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Conteudista: Prof.ª Esp. Keila Tamarindo Santos Roque Revisão Textual: Me. Luciano Vieira Francisco Objetivos da Unidade: Conhecer os principais elementos que compõem a construção do caso clínico; Adquirir conhecimento acerca de técnicas e intervenções do manejo clínico; Analisar o discurso e o articular com a observação dos comportamentos humanos na investigação da psicopatologia; Auferir compreensão acerca da relação entre paciente e analista; Desenvolver a capacidade de analisar os desafios da Psicanálise no contexto da Contemporaneidade. 📄 Contextualização 📄 Material Teórico Tratamento das Psicopatologias no Setting Psicanalítico 📄 Material Complementar 📄 Referências Ao estudar esta Disciplina, você perceberá que os conhecimentos aqui obtidos lhe ajudarão a conhecer os principais elementos que compõem a construção do caso clínico, assim como trarão noções acerca de técnicas e intervenções utilizadas no manejo clínico. Ademais, lhe capacitarão a compreender a relação entre paciente e analista, considerando os desafios enfrentados no setting terapêutico, bem como os próprios enfretamentos da Psicanálise no contexto contemporâneo. Página 1 de 4 📄 Contextualização Introdução As enfermidades mentais, emocionais e psicológicas têm se tornado cada vez mais crescentes, de modo que o sofrimento humano tem apresentado múltiplas faces no setting psicanalítico. Buscando compreender as mais diversas formas de manifestações sintomáticas, a clínica psicanalítica se propõe a investigar as origens do sintoma, considerando a singularidade do paciente, assim como o contexto no qual está inserido. O setting analítico é o lugar onde o paciente pode expressar seu sofrimento livremente, entretanto, o espaço precisa proporcionar condições para que ocorra a expressão dos conteúdos, de modo que o paciente se sinta acolhido a ponto de revelar os seus sentimentos, as suas dores e angústias. Para tanto, muitas vezes é necessário adaptar o setting de acordo com as demandas emergentes no trabalho analítico concernente ao tratamento de cada paciente. Atender às demandas provenientes do adoecimento psíquico só é possível mediante ao entendimento que se constrói acerca do caso que se apresenta. Assim, é essencial que o analista tenha noções dos elementos que compõem a construção de um caso clínico e que aplique os critérios a fim de elaborar hipóteses diagnósticas que darão respaldo para técnicas e intervenções aplicadas durante o tratamento. Nesse processo é de suma importância que se destaque a relação entre paciente e analista, assim como as atribuições de cada um, de acordo com o papel que cada qual ocupa. Ao analisando cabe, não somente, mas também, a associação livre, o falar de suas dores, angústias, a expressão de seus conteúdos. Ao analista se reserva a escuta flutuante, essencial e que em determinado momento da sessão, sem tempo prévio, passa a ser também a escuta seletiva, em que os conteúdos são selecionados, reunidos e devolvidos ao analisando por meio das intervenções. Página 2 de 4 📄 Material Teórico O processo de análise como um todo sugere enfrentamentos para além dos enfrentamentos individuais, que os sujeitos se deparam em suas sessões de análise, na busca por compreender o seu adoecimento e na esperança de encontrar alívio para o seu sofrimento; temos ainda os desafios da própria Psicanálise, enquanto método terapêutico que investiga as profundezas do psiquismo humano. Assim, discorreremos brevemente a respeito dos desafios da Psicanálise no tocante à Contemporaneidade. A Construção do Caso Clínico Partindo da necessidade de se apresentar os critérios para a construção de um caso clínico, torna-se indispensável que se faça distinção entre construção e interpretação. Em Psicanálise, o conceito de interpretação é central e essencial para embasar intervenções e manejos terapêuticos; contudo, pouco tem relação com a construção do caso, mas pode ser confundida com grande facilidade, de modo que discorreremos em função de expor a distinção de ambos os conceitos, a fim de que não haja equívocos. No tocante à interpretação, trata-se de um ato que busca dar sentido a algo que o real significado ainda está oculto, ou seja, a interpretação é o caminho que o analista percorre junto ao paciente para desvendar os mistérios ancorados no inconsciente, a fim de revelar os significados latentes escondidos nas entrelinhas do conteúdo manifesto, o discurso. Já no que tange à construção, refere-se a um agrupamento de elementos extraídos do discurso e da observação do analista, com o objetivo de definir uma conduta que possa contribuir com tratamento do sujeito adoecido. É importante considerar que a construção do caso é essencial para o tratamento, mas o caso não é o sujeito. O caso é a construção dos elementos que recolhemos do discurso e, a partir de então, o paciente permite que o analista possa avaliar a sua posição subjetiva diante do sintoma. Para a construção do caso, Figueiredo (2003) aponta alguns binômios que podem ser considerados como critérios a serem estabelecidos, sendo esses: história versus caso, supervisão versus construção e conceitos versus distinções. História Versus Caso A história é o relato trazido pelo paciente e/ou por seus familiares. Durante o ato de contar a história, pode- se observar a riqueza de detalhes, o apego a demonstrações calorosas como, por exemplo, gestos para demonstrar algo que é contado, ou seja, encenação. Além disso, é pertinente analisar a dimensão que se dá ao conteúdo, muitas vezes, histórias longas, cheias de repetições, prolixas, outras nem tanto assim, por vezes sucintas demais, com ausência de detalhes. Por outro lado, o caso é produto extraído das intervenções analíticas. O analista, no exercício de seu trabalho, conduz o paciente ao encontro daquilo que fora dito para com o significado que decantou de seu relato. Supervisão Versus Construção A supervisão é um encontro do analista pesquisador com um analista mais experiente. O objeto dessa experiência está fundado na compreensão das nuances do caso, assim como na condução que se seguirá no desenvolvimento dos trabalhos, no que se refere ao manejo terapêutico, às intervenções e técnicas. A supervisão é essencial para que se possa ampliar o campo de visão em relação aos conteúdos apurados na construção do caso, a fim de se elaborar estratégias que corroborem efetivamente com o plano de tratamento. Ademais, o momento de supervisão pode ocorrer tanto na modalidade individual (analista e supervisor), quanto de maneira coletiva (supervisão em grupo). Visando à construção do caso, torna-se importante ressaltar a ocorrência de discussões realizadas pela equipe que compõe o caso. Pegamos, como exemplo, casos em que a condução está a cargo da equipe multidisciplinar, onde cada profissional contribui para a construção do caso e de acordo com o entendimento fundamentado em sua área do saber. É relevante apontar que, diferentemente da supervisão, a construção não se encerra ao final do encontro ou da reunião em que aconteceu a discussão do caso; pelo contrário, acompanha o analista com as novas contribuições, de modo que esse, muitas vezes, reavalia a sua posição diante do suposto saber – afinal, quando necessário, rompe com a ideia de um saber fixado acerca de determinado caso, dado que a dinâmica do paciente, de modo geral, pode conduzir o trabalho por outros caminhos. Dessa forma, fica colocado que a construção do caso é essencial para que se possa acessar os conteúdos que geram adoecimento psíquico, de modo que a supervisão é fundamental para que se elabore o plano de tratamento mais indicado para o caso e que se aplique técnicas e intervenções efetivas e que favoreçam a saúde mental. Conceitos Versus Distinções Conceitos são considerados fundamentos de uma teoria, ajudando na construção do caso e até mesmo na compreensão do sujeito. Entretanto, não se faz necessário conceituar cada experiência vivenciadapelo paciente, mas é indispensável que o analista saiba distinguir o que é um conceito atribuído ao discurso do paciente e o que, de fato, é fruto do discurso para ser posteriormente conceituado; ou seja, o analista não deve manter a sua escuta atrelada a determinado conceito, buscando enquadrar o discurso do paciente, mas sim, deve apresentar uma escuta livre de preambulações para que tenha condições de discernir entre discurso e conceito e, a partir de então, compreender conceitualmente a dinâmica do sofrimento psíquico. Para além disso, faz-se necessário distinguir o sujeito discursador, para o qual em alguns momentos o discurso é enunciado pelo sujeito do inconsciente e, em outro momento, o discurso é proferido pelo “eu”. A importância se dá pelo fato de que as pulsões, motivações e origens presentes no discurso interferem no manejo terapêutico – enquanto que o primeiro se trata do desejo puro que emerge do inconsciente, o segundo se pauta na realidade de sua consciência, fazendo uso de mecanismos, sublimações e repressões. O Setting Analítico Freud (1969) concebeu o setting psicanalítico como o espaço em que acontece o encontro entre o analista e analisando, ou seja, o local específico para o desenvolvimento da relação terapêutica, alertando para alguns cuidados referentes às possíveis variáveis que possam interferir no êxito do tratamento. Nesse sentido, o “Pai da Psicanálise” apontou critérios que devem permanecer sob controle, a fim de se assegurar a eficácia do método psicanalítico, a saber: o espaço, a posição simbólica do analista, o paciente, cerimonial – ritual dinâmico das sessões, podendo ser alterado de acordo com a necessidade e demanda de cada paciente –, o tempo de duração das sessões, investimento financeiro, os fundamentos da análise e a atenção flutuante. Figura 1 – Setting psicanalítico Fonte: Reprodução #ParaTodosVerem: uma fotografia. Ao fundo há paredes brancas com cortinas na cor vermelho escuro. Há diversos quadros espalhados pelas paredes e uma estante com vários livros nas prateleiras; uma mesa grande de madeira escura com objetos centraliza o ambiente; uma mesa menor também de madeira escura com uma escultura está ao lado. Há um aparador na cor branca com várias esculturas, além de dois pedestais de madeira com esculturas. Há uma cadeira de escritório antiga na cor marrom, e um divã coberto com uma manta estampada e ao lado há um painel também estampado, assim como um tapete no estilo persa estampado. Fim da descrição. O espaço analítico deve propiciar a simbolização dos processos inconscientes, de modo que se possa trabalhar a origem dos conflitos, buscando alívio para o sofrimento apresentado. Para tanto, torna-se importante que o espaço seja um ambiente ético e acolhedor, que transmita segurança e confiança, em que o paciente tenha privacidade e possa se sentir protegido diante da exposição de seus medos, traumas, de suas fragilidades e inseguranças. Ao preparar esse ambiente é fundamental que o analista se atente à neutralidade do espaço, a fim de que não suscite fantasias desnecessárias em seu paciente. A posição simbólica que o analista assume durante as sessões é essencial para a consistência do tratamento. O analista deve manter uma postura de neutralidade, não inferindo julgamentos ao paciente, nem assumindo papéis que o tirem de sua posição analítica como, por exemplo, tornando-se amigo íntimo do paciente ou se envolvendo em relacionamento amoroso. É importante ressaltar que a relação entre analista e paciente está baseada nos aspectos de transferências e contratransferências, portanto, cabe ao analista avaliar a sua postura, assim como as questões que o atendimento de cada paciente pode suscitar em si, a fim de proteger o setting analítico para que não se torne um ambiente distante da real função terapêutica. Ademais, é essencial destacar que ao iniciar a análise, antes de tudo, o analista deve estabelecer o contrato de trabalho com o paciente. Nesse contrato, que pode ser verbal, deve constar a forma como o profissional trabalha. É necessário que fique claro para o paciente os princípios que regerão o desenvolvimento da análise, entre os quais: sigilo terapêutico, modalidade de atendimento, duração e frequência das sessões, valor investido em cada sessão e as respectivas responsabilidades do analista e do paciente no transcorrer do tratamento. O paciente é um participante ativo do processo analítico, de modo que mesmo diante do adoecimento psíquico, assume responsabilidades para com o seu tratamento. Ao ser informado acerca do contrato de trabalho pelo analista, o paciente pode concordar ou discordar. Em caso de desacordo, o paciente é livre para buscar ajuda com outro profissional. O paciente deve avaliar os seus limites e as suas expectativas para o atendimento psicanalítico e ter ciência de que podem ou não ser atendidos em alguma medida. Dito isso, é importante lembrar que o relacionamento terapêutico se dá com base na estruturação e no estabelecimento do vínculo terapêutico, de modo que uma vez estabelecido, as chances de trabalho promissor são elevadas; por outro lado, quando não há vínculo terapêutico, o processo analítico fica estagnado e o trabalho não acontece. Cada paciente traz consigo demandas diferentes e, de alguma forma, espera-se que o analista supra as suas necessidades. Entretanto, a falta é inerente a todos os seres humanos, de modo que não é papel do analista preencher o vazio que essa falta traz, tornando-se relevante compreender que o modo como se recepciona o paciente pode trazer acolhimento de suas angústias e, com isso, favorecer o processo de fortalecimento egoico. Partindo desse pressuposto, o ritual que antecede e sucede a sessão torna-se parte do processo analítico. Tomamos como exemplo a prática clínica, dado que cada paciente se comporta de modo diferente em sua sessão: existe aquele que tem por hábito ir ao banheiro antes ou ao final de cada sessão; que insiste no cumprimento com abraço; que estende a mão para cumprimentar; que antes de começar os trabalhos da análise pede/aceita água ou café e permanece, durante toda a sessão, com o copo ou a xícara ao seu lado. Comportamentos que são presentes em todas as sessões tendem a fazer parte de um ritual do paciente, de modo que esse fator é passível de análise e comumente está enriquecido de detalhes que não são expressos pela palavra, mas que podem contribuir para a compreensão de diversas questões emergentes no caso. O analista pode ou não acolher as necessidades ritualísticas do paciente mediante a interpretação que se tem de determinados comportamentos. A duração das sessões, assim como a frequência e o investimento financeiro são considerados fatores individuais estabelecidos de acordo com a condição do paciente. É verdade que existe uma praxe de mercado, em que se espera que as sessões de análise sejam, no mínimo, semanais e com duração de aproximadamente 50 minutos a 1 hora. Entretanto, em alguns casos o paciente requer mais de uma sessão por semana, podendo realizar duas ou até três sessões semanais. No que tange à duração, em determinado encontro a sessão pode durar mais de 1 hora, isso porque o paciente poderá apresentar demanda para tanto e diante de suas associações e reflexões, o analista preferirá não interromper; por outro lado, existem também sessões que duram menos que 50 minutos, isso porque o analisando atingiu o limite daquilo que se esperava e não se pode continuar forçosamente, correndo o risco de colocar a perder todo o trabalho realizado até então. Nesse sentido, o analista, no transcorrer do trabalho, é soberano para com o manejo do tempo, considerando as necessidades de cada paciente e aceitando os limites impostos por esse no momento de sua fala. O investimento financeiro é um fator de análise interessante, pois indica a disposição do paciente em investir em sua saúde mental, ou seja, o valor está atrelado à valorização de si. O investimento não é no analista,mas sim nas sessões que proporcionarão o encontro do analisando consigo, o acesso ao seu mundo interno e ao autoconhecimento. Os fundamentos da análise, assim como a atenção flutuante e seletiva que o analista precisa ter como ferramenta de trabalho são aspectos de sua habilidade e competência no exercício da função. O trabalho a ser desenvolvido exige um profissional competente, que conheça os caminhos da análise por meio da teoria e prática, a fim de que se possa fundamentar o seu fazer, que domine as técnicas, que tenha habilidade para fazer intervenções e que, além de tudo, seja humano, que trate o paciente com empatia, que seja atento às necessidades procedentes e que não viole os limites do paciente, assim como o contrato terapêutico estabelecido no início do atendimento, tampouco que infira opiniões próprias como sugestão ou até autoritarismo ao paciente. O trabalho do analista não inclui voz de comando para decidir situações que somente o analisando pode decidir, tampouco conselho imposto; pelo contrário, o analista é o profissional que busca ampliar o campo de visão do paciente para que este possa fazer as suas escolhas com consciência de seus desejos. Dotado do conhecimento e de suas habilidades e competências, o profissional é capaz de atribuir uma escuta empática ao discurso de seu paciente. Mediante a escuta atenta e flutuante é realizado um filtro, uma espécie de seleção entre os conteúdos que são passíveis de interpretações e os conteúdos que apenas compõem o cenário de fala do analisando. É com base nessa escuta que o analista tem condições de reunir os conteúdos, realizar interpretações e devolver para o paciente, a fim de construir um significado ou até um ressignificado para aquilo que muitas vezes não fora dito, mas fora escutado – pois estava nas entrelinhas que se seguiram até o inconsciente através da condução do manejo terapêutico realizada pelo analista. Técnicas e Intervenções A Psicanálise é um método de investigação dos processos inconscientes, pautada em avaliar as situações atuais, correlacionando a experiências do passado, focando naquilo que ainda não foi dito, acessando os caminhos obscuros do inconsciente rumo à investigação dos conflitos de ordem mental e emocional. Associação Livre e Interpretação do Discurso O método de associação livre de ideias foi desenvolvido por Freud para possibilitar o acesso aos conteúdos de ordem inconsciente. Através de uma escuta seletiva e flutuante, com ausência de críticas e julgamentos, o analista questiona o paciente acerca de seus conflitos, conduzindo-o com cautela e prudência aos caminhos obscuros de seu inconsciente. À medida que o paciente vai caminhando rumo à origem de seus conflitos e possíveis traumas, surgem os obstáculos que, na verdade, são resistências, lacunas como formas de esquecimento ou falhas de memória temporal, emergindo, assim, os mecanismos de defesa (descritos a seguir). Esse movimento ocorre com o intuito de poupar o sujeito de lidar com questões dolorosas, que envolvem sofrimento maior do que esse acredita vivenciar no momento. Entretanto, só é possível aliviar o paciente de suas dores emocionais se agirmos na origem da sintomatologia. Assim, para que haja cura de seus sintomas, o paciente precisa percorrer o caminho do autoconhecimento, lidando com as suas dores outrora recalcadas. Visto que o primeiro ponto para o trabalho de análise é o estabelecimento do vínculo terapêutico, é de suma importância que o terapeuta esteja atento aos limites do paciente, o que lhe permitirá fazer interpretações e intervenções condizentes com o momento da análise, de modo a cumprir a função do método interpretativo, encorajando o paciente a lidar com os seus medos e receios. Segundo Freud (1996), à arte da interpretação compete a tarefa de extrair, do minério bruto das associações, o metal puro dos pensamentos recalcados. Assim, os conteúdos ancorados no inconsciente passam a ser acessados e chegam à consciência, uma vez que a interpretação cumpre a função de superar as resistências, possibilitando a ressignificação de tais conteúdos e impedindo a remissão dos sintomas. Mecanismos de Defesa Para lidar com as pressões ambientais geradas por pulsões que ameaçam o ego, o ser humano faz uso de distorções, que são como disfarces para suavizar o desejo e torná-lo aceito por si e socialmente, de modo a vir salvaguardar o seu ego de um sofrimento maior. Esse movimento é chamado de mecanismo de defesa. Freud dividiu os mecanismos em: Repressão: capacidade de ocultar memórias dolorosas da consciência e relegar ao inconsciente; Formação reativa: é uma ideia controversa; é o processo de afastar pulsões ameaçadoras, enfatizando o oposto em nossos pensamentos e atitudes; Sublimação: é a transformação de pulsões que poderiam ser reprimidas, em ações socialmente aceitas; Negação: é a mais pura expressão da recusa em reconhecer a realidade de fato, como se apresenta; trata-se de mecanismo amplamente utilizado por pessoas que têm dificuldade em lidar com frustrações; Projeção: é o ato de exteriorizar as pulsões que causam desconforto, depositando-as em outra pessoa; Deslocamento: é a transposição de um medo ou desejo considerado feroz, para outro alvo mais tolerável; Regressão: é um mecanismo de fuga de algo ou conteúdo que gera conflitos e ameaças no presente, para determinado período passado da vida, em que o indivíduo se sinta seguro e protegido; Interpretação dos Sonhos A interpretação dos sonhos é uma técnica psicanalítica e analítica, vastamente estudada e aplicada por Sigmund Freud e Carl Jung. Sabemos que a associação livre é bastante eficiente no que diz respeito ao acesso do universo inconsciente; entretanto, sabemos também que nem todos os conteúdos podem ser trazidos à luz da consciência por meio da palavra. Alguns conteúdos são representados por símbolos e estes ganham expressão com maior facilidade no campo onírico, o mundo dos sonhos, visto que os sonhos são ricos em simbologia e conteúdos oriundos dos mais diversos desejos dos seres humanos, de modo que os psicanalistas supramencionados encontraram, na interpretação dos sonhos, uma porta para o acesso de conteúdos latentes, de maneira que a partir da compreensão dos significados, estes se tornem conteúdos manifestos, podendo chegar à consciência de forma saudável. O Uso do Divã O uso do divã pelo paciente e da poltrona pelo analista foi concebido por Freud no exercício de sua função como psicanalista. Acreditando que o paciente se sentiria liberto para falar acerca de suas questões e, com isso, fazer associações mais facilmente, o “Pai da Psicanálise” propôs que o paciente se deitasse ao divã e que o analista ficasse fora do campo de visão do analisando, sentando-se na poltrona posicionada atrás do divã. A ausência física do analista no campo de visão do paciente poderia contribuir para o acesso ao mundo do inconsciente de maneira mais fácil, uma vez que não há – o que inúmeros pacientes consideram como – enfrentamento, tal como ocorre na técnica do diálogo face a face, em que paciente e analista estão posicionados um de frente para o outro, em suas respectivas poltronas. Entretanto, cabe ressaltar que para conduzir o paciente ao divã é necessário ter noções sobre o quanto esse paciente caminhou no processo de análise. É necessário ter cautela e se assegurar, na medida do possível, que o paciente tenha condições de vivenciar essa experiência, sem a figura do analista em seu campo de visão, pois não havendo condições por parte do analisando, uma vez exposto ao divã, este pode se sentir em profundo abandono por parte do analista, suscitando, assim, sintomas nada produtivos para o uso efetivo da técnica na contribuição com o tratamento. Racionalização: explicações lógicas e racionais para comportamentos de origens do inconsciente. Figura 2 – O divã Fonte: Reprodução #ParaTodosVerem: uma fotografia. Ao fundo há estantes de livros na cor branca, com vários livros enfileiradose alguns objetos aparados na prateleira da estante. Ao lado esquerdo há um homem idoso, calvo, com barba comprida branca, usando óculos, vestindo terno e gravata na cor caqui, com camisa branca e calçado com sapatos de cadarço na cor marrom, sentado em uma poltrona de couro também na cor marrom, segurando um charuto na mão esquerda. Ao lado direito da imagem há um divã também de couro marrom, sendo o mesmo material e cor da poltrona. O chão é revestido com piso de madeira de cor escura. Fim da descrição. Ludoterapia – Caixa Lúdica Melanie Klein enfatizou, em sua clínica, na análise de crianças, que a ludoterapia tem a mesma função da análise de adultos: a interpretação de fantasias inconscientes. Todavia, as crianças pequenas expressam as suas fantasias inconscientes simbolicamente, através de sua atividade lúdica, de modo que para o trabalho com crianças é necessária uma caixa com diversos tipos de brinquedos – nomeada de caixa lúdica –, incluindo desde os mais estruturados até os menos estruturados. Figura 3 – Ludoterapia como psicoterapia com crianças Fonte: Getty Images #ParaTodosVerem: uma fotografia. Sobre o fundo branco há móveis (mesa e aparador) na cor branca e com vários brinquedos coloridos espalhados pelos móveis. Uma mulher adulta de cabelos loiros, usando brinco e vestida com uma blusa de cor azul, está inclinada ao lado de uma menina, também loira, vestida com uma blusa rosa, sentada e segurando massinha de modelar. Fim da descrição. Ao analista cabe interpretar as brincadeiras, de forma a elucidar as fantasias subjacentes e as analisar para compreender o sofrimento psíquico enfrentado pela criança, buscando acolher as suas angústias e estruturar o seu ego de maneira que possa conviver de forma saudável com aquilo que antes lhe gerava dor e sofrimento. Considerando que a riqueza de detalhes do inconsciente infantil está nas brincadeiras que atrai a criança e no próprio ato de brincar, aqui incluímos a escolha e preferência por determinada brincadeira, bem como o conteúdo e a condução do brincar, de modo que qualquer tipo de brincadeira é passível de análise, por se tratar de um continente de fantasias e desejos inconscientes (OLIVEIRA, 2007). Demais Técnicas e Intervenções De acordo com Rosenthal (2008), na abordagem psicanalítica podem ser utilizados, aproximadamente, sete tipos de intervenções e técnicas, a saber: Foco no afeto e na expressão das emoções do paciente; Exploração das tentativas de o paciente evitar tópicos ou engajar-se em atividades que prejudiquem o progresso da terapia (evitação, resistência); Identificação dos padrões das ações, dos pensamentos, sentimentos, das experiências e relações do paciente; Ênfase nas relações passadas; Foco nas experiências interpessoais; Ênfase na relação terapêutica; Exploração dos desejos, das fantasias e dos sonhos. Figura 4 – Técnica face a face Fonte: Getty Images #ParaTodosVerem: esta fotografia apresenta um cenário com um fundo branco, onde se destacam as janelas com vidraças. No lado esquerdo da imagem, há uma mulher sentada em um sofá preto. Ela veste um jaleco branco sobre uma camisa azul clara e calça jeans, segurando uma prancheta e uma caneta preta em suas mãos. À direita da fotografia, há outra mulher, de costas, com cabelos claros e presos. Ela está vestindo uma blusa de mangas compridas de cor bege. O cenário sugere estar situado em um ambiente empresarial ou de escritório. Fim da descrição. Desafios da Psicanálise na Contemporaneidade Levando em consideração que vivemos em um mundo em que a tecnologia está a serviço de tudo e todos, as demandas concernentes ao inconsciente, emergindo na forma de sintomas, comumente recebem pouca atenção, deixando, assim, que o adoecimento psíquico ganhe espaço e a busca pelo tratamento seja postergada ao máximo possível. Vivemos em uma sociedade que não lida bem com a tristeza e com as frustrações da existência humana. A valorização que se encontra na Contemporaneidade não é a dos seres humanos reais que expressam os seus sentimentos e as suas emoções de forma honesta, mas sim de uma falsa felicidade que é vendida nas redes sociais, de um bem-estar que agrega autoestima, mas que não se sustenta, pois diante da perda de um “seguidor”, o sujeito se sente abandonado, dado que vive em função de mostrar a felicidade máxima e o quanto é bem-sucedido em suas empreitadas. No entanto, necessita de plateia para que se sinta valorado em suas ações, e diante da mínima ausência ou rebaixamento de pessoas que compõem o público, o sentimento de menos valia invade o ego superficial, trazendo à tona as suas fragilidades. Mas a Contemporaneidade não é tolerante com pessoas reais, então o sujeito se coloca novamente em situação de risco emocional para se sentir parte pertencente do universo que prega a felicidade, o bem-estar e sucesso. Sendo a Psicanálise uma abordagem teórica que investiga a origem do sofrimento e, portanto, desvela as inseguranças e fragilidades do ego que se desenvolve tanto no campo social quanto no contexto real, podemos adquirir alguma noção do confronto que se impõe entre lidar com as descobertas de seu mundo interno, em uma atitude de introspecção – voltar o seu olhar para si, em busca de autoconhecimento – e internalização dos reais significados que norteiam a existência do sujeito e, por outro lado, atender aos padrões estabelecidos pela sociedade, buscando pertencimento a todo e qualquer custo, mesmo que isso incorra em objetificar as suas relações e atribuir a sua constituição e identidade ao “ter” – posses, status, coisas etc. – e não ao “ser”. Diante do exposto, a Psicanálise tem o desafio de alargar a escuta e repensar os ideais e as questões que abarcam cada indivíduo mediante o contexto ao qual ele está inserido. Para Rocha (2008) alargar a escuta se trata de trazer para as interpretações, pautadas no método psicanalítico, novos referenciais que aproximem o analisando de seu discurso, pensando-se em novos formatos de relações mais amplas e atuais, em que o inconsciente possa continuar se expressando e possibilitando a busca pela transformação do sujeito que está pautado no “ter”, a fim de que esse consiga encontrar-se e vir a “ser”. Em Síntese Partindo dos conceitos abordados nesta Unidade, podemos considerar que a Psicanálise cria um espaço de fala e escuta, em que o sofrimento do paciente ganha expressão na tentativa de ser compreendido. Esse espaço é priorizado durante todo o trabalho, ou seja, o setting terapêutico deve ser um lugar de refúgio e segurança para o paciente. O trabalho na análise do sofrimento humano, bem como na busca de soluções e resolução para o alívio de seus sintomas, não é algo imediatista, pelo contrário, trata-se de um trabalho intenso e, muitas vezes, de longo prazo, que exige coragem e disponibilidade por parte do paciente e discernimento por parte do terapeuta, pois a ansiedade do analista pode levá-lo a cometer negligências em suas interpretações e intervenções frente os limites de seus pacientes. As possibilidades para o tratamento e acompanhamento psicológico são infinitas; no entanto, de nada adianta ter todas as teorias e técnicas à disposição se não houver estabelecido, primeiramente, o vínculo terapêutico com o paciente e obter o conhecimento necessário acerca do caso que se apresenta, emergindo demandas a serem trabalhadas. Enfim, o trabalho depende da relação de confiança entre o analista e analisando. Os conceitos de transferência e contratransferência dão conta de explicar essa relação de forma clara e objetiva. Diante de ambos os movimentos, cabe ao terapeuta ter clareza dos conteúdos presentes no trabalho e manejar o que foi suscitado por meio da técnica, agindo com base na neutralidade exigida para o trabalho psicanalítico. Caso o profissional, por motivos diversos, não consiga atingir a neutralidade, deve se afastar do caso, encaminhando-o para outro profissional, a fim de não comprometer o desenvolvimento do paciente, no quediz respeito à saúde mental e emocional. Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade: Vídeos Fundamentos da Prática Psicanalítica – Parte 1 Trata-se de compreender os fundamentos que norteiam a prática do analista. Página 3 de 4 📄 Material Complementar Fundamentos da Prática Psicanalítica – Parte 2 Trata-se de compreender os fundamentos que norteiam a prática do analista. Fundamentos da Prática PsicanalíticaFundamentos da Prática Psicanalítica Fundamentos da prática psicanalítica | Parte 2Fundamentos da prática psicanalítica | Parte 2 https://www.youtube.com/watch?v=4PcxB2yjajo https://www.youtube.com/watch?v=K0icek7sDaI Filmes Um Método Perigoso Assista, a seguir, o trailer deste filme. Leitura Psicoterapia Psicodinâmica e o Tratamento do Jogo Patológico Este artigo aprofunda os conhecimentos acerca da prática interventiva. Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE Um Método Perigoso - Trailer LegendadoUm Método Perigoso - Trailer Legendado https://bit.ly/48fNAeV https://www.youtube.com/watch?v=n_kfCljrmtY FIGUEREDO, A. C. A construção do caso clínico: uma contribuição da Psicanálise à psicopatologia e à saúde mental. Revista Latino-Americana de Psicopatologia Fundamental, v. 7, n. 1, p. 75-86, 2004. FREUD, S. O método psicanalítico de Freud. In: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. 1 ed. 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