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A Clínica em Freud: 
Introdução a Aspectos Técnicos e 
Metodológicos em Psicanálise 
Conteudista
Prof. Me. Hugo Tanizaka 
Revisão Textual
Esp. Jéssica Dante 
 2
OBJETIVOS DA UNIDADE
Atenção, estudante! Aqui, reforçamos o acesso ao conteúdo on-line 
para que você assista à videoaula. Será muito importante para o 
entendimento do conteúdo.
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ponibilização é para consulta off-line e possibilidade de impressão. 
No entanto, recomendamos que acesse o conteúdo on-line para 
melhor aproveitamento.
• Introduzir os aspectos iniciais da hipótese freudiana acerca da prática 
clínica sobre o inconsciente; 
• Apresentar as principais técnicas e métodos utilizados por Freud no iní-
cio de sua prática; 
• Instrumentalizar os alunos com recursos teóricos para refletirem a atua-
ção clínica em psicanálise com base na teoria freudiana. 
 3
Histeria, Inconsciente 
e Sigmund Freud
Na Grécia Antiga, a histeria significava “Matriz”, “Útero”, e era considerada uma 
doença do organismo, de origem uterina, que acometia o corpo da mulher. Por 
muitos anos, a histeria foi vista dessa forma, uma doença animalesca, uma de-
sordem do útero. Na Idade Média, quando a Igreja passou a fazer diagnósticos 
de histeria, eram atribuídos aos sintomas da histeria a origem de desejo sexual 
e, por conta disso, um pecado ligado ao demônio. Portanto, a responsabilidade 
pela histeria era demoníaca, ou seja, o demônio entrava no corpo das mulheres 
e provocava os sintomas. Por muito tempo as histéricas eram consideradas bru-
xas e feiticeiras, e por esse motivo essas mulheres eram perseguidas, queimadas 
e, muitas vezes, torturadas. Acreditava-se que somente as mulheres eram aco-
metidas pelos sintomas da histeria, cujos sintomas eram convulsões, perda de 
sentidos, alucinações, entre outros. 
Foi somente no século XVIII que a histeria passou dessa conotação demoníaca 
para uma conotação científica, convertendo-se em uma doença dos nervos. 
Com a Revolução Científica na Europa, os estudiosos, doutores e especialistas 
da época, tratavam a histeria como uma “irritação” dos órgãos sexuais femini-
nos, que era tratado com procedimentos cirúrgicos, deixando assim de atribuir 
“castigos” religiosos ao seu tratamento. Outra conotação dada à histeria era o 
simples fingimento das mulheres, tendo assim conotação imaginária. Porém, 
não tinha deixado ainda de ser uma afetação do útero. Com o surgimento de 
uma sociedade mais industrial, as hipóteses sobre o que seria a histeria foram 
se dividindo. Com a demonização da histeria sendo menos utilizada, duas con-
cepções se tornaram mais fortes na época. De um lado, a histeria teria origem 
cerebral e seria uma doença fisiológica, e, de outro, seria uma doença psíquica 
(ROUDINESCO; PLON, 1998). 
Vídeo
Através de um Espelho.
Em conferência intitulada Linhas de progresso na terapia psicanalítica (1917a/1976), 
Freud revela que a proposta psicanalítica não se apresenta como um saber fe-
chado e acabado e que é preciso que se esteja atento às imperfeições para 
aprender mais e “alterar os nossos métodos” (FREUD, 1917a/1976, p. 201). Por 
http://www.google.com
https://www.youtube.com/watch?v=BHpOrEl42rE
 4
outro lado, o autor destaca, no texto Uma dificuldade no caminho da Psicanálise 
(1917b/1976), as resistências à teoria psicanalítica. Nesse texto, Freud apre-
senta a célebre tese de Haeckel (ASSOUN, 1983) sobre as feridas narcísicas da 
humanidade e acrescenta a Psicanálise como o terceiro golpe nesse narcisis-
mo, ao afirmar não ser a consciência senhora em sua própria casa. Com isso, 
Freud anuncia a permanente posição de estrangeiridade da Psicanálise. O 
discurso psicanalítico apresenta uma posição de questionamento e de crítica 
em relação ao saber instituído, no entanto, essa posição não significa uma 
desconexão com os temas e problemas do seu momento histórico. Ao con-
trário, dialetiza permanentemente a captura totalizante que tenta silenciar o 
sofrimento em suas diferentes manifestações. Freud apresenta, por exemplo, 
o desejo de pensar mudanças nas táticas de atendimento para acolher esses 
sujeitos traumatizados pela Grande Guerra. 
Sobre a associação livre, no Vocabulário da Psicanálise, Laplanche e Pontalis 
(1981, p. 38) dizem que “não é possível definir uma data exata de sua des-
coberta, que se deu de modo progressivo entre 1892 e 1898, e por diversos 
caminhos”. Não houve um texto inaugural dedicado à introdução do conceito 
e, portanto, esse foi sendo estabelecido de modo esparso e paulatino. São 
vários os escritos de Freud nesse período citado pelos autores e os assun-
tos são diversos, porém é no livro Estudos sobre Histeria (1893-95), com tex-
tos datados entre 1893 e 1895, que encontramos os relatos de alguns casos 
essenciais para a compreensão de como a psicanálise foi ganhando a sua 
peculiaridade, que é o seu modo de tratar as psicopatologias. Nesse livro, 
com seu professor e amigo Josef Breuer, Freud aventura-se em introduzir à 
sociedade médica de Viena algumas de suas descobertas provindas de suas 
experiências clínicas. No entanto, como essa obra foi resultado de quase uma 
década de estudos, talvez seja interessante relembrar o caminho percorrido 
por Freud até o momento de escrevê-lo. Quando se tornou médico, em 1881, 
Freud almejava ajustar a sua vida financeira para se casar. Aconselhado pelo 
seu mentor acadêmico, Ernst Brücke, resolveu abandonar os seus estudos na 
universidade e, em 1882, começou a trabalhar como um Aspirant, assistente 
clínico, no Hospital Geral de Viena (FREUD, 1925). Com mais dinheiro e entre 
alguns sucessos e insucessos nesse novo cargo, ele conseguiu, em 1885, uma 
bolsa para estudar no famoso Hospital da Salpêtrière em Paris. Nesse am-
biente conheceu pessoalmente alguém que ele já admirava, o neurologista 
francês Jean-Martin Charcot, que inovava nas pesquisas sobre histeria. A hip-
nose era a técnica que Charcot e seus discípulos utilizavam nas histéricas e, 
de acordo com eles, a etiologia dessa doença se encontraria, em última ins-
tância, em localizações anatômicas. De início, Freud compartilhou dessa ideia, 
mas logo começou a desconfiar que tais explicações anatomistas eram limi-
tadas e que as causas da histeria estariam em outro lugar – na vida psíquica. 
Após terminar os seus cursos, foi embora de Paris otimista e, embora Charcot 
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não compartilhasse de suas ideias acerca das neuroses, ele havia conseguido 
dados para desenvolver suas próprias ideias: “Eu queria desenvolver a tese 
de que, na histeria, as paralisias e anestesias das várias partes do corpo assu-
mem correspondências com as representações comuns (não anatômicas) que 
os seres humanos possuem destas últimas” (FREUD, 1925, p. 13).
O início da Psicanálise foi justamente quando Freud começou a olhar para as 
histéricas da época com outros olhos. Uma das conclusões de Freud e Breuer 
foi que “Os histéricos sofrem de reminiscências”, isso significa que eles so-
frem de memórias desagradáveis de natureza traumática.
Ainda mediado pelo uso da hipnose, o método já possibilitava a compreen-
são de que havia “esquecimentos” de traumas na vida do paciente e que, 
caso fosse possível reencontrá-los, a histeria poderia ser tratada. Durante 
a década de 1880, Freud tinha o conhecimento de que havia alternativas 
metodológicas para sua prática clínica e não hesitou em aderir a elas. Por 
somar experiências com suas pacientes, surgiu a possibilidade da publicação 
com Breuer dos Estudo sobre Histeria (1893-95). Livro que evidencia certos 
avanços tanto para a concatenação de sua concepção acerca do psiquismo 
quanto para a chegada do método de associação livre. Um passo importante 
ocorreu quando, no caso da jovem conhecida como Miss Lucy, Freud perce-
beu que a hipnose seria dispensável, uma vez que havia observado que por 
meio de uma pressão na testa de seus pacientes seria possível reencontrar 
a “recordação patogênica”. Não abandonou o método catártico, mas per-
cebeu queos conteúdos que haviam causado o trauma poderiam aparecer 
por meio de uma simples sugestão ao mesmo tempo em que colocava as 
suas mãos na cabeça da paciente. No entanto, Freud não deixou de ressal-
tar que havia também uma dificuldade em se aproximar de determinadas 
memórias, o que ele chamou de resistência ao explicar que havia forças 
opositoras por parte do paciente que precisavam ser ultrapassadas para 
que a cura fosse realizada. O advento dessa concepção veio acompanhada 
do surgimento de outro conceito importante para o rumo de suas descober-
tas, o de defesa. Este, no capítulo IV do livro Estudos sobre Histeria (1893-95), 
intitulado é explicado por Freud da seguinte forma: “Ante ao eu do pacien-
te havia aparecido uma representação que se mostrou ser inconciliável a 
qual convocou uma força de repulsão por parte do eu cujo fim era a defesa 
frente a essa representação inconciliável” (BREUER; FREUD, 1893-95/1996, p. 
276). Daí que as observações clínicas de Freud tiveram participação decisiva 
para que ele conseguisse estabelecer os novos conceitos para amarrar a sua 
visão acerca do psiquismo. Claro que também precisou emprestar conceitos 
de outras teorias anteriores à dele, mas o que foi emprestado teve de ser 
remodelado para se ajustar à psicanálise.
 6
Enquanto Freud e Breuer trabalharam juntos, eram inevitáveis discussões 
metodológicas. Breuer, como adepto do método catártico, aplica isso às suas 
pacientes, já Freud questionava sua funcionalidade. Tornou-se necessário na-
quele momento a construção de certa concepção de mente que embasasse 
as suas hipóteses clínicas. No período em que Freud se mudava da universidade 
para o hospital, Breuer já dava os primeiros passos para o entendimento de que 
a etiologia da histeria estaria no psiquismo e não em localizações orgânicas. Por 
meio do tratamento da paciente que ficou conhecida como Srta. Anna O., inau-
gurou um método que ficou conhecido como método catártico, o qual visava 
a uma “purgação” (catharsis), uma descarga adequada dos afetos patogênicos 
(LAPLANCHE; PONTALIS, 1981, p. 60).
O método catártico de Breuer diz respeito à recordação de eventos traumáti-
cos para o sujeito, em estado hipnoide através da fala. Ao falar sobre o even-
to do trauma, revivendo as circunstâncias em que o sintoma apareceu, revi-
vendo esse evento, diminuíam-se os sintomas, observou Breuer. Recordando 
o evento em que o sintoma apareceu pela primeira vez, normalmente um 
evento com carga emocional, que não chegava à consciência, ou seja, não 
era externalizado, ocorria a diminuição ou a exclusão total dos sintomas. É 
comum que essas memórias saturadas por traumas pareçam como uma força 
inconsciente. O processo de reviver as emoções durante a verbalização, fa-
zendo-as saírem do “escondido”, foi denominado de catarse por Breuer. Essas 
vivências carregadas de emoções, uma vez sendo negativas e jogadas para o 
inconsciente, tem seu afeto reprimido, e esse afeto reprimido se transforma 
em sintomas físicos. E esses sintomas desaparecerão se ocorrer a Ab-reação 
(APPIGNANESI; ZARATE, 2012).
Freud não continuou utilizando o método catártico de Breuer, pois ele começou 
a se indagar a respeito de algumas questões da histeria, como: O que levava 
pessoas a esquecerem momentos importantes da vida, e o que causaria convul-
sões epilépticas em pessoas que não tinham epilepsia, percebendo, assim, que 
mesmo com a hipnose, depois que os pacientes acordavam, os sintomas retor-
navam. Freud começou a pensar sobre uma razão psicológica de origem sexual 
para a histeria, e relembrou a origem traumática a que Charcot se referia. Ele 
indagava-se sobre existir uma origem sexual para os sintomas da histeria. Ele já 
estava adotando o método da Associação Livre, método que se apoiava na fala 
livre do paciente, sem intercorrência do analista, uma técnica bastante revolucio-
nária para a época. Para além da clínica, a histeria possibilitou um olhar inovador 
sobre a feminilidade.
 7
Os questionamentos de Freud o fizeram abandonar o método catártico. Ele 
se perguntava se toda ideia desagradável era reprimida, porque essas ideias 
seriam traumáticas. Como queria abandonar o método da hipnose, Freud co-
meçou a pensar numa maneira de chegar nesses eventos inconscientes sem 
a utilização dela. O ponto de partida para chegar na associação livre foi a 
dificuldade de Freud de utilizar a hipnose com uma de suas pacientes, Miss 
Lucy R. Então, Freud começou a utilizar a técnica da pressão, utilizada tam-
bém pelo médico Bernheim. O método da pressão consistia em pressionar a 
mão sobre a testa do paciente e lhe fazer perguntas todas as vezes em que 
o cliente desse respostas imprecisas na sessão. Os pacientes se deitavam no 
divã e eram submetidos a esse alto nível de concentração, assim que Freud 
denominou. Porém, com o passar do tempo, Freud percebeu que suas per-
guntas interferiam diretamente nas respostas dos pacientes, e que trazer as 
lembranças à consciência não era suficiente. Então, Freud passou a utilizar o 
método da associação livre, que era simplesmente a fala livre durante a ses-
são, sem intercorrências ou censuras, para que o próprio paciente conduza o 
analista até o que está reprimido. 
Freud, observando a resistência vinda de seus pacientes ao abordar determi-
nados assuntos, começou a introduzir a sexualidade nas causas dos sintomas 
histéricos e neuróticos. Trazendo à tona a ideia de que as emoções reprimidas 
são ligeiramente ligadas a experiências sexuais. É assim que se iniciam as pes-
quisas e os estudos de Freud sobre a sexualidade, bem como a construção de 
sua etiologia neurótica, e, assim, após diversas experiências em seu consultório, 
Freud criou a Teoria da sedução, que diz respeito à base das memórias repri-
midas terem, em sua origem, algum aspecto de sedução ou assédio sexual por 
um adulto na criança. Essa experiência de trauma vivida na infância pode gerar 
sintomas histéricos quando é chegada a puberdade.
Saiba Mais
A ab-reação é a maneira de liberar as emoções reprimidas 
que estão ligadas a um trauma, anulando, assim, seus sinto-
mas. A ab-reação diz respeito também a identificar os even-
tos do passado do sujeito que geraram aqueles sintomas 
presentes, os sintomas histéricos. Tempos depois, Freud vai 
observar que existiam entraves no processo de ab-reação, 
que depois chamou de “resistências”. As reações do sujeito 
perante acontecimentos da vida liberam os afetos que aquela 
experiência carrega, caso não haja essa reação, o afeto segue 
ligado a esse trauma, e a lembrança disso é o que dá origem 
aos sintomas histéricos.
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Sonhos e Inconsciente
A técnica de análise dos sonhos proposta por Freud passa pela égide da associação 
livre (FREUD, 1913), a qual será explanada ao longo do trabalho. Não se trata de 
interpretar o conteúdo onírico a partir de um padrão preestabelecido de signifi-
cantes e significados, ao contrário, a técnica de interpretação do sonho, conforme 
Freud, leva em consideração o sujeito que sonha, suas peculiaridades e idiossin-
crasias. A teoria sobre os sonhos já foi objeto de revisão/ampliação por parte do 
próprio Freud (1920), o qual, em seu texto Além do Princípio do Prazer, observa que 
os sonhos de pessoas traumatizadas por guerras e que têm pesadelos constantes 
não obedecem à função realizadora de desejos. E dessa maneira, Freud admite 
que pode haver novas possibilidades aos sonhos, além do princípio do prazer. 
A compreensão formal acerca dos conteúdos, simbolismos e funcionamen-
to do inconsciente, Freud apresenta em seu texto A interpretação dos Sonhos 
(1899/1900), resultado de um extenso processo de estudos e de autoanálise. 
Estudiosos acreditam que A interpretação dos sonhos foi o livro que iniciou a 
Psicanálise, atribuindo ao sonho a realização de um desejo inconsciente e o ca-
minho de ingresso ao inconsciente. 
Sobre a formação dos sonhos, pode-se dizer que parte dos traumas reprimidos 
que tentam retornar à consciência e são barrados pela resistência resultamnos 
sintomas neuróticos e nos sonhos. O sonho modelo para os estudos sobre as 
hipóteses de Freud foi A injeção de Irma. A partir dali, Freud confirmava que os so-
nhos eram representações de desejos recalcados de origem sexual (LIMA, 2019). 
Após a morte de seu pai, Freud deu início à sua autoanálise, tendo como amigo 
próximo Fliess, o qual enviava cartas relatando suas descobertas sobre sua pró-
pria análise e sonhos envolvendo seu pai. Foi através dos próprios sonhos que 
Freud se dá conta da presença de um conflito paterno, o que em breve originará 
a teoria do Complexo de Édipo para a Psicanálise. Lembrando que, nesse tempo, 
Freud já lançava sua teoria sobre o aparelho psíquico, falando sobre consciente, 
pré-consciente e inconsciente, pois foi a partir dos sonhos que Freud definiu a 
estrutura chamada de Primeira Tópica (PAIM FILHO, 2008).
Os sonhos são parte da vida humana desde os primórdios e despertam a curiosi-
dade de muitas pessoas, haja visto a vasta quantidade de materiais já produzidos 
em distintas culturas sobre o tema. Já foram utilizadas diferentes formas de in-
terpretação dos sonhos, como, por exemplo, a mitologia grega (FREUD, 1901), os 
códigos chamados de chaves dos sonhos (BIRMAN, 2001), as interpretações reli-
giosas, entre outros. Tais modelos interpretativos diferem, contudo, do método 
proposto por Freud (1901), pois enquanto os primeiros procuram apresentar fer-
ramentas universais que possam decifrar quaisquer representações oníricas, o 
 9
método criado por Freud é analítico e leva em consideração o sujeito que sonha 
(RIBEIRO; TOLEDO, 2020). A respeito da diferença entre a técnica empregada por 
Freud e as demais existentes até então, é interessante trazer ao debate aponta-
mentos que comparam alguns dos métodos anteriores ao mito de Procusto. Tal 
figura mítica era um salteador que fingia ser receptivo e hospitaleiro para com 
viajantes que se perdiam na floresta. Ele os seduzia a se hospedarem em sua casa 
para que fugissem dos perigos externos, mas mostrava-se afinal como o próprio 
algoz dos viajantes. Procusto os colocava em uma cama de ferro e os amarrava a 
fim de medir o comprimento do viajante comparando-o ao da cama. E, dessa ma-
neira, caso o forasteiro fosse maior que a cama, o suposto anfitrião cortava o que 
sobejava. E, caso fosse menor, alongava seu corpo à força. O mito tem um tom 
aterrorizador, contudo esse não é precisamente o foco em questão. É importan-
te compreender que, na verdade, é necessário olhar para os métodos que têm 
por finalidade conformar o que está sendo analisado a uma medida, que tem por 
intuito validar uma questão a partir de um conjunto de códigos que servem como 
um referencial, aos quais o objeto da análise deve ser submetido, comparado e 
validado ou não. O que é distinto do intuito da psicanálise, pois esta requer que 
o analista considere o sujeito em análise, o que o sonho em questão representa 
para aquela pessoa, articulado à sua história de vida e às suas problemáticas e 
fantasias inconscientes e não a partir de uma série de códigos preestabelecidos. 
Chegando à conclusão de que o funcionamento dos sonhos fornece “provas” do in-
consciente, são processos primários, ou seja, atemporais, não se atém à realidade, 
buscam a realização de desejos, porém, como os conteúdos dos sonhos são aqueles 
reprimidos, indesejados pela consciência, eles aparecem disfarçados, para que pas-
sem pela censura. A partir daí vamos diferenciar os conteúdos latentes dos conteú-
dos manifestos. O conteúdo latente é aquele que é oculto, e o conteúdo manifesto 
é aquele que é lembrado e falado. O conteúdo latente (que na maioria das vezes 
contém o desejo sexual) só aparece no sonho através de conteúdo manifesto, dis-
farçado, codificado, por meio dos símbolos. O conteúdo latente utiliza mecanismos 
para produzir os sonhos, como o processo de deslocamento e condensação.
Saiba Mais
O Conceito de Sonho Presente no Dicionário de Psicanálise diz:
Fenômeno psíquico que se produz durante o sono, o sonho é 
predominantemente constituído por imagens e representações 
cujo aparecimento e ordenação escapam ao controle conscien-
te do sonhador (ROUDINESCO; PLON, 1998, p. 722).
 10
De acordo com Freud, o inconsciente, como objeto de investigação psicanalí-
tica, é definido como uma estrutura psíquica em que permanecem conteúdos 
reprimidos à condição de latência. O modo de funcionamento desse objeto da 
Psicanálise utiliza-se de um processo de repressão, em que consiste no recalca-
mento de um episódio traumático, evitando que ele chegue à consciência, segun-
do Garcia-Roza (p. 38, 1992): “ao afirmar que o inconsciente pensa, Freud desa-
loja a consciência de seu lugar de centro, alterando assim o privilégio conferido 
aos pensamentos conscientes”.
A Psicanálise valoriza o inconsciente, mas também suas formações, entendendo 
que o âmbito psíquico transcende o corpo físico, estando assim localizada a sub-
jetividade do sujeito. Por vezes, a suposição da psique inconsciente é contestada, 
portanto, vale ressaltar que esta suposição é necessária, pois “os dados da cons-
ciência apresentam diversas lacunas” (FREUD, 1996, p. 99). 
As formações do inconsciente são momentos em que este “sai” do recalcamento 
sob outras formas, como sintomas, atos falhos, chistes, lapsos e sonhos. Os sin-
tomas apresentam-se a partir do mecanismo de ab-reação que ocorre da dimen-
são psíquica para a dimensão física. O ato falho surge quando a fala falha, sem o 
sujeito ter a percepção do ato, havendo troca de palavras, negações/afirmações, 
por exemplo. Quando ocorre a apresentação dos chistes no discurso do indiví-
duo, nota-se em uma brincadeira que, inconscientemente, tem um fundo de ver-
dade. Já os lapsos são os esquecimentos, seja de nomes próprios como de ações. 
Sobre os sonhos, compreende-se na realização do desejo que emerge do incons-
ciente enquanto dormimos.
É no Ics que Freud localiza o impulso à formação dos sonhos. O desejo incons-
ciente liga-se a pensamentos oníricos pertencentes ao Pcs/Cs e procura uma 
forma de acesso à consciência, graças à diminuição da censura durante o sono 
(GARCIA-ROZA, 1992). 
No estado de vigília, o aparelho psíquico opera em sentido progressivo-re-
gressivo. Sua atividade psíquica inicia-se em uma extremidade perceptiva a 
partir de estímulos, ficando a cargo dos sistemas mnêmicos armazenarem 
e associarem tais traços – cadeias de pensamentos ativas no psiquismo –, 
chegando à extremidade motora através de ações voluntárias e conscientes 
do indivíduo. No entanto, enquanto na vigília o processo ocorre na direção 
progressiva, tanto nos sonhos como nas alucinações, a excitação percorre o 
caminho contrário. 
 11
A Clínica de Freud: 
A Cura pela Fala
Até alcançarmos o que é concebido hoje como psicanálise e todas as suas ver-
tentes, o processo de construção da clínica freudiana nos apresenta, sob a pers-
pectiva da inovação e quebra de paradigmas para o tratamento das neuroses, 
uma tentativa de se diferenciar dos métodos e técnicas hegemônicas e por vezes 
arcaicas. O próprio Freud se aproximou e se desfez de teorias que antecederam 
a clínica psicanalítica que o acompanharam no início dos seus estudos, sendo a 
hipnose e o método catártico de Breuer um dos mais importantes para os pri-
mórdios do pensamento psicanalítico. 
Da mesma forma, é inevitável não conceber que a histeria foi o grande destaque 
da clínica freudiana e o quanto o trabalho com as suas pacientes histéricas pos-
sibilitou a Freud uma compreensão maior do funcionamento psíquico. Antes, 
seguindo o raciocínio breueriano, Freud trabalhava sobre o prisma de que a 
hipnose possibilitava a ab-reação de afetos, ou seja, a remissão de sentimentos 
que derivavam de traumas e desencadeavam as manifestações histéricas no 
sujeito. Foi através do caso clínico de Breuer, conhecido como Anna O., que os 
conceitos de talking cure (cura pela fala) e de chimney sweeping (limpeza de cha-
miné) puderam ser vistos pela primeira vez. Assim, a hipnoseera o que poderia 
facilitar o acesso a essa memória traumática e patogênica. Foi utilizando-as em 
inúmeras de suas pacientes que Freud certamente chegou a alguns impasses: 
percebeu na hipnose a sua limitação como técnica e a ineficácia em algumas 
pacientes, o que o fez romper com método e delinear, a partir disso, “noções 
extremamente relevantes, como resistência, recalcamento, transferência e de-
fesa” (BARBOSA, 2014, p. 112).
No entanto, esse caminho não seria possível se Freud não se desse conta de uma 
das maiores ferramentas do processo analítico: a fala. Foi escutando suas pa-
cientes histéricas que Freud pôde tirá-las do local da loucura, como era designa-
do pelo olhar médico da época, bem como possibilitou que elas pudessem usar 
a palavra pela primeira vez para falar sobre os seus afetos e sobre si mesmas, a 
partir da retirada importante do consciente/racionalidade como lugar de verda-
de absoluta e ascensão do inconsciente.
Por meio da fala, é dada ao paciente a oportunidade de se conectar 
com ideias recalcadas que produzem os sintomas atuais. Assim, ele 
passa a ter uma nova compreensão desta memória. Supõe-se que, 
na medida em que o paciente mantém ideias recalcadas de eventos 
ligados ao passado, este passado torna-se presente, uma vez que é 
 12
constantemente atualizado através dos sintomas. Quando a reação é 
reprimida, o afeto permanece ligado à lembrança e produz o sintoma.
FOCHESATTO, 2011, p. 169
Em Estudos sobre a Histeria, de 1835, Freud vai trabalhar a sua experiência dentro 
do método catártico que desenvolvia com Breuer, inclusive com que divide a au-
toria da referida obra. Enquanto Breuer nos apresentava o caso Anna O. (Bertha 
Pappenheim), atendido por ele 14 anos antes da sua escrita, Freud nos apresen-
ta o caso da suíça Emmy von N. (Fanny Moser), que o fez se deparar pela primei-
ra vez com a limitação da hipnose e a importância que o discurso livre da sua 
paciente poderia ofertar. A fala sem interrupções foi uma solicitação da própria 
Emmy ao irritar-se com as interrupções de Freud durante o seu discurso, o que 
inaugurou, naquele instante, o ponto de ancoragem para a psicanálise freudiana 
(SOUSA, 2018). Logo, Freud passou a perceber que cabia a esta fala um local sem 
censura, bem como uma escuta que atuasse da mesma forma e possibilitasse 
uma investigação superior (BARBOSA, 2014), nascendo, portanto, o que ficará co-
nhecida como a regra fundamental da psicanálise e que tem como pressuposto 
a associação livre de ideias.
Nesse aspecto, a ideia de cura se dá como uma experiência advinda da função 
da fala, mais especificamente da liberdade que essa fala pode adquirir no espaço 
analítico, sem interrupções, julgamentos, censuras e qualquer caracterização de 
certo ou errado. A partir disso, Freud passa a dedicar a sua escuta pela narração 
das histórias dessas mulheres através do próprio relato delas, atendo-se desde 
os significantes que traziam em suas falas até as dificuldades que apresentavam 
para trazer ou recordar-se de determinado conteúdo (resistência) (SOUSA, 2018). 
Dessa forma, o modo associativo que fazia essas falas deslizar de forma espon-
tânea indicava a Freud a presença de manifestações inconscientes por vezes im-
perceptíveis até para as próprias pacientes, mas, de toda forma, com a evolução 
do seu manejo, já não faziam a precisão do uso da hipnose para que pudessem 
acessar aquela memória esquecida (recalcada). Então passou, como bem descre-
ve, a solicitar que suas pacientes se deitassem, fechassem os olhos e falassem 
tudo o que estivesse em mente. Enquanto ele, na posição de atenção uniforme-
mente suspensa, passa a escutá-las apropriadamente.
A Associação Livre
A eficácia de uma forma de tratamento psicoterapêutico de orientação psicana-
lítica seria justificada não apenas em termos pragmáticos pelo sucesso em seus 
resultados, mas, sobretudo, em suas formulações e reformulações teóricas e téc-
nicas com vistas a uma adequação mais consistente aos fatos clínicos. A própria 
 13
definição dada por Freud (1923/2011c) deixa claro: a psicanálise consiste em um 
meio de investigar processos psíquicos dificilmente acessíveis de outra forma; um 
método de tratamento, ou seja, um método terapêutico; e uma disciplina científi-
ca nova composta por conhecimentos psicológicos teóricos alcançados por esta 
forma mesma de investigação. Na esteira de Freud, Nogueira (2004) considera 
que estes três aspectos – tratamento, pesquisa e teoria – encontram-se sempre 
unidos. Concordando com ele, Tavares e Hashimoto (2003) relembram que a psi-
canálise é, sim, fundada em sua prática clínica, em seu fazer; todavia, também 
surge da exaustiva elaboração teórica freudiana denominada metapsicologia.
Cabe esclarecer aqui no que consiste o termo metapsicologia utilizado por Freud. 
Trata-se do nome dado por ele ao arcabouço teórico que desenvolveu para des-
crever os fenômenos mentais a partir de três dimensões complementares entre 
si: tópica, dinâmica e econômica. A dimensão tópica corresponde ao lugar psíqui-
co em que as experiências psíquicas estão ocorrendo e sendo registradas e os 
tipos de representação que estão em pauta. A dimensão dinâmica nos diz sobre 
o tipo de conflito que os registros e as representações correspondentes estabe-
lecem entre si. Por fim, a dimensão econômica corresponde à intensidade com 
que cada representação é investida (BIRMAN, 2001).
Hermann (2021, p. 18) elenca três esferas, a saber, processo, técnica e teoria 
e afirma que as três atuam reciprocamente. Para ele, processo é a encarna-
ção do método (caminho para um fim) em uma situação clínica, está ligado ao 
estilo de cada analista e pode variar; a técnica – a associação livre e a atenção 
flutuante – é a condução do processo em conformidade com o método, en-
globa aspectos dos mais abstratos aos mais concretos, como a interpretação 
que leva em conta a transferência, a interpretação centrada no ponto de an-
gústia, o uso do divã, o tempo de duração da sessão etc., os quais também 
são passíveis de mudança. Por fim, as teorias são generalizações organizadas 
oriundas das interpretações do analista e, também, norteadoras das próximas 
interpretações. Assim, técnica, teoria e processo são três esferas que se rela-
cionariam mutuamente: a teoria organiza a técnica, que orienta o processo, 
que origina a teoria.
Todavia, pode haver ou, como acredita Kupermann (2008), já existiria a suprema-
cia do discurso teórico em relação ao discurso clínico na psicanálise contempo-
rânea, não apenas na universidade, mas também nas associações psicanalíticas. 
A ênfase em um ou outro dos aspectos que constituem a psicanálise acabaria 
por abrir um abismo em que, de um lado, encontrar-se-ia um discurso apenas 
teórico, reivindicando a possibilidade de supremacia do teorismo e, de outro, um 
enfraquecimento da clínica na psicanálise (p. 68), abrindo espaço para vertentes 
terapêuticas que focam apenas na eficiência em produzir resultados.
 14
Coelho Junior (2007, p. 489), por outro lado, observa que a psicanálise está sendo 
avaliada muito mais pela obediência ao primado da técnica do que por uma ati-
tude profissional ética. Devido ao atual modo de formação profissional, no qual 
parece haver uma exigência para que a formação passe a ser uma extensão de 
práticas de consumo (p. 490) e, por isso, formar-se psicólogo parece cada vez 
mais caracterizar-se (…) como uma rota pensada em termos de uma eficácia téc-
nica, muitos aspectos teóricos são deixados de lado. Tal fato, tendo ocorrido no 
próprio processo de formação, pode se perpetuar na prática do profissional psi-
canalista. Para ele, a ideia de teoria costuma ser concebida como oposta à noção 
de técnica e esta, por sua vez, geralmente é entendida como apenas um meio de 
aplicação de um saber. Com essa oposição entre técnica e teoria, a tendência é 
que o emprego deste saber passe a ser desvinculado dos processos reflexivos 
que sustentam e orientam seu instrumento de aplicação, ou seja, sua técnica.
Dadaa dificuldade de diálogo entre leituras extremas como as apontadas, pode 
ver-se comprometida a visão integradora com que desde o início Freud definia a 
psicanálise. O desenvolvimento do presente trabalho se deu a partir da suspeita 
de que a desconsideração de certas hipóteses teóricas presentes nos alicerces 
da prática psicanalítica pode levar a incompreensões acerca de sua legitimidade, 
correndo-se o risco de deixar de lado o que a justificaria.
Todo profissional, de qualquer área de atuação, possui o compromisso ético de 
se pautar em conhecimentos construídos e legitimados ao longo da história para 
exercer sua atividade. Contudo, a produção de conhecimentos é, ou deveria ser, 
contínua – e não estagnada – e está sempre atrelada às transformações históricas, 
sociais, ambientais e também pessoais. Assim, uma prática profissional implica e 
é implicada constantemente por todo e qualquer processo de transformação, tor-
nando-se, com isso, um compromisso social, muito mais do que uma ação indivi-
dual. Nesse sentido, e voltando a discussão para o âmbito psicanalítico, torna-se 
imperativo que se discuta e se reflita sobre os tipos de resultados que a psicaná-
lise pode tentar oferecer e por quais meios serão alcançados. Trata-se de manter 
vivo um processo reflexivo que busca compreender e verificar constantemente a 
legitimidade desta prática, o motivo pelo qual ela é importante e qual o alcance de 
sua capacidade em contribuir com seus possíveis resultados. Em suma, o enlace 
entre técnica e teoria se reflete nos constantes questionamentos: por que preciso 
praticar essa técnica para alcançar resultados? Os resultados alcançados são im-
portantes? Para quem e por quais motivos tais resultados são relevantes? Atualizar 
constantemente as respostas para essas questões é o mínimo do compromisso 
ético-político profissional, e valorizar técnica e teoria, sem que preze mais por uma 
do que por outra, é o mínimo para manter esse compromisso.
Quando se fala em técnica psicanalítica, logo se pensa em associação livre, a 
tarefa que o paciente precisa cumprir, em situação de análise, de comunicar ao 
 15
psicanalista tudo o que lhe vier à mente sem qualquer restrição. Essa técnica é 
definida como a regra fundamental da psicanálise e, justamente por seu estatuto 
de regra fundamental, não se poderia falar de psicanálise, ou do método tera-
pêutico da psicanálise, sem considerar a associação livre.
Para uma aplicação ética e eficaz da técnica da associação livre, faz-se necessá-
rio, porém, compreender a razão pela qual ela possui esse estatuto de regra fun-
damental. Pretende-se mostrar neste trabalho que a justificação teórica da regra 
fundamental da psicanálise, enquanto um recurso terapêutico plausível, reside 
em alguns pressupostos claros sobre o funcionamento do psiquismo, conforme 
descrito por Freud desde os primórdios da psicanálise. Para tanto, a seção inicial 
discute o contexto em que emergem as hipóteses de Freud.
No texto que constitui os seus artigos técnicos de orientação clínica, A dinâmi-
ca da transferência, Sigmund Freud diz que a Psicanálise não tem regra, a não 
ser uma, a fundamental: a regra da associação livre. Esse é o primeiro texto 
em que utiliza essa expressão de regra fundamental, mas tal descoberta do 
método foi ocorrendo de modo progressivo, que não podemos precisar, entre 
1892 e 1898. 
Ao publicar o seu texto Um estudo autobiográfico, em 1925, Freud retoma esse 
processo de descoberta do seu método e evidencia a importância de levar a regra 
fundamental da Psicanálise como uma precondição do trabalho analítico. Ou seja, 
o trabalho inteiro que ocorre numa análise deve ser pautado pela associação livre. 
Com efeito, Freud relata como as associações das suas pacientes histéricas pas-
sam a ganhar uma dimensão no tratamento que o ajuda abandonar o método 
catártico e a sugestão que utilizava naquele contexto e fundar a Psicanálise. A as-
sociação livre então marca a fundação freudiana e estabelece a tarefa do psicana-
lista, que é investigar as manifestações dos inconscientes que surgem na fala da 
paciente. Não se trata mais de alargar a consciência, e sim buscar reter a atenção 
flutuante naquilo que está presente na fala, nos tropeços que se pode perceber 
no momento em que a paciente está em associação livre. Conforme Roudinesco e 
Plon (1998), trata-se “da regra constitutiva da situação psicanalítica, segundo a qual 
o paciente deve esforçar-se por dizer tudo o que lhe vier à cabeça, principalmente 
aquilo que se sentir tentado a omitir, seja por que razão for” (p. 649), de modo que 
um pós-freudiano como Ferenczi, numa conferência que expõe o seu método, afir-
ma: “Todo o método psicanalítico apoia-se na ‘regra fundamental’ formulada por 
Freud, ou seja, a obrigação para o paciente de comunicar tudo o que lhe vem ao 
espírito no decorrer da sessão de análise” (FREUD, 1913). 
Em sua obra A interpretação dos sonhos, Freud nos ajuda a entender melhor 
como essa regra é importante no processo analítico a partir da sua experi-
ência clínica:
 16
Meus pacientes assumiam o compromisso de me comunicar todas as 
ideias ou pensamentos que lhe ocorressem em relação a um assunto 
específico […]. É necessário insistir explicitamente para que renuncie 
a qualquer crítica aos pensamentos que perceber. Dizemos-lhe, por-
tanto, que o êxito da Psicanálise depende de ele notar e relatar o que 
quer que lhe venha à cabeça, e de não cair no erro, por exemplo, de 
suprimir uma ideia por parecer-lhe destituída de sentido.
FREUD, 1900, p. 135-136
Ou seja, a ideia de que a paciente busque eliminar certa seleção de pensamen-
tos de modo voluntário, pois aí estão em jogo todos os processos de resistências 
próprios aos mecanismos de defesa agenciados pelo eu para que o material re-
calcado no inconsciente não se manifeste. Apesar de não haver liberdade com-
pleta, o esforço é que, a partir da transferência, cada vez mais se torne conscien-
te o complexo patogênico presente no inconsciente. 
Assim, Freud discute as orientações da sua técnica tendo em vista evitar todo 
tipo de mecanização na condução do processo de análise, pois cabe ao analis-
ta ter uma escuta flutuante, sem privilegiar previamente qualquer aspecto ou 
elemento do discurso proveniente da fala da pessoa analisada. O analista deve 
deixar a sessão fluir livremente tendo em vista que aí, nesse momento, está em 
jogo a confrontação da paciente com o seu inconsciente.
De maneira bastante clara, no texto Sobre o início do tratamento (1913), Freud 
precisa o que fala para as suas pacientes: 
Uma coisa a mais, antes que você comece. O que vai me dizer deve di-
ferir, sob determinado aspecto, de uma conversa comum. Em geral, 
você procura, corretamente, manter um fio de ligação ao longo de 
suas observações e exclui quaisquer ideias intrusivas que lhe possam 
ocorrer, bem como quaisquer temas laterais, de maneira a não diva-
gar longe demais do assunto. Neste caso, porém, deve proceder de 
forma diferente. Observará que, à medida que conta coisas, irão lhe 
ocorrer diversos pensamentos que gostaria de pôr de lado, por causa 
de certas críticas ou objeções. Ficará tentado a dizer a si mesmo que 
isto ou aquilo é irrelevante aqui ou inteiramente sem importância, 
ou absurdo, de maneira que não há necessidades de dizê-lo. Você 
nunca deve ceder a estas críticas, mas dizê-lo apesar delas […]. Assim 
diga tudo o que lhe passa pela mente. 
FREUD, 1913, p. 149-150
Por sua vez, ao tratar desse tema no texto A direção do tratamento e os princípios de seu 
poder (1985) Jacques Lacan, ao retomar e complementar Freud, vai chamar atenção para 
 17
esse processo de associação livre como regra de ouro da análise. Para ele, não cabe aos 
analistas se ocuparem do ego, dos mecanismos de defesa ou resistência, mas manter-se 
em atenção àquilo que se manifesta enquanto fratura, fissura e equívoco na fala. 
É perceptível que Freud operou uma série de modificações no interior de sua 
obra em relação a conceitos, formulaçõesmetapsicológicas e orientação de ma-
nejo do processo analítico. Todavia, a discussão em torno da associação livre se 
manteve quase inalterada, por se tratar justamente da regra fundamental que 
possibilita o acesso ao inconsciente, o material que faz com que a Psicanálise se 
distinga de outras abordagens do psiquismo e marque a sua diferença no inte-
rior das práticas clínicas da cultura ocidental.
Reflita
Não cabe à Psicanálise um lugar cartesiano, é o que afirma Gar-
cia-Rosa (1982), em sua obra elementar Freud e o inconsciente, 
de 1936. A Psicanálise não se trata de um construto exclusiva-
mente racional e metódico, pelo contrário, ela produz um ponto 
de vista que desloca a razão e a consciência de uma representa-
ção quase sagrada que possuía no campo científico e filosófico. 
Nas palavras do autor, a Psicanálise não possui um lugar pree-
xistente, pois, apesar de beber de fontes diversas dos saberes 
voltados para a concepção de homem, este foi um filho gerado 
de forma solo para Freud. É através do grande conceito de In-
consciente que esse filho dá seus primeiros passos para uma 
forma inaugural de entender o sujeito; este sujeito, enquanto 
ser singular, e a Psicanálise, como um campo teórico e prático 
que se torna “uma das práticas mais eficazes de escuta do dis-
curso individual” (GARCIA-ROSA, p.88, 1992).
É perceptível a constatação de que houve uma mudança de paradigma quan-
do Freud se inclinou a buscar explicações psíquicas em vez de anatômicas. 
Apontamos que isso permitiu que ele arquitetasse a sua própria concepção de 
mente, a qual lhe rendeu uma disciplina autônoma e pretensiosamente científica 
que, por sua vez, abrangeu um constructo original como o do Inconsciente. Em 
seguida, procuramos ilustrar como essa concepção de mente poderia justificar a 
sua técnica de escutar os pacientes, que foi quando dissemos que, para Freud, a 
mente era dividida e que por essas divisões passavam as representações-meta, 
as quais estavam associadas e eram advindas de uma raiz patogênica incons-
ciente. Trouxemos, depois, a ideia de que essas representações-meta faziam 
parte do que Freud considerou como os dois pilares da psicanálise e apontamos 
como estes se sustentavam pela ideia de sobredeterminação. Para finalizar, gos-
taríamos de apontar outra peculiaridade em relação à técnica da psicanálise, que 
 18
somente pode ser apresentada após a introdução do conceito de associação 
livre. Trata-se da proposta de que essa técnica tem um modo singular de ser 
suspicaz. Isto é, por entender que a etiologia das patologias não se encontra na 
consciência, o seu método investigativo é o de duvidar. Para Freud, uma analogia 
entre o analista e o arqueólogo se faz possível porque ambos estão à procura 
do que está “soterrado”. Ambos trabalham cautelosamente para não danificar 
o que pode vir a encontrar e também não sabem exatamente o que lhes espe-
ram. Sabem apenas que diante deles está arquivada a história de seus objetos 
de estudo, em uma cronologia inversa e estratificada (FREUD, 1896). Poderíamos 
dizer, no entanto, que, além disso, o analista ainda tem alguns obstáculos parti-
culares para lidar. Referimo-nos ao segundo pilar da técnica apontado por Freud, 
que diz que as representações-meta conscientes podem não ser as que levam ao 
núcleo da patologia. Assim, semelhante ao fenômeno de refração estudado pela 
física, em que a luz sofre um desvio em sua velocidade e percurso quando passa 
entre dois meios diferentes, as representações-meta lançam um desafio ao ana-
lista quando, ao atingirem a consciência, escorregam em associações menos in-
tensas e desviam-se de sua rota originária. Seguir os seus vestígios, então, se 
torna o seu encargo. Mediado por uma “atenção uniformemente flutuante”, o 
analista sabe que a técnica da Psicanálise não pode priorizar nada de imediato, 
pois entende que, diante dos mecanismos psíquicos de defesa, resistência etc., 
as verdades do paciente demoram a se revelar. Esta seria a segunda peculiari-
dade de sua técnica, a ideia de que: “A Psicanálise é desconfiada, e com razão” 
(FREUD, 1900, p. 511). Uma proposta de tratamento que não trabalha com seda-
tivos e psicotrópicos, que não se satisfaz com o que se apresenta na superfície 
dos sintomas, mas que coloca o paciente em contato com o seu passado, com 
suas contradições e com suas limitações.
MATERIAL COMPLEMENTAR
LIVROS
Fundamentos da Psicanálise de Freud a Lacan (Vol. 3)
JORGE, M. A. C. Fundamentos da psicanálise de Freud a Lacan (Vol. 
3): A Prática Analítica. Rio de Janeiro: Zahar, 2017.
Publicações Pré-psicanalíticas e Esboços Inéditos (1888)
FREUD, S. In: Edição standard brasileira das obras psicológicas 
completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago; 1996. v. 1, p. 75-
94. 
Uma Breve Descrição da Psicanálise (1924 [1923])
FREUD, S. In: Edição standard brasileira das obras psicológicas 
completas de Sigmund Freud, v. 19. Rio de Janeiro: Imago; 1996; p. 
213-236. 
Freud e o Inconsciente
GARCIA-ROZA, L. A. Freud e o inconsciente. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.
Uma Nota Sobre a Pré-história da Psicanálise (1920)
FREUD, S. In: Ediçao standard brasileira das obras psicológicas 
completas de Sigmund Freud, v. 18. Rio de Janeiro: Imago; 1996. p. 
271-273.
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Psicol. Cienc. Prof., Brasília, DF, v. 29, n. 1, p. 74-87, 2009. Disponível em: . Acesso em: 
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BARBOSA, M. T. Freud e a criação da técnica psicanalítica. Ayvu: Rev. Psicol., Niterói, 
RJ, v. 1, n. 1, p. 110-125, 2014. Disponível em: . Acesso em: 16/03/2023.
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Comunicação Preliminar. In: Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: Edição 
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