Prévia do material em texto
A CLÍNICA EM FREUD AULA 3 Profª Raquel Berg 2 CONVERSA INICIAL Anteriormente, falamos sobre as Experiências clínicas de Sigmund Freud e alguns dos principais médicos que contribuíram para o trabalho de Freud, tais como Charcot, Breuer e Berheim, dentre outros. Nessa aula, também falaremos um pouco do contexto sócio-histórico de Freud, uma vez que esse contexto influenciou significativamente Freud na aproximação com os estudos sobre a histeria. Falaremos das principais influências e das cartas de Freud a Fliess, nas quais Freud traz grande parte de seus primeiros esboços do que viria a ser futuramente a psicanálise de maneira mais ampla. Na próxima aula, falaremos sobre os textos “Sobre a concepção das afasias”, “Algumas Considerações para um estudo comparativo das paralisias motoras orgânicas e histéricas” e “Projeto para uma Psicologia Científica”. Nas últimas aulas, falaremos sobre os primeiros casos clínicos de Freud, trazendo um resumo de seus principais casos: Srta. Anna O., Sra. Emmy Von N., Miss Lucy R., Katharina e Srta. Elisabeth Von R. Além disso, iremos introduzir um pouco do que foi a teoria da técnica freudiana, pelo menos em seus primórdios. Também falaremos sobre a psicoterapia da histeria e as considerações de Breuer. Na aula anterior e na de hoje, traremos os temas que, na verdade, foram a subdivisão de toda a conversa entre Freud e Breuer e Freud e Fliess, com exceção do “Projeto para uma Psicologia Científica”, que terá uma atenção especial na próxima aula. Já mencionamos na aula anterior o quanto Breuer foi importante para o trabalho de Freud. Fliess era médico otorrinolaringologista e manteve com Freud, durante muitos anos, uma comunicação por correspondência intensa e frequente entre os anos de 1887 e 1902. Segundo James Strachey (Freud, 1895, p. 219): [Fliess] era mais acessível às ideias de Freud do que qualquer outro contemporâneo. Por conseguinte, Freud lhe comunicava seus pensamentos com a máxima liberdade, e o fazia não apenas em suas cartas, como também numa série de documentos (“Rascunhos”, como os chamamos aqui) que representavam relatos organizados de suas ideias em evolução e que, em alguns casos, são os primeiros esboços de obras posteriormente publicadas. Essas cartas foram reveladas logo após a Segunda Guerra Mundial, tendo sido mantidas em sigilo por Marie Bonaparte, sendo essa história contada nos textos de Ernest Jones. A maioria das informações que serão 3 apresentadas aqui são um grande resumo dos principais textos de Freud, com alguns tópicos que ainda estavam em processo de amadurecimento conceitual. A principal relevância das informações que serão trazidas aqui mostra os vieses e os caminhos que Freud estava trilhando até chegar aos textos finais, e traz aos leitores uma boa ideia dos primórdios da psicanálise. Depois de apresentarmos um resumo dessas correspondências, falaremos do tópico “na prática” sobre como esses temas se correlacionam com tópicos do nosso cotidiano; e, em “finalizando”, faremos uma retomada dos temas examinados nessa aula. Mais informações poderão ser encontradas nos livros citados nas referências, os quais poderão ser consultados caso haja qualquer dúvida a respeito dos tópicos aqui tratados. O Rascunho I (Enxaqueca: aspectos estabelecidos) será suprimido de nossas análises porque se trata de uma tentativa de estabelecer conexão entre a sintomatologia da enxaqueca e as questões sexuais, mais presentes nas mulheres. Naquela época, seria difícil dizer se a enxaqueca feminina era de fato um problema ginecológico, de caráter psíquico ou mero artifício para lidar com as obrigações sexuais presentes nos casamentos sem amor. TEMA 1 – MECANISMOS DE DEFESA (CARTA 22) A carta 22 tem uma importância básica por trazer um resumo entre os transtornos descritos na aula anterior. A tabela abaixo mostra esse comparativo: Afeto Conteúdo da ideia Alucinação Resultado Histeria eliminado pela conversão - - ausente da consciência - defesa instável com ganho satisfatório Ideia obsessiva conservado + - ausente da consciência substituto encontrado - defesa permanente sem ganho Confusão alucinatória ausente - - ausente favorável ao EGO favorável à defesa permanente com ganho 4 defesa acentuado Paranoia conservado + + projetado para fora hostil ao EGO favorável à defesa defesa permanente sem ganho Psicose histérica domina a consciência + + domina a consciência hostil ao EGO hostil à defesa fracasso da ideia TEMA 2 – NEUROSES DE DEFESA (RASCUNHO K: AS NEUROSES DE DEFESA - UM CONTO DE FADAS NATALINO) Nesse estudo, Freud traça uma comparação entre histeria, neurose obsessiva e paranoia. Segundo o autor, esses 3 transtornos possuem alguns pontos em comum, pois são extravasamentos excessivos de estados afetivos psíquicos normais, extravasamentos que não trazem nenhum benefício ou resolução de conflitos, apenas um prejuízo para o ego. Assim, estão presentes reações de conflito (no caso da histeria), de autocensura (no caso da neurose obsessiva) e de mortificação (no caso da paranoia), sendo todos conectados a conflitos sexuais infantis e possivelmente de caráter hereditário, que precisam ser reprimidos: O rumo tomado pela doença nas neuroses de recalcamento é, em geral, sempre o mesmo: (1) a experiência sexual (ou a série de experiências), que é traumática e prematura e deve ser recalcada. (2) Seu recalcamento em alguma ocasião posterior, que desperta a lembrança correspondente; ao mesmo tempo, a formação de um sintoma primário. (3) Um estágio de defesa bem-sucedida, que é equivalente à saúde, exceto quanto à existência do sintoma primário. (4) O estágio em que as ideias recalcadas retornam e em que, durante a luta entre elas e o ego, formam-se novos sintomas, que são os da doença propriamente dita: isto é, uma fase de ajustamento, de ser subjugado, ou de recuperação com uma malformação. (Freud, 1895, p. 269) Na neurose obsessiva, a experiência primária é acompanhada de prazer, sem dor ou mescla de nojo (como é esperado quando, por exemplo, a criança aprende a se limpar após as fezes, ou quando está constipada e aprende que precisa se alimentar melhor. Nesses casos, seria esperado que a criança vivenciasse uma sensação de nojo ou de dor, o que não ocorre no desenvolvimento da neurose obsessiva). Quando essa experiência então é lembrada posteriormente, daí então surge a vergonha e o desprazer pela autocensura, fazendo com que o ego tente recalcar a lembrança. Além disso, Freud (1895) também afirma que, na neurose obsessiva, há uma experiência 5 de passividade durante o prazer, e a recordação dessa experiência posteriormente é que gera o desprazer e o sentimento de angústia associado com ideias ou afetos obsessivos, rituais, acumulação obsessiva de objetos, escrupulosidade e autocensura excessiva. Na paranoia, nenhuma autocensura se forma, e o desprazer gerado é atribuído a pessoas que, de algum modo, relacionam-se com a pessoa paranoica, com um processo de projeção. Nesse sentido, o sintoma primário é a desconfiança, e o afeto reprimido que retorna pode vir sob a forma de alucinação (visual, auditiva etc.) que lembram a autocensura, ou seja, essas alucinações aparecem sob a forma de ordens e ameaças ao ego e ao indivíduo que, por terem sido distorcidas, parecem ser de origem indefinida. Os sintomas mais comuns são ligados à megalomania e ao medo de perseguição, pois são delírios de proteção ao ego. E, diferente da histeria e da neurose obsessiva, a paranoia se desenvolve mais tarde no individuo, pois depende de o ego estar formado para ser subjugado. Na histeria, o fator presente é a passividade sexual e a experiência de desprazer que deve ocorrer mais tarde que na neuroseobsessiva. Segundo Freud (1895, p. 276): O recalcamento e a formação de sintomas defensivos só ocorrem posteriormente, em conexão com a lembrança; e, daí em diante, defesa e subjugação (isto é, a formação dos sintomas e a irrupção dos ataques) podem estar combinadas em qualquer grau de histeria. O recalcamento não es dá pela construção de uma ideia antitética excessivamente forte [...], mas sim pela intensificação de uma ideia limítrofe, que, depois, representa a lembrança no fluxo do pensamento. 6 TEMA 3 – CRONOLOGIA DAS NEUROSES (CARTAS 46 E 52) 3.1 Carta 46 Nessa carta, Freud (1895) estabelece de forma cronológica as psiconeuroses de acordo com os estágios de vida, conforme podemos observar nas próximas 2 tabelas: Idades Ia Ib A II B III Até os 4 anos Pré-consciente Até os 8 anos Até os 14 anos Pré- puberdade Até o fim da vida Maturidade Na tabela anterior, as colunas A e B são os períodos nos quais se dá o recalque para a formação dos sintomas e das neuroses. Segundo Freud, esses são períodos de transição entre as épocas da vida, sendo a tabela anterior e a próxima os primórdios de seus estudos que, posteriormente, dariam origem à teoria da sexualidade (Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, lançado em 1905). Na próxima tabela, vê-se um resumo do momento em que ocorre a formação de cada neurose: Requisitos cronológicos Ia Ib A II B III Até os 4 Até os 8 Até os 14 Até X Histeria Cena Recalque Recalque Obsessão Cena Recalque Recalque Paranoia Cena e Recalque Com base nessas informações, Freud conclui que tanto a histeria quanto a neurose obsessiva podem se desenvolver no início da vida, enquanto a paranoia é um transtorno mais característico da vida adulta. Apesar de não ser o objeto de estudo aqui, é importante informar que essas hipóteses sobre as idades de início de cada transtorno foram apenas um primeiro rascunho de Freud sobre o tema. Aqui ele também já antecipa o que será discutido a 7 respeito da energia de catexia, do afeto ou força quantitativa inerente a uma representação, e da mobilidade dessa energia ao se desvincular da memória original e se deslocar de acordo com as regras de cada sistema de defesa. Quando a força dessas recordações a serem reprimidas aumenta, surge o distúrbio psíquico. E, se esse aumento for de tal dimensão a ponto de tomarem o controle da consciência, produz-se então a psicose. 3.2 Carta 52 Nessa carta, o autor segue discutindo sobre os mecanismos de defesa. Segundo o autor, nossas lembranças são, de tempos em tempos, rearranjadas segundo novas circunstâncias e novas experiências: “assim, o que há de essencialmente novo a respeito de minha teoria é a tese de que a memória não se faz presente de uma só vez, mas se desdobra em vários tempos; que ela é registrada em diferentes espécies de indicações” (Freud, 1895-6, p. 281). A figura abaixo é um primeiro quadro esquemático do aparelho psíquico que Freud utiliza para apresentar sua ideia: I II III Pcp I-Pcp Ics Pcs Cs XX XX XX XX XX X XX X X X X A tabela acima foi adaptada para facilitar nossa leitura, incluindo as siglas comumente usadas para descrever o aparelho psíquico freudiano relativo aos primeiros anos de trabalho dele (chamados de primeira tópica, que antecedem o texto da Interpretação dos Sonhos, de 1905): Pcp significa percepção; I-pcp significa indicação da percepção; Ics é o inconsciente; Pcs é o pré-consciente e Cs é a consciência. Esse primeiro indicativo sobre a formação do sistema psíquico será mais bem trabalhado nos textos “Projeto para uma Psicologia Científica”, também de 1895, e no Rascunho “Uma nota sobre o bloco mágico”, no qual Freud faz um paralelo entre esse brinquedo tão popular na época e o sistema psíquico. Na descrição sobre como funciona o aparelho psíquico, portanto, podemos compreender que as percepções nos cercam a todo momento, e que cada pessoa pode ter uma compreensão ou indicação da percepção diferente, 8 de acordo com sua genética e experiência prévia. A informação captada é processada então no subconsciente e encaminhada ao inconsciente, recalcada quando trouxer algum tipo de conflito ou sofrimento para o indivíduo. Quando não há nenhum sentimento de conflito envolvido, essa lembrança, imagem, som ou cheiro apreendido retornam à consciência e ficam gravados, podendo se conectar a outras informações (anteriores ou posteriores). Dessa forma, as informações apreendidas são permanentemente reeditadas e reelaboradas, pois a construção das mesmas passa por um constante processo de reconstrução e revisão. A informação recalcada pode passar por um processo normal de defesa ou patológico. Quando se torna patológico, significa que ele se associou a uma memória que estava no Ics por não ter sido processada, já que provocava demasiado sentimento de conflito ou sofrimento. Além disso, quanto mais vezes essa lembrança recalcada retorna à Cs, ainda que modificada, mais o aparelho psíquico irá se esforçar por reprimi-la novamente ou modificá-la. No entanto, no caso dos eventos sexuais, há uma diferença: O que determina a defesa patológica (recalcamento), portanto, é a natureza sexual do evento e sua ocorrência numa fase anterior. Nem todas as experiências sexuais produzem desprazer; a maioria delas produz prazer. Assim, a maioria delas está ligada a um prazer não passível de inibição. O prazer não passível de inibição dessa espécie constitui uma compulsão. Chegamos, pois, à seguinte formulação. Quando uma experiência sexual é recordada numa fase diferente, a liberação de prazer é acompanhada por uma compulsão e a liberação de desprazer é acompanhada pelo recalcamento. Freud, ao estabelecer novamente como os transtornos se encaixam na cronologia de desenvolvimento humano, traz a seguinte formulação: Até 4 anos Até 8 anos Até 14-15 anos Idem Histeria atual compulsão recalcado em I-pcp N. obsessiva atual recalcado nas indicações de Ics Paranoia atual reprimido nas indicações de Pcs Perversão atual atual compulsão (atual) recalcamento impossível ou não tentado 9 Assim, para o autor, há 3 grupos de psiconeuroses: histeria, neurose obsessiva e paranoia, sendo que a primeira experiência de recalque só ocorre após os 4 anos de idade, e na perversão (que para Freud já é considerada dentro de um outro grupo; posteriormente, ele traça como sendo 3 grupos psíquicos a neurose, a psicose e a perversão). TEMA 4 – ETIOLOGIA DA HISTERIA E DOS IMPULSOS (RASCUNHO L, M E N) 4.1 Rascunho L: Notas I Esse rascunho trata basicamente do tema da histeria. Segundo Freud, para se tratar da histeria, é necessário o médico conseguir regressar, juntamente com o paciente, às cenas primevas que deram origem ao transtorno, ainda que por meio das fantasias que foram criadas para dificultar o acesso ao inconsciente e à memória recalcada. As fantasias servem para, além de proteger o aparelho psíquico, aprimorar as lembranças e sublimá-las, ou provocar prazer com essas lembranças originalmente angustiantes. Alguns dos exemplos de fantasias apresentadas por Freud são: com empregadas, recorrentemente tidos por mulheres que as consideram como pessoas de baixo padrão moral, sem valor e sexualmente ligadas com o pai ou o irmão da família; com cogumelos e embrulhar, pois a palavra alemã para cogumelos (Schwämme) também significa esponja e está associada com métodos contraceptivos da época, assim como embrulhar e camisinha; com dores, no sentido de que há a repetição intencional da dor ao se bater a genitália contra uma quina ou um móvel, provocando a sensação de prazer e de dor ao mesmo tempo; e às doenças, nos casos dos pacientes que desejam estar doentes. 4.2 Rascunho M: Notas II Na sequência do tema sobre a histeria, considera-se que algumas cenas são diretamenteacessíveis e outras apenas por intermédio das fantasias. Segundo Freud (1895, p. 300), “as cenas recalcadas são organizadas por ordem crescente de resistência: as que foram recalcadas com menos energia vêm à luz primeiro, porém só incompletamente, devido à sua associação com as que foram duramente recalcadas”. Como esse processo de recalque pode 10 se dar mais de uma vez, principalmente se novas informações se ligam à lembrança recalcada, há uma espécie de fluxo contínuo, repetitivo e renovador, com distorções e fragmentações da informação, que perde a temporalidade e o contexto à medida que é reeditada no inconsciente, conforme o desenho a seguir: Na histeria, as fantasias são independentes e contraditórias, e se dá pelo deslocamento das associações; na paranoia, as fantasias são sistematizadas e em perfeita harmonia, e as associações se dão por um deslocamento causal. Já na neurose obsessiva, os sintomas derivam das próprias fantasias, como ocorre com as fobias, e a associação se dá por um deslocamento por semelhança (no lugar e no tempo). 4.3 Rascunho N: Notas III Na sequência das notas, Freud (1895) discute a importância dos impulsos hostis contra os pais na formação das neuroses, como um elemento integrante a elas e que é recalcado quando há a compaixão por esses pais, em períodos de doença ou morte. Além disso, Freud discute se os impulsos poderiam derivar das fantasias, associa a arte às fantasias e aos sintomas como a satisfação direta dos desejos. TEMA 5 – ESTUDOS DE CASOS (CARTAS A FLIESS) As cartas a Fliess são basicamente uma continuação dos rascunhos, com a descrição de alguns casos e sua interpretação. A carta 21, por exemplo, traz a descrição de 2 casos, sendo o primeiro com queixa de sensibilidade nos olhos e problemas com um casamento não consumado, além de masturbação 11 e insatisfação sexual. O 2º caso trata também de problemas com abstinência, com masturbação, ejaculação precoce e desejos mais intensos em comparação com outros jovens da mesma idade. Já a carta 55 traz uma análise de desenvolvimento da perversão. Nesse estudo de caso, afirma Freud (1895, p. 288): “o que determina uma psicose [...] em lugar de uma neurose, parece ser o fato de o abuso sexual ocorrer antes do fim do primeiro estágio intelectual – isto é, antes de o aparelho psíquico ter sido completado na sua primeira forma (antes dos 15 a 18 meses)”. No caso em questão, o paciente era um homem demasiado inteligente que começou a ter ataques de dipsomania (beber álcool em excesso, de uma só vez; é diferente aqui do alcoolismo, no qual a pessoa bebe regularmente, com perdas físicas e sociais progressivas) com diarreia e rouquidão. Durante as consultas, Freud identificou que o paciente já havia tido relações sexuais com a irmã mais nova, que posteriormente desenvolvera psicose na puberdade. Também se identificou que a geração seguinte à do paciente apresentou uma série de problemas psíquicos, possivelmente decorrentes dessas experiências traumáticas vividas pelo paciente e por suas irmãs. O diagrama a seguir demonstra melhor essa estrutura familiar: 12 O autor também conclui, com base nesse estudo de caso, que as perversões podem levar à zoofilia, uma vez que se utilizam de zonas erógenas menos relevantes ao ser humano e mais para os animais para obter prazer, tais como o olfato ou o paladar. E, na medida que essas zonas sensoriais se tornam mais importantes canais de prazer, cabelos, fezes, sangue, resíduos corporais em geral passam a provocar um intenso prazer no indivíduo. As cartas 56 e 57 tratam de bruxas. Um tema bastante curioso, diga-se de passagem. O autor aqui levanta algumas hipóteses sobre o motivo de tantas mulheres terem sido perseguidas como bruxas na Idade Média, e como alguns dos relatos de tortura daquela época se assemelham tanto aos relatos atuais 13 das mulheres histéricas. Para Freud (1895), muito do que se contava a respeito daquelas mulheres estava diretamente relacionado com desejos reprimidos, com a relação dessas mulheres com seus corpos e com seus desejos sexuais (associando, por exemplo, as vassouras de bruxa com pênis, nos quais elas obteriam prazer ao voar pelos céus). Além disso, as danças e rituais de magia também estariam relacionados com comportamentos sexuais infantis, ligados a uma idealização do prazer e daquilo que é proibido. Além das bruxas e dos pervertidos, os paranoicos também ocupam um lugar nesse espaço de fantasia, pois acreditam que há demônios ou cultos secretos que pretendem atacá-los, além de tentativas escondidas de matá-los ou abusar sexualmente de seus corpos sem que eles mesmos tenham conhecimento para que possam se defender. Já na carta 60, Freud se queixa a seu interlocutor por não lhe mandar notícias ou lhe informar se havia mudado de endereço ou como estava passando (para uma época na qual havia somente cartas, sem telefone ou e- mail, as comunicações entre as pessoas demoravam meses, o que nos permitia entender a ansiedade em obter respostas que hoje são dadas instantaneamente). Depois, o autor relata um de seus casos, no qual a paciente sofria de problemas histéricos associados ao fato de que seu pai abusava sexualmente dela quando criança. É interessante que esse tipo de relato aparecia constantemente nos textos de Freud e que a etiologia mais comum era a histeria, já que não havia delegacias ou instituições que pudessem proteger essas moças de violência doméstica. De fato, percebe-se inclusive que Freud trata com naturalidade esse tipo de relato, comum nos consultórios médicos (tanto de Freud como de outros médicos da época). As demais cartas, até a 125, seguem com relatos de casos e revisões pessoais do próprio Freud a respeito de si, de sua teoria sobre o funcionamento do aparelho psíquico e um prenuncio sobre a teoria dos sonhos, que viria mais para frente. NA PRÁTICA O exemplo prático que traremos aqui é do Rascunho J (1895). Frau P. J., de 27 anos, estava casada havia 3 meses. Seu marido era caixeiro-viajante e, logo depois do casamento, já estava ausente há algumas semanas. Ela sentia falta do marido e ansiava por sua volta. Era cantora (ou havia se formado como cantora) e, para passar o tempo, gostava de ficar sentada ao 14 piano, cantando. Um dia, sentiu-se mal, com um mal-estar no abdômen e no estômago, com a cabeça rodando, sensações de opressão e angústia e parestesia cardíaca. Pensou que essas sensações eram provenientes de algo que comera mais cedo, e concluiu ter se envenenado. No dia seguinte, a empregada contou que uma mulher que morava na mesma casa antes de Frau P.J. tinha enlouquecido e, daquele momento em diante, uma obsessão acompanhada de angústia por também ficar louca nunca mais a abandonou. De início, Freud supôs que a condição da paciente era um ataque de angústia, uma sensação sexual transformada, uma vez que o marido estava viajando e ela desejava ter relações sexuais com ele. Durante a consulta, a paciente se esquecera do que estava fazendo; quando Freud pressionou sua cabeça, ela contou que estava cantando a ópera Carmem, de Bizet, mas que não se lembrava mais da letra. Depois, lembrou-se das palavras “marido” e “desejar”, e Freud lhe perguntou se havia sentido vontade de urinar. Ela disse que sim, e ele explicou que ela sentira um orgasmo e que sentia falta do marido, o que não era algo para se envergonhar. Na sequência, Freud começou a suspeitar que haveria uma sequência de pensamentos para além da questão conjugal. A paciente retornou chorando e desesperada; daí então, o progresso do tratamento se tornou mais difícil. Disse que o ginecologista que a atendeu confirmou não ter havido intercurso sexual entre ela e o amigo da família; porém, ela queria que tivesse acontecido. Depois, trouxe uma cena na qual ela tivera um compromisso: tinha um recitalpela manhã e se saíra bem, mas teve uma visão de que discutia com o tenor da companhia, e então teve outro ataque, com medo de estar enlouquecendo. Freud insistiu na visão, mas a paciente não conseguia dizer com certeza se tinha sido tocada e onde, e se sentia assustada com os abraços e beijos entre as pessoas. Por fim, abandonou o tratamento. Está claro que a paciente inicialmente parecia estar sofrendo pela falta do marido; porém, mais tarde, seus medos se revelaram como um outro tipo de neurose, conectado a experiências anteriores e de caráter sexual. Uma espécie de neurose de angústia com características paranoicas, uma vez que havia o medo das pessoas sentirem pena e acreditar que falavam dela e de seu “namorado”. Sua falta de clareza entre realidade e fantasia a fizeram ir até o ginecologista, pois não se sentia em condições dela mesma atestar se havia tido uma experiência sexual com o jovem caixeiro ou não. 15 FINALIZANDO Como mencionamos no início desta aula e da aula anterior, nosso objetivo foi trazer algumas das influências no trabalho de Freud, expressas em seus rascunhos e cartas a Fliess. Trabalhamos de forma aprofundada sobre seus estudos e análises sobre as psiconeuroses (histeria, neurose obsessiva e paranoia), além de uma menção sobre a perversão e a formação do aparelho psíquico para o estabelecimento de cada uma dessas estruturas. Esperamos que tenham aproveitado as discussões apresentadas aqui para conhecer um pouco mais das origens da psicanálise, e convidamos a todos a continuar acompanhando as aulas para saber mais sobre como Freud elaborou e desenvolveu seus estudos, criando assim as bases da psicanálise. 16 REFERÊNCIAS FREUD, S. Histeria. v. 1. In: Publicações pré-psicanalíticas e esboços inéditos (1866-99). Rio de Janeiro: Imago, 1888. LAPLANCHE, J.; PONTALIS, J. B. Vocabulário da psicanálise. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001. ROUDINESCO, E.; PLON, M. Dicionário de psicanálise. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. BIRMAN, J. Freud e a interpretação psicanalítica. Rio de Janeiro: Relumé- Dumará, 1991. MEZAN, R. Freud: a trama dos conceitos. São Paulo: Perspectiva, 1980. SOUZA, P. C. As palavras de Freud: o vocabulário freudiano e suas versões. São Paulo: Ática, 1999.