressurreição.20
h) A Santa Virgem como “singular e generosa companheira” de seu
Filho (LG 61: generosa socia). Ora, se Ela participou fiel e plenamente do
destino de Jesus na humilhação, como não haveria de participar também de
sua glorificação? De fato, lê-se: Se morrermos com Ele, com Ele viveremos.
Se soubermos perseverar, com Ele reinaremos. (2Tm 2,11-12; cf. Mt 19,27-
30).
II. EXPLICAÇÃO TEOLÓGICA
1- Como se nota pelos termos da definição dogmática, o dogma da
Assunção tem caráter teocêntrico e especialmente cristocêntrico: antes de
exaltar Maria, exalta a SS. Trindade. Além disso, ele tem uma finalidade
soteriológico-pastoral: redunda em benefício de todo o Povo de Deus.
2- Como sugere também a definição dogmática, o dogma da Assunta
ganha luz quando articulado, em termos da conexão dos mistérios, com os
outros três dogmas, dos quais é como a coroação:
a) Quanto à Maternidade divina: Maria esteve unida a Cristo por um
laço íntimo e indissolúvel, e isso em todos os níveis: corporal (pela
geração), psicológico (pelo afeto) e espiritual (pela comunhão em sua
missão); como poderia, então, estar separada do Filho glorioso em virtude
da morte corporal?
b) Quanto à Virgindade: já que o corpo de Maria, porque plasmado e
ungido pelo Espírito da Vida, foi mantido sempre íntegro, como poderia ter
sofrido a dissolução da morte?
c) Quanto à Imaculada conceição: por ser Toda-santa (Panaghia), Maria
nada deveu ao pecado e, portanto, também nada à morte, que é o salário do
pecado (Rm 6,23).
3- Note que a definição infalível não diz que Maria foi elevada “ao céu”,
como se diz de modo popular, mas precisamente que foi assunta “na glória
celeste”, a fim de evitar todo entendimento espacializado do fato da
Assunção. Ademais, o “foi assunta” (ou assumida ou ainda arrebatada) é
um passivo divino: foi Deus que elevou Maria à Glória do Reino.
4- Sobre a morte ou não de Maria. Na definição infalível do dogma da
Assunção, Pio XII diz: “terminado o curso de sua vida terrena…”. Essa
expressão deixa em aberto a questão teológica: Maria morreu de verdade,
como pensa o conhecido mariólogo franciscano Balic’, ou só adormeceu
(morte aparente), como defende o grande estudioso deste dogma M. Jugie?
A tese mortalista, de que a SS. Virgem morreu mesmo, representa hoje a
tendência dominante, mas não única.21
5- Há teólogos hoje que repensam a Assunção no quadro da escatologia
da ressurreição “na” morte e não “depois” da morte. Afirmam, em
consequência, que a Assunta não seria um caso exclusivo, mas apenas
típico. Sem falar na debilidade antropológica e bíblica desta visão teológica
equivocada, ela esvazia o sentido da Assunção como privilégio mariano, tão
enfatizado pela bula definitória (que repete treze vezes o termo
“privilégio”).22
III. APLICAÇÕES ATUAIS DO DOGMA DA ASSUNÇÃO23
1- A Virgem na glória é “sinal de esperança segura e de conforto para o
Povo de Deus peregrino” (LG 68). Isso porque Ela é a “imagem e o começo
da Igreja consumada” (LG 68). Sem dúvida, a Ressurreição de Cristo é
garantia bastante forte para a nossa, mas a Assunção de Maria reforça tal
garantia e lhe acrescenta novos matizes, tipicamente femininos.
Assim também, a Assunção confirma o sentido da vida como plenitude
de felicidade em alma e corpo. O fiel se convence mais fortemente de que o
destino do ser humano é a glória perene e total. Somos cidadãos dos céus…
Jesus Cristo transformará nosso mísero corpo… semelhante ao seu corpo
glorioso (Fl 3,20-21). A festa da Assunção é a festa de nosso destino. Desse
modo, esse dogma se torna, ao lado e depois da Ressurreição de Cristo,
terapia para o desespero humano diante do absurdo e do vazio valorial
provocados pela “morte de Deus”. Ademais, afirmando que Aquela que
sofreu as “sete dores” é agora coroada com “doze estrelas”, a Assunção
aparece também como resposta ao problema do sofrimento.
2- A Assunção é base da presença pneumática e, consequentemente, da
intervenção poderosa da Mãe de Deus na história humana. Glorificada em
corpo e alma, a Virgem está particularmente presente a nós e pode mais
junto de Deus. Com um corpo espiritual(izado), Ela está perto de cada um e
plenamente viva no meio do povo de Deus. Ela é, por assim dizer, a nova
Arca da aliança e a nova Shekihah (tenda ou morada). Sua presença materna
é uma presença realíssima, presença em corpo e alma, de sorte que Maria se
torna verdadeiramente “protagonista da história” (Puebla 293). Tal presença
pneumática suscita no povo fiel, em relação a Ela, confiança ilimitada e
súplica em todas as circunstâncias.24
3- A Virgem gloriosa é um sinal eloquente do jeito de Deus agir: Ele
exalta os humildes (Lc 1,52b; cf. Lc 14,11.18). De fato, Maria é a Serva (Lc
1,38.48) que foi elevada a Rainha. Isso infunde imensa esperança aos
“humilhados e ofendidos” de nossa sociedade e desperta neles a coragem
para lutar por sua dignidade.
4- A Assunta afirma o valor da vida humana, que é sempre sagrada,
inclusive em sua dimensão biológica. Foi uma das lições que tirou Pio XII
do dogma, visto a partir da segunda GuerraMundial, que havia pouco
terminara. A Assunção é um protesto contra todos os ataques à vida
humana, como a guerra e a fome. Mais amplamente ainda, a Assunção
exalta toda forma de vida, como quer o movimento ecológico atual.
5- O dogma da Assunção proclama a dignidade do corpo humano. Sem
nosso corpo não seríamos completos e, por isso, nem totalmente felizes.
Isso vale especialmente em relação aos corpos mais degradados: os corpos
dos pobres (por causa da fome, da exploração e do abandono) e os corpos
das mulheres (pela exploração sexual e comercial). A Assunção leva a
respeitar o corpo humano, tratando-o inclusive com toda pureza e castidade.
Nessa linha exclamou o Pe. Ricardo Lombardi no Coliseu, às vésperas da
declaração do dogma da Assunção: “Jovens, levantai a cabeça e olhai! No
céu há um corpo de mulher!”. Partindo daí, convidava os rapazes e moças a
se relacionar entre si com todo o respeito.
6- A glorificação de Maria em alma e corpo é a exaltação da matéria e
da terra integradas no plano da salvação. Nas expressões de K. Rahner, a
Assunção é um “canto à matéria” e um elogio à “fé que ama a terra”, contra
todos os caluniadores do cristianismo, que o declaram inimigo da ordem
natural. Por sua parte, G. Jung, que era protestante, via no dogma da
Assunção da Virgem na glória a imagem da integração apoteótica dos polos
contrários: corpo e alma, matéria e espírito, terra e céu, feminino e
masculino, eros e agape. A Assunção seria um símbolo que responde, com
eficácia poderosa, a profundas necessidades psíquicas do povo, colaborando
para seu equilíbrio emocional. No meio de suas dores e tragédias, os
humildes encontram nesse símbolo uma fonte riquíssima de consolo e de
esperança. Por isso, Jung, embora protestante, considera a proclamação
desse dogma “o acontecimento religioso mais importante depois da
Reforma”.25
7- Enfim, N. S. da Glória aponta também para a glorificação de todo o
cosmos. Puebla declara explicitamente: “No corpo glorioso de Maria
começa a criação material a ter parte no corpo ressuscitado de Cristo” (n.
298). Isso também é sugerido pelos sublimes atavios cósmicos que
embelezam a Mulher de Apocalipse 12: o sol por manto, a lua por estrado e
as estrelas por coroa!
A MEDIAÇÃO DE MARIA: O QUINTO DOGMA?26
Existe hoje no mundo um movimento em favor do quinto dogma: o de
Maria corredentora ou medianeira de todas as graças. O movimento, forte
nos Estados Unidos, é animado pelo teólogo leigo Mark Miravalle,
professor na Universidade Franciscana de Steubenville (Ohio) e que já
publicou dois grossos volumes sobre a corredenção de Maria. O movimento
naquele país tem nome (Vox Populi Maria e Mediatricis), editora própria
(Queenship) e home page na internet. Aí se podem ler, em mais de uma
dezena de línguas diferentes, informações sobre a campanha nos diversos
países e um manifesto em favor do quinto dogma na forma de uma petição
dirigida ao Papa. Para essa causa já foram recolhidas milhões de
assinaturas, inclusive de centenas de bispos do mundo inteiro, entre os quais
vários cardeais. O conhecido canal de TV da Ir. Angélica, do Alabama, que
alcança 55 milhões de casas em todo o mundo, também entrou firme nessa
campanha.27
I. DUAS TOMADAS DE POSIÇÃO DE ALTAS
INSTÂNCIAS MARIOLÓGICAS28
1- Comissão do Congresso de Czestochowa
Durante aquele congresso, realizado de 12 a 24 de agosto de 1996,
constituiu-se uma comissão de 22 mariólogos do mundo inteiro, incluindo
cinco não católicos, para analisar a questão da mediação de Maria. O grupo
foi unânime em qualificar a declaração do quinto dogma como inoportuna.
Para aqueles mariólogos, é preciso – e é suficiente – ficar no plano
estabelecido pelo Vaticano II. Eis seus argumentos mais importantes:
a) A ambiguidade dos títulos “medianeira” e “corredentora”. Estes são
raramente usados pelo Magistério em seus documentos mais importantes.
Os peritos lembram que, especificamente para o de medianeira, houve no
início do século três comissões da Santa Sé que estudaram sua
definibilidade, mas acabaram por deixar a questão de lado por ser muito
complicada.
b) Necessidade de um maior aprofundamento teológico. Só assim esses
títulos serão bem entendidos Pelo povo de Deus e não levarão a um
descentramento deletério em relação à única mediação de Cristo. E nem
falemos ainda das dificuldades ecumênicas suplementares que uma
definição infalível traria hoje.
2- Pontifícia Academia Mariana Internacional (PAMI)
Essa instituição, dirigida pelos Frades Menores, manifestou, também em
meados de 1996, sua posição a respeito do quinto dogma. Os mariólogos
reunidos naquela ocasião julgaram também que, no que tange à doutrina da
mediação mariana, o ensino da Igreja deve-se ater ao Vaticano II.
Lembraram que centenas de bispos foram para o Concílio com a proposta
da declaração do dogma da mediação universal de Maria, mas que, com o
correr do processo conciliar, viram sua demanda se dissolver. E, assim
mesmo, o capítulo conciliar sobre Maria teve no fim uma excelente
aprovação.
A PAMI sugere que se aprofunde a problemática da mediação mariana
no quadro teológico proposto pelo Concílio, isto é, na perspectiva da
maternidade espiritual de Maria, pois foi a título de Mãe do Redentor que
ela cooperou com ele na obra da salvação (LG 53, 56, 61 e 63) e é a título
de Mãe dos Cristãos que ela continua essa cooperação mediante sua
intercessão ininterrupta (LG 62). Essa também é a perspectiva adotada por
João Paulo II na Redemptoris Mater (n. 44-47).
II. A mediação de Maria de acordo com o Vaticano
II
O Concílio trata do tema da missão de Maria, na forma de mediação, na
Lumen Gentium, capítulo VIII, em três números: 60, 61 e 62, que aqui
vamos apresentar sucessivamente.
O n. 60 pode ser assim resumido: a missão de Maria na redenção se dá
sempre in Christo, “único mediador”, como afirma 1 Timóteo 2,5, passo
que o Concílio cita logo de entrada. Portanto, a mediação mariana é uma
“mediação participada” (Card. Newman). Nas palavras conciliares, ela
“flui” da mediação de Cristo, “ostenta a potência” desta, “repousa” nela e
“depende inteiramente” dela. Poderíamos dizer: é uma mediação “por
Cristo, com Cristo e em Cristo”, nunca, pois, sem Cristo ou no lugar de
Cristo. Como se vê, o Concílio se preocupa com o necessário caráter
cristocêntrico da missão mediacional de Maria, isso para afastar qualquer
ambiguidade que a ideia da mediação mariana poderia suscitar seja no
campo ecumênico, seja no campo pastoral.
Já no n. 61, o Concílio dá as razões da missão ou mediação atual de
Maria na Igreja. Diz que essa missão deita suas raízes no importante papel
que ela exerceu na terra, ao lado do Filho, na redenção do mundo.
Efetivamente, Ela cooperou na obra do Filho com sua “fé, [sua] esperança e
[sua] caridade”, e isso “de modo inteiramente singular”.
Por fim, no importante n. 62, o Concílio ensina que a missão de Maria
perdura no céu mediante sua intercessão, pois é este precisamente o modo
como a santa Virgem medeia a graça para seus filhos: intercedendo junto a
Deus. Esta é expressão de sua materna caridade, pela qual cuida de seus
filhos na terra. Em resumo: a mediação de Maria, por um lado, se baseia em
sua maternidade e, por outro, se exprime na forma da intercessão. É essa
também, aliás, a visão adotada pela Redemptoris Mater sobre esse tema,
como se vê em sua parte III.
Subjacente a essa questão toda latejava, no Concílio, a ideia de um
possível dogma de “Maria medianeira de todas as graças”. De fato, havia
um grupo expressivo de Padres conciliares (313, precisamente) que tinha
apresentado uma proposta que visava à declaração daquele dogma. Mas
havia outro grupo, maior ainda, que era contrário, não, porém, ao conteúdo
dessa verdade, mas à oportunidade de sua declaração formal. A saída,
aceita por todos, foi encontrada por G. Philips, redator do documento.
Consistia em duas coisas: 1º) constatar o fato de que “Maria é invocada na
Igreja sob o título de… Medianeira…” (sensus fidelium); e 2º) colocar esse
título meio problemático no meio de outros, como os de “advogada,

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