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Capítulo I Psicodiagnóstico fenomenológicoexistencial: focalizando os aspectos saudáveis Gohara Yvette Yehia Um pouco de história Saúde e doença vêm sendo compreendidas de formas diferentes ao longo do tempo, sendo que as mudanças no modo de entendê-las acompanham a evolução da ciência e da sociedade. Assim é que, na Idade Média, a relação do homem com o mundo era marcada pela vida coletiva, assentada nas tradições e na crença de entidades poderosas que exigiam submissão, pois eram donas do destino. Já no Renascimento, com as descobertas e a ampliação do comércio, a multiplicidade de possibilidades traz consigo a sensação de desamparo e incertezas quanto ao destino. Nasce a necessidade de controle diante do mundo do qual o homem se afastou e que passou a ser sentido como inóspito. Nota-se, então, um progressivo movimento de introspecção via racionalidade. No período chamado de Moderno, o homem criou um método — construção de sistemas lógicos e coerentes que permitam explicar os fenômenos do universo e de si mesmo, com a consequente exclusão daquilo que não é contemplado pela razão. Hoje, sabemos que saúde e doença não podem ser vistas de forma dicotômica, e sim como parte de um único processo no qual saúde não é o simples fato de não ter doença ou vice-versa. Assim, a “doença mental” pode passar a ser pensada como a construção de “outros modos de existência”, diante da dificuldade de responder, de maneira “habilidosa”, aos fatos do existir. Poder-se-ia pensar na possibilidade de outra atitude existencial em face do mundo como ele é vivido (Cautella Jr., 2003). Retomando ideias desenvolvidas por Morato e Andrade, de acordo com Webster (1974), saúde vem do latim salus, significando condição (orgânica ou organizacional) benéfica, de bem-estar, de segurança. Refere-se à cura (healein, em inglês antigo), como promoção de integridade e/ou cuidado. Estas definições nos remetem a uma aproximação de clínica e de cuidado, tarefas que dizem respeito ao universo do fazer psicológico no âmbito da saúde. Pensada a partir destas referências e comprometida com atenção e cuidado para que o sujeito se conduza na direção de seu bem-estar, ou seja, de resgate de sentido, a prática psicológica inclina-se para acolher o sofrimento humano como perda de sentido. Etimologicamente originário do grego pathos, sofrer assume o significado de sentir, experienciar, tolerar sem oferecer resistência, ser afetado. Em latim, sofrer origina-se de subferre, referindo-se a suportar por debaixo, implicando dois significados: tolerar um peso e sustentar um peso. No primeiro, sofrer diz respeito a uma dor, ao passo que, no segundo, diz de uma força ou de um poder ser. Desse modo, em ambas as origens, sofrimento refere-se à situação de ser afetado pela ambiguidade própria da condição humana. Diz da dor diante do desamparo do homem na sua tarefa de existir, suportando a inospitalidade dos acontecimentos para conduzir-se adiante. Na Idade Moderna, tanto a atividade clínica quanto a pedagógica não fogem a um predomínio da técnica. A clínica, afastando-se de sua peculiaridade originária, que se refere ao debruçar-se sobre o leito do “doente”, passa, cada vez mais, a privilegiar procedimentos técnicos. Desse modo, hoje em dia, o clínico é entendido e valorizado como especialista. Nessa composição, o momento clínico inicial, com toda sua potencialidade de promover uma confiança terapêutica através da atenção e do acolhimento, é reduzido a uma atividade de triagem, a qual encaminhará os pacientes aos respectivos especialistas que, através da mediação da técnica, tratarão deles. Atualmente esse modelo técnico-científico mostra sinais de esgotamento. Em nossa prática, no momento do encontro com o outro, percebemos que o domínio do saber não funciona como lugar seguro; não traz respostas exatas ou verdadeiras nem alivia a angústia perante a alteridade que aparece no encontro. Assim, a tendência é negar a alteridade procedendo-se a uma redução, na medida em que se procura encaixar o outro em um esquema de referência dado pelo saber teórico. Neste caso, temos o homem teórico, portador de um saber racional que explica as irracionalidades (os desvios) e acredita deter os meios de controlá-las ou ajustá-las à norma. O que se propõe, antes de tudo, é um deslocamento do saber, uma outra postura ética em que não existe um saber dado a priori ou uma verdade a ser transmitida, mas uma construção conjunta de sentidos. Faz-se necessário, pois, que o psicólogo se despoje do lugar de especialista, portador de um saber a ser transmitido, e passe a funcionar como um mediador, um “entre”, que acolhe a produção emergente nos diversos encontros (Andrade e Morato, 2004). Não se trata aqui de descaracterizar o psicólogo de seu saber de ofício. Pelo contrário, trata-se de um resgate desta dimensão ética que deveria ser própria e específica do saber de ofício do psicólogo. Este, em sua prática cotidiana, exerceria a função de acolher o cliente, em um processo permanente de desmistificação de verdades naturalizantes e universalizantes geradoras de injustiças e exclusão sociais. Um trabalho voltado para “trans-formações” das relações sociais exige um desmonte permanente das cristalizações que impedem a instituição de outros modos de estar no mundo, de outras “formas” de afetamento, em que a diferença não aparece como algo a ser negado ou excluído, mas exatamente como aquilo que possibilitará a criação, as mudanças nos sistemas — pensamento, relações, crenças, entre outros — cristalizados. No entanto, o homem só é capaz de chegar ao outro pela palavra, vale dizer, a cultura, e, nesse âmbito, encontram-se sempre usos, costumes, preceitos e normas, ou seja, todo um corpo moral normativo. Nessa medida, o comprometimento social implicado na prática de orientação fenomenológica existencial é uma dimensão que não pode ser negada nem recusada por profissionais engajados em promover o desenvolvimento pessoal e profissional de pessoas. Essas práticas sob ótica fenomenológica existencial podem ampliar o espectro de ação humana para que se possa atender responsavelmente à pluralidade da condição pós-moderna da vida do homem e seu sofrimento. Neste sentido, no âmbito da atuação psicológica, o olhar voltado ao sofrimento humano contextualizado carrega uma preocupação quanto à busca de abordagens teórico-práticas que contemplem as demandas inseridas nesta problemática. A perspectiva fenomenológica existencial foi o referencial de fundamento dessa clínica, pois considera que a condição constituinte da existência do ser humano é relacional, ou seja, revela-se pelo encontro com o outro. São essas situações de encontro intersubjetivo que propiciam, no cotidiano da vida, mudanças para o desenvolvimento e aprendizagem do ser humano, bem como as formas de convivência no mundo e com os outros, vendo e sendo visto, ouvindo e sendo ouvido (Figueiredo, 1995). O psicodiagnóstico Focalizarei agora uma prática psicológica conhecida de todos, já que inaugurou a possibilidade de atuação do psicólogo enquanto profissional. Refiro-me ao psicodiagnóstico, cuja história acompanha, obviamente, a do pensamento psicológico como um todo. As instituições que oferecem atendimento psicológico gratuito à comunidade são procuradas por uma porcentagem significativa de pais de crianças com algum distúrbio de comportamento, dificuldade escolar ou outra. Por um lado, os pais são geralmente encaminhados pela escola, pelo médico ou por uma assistente social para atendimento psicológico do filho. A instituição, por sua vez, em geral oferece um psicodiagnóstico, uma vez que, no caso de uma criança, o distúrbio pode ter a concorrência de várias causas (intelectuais, emocionais, psicomotoras, neurológicas, fonoaudiológicas), sendo importante investigar qual área deve ser prioritariamente atendida. O psicodiagnóstico infantil efetuado nos moldes tradicionais consta de uma ou duas entrevistas iniciais com os pais, para que o psicólogo possa entrar em contato com a queixa, a dinâmica familiar e o desenvolvimentoda criança. Em seguida, a criança é testada, são avaliados os testes com ela realizados e integradas as informações obtidas. Finalmente, o psicólogo realiza uma ou duas entrevistas devolutivas com os pais, a fim de oferecer-lhes suas conclusões diagnósticas e sugerir os passos seguintes a serem trilhados: psicoterapia da criança, orientação aos pais, psicomotricidade, entre outras possibilidades. Os pais que comparecem aos atendimentos indicados a partir desta maneira de desenvolver o psicodiagnóstico, quando comparecem, mostram pouca motivação para eles. Se questionados a respeito do atendimento anterior (o psicodiagnóstico), revelam desconhecimento do processo pelo qual passaram, limitando-se a repetir a queixa inicial, às vezes acrescentando a ela a indicação terapêutica. Alguns se mostram até mesmo decepcionados com os resultados desse atendimento, que não lhes parece ter trazido os benefícios que dele esperavam. Por outro lado, para o psicólogo que realizou o psicodiagnóstico, este se constituiu em uma etapa importante do processo de compreensão. Permitiu-lhe fazer uma indicação terapêutica adequada às necessidades e possibilidades do cliente, baseada no entendimento do que está acontecendo com a criança e a dinâmica familiar. De fato, se considerarmos o psicodiagnóstico como uma coleta de dados sobre a qual organizaremos um raciocínio clínico que orientará o processo terapêutico, este será, como diz S. Ancona-Lopez (1995), “um momento de transição, passaporte para o atendimento posterior, este sim considerado significativo (porque capaz de provocar mudanças), no qual o cliente encontrará acolhida para suas dúvidas e sofrimentos”. Assim, a questão que se coloca é: será que tanto para os pais como para a criança o atendimento somente deve tornar-se efetivo na psicoterapia? Tal questionamento, produzido a partir de insatisfações de uma equipe de psicólogos que trabalhavam em clínicas-escola, levaram-na a buscar outras formas de atender aos clientes que buscam atendimento psicológico, procurando torná-lo mais significativo e satisfatório. M. Ancona-Lopez, em sua tese de doutoramento, em 1987, descreve o atendimento em grupo a pais, durante o psicodiagnóstico, realizado de acordo com uma metodologia fenomenológica. Nessa ocasião, entrou em contato com os trabalhos de Fischer, verificando que havia aspectos comuns que diziam respeito à possibilidade de intervenção durante o desenvolvimento do processo, entre os trabalhos propostos Eu mesma, em 1994, retomei o estudo do atendimento individual a pais durante o psicodiagnóstico, realizando entrevistas de follow-up um ano depois do término do trabalho com eles. Esses estudos visavam colaborar para o desenvolvimento do psicodiagnóstico como processo participativo e interventivo. Estes e outros estudos encontram-se no livro de M. Ancona-Lopez, Psicodiagnóstico: processo de intervenção (1998). O processo psicodiagnóstico fenomenológicoexistencial com crianças e seus pais Passarei, agora, a uma descrição do processo psicodiagnóstico infantil que se desenvolve em 10 ou 12 sessões. Destas, frequentemente, 6 ou 7 são com os pais e o restante com a criança. Do ponto de vista fenomenológico-existencial, considera-se todo ser humano mergulhado no mundo que, embora sempre presente, muitas vezes lhe é despercebido. O sentido dos objetos está na relação que eles têm com um conjunto estruturado de significados e de intenções inter-relacionadas. Consequentemente, o mundo não é obstrutivo nem o são os objetos do mundo com os quais nos relacionamos diariamente. Dito de outro modo, no nosso dia a dia, estamos com os objetos de uso corrente, com as pessoas, com nossa família, com nosso filho, sem, a todo momento, nos perguntarmos a respeito do significado de cada uma dessas pessoas e coisas. Entretanto, quando há “ruptura”, quando falta algo que deveria haver, passamos a notar certos objetos. Similarmente, quando a criança começa a apresentar atitudes e comportamentos que rompem com algumas expectativas dos pais, dos professores ou de outros agentes da comunidade, surge o encaminhamento ou a busca espontânea pelo psicólogo. É neste momento que podem ser problematizadas, questionadas, as relações dos pais e da criança consigo mesmos, com os outros e com o mundo. É neste contexto que o psicodiagnóstico se propõe explicitar o sentido da experiência do cliente. No caso do psicodiagnóstico infantil, o trabalho com os pais visa explorar o significado da queixa trazida, dos sintomas apresentados pela criança, a compreensão que eles têm de sua própria situação e de sua relação com o filho. Por isso, considero que, mesmo sendo a criança a precisar de atendimento psicológico, são os pais que arcam com muitos dos custos do atendimento infantil: o tempo para levar e buscar o filho, o pagamento das sessões e os possíveis efeitos transformadores do atendimento infantil na dinâmica da família. Assim, sem informações, apoio, motivação e empenho para esse atendimento, fica difícil esperar que os pais estejam dispostos a levá-lo adiante. Por isso, quando o psicólogo recebe pais encaminhados pela professora, o pediatra ou outro agente da comunidade, é importante que trabalhe, desde o início, o significado que este encaminhamento tem para eles mesmos. Deste modo, a primeira sessão com os pais desenvolve-se, em geral, a partir do questionamento a respeito do motivo da consulta. Enquanto para eles a necessidade do atendimento psicológico não tiver sentido, por atribuírem a indicação a outro profissional, sendo que eles mesmos apenas estariam se conformando à proposta e obedecendo a uma autoridade, fica mais difícil, senão impossível, contar com sua colaboração ativa. Esta é imprescindível para que a compreensão conjunta do que está acontecendo com a criança e com eles mesmos possa ocorrer. Outro ponto importante a focalizar é como os pais entendem o atendimento psicológico e qual sua expectativa em relação a ele. São-lhes oferecidos esclarecimentos a respeito da proposta de trabalho, dizendo-lhes que se trata de uma tentativa de compreensão do que está acontecendo com a criança no contexto pessoal, familiar e social. Tais esclarecimentos lhes possibilitam entender por que sua própria participação no processo é importante e quais são os limites do trabalho. Permitem-lhes também decidir, desde o início do atendimento, se estão dispostos a compartilhar deste projeto. Ao psicólogo cabe compreender a pergunta trazida. Compreender é participar de um significado comum, do projeto do cliente, de sua abertura e limitações para o mundo. É importante identificar os acontecimentos e a forma como se desenvolveram em relação a seu contexto, gerando a pergunta, precipitando a crise e levando ao pedido de atendimento. Nas sessões seguintes, através da anamnese, o psicólogo procura conhecer as condições familiares e sociais, os vínculos estabelecidos e os papéis desempenhados, explicitando-os à medida que os vai percebendo e compreendendo. O roteiro de anamnese, utilizado na sequência do atendimento, permite o conhecimento do desenvolvimento biopsicossocial da criança, mas é, sobretudo, uma oportunidade para os pais se debruçarem sobre sua experiência passada e presente com o filho, podendo clarificar sentimentos e expectativas que atuam no relacionamento com a criança. Também oferece ao psicólogo a possibilidade de observar formas de relacionamento na família, focos de ansiedade, distribuição de forças na dinâmica familiar. Até este momento, o psicólogo não teve ainda nenhum contato com a criança. Contudo, pode começar a formar uma imagem dela a partir do que vem sendo comunicado pelos pais. Ele então a explicita a si mesmo e aos pais. Antes de marcar, em torno da terceira ou quarta sessão, o primeiro contato com a criança, orienta os pais no sentido de dizerem ao filho que estão vindo consultar um psicólogo e por que o estão fazendo. Nesta hora, às vezes é necessário voltar às fantasias dos pais em relação ao atendimento, pois, muitas vezes, eles não conseguem dizer ao filho por que estão consultandoum psicólogo. Têm medo de contar-lhe que procuraram um profissional para falar dele e por que o fizeram. Imaginam que a explicitação daquilo que os está movendo possa fazer com que ele “piore”, “se sinta diferente”. É importante mostrar-lhes, neste momento, que suas preocupações estão presentes no dia a dia, na forma como agem com o filho, nas observações que fazem a seu respeito, nas exigências várias vezes repetidas e nem sempre cumpridas por ele. Assim, a criança já pode perceber que algo está acontecendo, construindo sua própria compreensão a respeito, mesmo que ela não consiga expressar claramente, nem da mesma maneira que os adultos, quais são as preocupações a seu respeito. Pensamos que a dificuldade dos pais em conversar com a criança a respeito da ida ao psicólogo e do motivo da consulta revela a relação que eles mesmos mantêm com o atendimento a ser desenvolvido, mesmo que, aparentemente, estejam colaborando com ele. O primeiro encontro do psicólogo com a criança se desenvolve através de uma observação lúdica ou de uma entrevista acompanhada da execução de desenhos, dependendo de sua idade, capacidade e possibilidade de expressão verbal e gráfica. A partir daí, as sessões com os pais e com a criança são intercaladas. Algumas vezes, a partir da observação da criança, é necessário pesquisar mais amplamente com os pais certos aspectos da vida e do relacionamento que não se tinham mostrado relevantes até este momento. Isto porque não haviam sido mencionados anteriormente, ou porque, embora tenham sido referidos, o contato com a criança faz com que se abram outras possibilidades de compreensão. Por sua vez, o psicólogo também confronta aquilo que esperava, a partir da compreensão vinda da visão dos pais e o que pode observar em seus contatos com a criança. Através desses confrontos pode-se modificar e ampliar a compreensão anterior, tanto do psicólogo como dos pais. Uma vez que o psicólogo faz uso de certos instrumentos (testes, observações), pertencentes a um cabedal de conhecimentos técnicos e à sua disposição para conhecer a criança, é importante que cada instrumento utilizado seja discutido com os pais. Os pressupostos teóricos sobre os quais este uso se baseia e como o psicólogo chegou às suas próprias observações necessitam ser explicitados. Este procedimento é indispensável para que os pais possam compreender melhor a partir de onde e do que o psicólogo está falando, para poderem participar das decisões a respeito de quais aspectos seria importante investigar, a fim de esclarecer o que está acontecendo com a criança. As comunicações a respeito dos instrumentos utilizados também servem para desmistificá-los, contextualizá-los, mostrando que eles representam bem mais uma possibilidade de enfoque do que uma verdade absoluta. Consequentemente, há também um conteúdo pedagógico nas entrevistas com os pais. Isto é necessário, uma vez que eles não são obrigados a conhecer a cultura e os instrumentos da Psicologia. Por outro lado, outras vezes, seus conhecimentos, provindos do senso comum, podem levá-los a expectativas que não podem ser realizadas. Já que consideramos importante que eles possam participar do trabalho, esta participação deve ser feita a partir de bases comuns. É claro que, dependendo do nível socioeconômico e cultural dos pais, o psicólogo precisa usar sua linguagem de tal forma a se fazer compreender por eles. Ele efetua assim uma espécie de tradução dos conceitos teóricos numa linguagem acessível, devendo certificar-se de que sua comunicação está fazendo sentido para os pais. Ao final do processo, o psicólogo elabora um relatório a respeito do atendimento, no qual procura descrever o processo em seus passos. Na última sessão, este relatório é lido aos pais, para levá-los a compreender que, em se tratando de uma síntese feita pelo profissional, e que síntese implica seleção, é importante eles dizerem se tal síntese corresponde a sua própria compreensão do processo. Assim, eles podem propor modificações, sugerir alterações, acréscimo ou eliminação de situações ou de termos. Psicodiagnóstico interventivo, na abordagem fenomenológicaexistencial: uma mudança de atitude Uma das contribuições do psicodiagnóstico interventivo, na abordagem fenomenológica-existencial, está na reavaliação do papel desempenhado pelo cliente e pelo psicólogo nesta situação. O cliente, antes agente passivo, torna-se um parceiro ativo e envolvido no trabalho de compreensão e eventual encaminhamento posterior: é corresponsável pelo trabalho desenvolvido. A reavaliação da atitude do psicólogo levou a uma mudança de postura. O psicólogo não é mais o técnico, o detentor do saber que procura oferecer respostas às perguntas trazidas pelos pais. Seus conhecimentos teóricos, técnicos e os provindos de sua experiência pessoal representam apenas outro ponto de vista. A situação de psicodiagnóstico torna-se, então, uma situação de cooperação, na qual a capacidade de ambas as partes observarem, apreenderem e compreenderem constitui a base indispensável para o trabalho. Tanto os pais como o psicólogo observam a si mesmos e uns aos outros, procurando compreender o que está sendo vivenciado, já que a compreensão dos pais e a do psicólogo são equivalentes e compartilhadas. O psicólogo aceita as colocações dos pais a respeito daquilo que eles observam, pensam e concluem, procurando ampliar seu campo de visão, contextualizando a queixa particular para inseri-la em contexto mais amplo. Ele observa e assinala aos pais aquilo que consegue apreender da relação deles com o filho e entre si, no caso de comparecimento do casal. Esses assinalamentos não são considerados verdades, mas apenas possibilidades de compreensão que podem ser aceitas ou não por eles. Desenvolve um trabalho alternado de focalização e ampliação, procurando explicitar o significado dos fenômenos para os pais e para si mesmo. Em geral, através de suas intervenções, o psicólogo procura promover novas possibilidades existenciais na medida em que trabalha com o outro a transformação de seu projeto. O conhecimento que o cliente traz é valorizado, sendo a partir dele que as falas do psicólogo terão sentido ou não. Por outro lado, para que a intervenção do psicólogo seja eficiente, ela deve pertencer ao campo de possibilidades do cliente, margeando aquilo que ele não compreende, uma vez que se estiver distante deste campo, poderá não ser entendida ou ser recusada por ele. A partir de seus contatos com a criança, o psicólogo procura descrever como compreendeu os comportamentos que lhe apareceram. Compartilha com os pais sua experiência acerca de como foi o contato com a criança a partir das situações propostas, para favorecer a observação de como esta última se relaciona consigo mesma, com os outros e com o mundo. O uso de qualquer instrumento é discutido tanto com os pais como com a criança, sendo explicitados o objetivo e os princípios gerais subjacentes a eles. Desta forma, os pais acompanham o estudo do filho, exploram as informações, trazem questões e colaboram com observações informais do filho em novas situações. A partir das conversas com os pais e do conhecimento da criança, ainda durante o psicodiagnóstico, o psicólogo pode sugerir alternativas de ação para os pais. Ele também pode, a partir da compreensão da dinâmica familiar, dar sugestões a respeito daquilo que lhe parecia poder promover um desenvolvimento mais harmonioso. Assim, o psicodiagnóstico fenomenológico-existencial envolve um trabalho de redirecionamento dos pais a partir da compreensão da criança e da dinâmica familiar, com o objetivo de facilitar o relacionamento, propiciar novas formas de interação e abrir novas perspectivas experienciais. O estilo das intervenções do psicólogo No início do atendimento, as intervenções são sobretudo exploratórias e visam entender melhor as preocupações dos pais para com a criança. Em geral, as perguntas não são consideradas intervenções para ajudar os clientes. Entretanto, como lembra Tomm (1987), elas podem ter efeitos terapêuticos, seja diretamente, namedida em que elas focalizem algum aspecto ou tema que não estava explícito, seja indiretamente, através das respostas verbais e não verbais dadas a elas. O psicólogo mostra-se compreensivo e acrítico em relação às vivências relatadas pelos pais. Em certos momentos, suas intervenções se apresentam como possibilidades de compreensão, podendo ser feitas a partir das associações dos pais a elas. Pode lançar mão de confrontações e incitar ativamente os pais a se defrontarem com suas angústias. Em outros momentos, apenas acompanha os pais, permitindo-lhes falar, sendo suas intervenções de apoio, questionamento e/ou ampliação, dependendo do momento. Nesse sentido, várias intervenções se colocam no âmbito de conselhos e de informações pedagógicas Algumas vezes o psicólogo faz colocações pessoais, visando diminuir a distância entre ele e os pais, mostrando-lhes não ser detentor de um saber. Frequentemente os encoraja e manifesta sua simpatia para com eles. Em geral, há uma tentativa de salientar os aspectos positivos, adaptativos e saudáveis, em detrimento dos patológicos. Dá apoio aos pais, procurando favorecer uma mudança do investimento na criança, uma crença nas suas possibilidades de crescimento e uma tentativa de promover a separação psíquica entre eles e o filho, já que, muitas vezes, os filhos são considerados extensão dos pais, portadores de suas ambições e desejos frustrados. Dirige-se o atendimento, portanto, no sentido de favorecer uma individualização das partes. O ponto de impacto da intervenção, no psicodiagnóstico, é a interação pais versus filho, dirigindo-se ao problema de identificações recíprocas e projeções. A atitude do psicólogo não é passiva e neutra no sentido de acompanhar as associações dos pais. Como há um limite para a duração do trabalho, estimula-os a se confrontar com suas angústias. Para isto, utiliza o princípio de focalização, que consiste em polarizar sua atenção sobre um conflito central do qual decorreriam os problemas principais. A utilização dos testes psicológicos Cabem aqui alguns comentários a respeito de como são considerados os testes nesta forma de atuar. Afinal, trata-se de psicodiagnóstico, apenas com outros pressupostos. Para conhecer a criança, o profissional faz uso de diversos instrumentos, pertencentes ao cabedal de recursos dos quais o psicólogo clínico dispõe para atender a um cliente. Entre estes se destacam a observação lúdica, mais utilizada com crianças pequenas, entrevistas e testes. Frequentemente, em se tratando de dificuldades de aprendizagem, é necessário recorrer a testes de nível intelectual. Como se sabe, esses testes pertencem à tradição positivista, na qual uma das suposições básicas é de que qualquer coisa que exista, existe numa determinada quantidade e pode ser medida. São muitas as críticas que algumas abordagens em Psicologia fazem à utilização deste tipo de instrumento, quando utilizado seguindo as normas da psicometria, mesmo depois de elas serem adaptadas para a população brasileira. Entretanto, a recusa desses instrumentos parece-nos uma atitude extremada, uma vez que pode levar à rejeição de possibilidades de interação com a criança nas situações propostas pelo teste (uma vez que reproduzem algumas daquelas que a criança vive em seu dia a dia). Diante disto, consideramos as situações propostas pelo teste de inteligência, por exemplo o WISC III, como metáforas de situações vividas pela criança em seu cotidiano escolar e mesmo no familiar e no social. Desta forma, buscamos compreender com ela a partir de sua maneira de lidar com os estímulos apresentados. O resultado numérico serve apenas de referência para uma classificação em relação àquilo que seria esperado para a idade da criança. Mais relevante para a compreensão do que está ocorrendo com ela é a relação estabelecida entre a criança e o psicólogo, durante a aplicação dos testes, bem como sua forma de entrar em contato com eles: suas inseguranças, a maneira como soluciona os problemas apresentados, ou seja, sua postura em geral. O psicólogo conversa com a criança a respeito de suas observações, relacionando a situação presente às situações que ela vive em seu cotidiano. Assim, o resultado do teste articula-se com a compreensão do vivido pela criança, sendo ela quem orienta as sugestões quanto ao que fazer. Situação similar se apresenta quando são utilizados os testes projetivos. Estes, por sua vez, provêm da tradição psicanalítica e supõem que o material do teste sirva de suporte a uma projeção global das representações inconscientes, reativadas por um estímulo portador de uma problemática latente. Pensamos, em vez disto, que as imagens propostas pelo teste possam colocar a criança diante de uma situação geradora de possibilidades metaforizadoras, a partir das quais ela poderia revelar sua construção do mundo de uma determinada maneira. Resumindo, consideramos os testes organizadores que possibilitam a emergência de vivências que ocorrem no cotidiano da criança. Referem-se à experiência em outra situação, permitindo-nos compreender, junto com ela, como está sendo percebida sua relação consigo mesma, com os outros e com o mundo. Outros recursos utilizados: a visita domiciliar e a visita à escola Visita domiciliar Propomos, também, a realização de uma visita domiciliar, com o consentimento do cliente. Ela permite a observação, in loco, da família, assim como a ressignificação de falas e observações ocorridas durante as sessões. Visita à escola Outro recurso utilizado é a visita à escola. Por essa ocasião, recorre-se a uma entrevista com a professora, à observação da criança na sala de aula e no recreio. Deste modo, através da visita, podem-se observar e, às vezes, redimensionar queixas em relação à criança. Dependendo da disponibilidade da escola, ainda torna possível orientar a professora a partir da compreensão da criança. As repercussões deste trabalho sobre os pais Em vários casos estudados, nota-se um movimento dos pais que culmina, geralmente, em torno da quinta sessão, quando eles relatam modificações em sua compreensão da criança e tentativas de mudança em sua forma de se relacionarem com ela, ao mesmo tempo que, também, parecem ter perdido seus referenciais, tornando-se dependentes das indicações do psicólogo. Para permitir acompanhar essa observação, voltemos ao início do processo. Quando os pais vêm para a consulta, há a possibilidade de existência de uma crise. Os contornos desta nem sempre são claros, e ela pode não estar sendo reconhecida ou estar sendo atribuída a fatores externos ao relacionamento entre pais e filho. Neste primeiro momento, portanto, trata-se de clarificá-la, com a finalidade de chegar a um consenso quanto ao trabalho a ser desenvolvido. Em alguns casos, o trabalho se encerra nesta primeira fase. De fato, quando os pais não estão motivados para o trabalho proposto, por se mostrar distante de suas expectativas ou muito ameaçador, desistem do atendimento. Pensamos que, talvez, este seja um aspecto positivo, uma vez que a desistência ocorre no início do processo, evitando investimentos desnecessários e frustrantes de ambas as partes. Em outros casos, porém, é possível instalar-se um campo interacional, no qual os pais e o psicólogo viverão experiências. A instalação e eficácia deste campo dependem tanto dos pais como do psicólogo. De fato, ambos precisam estar disponíveis para a possibilidade de irrupção do desconhecido e a vivência da angústia, decorrentes do rompimento da trama do cotidiano pelo surgimento de algo desconhecido a ser renomeado. Ou seja, é preciso que a desconstrução da imagem do filho, associada a uma maneira de ser dos pais, a sua própria forma de construir esta imagem e aos pressupostos implicados nesta construção, favoreça uma nova construção. Quando e se este campo está bem instalado, ele gera as condições para a ocorrência de acontecimentos, não importando quem tenha sido o agente do trânsito para a nova situação de compreensão. Entretanto, enquanto esta nova construção ainda não se deu e a antiga encontra-seabalada, é como se os participantes pairassem numa espécie de vazio, com a sensação de que perderam o pé, não sabem o que fazer. Estes movimentos ocorrem mais intensamente em torno da quinta sessão, mas podem surgir até antes. É então que o psicólogo deve estar pronto para acompanhar os pais nesta trajetória, tomando o cuidado de ajudá-los a tornar estes momentos produtivos. É esse o momento em que os aspectos terapêuticos do processo se manifestam mais claramente. Eles foram sendo preparados e aconteceram sem ter sido, obrigatoriamente, formulados através de verbalizações. Agora, podem aparecer com a angústia própria à novidade da situação. O psicólogo pode, a partir desses movimentos, avaliar a plasticidade dos pais, ou seja, as possibilidades destes de se confrontarem com novas formas de ser com o filho, pois é aqui que intervêm sua flexibilidade, sua abertura para possíveis reinterpretações das situações vividas, sua capacidade para compreender de outro ponto de vista, a fim de se implicarem de outro modo nessa relação. Insisto, neste trabalho, busca-se sempre focalizar os aspectos saudáveis da criança e dos pais, fazendo apelo à abertura de novas possibilidades de estar-com em vez da busca de uma adequação a algo considerado “normal” pela ciência, respeitando a cultura e o contexto familiar. O psicólogo também se defronta com momentos de angústia, não sabendo como compreender aquilo que está sendo trazido nem qual o caminho a seguir. Para ele, também, é pelas lacunas e ambiguidades entre a expectativa e a vivência que pode procurar um novo conhecimento. Desse modo, pode-se compreender a importância da elaboração do relatório final. É frequentemente neste momento que o psicólogo percebe aspectos que não valorizou durante as entrevistas ou que foram sendo esquecidos ao longo do processo. O relatório final permite verificar a consistência e a coerência das conclusões às quais se chegou. Ele tem a finalidade de constituir-se em uma síntese do processo, descrevendo o que ocorreu neste período de atendimento. É redigido pelo psicólogo, uma vez que seria difícil que fosse elaborado em conjunto. Por essa perspectiva, a leitura do relatório no final do atendimento se constitui em um momento significativo do processo. Visa verificar se ele retrata, também do ponto de vista dos pais, o processo vivido. A leitura provoca, ainda, um impacto sobre os pais, na medida em que eles se confrontam de uma só vez com vários aspectos de sua experiência mencionados ao longo do processo. Para isso, o psicólogo está aberto para alterações do texto, caso eles não concordem com este. Nessas ocasiões, o assunto é retomado e procura-se chegar a um consenso. Quando isto não é possível, registram-se as duas versões, a dos pais e a do psicólogo. O followup A entrevista de follow-up é realizada com a finalidade de retomar, passado algum tempo, a experiência vivida pelos pais durante o psicodiagnóstico, a fim de conhecer sua fecundidade e eficácia. Pudemos perceber que, passado um ano do atendimento, as mães sentem-se mais seguras para lidar com o filho. Sua compreensão de algumas atitudes da criança se alterou, gerando mudanças em sua forma de se relacionar com ela. Os pais revelam, também, a capacidade de separar o que é deles e o que é do filho. Desse modo, dizem conseguir aceitar que o filho não seja um prolongamento de si próprios, para poder ser mais ele mesmo, ainda que isso não coincida com suas expectativas, pois passam a apreender as vantagens de o filho ser como é. Os pais ainda se referem a mudanças do filho que podem funcionar como elemento de retroalimentação para suas próprias mudanças, mantendo-os atentos e mais abertos em relação a ele. Assim sendo, o trabalho realizado através do psicodiagnóstico permite frequentemente desdobramentos fecundos no que se refere à compreensão do filho e a como se relacionar com ele. Por outro lado, pudemos perceber que a entrevista de follow-up também propicia aos pais uma pausa reflexiva para se confrontar com seu momento atual de vida. Afinal, qual o objetivo de um trabalho em psicologia clínica? Depende da demanda do cliente no momento da procura. Ora, esta pode se modificar ao longo do tempo. As teorias, ou seja, as crenças e os padrões utilizados pelas pessoas para lidar com sua ansiedade, reduzindo a vivência a algo já conhecido, pareciam eficientes, mas podem deixar de sê-lo após um período, levando a outras crises em momento posterior. Aqui, nos encontramos em um terreno movediço, já que, por sua própria condição humana, tanto psicólogo como cliente mudam ao longo do tempo. Assim, passados alguns meses, aspectos que não haviam sido valorizados na época da realização do psicodiagnóstico, relegados a um segundo plano, podem aparecer agora como figura, já que o fundo se modificou, tornando necessárias uma reinterpretação e uma rediscussão das necessidades no momento atual. Nessa perspectiva, o follow-up pode propiciar possibilidades de revisão por parte do psicólogo e do cliente, abrindo novos horizontes, levando a novas perspectivas. Torna-se, nesse sentido, um momento de encontro que pode propiciar acontecimentos. Assim considerado, realizar follow-up, prática pouco difundida em nossos meios, pode abrir novas perspectivas no campo da pesquisa em Psicologia Clínica, além de tornar-se, por si mesma, um momento significativo de atenção e cuidado tanto para o profissional como para o cliente.