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<p>SETTING PSICANALÍTICO</p><p>AULA 1</p><p>Prof. Marcelo de Oliveira</p><p>2</p><p>CONVERSA INICIAL</p><p>Os elementos que constituem o tratamento psicanalítico e formam o seu</p><p>enquadre ou setting são concebidos antes mesmo do primeiro encontro</p><p>(presencial ou on-line) entre o psicanalista e o futuro analisante. Já entra em</p><p>atividade por pensamentos e expectativas (fantasias) que o futuro analisante</p><p>desenvolve, desembocando no formato de um pedido em iniciar um tratamento</p><p>psicanalítico. Desde o primeiro contato (telefone, WhatsApp, e-mail), e por meio</p><p>dessa primeira conversa, as palavras que foram ditas, o modo como foram ditas</p><p>e as mensagens que portavam são os traços iniciais da configuração da</p><p>chamada relação transferencial. Essa relação estabelece a possibilidade de que</p><p>o encontro analítico se realize e seja eficaz.</p><p>Nesse “cenário” no qual toda a análise tem início, desenvolvimento e fim,</p><p>veremos, nesta etapa, os elementos que a constituem e suas funções primárias</p><p>de tratamento de ensaio e entrada em análise.</p><p>TEMA 1 – QUESTÕES PRELIMINARES</p><p>A melhor tradução para o conceito de setting em psicanálise é: cenário e</p><p>posição. O cenário como setting faz referência à “paisagem mental” do futuro</p><p>analisante, não apenas no sentido de imagens, mas com todos os elementos</p><p>psíquicos (afetos + representações/significantes) que são mobilizados para</p><p>constitui-la.</p><p>Nesse sentido, a cena é configurada sob as condições das formações do</p><p>inconsciente (segundo as leis de condensação e deslocamento), articulando</p><p>seus elementos como uma composição inconsciente de desejo.</p><p>O espaço que será o cenário onde essa cena será interpretada é o</p><p>enquadre do setting. Imaginando o palco de uma peça de teatro e o</p><p>desenvolvimento de uma cena, a mobília, os personagens, o texto, a luz, a</p><p>plateia... enfim, todo esse conjunto constitui e articula uma mensagem, um</p><p>desejo, a cena inconsciente (a outra cena, diria Freud).</p><p>O sujeito que solicita iniciar uma análise será convidado a compor este</p><p>universo. O analista inicia sua tarefa acolhendo e organizando esse pedido</p><p>articulado com uma questão que dá o sentido para o tratamento: O que desejas?</p><p>O analista toma, primeiramente, essa pergunta para si mesmo (O que</p><p>ele/ela quer?) ao receber o pedido para marcar uma primeira entrevista. Essa</p><p>3</p><p>pergunta é o estabelecimento do eixo principal do cenário/setting psicanalítico.</p><p>Quando o analisante apresenta sua queixa para o analista, este a escuta como</p><p>uma mensagem cifrada, pois o que faz o sujeito sofrer surge nas entrelinhas da</p><p>queixa “sinto-me mal”. A questão “o que quer?” visa a essa reconfiguração do</p><p>enquadre da queixa apresentada sob o estatuto de resposta para assumir o</p><p>estatuto de uma interrogação.</p><p>A demanda de análise é correlata à elaboração do sintoma enquanto</p><p>sintoma analítico. O que está em questão nessas entrevistas</p><p>preliminares não é se o sujeito é analisável, se tem um eu forte ou fraco</p><p>para suportar as agruras do processo analítico. A analisabilidade é</p><p>função do sintoma e não do sujeito. A analisabilidade do sintoma não</p><p>é um atributo ou qualificativo deste, como algo que lhe seria próprio:</p><p>ela deve ser buscada para que a análise se inicie, transformando o</p><p>sintoma do qual o sujeito se queixa em sintoma analítico (Quinet,</p><p>2005).</p><p>A posição faz referência ao modo como os elementos (representações e</p><p>afetos) se articulam, instituindo o lugar subjetivo que o futuro analisante ocupa</p><p>em relação ao pedido para se iniciar uma análise. Ela é ilustrada pela pergunta:</p><p>“Esse pedido de análise é originalmente em nome próprio ou por terceiros?</p><p>Este/a que está a minha frente é quem está motivado a iniciar uma análise, ou</p><p>está aqui porque alguém lhe ‘forçou’ a vir?”. Por exemplo, a namorada intima seu</p><p>namorado dizendo: “Ou você faz terapia e vai se tratar, ou eu termino o namoro</p><p>com você!”.</p><p>As motivações da demanda, do pedido para iniciar uma análise, dão as</p><p>coordenadas da posição do sujeito. Um outro exemplo é quando alguém solicita</p><p>uma análise pois gostaria de melhorar seu rendimento no trabalho ou de ser mais</p><p>ponderado nos momentos de discussão familiar.</p><p>Nesses casos, antes de aceitar o sujeito em análise, o analista deve</p><p>investigar essas motivações, uma vez que elas apontam para uma espécie de</p><p>manutenção da continuidade da alienação ao outro, girando em torno da ideia</p><p>de que “se eu melhorar, o outro vai me amar”.</p><p>A demanda em análise não deve ser aceita em estado bruto, e sim</p><p>questionada. A resposta de um analista a alguém que chega com a</p><p>demanda explícita de análise não pode ser, por exemplo, a de abrir a</p><p>agenda e propor um horário e um contrato. Para Lacan só há uma</p><p>demanda verdadeira para se dar início a uma análise – a de se</p><p>desvencilhar de um sintoma. A alguém que vem pedir uma para de</p><p>conhecer melhor, a resposta de Lacan é clara – “eu o despacho”. Lacan</p><p>não considera esse “querer se conhecer melhor” como algo que tenha</p><p>o status de uma demanda que mereça resposta. (Quinet, 2005)</p><p>4</p><p>O status acima citado é a posição do sujeito em relação ao seu pedido ou,</p><p>mais precisamente, à angústia que sente. Querer se conhecer melhor e/ou</p><p>melhorar a performance estão, efetivamente, para o encobrimento da angústia,</p><p>e não para um posicionamento que a encara de frente, disposto a atravessá-la,</p><p>não a desviá-la.</p><p>TEMA 2 – TRATAMENTO DE ENSAIO: AS PRIMEIRAS ENTREVISTAS</p><p>Freud, em seu texto de 1913, Sobre o início do tratamento, realiza o que</p><p>chama de tratamento de ensaio. É uma verificação sobre as condições que</p><p>permitirão ou não o início de uma psicanálise. Essas condições são materiais e</p><p>psíquicas, tais como:</p><p>• Materiais: horário, frequência, acessibilidade, honorário.</p><p>• Psíquicas: resistências, adesão ao tratamento (transferência, associação</p><p>livre), diagnóstico clínico (neurose, psicose).</p><p>O tratamento de ensaio é a construção de base do setting psicanalítico,</p><p>no sentido de uma composição entre os elementos do futuro analisante e do</p><p>analista (e seu ambiente: clínico, institucional, social).</p><p>A maneira como essa composição vai se configurar servirá de base para</p><p>o diagnóstico clínico.</p><p>O começo do tratamento com um período de prova de algumas</p><p>semanas tem também uma motivação relacionada ao diagnóstico. [...]</p><p>O psicanalista não pode manter sua promessa de cura caso o paciente</p><p>sofra, não de histeria ou de neurose obsessiva, mas de parafrenia, e</p><p>então tem motivos particularmente fortes para evitar o erro diagnóstico.</p><p>Num tratamento experimental de algumas semanas, ele com</p><p>frequência perceberá coisas suspeitas, que poderão levá-lo a não</p><p>prosseguir com a tentativa. [...] Pontos importantes no começo da</p><p>terapia analítica são as estipulações a respeito de tempo e dinheiro.</p><p>[...] Uma vez acertadas desse modo as condições da terapia, surge</p><p>uma questão de em que ponto e com que material se deve começar o</p><p>tratamento (Freud, 1913).</p><p>É importante destacar que Freud recomenda algumas orientações, não</p><p>tendo a intenção de que se tornem obrigatórias, pois é preciso verificar condições</p><p>presentes em cada caso e o contexto histórico-cultural no qual se inserem.</p><p>Por exemplo, nesse mesmo texto, Freud afirma que atende seis vezes na</p><p>semana seus pacientes – exceto domingos e feriados. Atualmente, a maioria dos</p><p>analistas atende uma vez por semana, considerando as particularidades da</p><p>rotina do analisante e as vicissitudes do dia a dia contemporâneo.</p><p>5</p><p>As condições materiais, portanto, devem ser observadas para evitar</p><p>desperdícios e desgastes que podem produzir um descrédito/aumento de</p><p>resistência à terapia analítica. Hoje em dia é possível encontrar ofertas de</p><p>acolhimento e escuta analítica em ambientes bastante diversos dos tempos de</p><p>Freud, como os consultórios de rua. Há uma ampla discussão ao redor desses</p><p>atendimentos e das características da terapia psicanalítica. Se as condições</p><p>materiais sofreram alguns ajustes, as condições psíquicas</p><p>mantêm os principais</p><p>delineamentos desde o princípio da invenção do método freudiano. No que diz</p><p>respeito ao início do tratamento:</p><p>O primeiro objetivo do tratamento é ligá-lo à terapia e à pessoa do</p><p>médico. [...] Se testemunhamos um sério interesse por ele, eliminamos</p><p>as resistências que surgem no início e evitamos determinados erros, o</p><p>paciente estabelece tal ligação por si mesmo e associa o médico a uma</p><p>das imagos daquelas pessoas de que estava acostumado a receber</p><p>amor (Freud, 1913).</p><p>Portanto, seja qual for o setting em que se estabelece a relação analista</p><p>e analisante, vincular o paciente ao analista e ao tratamento permanece como o</p><p>primeiro e principal objetivo. Isso porque esas é condição sine qua non para o</p><p>estabelecimento da transferência, que é o instrumento efetivo para a intervenção</p><p>do analista. Pode-se afirmar que a ação efetiva do analista está diretamente</p><p>vinculada ao estabelecimento da transferência.</p><p>TEMA 3 – FREQUÊNCIA, AMBIENTE, ACESSIBILIDADE e DINHEIRO – AS</p><p>CONDIÇÕES MATERIAIS</p><p>A materialidade que permite as condições para o setting psicanalítico é</p><p>abarcada pela característica de fomentar representações acerca do tratamento,</p><p>ou seja, desde o mobiliário até a presença (física ou virtual) do analista serão</p><p>elementos investidos de significados pelo paciente. Pode ser comum haver</p><p>impressões excessivamente fantasiosas a partir desses elementos materiais,</p><p>tais como: “Será que um analista homem vai compreender uma mulher?” (ou</p><p>vice-versa); “Ele (analista) ficou muito sério, acho que estava bravo.”; “Só pelo</p><p>endereço, a consulta com esse psicanalista deve ser caríssima!”.</p><p>No caso do horário e da frequência das sessões de análise, além da</p><p>“simples” disponibilidade de agenda, considera-se a temporalidade psíquica, ou</p><p>seja, a emergência e urgência dos conteúdos inconscientes. O analista avalia a</p><p>6</p><p>frequência das sessões observando também o ritmo no qual o analisante se</p><p>engaja no tratamento.</p><p>Por vezes, uma frequência quinzenal pode ser um tempo</p><p>demasiadamente extenso, possibilitando o esvaecimento dos sentidos e</p><p>significados que emergiram e se constituíram desde a última sessão.</p><p>Por outro lado, uma frequência de duas ou mais vezes na semana pode</p><p>ser um importante momento de acolhimento e suporte em situações de intensa</p><p>angústia (por exemplo, casos de luto).</p><p>Ou seja, a temporalidade psíquica é referida à pulsação inconsciente, e o</p><p>recrudescimento dessa temporalidade pode ser ativado pela resistência, seja</p><p>esta positiva (amor) ou negativa (repulsa).</p><p>O ambiente e seu acesso – isto é, o local do encontro analítico (físico ou</p><p>virtual) – devem assegurar as condições de sigilo e privacidade. No caso do</p><p>setting presencial, é necessário cuidado com vazamentos ou intercorrências</p><p>sonoras (excesso de som externo ou a fala do paciente podendo ser ouvida de</p><p>fora da sala). No setting virtual, o cuidado é para que o canal de conexão seja</p><p>confiável e que o local onde analista e analisante acessam e estabelecem a</p><p>conexão preserve a privacidade do encontro.</p><p>O ambiente também se refere ao local como posicionamento ético –</p><p>clínica, escola, organização, empresa. Dependendo de onde o analista exerça</p><p>sua função, ele deverá recalibrar a intencionalidade e o alcance de sua</p><p>intervenção, reconfigurando o setting.</p><p>Para além de uma simples questão de “tabela de preços” – cuja referência</p><p>seria o “mercado” –, o dinheiro é um representante fálico; assim, avalia-se sua</p><p>dinâmica na economia libidinal do futuro analisante.</p><p>Por exemplo, uma economia libidinal restritiva, na qual o paciente se</p><p>queixa de não conseguir realizar o que gostaria, sentindo-se inibido ou impedido</p><p>de alguma forma, poderá surgir como uma resposta sintomática em relação ao</p><p>pagamento e/ou valor das sessões, sob o modo de um pedido de reavaliação</p><p>dos honorários ou de atrasos e esquecimento do pagamento das sessões.</p><p>Em situações como essas, o analista deve manejar de modo a oportunizar</p><p>a continuidade do tratamento sem perder de vista o engajamento e a</p><p>responsabilização do analisante.</p><p>As condições materiais englobam, portanto, os aspectos físicos</p><p>(concretos) e as representações que estes evocam. É importante considerar as</p><p>7</p><p>condições físicas elementares, porém suas representações pelo futuro</p><p>analisante são da maior importância para o estabelecimento das condições para</p><p>o início e a continuidade da análise.</p><p>TEMA 4 – TRANSFERÊNCIA, RESISTÊNCIA, DIAGNÓSTICO. CONDIÇÕES</p><p>PSÍQUICAS</p><p>O laço transferencial é a condição sem a qual não há análise. Os impulsos</p><p>psíquicos anteriores ao encontro com o analista, no início do tratamento, são</p><p>agora orientados para este que acolhe o pedido de análise. É recomendável que</p><p>isso aconteça, pois é um efeito do setting analítico oportunizar que o paciente</p><p>relate e se dê conta das fantasias e dos impulsos que constituem sua vida</p><p>psíquica.</p><p>Freud percebeu que os sentimentos deslocados em direção à pessoa</p><p>do analista não podem ser creditados à situação produzida no</p><p>tratamento per se. Dada a presteza com que esses sentimentos se</p><p>apresentam na análise, deve-se rastrear sua origem em algum outro</p><p>lugar: eles já existiam em estado germinal, estavam “preparados” no</p><p>paciente e, com a oportunidade oferecida pelo tratamento,</p><p>simplesmente vêm à tona e são desdobrados, a partir desta espécie</p><p>de pré-programação afetiva que se endereça à pessoa do analista</p><p>(Santos, 1994).</p><p>Na transferência com o analista, este é inserido na cena psíquica do</p><p>analisante. Contudo, essa inserção segue os traços já desenhados pela fantasia</p><p>do paciente. Ao analista não deve passar desapercebido qual lugar substituto</p><p>está ocupando para o analisante.</p><p>Por exemplo, o analista pode ser “colocado” no lugar de um pai e, assim,</p><p>estabelecer uma relação transferencial na qual o analisante demanda para o</p><p>analista que lhe dê orientações, instruções, advertências; ou no lugar de um rival,</p><p>sendo sua fala tomada sempre como algo a ser ou rejeitado completamente ou</p><p>ser corrigida.</p><p>Outra condição psíquica presente no setting analítico é a resistência. Essa</p><p>pode funcionar como um elemento importante para o estabelecimento de um</p><p>diagnóstico sobre a posição subjetiva do analisante, seja como neurose, seja</p><p>como psicose.</p><p>Como uma primeira linha de investigação acerca do diagnóstico, é</p><p>possível estabelecer que, se a resistência diante da castração suscitar fantasias</p><p>8</p><p>encobridoras, o processo subjacente em operação se configura como recalque.</p><p>Portanto, a hipótese diagnóstica, nesse caso, é de uma estrutura neurótica.</p><p>Durante a prática da técnica psicanalítica, solicitamos continuamente</p><p>ao paciente que produza as representações derivadas do recalcado</p><p>que possam, em decorrência de sua distância ou de sua deformação,</p><p>passar livremente pela censura do consciente. As ideias espontâneas</p><p>que requeremos do paciente, solicitando-lhe que renuncie a qualquer</p><p>ideia intencionalmente almejada e a toda crítica, nada mais são do que</p><p>tais representações derivadas afastadas e distorcidas. É a partir delas</p><p>que podemos reconstruir uma tradução consciente do representante</p><p>recalcado. [...] De modo análogo, os sintomas neuróticos dever ter</p><p>preenchido as mesmas condições descritas acima, pois eles são os</p><p>derivados do recalcado que, por meio dessas formações sintomáticas,</p><p>afinal conquistaram o acesso à consciência que antes lhe era negado.</p><p>(Freud, 1915)</p><p>Mas, caso a resistência diante da castração suscitar imperativos</p><p>absolutos, comandos e ordens imponderáveis, as quais o paciente sente-se</p><p>profundamente impelido a cumprir, e, assim, romper seu vínculo com o mundo</p><p>externo, a hipótese diagnóstica é de uma estruturação psíquica conhecida como</p><p>psicose.</p><p>Pode ocorrer de, nas primeiras entrevistas, o analista, ao solicitar que o</p><p>paciente fale sobre determinado assunto que apareça como um ponto importante</p><p>na sua fala, evite de falar por sentir-se proibido, privado de tocar em</p><p>determinados</p><p>temas.</p><p>Essa resistência em prosseguir falando a partir de uma cadeia de</p><p>pensamentos, que não atribui a si mesmo, pode apresentar a configuração mais</p><p>comum de uma psicose, o rompimento com a realidade externa.</p><p>Apesar das diferenças entre neuroses e psicoses, é importante</p><p>ressaltar que, tanto na irrupção de uma psiconeurose como de uma</p><p>psicose, a etiologia comum é a mesma: a privação, a não realização</p><p>de algum desejo [...]. O efeito patogênico dessa privação dependerá</p><p>do Eu. É preciso saber se, em uma situação de tensão causada por um</p><p>conflito, ele permanece fiel à sua dependência do mundo externo e</p><p>tenta silenciar o Id ou se deixa subjugar pelo Id e, dessa forma,</p><p>desgarra-se da realidade. (Freud, 1924)</p><p>As manifestações psíquicas que se apresentam pela fala do analisante</p><p>são os indicativos para o estabelecimento do diagnóstico clínico. A depender</p><p>dessas manifestações, o manejo transferencial a ser tomado pelo analista deve</p><p>ser avaliado cuidadosamente.</p><p>No caso de uma neurose, a direção no tratamento é que se busque, por</p><p>meio da associação livre, que o paciente produza uma trilha associativa que nos</p><p>leve ao impulso originário da fonte de recalque.</p><p>9</p><p>Enquanto isso, na psicose, as manifestações inconscientes que se</p><p>apresentam na fala indicam uma tentativa de construção de uma organização</p><p>psíquica que ainda permanece demasiadamente ambivalente entre a pressão do</p><p>Id e as exigências do mundo externo.</p><p>Nesses casos, o manejo não será pela associação livre, mas por uma</p><p>conduta que testemunhe e afirme o trabalho do paciente na sua busca de</p><p>ordenamento e arranjo entre as diferentes fontes de impulsos que lhe habita.</p><p>TEMA 5 – TRATAMENTO DE ENSAIO: O LADO DO ANALISTA</p><p>Do lado do analista, há que se considerar o desejo dele para que haja</p><p>análise. Para que isso ocorra, é imprescindível não se identificar de modo</p><p>absoluto ao destinatário transferencial, o locus do “sujeito suposto saber”. Esse</p><p>lugar que se formaliza no endereçamento do paciente ao analista, por entender</p><p>que este sabe sobre o que lhe angustia e como fazer para mudar essa situação,</p><p>é um lugar que, durante o tratamento psicanalítico, deve oscilar entre o analista</p><p>e o analisante.</p><p>Certamente, o analista sabe sobre a teoria que orienta sua prática;</p><p>contudo, deve não confundir com a história que este que se apresenta a sua</p><p>frente lhe compartilha. O saber do analista deve incidir sobre a direção do</p><p>tratamento e não sobre a direção da vida do paciente.</p><p>Essa diferença é crucial para que o analista não se acomode ao lugar de</p><p>um mestre, de alguém que teria a capacidade de decidir pelo analisante.</p><p>Evidentemente, não é esse o pedido que se apresenta nas entrevistas</p><p>iniciais, mas não passa muito longe desse pedido quando o analisante se</p><p>reconhece com dificuldades para encontrar meios de modificar o que lhe causa</p><p>sofrimento.</p><p>Com esse sintoma, o sujeito se dirige ao analista com uma pergunta –</p><p>O que isto quer dizer? O que significa isto? Tal posição inclui um saber,</p><p>pois supõe que o analista detém a verdade de seu sintoma, sob a forma</p><p>de uma produção [...]. Saber sobre o gozo que está em causa e que</p><p>vem mostrar a verdade escamoteada do sintoma. [...] O enigma é</p><p>dirigido ao analista, que é suposto deter o saber: o analista é assim</p><p>incluído nesse sintoma, completando-o. Nas entrevistas preliminares</p><p>trata-se, portanto, de provocar a divisão do sujeito. (Quinet, 2005)</p><p>Bascular o lugar de saber é uma tarefa que o analista deve dirigir para</p><p>que se produza a possibilidade do analisante constituir um saber sobre o que lhe</p><p>faz sofrer. Nessa tarefa, o analista incluído no sintoma do paciente está em uma</p><p>10</p><p>posição estratégica, pois centraliza a confiança que o analisante tem no saber</p><p>inconsciente, mas que, no início do tratamento, atribui ao analista.</p><p>Acionar a produção inconsciente que está “embolada” no sintoma pela</p><p>fala livre do paciente permitirá ao analista escutar as associações que são</p><p>constituídas em análise. Nessa rede de significados e significantes, o saber do</p><p>analista está em reproduzir para o paciente sua própria mensagem de forma</p><p>invertida, ou seja, auxiliar o analisante a construir um saber a partir do que diz,</p><p>compreendendo que sua fala é articulada em demanda/desejo que produz laço</p><p>social.</p><p>O analista dirigirá o tratamento na direção de compor a relação fala –</p><p>demanda/desejo e sintoma – mensagem cifrada.</p><p>Embasado nessas premissas sobre o saber inconsciente é que o</p><p>psicanalista toma como guia fundamental no decorrer de um tratamento analítico</p><p>a pergunta “O que queres?”, questão que tem valor por sua força de</p><p>questionamento, de abertura para o inconsciente, compreendendo este como</p><p>um laço transferencial que se forja pela linguagem/fala do sujeito. Esse é o</p><p>enquadre que se busca formar desde as primeiras entrevistas até o final do</p><p>tratamento psicanalítico.</p><p>Com efeito, quando o sujeito se engaja na análise, ele aceita uma</p><p>posição mais constituinte, em si mesma, do que todas as instruções</p><p>pelas quais se deixa mais ou menos enganar: a da interlocução; e não</p><p>vemos nenhum inconveniente em que esta observação deixe o ouvinte</p><p>desconcertado. Pois isso nos dará ensejo de insistir em que a alocução</p><p>do sujeito comporta um alocutário, ou, em outras palavras, que o</p><p>locutor constitui-se ali como intersubjetividade.</p><p>É com base nessa interlocução, na medida em que ela inclui a resposta</p><p>do interlocutor, que se resgata para nós o sentido do que Freud exige</p><p>como restabelecimento da continuidade das motivações do sujeito. O</p><p>exame operacional desse objetivo mostra-nos, com efeito, que ele só</p><p>se satisfaz na continuidade intersubjetiva do discurso em que se</p><p>constitui a história do sujeito. [...] O inconsciente é a parte do discurso</p><p>concreto, como transindividual, que falta à disposição do sujeito para</p><p>restabelecer a continuidade de seu discurso consciente (Lacan, 1953).</p><p>Nesse espaço transindividual do discurso do paciente que o analista deve</p><p>se posicionar, para trazer à consciência a fala, a mensagem inaudita. Ou seja, a</p><p>posição do analista como suposto saber é o exercício, como uma espécie de</p><p>caixa de ressonância, em que o saber do analista é saber como se posicionar aí</p><p>para que o saber inconsciente do sujeito venha a ser ouvido, interpretado, lido.</p><p>O setting psicanalítico, nesses termos, se realiza por meio de uma</p><p>dinâmica profundamente articulada com o campo da linguagem e a função da</p><p>fala, não se restringindo ao espaço físico ou outra forma de materialidade.</p><p>11</p><p>Toda fala demanda uma resposta, e é de acordo com essa premissa que</p><p>o analista estabelece o enquadre no tratamento psicanalítico. Assim sendo, a</p><p>investigação analítica percorrerá os fios que ligam a fala do paciente à resposta</p><p>que ele espera e que não chegou e/ou à resposta que chegou, mas tenta</p><p>rechaçá-la, desviá-la, enganar-se.</p><p>NA PRÁTICA</p><p>Homem, 30 anos, recebe a indicação de um psicanalista, quer marcar um</p><p>horário, mas, antes mesmo de perguntar ao analista sobre, fica apreensivo em</p><p>relação ao valor das sessões, imaginando que “deve ser muito caro” e que não</p><p>teria dinheiro suficiente: “Seria constrangedor dizer que não consigo pagar.”.</p><p>Envia uma mensagem perguntando o preço. O analista sugere marcar</p><p>uma primeira sessão para conversarem sobre. O jovem demorou uns dias para</p><p>responder, ficando na dúvida, dividido, entre querer iniciar a análise e achar que</p><p>não conseguiria pagar.</p><p>Nesse tempo de indecisão, uma extensa série de pensamentos e</p><p>devaneios lhe ocorreram, desde um sentido mais amistoso – “Talvez, se eu</p><p>explicar para ele minha condição, ele nem cobrará de mim?!” – até os mais hostis</p><p>– “Mas que tipo de profissional é esse?! Fica escondendo, não fala quanto custa!</p><p>Deve ser jogada de marketing, deve ser um chantageador...”.</p><p>Confirmou a sessão. Chega ao consultório um pouco ansioso sem saber</p><p>direito se é pela questão do dinheiro ou outro motivo. No decorrer das primeiras</p><p>entrevistas,</p><p>o analista pergunta sobre o intervalo de tempo que houve entre o dia</p><p>que fez contato a primeira vez e a marcação do início do tratamento:</p><p>– O que houve entre a primeira vez que falamos e o dia em que me</p><p>confirmou o horário? Foram duas semanas de intervalo...</p><p>– Sabe como é, tinha muitas coisas a fazer... acabei esquecendo de</p><p>responder...</p><p>– Esqueceu? E como lembrou-se?</p><p>– Eu estava vendo minha caixa de mensagens e aí encontrei a nossa</p><p>conversa.</p><p>– E os motivos que lhe fizeram vir me procurar, também cessaram nesse</p><p>período?</p><p>12</p><p>– Não, não... eu continuei ansioso. Sem saber muito bem por que, parece</p><p>que algo de ruim iria acontecer a qualquer hora... parecia que eu estava atento</p><p>o tempo todo, como se eu estivesse sendo perseguido.</p><p>– Não parece que essa sensação seja totalmente descabida, sem motivo.</p><p>De alguma maneira algo te perseguia, ao menos no que se refere ao seu pedido</p><p>em iniciar um tratamento. Você enviou uma mensagem, respondi, e ficou de me</p><p>dar um retorno. Essa resposta que não tinha sido até então realizada, ficou no</p><p>ar.</p><p>– É... eu também estava preocupado. Se eu teria condições de pagar as</p><p>sessões.</p><p>– Eu lhe disse que poderíamos conversar sobre o valor das sessões,</p><p>mesmo assim ficou preocupado?</p><p>– Pois é, fiquei com vergonha de lhe dizer que estou com dificuldades</p><p>financeiras. Parece que é como admitir que sou incapaz, que sou um fracassado</p><p>por não ter dinheiro suficiente.</p><p>– Proponho que tomemos este conteúdo que agora me relata, como uma</p><p>espécie de mensagem decodificada. O que será que isso quer dizer? Dinheiro,</p><p>fracasso, incapaz... tendo em vista a dificuldade que teve em responder,</p><p>podemos considerar que tem mais “coisas” nesse seu embaraço. O que me diz?</p><p>– Pode ser... acho que sim. Na verdade, não é a primeira vez que tenho</p><p>essa sensação, esse sentimento de que não vou conseguir, de vergonha. Mas</p><p>não sei o porquê?!</p><p>O analista sugere que o mal-estar antecipatório sobre a questão “valor</p><p>das sessões” poderia estar relacionado, para além de aspectos materiais,</p><p>também com ideias sobre ser capaz e ser impotente, fracasso e vergonha, entre</p><p>outras fantasias associadas. E que é com uma fala, relação intersubjetiva, que</p><p>se procurará desvendar o que faz sofrer, pois efetivamente chegou-se a um valor</p><p>de sessão que ele poderá pagar. Mas isso não resolveu o mal-estar.</p><p>Esse apontamento se sustenta na observação do mal-estar que o</p><p>paciente apresentou associado à questão do dinheiro e o reconhecimento de</p><p>que o dinheiro, para além do valor monetário, tem um valor simbólico em nossa</p><p>cultura. E não são raras as vezes que se mistura com a formação social da</p><p>identidade de homem, como alguém que deve ser provedor. Essa construção</p><p>social de sentido produz atravessamentos que mobilizam no analisante fantasias</p><p>em relação a si mesmo diante do outro.</p><p>13</p><p>FINALIZANDO</p><p>O setting em psicanálise é composto por cenário e posição. O cenário</p><p>como setting faz referência à “paisagem mental” do futuro analisante. Nesse</p><p>sentido, a cena é a formação estabelecida pelo desejo que se articula de modo</p><p>inconsciente.</p><p>A posição, como setting, faz referência ao modo como os elementos</p><p>(representações e afetos) se articulam, instituindo o lugar subjetivo que o futuro</p><p>analisante ocupa em relação ao pedido para se iniciar uma análise. Freud aborda</p><p>questões sobre o setting em seu texto Sobre o início do tratamento (1913).</p><p>Os aspectos condicionantes do setting são de natureza material e</p><p>psíquica. Entre os aspectos materiais destacamos horário, frequência,</p><p>acessibilidade e honorários. As condições materiais devem ser observadas para</p><p>evitar desperdícios e desgastes que podem produzir um descrédito/aumento de</p><p>resistência à terapia analítica.</p><p>Entre os aspectos psíquicos destacamos a resistência, a transferência e</p><p>o diagnóstico clínico. As condições materiais englobam, portanto, os aspectos</p><p>físicos (concretos) e as representações que estes evocam. É importante</p><p>considerar as condições físicas elementares, porém suas representações pelo</p><p>futuro analisante são da maior importância para o estabelecimento das</p><p>condições para o início e a continuidade da análise.</p><p>Da parte do analista, há que se considerar o desejo dele e o manejo da</p><p>transferência. O saber do analista deve incidir sobre a direção do tratamento e</p><p>não sobre a direção da vida do paciente. Essa diferença é crucial para que o</p><p>analista não se acomode ao lugar de um mestre, de alguém que teria a</p><p>capacidade de decidir pelo analisante.</p><p>Bascular o lugar de saber é uma tarefa que o analista deve dirigir para</p><p>que se produza a possibilidade do analisante constituir um saber sobre o que lhe</p><p>faz sofrer. Nessa tarefa, o analista, incluído no sintoma do paciente, está em uma</p><p>posição estratégica, pois centraliza a confiança que o analisante tem no saber</p><p>inconsciente, mas que, no início do tratamento, atribui ao analista.</p><p>14</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>FREUD, S. Neurose e psicose (1924). In: _____. Escritos sobre a psicologia</p><p>do inconsciente. Tradução de Luiz A. Hanns. Rio de Janeiro: Imago, 2007. v.</p><p>3.</p><p>_____. O recalque (1915). In: _____. Escritos sobre a psicologia do</p><p>inconsciente. Tradução de Luiz A. Hanns. Rio de Janeiro: Imago, 2004. v. 1.</p><p>_____. Sobre o início do tratamento (1913). In: _____. Obras Psicológicas</p><p>Completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. Rio de Janeiro:</p><p>Imago, 2006. v. 7.</p><p>LACAN, J. Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise. In: _____.</p><p>Escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.</p><p>QUINET, A. As 4+1 condições da análise. 10. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,</p><p>2005.</p><p>SANTOS, M. A. A transferência na clínica psicanalítica: a abordagem freudiana.</p><p>Temas em Psicologia, v. 2, n. 2, ago. 1994.</p>