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UNIVERSIDADE PAULISTA – UNIP
CURSO DE DIREITO
ROSANA APARECIDA DA SILVA GUEDES 
TIPICIDADE, ILICITUDE E CULPABILIDADE NO CRIME DE MAUS-TRATOS A ANIMAIS: UMA ANÁLISE DO CASO DO CÃO ORELHA À LUZ DO DIREITO PENAL BRASILEIRO
SÃO PAULO 2026
ROSANA APARECIDA DA SILVA GUEDES 
TIPICIDADE, ILICITUDE E CULPABILIDADE NO CRIME DE MAUS-TRATOS A ANIMAIS: UMA ANÁLISE DO CASO DO CÃO ORELHA À LUZ DO DIREITO PENAL BRASILEIRO
Trabalho de conclusão de curso apresentado a Universidade Paulista – Unip, como requisito parcial para a obtenção do título de Bacharel em Direito.
Orientador: Prof.	Vinicius
SÃO PAULO 2026
TIPICIDADE, ILICITUDE E CULPABILIDADE NO CRIME DE MAUS-TRATOS A ANIMAIS: UMA ANÁLISE DO CASO DO CÃO ORELHA À LUZ DO DIREITO PENAL BRASILEIRO
ROSANA APARECIDA DA SILVA GUEDES 
Trabalho de conclusão de curso apresentado a Universidade Paulista – Unip, como requisito parcial para a obtenção do título de Bacharel em Direito.
Orientador: Prof.	Vinicius
Aprovada em: 	/	/	
BANCA EXAMINADORA
		/	/	 Prof. Orientador - Unip
		/	/	 Prof.
	/	/	 Prof.
 "O justo cuida dos seus animais domésticos, mas até a misericórdia dos maus é cruel".
Provérbios 12:10 
RESUMO
ABSTRACT 
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO...........................................................................................X
1. DO CRIME.............................................................................................X
1.1 Conceito de crime no direito penal brasileiro......................................x
1.2 Evolução histórica e teoria tripartida do crime: Tipicidade, ilicitude e culpabilidade..............................................................................................x
2. DA TIPICIDADE......................................................................................X
 2.1 Conceito..............................................................................................x
2.2 Tipicidade formal e tipicidade material, objetiva e subjetiva ..............x
2.3 Tipicidade nos crimes de maus-tratos a animais.................................x
2.4 Enquadramento legal dos crimes de maus-tratos (Lei nº 9.605/1998)
2.5 Bem jurídico tutelado: proteção à fauna e dignidade animal..............x
2.6 O caso do cão “Orelha”: análise da tipicidade formal e material...........x
2.6.1 O caso do cavalo com as patas cortadas: adequação típica e dolo...x
2.7 Jurisprudência relacionada aos crimes de maus-tratos a animais......x
CONCLUSÃO..................................................................................................X
BIBLIOGRAFIA...............................................................................................X
INTRODUÇÃO
Este trabalho de Conclusão de Curso - TCC: Tipicidade, ilicitude e culpabilidade no crime de maus-tratos a animais: uma análise do caso do cão orelha à luz do direito penal brasileiro, na qual aborda como ocorre a tipicidade de dois casos de maus-tratos extremamente midiáticos
No Capítulo 1, trata-se
N Capítulo 2, aborda-se
No Capítulo 3, trata-se
1.DO CRIME
 Neste Capítulo é abordado o conceito de crime, a sua evolução histórica, assim como a teoria tripartida do crime.
1.1 Conceito de crime no direito penal brasileiro
 Para Guilherme de Souza Nucci a concepção formal do crime é a conduta descrita na lei. Para isso, utiliza-se o critério de existência de um tipo penal incriminador. Existindo, há o delito em tese. Se alguém praticar a conduta prevista no tipo incriminador, ocorre a perfeita adequação entre o modelo de conduta proibida (previsto em lei na forma abstrata) e a conduta real, determinativa do resultado no mundo naturalístico1.
 O autor descreve o crime formal a conduta proibida por lei penal, sob ameaça de aplicação da pena. Não é raro acontecer o descompasso entre o crime material e o delito formal. A sociedade pode acreditar que determinado ilícito deveria ser crime, mas não há o tipo penal; logo, não se pode punir o agente, pouco importando o resultado trágico advindo. De outro lado, há figuras típicas incriminadoras, portanto, formalmente constitui um crime, mas que, na prática, ninguém mais liga para a sua punição. É o que ocorre, atualmente, por exemplo, com o curandeirismo (art. 284, CP), figura em desuso.
 Para Victor Eduardo Rios Gonçalves o critério material é a ação ou omissão humana, intencional ou decorrente de conduta descuidada, que ofende ou expõe a risco bens jurídicos relevantes para a coletividade e que, deve ser proibido pela prévia cominação de uma pena. É um conceito que tem por finalidade nortear o legislador, no sentido de verificar quais fatores são necessários para que um comportamento humano seja considerado criminoso2.
___________________
1 NUCCI, Guilherme de Souza. Curso de Direito Penal. Parte Geral arts. 1° ao 120 do Código Penal. Vol.1. Forense. Rio de Janeiro. 2025. 
2 GONÇALVES, Victor Eduardo Rios. Curso de Direito Penal - Vol.1 - 9ª. ed. - São Paulo : Saraiva Jur, 2025.
O Conceito de crime formal segundo a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça (STJ). O STJ adota entendimento pacífico de que o crime formal se consuma com a simples prática da conduta descrita no tipo penal, independentemente da produção do resultado naturalístico.
“NOS CRIMES FORMAIS, A CONSUMAÇÃO OCORRE COM A SIMPLES PRÁTICA DA CONDUTA DESCRITA NO TIPO PENAL, SENDO DESNECESSÁRIA A OCORRÊNCIA DO RESULTADO NATURALÍSTICOx.”
Para Guilherme de Souza Nucci:
O conceito analítico cuida da concepção da ciência do direito, acerca do crime, visando apenas estudá-lo e, didaticamente, torná-lo bem compreensível ao operador do direito. Portanto, disseca-se o conteúdo do conceito formal de delito para dele extrair os seus elementos. Nesse trabalho de abertura e decomposição do crime em elementos, há controvérsia doutrinária, com inúmeras vertentes e correntes de opinião3.
O finalismo, tem-se o crime como uma conduta típica, ilícita e culpável, uma ação ou omissão ajustada a um modelo legal de conduta proibida (tipicidade, onde estão contidos os elementos subjetivos dolo e culpa), contrária ao direito (antijuridicidade) e sujeita a um juízo de reprovação social incidente sobre o fato e seu autor, desde que existam imputabilidade, consciência potencial de ilicitude e exigibilidade e possibilidade de agir conforme o direito (culpabilidade)
O conceito analítico para Greco: “Crime é a conduta humana típica, antijurídica e culável, praticada com dolo ou culpa, à qual a lei comina sanção penal’4.
Para Gonçalves no Brasil, o conceito legal de crime é encontrado no art. 1º da Lei de Introdução ao Código Penal, considera-se crime a infração penal a que a lei comina pena de reclusão ou de detenção, 
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X STJ – HABEAS CORPUS Nº 176.473/SP. RELATOR: MIN. JORGE MUSSI QUINTA TURMA. JULGADO EM 07/02/2012. DJe 01/03/2012. Disponível em:https://www.jusbrasil.com.br/jurisprudencia/stj/897923745. Acesso em: 04 fev 2026. 
3 NUCCI, Guilherme de Souza. Curso de Direito Penal. Parte Geral arts. 1° ao 120 do Código Penal. Vol.1. Forense. Rio de Janeiro. 2025. 
4 GRECO, Rogério. Curso de Direito Penal – Parte Geral. 21ª edição. Rio de Janeiro: Impetus, 2019. p. 143–145.
quer isoladamente, quer alternativa ou cumulativamente com a pena de multa. Assim, basta verificar a pena prevista em abstrato para se concluir se uma certa conduta constitui ou não crime. O mesmo art. 1º define as contravenções penais como “infração penal a que a lei comina, isoladamente, pena de prisão simples ou de multa, ou ambas, alternativa ou cumulativamente5.
Temos, portanto, para os crimes, as seguintes possibilidades com relação à pena: a) reclusão; b) reclusão e multa; c) reclusão ou multa; d) detenção; e) detenção e multa; f) detenção ou multa. A pena de multa nuncaé cominada isoladamente ao crime25.
Já com relação às contravenções, temos as seguintes hipóteses: a) prisão simples; b) prisão simples e multa; c) prisão simples ou multa; e d) multa.
A teoria adotada no sistema jurídico brasileiro é a teoria tripartida na qual, crime é:
Segundo Thaís de Oliveira Mocinho o fato típico é um termo utilizado no direito para descrever uma conduta humana que é considerada crime ou contravenção penal. Ele é definido como a descrição de uma ação ou omissão que, de acordo com a lei, é proibida e sancionada com pena privativa de liberdade, multa ou outra sanção prevista na legislação. Os fatos típicos são descritos na legislação penal e são usados pelos tribunais para determinar se uma pessoa cometeu um crime ou não. Porque como Eles são divididos em elementos objetivos e subjetivos. Os elementos objetivos são aqueles que descrevem a ação ou omissão em si, como, por exemplo, "matar alguém". Existe uma subdivisão em descritivos e normativosx.
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6 MOCINHO, Thaís de Oliveira. CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM O MINISTÉRIO PÚBLICO EM AÇÃO. Modulo de Direito Penal e Processo Penal. Disponível em:https://www.femperj.org.br/assets/files/TEORIA-DOCRIMEESEUSELEMENTOS.pdf. Acesso em:20 fev 2026. 
 A Ilicitude também conhecida como antijuricidade, O conceito de antijuridicidade ou ilicitude é um dos que, na teoria do crime, aproxima quase todas as tendências, de causalistas a funcionalistas. Apenas a teoria dos elementos negativos do tipo a inclui no tipo-total de injusto, unindo tipo e ilicitude numa só figura, resultando o crime como um fato típico (abrangente da ilicitude) e culpável. No significativismo, a ilicitude seria meramente formal, pois já se verificou no tipo todo o conteúdo material de lesividade da conduta. Por outro lado, abandonando a ilicitude material, consagrada na doutrina há tempos, está empurrando o ilícito para dentro do tipo penal, pois, formalmente, a antijuridicidade é apenas a contrariedade da conduta com o direito. Possivelmente, para não ocorrer esse esvaziamento da ilicitude, a teoria traz, para seu contexto, elementos nítidos de culpabilidade – como a inexigibilidade de conduta diversa, a coação moral irresistível e a obediência hierárquica. Com isso, a culpabilidade termina com imputabilidade e consciência de ilicitude, voltada a cumprir a ideia de aplicação da pena se a política criminal assim determinar. Significa que ninguém será penalmente punido se não houver agido com dolo ou culpa, dando mostras de que a responsabilização não deve ser objetiva, mas subjetiva (nullum crimen sine culpa). Trata-se de uma conquista do direito penal moderno, voltado à ideia de que a liberdade é a regra, sendo exceção a prisão ou a restrição de direitos. Além disso, o próprio Código Penal estabelece que somente há crime quando estiver presente o dolo ou a culpa (art. 18). 
Assim, a regra adotada é buscar, para fundamentar e legitimar a punição, na esfera penal, o dolo do agente. Não o encontrando, deve-se procurar a culpa, desde que expressamente prevista, como alternativa, no tipo penal incriminador. Na ótica de Jescheck, o princípio da culpabilidade serve, de um lado, para conferir a necessária proteção do indivíduo em face de eventual excesso repressivo do Estado, fazendo com que a pena, por outro, circunscreva-se às condutas merecedoras de um juízo de desvalor ético-social.
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3 NUCCI, Guilherme de Souza. Curso de Direito Penal. Parte Geral arts. 1° ao 120 do Código Penal. Vol.1. Forense. Rio de Janeiro. 2025. 
1.2 Evolução histórica e teoria tripartida do crime: Tipicidade, ilicitude e culpabilidade
A teoria geral do crime, como é entendida hoje em dia, é um produto da evolução do pensamento jurídico e filosófico ao longo da história. A teoria geral do crime se desenvolveu gradualmente ao longo do tempo, sendo influenciada por uma variedade de fatores, incluindo as mudanças nas concepções de justiça, as transformações sociais e econômicas, as mudanças políticas e as descobertas científicas. A origem da teoria geral do crime pode ser rastreada até as civilizações antigas, como a Grécia e Roma. Na Grécia antiga, por exemplo, a ideia de justiça estava ligada à ideia de harmonia entre o indivíduo e a sociedade. Na época romana, as leis eram baseadas no princípio de que o indivíduo devia se submeter à autoridade do Estado6. 
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5 GONÇALVES, Victor Eduardo Rios. Curso de Direito Penal - Vol.1 - 9ª. ed. - São Paulo : Saraiva Jur, 2025.
6 MOCINHO, Thaís de Oliveira. CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM O MINISTÉRIO PÚBLICO EM AÇÃO. Modulo de Direito Penal e Processo Penal. Disponível em:https://www.femperj.org.br/assets/files/TEORIA-DOCRIMEESEUSELEMENTOS.pdf. Acesso em:20 fev 2026. 
2.DA TIPICIDADE
Neste Capítulo é abordado o conceito de tipicidade, a sua classificação, o enquadramento penal, o bem jurídico tutelado e o caso do cão Orelha e do Cavalo com as patas cortadas.
 2.1 Conceito
Para Victor Eduardo Rios Gonçalves o tipo penal é a norma que descreve condutas criminosas em abstrato. É um modelo de comportamento ilícito descrito genericamente no Código Penal ou em leis penais especiais. Quando alguém concretiza uma dessas condutas ocorre a chamada tipicidade e, desde que não esteja presente alguma excludente de ilicitude, surge a punibilidadex.
Os tipos penais, portanto, estatuem proibições de condutas, estabelecendo penas àqueles que venham a desrespeitá-las. Assim, quando o legislador estabelece pena de reclusão, de 6 a 20 anos, para quem mata alguém, está, em verdade, proibindo a conduta de matar. O princípio da legalidade, vai definir a conduta criminosa e não apenas proibi-la. Referido princípio está esculpido no art. 5º, XXXIX, da Constituição Federal e no art. 1º do Código Penal. Os tipos penais são modelos criados pela lei, por meio que as condutas consideradas indesejáveis, são descritas taxativamente como ilícitos penais, com a finalidade de dar aos indivíduos a garantia maior do princípio da reserva legal. O tipo penal, descreve as condutas incriminadas, serve-se de elementares e, eventualmente, de circunstâncias. Elementares são componentes fundamentais da figura típica sem os quais o crime não existe. As elementares estão sempre no caput do tipo incriminador. Os elementos (ou elementares) do tipo incriminador podem ser objetivos, subjetivos ou normativos.
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5 GONÇALVES, Victor Eduardo Rios. Curso de Direito Penal - Vol.1 - 9ª. ed. - São Paulo : Saraiva Jur, 2025.
2.1 Tipicidade formal e tipicidade material, objetiva e subjetiva 
Já tivemos oportunidade de salientar que o fato típico é composto pela conduta do agente, dolosa ou culposa, comissiva ou omissiva; pelo resultado; bem como pelo nexo de causalidade entre aquela e este. Mas isso não basta. É preciso que a conduta também se amolde, subsuma-se a um modelo abstrato previsto na lei, que denominamos tipo. Tipicidade quer dizer, assim, a subsunção perfeita da conduta praticada pelo agente ao modelo abstrato previsto na lei penal, isto é, a um tipo penal incriminador, ou, conforme preceitua Muñoz Conde:
“É a adequação de um fato cometido à descrição que dele se faz na lei penal. Por imperativo do princípio da legalidade, em sua vertente do nullum crimen sine lege, só os fatos tipificados na lei penal como delitos podem ser considerados como tal.” A adequação da conduta do agente ao modelo abstrato previsto na lei penal (tipo) faz surgir a tipicidade formal ou legal. Essa adequação deve ser perfeita, pois, caso contrário, o fato será considerado formalmente atípico. Quando afirmamos que só haverá tipicidade se existir adequação perfeita da conduta do agente ao modelo em abstrato previsto na lei penal (tipo), estamos querendo dizer que, por mais que seja parecida a conduta levada a efeito pelo agente com aquela descrita no tipo penal, se não houver um encaixe perfeito, não se pode falar em tipicidade. Assim, a exemplo do art. 155 do Código Penal, aquele que simplesmente subtrai coisa alheiamóvel não com o fim de tê-la para si ou para outrem, mas, sim, com a intenção de usá-la, não comete o crime de furto, uma vez que no tipo penal em tela não existe a previsão dessa conduta, não sendo punível, portanto, o “furto de uso.”
4 GRECO, Rogério. Curso de Direito Penal – Parte Geral. 21ª edição. Rio de Janeiro: Impetus, 2019. p. 143–145.
2.3 Tipicidade nos crimes de maus-tratos a animais
A Lei de Crimes Ambientais (Lei nº 9.605/98) tipifica o delito de maus-tratos no art. 32:
“Praticar ato de abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar animais silvestres, domésticos ou domesticados, nativos ou exóticos… Pena: detenção de três meses a um ano, e multa.” 
 Como a tipicidade se manifesta nesse crime:
Conduta típica: a ação de abusar, maltratar, ferir ou mutilar um animal preenche o elemento objetivo do tipo penal.
Resultado típico: dano físico ou sofrimento imposto ao animal.
Nexo causal: ligação entre a conduta e o sofrimento do animal.
Dolo: o agente deve agir com intenção ou ao menos com consciência do resultado (elemento subjetivo)
Na teoria penal, distingue-se:
Tipicidade formal: correspondência entre fato concreto e descrição legal do tipo.
Tipicidade material: relevância social da lesão ao bem jurídico protegido.
No caso de maus-tratos a animais, a tipicidade material ganha destaque porque a conduta atinge não só a descrição legal, mas também a proteção da integridade física do animal e, em grande parte da doutrina, o próprio valor da dignidade animal. 
Sugestão bibliográfica:
✔ GRECO, Luís. Proteção de bens jurídicos e crueldade com animais — aborda a construção do tipo penal e a tutela material no crime de maus-tratos (p. 57-59). 
✔ FACCINI NETO, Orlando. Tutela penal de animais — discute fundamentos da criminalização de maus-tratos (longo estudo em Revista Brasileira de Direito Animal, vol.16). 
Lei “Sansão” e Tipicidade Qualificada
A Lei nº 14.064/2020 (conhecida como Lei Sansão) introduziu uma figura qualificada no art. 32, § 1º-A, aumentando a pena quando o crime é praticado contra cães e gatos. Isso não altera o tipo penal fundamental, mas cria uma tipicidade mais grave para essas espécies específicas, evidenciando maior reprovação social e penal. 
👉 Por essa lei:
Conduta típica continua sendo a mesma (ato de abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar).
A agravante (pena maior) decorre da própria lei como parte da descrição legal ampliada. 
A tipicidade penal nos crimes de maus-tratos a animais exige que a conduta, o resultado, o nexo causal e o dolo se encaixem precisamente na descrição legal do art. 32 da Lei nº 9.605/98. A Lei Sansão simplesmente qualifica e agrava a tipicidade quando a vítima é cão ou gato, refletindo maior repúdio social. O estudo de tipicidade conecta teoria penal (livros clássicos como Damásio de Jesus e Greco) com a aplicação prática da lei ambiental brasileira.
2.2 Enquadramento legal dos crimes de maus-tratos (Lei nº 9.605/1998)
O crime de maus-tratos a animais encontra previsão no art. 32 da Lei nº 9.605/1998, conhecida como Lei de Crimes Ambientais, que dispõe sobre as sanções penais e administrativas derivadas de condutas lesivas ao meio ambiente.
Previsão Legal
O artigo 32 estabelece:
Art. 32 – Praticar ato de abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar animais silvestres, domésticos ou domesticados, nativos ou exóticos.
Pena: detenção, de três meses a um ano, e multa.
O § 1º equipara à mesma pena quem realiza experiência dolorosa ou cruel em animal vivo, ainda que para fins didáticos ou científicos, quando existirem recursos alternativos.
2.3 Bem jurídico tutelado: proteção à fauna e dignidade animal
Elementos do Tipo Penal
Para o enquadramento jurídico adequado, devem estar presentes:
✔ Sujeito ativo: crime comum (qualquer pessoa pode praticar).
✔ Sujeito passivo: o animal (bem jurídico imediato) e, mediata ou indiretamente, a coletividade.
✔ Conduta típica: abusar, maltratar, ferir ou mutilar.
✔ Elemento subjetivo: dolo (vontade consciente de praticar a conduta).
✔ Objeto jurídico protegido: fauna e equilíbrio ambiental, nos termos do art. 225 da Constituição Federal.
🔹 4. Natureza Jurídica e Competência
Trata-se de crime ambiental.
Pode ser processado na Justiça Estadual, salvo se houver interesse direto da União (ex.: animal silvestre de domínio federal).
A ação penal é pública incondicionada.
2.4 O caso do cão “Orelha”: análise da tipicidade formal e material
1. Enquadramento Legal
O crime de maus-tratos está previsto no art. 32 da Lei nº 9.605/1998, com redação alterada pela Lei nº 14.064/2020 (Lei Sansão), que aumentou a pena quando se tratar de cão ou gato.
Art. 32, caput:
Praticar ato de abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar animais silvestres, domésticos ou domesticados [...]
No caso do cão Orelha, houve agressões graves que causaram sofrimento intenso e lesões físicas, enquadrando-se objetivamente na conduta descrita no tipo penal.
2. Tipicidade Formal
A tipicidade formal consiste na adequação da conduta do agente à descrição abstrata prevista na lei penal (juízo de subsunção).
Elementos analisados:
Conduta: Ato comissivo de agressão física.
Objeto material: Animal doméstico (cão).
Resultado naturalístico: Lesões e sofrimento.
Nexo causal: As agressões produziram diretamente os danos.
Elemento subjetivo: Dolo (vontade livre e consciente de praticar o ato).
No caso do cão Orelha, verifica-se clara subsunção da conduta ao art. 32 da Lei 9.605/98, preenchendo todos os elementos objetivos e subjetivos do tipo.
➡ Conclusão quanto à tipicidade formal: Presente.
3. Tipicidade Material
A tipicidade material exige que a conduta cause lesão ou perigo concreto relevante ao bem jurídico tutelado.
3.1 Bem jurídico protegido
A doutrina entende que o bem jurídico protegido é:
A fauna (art. 225 da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988);
A integridade física e psíquica do animal;
O dever constitucional de proteção ambiental.
O art. 225, §1º, VII, da Constituição determina:
Proteger a fauna, vedadas, na forma da lei, as práticas que submetam os animais à crueldade.
3.2 Relevância da lesão
No caso concreto:
Houve sofrimento intenso;
Lesões físicas comprovadas;
Violação ao dever constitucional de proteção à fauna.
Não se trata de conduta insignificante. A jurisprudência é firme no sentido de que o princípio da insignificância não se aplica aos crimes de maus-tratos quando há sofrimento animal.
➡ Conclusão quanto à tipicidade material: Presente, pois houve efetiva lesão ao bem jurídico.
2.6.2 O caso do cavalo com as patas cortadas: adequação típica e dolo
2.7 Jurisprudência relacionada aos crimes de maus-tratos a animais
DIREITO PENAL. APELAÇÃO CRIMINAL. MAUS-TRATOS A ANIMAIS. RECURSO DESPROVIDO
Caso em Exame 1. Recurso de Apelação interposto por Dione Fernando Ferreira contra sentença que o condenou a 2 anos, 9 meses e 7 dias de reclusão, em regime inicial semiaberto, ao pagamento de 12 dias-multa e à proibição da guarda de animais, pela prática de maus-tratos a animal, conforme art. 32, §1º-A, da Lei 9.605/98. O réu foi acusado de não fornecer alimentação adequada e de aplicar produto químico tóxico no animal, resultando em cegueira. II. Questão em Discussão  2. A questão em discussão consiste na alegação de ausência de dolo específico, fragilidade probatória quanto aos maus-tratos, ausência de nexo causal entre a conduta e a cegueira do animal, desconsideração da dinâmica familiar e desproporcionalidade na dosimetria da pena. III. Razões de Decidir  3. A conduta dolosa do réu foi configurada pela aplicação de produto químico tóxico sem orientação veterinária, assumindo o risco de causar lesão ao animal. 4. O conjunto probatório, incluindo depoimentos e laudos, demonstrou a materialidade e autoria dos maus-tratos, com evidências de negligência e omissão nos cuidados com o animal. IV. Dispositivo e Tese  5. Recurso DESPROVIDO.  Tese de julgamento: 1. O tutor responde penalmente por maus-tratos a animais sob sua guarda, independentementede delegação informal de cuidados. 2. A prescindibilidade de dolo específico para configuração do crime de maus-tratos, bastando o dolo eventual. Legislação Citada: Lei 9.605/98, art. 32, §1º-A. CP, art. 59; art. 33, § 2º, b. Jurisprudência Citada: STJ, AgRg nos EDcl no HC Acórdão/STJ, Rel. Min. Nefi Cordeiro, Sexta Turma, j. 07.02.2019. STJ, AgRg no AREsp. Acórdão/STJ, Rel. Min. Jorge Mussi, Quinta Turma, j. 06.12.2018x.
Decisão do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJRJ)A 7ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro confirmou, por unanimidade, a sentença do magistrado de 1º grau que julgou parcialmente procedente o pedido do Ministério Público e condenou uma mulher à pena de 3 anos de reclusão e multa, pelo crime de maus tratos a animais, determinando, ainda, a proibição de guarda em relação aos animais que sofreram maus tratos.
De acordo com os autos, a denunciada (ora apelante) teria praticado atos de maus tratos contra, ao menos, 15 animais domésticos, privando-os de cuidados veterinários, alimentação necessária, e mantendo-os em canil anti-higiênico e clandestino. Na sentença, o juiz de Direito da 27ª Vara Criminal condenou a acusada nas sanções do art. 32, §1º-A, da Lei Federal nº 9.605/1989, por 15 (quinze) vezes, na forma do art. 70, caput, 1ª parte do Código Penal, atribuindo-lhe o regime prisional aberto, com a substituição da pena privativa de liberdade por duas restritivas de direitos, consistentes em prestação de serviços à comunidade ou a entidades públicas, com o mesmo prazo da primeira pena, além da concessão do direito de recorrer em liberdade. A defesa recorreu, alegando nulidade da sentença, por cerceamento de defesa, ante o indeferimento do pleito de instauração de insanidade mental, em razão de violência física, moral, psicológica e patrimonial praticada pelo ex-companheiro, o qual seria responsável pela suposta insanidade temporária da apelante, que não teria sido capaz de compreender o caráter criminoso do fato praticado por ela. E ressaltou que o ex-companheiro da acusada acabou sendo afastado da residência do ex-casal, por força de uma medida protetiva deferida em processo judicial.
Em seu voto, a relatora, desembargadora Maria Angélica Guedes, destacou que, na audiência de instrução e julgamento, realizada em maio de 2023, o Juízo indeferiu o requerimento de instauração do incidente de insanidade mental formulado pela defesa, entendendo que a acusada, em seu interrogatório, havia demonstrado perfeito equilíbrio mental, já que, inclusive, trabalhava em escola pública diretamente com crianças. Além disso, a magistrada afirmou que a prova testemunhal defensiva teria demonstrado que a acusada não possuía transtorno mental, e salientou, ainda, que a apelante nunca faltara ao trabalho, sendo uma funcionária assídua.
Para a desembargadora, a acusada não logrou justificar o estado deplorável dos animais e, não obstante tenha alegado que sentia medo, no tocante ao seu ex-companheiro, mesmo sob vigência de medida protetiva, isso não lhe eximia do dever de cuidado dos animais que estavam sob sua custódia, por morarem em sua residência. Lembrou, ainda, que a apelante “dispunha de alternativas e poderia ter recorrido a instâncias administrativas para solicitar auxílio em relação às providências a serem adotadas”. E concluiu, por fim, pela manutenção da sentença, tendo em vista a demonstração da materialidade e autoria, no que foi acompanhada pelos demais membros do colegiado. 
__________________
X ADM DIREITO. DIREITO PENAL. APELAÇÃO CRIMINAL. MAUS-TRATOS A ANIMAIS. RECURSO DESPROVIDO. I. Disponível em:https://www.admdireito.com.br/jurisprudencia/eme/355.4919.2688.2509?utm_source=chatgpt.com. Acesso em: 20 fev 2026. 
X Portal do conhecimento. Tribunal de Justiça mantém decisão que condenou acusada por crime de maus tratos a animais. Disponível em:https://www.tjrj.jus.br/web/portal-conhecimento/noticias/noticia/-/visualizar-conteudo/5736540/401748334?utm_source=chatgpt.com. Acesso em: 20 fev 2026.
CONCLUSÃO
A análise da tipicidade, ilicitude e culpabilidade no crime de maus-tratos a animais, a partir do caso do cão Orelha, demonstra a plena incidência da teoria tripartida do crime no contexto da tutela penal da fauna no ordenamento jurídico brasileiro.
No que se refere à tipicidade, verificou-se a presença tanto da tipicidade formal — pela adequação da conduta ao art. 32 da Lei nº 9.605/1998 — quanto da tipicidade material, diante da efetiva lesão ao bem jurídico protegido, consistente na integridade física e psíquica do animal e na proteção constitucional da fauna prevista no art. 225 da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. A conduta praticada revelou-se socialmente reprovável e juridicamente relevante, afastando qualquer possibilidade de aplicação do princípio da insignificância.
Quanto à ilicitude, constatou-se a inexistência de causas excludentes, não havendo qualquer situação que justificasse a prática dos atos de violência. A agressão revelou-se contrária ao ordenamento jurídico e aos valores constitucionais de proteção ambiental e vedação à crueldade contra animais.
O caso do cão Orelha reforça a evolução do Direito Penal ambiental brasileiro, especialmente após a alteração promovida pela Lei nº 14.064/2020, que intensificou a resposta penal nos casos envolvendo cães e gatos. Observa-se um movimento de fortalecimento da tutela jurídica dos animais, reconhecendo-os como seres sencientes merecedores de proteção contra práticas cruéis.
Conclui-se, portanto, que o crime de maus-tratos a animais, quando analisado sob a perspectiva dogmática da tipicidade, ilicitude e culpabilidade, apresenta plena estrutura de fato típico, ilícito e culpável, legitimando a intervenção penal como instrumento de proteção da dignidade animal e de concretização dos mandamentos constitucionais ambientais.
BIBLIOGRAFIA
 ADM DIREITO. DIREITO PENAL. APELAÇÃO CRIMINAL. MAUS-TRATOS A ANIMAIS. RECURSO DESPROVIDO. I. Disponível em:https://www.admdireito.com.br/jurisprudencia/eme/355.4919.2688.2509?utm_source=chatgpt.com. Acesso em: 20 fev 2026. 
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