Prévia do material em texto
ESTATUTO DA CIDADE Quem ganhou? Quem perdeu? José Roberto Bassul* *Arquiteto e urbanista, ex-presidente da Terracap - Cia. Imobiliária de Brasília, empresa pública do Distrito Federal. Especialista em planejamento habitacional e mestre em arquitetura e urbanismo pela UnB, é consultor legislativo do quadro técnico do Senado Federal, desde 1993, na área de política urbana. Brasília-2004 A Pompeu de Sousa, in memoriam. A meus pais. A Ana Lúcia, por tudo. A Marcela. A Carolina. 2 Agradecimentos As falhas, lacunas e imprecisões deste trabalho são de inteira e exclusiva responsabilidade do autor. Seus acertos, contudo, devem ser creditados à contribuição de inúmeras instituições e pessoas, entre as quais, devo mencionar: o professor Benny Schvasberg, pela orientação dedicada e exigente; o professor Brasilmar Ferreira Nunes e Grazia de Grazia, pelas sugestões críticas ao projeto; os professores Ricardo Farret, Edésio Fernandes e Fernanda Furtado, pelas contribuições teóricas e pela participação na banca examinadora; a UnB, o Instituto de Arquitetos do Brasil e o Sindicado dos Arquitetos do DF, onde aprendi sobre a cidade e a cidadania; o Lincoln Institute of Land Policy, pelo aporte crítico de suas publicações e pela bolsa de incentivo; Ermínia Maricato, Raquel Rolnik, Eduardo Graeff, Vicente Amadei e Suely Mara Guimarães de Araújo, pela gentileza da concessão de esclarecedoras entrevistas; Sérgio Penna, consultor geral legislativo do Senado Federal, pelo apoio não apenas à realização da pesquisa, mas, sobretudo, ao propósito de transformá-la em livro; Philippe Torelly, Orlando Cariello, Eliane Cruxên Maciel e Vera Americano, pela amizade incentivadora; os professores, funcionários e colegas do Programa de Pós-Graduação da FAU/UnB, 3 pelo aprendizado, pela solicitude e pela convivência profícua. As pessoas têm direito à igualdade quando a diferença significa discriminação. E têm direito à diferença quando a igualdade implica descaracterização. Boaventura de Souza Santos Ao deixarmos este mundo, não basta termos sido bons. É preciso tê-lo deixado melhor. Bertolt Brecht 4 Sumário INTRODUÇÃO 8 CAPÍTULO 1 – REFERÊNCIAS CONCEITUAIS 17 1.1 Reforma urbana e direito à cidade 17 1.1.1 Características do processo de urbanização no Brasil 17 1.1.2 Origens e efeitos do planejamento urbano 20 1.1.3 O ideário da reforma urbana e os princípios do direito à cidade 22 1.2 Função social da propriedade 29 1.2.1 Contexto histórico do direito de propriedade 29 1.2.2 A propriedade no Estado democrático de direito 34 1.2.3 A função social da propriedade no Brasil 36 CAPÍTULO 2 - LEGISLAÇÃO URBANÍSTICA E AÇÃO ESTATAL NA CONFIGURAÇÃO DAS CIDADES BRASILEIRAS 39 2.1 Planejamento urbano: a lei e as políticas públicas como instrumentos de segregação 39 2.1.1 A quem serve a lei 39 2.1.2 O papel político da legislação urbanística: zoneamento e normas de uso e ocupação 41 2.2 O poder público a serviço do capital privado 44 2.2.1 A formação dos preços imobiliários 44 2.2.2 A incorporação imobiliária e a propriedade do solo urbano 48 2.2.3 A “espoliação urbana” como aspecto do modelo nacional de desenvolvimento 53 CAPÍTULO 3 – CIDADE PLANEJADA E DIREITO CONQUISTADO 56 3.1 Planejamento e cidade: do modelo tecnocrático às propostas participativas 56 3.1.1 O planejamento regulatório 56 3.1.2 Novas abordagens para o velho planejamento 61 5 3.1.3 O plano diretor na Constituição de 1988 64 3.1.4 A experimentação municipal pós-Constituição 69 3.2 O direito na cidade 74 3.2.1 O direito achado na rua 74 3.2.2 Do privatismo do Código civil à cidade no âmbito do direito público 76 CAPÍTULO 4 – ESTATUTO DA CIDADE: DE ONDE VEIO ESTA LEI? 79 4.1 O caminho até a constitucionalização da política urbana 79 4.1.1 As primeiras iniciativas 79 4.1.2 O processo constituinte e a Emenda Popular da Reforma Urbana 86 4.1.3 O capítulo constitucional da política urbana 90 4.2 A lei para fazer cumprir a Constituição 95 4.2.1 O projeto original do Estatuto da Cidade e as demais propostas legislativas 95 4.2.2 As críticas institucionais e a reação conservadora 101 CAPÍTULO 5 – TRAMITAÇÃO LEGISLATIVA: DO CONFLITO À UNANIMIDADE 105 5.1 Os principais pontos polêmicos e as primeiras negociações 105 5.1.1 A proposta engavetada 105 5.1.2 O comboio em movimento 107 5.2 A articulação do consenso parlamentar 109 5.2.1 O debate mais importante 109 5.2.2 Os últimos movimentos na Câmara: recidivas da reação conservadora 110 5.2.3 A volta à Casa de origem 112 5.3 O Estatuto da Cidade transformado em lei 113 5.3.1 As dificuldades para a sanção presidencial 113 5.3.2 O texto final: conteúdo e finalidades 117 5.3.3 Aspectos distributivos e redistributivos 120 6 CAPÍTULO 6 – O CONTEÚDO EXPRESSO E O SIGNIFICADO NÃO EXPLÍCITO DO ESTATUTO DA CIDADE 125 6.1 Comparação da legislação urbana com a Emenda Popular da Reforma Urbana 125 6.1.1 Elementos formais e quantitativos 125 6.1.2 Conteúdo crítico 129 6.2 Os dois lados da mesma moeda 131 6.2.1 O consenso aparente 131 6.2.2 O conflito latente 139 CONCLUSÃO 146 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 155 ANEXOS 1 - Seminário de Habitação e Reforma Urbana (IAB/IPASE) — Proposta de lei (1963) 167 2 - Projeto de lei de “reforma urbana” (1964) 173 3 - Projeto de lei nº 775, de 1983. 177 4 - Emenda Popular da Reforma Urbana (1987) 185 5 - Projeto original do Estatuto da Cidade (1989) 189 6 - Lei n° 10.257, de 10 de julho de 2001. 200 7 - Medida Provisória n° 2.220, de 4 de setembro de 2001. 211 INTRODUÇÃO Considerações iniciais No dia 10 de julho de 2001, foi sancionada a Lei nº 10.257, denominada Estatuto da Cidade — primeira norma federal brasileira de diretrizes para a política urbana. Se considerarmos como pioneira nesse sentido a singela proposta, aprovada no III Congresso Brasileiro de Arquitetos, realizado em 1953 na cidade de Belo Horizonte (MG), de que fosse criado um órgão federal especializado em “habitação e urbanismo”,foi necessário quase meio século para que a questão urbana lograsse um marco legal específico. No começo dessa 7 trajetória, a população urbana representava 36,1% do total. Quando o Estatuto da Cidade foi aprovado, 81,2% dos brasileiros habitavam as cidades. Hoje, parece não haver mais dúvidas quanto à crescente importância dessa temática na chamada agenda política nacional. Os efeitos das políticas públicas, que, nesse período, demarcaram e caracterizaram o território urbano no Brasil, podem ser facilmente percebidos. Grande parte dos brasileiros que vivem (ou sobrevivem) em cidades, enfrenta problemas relativos à escassez de moradias, à precariedade dos sistemas de educação, de saúde e de transportes, à insuficiência dos serviços de saneamento, ao crescimento dos índices de desemprego e dos níveis de violência, ao lado de muitos outros fatores de desqualificação da vida urbana. A concentração da população em núcleos urbanos passou a caracterizar o Brasil a partir do segundo quarto do século XX, tornando-se especialmente aguda entre os anos 1960 e 70. Os municípios passaram a lidar com os efeitos da urbanização inteiramente desapetrechados para tanto. Não havia recursos financeiros suficientes, meios administrativos adequados nem instrumentos jurídicos específicos. Influenciado pelos setores dominantes na economia urbana, o aparelho estatal dirigiu seus escassos recursos para investimentos de interesse privado e adotou normas e padrões urbanísticos moldados pelos movimentos do capital imobiliário. Tanto quanto ocorria com a renda econômica nacional, a “renda” urbana concentrou-se. A cidade cindiu-se. Para poucos, os benefícios dos aportes tecnológicos e do consumo afluente. Para muitos, a privação da cidadania e a escravidão da violência. O planejamento regulatório, fundado na crença de que a formulação da política urbana deveria ocorrer no âmbito de uma esfera técnica da administração pública, ao contrário de reverter esse quadro, acentuou os seus efeitos. Voluntária ou involuntariamente, a gestão tecnocrática alimentou um processo caracterizado, de um lado, pela apropriação privada dos investimentos públicos e, de outro, pela segregação de grandes massas populacionais, em favelas, cortiços e loteamentos periféricos, excluídas do acesso a bens, serviços e equipamentos urbanos essenciais. Crescentes, essas demandas sociais resultaram na organização popular de grupos de pressão, que passaram a exigir iniciativas do poder público. No final dos anos 1970, essas organizações, então conhecidas como movimentos sociais urbanos, aliadas a entidades representativas de certas categorias profissionais, como arquitetos, engenheiros, geógrafos e assistentes sociais, constituíram o Movimento Nacional pela Reforma Urbana (MNRU) com o objetivo de lutar pela democratização do acesso a condições condignas de vida nas cidades brasileiras. 8 Com atuação em duas vertentes, a do território físico e político das cidades e a da proposição de normas jurídicas especiais, o MNRU, embora em vários momentos enfatizasse o aspecto legislativo de suas propostas, conduziu ambas as frentes de atuação de forma complementar. Se, de um lado, os enfrentamentos havidos em torno das lutas pela moradia ou pelo justo provimento de serviços públicos foram, e ainda são, contidos e represados por um aparato legal e institucional conservador, de outro, esses mesmos conflitos têm levado o aparelho de Estado à adoção de normas jurídicas e medidas administrativas mais permeáveis aos direitos sociais. Semeado desde os inícios da segunda metade do século XX, o ideário da reforma urbana ganhou corpo conceitual e maior consistência política no âmbito da Assembléia Nacional Constituinte, eleita em 1986, cujo Regimento admitiu a apresentação de propostas de iniciativa popular. Desde então, suas proposições conviveram com “vitórias e derrotas”1, até a comemorada aprovação do Estatuto da Cidade. A despeito de um ambiente parlamentar majoritariamente refratário às proposições do MNRU — especialmente em relação às que buscavam conferir efetividade à função social da propriedade —, a Constituição de 1988, pela primeira vez na história do Brasil, incorporou dispositivos que fizeram migrar, do território patrimonialista do direito privado para o âmbito coletivo do direito público, as relações jurídicas pertinentes à propriedade urbana. A eficácia de grande parte desses mecanismos, contudo, dependia de uma lei federal que regulasse sua aplicação. Por essa razão, após a promulgação constitucional, o MNRU dirigiu seus esforços no sentido da aprovação de um projeto de lei formulado com esse propósito: o Estatuto da Cidade. Apresentado em 1989 pelo senador Pompeu de Sousa (falecido dois anos depois), mas aprovado somente em 2001, o Estatuto da Cidade oferece aos governos municipais e aos movimentos sociais um conjunto expressivo de diretrizes e instrumentos que buscam materializar os princípios constitucionais da função social da propriedade e da cidade. Seus dispositivos se destinam, em síntese, a universalizar o “direito a cidades sustentáveis”, definido na própria lei como “o direito à terra urbana, à moradia, ao saneamento ambiental, à infra-estrutura urbana, ao transporte e aos serviços públicos, ao trabalho e ao lazer, para as presentes e futuras gerações”. De início, o projeto de lei foi muito mal recebido pelos representantes do capital imobiliário, que nele viam uma ameaça ao direito de propriedade e até à ordem constitucional. Entretanto, decorridos doze anos de tramitação, que envolveram intermitentes debates e 1 Grazia, 2002, p. 15. 9 negociações, o texto foi aprovado por unanimidade. Quais foram as intercorrências técnicas e, sobretudo, políticas nesse percurso? O consenso obtido, do ponto de vista da proposta da reforma urbana, resultou em perda de substância? O que mudou: o projeto inicial, a posição do empresariado ou ambos? Que fatores, ao longo desses doze anos, fizeram com que posições inicialmente litigantes fossem aproximadas? Indagações dessa natureza são a motivação do presente trabalho, que resultou numa dissertação de mestrado, defendida e aprovada, no dia 14 de maio de 2004, na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília (FAU/UnB). Na dupla condição de assessor do parlamentar que apresentou o projeto de lei do Estatuto da Cidade e de dirigente de entidades como o Instituto de Arquitetos do Brasil e o Sindicato dos Arquitetos do Distrito Federal, o autor teve a oportunidade de vivenciar muitos dos episódios e circunstâncias analisados, testemunhar o processo constituinte, bem como participar da elaboração do projeto original da nova lei e acompanhar sua tramitação legislativa. Para o MNRU, o período da morosa tramitação congressual do Estatuto da Cidade foi um processo ciclotímico. Ao entusiasmo inicial — que havia no contexto da redemocratização política, da convocação da Constituinte e da efervescência da participação popular —, sucederam períodos em que a perspectiva de aprovação dessa nova legislação pareceu distante e improvável. Neste começo de século, contudo, vários elementos se combinaram no sentido de novamente trazer à tona as proposições da reforma urbana: a aprovação do Estatuto da Cidade; a eleição para a Presidência da República de um candidato do Partido dos Trabalhadores (PT), programaticamente comprometido com o MNRU; e a criação do Ministério das Cidades. Articulam-se nesta circunstância histórica, portanto, uma proposta política de democracia participativa, quepela primeira vez assume o governo do País, e uma legislação urbana inovadora, decorrente desses mesmos propósitos e fundada nos mesmos princípios. Embora não sejam examinados os acontecimentos políticos em curso — quanto mais não fosse porque, como lembrou Eric Hobsbawn (1995, p. 7), “ninguém pode escrever sobre seu próprio tempo de vida como pode (e deve) fazer em relação a uma época conhecida apenas de fora, em segunda ou terceira mão” —, as circunstâncias presentes sugerem que analisar o processo de elaboração do Estatuto da Cidade, saber em que medida a nova lei incorporou os princípios da reforma urbana e quais os fatores que condicionaram sua longa tramitação entre grupos de opinião conflitantes, significa de certo modo inferir as 10 possibilidades de êxito das políticas públicas que se poderão valer desse novo ordenamento legal. Objeto e objetivos Este trabalho, que tem por objeto o processo de elaboração legislativa do Estatuto da Cidade, pretende relacionar seu conteúdo com o projeto político da reforma urbana. Tenta-se aferir, fundamentalmente, em que medida o texto aprovado corresponde ao conjunto de propostas construído no âmbito do Movimento Nacional pela Reforma Urbana (MNRU). Em paralelo, busca-se encontrar os fatores que teriam levado os segmentos representativos do capital imobiliário no Congresso Nacional a superar uma atitude inicial de franca rejeição e, ao final, aprovar, por unanimidade, uma lei considerada capaz de municiar a reforma urbana em muitos de seus propósitos. A pesquisa procura acrescer ao campo temático ainda pouco explorado do Estatuto da Cidade: a) as principais proposições que o antecederam, inclusive o inteiro teor do projeto de reforma urbana do governo João Goulart, escassamente conhecido; b) o detalhado registro analítico do debate/embate parlamentar (a configuração da arena política constituída em relação ao tema da política urbana, durante e após a Assembléia Nacional Constituinte, os projetos apresentados, as emendas aprovadas, as rejeitadas e aquelas que decorreram de acordos, assim como a caracterização do perfil parlamentar de seus autores); c) o conteúdo expresso das proposições legislativas elaboradas no âmbito do MNRU (em especial as contidas na Emenda Popular da Reforma Urbana), bem como a verificação da medida em que foram ou não incorporadas à legislação vigente; d) a análise exploratória das posições defendidas pelo empresariado e de como e porque esse segmento de opinião teria transitado de uma atitude inicial de rejeição para a de aceitação dos conceitos e princípios da nova lei. Método e base documental 11 O texto se apóia nos fundamentos teóricos do ideário da reforma urbana, derivados, por sua vez, dos conceitos jurídico-políticos de “direito à cidade” e “função social da propriedade”. Esses referenciais são buscados em autores como, entre outros, Ana Amélia da Silva, Ana Clara Torres Ribeiro, Ermínia Maricato, Grazia de Grazia, Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro, Marcelo Lopes de Souza, Miguel Baldez, Nelson Saule Jr. e Raquel Rolnik, para a conceituação de “reforma urbana”; em David Harvey, Henri Lefebvre e Manuel Castells, no âmbito da chamada “nova sociologia urbana”, para a noção de “direito à cidade”; e em Alessandra Queiroga, Betânia Alfonsin, Boaventura de Souza Santos, Carlos Frederico Marés, Celso Antonio Bandeira de Mello, Edésio Fernandes, José Afonso da Silva, Liana Portilho Mattos, Nelson Saule Jr. e Sônia Rabello de Castro, com relação ao princípio da “função social da propriedade”. A formação dos preços imobiliários e a ação estatal em proveito do capital imobiliário foram estudadas, principalmente, em trabalhos de Benício Schmidt e Ricardo Farret, Mark Gottdiener, Martim Smolka e Paul Singer. O papel desempenhado pela regulação urbanística e pelas práticas de planejamento na configuração de nossas principais cidades provieram das análises de vários autores, com ênfase nas obras de Raquel Rolnik, Ermínia Maricato e Marcelo Lopes de Souza, cujo livro- texto (Souza, 2002, p. 29 e 34), em resumo, propõe uma evolução da “crítica ao planejamento urbano” para uma atitude de “planejamento urbano crítico”, que, pela via democrática e efetivamente participativa, “mesmo operando nos marcos de uma sociedade injusta, contribua (...) para a superação da injustiça social”. Para a pesquisa sobre a elaboração constitucional e, mais especificamente, sobre o conteúdo e a tramitação legislativa do Estatuto da Cidade, foram utilizadas fontes primárias, como os anais da Assembléia Nacional Constituinte, da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, constantes do Sistema de Informações do Congresso Nacional (SICON), em grande parte disponível na internet, e secundárias, como as análises críticas de Edésio Fernandes, Fernanda Furtado, Grazia de Grazia, Nelson Saule Jr., Paulo Sandroni e Raquel Rolnik, além de outras constantes de coletâneas organizadas por Betânia Alfonsin e Edésio Fernandes, Luiz César de Queiroz Ribeiro e Adauto Lucio Cardoso, Liana Portilho Mattos e Letícia Marques Osório. No tocante às pressões da sociedade civil sobre o Congresso Nacional, também foram buscadas fontes primárias, como documentos encaminhados ao Parlamento, tanto pelas entidades integrantes do MNRU, quanto pelas associações empresariais, quase sempre representadas pela Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) e pelo Sindicato das 12 Empresas de Compra, Venda, Locação e Administração de Imóveis Residenciais e Comerciais de São Paulo (Secovi-SP). Também foram úteis os documentos, sempre contrários ao Estatuto da Cidade, formulados pela organização civil Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP). No sentido de buscar responder às indagações que orientaram a pesquisa, bem como no de verificar a pertinência das hipóteses suscitadas, foram também realizadas entrevistas pessoais com atores relevantes desse processo. A partir de um roteiro prévio, formularam-se questões abertas, respondidas por protagonistas das lutas históricas do MNRU, como as professoras Ermínia Maricato e Raquel Rolnik, que desempenham atualmente relevantes cargos e encargos no governo federal; pelo empresário Vicente Amadei, eficiente representante do setor imobiliário no processo legislativo do Estatuto da Cidade; pela arquiteta e advogada, consultora legislativa da Câmara dos Deputados, Suely Mara Vaz Guimarães de Araújo, que assessorou, com reconhecida competência, toda a tramitação da nova lei; e pelo sociólogo Eduardo Graeff, cuja respeitabilidade pessoal e profissional teve grande influência na sanção do presidente da República ao projeto aprovado. O grau do atendimento das reivindicações legislativas do MNRU foi analisado a partir da comparação direta do conteúdo da Emenda Popular da Reforma Urbana (considerado o estuário dessas reivindicações), apresentada, em 1987, à Assembléia Nacional Constituinte, com os dispositivos legais incorporados à Constituição Federal, ao Estatuto da Cidade (considerada a Medida Provisória nº 2.220, de 2001, que o complementa) ou mesmo a outras normas federais. Para tanto, a Emenda Popular foi decomposta em cinqüenta propostas normativas, sendo verificada se houve ou não a inclusão, integral ou parcial, de cada uma delas. A partir desse estudo comparativo, foi possível mensurar o campo de acolhimento que o ideário da reforma urbana já encontrou no ordenamento legal brasileiro. Confirmada a grande receptividade da legislação urbana às reivindicações do MNRU, foram analisadas as possíveis causasda aceitação dessas teses por parte dos representantes do capital imobiliário, dado que, em notório contraste com a reação inicial, a última votação do Estatuto da Cidade obteve unanimidade. Nesse ponto, as seguintes hipóteses, possivelmente complementares, foram investigadas: a) a de que os efeitos da experimentação municipal, anterior à aprovação do Estatuto da Cidade, na aplicação de certos instrumentos da reforma urbana (como a outorga onerosa do direito de construir e as operações urbanas ou interligadas, por exemplo) podem ter sido amplamente benéficos aos empreendedores privados, os quais, por essa razão, teriam passado a apoiá-los; 13 b) a de que a “perda de competitividade” das cidades brasileiras no âmbito da economia globalizada, determinada pelas “deseconomias urbanas” e pela degradação social e ambiental, possa ter incluído o tema da reforma urbana no contexto das preocupações dos setores dominantes do capitalismo brasileiro; c) a de que, por força dos compromissos assumidos pelo Brasil na Conferência Habitat II, realizada pela ONU em 1996, cujos resultados foram cobrados no encontro denominado Istambul+5, ocorrido em Nova York, em 2001, o governo brasileiro tenha tomado interesse pela pronta aprovação da “lei de reforma urbana”. Organização da exposição A exposição se organiza em seis capítulos, ao longo dos quais é feita a revisão bibliográfica do tema abordado. No capítulo 1 — Referências conceituais —, são preenchidos os conceitos de “reforma urbana”, “direito à cidade” e “função social da propriedade”, fundamentais para a contextualização e a delimitação do trabalho. Abordam-se as características do processo de urbanização no Brasil, assim como as origens e os efeitos do planejamento urbano, substratos para a construção propositiva do direito à cidade como elemento estruturador do ideário da reforma urbana. Contextualiza-se historicamente o direito de propriedade nas sociedades ocidentais, assim como a evolução, no Brasil, do princípio da função social da propriedade, fundamento do capítulo constitucional da política urbana e do Estatuto da Cidade. No capítulo 2 — Legislação urbanística e ação estatal na configuração das cidades brasileiras —, são examinados os efeitos das leis urbanísticas, em especial o zoneamento e as normas de uso e ocupação do solo, bem como o papel da ação do aparelho estatal na formação dos preços imobiliários e nos processos de segregação sócio-espacial. No capítulo 3 — Cidade planejada e direito conquistado —, com o objetivo de contextualizar o significado atribuído pela Constituição de 1988 ao plano diretor, o qual, por sua vez, deu ensejo à experimentação municipal que antecedeu a aprovação do Estatuto da Cidade, analisa-se a evolução dos processos de planejamento urbano, desde os modelos regulatórios, passando pelas diversas acepções do denominado “planejamento estratégico”, até as práticas participativas, um dos pilares da reforma urbana. Em paralelo, são registrados os 14 esforços hermenêuticos e propositivos que levaram à consolidação do direito urbanístico como ramo do direito público, dotado de autonomia. No capítulo 4 — Estatuto da Cidade: de onde veio essa lei? —, são analiticamente comentadas as primeiras iniciativas no sentido da institucionalização da problemática urbana, a receptividade da Emenda Popular da Reforma Urbana no âmbito da Constituinte, bem como a arena política que resultou no capítulo constitucional específico desse tema. São igualmente apresentados o projeto original do Estatuto da Cidade e as demais propostas de regulamentação constitucional, assim como analisadas as reações críticas ocorridas dentro e fora do Congresso Nacional. No capítulo 5 — Tramitação legislativa: do conflito à unanimidade —, são examinados os principais pontos polêmicos da proposta, as negociações promovidas entre representantes do MNRU e do empresariado, as marchas e contra-marchas do processo legislativo até a formação do consenso, assim como as dificuldades surgidas no âmbito do Poder Executivo, por ocasião da sanção do texto aprovado no Congresso. Ao final deste capítulo, o conteúdo e a finalidade instrumental do projeto aprovado são sintetizados e classificados à luz de seus princípios e propósitos, sejam eles de natureza distributiva ou redistributiva, no sentido de auxiliar a análise crítica das circunstâncias que permitiram a formação do consenso parlamentar. No capítulo 6 — O conteúdo expresso e o significado não explícito do Estatuto da Cidade —, com o objetivo de aferir-se o grau de êxito da vertente legislativa do MNRU, é feita a comparação formal, registrada numa tabela, das propostas contidas na Emenda Popular da Reforma Urbana com a legislação aprovada. De outra parte, procura-se demonstrar que, sob o aparente consenso que levou à aprovação unânime do Estatuto da Cidade, há um conflito latente, sobretudo no que se refere aos instrumentos legais de potencial redistributivo, voltados para a efetividade da função social da propriedade. Na Conclusão, consolidam-se as respostas encontradas para as indagações que orientaram a pesquisa e confirmam-se as hipóteses suscitadas. Enfatiza-se a dedução de que os aspectos distributivos do Estatuto da Cidade tendem a ter melhor curso que seus propósitos redistributivos. Afirma-se, por isso, que, tendo sido vitorioso em sua vertente legislativa, o MNRU provavelmente precisará voltar seus esforços para ações concretas no território da cidade, no sentido de assegurar efetividade aos preceitos legais conquistados. Nesse contexto, considera-se que cabe aos planejadores urbanos, valendo-se da especificidade de sua formação técnica, contribuir para a produção de um conhecimento crítico que venha a ser coletivamente apropriado. 15 1 – REFERÊNCIAS CONCEITUAIS 1.1 Reforma urbana e direito à cidade 1.1.1 Características do processo de urbanização no Brasil A concentração progressiva e acentuada da população em núcleos urbanos caracterizou o Brasil a partir da crise mundial de 1929, que alcançou o ciclo do café paulista e empurrou grandes contingentes de desempregados em direção às cidades (Chaffun, 1996, p. 18-19). Até então, quase restritas ao litoral, ou a suas proximidades, e ainda expressando a natureza colonial dos ciclos da exploração econômica do Brasil, as cidades haviam 16 desempenhado fundamentalmente as funções de ocupar, dominar e extrair o máximo proveito econômico dos territórios em que se inseriam. Mesmo nos inícios do Brasil republicano, até o primeiro quartel do século XX, predomina a atividade rural voltada para a exportação e, “não por acaso, as cidades, verdadeiros enclaves, desenvolvem-se exatamente naquelas áreas onde as atividades econômicas estão relacionadas ao dinamismo da demanda exterior” (Schmidt e Farret, 1986, p. 7). No contexto da Revolução de 19302, mas, sobretudo, impulsionados pela crise econômica mundial, que afetou diretamente as atividades agromercantis, expressivos contingentes populacionais se dispersaram em direção a novas fronteiras internas e aos então ainda incipientes núcleos urbanos. Nesse período, “ocorre a emergência da burguesia comercial e industrial, o crescimento do mercado urbano de bens e serviços e, com a centralização das funções políticas e decisórias, a acentuada participação do Estado nas esferas econômica e social” (Schmidt e Farret, op. cit., p. 7 e 8). É a “cidade do populismo”, em que se regulamenta o uso da força de trabalho (no sentido de permitir o desenvolvimentodo capital industrial e comercial), se inicia uma “política habitacional de fato, cuja incumbência era dos Institutos de Aposentadoria e Pensão, das várias categorias de trabalhadores” (Schmidt e Farret, op. cit., p. 13)3, enquanto a estrutura produtiva se orienta para a “produção dos bens salariais de consumo (vestuário, têxtil, alimentos etc.)” (Ribeiro, L. C. Q., 2003, p. 20). Após um período de convivência “pacífica” entre a oligarquia rural e a nascente burguesia industrial, esta começa a predominar em relação àquela. As cidades que já estavam voltadas para as atividades agro-exportadoras, nas quais havia concentração de serviços e facilidades administrativas, propiciavam as condições mais adequadas à política de industrialização por substituição de importações, que, ao valer-se dessas bases pré-existentes e desenvolvê-las, promove a expansão não apenas da própria atividade industrial, mas também dos setores de comércio e de serviços. 2 Mesmo sem tocar diretamente nos interesses da oligarquia rural, a Revolução de 1930 rompeu com o modelo agrário-exportador ao criar estímulos para a economia urbano-industrial. 3 Mais adiante, em 1964 e 1966, ambas as políticas, regulação das relações de trabalho e investimentos em programas habitacionais, se combinariam mais explicitamente. O governo militar cria o Sistema Federal e o Banco Nacional de Habitação (BNH) por meio da Lei nº 4.380/64 e institui o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) nos termos da Lei nº 5.107/66. “Sob o sistema anterior, o trabalhador tinha direito a receber uma indenização considerável ao ser despedido, e também à estabilidade depois de dez anos de emprego contínuo” (Schmidt e Farret, 1983, p. 31). O FGTS, formado pelo depósito mensal de 8% da folha salarial, além de desonerar os empregadores dos pesados custos e responsabilidades da regra anterior, criava condições de financiamento do setor da construção civil e permitia o atendimento de parcela da demanda habitacional. Como expressou a então secretária do governo de Carlos Lacerda no Estado do Rio de Janeiro e futura presidente do BNH, Sandra Cavalcanti, em famosa carta dirigida ao primeiro presidente do regime militar, marechal Castello Branco: “a Revolução necessita urgentemente agir em favor das massas urbanas”. 17 De outra parte, com a consolidação de um “mercado de âmbito nacional para a indústria de transformação”, as unidades de produção que operavam em maior escala, ao buscarem acesso “à parcela mais substancial” desse mercado, tenderam a localizar-se “nos centros mais populosos do Sudeste”, destacadamente São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte (Barat e Geiger, 1973, apud Schmidt e Farret, 1983, p. 17). A Segunda Guerra Mundial acelera a atividade industrial e, no pós-guerra, a hegemonia do setor fabril enseja dois novos papéis para as cidades no processo de desenvolvimento nacional: (i) absorver os crescentes contingentes populacionais que, desempregados, ora pela recessão econômica, ora pela crescente capitalização da atividade rural, passam a buscar trabalho nas áreas urbanas; e (ii) propiciar ao processo produtivo industrial não apenas a infra-estrutura física para a sua expansão, mas as condições necessárias à reprodução de sua força de trabalho, em especial, a implementação, para usar a expressão hoje corrente, de um “marco regulatório” para as relações trabalhistas, expresso na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), de 1943, ainda vigente. Embora o Brasil se caracterize por um processo de urbanização de perfil territorial, funcional e populacional mais disperso que o ocorrido na maior parte da América Latina4 e, para alguns autores, haja um distanciamento entre os processos de urbanização e industrialização no Brasil, no sentido de que, “historicamente, somente uma pequena parte da população brasileira concentrada nas áreas urbanas tem sua renda vinculada diretamente às atividades industriais” (Schmidt e Farret, 1986, p. 8), o padrão assumido pela industrialização no País, caracterizado por investimentos concentrados na região Centro-Sul, em especial a região econômica dominada pela cidade de São Paulo, e pela produção de bens de consumo de luxo, os chamados bens de “alto valor agregado”, constitui fator determinante da concentração da renda e do acesso a bens e serviços urbanos, de um lado, e do estímulo à mobilidade geográfica, de outro. Nas palavras de L. C. de Queiroz Ribeiro (2003, p. 20), “esta estrutura produtiva foi o resultado daquilo que Celso Furtado chamou de ‘processo de modernização’, em vez de desenvolvimento, através do qual se importou um modelo cultural dos países desenvolvidos. Para viabilizar esta ‘modernização’ foi necessário realizar e manter uma estrutura de desigualdade com forte concentração da renda e da riqueza”. Ainda segundo Celso Furtado (1963), a dinamização econômica do Centro-Sul foi em grande medida subsidiada pelas demais regiões, especialmente o Nordeste, pois a política 4 Com exceção do Brasil e da Colômbia, os sistemas urbanos na América Latina se caracterizam pela articulação em torno de apenas uma grande cidade (região metropolitana), que acumula funções econômicas, administrativas, políticas e simbólico-culturais, a par de concentrar até um terço de toda a população urbana nacional. 18 de substituição de importações forçava o restante do País a adquirir produtos do Sudeste, ainda que a preços mais elevados que os dos importados. A par de promover a concentração social e regional da renda e da riqueza, o dinamismo econômico, fomentado pelo aparato institucional e pelos investimentos públicos no fortalecimento do parque industrial, estimulou movimentos migratórios em direção aos núcleos urbanos. O número de cidades com mais de vinte mil habitantes “saltou de 51 em 1940 para 147 em 1960” (Martine, 1995, p. 4). Como também reconhecem Schmidt e Farret (1986, p. 9), “tal processo, nos anos 60, gera um quadro de desequilíbrio no mercado de trabalho, de distorções na distribuição da renda e, mais significativamente, de deficiências no atendimento das crescentes demandas por bens e serviços de consumo coletivo, principalmente no que se refere às camadas média e baixa da população”. A partir de 1964, ano do golpe político-militar, os investimentos na melhoria da infra-estrutura nacional, especialmente os sistemas de energia, transporte e comunicação, ao facilitarem a circulação de bens e pessoas, aceleram a migração rural-urbana, que se combina com elevadas taxas de crescimento demográfico. No chamado “período desenvolvimentista”, a população brasileira passa a concentrar-se maciçamente em cidades e em cidades cada vez maiores, conformando um perfil metropolitano no processo de urbanização5. Os principais municípios, surpreendidos pela rápida evolução desse processo — que em apenas trinta anos transformou de rural para urbano o perfil demográfico do País —, passaram a lidar com seus efeitos sem dispor de meios políticos, administrativos e financeiros suficientes nem de instrumentos jurídicos adequados. Manietado em suas ações e crescentemente influenciado pelos setores empresariais dominantes na economia urbana6, o aparelho estatal dirigiu, em grande medida, seus escassos recursos para investimentos de interesse privado e, sobretudo nas décadas de 1970 e 80, adotou normas e padrões urbanísticos permeáveis aos movimentos do capital incorporador (Smolka, 1987)7. 5 Enquanto, na década de 1940, as áreas rurais e localidades com menos de vinte mil habitantes responderam por 58% do crescimento populacional do País e as cidades com mais de quinhentosmil habitantes por 28%, na década de 1970, o campo e as localidades pequenas representaram apenas 10% do chamado “crescimento intercensitário”, cabendo às cidades com mais de quinhentos mil habitantes a responsabilidade por nada menos que 58% do crescimento demográfico nacional (Martine, 1995, p. 4). 6 Segundo L. C. de Queiroz Ribeiro (2003, p. 21), três aspectos marcantes “estão na raiz de nossos problemas urbanos: (I) a industrialização com a formação concomitante de uma ‘massa marginal’ constituída por um excessivo exército industrial de reserva; (II) o bloqueio da formação da moderna cidadania; e (III) a constituição de poderosos interesses mercantis ligados à acumulação urbana (...)”. Para esse último aspecto, Ribeiro utiliza a expressão ‘poder urbano corporativo’, na tentativa de definir um estrato socioeconômico que se tem valido do poder estatal nas cidades para criar ‘amplas possibilidades de ganhos patrimoniais”. 7 A atividade de incorporação imobiliária foi regulamentada no Brasil por meio da Lei nº 4.591, de 16 de dezembro de 1964. 19 A urbanização combinava a concentração econômica e regional com um elevado grau de flexibilidade na expansão das fronteiras físicas e sociais do território urbano. A chamada “urbanização por expansão de periferias”, decorrência da constituição de um pólo moderno na estrutura produtiva, implicava, em contraponto, “a manutenção e expansão de pólos ‘atrasados’ — como mecanismos com a função de acomodar na cidade a ‘massa marginal’ produzida pelo dinamismo do desenvolvimento” (Ribeiro, L. C. Q., 2003, p. 21). 1.1.2 Origens e efeitos do planejamento urbano Diante da configuração desse quadro, e no próprio âmbito do modelo desenvolvimentista, consolidou-se a idéia de que a ocupação e a expansão do solo urbano deveriam ocorrer sob a ótica de um processo de planejamento. Nesse sentido, a formulação de uma política urbana, tanto no contexto estratégico nacional quanto em seus aspectos mais estritamente locais, ocorreria sob o controle de uma esfera técnica da administração pública. Segundo Raquel Rolnik (1997, p. 352), “a base desta concepção é uma visão que alia a tradição do urbanismo higienista, em sua versão funcionalista pós-Carta de Atenas, a uma Economia Política Desenvolvimentista com forte protagonismo do Estado”. Essa “crença nos milagres do planejamento” (Rolnik, op. cit., p. 351), fundada no domínio de uma técnica considerada capaz de impor racionalidade às ocupações urbanas, que desde os Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna (CIAM)8 havia empolgado urbanistas, sobretudo entre os filiados a correntes ideológicas de esquerda, encontrou, após o golpe de 1964, fértil território, ainda que no campo oposto do cenário político. A crescente restrição aos canais de manifestação popular, inclusive os decorrentes da representação parlamentar, deslocou o poder, no interior do aparelho estatal, dos estratos de representação democrática para os centros técnico-burocráticos. “Conseqüentemente, a política subordinou-se ao campo da administração pública e sujeitou-se a regras de 8 Em decorrência das conflituosas divergências entre arquitetos “acadêmicos” e “modernos”, que, em 1927, integravam o júri do concurso de projetos para a sede da Sociedade (ou Liga) das Nações (antecessora da ONU) em Genebra, na Suíça, deflagrou-se em Paris um movimento, “destinado a afirmar um sólido ponto de vista” sobre os problemas da arquitetura e do urbanismo, que culminou na fundação dos Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna (CIAM). Já no Manifesto do 1º CIAM, realizado em La Sarraz, Espanha, evidenciaram-se os aspectos funcionais a que o urbanismo moderno deveria adequadamente atender: habitar, trabalhar e recrear-se (mais adiante acrescentou-se a função de circular), bem como os seus objetos: a ocupação do solo, a organização da circulação e a legislação. Nos Congressos seguintes, realizados respectivamente em Frankfurt, Bruxelas, Atenas e Paris (5º CIAM, em 1937), essa doutrina se aprofundou. No 4º CIAM, ocorrido em 1933 num navio de cruzeiro entre “três mares”: o Egeu, o Adriático e o Mediterrâneo, elaborou-se a Carta de Atenas como “uma resposta ao atual caos das cidades. Posta em mãos das autoridades, detalhada, comentada, iluminada por uma explicação suficiente, é o instrumento pelo qual será conduzido o destino das cidades”. A Carta de Atenas, inicialmente publicada apenas nos “anais técnicos”, foi tornada pública em 1941, com comentários explicativos de Le Corbusier e de Jeanne de Villeneuve, baronesa de Aubigny (CIAM, La Carta de Atenas, 1950. Livre tradução das citações e grifos nossos). 20 racionalidade derivadas de sistemas finalistas, ao invés de basear-se em mecanismos para a geração de consensos” (Schmidt e Farret, 1986, p. 25). Deliberadamente, quando vista sob a ótica da “dinâmica própria do setor imobiliário” (Smolka, 1987, p. 41 e 55), ou involuntariamente, quando percebida no contexto racionalista e bem intencionado do urbanismo dito “moderno”9, o fato é que o planejamento e a gestão tecnocrática alimentaram o processo de “espoliação urbana”10, caracterizado, de um lado, pela apropriação privada dos investimentos públicos em setores qualificados da cidade e, de outro, pela segregação de grandes massas populacionais em favelas, cortiços e loteamentos periféricos, excluídas do acesso a bens, serviços e equipamentos urbanos essenciais. 1.1.3 O ideário da reforma urbana e os princípios do direito à cidade Cada vez mais agudas, essas carências sociais ensejaram a formação de grupos de pressão organizados, que passaram a exigir providências do poder público. No final dos anos 1970, a partir “de iniciativas de setores da igreja católica, como a CPT — Comissão Pastoral da Terra” (Maricato, 1997, p. 310), essas organizações, conhecidas como movimentos sociais urbanos, aliadas a entidades profissionais de arquitetos, engenheiros, geógrafos e assistentes sociais, constituíram o Movimento Nacional pela Reforma Urbana (MNRU)11. Desde então, a proposta da reforma urbana tem enfrentado reações, tanto no âmbito de interesses patrimoniais contrariados quanto no contexto de posições ideológicas conservadoras. Mas, afinal, o que é “reforma urbana”? A expressão reforma urbana não é recente. Com significado oposto àquele que lhe é hoje atribuído (o de ideário político de natureza transformadora das relações sociais vigentes), “comumente recobriu (...) intervenções estatais autoritárias de conteúdo anti-popular, como a Reforma Passos, no Rio de Janeiro (1902-1906)” (Souza, 2002, p. 155), no âmbito do 9 Em sua última entrevista, concedida ao jornal Zero Hora, de Porto Alegre, o arquiteto Demétrio Ribeiro, respeitado professor declaradamente modernista, falecido em 2003, ao responder a uma pergunta sobre como avaliava seu trabalho de planejador urbano declarou: “Acho que desempenhei um papel útil (...) no sentido de avançar a noção civilizada do que é uma cidade, [de] que ela deve ter uma legislação”. Na mesma entrevista, Demétrio Ribeiro identifica e critica uma “tendência recente”, sintetizada, segundo ele, “por uma senhora que foi guru do urbanismo da Erundina na primeira gestão do PT em São Paulo: ‘Passou a época do planejamento, estamos na época do gerenciamento; passou a época da legislação, estamos na época da negociação” (Ribeiro, D., 2003). 10 Na já clássica definição de Lúcio Kowarick (1979, p. 59), a “espoliação urbana” se expressa, entre outras manifestações, pelo “somatório de extorsões que se opera através da inexistência ou precariedade dos serviços de consumo coletivo que — conjuntamente com o acesso à terra e à habitação — se apresentam como socialmente necessários à subsistênciadas classes trabalhadoras”. 11 Em outubro de 1988, em seguida à promulgação da nova Constituição e a partir da convocação do Seminário Nacional pela Reforma Urbana, o Movimento organizou o primeiro Fórum Nacional de Reforma Urbana, denominação que passou a caracterizar esse conjunto de entidades organizativas (Grazia, 2003, p. 54). 21 “urbanismo higienista”, inspirado no Plano Hausmann, implementado em Paris no final do século XIX. Nos anos 1960, no contexto das chamadas “reformas de base” que marcaram o governo João Goulart (1961-1964), a expressão ressurge com outro conteúdo. Em 1963, o Seminário de Habitação e Reforma Urbana, organizado pelo Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), no Hotel Quitandinha, em Petrópolis (RJ), que ficou conhecido como “Seminário do Quitandinha”, do qual participaram “tanto políticos (como o deputado Rubens Paiva, posteriormente assassinado durante o regime militar) quanto técnicos e intelectuais” (Souza, 2002, p. 156-157), resultou num documento que, embora marcado pela ênfase na luta pela moradia, já defendia preceitos de maior justiça social no território das cidades. Esse movimento inicial, contudo, a par de não incluir organizações populares, ou talvez por isso mesmo, não encontrou repercussão que se comparasse, por exemplo, à bandeira da reforma agrária. De outra parte, embora se voltasse para a idéia de que as cidades deveriam oferecer condições de vida socialmente mais justas, predominava nos documentos produzidos nessa época o enfoque do planejamento calcado na boa técnica urbanística, sem menção a processos participativos que incorporassem, à formulação e à implementação das políticas públicas, as demandas e opiniões dos diferentes segmentos da população urbana, princípios que fundamentariam a proposta da reforma urbana vinte anos mais tarde. Com o golpe militar de 1964, a nascente bandeira da reforma urbana foi reprimida pelo aparato autoritário. Ao relatar o caso de Brás de Pina, no Rio de Janeiro, onde moradores da favela, reunidos numa Associação, resistiram com êxito à tentativa de remoção para conjuntos distantes, como queria o governo de Carlos Lacerda, Carlos Nelson F. dos Santos descreve a situação política da época, não sem alguma ironia, característica de seu texto: “Os tempos não eram dos mais favoráveis a oposições. (...) A incerteza era muito grande e, ainda que o autoritarismo que veio depois não se tivesse revelado com toda a sua força, as pessoas e os grupos estavam bastante tímidos em relação a manifestações de opiniões contrárias às oficiais” (Santos, C. N. F., 1981, p. 32). Nesse período, o planejamento de viés tecnocrático passa a instrumentalizar a política de desenvolvimento urbano, subordinada às exigências da racionalidade econômica, por meio das quais “a distribuição dos equipamentos e serviços é, freqüentemente, realizada conforme o lugar onde os critérios de rentabilidade e de retorno do capital investido são mais atendidos” (Grazia, 2003, p. 54). Para autores como Marcelo Lopes de Souza (2002, p. 157), a despeito desse período de “hibernação” durante o regime militar (1964-1985), a semente da reforma urbana estava 22 plantada, tendo sido “ampliada” no âmbito dos movimentos sócio-políticos dos anos 1980. No entanto, segundo muitos dos seus líderes, ao ressurgir no contexto da redemocratização política e da convocação da Assembléia Nacional Constituinte, ocorrida em 1986, a proposta da reforma urbana se modifica. Nas palavras de Grazia de Grazia (2003, p. 54), é uma “formulação totalmente nova em relação à que foi realizada na década de 60 [do século XX]”. Ampliado ou transformado em relação ao que se propunha nos anos 1960, em que consiste o ideário da reforma urbana? Na tentativa de responder a essa questão, Ana Amélia da Silva (1991, p. 7) coletou definições de alguns autores que se têm dedicado ao tema. Para Haroldo Abreu (1986): “Reforma Urbana implica uma nova concepção intelectual e moral da sociedade (e uma nova ética urbana) que condene a cidade como fonte de lucros para poucos e pauperização para muitos”. De forma similar, L. C. de Queiroz Ribeiro (1986) afirma: “Trata-se de uma nova ética social (entendida enquanto valores básicos que devem orientar a vida na cidade). Esta ética pretende politizar a discussão sobre a cidade e ao mesmo tempo servir de plataforma política aos movimentos sociais urbanos fornecendo um horizonte que ultrapasse as questões locais e específicas. A ética (...) se compõe de dois elementos: o primeiro deve ser a condenação das práticas econômicas que tornam a cidade um objeto de lucro; (...) por outro lado, o acesso à cidade deve ser um direito: direito de ir e vir à cidade, sem que seja necessário pagar um tributo àqueles que mercantilizam o solo urbano (...). Os que não podem pagar tributo urbano (na forma de aluguel, preço da terra, prestação do BNH, tarifas de transporte etc.) são obrigados a habitar simulacros de cidade, verdadeiros guetos sociais (...).” No mesmo passo, no entendimento de Luiz Paulo Teixeira Ferreira (1988): “Reforma Urbana é mudar a forma de organização da cidade. É não fazer da cidade um grande gueto dos trabalhadores e o paraíso dos ricos. O que é a cidade hoje? É o paraíso dos ricos, uma cidade bonita, com recursos, e a periferia é o que está fora da cidade, o local onde moram os pobres. É o apartheid.” Nas palavras de Miguel Baldez (1989), “é essa não-cidade, ou sobra de cidade — em que se amontoa sem qualquer resquício de respeito à sua dignidade, a classe trabalhadora —, que precisa ser negada; e Reforma Urbana significa precisamente negar esta não-cidade garantindo às camadas exploradas e oprimidas da população brasileira estado de cidadania, ou, explicitamente, acesso aos bens concretos de vida: habitação, saúde, educação, transportes etc.”. Como se depreende das citadas definições, ainda que ancorado em princípios de justiça social, não se pode negar que as proposições da reforma urbana examinam “a cidade sob o ângulo do consumo coletivo, isto é, com centro nas questões da apropriação social do espaço e não nas questões ligadas às relações de produção” (Cariello Filho, 1999, p. 29). De 23 fato, no âmbito do que se convencionou chamar nova sociologia urbana12, abordagem crítica da urbanização nas sociedades capitalistas, compreende-se que, nesse sistema econômico, “a distribuição dos locais residenciais segue as leis gerais da distribuição dos produtos e, por conseguinte, opera os reagrupamentos em função da capacidade social dos indivíduos, isto é, (...) em função de suas rendas, de seus status profissionais, de nível de instrução, de filiação étnica, da fase do ciclo de vida etc” (Castells, 2000, p. 249). A segregação social no espaço seria, portanto, “a expressão específica dos processos que visam à reprodução simples da força de trabalho, mas estes processos estão sempre inseparavelmente articulados com o conjunto das instâncias da estrutura social” (Castells, 2000, op. cit., p. 266). Ainda para Manuel Castells (apud Cariello Filho, 1999, p. 33), os diferenciados padrões de consumo dos bens e serviços urbanos são elementos fundamentais na estruturação das cidades: “o essencial dos problemas que se consideram urbanos estão, de fato, ligados aos processos de ‘consumo coletivo’, ou ao que os marxistas chamam de organização dos meios coletivos de reprodução da força de trabalho. Isto é, dos meios de consumo objetivamente socializados e que, por razões históricas específicas, são essencialmente dependentes, por sua produção, distribuição e gestão, da intervenção do Estado”. O papel do Estado nesse contexto passa a ser visto comoum instrumento de manutenção e reprodução dessas condições de apropriação diferenciada do ambiente urbano e o planejamento como meio técnico-político para operar esse propósito. Nos marcos da nova sociologia urbana, a despeito de várias divergências que guardassem sobre outros temas, a abordagem dos principais autores “era unificada na denúncia do planejamento como um instrumento a serviço da manutenção do status quo capitalista” (Souza, 2002, p. 26). David Harvey chega a afirmar que “a tarefa do planejamento é contribuir para o processo de reprodução social e, ao fazê-lo, o planejador adquire poderes em face da produção, manutenção e gestão do ambiente construído que lhe permitem intervir no sentido de manter e criar condições para um ‘crescimento equilibrado’ e conter conflitos civis e disputas partidárias por meio de repressão, cooptação ou integração”.13 No mesmo sentido, na definição de Castells, a planificação urbana é a “intervenção do político sobre a articulação específica das diferentes instâncias de uma formação social no âmago de uma unidade coletiva de reprodução da força de trabalho, com a finalidade de assegurar sua reprodução ampliada, de regular as contradições não antagônicas, assegurando assim os interesses da classe social no conjunto da formação 12 Precedidas das importantes publicações do filósofo francês Henri Lefebvre, como O direito à cidade e A revolução urbana, nos anos 1970 foram publicadas “duas obras seminais” (Souza, 2003, p. 25), que marcaram esse pensamento crítico de inspiração marxista: A questão urbana, de Manuel Castells, que já conta 22 edições em 7 línguas, e A justiça social e a cidade, de David Harvey. 13 Harvey, 1985, p. 175 e 176, apud Souza, 2002, p. 27 (livre tradução). 24 social e a reorganização do sistema urbano, de modo a garantir a reprodução estrutural do modo de produção dominante” (Castells, 2000, p. 376-377). Desse ponto de vista, o planejamento urbano posto em prática no Brasil — já na “cidade do populismo”, mas especialmente na fase “desenvolvimentista” pós-1964, que se valia dos chamados Planos Diretores de Desenvolvimento Integrado — passou a ser percebido como expressão de um modelo tecnocrático, porque apoiado “em um saber técnico”, usado politicamente para responder “aos interesses burgueses das classes dominantes na instituição da sociedade do trabalho” (Silva, A. A., p. 10). Ainda na expressão de Ana Amélia da Silva (op. cit., p. 10): “Nos anos 60/70, os Planos Diretores acentuaram seus aspectos tecnocráticos e autoritários acirrando os problemas de desigualdades sociais no espaço das cidades e tornando-se avessos à perspectiva de participação popular nos destinos das cidades, pois, com raras exceções, apareciam compromissados com ‘os interesses econômicos através de instrumentos como cooptação, lobby, ou outras formas de pressão utilizadas pelos que conseguiam ter acesso à mesa centralizada de decisões.”14 Para a corrente de opinião que se articulava em torno da proposta de reforma urbana, diferentemente do que afirmavam, e, em certa medida, ainda afirmam, profissionais e pesquisadores mais vinculados ao modelo tecnocrático15, os problemas urbanos brasileiros não decorrem da “falta de planejamento” ou do desrespeito às suas diretrizes e determinações, mas do exato contrário: de uma atitude planejadora que teria propiciado os meios instrumentais, técnicos e legislativos, para a reprodução, no espaço da cidade, dos elementos de discriminação social, no sentido do acesso diferenciado aos bens e serviços urbanos. Em outras palavras: “O planejamento — principalmente por meio de Planos Diretores e de zoneamentos — estabelece uma cidade virtual, que não se relaciona com as condições reais de produção da cidade pelo mercado, ignorando que a maior parte da população tem baixíssima renda e nula capacidade de investimento numa mercadoria cara: o espaço construído. O planejamento urbano, e sobretudo o zoneamento, define padrões de ocupação 14 Nessa passagem, ao lado de trazer à tona a expectativa da “participação popular” como núcleo do ideário da reforma urbana, Ana Amélia adota análise de Raquel Rolnik (em Planejamento, cidade e cidadania, 1990, mimeo.) e, de maneira ainda mais explícita, espelha a comentada abordagem de Castells e Harvey. 15 Ver, a respeito, dissertação de mestrado de Diana Meirelles da Motta (1998), que se dedica a identificar as “principais deficiências institucionais e legais [com vistas a melhorar] a eficácia do planejamento e da gestão do uso do solo urbano”. Deve-se observar, contudo, que importantes trabalhos recentemente publicados pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) no campo da pesquisa urbana, como a Série “Caracterização e Tendências da Rede Urbana do Brasil”, que avaliam instrumentos de planejamento e gestão do uso do solo urbano em nove aglomerações urbanas (Belém, Natal, Recife, Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo, Campinas, Curitiba e Porto Alegre), ainda que conservem a abordagem de viés tecnocrático de que a “desarticulação entre os instrumentos (...) contribui para a ineficiência de cada um deles e do conjunto”, passaram a admitir a hipótese de que “a ação pública na regulação do parcelamento, uso e ocupação do solo urbano, restrita ao âmbito de uma parcela minoritária da população (...), pode contribuir para a escassez de terra urbana acessível (...) para a população pobre” (IPEA et al., 2002, p. 25, grifo nosso). 25 do solo baseados nas práticas e lógicas de investimento de classe média e de alta renda e destina o território urbano para esses mercados. (...) Dessa forma, os zoneamentos acabam por definir uma oferta potencial de espaço construído para os setores de classe média e alta muito superior a sua dimensão, ao mesmo tempo em que geram uma enorme escassez de localização para os mercados de baixa renda, já que praticamente ignora sua existência.” (Rolnik, Saule et al., 2002, p. 25). A inconformidade com esse quadro de apropriação desigual do capital socialmente produzido nas cidades ensejou o conjunto dos princípios e proposições que, ao longo do tempo, vêm conformando os conceitos de “reforma urbana” e de “direito à cidade”. Entidades populares, instituições religiosas, grupos políticos e associações profissionais passaram a se articular em torno do objetivo de democratizar o território urbano, em contraposição aos modelos de segregação prevalecentes nas cidades brasileiras. Nos termos da Carta de Princípios do II Fórum Nacional de Reforma Urbana, realizado em 1989, as seguintes premissas fundamentaram essa proposta: “a) A função social da propriedade e da cidade, entendida como o uso socialmente justo e ecologicamente equilibrado do espaço urbano; b) O direito à cidadania, entendido em sua dimensão política de participação ampla dos habitantes das cidades na condução de seus destinos, assim como o direito de acesso às condições de vida urbana digna e ao usufruto de um espaço culturalmente rico e diversificado.” Ainda no marco divisório entre o planejamento fundado no saber técnico e a gestão urbana participativa, vários autores, como Miguel Baldez, Luiz Cesar Queiroz Ribeiro e Raquel Rolnik, alertam para a necessidade de que não sejam confundidas as expressões “reforma urbana” e “desenvolvimento urbano”. Ribeiro, por exemplo, afirma que “o termo desenvolvimento urbano, tão usual entre nós, integra e veicula uma visão ideológica que tecnifica a discussão sobre a nossa realidade urbana. Neste sentido, a expressão reforma urbana pretende retirar a cidade das prisões ideológicas do discurso competente(...) que, a partir dos anos 60 [do século XX], com o planejamento urbano como um complexo aparato governamental, objetivava traduzir na cidade a ideologia do desenvolvimentismo” (apud Silva, A. A., op. cit., p. 11). No âmbito da reforma urbana, “a noção de igualdade se amplia e não se reduz apenas à demanda de igualdade perante a lei” (Silva, A. A., op. cit., p. 11) e de acesso democrático aos bens e serviços urbanos, mas se expressa ainda na formulação legal do direito de participação política, abrangendo, mais que a escolha dos governantes, a formulação das políticas públicas e a própria gestão das cidades. Trata-se não mais de governar para as pessoas, mas de administrar com as pessoas, no passo do que, por exemplo, percebeu Hannah Arendt16, ao afirmar que “o debate público existe para lidar com aquelas coisas de interesse 16 Citada por Celso Lafer na Introdução à 1a edição brasileira da obra A condição humana. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1981. 26 coletivo que não são suscetíveis de serem regidas pelos rigores da cognição e que não se subordinam, por isso mesmo, ao despotismo do caminho de mão única de uma só verdade”. Atuante em dois pólos, o primeiro no âmbito do território físico e político das cidades e o segundo no contexto da proposição de normas jurídicas especiais (Ribeiro, A. C. T., 1993), o movimento político que se formava em torno da reforma urbana não propunha a substituição do modo de produção capitalista por um projeto socialista17, mas a articulação de uma luta pela participação na formulação e na implementação das políticas públicas e pela distribuição mais eqüitativa dos bens e serviços produzidos coletivamente nas cidades, ainda que nos marcos do regime de mercado. Alguns partícipes da avaliação crítica do processo de urbanização nas sociedades capitalistas — análise que fundamenta a proposta da reforma urbana — são céticos em relação ao conteúdo propositivo do ideário “reformista”. Para esse segmento de opinião, “a luta por uma nova cidade — igualitária — não pode ser dissociada da luta por uma sociedade igualitária, livre da exploração de classe, das relações de produção e de propriedade e do Estado capitalista” (Cariello Filho, 1999, p. 151). Para outros, contudo, a crítica ao planejamento, ao contrário de conduzir à rejeição da idéia de uma ação política transformadora nos limites da ordem econômica capitalista, deve ser traduzida por uma nova atitude em relação a esse processo. Marcelo Lopes de Souza (2002, p. 28), por exemplo, ao admitir “que a crítica marxista contra o planejamento usualmente conduzido nos marcos de uma sociedade capitalista é, em si mesma, importante e reveladora”, questiona: “Por que dever-se-ia presumir que toda atividade de planejamento precisa enquadrar-se nos moldes descritos e condenados por essa crítica? Não se trata (...) apenas de aventar a hipótese de uma eventual sociedade pós-revolucionária e pós-capitalista, na qual, com a mais absoluta certeza, também existiria algum tipo de planejamento. Trata-se, antes, partindo-se da premissa de que as sociedades capitalistas são contraditórias e não monolíticas (negar isso equivaleria a abdicar do pensamento dialético e mesmo a negar a possibilidade de uma mudança substancial a partir do interior da própria sociedade), de indagar: por que dever-se-ia excluir, a priori, a possibilidade de um planejamento que, mesmo operando nos marcos de uma sociedade injusta, contribua, material e político- pedagogicamente, para a superação da injustiça social” (Souza, op. cit., p. 28-29). Parece ser esse o paradigma da reforma urbana. Nem as intervenções autoritárias, de natureza estética, que marcaram o urbanismo higienista do início do século XX, nem o desenvolvimentismo urbano-tecnocrático, caracterizado por normas elitistas de controle do 17 Ver, como exemplo de explicitação desse princípio, documento levado pelo IAB em 2003 à Conferência Nacional das Cidades, em que se afirma: “É preciso lembrar o marco histórico, econômico e institucional onde se situam tais propostas [de direito à Cidade Habitável, à Moradia e ao Crédito]: (...) a Nação pelo voto, e em conseqüência o aparelho estatal brasileiro, pretendem viver um Governo Popular e Democrático com ampla participação e discussão; vivemos num regime econômico capitalista; os direitos do consumidor, novos entre nós, ainda não foram incorporados aos usuários e mutuários da moradia e da cidade” (grifos nossos). 27 uso e ocupação do solo — ambas de natureza socialmente excludente —, mas um “conjunto articulado de políticas públicas, de caráter redistributivista e universalista, voltado para o atendimento do seguinte objetivo primário: reduzir os níveis de injustiça social no meio urbano e promover uma maior democratização do planejamento e da gestão das cidades” (Souza, op. cit., p. 158). Ou, nas definições, agora como normas legais do Estatuto da Cidade, de que o “direito a cidades sustentáveis” deve ser compreendido como o “direito à terra urbana, à moradia, ao saneamento ambiental, à infra-estrutura urbana, ao transporte e aos serviços públicos, ao trabalho e ao lazer, para as presentes e futuras gerações” (art. 2º, I) e que a “gestão democrática” deve ocorrer por meio da “participação da população e de associações representativas dos vários segmentos da comunidade na formulação, execução e acompanhamento de planos, programas e projetos de desenvolvimento urbano” (art. 2º, II). 1.2 Função social da propriedade 1.2.1 Contexto histórico do direito de propriedade Ainda que sem cometer a descabida ousadia de buscar percorrer o vasto campo doutrinário relativo ao seu conteúdo, não é possível, para os objetivos deste trabalho, desconhecer as raízes e a evolução da noção de “direito de propriedade” e, sobretudo, do conceito de “função social da propriedade”, que, a par de constituir um dos princípios constitucionais da própria ordem econômica no Brasil (CF, art.170, III), integra os fundamentos em que se ancoram tanto as propostas da reforma urbana quanto o próprio Estatuto da Cidade. Para Edésio Fernandes, a própria efetividade do Estatuto da Cidade depende da compreensão do significado e alcance da concepção, dada pela Constituição Federal e consolidada na nova lei, da função social da propriedade e da cidade: “Trata-se de princípio que vem sendo nominalmente repetido por todas as constituições brasileiras desde a de 1934, mas que somente na de 1988 encontrou uma fórmula consistente, que pode ser assim sintetizada: o direito de propriedade imobiliária urbana é assegurado desde que cumprida sua função social, que por sua vez é aquela determinada pela legislação urbanística, sobretudo no contexto municipal. (...) Rompendo de vez com a tradição civilista e com a concepção individualista do direito de propriedade imobiliária, que têm orientado grande parte da doutrina jurídica e das interpretações dos tribunais ao longo do processo de urbanização intensiva, e culminando assim um processo de reforma jurídica que começou na década de 1930, o que a Constituição de 1988 e o Estatuto da Cidade propõem é uma mudança do paradigma conceitual de reconhecimento e interpretação desse direito” (Fernandes, E., 2002a, p. 8-9). 28 Para compreender melhor essa assertiva, que contém relevante cunho pedagógico, é preciso situar o direito de propriedade, ainda que sumariamente, em seu contexto histórico. Segundo Darcy Bessone18, a propriedade é “um dos primeiros instintos do homem e dos seres em geral que,num primeiro momento, levados por necessidades biológicas, buscaram apropriar-se de coisas que lhes garantissem a subsistência”. Nesse sentido, ao decorrer da necessidade social de suprimento de bens, o direito de propriedade “não é um direito natural”. No entanto, “na análise da linha evolutiva do conceito de propriedade, fica claro que a tendência verificada foi a da passagem da propriedade coletiva para a individual, até se chegar, hoje, a um redirecionamento para sua origem primitiva, no que diz respeito à utilização voltada para o interesse da coletividade, em atendimento a uma função social” (Mattos, 2003, p. 23). Fustel de Coulanges ([1864] 2002, p. 65-67) afirma que, ao contrário das populações da Grécia e da Itália, que “desde a mais remota antigüidade sempre reconheceram e praticaram a propriedade privada”, muitos povos primitivos nunca admitiram a propriedade individual e outros “só com o tempo e muito penosamente a admitiram”. Os tártaros e os germanos, por exemplo, reconheciam a propriedade quanto aos rebanhos, mas nunca em relação à terra. Já entre os gregos ocorria o oposto. Em algumas cidades da Grécia Antiga, os frutos das colheitas eram de propriedade comum. Assim, “o indivíduo não era dono do trigo por ele colhido, mas, por notável contradição, era proprietário absoluto do solo”. Coulanges destaca ainda que, entre os gregos, a idéia de propriedade privada estava implícita na religião. O lar devia assentar-se sobre a terra; “uma vez construído, nunca mais deveria mudar de lugar”. O deus da família ali se instala enquanto “dela restar alguém que conserve a chama do sacrifício”. Assim, a família fixa-se ao solo, “agrupada em volta de seu altar”. Daí porque, segundo Coulanges, não foram as leis, mas a religião que primeiramente garantiu o direito de propriedade, pois cada domínio estava sob a proteção das divindades que, em cada lar, velavam por ele. Na síntese de Liana Portilho Mattos (2003), podemos perceber como a noção do direito de propriedade foi gradativamente se conformando desde a Roma Antiga; ao perpassar o período feudal; no âmbito da Revolução Francesa; e, finalmente, como se configurou no Estado socialista e no Estado democrático de direito. 18 Bessone, 1988, apud Mattos, 2003, p. 22. 29 Em Roma, embora a percepção do direito de propriedade tivesse percorrido distintas conotações ao longo do tempo, quais sejam, a propriedade coletiva, a propriedade familial e a propriedade individual, “essa última é que prevalecerá por mais tempo, tornando-se paradigma da noção de direito de propriedade que por tanto tempo vigorou no Ocidente” (Mattos, op. cit., p. 26). Na concepção romana, a propriedade era o cerne do direito. Absoluta e individualista, estava à disposição do proprietário, que a podia utilizar, ou não, em razão de sua exclusiva conveniência. Daí decorrem os chamados “atributos do domínio”: o jus utendi, direito de usar o bem para a satisfação de suas necessidades (como edificar uma casa ou cultivar a terra); o jus fruendi, direito de usar a propriedade para dela extrair frutos e produtos (como colheitas e rendas); e o jus abutenti, direito irrestrito de dispor das coisas, inclusive para destruí-las! Entretanto, à medida que a complexidade das relações sociais se ampliava, esse caráter absoluto e individualista do direito de propriedade “foi sendo gradativamente atenuado, na perspectiva da proteção dos danos, não à coletividade, mas a outro indivíduo — geralmente, proprietário” (Mattos, op. cit., p. 27). Sem perder seu traço marcadamente individualista, o direito de propriedade romano passou a sofrer pequenas limitações, referentes, por exemplo, a normas de vizinhança e ao recuo para as edificações relativamente às vias públicas, normas que, em grande medida, inspirariam o direito brasileiro. No período feudal, quando os proprietários de terras, atemorizados diante do risco crescente de invasões, causadas, por sua vez, por profunda desigualdade social, submeteram seus domínios aos soberanos em troca de proteção, o direito de propriedade cindiu-se em dois. “As terras passaram para o domínio do soberano — o que se chamou de domínio eminente — e a sua utilização — domínio útil — foi garantida aos antes proprietários, que passaram a feudatários” (Mattos, op. cit., p. 28). O direito ocidental foi também amplamente influenciado por esse período. Institutos como a enfiteuse (direito real fixado em contrato pelo qual o proprietário transfere a outrem o domínio útil de um imóvel mediante pagamento de foro anual) ainda remanescem entre nós.19 Ainda na Idade Média, deve-se ressaltar a influência do cristianismo, sobretudo no âmbito das doutrinas filosóficas de Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, que, ao retomarem a discussão dos temas filosóficos da Antigüidade, trataram do direito de propriedade. Conforme Liana Mattos (op. cit., p. 29-30), “o cerne dessa visão cristã de 19 Segundo Liana Mattos (2003), Clóvis Beviláqua, na obra O direito das coisas (Rio de Janeiro: Forense, 1956, p. 104), considera as capitanias hereditárias no Brasil colonial como “categorias tipicamente dotadas de feição feudal, por terem aproveitado em grande medida a forma de desdobramento do domínio”. 30 propriedade assentava-se na convicção de que a propriedade da terra era um meio injusto de poder”. Para essa autora, São Tomás de Aquino, em sua Summa Theologica, condenava o caráter individualista da propriedade, legado do Império Romano, e, embora não professasse a noção de “coletivização” da propriedade, a doutrina tomista “defendia a idéia de uma propriedade individual que atendesse aos interesses coletivos”, conceito embrionário do que, séculos depois, consubstanciaria o princípio da função social da propriedade. Ainda no século XVIII, mais de trinta anos antes da eclosão da Revolução Francesa, Jean-Jacques Rousseau (1989, p. 84) definia a importância da terra como fator de injustiça social: “O primeiro que, tendo cercado um terreno, arriscou-se a dizer: ‘isso é meu’, e encontrou pessoas bastante simples para acreditar nele, foi o verdadeiro fundador da sociedade civil. Quantos crimes, guerras, mortes, misérias e horrores não teria poupado ao gênero humano aquele que, arrancando as estacas ou tapando os buracos, tivesse gritado a seus semelhantes: ‘Fugi às palavras desse impostor; estareis perdidos se esquecerdes que os frutos pertencem a todos, e que a terra não é de ninguém.”20 No entanto, a crescente concentração de poder e propriedade nas mãos do soberano e uma estrutura social marcada por privilégios e opressão, características do Estado absolutista, alimentadas pela insatisfação burguesa, “dos detentores de riqueza que tinham posses, mas não tinham poder”, fizeram com que, diferentemente da idéia de despersonalização da propriedade da terra que Rousseau professara, “a propriedade se tornasse uma questão central entre os anseios revolucionários” (Mattos, op. cit., p. 30-31). Nesse sentido, o ideário iluminista de “liberdade, igualdade e fraternidade”, ao consagrar o direito à propriedade privada como conquista civil que se contrapunha ao absolutismo do Estado monárquico, intensificou seu conteúdo individualista. Na expressão de Carlos Frederico Marés (2003, p. 18), o Estado moderno, fruto da Revolução Francesa, exacerbava a propriedade como uma espécie de estuário de seus outros atributos constitutivos: “a função do Estado (...) era garantir a propriedade, que necessita da liberdade e igualdade para existir. Só homens livres podem ser proprietários (...) porque faz parte da idéia da propriedadea possibilidade de adquiri-la e transferi-la livremente. A igualdade é, por sua vez, essencial para a relação entre homens livres; somente o contrato entre iguais pode ser válido. O escravo e o servo não contratam, se submetem”. 20 O Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens foi escrito por Rousseau motivado pelo tema de concurso promovido, em 1753, pela Academia de Dijon: “qual é a origem da desigualdade entre os homens e se ela é permitida pela lei da natureza”. Rousseau não obteve prêmio no concurso, mas sua obra foi publicada em Amsterdam, por um livreiro seu amigo, em abril de 1755, e posta à venda em Paris, em meados daquele ano. Sua abordagem do papel da terra como fator de desigualdade era de imensa ousadia no contexto de uma sociedade de base feudal. Segundo Jean-François Braunstein, nos comentários que fez à obra em 1981, “a observação de Voltaire, na margem de seu exemplar, mostra bem o caráter revolucionário do pensamento de Rousseau: ‘eis a filosofia de um miserável que gostaria que os ricos fossem roubados pelos pobres” (Rousseau, [1755] 1989, p. 7 e 84). 31 Não por acaso, na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, adotada pela Assembléia Nacional em agosto de 1789, ainda nos primórdios da Revolução, a propriedade foi considerada direito inviolável e sagrado, inscrito no rol dos direitos naturais e imprescritíveis do homem: “Proclamando, pois, a inviolabilidade do direito de propriedade, a Declaração legitimava com esse fato a desigualdade dos bens e a exploração do não-possuidor pelo possuidor e, conseqüentemente, do pobre pelo rico. Entretanto, no século do despotismo e da extorsão feudais, o Artigo 17 não era somente dirigido contra os não-possuidores, mas também contra os senhores feudais, isto é, pretendia defender a propriedade burguesa e camponesa contra possíveis atentados da aristocracia.”21 Com essa mesma feição, o direito de propriedade foi assegurado na Constituição francesa de 1793 e no Código Civil (o Código Napoleônico) de 1804. Nesse Código, “as limitações da propriedade remanescente de épocas feudais foram esquecidas e a definição romana de propriedade privada foi resgatada como segue: ‘propriedade é o direito de dispor de objetos da mais absoluta forma, levando-se em conta que ninguém não faça uso dela de alguma maneira proibida por leis ou regulamentações. Ninguém pode ser forçado a desistir de sua propriedade a menos que seja para o bem público e por meio de justa e prévia indenização.’ As leis e regulamentações nada mais eram que restrições referentes ao direito de vizinhança” (Mattos, op. cit., p. 32). O Código Civil brasileiro de 1916, cuja elaboração começara na segunda metade do século anterior, sofreu direta influência do Código Civil francês. “Tal constatação é ainda mais relevante quando se sabe que o conteúdo jurídico, político, social e econômico dos dois países estava longe de guardar semelhanças estreitas, o que de fato causou graves distorções na aplicação do Código Civil brasileiro”.22 Ainda com relação ao regime de propriedade no âmbito da Revolução Francesa, Richard Pipes faz importante observação ao constatar incoerência entre o princípio revolucionário de afirmar a propriedade privada como direito inviolável e “suas práticas legislativas”: “Eles seqüestraram os bens da Igreja e dos refugiados políticos sem nenhuma compensação; também colocaram as heranças sob a administração do Estado. Justificavam tais medidas com o argumento de que, uma vez que a propriedade havia sido criada pelo Estado, o Estado tinha o direito de administrá-la de acordo com o interesse público.(...) Esses rumos prenunciavam o tratamento futuro da propriedade. A noção de inalienabilidade da propriedade privada logo seria obrigada a cair no ostracismo em virtude do ataque 21 Manfred, 1966, p. 84, apud Cariello Filho, 1999, p. 68. 22 Mattos, op. cit., p. 32. Revisado após longo processo legislativo e posto em vigor em janeiro de 2003, o Código Civil brasileiro atualizou-se em relação a práticas e costumes sociais e foi modificado também no tocante a direitos patrimoniais. O Código Civil de 1916 sequer tratava da função social da propriedade. Já a Lei nº 10.406/2002 (novo Código Civil) estabeleceu que o direito de propriedade “deve ser exercido em consonância com as suas finalidades econômicas e sociais” (art. 1.228, § 1º). 32 furioso das paixões ‘antipropriedade’ que viriam a dominar o pensamento de meados do século XIX até o final do século XX.”23 De fato, a doutrina liberal — sustentada pela burguesia a partir do final do século XVIII e, sobretudo ao longo do século XIX, marcada pela defesa de um Estado minimamente interveniente na estrutura sócio-econômica (ou, na abordagem marxista, de um Estado apropriado pelas classes dominantes como instrumento de exploração da classe trabalhadora) e por contrastes sociais que se acirraram com a concentração da riqueza e a exploração da força de trabalho promovidas no âmbito da Revolução Industrial — encontrou um contraponto doutrinário no pensamento socialista. Na dicção de Pérez Luño, esse ambiente político foi assim traduzido: “el individualismo, así como el apoliticismo y neutralidad del Estado liberal de Derecho, no podría satisfacer la exigencia de libertad y igualdad reales de los sectores social y económicamente más deprimidos (...) [y] se tradujo en una serie de conflictos de clase que, a partir de la segunda mitad del pasado siglo [XIX] y desde los inicios del actual, desvelaron la insuficiencia del marco de libertades burguesas cuando se inhibe del reconocimiento de la justicia social”.24 Assim, a sociedade capitalista que emergia com a Revolução Industrial passou a sofrer críticas sistemáticas. Primeiramente, no início do século XIX, no contexto do chamado “socialismo utópico”, a exemplo das propostas dos franceses Saint-Simon e Charles Fourier e do inglês Robert Owen. Depois, já em meados daquele século, no âmbito do chamado “socialismo científico”, que se desenvolveu a partir dos estudos analíticos empreendidos por Karl Marx e Friedrich Engels. O modo industrial, mecanizado, concentrava não somente os meios de produção (antes dispersos nas corporações feudais e nas manufaturas), mas também as populações, que se aglomeravam em torno das grandes indústrias, e, com elas, a miséria dos desempregados e de grandes parcelas dos trabalhadores. Dos projetos de concepção igualitária, cooperativa e solidária, concebidos por Owen e Fourier, “manifestações bem intencionadas da vontade de eliminar as injustiças e desigualdades sociais [que se fundavam na] expectativa de que dominantes e dominados pudessem encontrar a solução dos problemas sociais por consenso” (Cariello Filho, 1999, p. 15), até a concepção comunista, que convocava à “derrubada violenta de toda a ordem social existente” e à “violação despótica do direito de propriedade e das relações de produção burguesas”25, o caráter individualista e privatista da propriedade foi duramente contestado nos 23 Pipes, 2001, p. 67, apud Mattos, op. cit., p. 33. 24 Pérez Luño, 1999, p. 223, apud Mattos, op. cit., p. 34. 25 33 marcos do socialismo. Em diferentes modelos, esses princípios foram aplicados (e, em alguns casos, ainda se aplicam) no Estado resultante da Revolução Russa de 1917, nos demais países do antigo “bloco socialista europeu”, na China, em Cuba, no Vietnam, na Coréia do Norte. Independentemente de seus resultados ou de sua continuidade, “a concretização dessas possibilidades de conformação radical da propriedade privada pelo Estadofoi decisiva para que o paradigma de propriedade absoluta e individualista, predominante desde os romanos, fosse paulatinamente abandonado a partir de então” (Mattos, op. cit., p. 35). 1.2.2 A propriedade no Estado democrático de direito Feitos, embora sumariamente, os registros da evolução histórica do conceito de propriedade, convém, para os efeitos deste trabalho, concentrar atenção nos contornos do que se convencionou chamar contemporaneamente de “Estado democrático de direito”, noção fundamental para que se contextualize o direito de propriedade nos países ditos “capitalistas ocidentais”, centrais ou periféricos. O paradigma desse modelo de organização sócio-política busca incorporar e conciliar valores tais como o de liberdade econômica e de justiça social, em contraste com os postulados do socialismo marxista, que asseveram a impossibilidade dessa conciliação nos marcos do regime capitalista. Nesse sentido, para Pérez Luño26, por exemplo, “o Estado democrático de direito seria uma fórmula alternativa ao Estado Social: uma organização jurídica, política e de realização econômica, na liberdade e com igualdade, dos melhores postulados humanistas do socialismo”. Assim, a par de buscar garantir os direitos fundamentais da pessoa humana, incluído nesse conceito o direito de propriedade, o Estado democrático de direito adota formas representativas e diretas de exercício da cidadania e, especialmente, objetiva promover e realizar a justiça social. Ao submeter-se ao chamado “império da lei”, assim como ocorre em outros modelos de organização política, a exemplo do Estado liberal, o Estado democrático de direito diferencia-se desses ao ultrapassar a mera formalidade da lei e valer-se dela como instrumento para a efetivação dos princípios de eqüidade social, inclusive no tocante ao exercício do direito de propriedade. Segundo José Afonso da Silva (1992, p. 119-120), “a configuração do Estado democrático de direito não significa apenas unir formalmente os conceitos de Estado democrático e Estado de direito. Consiste, na verdade na criação de um conceito novo, que leva em conta o conceito dos elementos componentes, mas os supera na medida em que incorpora um componente revolucionário de transformação do status quo. Manifesto do Partido Comunista, de 1848, de Marx e Engels, p. 37 e 47, apud Cariello Filho, 1999, p. 21 e 22. 26 Citado por Liana Portilho Mattos (op. cit., p. 36). 34 (...) O Direito, então, imantado por esses valores, se enriquece do sentir popular e terá que ajustar-se ao interesse coletivo”. No Brasil, a Constituição de 1988 expressa esse ideário em vários dispositivos, a começar pelo próprio art. 1º, que afirma ser a República Federativa do Brasil um “Estado democrático de direito”, que tem por fundamentos, entre outros, ao lado da “livre iniciativa”, a cidadania, a dignidade da pessoa humana e os valores sociais do trabalho. No art. 3º, entre os “objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil”, encontram-se, em meio a outros, os de: construir uma sociedade livre, justa e solidária; erradicar a pobreza e a marginalização; reduzir as desigualdades sociais; e promover o bem de todos. Ao tratar, no art. 5º, dos direitos e deveres individuais e coletivos, a Constituição estabelece a igualdade incondicionada e universal “perante a lei”; mas, ao fixar a “inviolabilidade” do direito à igualdade, o traz ladeado a outros direitos, entre os quais o que se refere à propriedade, e o condiciona a certos “termos”. Com base nesse enunciado, a Lei Maior determina que “é garantido o direito de propriedade” e que “a propriedade atenderá a sua função social” (incisos XXII e XXIII). No mesmo sentido, o texto constitucional incluiu a “função social da propriedade” nos princípios da própria ordem econômica (art. 170), que, “fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social”. Como se percebe, diferentemente dos pressupostos da crítica marxista aos postulados da reforma urbana, que consideram inalcançável a “igualdade social” por meio dos instrumentos reformistas, não há, na verdade, no Estado democrático de direito, o propósito de construir uma sociedade igualitária strictu sensu, mas o de universalizar os preceitos de dignidade da pessoa humana, por meio da erradicação da pobreza e da “redução” das desigualdades. 1.2.3 A função social da propriedade no Brasil Como observa Alessandra Queiroga (2002, p. 79), “ao contrário do que poderia parecer para quem não se debruçasse sobre as suas origens históricas, o conceito de função social da propriedade não é de inspiração socialista”. Nas cruas palavras de Orlando Gomes27: “Muito pelo contrário. Se não chega a ser uma mentira convencional, é um conceito ancilar do regime capitalista, por isso que, para os socialistas autênticos, a fórmula ‘função social’, sobre ser uma concepção sociológica e não um conceito técnico-jurídico, 27 Gomes, 1986, p. 61, apud Queiroga, 2002, p. 79. 35 revela profunda hipocrisia, pois mais não serve do que para embelezar e esconder a substância da propriedade capitalística. É que legitima o lucro ao configurar a atividade do produtor de riqueza, do empresário, do capitalista, como exercício de uma profissão no interesse geral.” Desse ponto de vista diverge José Diniz de Moraes (1999, p. 111), pelo menos no tocante ao caráter jurídico da função social da propriedade: “Se do aspecto formal concluímos que a função social da propriedade é princípio jurídico e que como norma jurídica deve ser tratado, materialmente somos levados a concluir (...) que a função social da propriedade não é senão o concreto modo de funcionar da propriedade, seja como exercício de direito de propriedade ou não, exigido pelo ordenamento jurídico, direta ou indiretamente, por meio de imposição de obrigações, encargos, limitações, restrições, estímulos ou ameaças, para satisfação de uma necessidade social, temporal e espacialmente considerada.” No Brasil — em termos, na verdade, um tanto distantes de sua eficácia como princípio jurídico —, a idéia de que o direito de propriedade pudesse ser exercido de forma absoluta, presente nas Constituições de 1824 e 1891, não mais encontra abrigo constitucional desde a Carta Magna de 1934, “quando se proclamou a supremacia do interesse social ou coletivo” (Queiroga, op. cit., p.80). Esse dispositivo (art. 113, 17), ainda que não estabeleça a vinculação direta entre o direito de propriedade e o cumprimento de um interesse social, “já impede que o direito seja exercido de forma contrária ao interesse social ou coletivo”28. Embora a Constituição de 1937 não tenha tratado dessa matéria, a Carta de 1946 subordinou o “uso da propriedade ao bem estar social (art. 147), princípio que se mantém na Reforma Constitucional de 1967 (art. 157), como ainda na de 1969 (art. 160)” (Assis, 2000, p. 183). No entanto, o princípio da função social da propriedade só encontrou um contorno mais preciso na Constituição de 1988, seja pela obrigação de ser produtiva, de utilizar adequadamente os recursos naturais, preservar o meio ambiente e observar as leis do trabalho, que vinculam a propriedade agrária (arts. 184 a 186), seja pela obrigatoriedade de “atender às exigências fundamentais de ordenação da cidade expressas no plano diretor”, que alcança as propriedades urbanas (art. 182, § 2º). Assim, a efetividade do direito de propriedade depende do atendimento à sua funçãosocial. Nas cidades, cabe “às normas do plano diretor estabelecer os limites, as faculdades, as obrigações e as atividades que devem ser cumpridas pelos particulares referentes ao direito de propriedade urbana” (Saule Jr., 2002a, p. 255). O plano diretor, contudo, como conclui Liana Mattos (2003, p. 116 e 117), embora seja o “principal instrumento definidor do conteúdo mínimo da função social da propriedade urbana em cada municipalidade”, não é o único 28 Celso Antonio Bandeira de Mello, em Novos aspectos da função social da propriedade no direito público, Revista de Direito Público nº 85, p. 39, apud Assis, 2000, p. 183. 36 elemento jurídico a cumprir esse papel, pois “as diretrizes gerais do Estatuto da Cidade, seus instrumentos de política urbana e outras de suas normas” também se prestam a vincular objetivamente o direito de propriedade urbana29 ao cumprimento de sua função social. Tanto é assim que, para Liana Mattos (op. cit., p. 117), as propriedades urbanas, ainda que estejam situadas em localidades que não se enquadrem nas hipóteses legais de exigência obrigatória do plano diretor, assim como na inexistência desses planos em municípios que estejam obrigados a fazê-lo, “também estão sujeitas ao cumprimento de uma função social que aproveite à coletividade e não só aos interesses do proprietário”. Em síntese, expressamente limitado aos marcos do regime de mercado (tanto quanto o próprio conteúdo da reforma urbana), o princípio constitucional da “função social da propriedade urbana” objetiva, na verdade, não a transformação revolucionária das relações de produção, mas a democratização do acesso aos bens e serviços produzidos nas cidades. Edésio Fernandes (2002b, p. 37), que também vê juridicamente preenchido o conceito de função social da propriedade, sintetizou, de maneira prospectiva, o significado do novo ordenamento legal, no que respeita às transformações por que tem passado esse debate no Brasil: “Culminando um processo de reforma jurídica que começou na década de 1930, o que a Constituição de 1988 e o Estatuto da Cidade propõem é exatamente essa mudança de ‘olhar’, isto é, de paradigma conceitual de compreensão e interpretação, substituindo o princípio individualista do Código Civil pelo princípio da função social da propriedade – que, diga-se de passagem, encontra-se presente de maneira central nas ordens jurídicas de muitos dos países capitalistas mais avançados.” Nesse sentido, os conceitos de “reforma urbana” — entendida como um contexto de políticas públicas destinadas a assegurar a universalização do acesso aos bens e serviços urbanos, bem como o direito democrático à participação no planejamento e na gestão das cidades — e de “função social da propriedade” — compreendida não como o abono legitimador da propriedade privada, mas como um direito coletivo incidente sobre o domínio particular — são referências determinantes para a análise aqui desenvolvida, que se preocupa 29 Deve-se observar, nesse aspecto, que a hipótese de desapropriação-sanção, prevista constitucionalmente como penalidade para o proprietário que desatender à função social da propriedade, impõe-se diferentemente em relação ao solo rural ou urbano. Para fins de reforma agrária, sendo a terra improdutiva, a Constituição é auto- aplicável no sentido de permitir ao poder público expropriar o bem mediante o pagamento em títulos resgatáveis em até vinte anos. No caso de reforma urbana, o mesmo procedimento passou a depender de uma lei federal (Estatuto da Cidade), de uma lei municipal (plano diretor), bem como de duas etapas antecedentes à desapropriação: decretação de edificação, parcelamento ou utilização compulsória e tributação progressiva no tempo. Ademais, o prazo para o resgate dos títulos é reduzido à metade: dez anos. Ou seja, o “Brasil rural”, tido por muitos como arcaico e conservador, assimilou o princípio da função social da propriedade de maneira menos manietada que o “Brasil urbano”, comumente associado à modernidade. 37 em aferir em que medida esses preceitos foram contemplados no texto do Estatuto da Cidade e, de certo modo, tentar inferir suas possibilidades de êxito. Para tanto, convém verificar o papel que vem sendo desempenhado pela ação do poder público e pelas normas legais na configuração das cidades brasileiras, não apenas no seu aspecto físico, mas, sobretudo, no que se relaciona com a apropriação social e econômica do espaço urbano. É o que tentaremos fazer no capítulo seguinte. 2 – LEGISLAÇÃO URBANÍSTICA E AÇÃO ESTATAL NA CONFIGURAÇÃO DAS CIDADES BRASILEIRAS 2.1 Planejamento urbano: a lei e as políticas públicas como instrumentos de segregação 2.1.1 A quem serve a lei “A legislação urbana age como marco delimitador de fronteiras de poder”. Essa síntese de Raquel Rolnik (2003a, p. 13) expressa com objetividade o papel que a legislação tem desempenhado no sentido de demarcar, no território das cidades, de um lado, o lugar dos que têm acesso aos bens e serviços coletivamente produzidos e, de outro, os espaços, quase desvãos, improvisadamente ocupados por aqueles aos quais esse acesso é negado, não poucas vezes, pelos efeitos das próprias normas urbanísticas. Em outros termos, construímos “cidades partidas” (Ventura, 2001). De um lado, a cidade dos integrados na sociedade informacional (Castells, 1999), feita de espaços dotados dos serviços e equipamentos urbanos característicos das nações e grupos sociais mais afluentes. De outro, a negação da cidade, marcada pelo desemprego; pela ausência do poder público; pela dificuldade do acesso à terra, à segurança jurídica, aos serviços de saneamento, educação e saúde, aos sistemas de transporte e aos espaços de lazer e entretenimento. Para uns, convergem a atenção e os investimentos públicos e privados. Para outros, restam a escassez de meios e recursos, a privação da cidadania e a escravidão da violência. Essa segregação ocorre não apenas em sua expressão material, tangível, da distribuição desigual dos bens e serviços urbanos, mas também em decorrência de processos intangíveis, simbólicos — nem sempre perceptíveis, mas com freqüência abrigados, menos ou 38 mais expressamente, nas leis urbanísticas —, que concorrem determinantemente para o estabelecimento dessas fronteiras. Trata-se de uma forma de expressão do “poder simbólico”, no conceito de Pierre Bourdieu, para quem as relações de domínio dependem, na forma e no conteúdo, da apropriação do poder material ou simbólico, “capital social” desigualmente acumulado pelos agentes envolvidos nessas relações. Nas palavras de Bourdieu (2002, p. 7, 8 e 14): “O poder simbólico é esse poder invisível, o qual só pode ser exercido com a cumplicidade daqueles que não querem saber que lhe estão sujeitos ou mesmo que o exercem. (...) Poder quase mágico, que permite obter o equivalente daquilo que é obtido pela força (física ou econômica), (...) só se exerce se for reconhecido, quer dizer, ignorado como arbitrário. Isto significa que o poder simbólico não reside nos ‘sistemas simbólicos’ em forma de uma ‘illocutionary force’, mas se define numa relação determinada — e por meio desta — entre os que exercem o poder e os que lhe estão sujeitos.” A legislação comumente adotada nas áreas urbanas tem por objetivo uma configuração idealizada de cidade, teoricamente capaz de ordenar os padrões de ocupação e as modalidades de utilização desses espaços. No entanto, ao definir o que pode e o que não pode ser erigido, ou que atividades são ou não admitidas nessa ou naquela zona urbana, a lei acaba por constituir fronteiras, reais ou virtuais. Num dos camposdessas fronteiras, estão os que atendem aos padrões fixados na lei e, em contrapartida, são protegidos pelo aparato institucional que a legalidade representa. Noutro, se situam os que, por não disporem dos meios (materiais ou político-sociais) para cumprir as normas urbanísticas (ou, de outro ponto de vista, tê-las produzidas à sua feição), são esquecidos pelas instituições e mantidos à distância das condições básicas da cidadania. Essa dualidade, a cidade formal e legal em contraste com vastas extensões de ocupação urbana informal e ilegal, é crescentemente visível nos grandes e médios municípios brasileiros. No entanto, a par de desassistidos pelas políticas públicas, os setores urbanos informais e ilegais são muito freqüentemente desconsiderados até pelos registros, mapas e cadastros municipais30. Mesmo em cidades de dinâmica complexa e amplamente dotadas de recursos e instrumentos de administração, como o Rio de Janeiro, por exemplo, “até 1994, as favelas 30 Dados recentemente divulgados pelo IBGE comprovam que: (i) 36,8 % dos municípios brasileiros têm loteamentos irregulares/ilegais e 23% possuem favelas; (ii) todas as cidades com mais de 500 mil habitantes possuem tanto favelas quanto loteamentos irregulares/ilegais (70% de todas as favelas estão nessas cidades); (iii) nas Regiões Metropolitanas, 79% dos municípios têm favelas. Apesar da eloqüência desses números (que, aliás, foram considerados subestimados por técnicos e autoridades da área, em entrevistas publicadas por ocasião da divulgação da pesquisa, em novembro de 2003), somente 50% dos municípios que têm favelas possuem um simples cadastro dessas ocupações (MUNIC/IBGE, 2003). 39 figuravam como áreas vazias ou áreas verdes na cartografia oficial do município” (Smolka, 2003, p. 267). Nessa mesma metrópole, embora não se refiram diretamente à chamada “cidade ilegal”, dados publicados pelo jornal O Dia, de 12 de agosto de 2001, dão a medida do contraste entre a atenção do poder público então dirigida à Zona Sul (ocupada, na maior parte, por estratos sociais de alta renda, em áreas formais) e à Zona Oeste (caracterizada, em grande medida, por ocupações de padrão popular, com elevada concentração de informalidade): Contraste entre as Zonas Sul e Oeste da cidade do Rio de Janeiro ATRIBUTO ZONA SUL ZONA OESTE Nº de habitantes por ônibus 349 783 Área (m²) por ponto de iluminação pública 1.069 7.798 Investimentos em obras públicas por m² R$ 0,15 R$ 0,03 Dispêndio com manutenção de unidades de saúde por habitante R$ 51,30 R$ 24,60 (fonte: Smolka, op. cit., p. 268) 2.1.2 O papel político da legislação urbanística: zoneamento e normas de uso e ocupação Não vêm de hoje os efeitos sociais da legislação urbana. Para ficarmos apenas com as duas maiores cidades brasileiras, São Paulo e Rio de Janeiro31, vamos verificar que, fosse pela aplicação dos preceitos do urbanismo sanitarista, que visava ao enfrentamento das epidemias que no final do século XIX assolavam as grandes cidades, marcadas então por condições de saneamento extremamente precárias, fosse pelos ditames técnicos do urbanismo racionalista, surgido na primeira metade do século XX com o objetivo nada modesto de estabelecer o paradigma da cidade ideal, as normas legais se prestaram, muitas vezes deliberadamente32, a moldar a comentada dualidade. A despeito de autores como Sarah Feldman (2001, p. 39) entenderem que a legislação do período higienista, “embora envolva questões espaciais, não contém um claro 31 A reprodução radical dos mecanismos de segregação social em Brasília (cidade-modelo da aplicação dos preceitos do racionalismo modernista), como efeito urbanístico de normas, leis, políticas e ações administrativas de natureza público-estatal, pode ser compreendida por meio de análises como as de Gouvêa (1998) e Campos (1998). 32 Como exemplo, pode ser citado texto do engenheiro Victor da Silva Freire, que foi diretor de obras da cidade de São Paulo de 1899 a 1926, para quem os objetivos da legislação (referindo-se, no caso, aos códigos sanitários e municipais) eram dois, nomeadamente: “Primeiro – positivo, de protecção e amparo – proporcionar à parte da população que aspira viver n’um ambiente sadio e decente, e educar a sua prole em condições de dignidade, disposições que facilitem realisar essa tão legítima ambição; Segundo – negativo, de repressão e policia – impedir que a parte restante, a qual pouco se importa com tudo isso, ou é incapaz de tentar o esforço necessário para o alcançar, possa crear situações que venham a constituir ameaça para os visinhos, para a communidade e para a civilização” (Freire, 1918, p. 231, apud Rolnik, 1997, p. 43). 40 conteúdo urbanístico, e estabelece-se como legislação sanitária”, parece claro o efeito dessas normas na configuração das principais cidades brasileiras. Em São Paulo, já a partir de 1886, ano da edição de um Código de Posturas Municipais, cuidou-se de proibir, por exemplo, a ocupação de cortiços na área urbana mais valorizada, à época: o centro da cidade. Na prática, “com a proibição da instalação de cortiços, casas de operários e cubículos, proibiu-se genericamente a presença de pobres no centro da cidade” (Rolnik, op. cit., p. 37). Nos inícios do século XX, no Rio de Janeiro, então sede do governo federal com mais de 500 mil habitantes, “a existência de uma burguesia, que reivindica sob inspiração européia condições mais confortáveis de vida” e um “processo de modernização que acontece no país sob motivação do capital estrangeiro” (Rezende, 1982, p. 37) dão ensejo a um projeto de remodelação e “embelezamento” da área central (também ocupada por cortiços e outras formas de moradia popular), encomendado pelo presidente Rodrigues Alves ao prefeito Pereira Passos33. A oligarquia rural — decadente, mas ainda poderosa — preocupa-se então em manter seu já ameaçado poder político quando atende, ao mesmo tempo, reivindicações de uma nascente e politicamente ativa burguesia e empreende obras de urbanização e de infra- estrutura no interesse do capital externo, como a modernização do porto, por exemplo. “As camadas populares, no entanto, não são consideradas no processo de planejamento (...). O objetivo é resolver os conflitos com a burguesia e escamotear aqueles oriundos das camadas médias e baixas, restaurando a ordem” (Rezende, op. cit., p. 40). A idéia de “restaurar a ordem” pressupõe a interveniência de uma “desordem” e a emergência de “crises”, que podem pretextar-se em questões de saúde pública, como era freqüente nas primeiras décadas do século XX, ou em outros temas, sempre recorrentes, como a escassez de moradias ou os entraves do trânsito e dos sistemas de transporte. O papel dos planos e normas urbanísticas, nesse contexto, que em grande medida ainda perdura, passa a ser o de orientar o restabelecimento de uma idealidade perdida ou, melhor dizendo, sempre buscada e jamais realizada: a cidade pacífica e ordenada, fruto dos ditames de uma racionalidade técnica que a tornaria própria ao desfrute coletivo. 33 Segundo Luiz Alberto Gouvêa (1998, p. 77-78), “é deste período, inclusive, que se tem notícia das primeiras favelas no Rio de Janeiro, pois a população expulsa da área onde foi construída a avenida Rio Branco [então Avenida Central, obra-símbolo da reforma Pereira Passos] se alojou nas periferias mais próximas, na época, os morros cariocas”. Considera-se, na verdade, a primeira favela carioca a ocupação do Morro da Providência, depois denominado Morro da Favela, ocorrida em 1897, por ex-combatentes da Guerra de Canudos. “Cerca de 10 mil soldados foram para o Rio com a promessa do governo de ganhar casas na então capital federal. Comoos entraves políticos e burocráticos atrasaram a construção dos alojamentos, os ex-combatentes passaram a ocupar provisoriamente as encostas do morro - e por lá acabaram ficando. (...) Favela era o nome de um morro que ficava nas proximidades de Canudos e serviu de base e acampamento para os soldados republicanos. Faveleiro é também o nome de um arbusto típico do sertão nordestino” (www.favelatemmemoria.com.br, consultado em 29/1/04). 41 Parece ser esse — a busca de um ideal de cidade que se tornaria possível por meio de ditames técnicos, mas que resulta em apartação social — o ponto de contato entre as distintas correntes do pensamento urbanístico que se aplicaram no Brasil do século XX. Para Sarah Feldman, essas correntes seriam três: “o urbanismo higienista, que estabelece uma legislação sanitária; o urbanismo americano dos anos 20, que reelabora o zoneamento alemão; e o movimento modernista, que se contrapõe à legislação de princípios higienistas vigente na Europa dos anos 2034” (Feldman, 2001, p. 41). Em todos esses períodos históricos, “crises urbanas” (sanitárias, circulatórias ou habitacionais) são identificadas e dão ensejo a normas legais vinculadas, em maior ou menor medida, a propostas planificadoras35. Segundo Vera Rezende (op. cit., p. 30), “a crise urbana é comumente invocada no sentido de se elaborar um plano ou efetuar um conjunto de ações que lhe dêem fim”. Para essa autora, apoiada em texto de Marilena Chauí36, esses planos decorrem da idéia de que o real é o racional, não possuindo contradições internas, mas tão-somente “divisões estruturais” de um todo composto de partes articuladas, dotadas, por sua vez, de racionalidades específicas. Mais ostensivamente, agora no âmbito da visão estrutural e funcionalista — característica do modernismo —, a planificação e o planejamento se prestam a reduzir a problemática urbana “a leis e teorias”, de tal maneira que “qualquer comportamento que não se enquadre nas leis estabelecidas vai ser considerado um desvio dotado de irracionalidade” (Rezende, op. cit., p. 31). Para Herbert Ganz (1960, apud Rezende, op. cit., p. 32), “mais importante do que esse tipo de plano contém é o que ele deixa de fora. As estruturas sociais, econômicas e políticas e suas relações, que irão determinar o tipo de uso e ocupação da terra, não são consideradas relevantes”. Ao ignorar essas estruturas, o planejamento passa a desconsiderar os conflitos urbanos e, assim, desobriga-se de resolvê-los ou, pior, presta-se a acentuá-los. Ainda com base na obra de Ganz, Vera Rezende identifica o papel desempenhado pelo principal instrumento das leis planificadoras dessa natureza: o “zoneamento”37, divisão 34 Os modernistas viam a legislação higienista dos anos 1920 como entrave à aplicação dos pressupostos da arquitetura moderna: plantas livres e flexíveis, espaço exterior amplo, verticalização, produção em série etc (Feldman, 2001, p. 42). 35 Para reflexão: na concepção do marxista italiano Antonio Gramsci, desenvolvida nos Cadernos do cárcere (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 6 vol., 2002), escritos entre 1929 e 1935, a crise se instala quando o velho (modelo) está morrendo e o novo ainda não nasceu, dando vazão, nesse ínterim, a manifestações de toda sorte. Desse ponto de vista, as “crises urbanas” seriam invocadas - de modo não desinteressado - pelos que querem enterrar o velho e, por meio dos planos, anunciar o novo. 36 Chauí, 1978, apud Rezende, 1982, p. 29 e 30. 37 42 do espaço em zonas de usos específicos: “Quando propõe não misturar diferentes usos do solo, muitas vezes está presente o temor de contaminação de áreas mais valorizadas por grupos de baixa renda ou usos não convenientes” às forças econômica e politicamente dominantes (op. cit., p. 32). No mesmo sentido, Marcelo Lopes de Souza38 aponta, já nas origens do instrumento, o caráter discriminatório do zoneamento: “Após uma pré-história que começa nas últimas décadas do século XIX (...), o zoneamento faz seu aparecimento, de modo definitivo, nas primeiras décadas do século seguinte, tanto na Europa como nos Estados Unidos. A legislação de zoneamento de Nova Iorque, de 1916, por exemplo, é considerada o primeiro código a instituir um zoneamento abrangente nos EUA, dentro dos princípios que dominariam o instrumento no século XX: excluir certos usos e, não raro, (e de modo às vezes muito pouco disfarçado), também certos grupos sociais” (Souza, 2002, p. 251-252). Decorre dessa percepção o argumento de que não é por falta de planos que as cidades brasileiras crescem de modo social e ambientalmente predatório, mas, ao contrário, pelo efeito, em grande medida, das próprias normas planificadoras. Para muitos pesquisadores, o aparato legal que regula a produção do espaço urbano no Brasil (legislação exigente para o parcelamento do solo, normas rígidas de zoneamento e minudentes códigos de obras, por exemplo) tem cumprido um papel oposto aos seus aparentes objetivos ordenadores. Como expressa, por exemplo, Ermínia Maricato, “a exclusão social passa pela lógica da aplicação discriminatória da lei. A ineficácia dessa legislação é, de fato, apenas aparente, pois constitui um instrumento fundamental para o exercício arbitrário do poder (...). A ocupação ilegal da terra urbana é não só permitida como parte do modelo de desenvolvimento urbano no Brasil (...). Ao lado da detalhada legislação urbanística (flexibilizada pela pequena corrupção na cidade legal) é promovido um total laissez-faire na cidade ilegal” (Maricato, 2000, p.147). Ou, como conclui Raquel Rolnik, ao examinar a relação entre a legislação e a conformação urbana na cidade de São Paulo, marcada por uma “muralha protetora” em torno dos bairros residenciais afluentes e pela “posição eternamente periférica” dos bairros populares: “Não se trata de ‘desordem’ ou ‘falta de plano’, mas sim da formulação de um pacto territorial que preside o desenvolvimento da cidade há mais de cinqüenta anos” (Rolnik, 1997, p. 14). 2.2 O poder público a serviço do capital privado Para uma síntese histórica do nascimento, esplendor e decadência do zoneamento “funcionalista” como principal instrumento de planejamento urbano e, ainda, para uma abordagem propositiva de um “zoneamento includente” do ponto de vista social, ver Souza, 2002, p. 250-274. 38 Com base em Cullinworth, 1993. 43 2.2.1 A formação dos preços imobiliários “A chave da eficácia em demarcar um território social preciso reside evidentemente no preço. Lotes grandes, grandes recuos, nenhuma coabitação é fórmula para quem pode pagar. A lei, ao definir que num determinado espaço pode ocorrer somente um certo padrão, opera o milagre de desenhar uma muralha invisível e, ao mesmo tempo, criar uma mercadoria exclusiva no mercado de terras e imóveis” (Rolnik, 1997, p. 47). De fato, não é possível compreender a segregação social no espaço como efeito tão- só de normas urbanísticas estabelecidas por um estamento profissional dominado pelos pressupostos da razão técnica e alheio às causas estruturais da desigualdade. O aparelho estatal, onde se incluem os grupos técnico-profissionais incumbidos da proposição de normas urbanísticas, mas também parlamentares e autoridades, detentores de efetivo poder institucional, não é autônomo, como formalmente prescreve a Constituição. Ao contrário, move-se em função de condicionantes. Como ensinou Karl Marx, “as relações jurídicas — assim como as formas de Estado — não podem ser compreendidas por si mesmas, nem pela dita evolução geral do espírito humano (...)” (1977, p. 24). Na verdade, essas relações expressam as estruturas sociaisque representam, bem como suas respectivas correlações de forças. É a chamada “pirâmide invertida”, de que costumava falar Florestan Fernandes: as grandes massas populares contam com escassos representantes nas instâncias efetivas do poder político, ao contrário dos poucos ricos que, influentes, detêm expressivo número de defensores institucionais. Nesse sentido, a segregação social no espaço passa a ser entendida, não como mera decorrência, mas como fator necessário aos interesses do capital imobiliário, detentor de parcelas hegemônicas de poder nas principais cidades brasileiras. Para compreender como isso se dá, é necessário, antes, perceber o significado da terra na dinâmica da economia. Segundo Mark Gottdiener, os economistas clássicos consideram a terra como fator de produção. Tanto para Ricardo quanto para Marx, a terra era um recurso agrícola e a renda fundiária, um produto da aplicação de trabalho e capital para a produção de alimentos. “A terra, desvinculada de qualquer forma de regulação estatal, era o terceiro elemento da famosa fórmula da trindade de Marx: trabalho, capital e terra. Marx enfocou esses fatores ancorado em três classes separadas — trabalhadores, capitalistas e proprietários de terra — que batalhavam pela divisão da riqueza social. (...) Somente 44 Engels39 superou essa visão com a abordagem da questão imobiliária comercial quando considerou a questão da habitação” (Gottdiener, 1996, p. 18). Ao justificar que, aos economistas clássicos e neoclássicos, tenha escapado a noção de que a renda da terra pode decorrer não apenas do aporte de capital e trabalho que nela diretamente se faça, mas de “externalidades” que resultam de um custo social imposto a toda a coletividade, Gottdiener ressalva a diferença das circunstâncias atuais: “Agora a terra pode ser considerada como o ambiente construído tendo seus maiores retornos dos investimentos advindos dos empreendimentos urbanos (...), e não da agricultura” (op. cit., p. 18). Quanto ao “controle governamental da terra”, que defende que ocorra tanto quanto ocorre em relação à moeda e ao trabalho, Gottdiener (op. cit., p. 19) lembra que, no final do século XIX, a despeito de toda a tradição liberal dos Estados Unidos, “esse controle tornou-se de repente um problema urgente (...) quando Henry George40 e os georgianos eram ativos nas políticas locais. Mas como nenhuma classe particular era envolvida, nunca atingiu as dimensões compelidas da luta a respeito da intervenção do Estado na regulação do trabalho”. No entanto, embora reconheça a importância dos georgianos no enfrentamento do paradigma neoclássico e para a percepção da terra como fator econômico, esse autor (op. cit., p. 20) observa que “não fica claro se estão falando a respeito da terra ou do imobiliário (isto é, propriedade produzida) e, [como] nunca discutem os aspectos especiais do setor imobiliário (...), falham em tratar com a singularidade da terra urbana (isto é, localização mais construção)”. A dinâmica específica do segmento imobiliário da economia urbana se associa por diversos meios à configuração das cidades. Em termos diretos, Martim Smolka chega a afirmar que se deve considerar o “capital incorporador como aquele responsável pela organização do uso do solo com vistas à apropriação de rendas fundiárias na forma de lucros” e que “este capital gera a segregação social do espaço e as características deste processo” (Smolka, 1987, p. 41). 39 Na obra A questão da moradia, Friedrich Engels (1820-1895) analisa a problemática habitacional com vistas a demonstrar sua vinculação com a própria lógica do modo capitalista de produção. Para Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro (1982, p. 38), contudo, “Engels não consegue ser convincente quando tenta explicar porque, malgrado o fato de as moradias alugadas aos operários apresentarem elevadas taxas de rentabilidade (...), o desenvolvimento de um setor capitalista de produção da habitação [popular] encontra dificuldades”. Segundo ele, “não estava nos horizontes de Engels” a percepção de que existem obstáculos para que esse setor do capital pudesse atuar. Os principais obstáculos seriam a “inexistência de uma demanda solvável” (referindo-se à distância entre preço da moradia e salários) e “a propriedade privada da terra”. 40 Henry George (1839-1897), pensador norte-americano que, “impressionado pelo fato de que a pobreza fosse mais intensa e aflitiva em centros populosos e ricos como Nova York, que nos campos; mais nos países adiantados que nos atrasados, se propôs a desvendar as causas da associação do progresso com a pobreza e o remédio de tão tremendo mal” (Baldomero Argente, prólogo à 1ª ed. espanhola, em George, [1879] 2001, p. VII, livre tradução). Em suas obras, Henry George sugeria que todos os impostos fossem substituídos por um único tributo, incidente sobre o valor da terra. 45 Ao examinar a natureza da renda da terra, economistas contemporâneos podem divergir quanto à condição de o solo urbano constituir ou não um “meio de produção”, no conceito marxista. Como exemplos dessa divergência podemos citar, para ficarmos entre aqueles que mais se voltaram diretamente para a questão urbana, Paul Singer e Martim Smolka. Para o primeiro, o capital, composto pela propriedade privada dos meios de produção, “(...) gera lucro na medida em que preside, orienta e domina o processo social de produção. Mas o ‘capital’ imobiliário não entra neste processo, na medida em que o espaço é apenas uma condição necessária à realização de qualquer atividade, portanto também da produção, mas não constitui em si um meio de produção, entendido como emanação do trabalho que o potencia” (Singer, 1979, p. 21, grifo nosso). Já para o segundo, em sentido contrário, “a terra constitui meio de produção necessário não reproduzível (...). Este aspecto é importante pois sugere, de imediato, que o processo de formação de preço para terrenos distingue-se de outros processos nos quais o trabalho entra como elemento constitutivo fundamental” (Smolka, 1987, p. 42, grifo nosso). Em que pese essa diferença conceitual, há consenso em ambas as análises no que respeita à desconexão entre a formação dos preços da terra urbana e o aporte efetivo e direto de trabalho. Entre os vários componentes do preço do solo urbano, encontram-se: o poder do proprietário em administrar a escassez desses bens (em outras palavras, o período de tempo em que o imóvel é retido com o objetivo de incorporar o valor decorrente de modificações na estrutura urbana); a apreciação conferida pelos usuários da terra urbana em função das vantagens que um determinado lote permite obter quando comparado com outros; e a quantificação do valor presente de uma anuidade equivalente à renda que determinado terreno possa gerar, descontada a taxa de juros prevalecente. Assim, diferentemente do que ocorre com os (demais) meios de produção, “os quais, quando movimentados pelo trabalho humano, reproduzem o seu valor, o valor da força de trabalho gasta e mais um excedente que aparece nas mãos do capitalista sob a forma de lucro” (Singer, op. cit., p. 21), a propriedade do solo enseja rendas provindas de condições externas ao lote. Ou seja, no sistema capitalista, enquanto a posse de um meio de produção é a condição necessária para a exploração do trabalho produtivo, no caso do solo urbano, basta a circunstância da propriedade (e não necessariamente a da posse e do uso) para a obtenção de rendas que remunerem este capital. É, sob outro ponto de vista, o efeito econômico da diferença jurídica entre posse e propriedade. A esse respeito, SôniaRabello de Castro destaca a obra de Orlando Gomes, que, 46 ao apontar os principais aspectos da teoria de von Ihering41 (cujo pensamento, ao lado do de Savigny, ambos construídos no início o século XIX, inspirou a formulação do conceito de posse no direito brasileiro), assim se expressou: “Parte von Ihering da necessidade de se estabelecer, preliminarmente, a diferença entre as noções de posse e propriedade, que na linguagem comum, são confundidas com grande freqüência, apresentando-se como expressões equivalentes (...). Isso feito, verifica qualquer pessoa que há um conflito entre proprietário que não possui e o não proprietário que possui. De um lado, o direito; de outro, o fato; tal é, segundo Ihering, a antítese que se reduz à distinção entre posse e propriedade. A posse é poder de fato; a propriedade, o poder de direito sobre a coisa” (Gomes, 1958, p. 34-35, apud Castro, 2001, p. 95). Pois basta tão-somente esse “poder de direito sobre a coisa”, e não necessariamente o proveito econômico e social que pode decorrer da utilização da propriedade, para que proprietários de solo urbano aufiram rendas patrimoniais expressivas. Como o preço de um terreno decorre de externalidades — a exemplo, entre outras, das possibilidades urbanísticas para o seu uso, dos serviços públicos que lhe são postos à disposição e das atividades realizadas em outros imóveis lindeiros —, o proprietário aufere passivamente uma renda que deriva diretamente do direito contratual à propriedade e não da utilidade que confira ao seu patrimônio. Em outro pólo, nesse caso de modo ativo, a obtenção da renda fundiária pode se dar pela ação deliberada e concertada entre os proprietários de terra no sentido de controlar a escassez da oferta de terrenos, exigindo assim uma espécie de “tributo” a ser pago pelos usuários de qualquer lote, independentemente das peculiaridades de cada um deles. Segundo Smolka (op. cit., p. 43), com respeito a essa última circunstância, a de um “tributo” imposto pelos proprietários aos usuários de solo urbano, dois componentes, “que podem reforçar-se mutuamente”, devem ser considerados na formação dos preços do solo urbano: a realização do valor potencial, “calcada na capacidade dos proprietários fundiários em exercerem influência no uso que se dá à terra”, e a expectativa de valorização futura, decorrente de novos investimentos, públicos ou privados, e da rentabilidade que deles pode decorrer. “Tudo isto sugere, em suma, que o preço do terreno é determinado, em larga medida, pelas condições de produção do ambiente construído e, em especial, pelo preço dos imóveis. Parafraseando a máxima ricardiana, dir-se-ia que os preços dos terrenos são altos porque os preços dos imóveis são altos, e não o inverso, como ainda pretendem certos analistas” (Smolka, op. cit., p. 46). 41 Rudolf von Ihering (1818–1892), um dos primeiros defensores da concepção do direito como produto social, ocupa, ao lado de Friedrich Karl von Savigny (1779-1861), lugar de relevo na história do direito alemão, com repercussão de sua obra em todo o mundo ocidental. Savigny, defensor da posse como condição para a prevalência da propriedade, advogava a idéia de que, na essência, a posse é um fato, mas, considerada quanto às suas conseqüências, também equivale a um direito. 47 2.2.2 A incorporação imobiliária e a propriedade do solo urbano Pesquisa coordenada por Rodrigo Lefèvre (1979, p. 95-116), ao examinar o papel dos preços de terrenos nos negócios imobiliários de apartamentos e escritórios na cidade de São Paulo, demonstra que a renda fundiária urbana não pode ser entendida apenas como um simples exercício de especuladores, mas como fundamento de atividades produtivas, sobretudo a incorporação imobiliária, que, embora se valha de processos e técnicas construtivas ainda muito atrasados, logra ser das mais lucrativas. Essa aparente contradição, processo produtivo tecnicamente atrasado e largas margens de lucro, pode ser em grande parte explicada, como vimos, pelo farto proveito econômico que os incorporadores imobiliários retiram do espaço público (no sentido das externalidades produzidas, em sua maior parte, com recursos públicos) e das normas legais que regulam o seu uso. Para Lefèvre, a apropriação, pelo mercado imobiliário, das melhorias físico-espaciais coletivamente produzidas e das prerrogativas legais proporcionadas pelo poder público ensejaria a formação de uma espécie de “preço geral de produção” (op. cit., p. 96-98), que levaria à obtenção de taxas mais altas de lucros nas atividades imobiliárias exercidas em áreas de localização secundária, onde os terrenos têm preços menores, em comparação com empreendimentos realizados em áreas mais centrais. Em contraponto à hipótese de Lefèvre, que sugere que a renda fundiária urbana estaria menos condicionada pelos fatores relacionados à localização — e, portanto, teria constituição distinta dos postulados marxistas para a formação da renda agrária —, L. C. de Queiroz Ribeiro (1979, p. 43-66), com base nos aportes teóricos da “nova sociologia urbana”, considera que os preços dos terrenos urbanos expressam a capitalização das rendas absolutas e de monopólio e definem, nesse processo, a segregação social no espaço. A despeito, contudo, da diferença quanto aos pressupostos teóricos que adotam, é uniforme a conclusão desses analistas no sentido de reconhecer que os incorporadores não dependem diretamente da diferença entre o custo da construção propriamente dita e o preço de venda dos imóveis que produzem, mas sim da diferença entre os custos gerais em que incorrem e a renda fundiária que podem extrair, o que torna “os lucros da incorporação relativamente independentes da produtividade da indústria da construção civil” (Smolka, 1987, p. 67). A atividade da incorporação imobiliária foi regulamentada no Brasil em 1964, sintomaticamente, apenas quatro meses após a criação do Banco Nacional da Habitação (BNH) e do Sistema Financeiro da Habitação (SFH). Nos termos da Lei nº 4.591, de 16 de 48 dezembro de 1964, que dispõe sobre o condomínio em edificações e as incorporações imobiliárias, considera-se incorporação imobiliária “a atividade exercida com o intuito de promover e realizar a construção, para alienação total ou parcial, de edificações ou conjunto de edificações compostas de unidades autônomas” (art. 28) e, incorporador, “a pessoa física ou jurídica, comerciante ou não, que, embora não efetuando a construção, compromisse ou efetive a venda de frações ideais de terreno objetivando a vinculação de tais frações a unidades autônomas, em edificações a serem construídas ou em construção sob regime condominial, ou que meramente aceite propostas para efetivação de tais transações, coordenando e levando a termo a incorporação e responsabilizando-se, conforme o caso, pela entrega, a certo prazo, preço e determinadas condições, das obras concluídas” (art. 29). O incorporador imobiliário diferencia-se, assim, do proprietário do terreno e do construtor. Embora a lei não impeça que um ou outro assuma a posição de incorporador, essa condição é autônoma em relação àquelas. O incorporador, na verdade, é um agenciador do processo de produção imobiliária. As prerrogativas da propriedade lhe são transferidas pelo seu detentor original. Ao dispor dessas prerrogativas, geralmente pela aquisição do terreno, paga em dinheiro ou por uma parte equivalente do imóvel a ser construído, o incorporador promove a elaboração dos projetos de arquitetura e engenharia, contrata um construtor e, por meio de um corretor, vende as frações ideais do terrenovinculando-as às unidades autônomas a serem edificadas. “Como se sabe, diferentemente do que ocorre nos demais setores produtivos, que formam preços pela agregação dos custos acrescidos da expectativa de remuneração do capital, a incorporação imobiliária determina seus preços pelo caminho inverso. Primeiro estabelece o valor máximo que o mercado se dispõe a pagar pelo imóvel a ser produzido para, só então, verificar em que custos pode incorrer. Qualquer economia na cadeia produtiva, ao invés de resultar em menor preço, propicia maior lucro” (Bassul, 2002, p. 139). Não por acaso, mas certamente à vista da lucratividade obtida pela incorporação imobiliária, alguns proprietários de terrenos e, especialmente, os construtores passaram a desempenhar também o papel de incorporadores no processo de produção imobiliária, em lugar de apenas fornecerem os “insumos produtivos” para um agente externo que, afinal, obtinha a maior parcela da mais-valia gerada. Essa tensão entre proprietários de terrenos e incorporadores (construtores ou não) é explicada por Martim Smolka. Para esse autor, “ao tentar assumir o controle do processo pelo qual rendas fundiárias são criadas e apropriadas”, o capital incorporador “depende de sua 49 capacidade em minar o poder dos proprietários” na aquisição dessas rendas, o que implica “advogar medidas que favoreçam uma baixa nos preços de terrenos” (op. cit., p. 49)42. Esse aspecto do conflito entre frações do capital imobiliário (proprietários de solo e incorporadores) é especialmente importante para os objetivos deste trabalho na medida em que parece explicar, por exemplo, o apoio de incorporadores a medidas como a tributação progressiva sobre lotes ociosos (mas não sobre habitações vazias, como se verá adiante). Para Smolka, medidas como essa, de combate à ociosidade de terrenos, podem transferir o controle sobre a disponibilidade e forma de utilização do solo urbano “daqueles proprietários que se beneficiam da terra parasitariamente para aqueles que a empregam como meio de produção” (op. cit., p. 50), ou seja, tendem a ser benéficas para os incorporadores. Com efeito, a atuação do capital incorporador se dá em distintos momentos da produção imobiliária. De uma parte, valendo-se não apenas de normas legais, mas também de exigências institucionais e administrativas de agentes financeiros, entre outras, a atividade de incorporação torna-se reservada a empresas de médio ou grande porte e complexidade, o que afasta ou, quando menos, dificulta que o pequeno proprietário de determinado lote assuma diretamente o controle do processo produtivo que incidirá sobre a sua própria terra. Desse modo, o poder de barganha do capital imobiliário se amplia no sentido de inibir, em seu proveito, que a renda fundiária do solo urbano seja capturada diretamente pelos seus proprietários. De outra parte, a valorização imobiliária agenciada e apropriada pelo capital incorporador se dá pela antecipação de variações no preço dos imóveis proporcionada por modificações na estrutura urbana, como investimentos em infra-estrutura e equipamentos, muitas vezes promovidas pelo poder público. Essas antecipações requerem, em primeiro lugar, um sistema de crédito que assegure a rápida recuperação do capital aplicado pelo incorporador e confira liquidez a variações de preço que só serão concretizáveis no futuro. Assim, ao comercializar um imóvel, os incorporadores não estão apenas vendendo uma habitação, mas buscando transformá-la num ativo financeiro, cuja valorização presumidamente irá beneficiar o comprador; o qual, por isso, passa a ver a aquisição como um investimento, associando-se em certa medida aos êxitos financeiros da incorporação. No entanto, a realização dessa valorização presumida exige não apenas o aporte de recursos públicos em melhorias urbanas, mas também que os fatores subjetivos da demanda 42 Com esse mesmo propósito, o de minar o poder dos proprietários de terras, em Brasília (DF), onde peculiarmente o mercado imobiliário é abastecido em licitações promovidas por uma loteadora pública (a Cia. Imobiliária de Brasília/Terracap, dirigida pelo autor, de 1995 a 1998), os incorporadores, pela imprensa, costumam atribuir os altos preços dos imóveis que vendem ao “custo do terreno” — formado, na verdade, por eles próprios, nas ofertas que fazem nos leilões. 50 sejam permanentemente modificados. Nesse sentido, modismos como varandas, churrasqueiras, saunas, salões de festa, play-grounds, academias de ginástica, áreas sofisticadas de lazer culinário, e outros tantos, precisam ser constantemente criados para alimentar a ciranda dos preços, num processo específico de apropriação de capital simbólico, na definição de Bourdieu. Para tanto, os códigos de obras e edificações precisam ser, como o são, complacentes com as demandas do mercado imobiliário. Por meio desses mecanismos, “o objeto da negociação que era, por assim dizer, o valor de uso do imóvel, passa a ser o seu valor de troca, desviando, assim, a atenção sobre o nível do preço em favor da valorização esperada para tal imóvel, quer dizer, a variação futura de seu preço. Isto é facilmente depreendido do apelo da propaganda imobiliária” (Smolka, op. cit., p. 51). Mais importante do que as exigências que restringem a atividade de incorporação a fortes grupos empresariais, o aporte de recursos públicos para a realização de investimentos que são capitalizados pelos empreendedores privados43 ou a permeabilidade das normas edilícias aos artifícios do mercado imobiliário, talvez seja a colaboração que o aparelho estatal tem oferecido à incorporação imobiliária no sentido de propiciar índices de aproveitamento mais elevados e usos mais lucrativos que os prevalecentes no momento da aquisição original do terreno. O direito de construir mais e o de promover usos mais valorizados no mercado têm sido comumente outorgados pelo poder público a proprietários e incorporadores sem nenhuma contrapartida. Embora, desde 197144, a questão do “solo criado” esteja em debate também no Brasil, tendo sido adotada em alguns países já na própria década de 1970, somente a partir dos anos 1990 algumas municipalidades brasileiras, como Curitiba, a pioneira nesse aspecto, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Fortaleza, tentaram aplicar esse instituto. Incluído no Estatuto da Cidade, o “solo criado” ainda suscita imensas reações em face da tradicional disponibilidade do poder público municipal para elevar “gabaritos”, em proveito de empreendedores que a transformam em renda fundiária. A esse respeito deve-se lembrar que, juridicamente, “patrimônio não significa simplesmente riqueza, pois que pode ser constituído por direitos, que não se mostrem de valor positivo, embora apreciáveis 43 Além de promover externalidades benéficas aos empreendedores privados, como infra-estrutura e equipamentos urbanos, não poucas vezes o poder público carreia recursos diretamente em proveito desse setor do capital, como ocorreu no caso do Fundo Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), constituído por recursos do trabalhador. Ver, por exemplo, Schvasberg, 1986, p. 139-166. 44 Quando um grupo de especialistas do Comitê Econômico Europeu, da Organização das Nações Unidas, reunido em Roma, concluiu que o direito de construir pertence à comunidade e deve sempre ser objeto de permissão pública (Lorenzetti e Araújo, 2002, p. 3). 51 economicamente, ou possam resultar num valor econômico positivo” (Silva, De P., 1998, p. 594). Ora, se há uma categoria de patrimônio que, sendo tangível, a exemplo dos imóveis, é facilmente perceptívelcomo tal, há também outra, da qual faz parte o direito de construir, que, ainda que seja intangível e de percepção mais sutil, não tem menor importância ou valor. Portanto, se ao aparelho estatal não é dada, nem legal nem moralmente, a prerrogativa de transferir gratuitamente um bem público para o patrimônio particular, do mesmo modo lhe deve ser vedada a possibilidade de ceder a particulares direitos que pertencem à coletividade e integram o patrimônio público, no sentido de que podem ser aplicados economicamente. Lamentavelmente, contudo, não é essa a noção prevalecente. Antes pelo contrário, ainda é freqüente a prática estatal de beneficiar particulares, proprietários e incorporadores imobiliários, com franquias edilícias que integram direitos patrimoniais de natureza pública. 2.2.3 A “espoliação urbana” como aspecto do modelo nacional de desenvolvimento Uma grande oferta de mão-de-obra, o chamado “exército de reserva” de que fala Marx em O capital, constitui um elemento vital para que o sistema econômico capitalista opere sua expansão. Em conseqüência desse processo, grande parte da força de trabalho é dilapidada, no sentido de não ter acesso sequer aos meios minimamente necessários à sua reprodução, na medida em que certos segmentos, em especial os de menor qualificação, podem ser fácil e prontamente substituídos pela força de trabalho de reserva, sempre disponível. Não por acaso, qualquer que seja o volume da riqueza ou do poder econômico que tenha produzido e acumulado, não há sociedade capitalista sem pobreza ou miséria. Esse processo de espoliação econômica se replica nas cidades na forma do que Lúcio Kowarick (1993), ao examinar o acirramento da exploração do trabalho num conjunto de artigos escritos entre 1973 e 1979 — anos expressivos da fase desenvolvimentista da economia brasileira —, denominou “espoliação urbana”. Para Kowarick, esse processo de dilapidação social nas cidades, que se expressa “tanto na deterioração salarial como nas condições de transporte, saúde, saneamento e outros componentes básicos para a reprodução da força de trabalho”, não se explica tão-somente pela existência de uma grande reserva de mão-de-obra: “Ele só se tornou possível na medida em 52 que foi forjado um poderoso esquema de controle, contenção e repressão45 sobre as organizações de defesa e reivindicação das classes trabalhadoras” (op. cit., p. 17-18). Os efeitos socialmente perversos desse ambiente de repressão política foram agravados por um modelo econômico que, ao invés de voltar-se para a utilização intensiva de mão-de-obra, optou por uma industrialização altamente dependente46 de capitais. Diferentemente de outros países igualmente pobres em capital e abundantes em mão-de-obra, o Brasil adotou um modelo de crescimento calcado em grandes indústrias, como siderúrgicas, montadoras de automóveis, petroquímicas ou fábricas de aviões, carentes de capital oneroso, trazido para o País por meio de subsídios e franquias tributárias, e pouco empregadoras da farta mão-de-obra disponível. Segundo o economista Marcos Mendes (2003), na década de 1960, quando o Brasil tornou-se um país de maioria urbana, nossa renda per capita anual era de US$ 270 enquanto a de Taiwan, por exemplo, não chegava a US$ 160. No ano 2000, contudo, Taiwan havia alcançado uma renda per capita equivalente a nada menos que US$ 12.000, mais de três vezes superior à do Brasil, inferior a US$ 3.500 ao ano. Para ele, essa diferença de trajetórias deve ser atribuída à opção feita por países como Taiwan em estabelecer um padrão econômico dirigido para o emprego de mão-de-obra, com base em múltiplas pequenas empresas. Produtoras de manufaturas simples destinadas à exportação, como roupas e brinquedos, essas indústrias de menor porte reduziam o desemprego e, por meio de exportações, obtinham capital externo sem endividamento. “Uma conseqüência imediata desse modelo foi o crescimento com inclusão social” (Mendes, op. cit., p. 338). No Brasil, ao contrário, criou-se uma sofisticada indústria de bens de consumo — como a automobilística, a mais simbólica delas —, dependente, de um lado, de renúncias tributárias e de privilégios creditícios nacionais e, de outro, de insumos, tecnologia e bens de capital importados. Na síntese de Marcos Mendes (op. cit., p. 340), “o modelo brasileiro de estímulo estatal à industrialização capital-intensiva parece ter sido determinante para a exclusão social e a má distribuição de renda. Somente os poucos privilegiados que conseguiam emprego é que tinham capacidade de consumo. O mercado interno, portanto, era composto por esses privilegiados. Só eles tinham renda para comprar 45 Operado à época por um Estado de índole autoritária, em plena ditadura político-militar, esse aparato institucional destinado a inibir a efervescência de manifestações populares também cumpria relevante papel no sentido de estabelecer as bases da dualidade cidade legal/cidade ilegal. Não é de estranhar, portanto, que a proposição da reforma urbana, construída a partir de então, tenha incorporado, como um de seus fundamentos, a garantia e a ampliação dos direitos da cidadania. Nasce, assim, dessas restrições políticas, a luta pela gestão democrática das cidades, que mais tarde viria a constituir um dos princípios do Estatuto da Cidade. 46 Para uma densa análise da “especificidade do fenômeno urbano nos países subdesenvolvidos” e em que esse processo se diferencia do ocorrido nos centros capitalistas hegemônicos, ver Santos, M., 1982. 53 a produção da indústria nacional. Fechava-se um círculo. O mercado só crescia se a renda dos ‘incluídos’ crescesse”. A associação desse modelo econômico concentrado em capital — iniciado com Getúlio Vargas, na década de 1940, e continuado, na década seguinte, por Juscelino Kubitscheck — com o regime político autocrático instaurado a partir do golpe militar de 1964 acentuou essa tendência. Ao contrário do que muitas vezes se imagina, o movimento militar, a despeito da ruptura política com a democracia, não só manteve incólume o modelo econômico como também o alimentou47, por exemplo, ao regulamentar as relações de trabalho e a atividade sindical. Durante o regime militar, nas palavras de Roberson Oliveira (2003), “A indústria automobilística seguiu como centro dinâmico da economia nacional e ampliaram-se os demais setores de bens de consumo duráveis (eletrodomésticos, eletroeletrônicos etc.). Para possibilitar altas taxas de acumulação de capital, os sindicatos foram desorganizados, a rotatividade de mão-de-obra foi facilitada por meio do FGTS e os ganhos de produtividade não foram transferidos para os salários.” Com efeito, a concentração da renda nacional foi acentuada. Dados do IBGE demonstram que, no começo da década de 1960, os 10% mais ricos da população detinham 39% da renda nacional. Vinte anos depois, essa faixa passou a deter 51% e hoje já controla 53% (nos Estados Unidos da América, por exemplo, os ricos concentram 25% da riqueza nacional). No pólo oposto, os 10% mais pobres, que em 1960 detinham 1,9% da renda, em 1980, tiveram essa participação reduzida para 1,2% e, hoje, para 1%. As cidades espelham esse contraste. Como Kowarick (1993) observou, a “espoliação urbana”, no Brasil, decorre não apenas das contradições intrínsecas ao modo de produção capitalista, mas também, no âmbito desse regime e talvez com maior impacto, do padrão de desenvolvimento econômico que aqui prevaleceu. 47 Ao tomar posse, em 1967, o segundo presidente do período militar, general Artur da Costa e Silva, afirmou em discurso solene: “Queremos que os ricos se tornemmais ricos para que, com sua riqueza, possam tornar os pobres menos pobres”. 54 3 – CIDADE PLANEJADA E DIREITO CONQUISTADO 3.1 Planejamento e cidade: do modelo tecnocrático às propostas participativas 3.1.1 O planejamento regulatório A transformação demográfica do Brasil, de um país de base agrária para uma nação majoritariamente urbana, ocorreu na década de 1960. Essa inflexão coincide com a tomada do poder político por forças de natureza conservadora e autoritária. Em abril de 1964, a coalizão de vertentes políticas populistas, centrada na liderança do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), de João Goulart (aliança que, desde a década de 1930, comandada por Getúlio Vargas, havia dominado o cenário político brasileiro), foi apeada do poder. Sob a liderança do marechal Castello Branco, a estrutura política ascendente era formada por “interesses altamente internacionalizados, setores militares que enfatizavam uma ideologia de ‘segurança nacional’, interesses industriais nacionais conservadores e estratos tecnocráticos” (Schmidt e Farret, 1986, p. 23). O novo regime caracterizava-se pela estratégia de reativação da economia — deprimida pela exaustão do modelo de substituição de importações, por déficits crescentes e por elevadas taxas inflacionárias — e pela “exclusão de certos setores populares do jogo político” (Schmidt e Farret, op. cit., p. 24). No intuito de atrair o apoio das grandes massas urbanas, alijadas da aliança política que tomara o poder, foi constituído um aparato de governo destinado a financiar a produção de habitações por meio de um banco estatal48. A política habitacional vigente até então — 48 Segundo Schmidt e Farret (op. cit, p. 34-35), “um projeto para este banco foi feito antes por Carlos Lacerda, então governador do Estado da Guanabara e um dos principais líderes do movimento vitorioso de 1964; também um forte candidato à sucessão de Castello Branco. Não se pode esquecer que estavam previstas eleições em 1965, para constitucionalizar o movimento de 1964”. 55 baseada na construção de moradias, ora pela Fundação da Casa Popular, ora pelos Institutos de Aposentadoria e Pensão das várias corporações profissionais, cujos contratos de venda eram incapazes de propiciar retornos financeiros suficientes para realimentar o sistema — foi substituída. Já no dia 21 de agosto daquele ano de 1964, editou-se a Lei nº 4.380, que instituiu “a correção monetária nos contratos imobiliários de interesse social”, assim como o “sistema financeiro para aquisição da casa própria”, na prática denominado Sistema Financeiro da Habitação (SFH). Por meio dessa lei, também foram criados o Banco Nacional da Habitação (BNH), as Sociedades de Crédito Imobiliário, as Letras Hipotecárias e, por fim, o Serviço Federal de Habitação e Urbanismo (Serphau), que sucedeu a Fundação da Casa Popular, existente desde 1946. Entre as atribuições do Serphau, fixadas no art. 55, estava a de “estabelecer normas técnicas para a elaboração de Planos Diretores, de acordo com as peculiaridades das diversas regiões do país”, bem como “assistir aos municípios na elaboração ou adaptação de seus Planos Diretores [a essas normas]”. De forma coercitiva, o § 1º do mencionado artigo determinava que os municípios que não tivessem sua legislação urbanística ou seus “projetos e planos habitacionais” adaptados às normas do Serphau estariam impedidos de “receber recursos provenientes de entidades governamentais, destinados a programas de habitação e urbanismo”49. É curioso observar que, pelo menos desde 195350, documentos produzidos por organizações de arquitetos, em especial o Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), já defendiam a institucionalização da questão urbana e habitacional no âmbito do poder público, com base na idéia do planejamento da ação estatal. Reiterada em muitas ocasiões, essa 49 Por força dessa exigência, que perdurou até 1975, quando o Serphau foi extinto, ficou conhecida a prática da contratação de “planos diretores” com pouca ou mesmo nenhuma vinculação com as realidades e processos políticos locais, mas “com o objetivo primordial de constituir documento para a solicitação dos recursos para investimentos e implementação de programas setoriais nos municípios, recursos estes centralizados no Governo Federal” (Mendonça, 2001, p. 151). 50 O documento conclusivo do IV Congresso Brasileiro de Arquitetos, realizado entre 17 e 24 de janeiro de 1954, em São Paulo, defende a proposta da criação de “órgãos ministeriais especializados na matéria em questão” (habitação e urbanismo), reportando-se ao III Congresso, ocorrido no ano anterior, em Belo Horizonte, que teria aprovado “igualmente a mesma tese” (Serran, 1976, p. 29). 56 proposta culmina no Seminário de Habitação e Reforma Urbana51, iniciado no Hotel Quitandinha, em Petrópolis, no Rio de Janeiro, e concluído em São Paulo, em julho de 1963. O relatório final desse encontro, ao considerar que, no Brasil, “o fenômeno da urbanização vem se processando de maneira vertiginosa e desordenada”, que o déficit habitacional “é de suma gravidade” e que mesmo a população alojada “se debate com problemas decorrentes da defasagem entre o crescimento demográfico das cidades e o fornecimento dos mais rudimentares serviços públicos” (Serran, 1976, p. 55), incluiu a seguinte proposta: “Que o Poder Executivo envie projeto de lei ao Congresso Nacional corporificando os princípios de Política Habitacional e de Reforma Urbana aprovados neste seminário”. O documento chegava a descrever, detalhadamente, o conteúdo da lei reclamada, que incluía a criação de um “Órgão Executor da Política Habitacional e Urbana” com a atribuição, entre outras, de “fixar as diretrizes da política habitacional e de planejamento territorial do país, através da elaboração dos planos nacionais, territorial e de habitação, de duração plurianual” (Serran, op. cit., p. 59, grifos nossos). Para Maria Elaine Kohlsdorf, essas iniciativas, nascidas no âmbito corporativo, como as do IAB, ou na esfera acadêmica, como “na Universidade de São Paulo, por exemplo, (...) procuram colocar a questão urbana como processo e como objeto de várias disciplinas”. Maria Elaine destaca a vinculação entre a concentração do poder político e a inclusão da questão urbana na esfera administrativa pública, reivindicada nos meios acadêmicos e profissionais: “É, entretanto, sob um sistema de poder mais fortalecido [referindo-se ao regime militar] que se realiza a institucionalização dos problemas urbanos” (Kohlsdorf, 1985, p. 68). Conceitualmente, essas propostas derivavam da noção de que os planos diretores pudessem pôr em prática um planejamento racionalizado, que pressupunha o conhecimento completo do objeto de estudo (diagnóstico) e o enfrentamento das “disfunções” por meio da previsão da expansão urbana e da definição de normas de uso e ocupação do solo. “O objetivo é que o objeto seja totalmente reduzido a leis e teorias, para que não aconteçam surpresas” (Rezende, 1982, p. 31). Como expressa, novamente, Maria Elaine Kohlsdorf (op. cit., p. 68): 51 Promovido pelo IAB, o Seminário, sem prejuízo do caráter contestador e reivindicatório de seu documento final, teve o patrocínio governamental do Ipase (Instituto de Previdência e Assistência Social dos Servidores de Estado). O evento reuniu não apenas arquitetos, mas “cerca de 200 técnicos de diferentes especialidades (arquitetos, sociólogos, engenheiros, economistas, advogados, assistentes sociais, médicos) para, juntamente com líderes estudantis esindicais, representantes de órgãos estaduais de planejamento e de grandes empresas industriais de economia mista, estudar e debater os aspectos da crise brasileira de habitação” (Serran, op. cit., p. 11). 57 “Todos esses esforços dirigem-se para uma caracterização das situações como problemas, para os quais se deveriam procurar soluções. É a ideologia do planning, fazendo eco às correntes européias e norte-americanas (...). Por isso, costuma-se considerar como marco institucional do planejamento urbano no Brasil a criação do Serphau, mesmo porque este ato desencadeou uma série bastante significativa de experiências, (...) abrangendo um grande número de cidades de pequeno e médio portes, e não apenas os centros mais populosos.” Essa concepção norte-americana e européia, mais precisamente anglo-saxônica, de planejamento, equivale, no Brasil, ao chamado planejamento físico-territorial, que “consiste na concepção do planejamento como a atividade de elaboração de planos de ordenamento espacial para a cidade ideal” (Souza, 2002, p. 123). De caráter regulatório — porquanto baseado na formulação de leis que expressam decisões técnicas e são aplicadas por um Estado com acentuado poder de controle e disciplinamento —, esse modelo tende tipicamente a projetar uma imagem idealizada de cidade para um futuro medianamente distante, cerca de dez a vinte anos, por meio de normas para a expansão, o uso e a ocupação urbana. “Trata-se de uma redução menos ou mais acentuada do planejamento urbano a um planejamento da organização espacial, preocupado essencialmente com o traçado urbanístico, com as densidades de ocupação e com o uso do solo”52. No contexto internacional, o planejamento regulatório (ou tecnocrático) foi marcadamente dominante entre o fim da 2ª Guerra Mundial e os anos 1970. A partir de então, esse tipo de planejamento passou a ser criticado “tanto pelos marxistas quanto pela ‘New Right” (Souza, op. cit., p. 125). Os liberais criticavam um modelo que dependia da existência de um Estado forte, capaz de intervir no processo produtivo, enquanto a esquerda53 denunciava a dominação desse aparelho estatal pelas forças hegemônicas do capital urbano- industrial. Essa combinação, Estado forte e hegemonia do capital privado, ganhou contornos específicos no Brasil a partir da criação do tripé SFH/BNH/Serphau, em 1964. Embora todo esse aparato estivesse legalmente voltado para a integração das políticas de habitação e desenvolvimento urbano — o que só aconteceria em 1967, ainda assim tentativamente, a partir da criação do Ministério do Interior e da operacionalização do Serphau —, a ação estatal restringia-se à implementação de programas habitacionais. 52 Taylor, 1998, apud Souza, 2002, p. 123. 53 A construção teórica dessa crítica, de inspiração marxista, se deu, como vimos, no âmbito da mencionada “nova sociologia urbana”, constituída a partir do final dos anos 1960, por autores como Henri Lefebvre, Manuel Castells, Jean Lojkine, Christian Topalov e outros, que influenciaram fortemente a produção teórica latino- americana sobre a problemática urbana, muito especialmente a formulada no Brasil. Para uma crítica à filiação alegadamente marxista dessa corrente, ver Cariello Filho, 1999. 58 Nos primeiros anos do novo regime, essa estratégia política, que pretendia superar a insatisfação das massas urbanas, bem como atender às expectativas das classes médias e dos setores empresariais que haviam apoiado o golpe militar, resultou (conforme Schmidt e Farret, 1989, p. 33): (i) numa política de desmobilização popular, sustentada pela repressão aos movimentos sociais e pela “manipulação dos mecanismos eleitorais”; (ii) na implementação de uma política habitacional, cujo suporte financeiro destinou-se, na verdade, a “acentuar a acumulação de capital em setores urbanos-chave”, a despeito do discurso oficial que procurava conquistar a simpatia dos setores populares54. Os dados demonstram essa afirmação. Até 1967, com apenas três anos de operações do BNH, “o financiamento de habitação para grupos sociais com as mais altas rendas tomou 41% do total dos recursos, enquanto somente 35% foi para financiar habitações para as classes mais empobrecidas” (Schmidt e Farret, op. cit., p. 40). Essa tendência não apenas se confirmou, mas acentuou-se ao longo do tempo. Quando o BNH foi extinto, em 1985, o SFH havia financiado aproximadamente seis milhões de moradias. No entanto, apenas 33,5% dessas unidades foram destinadas à população de baixa renda, o que significa que, em termos de volume de recursos, a concentração foi ainda maior: “Dado que o valor médio dos financiamentos de interesse social é inferior ao valor médio dos financiamentos para as classes de renda mais elevada, é lícito supor que uma parcela ainda menor do valor total dos financiamentos foi direcionada para os primeiros” (Santos, C. H., 1999, p. 17). A partir de 1973, quando são criadas as primeiras Regiões Metropolitanas e a Comissão Nacional de Política Urbana e Regiões Metropolitanas (CNPU), o contexto urbano passa a freqüentar mais ostensivamente a agenda política nacional. Os programas do BNH, inicialmente restritos ao financiamento habitacional, passam a destinar-se também a serviços (em especial os de saneamento) e equipamentos urbanos. Em 1976, é criada a Empresa Brasileira de Transportes Urbanos (EBTU). Enquanto a abrangência temática das políticas públicas crescia, a instância municipal era substituída pela concentração da formulação de programas (e mesmo da iniciativa das ações administrativas) na esfera federal. Sintomaticamente o Serphau, nascido para subsidiar os municípios, é extinto. Mudam os enfoques, mas não o principal beneficiário da ação do poder público: o capital privado. Para Schmidt e Farret (op. cit., p. 43), “as causas ostensivas dessas mudanças são múltiplas e provêm da exaustão de oportunidades lucrativas para novos investimentos, bem como de pressões emanadas de uma estrutura urbana profundamente desorganizada. O capital disponível tinha de encontrar novas 54 O SFH foi calcado na fórmula da correção monetária acrescida de juros, sem cogitar de subsídios, o que, na prática, afastava os mais pobres do acesso à moradia. 59 oportunidades, os problemas de circulação tinham de ser superados para permitir a expansão do sistema produtivo e o Estado necessitava urgentemente deslanchar uma cadeia de operações para favorecer o funcionamento de um aparato produtivo expandido”. Os mesmos autores destacam outro aspecto que caracterizou, permanentemente, tanto a fase do regime militar focada na questão habitacional quanto aquela ampliada para o planejamento urbano e territorial: “Desde a instalação do regime autoritário comandado pelos militares, [a política urbana foi] implementada de um modo tecnocrático de pensamento (...), na base da despolitização de sua substância” (Schmidt e Farret, op. cit., p. 34). Nesse período, os planos diretores urbanos vinculam-se claramente a esse propósito de “despolitização” na medida em que, fruto da presunção de uma racionalidade técnica cujas raízes remontam aos fundamentos da arquitetura moderna55, tentam “fazer crer que a cidade seja um conjunto de construções e usos do solo que podem ser arranjados e rearranjados, através de planejamento, sem levar em conta os determinantes políticos, sociais e econômicos” (Rezende, 1982, p. 31). 3.1.2 Novas abordagens para o velho planejamento O planejamento tecnocrático foi notoriamente hegemônico no Brasil até, pelo menos, meados dos anos1980, quando o autoritarismo político, enfraquecido pela ilegitimidade político-social e pela crise fiscal, passou a ser contestado, e finalmente destituído, por um amplo movimento popular de luta pela redemocratização do País. As críticas dirigidas à tecnocracia, tanto à direita quanto à esquerda, também aqui se reproduziram e arrefeceram sua predominância nos programas e ações estatais (embora seja necessário perceber que o forte legado desse modelo continua presente em larga escala no debate da questão urbana). Essa perda de importância do planejamento regulatório deu ensejo à sua gradativa substituição por propostas, ora comprometidas com processos ditos “democráticos e participativos”, ora por formatos mais vinculados a conceitos empresariais privados. Em ambos os casos, em contraponto ao enfraquecimento da idéia de planejamento, ganhou relevância o termo “gestão”. Num dos pólos, para designar modelos fundados na idéia da participação direta da população urbana na definição dos problemas, na propositura de 55 A Carta de Atenas afirma a necessidade de que, “por meio de uma legislação implacável”, o bem-estar urbano fosse tornado “acessível para todos”. Para tanto, a fé nas possibilidades da arquitetura e do urbanismo não tinha medida: no livro Por uma arquitetura, de 1923 (São Paulo: Perspectiva, 1998), o próprio Le Corbusier chega a afirmar que “O equilíbrio da sociedade é uma questão de construção. Concluímos com esse dilema defensável: arquitetura ou revolução” (apud Souza, 2002, p. 129). Na mesma época, a formação de “massas revolucionárias” não preocupava apenas os modernistas. É curioso observar que a Revolução de 1930, que ampliou os parcos direitos democráticos admitidos na República Velha, foi antecedida por um famoso alerta de um de seus líderes, o presidente (como era chamado o governador) Antonio Carlos, de Minas Gerais: “Façamos a revolução antes que o povo a faça!”. 60 soluções e nas próprias ações administrativas. Noutro, para dar vazão a propostas de “empresariamento” das cidades no âmbito da competitividade da economia globalizada56. Embora intrinsecamente distintas, essas abordagens são às vezes confundidas, sobretudo porque ambas se valem de novos preceitos para a abordagem da problemática urbana, presentes na avaliação dos efeitos da urbanização durante as duas décadas transcorridas entre a I Conferência da ONU para Assentamentos Humanos (Habitat I), ocorrida no Canadá, em 1976, e a Habitat II, realizada na Turquia, em 1996, que ganharam expressão no documento-referência denominado Agenda Habitat. A partir dessa avaliação crítica, algumas importantes correntes de opinião adotam uma perspectiva desregulamentadora e nitidamente propícia à ação empresarial privada, sob a legenda do chamado “planejamento estratégico”. Autores nesse campo do pensamento chegam a elevar esse conjunto de idéias, construído “pela reflexão de estudiosos e pesquisadores e pela ação dos atores públicos, empresariais e sociais que interagem nos espaços urbanos” (Fernandes, M., 1999, p. 76), à condição de “novos paradigmas de desenvolvimento urbano”57, que seriam, resumidamente, os seguintes: “a) a adoção do conceito de desenvolvimento sustentável, ratificado pela Agenda 21, e incorporado pela Agenda Habitat; b) o protagonismo das cidades nos processos de desenvolvimento econômico nacional, regional e mundial; c) o governo local como agente de desenvolvimento e de fomento econômico; d) a participação dos atores relevantes da sociedade no processo de gestão democrática da cidade, demandada pela crescente presença das organizações da sociedade no cenário urbano e na esfera pública” (Fernandes, M., op. cit., p. 76, grifo nosso). Inobstante essa declaração de intenções democráticas (que sintomaticamente se refere apenas à participação dos atores ditos “relevantes”), o planejamento estratégico “tem, muitas vezes, andado associado à perspectiva ‘mercadófila’ neoconservadora”, no sentido das práticas de planejamento que “deixam de tentar ‘domesticar’ ou ‘disciplinar’ o capital”, como ilusoriamente pretendia o planejamento tecnocrático, “para, pelo contrário, melhor ajustarem- se aos seus interesses” (Souza, 2002, p. 136-137). 56 Ermínia Maricato adverte que “a crítica ao planejamento modernista carrega o risco de ajudar a mover o moinho das idéias neoliberais de flexibilização e da desregulamentação” e, contra esse risco, alerta que é necessário evitar “a importação de idéias desvinculadas da forma contraditória, desigual e predatória ao meio ambiente, com que evoluem as cidades brasileiras” (Maricato, 2000, p. 172). 57 A despeito de sua postura crítica em relação ao que considera “excessos da regulação estatal”, há familiaridades entre essa abordagem do planejamento estratégico e o velho planejamento físico-territorial. A expressão “novos paradigmas para o desenvolvimento urbano”, por exemplo, guarda notória semelhança com a já mencionada concepção da Carta de Atenas como “o instrumento pelo qual será conduzido o destino das cidades”. 61 Ao identificar e ressalvar outra corrente no âmbito do planejamento estratégico — a linha do “planejamento estratégico situacional”, de Carlos Matus58, que “mostra uma distância em relação ao ambiente conservador” e guarda “nítida proximidade [com o] planejamento politizado”, inspirado no ideário da reforma urbana —, Marcelo Lopes de Souza considera que, predominantemente, a expressão “planejamento estratégico” constitui “uma tentativa de transposição do corporate strategic planning, surgido no meio empresarial, para o planejamento urbano e regional no setor público” (Souza, op. cit., p. 137-138). Com efeito, defensores dessa corrente chegam a dizê-lo textualmente: “Cada vez mais, no Brasil, o setor público tem procurado adotar práticas de gestão empresarial, que se revelam mais eficientes e eficazes para a promoção do desenvolvimento e, especialmente, para a provisão dos serviços urbanos” (Fernandes, M., 1999, p. 87). Três autores constituem referência para a formulação desse contexto urbano- competitivo que caracteriza o planejamento estratégico: Jordi Borja e Manuel de Forn, urbanistas catalães59, além de Manuel Castells (curiosamente um dos mais importantes formuladores da crítica de conteúdo marxista ao planejamento urbano nos anos 1970). Nas obras desses autores, expressões como: “A mercadotecnia da cidade, vender a cidade, converteu-se (...) em uma das funções básicas dos governos locais” e “As cidades são as multinacionais do século XXI”60 sintetizam quais os padrões de políticas urbanas que consideram adequados para fazer frente ao impacto econômico dos processos globais. O empresarialismo presente nas concepções do planejamento estratégico tende a resultar em práticas de desregulamentação e na diminuição da presença estatal, comumente expressas nas chamadas “parcerias público-privadas”, em muitas das quais, para David Harvey, “o poder público assume os riscos e a iniciativa privada aufere os lucros”61. Num outro campo de contestação ao planejamento físico-territorial, vicejou a proposta consubstanciada na plataforma política da reforma urbana, que, percebendo os efeitos dos planos diretores tecnocráticos como excludentes em relação à população de baixa 58 Carlos Matus, economista chileno, foi ministro do governo comunista de Salvador Allende, deposto, no dia 11 de setembro de 1973, por um golpe militar. Em Matus, 1996b, examina o problema da efetivação das ações políticas a partir de três estilos distintos: o do Chimpanzé,baseado no projeto individual e na luta pelo poder pessoal; o de Maquiavel, que justifica os meios pela superioridade do projeto a ser implementado; e o de Gandhi, fundado na força moral e no consenso, que objetiva converter o adversário e não destruí-lo. Com base nesse último estilo, tenta demonstrar as possibilidades oferecidas pelo planejamento estratégico situacional. 59 Borja e Forn produzem textos e exercem consultoria em que difundem a experiência da transformação urbanística promovida em Barcelona com vistas aos Jogos Olímpicos de 1992 (Vainer, 2000, p. 75). 60 A primeira em Borja e Forn, 1996, p. 33, e, a segunda, em Borja e Castells, 1997, p. 190, ambas apud Vainer, 2000, p. 78 e 84. 61 Harvey, 2000, p. 141, apud Souza, 2002, p. 137, (livre tradução). 62 de renda, recusava a própria idéia desse tipo de plano como instrumento de gestão. No entanto, a partir da promulgação da Constituição de 1988, cujo conteúdo promoveu uma espécie de inesperado renascimento dos planos diretores, o movimento pela reforma urbana reincorporou criticamente a idéia do planejamento, incluindo-a entre os processos democráticos e participativos que deveriam orientar a política urbana. Essa abordagem crítica é não apenas inovadora em relação ao modelo tecnocrático que contestava e seguiu contestando, mas também pelo grau de autonomia e pioneirismo que teria no âmbito internacional. Para Marcelo Lopes de Souza, “o principal exemplo de apropriação do planejamento e da gestão urbanos pelo pensamento crítico se deu não no Primeiro Mundo (de onde tem sido importada a maioria das modas e idéias em planejamento e nas ciências sociais em geral), mas no Brasil, com o ideário da reforma urbana” (Souza, 2002, p. 155). A tentativa de transformar essas novas idéias em leis começou a ocorrer durante a elaboração da Constituição de 1988, como veremos no Capítulo 4. Por ora, para ajudar na compreensão do papel que a legislação urbana passou a desempenhar na condição de arena da disputa pelo direito à cidade, convém verificar o significado que a lei do plano diretor adquiriu no texto constitucional. 3.1.3 O plano diretor na Constituição de 1988 Um dos temas que mais suscitou polêmicas durante os trabalhos da Assembléia Nacional Constituinte foi o da função social da propriedade fundiária. Como conceito, incluído no próprio rol dos princípios da ordem econômica e, portanto, tratado como condição genérica para o exercício de todo e qualquer direito de propriedade, não enfrentou maiores reações, nem mesmo entre os setores mais conservadores. Porém, no tocante à aplicabilidade concreta desse aspecto dos direitos econômicos, a Carta Magna — que o falecido deputado Ulysses Guimarães, presidente da Assembléia, definiu como “a Constituição-cidadã” — não foi tão democrática quanto aconteceu, por exemplo, com referência aos direitos políticos e sociais. Tratava-se de conferir eficácia ao princípio da função social relativamente à propriedade da terra e, assim, torná-la menos ou mais sujeita ao interesse coletivo. A operacionalização desse princípio exige que o poder público possa valer-se de procedimentos especiais de desapropriação, quando menos para instar os proprietários a cumprir a função social. Como se sabe, a regra constitucional da desapropriação condiciona esse procedimento à demonstração de finalidade (a necessidade ou utilidade pública ou o interesse social) e ao 63 pagamento de “prévia e justa indenização em dinheiro” (art. 5°, XXIV, da Constituição Federal). São ressalvados dessa norma geral tão-somente os casos previstos na próprio texto constitucional. E qual seria a conseqüência do tratamento diferenciado em relação à regra? Seria aquilo que os juristas chamam de “desapropriação-sanção”62, na qual, a depender da gravidade da atitude do proprietário em relação aos bens de seu domínio, os direitos indenizatórios são reduzidos ou até eliminados, como ocorre, por exemplo, nos casos de terras utilizadas para “culturas ilegais de plantas psicotrópicas” (art. 243, caput, da CF) e, de acordo com o que dispuser a lei, quando a pena aplicável for a “perda de bens” (art. 5°, XLVI, b, da CF). Entre os casos de alteração punitiva da forma da desapropriação estão aqueles em que, para fins de reforma agrária ou de reforma urbana, o pagamento da indenização ocorre não previamente e em dinheiro, como quer a regra geral, mas em títulos da dívida pública, resgatáveis em longo prazo. Embora também nesses casos o valor do bem expropriado seja teoricamente preservado, amplia-se sobremaneira a possibilidade de a administração pública recorrer a esse instrumento de gestão. Afinal, diante da crônica escassez de recursos orçamentários, de que outro modo poderia o poder público implementar medidas de desapropriação fundiária, sempre tão necessárias às políticas sociais, senão pelo pagamento diferido no tempo? No entanto, o que permite a aplicação dos institutos constitucionais da desapropriação-sanção é a caracterização do descumprimento da função social da propriedade. Provém daí a disputa ocorrida durante a Constituinte com relação aos dispositivos que buscavam dar aplicabilidade a esse instrumento. No caso da reforma agrária, a Constituição determinou, repetindo a prática consagrada, que a iniciativa das desapropriações pertence à União (o que afasta os Estados, o Distrito Federal e os Municípios dessa prerrogativa), além de estabelecer que os títulos públicos utilizados para pagamento serão resgatáveis em até vinte anos, ressalvadas “as benfeitorias úteis e necessárias”, as quais deverão ser indenizadas em dinheiro. Por força da articulação de forças políticas conservadoras, liderada na época pela União Democrática Ruralista (UDR)63, ficaram excluídas da possibilidade de desapropriação para fins de reforma 62 Segundo Alessandra Queiroga, “a expressão desapropriação-sanção tem sido utilizada apenas no que se refere à modalidade expropriatória prevista no artigo 182, § 4°, inciso III, da Constituição Federal”, no capítulo que trata da política urbana. Entretanto, a autora entende ser pertinente a utilização desse termo para “toda e qualquer modalidade de expropriação em que se penalize o proprietário, através da ausência de indenização, através da sua redução, ou através de uma determinada forma de pagamento de indenização que não seja prévia, integral e em dinheiro” (Queiroga, 2002, p. 29). 63 Os grandes proprietários rurais, associados na denominada União Democrática Ruralista (UDR), sob a presidência do deputado federal constituinte Ronaldo Caiado, do PMDB de Goiás, teve suas posições defendidas 64 agrária “a pequena e média propriedade rural, assim definida em lei, desde que seu proprietário não possua outra”, bem como a “propriedade produtiva”, conceito que restou indefinido (art. 185 da CF). Mais explicitamente, no art. 186, a Constituição estabeleceu que a propriedade rural cumpre sua função social quando atende, “simultaneamente, segundo critérios e graus de exigência estabelecidos em lei, aos seguintes requisitos: I – aproveitamento racional e adequado; II – utilização adequada dos recursos naturais disponíveis e preservação do meio ambiente; III – observância das disposições que regulam as relações de trabalho; IV – exploração que favoreça o bem-estar dos proprietários e dos trabalhadores”. O movimento social pela reforma agrária se sentiu frustrado com o texto aprovado, já que pretendia estender a aplicação da desapropriação especial até as propriedades produtivas que não cumprissem sua função social,possibilidade que, não sendo expressamente autorizada, passou a depender de métodos jurídicos menos literais de interpretação das normas constitucionais. De fato, prevaleceu na Constituição uma redação redutora da perspectiva da reforma agrária, “tamanha a vagueza do conceito de ‘produtividade’, podendo abranger boa parte dos latifúndios existentes no País” (Spitzcovsky e Tura, 1993, p. 31). Derrotados pelo Centrão e pela UDR, ainda que por pequena margem de votos64, os constituintes ligados ao chamado setor democrático-popular atribuíram ao texto aprovado a responsabilidade pelas dificuldades que poderiam advir na implementação da reforma agrária. João Gilberto Lucas Coelho e Antonio Carlos Nantes de Oliveira, ao analisarem o tratamento desse tema no processo constituinte — num documento redigido em 1989, cujo conteúdo premonitório poderia também ser estendido à causa da reforma urbana —, afirmaram: “A Constituição não desatou o nó da questão agrária. Tornou até mais difícil a sua solução. Grandes batalhas legislativas na regulamentação e a luta prática e diária darão continuidade ao enfrentamento do problema de parte dos movimentos populares” (Coelho e Oliveira, op. cit., p. 77). Apesar desse prognóstico pessimista, em grande parte confirmado pelas efetivas dificuldades para a implementação da reforma agrária (que, a bem da verdade, não se resumem à expropriação da terra, mas dependem dela), a pré-existência do Estatuto da Terra, Lei n° 4.504, de 30 de novembro de 1964, permitiu que o poder público continuasse a por um grupo de constituintes de perfil conservador, autodenominado “Centrão” (Coelho e Oliveira, 1989, p. 76 e 77). 64 Na votação n° 531, a tentativa do Centrão e da UDR de remover do texto até então aprovado a possibilidade de desapropriação-sanção da propriedade que, mesmo produtiva, descumprisse sua função social, resultou bem sucedida, apesar de derrotada numericamente. A despeito de ter vencido por 267 votos contra 253, a proposta de reforma agrária ampla não alcançou o quorum mínimo de 280 votos, exigido pelo Regimento (Coelho e Oliveira, 1989, p. 102). 65 promover desapropriações de latifúndios improdutivos. Constatado o descumprimento da função social da propriedade rural, o bem pode ser imediatamente expropriado mediante indenização paga em títulos da dívida pública. Situação ainda mais difícil, do ponto de vista do interesse coletivo, foi reservada à operacionalização da reforma urbana. Embora, analogamente, tenha prevalecido no processo constituinte a idéia de que a terra urbana “improdutiva”, nesse caso denominada “ociosa”, deva estar sujeita à desapropriação-sanção, a efetivação desse princípio foi posta diante de múltiplos obstáculos. Após um sinuoso processo que será comentado nos Capítulos 4 e 5, o texto final da Constituição estabeleceu que “a propriedade urbana cumpre sua função social quando atende às exigências de ordenação da cidade expressas no plano diretor” (art. 182, § 2°, da CF). Assim, remeteu-se do texto constitucional para o território legislativo municipal a prerrogativa de estabelecer os critérios e as condições a serem atendidas pelas propriedades urbanas no cumprimento de sua função social. O plano diretor, cujo passado tecnocrático, como vimos, o transformara num instrumento repudiado pelos defensores da reforma urbana, não apenas surgia, por assim dizer, redivivo, como passava a ser o paradigma do cumprimento da função social da propriedade65. Na Emenda Popular apresentada perante a Assembléia Nacional Constituinte, embora, ao contrário do que comumente se afirma66, de fato houvesse menção em dois artigos a “planos de uso e ocupação do solo” (no primeiro, para assegurar “o amplo acesso da população às informações” sobre esse planos e, no segundo, para exigir sua “aprovação pelo legislativo e a participação da comunidade” na sua elaboração e implantação), não havia textualmente a expressão “plano diretor”. Na explicação de Ermínia Maricato, indicada pelas entidades signatárias para defender a Emenda perante o Plenário da Constituinte: “A rejeição ao plano diretor significou a rejeição ao seu caráter ideológico e dissimulador dos conflitos sociais urbanos. Além de ignorar a proposta de plano diretor, a ‘iniciativa popular’ destacou a ‘gestão democrática das cidades’, revelando o desejo de ver ações que fossem além dos planos” (Maricato, 2000, p. 175). Com efeito, num longo processo que resultou em pelo menos dez versões preliminares, desde o anteprojeto da Subcomissão de Questão Urbana e Transporte até a 65 Autores como Liana Portilho Mattos (2003, p. 104-114) demonstram que, não sendo o plano diretor o único instrumento de política urbana, mas seu instrumento básico, a exigência do cumprimento da função social da propriedade urbana se impõe universalmente, ainda que inexista, nesta ou naquela localidade, plano diretor. 66 Ver, p. ex., Grazia, 2002, p. 16, e Maricato, 2000, p. 174. 66 redação final do texto promulgado, os dispositivos relacionados com a política urbana somente passaram a mencionar a expressão “plano diretor” nas fases finais da Constituinte67. A par de estar condicionada à elaboração de plano diretor, a desapropriação-sanção da propriedade urbana passou também a depender de outras duas leis: uma lei municipal “específica para área incluída no plano diretor” e uma “lei federal”68, que estabelecesse “os termos” em que o proprietário do solo urbano “não edificado, subutilizado ou não utilizado” poderia ser apenado (art. 182, § 4°, da CF). Além da exigência dessas três leis para que a desapropriação-sanção fosse aplicável, a Constituição ainda fixou um conjunto de penalidades a serem “sucessivamente” impostas por meio de atos administrativos (decretos municipais) até que o poder público possa, finalmente, promover a expropriação, mediante pagamento em títulos, da propriedade urbana que desatenda sua função social. É preciso primeiro determinar que o proprietário promova o parcelamento da gleba, a edificação no lote ou a utilização do imóvel; depois, em caso de descumprimento, aplicar o IPTU progressivamente no tempo para, só então, se ainda desatendida a obrigação, poder iniciar a desapropriação especial. Ao estabelecer a exigência prévia de nada menos que cinco normas legais (três leis e dois decretos), o arranjo aprovado, resultante da força majoritária do Centrão, não poderia ser mais procrastinatório. Por essa razão, como afirma Liana Portilho Mattos (2003, p. 62), “mesmo com a constitucionalização do direito urbanístico e a explicitação mais clara de suas regras e de seus princípios69, a aplicação de grande parte das normas previstas no capítulo da Política Urbana ficou obstada por mais de uma década [referindo-se à aprovação do Estatuto da Cidade], por força do entendimento jurisprudencial que prevaleceu sobre a matéria”. Parcialmente derrotado pela vinculação da função social da propriedade urbana ao plano diretor e à aprovação de uma lei federal de política urbana, o Movimento Nacional pela Reforma Urbana (MNRU) passa a dirigir seus esforços para a elaboração da norma federal exigida pela Constituição e das leis orgânicas municipais (já que os municípios passaram a ser considerados entes federativos autônomos), assim como, muito especialmente, para a formulação dos novos planos diretores. 67 Todas as informações referentes aos textos produzidos no âmbito da Assembléia Nacional Constituinte estão baseadas em informações disponíveis no Banco de Dados “APEM” (Anteprojetos, Projetos e Emendas da Assembléia Nacional Constituinte), doSistema de Informações do Congresso Nacional (SICON). 68 Essa lei federal vem a ser o Estatuto da Cidade, aprovado treze anos depois. 69 É inegável, nesse sentido, o avanço do chamado “arcabouço jurídico”, trazido pela Constituição de 1988. No entanto, muitos “exemplos confirmam aquilo que diversos estudiosos da sociedade brasileira apontam como distância tradicional entre o arcabouço jurídico e a realidade social” (Maricato, 2000, p. 152). 67 Os princípios da democracia participativa e da gestão democrática, incorporados ao texto constitucional, e, principalmente, a estratégia de superar a cultura patrimonialista70 sedimentada nas elites brasileiras — que havia tisnado o capítulo constitucional sobre a política urbana — ganharam novos foros institucionais. O campo principal da luta71 deslocou- se do Congresso Nacional para as prefeituras e câmaras de vereadores. 3.1.4 A experimentação municipal pós-Constituição A partir das substanciais alterações trazidas pela nova Constituição, especialmente no que refere à autonomia municipal e ao papel que o plano diretor assumiu em relação ao cumprimento da função social da propriedade urbana, “houve um esforço de elaboração coletiva por parte das prefeituras no sentido de incorporar nas leis orgânicas e Planos Diretores novos instrumentos que interviessem sobre o mercado de terras de forma a ampliar seu acesso para setores populares” (Rolnik, 2002, p. 205, grifo nosso). Entretanto, a despeito dessa clara intenção, a rica e corajosa72 experimentação municipal posta em prática desde então revelou contradições em relação a seus declarados propósitos. Se, de um lado, experiências como a instituição de Zonas (ou Áreas) Especiais de Interesse Social (ZEIS ou AEIS) em Recife (PE), Belo Horizonte (MG), Natal (RN), Porto Alegre (RS), Santos (SP), Diadema (SP) e outras cidades lograram, por diferentes caminhos, reduzir os preços de terra urbana bem localizada e, assim, ampliaram as possibilidades de regularização fundiária e de acesso à moradia para a população de baixa renda73, outros instrumentos, como as operações interligadas e operações urbanas em São Paulo (SP) e no Rio de Janeiro (RJ), por exemplo, mais serviram para que o capital imobiliário fosse beneficiado pela possibilidade de “burlar a lei do zoneamento” (Maricato, 2000, p. 177) do que para que delas fosse retirado proveito público. 70 Ver, entre outras obras, Os donos do poder, de Raymundo Faoro (1991), no sentido de compreender os efeitos do “patrimonialismo” na formação da sociedade brasileira. 71 Para algumas de suas principais lideranças, como Ermínia Maricato, o MNRU cometera “o equívoco de centrar o eixo de sua atuação em propostas formais legislativas, como se a principal causa da exclusão social urbana decorresse da ausência de novas leis ou novos instrumentos urbanísticos para controlar o mercado, quando grande parte da população está e continuaria fora do mercado ou sem outras alternativas (...)” (Maricato, 2000, p. 143). 72 Na ausência da lei federal que deveria dispor sobre as diretrizes e os instrumentos da política urbana, muitos municípios, ainda que sem previsão constitucional expressa para tanto, passaram a tratar dessa matéria na legislação local, sujeitando-se a enfrentamentos judiciais que, aliás, ocorreram em vários casos, como, por exemplo, na frustrada tentativa de aplicação do IPTU progressivo na gestão da prefeita Luíza Erundina, em São Paulo. 73 A respeito das ZEIS ou AEIS, ver, por exemplo, os artigos de Bentes; de Hereda et al.; e de Botler e Marinho, todos em Instrumentos Urbanísticos contra a Exclusão Social. Revista Pólis, São Paulo, n. 29, 1997. 68 No caso das ZEIS (para ficarmos com a denominação adotada no Estatuto da Cidade), mediante a simplicação de normas de parcelamento, a redução das áreas mínimas dos lotes e a proibição de que fossem remembrados, afastou-se, em parte, a cobiça do mercado. Em conseqüência, os preços nessas áreas foram deprimidos, a despeito de em muitos casos os imóveis desfrutarem de localizações centrais. Embora, numa abordagem mais criticamente rigorosa, as ZEIS possam ser vistas de forma estigmatizada, como áreas institucionalmente destinadas aos pobres, e, portanto, como reforço dos próprios mecanismos de segregação que pretende romper, constitui amplo consenso entre lideranças populares, profissionais e pesquisadores da questão urbana a percepção de que esse instrumento tem sido útil nos procedimentos de regularização fundiária, sendo considerado capaz de atenuar o processo de periferização da população de baixa renda. No outro pólo da prática municipal iniciada anteriormente à aprovação do Estatuto da Cidade, encontram-se as operações interligadas (OI), que consistiam numa autorização especial dada pela prefeitura para que o proprietário de determinado lote pudesse valer-se de padrões urbanísticos mais flexíveis e, em troca, construísse e doasse ao poder público habitações de interesse social para atender à população favelada. Aparentemente vantajosa e eticamente defensável, a idéia foi bem recebida pela opinião pública, auxiliada, como sempre, pela opinião publicada, sobretudo na grande imprensa. No caso do Rio de Janeiro, os jornais contemporâneos das primeiras aplicações da medida (conforme GT/OI-RJ, 1997, p. 58-59) traziam matérias em que se elogiavam as OI por considerá-las: (i) instrumento eficiente na reapropriação de mais-valias; (ii) oportunidade para flexibilizar normas urbanísticas obsoletas; (iii) mecanismo redistributivo, capaz de gerar recursos para aplicação em políticas sociais; e (iv) forma de controle social de procedimentos de alteração normativa que tradicionalmente eram promovidos sem conhecimento público. Em contraponto a esses argumentos, os críticos dessas operações consideram que: (i) as OI funcionariam na verdade como “promotoras do mercado, ao gerar condições especiais, que são relacionadas a cada terreno em particular”; (ii) a flexibilização das normas urbanísticas pode e deve ocorrer sem “a necessidade de se instituir instrumentos que promovem a burla sistemática da lei”; (iii) o mecanismo das OI não seria redistributivo já que “gera recursos extraordinários, que são compartidos entre o poder público e os empreendedores”; e (iv) a “publicização da transgressão” não justificaria a criação de “mecanismos que podem facilmente se traduzir como arbítrio e favorecimento” (GT/OI-RJ, op. cit., p. 60-61). 69 Autores como Marcelo Lopes de Souza, embora ressalvem que “talvez não seja necessário anatematizar o instrumento, como sugerem alguns críticos mais afoitos” (referindo- se ao GT/OI-RJ), reconhecem que as OI “têm sido aprovadas para alterar parâmetros urbanísticos em bairros e setores urbanísticos nobres (...), sendo que as contrapartidas exigidas dos beneficiários (promotores imobiliários e outros), efetivadas sob a forma de doação de imóveis ou pagamento em dinheiro, não convencem quanto ao interesse da transação para a coletividade” (Souza, 2002, p. 288). Em São Paulo, as operações interligadas, cujas origens remontam ao governo Jânio Quadros na Prefeitura de São Paulo, em 1986 — quando esse alcaide envia a seu secretário de Planejamento um memorando nos seguintes termos: “Solicito providências imediatas para estudar projeto que favoreça construções em determinadas áreas desde que o proprietário ofereça residências operárias aos ocupantes dessas mesmas áreas”74 —, receberam, mais tarde, tentativas de aperfeiçoamento, mas, pelo efeito das críticas ao seu funcionamento duvidoso como instrumentode interesse público e de restrições a seus aspectos jurídico-formais, sua utilização foi interrompida. Em seu lugar, passaram a ser implementadas as chamadas operações urbanas (OU), num modelo mais aproximado da fórmula que seria incorporada ao Estatuto da Cidade. Ao contrário das OI, “nas quais as contrapartidas financeiras se traduzem em construção de HIS [habitações de interesse social] fora do terreno em que são obtidos direitos de edificação superiores aos estabelecidos pelo zoneamento, nas OU tais recursos são utilizados no interior do perímetro que delimita a área onde se realizará a OU, na forma de investimentos em infra- estrutura, redes viárias, residências para os setores médios e para as populações de baixa renda etc.”(Sandroni, 2001, p. 62, livre tradução). Mais uma vez, as justas e defensáveis intenções, expressadas como objetivos da iniciativa, quase nunca se efetivaram. Se não em todos os casos, na maior parte deles, os maiores bônus têm ficado com os empreendedores e os ônus mais relevantes com o poder público, isto é, com a coletividade. Embora difiram na abrangência territorial e no conteúdo das contrapartidas previstas, tanto as OI quanto as OU baseiam-se na outorga onerosa do direito de construir (solo criado) ou de alterações de uso, excedentes em relação às regras gerais do zoneamento. Se essas forem desproporcionalmente vantajosas em comparação com as contrapartidas exigidas dos beneficiários, ofendem-se “os princípios éticos que norteiam as idéias de justiça e legalidade” (GT/OI-RJ, 1997, p. 59). 74 Processo da Prefeitura Municipal n° 10.001.934-86*39, 07/01/86, p. 1, apud Wilderode, 1997, p. 44. A título de curiosidade, já no período em que exerceu a Presidência da República, de 1960 a 1961, quando renunciou espetacularmente, Jânio Quadros desenvolveu o hábito de governar por meio de “bilhetinhos” enviados a seus auxiliares. À época, diretor do jornal “Diário Carioca”, que fazia oposição a Jânio, Pompeu de Sousa (que, trinta anos mais tarde, como senador, seria o autor do projeto do Estatuto da Cidade) fazia uma coluna diária, denominada “Bilhetinhos a Jânio”, em que satirizava as decisões do presidente da República (Sousa, 1987). 70 Ao fazer proposições que, com base em sua grande experiência, poderiam melhorar o desempenho social das OU, Paulo Sandroni observa que a Operação Urbana Faria Lima (Lei Municipal n° 11.732, de 1995), em São Paulo, talvez o maior exemplo da comentada deformação, ao invés de voltar-se para a obtenção de contrapartidas de interesse público, destinou-se a prolongar uma avenida, cujos terrenos já ostentavam um dos mais elevados preços do mercado imobiliário, no interesse quase exclusivo de empreendedores privados. Assim, “ao contrário de representar uma captura de mais-valias pelo poder público, significou um elevado gasto que pesa na dívida pública do município” (Sandroni, 2001, p. 70). Circunstâncias dessa natureza, ou seja, a perspectiva da obtenção de vantagens advindas dos novos instrumentos, parecem ter contribuído para quebrar resistências de segmentos do capital imobiliário à aprovação do Estatuto da Cidade, que paralelamente tramitava no Congresso Nacional, sendo acrescido ou modificado para absorver esses e outros experimentos municipais. Os efeitos, em seus vários sentidos, da prática municipal na implementação de dispositivos inovadores constituem, aliás, uma das principais hipóteses em que se assenta este trabalho para explicar o consenso obtido na aprovação da nova lei. Os analistas da aplicação das operações interligadas e urbanas, por exemplo, confirmam essa evidência. Referindo-se à partição dos ônus e bônus entre poder público e iniciativa privada, favorável a esta última, o GT/OI-RJ (op. cit., p. 60) afirma: “Por isso ele [o instrumento da operação interligada] vem sendo utilizado sem enfrentar qualquer oposição do setor imobiliário, pelo contrário, tendo o seu apoio quase irrestrito”. É o que também pensa Marcelo Lopes de Souza, para quem esse instrumento, a depender de sua regulamentação, “pode constituir-se em peça legitimatória de favorecimentos abusivos de interesses capitalistas em detrimento da população. Esse tem sido, precisamente, o caso do Rio de Janeiro” (Souza, 2002, p. 284). Na ótica da crítica paulista, a opinião não é diferente. Ao examinar as primeiras operações interligadas em São Paulo, Daniel Wilderode (1997, p. 54) conclui seu trabalho constatando que a construção de moradias populares, embora em quantidades inexpressivas, “é elogiada tanto pela imprensa em geral, quanto pelos diversos representantes do setor imobiliário e da construção, deixando em segundo plano o superlucro obtido pelo empreendimento interligado”. Em que pesem esses comentários críticos, prevalece entre os militantes da causa da reforma urbana a convicção de que é possível a utilização desse vasto instrumental urbanístico em atendimento a preceitos éticos de eqüidade social. Abordagens como a das “Operações Concertadas” em Porto Alegre, que prevêem uma análise prévia, de caráter deliberativo, de 71 um conselho composto, em partes iguais, de representantes do governo, das entidades civis e da comunidade interessada (Damásio, 2000, apud Maricato e Ferreira, 2002, p. 244) ou a incorporação de sugestões, não apenas de controle social, mas também de resguardo ético, como a de que o aporte de recursos públicos somente ocorra após o investimento privado (Sandroni, op. cit., p. 69), podem aprimorar sua utilização. Não apenas em relação a esses, mas aos múltiplos instrumentos de planejamento e de gestão urbana utilizados pelos municípios, têm sido crescente a produção teórica, assim como o registro analítico e crítico da sua aplicação. Desde as pioneiras publicações do Instituto Pólis até coletânias recentes como “A Lei e a Ilegalidade na Produção do Espaço Urbano” (Fernandes e Alfonsin, 2003), que reúne densos artigos sobre o tema específico da regularização fundiária, ou o compêndio “Mudar a Cidade” (Souza, 2002), livro-texto que promove ampla revisão histórica e crítica sobre o planejamento e a gestão urbana, ou ainda, numa abordagem mais prospectiva, “Estatuto da Cidade e Reforma Urbana: Novas Perspectivas para as Cidades Brasileiras” (Osório, 2002) — sem contar pesquisas acadêmicas, artigos e anais de seminários e congressos, que se multiplicam —, a reflexão teórica sobre a aplicação do instrumental urbanístico no Brasil se avoluma substantivamente. O fato inegável é o de que essa variegada experimentação municipal — que envolveu práticas participativas de formulação orçamentária75, procedimentos democráticos para a elaboração e a implementação do plano diretor76, instrumentos de regularização fundiária, tentativas (infrutíferas) de tributação progressiva de terrenos ociosos —, independentemente do maior ou menor sucesso desse ou daquele ponto de vista (ou, ao contrário, por gerar expectativas positivas de vários matizes), foi decisiva para que o projeto de Estatuto da Cidade vencesse resistências e superasse reações. Se, para o MNRU, essas práticas evidenciavam conquistas em direção à universalização do direito à cidade, “por meio da construção coletiva de leis, políticas, programas e práticas sociais em todos os níveis da Federação” (Grazia, 2002, p. 36), para o empresariado urbano, que sempre viu aquele Movimento (e por ele foi visto) com reservas e restrições, a perspectiva que se delineava era outra. Como constata Marcelo Lopes de Souza, “diante da crise do regulative planning e da ascensão das modalidadesfrancamente mercadófilas de planejamento, a cautela e a crítica parecem ceder mais e mais terreno à 75 Em vez de ser definido apenas pelas autoridades formalmente constituídas, o orçamento público passa a ser elaborado democraticamente, em várias e sucessivas reuniões, nas quais as comunidades interessadas debatem as possibilidades e prioridades do investimento público. As primeiras iniciativas de Orçamento Participativo, como essa prática ficou mundialmente conhecida, datam de 1989, na cidade de Porto Alegre (RS). 76 Alguns chegam a ver o plano diretor, não sem certa dose de otimismo, como um “pacto social urbano” (na expressão, entre outras análogas, de Linda Gondim apud Osório, 2001, p. 176). 72 apologia da parceria direta e explícita entre Estado e capital imobiliário” (Souza, 2002, p. 287). Assim, a conquista desse novo e amplo instrumental jurídico pode ser traduzida de muitas maneiras. Sua aplicação pode mesmo não ocorrer ou, a depender das circunstâncias, se dar num ou noutro sentido. Como acuradamente observou Ermínia Maricato, ao citar pesquisa do professor Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro que evidencia o “avanço legal” das leis orgânicas e planos diretores municipais, após a Constituição de 1988: “na gestão das cidades, entretanto, esse avanço não foi efetivado”. Certamente porque, ela mesma conclui, “estamos no terreno da política e não da técnica” (Maricato, 2000, p. 181 e 185). 3.2 O direito na cidade 3.2.1 O direito achado na rua “Na hipocrisia de fazer o contrário do que dizem (isto é, dizer que vão realizar a justiça, nas normas, enquanto resguardam os seus privilégios), os dominantes se contradizem, deixando buracos, por onde os juristas de vanguarda podem enfiar a alavanca do progresso”. Essa lição de Roberto Lyra Filho (1982, apud Guedes, 1993, p. 89) fundamenta uma percepção do direito que não o vê apenas como norma expressa, ordem estagnada, mas como processo histórico, constituído pelas práticas sociais que, em movimento, transformam a realidade e positivam (no sentido jurídico de tornarem formais) princípios de justiça. Deriva dessa concepção a designação “direito achado na rua”, corrente de pensamento jurídico resultante da reflexão e da prática de um conjunto de pensadores do direito, “cujo principal expoente foi o professor Roberto Lyra Filho e a docência que exercitou, por cerca de trinta anos, principalmente na Universidade de Brasília” (Sousa Jr., 1993, p. 7). Nas palavras do próprio Lyra Filho, a denominação direito achado na rua “aplica a nosso campo de estudos o epigrama hegeliano n° 3 de Marx (...): ‘Kant e Fichte buscavam o país distante / pelo gosto de andar lá no mundo da lua / mas eu tento só ver, sem viés deformante, / o que pude encontrar bem no meio da rua”77. Construções teóricas dessa natureza dão a medida do esforço que os juristas mais comprometidos com as causas da justiça social tiveram e ainda têm que empreender para romper, ou neles encontrar frestas, os dogmas civilistas e patrimonialistas que, como vimos 77 No livro Desordem e processo (Porto Alegre: Sérgio Antonio Fabris, 1985), apud Sousa Jr., 1993, p. 6 (apresentação da 4a edição). 73 anteriormente, têm oferecido suporte legal à segregação social característica das cidades brasileiras. Os textos citados, de autoria do professor Lyra Filho, foram escritos, respectivamente, em 1982 e 1985, e são, portanto, anteriores ao processo de redemocratização do País, que culminou na promulgação da Constituição de 1988. A despeito, contudo, dos inegáveis avanços sociais que nossa ordem jurídica experimentou desde então, sendo o capítulo constitucional sobre a política urbana e o Estatuto da Cidade testemunhos desse aprimoramento, impressiona perceber a semelhança daqueles ensinamentos com a análise, já posterior a esse novo ordenamento legal (e, na verdade, a propósito dele), feita com acuidade por Edésio Fernandes: “é preciso ‘arrancar’ o tratamento jurídico do direito de propriedade imobiliária do âmbito individualista do Direito Civil para colocá-lo no âmbito social do Direito Urbanístico, de tal forma que o direito coletivo ao planejamento das cidades, criado pela Constituição Federal de 1988, seja materializado. Da mesma forma, é preciso ‘arrancar’ o tratamento jurídico da gestão urbana do âmbito restritivo do Direito Administrativo para colocá-lo no âmbito mais dinâmico do Direito Urbanístico, de tal forma que o direito coletivo à gestão participativa das cidades, também criado pela Constituição Federal de 1988, seja efetivado” (Fernandes, E., 2002b, p. 34). Esse alerta se dá no contexto da consistente defesa que seu autor faz da tese de que o direito urbanístico já constitui um ramo autônomo do direito, na medida em que detém “objeto, princípios, institutos e leis próprias” (Fernandes, E., op. cit., p. 60). Para ele, esse ramo autônomo não mais pode ser confundido, como tem sido, com preceitos do direito civil, privatista e individualista, ou do direito administrativo, na órbita pública, mas limitado e insuficiente para abranger o novo escopo normativo. No entanto, a percepção das dificuldades, presente em ambas as análises a despeito de distarem vinte anos uma da outra, sugerem que o papel das ruas não pode ser negligenciado na luta pela efetivação dos direitos conquistados. Se houve um longo caminho, cujos pressupostos jurídicos comentaremos a seguir, para que o direito à cidade — direito achado na rua — fosse transformado em normas legais, é razoável supor que não será menos penosa a tarefa para que esses direitos, agora formais, sejam transpostos para a realidade. 3.2.2 Do privatismo do Código Civil à cidade no âmbito do direito público Na expressão, mais uma vez, de Edésio Fernandes (2002b, p. 60), “do Código Civil de 1916 ao Estatuto da Cidade de 2001, isto é, do princípio da propriedade individual irrestrita 74 ao princípio das restrições urbanísticas ao direito de propriedade, até chegar no princípio da função social da propriedade e da cidade, a ordem jurídica de controle do desenvolvimento urbano foi totalmente reformada”. Essa nova ordem jurídica está fundamentalmente calcada no princípio da função social da propriedade, que, embora presente nas constituições brasileiras desde 1934, somente na de 1988 ganhou contornos precisos em relação à propriedade urbana. Para que sejam alcançados os objetivos constitucionais da política urbana, quais sejam os de assegurar a efetivação das funções sociais da cidade e da propriedade urbana de modo a garantir condições condignas de vida a todos os seus habitantes, o município deve adotar um plano diretor, como principal instrumento da implementação dessa política. Ao plano diretor incumbe a tarefa, não mais apenas de estabelecer as metas e diretrizes da política urbana, que se impõem aos particulares e agentes privados, como também de definir os critérios para o atendimento pela propriedade urbana de sua função social, assim como fixar as normas que limitam e condicionam, na cidade, o exercício do direito de propriedade. Embora, desde a promulgação constitucional, os municípios estejam, mais que autorizados, instados e, em certos casos, obrigados a elaborar seus planos diretores em consonância com esse novo paradigma, anteriormente à aprovação do Estatuto da Cidade a reação à aplicação do princípio constitucional da função social (o que envolvia não apenas o plano diretor, mas também outras leis municipais) comumente se valia do “argumento jurídico – falho, mas eficiente – de que o capítulo constitucional não seria auto-aplicável (...), já quesomente uma outra lei federal poderia modificar os princípios do Código Civil sobre o direito de propriedade” (Fernandes, E., op. cit., p. 37). De fato, não era o que ensinavam juristas do porte de José Afonso da Silva, para quem “o regime jurídico da propriedade tem seu fundamento na Constituição”, e não, portanto, na legislação infraconstitucional. “Significa isso que o Direito Civil não disciplina a propriedade, mas tão-somente regula as relações civis a ela pertinentes” (Silva, J. A., 2000, p. 69). Ainda para esse notório autor, estando a propriedade urbana vinculada à sua função social pela Constituição, que, de outra parte, remete ao plano diretor a fixação dos parâmetros para o atendimento dessa condição e, assim, para o próprio exercício do direito, “é que se concebe o direito de propriedade urbana como um direito planificado (e também propriedade- procedimento), porque predeterminado por planos urbanísticos” (Silva, J. A., op. cit., p. 76). Na dicção não menos importante de Eros Roberto Grau (1990, p. 247, apud Saule Jr., 2002b, p. 82), 75 “fundamentos distintos justificam propriedade dotada de função individual e propriedade dotada de função social. Encontra justificação, a primeira, na garantia, que se reclama, de que possa o indivíduo prover a sua subsistência e de sua família, daí porque concorre para essa justificação a sua origem, acatada quando a ordem jurídica assegura o direito de herança. Já a propriedade dotada de função social é justificada pelos seus fins, seus serviços, sua função”. O direito de propriedade, portanto, não é “único”, como queriam e ainda querem alguns juristas presos a excessos de formalismo e a um positivismo tão radical quanto superficial. São muitas as formas de propriedade, bem como distintas as relações sociais por elas e relativamente a elas estabelecidas. No entanto, à revelia de tantas e tão fundadas opiniões, quase sempre tem prevalecido, mesmo após a Constituição de 1988, a concepção “do regime jurídico da propriedade privada como subordinado ao Direito Civil, considerado como direito real fundamental” (Silva, J. A., op. cit., p. 69). Não foi simples, portanto, também do ponto de vista jurídico, o comentado período de experimentação municipal que transcorreu entre 1988, após a promulgação da Constituição, e 2001, ano da aprovação do Estatuto da Cidade. Inexistindo uma lei federal que estabelecesse as diretrizes gerais da política urbana e, sobretudo, que regulasse a aplicação das penalidades previstas para exigir o cumprimento da função social da propriedade urbana ociosa, a atuação das municipalidades nesse campo “tinha de ser justificada por malabarismos intelectuais relacionando diversos princípios constitucionais em vigor e que tratavam de aspectos parciais da questão” (Fernandes, E., op. cit., p. 37). Com o ingresso do Estatuto da Cidade no mundo jurídico, aquele pretexto desaparece, pois essa lei consolida os ditames constitucionais referentes à política urbana e amplia a operacionalidade da competência jurídica para a ação municipal, já instituída pela Constituição Federal. Referindo-se a essa lei, ninguém menos que o recentemente falecido jurista Josaphat Marinho (2001) assim se expressou: “Não é a lei feita para servir indivíduos, mas em benefício da sociedade. O conteúdo orgânico que a caracteriza casa com o sistema constitucional, elaborado com ânimo de renovação e de justiça para todos”. A edição do Estatuto da Cidade, ademais, confirma o direito urbanístico como ramo autônomo do direito público brasileiro. Para tanto78 — além da existência de leis específicas, como o próprio Estatuto, a lei de parcelamento, várias leis federais e inúmeras leis estaduais e municipais —, estariam atendidos os requisitos doutrinários de um objeto, que seria fundamentalmente o de promover o controle jurídico do desenvolvimento urbano; de princípios, tais como o da função social da propriedade e da cidade, o do urbanismo como 78 Conforme Edésio Fernandes (2002b, p. 60-62). 76 função pública e o da separação entre direito de construir e direito de propriedade; e de institutos típicos, como o são o plano diretor, o parcelamento do solo para fins urbanos e o zoneamento, entre muitos outros. Porém, conquanto seja amplo e vário o arsenal de normas que já compõem essa nova ordem jurídico-urbanística, as condições políticas e sociais que colocam em risco a sua efetividade remanescem. Seja valendo-se de possíveis incoerências entre o Estatuto da Cidade e o novo Código Civil79, em vigor desde janeiro de 2003, seja por meio da exploração interessada de dispositivos da legislação ambiental para impedir a regularização fundiária de favelas, mesmo em áreas há tempos consolidadas80, são muitos ainda os artefatos que a reação ideológica, o dogmatismo patrimonialista e o legalismo conservador tendem a opor aos princípios constitucionais da política urbana. Afinal, como veremos mais detalhadamente no próximo capítulo, “o que sempre esteve em jogo durante o longo processo de discussão sobre a nova lei — dentro e fora do Congresso Nacional — era, e ainda é, a forte resistência dos grupos conservadores ligados ao setor imobiliário à nova concepção (...) dada ao direito de propriedade” (Fernandes, E., op. cit., p. 35). 4 – ESTATUTO DA CIDADE: DE ONDE VEIO ESSA LEI? 4.1 O caminho até a constitucionalização da política urbana 79 Nesse ponto, há distintas opiniões, mesmo entre juristas que abraçam o ideário da reforma urbana. Enquanto, por exemplo, Jacques Távora Alfonsin (2002, p. 11) entende que, nos termos do art. 1.228 do novo Código Civil, “o direito de propriedade mudou o seu caráter jurídico” em cotejo com o anterior, Edésio Fernandes (2002b, p. 36), ao considerar que o novo Código “não é de todo coerente com a proposta do Estatuto da Cidade no que diz respeito à noção do direito de propriedade imobiliária individual”, prevê que grupos conservadores explorarão “controvérsias jurídicas”. 80 O Estatuto da Cidade, ao definir o princípio do direito a cidades sustentáveis, estabeleceu uma espécie de hierarquia de direitos: o direito individual deve subordinar-se ao direito coletivo e, este, por sua vez, deve regrar-se pelo interesse público. Se há risco, por exemplo, de comprometimento das condições de vida “para as presentes e futuras gerações”, o assentamento da população, seja rica, seja pobre, deve evitá-lo. O que não significa dar vezo ao reacionarismo das decisões administrativas e judiciais que são, o mais das vezes, rigorosas com os pobres, sem que se lhes ofereçam alternativa digna, e complacentes com os ricos (quando, sendo o caso de tratamento diferenciado, deveria prevalecer o exato contrário, em face do “estado de necessidade”). A propósito, convém lembrar a inscrição em uma camiseta de um militante do movimento popular pela moradia, que circulava pelos corredores da Cúpula das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Rio 92). Inconformado com o conteúdo conservador de alguns discursos preservacionistas, que muitas vezes pareciam esquecer que a espécie humana também integra a natureza, alertava, com ironia: “Gente também é bicho”! 77 4.1.1 As primeiras iniciativas Na história da construção de uma legislação urbanística no Brasil, assume destacado relevo a participação do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB). Ainda em 1953, como vimos, o III Congresso Brasileiro de Arquitetos, realizado em Belo Horizonte sob a organização do IAB, propôs que se editasse uma legislação para criar, no Brasil, um ministério especializado em habitação e urbanismo. No ano seguinte, o IV Congresso, realizado de17 a 24 de janeiro, na cidade de São Paulo, reiterou essa reivindicação ao adotar a tese denominada “O bem-estar social”, de autoria do arq. Nestor Egydio Figueiredo, do Rio de Janeiro, que se fundava em argumentos tais como o de que o déficit de unidades habitacionais já atingia “a elevada cifra de 1 milhão e trezentas mil, [com] acréscimo anual acima de duzentas mil”, bem como na constatação de que “a moradia do homem não pode ser resolvida fora do conceito moderno dos problemas do urbanismo” (Serran, 1976, p. 28-29). Em 1959, o Departamento do Rio de Janeiro do IAB, publicou, em seu boletim informativo, uma proposta de projeto de lei, devidamente justificada e formalizada em oito artigos, denominada “Lei da Casa Própria”, que “antecipa, em cinco anos, as linhas gerais da Lei 4.380/64 que criou o Sistema Financeiro da Habitação” (Serran, op. cit., p. 8 e 31-38). De fato, essa proposta legislativa, encaminhada pelo IAB aos candidatos à presidência da República nas eleições de 1960, Adhemar de Barros, Henrique Lott e Jânio Quadros, propunha a constituição de “sociedades comerciais destinadas a financiar a aquisição de casa própria”, a vinculação entre reajuste de prestação e aumento de salário, a retomada do imóvel (mediante indenização) em caso de inadimplemento do comprador, bem como a criação de um Conselho Nacional da Habitação. Essa última proposta foi implementada em 1962, no governo de João Goulart, que assumira o poder após a renúncia de Jânio Quadros. O documento final81 do mencionado “Seminário do Quitandinha”, de 1963, não apenas continha a recomendação de que o poder executivo encaminhasse ao Congresso Nacional um projeto de lei sobre a política habitacional e urbana, mas também, e sobretudo, expunha princípios e fundamentos que décadas depois seriam, alguns, incorporados à ordem jurídica nacional e, outros, mantidos nos discursos propositivos da reforma urbana. São exemplos do caráter pioneiro e da constrangedora atualidade desse documento, afirmações, entre muitas outras, como as seguintes: 1. “o problema habitacional na América latina (...) é o resultado de condições de subdesenvolvimento provocadas por fatores diversos, inclusive processos espoliativos (...)”; 81 O registro contextualizado do Seminário bem como a íntegra de seu documento final podem ser consultados em Serran, 1976. 78 2. “a situação habitacional do Brasil [caracteriza-se] pela desproporção cada vez maior, nos centros urbanos, entre o salário ou a renda familiar e o preço de locação ou de aquisição de moradia, [dado que] o significativo número de habitações construídas tem se destinado quase exclusivamente às classes economicamente mais favorecidas”; 3. “nos maiores centros urbanos do país, a população que vive em sub-habitações (...) é grande e crescente, tanto em números absolutos como relativos”; 4. “concorre para agravar o déficit de habitação (...) a incapacidade já demonstrada de obter-se, pela iniciativa privada, os recursos e investimentos necessários ao aumento da oferta de moradias de interesse social (...)”; 5. “a ausência de uma política habitacional sistemática (...) vem ocasionando efeitos maléficos ao desenvolvimento global do país, baixando de modo sensível o rendimento econômico-social desse mesmo desenvolvimento”; 6. entre “os direitos fundamentais do homem e da família se inclui o da habitação” e sua realização exige “limitações ao direito de propriedade e uso do solo” e se consubstancia “numa reforma urbana, considerada como o conjunto de medidas estatais visando à justa utilização do solo urbano, à ordenação e ao equipamento das aglomerações urbanas e ao fornecimento de habitação condigna a todas as famílias”; 7. “é de grande importância para a política habitacional a formação de uma consciência popular do problema e a participação do povo em programas de desenvolvimento de comunidades”; 8. “é imprescindível a adoção de medidas que cerceiem a especulação imobiliária, sempre antisocial, disciplinando o investimento privado nesse setor”; 9. “para a efetivação da reforma urbana torna-se imprescindível a modificação do parágrafo 16 do art. 141 da Constituição Federal, de maneira a permitir a desapropriação sem exigência de pagamento à vista, em dinheiro” (Serran, 1976, p. 55-58). Estavam, portanto, nesse histórico documento82 os princípios fundamentais que, mais tarde, e com maior ênfase em seus aspectos sociais, viriam a ser defendidos pelo MNRU na Assembléia Nacional Constituinte e, posteriormente, no contexto da elaboração do Estatuto da Cidade. Com base nessas propostas83, o governo João Goulart chegou a elaborar um projeto de 82 Ver anexo 1. 83 79 lei com o objetivo de criar o Conselho de Política Urbana (Copurb), com amplos poderes, de caráter consultivo, deliberativo e propositivo. Com quinze artigos, a iniciativa, que chegou a ser considerada “um projeto de lei de Reforma Urbana” (Finep, 1985, p. 68), tratava exclusivamente da criação do Copurb, junto à Presidência da República, “com o objetivo de estudar os problemas urbanos do País e elaborar as diretrizes de uma política de desenvolvimento urbano equilibrado, harmônico e estético, sincronizado com a expansão econômica e social do País” (art. 1º), em nada referindo-se, por exemplo, ao conteúdo do direito de propriedade nas áreas urbanas84. Na verdade, o Plano Trienal de Desenvolvimento (1962-64), que João Goulart havia formulado no início de seu governo, não abordava a questão urbana, nem de maneira abrangente nem mesmo em seus aspectos setoriais. No começo de 1963, contudo, no auge da campanha popular pelas “reformas de base”, como se dizia então, o governo encaminha sua Mensagem anual ao Congresso Nacional, “na qual aborda, em dois trechos, a questão habitacional brasileira em sua verdadeira dimensão — a do desenvolvimento urbano” (Schmidt e Farret, 1986, p. 22). Numa das passagens dessa Mensagem ao Congresso Nacional, João Goulart afirma: “Não desconhecemos que somente o desenvolvimento do país, aumentando a riqueza nacional, poderá elevar o nível de vida do povo, proporcionando-lhe adequadas condições de residência. Mas também não ignoramos que a falta de uma legislação reguladora tem permitido que a indústria de construção se transforme em presa favorita de especuladores, impedindo o acesso à residência própria das camadas mais pobres de nossa população”, para, adiante, pretextar-se pela omissão governamental buscando apoio nos dois lados da “guerra fria”85: “recordo que mesmo nos Estados Unidos da América, o país de mais elevada renda do mundo, dezenas de milhões habitam em condições precárias. A União Soviética ainda não conseguiu debelar o seu déficit habitacional, não obstante dois planos septenais de construção intensiva”; e, por fim, compromissar-se: “devo submeter à aprovação do Congresso Nacional, dentro em breve, o projeto de lei de reforma urbana, que constituirá o primeiro passo para a formulação de soluções em novas bases para os problemas da habitação Conforme Jorge Wilheim (1965, p. 161). 84 Ver anexo 2. Observe-se que, desde 22/11/1963, tramitava na Câmara dos Deputados o PL 1329/1963, de autoria do deputado Artur Lima, liderança da base governista (PTB), que criava a Superintendência da Política Urbana (Supurb), de menor abrangência que a que se pretenderia, poucos meses depois, atribuir ao Copurb. 85 Ficou conhecido como “guerra fria” o período, entre o fim da 2ª Guerra Mundial, em 1945, e a queda do Muro de Berlim, em 1989, no qual os principais blocos de nações,o capitalista e o comunista, liderados respectivamente pelos Estados Unidos da América e pela União Soviética, se antagonizavam no domínio da tecnologia nuclear, na conquista espacial, na corrida armamentista e em outras disputas político-econômicas, sem, contudo, declararem uma guerra efetiva. 80 e, particularmente, para a questão da moradia popular” (Revista Arquitetura n° 10, abril de 1963, apud Serran, 1976, p. 47-52, grifos nossos). Abortado pelo golpe militar de 31 de março de 1964, o projeto não chegou a ser apresentado ao Congresso Nacional. Embora a questão urbana já fosse importante naquele ambiente político e o Seminário do Quitandinha, realizado em julho de 1963, tivesse, de fato, influenciado as decisões políticas, “a repercussão do referido encontro não se comparou à visibilidade conferida à mobilização que, na mesma época, agitava o Brasil rural, na esteira da organização das ligas camponesas, clamando por reforma agrária” (Souza, 2002, p. 157). Talvez por essa razão, frustradas as precursoras iniciativas de legislação urbana do governo Goulart, os governos militares tenham logo aprovado uma lei para tratar da questão agrário-rural, o Estatuto da Terra (até hoje considerada avançada, a despeito de sua ainda restrita implementação), e, no que se refere à problemática urbana, feito regredir o debate, circunscrevendo-o à política habitacional86. A idéia de uma legislação que se voltasse abrangentemente para as cidades só voltaria ao debate político no final dos anos 1970. À proporção que os problemas urbanos se agravavam, as críticas à atuação do BNH, voltado para a abordagem financeira da produção habitacional, se avolumavam. A avaliação negativa exposta, em maio de 1971, no Rio de Janeiro, pelo então presidente do IAB, arq. Benito Sarno, no III Congresso Interamericano de Habitação, do qual o próprio BNH era anfitrião, dão a medida da opinião que prevalecia entre os profissionais do setor, que tentavam traduzir o sentimento popular: “O BNH tem atuado há seis anos no Brasil. Tem tomado a moradia como se esta pudesse ser algo isolado. Em muitos casos tem forçado uma ruptura das ligações naturais destas, com o indivíduo e a cidade.(...) É importante que o BNH tenha presente que está criando uma nova semântica da moradia brasileira. (...) Temos medo de que, dentro em breve, moradia para o brasileiro seja apenas um cálculo de Unidades Padrão de Capital87, ou a preocupação com a prestação mensal e conseqüente correção ou o pavor de ser levado contra a vontade para um apartamento ou conjunto residencial” (Serran, 1976, p. 22). No início da década de 1970, o BNH estendeu sua atuação para programas de saneamento e o governo federal instituiu as primeiras Regiões Metropolitanas — tentativa de tratar, de forma “integrada”, como era freqüente dizer no modelo desenvolvimentista, não apenas as políticas setoriais de habitação, saneamento e transportes, mas também, nas grandes cidades, das questões que ultrapassavam a jurisdição municipal —, bem como criou a Comissão Nacional de Política Urbana e Regiões Metropolitanas (CNPU). 86 O “bálsamo” para as classes médias, de que falava a deputada Sandra Cavalcanti, primeira presidente do BNH, na comentada carta ao presidente-marechal Castello Branco. 87 Referência a uma das muitas “moedas” contratuais de que o SFH se valia, na tentativa de manter constantes, num ambiente econômico inflacionário, os valores envolvidos nos financiamentos habitacionais. 81 Não havia ainda, contudo, nenhuma proposta legislativa com o objetivo de municiar juridicamente o planejamento e a administração dos núcleos urbanos. A primeira tentativa nesse sentido, durante o regime militar, ocorreu no âmbito da CNPU, depois transformada em Conselho Nacional de Desenvolvimento Urbano (CNDU), onde, em 1976, foi elaborado um anteprojeto de lei de desenvolvimento urbano, baseado na constatação de seu “corpo técnico [de que] as administrações locais não dispunham de um instrumental urbanístico para enfrentar a especulação imobiliária e [promover] a distribuição dos serviços públicos urbanos” (Grazia, 2003, p. 57, grifo nosso). A notícia de que estava em elaboração esse anteprojeto vazou para a imprensa, o que “suscitou manchetes alarmistas em alguns jornais e semanários da época, um dos quais alertava os leitores para o fato de o governo militar pretender ‘socializar o solo urbano” (Ribeiro e Cardoso, 2003, p. 12). O governo recuou e deixou de enviar a proposta ao Congresso Nacional. As reivindicações sociais, no entanto, cresciam. A campanha eleitoral de 1981, no que seria a primeira eleição direta de governadores após o golpe de Estado de 1964, trouxe a questão urbana para a pauta política nacional. No Rio de Janeiro, por exemplo, Leonel Brizola88, de volta do exílio por efeito da lei de anistia, prometia, na campanha que resultou surpreendentemente vitoriosa, “assentar cerca de 1 milhão de famílias nos lotes vazios existentes na região metropolitana, fruto do laissez-faire do processo especulativo de loteamento periférico ocorrido desde os anos 40” (Ribeiro e Cardoso, op. cit, p. 13). Em 1982, a 20a Assembléia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) aprovou um documento, intitulado “Solo Urbano e Ação Pastoral”89, em que critica a formação de estoques de terra urbana com fins especulativos e, entre outras ações públicas, a política de remoção de favelas. O texto propunha, por exemplo, a regularização fundiária de assentamentos informais, o combate à ociosidade do solo urbano e o condicionamento da propriedade urbana a sua função social (CNBB, 1982). No ano seguinte ao do documento da CNBB, mais precisamente no dia 3 de maio de 1983, o governo do general João Figueiredo, que tinha como Ministro do Interior (responsável pela questão urbana) o coronel Mário Andreazza, motivado pela “percepção de que a questão urbana pudesse empolgar as camadas populares em torno de lideranças da oposição ao regime 88 Um dos nossos mais importantes líderes políticos, herdeiro da vertente trabalhista (getulista) da esquerda brasileira, Leonel de Moura Brizola faleceu no dia 21 de junho de 2004. 89 Numa de suas passagens mais expressivas, o texto da CNBB vaticina: “a aceleração do processo de urbanização está transferindo para a cidade uma carga conflitual que poderá assumir as dimensões de uma confrontação entre os muitos que têm pouco a perder e os poucos que têm muito a perder” (Jornal do Brasil, 21/2/1982, Caderno Especial, apud Grazia, 2002, p. 21). 82 autoritário” (Ribeiro e Cardoso, op. cit., p. 13), finalmente envia ao Congresso Nacional o projeto elaborado no CNDU. Embora fosse uma versão já abrandada pela exclusão de certos institutos, como a “concessão90 da posse da terra aos moradores urbanos que apresentavam condições ilegais de ocupação” (Grazia, 2002, p. 21), a proposição conservava a essência do anteprojeto de 1976. O projeto de lei de desenvolvimento urbano, que ganhou o número 775/8391, objetivava “a melhoria da qualidade de vida nas cidades”, por meio de diretrizes e instrumentos, como, entre muitos outros: 1. a recuperação pelo poder público de investimentos de que resulte valorização imobiliária; 2. a possibilidade de o poder público realizar desapropriações de imóveis urbanos visando à renovação urbana ou para combater a estocagem de solo ocioso; 3. o direito de preempção; 4. a taxação da renda imobiliária resultante de fatores ligados à localização do imóvel; 5. o direito de superfície; 6. o controle do uso e ocupação do solo; 7. a compatibilização da urbanização com os equipamentosdisponíveis; 8. o condicionamento do direito de propriedade (imposto progressivo e edificação compulsória); 9. a regularização fundiária de áreas ocupadas por população de baixa renda; 10.o reconhecimento jurídico da representação exercida pelas associações de moradores; 11.o estímulo à participação individual e comunitária; 12.o direito de participação da comunidade na elaboração de planos, programas e projetos de desenvolvimento urbano; 13.a legitimação do Ministério Público para propor ações em defesa do ordenamento urbanístico. 90 Segundo Adauto Cardoso (apud Grazia, 2002, p. 20), uma versão anterior do projeto havia sido publicada, “sem a permissão governamental”, no jornal O Estado de S. Paulo, de 27/1/1982, o que teria ensejado reações a essa possibilidade de regularização fundiária. É interessante notar que essa mesma polêmica ressurgiria na Assembléia Nacional Constituinte e, quase duas décadas depois, por ocasião da sanção do Estatuto da Cidade. 91 Ver anexo 3. 83 Muitos de seus institutos constaram da Emenda Popular da Reforma Urbana92, que viria a ser apresentada quatro anos depois à Assembléia Nacional Constituinte de 1986, e foram absorvidos, tanto pela Constituição de 1988 quanto pelo Estatuto da Cidade. Importa lembrar que estava ainda em vigor a Constituição do regime militar, de 1967/69, que, além de caracterizar-se pelo perfil autoritário do regime, ignorava a natureza já predominantemente urbana do Brasil. Na verdade, a proposição legislativa baseava-se tão-somente no frágil abrigo constitucional proporcionado pelo então ainda impreciso princípio da função social da propriedade. A apresentação do projeto foi, portanto, uma indiscutível ousadia. A reação dos setores conservadores da sociedade foi imediata. O empresariado urbano mais atrasado novamente tachava o projeto de “comunista”, como, aliás, costumava acontecer então com as iniciativas de índole democrática. A revista Visão, de São Paulo, porta-voz do empresariado conservador, que apoiava o governo, chegou a tratar o assunto em matéria de capa. Acusava o projeto de acabar com o direito de propriedade no Brasil. O PL 775/83, nunca votado93, parou nos escaninhos do Congresso Nacional. 4.1.2 O processo constituinte e a Emenda Popular da Reforma Urbana Naquilo que foi considerado um “discreto avanço” (Coelho e Oliveira, 1989, p. 74), a Constituição de 1988, pela primeira vez na história constitucional brasileira, tratou da problemática urbana. A despeito da crescente importância econômica e social das cidades no Brasil, as constituições anteriores sequer continham o vocábulo “urbano”, salvo para regrar, nos capítulos referentes à tributação, a aplicação do Imposto Predial e Territorial Urbano, o IPTU. Eleita em 1986, por força de uma Emenda94 à Constituição de 1967/69 (sem ruptura, portanto, da ordem institucional), nossa última Assembléia Nacional Constituinte foi instalada no dia 1° de fevereiro de 1987, tendo promulgado a nova Constituição no dia 5 de outubro de 1988. Eram, ao todo, 559 parlamentares constituintes: 72 senadores e 487 deputados federais. 92 Ao examinar comparativamente o PL 775/83 (LDU) e a Emenda Popular da Reforma Urbana, Adauto Lúcio Cardoso (2003, p. 31), embora ressalve a diferença entre a ênfase da LDU no planejamento urbano e a da Emenda na participação popular, afirma que “a emenda popular se move no campo de discussões e segundo um padrão de pensar a questão urbana que foi estabelecido pela LDU”. 93 Somente em 1995, o projeto deixou oficialmente de tramitar, regimentalmente retirado pelo autor, o Poder Executivo. 94 Emenda à Constituição n° 26, de 27 de novembro de 1985. 84 O processo de funcionamento da Constituinte, o que incluía o método de elaboração do texto constitucional, fixado num Regimento Interno, “foi ousado e inovador, não tendo paralelo na história constitucional brasileira e sendo bastante raro mesmo no direito comparado” (Coelho e Oliveira, op. cit., p. 20). Não foi elaborado um estudo ou um projeto-base anteriormente à instalação da Assembléia, que tampouco formou um grupo com esta tarefa preliminar95. Muito ao contrário desses procedimentos, tradicionais em situações análogas, a construção do projeto de Constituição ocorreu das parcelas para o todo, num processo altamente permeável a pressões externas, de todas as correntes de opinião. Foram formadas 24 subcomissões temáticas, que recolheram propostas e sugestões, realizaram audiências públicas e, com base nelas, produziram os primeiros textos parciais. Agrupados em blocos de três, esses estudos parciais convergiram para oito comissões temáticas para, só então, resultarem no primeiro anteprojeto, organizado pela Comissão de Sistematização. A partir de então, em meio a muitos debates e conflitos, foram admitidas novas emendas, elaborados novos pareceres e promovidas novas votações no âmbito, primeiramente, da Comissão de Sistematização e, finalmente, por dois turnos, no Plenário. Em todo o processo, foram amplas as possibilidades de participação da chamada “sociedade civil organizada”. Sem entrar no mérito de terem sido ou não acatadas as reivindicações dessa ou daquela parcela da sociedade, é inegável o fato de que o Regimento Interno criou inúmeras possibilidades participativas. No início dos trabalhos, houve a oportunidade da apresentação, perante as subcomissões, de “sugestões” de iniciativa de organizações sociais, de instituições como as câmaras de vereadores, assembléias legislativas e tribunais, além dos próprios constituintes. Embora o prazo para a apresentação dessas sugestões tenha sido considerado exíguo por muitas associações civis, mais de 11 mil foram apresentadas no total, em grande parte de iniciativa popular. Outra possibilidade de participação, ainda na fase das subcomissões, consistia nas “audiências públicas”. Muitas instituições, autoridades e personalidades profissionais ou acadêmicas foram convidadas a opinar. Em outras ocasiões, as subcomissões deslocavam-se pelo País com o intuito de ouvir depoimentos. Freqüentemente diferentes e, por vezes, 95 Existia um estudo elaborado pouco tempo antes por uma Comissão de Assuntos Constitucionais, constituída pelo presidente José Sarney e conhecida como “Comissão dos Notáveis”. Esse trabalho, contudo, não foi oficialmente reconhecido nem, muito menos, tomado como referência pela Assembléia Nacional Constituinte. 85 antagônicas, essas opiniões e propostas formaram um mosaico da realidade nacional, com evidentes reflexos nos processos de votação ocorridos adiante. Entretanto, a mais relevante forma de participação democrática no processo constituinte foi, sem dúvida, a das “emendas populares”. A partir do primeiro projeto, sistematizado em 15 de julho de 1987, foram admitidas, ao lado daquelas formuladas pelos próprios constituintes, emendas de iniciativa dos cidadãos, desde que trouxessem, no mínimo, a assinatura de trinta mil eleitores e fossem patrocinadas por, pelo menos, três associações representativas. No total, foram apresentadas 122 emendas populares, que somaram mais de doze milhões de assinaturas. No entanto, somente 83 delas atenderam às exigências regimentais e foram oficialmente aceitas. Entre essas estava a Emenda Popular da Reforma Urbana. Sob a responsabilidade formal da Federação Nacional dos Engenheiros, da Federação Nacional dos Arquitetos e do Instituto de Arquitetos do Brasil, mas também sob a organização da Articulação Nacional do Solo Urbano, da Coordenação dos Mutuários do BNH e do Movimentoem Defesa do Favelado, “além de 48 associações locais ou regionais” (Maricato, 1988), tendo por primeira signatária Nazaré Fonseca dos Santos, a Emenda Popular n° 63, de 1987, como ficou oficialmente registrada, obteve 131 mil assinaturas. Disposta em vinte e três artigos96, por sua vez desdobrados em dezesseis parágrafos e quinze incisos, e apresentada no dia 19 de agosto de 1987, a Emenda pretendia, em resumo, consignar na Constituição97: 1. o direito universal a condições condignas de vida urbana e a gestão democrática das cidades; 2. a possibilidade de o poder público desapropriar imóveis urbanos por interesse social, mediante pagamento em títulos da dívida pública, à exceção da casa própria, cuja indenização deveria ser plena e prévia, em dinheiro; 3. a captura de mais-valias imobiliárias decorrentes de investimentos públicos; 4. a iniciativa e o veto popular de leis; 5. a possibilidade, na ausência de lei federal disciplinadora, da aplicação direta de norma constitucional, mediante decisão judicial; 6. a responsabilização penal e civil da autoridade que descumprisse os preceitos constitucionais; 96 Ver anexo 4. 97 O conteúdo da Emenda Popular da Reforma Urbana será retomado no Capítulo 6, com o objetivo de verificar-se o grau de seu acolhimento pela Constituição e/ou pelo Estatuto da Cidade. 86 7. a prevalência dos “direitos urbanos” por meio de instrumentos tais como: imposto progressivo, imposto sobre a valorização imobiliária, direito de preferência, desapropriação, discriminação de terras públicas, tombamento, regime especial de proteção urbanística e ambiental, concessão de direito real de uso e parcelamento e edificação compulsórios; 8. a separação entre direito de propriedade e direito de construir; 9. o usucapião especial para fins de moradia, de terrenos públicos ou privados; 10. o direito à moradia com base em políticas públicas que assegurassem: regularização fundiária e urbanização, programas habitacionais para aquisição ou locação, fixação de limite máximo para o valor inicial dos aluguéis, assessoria técnica e aplicação de recursos orçamentários a fundo perdido, sob controle social; 11. a periodicidade mínima de doze meses e o controle estatal dos índices aplicados ao reajustamento de aluguéis; 12. o monopólio estatal para a prestação de serviços públicos, vedado o subsídio de serviços concedidos à iniciativa privada; 13. a criação de um fundo de transportes públicos para subsidiar a limitação das tarifas ao equivalente a 6% do salário mínimo mensal; 14. a participação popular na elaboração e na implementação de “plano de uso e ocupação do solo”, além de sua aprovação pelo legislativo. Coube à arquiteta Ermínia Maricato, professora da Universidade de São Paulo (USP) e, então, diretora do Sindicato dos Arquitetos daquele Estado, defender a Emenda perante o Plenário da Assembléia Nacional Constituinte. Em seu pronunciamento, ela questionou, de início, se os constituintes e as autoridades municipais, estaduais e federais tinham “consciência de que o nosso País possui uma população predominantemente urbana”, já que parecia que predominava a “consciência de que ainda somos um País agrário”. Em seguida, afirmou que “a maior parte da população brasileira está nas favelas, nos mocambos e na periferia desurbanizada”; declarou não acreditar que os recursos “colocados na mão do capital privado financeiro e da incorporação resolvam o problema da habitação no Brasil”; argumentou que a retenção de solo urbano ocioso não deveria interessar nem ao capital imobiliário produtivo, “que necessita de terrenos para sua atividade”; destacou que a aprovação de instrumentos para a regularização fundiária “já seria uma grande reforma”; e concluiu, afirmando: “A questão urbana é séria e veio para 87 ficar. (...) Acreditamos que a especulação imobiliária deve ser varrida do cenário brasileiro, assim como o empreguismo, a ineficácia administrativa, a corrupção e o latifúndio agrário. O que queremos é um País do século XX. Queremos eliminar o que é arcaico neste País”.98 A despeito da importância do tema, do denso apoio que a Emenda obteve e dos substanciais argumentos que a sustentaram, parecia que o próprio Plenário dava razão à dúvida sobre o grau de consciência dos problemas urbanos com que Ermínia Maricato iniciara seu discurso. Havia apenas três constituintes presentes. Como seria de se esperar, em face de seu conteúdo, a Emenda Popular da Reforma Urbana suscitou reações. Em artigo publicado na Folha de São Paulo de 20/8/1987, dia seguinte ao da apresentação da Emenda, o deputado constituinte Luiz Roberto Ponte, do PMDB do Rio Grande do Sul, também presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), criticou-a firmemente ao considerar que a terra, foco das preocupações da reforma urbana, não seria um problema importante, já que representaria apenas 5% “dos recursos necessários para construir uma habitação digna”. O deputado também defendia que a solução para a moradia popular deveria incorporar a iniciativa privada, cabendo ao governo aportar recursos e subsídios, além de “desapropriar áreas necessárias”. A própria Ermínia Maricato (1987), em artigo no mesmo jornal, encarregou-se de refutar tais afirmações. Lembrou que o custo relativamente baixo do solo na produção da moradia se dava em “conjuntos habitacionais praticamente ‘fora’ das cidades” e que a “retenção especulativa da terra contribui para essa situação”. De outra parte, argumentou que, quanto aos subsídios, seria necessário saber “precisamente a quem eles irão beneficiar” e, no tocante às desapropriações, reconhecer que o “alto custo da terra”, ao lado da exigência de pagamento prévio, em dinheiro, inviabilizam as “políticas habitacionais para baixa renda”. A transcrição desse debate se presta a exemplificar o ambiente conflituoso em que a proposta da reforma urbana foi examinada pela Constituinte. Ao final, foi o seguinte o parecer do relator, o deputado Bernardo Cabral, do PMDB do Amazonas: “No que se refere à Questão Urbana, a Emenda apresenta dispositivos inovadores e aperfeiçoadores do Projeto de Constituição, nos campos da função social da propriedade, da participação popular, da desapropriação, das normas gerais de direito urbano, do usucapião urbano e da ordenação do espaço urbano. Os dispositivos referentes a avaliação de imóveis, locação e venda de habitações, apresentam conteúdo infra-constitucional. (...) O transporte deve, necessariamente, ser um serviço público essencial, por ser um direito do cidadão e um dever do Estado. Para tanto, a criação de um fundo de transportes urbanos, para subsidiar a diferença entre o custo do transporte e o valor da tarifa paga pelo usuário, processaria a perfeita ordenação destes transportes. Com mudanças de redação e supressão das 98 Ver Diário da Assembléia Nacional Constituinte, de 27 de janeiro de 1988, p. 402-403. 88 particularidades, somos pela aprovação parcial da Emenda, nos termos do Substitutivo”99 (grifo nosso). A Emenda Popular da Reforma Urbana foi, assim, parcialmente aprovada, o que parece ter parcialmente desagradado a ambos os lados do debate. De um lado, o MNRU se mostrava insatisfeito porque a função social da propriedade, diretriz fundamental da Emenda, havia sido “submetida ao Plano Diretor” (Grazia, 2002, p. 16). De outro, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) tornava pública a opinião de que, um dos itens acatados pelo relator, o usucapião urbano, deveria “ser eliminado” (Maricato, 1988) no segundo turno de deliberação da Assembléia Nacional Constituinte. O conflito perduraria, como veremos a seguir,até a última das votações. 4.1.3 O capítulo constitucional da Política Urbana Nas etapas iniciais do processo constituinte, embora houvesse aqui e ali, nas propostas de vários constituintes, menção a “planejamento do desenvolvimento municipal”, “controle do uso do solo urbano”, “ordenamento territorial”, “planos ordenadores do espaço urbano”, “planos urbanísticos” e até “plano diretor”100, bem como referências a procedimentos especiais para a desapropriação de imóveis urbanos, somente uma emenda fazia vinculação, ainda tênue e indireta, da função social da propriedade com esses planos. Seu texto, conquanto único, foi objeto de apresentação em paralelo por iniciativa de nada menos que oito parlamentares, pertencentes a partidos de distintas orientações programáticas: Roberto Freire (PCB-PE), Simão Sessim (PFL-RJ), Luiz Salomão (PDT-RJ), Antonio Britto (PMDB-RS), Luiz Freire (PMDB-PE), Mattos Leão (PMDB-PR), Manoel Castro (PFL-BA) e Raul Ferraz (PMDB-BA). Era o seguinte, em resumo, o texto por todos igualmente proposto101 como emenda ao anteprojeto do relator da Subcomissão da Questão Urbana e Transporte, deputado José Ulysses de Oliveira, do PMDB de Minas Gerais: “Art. 1° É assegurado a todos, na forma da lei, o direito à propriedade imobiliária urbana, condicionada pela sua função social. § 1° A propriedade e a utilização do solo urbano se submeterão às exigências de ordenação urbana, expressas em plano urbanístico e de desenvolvimento urbano, bem como em outras exigências específicas, tais como: habitação, transporte, saúde, lazer, trabalho e cultura da população urbana.(...)” (grifos nossos). 99 Documento n° M9A000020743 da Base de Dados APEM do Sistema de Informações do Congresso Nacional (SICON). 100 As emendas de autoria da deputada Myrian Portella (PDS-PI), apresentadas na Subcomissão da Questão Urbana e Transportes e reiteradas, na fase seguinte, perante a Comissão de Economia, embora rejeitadas, foram as primeiras a utilizar a expressão “plano diretor” no processo constituinte. 101 Conforme Base de Dados APEM/SICON. 89 Apesar do conteúdo uniforme, o que, aliás, permite supor ter sido proveniente de uma mesma fonte, e da ampla representatividade que granjeou, a sugestão não foi acatada no relatório final102 da Subcomissão. Na fase posterior, na Comissão da Ordem Econômica, o Conselho Nacional do Desenvolvimento Urbano (CNDU), por meio de depoimento de seu secretário-executivo, Gervásio Cardoso, ao plenário da Comissão, apresentou sugestão de três artigos para a Constituição103. O primeiro deles era redigido nos seguintes termos: “Art. 1°. A propriedade e a utilização do solo urbano obedecerão às exigências fundamentais de ordenação urbana e ambiental expressas nos planos urbanísticos, bem como às relativas à habitação, transportes, saúde, lazer, trabalho e cultura da população urbana” (grifo nosso). A semelhança da redação da sugestão do CNDU com as emendas que haviam sido uniformemente apresentadas por oito constituintes perante a Subcomissão permite inferir sua origem. Nasce, pois, de propostas gestadas no CNDU, como de resto já ocorrera no texto do PL 775/83, a vinculação constitucional entre direito de propriedade e plano urbanístico, mais tarde denominado “plano diretor”, dando ensejo à noção de “direito planificado”, na comentada expressão de José Afonso da Silva. Conquanto já houvesse a vinculação proposta nesses termos, não havia ainda a elevação do plano urbanístico à condição expressa de paradigma do cumprimento da função social da propriedade. Essa formulação, que acabou presente no texto constitucional, decorreu de uma emenda ao primeiro Projeto de Constituição104, (Emenda n° 19063, de 13/8/1987), de autoria do deputado Lúcio Alcântara, do PFL do Ceará105. Seu texto estabelecia que “a propriedade urbana cumpre sua função social quando atende às exigências fundamentais de ordenação da cidade, expressas em plano urbanístico, aprovado por lei municipal (grifos nossos)”. A proposta, com essa exata redação, foi acolhida pelo relator em todos os substitutivos subseqüentes. Na mesma emenda, igualmente acolhido 102 Esse anteprojeto tratava a questão urbana pela ótica privatista do Código Civil. 103 Ver Diário da Assembléia Nacional Constituinte de 22 de julho de 1987, p. 32 e 33. 104 Contemporânea, portanto, da Emenda Popular da Reforma Urbana. 105 O então deputado Lúcio Alcântara havia sido prefeito nomeado de Fortaleza (CE), pela ARENA, partido de apoio ao regime militar, e elegera-se para seu primeiro mandato de deputado federal pelo PDS. Entretanto, na avaliação do Instituto de Estudos Sócio-Econômicos (Inesc), instituição ligada a sindicatos de trabalhadores e a movimentos populares, “contrariando as expectativas, evoluiu, passando a adotar posições favoráveis às teses progressistas” (Coelho e Oliveira, 1989, p. 164). 90 pelo relator, estava o dispositivo que impunha ao município aplicar, “sucessivamente”106, penalidades ao proprietário de solo urbano ocioso. A expressão “plano urbanístico” perdurou intacta até a votação, em primeiro turno, do terceiro e último substitutivo do relator, quando uma emenda formulada pelo Centrão, adotou em seu lugar o termo “plano diretor”, sem que as razões para tanto fossem explicitadas (até porque o Regimento não fazia essa exigência)107. Mais adiante, como veremos, uma emenda do Centrão condicionou essa vinculação entre plano urbanístico (na emenda, denominado “diretor”) e função social da propriedade urbana aos termos de uma “lei federal”, com evidente intuito procrastinatório. Essa emenda, ligeiramente alterada por meio de acordo de lideranças que envolveu todo o arco partidário representado na Assembléia108, resultou no texto finalmente aprovado, nesse turno de votações. No acordo, regimentalmente denominado “fusão” pois implicava a aglutinação de proposições individuais de vários constituintes109, a emenda do Centrão sofreu as seguintes modificações, tornando-se um pouco menos distante do campo propositivo da reforma urbana110: 106 É importante registrar o esforço para suprimir a expressão “sucessivamente” e, assim, permitir que as penalidades previstas pudessem ser aplicadas em função das circunstâncias com que se defrontassem os municípios, promovido em vários momentos por muitos constituintes, entre eles, Dirceu Carneiro (PMDB-SC), que insistiu em todas as oportunidades, mas também Itamar Franco (sem partido-MG), Myrian Portella (PDS-PI), Irmã Passoni (PT-SP), Joaquim Bevilácqua (PTB-SP). Porém, todas as emendas nesse sentido foram rejeitadas pelo relator, Bernardo Cabral (PMDB-AM). 107 A bancada do Centrão interessada na temática urbana era informalmente liderada pelo deputado Luís Roberto Ponte (PMDB-RS). 108 Ao encaminhar a votação do que acabou por ser o capítulo constitucional da política urbana (houve, ainda, duas alterações, nas últimas etapas do processo), o presidente da Assembléia, deputado Ulysses Guimarães, do PMDB de São Paulo, tomou-se de entusiasmo: “Desejo dizer, meus amigos, que cumpro um dever, que estas palmas anteciparam, de fazer justiça ao trabalho dos Srs. Líderes, de autores de destaque, que sexta-feira, sábado, domingo, até de madrugada, fizeram um esforço de composição, de entendimento, não só para que o texto fosse mais escorreito e abrangente, mas que realmente representasse, como esperamos na manifestação do Plenário, o ponto de vista da sociedade através de uma grande maioria, de uma expressiva maioria, uma consagradora maioria do Plenário da Assembléia Nacional Constituinte” (Diário da Assembléia Nacional Constituinte de 3/5/1988, p. 61). Foram 322 votos a favor, um contrárioe três abstenções. Votou contra o senador Roberto Campos, do PDS de Mato Grosso. 109 Participaram do acordo, na condição de autores das emendas aglutinadas, os constituintes Dirceu Carneiro (PMDB-SC), Roberto Freire (PCB-PE), Mendes Canale (PMDB-MS), Mauro Miranda (PMDB-GO), Raul Ferraz (PMDB-BA), José Carlos Grecco (PMDB-SP), Felipe Mendes (PDS-PI), José Richa (PMDB-PR), Jorge Leite (PMDB-RJ), José Lins (PFL-CE), Irmã Passoni (PT-SP), Edmilson Valentim (PC do B-RJ), Mário Covas (PMDB-SP), Ricardo Izar (PFL-SP), Joaquim Sucena (PTB-MT), José Santana de Vasconcelos (PFL-MG) e Eduardo Jorge (PT-SP). 110 É curioso observar que a emenda do Centrão trouxe para a Constituição a expressão “funções sociais da cidade”, que, embora não constante da Emenda Popular da Reforma Urbana (voltada para a noção de “direito à cidade”), foi mais tarde apropriada como um dos pilares do MNRU. 91 1. a lei federal de diretrizes gerais para o desenvolvimento urbano deixou de ser “complementar”111; 2. a população das cidades para as quais o plano diretor tornava-se obrigatório foi reduzida de 50 para 20 mil habitantes; 3. o conceito de solo urbano ocioso, limitado antes somente ao “não edificado” ou “não utilizado”, foi estendido ao “subutilizado”; 4. o “reconhecimento de domínio alheio” foi removido da condição de impedimento para as ações de usucapião especial para fins de moradia (dispositivo que, acaso mantido, teria tornado completamente inútil o instrumento); 5. o transporte coletivo urbano passou a ser considerado serviço público essencial “de responsabilidade do Município”, mesmo nos casos de regiões metropolitanas. Ainda na sessão que aprovou o texto do acordo, foi incorporada uma emenda de autoria da deputada Myrian Portella112, do PDS do Piauí. Essa proposta, originalmente destinada a proteger a mulher nos casos de posse ou de usucapião, acabou assumindo destacada importância para os propósitos da reforma urbana ao servir de abrigo para o que viria a ser a “concessão especial de uso para fins de moradia”. Seu texto foi literalmente incorporado à Constituição: “O título de domínio e a concessão de uso serão conferidos ao homem ou à mulher, ou a ambos, independentemente do estado civil” (grifo nosso). No final de agosto de 1988, ocorreriam as duas últimas alterações em relação ao texto do acordo, uma delas especialmente importante, que levaram à redação do capítulo finalmente promulgado113. A primeira, de iniciativa do deputado José Maurício, do PDT do Rio de Janeiro, destinou-se tão-somente a especificar que o “imposto progressivo no tempo” a que se referia o texto acordado era o “imposto sobre a propriedade predial e territorial urbana progressivo no tempo”. 111 A aprovação de lei complementar exige maioria absoluta de votos, ou seja, metade mais um entre todos os parlamentares, presentes ou não, enquanto que a de lei ordinária ocorre por maioria simples, isto é, pela manifestação de metade mais um dos efetivamente votantes. 112 A atuação da deputada Myrian Portella, eleita pelo PDS, um dos pólos partidários do Centrão, foi, apesar dessa condição, bem avaliada pelo Inesc: “(...) uma das mais gratas surpresas da Constituinte (...). Mulher arrojada e de iniciativa, pretende propor a regulamentação da soberania popular, assegurando, de vez, a participação popular no processo legislativo (...) e uma lei que defina as formas de repressão ao abuso do poder econômico” (Coelho e Oliveira, 1989, p. 324). 113 Ver Diário da Assembléia Nacional Constituinte de agosto de 1988, p. 13622-13634. 92 A segunda teve maior relevância. O texto constitucional até então (estávamos a pouco mais de um mês da promulgação da Constituição) não discriminava entre os de domínio privado ou de domínio público os imóveis passíveis da aplicação do usucapião especial. Emenda do deputado Francisco Carneiro114, do PMDB do Distrito Federal, propunha a exclusão dos imóveis públicos dessa possibilidade, valendo-se do seguinte argumento: “Permitindo-se o usucapião urbano ou rural sem excluir do instituto as áreas de domínio público, significa (sic) o comprometimento irreparável de todos os planos urbanos e de expansão urbana e, para Brasília, o total desvirtuamento do Plano Piloto, pois uma ocupação irregular junto a qualquer local, como a Praça dos Três Poderes e a Esplanada dos Ministérios, poderá ser objeto de usucapião urbano” (Diário da ANC, 30/8/1988, p. 13631). A emenda foi aprovada. Desse modo, o artigo que tratava do usucapião especial para fins de moradia, para Ermínia Maricato (1988), “o único da emenda popular constitucional de reforma urbana a ser incluído no projeto de Constituição com redação próxima da intenção da emenda”, era extensamente limitado, mas não apenas, como apressadamente se poderia imaginar, com os votos dos chamados “setores conservadores”. Nesse caso, pólos partidários opostos se encontraram, em ambos os campos da votação. Votaram “não”, ou seja, pela manutenção da possibilidade de usucapião em imóveis públicos, tanto o PT e o PSB, liderados respectivamente pela deputada Irma Passoni, de São Paulo, e pelo deputado Ademir Andrade, do Pará, quanto o PDS, conduzido pelo deputado Amaral Neto, do Rio de Janeiro. Por sua vez, aprovaram a emenda que restringiu a aplicação do usucapião a imóveis particulares, o PMDB, o PDC, o PSDB, o PTB, o PL e o PFL, mas também o PDT e o PC do B115. Promulgada a Constituição, os aspectos legislativos do ideário da reforma urbana passaram a depender, em grande parte, de uma lei federal que regulasse a aplicação das normas constitucionais. 4.2 A lei para fazer cumprir a Constituição 4.2.1 O projeto original do Estatuto da Cidade e as demais propostas legislativas A despeito de seus antecedentes e da natureza de seu conteúdo, o projeto de lei que acabou transformado no Estatuto da Cidade não se originou de um parlamentar que fosse 114 Destacado empreendedor imobiliário, o deputado Francisco Carneiro, falecido em 1995, ligou-se ao Centrão na Constituinte e exerceu seu mandado em defesa das propostas políticas do empresariado urbano. 115 Não por acaso, portanto, essa polêmica, ao lado de muitas outras, iria ressurgir durante a tramitação e no período destinado à sanção do projeto de lei do Estatuto da Cidade. 93 arquiteto, urbanista, advogado, geógrafo, sociólogo, economista, assistente social, ou tivesse sido líder de movimentos populares pró-moradia, nem que, muito menos, fosse empresário ou alimentasse vínculos com o capital imobiliário. O autor do projeto foi o senador Pompeu de Sousa, jornalista e professor116, que, nascido em 1916 e falecido em 1991, não viveu para presenciar a aprovação de seu projeto, já bastante modificado, ocorrida em 2001. Cearense de Redenção, filho de família tradicional, Roberto Pompeu de Sousa Brasil renunciou, aos 14 anos, a conforto e fortuna para cuidar do pai doente no Rio de Janeiro. Fez- se um importante intelectual brasileiro. Eleito senador constituinte em 1985 (seu primeiro e único mandato eletivo), Pompeu, como era conhecido e gostava de ser chamado, convidou o autor117 deste trabalho para assessorá-lo. No exercício do mandato, Pompeu de Sousa aproximou-se mais da questão urbana propondo, por exemplo, que Brasília tivesse um plano diretor participativo e que os moradores de favelas no Distrito Federal fossem assentados na cidade e não no seu entorno, como pretendia o governo de então. Foi assim que começou a surgir o atual Estatuto da Cidade, cujo texto foi elaborado por Eliane Cruxên Maciel e Everaldo Macedo, integrantes da Consultoria Legislativa do Senado Federal118, a partirde pesquisas pessoais e de sugestões e opiniões, formais e informais, de professores, técnicos e representantes de entidades e instituições ligadas à questão urbana119, todos sob a coordenação do próprio Pompeu de Sousa. O projeto foi apresentado no dia 28 de junho de 1989 e recebeu a identificação oficial de “Projeto de Lei do Senado (PLS) n° 181, de 1989 (Estatuto da Cidade)”. Com parecer favorável do relator, 116 Na história da comunicação social, Pompeu de Sousa é considerado o principal responsável pela adoção, no Brasil, das técnicas do jornalismo moderno, baseado na objetividade do lide, que, adaptadas do jornalismo norte- americano e implantadas por ele, em 1954, no Diário Carioca, ainda orientam a redação dos principais jornais. Em 1961, tendo apoiado a proposta de mudança da sede do governo federal do Rio de Janeiro para Brasília, transferiu-se para a nova capital e ajudou Darcy Ribeiro a fundar a Universidade de Brasília. Na vida pública, participou de inúmeros movimentos de combate à ditadura militar e de luta pela liberdade de imprensa. Definia- se como socialista e democrata. Presidiu a Associação Brasileira de Imprensa (ABI-DF), o Sindicato dos Escritores do Distrito Federal e o Comitê Brasileiro da Anistia, entre muitas outras instituições e movimentos políticos de que participou. Foi eleito para a Assembléia Nacional Constituinte pela chamada ala esquerda do PMDB e, em 1989, tornou-se um dos fundadores do PSDB (Duarte, 1992). 117 Na época, vice-presidente do IAB-DF, membro do Conselho Superior do IAB e integrante da diretoria do Sindicato dos Arquitetos do Distrito Federal (SADF). 118 A Consultoria Legislativa (Conleg) é um órgão técnico, da estrutura permanente do Senado Federal, cuja atuação se destina a subsidiar o trabalho parlamentar dos senadores e das comissões permanentes e provisórias. O autor deste trabalho colaborou na elaboração texto e sugeriu a denominação “Estatuto da Cidade”, dada no corpo da própria lei. 119 Muitas dessas reuniões ocorreram na sede do IAB-DF, que também abrigava o SADF, e tiveram a expressiva participação da arquiteta Suely Franco Netto Gonzales, professora da Universidade de Brasília (UnB). 94 senador Dirceu Carneiro120, do PSDB de Santa Catarina, foi aprovado no Senado exatamente um ano depois e enviado à Câmara dos Deputados, onde permaneceria por onze anos. Na Câmara, denominado PL 5.788/90, o projeto, por já ter sido votado, passou a funcionar como uma espécie de “locomotiva”, à qual foram anexados dezessete “vagões”, proposições (de menor ou maior abrangência) sobre o mesmo tema, com origem na própria Câmara dos Deputados. Os autores desses projetos, com as respectivas datas de apresentação, são os deputados Raul Ferraz (1989), Uldorico Pinto (1989), José Luiz Maia (1989), Lurdinha Savignon (um em 1989 e outro, em co-autoria, em 1990), Ricardo Izar (um em 1989 e outro em 1991), Antônio Brito (1989), Paulo Ramos (1989), Mário Assad (1989), Eduardo Jorge (1990, em co-autoria), José Carlos Coutinho (1991), Magalhães Teixeira (1991), Benedita da Silva (1993), Nilmário Miranda (1996), Augusto Carvalho (1997), Carlos Nelson (1997) e Fernando Lopes (1997). Dentre todos esses, devem ser destacados o do deputado Raul Ferraz, do PMDB da Bahia, que, na verdade, “constitui-se do substitutivo apresentado pelo deputado ao PL 775/83 com suas adaptações à Constituição de 1988” (Motta, 1998, p. 211); os de Lurdinha Savignon e Eduardo Jorge, do PT do Espírito Santo e de São Paulo, respectivamente, elaborados com a participação do MNRU; e o do deputado Nilmário Miranda, do PT de Minas Gerais. Esse último, como veremos adiante, espelhou o esforço de consenso que seria tentado, em 1993, por um grupo de trabalho formado por representantes indicados pelo deputado Luiz Roberto Ponte, ligado ao empresariado, e pelo próprio Nilmário Miranda, vinculado ao movimento da reforma urbana. Minudente e ambicioso, o projeto original121 do Estatuto da Cidade, com 72 artigos, dispostos em três títulos e dez capítulos, pretendia, de início (arts. 2°, 3°, 4° e 5°), conceituar política urbana, direito à cidade, direito urbanístico e até urbanismo (“conjunto de ações promotoras e corretoras da organização do espaço urbano de modo a permitir sua adequada fruição pelo homem, preservando-o do processo de espoliação urbana”). Depois, fixava os objetos da política urbana, entre eles “o processo de produção do espaço urbano”, e dedicava um inteiro capítulo a fixar requisitos para o cumprimento da função social da propriedade, bem como atitudes que configurassem “abuso de direito e da função social da propriedade”. Entre esses casos, estava, por exemplo, o da “recusa de oferecer à locação, sob qualquer 120 Arquiteto e parlamentar dos mais ligados à questão urbana, Dirceu Carneiro havia sido prefeito de Lages (SC), onde, ainda na década de 1970, promoveu as primeiras experiências de gestão urbana de orientação popular e participativa de que se tem notícia no Brasil (Alves, 1988). 121 Ver anexo 5. 95 pretexto, imóveis residenciais não necessários à habitação do proprietário ou seus dependentes, salvo nos casos excepcionados no Plano Diretor” (art. 8°, II). Tido por Ermínia Maricato como “um dos instrumentos mais importantes para os programas de moradia social em áreas centrais”, esse dispositivo foi excluído do projeto durante sua tramitação, desde os primeiros pareceres. “Considerando o nível exagerado de imóveis vazios, passíveis de locação nas áreas urbanas centrais, essa possibilidade poderia representar um impacto significativo” (Maricato, 2001, p. 108). Adiante, o PLS n° 181, de 1989, estabelecia as diretrizes gerais que deveriam orientar a implementação da política urbana — entre elas a gestão democrática, a participação popular, o planejamento, a proteção ambiental e do patrimônio cultural, bem como a recuperação de investimentos públicos de que resultasse valorização imobiliária — assim como as políticas setoriais, inovadoras com relação à divisão tradicional entre habitação, saneamento e transportes, que constituiriam a política urbana: ordenação do território; controle do uso do solo; participação comunitária e contribuição social; e desfavelamento (“erradicação das condições infra-humanas de habitação” e “combate aos processos expulsivos provocados pela especulação imobiliária”)122. “Para assegurar o direito à cidade e sua gestão democrática, bem como corrigir distorções no consumo de bens comunais” (art. 16), o projeto propunha instrumentos fiscais, financeiros e econômicos, jurídicos, administrativos e políticos, mais ou menos assemelhados aos dos demais projetos que a ele foram anexados. Algumas características desse extenso rol, contudo, merecem comentários. Suely Araújo e Vera Ribeiro, por exemplo, chamam a atenção para a ausência da outorga onerosa do direito de construir, o que seria um sintoma de que, a despeito de ser “extremamente enfático quando trata da função social da propriedade, (...) ao regulamentar os meios para que o discurso se torne prática, o projeto ameniza o seu tom” (Araújo e Ribeiro, 2000, p. 11). As mesmas autoras, no entanto, reconhecem que o que denominam projeto Pompeu de Sousa, embora não contenha disposições específicas sobre a outorga onerosa, “estabelece índice ‘um’ de aproveitamento dos terrenos urbanos enquanto não for aprovado plano diretor. O índice ‘um’, por sua vez, sempre esteve vinculado à proposta do solo criado. Pode-se ter imaginado que o instrumento deveria ser estabelecido via lei municipal” (Araújo e Ribeiro, op. cit., p. 19). Com efeito, essa hipótese é reforçada pela redação do art. 19: 122 Emborano projeto do Estatuto da Cidade tenha recebido conceituação exatamente oposta, a expressão “desfavelamento” ficou marcada como a tentativa — posta comumente em prática nos anos 1960 e 1970, e ressurgida, na década seguinte, nas operações interligadas do governo Jânio Quadros na prefeitura de São Paulo — de remoção da população favelada para periferias distantes. 96 “Art. 19 O município promoverá a recuperação dos investimentos públicos, diretamente dos proprietários dos imóveis urbanos, mediante contribuição de melhoria e outras cobranças que o plano diretor determinar” (grifo nosso). Do mesmo modo, ou seja, por delegação ao poder municipal, foi tratada a transferência do direito de construir, que, embora não conste expressamente do PLS n° 181, de 1989, pode derivar de uma das diretrizes essenciais fixadas para o plano diretor: “estabelecer a compensação ao proprietário de imóvel considerado pelo poder público como de interesse do patrimônio cultural, histórico, arqueológico, artístico ou paisagístico” (art. 41, IX). Assim, embora existente, a possibilidade de utilização do instrumento era, contudo, limitada. No texto finalmente aprovado, as hipóteses de aplicação foram estendidas aos casos de implantação de equipamentos urbanos e comunitários e de implementação de programas de regularização fundiária ou de construção de habitação popular. Outro aspecto particularmente relevante do instrumental previsto no projeto original diz respeito à vinculação do valor real dos imóveis em caso de desapropriação àquele “reconhecido pelo proprietário como base de cálculo do IPTU ou ITR, conforme o caso” (art. 23, § 2°). Essa medida, de grande relevância para a arrecadação municipal, desapareceria nas várias versões intermediárias do projeto, mas seria, ao final, definitivamente incorporada ao Estatuto da Cidade123. No art. 46, § 1º, o PLS n° 181, de 1989, previa, embora sem denominá-la assim, a concessão de uso especial, incidente em “áreas públicas ocupadas há mais de dois anos”, com vistas à regularização fundiária de habitações ocupadas por população de baixa renda. No entanto, reduzia a incidência do usucapião constitucional para fins de moradia, ao estabelecer que o instituto seria inaplicável, não apenas nas áreas de domínio público, como impõe a Constituição, mas também nas de preservação ambiental (o que acabou incluído no texto aprovado) e “naquelas em que o plano diretor assim determinar” (art. 33), o que, a par de parecer inconstitucional, poderia levar a uma grande limitação para a aplicação do instrumento. Em compensação, o projeto Pompeu de Sousa ampliava as possibilidades de aplicação do usucapião pró-moradia para os casos de ocupações coletivas de áreas superiores ao limite constitucional de 250 m2, preceito que acabou incorporado à lei. 123 A adoção desse dispositivo pelos municípios nos procedimentos de desapropriação tende a instar os proprietários a proporem a “correção” dos valores de lançamento de seus imóveis no cadastro fiscal, comumente subavaliados, sob pena de receberem indenização igualmente reduzida. Suprimido nos primeiros pareceres das comissões da Câmara dos Deputados, foi reincorporado pelo deputado Inácio Arruda (PC do B-CE), relator do projeto na Comissão de Desenvolvimento Urbano e Interior. 97 Ao lado de buscar dar concretude jurídica ao princípio da função social da propriedade urbana — no que, registre-se, nem sempre foi bem acolhido124 —, o projeto Pompeu de Sousa concentrava-se, em minúcias, nos dispositivos destinados a regular a elaboração, o conteúdo e a implementação dos planos diretores. Na concepção do projeto, o plano diretor incluiria três programas125: o de expansão urbana; o de uso do solo urbano; e o de dotação urbana, bem como “instrumentos e suporte jurídico de ação do poder público”, além de “sistema de acompanhamento e controle”. O poder executivo municipal deveria institucionalizar o “planejamento urbano como processo permanente”, assim como tornar disponíveis a qualquer cidadão todas as informações pertinentes ao sistema de planejamento, podendo suspender, durante a elaboração de “programas de uso do solo”, a concessão de licença ou autorização (arts. 36 e 37). O plano diretor se destinaria a utilizar os instrumentos fixados na lei para “regular os processos de produção, reprodução e uso do espaço urbano”. Eram fixadas as etapas de elaboração do plano, bem como suas “diretrizes essenciais” (art. 41), que incluíam, ao lado de procedimentos tradicionais como a definição de áreas de expansão urbana e de tipos de uso, percentual de ocupação e índice de aproveitamento dos terrenos, outras tarefas tão originais quanto polêmicas. Dois exemplos: “XV – estabelecer a qualificação dos agentes produtivos, encarregados das obras e, no caso de imóveis para venda, os parâmetros de remuneração dos fatores, de modo a permitir: a) fixação do prazo de cada obra, para obter a maior economicidade; b) observância dos cronogramas da construção e de seus objetivos; c) justo preço; XVI – fixar limites mínimos e máximos para a reserva, pelo poder público, de áreas destinadas à ordenação do território, à implantação dos equipamentos urbanos e comunitários, de acesso à moradia e nos projetos de incorporação de novas áreas à estrutura urbana, imitindo-se o município em sua posse imediata”. O projeto estabelecia ainda que o plano diretor poderia determinar áreas especiais de urbanização preferencial, renovação urbana, urbanização restrita e regularização fundiária. Fixava, por fim, o quorum qualificado de dois terços da câmara de vereadores para sua aprovação ou modificação e assegurava a gestão democrática de todo o processo por meio da representação tripartite, com igualdade de direito a voz e voto, da representação popular, do 124 As restrições a esses dispositivos não provinham apenas dos setores ligados ao empresariado, mas igualmente de alguns segmentos técnico-profissionais. Para Araújo e Ribeiro (2000, p. 7 e 8), por exemplo, “os casos de abuso de direito e da função social da propriedade constantes do texto aprovado no Senado carregam forte componente ideológico e são questionáveis do ponto de vista da viabilidade de sua aplicação”. 125 Chamaram-se “programas” as normas e ações derivadas do “plano diretor” porque, segundo ponderava Everaldo Macedo, um dos elaboradores do texto, “um plano não origina outros planos (de uso do solo, por exemplo), mas programas e projetos”. 98 empresariado urbano e do poder público (arts. 48 e 49). Previa-se igualmente a responsabilização penal e civil dos prefeitos “pelas distorções na aplicação do plano diretor” (art. 51)126. O texto fixava também a obrigação de a União criar uma “agência social de habitação” (art. 54), uma relação de diretrizes para que os municípios organizassem e explorassem o serviço de transporte urbano (art. 55) e um conjunto de normas relativas à constituição de Regiões Metropolitanas e Aglomerações Urbanas (arts. 56 a 63). Por fim, a proposição autorizava o Poder Executivo a transformar o então Conselho Nacional de Desenvolvimento Urbano em Conselho Nacional de Política Urbana, também com composição tripartite entre representação popular, empresariado urbano e poder público, com o objetivo de realizar estudos, propor diretrizes e instrumental de política urbana, além de “emitir diretrizes gerais (...) com o objetivo de contrapor-se à especulação imobiliária e outras formas de perversão das relações sociais de habitação” (arts. 64 a 69). Na justificação de seu projeto, Pompeu de Sousa afirmava que pretendia conter a “indevidae artificial valorização imobiliária, que dificulta o acesso dos menos abastados a terrenos para habitação e onera duplamente o poder público, forçado a intervir em áreas cuja valorização resulta, na maioria das vezes, de investimentos públicos, custeados por todos em benefício de poucos”. Ao final, remetia “à colaboração prestimosa dos membros desta Casa e à própria sociedade organizada a tarefa de enriquecer esta proposição com valiosas críticas e contribuições”. Não faltaram nem críticas nem contribuições. 4.2.2 As críticas institucionais e a reação conservadora Avaliação do projeto original do Estatuto da Cidade, realizada em 1992 pelo então Ministério da Ação Social, quando ainda não havia ocorrido deliberação na Câmara, concluiu que seria necessário: “1. conferir maior clareza e concisão aos conceitos e disposições legais; 2. o respeito aos dispositivos da Constituição Federal e à delimitação das competências entre os entes federados, em particular a competência dos municípios, no tocante à matéria urbanística; 3. evitar o excesso de legislação, ou seu excessivo detalhamento; 126 Em contraste com o projeto original, a versão final do Estatuto da Cidade pouco trata do conteúdo do plano diretor, fixando-se no processo (democrático) para sua elaboração e implementação. Não contribui, assim, para reduzir o notável dissenso técnico e político sobre essa matéria. Para uma ampla abordagem do significado jurídico desses planos, no Brasil e no mundo, bem como de sua vinculação com o direito de propriedade, ver Pinto, 2001. 99 4. respeitar a diversidade das situações urbanas ocorrentes nas várias regiões do País, mantendo a legislação federal em nível de generalidade capaz de ser aplicável a estas várias situações” (Motta, 1998, p. 212 e 213). A crítica dos setores técnicos do governo federal se referia à falta de “uniformização da terminologia adotada”; à utilização da expressão “políticas setoriais” diferentemente da sua vinculação tradicional a habitação, saneamento e transportes; ao uso da expressão “ordenação do território” no contexto municipal (já que constitucionalmente competiria à União realizar planos nacionais de “ordenação do território”); à excessiva minudência dos dispositivos referentes ao plano diretor, sem que sequer ficasse “explícito o conteúdo obrigatório” dessa lei; à inconstitucionalidade de tratar, em lei federal, de regiões metropolitanas e aglomerações urbanas, já que a CF de 1988 atribuiu essa prerrogativa aos Estados; entre outras considerações (Motta, op. cit., p. 213-218). Independentemente de sua maior ou menor procedência, as ressalvas de perfil técnico, formuladas na administração federal ou mesmo na esfera do poder legislativo127, eram incomparavelmente mais brandas que as nascidas no âmbito do empresariado e nas instituições sociais de viés conservador. Tanto quanto havia acontecido com o PL 775/83, o projeto Pompeu de Sousa sofre grandes reações, que “assumem um maior vulto comparadas às do projeto anterior. Os mesmos atores, entidades que representavam os proprietários de terra, os empresários da construção civil e do setor imobiliário, tentaram impedir sua tramitação. Dessa vez contaram com o grande reforço da TFP – Tradição, Família e Propriedade – uma facção conservadora da Igreja Católica, que, além de enviar insistentemente documentos com críticas ao Congresso, passava abaixo- assinados em praças públicas, nos centros das cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro, visando à retirada do projeto de pauta” (Grazia, 2003, p. 58). De fato, textos produzidos pela Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP) dão a medida da avaliação que os proprietários imobiliários ligados à instituição faziam do projeto. No documento “TFP contra a Reforma Urbana socialista e confiscatória – Estatuto da Cidade”128, afirma-se que, já por ocasião da Constituinte, a TFP (2004, p. 11) alertou contra o “embrião do Estatuto da Cidade”, qual sejam “as proposituras esquerdistas de Reforma Urbana inseridas no projeto Cabral”, em referência ao capítulo constitucional da política urbana. Quanto ao conteúdo do Estatuto da Cidade, o documento é ainda mais explícito. Ao considerar que o projeto investia “contra dois princípios da ordem natural, consagrados pela 127 Ver Araújo e Ribeiro, 2000. 128 Disponível no sítio www.tfp.org.br/secoes/arquivo/documentos da internet (consulta feita no dia 9/2/2004). 100 doutrina social da Igreja e arraigados na sociedade brasileira: o da propriedade privada e o da livre iniciativa” (p. 5), a TFP faz uma análise do projeto para, em seus termos, “apalpar seu caráter socialista e confiscatório” (p. 6), que considerava presente nos instrumentos propostos no projeto. Para a TFP, como caberia à lei do plano diretor definir os casos de subutilização para efeito do cumprimento da função social da propriedade, “pode ser que o Plano Diretor proponha a introdução, dentro de sua casa, de moradores de rua ou outros, para ocupar os quartos ‘subtilizados’. (...) É o comunismo prático que se vai introduzindo” (op. cit., p. 7). No mesmo sentido visceral, o documento volta-se contra o princípio da participação popular e da gestão democrática com as seguintes expressões: “Além de jogar assim por terra o patrimônio e a estabilidade da vida familiar e econômica do infeliz proprietário urbano brasileiro, o Estatuto da Cidade atira-o às garras de uma infrene demagogia, que vai redundar numa tirania” (p. 9). Para a TFP (fundada em 1960, no auge da “guerra fria”), a adoção de mecanismos participativos resultaria no “estabelecimento de uma espécie de sovietes urbanos como os da antiga União Soviética, ou de associações de quarteirão como as existentes em Cuba” (p. 10). Menos caricatural, mas igualmente contrária à aprovação do Estatuto da Cidade, foi a posição inicial de vários setores do empresariado urbano. As definições do projeto relativamente à função social da propriedade e ao abuso de direito, como nos casos de retenção especulativa do solo urbano e, principalmente, no que se referia à recusa de oferecer à locação imóvel não utilizado e à proibição de posse ou domínio de área urbana excedente ao máximo fixado em módulos pelo plano diretor, sofreram restrições radicais. “O setor empresarial não aceitou nem mesmo iniciar um debates sobre elas” (Araújo e Ribeiro, 2000, p. 7). Também havia oposição do segmento empresarial à proposta de usucapião coletivo. Para Vicente Amadei, assessor do Sindicato das Empresas de Compra, Venda, Locação e Administração de Imóveis Residenciais e Comerciais de São Paulo (Secovi/SP), que representou a posição do empresariado urbano em muitos momentos do debate legislativo, tratava-se de “um incentivo à invasão” (DM, 1992, p. 34). Numa atitude de defesa do velho perfil privatista e patrimonialista do Código Civil, nesse ponto assemelhada à da TFP, o Estatuto da Cidade foi igualmente repudiado pelos empresários da construção civil e do mercado imobiliário que participaram do 56° Encontro Nacional da Indústria da Construção Civil, realizado em Fortaleza, em 1992. No relatório final do encontro, a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) considerava que “o 101 projeto mascara atos de autoritarismo estatal, entre outros, quando interfere na aquisição de imóvel urbano, objeto de compra e venda entre particulares” (DM, 1992, p. 34). Como se percebe, embora fossem distintas e até potencialmente conflitantes, as várias frações do capital imobiliário urbano (proprietários de terras, construtores e incorporadores) pareciam uníssonas na rejeição aoprojeto do Estatuto da Cidade. Em sentido contrário, no âmbito do movimento pela reforma urbana, o projeto era muito bem acolhido. Desde a promulgação da Constituição de 1988, esse movimento passou a lutar pela edição da lei federal requerida no capítulo da política urbana, como meio para tornar eficazes seus dispositivos. Dos projetos apresentados na Câmara, o do deputado Raul Ferraz era considerado o mais completo e outros dois (idênticos, aliás), o da deputada Lurdinha Savignon (PT-ES) e o dela em co-autoria com o deputado Eduardo Jorge (PT-SP), foram elaborados com a participação direta do Fórum Nacional de Reforma Urbana (FNRU)129. Explica-se: como Raul Ferraz e Lurdinha Savignon, que haviam apresentado suas proposições em 1989, não voltaram à Câmara nas eleições de 1990, seus projetos seriam regimentalmente arquivados. Por essa razão, “em 1990, o deputado Eduardo Jorge, do PT, reapresenta o projeto da deputada do Espírito Santo” (Grazia, 2003, p. 58)130. Esse, como todos os demais, também foi apensado ao PL 5.788/90, o projeto Pompeu de Sousa. Para o MNRU, segundo o jurista Nelson Saule Jr., “desde o início da década de 90, o projeto de lei federal de desenvolvimento urbano denominado ‘Estatuto da Cidade’ [foi considerado] o marco referencial para a instituição da lei que regulamenta o capítulo da política urbana da Constituição brasileira” (Saule Jr., 2003, p. 1). Estavam claras as posições. De um lado, o conjunto de entidades e movimentos que haviam construído o ideário da reforma urbana apoiava o Estatuto da Cidade e cobrava sua aprovação pelo Congresso Nacional; de outro, as entidades representativas do empresariado urbano, encorpadas por instituições de defesa da propriedade privada como causa política, se opunham ao projeto de lei. A disputa parlamentar estava lançada. 129 “A atual coordenação do FNRU é composta por: FASE, Instituto Pólis, Central dos Movimentos Populares, União Nacional por Moradia Popular, Movimento Nacional de Luta por Moradia, Federação Nacional de Arquitetos e Urbanistas, Federação Interestadual de Sindicatos de Engenheiros, Federação Nacional de Associações de Funcionários da Caixa Econômica Federal” (Grazia, 2003, p. 56). 130 Na verdade, o projeto do deputado Eduardo Jorge, apoiado pelo MNRU, foi apresentado em co-autoria com a deputada Lurdinha Savignon, que terminava o seu mandato, no dia 14/12/1990, quando o projeto Pompeu de Sousa, aprovado no Senado, já tramitava na Câmara havia três meses. 102 5 – TRAMITAÇÃO LEGISLATIVA: DO CONFLITO À UNANIMIDADE 5.1 Os principais pontos polêmicos e as primeiras negociações 5.1.1 A proposta engavetada Em 1991, quando o Estatuto da Cidade estava prestes a ser votado na primeira Comissão para a qual havia sido distribuído, a de Constituição e Justiça e de Redação (CCJR), houve uma alteração no Regimento Interno da Câmara dos Deputados, que modificou os critérios de distribuição dos projetos. Ao invés de examinar previamente as proposições, a CCJR passou a pronunciar-se no final, após a deliberação das chamadas comissões de mérito. O projeto foi então redistribuído para a Comissão de Viação e Transportes, Desenvolvimento Urbano e Interior (mais tarde subtraída da expressão “viação e transportes”), identificada como CDUI. Em 1992, o relator do projeto nessa Comissão, deputado Nilmário Miranda131, do PT de Minas Gerais, promoveu audiências públicas sobre o Estatuto da Cidade e atendeu “a um apelo do Poder Executivo, que solicitou um prazo maior que o regimental para a 131 Ligado às causas sociais, o deputado Nilmário Miranda notabilizou-se pela defesa dos direitos humanos. 103 apresentação de suas emendas” (Araújo e Ribeiro, 2000, p. 1 e 2). Em paralelo, duas outras Comissões, a de Economia, Indústria e Comércio (CEIC) e a de Defesa do Consumidor, Meio Ambiente e Minorias (CDCMAM) solicitaram audiências sobre o projeto. Por efeito do Regimento da Câmara, a tramitação foi novamente invertida, pois a comissão de maior nexo com a matéria, no caso a CDUI, deveria ser a última a se manifestar quanto ao mérito. Já estávamos em 1993 e o projeto foi então encaminhado à CEIC, onde foi designado relator, o deputado Luís Roberto Ponte, do PMDB do Rio Grande do Sul, cuja atuação na Constituinte, na avaliação do Instituto de Estudos Sócio-Econômicos (Inesc), foi assim transcrita: “Em matéria de coerência e reacionarismo este parlamentar é um dos melhores exemplos. (...) Empresário de prestígio e liderança nacionais, soube, como poucos, usar o mandato em defesa das causas que defende. Absolutamente contra todas as bandeiras do movimento sindical, soube comportar-se como representante da classe empresarial com brilho e determinação. Sem dúvida, uma revelação nos trabalhos da Constituinte e um nome a mais com o qual a direita pode contar” (Coelho e Oliveira, 1989, p. 379). Este vaticínio não tardou a se confirmar. De início, pela procrastinação do processo. O deputado simplesmente não apresentava o seu trabalho à Comissão. “Diante da morosidade de apresentação do parecer e da posição manifestamente contrária do relator em relação a parte do conteúdo do Estatuto da Cidade” (Araújo e Ribeiro, 2000, p. 2), o deputado Nilmário Miranda propôs ao deputado Ponte a formação de um grupo de trabalho integrado por representantes de entidades e especialistas na matéria, indicados por ambos. A proposta foi aceita. Coordenado pela engenheira Vera Lúcia Santos Ribeiro, assessora da liderança do PT, o grupo foi composto por representantes de entidades populares, profissionais e empresariais da sociedade civil, técnicos do governo federal e assessores legislativos132. O objetivo era promover um acordo que resultasse num projeto substitutivo, a ser aprovado por todas as correntes de opinião. No entanto, “a despeito de todo o trabalho desenvolvido pelo grupo e do resultado consensual alcançado, o relator, deputado Luís Roberto Ponte, não honrou o compromisso assumido, qual seja, o de incorporar em seu parecer o substitutivo produzido133 e dar seqüência à votação do Estatuto da Cidade” (Araújo e Ribeiro, op. cit., p. 2). 132 Tiveram destacada atuação as arquitetas Suely Mara Vaz Guimarães de Araújo e Maria Sílvia Barros Lorenzetti, consultoras legislativas da Câmara dos Deputados. 133 O texto substitutivo elaborado pelo grupo, diante da recusa do relator em acatá-lo, foi mais tarde transformado em projeto de lei (PL 1.734/96) pelo deputado Nilmário Miranda. 104 Do lado de fora do Congresso Nacional, a sociedade também atuava em pólos igualmente confrontantes. O MNRU pressionava por meio “de notas públicas (...), visando à retomada da tramitação do projeto” (Grazia, 2003, p. 60), enquanto o empresariado atuava no sentido contrário, assim como também fazia a TFP, especialmente a partir de julho de 1992. “A TFP lançou-se às ruas colhendo assinaturas para um documento pedindo aos parlamentares que não aprovassem esse projeto [antes de um plebiscito]. (...) Realizada essa campanha, o projeto de Estatuto da Cidade sumiu da pauta” (TFP, 2004, p. 11 e 12). Na Comissão, os parlamentares faziam sua parte. Os ligados ao movimento da reforma urbana insistiam em que o Estatuto da Cidade deveria ser votado e seu conteúdo aprovado, ainda que houvesse uma ou outra alteração. Outros, simpatizantes das causas do empresariado, apresentavam emendas para mudar a própria natureza do projeto. Foram apresentadas nada menos que 114 emendas, a maioria delas de índole conservadora. Ao propor a supressão de todo o art. 16 do texto primitivo, exatamente o dispositivo que fixava os instrumentosda política urbana, o deputado Paes Landim134, do PFL do Piauí, argumentou: “Quer o projeto acabar com a propriedade. Não haverá, pelo projeto, propriedade individual”135. Ao combater a proposta de fixação de taxas e tarifas diferenciadas como forma de reduzir desigualdades sociais, esse mesmo parlamentar afirmou: “Pretende o projeto, inconformado com a realidade social que a todos nós constrange, criar, em contraposição, cidadãos de primeira e de segunda categoria. Cidadãos de segunda categoria, está claro, seriam aqueles que puderam não só ajudar a construir o país, mas também acumular algum patrimônio”136. 5.1.2 O comboio em movimento Essa verdadeira muralha de reações137 somente começou a cindir em 1996, quando o deputado Luís Roberto Ponte finalmente apresentou seu parecer. As causas para que sua inércia tenha sido vencida se somam. De uma parte, uma tentativa de acordo138 coordenada 134 Sobre a atuação que o deputado Paes Landim tivera na Constituinte, a avaliação do Inesc foi premonitória: “Um dos mentores do Centrão (...), será um dos entraves às conquistas pretendidas no campo dos direitos social e econômico” (Coelho e Oliveira, 1989, p. 325). 135 Emenda n° 14/92, na CEIC (CD, s/d, p. 263). 136 Emenda n° 16/92, na CEIC (CD, s/d, p. 265). 137 Ainda sobre as dificuldades na tramitação legislativa do Estatuto da Cidade, é importante observar que a ausência da lei federal poderia ter sido suprida, provisoriamente, pela legislação estadual. É o que diz o art. 24 da Constituição. Essa possibilidade esteve à disposição das assembléias legislativas, mas não das câmaras de vereadores, pois, em relação ao direito urbanístico, somente os Estados e o Distrito Federal poderiam ter legislado enquanto perdurasse a omissão da legislação federal. 138 105 pela Secretaria de Política Urbana (Sepurb) do Ministério do Planejamento teria sido um fator de forte influência na atitude do deputado. De outra, as entidades ligadas ao movimento pela reforma urbana haviam tomado a iniciativa de buscar um processo de negociação com os deputados contrários à aprovação e com o próprio relator, porque consideravam que o projeto “precisava sair da referida comissão, onde os interesses contrários estavam concentrados” (Grazia, 2003, p. 60). Para tanto, o MNRU “teve de abdicar de algumas de suas propostas (...) com a esperança de que a matéria perdida se recuperaria nas outras comissões. (...) Uma aposta arriscada, mas vitoriosa”, segundo Grazia de Grazia (op. cit., p. 61). O fato é que o parecer do relator139 despiu o projeto original de sua abordagem conceitual e voltou-o mais pragmaticamente para a instrumentalização dos municípios, muito embora, nesse aspecto, todos os instrumentos originais tenham sido mantidos, a par de outros acrescidos, como a transferência do direito de construir, a outorga onerosa do direito de construir e as operações urbanas consorciadas. Chama a atenção nesse caso, não a retirada, entre outras, da conceituação de função social da propriedade e de abuso de direito, constantes do PL 5.788/90, pois o discurso ideológico impossibilitara desde sempre a negociação parlamentar, mas a inclusão de certos dispositivos que, defendidos pelo movimento da reforma urbana em muitos momentos, já estavam em aplicação em algumas cidades. Dessa experimentação municipal, como já vimos, muitos proveitos empresariais foram obtidos. O próprio parecer do relator confirma essa evidência ao declarar, a respeito do mencionado acréscimo, que “os instrumentos podem ser benéficos para as atividades imobiliárias urbanas, ao inovar nas formas possíveis de parceria entre o Poder Público e as empresas privadas” (CD, s/d, p. 377). Ainda na CEIC, depois de apresentado o seu parecer, o relator acatou emenda do deputado Fetter Júnior, do PPB do Rio Grande do Sul, que propunha retirar da relação de instrumentos o direito de preempção. Mais uma vez as evidências de que as expectativas da iniciativa privada estavam sendo atendidas se confirmam. Em seu voto, o relator afirmou concordar com a retirada do instituto do direito de preempção para coadunar o projeto “com Em paralelo ao embate que acontecia entre o MNRU e os representantes do empresariado, o governo federal, em decorrência das críticas técnicas que fazia ao Estatuto da Cidade, promoveu, entre 1995 e 1996, várias reuniões com vistas a um amplo acordo que resultasse na elaboração de um texto legal complementar, a ser enviado ao Congresso. No entanto, envoltas em diferenças de abordagem entre a então Secretaria de Desenvolvimento Urbano (Sepurb) e a Casa Civil, “foram tentadas diferentes iniciativas, sendo que nenhuma delas logrou sucesso” (Araújo e Ribeiro, 2000, p. 3). 139 O deputado Luís Roberto Ponte exercia seu mandato na condição de suplente. Alterações na bancada estadual de seu partido, fizeram-no deixar a Câmara antes da votação de seu parecer. Designado novo relator, o deputado Pauderney Avelino, do PFL do Amazonas, manteve quase integralmente o parecer deixado pelo deputado Ponte. 106 as modernas tendências de redução da interferência governamental ao mínimo necessário” (CD, op. cit., p. 411). Talvez porque as intenções dos dois blocos de opinião estivessem taticamente dissimuladas — o MNRU ao ceder em suas propostas intentando recuperar as perdas nas fases seguintes e o empresariado por conseguir gradualmente incorporar instrumentos “benéficos para as atividades imobiliárias” —, o projeto foi, para surpresa de muitos, aprovado sem disputas. Quando, em 29 de outubro de 1997, finalmente se deu a votação na CEIC, a primeira ocorrida na Câmara dos Deputados, “para espanto de todos os presentes, não houve uma objeção sequer ao relatório apresentado. Todas as manifestações foram favoráveis ao parecer, que foi aprovado por unanimidade. Depois de tão longo tempo de obstrução, que parecia denunciar fortes resistências ao teor da proposta de lei, assistiu-se a uma votação por consenso, sem nenhuma ressalva” (Araújo e Ribeiro, 2000, p. 3). Aprovado na CEIC, o projeto seguiu para a Comissão de Defesa do Consumidor, Meio Ambiente e Minorias (CDCMAM), onde recebeu contribuições relativas à política ambiental, em grande parte oriundas de propostas do Instituto Brasileiro de Administração Municipal (Ibam) e, especialmente no que se refere à inclusão do Estudo de Impacto de Vizinhança (EIV), do deputado Fábio Feldmann, do PSDB de São Paulo. Foram assim incorporados aos instrumentos da política urbana o zoneamento ambiental, o estabelecimento de unidades de conservação e a realização de estudos prévios de impacto ambiental e de impacto de vizinhança. Deve-se destacar que, na CDCMAM, retornou ao texto o direito de preempção, visto como útil para os casos de instituição de unidades de conservação. Também nessa Comissão as disputas pareciam dissipadas, pois o parecer do relator, deputado Celso Russomano (PPB-SP), que substituíra a relatora inicial, deputada Regina Lino (PMDB-AC), afastada por problemas de saúde, foi aprovado por unanimidade, sem maiores celeumas. Algumas emoções, contudo, estavam ainda reservadas para as etapas seguintes. 5.2 A articulação do consenso parlamentar 5.2.1 O debate mais importante No final de 1998, o projeto chega à principal comissão de mérito, a de Desenvolvimento Urbano e Interior (CDUI). Como, nas disputas das diversas bancadas pela direção de comissões, a CDUI sempre fora das menos cobiçadas pelos blocos majoritários, era 107 freqüente que sua presidência coubesse a agremiações políticas de menor expressão numérica; situação que caracterizava,aliás, quase todos os partidos ditos de esquerda. Nesse contexto, a presidência da Comissão coube ao deputado Inácio Arruda, do PC do B do Ceará, liderança popular naquele Estado, muito ligado aos movimentos sociais urbanos. Cabe ao presidente das comissões indicar os relatores dos projetos. O deputado Inácio Arruda avocou para si a relatoria do Estatuto da Cidade e começou a pôr em prática um extenso e amplo calendário de coletas de sugestões, consultas, audiências públicas, debates e seminários, que culminou com a realização da I Conferência das Cidades, estrategicamente programada para começar no dia seguinte ao da votação do projeto na Comissão, ocorrida no dia 1° de dezembro de 1999. Na fase de debates que antecedeu a votação, muitas sugestões foram acatadas e incorporadas ao texto submetido à votação, quase todas no sentido de reaproximar o projeto do conteúdo da Emenda da reforma urbana. O Fórum Nacional da Reforma Urbana foi acolhido quando propôs (FNRU, 1999), por exemplo, a inclusão de instrumentos de regularização fundiária, como as ZEIS e a concessão especial de uso para fins de moradia, de um plano de atendimento para a população atingida por operações consorciadas, de um capítulo sobre a gestão democrática da cidade, de processos participativos de elaboração orçamentária, assim como a fixação de penalidades para prefeitos omissos em relação à elaboração do plano diretor. Não foi atendido, contudo, ao propor a supressão do artigo que autorizava a emissão de certificados de potencial construtivo no âmbito das operações urbanas. O IAB obteve sucesso ao sugerir (conforme IAB-MG, 1999) a retirada da comprovação de “demanda para utilização” para que se aplicassem o parcelamento e a edificação compulsórios, bem como a fixação de um coeficiente básico e outro máximo para a outorga onerosa do direito de construir. Já o Secovi-SP (1999) apresentou poucas sugestões, fazendo crer-se satisfeito com o texto que prevalecera até então. Além de quantitativamente escassas, suas propostas chamam a atenção pelo conteúdo de algumas delas. Ao lado da previsível defesa da manutenção de dispositivos como os que condicionavam a aplicação das penalidades de combate à ociosidade do solo aos casos em que houvesse “ociosidade de infra-estrutura e demanda para utilização”, no que, aliás, não foi atendida, essa entidade empresarial curiosamente propôs a inclusão do “orçamento participativo” como instrumento da política urbana, bem como a exigência de que a gestão das operações urbanas fosse “obrigatoriamente compartilhada com representação da 108 sociedade civil”, institutos de gestão democrática próprios do ideário da reforma urbana140. Nesses últimos aspectos, as sugestões do Secovi-SP foram acolhidas. O texto resultante desse processo, submetido à CDUI pelo deputado Inácio Arruda, que em seu voto destacou, além das contribuições dos parlamentares do PT, “o FNRU, a CBIC e o Secovi-SP”, assim como as “sugestões recebidas pelo relator do professor Flávio Villaça, da FAU/USP” (CD, s/d, p. 562), foi aprovado por todos os membros da Comissão, à exceção do deputado Adolfo Marinho, do PSDB do Ceará, mesma unidade federativa representada pelo relator, “o que explica um forte componente político na oposição” (Araújo e Ribeiro, 2000, p. 5) por ele promovida e, portanto, não retira o sentimento de unanimidade que a votação na CDUI ensejou. 5.2.2 Os últimos movimentos na Câmara: recidivas da reação conservadora O Estatuto da Cidade foi então finalmente encaminhado à Comissão de Constituição e Justiça e de Redação (CCJR), que deveria se manifestar sobre a constitucionalidade do projeto. Nessa Comissão, embora o MNRU tivesse percebido “que os consensos não eram tão reais” (Grazia, 2003, p. 61), houve apenas duas alterações141. Uma, para retirar os dispositivos referentes a regiões metropolitanas e aglomerações urbanas, considerados inconstitucionais, pois se trata de competência estadual. Outra, para atender reivindicações de setores da construção e de parlamentares ligados a igrejas evangélicas, liderados pelo deputado Bispo Rodrigues, do PL do Rio de Janeiro, resultou na supressão dos dispositivos que determinavam, nos casos de Estudo de Impacto de Vizinhança, a “audiência da comunidade afetada” e a nulidade das licenças expedidas sem a observância desse requisito. Do ponto de vista do próprio MNRU, as concessões, que mantinham o conteúdo da matéria, deixando sua aplicação à mercê da legislação municipal, foram aceitáveis, “pois sabe-se que, de acordo com a correlação de forças existente em cada município, as diretrizes fixadas na lei federal serão ou não absorvidas” (Grazia, op. cit., p. 62). A deliberação da CCJR, contudo, consumiu todo o ano de 2000. Novamente foram necessárias campanhas públicas, notas e manifestos do MNRU, inclusive no Fórum Social Mundial realizado em janeiro daquele ano em Porto Alegre, para que a Comissão se pronunciasse. Até um abaixo-assinado de advogados e juristas, defendendo a constitucionalidade do projeto, foi encaminhado à Comissão. No dia 29 de novembro de 2000, 140 No capítulo 6, tenta-se explicar esse aparente paradoxo. 141 A proposta de instituição do Conselho Nacional de Política Urbana (CNPU) já havia sido suprimida do projeto original porque a Constituição determina que a criação de órgão público somente pode decorrer de projeto de lei de iniciativa do Poder Executivo. 109 o parecer favorável do deputado Inaldo Leitão, do PSDB da Paraíba, é finalmente votado. Mais uma vez houve unanimidade na aprovação. O projeto deveria, então, retornar ao Senado para que as alterações promovidas na Câmara fossem ratificadas. Parecia que o consenso estava consolidado. No entanto, houve ainda uma recidiva de parte da representação empresarial. De acordo com a Constituição de 1988, projetos aprovados nas comissões da Câmara ou do Senado, caso do Estatuto da Cidade, não precisam ser submetidos ao Plenário, salvo se houver recurso nesse sentido, subscrito por pelo menos um décimo dos respectivos parlamentares. Com base nesse dispositivo, um grupo de parlamentares — sob a liderança do deputado Márcio Fortes (PSDB-RJ), com o diligente apoio do deputado Paulo Octávio (PFL-DF), ambos grandes empresários do setor imobiliário — apresentou o Recurso nº 113, de 12 de dezembro 2000, na tentativa de fazer com que o projeto fosse submetido ao Plenário da Câmara dos Deputados. Em sentido contrário à aprovação do recurso passaram a atuar as entidades ligadas ao MNRU, os partidos que à época faziam oposição ao governo e, ao lado desses, parlamentares ligados ao próprio governo, como o deputado Ronaldo César Coelho142, do PSDB do Rio de Janeiro, presidente da CCJR, cuja atuação foi julgada “importante” pelo movimento da reforma urbana (Grazia, 2003, p. 62). Em 20 de fevereiro de 2001, o recurso é derrotado e o Estatuto da Cidade volta para o Senado Federal, de onde saíra havia quase onze anos. 5.2.3 A volta à Casa de origem No Senado, por força do Regimento Interno, o Estatuto da Cidade, agora como projeto oriundo da Câmara, deveria ser examinado preliminarmente pela Comissão de Assuntos Sociais (CAS) e, depois, obrigatoriamente submetido ao Plenário. Em termos formais, o Senado deveria decidir se mantinha seu texto originalmente aprovado em 1990 (do que, na prática, considerado o longo tempo decorrido e o debate havido, não se cogitava) ou se adotava o substitutivo aprovado na Câmara. Nesse caso, havendo emendas, o projeto retornaria àquela Casa, que deveria decidir sobreas alterações, o que adiaria ainda mais o desfecho do já demasiadamente longo processo legislativo. 142 Empresário, ex-banqueiro. 110 Designado relator na CAS, o senador Mauro Miranda143, do PMDB de Goiás, teve destacado papel na tentativa de obter um consenso que levasse não apenas à aprovação do substitutivo da Câmara, mas que também evitasse a apresentação de emendas no Senado144. Foi bem sucedido. Tanto na CAS, onde foi votado no dia 30 de maio de 2001, quanto no Plenário, que deliberou no dia 18 de junho de 2001, o Estatuto da Cidade foi aprovado por unanimidade. Senadores de diferentes partidos, como Paulo Hartung (PPS-ES), Heloísa Helena (PT-AL), Waldeck Ornelas (PFL-BA), Roberto Saturnino (PSB-RJ), Ney Suassuna (PMDB-PB), Lúdio Coelho (PSDB-MS) e Lauro Campos (sem partido-DF), fizeram questão de tomar a palavra145 para defender o projeto. Conservadores ou progressistas, empresários ou trabalhadores, mais à direita ou mais à esquerda do extenso leque político-partidário, todos, sem exceção, apoiaram e elogiaram uma proposta legislativa que nascera sob pechas como “socialista e confiscatória” (TFP, 2004, p. 6) ou “um desrespeito ao direito do cidadão e à propriedade” (DM, 1992, p. 34). Se, de um lado, é verdade que o consenso obtido decorreu em grande medida de “muito diálogo, troca de idéias, informações” (Amadei146, 2003, p. 2) e de “pressão popular e simultânea negociação com deputados, setores governamentais e setores imobiliários” (Grazia147, 2003, p. 60), de outro, não seria descabido afirmar que cada um dos pólos que se articularam para a formação do consenso percebeu boa parte do seu resultado de forma distinta (e, talvez por isso, tenha concordado com seus termos), como veremos no capítulo 6. Antes, porém, precisamos verificar o que houve depois que o projeto deixou o Congresso Nacional e foi submetido à sanção presidencial. 143 O senador Mauro Miranda foi o autor principal do projeto que resultou na inclusão do “direito à moradia” entre os direitos sociais constitucionalmente assegurados (Emenda Constitucional n° 26, de 2000). Simpático às reivindicações do MNRU, sua trajetória parlamentar também o credenciava perante os setores conservadores. A atuação do então deputado Mauro Miranda na Constituinte já prenunciava essa amplitude política, que se mostrou fundamental na aprovação do Estatuto da Cidade: “Filiado ao Centrão, nem sempre votou com o grupo” (Coelho e Oliveira, 1989, p. 197). 144 Era essa a posição defendida pelo MNRU, como se afirma expressamente no documento “O Fórum Nacional de Reforma Urbana conclama pela aprovação do Estatuto da Cidade – PL 5.788/90”, de 18/6/2001, dirigido a todos os senadores: “somos totalmente favoráveis à aprovação do projeto de lei Estatuto da Cidade nos termos deste substitutivo”. 145 Ver notas taquigráficas da sessão deliberativa de 18/6/2001. SF, Secretaria Geral da Mesa, Subsecretaria de Taquigrafia, p. 244-249 e 277-319. 146 Assessor da Vice-Presidência de Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente do Secovi-SP, Vicente Amadei representou o Secovi-SP e a CBIC durante a tramitação legislativa do Estatuto da Cidade. 147 Grazia de Grazia, assessora do Núcleo Cidadania, Políticas Públicas e Questões Urbanas da FASE, integrou a coordenação do Fórum Nacional de Reforma Urbana durante os momentos mais importantes da tramitação do Estatuto da Cidade. 111 5.3 O Estatuto da Cidade transformado em lei 5.3.1 As dificuldades para a sanção presidencial Segundo Grazia de Grazia (2003, p. 63), “o período entre a aprovação no Senado e a sanção foi de muita tensão. Sabia-se que havia questões polêmicas, que contrariavam interesses de setores imobiliários e do Governo Federal, mas que eram favoráveis aos setores excluídos”. Embora assim parecesse ao MNRU, chamam a atenção evidências e opiniões no sentido de que a contrariedade do segmento imobiliário não era tão explícita. Eduardo Graeff148, assessor especial da Presidência da República, por exemplo, afirma que “no processo de sanção, o que deu mais trabalho foram as objeções de natureza jurídica na Presidência. Acho que a equipe tinha uma visão jurídica conservadora” (Graeff, 2003, p. 1). De outra parte, Graeff declara não se lembrar de ter havido pressões oriundas do setor imobiliário, contrárias à sanção do projeto: “Quem tinha acesso ao governo e poderia trazer alguma objeção, mas eu não sei se trouxe, era aquele deputado do Rio Grande do Sul, o Luís Roberto Ponte, ligado à indústria da construção (...). Não teria nem razão, pois, do ponto de vista do setor da construção, o projeto não é ruim” (Graeff, op. cit., p. 1). De fato, as representações do empresariado jamais solicitaram o veto integral, ou mesmo substancial, do Estatuto da Cidade. Mas houve objeções, embora pequenas. No dia 21 de junho de 2001, Luís Roberto Ponte, então novamente presidente da CBIC, encaminhou ao presidente da República o ofício n° 153/2001, em que considerava ser de “louvar-se os inegáveis avanços no seu texto”, afirmando, porém, que o projeto merecia “poucos, mas importantes reparos”. Esses “reparos”, na verdade, não se referiam, como alguns poderiam esperar, aos dispositivos que fixavam instrumentos de gestão urbana, procedimentos participativos de controle social, nem mesmo à substância das penalidades fixadas para o descumprimento da 148 Sociólogo respeitado, colega de profissão, amigo e assessor do presidente Fernando Henrique Cardoso desde quando este era senador, Eduardo Graeff é filho do falecido professor Edgar Graeff, arquiteto e intelectual de relevo, vinculado às causas sociais e democráticas de resistência ao regime militar. 112 função social da propriedade149 — o que, mais uma vez, permite supor a satisfação genérica do setor empresarial com o texto aprovado. As restrições da CBIC voltavam-se contra a fixação de prerrogativas expressas no sentido de que o Ministério Público pudesse valer-se da ação civil pública para obstar danos à “ordem urbanística” — no que, aliás, não foi atendida — e, principalmente, opunham-se à “concessão de uso especial para fins de moradia”, instrumento que verdadeiramente polarizou os debates no contexto da sanção do Estatuto da Cidade, reproduzindo, em outros termos, o que ocorrera na Assembléia Nacional Constituinte. Fundada no art. 183, § 1°, da Constituição, nos termos do qual “o título de domínio e a concessão de uso serão conferidos ao homem ou à mulher, ou a ambos, independentemente do estado civil”150, a concessão de uso especial para fins de moradia resgatava uma idéia sempre presente nas propostas do MNRU. Constante da Emenda Popular da Reforma Urbana, esse instituto, que fora removido da versão original a partir dos primeiros substitutivos, foi reincorporado ao Estatuto da Cidade no parecer do deputado Inácio Arruda, aprovado pela Comissão de Desenvolvimento Urbano e Interior. Trata-se da possibilidade de assegurar segurança jurídica para fins de moradia aos ocupantes de terra pública cuja posse, sem oposição do proprietário, ocorra há pelo menos cinco anos. Como a Constituição de 1988 (art. 183, § 3°) seguiu a tradição de estabelecer a impossibilidade de os imóveis públicos serem adquiridos por usucapião (ou seja, de que a propriedade plena deixasse de ser pública e se transferisse ao particular), “estar-se-ia diante de uma dificuldade quase intransponível para a regularização fundiária dos assentamentos em área pública, o que colocaria os moradores na posição de terem de resignar-se com a irregularidade” (Alfonsin, B., 2002, p. 163). A transposição desse obstáculo decorreu da “construção hermenêutica151que viu no art. 183, § 1° uma clara autorização para a utilização 149 Duas únicas restrições foram propostas pela CBIC nesse aspecto: (i) a supressão do parágrafo que se referia aos patamares de progressão do IPTU, sob o argumento de que a alíquota máxima de 15% era “confiscatória”; e (ii) a retirada da expressão “atendimento das necessidades dos cidadãos quanto à qualidade de vida, à justiça social e ao desenvolvimento das atividades econômicas”, vinculada ao plano diretor na definição do conceito de função social da propriedade urbana, por considerá-la desnecessária porque redundante em relação às diretrizes gerais da política urbana, fixadas no art. 2°. As solicitações não foram acolhidas. 150 Esse dispositivo, que, como vimos, decorreu da aprovação na Constituinte de emenda destinada à proteção da mulher, acrescentou ao texto constitucional, ao lado da expressão “título de domínio” (propriedade), a hipótese da “concessão de uso” nos procedimentos de regularização fundiária. 151 Foram de fundamental importância, nessa elaboração interpretativa, trabalhos como os dos juristas Nelson Saule Jr. (1997), Leda Pereira Mota e Celso Sptizcovsky (1999), entre vários outros. 113 do instrumento da concessão de uso como um equivalente da152 usucapião, a ser usada nos imóveis públicos” (Alfonsin, B., op. cit., p. 163). A concessão de uso especial, a despeito das pressões do MNRU pela sua aprovação, que novamente envolveram um “Manifesto dos Profissionais do Direito em Defesa da Constitucionalidade do Estatuto da Cidade”, dessa vez assinado por 36 profissionais, embora considerada, pelo presidente da República, “um importante instrumento para propiciar segurança da posse — fundamento do direito à moradia — a milhões de moradores de favelas e loteamentos irregulares”153, foi vetada com os seguintes argumentos: 1. a expressão “edificação urbana”, que visaria a permitir a regularização de cortiços em imóveis públicos, poderia se prestar a gerar demandas do direito por parte de ocupantes de habitações individuais (referindo-se aos “imóveis funcionais”) de até 250m2; 2. o projeto de lei não ressalvaria do direito à concessão de uso especial os imóveis públicos afetados ao uso comum do povo, como praças e ruas, assim como áreas urbanas de interesse da defesa nacional, da preservação ambiental ou destinadas a obras públicas; nesses casos, dever-se-ia possibilitar a satisfação do direito à moradia em outro local; 3. o texto aprovado no Congresso não estabelecia uma data-limite para a aquisição do direito à concessão de uso especial; 4. não havia a definição expressa de um prazo para que a Administração Pública processasse os pedidos de concessão de direito de uso, o que poderia vir a congestionar o Poder Judiciário. Entretanto, ao expor as razões de seu veto, o Presidente afirmava que “em reconhecimento à importância e à validade do instituto da concessão de uso especial para fins de moradia, o Poder Executivo submeterá sem demora ao Congresso Nacional um texto normativo que preencha essa lacuna”154. 152 Substantivo de dois gêneros (Houaiss, 2001, p. 2815), o vocábulo usucapião, aqui transcrito como feminino, foi utilizado neste trabalho como masculino. 153 Vetos parciais à Lei n° 10.257/01, constantes da Mensagem n° 730, de 10 de julho de 2001, publicada no DOU de 11/7/2001. 154 Ibid. 114 A promessa foi cumprida. A Medida Provisória155 n° 2.220, de 4 de setembro de 2001, regrou a aplicação do instituto da concessão de uso especial “de que trata o § 1° do art. 183 da Constituição”156, bem como fixou a data-limite de 30 de junho de 2001 para a satisfação das condições garantidoras do direito157. Ao lado de restaurar a aplicabilidade desse instrumento, essa Medida Provisória criou o Conselho Nacional de Desenvolvimento Urbano, iniciativa que não poderia ter sido tomada pelo Congresso Nacional. Um segundo veto considerado importante pelo MNRU foi o que retirou do art. 52 o inciso I, que caracterizava como improbidade administrativa a conduta do prefeito que impedisse ou deixasse de garantir a participação de comunidades, movimentos e entidades da sociedade civil na elaboração do plano diretor. O dispositivo foi visto pelo Presidente como de “difícil interpretação e aplicação, em prejuízo da segurança jurídica”158. Na avaliação de Grazia de Grazia (2003, p. 65), “outros seis vetos foram feitos, de menor importância”. O Estatuto da Cidade se havia tornado lei. 5.3.2 O texto final: conteúdo e finalidades 155 Por força da Emenda Constitucional n° 32, de 12 de setembro de 2001, as medidas provisórias publicadas até então “continuam em vigor até que medida provisória as revogue explicitamente ou até deliberação definitiva do Congresso Nacional”. Em termos práticos, a MP n° 2.220/01, editada oito dias antes da promulgação da referida Emenda, deve ser vista como se lei fosse. 156 Esse trecho da ementa da MP n° 2.220, de 2001, opera no sentido de consolidar o argumento de que a concessão de uso especial para fins de moradia, tanto quanto o usucapião para o mesmo fim, tem sede constitucional. 157 Supõe-se que haja uma contradição jurídica na fixação de um limite temporal por norma infra-constitucional.. Tratando-se, como se trata (até porque, não fosse norma constitucional, o instituto não poderia estender-se, por lei federal, aos bens estaduais e municipais), de um direito subjetivo constitucionalmente assegurado, a lei não poderia limitá-lo no tempo se a Constituição não o fez. A questão deverá ser dirimida se e quando for levada ao Poder Judiciário. 158 O inciso VI do art. 52, mantido pelo presidente da República, supre, em certa medida, o conteúdo do dispositivo vetado. 115 Muito se tem falado do conteúdo do Estatuto da Cidade, sobretudo dos instrumentos previstos na nova lei. Seja pelo aspecto de suas origens e de seu significado jurídico, seja pelo ângulo das possibilidades urbanísticas e de gestão urbana que oferecem, os dispositivos da Lei n° 10.257, de 10 de julho de 2001, e da Medida Provisória n° 2.220, de 4 de setembro de 2001, que o complementa159, estão expostos e amplamente comentados, de modo especial em Rolnik, Saule Jr. et al., 2002; Mattos, 2002; e em Alfonsin, Fernandes et al., 2002, mas também em publicações como Fernandes, 2001; Maricato, 2001; Smolka e Furtado, 2001; Osório, 2002; Souza, 2002; Fernandes e Alfonsin, 2003; Mattos, 2003; e Ribeiro e Cardoso, 2003, entre muitas outras. Assim, para os efeitos desse trabalho, a apresentação do conteúdo do Estatuto da Cidade será feita de maneira sucinta, com o objetivo tão-só de explicitar seus principais elementos constitutivos. O Estatuto da Cidade, que “estabelece normas de ordem pública e interesse social” (art. 1°, parágrafo único), o que expressamente sedimenta o direito urbanístico como ramo do direito público, fixa, no art. 2°, o objetivo da política urbana: “ordenar o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade e da propriedade urbana”. Para tanto, são fixadas “diretrizes gerais”, as quais, diferentemente do que possa parecer num exame superficial, não são apenas enunciados genéricos ou etéreas manifestações de vontade sem maior significado jurídico. Como o art. 182 da Constituição estabelece que a execução da política de desenvolvimento urbano, competência municipal, deve ocorrer com base em “diretrizes gerais fixadas em lei”, a prerrogativa municipal está vinculada pela Constituição às diretrizes do Estatuto da Cidade, que, assim, “deverão ser absorvidas, observadas e complementadas pelos municípios, de acordo com as particularidades e peculiaridades locais” (Mattos, 2002,p. 87). Entre essas diretrizes (art. 2°), encontram-se: o direito a “cidades sustentáveis”; a participação popular; a cooperação entre agentes públicos e privados no processo de urbanização; o planejamento do desenvolvimento das cidades; a ordenação e controle do uso do solo de forma a evitar, entre muitos outros impactos negativos, “a retenção especulativa de imóvel urbano, que resulte na sua subutilização ou não utilização”; a produção de bens e serviços nos limites da sustentabilidade ambiental; a recuperação pelo poder público de investimentos que tenham resultado em valorização imobiliária; a proteção de meio ambiente natural e do patrimônio cultural; a regularização fundiária e urbanização de áreas ocupadas por população de baixa renda; e a simplificação da legislação urbanística local. 159 Ver anexos 6 e 7. 116 Complementarmente ao seu enunciado, pretende-se que a materialização do objetivo e das diretrizes do Estatuto da Cidade ocorra por meio de instrumentos de planejamento e de institutos tributários, financeiros, jurídicos e políticos. A par de incluir alguns instrumentos já previstos em lei, ao tempo em que inova ao fixar outros, o Estatuto da Cidade declaradamente não esgota o ferramental à disposição dos municípios, que poderão ainda valer-se de outros, para os mesmos propósitos. Sobressaem desse rol os seguintes instrumentos160: 1) plano diretor: obrigatório para cidades com mais de vinte mil habitantes e referência constitucional para o cumprimento da função social da propriedade, passa a ser exigido também para cidades integrantes de áreas de especial interesse turístico, para aquelas influenciadas por empreendimentos com impacto ambiental significativo e para as que pretendam utilizar os instrumentos do Estatuto. Deve ser elaborado e implementado democraticamente e seu conteúdo incorporado pela legislação orçamentária; 2) gestão democrática: deverá ocorrer por meio da ação de conselhos de política urbana, da iniciativa popular de leis e da realização de debates, audiências, conferências e consultas públicas; 3) parcelamento, edificação ou utilização compulsórios: previsto no art. 182, § 4°, da Constituição, como primeira de três penalidades sucessivas pela retenção de solo urbano ocioso, esse dispositivo e seus conseqüentes careciam de regulação em lei federal para tornarem-se aplicáveis; 4) IPTU progressivo no tempo161: segunda sanção prevista na seqüência constitucional, deverá ser aplicado aos proprietários que descumprirem a primeira penalidade, pelo prazo de cinco anos, com progressão da alíquota limitada ao dobro de um exercício para outro, até o máximo de 15%; 5) desapropriação mediante pagamento em títulos da dívida pública: última das penalidades constitucionais previstas no capítulo da política urbana. Torna a desapropriação de imóveis urbanos ociosos semelhante à que ocorre para fins de reforma agrária; 160 Revisto e ampliado com base em Bassul, 2000, p. 140-142. 161 Observe-se que se trata aqui da progressividade “no tempo”, com o objetivo extra-fiscal de instar o proprietário a dar finalidade social ao seu imóvel. O IPTU, por força da Emenda Constitucional n° 29, de 2000, também pode ser progressivo “em razão do valor do imóvel”, bem como “ter alíquotas diferentes de acordo com a localização e o uso” da propriedade. 117 6) usucapião especial para fins de moradia: dispositivo auto-aplicável, previsto no art. 183 da Constituição, permite que imóveis particulares de até 250 m2, ocupados há mais de cinco anos, sem oposição, por quem não possua outro imóvel, tenham o domínio transferido ao ocupante. O Estatuto da Cidade amplia a possibilidade de iniciativa para o usucapião coletivo, no sentido de facilitar a regularização fundiária de áreas de difícil individualização, como as favelas; 7) concessão de uso especial para fins de moradia: baseada no mesmo dispositivo constitucional, que veda o usucapião de imóvel público, permite que esses imóveis tenham a posse (e não o domínio) regularizada de maneira semelhante; 8) concessão de direito real de uso: já constava de nosso ordenamento jurídico (Decreto-lei n° 271, de 1967). Diferentemente do usucapião e da concessão de uso especial, não constitui direito subjetivo, ou seja, não pertence à pessoa ou grupos de pessoas que satisfaçam determinadas condições legais, mas pode ser utilizado voluntariamente pelo proprietário do imóvel, público ou particular, para transferir a posse e o uso, retendo a propriedade; 9) zonas especiais de interesse social (ZEIS): áreas urbanas em que a legislação pode permitir padrões diferenciados de uso e ocupação do solo, com vistas a promover a regularização de ocupações ou a facilitar a oferta de lotes e habitações para a população de baixa renda; 10) direito de superfície: permite a transferência, gratuita ou onerosa, por escritura pública, do direito de construir, sem que este alcance a propriedade do solo. Separa o direto de propriedade do direito de construir, tornando mais flexível a utilização dos terrenos urbanos; 11) direito de preempção: assegura preferência ao poder público na aquisição de imóveis urbanos desde que, devidamente notificado pelo proprietário, manifeste o interesse pela compra, no prazo de trinta dias, findo o qual o direito deixa de prevalecer. Objetiva permitir a aquisição de imóveis pelos municípios sem a necessidade de procedimentos de desapropriação; 12) contribuição de melhoria: também previamente integrante do ordenamento jurídico brasileiro (Constituição Federal, Código Tributário Nacional e Decreto- lei n° 195, de 1967), trata-se de um tributo cujo fato gerador é a valorização do imóvel de propriedade privada que decorra de obras públicas. Permite que o 118 investimento público seja recuperado e aplicado no atendimento de outras demandas sociais; 13) outorga onerosa do direito de construir e de alteração de uso: consiste na possibilidade de o município estabelecer determinado coeficiente de aproveitamento dos terrenos, a partir do qual, e até um coeficiente máximo, o direito de construir excedente deverá ser adquirido do poder público. O mesmo poderá ocorrer quando o uso for alterado e resultar na valorização do imóvel; 14) operações urbanas consorciadas: permitem um conjunto de intervenções e medidas, consorciadas entre poder público e iniciativa privada, com vistas a alcançar transformações urbanísticas de maior monta. No âmbito das operações, o direto de construir pode ser expresso em certificados de potencial adicional de construção, vendidos em leilão ou utilizados para o pagamento de obras; 15) consórcio imobiliário: embora de denominação assemelhada, não se relaciona com as operações urbanas. Poderá ser constituído nos imóveis ociosos, alcançados pela obrigação de parcelar, construir ou utilizar. O proprietário transfere seu bem ao poder público e recebe como pagamento, após a realização das obras, unidades imobiliárias urbanizadas ou edificadas; 16) transferência do direito de construir: faculta o exercício desse direito em imóvel distinto do que originalmente o detinha. Mecanismo útil (afasta ou reduz custos de desapropriação) para a implantação de equipamentos urbanos e de unidades de conservação, para a preservação do patrimônio cultural e para a regularização de ocupações de baixa renda em áreas privadas; 17) estudo de impacto de vizinhança: documento técnico a ser exigido, com base em lei municipal, para a concessão de licenças e autorizações de construção de empreendimentos ou funcionamento de atividadesque possam afetar a qualidade de vida da população residente na área ou nas proximidades. 5.3.3 Aspectos distributivos e redistributivos Os conceitos de “distributividade” e “redistributividade” — cujo substrato econômico, dada uma determinada base desigual de distribuição da riqueza sobre a qual incide algum incremento de valor, se refere ao caráter eqüitativo (distributivo) da partição desse incremento ou ao seu efeito redutor (redistributivo) da desigualdade originalmente considerada —, não são uniformemente utilizados na bibliografia relativa à política urbana. 119 Para exemplificar essa abordagem diferenciada, mas não necessariamente conflitante, pode-se citar, de um lado, texto de Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro (2003, p. 15), que considera distributiva a “provisão de serviços habitacionais e urbanos direta ou indiretamente pelo Poder Público” e, redistributiva, a captura de “parte da renda real gerada pela expansão urbana para financiar a ação pública que igualize as condições habitacionais e urbanas”; e, de outro, a análise sistematizada de Fernanda Furtado (2001), que, referindo-se aos instrumentos de captura de mais-valias fundiárias decorrentes de ações ou investimentos públicos, considera que “podemos distinguir entre el principio distributivo de las políticas de captura de plusvalías — para restabelecer un cierto grado de distribución — y una meta redistributiva de políticas de suelo urbano — para alterar un cierto estado de distribución”. Para essa autora, a redistribuição dos valores fundiários é apenas um dos vários objetivos que a política de desenvolvimento urbano pode almejar e “puede ser una guía para políticas distributivas más progresivas, pero no es necessariamente el principio básico de la captura de plusvalías”. E, ainda mais, a depender das condições de sua implementação (o que envolve, em sentido mais amplo, a interveniência dos diversos aspectos das políticas públicas nos processos que afetam o valor do solo urbano), ambos os preceitos — o princípio distributivo e a finalidade redistributiva — podem inverter-se e tornar-se regressivos, o que configuraria “un mecanismo antisocial que sólo exacerba el abismo ya existente entre ricos y pobres” (Furtado, op. cit., p. 97-104) De fato, a aplicação de instrumentos de recuperação da valorização imobiliária decorrente de decisões ou obras de responsabilidade do poder público, prevista no Estatuto da Cidade, tanto pode “distribuir” os incrementos de valor fundiário, com vistas a evitar o alargamento das desigualdades, quanto pode pretender “redistribuí-los”, com o objetivo de reduzí-las, por meio da destinação, aos setores sócio-econômicos mais deprimidos, das maiores parcelas da valorização ensejada. Para as finalidades deste trabalho, no sentido de que sejam verificadas as circunstâncias que permitiram a formação do consenso parlamentar, utilizaremos esses conceitos acrescidos da noção de que não apenas a “renda”, mas também o “poder” pode ser considerado menos ou mais distribuído162. Assim, procuraremos classificar as diretrizes e instrumentos previstos no Estatuto da Cidade em duas categorias, conforme sejam de caráter predominantemente “distributivo” — pois relacionados com a democratização de direitos e a universalização de condições básicas de acesso a bens e serviços urbanos, sob a responsabilidade direta, indireta ou compartilhada do poder público — ou de perfil 162 Governos mais centralizadores e tecnocráticos são aqui considerados um ambiente político de potencial menos “distributivo” que o de governos de perfil democrático e participativo. 120 potencialmente “redistributivo”, no sentido de que se possam destinar a capturar e redistribuir, com o objetivo de reduzir desigualdades sociais, parcelas de mais-valias fundiárias urbanas que, produzidas (ou proporcionadas) em decorrência de ações (ou decisões) públicas, tenham sido (ou possam vir a ser) injustamente apropriadas. No tocante às diretrizes gerais, salvo pelo combate à retenção especulativa de imóvel urbano, de cunho notoriamente redistributivo, as demais se orientam fundamentalmente pela idéia da distributividade dos direitos, bens e serviços urbanos. Já em relação aos instrumentos — sem considerar, nesse aspecto, o plano diretor, dado o seu caráter de obrigatoriedade e sua condição funcional de “chave”163 para abrir a própria “caixa de ferramentas” que caracteriza o Estatuto da Cidade —, os vários institutos mencionados poderão ser vistos como mais distributivos ou redistributivos, sem que se perca de vista, claro, que essas características ou potencialidades podem se efetivar em maior ou menor grau, ou mesmo inverterem-se, como comentamos, em decorrência das próprias circunstâncias de sua aplicação. Vinculados predominantemente à distributividade estariam, assim, instrumentos como a gestão democrática; os relacionados com procedimentos de regularização fundiária, como o usucapião e a concessão de uso especial para fins de moradia, a concessão de direito real de uso e as zonas especiais de interesse social; a contribuição de melhoria164; a transferência do direito de construir; o direito de superfície; e o estudo de impacto de vizinhança. Como de índole potencialmente redistributiva poderiam ser vistos o parcelamento, edificação ou utilização compulsórios; o IPTU progressivo no tempo; a desapropriação mediante pagamento em títulos da dívida pública; o direito de preempção; a outorga onerosa do direito de construir e de alteração de uso; as operações urbanas consorciadas; e o consórcio imobiliário. Pode-se perceber, em face do retrospecto da experimentação municipal pré e pós- Estatuto da Cidade165, que as ações distributivas têm tido melhor curso e maiores condições de aplicabilidade que as intervenções redistributivas. De fato, se já reunimos um conjunto expressivo de experiências relativas à gestão democrática e à regularização fundiária, por 163 A metáfora da “chave” como função do plano diretor, o autor ouviu de Raquel Rolnik. 164 Os exemplos de aplicação da contribuição de melhoria no Brasil, inclusive por força de dispositivos legais, estão mais relacionados com a recuperação dos custos dos investimentos públicos para socorrer fragilidades orçamentárias do que com a captura de valorizações fundiárias. Ver experiências realizadas no município do Guarujá, no Estado de São Paulo (Paulics, 2000, p. 31), ou em cidades do Estado do Paraná (conforme estudo de J. Goelzer e P. Saad apud Smolka e Amborski, 2001, p. 41). 165 Ver, entre outras publicações, Cymbalista e Rolnik, 1997; Maricato, 2000; Paulics, 2000; Rolnik, Saule Jr. et al., 2002; e Alfonsin, Fernandes et al., 2002. 121 exemplo, com resultados considerados importantes do ponto de vista de alguns preceitos da reforma urbana, são ainda escassos ou até inexistentes os registros de efetiva aplicação de instrumentos como o direito de preempção, a edificação compulsória ou a tributação166 progressiva no tempo (para não se falar na desapropriação-sanção, que, ante os prazos legalmente exigidos, ainda não teria sido aplicável). É verdade que alguns mecanismos de potencial redistributivo têm sido adotados, como as operações urbanas e a outorga onerosa do direito de construir e de alteração de uso, entre outros. No entanto, a não ser pela possível167 exceção de experiências como as dos leilões de solo criado em Porto Alegre (Barcellos e Uzon, 2002, p. 413-438), algumas das operações interligadas em São Paulo (Sandroni, 2001, p. 54) ou concessões de direito real de uso emBrasília (Abramo, 1998, p. 4-5), esse potencial tem sido desnaturado em favor dos empreendedores imobiliários. Nesses casos, em decorrência das franquias urbanísticas oferecidas, as administrações municipais muito mais têm propiciado aos particulares rendas fundiárias excedentes que capturado mais-valias em proveito público168. Desse modo, embora a aplicação dessas mesmas medidas possa se dar em contextos diferenciados e provocar efeitos distintos, parece razoável concordar com Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro quando esse pesquisador infere prospectivamente, em relação à aplicação do Estatuto da Cidade, que “as intervenções distributivas serão muito provavelmente apoiadas por todas as forças, já que, de um lado, os políticos vêem nelas um poderoso mecanismo de consolidação e ampliação de suas bases eleitorais e, por outro lado, não intervêm nos interesses econômicos e patrimoniais” (Ribeiro, 2003, p. 15). Entretanto, no que se refere aos instrumentos redistributivos, uma vez que “tocam na correlação de forças que em cada cidade transforma em poder corporativo os interesses constituídos em torno da acumulação urbana” (Ribeiro, op. cit., p. 15), as dificuldades para sua aplicação parecem notoriamente maiores. Talvez essas evidências ajudem a responder grande parte das indagações que motivam este trabalho, ou seja, permitam encontrar as principais razões que ensejaram a 166 Até mesmo o simples lançamento genérico do IPTU encontra imensas resistências políticas, culturais e patrimoniais para a sua aplicação. Ver, a esse respeito, Furtado, 1999. 167 Com efeitos urbanísticos e sociais aparentemente positivos (o que ainda carece de comprovação empírica), algumas dessas experiências consideradas bem sucedidas foram interrompidas por governantes sucessores, como ocorreu em São Paulo e Brasília, ou, como no caso de Porto Alegre, onde a continuidade é maior, sofrem críticas, ora pelo viés menos ético e mais pragmático de “reforço orçamentário” que teriam (com escassos resultados), ora por possíveis impactos negativos que estariam provocando no meio urbano. 168 Ver GT/OI-RJ, 1997, e Sandroni, 2001. 122 unanimidade parlamentar na aprovação do Estatuto da Cidade. É o que buscaremos fazer no capítulo 6. 6 – O CONTEÚDO EXPRESSO E O SIGNIFICADO NÃO EXPLÍCITO DO ESTATUTO DA CIDADE 123 6.1 Comparação da legislação urbana com a Emenda Popular da Reforma Urbana 6.1.1 Elementos formais e quantitativos À vista do longo caminho que a proposição da reforma urbana percorreu no Congresso Nacional, desde a promulgação constitucional até a aprovação do Estatuto da Cidade, podemos buscar respostas para a primeira das indagações motivadoras do presente trabalho: em que medida o ideário construído sob a forma de propostas legislativas no âmbito do MNRU alcançou efetivamente a condição de norma legal? Em 1988, ao final do processo constituinte, e a despeito do histórico capítulo então conquistado, os defensores da reforma urbana viram-se relativamente frustrados, pois, nas palavras de Raquel Rolnik (1997, p. 357), “o que emergiu do confronto de posições que ali ocorreu foi uma espécie de inclusão formal das demandas populares na lógica do regime urbanístico em vigor, reforçando o papel do Estado e imaginando uma cidade conduzida por planos diretores competentes”. Para a mesma autora, contudo, treze anos depois, a avaliação era outra: “O Estatuto da Cidade não só estabelece uma nova ordem urbanística, como também define que os princípios norteadores dessa nova ordem estejam relacionados com aqueles que, estoicamente, foram defendidos pelo Movimento Nacional pela Reforma Urbana. (...) O plano diretor deixa de ter uma concepção tecnocrática baseada na idéia de um modelo ideal de cidade e passa a ser pensado como uma espécie de pacto entre setores da sociedade e cidadãos” (Rolnik, 2003b). Buscando objetivar e confirmar essa migração de sentimentos — presente também em outras avaliações críticas, como, por exemplo, as de Grazia de Grazia (2002 e 2003) —, comparemos o conteúdo da Emenda Popular da Reforma Urbana, estuário propositivo para o qual convergiu toda a vertente normativa das lutas do MNRU, com a legislação urbana de âmbito federal atualmente em vigor no Brasil. Assim, ao verificar se as propostas constantes daquela Emenda Popular foram, mais cedo ou mais tarde, absorvidas pela Constituição Federal, pelo Estatuto da Cidade ou pela Medida Provisória n° 2.220, de 2001; ou, ainda, se estão presentes, de maneira esparsa, em alguma outra norma legal, poderemos afirmar se, nesse aspecto, o MNRU terá sido vitorioso em seus propósitos169. 169 O PL n° 2.710/91, que cria o Fundo Nacional de Moradia Popular, primeiro projeto de lei federal de iniciativa popular a tramitar no Congresso Nacional, com o apoio do MNRU, ainda não foi transformado em lei e, por isso, não foi incluído na avaliação. 124 Elaborado com base no texto levado pelo MNRU à Assembléia Nacional Constituinte em 1987, o quadro a seguir, que inclui destacadamente todas as proposições substantivas constantes da Emenda Popular, permite essa constatação: INCLUSÃO DAS PROPOSTAS LEGISLATIVAS DO MNRU EM NORMAS LEGAIS Proposição da Emenda Popular da Reforma Urbana CF 1988 Est.da Cidade MP 2.220 Outras leis 1. direito a condições de vida urbana digna e justiça social art.182, caput art.2°, I 2. direito à gestão democrática da cidade art.2°,II e arts. 43 a 45 arts.10 a 14 3. condicionamento do direito de propriedade ao interesse social e ao estado de necessidade arts.182 e 183 art.2° e vários outros arts.1° a 9° 4. direito universal de acesso às informações sobre a gestão pública art.5°, XXXIII art.40, §4°,I,II,III 5. proteção da casa de moradia contra desapropriação 6. desapropriação especial urbana mediante pagamento em títulos com resgate em 20 anos art.182, § 4°, III (resgate= 10anos) art.8° (resgate= 10anos) 7. limitação da indenização ao valor de incidência do IPTU Art.8°, §2°,I 8. imissão administrativa do poder público na posse de imóvel em desapropriação leg. fed. desaprop. (imissão judicial) 9. desapropriação pelo “valor histórico” para fins de regularização fundiária art.8°, §2°,I,II 10. recuperação de valorização imobiliária decorrente de investimentos públicos art.145, III art.2°, IX, e outros 11. iniciativa popular de leis art.29, XIII 12. veto popular de leis 13. aplicação judicial da Constituição na falta de norma regulamentadora art.5°, LXXI 14. responsabilidade do administrador público por omissão art.52 15. imposto imobiliário progressivo arts.156, §1°, e 182, §4° art. 7° 16. imposto sobre a valorização imobiliária art.153, III (IR) 17. direito de preferência arts. 25 a 27 125 18. desapropriação especial art.182, §4°,III art.8° 19. discriminação de terras públicas leg. patrimônio União 20. tombamento de imóveis art.216, §1° art.4°, V, d dec.-lei 25/1937 21. regime especial de proteção urbanística e ambiental art.225, III arts.2°, XII, 4°, V,e e VI legisl. ambiental 22. concessão de direito real de uso art.4°, V, g dec.-lei 271/1967 23. parcelamento e edificação compulsórios art.182, §4°, I arts.5° e 6° 24. proteção da habitação popular contra a tributação progressiva e a edificação compulsória 25. separação entre direito de propriedade e direito de construir art.182 art.4°,V, l,n,o e outros 26. combate à ociosidade do solo urbano art.182, § 4° art.2°,VI e arts. 5° a 8° 27. identificação e recuperação de terras públicas ediscriminação de terras devolutas leg. patrimônio União 28. usucapião especial para fins de moradia de imóveis particulares ou públicos art.183 (imóvel partic.) arts.9° a 14 (imóvel partic.) arts.1° a 9° (c.uso esp.imóv. público) 29. usucapião especial coletivo para fins de moradia art.10 (imóvel partic.) art.2° (c.uso im.públ.) 30. privilégio para as ações de usucapião art.11 31. regularização fundiária de áreas ocupadas por população de baixa renda art.2°, XIX, e art.4°, V, f e q arts. 1°a 9° 32. programas habitacionais para aquisição ou aluguel art.23, IX 33. fixação de limite máximo para os aluguéis iniciais 34. assessoria técnica para programas habitacionais art.4°, V,r 35. recursos orçamentários a fundo perdido para habitação popular leg. orç. e resp. fiscal 36. proibição da aplicação de recursos públicos ou administrados pelo poder público em empreendimentos habitacionais privados 37. proibição da intermediação financeira em programas de moradia popular 126 38. criação de uma agência de habitação legisl. CEF 39. controle social dos recursos aplicados em programas de habitação popular art.4°, III, f 40. não incidência de encargos financeiros nos investimentos em habitação popular 41. proibição do uso de moeda fiscal ou cambial em contratos habitacionais leg. pol. monetária 42. limite de 20% para o comprometimento da renda familiar 43. periodicidade mínima de doze meses para reajuste de aluguel leg. pol. monetária 44. prestação de serviços públicos vinculada, direta ou indiretamente, ao poder público art.175, caput 45. proibição de subsídios públicos a concessionários privados leg. de conces. *subsídio a usuário 46. limitação da tarifas de transporte urbano a 6% do salário mínimo mensal leg. s/ vale-transp. 47. fundo de transportes administrado por Estados e Municípios 48. autorização legislativa para reajuste de tarifas de serviços públicos art.175, § único, III 49. participação popular na elaboração e implantação de planos de uso e ocupação e de transportes art.40, §4° 50. aprovação dos planos pelo poder legislativo art.182, §1° art.40 Depreende-se da análise desse quadro que, no aspecto meramente quantitativo, nada menos que 84% das reivindicações legislativas constantes da Emenda Popular da Reforma Urbana encontram-se atendidas, parcial ou integralmente. De outra parte, se examinarmos o mérito do que foi contemplado e do que deixou de sê-lo, esse percentual tende a ser ainda mais expressivo. Senão vejamos. Das nove propostas não acolhidas, cinco voltam-se mais especificamente para a política habitacional e, portanto, à parte o debate sobre sua aplicabilidade, não estariam apropriadamente dispostas nem no texto constitucional nem no Estatuto da Cidade, lei de diretrizes gerais da política urbana. Disposições como as que pretendiam fixar um limite inicial máximo para aluguéis; proibir a aplicação de recursos públicos ou sob gestão pública em empreendimentos habitacionais privados; vedar a 127 intermediação bancária e a incidência de encargos financeiros em programas de moradia popular; bem como limitar a 20% o comprometimento da renda familiar nos financiamentos habitacionais dizem respeito estritamente a planos e programas habitacionais e, se acolhidas, deverão constar de legislação específica. No mesmo sentido, alguns institutos, como a criação de um fundo orçamentário de transportes urbanos ou regionais, se dispostos em norma federal, não se coadunariam com a municipalização desse serviço nem com estadualização da questão metropolitana, ambas determinadas pela Constituição. A rigor, apenas as três restantes poderiam, de fato, estar na legislação já aprovada; e não estão. Duas se referem à proteção da moradia popular contra os instrumentos da edificação compulsória, da tributação progressiva e da desapropriação especial e, outra, ao instituto político do veto popular de leis. Assim, se excluirmos aquelas vinculadas exclusivamente à política habitacional, cujo projeto de lei de iniciativa popular ainda não foi votado, e limitarmos as cinqüenta proposições da Emenda Popular da Reforma Urbana às 44 que guardam efetiva pertinência com a abrangência normativa da Constituição ou do Estatuto da Cidade, vamos verificar que o índice de acolhimento seria elevado para mais de 93% do conteúdo da histórica Emenda. 6.1.2 Conteúdo crítico Se, em termos formais e quantitativos, é elevado o grau de absorção legislativa dos princípios da reforma urbana, no tocante ao seu conteúdo crítico, o êxito é notoriamente maior. Para Adauto Lucio Cardoso, a proposta legislativa do MNRU, consubstanciada na Emenda Popular da Reforma Urbana, fundamentava-se nos seguintes princípios: “Estado fica obrigado a assegurar os direitos urbanos a todos os cidadãos: este é o princípio fundamental que caracteriza a emenda. Uma série de novos direitos são definidos para garantir o acesso à moradia, infra-estrutura e serviços urbanos, todos subordinados ao direito a condições de vida urbana digna e justiça social, ao qual ficaria submetido, inclusive, o direito de propriedade. Submissão da propriedade à sua função social: o objetivo principal dessa formulação é estabelecer limites à hegemonia do direito de propriedade privado do solo urbano. Parte do princípio de que o exercício desse instituto é um dos principais causadores dos mecanismos geradores de desigualdades sociais na produção e estruturação do espaço urbano. Pressupõe, portanto, o estabelecimento de instrumentos que fortaleçam a regulação pública do uso do solo, de modo que a prática privada e pública daquele direito não prejudique o interesse coletivo. Direito à cidade: este princípio almeja um modelo mais igualitário de vida urbana dentro de uma visão de cidade como produto histórico e fruto do trabalho coletivo. Pressupõe a adoção de uma política redistributiva que inverta prioridades relativas aos investimentos públicos e se traduz na garantia de acesso de toda a população aos benefícios da urbanização. 128 Gestão democrática da cidade: significando aqui a ampliação do direito de cidadania através da institucionalização da participação direta da sociedade nos processos de gestão, como forma complementar à democracia representativa. A concretização deste princípio se traduziria na proposição de leis e nos processos de elaboração e implantação de políticas urbanas, dando ênfase à representação das entidades comunitárias” (Cardoso, 2003, p. 30). Esses princípios estão integralmente absorvidos pela Constituição de 1988 e pelo Estatuto da Cidade, naquilo que, referindo-se à tradição civilista e individualista dada ao direto de propriedade no Brasil, Edésio Fernandes (2002a, p. 9) considerou “uma mudança do paradigma conceitual de reconhecimento e interpretação desse direito”. As próprias lideranças do MNRU confirmam a constatação de que os princípios que vêm norteando as propostas legislativas do Movimento foram incluídos em nosso ordenamento legal. Espelhando, de forma não deliberada, mas notoriamente coincidente, a citada síntese de Adauto Cardoso quanto ao conteúdo da Emenda Popular, Grazia de Grazia reconhece que o Estatuto da Cidade: “É uma lei que assegura os direitos urbanos quando garante o direito às cidades sustentáveis, à terra urbana, à moradia, ao saneamento básico, à infra-estrutura, ao transporte, aos serviços públicos, ao trabalho e ao lazer, para as presentes e futuras gerações. “Reafirma a função social da propriedadena qual assegura o direito à propriedade urbana desde que seja cumprida sua função social e dá o papel ao município de adequar o equilíbrio entre os interesses coletivos e individuais no que tange à propriedade, podendo penalizar os proprietários de imóveis que não cumprirem a função social. Institui a gestão democrática da cidade, desde a formulação, na execução do planejamento e políticas públicas, resgatando os instrumentos dispostos na Constituição e acrescentando as conferências sobre assuntos de interesse urbano [e] a articulação da gestão orçamentária participativa com o planejamento urbano (...). Reafirma e define a recuperação, para a coletividade, da valorização imobiliária decorrente de investimentos do Poder Público e assegura a justa distribuição dos ônus e benefícios do processo de urbanização (grifos nossos)” (Grazia, 2003, p. 68). Desse modo, se o acolhimento da Emenda Popular da Reforma Urbana, em termos literais e a depender da referência adotada, pode oscilar entre 84 e 93% de suas proposições, no campo qualitativo é razoável afirmar que seus princípios e seu conteúdo crítico foram integralmente incorporados à nova ordem jurídico-urbanística brasileira, o que responde à primeira questão suscitada neste trabalho. Na verdade, ainda que tardiamente, o Estatuto da Cidade170, mais do que abrigar os preceitos da reforma urbana que integraram a Emenda Popular, excedeu-os. Quando agregaram diretrizes e instrumentos concernentes à sustentabilidade ambiental; instituíram múltiplos mecanismos de regularização fundiária, como as ZEIS ou mesmo a transferência do direito de construir; estabeleceram instrumentos como o direito de superfície, a outorga 170 Acrescido da Medida Provisória n° 2.220, de 2001. 129 onerosa do direito de construir, as operações urbanas consorciadas e o consórcio imobiliário, potencialmente úteis aos propósitos da reforma urbana; ou municiaram o Ministério Público para promover a defesa do ordenamento urbanístico como direito coletivo, as normas que hoje consubstanciam o direito urbanístico foram adiante, inovadoramente e no mesmo sentido, do que continha a Emenda Popular da Reforma Urbana. Essa constatação, contudo, nos induz a questionar as razões que teriam levado o empresariado urbano, que a princípio, como verificamos, reagira drasticamente contra as proposições da reforma urbana, desde suas iniciativas mais remotas, a aprovar e apoiar, por unanimidade, instrumentos legais que alegadamente se destinavam a confrontar seus interesses. A tentativa de encontrar respostas para esse campo de indagações poderá iluminar os caminhos que a implementação desse novo paradigma jurídico-urbanístico poderá trilhar. 6.2 Os dois lados da mesma moeda 6.2.1 O consenso aparente A maior parcela da responsabilidade, ou do mérito, a depender do ponto de vista, pela circunstância da aprovação unânime do Estatuto da Cidade pode ser atribuída aos efeitos do longo tempo, doze anos, decorrido entre a formulação e a aprovação da nova lei. Como vimos, boa parte dos instrumentos incluídos no Estatuto já vinha sendo posta em prática pelos municípios anteriormente à aprovação da norma federal, com resultados considerados estimulantes pelo capital imobiliário; o que constituiu, sem dúvida, importante fator de diminuição do grau de restrições que esse segmento econômico fazia ao projeto. O sentimento de assimilação, por assim dizer, nas várias acepções da palavra, pode ser depreendido da avaliação, feita pelo empresariado, das parcerias implementadas em São Paulo naquele período: “Acho que foram úteis, não só para o mercado como para a população, porque nas operações interligadas, por exemplo, você paga um preço que é revertido em construção para a população de baixa renda. Acho que é benéfico para a cidade, na medida em que você pode usufruir daquela condição de fazer melhores edifícios em melhores locais e, ao mesmo tempo, beneficia também a população mais carente com a utilização desses recursos pelas prefeituras para essa finalidade” (Amadei, 2003). Assim, o que em certo momento parecia uma ameaça ao setor empresarial passou a ser gradativamente percebido, e aproveitado, como oportunidade de mercado. 130 Entretanto, o tempo decorrido entre a apresentação e a aprovação da lei modificou a posição do empresariado não apenas pela percepção de oportunidades de negócios. Nesse período, as transformações históricas por que tem passado o mundo refletiram-se com algumas peculiaridades no Brasil e influenciaram a maneira pela qual nossas principais cidades passaram a ser observadas e compreendidas. Como lembrou coloquialmente numa entrevista o eminente professor Milton Santos171, “a cidade não é de responsabilidade exclusiva da prefeitura. Cidades como São Paulo, Rio, Salvador ou Belo Horizonte têm caráter nacional. A maneira como o país se organiza, se move e se relaciona com o mundo tem reflexos em cada uma dessas cidades”. Em nosso país, a década de 1980, que, não por acaso, testemunhou a derrocada do regime militar que tomara o poder em 1964, ficou conhecida nos textos de economia como a “década perdida”, em razão dos baixos índices de crescimento da economia nacional. Passavam a ser mais intensamente sentidos aqui os efeitos mundialmente provocados pela decadência do desenvolvimentismo industrial, o denominado fordismo, baseado em Estados nacionais intervencionistas e em políticas públicas de estímulo e proteção do investimento industrial privado, fortemente territorializado e marcado por desigualdades sociais, intrínsecas ao modo de produção capitalista172. A crise fiscal daí decorrente, aliada à reestruturação produtiva da economia, baseada nos fluxos financeiros globais e na prestação especializada de serviços, reduziu o poder dos governos centrais dos Estados nacionais e pôs abaixo jurisdições territoriais, mas agravou as fronteiras sociais, agora marcadas não mais apenas pela desigualdade, mas pela completa exclusão de vastos segmentos populacionais da nova ordem econômica. “As inquietações e as soluções advindas da reestruturação produtiva e da globalização alteraram as funcionalidades das cidades e redefiniram os problemas sociais urbanos” (Abramo, 2001, p. 7). Lugar da utopia característica da modernidade, onde a racionalidade planificada do urbanismo seria capaz de promover uma generosa conciliação de interesses potencialmente conflitantes, as cidades passaram a representar, na pós- modernidade, o espaço em que as formas de organização da produção são redefinidas, assim 171 Jornal do Brasil, 14/3/1999. Filósofo da geografia, como o qualificou seu colega Aziz Ab’Saber, o professor Milton Santos publicou mais de quarenta livros, quase todos sobre a questão urbana, com destaque para o clássico A urbanização desigual (Petrópolis: Vozes, 1979), e recebeu vinte títulos honoris causa, de vários países. Faleceu, aos 75 anos, exatos dezesseis dias antes da sanção do Estatuto da Cidade. 172 Ver, entre muitos outros autores, Harvey, 2000, p. 121-134. A respeito da vasta bibliografia produzida sobre o impacto da globalização na problemática urbana, Ermínia Maricato (2000, p. 130) sugere consulta às teses de doutoramento de João Whitaker, na FAU/USP. 131 como são postos em novas bases os mecanismos institucionais pelos quais passa a se dar o relacionamento entre a administração pública e os agentes privados. No Brasil, como em muitos outros países periféricos ou semiperiféricos173, esse novo papel funcional da cidade encontrou um poder público cada vez menos “poder” e menos “público”, uma vez que, carente de recursos em face daerosão de sua capacidade de investimento174, a qual, por sua vez, decorreu da crise fiscal trazida pela nova ordem, foi posto, ou pôs-se, crescentemente à mercê de corporações privadas, nacionais e internacionais, interessadas em novas formas de expansão do capital175. Essa verdadeira comunhão da “fome com a vontade de comer” tem dado ensejo a múltiplos formatos das chamadas parcerias público-privadas176, cuja efetivação depende, em grande medida, de instrumentos legais da natureza dos que acabaram presentes na lei federal de política urbana. A bem da verdade, o projeto do Estatuto da Cidade, que obviamente não nascera influenciado pelos paradigmas neoliberais do Estado mínimo, da desregulamentação e da privatização — adotados no “Consenso de Washington”177, seu contemporâneo —, também não se fundamentava nas críticas ao planejamento regulatório estatal, que o ideário da reforma urbana havia consolidado. Ainda que permeado por processos participativos e repleto de instrumentos destinados a assegurar efetividade à função social da propriedade, o projeto original do Estatuto da Cidade, assim como ocorrera com o próprio capítulo constitucional da 173 Para Ermínia Maricato (2000, p. 162), com base no conceito de Giovanni Arrighi (A ilusão do desenvolvimento. Petrópolis: Vozes, 1997), nesses países, “a reestruturação produtiva impacta uma base socioeconômica [já] excludente”. 174 A par de reduzida pela crise fiscal, a capacidade remanescente de investimentos públicos mantém-se predominantemente voltada para a realização de obras viárias e de infra-estrutura, o que, embora considerado insuficiente pelo capital privado (que considera sempre elevado o que costuma denominar “custo Brasil”), agrava imensamente a carência de investimentos públicos em setores socialmente estratégicos, como habitação popular, saneamento e educação. 175 Como, em outros termos, já ocorrera em nossa fase pré-industrial, de finais do século XIX a inícios do século XX, quando grande parte da infra-estrutura nacional — portos e ferrovias, assim como os serviços urbanos (e até loteamentos) necessários à expansão capitalista — foi implantada por meio de concessões à iniciativa privada, promovidas por um Estado de escassa base fiscal (ver o exemplo de São Paulo em Rolnik, 1997, p. 147-149). 176 Essas parcerias podem ser promovidas não apenas entre Estado e empresas privadas, mas também entre o poder público e o chamado “terceiro setor”, formado por organizações não governamentais nem empresariais, as ONGs. Exemplos das primeiras são as concessões de serviços e obras públicas ou as operações urbanas consorciadas; como exemplos das segundas, considerados processos de “gestão pública não estatal”, podem ser citados os mutirões autogeridos para a produção de habitações populares em São Paulo (SP) e o premiado trabalho da ONG Cearah Periferia, em Fortaleza (CE), entre muitos outros (com relação a programas de moradia popular em parcerias público-privadas, ver Bonduki, 1996, p. 180-194 e 261-267). 177 O “Consenso de Washington” resultou de uma reunião ocorrida na capital norte-americana, em 1989, mesmo ano da apresentação do projeto do Estatuto da Cidade, na qual representantes das organizações financeiras internacionais e de países ditos “emergentes” acordaram uma receita de política econômica a ser indistintamente adotada nesses países. Esse modelo baseava-se em princípios como disciplina fiscal, liberalização financeira, comercial e cambial, desregulamentação da atividade econômica, estímulo ao investimento estrangeiro, proteção da propriedade intelectual (softwares etc.). 132 política urbana, estava ainda impregnado da crença na força planificadora do Estado, cujo papel de protagonismo econômico o poder político recém-redemocratizado parecia pretender restaurar178. Desse modo, a inclusão do plano diretor no texto constitucional não apenas significou o adiamento da aplicabilidade normativa da função social da propriedade nas cidades, como podiam almejar naquele momento as forças conservadoras (as quais, também por isso, mas não exclusivamente, a apoiaram), mas igualmente desvelou uma renovada profissão de fé nos preceitos “fetichistas”179 da razão planificadora. Tornou-se, assim, uma espécie de “canto do cisne” do urbanismo racional-funcionalista, que, afinal, como já comentamos, e sem menosprezo a seus propósitos humanistas, menos servira ao interesse público que se prestara a ser útil aos movimentos do capital privado. Daí a apropriação diferenciada desse preceito constitucional pelas forças que se confrontaram nas votações. De um lado, o MNRU — surpreendido pela vinculação da função social da propriedade ao plano diretor e vacinado contra as quimeras prometidas pelo planejamento tecnocrático — dirigia seus esforços para a democratização dos processos de elaboração e implementação desse plano nos municípios. De outro180, o empresariado urbano buscava oportunidades de investimento e acumulação que pudessem decorrer do mesmo processo democrático; o qual, aliás, poderia vantajosamente legitimar seus benefícios perante a opinião pública, agora mais atenta e ressonante na democracia reconquistada. Não é casual, portanto, nem deve causar estranheza, que o documento encaminhado pelo Secovi-SP (1999) à Comissão de Desenvolvimento Urbano e Interior (CDUI) da Câmara dos Deputados, por ocasião do debate ali promovido pelo relator do projeto ainda pendente de votação, incluísse propostas como a do “orçamento participativo”, em relação ao qual o empresariado afirmava que “não se admite mais, especialmente em assuntos que digam respeito à sociedade como um todo, a exclusão da participação dos cidadãos”. O mesmo documento defendia que as operações urbanas consorciadas fossem geridas de forma compartilhada “com representação da sociedade civil”, pois essa participação “se faz 178 Vários artigos da Constituição de 1988, sobre temas diversos, fazem menção a planos e programas de natureza estatal. 179 Ver Maricato, 2001, p. 133. 180 Essa polarização entre a apropriação dos planos diretores como instrumento de reforma urbana, fundada na participação popular e na efetividade da função social da propriedade, e sua contra-parte, a dos planos estratégicos, centrados no empresariamento urbano, cujo conceito de participação é preenchido apenas pelos “atores relevantes”, foi abordada no capítulo 2. Nesse último caso, em contradição com a própria expressão “estratégico”, a idéia de um planejamento universalista, de amplo alcance social, passa a ser substituída pela efetivação de “projetos”, de um urbanismo de resultados, quase sempre orientado pelo interesse de empreendedores. Ver, a respeito, entre outras obras, Vainer, 2000. 133 absolutamente necessária para garantir a observância adequada do plano de operação urbana consorciada”. Ambas as propostas, que, por sinal, coincidiam com as proposições do MNRU, foram incorporadas ao texto. Ao observar que “essa troca de mãos das bandeiras democráticas é outra novidade trazida pelos novos tempos”, Ermínia Maricato menciona como exemplos, não apenas o conteúdo da Agenda Habitat, de 1996, cujo texto em defesa do direito universal à cidade e contrário à exclusão social urbana foi assinado por todos os países presentes em Istambul, “os que respeitam e os que não respeitam os direitos humanos”, mas também um documento interno da Organização de Cooperação para o Desenvolvimento Econômico (OCDE), que congrega os 23 países mais ricos do mundo, no qual se afirma: “a participação, a democratização,a boa gestão pública e o respeito aos direitos humanos favorecem um desenvolvimento durável” (Maricato, 2000, p. 131-132). Os mesmos argumentos, nesse caso mais expressamente vinculados à noção de cidade como um produto a ser oferecido no ambiente da competição global, e considerando ser essa a condição para o exercício de suas funções sociais, são utilizados pela gestora do Programa de Desenvolvimento Urbano para a América Latina do Banco Mundial, Mila Freire: “Num mundo cada vez mais competitivo e complexo, as cidades têm que, ao mesmo tempo, atrair negócios, como uma maneira de gerar empregos e renda, oferecer um bom nível de vida a seus habitantes e gerar recursos suficientes para financiar as necessidades sociais e de infra- estrutura e cuidar de sua população carente” (Freire, M., 2001, p. 5). Embora o nexo direto entre expansão econômica e combate à pobreza seja convincentemente desmistificado por muitos críticos do neoliberalismo181, o fato é que a perda de competitividade das cidades brasileiras no âmbito da economia globalizada, determinada pelas chamadas deseconomias urbanas e pela degradação social e ambiental, trouxe o tema da reforma urbana para o contexto das preocupações dos setores dominantes do capitalismo no Brasil. Numa pesquisa recente182, destinada a subsidiar decisões de investimentos e de compensações salariais para executivos de multinacionais, feita por uma empresa de consultoria norte-americana com o objetivo de avaliar a qualidade de vida em 215 cidades do mundo, nenhuma cidade brasileira ficou acima da 102ª posição (Brasília). Sopesados nada 181 Veja-se, por exemplo, recomendação que o senador Cristovam Buarque (PT-DF) faz a sua própria legenda política: “É hora de nosso partido abandonar a crença antiga de que a redução na taxa de juros leva o mercado a dinamizar a economia, esta dinâmica cria empregos e estes beneficiam os pobres. O que faz falta é um discurso revolucionário na defesa de objetivos claros de políticas sociais diretamente dirigidas à abolição da pobreza no Brasil” (Buarque, 2004). 182 Revista Veja, 10/3/2004, p. 72-73. 134 menos que 39 itens, entre os quais segurança, sistemas de saúde, saneamento ambiental, educação e transportes, nossas cidades são consideradas de pior qualidade de vida que Montevidéu (76ª), Buenos Aires (78ª) ou Santiago do Chile (80ª), apenas para ficar com exemplos vizinhos, sujeitos a determinismos históricos assemelhados. O aspecto mais relevante para o mau desempenho do Brasil na pesquisa é a violência urbana, que nas últimas décadas vem crescendo dramaticamente, à medida que também se eleva a disparidade na distribuição da renda nacional183. Também por essa explícita razão, empresários da Alemanha, por exemplo, que têm ou pretendem fazer investimentos no Brasil afirmam temer aumentá-los ou promovê-los. Nas palavras de um deputado federal daquele país, ligado ao empresariado, “há um receio em colocar mais dinheiro em um país onde uma tragédia pode acontecer no percurso aeroporto-hotel”184. Essa percepção do empresariado com relação à problemática urbana, que passou a ver na deterioração das condições de vida nas grandes metrópoles fatores de risco mercadológico, conquanto seja notoriamente distinta da formulação crítica produzida no âmbito do MNRU, ajuda a explicar a mudança das posições do “poder corporativo” no tocante ao conteúdo do Estatuto da Cidade e a formação de consensos entre os dois campos. Para Raquel Rolnik (2003b), “a situação urbana ficou muito ruim, se degradou demais (...). Em São Paulo, você percebe que os empresários tomaram consciência de que o modelo não deu certo e se vê uma certa abertura para se pensar em modelos alternativos”. A síntese dessa posição conciliadora, pelo ponto de vista do empresariado, talvez possa ser expressa pelas palavras com que o senador Romeu Tuma, do PFL de São Paulo, saudou a aprovação da nova lei: “Mesmo defendendo uma visão liberal da atividade econômica, não podemos desatrelá-la de uma perspectiva socialmente justa. Assim como defendo a liberdade de empreender e de lucrar com o empreendimento, defendo que tal liberdade não pode ser usufruída em detrimento da comunidade” (Tuma, 2001). Deve-se reconhecer que formulações dessa natureza contêm preceitos distributivos e universalistas, de ampla aceitação (embora também capazes de servir a múltiplos interesses). Num aforismo falacioso, todos querem um mundo melhor para todos. Porém, os que estão mais confortavelmente instalados tendem a ser menos tocados por princípios éticos de 183 Vários estudos demonstram que a violência urbana está menos associada à circunstância de um país ser menos ou mais pobre do que à desigualdade na distribuição da renda nacional (ver depoimentos à CDUI da Câmara dos Deputados, reunidos pela Comissão em publicação avulsa). Ainda a esse respeito, em palestras e publicações, o ex-presidente do IPEA (1999-2002), Roberto Borges Martins, ao comentar o fato de a distribuição da renda no Brasil ser a 3ª mais concentrada do mundo, costumava afirmar e demonstrar que “o Brasil não é um país pobre, mas um país que tem muitos pobres”. 184 “Preocupação dos alemães”, Correio Braziliense, 28/10/2003, p. 4. 135 combate às causas das desigualdades do que por motivações mais pragmáticas de mitigação de seus efeitos. Ao produzir uma reportagem sobre o apoio que a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva, líder sindical ligado a causas esquerdistas, obteve na alta sociedade paulistana na eleição de 2002 para presidente da República, o jornal Folha de São Paulo encontrou nessa elite não o constrangimento ético para com a iniqüidade nacional, mas tão-somente o ânimo de que o novo governo combatesse o desemprego e a violência urbana, no sentido de reconquistarem, como alguns definiram, “o direito de ser rico”185. Nesse ambiente, não é difícil compreender a convergência de opiniões, ainda que fundadas em análises e propósitos diferenciados, entre o empresariado e o MNRU. A idéia de um direito universal à cidade, que compreenda o acesso de todos a bens e serviços urbanos essenciais à dignidade humana, deixa de ser apenas uma causa impregnada dos princípios ideológicos ditos socializantes, ou até “comunistas”, como se apregoara nas décadas de 1970 e 80, para assumir, do ponto de vista oposto, a condição minimamente necessária à reprodução do capital. Nos primórdios da tramitação do Estatuto da Cidade, a reação conservadora, dentro e fora do Congresso Nacional, conseguiu protelar as deliberações por nada menos que sete anos. O somatório das forças sociais e políticas que representavam a proposta da reforma urbana não parecia suficiente sequer para obter acordos considerados razoáveis. Com o passar do tempo, em síntese, os experimentos municipais que ocorriam em paralelo e estimulavam a iniciativa privada; a percepção, pelo empresariado urbano, das desvantagens competitivas que decorriam do processo de deterioração das condições de vida urbana; e o sentimento de fragilidade que, em face da agudização da violência186, passou a assomar aos olhos das elites nas grandes cidades, entre outros fatores, propiciaram circunstâncias políticas que resultaram na aprovação unânime do projeto e, posteriormente, na sanção presidencial187. Vale ainda lembrar, pelo papel politicamente importante que teve, a coincidência do período das votações finais com a participação do Brasil nas sessões extraordinárias da ONU, 185 “Golden Lula conquista high society: petista é visto como mediador entre Brasil que endinheirados conhecem e país que eles temem”, Folha de São Paulo, 1°/12/2002,p. A18. 186 A despeito dessa noção de fragilidade que tem levado até ao encastelamento dos segmentos mais afluentes nas cidades brasileiras, as maiores vítimas da violência urbana são as populações pobres. Contra aqueles, incidem majoritariamente os crimes de natureza patrimonial; em relação a essas, predominam os crimes contra a vida (ver, em Maricato, 2000, p. 164, referência a pesquisas realizadas no Núcleo de Estudos da Violência da USP; ver também o Mapa da Violência, publicado periodicamente pela Unesco desde 1996). 187 Suspeita-se, sem que se possa, nesse caso, comprovar a hipótese, que a circunstância da impopularidade do governo de então nos grandes centros urbanos e a proximidade da eleição presidencial de 2002 também operaram no sentido de favorecer o acatamento da nova lei. 136 em Nova York, conhecidas como Istambul+5, destinadas a avaliar o comportamento dos países membros em relação à implementação da Agenda Habitat. Segundo Eduardo Graeff, referindo-se às dificuldades surgidas para a sanção do projeto, “uma circunstância favorável foi a preparação para a participação do Brasil na Conferência do Habitat”188. Por sua parte, também o MNRU cedeu e abdicou de algumas das propostas que advogava (conforme Grazia, 2003, p. 61). O projeto original do Estatuto da Cidade tornou-se menos conceitual e programático (ou, em outros termos, menos “ideológico”) para transformar-se numa lei de caráter mais instrumental. Na verdade, porém, como demonstramos na comparação com o conteúdo da Emenda Popular, não houve perda expressiva em relação às propostas levadas pelo MNRU ao Congresso Nacional. Suas apostas estavam concentradas na construção de um marco legal que desse construtura e aplicabilidade ao princípio da função social da propriedade e, simultaneamente, assegurasse mecanismos democráticos e de controle social para o planejamento urbano e a gestão das cidades. Nesse sentido, o de transformar suas principais bandeiras em lei, o MNRU saiu-se plenamente vitorioso. Entretanto, em que pese o consenso obtido, vários fatores sugerem que sobre o objeto do acordo e da unanimidade, qual seja, o próprio texto final do Estatuto da Cidade, incidem olhares diferenciados. E mais uma vez, em outro aparente (mas apenas aparente) paradoxo, essas diferenças se expressam de modo similar. Com palavras semelhantes, os dois pólos parecem pretender dizer coisas distintas. Para Raquel Rolnik, uma das formuladoras do ideário da reforma urbana: “É a partir das definições que forem adotadas pelos planos e leis locais que os instrumentos disponibilizados pelo Estatuto ganharão concretude. Assim, o caráter excludente ou includente da política urbana, o perfil mais ou menos redistributivo da renda e das oportunidades urbanísticas dependerá da forma como as cidades utilizarem estes novos instrumentos” (Rolnik, 2001). Na opinião semelhante de Romeu Chap Chap, líder empresarial da construção civil e presidente do Secovi-SP: “Embora importante, essa lei não é a solução para os problemas sociais urbanos. Pode ser uma ferramenta de auxílio, porém vai depender em muito do formato final da aplicação dos conceitos ali trazidos pela legislação municipal de cada cidade” (Chap Chap, 2001, p. 42). A moeda é una, mas tem dois lados. 188 Graeff (2003, p. 2) destaca, na preparação do documento brasileiro, a participação da professora Regina Meyer, da FAU/USP, que teria defendido a sanção do Estatuto do Cidade, inclusive em telefonema pessoal ao presidente da República. 137 6.2.2 O conflito latente Deve-se, de plano, registrar que há, no texto aprovado, de fato e não apenas no discurso, vários pontos de convergência entre o MNRU e o empresariado. A regularização fundiária e urbanística de áreas ocupadas ilegalmente por populações de baixa renda, por exemplo, obteve amplo apoio em tese e na prática — a despeito das recorrentes resistências ao usucapião e à concessão de uso especial em áreas públicas, esta última finalmente aprovada. Seja porque, em face da realidade189 nas grandes cidades, seria hoje absolutamente descabida a polêmica suscitada nos anos 1960 sobre a remoção ou fixação de favelas, seja porque autores liberais como o economista peruano Hernando De Soto (2000) têm feito a apologia da incorporação ao mercado190 do “capital morto” representado pelas moradias informais como fator de combate à pobreza, seja ainda porque legalizar a informalidade “significa a integração dessas populações ao espaço urbano, aumentando sua qualidade de vida e resgatando sua cidadania” (Rolnik, Saule et al., 2002, p. 153), programas com esse objetivo têm sido crescentemente implementados191. Como a legislação até então vigente (Lei n° 6.766, de 1979, modificada pela Lei n° 9.785, de 1999) era incapaz de municiar adequadamente as propostas de regularização dessas áreas, o Estatuto da Cidade incorporou vários mecanismos, como a possibilidade de aplicação coletiva dos instrumentos legais e a prestação de assistência técnica e jurídica gratuita às comunidades, que tendem a dar melhor curso a essas iniciativas. Há também identidades entre os dois campos de opinião no tocante aos mecanismos de controle da sociedade civil sobre as decisões do aparelho de Estado. Essa convergência aproximou as posições e tem logrado a efetiva e crescente implementação desse aspecto da reforma urbana. Tanto, por um dos lados, a expectativa de institucionalizar práticas participativas, que já se vinham experimentando em algumas cidades administradas por governos de perfil popular, quanto, pelo outro, as propostas de empresariamento urbano no âmbito da economia globalizada, que impunham critérios de governança, “aqui entendida como busca de eficiência, eqüidade, transparência e accountability no exercício do poder 189 Segundo Smolka (2003, p. 262), com base em estudos por ele citados, no Rio de Janeiro, 39,47% dos domicílios seriam irregulares; em São Paulo, 66%; em Recife, 80%; em Salvador, 70%; e, em Curitiba, 50% da população viveria em situações de violação dos códigos urbanísticos. 190 Ver consistente crítica de Edésio Fernandes (2001, p. 4-5) a esses argumentos. 191 Ver banco de experiências no sítio da internet (www.cidades.gov.br) do Ministério das Cidades. A respeito dos programas de regularização fundiária na América Latina, é importante o alerta de Martim Smolka para o risco de realimentação da informalidade se não forem paralelamente enfrentados os fatores que levam à elevação dos preços do solo urbano provido de infra-estrutura (Smolka, 2003, p. 255-291). 138 público” (Fernandes, M., 1999, p. 80), foram atendidas pelos preceitos de gestão democrática incorporados ao Estatuto da Cidade. Embora tais preceitos sejam, também neste caso, distintamente apropriados pelas divergentes correntes de opinião que os aprovaram, não se pode negar a multiplicação, que ocorre Brasil afora, de debates, audiências públicas, conselhos, conferências e outros instrumentos192 de natureza democrática. Estão igualmente presentes, em ambos os pólos do debate, princípios de defesa da sustentabilidade ambiental, adotada na nova lei como inerente ao próprio direito à cidade. Assim como o segmento empresarial tem superado seu característico ranço crítico nesse campo e crescentemente assimilado a responsabilidade ambiental em suas atividades193, o movimento popular pela moradia também tem deixado gradativamente de ver a preservação do meio ambiente como um discurso conservador e reacionário, necessariamente contrário aos seus interesses. Exemplo disso é a própria Plataforma Nacional pelo Direito à Cidade, que