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A CLÍNICA EM FREUD 
AULA 3 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Profª Raquel Berg 
 
 
2 
CONVERSA INICIAL 
Anteriormente, falamos sobre as Experiências clínicas de Sigmund 
Freud e alguns dos principais médicos que contribuíram para o trabalho de 
Freud, tais como Charcot, Breuer e Berheim, dentre outros. Nessa aula, 
também falaremos um pouco do contexto sócio-histórico de Freud, uma vez 
que esse contexto influenciou significativamente Freud na aproximação com os 
estudos sobre a histeria. Falaremos das principais influências e das cartas de 
Freud a Fliess, nas quais Freud traz grande parte de seus primeiros esboços 
do que viria a ser futuramente a psicanálise de maneira mais ampla. Na 
próxima aula, falaremos sobre os textos “Sobre a concepção das afasias”, 
“Algumas Considerações para um estudo comparativo das paralisias 
motoras orgânicas e histéricas” e “Projeto para uma Psicologia 
Científica”. Nas últimas aulas, falaremos sobre os primeiros casos clínicos 
de Freud, trazendo um resumo de seus principais casos: Srta. Anna O., Sra. 
Emmy Von N., Miss Lucy R., Katharina e Srta. Elisabeth Von R. Além disso, 
iremos introduzir um pouco do que foi a teoria da técnica freudiana, pelo menos 
em seus primórdios. Também falaremos sobre a psicoterapia da histeria e as 
considerações de Breuer. 
Na aula anterior e na de hoje, traremos os temas que, na verdade, foram 
a subdivisão de toda a conversa entre Freud e Breuer e Freud e Fliess, com 
exceção do “Projeto para uma Psicologia Científica”, que terá uma atenção 
especial na próxima aula. Já mencionamos na aula anterior o quanto Breuer foi 
importante para o trabalho de Freud. Fliess era médico otorrinolaringologista e 
manteve com Freud, durante muitos anos, uma comunicação por 
correspondência intensa e frequente entre os anos de 1887 e 1902. Segundo 
James Strachey (Freud, 1895, p. 219): 
[Fliess] era mais acessível às ideias de Freud do que qualquer outro 
contemporâneo. Por conseguinte, Freud lhe comunicava seus 
pensamentos com a máxima liberdade, e o fazia não apenas em suas 
cartas, como também numa série de documentos (“Rascunhos”, 
como os chamamos aqui) que representavam relatos organizados de 
suas ideias em evolução e que, em alguns casos, são os primeiros 
esboços de obras posteriormente publicadas. 
Essas cartas foram reveladas logo após a Segunda Guerra Mundial, 
tendo sido mantidas em sigilo por Marie Bonaparte, sendo essa história 
contada nos textos de Ernest Jones. A maioria das informações que serão 
 
 
3 
apresentadas aqui são um grande resumo dos principais textos de Freud, com 
alguns tópicos que ainda estavam em processo de amadurecimento conceitual. 
A principal relevância das informações que serão trazidas aqui mostra os 
vieses e os caminhos que Freud estava trilhando até chegar aos textos finais, e 
traz aos leitores uma boa ideia dos primórdios da psicanálise. Depois de 
apresentarmos um resumo dessas correspondências, falaremos do tópico “na 
prática” sobre como esses temas se correlacionam com tópicos do nosso 
cotidiano; e, em “finalizando”, faremos uma retomada dos temas examinados 
nessa aula. Mais informações poderão ser encontradas nos livros citados nas 
referências, os quais poderão ser consultados caso haja qualquer dúvida a 
respeito dos tópicos aqui tratados. 
O Rascunho I (Enxaqueca: aspectos estabelecidos) será suprimido de 
nossas análises porque se trata de uma tentativa de estabelecer conexão entre 
a sintomatologia da enxaqueca e as questões sexuais, mais presentes nas 
mulheres. Naquela época, seria difícil dizer se a enxaqueca feminina era de 
fato um problema ginecológico, de caráter psíquico ou mero artifício para lidar 
com as obrigações sexuais presentes nos casamentos sem amor. 
TEMA 1 – MECANISMOS DE DEFESA (CARTA 22) 
A carta 22 tem uma importância básica por trazer um resumo entre os 
transtornos descritos na aula anterior. A tabela abaixo mostra esse 
comparativo: 
 Afeto 
Conteúdo da 
ideia 
Alucinação Resultado 
Histeria 
eliminado 
pela 
conversão 
- - 
ausente da 
consciência 
- 
defesa instável 
com ganho 
satisfatório 
Ideia 
obsessiva 
conservado + - 
ausente da 
consciência 
substituto 
encontrado 
- 
defesa 
permanente 
sem ganho 
Confusão 
alucinatória 
ausente - - ausente 
favorável ao 
EGO 
favorável à 
defesa 
permanente 
com ganho 
 
 
4 
defesa acentuado 
Paranoia conservado + + 
projetado 
para fora 
hostil ao EGO 
favorável à 
defesa 
defesa 
permanente 
sem ganho 
Psicose 
histérica 
domina a 
consciência 
+ + 
domina a 
consciência 
hostil ao EGO 
hostil à defesa 
fracasso da 
ideia 
TEMA 2 – NEUROSES DE DEFESA (RASCUNHO K: AS NEUROSES DE 
DEFESA - UM CONTO DE FADAS NATALINO) 
Nesse estudo, Freud traça uma comparação entre histeria, neurose 
obsessiva e paranoia. Segundo o autor, esses 3 transtornos possuem alguns 
pontos em comum, pois são extravasamentos excessivos de estados afetivos 
psíquicos normais, extravasamentos que não trazem nenhum benefício ou 
resolução de conflitos, apenas um prejuízo para o ego. Assim, estão presentes 
reações de conflito (no caso da histeria), de autocensura (no caso da neurose 
obsessiva) e de mortificação (no caso da paranoia), sendo todos conectados a 
conflitos sexuais infantis e possivelmente de caráter hereditário, que precisam 
ser reprimidos: 
O rumo tomado pela doença nas neuroses de recalcamento é, em 
geral, sempre o mesmo: (1) a experiência sexual (ou a série de 
experiências), que é traumática e prematura e deve ser recalcada. (2) 
Seu recalcamento em alguma ocasião posterior, que desperta a 
lembrança correspondente; ao mesmo tempo, a formação de um 
sintoma primário. (3) Um estágio de defesa bem-sucedida, que é 
equivalente à saúde, exceto quanto à existência do sintoma primário. 
(4) O estágio em que as ideias recalcadas retornam e em que, 
durante a luta entre elas e o ego, formam-se novos sintomas, que são 
os da doença propriamente dita: isto é, uma fase de ajustamento, de 
ser subjugado, ou de recuperação com uma malformação. (Freud, 
1895, p. 269) 
Na neurose obsessiva, a experiência primária é acompanhada de 
prazer, sem dor ou mescla de nojo (como é esperado quando, por exemplo, a 
criança aprende a se limpar após as fezes, ou quando está constipada e 
aprende que precisa se alimentar melhor. Nesses casos, seria esperado que a 
criança vivenciasse uma sensação de nojo ou de dor, o que não ocorre no 
desenvolvimento da neurose obsessiva). Quando essa experiência então é 
lembrada posteriormente, daí então surge a vergonha e o desprazer pela 
autocensura, fazendo com que o ego tente recalcar a lembrança. Além disso, 
Freud (1895) também afirma que, na neurose obsessiva, há uma experiência 
 
 
5 
de passividade durante o prazer, e a recordação dessa experiência 
posteriormente é que gera o desprazer e o sentimento de angústia associado 
com ideias ou afetos obsessivos, rituais, acumulação obsessiva de objetos, 
escrupulosidade e autocensura excessiva. 
Na paranoia, nenhuma autocensura se forma, e o desprazer gerado é 
atribuído a pessoas que, de algum modo, relacionam-se com a pessoa 
paranoica, com um processo de projeção. Nesse sentido, o sintoma primário é 
a desconfiança, e o afeto reprimido que retorna pode vir sob a forma de 
alucinação (visual, auditiva etc.) que lembram a autocensura, ou seja, essas 
alucinações aparecem sob a forma de ordens e ameaças ao ego e ao indivíduo 
que, por terem sido distorcidas, parecem ser de origem indefinida. Os sintomas 
mais comuns são ligados à megalomania e ao medo de perseguição, pois são 
delírios de proteção ao ego. E, diferente da histeria e da neurose obsessiva, a 
paranoia se desenvolve mais tarde no individuo, pois depende de o ego estar 
formado para ser subjugado. 
Na histeria, o fator presente é a passividade sexual e a experiência de 
desprazer que deve ocorrer mais tarde que na neuroseobsessiva. Segundo 
Freud (1895, p. 276): 
O recalcamento e a formação de sintomas defensivos só ocorrem 
posteriormente, em conexão com a lembrança; e, daí em diante, 
defesa e subjugação (isto é, a formação dos sintomas e a irrupção 
dos ataques) podem estar combinadas em qualquer grau de histeria. 
O recalcamento não es dá pela construção de uma ideia antitética 
excessivamente forte [...], mas sim pela intensificação de uma ideia 
limítrofe, que, depois, representa a lembrança no fluxo do 
pensamento. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
6 
TEMA 3 – CRONOLOGIA DAS NEUROSES (CARTAS 46 E 52) 
3.1 Carta 46 
Nessa carta, Freud (1895) estabelece de forma cronológica as 
psiconeuroses de acordo com os estágios de vida, conforme podemos 
observar nas próximas 2 tabelas: 
Idades 
Ia Ib A II B III 
Até os 4 anos 
Pré-consciente 
Até os 8 anos Até os 14 
anos 
Pré-
puberdade 
 Até o fim da 
vida 
Maturidade 
Na tabela anterior, as colunas A e B são os períodos nos quais se dá o 
recalque para a formação dos sintomas e das neuroses. Segundo Freud, esses 
são períodos de transição entre as épocas da vida, sendo a tabela anterior e a 
próxima os primórdios de seus estudos que, posteriormente, dariam origem à 
teoria da sexualidade (Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, lançado em 
1905). Na próxima tabela, vê-se um resumo do momento em que ocorre a 
formação de cada neurose: 
Requisitos cronológicos 
 Ia Ib A II B III 
 Até os 4 Até os 8 
Até os 
14 
 Até X 
Histeria Cena Recalque Recalque 
Obsessão Cena Recalque Recalque 
Paranoia Cena e Recalque 
Com base nessas informações, Freud conclui que tanto a histeria quanto 
a neurose obsessiva podem se desenvolver no início da vida, enquanto a 
paranoia é um transtorno mais característico da vida adulta. Apesar de não ser 
o objeto de estudo aqui, é importante informar que essas hipóteses sobre as 
idades de início de cada transtorno foram apenas um primeiro rascunho de 
Freud sobre o tema. Aqui ele também já antecipa o que será discutido a 
 
 
7 
respeito da energia de catexia, do afeto ou força quantitativa inerente a uma 
representação, e da mobilidade dessa energia ao se desvincular da memória 
original e se deslocar de acordo com as regras de cada sistema de defesa. 
Quando a força dessas recordações a serem reprimidas aumenta, surge o 
distúrbio psíquico. E, se esse aumento for de tal dimensão a ponto de tomarem 
o controle da consciência, produz-se então a psicose. 
3.2 Carta 52 
Nessa carta, o autor segue discutindo sobre os mecanismos de defesa. 
Segundo o autor, nossas lembranças são, de tempos em tempos, rearranjadas 
segundo novas circunstâncias e novas experiências: “assim, o que há de 
essencialmente novo a respeito de minha teoria é a tese de que a memória não 
se faz presente de uma só vez, mas se desdobra em vários tempos; que ela é 
registrada em diferentes espécies de indicações” (Freud, 1895-6, p. 281). A 
figura abaixo é um primeiro quadro esquemático do aparelho psíquico que 
Freud utiliza para apresentar sua ideia: 
 I II III 
Pcp I-Pcp Ics Pcs Cs 
XX XX XX XX XX 
X XX X X X 
 X 
A tabela acima foi adaptada para facilitar nossa leitura, incluindo as 
siglas comumente usadas para descrever o aparelho psíquico freudiano 
relativo aos primeiros anos de trabalho dele (chamados de primeira tópica, que 
antecedem o texto da Interpretação dos Sonhos, de 1905): Pcp significa 
percepção; I-pcp significa indicação da percepção; Ics é o inconsciente; Pcs é o 
pré-consciente e Cs é a consciência. Esse primeiro indicativo sobre a formação 
do sistema psíquico será mais bem trabalhado nos textos “Projeto para uma 
Psicologia Científica”, também de 1895, e no Rascunho “Uma nota sobre o 
bloco mágico”, no qual Freud faz um paralelo entre esse brinquedo tão popular 
na época e o sistema psíquico. 
Na descrição sobre como funciona o aparelho psíquico, portanto, 
podemos compreender que as percepções nos cercam a todo momento, e que 
cada pessoa pode ter uma compreensão ou indicação da percepção diferente, 
 
 
8 
de acordo com sua genética e experiência prévia. A informação captada é 
processada então no subconsciente e encaminhada ao inconsciente, recalcada 
quando trouxer algum tipo de conflito ou sofrimento para o indivíduo. Quando 
não há nenhum sentimento de conflito envolvido, essa lembrança, imagem, 
som ou cheiro apreendido retornam à consciência e ficam gravados, podendo 
se conectar a outras informações (anteriores ou posteriores). Dessa forma, as 
informações apreendidas são permanentemente reeditadas e reelaboradas, 
pois a construção das mesmas passa por um constante processo de 
reconstrução e revisão. 
A informação recalcada pode passar por um processo normal de defesa 
ou patológico. Quando se torna patológico, significa que ele se associou a uma 
memória que estava no Ics por não ter sido processada, já que provocava 
demasiado sentimento de conflito ou sofrimento. Além disso, quanto mais 
vezes essa lembrança recalcada retorna à Cs, ainda que modificada, mais o 
aparelho psíquico irá se esforçar por reprimi-la novamente ou modificá-la. No 
entanto, no caso dos eventos sexuais, há uma diferença: 
O que determina a defesa patológica (recalcamento), portanto, é a 
natureza sexual do evento e sua ocorrência numa fase anterior. Nem 
todas as experiências sexuais produzem desprazer; a maioria delas 
produz prazer. Assim, a maioria delas está ligada a um prazer não 
passível de inibição. O prazer não passível de inibição dessa espécie 
constitui uma compulsão. Chegamos, pois, à seguinte formulação. 
Quando uma experiência sexual é recordada numa fase diferente, a 
liberação de prazer é acompanhada por uma compulsão e a liberação 
de desprazer é acompanhada pelo recalcamento. 
Freud, ao estabelecer novamente como os transtornos se encaixam na 
cronologia de desenvolvimento humano, traz a seguinte formulação: 
 Até 4 anos Até 8 anos Até 14-15 anos Idem 
Histeria atual compulsão recalcado em I-pcp 
N. obsessiva atual 
recalcado nas 
indicações de Ics 
 
Paranoia atual 
reprimido nas 
indicações de Pcs 
Perversão atual atual compulsão (atual) 
recalcamento 
impossível ou não 
tentado 
 
 
9 
Assim, para o autor, há 3 grupos de psiconeuroses: histeria, neurose 
obsessiva e paranoia, sendo que a primeira experiência de recalque só ocorre 
após os 4 anos de idade, e na perversão (que para Freud já é considerada 
dentro de um outro grupo; posteriormente, ele traça como sendo 3 grupos 
psíquicos a neurose, a psicose e a perversão). 
TEMA 4 – ETIOLOGIA DA HISTERIA E DOS IMPULSOS (RASCUNHO L, M E 
N) 
4.1 Rascunho L: Notas I 
Esse rascunho trata basicamente do tema da histeria. Segundo Freud, 
para se tratar da histeria, é necessário o médico conseguir regressar, 
juntamente com o paciente, às cenas primevas que deram origem ao 
transtorno, ainda que por meio das fantasias que foram criadas para dificultar o 
acesso ao inconsciente e à memória recalcada. As fantasias servem para, além 
de proteger o aparelho psíquico, aprimorar as lembranças e sublimá-las, ou 
provocar prazer com essas lembranças originalmente angustiantes. Alguns dos 
exemplos de fantasias apresentadas por Freud são: com empregadas, 
recorrentemente tidos por mulheres que as consideram como pessoas de baixo 
padrão moral, sem valor e sexualmente ligadas com o pai ou o irmão da 
família; com cogumelos e embrulhar, pois a palavra alemã para cogumelos 
(Schwämme) também significa esponja e está associada com métodos 
contraceptivos da época, assim como embrulhar e camisinha; com dores, no 
sentido de que há a repetição intencional da dor ao se bater a genitália contra 
uma quina ou um móvel, provocando a sensação de prazer e de dor ao mesmo 
tempo; e às doenças, nos casos dos pacientes que desejam estar doentes. 
4.2 Rascunho M: Notas II 
Na sequência do tema sobre a histeria, considera-se que algumas cenas 
são diretamenteacessíveis e outras apenas por intermédio das fantasias. 
Segundo Freud (1895, p. 300), “as cenas recalcadas são organizadas por 
ordem crescente de resistência: as que foram recalcadas com menos energia 
vêm à luz primeiro, porém só incompletamente, devido à sua associação com 
as que foram duramente recalcadas”. Como esse processo de recalque pode 
 
 
10 
se dar mais de uma vez, principalmente se novas informações se ligam à 
lembrança recalcada, há uma espécie de fluxo contínuo, repetitivo e renovador, 
com distorções e fragmentações da informação, que perde a temporalidade e o 
contexto à medida que é reeditada no inconsciente, conforme o desenho a 
seguir: 
 
Na histeria, as fantasias são independentes e contraditórias, e se dá 
pelo deslocamento das associações; na paranoia, as fantasias são 
sistematizadas e em perfeita harmonia, e as associações se dão por um 
deslocamento causal. Já na neurose obsessiva, os sintomas derivam das 
próprias fantasias, como ocorre com as fobias, e a associação se dá por um 
deslocamento por semelhança (no lugar e no tempo). 
4.3 Rascunho N: Notas III 
Na sequência das notas, Freud (1895) discute a importância dos 
impulsos hostis contra os pais na formação das neuroses, como um elemento 
integrante a elas e que é recalcado quando há a compaixão por esses pais, em 
períodos de doença ou morte. Além disso, Freud discute se os impulsos 
poderiam derivar das fantasias, associa a arte às fantasias e aos sintomas 
como a satisfação direta dos desejos. 
TEMA 5 – ESTUDOS DE CASOS (CARTAS A FLIESS) 
As cartas a Fliess são basicamente uma continuação dos rascunhos, 
com a descrição de alguns casos e sua interpretação. A carta 21, por exemplo, 
traz a descrição de 2 casos, sendo o primeiro com queixa de sensibilidade nos 
olhos e problemas com um casamento não consumado, além de masturbação 
 
 
11 
e insatisfação sexual. O 2º caso trata também de problemas com abstinência, 
com masturbação, ejaculação precoce e desejos mais intensos em 
comparação com outros jovens da mesma idade. 
Já a carta 55 traz uma análise de desenvolvimento da perversão. Nesse 
estudo de caso, afirma Freud (1895, p. 288): “o que determina uma psicose [...] 
em lugar de uma neurose, parece ser o fato de o abuso sexual ocorrer antes do 
fim do primeiro estágio intelectual – isto é, antes de o aparelho psíquico ter sido 
completado na sua primeira forma (antes dos 15 a 18 meses)”. No caso em 
questão, o paciente era um homem demasiado inteligente que começou a ter 
ataques de dipsomania (beber álcool em excesso, de uma só vez; é diferente 
aqui do alcoolismo, no qual a pessoa bebe regularmente, com perdas físicas e 
sociais progressivas) com diarreia e rouquidão. Durante as consultas, Freud 
identificou que o paciente já havia tido relações sexuais com a irmã mais nova, 
que posteriormente desenvolvera psicose na puberdade. Também se 
identificou que a geração seguinte à do paciente apresentou uma série de 
problemas psíquicos, possivelmente decorrentes dessas experiências 
traumáticas vividas pelo paciente e por suas irmãs. O diagrama a seguir 
demonstra melhor essa estrutura familiar: 
 
 
12 
 
 O autor também conclui, com base nesse estudo de caso, que as 
perversões podem levar à zoofilia, uma vez que se utilizam de zonas erógenas 
menos relevantes ao ser humano e mais para os animais para obter prazer, 
tais como o olfato ou o paladar. E, na medida que essas zonas sensoriais se 
tornam mais importantes canais de prazer, cabelos, fezes, sangue, resíduos 
corporais em geral passam a provocar um intenso prazer no indivíduo. 
 As cartas 56 e 57 tratam de bruxas. Um tema bastante curioso, diga-se 
de passagem. O autor aqui levanta algumas hipóteses sobre o motivo de tantas 
mulheres terem sido perseguidas como bruxas na Idade Média, e como alguns 
dos relatos de tortura daquela época se assemelham tanto aos relatos atuais 
 
 
13 
das mulheres histéricas. Para Freud (1895), muito do que se contava a respeito 
daquelas mulheres estava diretamente relacionado com desejos reprimidos, 
com a relação dessas mulheres com seus corpos e com seus desejos sexuais 
(associando, por exemplo, as vassouras de bruxa com pênis, nos quais elas 
obteriam prazer ao voar pelos céus). Além disso, as danças e rituais de magia 
também estariam relacionados com comportamentos sexuais infantis, ligados a 
uma idealização do prazer e daquilo que é proibido. Além das bruxas e dos 
pervertidos, os paranoicos também ocupam um lugar nesse espaço de 
fantasia, pois acreditam que há demônios ou cultos secretos que pretendem 
atacá-los, além de tentativas escondidas de matá-los ou abusar sexualmente 
de seus corpos sem que eles mesmos tenham conhecimento para que possam 
se defender. 
 Já na carta 60, Freud se queixa a seu interlocutor por não lhe mandar 
notícias ou lhe informar se havia mudado de endereço ou como estava 
passando (para uma época na qual havia somente cartas, sem telefone ou e-
mail, as comunicações entre as pessoas demoravam meses, o que nos 
permitia entender a ansiedade em obter respostas que hoje são dadas 
instantaneamente). Depois, o autor relata um de seus casos, no qual a 
paciente sofria de problemas histéricos associados ao fato de que seu pai 
abusava sexualmente dela quando criança. É interessante que esse tipo de 
relato aparecia constantemente nos textos de Freud e que a etiologia mais 
comum era a histeria, já que não havia delegacias ou instituições que 
pudessem proteger essas moças de violência doméstica. De fato, percebe-se 
inclusive que Freud trata com naturalidade esse tipo de relato, comum nos 
consultórios médicos (tanto de Freud como de outros médicos da época). As 
demais cartas, até a 125, seguem com relatos de casos e revisões pessoais do 
próprio Freud a respeito de si, de sua teoria sobre o funcionamento do aparelho 
psíquico e um prenuncio sobre a teoria dos sonhos, que viria mais para frente. 
NA PRÁTICA 
O exemplo prático que traremos aqui é do Rascunho J (1895). Frau P. 
J., de 27 anos, estava casada havia 3 meses. Seu marido era caixeiro-viajante 
e, logo depois do casamento, já estava ausente há algumas semanas. Ela 
sentia falta do marido e ansiava por sua volta. Era cantora (ou havia se 
formado como cantora) e, para passar o tempo, gostava de ficar sentada ao 
 
 
14 
piano, cantando. Um dia, sentiu-se mal, com um mal-estar no abdômen e no 
estômago, com a cabeça rodando, sensações de opressão e angústia e 
parestesia cardíaca. Pensou que essas sensações eram provenientes de algo 
que comera mais cedo, e concluiu ter se envenenado. No dia seguinte, a 
empregada contou que uma mulher que morava na mesma casa antes de Frau 
P.J. tinha enlouquecido e, daquele momento em diante, uma obsessão 
acompanhada de angústia por também ficar louca nunca mais a abandonou. 
De início, Freud supôs que a condição da paciente era um ataque de 
angústia, uma sensação sexual transformada, uma vez que o marido estava 
viajando e ela desejava ter relações sexuais com ele. Durante a consulta, a 
paciente se esquecera do que estava fazendo; quando Freud pressionou sua 
cabeça, ela contou que estava cantando a ópera Carmem, de Bizet, mas que 
não se lembrava mais da letra. Depois, lembrou-se das palavras “marido” e 
“desejar”, e Freud lhe perguntou se havia sentido vontade de urinar. Ela disse 
que sim, e ele explicou que ela sentira um orgasmo e que sentia falta do 
marido, o que não era algo para se envergonhar. Na sequência, Freud 
começou a suspeitar que haveria uma sequência de pensamentos para além 
da questão conjugal. A paciente retornou chorando e desesperada; daí então, o 
progresso do tratamento se tornou mais difícil. Disse que o ginecologista que a 
atendeu confirmou não ter havido intercurso sexual entre ela e o amigo da 
família; porém, ela queria que tivesse acontecido. Depois, trouxe uma cena na 
qual ela tivera um compromisso: tinha um recitalpela manhã e se saíra bem, 
mas teve uma visão de que discutia com o tenor da companhia, e então teve 
outro ataque, com medo de estar enlouquecendo. Freud insistiu na visão, mas 
a paciente não conseguia dizer com certeza se tinha sido tocada e onde, e se 
sentia assustada com os abraços e beijos entre as pessoas. Por fim, 
abandonou o tratamento. Está claro que a paciente inicialmente parecia estar 
sofrendo pela falta do marido; porém, mais tarde, seus medos se revelaram 
como um outro tipo de neurose, conectado a experiências anteriores e de 
caráter sexual. Uma espécie de neurose de angústia com características 
paranoicas, uma vez que havia o medo das pessoas sentirem pena e acreditar 
que falavam dela e de seu “namorado”. Sua falta de clareza entre realidade e 
fantasia a fizeram ir até o ginecologista, pois não se sentia em condições dela 
mesma atestar se havia tido uma experiência sexual com o jovem caixeiro ou 
não. 
 
 
15 
FINALIZANDO 
Como mencionamos no início desta aula e da aula anterior, nosso 
objetivo foi trazer algumas das influências no trabalho de Freud, expressas em 
seus rascunhos e cartas a Fliess. Trabalhamos de forma aprofundada sobre 
seus estudos e análises sobre as psiconeuroses (histeria, neurose obsessiva e 
paranoia), além de uma menção sobre a perversão e a formação do aparelho 
psíquico para o estabelecimento de cada uma dessas estruturas. 
Esperamos que tenham aproveitado as discussões apresentadas aqui 
para conhecer um pouco mais das origens da psicanálise, e convidamos a 
todos a continuar acompanhando as aulas para saber mais sobre como Freud 
elaborou e desenvolveu seus estudos, criando assim as bases da psicanálise. 
 
 
 
 
16 
REFERÊNCIAS 
FREUD, S. Histeria. v. 1. In: Publicações pré-psicanalíticas e esboços 
inéditos (1866-99). Rio de Janeiro: Imago, 1888. 
LAPLANCHE, J.; PONTALIS, J. B. Vocabulário da psicanálise. 4. ed. São 
Paulo: Martins Fontes, 2001. 
ROUDINESCO, E.; PLON, M. Dicionário de psicanálise. Trad. Vera Ribeiro. 
Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. 
BIRMAN, J. Freud e a interpretação psicanalítica. Rio de Janeiro: Relumé-
Dumará, 1991. 
MEZAN, R. Freud: a trama dos conceitos. São Paulo: Perspectiva, 1980. 
SOUZA, P. C. As palavras de Freud: o vocabulário freudiano e suas versões. 
São Paulo: Ática, 1999.

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