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A Clínica em Freud: Introdução a Aspectos Técnicos e Metodológicos em Psicanálise Conteudista Prof. Me. Hugo Tanizaka Revisão Textual Esp. Jéssica Dante 2 OBJETIVOS DA UNIDADE Atenção, estudante! Aqui, reforçamos o acesso ao conteúdo on-line para que você assista à videoaula. Será muito importante para o entendimento do conteúdo. Este arquivo PDF contém o mesmo conteúdo visto on-line. Sua dis- ponibilização é para consulta off-line e possibilidade de impressão. No entanto, recomendamos que acesse o conteúdo on-line para melhor aproveitamento. • Introduzir os aspectos iniciais da hipótese freudiana acerca da prática clínica sobre o inconsciente; • Apresentar as principais técnicas e métodos utilizados por Freud no iní- cio de sua prática; • Instrumentalizar os alunos com recursos teóricos para refletirem a atua- ção clínica em psicanálise com base na teoria freudiana. 3 Histeria, Inconsciente e Sigmund Freud Na Grécia Antiga, a histeria significava “Matriz”, “Útero”, e era considerada uma doença do organismo, de origem uterina, que acometia o corpo da mulher. Por muitos anos, a histeria foi vista dessa forma, uma doença animalesca, uma de- sordem do útero. Na Idade Média, quando a Igreja passou a fazer diagnósticos de histeria, eram atribuídos aos sintomas da histeria a origem de desejo sexual e, por conta disso, um pecado ligado ao demônio. Portanto, a responsabilidade pela histeria era demoníaca, ou seja, o demônio entrava no corpo das mulheres e provocava os sintomas. Por muito tempo as histéricas eram consideradas bru- xas e feiticeiras, e por esse motivo essas mulheres eram perseguidas, queimadas e, muitas vezes, torturadas. Acreditava-se que somente as mulheres eram aco- metidas pelos sintomas da histeria, cujos sintomas eram convulsões, perda de sentidos, alucinações, entre outros. Foi somente no século XVIII que a histeria passou dessa conotação demoníaca para uma conotação científica, convertendo-se em uma doença dos nervos. Com a Revolução Científica na Europa, os estudiosos, doutores e especialistas da época, tratavam a histeria como uma “irritação” dos órgãos sexuais femini- nos, que era tratado com procedimentos cirúrgicos, deixando assim de atribuir “castigos” religiosos ao seu tratamento. Outra conotação dada à histeria era o simples fingimento das mulheres, tendo assim conotação imaginária. Porém, não tinha deixado ainda de ser uma afetação do útero. Com o surgimento de uma sociedade mais industrial, as hipóteses sobre o que seria a histeria foram se dividindo. Com a demonização da histeria sendo menos utilizada, duas con- cepções se tornaram mais fortes na época. De um lado, a histeria teria origem cerebral e seria uma doença fisiológica, e, de outro, seria uma doença psíquica (ROUDINESCO; PLON, 1998). Vídeo Através de um Espelho. Em conferência intitulada Linhas de progresso na terapia psicanalítica (1917a/1976), Freud revela que a proposta psicanalítica não se apresenta como um saber fe- chado e acabado e que é preciso que se esteja atento às imperfeições para aprender mais e “alterar os nossos métodos” (FREUD, 1917a/1976, p. 201). Por http://www.google.com https://www.youtube.com/watch?v=BHpOrEl42rE 4 outro lado, o autor destaca, no texto Uma dificuldade no caminho da Psicanálise (1917b/1976), as resistências à teoria psicanalítica. Nesse texto, Freud apre- senta a célebre tese de Haeckel (ASSOUN, 1983) sobre as feridas narcísicas da humanidade e acrescenta a Psicanálise como o terceiro golpe nesse narcisis- mo, ao afirmar não ser a consciência senhora em sua própria casa. Com isso, Freud anuncia a permanente posição de estrangeiridade da Psicanálise. O discurso psicanalítico apresenta uma posição de questionamento e de crítica em relação ao saber instituído, no entanto, essa posição não significa uma desconexão com os temas e problemas do seu momento histórico. Ao con- trário, dialetiza permanentemente a captura totalizante que tenta silenciar o sofrimento em suas diferentes manifestações. Freud apresenta, por exemplo, o desejo de pensar mudanças nas táticas de atendimento para acolher esses sujeitos traumatizados pela Grande Guerra. Sobre a associação livre, no Vocabulário da Psicanálise, Laplanche e Pontalis (1981, p. 38) dizem que “não é possível definir uma data exata de sua des- coberta, que se deu de modo progressivo entre 1892 e 1898, e por diversos caminhos”. Não houve um texto inaugural dedicado à introdução do conceito e, portanto, esse foi sendo estabelecido de modo esparso e paulatino. São vários os escritos de Freud nesse período citado pelos autores e os assun- tos são diversos, porém é no livro Estudos sobre Histeria (1893-95), com tex- tos datados entre 1893 e 1895, que encontramos os relatos de alguns casos essenciais para a compreensão de como a psicanálise foi ganhando a sua peculiaridade, que é o seu modo de tratar as psicopatologias. Nesse livro, com seu professor e amigo Josef Breuer, Freud aventura-se em introduzir à sociedade médica de Viena algumas de suas descobertas provindas de suas experiências clínicas. No entanto, como essa obra foi resultado de quase uma década de estudos, talvez seja interessante relembrar o caminho percorrido por Freud até o momento de escrevê-lo. Quando se tornou médico, em 1881, Freud almejava ajustar a sua vida financeira para se casar. Aconselhado pelo seu mentor acadêmico, Ernst Brücke, resolveu abandonar os seus estudos na universidade e, em 1882, começou a trabalhar como um Aspirant, assistente clínico, no Hospital Geral de Viena (FREUD, 1925). Com mais dinheiro e entre alguns sucessos e insucessos nesse novo cargo, ele conseguiu, em 1885, uma bolsa para estudar no famoso Hospital da Salpêtrière em Paris. Nesse am- biente conheceu pessoalmente alguém que ele já admirava, o neurologista francês Jean-Martin Charcot, que inovava nas pesquisas sobre histeria. A hip- nose era a técnica que Charcot e seus discípulos utilizavam nas histéricas e, de acordo com eles, a etiologia dessa doença se encontraria, em última ins- tância, em localizações anatômicas. De início, Freud compartilhou dessa ideia, mas logo começou a desconfiar que tais explicações anatomistas eram limi- tadas e que as causas da histeria estariam em outro lugar – na vida psíquica. Após terminar os seus cursos, foi embora de Paris otimista e, embora Charcot 5 não compartilhasse de suas ideias acerca das neuroses, ele havia conseguido dados para desenvolver suas próprias ideias: “Eu queria desenvolver a tese de que, na histeria, as paralisias e anestesias das várias partes do corpo assu- mem correspondências com as representações comuns (não anatômicas) que os seres humanos possuem destas últimas” (FREUD, 1925, p. 13). O início da Psicanálise foi justamente quando Freud começou a olhar para as histéricas da época com outros olhos. Uma das conclusões de Freud e Breuer foi que “Os histéricos sofrem de reminiscências”, isso significa que eles so- frem de memórias desagradáveis de natureza traumática. Ainda mediado pelo uso da hipnose, o método já possibilitava a compreen- são de que havia “esquecimentos” de traumas na vida do paciente e que, caso fosse possível reencontrá-los, a histeria poderia ser tratada. Durante a década de 1880, Freud tinha o conhecimento de que havia alternativas metodológicas para sua prática clínica e não hesitou em aderir a elas. Por somar experiências com suas pacientes, surgiu a possibilidade da publicação com Breuer dos Estudo sobre Histeria (1893-95). Livro que evidencia certos avanços tanto para a concatenação de sua concepção acerca do psiquismo quanto para a chegada do método de associação livre. Um passo importante ocorreu quando, no caso da jovem conhecida como Miss Lucy, Freud perce- beu que a hipnose seria dispensável, uma vez que havia observado que por meio de uma pressão na testa de seus pacientes seria possível reencontrar a “recordação patogênica”. Não abandonou o método catártico, mas per- cebeu queos conteúdos que haviam causado o trauma poderiam aparecer por meio de uma simples sugestão ao mesmo tempo em que colocava as suas mãos na cabeça da paciente. No entanto, Freud não deixou de ressal- tar que havia também uma dificuldade em se aproximar de determinadas memórias, o que ele chamou de resistência ao explicar que havia forças opositoras por parte do paciente que precisavam ser ultrapassadas para que a cura fosse realizada. O advento dessa concepção veio acompanhada do surgimento de outro conceito importante para o rumo de suas descober- tas, o de defesa. Este, no capítulo IV do livro Estudos sobre Histeria (1893-95), intitulado é explicado por Freud da seguinte forma: “Ante ao eu do pacien- te havia aparecido uma representação que se mostrou ser inconciliável a qual convocou uma força de repulsão por parte do eu cujo fim era a defesa frente a essa representação inconciliável” (BREUER; FREUD, 1893-95/1996, p. 276). Daí que as observações clínicas de Freud tiveram participação decisiva para que ele conseguisse estabelecer os novos conceitos para amarrar a sua visão acerca do psiquismo. Claro que também precisou emprestar conceitos de outras teorias anteriores à dele, mas o que foi emprestado teve de ser remodelado para se ajustar à psicanálise. 6 Enquanto Freud e Breuer trabalharam juntos, eram inevitáveis discussões metodológicas. Breuer, como adepto do método catártico, aplica isso às suas pacientes, já Freud questionava sua funcionalidade. Tornou-se necessário na- quele momento a construção de certa concepção de mente que embasasse as suas hipóteses clínicas. No período em que Freud se mudava da universidade para o hospital, Breuer já dava os primeiros passos para o entendimento de que a etiologia da histeria estaria no psiquismo e não em localizações orgânicas. Por meio do tratamento da paciente que ficou conhecida como Srta. Anna O., inau- gurou um método que ficou conhecido como método catártico, o qual visava a uma “purgação” (catharsis), uma descarga adequada dos afetos patogênicos (LAPLANCHE; PONTALIS, 1981, p. 60). O método catártico de Breuer diz respeito à recordação de eventos traumáti- cos para o sujeito, em estado hipnoide através da fala. Ao falar sobre o even- to do trauma, revivendo as circunstâncias em que o sintoma apareceu, revi- vendo esse evento, diminuíam-se os sintomas, observou Breuer. Recordando o evento em que o sintoma apareceu pela primeira vez, normalmente um evento com carga emocional, que não chegava à consciência, ou seja, não era externalizado, ocorria a diminuição ou a exclusão total dos sintomas. É comum que essas memórias saturadas por traumas pareçam como uma força inconsciente. O processo de reviver as emoções durante a verbalização, fa- zendo-as saírem do “escondido”, foi denominado de catarse por Breuer. Essas vivências carregadas de emoções, uma vez sendo negativas e jogadas para o inconsciente, tem seu afeto reprimido, e esse afeto reprimido se transforma em sintomas físicos. E esses sintomas desaparecerão se ocorrer a Ab-reação (APPIGNANESI; ZARATE, 2012). Freud não continuou utilizando o método catártico de Breuer, pois ele começou a se indagar a respeito de algumas questões da histeria, como: O que levava pessoas a esquecerem momentos importantes da vida, e o que causaria convul- sões epilépticas em pessoas que não tinham epilepsia, percebendo, assim, que mesmo com a hipnose, depois que os pacientes acordavam, os sintomas retor- navam. Freud começou a pensar sobre uma razão psicológica de origem sexual para a histeria, e relembrou a origem traumática a que Charcot se referia. Ele indagava-se sobre existir uma origem sexual para os sintomas da histeria. Ele já estava adotando o método da Associação Livre, método que se apoiava na fala livre do paciente, sem intercorrência do analista, uma técnica bastante revolucio- nária para a época. Para além da clínica, a histeria possibilitou um olhar inovador sobre a feminilidade. 7 Os questionamentos de Freud o fizeram abandonar o método catártico. Ele se perguntava se toda ideia desagradável era reprimida, porque essas ideias seriam traumáticas. Como queria abandonar o método da hipnose, Freud co- meçou a pensar numa maneira de chegar nesses eventos inconscientes sem a utilização dela. O ponto de partida para chegar na associação livre foi a dificuldade de Freud de utilizar a hipnose com uma de suas pacientes, Miss Lucy R. Então, Freud começou a utilizar a técnica da pressão, utilizada tam- bém pelo médico Bernheim. O método da pressão consistia em pressionar a mão sobre a testa do paciente e lhe fazer perguntas todas as vezes em que o cliente desse respostas imprecisas na sessão. Os pacientes se deitavam no divã e eram submetidos a esse alto nível de concentração, assim que Freud denominou. Porém, com o passar do tempo, Freud percebeu que suas per- guntas interferiam diretamente nas respostas dos pacientes, e que trazer as lembranças à consciência não era suficiente. Então, Freud passou a utilizar o método da associação livre, que era simplesmente a fala livre durante a ses- são, sem intercorrências ou censuras, para que o próprio paciente conduza o analista até o que está reprimido. Freud, observando a resistência vinda de seus pacientes ao abordar determi- nados assuntos, começou a introduzir a sexualidade nas causas dos sintomas histéricos e neuróticos. Trazendo à tona a ideia de que as emoções reprimidas são ligeiramente ligadas a experiências sexuais. É assim que se iniciam as pes- quisas e os estudos de Freud sobre a sexualidade, bem como a construção de sua etiologia neurótica, e, assim, após diversas experiências em seu consultório, Freud criou a Teoria da sedução, que diz respeito à base das memórias repri- midas terem, em sua origem, algum aspecto de sedução ou assédio sexual por um adulto na criança. Essa experiência de trauma vivida na infância pode gerar sintomas histéricos quando é chegada a puberdade. Saiba Mais A ab-reação é a maneira de liberar as emoções reprimidas que estão ligadas a um trauma, anulando, assim, seus sinto- mas. A ab-reação diz respeito também a identificar os even- tos do passado do sujeito que geraram aqueles sintomas presentes, os sintomas histéricos. Tempos depois, Freud vai observar que existiam entraves no processo de ab-reação, que depois chamou de “resistências”. As reações do sujeito perante acontecimentos da vida liberam os afetos que aquela experiência carrega, caso não haja essa reação, o afeto segue ligado a esse trauma, e a lembrança disso é o que dá origem aos sintomas histéricos. 8 Sonhos e Inconsciente A técnica de análise dos sonhos proposta por Freud passa pela égide da associação livre (FREUD, 1913), a qual será explanada ao longo do trabalho. Não se trata de interpretar o conteúdo onírico a partir de um padrão preestabelecido de signifi- cantes e significados, ao contrário, a técnica de interpretação do sonho, conforme Freud, leva em consideração o sujeito que sonha, suas peculiaridades e idiossin- crasias. A teoria sobre os sonhos já foi objeto de revisão/ampliação por parte do próprio Freud (1920), o qual, em seu texto Além do Princípio do Prazer, observa que os sonhos de pessoas traumatizadas por guerras e que têm pesadelos constantes não obedecem à função realizadora de desejos. E dessa maneira, Freud admite que pode haver novas possibilidades aos sonhos, além do princípio do prazer. A compreensão formal acerca dos conteúdos, simbolismos e funcionamen- to do inconsciente, Freud apresenta em seu texto A interpretação dos Sonhos (1899/1900), resultado de um extenso processo de estudos e de autoanálise. Estudiosos acreditam que A interpretação dos sonhos foi o livro que iniciou a Psicanálise, atribuindo ao sonho a realização de um desejo inconsciente e o ca- minho de ingresso ao inconsciente. Sobre a formação dos sonhos, pode-se dizer que parte dos traumas reprimidos que tentam retornar à consciência e são barrados pela resistência resultamnos sintomas neuróticos e nos sonhos. O sonho modelo para os estudos sobre as hipóteses de Freud foi A injeção de Irma. A partir dali, Freud confirmava que os so- nhos eram representações de desejos recalcados de origem sexual (LIMA, 2019). Após a morte de seu pai, Freud deu início à sua autoanálise, tendo como amigo próximo Fliess, o qual enviava cartas relatando suas descobertas sobre sua pró- pria análise e sonhos envolvendo seu pai. Foi através dos próprios sonhos que Freud se dá conta da presença de um conflito paterno, o que em breve originará a teoria do Complexo de Édipo para a Psicanálise. Lembrando que, nesse tempo, Freud já lançava sua teoria sobre o aparelho psíquico, falando sobre consciente, pré-consciente e inconsciente, pois foi a partir dos sonhos que Freud definiu a estrutura chamada de Primeira Tópica (PAIM FILHO, 2008). Os sonhos são parte da vida humana desde os primórdios e despertam a curiosi- dade de muitas pessoas, haja visto a vasta quantidade de materiais já produzidos em distintas culturas sobre o tema. Já foram utilizadas diferentes formas de in- terpretação dos sonhos, como, por exemplo, a mitologia grega (FREUD, 1901), os códigos chamados de chaves dos sonhos (BIRMAN, 2001), as interpretações reli- giosas, entre outros. Tais modelos interpretativos diferem, contudo, do método proposto por Freud (1901), pois enquanto os primeiros procuram apresentar fer- ramentas universais que possam decifrar quaisquer representações oníricas, o 9 método criado por Freud é analítico e leva em consideração o sujeito que sonha (RIBEIRO; TOLEDO, 2020). A respeito da diferença entre a técnica empregada por Freud e as demais existentes até então, é interessante trazer ao debate aponta- mentos que comparam alguns dos métodos anteriores ao mito de Procusto. Tal figura mítica era um salteador que fingia ser receptivo e hospitaleiro para com viajantes que se perdiam na floresta. Ele os seduzia a se hospedarem em sua casa para que fugissem dos perigos externos, mas mostrava-se afinal como o próprio algoz dos viajantes. Procusto os colocava em uma cama de ferro e os amarrava a fim de medir o comprimento do viajante comparando-o ao da cama. E, dessa ma- neira, caso o forasteiro fosse maior que a cama, o suposto anfitrião cortava o que sobejava. E, caso fosse menor, alongava seu corpo à força. O mito tem um tom aterrorizador, contudo esse não é precisamente o foco em questão. É importan- te compreender que, na verdade, é necessário olhar para os métodos que têm por finalidade conformar o que está sendo analisado a uma medida, que tem por intuito validar uma questão a partir de um conjunto de códigos que servem como um referencial, aos quais o objeto da análise deve ser submetido, comparado e validado ou não. O que é distinto do intuito da psicanálise, pois esta requer que o analista considere o sujeito em análise, o que o sonho em questão representa para aquela pessoa, articulado à sua história de vida e às suas problemáticas e fantasias inconscientes e não a partir de uma série de códigos preestabelecidos. Chegando à conclusão de que o funcionamento dos sonhos fornece “provas” do in- consciente, são processos primários, ou seja, atemporais, não se atém à realidade, buscam a realização de desejos, porém, como os conteúdos dos sonhos são aqueles reprimidos, indesejados pela consciência, eles aparecem disfarçados, para que pas- sem pela censura. A partir daí vamos diferenciar os conteúdos latentes dos conteú- dos manifestos. O conteúdo latente é aquele que é oculto, e o conteúdo manifesto é aquele que é lembrado e falado. O conteúdo latente (que na maioria das vezes contém o desejo sexual) só aparece no sonho através de conteúdo manifesto, dis- farçado, codificado, por meio dos símbolos. O conteúdo latente utiliza mecanismos para produzir os sonhos, como o processo de deslocamento e condensação. Saiba Mais O Conceito de Sonho Presente no Dicionário de Psicanálise diz: Fenômeno psíquico que se produz durante o sono, o sonho é predominantemente constituído por imagens e representações cujo aparecimento e ordenação escapam ao controle conscien- te do sonhador (ROUDINESCO; PLON, 1998, p. 722). 10 De acordo com Freud, o inconsciente, como objeto de investigação psicanalí- tica, é definido como uma estrutura psíquica em que permanecem conteúdos reprimidos à condição de latência. O modo de funcionamento desse objeto da Psicanálise utiliza-se de um processo de repressão, em que consiste no recalca- mento de um episódio traumático, evitando que ele chegue à consciência, segun- do Garcia-Roza (p. 38, 1992): “ao afirmar que o inconsciente pensa, Freud desa- loja a consciência de seu lugar de centro, alterando assim o privilégio conferido aos pensamentos conscientes”. A Psicanálise valoriza o inconsciente, mas também suas formações, entendendo que o âmbito psíquico transcende o corpo físico, estando assim localizada a sub- jetividade do sujeito. Por vezes, a suposição da psique inconsciente é contestada, portanto, vale ressaltar que esta suposição é necessária, pois “os dados da cons- ciência apresentam diversas lacunas” (FREUD, 1996, p. 99). As formações do inconsciente são momentos em que este “sai” do recalcamento sob outras formas, como sintomas, atos falhos, chistes, lapsos e sonhos. Os sin- tomas apresentam-se a partir do mecanismo de ab-reação que ocorre da dimen- são psíquica para a dimensão física. O ato falho surge quando a fala falha, sem o sujeito ter a percepção do ato, havendo troca de palavras, negações/afirmações, por exemplo. Quando ocorre a apresentação dos chistes no discurso do indiví- duo, nota-se em uma brincadeira que, inconscientemente, tem um fundo de ver- dade. Já os lapsos são os esquecimentos, seja de nomes próprios como de ações. Sobre os sonhos, compreende-se na realização do desejo que emerge do incons- ciente enquanto dormimos. É no Ics que Freud localiza o impulso à formação dos sonhos. O desejo incons- ciente liga-se a pensamentos oníricos pertencentes ao Pcs/Cs e procura uma forma de acesso à consciência, graças à diminuição da censura durante o sono (GARCIA-ROZA, 1992). No estado de vigília, o aparelho psíquico opera em sentido progressivo-re- gressivo. Sua atividade psíquica inicia-se em uma extremidade perceptiva a partir de estímulos, ficando a cargo dos sistemas mnêmicos armazenarem e associarem tais traços – cadeias de pensamentos ativas no psiquismo –, chegando à extremidade motora através de ações voluntárias e conscientes do indivíduo. No entanto, enquanto na vigília o processo ocorre na direção progressiva, tanto nos sonhos como nas alucinações, a excitação percorre o caminho contrário. 11 A Clínica de Freud: A Cura pela Fala Até alcançarmos o que é concebido hoje como psicanálise e todas as suas ver- tentes, o processo de construção da clínica freudiana nos apresenta, sob a pers- pectiva da inovação e quebra de paradigmas para o tratamento das neuroses, uma tentativa de se diferenciar dos métodos e técnicas hegemônicas e por vezes arcaicas. O próprio Freud se aproximou e se desfez de teorias que antecederam a clínica psicanalítica que o acompanharam no início dos seus estudos, sendo a hipnose e o método catártico de Breuer um dos mais importantes para os pri- mórdios do pensamento psicanalítico. Da mesma forma, é inevitável não conceber que a histeria foi o grande destaque da clínica freudiana e o quanto o trabalho com as suas pacientes histéricas pos- sibilitou a Freud uma compreensão maior do funcionamento psíquico. Antes, seguindo o raciocínio breueriano, Freud trabalhava sobre o prisma de que a hipnose possibilitava a ab-reação de afetos, ou seja, a remissão de sentimentos que derivavam de traumas e desencadeavam as manifestações histéricas no sujeito. Foi através do caso clínico de Breuer, conhecido como Anna O., que os conceitos de talking cure (cura pela fala) e de chimney sweeping (limpeza de cha- miné) puderam ser vistos pela primeira vez. Assim, a hipnoseera o que poderia facilitar o acesso a essa memória traumática e patogênica. Foi utilizando-as em inúmeras de suas pacientes que Freud certamente chegou a alguns impasses: percebeu na hipnose a sua limitação como técnica e a ineficácia em algumas pacientes, o que o fez romper com método e delinear, a partir disso, “noções extremamente relevantes, como resistência, recalcamento, transferência e de- fesa” (BARBOSA, 2014, p. 112). No entanto, esse caminho não seria possível se Freud não se desse conta de uma das maiores ferramentas do processo analítico: a fala. Foi escutando suas pa- cientes histéricas que Freud pôde tirá-las do local da loucura, como era designa- do pelo olhar médico da época, bem como possibilitou que elas pudessem usar a palavra pela primeira vez para falar sobre os seus afetos e sobre si mesmas, a partir da retirada importante do consciente/racionalidade como lugar de verda- de absoluta e ascensão do inconsciente. Por meio da fala, é dada ao paciente a oportunidade de se conectar com ideias recalcadas que produzem os sintomas atuais. Assim, ele passa a ter uma nova compreensão desta memória. Supõe-se que, na medida em que o paciente mantém ideias recalcadas de eventos ligados ao passado, este passado torna-se presente, uma vez que é 12 constantemente atualizado através dos sintomas. Quando a reação é reprimida, o afeto permanece ligado à lembrança e produz o sintoma. FOCHESATTO, 2011, p. 169 Em Estudos sobre a Histeria, de 1835, Freud vai trabalhar a sua experiência dentro do método catártico que desenvolvia com Breuer, inclusive com que divide a au- toria da referida obra. Enquanto Breuer nos apresentava o caso Anna O. (Bertha Pappenheim), atendido por ele 14 anos antes da sua escrita, Freud nos apresen- ta o caso da suíça Emmy von N. (Fanny Moser), que o fez se deparar pela primei- ra vez com a limitação da hipnose e a importância que o discurso livre da sua paciente poderia ofertar. A fala sem interrupções foi uma solicitação da própria Emmy ao irritar-se com as interrupções de Freud durante o seu discurso, o que inaugurou, naquele instante, o ponto de ancoragem para a psicanálise freudiana (SOUSA, 2018). Logo, Freud passou a perceber que cabia a esta fala um local sem censura, bem como uma escuta que atuasse da mesma forma e possibilitasse uma investigação superior (BARBOSA, 2014), nascendo, portanto, o que ficará co- nhecida como a regra fundamental da psicanálise e que tem como pressuposto a associação livre de ideias. Nesse aspecto, a ideia de cura se dá como uma experiência advinda da função da fala, mais especificamente da liberdade que essa fala pode adquirir no espaço analítico, sem interrupções, julgamentos, censuras e qualquer caracterização de certo ou errado. A partir disso, Freud passa a dedicar a sua escuta pela narração das histórias dessas mulheres através do próprio relato delas, atendo-se desde os significantes que traziam em suas falas até as dificuldades que apresentavam para trazer ou recordar-se de determinado conteúdo (resistência) (SOUSA, 2018). Dessa forma, o modo associativo que fazia essas falas deslizar de forma espon- tânea indicava a Freud a presença de manifestações inconscientes por vezes im- perceptíveis até para as próprias pacientes, mas, de toda forma, com a evolução do seu manejo, já não faziam a precisão do uso da hipnose para que pudessem acessar aquela memória esquecida (recalcada). Então passou, como bem descre- ve, a solicitar que suas pacientes se deitassem, fechassem os olhos e falassem tudo o que estivesse em mente. Enquanto ele, na posição de atenção uniforme- mente suspensa, passa a escutá-las apropriadamente. A Associação Livre A eficácia de uma forma de tratamento psicoterapêutico de orientação psicana- lítica seria justificada não apenas em termos pragmáticos pelo sucesso em seus resultados, mas, sobretudo, em suas formulações e reformulações teóricas e téc- nicas com vistas a uma adequação mais consistente aos fatos clínicos. A própria 13 definição dada por Freud (1923/2011c) deixa claro: a psicanálise consiste em um meio de investigar processos psíquicos dificilmente acessíveis de outra forma; um método de tratamento, ou seja, um método terapêutico; e uma disciplina científi- ca nova composta por conhecimentos psicológicos teóricos alcançados por esta forma mesma de investigação. Na esteira de Freud, Nogueira (2004) considera que estes três aspectos – tratamento, pesquisa e teoria – encontram-se sempre unidos. Concordando com ele, Tavares e Hashimoto (2003) relembram que a psi- canálise é, sim, fundada em sua prática clínica, em seu fazer; todavia, também surge da exaustiva elaboração teórica freudiana denominada metapsicologia. Cabe esclarecer aqui no que consiste o termo metapsicologia utilizado por Freud. Trata-se do nome dado por ele ao arcabouço teórico que desenvolveu para des- crever os fenômenos mentais a partir de três dimensões complementares entre si: tópica, dinâmica e econômica. A dimensão tópica corresponde ao lugar psíqui- co em que as experiências psíquicas estão ocorrendo e sendo registradas e os tipos de representação que estão em pauta. A dimensão dinâmica nos diz sobre o tipo de conflito que os registros e as representações correspondentes estabe- lecem entre si. Por fim, a dimensão econômica corresponde à intensidade com que cada representação é investida (BIRMAN, 2001). Hermann (2021, p. 18) elenca três esferas, a saber, processo, técnica e teoria e afirma que as três atuam reciprocamente. Para ele, processo é a encarna- ção do método (caminho para um fim) em uma situação clínica, está ligado ao estilo de cada analista e pode variar; a técnica – a associação livre e a atenção flutuante – é a condução do processo em conformidade com o método, en- globa aspectos dos mais abstratos aos mais concretos, como a interpretação que leva em conta a transferência, a interpretação centrada no ponto de an- gústia, o uso do divã, o tempo de duração da sessão etc., os quais também são passíveis de mudança. Por fim, as teorias são generalizações organizadas oriundas das interpretações do analista e, também, norteadoras das próximas interpretações. Assim, técnica, teoria e processo são três esferas que se rela- cionariam mutuamente: a teoria organiza a técnica, que orienta o processo, que origina a teoria. Todavia, pode haver ou, como acredita Kupermann (2008), já existiria a suprema- cia do discurso teórico em relação ao discurso clínico na psicanálise contempo- rânea, não apenas na universidade, mas também nas associações psicanalíticas. A ênfase em um ou outro dos aspectos que constituem a psicanálise acabaria por abrir um abismo em que, de um lado, encontrar-se-ia um discurso apenas teórico, reivindicando a possibilidade de supremacia do teorismo e, de outro, um enfraquecimento da clínica na psicanálise (p. 68), abrindo espaço para vertentes terapêuticas que focam apenas na eficiência em produzir resultados. 14 Coelho Junior (2007, p. 489), por outro lado, observa que a psicanálise está sendo avaliada muito mais pela obediência ao primado da técnica do que por uma ati- tude profissional ética. Devido ao atual modo de formação profissional, no qual parece haver uma exigência para que a formação passe a ser uma extensão de práticas de consumo (p. 490) e, por isso, formar-se psicólogo parece cada vez mais caracterizar-se (…) como uma rota pensada em termos de uma eficácia téc- nica, muitos aspectos teóricos são deixados de lado. Tal fato, tendo ocorrido no próprio processo de formação, pode se perpetuar na prática do profissional psi- canalista. Para ele, a ideia de teoria costuma ser concebida como oposta à noção de técnica e esta, por sua vez, geralmente é entendida como apenas um meio de aplicação de um saber. Com essa oposição entre técnica e teoria, a tendência é que o emprego deste saber passe a ser desvinculado dos processos reflexivos que sustentam e orientam seu instrumento de aplicação, ou seja, sua técnica. Dadaa dificuldade de diálogo entre leituras extremas como as apontadas, pode ver-se comprometida a visão integradora com que desde o início Freud definia a psicanálise. O desenvolvimento do presente trabalho se deu a partir da suspeita de que a desconsideração de certas hipóteses teóricas presentes nos alicerces da prática psicanalítica pode levar a incompreensões acerca de sua legitimidade, correndo-se o risco de deixar de lado o que a justificaria. Todo profissional, de qualquer área de atuação, possui o compromisso ético de se pautar em conhecimentos construídos e legitimados ao longo da história para exercer sua atividade. Contudo, a produção de conhecimentos é, ou deveria ser, contínua – e não estagnada – e está sempre atrelada às transformações históricas, sociais, ambientais e também pessoais. Assim, uma prática profissional implica e é implicada constantemente por todo e qualquer processo de transformação, tor- nando-se, com isso, um compromisso social, muito mais do que uma ação indivi- dual. Nesse sentido, e voltando a discussão para o âmbito psicanalítico, torna-se imperativo que se discuta e se reflita sobre os tipos de resultados que a psicaná- lise pode tentar oferecer e por quais meios serão alcançados. Trata-se de manter vivo um processo reflexivo que busca compreender e verificar constantemente a legitimidade desta prática, o motivo pelo qual ela é importante e qual o alcance de sua capacidade em contribuir com seus possíveis resultados. Em suma, o enlace entre técnica e teoria se reflete nos constantes questionamentos: por que preciso praticar essa técnica para alcançar resultados? Os resultados alcançados são im- portantes? Para quem e por quais motivos tais resultados são relevantes? Atualizar constantemente as respostas para essas questões é o mínimo do compromisso ético-político profissional, e valorizar técnica e teoria, sem que preze mais por uma do que por outra, é o mínimo para manter esse compromisso. Quando se fala em técnica psicanalítica, logo se pensa em associação livre, a tarefa que o paciente precisa cumprir, em situação de análise, de comunicar ao 15 psicanalista tudo o que lhe vier à mente sem qualquer restrição. Essa técnica é definida como a regra fundamental da psicanálise e, justamente por seu estatuto de regra fundamental, não se poderia falar de psicanálise, ou do método tera- pêutico da psicanálise, sem considerar a associação livre. Para uma aplicação ética e eficaz da técnica da associação livre, faz-se necessá- rio, porém, compreender a razão pela qual ela possui esse estatuto de regra fun- damental. Pretende-se mostrar neste trabalho que a justificação teórica da regra fundamental da psicanálise, enquanto um recurso terapêutico plausível, reside em alguns pressupostos claros sobre o funcionamento do psiquismo, conforme descrito por Freud desde os primórdios da psicanálise. Para tanto, a seção inicial discute o contexto em que emergem as hipóteses de Freud. No texto que constitui os seus artigos técnicos de orientação clínica, A dinâmi- ca da transferência, Sigmund Freud diz que a Psicanálise não tem regra, a não ser uma, a fundamental: a regra da associação livre. Esse é o primeiro texto em que utiliza essa expressão de regra fundamental, mas tal descoberta do método foi ocorrendo de modo progressivo, que não podemos precisar, entre 1892 e 1898. Ao publicar o seu texto Um estudo autobiográfico, em 1925, Freud retoma esse processo de descoberta do seu método e evidencia a importância de levar a regra fundamental da Psicanálise como uma precondição do trabalho analítico. Ou seja, o trabalho inteiro que ocorre numa análise deve ser pautado pela associação livre. Com efeito, Freud relata como as associações das suas pacientes histéricas pas- sam a ganhar uma dimensão no tratamento que o ajuda abandonar o método catártico e a sugestão que utilizava naquele contexto e fundar a Psicanálise. A as- sociação livre então marca a fundação freudiana e estabelece a tarefa do psicana- lista, que é investigar as manifestações dos inconscientes que surgem na fala da paciente. Não se trata mais de alargar a consciência, e sim buscar reter a atenção flutuante naquilo que está presente na fala, nos tropeços que se pode perceber no momento em que a paciente está em associação livre. Conforme Roudinesco e Plon (1998), trata-se “da regra constitutiva da situação psicanalítica, segundo a qual o paciente deve esforçar-se por dizer tudo o que lhe vier à cabeça, principalmente aquilo que se sentir tentado a omitir, seja por que razão for” (p. 649), de modo que um pós-freudiano como Ferenczi, numa conferência que expõe o seu método, afir- ma: “Todo o método psicanalítico apoia-se na ‘regra fundamental’ formulada por Freud, ou seja, a obrigação para o paciente de comunicar tudo o que lhe vem ao espírito no decorrer da sessão de análise” (FREUD, 1913). Em sua obra A interpretação dos sonhos, Freud nos ajuda a entender melhor como essa regra é importante no processo analítico a partir da sua experi- ência clínica: 16 Meus pacientes assumiam o compromisso de me comunicar todas as ideias ou pensamentos que lhe ocorressem em relação a um assunto específico […]. É necessário insistir explicitamente para que renuncie a qualquer crítica aos pensamentos que perceber. Dizemos-lhe, por- tanto, que o êxito da Psicanálise depende de ele notar e relatar o que quer que lhe venha à cabeça, e de não cair no erro, por exemplo, de suprimir uma ideia por parecer-lhe destituída de sentido. FREUD, 1900, p. 135-136 Ou seja, a ideia de que a paciente busque eliminar certa seleção de pensamen- tos de modo voluntário, pois aí estão em jogo todos os processos de resistências próprios aos mecanismos de defesa agenciados pelo eu para que o material re- calcado no inconsciente não se manifeste. Apesar de não haver liberdade com- pleta, o esforço é que, a partir da transferência, cada vez mais se torne conscien- te o complexo patogênico presente no inconsciente. Assim, Freud discute as orientações da sua técnica tendo em vista evitar todo tipo de mecanização na condução do processo de análise, pois cabe ao analis- ta ter uma escuta flutuante, sem privilegiar previamente qualquer aspecto ou elemento do discurso proveniente da fala da pessoa analisada. O analista deve deixar a sessão fluir livremente tendo em vista que aí, nesse momento, está em jogo a confrontação da paciente com o seu inconsciente. De maneira bastante clara, no texto Sobre o início do tratamento (1913), Freud precisa o que fala para as suas pacientes: Uma coisa a mais, antes que você comece. O que vai me dizer deve di- ferir, sob determinado aspecto, de uma conversa comum. Em geral, você procura, corretamente, manter um fio de ligação ao longo de suas observações e exclui quaisquer ideias intrusivas que lhe possam ocorrer, bem como quaisquer temas laterais, de maneira a não diva- gar longe demais do assunto. Neste caso, porém, deve proceder de forma diferente. Observará que, à medida que conta coisas, irão lhe ocorrer diversos pensamentos que gostaria de pôr de lado, por causa de certas críticas ou objeções. Ficará tentado a dizer a si mesmo que isto ou aquilo é irrelevante aqui ou inteiramente sem importância, ou absurdo, de maneira que não há necessidades de dizê-lo. Você nunca deve ceder a estas críticas, mas dizê-lo apesar delas […]. Assim diga tudo o que lhe passa pela mente. FREUD, 1913, p. 149-150 Por sua vez, ao tratar desse tema no texto A direção do tratamento e os princípios de seu poder (1985) Jacques Lacan, ao retomar e complementar Freud, vai chamar atenção para 17 esse processo de associação livre como regra de ouro da análise. Para ele, não cabe aos analistas se ocuparem do ego, dos mecanismos de defesa ou resistência, mas manter-se em atenção àquilo que se manifesta enquanto fratura, fissura e equívoco na fala. É perceptível que Freud operou uma série de modificações no interior de sua obra em relação a conceitos, formulaçõesmetapsicológicas e orientação de ma- nejo do processo analítico. Todavia, a discussão em torno da associação livre se manteve quase inalterada, por se tratar justamente da regra fundamental que possibilita o acesso ao inconsciente, o material que faz com que a Psicanálise se distinga de outras abordagens do psiquismo e marque a sua diferença no inte- rior das práticas clínicas da cultura ocidental. Reflita Não cabe à Psicanálise um lugar cartesiano, é o que afirma Gar- cia-Rosa (1982), em sua obra elementar Freud e o inconsciente, de 1936. A Psicanálise não se trata de um construto exclusiva- mente racional e metódico, pelo contrário, ela produz um ponto de vista que desloca a razão e a consciência de uma representa- ção quase sagrada que possuía no campo científico e filosófico. Nas palavras do autor, a Psicanálise não possui um lugar pree- xistente, pois, apesar de beber de fontes diversas dos saberes voltados para a concepção de homem, este foi um filho gerado de forma solo para Freud. É através do grande conceito de In- consciente que esse filho dá seus primeiros passos para uma forma inaugural de entender o sujeito; este sujeito, enquanto ser singular, e a Psicanálise, como um campo teórico e prático que se torna “uma das práticas mais eficazes de escuta do dis- curso individual” (GARCIA-ROSA, p.88, 1992). É perceptível a constatação de que houve uma mudança de paradigma quan- do Freud se inclinou a buscar explicações psíquicas em vez de anatômicas. Apontamos que isso permitiu que ele arquitetasse a sua própria concepção de mente, a qual lhe rendeu uma disciplina autônoma e pretensiosamente científica que, por sua vez, abrangeu um constructo original como o do Inconsciente. Em seguida, procuramos ilustrar como essa concepção de mente poderia justificar a sua técnica de escutar os pacientes, que foi quando dissemos que, para Freud, a mente era dividida e que por essas divisões passavam as representações-meta, as quais estavam associadas e eram advindas de uma raiz patogênica incons- ciente. Trouxemos, depois, a ideia de que essas representações-meta faziam parte do que Freud considerou como os dois pilares da psicanálise e apontamos como estes se sustentavam pela ideia de sobredeterminação. Para finalizar, gos- taríamos de apontar outra peculiaridade em relação à técnica da psicanálise, que 18 somente pode ser apresentada após a introdução do conceito de associação livre. Trata-se da proposta de que essa técnica tem um modo singular de ser suspicaz. Isto é, por entender que a etiologia das patologias não se encontra na consciência, o seu método investigativo é o de duvidar. Para Freud, uma analogia entre o analista e o arqueólogo se faz possível porque ambos estão à procura do que está “soterrado”. Ambos trabalham cautelosamente para não danificar o que pode vir a encontrar e também não sabem exatamente o que lhes espe- ram. Sabem apenas que diante deles está arquivada a história de seus objetos de estudo, em uma cronologia inversa e estratificada (FREUD, 1896). Poderíamos dizer, no entanto, que, além disso, o analista ainda tem alguns obstáculos parti- culares para lidar. Referimo-nos ao segundo pilar da técnica apontado por Freud, que diz que as representações-meta conscientes podem não ser as que levam ao núcleo da patologia. Assim, semelhante ao fenômeno de refração estudado pela física, em que a luz sofre um desvio em sua velocidade e percurso quando passa entre dois meios diferentes, as representações-meta lançam um desafio ao ana- lista quando, ao atingirem a consciência, escorregam em associações menos in- tensas e desviam-se de sua rota originária. Seguir os seus vestígios, então, se torna o seu encargo. Mediado por uma “atenção uniformemente flutuante”, o analista sabe que a técnica da Psicanálise não pode priorizar nada de imediato, pois entende que, diante dos mecanismos psíquicos de defesa, resistência etc., as verdades do paciente demoram a se revelar. Esta seria a segunda peculiari- dade de sua técnica, a ideia de que: “A Psicanálise é desconfiada, e com razão” (FREUD, 1900, p. 511). Uma proposta de tratamento que não trabalha com seda- tivos e psicotrópicos, que não se satisfaz com o que se apresenta na superfície dos sintomas, mas que coloca o paciente em contato com o seu passado, com suas contradições e com suas limitações. MATERIAL COMPLEMENTAR LIVROS Fundamentos da Psicanálise de Freud a Lacan (Vol. 3) JORGE, M. A. C. Fundamentos da psicanálise de Freud a Lacan (Vol. 3): A Prática Analítica. Rio de Janeiro: Zahar, 2017. Publicações Pré-psicanalíticas e Esboços Inéditos (1888) FREUD, S. In: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago; 1996. v. 1, p. 75- 94. Uma Breve Descrição da Psicanálise (1924 [1923]) FREUD, S. In: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. 19. Rio de Janeiro: Imago; 1996; p. 213-236. Freud e o Inconsciente GARCIA-ROZA, L. A. Freud e o inconsciente. Rio de Janeiro: Zahar, 1985. Uma Nota Sobre a Pré-história da Psicanálise (1920) FREUD, S. 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