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NUTRIÇÃO E DIETÉTICA AVANÇADA ORGANIZADORA ANDRESSA REGINATO Nutrição e dietética avançada GRUPO SER EDUCACIONAL O livro Nutrição e dietética avançada é direcionado para estudantes de cursos de saúde e nutrição. Além de abordar assuntos gerais, o livro traz conteúdo especí�co dos seguintes assuntos: planejamento dietético do indivíduo adulto, gestação e lactação, nutrição nos ciclos da vida e nutrição esportiva. Após a leitura da obra, o leitor vai conhecer o planejamento qualitativo das dietas, conhecendo a pirâmide alimentar e o guia alimentar para a população brasileira, além das metodologias para a determinação do gasto energético; instruir-se sobre as características comportamentais que permeiam a alimentação do pré-escolar e escolar, aprender as recomendações de macro- nutrientes e micronutrientes para a promoção da alimentação saudável no pré-escolar e escolar; conferir dicas do planejamento quantitativo e qualita- tivo de mulheres na gestação e lactação e os benefícios do aleitamento materno e as principais dicas para o seu sucesso; apreender o papel do nutri- cionista esportivo e importantes re�exões na área e as recomendações de energia, macronutrientes e micronutrientes para atletas. E não é só isso. Tem muito mais. O livro tem muito conteúdo relevante. Aproveite. Agora é com você! Bons estudos! NUTRIÇÃO E DIETÉTICA AVANÇADA ORGANIZADORA ANDRESSA REGINATO gente criando futuro I SBN 9786555580242 9 786555 580242 > C M Y CM MY CY CMY K NUTRIÇÃO E DIETÉTICA AVANÇADA Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida ou transmitida de qualquer modo ou por qualquer outro meio, eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia, gravação ou qualquer outro tipo de sistema de armazenamento e transmissão de informação, sem prévia autorização, por escrito, do Grupo Ser Educacional. Diretor de EAD: Enzo Moreira Gerente de design instrucional: Paulo Kazuo Kato Coordenadora de projetos EAD: Manuela Martins Alves Gomes Coordenadora educacional: Pamela Marques Equipe de apoio educacional: Caroline Guglielmi, Danise Grimm, Jaqueline Morais, Laís Pessoa Designers gráficos: Kamilla Moreira, Mário Gomes, Sérgio Ramos,Tiago da Rocha Ilustradores: Anderson Eloy, Luiz Meneghel, Vinícius Manzi Reginato, Andressa. Nutrição e dietética avançada / Andressa Reginato. – São Paulo: Cengage – 2020. Bibliografia. ISBN 9786555580242 1. Nutrição Grupo Ser Educacional Rua Treze de Maio, 254 - Santo Amaro CEP: 50100-160, Recife - PE PABX: (81) 3413-4611 E-mail: sereducacional@sereducacional.com “É através da educação que a igualdade de oportunidades surge, e, com isso, há um maior desenvolvimento econômico e social para a nação. Há alguns anos, o Brasil vive um período de mudanças, e, assim, a educação também passa por tais transformações. A demanda por mão de obra qualificada, o aumento da competitividade e a produtividade fizeram com que o Ensino Superior ganhasse força e fosse tratado como prioridade para o Brasil. O Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego – Pronatec, tem como objetivo atender a essa demanda e ajudar o País a qualificar seus cidadãos em suas formações, contribuindo para o desenvolvimento da economia, da crescente globalização, além de garantir o exercício da democracia com a ampliação da escolaridade. Dessa forma, as instituições do Grupo Ser Educacional buscam ampliar as competências básicas da educação de seus estudantes, além de oferecer- lhes uma sólida formação técnica, sempre pensando nas ações dos alunos no contexto da sociedade.” Janguiê Diniz PALAVRA DO GRUPO SER EDUCACIONAL Autoria Andressa Reginato Graduada em Nutrição pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Mestre e Doutora em Ciências do Esporte e Metabolismo Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Atua com biologia molecular investigando o papel de ácidos graxos saturados e insaturados no desenvolvimento de obesidade. SUMÁRIO Prefácio .................................................................................................................................................8 UNIDADE 1 - Planejamento dietético do indivíduo adulto ..............................................................9 Introdução.............................................................................................................................................10 1 Planejamento de cardápio: ................................................................................................................ 11 2 Balanço energético corporal .............................................................................................................. 19 3 Necessidades e recomendações de energia e nutrientes ..................................................................23 4 Características da dieta do adulto ...................................................................................................... 28 5 Avaliação da disponibilidade de ferro ................................................................................................ 30 PARA RESUMIR ..............................................................................................................................34 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................................................35 UNIDADE 2 - Gestação e lactação ..................................................................................................37 Introdução.............................................................................................................................................38 1 Nutrição na gestação ......................................................................................................................... 39 2. Planejamento do cardápio qualitativo e quantitativo: adequação para gestante ............................45 3 Nutrição na lactação e aleitamento materno .................................................................................... 51 4. Planejamento do cardápio qualitativo e quantitativo, adequação para lactante .............................56 5. Características da dieta no 1º ano de vida ........................................................................................ 57 PARA RESUMIR ..............................................................................................................................60 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................................................61 UNIDADE 3 - Nutrição nos ciclos da vida ........................................................................................63 Introdução.............................................................................................................................................64 1 Características da dieta do período pré-escolar e escolar (infância) .................................................65 2 Características da dieta do adolescente .......................................................................................... 72 3 Características da dieta do idoso ....................................................................................................... 75 4. Características da dieta para coletividade sadia / programa de alimentação do trabalhador ( PAT ) e cálculo do NDPCal .......................................................................................... 78 PARA RESUMIR ..............................................................................................................................81 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................................................82 UNIDADE 4 - Nutrição na prática esportiva ....................................................................................83 Introdução.............................................................................................................................................84o que a gestante sentir em relação a emoções e padrões alimentares, durante a gestação, está intimamente associado às mudanças fisiológicas que podem ocorrer durante a gestação. Para isso vamos conhecer abaixo um breve resumo dessas mudanças: - Volume e composição sanguíneos: ao final da gestação, a mãe terá cerca de 50% do seu volume sanguíneo aumentado e isso acontece, pois há acúmulo de líquidos que pode culminar na diminuição de albumina sérica. - Função cardiovascular e pulmonar: o tamanho cardíaco aumentará em cerca de 12% durante a gestação, em função do trabalho executado. Embora a pressão diminua nos primeiros dois trimestres, uma vez que a vasodilatação estará acontecendo para facilitar o transporte de nutrientes para o bebê, a partir do terceiro trimestre espera-se que a pressão retorne aos níveis pré-gestacionais. É comum que a mãe sinta falta de ar (dispneia), pois o crescimento do útero empurra o diafragma para cima, bem como há aumento na necessidade de oxigênio. - Função gastrointestinal: importantes alterações durante o período gestacional podem acontecer, o que influencia diretamente o estado nutricional. No primeiro trimestre, podem acontecer náuseas e vômitos bem como desejos e aversões alimentares. É comum também a constipação, devido à redução da motilidade do trato gastrointestinal, uma vez que níveis de progesterona estão alterados na circulação da mãe. É comum também alterações na função da vesícula biliar materna, em função das alterações nos hormônios circulantes, bem como do uso de dietas inadequadas em qualidade e quantidade. - Função renal: a reabsorção no túbulo renal é menos eficiente devido à maior necessidade de filtração glomerular, e isso pode culminar em glicosúria. Mães devem fazer os exames de rotina para acompanhamento da função renal ao longo do curso da gestação. 43 - Placenta: esse órgão será responsável pela produção dos diversos hormônios envolvidos na regulação do crescimento fetal. Além disso, representa o canal de trocas de nutrientes, oxigênio e excreções metabólicas. Problemas na placenta comprometem a capacidade de nutrição materno/ fetal, podendo inclusive ocasionar o aborto. Todas essas alterações que o organismo materno passará ao longo das 40 semanas de gestação são muito interessantes. E todas essas alterações associadas ao crescimento fetal estão relacionadas ao ganho de peso da mãe. Vamos agora conhecer como esse ganho de peso acontece, e como pode ser programado. 1.4 Período gestacional: controle do ganho de peso O ganho de peso ideal deve ser traçado de acordo com o perfil da gestante e de como o seu estado nutricional se encontra no início da gestação. Mulheres com o peso adequado devem ganhar de 11,5 a 16 Kg ao longo das semanas de gestação. Já mulheres com baixo peso podem ganhar de 12,5 e 18 Kg, com sobrepeso de 7 a 11,5 Kg, e obesas menos de 7 Kg (Figura 03). Essa classificação em peso normal, baixo peso ou acima do peso irá ocorrer com base em um índice chamado IMC (índice de massa corporal). Para fazer o cálculo do IMC, você irá precisar de dados como peso e altura atual. A fórmula é: IMC (Kg/m²) = Peso (Kg) Altura (m). Para indivíduos adultos, utilize a seguinte classificação: Figura 3 - Classificação IMC na gestação Fonte: Organização Mundial da Saúde #PraCegoVer: A imagem mostra o desenho de cinco corpos adultos: o primeiro, em azul, diz Abaixo do peso (o acréscimo calórico. No segundo trimestre, deve-se acrescentar cerca de 340 a 360 kcal/dia. No terceiro trimestre, o acréscimo do segundo deve ser mantido e ainda deve- se calcular um adicional de cerca de 112 kcal/dia. Caso o estado nutricional da mãe esteja fora do padrão de normalidade, adequações devem ser feitas de modo a permitir que o ganho de peso total seja atingido. Além disso, para mães que procuraram o atendimento nutricional já grávidas, as adequações energéticas da dieta devem ser elaboradas de modo a permitir o ganho de peso linear a partir do segundo trimestre, visto que no primeiro é comum que a mãe não ganhe peso ou até mesmo perca de 1 a 2 kgs. - Proteína: Recomenda-se a ingestão de 1 g/kg/dia de proteína, a partir do peso pré- gestacional. Posteriormente, é feita adaptação de adicional para gestação a partir do segundo e 46 terceiro trimestres. - Carboidratos: São recomendados cerca de 135 a 175 g/dia ao longo da gestação. Pode ser calculado a partir da porcentagem (%) do Valor Energético (VET) e 55 a 75% do VET. - Lipídeos: O seu cálculo deve respeitar a distribuição energética que favoreça o ganho de peso apropriado bem como o fornecimento de ácidos graxos essenciais (geralmente de 15-30% do VET). Além dos macronutrientes, temos também vitaminas e minerais indispensáveis durante a gestação. Confira abaixo: - Ácido fólico: importante na gestação, para a prevenção de más formações no tubo neural (espinha bífida); importante para o crescimento placentário e circulação materna. Sua deficiência pode causar descolamento da placenta e baixo peso ao nascer. Fontes: vegetais de folha verde (especialmente espinafre, aspargo e brócolis), carne bovina magra, suco de laranja e feijões secos. -Colina: importante para as membranas celulares e impulsos neurais. Fontes: bife de fígado, frango, peixe, gema de ovo, germe de trigo. -Vitamina B6: importante para o controle de náuseas e de vômitos durante a gestação. Fontes: leite, gema de ovo, farinha de aveia, leguminosas, germe de cereais. -Vitamina C: deficiência de vitamina C na gestação pode estar relacionada a pré- eclâmpsia, em alguns estudos, e parto prematuro. Fontes: frutas cítricas, goiaba, tomate. -Vitamina D: deficiência também predispõe a pré-eclâmpsia. Importante para o desenvolvimento dos ossos e transporte de cálcio pela placenta. Fontes: peixes, fígado, leite e derivados. -Cálcio: o metabolismo de cálcio pode ser alterado na gestação, por isso as mães devem sempre consumir alimentos que são fontes, para não desenvolver deficiência. Fontes: leite e derivados, vegetais verdes escuros. - Ferro: a gestação conta com aumento no volume sanguíneo, por isso deve-se aumentar a ingestão de fontes de ferro, principalmente no último trimestre. Os níveis devem ser controlados por exames, já que frequentemente é indicado o uso de suplementos de ferro em forma de sais de ferro. É preciso ter cuidado, porque uma gestante anêmica tolera muito pouco a hemorragia decorrente do parto, e está mais propensa a infecções. Fontes: fígado, carne vermelha, feijão e espinafre. 47 2.2 Planejamento alimentar qualitativo Além do importante papel do cálculo de cardápio (envolvendo a prescrição de energia e recomendações dietéticas segundo as necessidades nutricionais para cada faixa etária), as orientações qualitativas em relação ao hábito alimentar da mãe devem ser estimuladas, de modo que a gestante tenha autonomia no momento da seleção de alimentos. Para isso, a mãe pode seguir alguns passos importantes recomendados em cartilhas disponibilizadas pelo Ministério da Saúde de nosso país. Esses passos são semelhantes aos 10 passos para alimentação saudável fornecidos pelo Guia alimentar para a população brasileira. Preste atenção no fracionamento das refeições. Segundo o material do governo federal (SENADO FEDERAL, 2015): “Faça pelo menos três refeições (café da manhã, almoço e jantar) e dois lanches saudáveis por dia, evitando ficar mais de três horas sem comer. Entre as refeições, beba água, pelo menos 2 litros”. Ao evitar o longo intervalo entre refeições, a futura mãe pode diminuir o risco de náuseas, enjoos e fraquezas. Outro ponto positivo para o fracionamento das refeições é evitar a fome excessiva em uma única refeição. Inclua cereais em sua alimentação. As gestantes devem ser orientadas a incluir, em todas as refeições e lanches intermediários, porções do grupo de cereais, de modo a fornecer energia suficiente para o desenvolvimento fetal. O grupo dos cereais inclui arroz, milho, pães e raízes (por exemplo, mandioca). A gestante deve ser orientada a preferir a forma mais natural desses alimentos, devido à melhor qualidade em nutrientes (presença de fibras, vitaminas e minerais). Inclua frutas e hortaliças na sua alimentação. Segundo o material do governo federal (SENADO FEDERAL, 2015): “Procure consumir diariamente pelo menos três porções de legumes e verduras como parte das refeições e três porções ou mais de frutas nas sobremesas e lanches. Frutas, legumes e verduras são boas fontes de vitaminas, minerais e fibras”. As gestantes devem ser orientadas a preferir todas as frutas e hortaliças cruas, pois preservam melhor os nutrientes. No entanto, é preciso ter cuidado, elas devem ser higienizadas totalmente. Em relação a sucos, preferir os feitos na hora, sem adição de açúcar. Mais importante, o suco não substitui a fruta, pois ele perde fibras, por isso recomenda-se um revezamento ao longo do dia. Consuma leguminosas (feijões, ervilhas, grão de bico). O consumo de leguminosas, juntamente FIQUE DE OLHO O ácido fólico é essencial na gestação. Sua relevância é tão grande, que sua suplementação costuma ser indicada a mulheres mesmo como preparo, quando planejam a gestação. Além disso, ainda que o consumo de alimentos fonte de ácido fólico seja adequado, ele deve ser suplementado. Muitas vezes, a indicação é de suplementação até o terceiro mês pós-parto. 48 a cereais (por exemplo, a famosa combinação do arroz com feijão) deve ser extremamente estimulado para as gestantes, pois fornecem o aporte adequado de aminoácidos essenciais. A recomendação é de que a gestante consuma uma parte de feijão para duas partes de arroz cozido. Além disso, a gestante deve ser orientada a variar entre os tipos de feijão, bem preparados, evitando o uso de embutidos e preferindo temperos naturais. Consuma diariamente leite e derivados, carnes, aves, peixes ou ovos. Esses alimentos, assim como a combinação de cereais e leguminosas, são ricos em aminoácidos essenciais (alto valor biológico, uma vez que são de origem animal). O aporte proteico é essencial para o crescimento fetal. A gestante deve ser orientada a evitar cortes de carnes ricos em gordura, e sempre que possível retirar a gordura aparente. O consumo de carnes, aves, peixes ou ovos deve ser estimulado, sendo que a preparação deve ser sempre bem passada, visto o risco de contaminação microbiológica e consequências fetais oriundas de alimentos crus. A gestante deve ser orientada a evitar acrescentar café ou chocolate no leite (diminui a biodisponibilidade de cálcio). Cautela no consumo de gordura saturada. Os alimentos de origem animal, principalmente alimentos processados e ultraprocessados, são ricos em gordura saturada, que, em excesso, pode induzir a inflamação crônica de baixo grau e está associada ao desenvolvimento de diabetes e hipertensão gestacional, conforme já mencionamos anteriormente. Dessa forma, esses alimentos devem ter o seu consumo reduzido. Cautela no consumo de refrigerantes e sucos industrializados, biscoitos recheados e outras guloseimas. Conforme mencionado acima, esses gêneros alimentícios fazem parte da classe processados e ultraprocessados, além de gorduras saturadas em excesso, também são pobres em fibras, ricos em calorias e açúcares simples. Isso faz com que esses alimentos também estejam associados ao desenvolvimento de hipertensão e diabetes gestacional. Portanto, a gestante deve serorientada a evitá- los ao máximo, deixando o consumo para momentos festivos e em pequena quantidade. Controle na ingestão de sódio. Os alimentos processados e ultraprocessados, além de conter temperos industrializados, são ricos em sódio. A gestante deve ser orientada a preferir temperos naturais e evitar os alimentos industrializados, de modo a controlar também a ingestão de sódio. Fumo e álcool são proibidos. Todo e qualquer tipo de droga/álcool e, até mesmo, certos medicamentes que serão orientados pelo médico deverão ser abolidos do hábito de vida da gestante, pois prejudicam o desenvolvimento fetal. Manter-se fisicamente ativa. Com a ajuda de um profissional da educação física, as gestantes devem se manter ativas, de modo a estimular o gasto energético e controlar o ganho de peso, estimulando a saúde. Além disso, a atividade física influencia em hormônios circulantes e pode trazer benefícios para a gestante neste sentido. O controle da respiração também será de extrema importância para o parto. 49 2.3 Manejo nutricional em situações especiais Os cuidados nutricionais com a mulher grávida merecem uma atenção especial e constante no sentido de fazer jus à nobreza desta situação fisiológica. A fase gestacional é o período de maior vulnerabilidade biológica do ciclo reprodutivo da mulher e traz diversas alterações para o organismo materno, não só fisiológicas e físicas, mas também emocionais, comportamentais e alimentares. Todas estas alterações trazem reflexos para a saúde da gestante e do bebê. O organismo materno é a única fonte de nutrientes para o feto, por meio da ingestão de alimentos ou de suas reservas. Considerando ainda que a boa nutrição intrauterina garante um nascimento saudável e melhores condições de saúde para a idade adulta, as mães devem ficar atentas a esse conhecimento e ter uma boa nutrição. É importante saber que as gestantes apresentam alterações gustativas e olfativas que influenciam as escolhas alimentares. As mães mostram também o paladar menos sensível ao sal, o que pode resultar em aumento na ingestão de alimentos salgados e sal adicionado. Muitas têm maior sensibilidade a odores, o que tem relação direta com as náuseas e hiperemese comuns na gestação. Isso significa menor ingestão de alimentos na presença desta sintomatologia. A mãe também possui mais sensibilidade ao sabor amargo, o que é uma resposta muito inteligente do organismo para evitar a ingestão, por exemplo, de alimentos estragados. Assim, isso é um mecanismo de proteção ao bebê. Assim, há situações e sintomas muito comuns durante a gravidez, e manejos dietéticos podem ser úteis para minimizá-las. Veja, a seguir, orientações básicas e efetivas em algumas situações: Constipação intestinal – aumentar a ingestão de líquidos (água, longe das refeições) e fibras encontradas nas frutas e verduras cruas e, quando possível, com casca e bagaço; o pão integral, arroz integral, aveia, farelo de trigo, ameixa preta seca. Orientar que evite o excesso de biscoitos, massas e alimentos doces. A prática de atividade física, orientada para o período gestacional, pode ser muito útil por estimular o peristaltismo intestinal. Flatulência – evitar permanecer muito tempo em uma mesma posição; evitar líquidos junto com as refeições; alimentar-se em ambiente tranquilo e estimular a boa mastigação dos alimentos. Existem diversos alimentos potencialmente flatulentos e o sintoma é individual, devendo-se observar a tolerância de cada mulher. Náuseas e vômitos – fracionar as refeições (6 refeições ao dia) com pequenos volumes; evitar líquidos durante as refeições e ainda o consumo de frituras e alimentos condimentados. O consumo de alimentos sólidos e secos pela manhã traz alívio das náuseas, tais como: biscoitos craker, torradas integrais, tapioca. Este sintoma pode estar relacionado à hipoglicemia, e os alimentos sugeridos ainda contribuem para regularizar os níveis de glicose sanguínea. 50 Pirose (azia) – fracionar bastante as refeições; evitar frituras e alimentos condimentados; comer lentamente, mastigando bem os alimentos; ingerir líquidos longe das refeições. O chá preto, café, bebidas alcoólicas, refrigerantes e cigarro são prejudiciais ao bom desenvolvimento da gestação e pioram este sintoma; assim, a gestante deve evitar deitar-se logo após as refeições para evitar refluxo. O excesso de peso propicia este sintoma; para isso, deve-se controlar o ganho de peso. O consumo de água gelada ou de 1⁄2 xícara de arroz bem cozido com pouco sal e sem gordura pode ser empregado para o alívio da azia. Hemorróidas – para isso deve-se previnir a constipação intestinal. A mãe deve ingerir bastante líquido longe das refeições e preferir temperos naturais (ervas aromáticas, alecrim, sálvia, salsa, cebolinha, coentro, cebola, alho, em detrimento dos temperos fortes, como pimenta, mostarda, cominho). Anemia – reforçar a ingestão de alimentos ricos em ferro: carnes, peixes, frango e vísceras, vegetais verdes escuros, feijões, lentilha, soja, ervilha, grão de bico, semente de abóbora, uva passa, ameixa. Consumir três porções de frutas por dia, especialmente as frutas ricas em vitamina C, como laranja, limão, acerola, tangerina, mamão, caju, goiaba. Chá preto, chá mate e café podem interferir na absorção do ferro da alimentação, portanto evitar ingeri-los junto às refeições. Hipertensão – a gestante hipertensa deve ter orientação alimentar individualizada, por nutricionista, e pré-natal rigoroso sob orientação médica. Assim, o nutricionista deve restringir a ingestão de alimentos muito salgados, tais como bacalhau, carne de charque, azeitonas, embutidos, queijos amarelos, enlatados, molho shoyu, biscoitos salgados. O consumo de pouco sal para o preparo das refeições e o uso desnecessário de saleiro à mesa deve ser orientado, em associação ao consumo de frutas, verduras e bastante água. Diabetes Gestacional – intolerância à glicose, diagnosticada pela primeira vez durante a gravidez e que pode ou não persistir após o parto. Acomete de 1 a 4% das gestações e pode trazer consequências severas ao feto, além do risco de pré-eclâmpsia e hemorragia pós-parto para a mulher. Em mulheres com mais de 30 anos, com histórico de diabetes na família, ou mulheres obesas, o risco é maior. Devido aos altos níveis de glicemia da mãe, há em consequência maior transferência de glicose para o feto, o que o predispõe a um excessivo ganho de peso pelo bebê. É uma situação que também exige orientação alimentar individualizada. A mãe deve evitar seriamente alimentos e bebidas doces e açúcar simples; deve fracionar as refeições em 6 vezes ao dia, com pelo menos um alimento de cada grupo nas principais refeições; deve dar preferência aos carboidratos integrais, incluir na alimentação alimentos ricos em zinco e cromo, que ajudam a regular a glicose sanguínea, bem como alimentos ricos em ômega-3; e consumir vegetais folhosos e crus variados. O uso de adoçantes não é recomendado durante a gestação. Por isso, se a mãe não é diabética, ela deve voltar a ingerir açúcar. De preferência açúcar mascavo. Caso a mãe seja diabética, indicamos o uso de apenas adoçantes que sejam à base de sucralose, acessulfame de potássio e estévia. Os demais devem ser evitados, pois estudos apontam que podem ter efeitos negativos sobre o feto. 51 Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 3 NUTRIÇÃO NA LACTAÇÃO E ALEITAMENTO MATERNO O período da lactação, assim como a gestação, também é primordial para a saúde do bebê. Aconselha-se que a mãe amamente exclusivamente o seu filho com leite materno até os 6 meses de idade, e de modo complementar aos alimentos até o período de 2 anos. O ato de amamentar possibilitará a criação do vínculo entre mãe/bebê. Além disso, diversos são os estudos que mostram a importância do aleitamento materno para o desenvolvimento cognitivo, arcada dentária, imunidade e outras características do bebê. O bebê amamentado com leite materno está menos susceptível a infecções oportunas,possui oferta de nutrientes adequadas para o seu crescimento e está menos susceptível ao desenvolvimento de alergias alimentares. A produção de leite materno sofre influência da alimentação da mãe, sendo que diversos estudos apontam que os hábitos maternos saudáveis durante a lactação podem prevenir o surgimento de doenças metabólicas na vida adulta da criança (programação metabólica). A seguir, vamos conhecer um pouco a respeito do que acontece com o corpo feminino durante a lactação. 3.1 Fisiologia da lactação Desde o início da gestação, a mama da mulher passará por importantes transformações que culminam no aumento de volume das mamas, alterações na coloração da aréola e dos mamilos, além de sensibilidade na região. Para que a produção de leite aconteça, diversos hormônios estão envolvidos em um fino ajuste que depende das condições ambientais em que a mãe está inserida (ambientes tranquilos, vínculo com o bebê e correta sucção, que será abordada logo a seguir). Os hormônios mais importantes para a produção de leite são a progesterona, prolactina e ocitocina. 52 Após o parto, os níveis de progesterona caem e há uma rápida elevação nos níveis de prolactina no sangue, induzindo ao começo da síntese do primeiro leite (que é conhecido como colostro). A saída (ou ejeção) do leite materno depende da ocitocina, em um processo altamente dependente do número de mamadas, do esvaziamento correto do peito, pega correta, vínculo com o bebê, ambiente tranquilo e ausente de estresse (conforme mencionado acima). Assim, para a manutenção da lactação, a ação concisa dos hormônios prolactina e ocitocina é altamente desejável. Interessantemente, os níveis de ocitocina são maiores à noite, o que pode contribuir para a qualidade da mamada do bebê. 3.2 Tipos de aleitamento materno Amamentar é muito mais do que nutrir a criança. É um processo que envolve interação profunda entre mãe e filho, com repercussões no estado nutricional da criança, em sua habilidade de se defender de infecções, em sua fisiologia e no seu desenvolvimento cognitivo e emocional, além de ter implicações na saúde física e psíquica da mãe. É muito importante conhecer e utilizar as definições de aleitamento materno adotadas pela OMS (Organização Mundial da Saúde). Assim, o aleitamento materno costuma ser classificado em: Aleitamento materno exclusivo – quando a criança recebe somente leite materno, direto da mama ou ordenhado, ou leite humano de outra fonte, sem outros líquidos ou sólidos, com exceção de gotas ou xaropes contendo vitaminas, sais de reidratação oral, suplementos minerais ou medicamentos. Aleitamento materno predominante – quando a criança recebe, além do leite materno, água ou bebidas à base de água (água adocicada, chás, infusões), sucos de frutas e fluidos rituais. Aleitamento materno – quando a criança recebe leite materno (direto da mama ou ordenhado), independentemente de receber ou não outros alimentos. Aleitamento materno complementado – quando a criança recebe, além do leite materno, qualquer alimento sólido ou semi-sólido, com a finalidade de complementá-lo e não de substitui- lo. Nessa categoria, a criança pode receber, além do leite materno, outro tipo de leite, mas este não é considerado alimento complementar. Aleitamento materno misto ou parcial – quando a criança recebe leite materno e outros tipos de leite. Vistos esses conceitos, vamos complementar a discussão, observando algumas das vantagens do aleitamento materno: Evita mortes infantis - graças aos inúmeros fatores existentes no leite materno, que protegem contra infecções, ocorrem menos mortes entre as crianças amamentadas. Estima-se que o 53 aleitamento materno poderia evitar 13% das mortes em crianças menores de 5 anos em todo o mundo, por causas preveníveis. Nenhuma outra estratégia isolada alcança o impacto que a amamentação tem na redução das mortes de crianças menores de 5 anos. Segundo a OMS e a Unicef, em torno de seis milhões de vidas de crianças estão sendo salvas a cada ano por causa do aumento das taxas de amamentação exclusiva. Diminui o risco de alergias- estudos mostram que a amamentação exclusiva nos primeiros meses de vida diminui o risco de alergia à proteína do leite de vaca, de dermatite atópica e de outros tipos de alergias, incluindo asma e sibilos recorrentes. Assim, retardar a introdução de outros alimentos na dieta da criança pode prevenir o aparecimento de alergias, principalmente para crianças com histórico familiar positivo para essas doenças. A exposição a pequenas doses de leite de vaca nos primeiros dias de vida parece aumentar o risco de alergia ao leite de vaca. Por isso, é importante evitar o uso desnecessário de fórmulas lácteas. Reduz a chance de obesidade- a maioria dos estudos que avaliaram a relação entre obesidade, em crianças maiores de 3 anos, e tipo de alimentação no início da vida constatou menor frequência de sobrepeso/ obesidade em crianças que haviam sido amamentadas com leite materno. Melhor nutrição- por ser da mesma espécie, o leite materno contém todos os nutrientes essenciais para o crescimento e o desenvolvimento da criança pequena, além de ser mais bem digerido, quando comparado a leites de outras espécies. O leite materno é capaz de suprir sozinho as necessidades nutricionais da criança nos primeiros seis meses, e continua sendo uma importante fonte de nutrientes no segundo ano de vida, especialmente de proteínas, gorduras e vitaminas. 3.3 Orientações gerais para o sucesso no aleitamento materno Para a adequada amamentação, a mãe deve se sentir confortável. Ela pode apoiar costas e braços (utilize as almofadas de amamentação se preferir). A mãe deve ser orientada a deixar o bebê de frente para ela; apoiando o bumbum e também a cabeça do bebê. A criança deve abocanhar a aureola e não apenas o mamilo, pois apenas sugando o mamilo a criança não receberá o leite de maneira adequada. Veja na figura abaixo algumas posições que a mãe pode utilizar para a amamentação. 54 Figura 4 - Posições de amamentação Fonte: TORRENTA Y, Shutterstock, 2020 #PraCegoVer: A imagem mostra cinco desenhos de uma mãe amamentando, em cada desenho ela está amamentando em uma das posições recomendadas pela OMS para amamentação: tradicional, transversal, apoiada, deitada e deitada de lado. Os principais sinais de que o bebê está mamando corretamente são: - sucções lentas seguidos por deglutição; - contração no útero (sinal de que os seus hormônios estão agindo corretamente). A mãe que voltar a trabalhar deve ser orientada para que uma ou duas semanas antes inicie a retirada do leite para guardar e montar um estoque. A mãe deve amamentar antes de sair de casa para o trabalho e imediatamente após regressar. No trabalho, se possível, a mãe deve retirar o leite, tantas vezes quanto o bebê mamaria se estivesse com a mãe, para continuar existindo o estímulo da produção. Nos dias de folga, a mãe deve oferecer o peito à vontade. Na ausência da mãe, o leite estocado deve ser dado em xícara ou copinho, evitando mamadeiras e chupetas. A ordenha do leite materno deve ser feita seguindo alguns passos: - higienização das mãos; - uso toucas no cabelo; 55 - o leite retirado deve ser guardado em um frasco de vidro, com tampa plástica de rosca, lavado e fervido. Se houver geladeira, o leite pode ser armazenado em geladeira (12 horas) ou freezer (15 dias). Para a higienização da mama, a mãe deve ser orientada a utilizar apenas o leite materno. O uso de creme hidratante e óleos corporais podem fazer com que o bebê estranhe o cheiro e ainda podem desencadear a formação de fissuras nas mamas. No entanto, apesar do aleitamento materno ser muito importante, nas situações abaixo, não é indicado o uso do leite materno: • mães HIV positivas; • mães em uso de radioisótopos; • bebês que apresentam galactosemia (doença hereditária); • mães com tuberculose ativa e não tratável; • mães que façam uso de drogas ilícitas; • mães que, por outro motivo, nãotenham conseguido estabelecer a amamentação. Algumas dúvidas são comuns no aleitamento materno. Confira a seguir: - Leite fraco: não existe tal conceito. A mãe deve ser orientada a saber que o seu leite é o único adequado em composição para o bebê. Ele atenderá de modo específico as necessidades do bebê, incluindo principalmente a qualidade proteica, ácidos graxos essenciais e fatores imunitários, além de micronutrientes. Por ser de mais fácil digestão do que fórmulas infantis, o leite materno geralmente dá menos saciedade e isso é normal. Ele é mais adequado, em geral, do que o uso de fórmulas, que são mais difíceis de serem digeridas e podem trazer desconforto ao bebê. - Fissuras: são comuns caso haja pega inadequada. Para isso, observe corretamente a posição da boca do bebê (deve estar com o lábio virado para fora, abocanhando toda a aureola). Além disso, exposição da mama ao sol e uso do próprio leite materno ao redor das fissuras pode ajudar no processo de cicatrização. - Leite empedrado: comum de acontecer caso a mama não esteja sendo esvaziada corretamente. A criança deve esvaziar completamente uma mama, antes que outra seja oferecida, e deve ser feito uma alternância em qual mama oferece primeiro o leite. Além disso, a composição nutricional no início da mamada é diferente do final. No início, o leite é rico em água e lactose e, no final, em gordura. Assim, para ganhar peso adequadamente, o bebê deve sempre esvaziar uma mama completamente antes de passar para a outra. 56 Por isso, o cuidado nutricional adequado é de extrema importância. Assim, agora que já sabemos os pontos principais da amamentação, vamos conhecer como deve ser o planejamento alimentar das mães. Na lactação, as mães podem ser denominadas lactantes, os livros textos usualmente utilizam essa terminologia. Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 4. PLANEJAMENTO DO CARDÁPIO QUALITATIVO E QUANTITATIVO, ADEQUAÇÃO PARA LACTANTE Segundo o material elaborado pelo SENADO FEDERAL (2015): Os sabores experimentados nos primeiros meses da criança podem influenciar as preferências alimentares ao longo de toda a vida. Parece que, desde a amamentação, o bebê já pode sentir os sabores e aromas dos alimentos consumidos pela mãe por meio do leite, e isso o deixa mais disponível para aceitar os mesmos alimentos durante a introdução da alimentação complementar. Assim é essencial que a mãe cuide da própria alimentação, prezando pela qualidade e fugindo de modismos. Além disso, não é recomendado o uso de dietas restritivas para a redução de peso. Na verdade, a mãe que conduz o aleitamento materno possui uma alta demanda energética, e isso faz com que ela emagreça naturalmente. Inclusive, caso o aporte energético não seja adequado, a mãe poderá perder peso excessivamente o que será prejudicial para a lactação. Confira a seguir algumas recomendações quantitativas e qualitativas para o planejamento alimentar da lactante. 4.1 Planejamento alimentar quantitativo De acordo com Mahan et al. (2010): “A lactação demanda muito nutricionalmente, sendo que a frequência de sucção e nível de hidratação influenciam na produção de leite. Além disso, a composição de ácidos graxos, selênio, iodo e algumas vitaminas é afetada pela dieta materna”. 57 Para que o cardápio seja planejado corretamente, confira as recomeções a seguir: - Energia: deve-se calcular o VET. Existe um adicional energético para a lactação (aproximadamente 675 kcal para os primeiros 6 meses e 460 kcal para os próximos 6 meses, esperando-se que a mãe amamente pelo menos 1 ano). Mulheres com sobrepeso e obesidade podem não requerer esse acréscimo, que deverá ser avaliado individualmente. Para a perda de peso programada, você pode descontar o valor a ser determinado individualmente para perda de peso gradual, geralmente 0,8 kg/mês. - Proteína: Deve-se ingerir cerca de 1,1 g/dia, com acréscimo de 19 g/dia para o primeiro semestre e 12,5 g/dia para o segundo semestre. No entanto, mulheres desnutridas ou obesas devem ter esse valor reavaliado, para que se atenda às demandas específicas. - Carboidratos: Geralmente 160 g/dia para pacientes eutróficas. Pode-se seguir a recomendação em porcentagem de VET também: 55 a 75% do VET. - Lipídeo: Deve-se atentar para a garantia do aporte de ácidos graxos essenciais e não essenciais. Geralmente em porcentagem de VET: 15 a 30%. - Vitaminas e Minerais: A base da alimentação deve ser alimentos in natura de modo que a mãe tenha aporte adequado de micronutrientes e também fibras. Além disso, a vitamina D presente no leite materno está relacionada ao consumo materno, por isso deve-se orientar a mãe sobre a necessidade das exposições solares. O requerimento de zinco também é alto, maior do que na gestação, assim o cardápio deve conter fontes desse mineral. O conteúdo de iodo do leite materno também reflete a ingestão materna, por isso cautela no consumo excessivo das fontes. 4.2 Planejamento alimentar qualitativ o Todas as orientações em relação ao período gestacional, bem como aos princípios de alimentação saudável preconizados pelo Guia Alimentar da população brasileira devem ser seguidos. Assim, a mãe deve ter a base da alimentação oriunda de alimentos in natura e minimamente processados, com os alimentos processados e ultraprocessados sendo evitados ao máximo. A ingestão hídrica deve ser orientada. As refeições devem continuar sendo bem fracionadas, de acordo com a rotina da lactante. 5. CARACTERÍSTICAS DA DIETA NO 1º ANO DE VIDA Para finalizar essa unidade, vamos abordar como deve ser a introdução de alimentos complementares ao aleitamento materno. Essa exposição deve ser adequada e é de extrema importância, pois impactará no paladar e hábito alimentar da criança para o resto de sua vida. Além disso, inadequações na alimentação complementar podem prejudicar o crescimento e desenvolvimento da criança. 58 A introdução de alimentos na dieta da criança, após os 6 meses, completa as qualidades e funções do leite materno. Antes desse período, o leite materno sozinho é suficiente para cobrir todas as necessidades da criança. Após os 6 meses, portanto, os alimentos devem ser introduzidos aos poucos, e a alimentação correta irá prevenir situações como: desnutrição, anemia, pressão alta, obesidade e diabetes. Recentemente o Ministério da Saúde elaborou o Guia Alimentar para crianças menores de 2 anos. Esse material proporciona o aprendizado da nutrição no período da lactação e também a introdução alimentar. 5.1 Passo a passo da alimentação complementar Para crianças menores de 1 ano: - ofereça, entre 6 e 7 meses, duas papas de fruta e uma salgada; - de 7 a 12 meses, uma ou duas papas de frutas e duas salgadas. Observação: Apesar do nome papa, não bata os alimentos no liquidificador. Para frutas, amasse com o garfo e aos poucos vá deixando pequenos pedacinhos. Para misturas salgadas, cozinhe mais os alimentos, e depois amasse ou desfie. Não misture todos os alimentos, ofereça- os separadamente para que a criança comece a aprender os sabores. Além disso: - ofereça água no intervalo das refeições; - prepare os alimentos pouco antes de servir; Observação: suco de fruta não deve substituir alimentos sólidos e nem o leite materno. Se desejar oferecer suco, utilize sempre os naturais e ofereça uma quantidade pequena após as refeições. No entanto, lembre-se de que o consumo de fruta in natura é mais recomendado do que os sucos. Crianças de 1 a 2 anos: Nessa idade, a criança já pode consumir a mesma comida da família. No entanto, evite temperos fortes, frituras e excesso de sal. Assim, a orientação é dar continuidade à alimentação e acrescentar mais lanches saudáveis. Dicas: - algumas crianças aceitam determinados alimentos melhor que outras. Assim, se ela não conhecer, ela deve ser estimulada a provar um pedacinho. Caso aceite, pode oferecer mais. Se não aceitar, não insistir. A mãe deve ser orientada a esperar alguns dias e fazer novamentea oferta; - a mãe deve ser orientada a oferecer as refeições nos horários da família, com intervalos 59 regulares, de modo a respeitar o apetite da criança; - o ambiente de consumo de alimentos deve ser tranquilo, de preferência em mesa com a família, em um ambiente harmônico e construtivo; - a mãe deve ser orientada a não oferecer alguns alimentos antes dos 2 anos como: refrigerantes, sucos artificiais, embutidos, açúcar, bolos e biscoitos recheados, guloseimas e chocolates, frituras, molhos, salgadinhos, chá preto, mate; - higienizar os alimentos corretamente. Para isso, lavá-los em água corrente, esfregando bem toda a superfície das frutas, verduras e legumes e retirando toda a sujeira; as folhas devem ser lavadas uma por uma. Colocar em uma bacia plástica ou de vidro uma colher de sopa de água sanitária sem perfume para cada litro de água limpa. Misturar bem. Colocar as frutas, verduras ou legumes de molho nessa mistura, de modo que fiquem totalmente mergulhadas. Deixar durante 15 minutos. Após os 15 minutos, enxaguar bem os alimentos em água corrente, para retirar o cheiro da água sanitária. FIQUE DE OLHO Conforme mencionado acima, o Ministério da Saúde elaborou um guia alimentar para crianças menores de 2 anos, contendo 10 passos. Isso resume todo o conhecimento que tentamos passar aqui a você, acerca da alimentação da criança desde o nascimento até os 2 anos. Vamos conferir esses passos abaixo: 1. aleitamento exclusivo até os 6 meses de idade; 2. a partir dos 6 meses, oferecer alimentos in natura ou minimamente processados; 3. oferecer água potável no lugar de bebidas açucaradas; 4. oferecer comida amassada, quando a criança comer outros alimentos além do leite materno; 5. não oferecer açúcar ou preparações com açúcar até a criança completar dois anos; 6. não oferecer alimentos ultraprocessados à criança; 7. cozinhar a mesma comida para a criança e a família, respeitando as adaptações em consistência; 8. zelar para que o momento da alimentação da criança seja prazeroso, confortável e em família; 9. prestar atenção aos sinais de fome e saciedade da criança, respeitando-os; 10. cuidar da higiene em todas as etapas de preparo das refeições. 60 Nesta unidade, você teve a oportunidade de: • aprender sobre a importância do ambiente da gestação e lactação para a saúde dos filhos; • aprender sobre o ganho de peso gestacional e adaptações fisiológicas que ocorrem em cada trimestre; • conferir dicas do planejamento alimentar quantitativo e qualitativo para mulheres na gestação e lactação; • conferir os benefícios do aleitamento materno e as principais dicas para o seu sucesso; • conferir as principais dicas para a introdução da alimentação complementar. PARA RESUMIR BORDIN, A. B. et al. Alimentação infantil: cartilha de orientação aos pais. Curitiba: Secretaria Municipal da Saúde, 2011. MAHAN, L. K. et al. Krause: Alimentos, Nutrição e Dietoterapia. 13ª ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2010. 1228 p MINISTÉRIO DA SAÚDE. Caderneta da gestante. 2014. Disponível em: http://189.28.128.100/dab/docs/portaldab/documentos/caderneta_gestante.pdf. Acesso: 17/02/2020 _______. Guia alimentar para crianças menores que 2 anos. 2019. Disponível em: http://189.28.128.100/dab/docs/portaldab/publicacoes/guia_da_crianca_2019.pdf. Acesso: 17/02/2020 SENADO FEDERAL. Orientações Nutricionais: da gestação à primeira infância. 2015. Disponível em: https://www12.senado.leg.br/institucional/programas/pro-equidade/ pdf/cartilha-orientacoes-nutricionais-da-gestacao-a-primeira-infancia. Acesso: 17/02/2020. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS UNIDADE 3 Nutrição nos ciclos da vida Introdução Você está na unidade Nutrição nos Ciclos da Vida. Conheça aqui as especificidades da nutrição nos diversos ciclos da vida humana. Como é de se imaginar, cada faixa etária possui necessidades específicas em energia e nutrientes, bem como fatores específicos que interferem no hábito alimentar, ou seja, na seleção de alimentos. O conhecimento desses fatores é essencial para o profissional nutricionista, pois a partir deles é que alguns pontos de vulnerabilidade, de falta ou de excesso de nutrientes, pertinentes a cada faixa etária, podem ser identificados e corrigidos pelo nutricionista. Bons estudos! 65 1 CARACTERÍSTICAS DA DIETA DO PERÍODO PRÉ- ESCOLAR E ESCOLAR (INFÂNCIA) A infância engloba o período posterior à lactação (geralmente após os 2 primeiros anos de vida) e dura até a puberdade. Nesse período, o crescimento físico (geralmente crescimento longitudinal) é bem menos acelerado do que na etapa anterior, ocorrendo em um ritmo mais estável. No entanto, nesta etapa, a criança está constantemente passando por alterações na massa corporal, em proporção ao crescimento longitudinal. Tudo isso será influenciado por fatores genéticos, ambientais e psicológicos, sendo que, até os 2 anos, o crescimento reflete as condições de nascimento (gestação) e ambientais (nutrição). A partir dos 2 anos, há também o impacto do potencial genético. Destaca-se também que a criança passa a ser inserida em ambientes sociais, o que traz consigo importantes formações em hábitos de vida que interferem na alimentação. Além disso, alterações cognitivas e emocionais também fazem parte da inserção da criança na sociedade, e isso pode impactar negativamente ou positivamente na relação com os alimentos. Por isso, a orientação dos pais é de extrema importância para a promoção da saúde da criança. Durante a lactação, o paladar da criança passou a ser estimulado de modo distinto entre aleitamento materno e uso de fórmulas infantis, por exemplo. Com o uso de fórmulas infantis, o paladar geralmente passa ser mais sensível para sabores doces, o que pode induzir a sua preferência. Em consequência, durante a infância e vida adulta, esse pode ser um hábito alimentar preferido em detrimento de outros sabores. Da mesma forma, durante a infância, constantemente novos sabores estão sendo apresentados. E essa é a etapa fundamental para a consolidação dos hábitos alimentares que podem perdurar a vida inteira. Por isso, estratégias de educação nutricional das crianças e conscientização dos pais são essenciais para evitar doenças crônicas na vida adulta. A infância pode ser dividida em dois períodos segundo a faixa etária: pré-escolar (de 2 a 6 anos) e escolar (a partir de 7 anos). Vamos conhecer a seguir algumas informações importantes para cada faixa etária. 66 Figura 1 - Nutrição na infância Fonte: SYDAPRODUCTIONS, Shutterstock, 2020 #PraCegoVer: A imagem mostra várias crianças, uma ao lado da outra, saltando no ar. elas estão de pernas e braços abertos e algumas estão com os braços levantados. Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 1.1 Neofobia alimentar: um tema negligenciado Conforme mencionado acima, os hábitos alimentares são formados principalmente na infância, a partir das experiências do dia a dia. Segundo Silva e Teles (2013): O gosto por determinados alimentos é um processo complexo que começa in útero, continua com o aleitamento e permanece pela vida fora. Embora exista uma forte componente genética que influencia os nossos gostos alimentares, tal pode ser contrariado por exposições precoces e repetidas aos alimentos. O contexto das refeições exerce uma influência fundamental sobre as preferências gustativas posteriores, originando estruturação do comportamento alimentar, pelo que se devem também ter cuidados especiais na configuração das refeições, fomentando as escolhas saudáveis de alimentos. Assim, além da disponibilidade dos alimentos, o comportamento dos próprios pais em relação aos alimentos é determinante. A tendência é de que uma criança faça a cópia das emoções frente aos sabores relatados pelos pais, acerca de cada tipo de alimento. E, por isso, um pai que espera 67 que sua criança consuma frutas e hortaliças, também deve realizar esse tipo de consumo. Do contrário, a criança terá a tendência a rejeitar esse hábito da mesma forma queos pais. Figura 2 - Hábitos alimentares na infância Fonte: TOMSICKOVATATYANA, Shutterstock, 2020 #PraCegoVer: A imagem mostra uma criança comendo macarrão. Ela está sentada em uma cadeira com um garfo na mão, à frente dela, na mesa, está um prato transbordando macarrão, um urso de pelúcia e alguns tomates. Outro fator importante é o estímulo para que a criança se alimente sozinha, tenha autonomia em conduzir o alimento à boca. Obviamente os pais devem preparar as refeições com pedaços compatíveis e observar se a criança realiza a mastigação. Talheres e pratos infantis, entre outros utensílios, devem ser específicos para a criança e podem representar brincadeiras que chamem a atenção das mesmas, de modo a estimular visualmente também a alimentação. Os alimentos não devem ser utilizados como moedas de troca, por exemplo, se a criança consumir todo almoço, terá direito a uma sobremesa. Nessa situação, a criança associará a sobremesa a emoções boas, de recompensa. Já a refeição será vista de uma forma negativa, pouco prazerosa. Restringir exageradamente ou proibir certos tipos de alimentos também não são boas condutas, visto que a criança pode começar a utilizar os alimentos como sinais de rebeldia. O ideal é que ela seja livre para consumir tudo com moderação, desde que não tenha nenhuma contraindicação médico/nutricional. Importante!! A correta alimentação na infância promove a saúde bucal, evitando cáries, bem como contribui para o desenvolvimento anatômico e funcional da cavidade bucal e estrutura faciais. No entanto, condutas inadequadas em relação à alimentação podem resultar em um fenômeno conhecido como neofobia alimentar. Segundo Silva e Teles (2013): “o termo Neofobia Alimentar (NA) define-se como uma relutância na aceitação de novos sabores”. Geralmente, a neofobia alimentar começa a aparecer quando a criança inicia a alimentação sozinha (entre 2- 5 anos). Os alimentos comuns a serem evitados são frutas e hortaliças, bem como a carne. A neofobia, se bem conduzida 68 pelos pais, frente ao auxílio de profissionais, principalmente do nutricionista, não se tratará de uma rejeição permanente. No entanto, há riscos de que isso possa perdurar, caso a criança não tenha atendimento nutricional-psicológico para entender os fatores pelos quais rejeita cada alimento. A rejeição pode ocorrer em decorrência da sensibilidade ao paladar e hábitos familiares. No entanto, em casos mais complexos, pode ser em decorrência de ambientes escolares e outros, que podem desencadear alguma alteração nas emoções da criança, frente a alimentos específicos. Isso deve ser acompanhado por psicólogos, em conjunto com o nutricionista, que orientem a melhor conduta. Assim, segundo Silva e Teles (2013): “Dar à criança alguns alimentos preferidos juntamente com os novos alimentos e manter a calma para as neofobias temporárias, talvez seja a chave para o desenvolvimento das preferências gustativas mais benéficas para as crianças”. 1.2 Pré-escolar (2 a 6 anos): fatores importantes Nesse período, em consequência do crescimento longitudinal mais lento, quando comparado ao primeiro ano de vida, é comum que o apetite diminua, geralmente induzindo a preocupações nos pais. Isso está associado não somente às necessidades orgânicas (baixa capacidade do estômago) desaceleradas, em relação ao período anterior, como também ao crescente interesse no mundo ao redor e menor interesse no alimento propriamente dito. Assim, é comum tanto a neofobia em relação a alimentos novos, conforme abordamos acima, como também em relação a rejeição de alimentos previamente aceitos. Conforme mencionamos também, o hábito alimentar do pré-escolar irá receber influências do tipo de aleitamento e do modo como a alimentação complementar foi introduzida. Além disso, experiências negativas ao longo da infância podem ser fatores determinantes para o consumo alimentar. Fatores importantes a serem levados em consideração no momento do diagnostico e aconselhamento nutricional são que, além do paladar, outros sentidos desempenham importante papel na aceitação dos alimentos, dessa forma, os estímulos visuais ambientais e de utensílios, conforme abordamos acima, são essenciais. O próprio odor da refeição e as cores dos alimentos também podem ser de grande estímulo e apelo para a ingestão. As temperaturas extremas dos alimentos também devem ser evitadas, devido à baixa aceitação. O espaço físico deve ser confortável e adequado. As crianças devem ter cadeiras compatíveis com o seu tamanho e devem ser bem encaixadas. Além do ambiente, o estado em que a criança se encontra também será determinante para a alimentação. Quando ela está muito cansada a ingestão alimentar será prejudicada, assim, um pequeno descanso antes da refeição pode contribuir para a adequação. O fracionamento em pequenas refeições ao longo do dia contribui para o aumento do apetite da criança. A inapetência infantil pode ser classificada em orgânica ou comportamental. Em relação à comportamental, acredita-se que a criança possa conduzir chantagens emocionais utilizando alimentos; bem como está associada à presença ou ausência da mãe no ato de se alimentar. Já a inapetência orgânica é detectada quando a criança possui alterações na velocidade de 69 crescimento em peso e estatura; sendo que independe das chantagens emocionais. Geralmente, a inapetência orgânica está relacionada a déficits nutricionais como falta de ferro. A influência da mídia e da falta de tempo/orientação dos pais no preparo de alimentos a serem consumidos pelas crianças podem representar riscos nutricionais como obesidade e desnutrição. Geralmente, é comum o envio de sucos industrializados em lancheira, acreditando- se que são saudáveis para a criança. Salgadinhos, biscoitos e outros produtos industrializados podem ter o mesmo impacto. Assim, os pais devem ser orientados quanto à leitura de rótulos, bem como quanto à preferência por alimentos in natura ou minimamente processados. Confira abaixo uma tabela com as principais orientações para alguns problemas comuns na alimentação do pré-escolar: Figura 3 - Dicas para problemas nutricionais Fonte: Elaborado pela autora, adaptado Vitolo (2008) 70 #PraCegoVer: A imagem mostra uma tabela dividida em duas colunas: situação comum, abaixo da qual estão listadas as situações mais comuns de recusa de alimentos; e soluções possíveis, abaixo da qual são listadas algumas sugestões de condutas para lidar com essas situações. 1.3 Escolar (acima de 7 anos): fatores importantes A partir dessa faixa etária, o crescimento longitudinal, apesar de seguir mais lento de modo semelhante ao pré-escolar, é estável. Nessa faixa, é comum o aumento nas atividades diárias da criança, conduzindo ao aumento na ingestão alimentar. A partir de agora, o organismo começa a se preparar para o estirão de crescimento que acontecerá na adolescência, sendo que qualquer falta de energia e nutrientes poderá comprometer o ganho em altura na adolescência. O trato gastrointestinal passa a ser mais desenvolvido, com o volume gástrico compatível ao adulto, o que pode culminar em aumento na densidade das refeições das crianças. Ainda se deve respeitar os sinais de saciedade, desde que nenhum distúrbio relacionado à imagem corporal exerça influência importante. As refeições no geral são mais bem aceitas, no entanto, é comum a omissão do café da manhã. Isso pode comprometer a ingestão de cálcio por exemplo, e estar associado a casos de sobrepeso e obesidade. Geralmente, a criança já pode ser responsável pelo preparo do seu próprio café da manhã. Assim, os pais devem ser orientados a disponibilizar adequadamente esses alimentos, e conduzir de modo correto a forma de preparo e combinações adequadas, com base no Guia Alimentar para a população brasileira (BRASIL, 2014) e orientações dos profissionais nutricionistas. As refeições em escolas devem ser controladas em harmonia com as refeições em casa. Por exemplo, se a criança já almoça naescola, não há a necessidade de almoçar em casa. Os lanches devem ser à base de alimentos in natura e minimamente processados, evitando fast foods, alimentos industrializados e guloseimas. 1.4 Avaliação do Estado Nutricional Usualmente, as crianças são acompanhadas pelas curvas de crescimento da OMS (Organização Mundial da Saúde). Essas curvas acompanham Peso, Altura e IMC para a idade, sendo o Percentil 50 considerado a faixa de normalidade. Segundo Mahan et al. (2013): As necessidades energéticas de uma criança saudável são determinadas com base no metabolismo basal, taxa de crescimento e gasto energético. A energia deve ser suficiente para assegurar o crescimento e poupar proteína de ser utilizada para energia, mas sem permitir o ganho de peso corporal excessivo. As proporções sugeridas de ingestão de energia são 45% a 65% de carboidratos, 30% a 40% de lipídeos e 5% a 20% de proteínas para 1 a 3 anos de idade; 4 a 18 anos de idade sugere-se a mesma proporção de carboidratos, com 25 a 35% de lipídeos e 10 a 30% de proteínas. A recomendação em g/kg de proteínas pode seguir a seguinte recomendação: 71 Figura 4 - Recomendação de proteína Fonte: Vitolo (2008) #PraCegoVer: A imagem mostra uma tabela dividida em duas colunas: idade e gramas por kilograma ao dia. Abaixo da coluna idade estão as faixas etárias 1 a 3 anos, 4 a 8 anos e 9 a 13 anos; e abaixo da segunda coluna as respectivas quantidades recomendadas de proteína. Em relação aos micronutrientes, alguns merecem atenção: • cálcio, devido ao papel ósseo e dentes; • ferro, visto que a anemia prejudica o crescimento; • vitamina A, devido ao importante papel de fortalecimento do sistema imunológico; • zinco, devido ao importante papel no sistema imunológico, trato gastrointestinal e pele. Alguns outros fatores como uso de alimentos fortificados e suplementação merecem destaque. Basicamente, o uso de suplementos só deverá acontecer sob prescrição médica/nutricional. E o uso de alimentos fortificados é indicado em casos de baixa ingestão. As crianças com família vegetariana podem seguir a mesma linha de alimentação, desde que o acompanhamento seja feito pelo profissional nutricionista que deve adequar a prescrição para o fornecimento de todos os aminoácidos essenciais, bem como vitaminas e minerais. O ganho de peso e estatura deve ser acompanhado fortemente para comprovar a adequação da dieta. Nestes casos, suplementos de vitamina b12 e D podem ser aconselhados. Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 72 2 CARACTERÍSTICAS DA DIETA DO ADOLESCENTE A adolescência se refere à faixa etária entre 12 e 18 anos. Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), a adolescência é a fase da evolução do homem, em que todo o processo de maturação biopsicossocial é finalizado. Na adolescência, o organismo humano ainda passa por diversas transformações fisiológicas, psicológicas e cognitivas, visando ao preparo para a vida adulta. Neste período, ocorre o conhecido estirão de crescimento, entre 12 e 13 anos em meninas, e 14 e 15 anos em meninos. O estirão representa o ápice de ganho em estatura da vida de um ser humano, para que isso aconteça, as condições de nutrição devem ser extremamente adequadas. Caso o adolescente, no período anterior ao estirão de crescimento, tenha algum déficit nutricional, isso pode comprometer o ganho em estatura. Da mesma forma, o sobrepeso leve pode ser revertido com alimentação adequada no momento do estirão, visto o ganho expressivo de altura. Após o período do estirão, o crescimento é desacelerado, sendo que meninas podem ainda alterar sua estatura e peso até os 20 anos, e meninos até os anos inicias da sua terceira década de vida (30 anos). Interessante, a maioria das meninas não ganha mais que 5 a 8 cm após menarca, embora meninas com menarca precoce, muito comum atualmente, tendam a crescer mais após seu início. Vários são os fatores envolvidos no comportamento alimentar do adolescente, uma das fases mais vulneráveis a fatores sociais e psicológicos. Assim, vamos conhecer logo abaixo um pouco mais sobre a puberdade. 2.1 Fatores que interferem no comportamento alimentar A adolescência é um período de extrema descoberta individual, em que cada criança se vê amadurecendo e se preparando para o futuro. Isso envolve o preparo estudantil para a escolha de profissões; o ciclo social de amizades em que estão inseridos para atividades de lazer. O culto à beleza corporal em um padrão específico, nos dias atuais, é cada vez mais disseminado via redes sociais. Dessa forma, a adolescência é um período extremamente vulnerável à aceitação das características corporais, e isso gera consequências em sua saúde e seus hábitos. Muitos distúrbios alimentares podem surgir nesse período, e o tratamento sem o acompanhamento por profissionais da área da saúde são extremamente difíceis, pois entender o que a imagem corporal representa para cada pessoa é uma tarefa árdua. Os adolescentes estão cada vez mais sujeitos a violências e preconceitos segundo sua orientação sexual, e isso pode refletir em alterações nas emoções ligadas à alimentação. Meninas podem engravidar em um momento em que o próprio corpo está passando por diversas mudanças. E, assim, todas essas vertentes podem interferir na seleção dos alimentos e nutrição adequada. 73 Geralmente, no final da adolescência, há o início de vida em faculdade com pouco tempo para a alimentação. É comum saídas noturnas com alta ingestão de bebida alcóolica e fast foods, sendo cada vez mais comum o surgimento de diabetes, hipertensão, hipercolesterolemia em adolescentes nos dias atuais, devido ao seu estilo de vida. Muitas dietas não usuais, restritas em carboidratos e calorias, por exemplo, são disseminadas em revistas de beleza e afins, e isso pode comprometer a qualidade da ingestão dos alimentos, bem como a energia fornecida. Assim, doenças oportunas como gripes e resfriados podem ser comum e impactar no estado nutricional. A diminuição nas refeições em família também pode comprometer a qualidade da dieta, visto que ambientes familiares geralmente estão associados a refeições preparadas sem a presença de alimentos altamente processados, oriundos da indústria de alimentos e fast foods. Assim, todos os aspectos apontados nesse tópico devem ser levados em consideração no momento da anamnese nutricional, de modo a levantar todos os dados pessoais da melhor forma possível. 2.2 Avaliação do Estado Nutricional Na adolescência as curvas de crescimento da OMS também são uma importante estratégia, sendo possível monitorar peso, altura e IMC para a idade. Dobras cutâneas também podem ser utilizadas para completo monitoramento. A ingestão energética pode ser determinada a partir da fórmula recomendada pelas DRIs (Dietary Reference Intake). É importante ressaltar que, com base nos exames bioquímicos e avaliação do estado nutricional, podem ser avaliados casos de restrição ou aumento de calorias para atingir níveis de saúde dentro da normalidade. Em relação aos macronutrientes, a ingestão recomendada de proteínas é de 12-15% do VET (Valor Energético Total); carboidratos de 45-65% do VET, e lipídeos cerca de 25-35% do VET, sendo que a ingestão de gordura saturada não deve exceder 10% das calorias de lipídeos totais. Em gramas por kg/corporal, a recomendação de proteínas pode seguir a seguinte recomendação: 74 Figura 5 - Recomendação de proteínas para adolescentes Fonte: Elaborado pela autora, 2020 #PraCegoVer: A imagem mostra uma tabela dividida em três colunas: Idade, Masculino (gramas por kilograma) e Feminino (gramas por kilograma). Abaixo da coluna idade, estão as divisões de faixas etárias na adolescência: 10 a 12 anos; 12 a 14 anos; 14 a 16 anos e 16 a 18 anos; abaixo das colunas Masculino e Feminino, estão as respectivas quantidades de proteínas recomendadas para cada faixa etária. r Em relação aos micronutrientes, confira na tabela a seguir os principais fatores de risco que favorecem a sua falta,para que se tenha atenção no momento da consulta nutricional. Figura 6 - Fatores importantes relacionados aos micronutrientes para os adolescentes Fonte: Elaborada pela autora, 2020 75 #PraCegoVer: A imagem mostra uma tabela dividida em duas colunas: Nutrientes (com os respectivos macronutrientes em suas linhas) e Fatores de Risco (com as possíveis causas de carência desses macronutrientes). Com isso finalizamos o conhecimento dos principais aspectos envolvidos na conduta nutricional dos adolescentes. 3 CARACTERÍSTICAS DA DIETA DO IDOSO Em países desenvolvidos, os idosos englobam os seres humanos na faixa etária igual ou superior a 65 anos. Em países em desenvolvimento, são considerados idosas as pessoas com idade igual ou superior a 60 anos. Segundo a OMS: o envelhecimento é um processo sequencial, individual, acumulativo, irreversível, universal, não patológico, de deterioração de um organismo maduro, próprio a todos os membros de uma espécie, de maneira que o tempo o torne menos capaz de fazer frente ao estresse do meio-ambiente, e, portanto, aumente sua possibilidade de morte. (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE, 2005). Devido à melhoria nas condições sanitárias, a descobertas de tratamentos, e a curas de doenças infectocontagiosas e crônicas, o perfil da população mundial, principalmente em países desenvolvidos e em desenvolvimento está se alterando para o aumento na expectativa de vida. Com isso, a população mundial apresenta cada vez mais um número expressivo de pessoas idosas. E, para que o envelhecimento adequado aconteça, principalmente prolongando a saúde, a nutrição exerce papel fundamental. Você sabe a diferença entre senescência e senilidade? A senescência envolve o processo de envelhecimento natural, na ausência de complicações patológicas. A velhice não é sinônimo de doença. No entanto, na senilidade, o processo do envelhecimento está acompanhado de patologias. E, é isso que devemos evitar. A população idosa merece destaque para o cuidado nutricional, não somente em relação a qualidade e quantidade de nutrientes ofertados, como também em relação ao tipo de preparo dos alimentos, que deve possuir características compatíveis com o organismo do idoso. Assim, abordaremos esse conteúdo a seguir. 3.1 Fisiologia do envelhecimento Conforme mencionado, o envelhecimento é um processo biológico natural, que culmina no declínio de algumas funções fisiológicas/orgânicas. Confira a seguir algumas dessas alterações que impactam na nutrição e no estado nutricional do idoso: • alterações sensoriais o olfato e o paladar dos idosos passam a ter menos sensibilidade, e, por isso, a tendência 76 é que os idosos incluam mais temperos no preparo dos alimentos. Isso é inclusive uma prática recomendada para diminuir a inapetência, um fator muito comum. No entanto, os temperos utilizados devem ser os naturais, evitando aqueles industrializados e ricos em gordura e sódio. Um outro fator muito importante é a diminuição na percepção de sede, e, com isso, o idoso corre o risco de desidratação; • alterações na cavidade oral e sistema digestório é comum a perda de dentição nos idosos, prejudicando o processo de mastigação para a correta digestão. Além disso, é muito comum em idosos a lentidão no esvaziamento gástrico, gerando desconfortos e até mesmo má digestão. Um fator muito importante também é a diminuição na secreção de ácido clorídrico. Com isso, a atividade ótima de enzimas digestivas fica comprometida, e isso, por si, desencadeia também dificuldades na digestão dos alimentos em pessoas idosas. Por isso, a consistência dos alimentos deve ser branda e até mesmo pastosa em alguns casos, de modo a facilitar a mastigação e posterior quebra enzimática do alimento, evitando, assim, a má digestão. Outro fator é a diminuição na capacidade absortiva do intestino, principalmente devido a alterações na microbiota, que também pode ser contornada com alterações na consistência da dieta e promoção de alimentação variada em macro e micronutrientes; • alterações na composição corporal a massa magra sofre importante declínio, e com isso a força dos idosos também declina. Isso pode afetar até mesmo a sua locomoção, por isso é importante que os idosos pratiquem atividade física, de modo a retardar a perda ou até mesmo aumentar a massa magra. Isso diminui a taxa metabólica basal e altera as recomendações de ingestão de energia no idoso também. Além disso, o idoso pode começar a ter problemas ósseos, relacionados à reabsorção de cálcio dos ossos. Por isso, esse micronutriente, além da vitamina D, devem ter atenção redobrada na prescrição dietética; • alterações imunológicas geralmente o sistema imunológico do idoso é mais debilitado, e isso contribui para o surgimento de doenças infectocontagiosas e doenças crônicas como o câncer, já que o corpo vai perdendo a capacidade de combater as células anormais; • outras alterações a pele fica mais sensível; a função renal e neurológica pode ser comprometida; o sistema respiratório também passa por alterações. 3.2 Avaliação nutricional e recomendações dietéticas A anamnese nutricional deve detalhar alguns itens, como presença de prótese dentária; 77 patologias; quem prepara as refeições; alterações recentes no hábito alimentar; uso de suplementos, chás e medicamentos; se necessita de ajuda nas tarefas diárias. A VPP (velocidade de perda de peso) é fator muito importante, e, para a sua identificação, pode-se utilizar o seguinte cálculo: VPP = Peso Habitual - Peso Atual x 100 Peso habitual O acompanhamento das dobras e pregas cutâneas também são bons indicadores de perda de massa magra, e acompanhamento da eficácia da terapia nutricional. Importante: para monitorar a desnutrição, fiquem atentos aos níveis de albumina. Para a recomendação de energia, a OMS recomenda a seguinte fórmula para determinação da Taxa Metabólica Basal (TMB) e posterior multiplicação pelo fator atividade: • Homens: TMB = 13,5 (P) + 487 • Mulheres: TMB = 10,5 (P) + 596 • Fator Atividade (para AF ou ocupacional, em múltiplos da TMB): • Idoso acamado: 1,2 • Idoso Inativo: 1,3 • Atividade leve: 1,55 (homens) e 1,56 (mulheres) • Atividade moderada: 1,78 (homens) e 1,64 (mulheres) • Atividade pesada: 2,10 (homens) e 1,82 (mulheres) Em relação à ingestão de macronutrientes: - Proteínas: 10 a 35% do VET. Idosos em catabolismo devem seguir ingestão de 1,2 a 1,5 g/kg/dia. - Lipídeos: 20-35% do VET, com até 10% do VET em gorduras saturadas se não existir nenhuma dislipidemia, ou até 7% se já existir o quadro de dislipidemia. - Carboidratos: 45-65% do VET, priorizando carboidratos complexos e fibras; evitando carboidratos de alto índice glicêmico. - Atenção para a ingestão hídrica: geralmente 30 mL/kg. - Micronutrientes: cálcio, vitamina D, b12 e b6 são exemplos que merecem atenção nos idosos, além de Ferro, Sódio e Zinco. 78 Para finalizar, recomenda-se a leitura dos 10 passos para alimentação saudável de idosos, elaborado pelo Ministério de Saúde (BRASIL, 2009). Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 4. CARACTERÍSTICAS DA DIETA PARA COLETIVIDADE SADIA / PROGRAMA DE ALIMENTAÇÃO DO TRABALHADOR ( PAT ) E C Á LCULO DO NDPCA L Segundo Brasil (2016): O Programa de Alimentação do Trabalhador (PAT) foi instituído pela Lei nº 6.321, de 14 de abril de 1976 e regulamentado pelo Decreto nº 5, de 14 de janeiro de 1991, que priorizam o atendimento aos trabalhadores de baixa renda, isto é, aqueles que ganham até cinco salários mínimos mensais. Este Programa, estruturado na parceria entre Governo, empresa e trabalhador, tem como unidade gestora o Departamento de Segurança e Saúde no Trabalho da Secretaria de Inspeção do Trabalho. Basicamente, o programa tem como principal objetivo melhorar a alimentação e condições nutricionais dos trabalhadores, de modo a influenciar positivamente na qualidade de vida, prevenção de doenças, redução de acidentes de trabalho e aumento na produtividade individual de cada trabalhador.Assim, de modo a garantir a segurança alimentar e nutricional do indivíduo, as leis que regem o PAT estabelecem alguns parâmetros nutricionais a serem seguidos, como o cálculo de calorias e nutrientes para as necessidades do trabalhador, segundo o tipo de trabalho desenvolvido. Em adição, trabalhadores com portadores de doenças crônicas como hipertensão, diabetes e até mesmo intolerância a certos tipos de alimentos devem ter seus direitos reservados com alimentação especial a ser fornecida. Confira a seguir algumas características importantes do PAT. 79 4.1 Recomendações nutricionais De acordo com a Portaria, as refeições principais (almoço e jantar) deverão conter de 600 a 800 calorias, admitindo-se um acréscimo de 20% (400 calorias) em relação ao Valor Energético Total – VET de 2000 calorias por dia, e deverá corresponder à faixa de 30- 40% do VET diário. As refeições menores (desjejum e lanche) também são incluídas e deverão conter de 300 a 400 calorias, admitindo-se um acréscimo de 20% em relação ao Valor Energético Total de 2000 calorias por dia, e deverá corresponder à faixa de 15 – 20 % do VET diário. Todos os cardápios deverão oferecer, pelo menos uma porção de fruta e de hortaliças nas refeições principais (almoço e jantar), e pelo menos uma porção de frutas em lanches intermediários e ceia. O planejamento do cardápio deve ser seguido preconizando os preceitos da nutrição de alimentação saudável. É desejável que se siga as leis da nutrição preconizadas por Pedro Escudeiro (1934): • Quantidade (número de alimentos suficiente para adequada manutenção do estado nutricional). • Qualidade (nutrientes variados, preferindo alimentos in natura e minimimamente pro- cessados). • Harmonia (entre cores, nutrientes, textura, sabor). • Adequação (a faixa etária, sexo, altura, peso, entre outros fatores individuais). 4.2 Qualidade da proteína ingerida Para a avaliação da quantidade de proteína da dieta, corrigida em função da sua qualidade (origem vegetal ou animal) comumente preconize-se o cálculo do Ndpcal. Confira abaixo como é feito esse cálculo: Figura 7 - Cálculo de NDPCal Fonte: Elaborado pela autora, 2020 #PraCegoVer: A imagem mostra uma fórmula para cálculo do NDPCal, que é igual a Proteína líquida multiplicada por quatro, dividido pelo VET e multiplicado por cem. Primeiramente, antes de ser determinado o valor do Ndpcal, é calculado o valor da proteína líquida. Para isso, a quantidade de proteína deve ser multiplicada por alguns fatores de correção (vegetal e animal), conforme descrito abaixo. 80 Figura 8 - Cálculo da Proteína Líquida Fonte: Elaborado pela autora, 2020 #PraCegoVer: A imagem mostra um passo a passo de como calcular a quantidade proteína líquida. Aparece a fórmula PL igual a PB vezes PD, abaixo é mencionado que a proteína líquida (PL) é dada pela multiplicação da taxa de utilização proteica (PD) que são as seguintes. Abaixo dessa mensagem aparece uma tabela, dividida em duas colunas: Tipo de Proteína (Cereais e outros vegetais, Leguminosas e Animal) e PD% (respectivos valores). Posteriormente, faz-se a multiplicação pela quantidade de calorias/grama que as proteínas fornecem (4Kcal). Por fim, somado todos os valores dos alimentos em uma refeição, é feita uma regra de três para a determinação do Ndpcal, sabendo o VET da refeição, a partir das duas fórmulas abaixo: NPCal = (SOMA de PL) x 4 Kcal VET ------------100% NDPCal --------- X Obs: Segundo a OMS, o NDPCal% mínimo de uma dieta deve ser igual a 6%, e, se a porcentagem for superior a 10% é considerado desperdício de proteína de alto Valor Biológico. O planejamento de cardápio de coletividades deve sempre seguir as características do público a ser atendido. Além disso, preconiza-se que campanhas de educação nutricional sejam realizadas de modo a promover a saúde do trabalhador. FIQUE DE OLHO Todas as empresas que fazem parte do PAT devem ter um responsável técnico! O responsável técnico do PAT deve ser legalmente habilitado na área da nutrição (técnico ou bacharel). Esse profissional deve prezar pela correta execução das atividades nutricionais do programa, de modo a fornecer cardápios adequados em qualidade e quantidade, promovendo a alimentação saudável do trabalhador. Isso diminui abstinências, risco de doenças e gera, por consequência, aumento em sua produtividade. 81 Nesta unidade, você teve a oportunidade de: • aprender sobre as características comportamentais que permeiam a alimentação do pré-escolar e escolar; • conhecer as recomendações de macronutrientes e micronutrientes para a promo- ção da alimentação saudável no período pré-escolar e escolar; • entender a importância da correta nutrição na fase inicial da vida para os hábitos alimentares que irão perdurar ao longo dela; • entender os fatores determinantes que influenciam no comportamento alimentar de adolescentes, bem como os principais fatores relacionados à prescrição dietética; • conhecer as principais alterações fisiológicas no idoso e como isso impacta na nutri- ção e estado nutricional; • conhecer os objetivos e principais recomendações do programa de alimentação ao trabalhador. PARA RESUMIR BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Alimentação saudável para a pessoa idosa. Brasília, 2009. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Guia alimentar para a população brasileira / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Básica. – 2. ed., Brasília: Ministério da Saúde, 2014. BRASIL. Ministério da Economia. Secretaria de Trabalho. Programa de Alimentação do Trabalhador. 2016. Disponível em: http://trabalho.gov.br/pat. Acesso em: 10 mar. 2020. ESCUDERO, P. Alimentação. Trad., Helion Póvoa e Waldemar Berardinelli. Rio de Janeiro: Scientifica, 1934. MAHAN, L. K. et al. Krause: Alimentos, Nutrição e Dietoterapia. 13ª ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2013. 1228 p. ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Envelhecimento ativo: uma política de saúde. Brasília: Organização Pan-Americana da Saúde, 2005. SILVA, A.; TELES, A. Neofobias Alimentares: importância na prática clínica. Nascer e Crescer, Porto. v. 22, n. 3, p. 167-170, set. 2013. Disponível em . acessos em 26 fev. 2020. VITOLO, M. Nutrição: da gestação ao envelhecimento. Rio de Janeiro, RJ: Rubio, 2008. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS UNIDADE 4 Nutrição na prática esportiva Você está na unidade Nutrição na prática esportiva. Conheça aqui as especificidades das recomendações nutricionais para a prática esportiva. Confira também os principais aspectos relacionados à homeostasia térmica de esportistas. Para finalizar, será explorado como os alimentos funcionais podem contribuir para a saúde e desempenho de esportistas. Bons estudos! Introdução 85 1 NUTRIÇÃO E ATIVIDADE ESPORTIVA: IMPORTÂNCIA E CARACTERÍSTICAS DA DIETA DO ATLETA A prática de atividade física aliada à boa alimentação é atualmente a base para a promoção e manutenção da saúde na população. Muito além de praticar exercícios apenas visando à saúde, temos também a atividade física relacionada ao ambiente esportivo de competição, em que atletas em suas diversas modalidades fazem do exercício a sua profissão. Neste sentido, a nutrição, além de contribuir para a saúde do atleta, está também ligada ao diferencial entre um vencedor de uma prova e o segundo e terceiro colocados. A nutrição adequada em quantidade e qualidade é um dos pontos chave atualmente para o desempenho esportivo. Sabe-se que o entendimento do papel dos nutrientes nos sistemas de energia para contração muscular, e especificidades de cada modalidade esportiva são os principais aliados para o diferencial no desempenho individual. A genética e epigenética são a base para que um indivíduo tenha aptidão por uma determinada modalidade esportiva.1 Nutrição e atividade esportiva: importância e características da dieta do atleta ..............................85 2 Métodos de cálculos das necessidades de energia e nutrientes para o atleta ..................................91 3 Hidratação no exercício ...................................................................................................................... 93 4 Alimentos funcionais: ........................................................................................................................ 98 PARA RESUMIR ..............................................................................................................................101 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................................................102 Este livro, Nutrição e dietética avançada, informa o leitor, além de conceitos básicos da área, conteúdo específico sobre planejamento dietético do indivíduo adulto, gestação e lactação, nutrição nos ciclos da vida e nutrição esportiva. Entre muitos assuntos, a primeira unidade, Planejamento dietético do indivíduo adulto mostra os principais preceitos envolvidos no planejamento dietético, que envolve anamnese de saúde, cálculo das necessidades energéticas de acordo com a faixa etária específica e distribuição dessas recomendações em forma de alimentos. A segunda, Gestação e lactação, aborda as especificidades das recomendações nutricionais nos momentos de extrema plasticidade que impactam diretamente na saúde dos filhos. A terceira unidade, Nutrição nos ciclos da vida, explica as especificidades das recomendações nutricionais nos diferentes ciclos da vida humana. Agora, para finalizar o conteúdo da obra, a quarta unidade, Nutrição na prática esportiva trata das especificidades das recomendações nutricionais para a prática esportiva. Esta é apenas uma pequena amostra do que o leitor aprenderá após a leitura do livro. Desejamos que o leitor tenha uma carreira de sucesso, com muito prestígio. Aos leitores, sorte em seus estudos! PREFÁCIO UNIDADE 1 Planejamento dietético do indivíduo adulto Olá, Você está na unidade Unidade Planejamento Dietético do individuo adulto. Conheça aqui os preceitos básicos para o planejamento de cardápios para indivíduos na faixa etária adulta e saudável. Esses são os passos iniciais para o avanço na área da nutrição. Basicamente, ao final desta unidade, esperamos que você esteja apto a entender o passo a passo para o planejamento de um cardápio, que envolve diversos passos desde uma anamnese detalhada das características da saúde de seu paciente; até o cálculo das necessidades energéticas e distribuição dessa energia em alimentos; alimentos estes que devem respeitar o hábito alimentar, cultura e renda dos indivíduos. Bons estudos! Introdução 11 1 PLANEJAMENTO DE CARDÁPIO: O planejamento alimentar é uma das principais habilidades do profissional nutricionista. Essa competência, que envolve a prescrição de cardápios, é única e exclusiva do profissional graduado em nutrição. Outras classes da área da saúde, mesmo que com especializações na área da saúde, não estão aptas a exercer essa competência. O planejamento de um cardápio é uma tarefa de extrema importância para o atendimento nutricional, já que é a partir de um cardápio proposto, que se espera que os clientes/pacientes atinjam os objetivos, sejam de promoção à saúde, ou, melhoria de patologias. Dessa forma, segundo Galisa et al. (2008): “o planejamento de cardápios precisa ser fundamentado por um estudo cuidadoso das bases fisiológicas da alimentação e dos princípios que devem reger a sua composição”. Em suma, no planejamento dietético algumas etapas são de extrema importância: anamnese clínica de saúde de modo a reconhecer exames bioquímicos e hábitos alimentares; determinação das necessidades de ingestão de energia, macronutrientes e micronutrientes (baseado nas características individuais e orgânicas de cada paciente, comparado a uma recomendação padrão); distribuição da energia que deverá ser ingerida em formato de alimentos - respeitando características fundamentais como renda, religião e cultura. Finalizado o planejamento, este cardápio deverá ser apresentado e explicado ao cliente/paciente, que deverá segui-lo da melhor forma possível, sempre relatando as dificuldades e conquistas, para que o nutricionista constantemente faça a atualização da prescrição. O planejamento alimentar envolve não somente a prescrição dietética quantitativa em si (cardápio calculado), como também a orientação nutricional qualitativa, ou seja, orientações que possibilitem a autonomia do paciente para escolhas saudáveis e equilibradas. Iremos estudar em tópicos esses principais conceitos, assim, ao final tudo será conectado em um mapa de raciocínio mental, e você avançará mais um degrau no conhecimento da área da Nutrição. FIQUE DE OLHO Lembre-se sempre de que a nutrição é uma área do saber cercada de paradigmas e conceitos divulgados erroneamente à população. Dessa forma, cabe aos profissionais, por meio do estudo aprofundado, esclarecer as dúvidas e propagar alimentação saudável na população, para a promoção da saúde de modo a prevenir o surgimento de doenças, principalmente as doenças crônicas, muito comuns em nossa sociedade! 12 1.1 Anamnese clínica Nos parágrafos iniciais da introdução desta unidade, foi falado que o planejamento alimentar envolve o entendimento de diversos fatores de identificação de características de cada cliente/ paciente, bem como determinação de alguns fatores (energia, nutrientes), seguido pela determinação dos alimentos que devem ser ingeridos em cada refeição. Pois bem, o primeiro passo para a determinação do plano alimentar que você irá propor é a consulta com o paciente. Em uma consulta, você terá acesso a diversas ferramentas de anamnese ou entrevista clínica de seu paciente. São fichas que podem ser impressas, on line, por meio de softwares entre outras diversas opções a serem determinadas por você, profissional. Nessas fichas, você basicamente entrevistará o seu paciente para iniciar o conhecimento da sua rotina de vida e pontos importantes relacionados à saúde. Assim, você irá coletar informações sobre idade, sexo, ocupação, horas de sono, nível de atividade física, exames bioquímicos, preferências alimentares, aversões, alergias, uso de medicamentos ou suplementos, hábito intestinal, urinário, frequência de ingestão de classes de alimentos, dentre outras diversas informações. A partir dessa coleta de dados, você determinará, em conjunto com o paciente, os objetivos da sua conduta dietética. Determinado os objetivos, você irá partir para a etapa de planejar e prescrever um cardápio, bem como orientações alimentares gerais para a promoção da saúde e alcance dos objetivos. Então, conforme já relatado acima, parece que existem dois grandes passos na conduta do nutricionista: cardápio com quantidade de alimentos e horários, associado a orientações de alimentação geral. Agregando nomenclatura técnica a esse conhecimento simples que construímos juntos, basicamente entendemos que o planejamento alimentar envolve um componente quantitativo associado a um componente qualitativo. Vamos compreender melhor cada um deles no tópico a seguir. 1.2 Planejamento alimentar qualitativo x quantitativo Conforme destacado acima, o planejamento qualitativo envolve a promoção de hábitos e escolhas alimentares saudáveis. Já o planejamento quantitativo utiliza como base a seleção saudável de alimentos, seguido por determinação da quantidade de alimentos a ser ingerido em cada refeição por um indivíduo. Para agregar mais conhecimento, vamos entender um pouco mais acerca de cada etapa do planejamento qualitativo e quantitativo, começando pelo qualitativo. Basicamente as orientações nutricionais para alimentação saudável seguem alguns preceitos determinados há muitos anos por um pesquisador na área de nutrição conhecido comoNo entanto, fatores como o tipo de treinamento, descanso associado a hábitos de vida geral, e, principalmente, a nutrição são o diferencial buscado por atletas e treinadores visando à vitória em uma competição. Infelizmente, no panorama atual, muitos atletas vinculados a pequenos clubes e com pouco investimento, ainda negligenciam o potencial da nutrição, seja alimentando-se inadequadamente ou utilizando abusivamente de recursos ergogênicos. É por isso que neste módulo pretendemos discutir alguns pontos principais da nutrição do atleta, para que você tenha uma visão geral do assunto e busque se aprofundar em cursos de especialização e pós-graduação, pois cada modalidade esportiva terá a sua especificidade que deve ser abordada de modo aprofundado. Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 86 1.1 Entendendo esporte versus atividade física A prática de atividade física é definida como o gasto energético oriundo dos movimentos corporais pela musculatura esquelética. Inclui, portanto, atividades de lazer, academias de ginástica/musculação, meio de transporte entre outros. Já o esporte é definido como a atividade competitiva que envolve esforço vigoroso por parte dos indivíduos, bem como o uso de habilidades motoras relativamente complexas. As modalidades esportivas, por sua vez, englobam o esporte individual, em que a atuação é feita isoladamente ou esporte coletivo, em que duas ou mais pessoas executam exercícios de modo a cumprir um objetivo final. 1.2 Reflexões sobre a atuação do nutricionista esportivo O profissional que atuará com nutrição esportiva deverá estar apto a entender que o seu papel estará relacionado à promoção da saúde, bem como à participação em sonhos individuais de cada atleta. No dia a dia de sua atuação, o nutricionista esportivo possui conduta semelhante à nutrição clínica, em que deverá realizar o acompanhamento de exames bioquímicos, associados à avaliação do estado nutricional; deverá entender a respeito da bioenergética e adaptações fisiológicas geradas pela modalidade esportiva de cada cliente; atuará com educação nutricional, ensinando a respeito da composição de alimentos, sua finalidade e fontes. De modo a contextualizar e permitir uma visão prática da atuação, confira a seguir um breve depoimento contido no material de leitura complementar (HIRSCHBRUCH, 2014) acerca da atuação do nutricionista esportivo: Todo nutricionista que atua em consultório está sujeito a ter que responder dúvidas sobre uso de suplementos e o que comer antes ou após o exercício para otimizar resultados estéticos ou de performance. No meu caso, trabalhando com pacientes críticos em uma unidade de terapia intensiva de hospital e atendendo alguns atletas que me procuravam no consultório, percebi que havia muito em comum com os públicos atendidos. Ambos eram, de alguma forma, metabolicamente estressados, precisavam de nutrientes específicos para a construção e recuperação de tecidos, o manejo nutricional era sempre “complicado” e desafiador. Decidi trocar os corredores do hospital pela pista de atletismo, pela piscina, enfim, pelas modalidades esportivas. O nutricionista esportivo enfrenta alguns desafios profissionais relacionados às altas expectativas dos atletas; conhecimento errôneo divulgado em mídia, acerca de suplementos e dos alimentos em si. Outro ponto de extrema importância diz respeito ao protocolo de adaptação dos protocolos, principalmente relacionados à suplementação esportiva, para cada modalidade específica, respeitando as características individuais e da dieta de cada sujeito. É sabido na área da ciência que medicamentos, nutrientes, suplementos e afins atuam de modo específico em cada indivíduo, visto as suas características genéticas, epigenéticas, de treinamento, entre outros. 87 Cada organismo reage a um tratamento de um determinado modo, por isso a dificuldade em adaptação dos protocolos para obtenção de resultados semelhantes entre atletas. O nutricionista esportivo deverá acompanhar todas as alterações metabólicas oriundas dos treinamentos e da saúde individual durante a prescrição dietética. É muito comum a fobia alimentar, principalmente relacionada à ingestão de carboidratos, e isso deve ser esclarecido pelos nutricionistas, de modo a evitar queda no desempenho esportivo visto que os carboidratos são a principal fonte para a contração muscular. Confira abaixo um estudo com atletas brasileiros da modalidade de canoagem slalom, acerca do consumo alimentar. É possível identificar, pelo relato dos atletas da ingestão dietética diária, que cerca de 70% dos atletas entrevistados consumiam menos carboidratos do que as recomendações. Figura 1 - Probabilidade de adequação de ingestão de nutrientes em atletas brasileiros de canoagem slalom. Fonte: Messias et al., 2018. #PraCegoVer: A imagem mostra um gráfico de barras, o qual na vertical está a probabilidade em % de ingestão adequada de macronutrientes; na horizontal estão as barras relativas a cada macronutriente em questão (carboidratos, proteína, gordura e energia). Assim, o nutricionista esportivo deverá atuar na educação nutricional dos clientes, de modo a desmistificar mitos e esclarecer a necessidade da ingestão equilibrada de todos os macronutrientes; micronutrientes; além da correta ingestão hídrica. Desse modo, o nutricionista não deve se considerar o árbitro das dietas. Com base em conhecimento científico, ele deverá modificar o hábito 88 alimentar dos indivíduos para prevenir doenças, manter a saúde e melhorar o desempenho e o rendimento, ou seja, influenciar positivamente sobre sua saúde e qualidade de vida. 1.3 Sistemas de energia para contração muscular Para possibilitar o entendimento da atuação dos nutrientes no organismo do atleta, um diferencial é a compreensão dos sistemas de fornecimento de energia, para a contração muscular. Basicamente esse sistema é subdividido em três principais categorias, conhecidos como sistemas: ATP/CP; Glicólise anaeróbia e Sistema Oxidativo. O sistema ATP/CP (adenosina trifosfato/ creatina fosfato) é o sistema de fornecimento de energia imediata para atividades de explosão. Ele utiliza diretamente moléculas de ATP armazenadas no tecido muscular, bem como o uso da molécula de creatina fosfato para a liberação de ATP. Dessa forma, com a energia imediatamente disponível, o músculo pode se contrair. No entanto, esse sistema é limitado, e tem duração de alguns segundos apenas, visto que essa reserva de energia é limitada no tecido muscular. Outro sistema de energia envolve a quebra de glicogênio (muscular e hepático) em glicose, que passará pelo processo conhecido com glicólise, ou seja, a quebra da glicose para a formação de energia. Esse sistema também é de ação rápida, e está acionado logo no início de exercícios, principalmente em exercícios de explosão. Assim como as reações de quebra de ATP/CP, a glicólise, em sua etapa inicial, também acontece no citoplasma de células, gerando mais agilidade ao processo. No entanto, para a continuidade no fornecimento de energia, as moléculas finais (piruvato) devem ser exportadas para a mitocôndria, para que na presença de oxigênio a molécula gere mais energia. É interessante que, na ausência de oxigênio, a glicólise pode formar o ácido lático ou lactato. Essa molécula serve como uma adaptação do organismo para tentar combater o excesso de íons hidrogênio liberados nas reações de quebra da glicose. O lactato poderá ser convertido em energia por meio do processo conhecido como gliconeogênese. No entanto, é extremamente necessária a participação do processo oxidativo na geração de energia para que as moléculas de hidrogênio sejam recicladas durante a cadeia transportadora de elétrons e fosforilação oxidativa. Assim, nesse último processo, de geração de energia no sistema oxidativo, a liberação é mais lenta e ele ocorre nas mitocôndrias da célula. Perceba que, durante a contração muscular, todos esses processos estão presentes, mas, dependendoda intensidade e duração de um exercício, um tipo determinado de sistema estará presente de modo predominante em relação aos outros. E, constantemente, as moléculas são sintetizadas novamente. Você deve relembrar os conceitos de bioquímica um pouco nesse momento, emque não apenas os carboidratos são capazes de fornecer energia, como também as moléculas de lipídeos 89 e, em casos de inadequação na ingestão e reservas de carboidratos e lipídeos, as proteínas também poderão ser utilizadas como substrato energético. Tanto os lipídeos, quanto as proteínas passarão pelo ciclo de Krebs, ou seja, pelo sistema de oxidativo para a liberação de energia. Assim, fica claro aqui que a ingestão de todos os macronutrientes é necessária, sem restrições, salvo exceções a serem determinadas pelo nutricionista e/ou equipe multiprofissional que acompanham cada atleta. Fica claro também que os carboidratos são o combustível principal para a contração muscular e fornecimento de energia, e, assim, não devem ter a sua ingestão negligenciada. 1.4 Características gerais da dieta dos atletas Conforme discutindo previamente, a nutrição adequada para atletas pode auxiliar principalmente em quatro frentes gerais: melhora no desempenho físico; otimização dos programas de condicionamento físico; melhora na recuperação da fadiga; e prevenção de lesões. Basicamente as recomendações nutricionais não diferem da população saudável, em relação ao total de calorias ingeridas. Assim, recomenda-se o consumo de uma dieta normal com 45-55% das calorias oriundas de carboidratos, sendo cerca de 3 a 5 g/kg/dia. Em relação aos lipídeos, o atleta deve ingerir cerca de 25-35% do total de calorias ou 0,5 a 1,5 g/kg/dia. Por fim, a quantidade de proteína recomendada deve ser entre 10 a 15% das calorias totais ou 0,8 a 1 g/kg/dia. Obviamente algumas alterações, visando a competições e modalidades específicas, podem ser conduzidas. Confira abaixo alguns comentários acerca da ingestão dos macronutrientes na prática esportiva. - Carboidratos: conforme mencionado, os carboidratos são o combustível principal para a contração muscular. A recomendação na ingestão vai depender do gasto energético diário do atleta, tipo de atividade executada, sexo e condições ambientais gerais. O tipo ideal de carboidrato para o atleta, ainda permanece em debate. No entanto, algumas ressalvas devem ser feitas em relação ao momento da prática do exercício. Assim, nas refeições pré-evento ou pré-treino, os propósitos principais são garantir os estoques de glicogênio e contribuir para a manutenção de níveis adequados de glicemia durante a atividade. As preferências pessoais e psicológicas devem ser respeitadas quanto aos alimentos a serem ingeridos, no entanto, deve-se priorizar a fácil digestão. Geralmente, quatro horas antes do evento, recomenda-se o consumo de 4 g/kg de carboidratos, enquanto, uma hora antes, o consumo recomendado é de 1 g/kg. Os alimentos preferíveis são carboidratos de alto índice glicêmico, no período anterior a quatro horas. No entanto, para evitar a hipoglicemia de rebote, principalmente em indivíduos em fase inicial de treinamento, na ingestão uma hora antes, devem ser priorizados os carboidratos de médio ou baixo índice glicêmico. No período de competição, acima de uma hora, o consumo de carboidratos pode reduzir a fadiga. 90 Nesse momento, barras, géis e bebidas esportivas de rápida absorção podem contribuir para a aceitabilidade do atleta. Geralmente bebidas esportivas devem conter em torno de 10% de carboidratos para evitar desconfortos abdominais durante a prática do exercício. Importante: sempre adaptar também, durante os períodos anteriores à competição, a aceitabilidade do atleta aos carboidratos no treino. Finalmente, em período pós-treino, é recomendável que o atleta ingira, em até 24 horas, carboidratos de preferência de alto índice glicêmico para a reposição dos estoques de glicogênio. No entanto, não há a necessidade de ser de alto índice glicêmico. Geralmente, são recomendadas 1 a 1,85 g/kg/hora imediatamente após o exercício, em intervalos de 15 a 60 minutos ao longo de 5 horas. Estudos mostram que quando a ingestão de carboidratos é reprimida nas primeiras horas, cerca de 50% da ressíntese de glicogênio é prejudicada. - Proteína: existem ainda muitas controvérsias em relação à ingestão de proteínas, e normalmente o consenso é de 0,8 g/kg/dia para adultos, assim como para não atletas. No entanto, pesquisas nas últimas décadas mostraram que, atletas com atividades extremamente extensas podem consumir cerca de 1,5 a 2g/kg/dia para a manutenção do balanço proteico positivo. O modo correto da ingestão é a sua distribuição do total recomendado ao longo do dia, evitando sobrecargas em refeições específicas. Assim, o fracionamento das refeições é recomendado. Interessante, para fisioculturistas ou praticantes de academias que visam ao aumento da massa magra, ainda permanece o mito de que o grande aumento das necessidades de proteínas deve ocorrer. Outro aspecto importante é observar que a qualidade da proteína é essencial, assim, o nutricionista deve estar atento ao fato de que proteínas de origem animal podem desencadear aumento na ingestão de gordura saturada. Portanto, é importante recomendar fontes magras, bem como a associação com proteínas de origem vegetal para o correto fornecimento diário de proteínas de alto valor biológico. - Lipídeos: conforme mencionado anteriormente, a gordura também é capaz de prover o fornecimento de energia para a prática de exercício. No entanto, o nutricionista deve esclarecer e prescrever para os atletas quantidades recomendadas normalmente para a população geral, visto o risco de desenvolvimento de doenças cardiovasculares. Além disso, a elevada ingestão de lipídeos poderia comprometer a ingestão de carboidratos. As restrições severas devido a fobia na ingestão de lipídeos (menor que 15% do consumo calórico total) podem comprometer o desempenho físico, não sendo aconselhadas. FIQUE DE OLHO É importante ter em mente que muitos atletas podem encontrar dificuldades em consumir alimentos imediatamente após a competição ou o treinamento. Nesse caso, alimentos práticos ou bebidas esportivas podem contribuir para a ingestão alimentar. 91 - Micronutrientes: muito provavelmente, se o atleta atinge as recomendações diárias de energia, espera-se que as recomendações de micronutrientes serão atingidas. Porém, isso depende da qualidade da dieta seguida pelo atleta, assim, o papel do nutricionista é fundamental. Ainda há o mito de que há a necessidade de suplementação com polivitamínicos para o combate do estresse oxidativo, ou seja, radicais livres produzidos pelo exercício físico. No entanto, isso é um mito, visto que recentes estudos inclusive apontaram que a suplementação com antioxidantes, por exemplo vitamina C e E, pode ser prejudicial para a adaptação endógena do exercício à produção dos radicais livres. A não ser que o atleta tenha algum indício de que sua atividade imunológica possa estar comprometida, geralmente não será indicado nenhum uso de suplementos vitamínico/minerais. As necessidades são as mesmas da população adulta sadia. Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 2 MÉTODOS DE CÁLCULOS DAS NECESSIDADES DE ENERGIA E NUTRIENTES PARA O ATLETA Segundo Mahan et al. (2010): (...) a energia é o componente mais importante para o sucesso do treinamento esportivo e desempenho físico de modo a fornecer quantidades adequadas de calorias para suportar o gasto energético e manter a força, resistência, a massa muscular e a saúde em geral. As necessidades de energia variam com o peso, a estatura, a idade, o sexo e a taxa metabólica basal, bem como o tipo, a frequência, a intensidade e duração da atividade e desempenho (...). Treinamentos intensos podem ser responsáveis pela recomendação de cerca de 45 a 80 kcal/ kg/dia. Em atletas profissionais, as necessidades energéticas diárias podem atingir cerca de 150 a200 kcal/kg, dependendo do volume e intensidade das diferentes fases do treinamento. Assim, os nutricionistas precisam ser flexíveis na adaptação do estilo de vida e comportamento alimentar do atleta, incluindo o auxílio de barras e bebidas energéticas para auxiliar na alta demanda. 92 Diversas são as fórmulas empregadas para o cálculo do gasto energético dos atletas. O método de calorimetria indireta seria um dos métodos mais indicados para a determinação do gasto energético e posterior cálculo das necessidades. No entanto, devido ao custo e baixa disponibilidade em consultórios e centros de treinamentos, segue abaixo um quadro resumo com as principais fórmulas utilizadas atualmente. Figura 2 - Equações para GEB encontradas na literatura segundo autor, faixa etária e gênero Fonte: Elaborado pela autora, 2020. #PraCegoVer: A imagem mostra um quadro dividido em 4 colunas (Autor, Faixa etária, Gênero e Equação); nas linhas, estão os autores e suas equações, classificadas por faixa etária e gênero. No quadro 02 está contida a classificação dos fatores atividade a serem empregados na fórmula acima. 93 Figura 3 - Fatores Atividade recomendado pela OMS Fonte: Organização Mundial de Saúde #PraCegoVer: A imagem mostra um quadro dividido em três colunas principais (Faixa etária, Gênero, e Classificação da atividade física). A última coluna está dividida em três outras colunas: Leve, Moderada e Pesada. Abaixo da classificação das atividades, está o valor atribuído a cada uma delas, em função da faixa etária e gênero. 3 HIDRATAÇÃO NO EXERCÍCIO A ingestão hídrica é essencial para a manutenção da nossa vida. Na prática esportiva, isso não é diferente. Para que o atleta tenha adequado desempenho, a hidratação é um dos pontos fundamentais. No entanto, infelizmente, pesquisas apontam que esse é um assunto muito negligenciado no cenário brasileiro. Inclusive, muitos dos atletas fazem reposições hídricas apenas com água. Aqui nesse tópico você irá aprender que, dependendo da intensidade e duração da atividade, a ingestão de apenas água não será suficiente. Assim, a seguir discutiremos alguns tópicos importantes como: • A importância da água. • Hidratação versus desempenho. • Bebidas esportivas e sua composição. 3.1 A importância da água Possivelmente todos vocês já ouviram falar que adultos são compostos por cerca de 70% de água. Pois é, isso vai variando ao longo da nossa vida, com redução no idoso, por isso, praticantes de atividade física no envelhecimento merecem uma atenção especial E onde essa água está localizada em nosso organismo? Basicamente, grande parte está no plasma. O músculo é um tecido com grande composição em água e é por isso que os estoques em mulheres e homens geralmente se diferem (as mulheres possuem maior porcentagem de massa gorda geralmente, e que está associada a menor quantidade de água). Isso deve ser levado em conta para a compreensão de que mulheres são mais susceptíveis a desidratação do que os homens. 94 Figura 4 - A importância e localização da água em nosso organismo Fonte: Elaborado pela autora, 2020. #PraCegoVer: A imagem traz, em seu topo, a frase “a importância da água”. Logo abaixo, há um gráfico sobre o percentual de água no corpo, pelas faixas etárias (feto, bebê, adulto e idoso – 100%, 80%, 70% e 50% respectivamente). Ao lado, há retângulos azuis com nomes de partes do corpo escritos (Plasma, Livre, Músculo, Gordura, Ossos, Dentes). E por que devemos prestar atenção na hidratação dos atletas? Basicamente, por conta da manutenção da temperatura corporal em níveis adequados. Portanto, em nosso corpo, nós devemos manter uma temperatura corporal em torno de 35- 37 graus Celsius. Temperaturas alteradas, em relação a isso, podem nos fazer entrar em colapso. Isso acontece visto que as enzimas que controlam todas as reações que mantêm a vida em nosso corpo necessitam de uma temperatura ótima para o seu funcionamento, e, temperaturas abaixo ou acima, fazem com que o organismo tenha que se esforçar muito para conseguir chegar no ideal. Para a manutenção da temperatura corporal, é mantido o equilíbrio entre a perda e ganho de calor. Alguns mecanismos de perda de calor são: irradiação, que não requer contato; troca com o ambiente, se está mais frio ou mais calor; por meio da condução, ou seja, pelo toque em objetos; bem como por convecção e evaporação, que corresponde ao principal mecanismo, que é 95 a eliminação pela produção de suor. Além da pele, também eliminamos água na urina e nas fezes.. Por outro lado, os mecanismos de ganho de temperatura incluem a temperatura ambiental associadas ao equilíbrio hormonal de hormônios importantes para o controle de reabsorção de água e sódio. Um deles é o conhecido hormônio ADH (antidiurético), que pode alterar o sistema de reabsorção de água e sódio pelos túbulos renais. O uso de vestimentas adequadas também contribui para perda ou ganho de temperatura, caso sejam inadequadas na troca de calor entre pessoa e ambiente. O equilíbrio na temperatura corporal é controlado pelo sistema nervoso central, especificamente a região do hipotálamo. Em suma, alguns fatores interferem no equilíbrio térmico: • temperatura e umidade do ar (em altas umidades, por exemplo, a evaporação é prejudi- cada e, na baixa umidade, maiores volumes de líquidos deixam o ar); • tipos de vestimenta; • uso de diuréticos (podem prejudicar, levando à desidratação); • a ausência de aclimatação, conforme comentado previamente; • faixa etária; • treinamentos (nível de hidratação prévio). Há aumento na probabilidade de desidratação, caso já se inicie o exercício com problemas prévios. 3.2 Hidratação versus desempenho Conforme destacado na discussão anterior, a inadequada hidratação pode prejudicar o desempenho, tanto durante a competição, quanto no período de recuperação, devido ao risco de lesões. Além disso, a fadiga pode acontecer precocemente o que prejudicará, durante a competição, o desempenho do atleta. FIQUE DE OLHO A aclimatação, ou seja, o período em que o atleta deve realizar uma adaptação antes do início de uma competição, em uma nova condição ambiental, é essencial para evitar a desidratação e também hiponatremia do atleta. Você sabe o que é hiponatremia? A hiponatremia é a perda excessiva de sódio sem reposição, que prejudica a função muscular, do sistema nervoso central, que em casos graves pode levar até a convulsão e morte. Assim, a correta reposição hídrica e aclimatação do atleta evitam essa condição. 96 Confira na Figura 05 os principais riscos relacionados à hidratação inadequada. Figura 5 - Riscos associados a hidratação inadequada Fonte: Elaborado pela autora, 2020. #PraCegoVer: A imagem mostra um quadro com a seguinte frase, em seu topo “Quais os riscos de uma hidratação inadequada?”. Abaixo da frase, há retângulos com os riscos em questão (Desidratação, Câimbras, Exaustão, Rendimento/Desempenho, Hiponatremia, Lesões). Para tanto, a hidratação deve ser realizada corretamente, durante os treinamentos e no dia da competição, selecionando intervalos de tempos adequados, bem como bebidas com composição adequada. Vamos conhecer a composição das bebidas, a seguir. 3.3 Como conduzir a hidratação Devem ser utilizadas, no momento da hidratação, bebidas com a correta composição em água e eletrólitos. Conforme mencionamos anteriormente, apenas a ingestão de água não será suficiente em alguns momentos para a manutenção dos níveis circulantes de eletrólitos importantes para a regulação da pressão arterial e outras funções no organismo. Por isso, vamos conferir algumas informações importantes: Água Segundo a Sociedade Brasileira de Medicina Esportiva (2003): “A ingestão de água pura pode ser uma boa opção para manter o corpo bem hidratado, pois é de fácil acesso, barata e proporciona um rápido esvaziamento gástrico. Entretanto, pode trazer poucos benefícios quando a atividade é de alta intensidade e possui duração superior há uma hora”. Isso podeacontecer, pois há uma diluição rápida da concentração plasmática de sódio, o que pode aumentar significativamente o índice urinário. Geralmente, atletas possuem dificuldade em ingerir grande quantidade de água livre, devido à baixa palatabilidade. 97 Bebidas esportivas (contendo eletrólitos) De acordo com a Sociedade Brasileira de Medicina Esportiva (2003): “A presença de eletrólito pode auxiliar muito no processo de hidratação. Entre todos os eletrólitos, o sódio é o mais importante pois, pequenas quantidades de sódio acrescentadas em bebidas esportivas, tornam possível uma reidratação mais completa quando comparada com a água pura, ajudando a prevenir a diluição das concentrações de sódio no soro, reduzir a produção de urina, diminuindo, portanto, a água perdida”. Bebidas esportivas (contendo eletrólitos e carboidratos) De acordo com a Sociedade Brasileira de Medicina Esportiva (2003): “A maioria das bebidas esportivas possui tanto carboidrato quanto sódio, pois juntos estimulam mais rapidamente a absorção do fluido, fazendo uma rápida reidratação, reduzindo o estresse fisiológico do exercício e promovendo a recuperação após o mesmo; assim, água, carboidrato e sódio são os ingredientes chaves para a manutenção do balanço hídrico”. A escolha da composição irá depender da intensidade, duração e temperatura da competição, e características do atleta. 3.4 Passo a passo geral da hidratação Confira abaixo algumas recomendações gerais, que podem ser seguidas pelo nutricionista para a correta hidratação de seus atletas. - Antes. Estar bem hidratado antes do exercício assegura respostas fisiológicas e um desempenho melhor. - Durante. Uma adequada ingestão de líquidos, durante o exercício, é necessária para diminuir o risco de algum problema relacionado ao estresse térmico. Assim, iniciar a ingestão de líquidos o mais cedo possível. Confira também algumas características da bebida esportiva, segundo a Sociedade Brasileira de Medicina Esportiva (2003): • não causa desconforto gastrointestinal quando consumida em volume grande; • promove rápido esvaziamento gástrico e absorção intestinal; • fornece energia por meio do carboidrato; • tem sabor agradável para o atleta; • contém sódio em sua formulação; • é fornecida a uma temperatura de 15C; 98 • não é gaseificada. - Após. A reposição inadequada de líquidos, após o término das atividades, não só afeta a capacidade de realizar exercícios, mas também cria distúrbios no equilíbrio hídrico e temperatura central. Assim, fiquem sempre atentos. O assunto hidratação é de extrema importância. O objetivo principal de se repor os líquidos perdidos durante o exercício é o de manter um estado de hidratação normal. Para minimizar o prejuízo do desempenho durante o exercício, a reposição líquida deve tentar se igualar à perda de líquidos pelo suor. 4 ALIMENTOS FUNCIONAIS: Para finalizar esse módulo, discutiremos um pouco acerca dos alimentos funcionais. Esse tema na nutrição emergiu, nos últimos anos, como de grande importância na nutrição, visto o potencial dos alimentos em contribuírem para a promoção da saúde. No entanto, assim como em todos os conteúdos da área da nutrição, esse é um tema que deve ser tratado com bastante cautela. Pois, erroneamente, é divulgado principalmente em mídia para a população leiga que os alimentos isolados em uma alimentação podem ser veículos de salvações ou milagres. No entanto, a grande certeza em relação à nutrição é de que, para a promoção da saúde, o que é preconizado é sempre a manutenção do equilíbrio na ingestão de todas as classes dos macronutrientes. Nenhum alimento sozinho, ou o seu composto isolado, será capaz de atuar de modo determinante na saúde. A alimentação balanceada e equilibrada entre todos os macros e micronutrientes é que é determinante para a saúde. A seguir, confira algumas informações acerca da definição do que é um alimento funcional, e das principais classes de compostos conhecidos como bioativos conhecidos atualmente. Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 99 4.1 Definição: Durante a evolução do conceito, algumas definições para o que é um alimento funcional foram sendo definidas, por exemplo a de que qualquer alimento que exerça um impacto positivo na saúde, performance física ou estado mental de um individuo em adição ao seu valor nutritivo. Assim, no geral, os estudos apontam que o alimento ou ingrediente funcional é aquele que, além das funções nutricionais básicas, quando consumido como parte da dieta usual, produz efeitos metabólicos e/ ou fisiológicos e/ou benefícios à saúde, devendo ser seguro para consumo sem supervisão médica, sendo que sua eficácia e segurança devem ser asseguradas por estudos científicos. Basicamente, o alimento funcional contém propriedades conhecidas como bioativas, que fazem com que ele execute uma função além de nutrir. O composto bioativo será aquele composto químico identificado em um alimento e que, ao ser estudado em laboratórios de pesquisas, foram associados com benefícios para a saúde e doenças metabólicas, como obesidade, diabetes, hipertensão arterial, entre outras. Assim, os alimentos in natura, principalmente hortaliças e frutas, são as fontes de compostos bioativos associados a efeitos benéficos na saúde. No entanto, a indústria de alimentos é capaz de isolar esses compostos e adicioná-los em outros alimentos processados. E isso precisa de uma fiscalização em relação à qualidade higiênico-sanitária, bem como informações veiculadas. Portanto, em nosso país, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) é o órgão responsável pela fiscalização dos compostos bioativos presentes em alimentos industrializados. A Anvisa não define alimento funcional e sim as propriedades funcionais: As alegações de propriedade funcional são aquelas que descrevem o papel metabólico ou fisiológico que o nutriente ou outros constituintes (ex. substâncias bioativas emicrorganismos) possuem no crescimento, desenvolvimento, manutenção e outras funções normais do organismo humano. Já as alegações de propriedades de saúde afirmam, sugerem ou implicam na existência de relação entre o alimento ou ingrediente com determinada doença ou condição relacionada à saúde (BRASIL, 2005). Confira abaixo alguns pontos importantes levantados na regulamentação de alimentos funcionais em nosso país, segundo a ANVISA. Fica claro que a propriedade funcional não pode fazer alusão à cura, prevenção ou tratamento de doenças. E os rótulos devem conter informações acerca de alimentação saudável de hábitos de vida adequados para que as propriedades tenham ação adequada. 4.2 Compostos bioativos Atualmente, diversos já foram os compostos bioativos isolados e estudados por cientistas. 100 Evidentemente, devido à ampla variedade na natureza de alimentos e locais de produção de cada tipo de alimento, muitos compostos ainda serão identificados e as suas funções estudadas. Os compostos bioativos são produzidos pelas plantas, como mecanismo de defesa contra agressões ambientais (umidade, temperaturas, raios u.v, patógenos naturais). E, assim, em cada local de cultivo, os compostos poderão ser originados diferentemente. Ou seja, embora o composto seja comum a algum determinado tipo de alimento, é provável que, segundo as condições ambientais de cultivo, exista uma diferença na composição química de cada composto. 101 Nesta unidade, você teve a oportunidade de: • aprender sobre o papel do nutricionista esportivo e importantes reflexões na área; • conhecer as recomendações de energia, macronutrientes e micronutrientes para atletas; • entender os fatores determinantes para a manutenção da temperatura corporal; • entender a importância da correta hidratação do atleta para evitar queda no desempenho esportivo; • conhecer os alimentos funcionais e suas propriedades; • entender o papel dos compostos bioativos na saúde. PARA RESUMIR BRASIL. Agência Nacional De Vigilância Sanitária. Alimentos. Comissões eGrupos de Trabalho. Comissão Tecnocientífica de Assessoramento em Alimentos Funcionais e Novos Alimentos. Alimentos com Alegações de Propriedades Funcionais e ou de Saúde, Novos Alimentos/Ingredientes, Substâncias Bioativas e Probióticos. Atualizado em 11 de janeiro de 2005. VIII-Lista das Alegações Aprovadas. Disponível em: . Acesso em: 21 mar. 2020. CARVALHO, F. G. et al. Métodos de avaliação de necessidades nutricionais e consumo de energia em humanos. Rev. Simbio-Logias. São Paulo. Vol. 5. Núm. 7. 2012. HIRSCHBRUCH, M. D. Nutrição esportiva: uma visão prática. 3. ed. rev. e ampl. Barueri: Manole, 2014. MAHAN, L. K. et al. Krause: Alimentos, Nutrição e Dietoterapia. 13ª ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2013. 1228 p. MESSIAS, L. et al. Can the elite slalom kayaker’s performance be correlated with anthropometric, nutritional, genetic, psychological as sleep traits? Motriz. Revista de Educação Física 24(2) abr/jun. 2018. ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Necessidades de energia e proteína. Série de relatos técnicos. São Paulo: Roca, 1985. 225p. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS O livro Nutrição e dietética avançada é direcionado para estudantes de cursos de saúde e nutrição. Além de abordar assuntos gerais, o livro traz conteúdo específico dos seguintes assuntos: planejamento dietético do indivíduo adulto, gestação e lactação, nutrição nos ciclos da vida e nutrição esportiva. Após a leitura da obra, o leitor vai conhecer o planejamento qualitativo das dietas, conhecendo a pirâmide alimentar e o guia alimentar para a população brasileira, além das metodologias para a determinação do gasto energético; instruir-se sobre as características comportamentais que permeiam a alimentação do pré-escolar e escolar, aprender as recomendações de macronutrientes e micronutrientes para a promoção da alimentação saudável no pré-escolar e escolar; conferir dicas do planejamento quantitativo e qualitativo de mulheres na gestação e lactação e os benefícios do aleitamento materno e as principais dicas para o seu sucesso; apreender o papel do nutricionista esportivo e importantes reflexões na área e as recomendações de energia, macronutrientes e micronutrientes para atletas. E não é só isso. Tem muito mais. O livro tem muito conteúdo relevante. Aproveite. Agora é com você! Bons estudos! Capa E-Book_Nutrição e Dietética Avançada_CENGAGE_V2.pdf E-Book Completo_Nutrição e Dietética Avançada_CENGAGE_V2.pdfPedro 13 Escudero (ESCUDERO, 1934). Esse autor estabeleceu algumas regras constantes e invariáveis que podem e devem ser seguidas por todos os indivíduos no que diz respeito à alimentação. Essas regras são conhecidas hoje como “Leis Fundamentais da Alimentação”. Segundo Galisa et al. (2008): “o cumprimento dessas regras possibilita uma alimentação adequada tanto para sãos como para enfermos”. São quatro Leis da Alimentação no total: 1a. Lei: quantidade Segundo Escudero (1934): “a quantidade de alimentos deve ser suficiente para cobrir as exigências energéticas e manter em equilíbrio o seu balanço”. Ao interpretar essa lei, é possível observar que cada indivíduo deverá ingerir uma certa quantidade de alimentos, que será transformado em energia. Essa quantidade deve respeitar as suas necessidades individuais, evitando o excesso ou falta, para que o organismo mantenha homeostasia em suas funções. 2a. Lei: qualidade Ainda segundo Escudero (1934): “o plano alimentar deve ser completo em sua composição para oferecer ao organismo- que é uma unidade indivisível- todas as substâncias que o integram”. Nessa lei, observamos que a composição em nutrientes é de extrema importância para a promoção da saúde. Assim, recomenda-se a ingestão de alimentos preparados, utilizando temperos caseiros, integrais, além da preferência por alimentos conhecidos como in natura. Deve-se evitar alimentos conhecidos como ultraprocessados. Essas nomenclaturas serão retomadas e explicadas nos próximos parágrafos, ao abordar o item Guia Alimentar para a população brasileira. 3a. Lei: harmonia Escudero (1934) afirma que: “as quantidades dos diversos nutrientes que integram a alimentação devem guardar uma relação de proporção entre si”. O conceito de proporção entre nutrientes ,explorado por Escudeiro anos atrás, atualmente foi contextualizado de uma nova forma, sendo denominado biodisponibilidade. A biodisponibilidade envolve o entendimento de que os diversos nutrientes ingeridos na alimentação humana podem interagir entre si em uma mesma refeição, bem como com medicamentos ou até mesmo fatores relacionados ao metabolismo do organismo humano, e, em consequência, alguns nutrientes podem ser mais ou menos absorvidos. Além da absorção, eles podem ter sua distribuição aumentada ou diminuída. Toda essa transformação de um nutriente no organismo até que ele efetivamente tenha a sua ação desempenhada, está presente no estudo da biodisponibilidade de cada nutriente (macro ou micro). Falaremos um pouco mais a respeito de biodisponibilidade ao comentar um pouco a respeito da ação do mineral Ferro em nosso 14 organismo nos próximos tópicos. Em suma, a harmonia preconizada por Escudeiro nada mais é do que a combinação exata entre nutrientes em uma mesma refeição de modo a facilitar a sua ação final. Como saber quais as melhores combinações? Primeiro, deve-se entender os tipos de interação entre cada nutriente. Além da leitura dos próximos tópicos, sugerimos que você aprofunde o seu conhecimento por meio da leitura do livro “Biodisponibilidade de Nutrientes” (COZZOLINO, 2016). 4a. Lei: adequação Ainda segundo Escudero (1934): “a finalidade da alimentação está subordinada à sua adequação ao organismo”. Basicamente, essa lei preconiza que cada organismo possui informações genéticas individuais, associadas a estilos de vida únicos. Dessa forma, um mesmo cardápio, proposto igualitariamente para dois indivíduos distintos, resulta em um padrão de resposta diferente. Qual resposta? Imaginemos o ganho de peso. Provavelmente uma pessoa perderia mais peso do que a outra. Assim, a lei da adequação traz consigo o conhecimento de que cada planejamento alimentar (quantitativo e qualitativo) deve ser pensado pelo nutricionista de forma individualizada, seguindo as características levantadas na anamnese clínica-nutricional do cliente/paciente. Entendidas as quatro leis da alimentação, os próximos passos envolvem conhecer as ferramentas que auxiliam o nutricionista nas orientações qualitativas, e posteriormente entender todo o passo a passo da orientação quantitativa. A primeira ferramenta que tenta colocar em prática os conceitos das Leis da Alimentação é a Pirâmide Alimentar. Criada inicialmente pelo departamento de Agricultura dos Estados Unidos, as pirâmides alimentares geralmente mostram os alimentos que devem estar inseridos na dieta humana. Os alimentos estão alocados em níveis, iniciando pela base, em que se recomenda um consumo maior, subindo até o topo, em que há recomendação para menor consumo. A pirâmide engloba o entendimento de porções de um grupo alimentar, ou seja, uma certa quantidade de alimentos equivale a uma porção. Por exemplo, 1 pão francês ou 5 bolachas água e sal equivalem a 1 porção de carboidratos. Em uma dieta de 2000 calorias, geralmente são recomendadas até 6 porções do grupo de carboidratos e amiláceos (base da pirâmide). Todos os níveis da pirâmide são recomendados para o consumo humano. No entanto, alimentos do topo como açucares simples, devem possuir consumo moderado a reduzido, conforme cada característica individual. Assim, as orientações nutricionais, baseadas na explicação da pirâmide alimentar para um cliente/paciente, não são rígidas. Trata-se de um guia geral para o conhecimento dos diversos grupos alimentícios, que devem ser consumidos em harmonia e sem excessos para o fornecimento adequado de nutrientes necessários para a nossa saúde e bem-estar. 15 A seguir, temos uma imagem que representa uma pirâmide alimentar. Vamos entender melhor os seus níveis, tomando como base, mais especificamente, a pirâmide alimentar brasileira. Figura 1 - Pirâmide alimentar para alimentação saudável Fonte: GURZA, Shutterstock, 2020 #PraCegoVer: A imagem mostra uma pirâmide alimentar colorida, composta por fotografias dos alimentos que compõem cada um de seus níveis. Observamos que a pirâmide proposta é dividida em quatro níveis: • 1o. nível: grupo dos cereais, tubérculos, raízes. O ideal é consumir cerca de 6 a 11 por- ções por dia, dependendo da recomendação individual. • 2o. nível: grupo das hortaliças e grupo das frutas. Devemos comer de 3 a 5 porções de vegetais e de 2 a 4 porções de frutas todos os dias, dependendo da recomendação indi- vidual. • 3o. nível: grupo do leite e produtos lácteos; grupo das carnes e ovos e grupo das legumi- nosas. Devemos consumir cerca de 2 a 3 porções diárias de cada grupo, dependendo da recomendação individual. • 4o. nível: grupo dos óleos e gorduras e grupo dos açúcares e doces. Não existe indicação do número de porções para este grupo, mas a recomendação de consumo moderado. Lembre-se do que comentamos acima a respeito das porções. Ou seja, a quantidade de alimentos de cada grupo, que agrupada forma uma porção. Essa quantidade pode e deve ser sempre consultada em materiais de apoio de nutrição que fazem a análise calórica e de equivalente nutricional, de modo a estabelecer que um certo grupo de alimentos pode substituir outro grupo. Assim, quando pensamos em porção, pensamos que em um mesmo grupo alimentar (por exemplo, proteínas) a carne pode ser substituída por frango. E a quantidade é previamente determinada em estudos de composição dos alimentos e divulgada em livros e artigos científicos. Assim, a pirâmide, busca esse conhecimento e ilustra no formato de imagem, para fácil divulgação 16 e entendimento. Veja a seguir alguns exemplos de porção e equivalentes (BRASIL, 2014, p.19): Pães, cereais e massas 1 fatia de pão ou _ pão francês; _ xícara de cereal ou massa cozidos; 1 pedaço grande de vegetal C; 5 a 6 biscoitos salgados Vegetais 1 xícara de vegetais folhosos crus; _ xícara dos demais vegetais cozidos ou crus e picados Frutas 1 fruta ou fatia média; _ xícara de fruta picada ou cozida; _ de xícara de suco de frutas. Leite e derivados 1 xícara de leite ou iogurte ou 2 fatias de queijo. Carnes, leguminosas, ovos e nozes 2 a 3 colheres de carne moída; 1 fatia pequena de carne; 1 coxade frango; 1 filé de peixe pequeno; _ xícara de feijões; 1 ovo; 1/3 xícara de nozes etc Por fim, a segunda ferramenta de orientação qualitativa amplamente presente na profissão do nutricionista em nosso país é o Guia Alimentar da população brasileira (BRASIL, 2014). O guia alimentar para população brasileira é um documento teórico, elaborado pelo Ministério da Saúde para ser um instrumento referencial, de definição das diretrizes utilizadas na orientação de escolhas alimentares saudáveis pela população. Existem atualmente duas versões do guia alimentar brasileiro. Sua primeira versão foi publicada em 2006 e apresentou as primeiras diretrizes oficiais para a população brasileira. Em 2014, o guia teve uma versão atualizada publicada pelo ministério da saúde (BRASIL, 2014). O Guia Alimentar é um instrumento que pode ser acessível a toda população, e diversos profissionais da área da saúde podem fazer a indicação da leitura pelos indivíduos, para que os mesmos entendam os principais preceitos que envolvem a busca pela alimentação saudável e boas escolhas. Obviamente, o nutricionista é o profissional mais apto e adequado para explicar os tópicos contidos no guia. Em suma, em sua primeira versão o Guia Alimentar também trabalhou com o conceito da pirâmide alimentar e recomendação em porções de recomendação diárias, preconizando sempre a qualidade dos alimentos selecionados, evitando sempre refeições tipo fast foods. Suas recomendações foram organizadas em tópicos voltados para profissionais, população e governo. 17 Posteriormente, em 2014, a nova versão do Guia passou por um processo de consulta pública, e sua publicação foi organizada de forma referencial, sendo que o documento ganhou inclusive prêmios internacionais pelo conteúdo e o modo como foi transmitido. O novo guia deixa de lado o conceito de porções, que pode ser difícil de ser explicado e compreendido, e foca mais na qualidade dos alimentos e da sua forma de preparo e consumo. Assim, o novo guia contempla orientações acerca da seleção, preparo, modo de consumo. Ele contempla exemplos de refeições (de combinações entre os alimentos, incluindo as diferenças regionais em nosso país). Além disso, o novo guia classifica os alimentos de forma didática em alguns grupos. Confira abaixo esses grupos: Alimentos in natura: aqueles obtidos diretamente de plantas ou animais e não sofrem qualquer alteração após deixar a natureza. São exemplos: frutas, verduras, legumes, raízes, ovos, tubérculos. Devem ser a base das refeições, por serem saudáveis e geralmente sua produção é sustentável, colaborando com a biodiversidade. Alimentos minimamente processados: são os alimentos resultantes de processos de limpeza, remoção de partes não comestíveis, secagem, embalagem, pasteurização, resfriamento, congelamento, moagem e fermentação. Não agrega sal, açúcar, óleos, gorduras ou outras substâncias aos alimentos. São exemplos: arroz, feijão, frutas secas, farinhas, leite, café. Alimentos processados: alimentos oriundos da indústria de alimentos, com processamentos que incluem a adição de substâncias bem como frituras, que geralmente induzem a perda de nutrientes; água e adição de açúcar. Nessas condições, os alimentos possuem valor energético aumentado. Portanto, o processamento prejudica a qualidade nutricional, e a frequência com que esses alimentos aparecem na alimentação humana deve ser reduzida. Alimentos ultraprocessados: a esses alimentos são adicionados geralmente muitos ingredientes para a conservação. Para identificá-los, na leitura dos rótulos é comum encontrar cinco ou mais ingredientes. O seu uso deve ser extremamente limitado, já que a composição nutricional é totalmente desbalanceada. Além disso, geralmente são produtos não típicos de uma cultura em específico, prejudicando o fator cultural da alimentação (o seu simbolismo), bem como prejuízos à biodiversidade. O Guia está organizado em cinco capítulos. Basicamente, todos os capítulos se complementam na tentativa de indicar para a população que a alimentação saudável deve ser baseada em escolhas de alimentos principalmente in natura e minimamente processados, sendo que o seu preparo deve ser feito com temperos naturais e o seu consumo de preferência em ambientes tranquilos e familiares. A alimentação é um ato de união entre as famílias, e, esse entendimento é essencial para todo futuro nutricionista. Obviamente, enfrentamos obstáculos devido à rotina de trabalho e estudos do homem moderno. No entanto, sabendo dessas dificuldades, o guia contempla também um capítulo inteiro 18 destinado a dicas para o enfrentamento de obstáculos na busca pela alimentação saudável. Para facilitar a ampla divulgação e entendimento dos preceitos do Guia Alimentar, o Ministério da Saúde resumiu o conteúdo dos capítulos em 10 passos para a alimentação saudável que são: Prefira sempre alimentos in natura ou minimamente processados. Utilize óleos, gorduras, sal e açúcar em pequenas quantidades. Limite o consumo de alimentos processados. Evite alimentos ultraprocessados, que são aqueles que sofrem muitas alterações em seu preparo e contêm ingredientes que você não conhece. Coma regularmente e com atenção. Prefira alimentar-se em lugares tranquilos e limpos e na companhia de outras pessoas. Faça suas compras em locais que tenham uma grande variedade de alimentos in natura. Quando possível, prefira os alimentos orgânicos e agroecológicos. Desenvolva suas habilidades culinárias. Coloque a mão na massa, aprenda e compartilhe receitas. Planeje seu tempo. Distribua as responsabilidades com a alimentação na sua casa. Comer bem é tarefa de todos. Ao comer fora, prefira locais que façam a comida na hora. Seja crítico. Existem muitos mitos e publicidade enganosa em torno da alimentação. Avalie as informações que chegam até você e aconselhe seus amigos e familiares a fazerem o mesmo. (BRASIL, 2014) Após o entendimento do Guia Alimentar, finalizamos o entendimento das principais ferramentas qualitativas presentes em território nacional para o planejamento dietético qualitativo. Vamos agora entender o planejamento quantitativo. No entanto, antes disso, é necessário entender um pouco a respeito do aspecto energético do planejamento alimentar. 19 Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 2 BALANÇO ENERGÉTICO CORPORAL Seguindo com o entendimento de como planejar um cardápio, devemos compreender que o componente quantitativo diz respeito à quantidade de alimentos a ingerida, para o fornecimento das calorias necessárias para a sobrevivência de cada indivíduo. Nessa pequena frase, já conseguimos notar duas coisas: quantidade está ligada a energia; energia que geralmente é mensurada em forma de calorias. Por isso, atualmente há uma grande preocupação com a quantidade de calorias (ou valor energético) de um alimento. Mesmo profissionais e pessoas comuns já ouviram falar e se preocupam com a ingestão de calorias. Entretanto, será mesmo que a preocupação com a nutrição deve estar estritamente ligada à energia? A resposta para essa pergunta é não. A qualidade, além da energia, é determinante para a promoção da saúde! Falamos bastante até agora em promoção da saúde. Então, aqui vai uma outra pergunta. Qual é o principal fator para manutenção dela? Dentre diversos fatores, incluindo psicológicos, temos que a manutenção do peso adequado para idade, altura e gênero é essencial. E a manutenção do peso, basicamente, depende do equilíbrio energético, ou seja, a quantidade de energia consumida deve se manter em equilíbrio com a quantidade de energia gasta por um indivíduo. Vamos aprofundar um pouco o conceito de homeostasia energética nos próximos tópicos, para que você entenda a importância da correta determinação da energia a ser ingerida por cada pessoa. 2.1 Equilíbrio energético Na natureza, a energia contida nos alimentos pode ser transformada, em nosso organismo, em energia para a manutenção da vida. Nestecontexto, é fácil então entender que, para se manter vivo, o organismo necessita de energia, até mesmo no repouso (gastamos energia com 20 os nossos batimentos cardíacos, respiração e reações químicas que controlam a concentração de fluidos no sangue, que mantém a nossa temperatura corporal). Assim, essa energia para a manutenção da vida, mesmo em repouso é conhecida como metabolismo basal. Segundo Galisa et al. (2008): o corpo humano obtém a energia necessária para a sobrevivência a partir dos nutrientes energéticos, carboidratos, lipídeos e proteínas presentes nos alimentos. A energia contida nos alimentos e as necessidades energéticas do homem expressa-se em termos de quilocalorias termoquímicas. Habitualmente, referimo-nos a essa unidade como simplesmente “quilocaloria- kcal”. A caloria termoquímica foi definida originalmente como a quantidade de calor requerida para elevar a temperatura de 1g de água, de 14,5oC a 15,5oC. Agora que sabemos da existência do metabolismo basal e do gasto energético, vamos conhecer como se dá o equilíbrio para a manutenção do peso corporal. Principalmente, vamos entender quais os componentes do gasto energético. Primeiramente, confira abaixo um resumo dos tópicos que iremos abordar no entendimento do equilíbrio energético e seus componentes: Ingestão alimentar: Qualidade da dieta; Tamanho das porções. Gasto Energético: Taxa Metabólica Basal; Atividade física; Efeito térmico dos alimentos. Iniciaremos com o entendimento dos componentes específicos do Gasto Energético: - Taxa Metabólica Basal (TMB) ou Metabolismo Basal (60-75%): segundo Galisa et al. (2008): é o maior componente do gasto de energia diário médio de uma pessoa. Consiste na soma dos gastos calóricos com todas as atividades involuntárias que são necessárias para manter a vida, incluindo circulação respiração, manutenção da temperatura, secreção de hormônios, atividade nervosa e síntese de tecido novo, mas descartando as atividades de digestão e voluntárias. Pode ser denominado também de Gasto Energético Basal (GEB). Temos que, a massa corporal magra ou tecido muscular, parece ser o principal determinante do GEB. Assim, a quantidade de tecido muscular é capaz de explicar a grande diferença entre os gastos energéticos de homem e mulheres, uma vez que a composição corporal masculina geralmente apresenta uma quantidade maior de massa magra quando comparada ao corpo feminino. Outro fator de extrema relevância diz respeito a idade. Geralmente na faixa etária idosa, a composição corporal em massa magra é menor, alterando, portanto, o GEB. Confira na tabela a seguir alguns fatores que afetam a TMB. 21 Figura 2 - Fatores que influenciam a Taxa Metabólica Basal (TMB) Fonte: Elaborado pela autora, adaptado de Mahan et al. (2013). #PraCegoVer: A imagem mostra uma tabela dividida em duas colunas: Fator e Efeitos sobre a TMB. Nas linhas abaixo da primeira colunas estão os fatores: idade, altura, crescimento, composição corporal (sexo), febre, estresses, temperatura ambiente, jejum/fome, cafeína, sono; abaixo da segunda coluna estão os efeitos de cada um desses fatores sobre a TMB. - Atividade Física Voluntária (15-30%): segundo Galisa et al. (2008): “é o segundo maior componente do gasto energético. É definido como o aumento do gasto energético resultante da atividade física e constitui o componente variável do gasto energético, consequentemente, o mais sujeito a alterações. Corresponde às atividades intencionais (andar, sentar, correr e outras) realizadas pelos músculos voluntários.”. Cada nível de atividade física pode representar um determinado valor de gasto de energia, assim, segundo a sua frequência e intensidade, é atribuído uma classificação para cada atividade. Essa classificação será levada em conta no momento da determinação do gasto em calorias de cada atividade esportiva. Esse tópico será abordado novamente nos próximos parágrafos quando iniciarmos o entendimento das DRIs (dietary references intake). - Efeito térmico do alimento ou termogênese (ETA) (7-13%): com certeza você já ouviu falar de alimentos termogênicos que aumentariam o seu gasto energético e facilitariam a perda de peso. Pois bem, é nesse contexto de efeito térmico do alimento que se baseia essa ideia. Vamos entender melhor? Segundo Galisa, 2008: “os processos digestivos, e especialmente, as transformações que os nutrientes sofrem durante o metabolismo determinam um aumento temporário do metabolismo basal”. Caros estudantes, neste tópico foi discutido que o componente quantitativo do planejamento alimentar, ou seja, a quantidade de alimentos a ser ingerida será determinada com base nas 22 necessidades em caloria de cada indivíduo. Por isso, entendemos quais que são os componentes do gasto energético. Pois bem, agora entendemos como gastamos. Mas, e como “ganhamos” calorias? Essa resposta é fácil. Basicamente, conforme mencionado acima, os alimentos possuem energia! Assim, os alimentos fornecem energia (mensuradas em calorias). Você sabia que cada grupo alimentar fornece uma quantidade de energia a cada grama? Observe abaixo a quantidade de energia nos macronutrientes e no álcool. • Carboidratos 4 calorias/g • Proteínas 4 calorias/g • Lipídeos 9 calorias/g • Álcool 7 calorias/g Esperamos que você tenha compreendido que o nosso planejamento quantitativo será dividido em duas etapas: determinação da quantidade de energia que devemos ingerir e energia fornecida em calorias, de acordo com a quantidade de alimentos consumida em gramas. Com isso, conseguimos avançar para o nosso próximo tópico, no qual aprenderemos como é feita a determinação da quantidade de energia aproximada que cada individuo deve ingerir diariamente. Ansiosos para esse aprendizado? Esperamos que sim!! Continue a leitura logo a seguir. Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 23 3 NECESSIDADES E RECOMENDAÇÕES DE ENERGIA E NUTRIENTES Aprendemos nos tópicos anteriores que a energia obtida a partir dos alimentos, em forma de calorias, possibilita a realização de todas as nossas tarefas diárias, ou seja, a nossa sobrevivência. Assim, o nosso corpo utiliza a energia dos carboidratos, proteínas, lipídeos e álcool na obtidos pela dieta. Segundo Mahan et al. (2013): “as necessidades energéticas são definidas como a ingestão de energia dietética que é necessária para manter o balanço energético em pessoas saudáveis de idade, peso, sexo e estatura definidos, e grau de atividade física compatível com a boa saúde”. Conforme comentamos anteriormente, o peso corporal é o indicador usual de adequação ou inadequação da correta ingestão energética (definimos anteriormente que o balanço ou equilíbrio energético se dá quando a ingestão é proporcional ao gasto). No entanto, fiquem atentos, pois o peso corporal é um ótimo indicador da ingestão em energia, que está ligado à qualidade da dieta. No entanto, existe a possibilidade de uma dieta possuir baixa qualidade na ingestão de macro e micronutrientes, porém, que está em acordo com o valor energético. Todos os nutricionistas devem estar atentos a essas especificidades. Vamos agora compreender como o gasto energético é determinado? Para isso comentaremos a respeito de algumas técnicas da medição, bem como a determinação indireta, por meio de equações matemáticas, que levam em conta as características individuais (peso, altura, sexo, idade, atividade física). Veremos que, ao longo dos anos, diversas equações foram criadas, no entanto, a mais aplicada atualmente para indivíduos sadios é conhecida como DRIs (dietary reference intake). 3.1 Medição do gasto energético humano Vários métodos estão disponíveis para medir o gasto energético humano. A seguir, comentaremos os principais métodos atualmente existentes: - Calorimetria Direta: este método monitora a quantidade de calor (ou energia) produzido em nível basal por uma pessoa alocada dentro de uma estrutura física com capacidade para permitir atividade moderada (tarefas do dia adia). No entanto, trata-se de um método com capacidade limitada visto que a prática de atividade física e outros tipos de atividades diárias que acontecem em espaço físico maior do que a câmera não podem ser executados. Além disso, possui alto custo, outro fator limitante para o uso desse método. - Calorimetria Indireta: esse método faz uma estimativa do gasto energético, por meio da aferição do consumo de oxigênio e produção de dióxido de carbono pelo corpo durante um período determinado de tempo. Geralmente, a pessoa respira em uma peça colocada na boca ou 24 por um capuz ventilado, pelo qual ocorre a troca e aferição dos gases. Esse método possui custo mais acessível, no entanto, alguns itens de pré-preparo geralmente são indicados: evitar cafeína, álcool e exercício físico intenso, no mínimo de 2-4 horas antes da aferição gasosa. - Água duplamente marcada: nesse método, os indivíduos monitorados fazem a ingestão oral de uma água marcada com óxido de deutério e oxigênio. A aferição baseia-se no princípio de que o deutério é eliminado do corpo como água e o oxigênio é eliminado como água e dióxido de carbono. Essa taxa de eliminação geralmente é avaliada aproximadamente por 10 a 14 dias, por meio da coleta de urina, saliva ou plasma. A diferença nas taxas de eliminação entre as duas é a medida da produção de dióxido de carbono, que podem ser utilizadas para a aferição do gasto energético de forma semelhante à determinação da calorimetria indireta. Outros métodos podem ser empregados, além disso descrevemos aqui apenas um breve resumo de cada técnica. Sugerimos a leitura de materiais complementares, como por exemplo Mahan et al. (2013). 3.2 Estimativa da Taxa Metabólica Basal (TMB) e Necessidades de Nutrientes Acabamos de aprender acima que o gasto energético pode ser determinado por algumas técnicas. No entanto, nem todos os clientes/pacientes terão acesso a essas aferições. O planejamento dietético só será possível uma vez que determinarmos a quantidade de energia que cada individuo necessita para a sobrevivência. Então, para facilitar essas estimativas, com o decorrer dos anos, várias equações matemáticas que estimam o gasto energético basal e também total (incluindo a prática de atividade física) foram estabelecidas por cientistas. Figura 3 - Equações para estimativa de Gasto Energético Total (GET) Fonte: Elaborada pela autora, 2020 25 #PraCegoVer: A imagem mostra um retângulo vermelho no topo, onde está escrito Equações para estimativa de Gasto Energético Total (GET). Abaixo dele, há uma seta azul apontada para baixo (dando ideia de linha do tempo), ao lado esquerdo da seta estão os anos 1919, 1931, 1979, 1979, 1985 e 2002; ao lado direito, estão os nomes dos autores/instituições criadoras de equações: Harris Benedict, Pedro Escudero, Krasuse, Conselho de alimentação e nutrição, FAO/ OMS e Instituto de Medicina. Na parte de baixo da imagem, há um re Além da determinação de quanta energia devemos ingerir, para o planejamento dietético, também se faz necessário a determinação da quantidade de nutrientes (macro ou micro) que devem ser ingeridos para a manutenção da saúde dos indivíduos. Assim, em 1941, a Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos criou a Ingestão Dietética de Referência (Dietary Reference Intakes- DRIs), que se constitui em um grupo de 4 valores de referência de ingestão de nutrientes, além de equações de determinação de gasto energético total (GET), que são a base para o planejamento dietético nos dias atuais. Segundo ISLI (2001): “as DRIs são valores de referência de ingestão de nutrientes que devem ser utilizados para planejar e avaliar dietas para pessoas saudáveis. Elas incluem tanto as recomendações de ingestão como os limites superiores que devem ser considerados como valores de referência”. Para a determinação das DRIs, alguns fatores foram levados em conta: entrevista com indivíduos saudáveis, ingestão necessária para diminuição no risco de doenças e a biodisponibilidade dos nutrientes, dentre outros fatores. Feitas essas definições, vamos conhecer os 4 valores que compõem as DRIs. Abaixo, alguns conceitos definidos pela publicação ISLI (2001): - Necessidade média estimada (Estimated Average Requirement/ EAR): é um valor de ingestão diária de um nutriente, que se estima que supra a necessidade de metade (50%) dos indivíduos saudáveis de um determinado grupo, de mesmo gênero e estágio de vida. Consequentemente, metade da população teria, a esse nível, uma ingestão abaixo de suas necessidades. A EAR é usada na determinação da RDA (que será explorada no próximo tópico) e corresponde à mediana da distribuição de necessidades de um dado nutriente para um dado grupo de mesmo gênero e estágio de vida. Coincide com a média quando a distribuição é simétrica. Geralmente, ela é utilizada para avaliar a adequação nutricional de populações. Para isso, existe um índice conhecido como índice de adequação. Basicamente, os valores fornecidos pela tabela de valores de EAR para cada nutriente são colocados na fórmula abaixo, juntamente com o valor da quantidade ingerida. E, por meio da interpretação dos resultados, estima-se se a ingestão está adequada ou não. - Ingestão Dietética Recomendada (Recommended Dietary Allowance/ RDA): é o nível de ingestão dietética diária que é suficiente para atender às necessidades de um nutriente de praticamente todos (97 a 98%) os indivíduos saudáveis de um determinado grupo de mesmo gênero e estágio de vida. Seu valor é considerado a meta de consumo para o planejamento dietético de indivíduos. 26 - Ingestão Adequada (Adequate intake/ AI): é utilizada quando não há dados suficientes para a determinação da RDA. Pode-se dizer que é um valor prévio à RDA. Baseia-se em níveis de ingestão ajustados experimentalmente ou em aproximações da ingestão observada de nutrientes de um grupo de indivíduos aparentemente saudável. - Limite Superior Tolerável de Ingestão (Tolerable Upper Intake Level/ UL): é o valor mais alto de ingestão diária continuada de um nutriente, que aparentemente não oferece nenhum efeito adverso à saúde, em quase todos os indivíduos de um estágio de vida ou gênero. À medida que a ingestão aumenta para além do UL, o risco potencial de efeitos adversos também aumenta. O UL não é um nível de ingestão recomendado. O estabelecimento do UL surgiu com o crescimento da prática de fortificação de alimentos e do uso de suplementos alimentares. O UL ainda não está estabelecido para todos os nutrientes. Para facilitar o entendimento, elaboramos uma tabela resumo abaixo para que você consiga resumir as informações. Observe que a tabela contém as informações para o planejamento dietético. Figura 4 - Planejamento de dietas Fonte: Elaborado pela autora, 2020. Figura #PraCegoVer: A imagem mostra um retângulo vermelho no topo, onde se lê Dietary Reference Intakes (DRIs) - Ingestão Dietética de Referência em portugês. Abaixo dele, está a frase: Uso no planejamento de dietas, seguida de um quadro dividido em 4 partes de cima para baixo: Indivíduo; RDA, AI e UL (bem como suas respectivas explicações. Na lateral direita da figura, há um garfo azul que atravessa todo o seu comprimento. Observe abaixo as recomendações em %, em relação ao valor energético total (VET) da ingestão de macronutrientes para a população, em suas faixas etárias (IOM, 2006): Lipídeos 1 a 3 anos: 30-40% 27 4 a 18 anos: 25-35% Adultos: 20-35% Carboidratos 1 a 3 anos: 45-65% 4 a 18 anos: 45-65% Adultos: 45-65% Proteínas 1 a 3 anos: 5-20% 4 a 18 anos: 10-30% Adultos: 10-35% Conforme mencionado acima, além das recomendações de macro e micronutrientes, as DRIs também preconizam fórmulas matemáticas para a predição de energia total diária. Essa fórmula é conhecida como EER (Estimativa da Necessidade Energética), que é a média de ingestão energética necessária para manter o balanço energético em indivíduos saudáveis em determinado sexo, idade, peso, estatura e nível de atividade.Chegamos então ao objetivo final da nossa construção de conhecimento da unidade: saber o quanto de energia os indivíduos, em suas diversas faixas etárias, devem ingerir, e distribuir isso em alimentos, seguindo também as recomendações de macro e micronutrientes pré-determinadas. Portanto, para a estimativa da necessidade energética, o nutricionista, após a anamnese e coleta de dados dos clientes/pacientes, deve substituir nessa fórmula os valores mencionados para idade, peso e altura. A atividade física relatada deverá ser substituída por um valor obtido a partir da interpretação da tabela abaixo: Figura 5 - Classificação pela atividade física Fonte: Elaborada pela autora, 2020 #PraCegoVer: A imagem mostra uma tabela dividida em 4 colunas: sedentário, pouco ativo, ativo e muito ativo; e duas linhas: homens maiores de 19 anos e mulheres maiores de 19 anos. No cruzamento das colunas com as linhas, estão os valores atribuídos para cada classificação. Os critérios abaixo são utilizados para caracterizar as pessoas em geral: - Sedentário: pessoa que executa apenas atividades diárias para sobrevivência. 28 - Pouco ativo: pessoa que, além das atividades diárias, pratica alguma atividade moderada entre 30-60 minutos diários. - Ativo: pessoa que, além das atividades diárias, também pratica exercícios moderados acima de 60 minutos diários. - Muito ativo: pessoa que, além das atividades diárias, também pratica atividade vigorosa, ou até mesmo voltada para competição esportiva. 4 CARACTERÍSTICAS DA DIETA DO ADULTO Nos tópicos anteriores aprendemos os principais tópicos envolvidos no planejamento dietético (qualitativo e quantitativo), sendo que a mensuração das necessidades energéticas e de ingestão de macronutrientes são determinantes. Feito isso, a maneira de mostrar ao paciente como ele deve se alimentar e criar autonomia envolve também o uso de ferramentas qualitativas, como as pirâmides alimentares e os guias, que visam a ensinar a seleção de alimentos nutricionalmente adequados para a composição de grande parte da dieta diária. Cada faixa etária de vida do ser humano possui características comportamentais e fisiológicas que influenciam na recomendação energética e de nutrientes. Além disso, as características comportamentais/psicológicas, rotina de trabalho, religião, poder aquisitivo, entre outros fatores, são determinantes no momento da seleção dos alimentos a serem ingeridos. E, por isso, o nutricionista deve conhecer as especificidades de cada ciclo da vida humana para otimizar o seu atendimento clínico, bem como prescrição dietética resultante do atendimento. Dessa forma, vamos conhecer agora as principais características da alimentação do indivíduo na faixa etária adulta. 4.1 Especificidades da idade A fase adulta é a faixa etária em que se completa o crescimento físico. Na vida adulta, são fatores determinantes para a seleção de alimentos e o hábito alimentar alguns itens como jornada de trabalho diária, geralmente impactando de forma negativa, induzindo a pouco tempo disponível para preparo e compra de alimentos nutricionalmente mais adequados. Além disso, o estresse e preocupações com a família, renda e trabalho, entre outros fatores, também está sempre presente na faixa adulta, sendo fator de risco importante para o surgimento de diversas doenças metabólicas e psicológicas, que afetam a alimentação tanto impulsionando, como reduzindo o consumo de alimentos. A renda disponível para a compra dos alimentos é fator determinante também. É comum o surgimento de doenças que afetam as necessidades na faixa etária adulta. A falta de tempo disponível para a prática de atividade física, associada a maus hábitos alimentares oriundos da infância e da adolescência, bem como a mídia, também culminam em influências 29 negativas para a saúde e qualidade de vida nessa faixa etária. 4.2 Recomendações nutricionais Após a identificação dos principais fatores que influenciam o hábito alimentar de um cliente/ paciente na faixa etária adulta, o nutricionista em sua prescrição dietética deve seguir alguns passos para a criação do plano alimentar. - Avaliação do estado nutricional e determinação das metas (perda de peso, ganho, manutenção): para isso, podem ser empregados avaliação de IMC, pregas cutâneas, bioimpedância, entre outros. - Avaliação da qualidade da dieta atual (recordatório 24 horas, questionários de frequência alimentar). - Determinação das necessidades energéticas (EER), conforme explicado anteriormente nesta unidade. - Distribuição dos macronutrientes segundo as recomendações das DRIs. - Seleção de alimentos que compõem o plano alimentar: essa deverá seguir alguns cuidados principais, como evitar o excesso de consumo calórico; as refeições devem ser de fácil digestão, com horários definidos e fracionadas, com atenção ao aporte de minerais, vitaminas e fibras; deve-se estimular o controle no consumo de sódio e óleo nas preparações, além de ingestão hídrica adequada. - Distribuição dos alimentos em refeições: deve-se levar em conta alguns fatores de extrema importância, tais como o hábito alimentar já estar formado e precisa ser respeitado, propondo sempre mudanças que não sejam bruscas; a disponibilidade e acessibilidade dos alimentos deve ser respeitada; o número de refeições deve ser adequado à jornada diária do indivíduo atendido. Para facilitar a distribuição dos alimentos ao longo do dia, confira abaixo uma tabela com sugestões para o fracionamento calórico das refeições: Figura 6 - Fracionamento calórico das refeições Fonte: Elaborado pela autora, 2020 #PraCegoVer: A imagem mostra uma tabela dividida em duas colunas: Refeição e % das calorias (EER). Abaixo da primeira coluna estão as refeições desjejum, colação ou lanche, almoço, lanche, jantar e ceia; abaixo da segunda coluna, os valores percentuais para cada refeição: 20- 25%, 5%, 35-40%, 10-15%, 15-25% e 5%, respectivamente. 30 Lembre-se sempre que o plano alimentar deve ser individualizado, conforme todas aquelas características que estão presentes na faixa etária adulta. Essa tabela de recomendação pode servir como um guia para a sua prescrição individual. 5 AVALIAÇÃO DA DISPONIBILIDADE DE FERRO Chegamos ao último tópico desta unidade. Anteriormente, aprendemos que o planejamento alimentar deve seguir algumas regras básicas conhecidas como Leis da Nutrição. No entendimento dessas leis, vimos que se deve existir harmonia entre os nutrientes ingeridos em uma mesma refeição. Falamos também que essa harmonia está intimamente associada ao conceito mais atual de biodisponibilidade. Retomando esse conceito, segundo Galisa et al. (2008): “a biodisponibilidade refere-se à fração de qualquer nutriente ingerido que tem o potencial para suprir demandas fisiológicas em tecidos alvos”. Assim, o estudo da biodisponibilidade de cada nutriente tem como grande objetivo a determinação mais precisa possível das necessidades do organismo para a manutenção da homeostasia, e consequentemente resultando no estabelecimento das recomendações de ingestão alimentar mais adequada possível. A seguir, descreveremos brevemente os principais fatores que influenciam na biodisponibilidade geral dos nutrientes, e, em seguida, abordaremos especificamente o mineral Ferro, um dos mais importantes para a nossa saúde geral devido ao seu papel no organismo. 5.1 Fatores que influenciam a biodisponibilidade de nutrientes em geral Atualmente, sabe-se que fatores relacionados à ingestão dietética, bem como ao organismo específico de cada indivíduo, são capazes de interferir negativamente ou positivamente na biodisponibilidade de nutrientes. Assim, o conhecimento dessas interações permite que o nutricionista elabore um plano alimentar que amplifique o aproveitamento de cada alimento ingerido. Para efeitos didáticos, diversos são os livros de nutrição que preconizam que os alunos lembrem do termo SLAMANGHI. Esse termo contém as letras das iniciais de cada fator conhecido atualmenteque interfere na biodisponibilidade de nutrientes. Vamos conhecer cada um deles abaixo: - S (Species, no inglês): especiação do nutriente. Esse termo representa a fórmula química na qual o nutriente se encontra no alimento, podendo estar presente na forma livre ou combinada, e isso irá interferir na absorção e utilização pelo organismo. - L (Linkage, no inglês): ligação molecular. A estrutura atômica, ou seja, ligações químicas covalentes ou iônicas poderão resultar em solubilidades diferentes em água, meio ácido ou básico. Em consequência, a ligação molecular influencia na biodisponibilidade de nutrientes. 31 - A (amount consumed in the meal, no inglês): a quantidade consumida que será absorvida de cada nutriente nas refeições depende dos estoques (reservas) endógenos. Assim, se um nutriente está com estoque baixo, o organismo irá providenciar mecanismos que aumentem a absorção dos mesmos. Por outro lado, o excesso de determinado nutriente pode interferir no aproveitamento de outro. - M (matrix, no inglês): matriz onde o nutriente é incorporado. Nos alimentos, os diferentes compostos podem interagir entre si, interferindo na biodisponibilidade. Por exemplo, fatores antinutricionais como o fitato e o oxalato, podem interagir e impedir a biodisponibilidade de alguns minerais. - A (attenuators of absortion and bioconversion, no inglês): atenuadores de absorção e bioconversão. Existem compostos na dieta que facilitam ou prejudicam a absorção e/ou a conversão de nutrientes para a forma ativa, ou seja, funcional. - N (nutritional status, no inglês): estado nutricional do indivíduo. Como é de se esperar, o estado nutricional (desde a desnutrição até a obesidade) influenciam na biodisponibilidade. Além disso, a prática de atividade física também é fator determinante para a biodisponibilidade. - G (genetic factors, no inglês): fatores genéticos. Algumas doenças ou polimorfismos podem influenciar na absorção de determinados nutrientes. - H (host related factors, no inglês): fatores relacionados ao indivíduo. As características individuais, como gênero, sexo, idade, tabagismo, ciclo da vida, uso de suplementos ou medicamentos, podem aumentar ou diminuir a capacidade de absorção e a utilização de nutrientes. - I (interaction, no inglês): interações. Cada nutriente em específico pode interagir de modo sinérgico ou antagônico na biodisponibilidade de outro nutriente. Sugerimos a leitura do livro “Biodisponibilidade de Nutrientes” (COZZOLINO, 2016), para que você adquira conhecimentos aprofundados sobre o tema, incluindo exemplos de cada tipo de interação entre os macro e micronutrientes. 5.2 Fatores que influenciam a biodisponibilidade de Ferro Segundo Teixeira (2003): “o ferro é um micronutriente muito estudado e o mais bem caracterizado no que diz respeito a seu metabolismo e sua concentração no organismo humano é de aproximadamente 40mg/kg nas mulheres e de 50mg/kg nos homens”. As principais funções do ferro são transporte de oxigênio, metabolismo oxidativo, síntese de ácidos nucléicos, cofator em reações enzimáticas, dentre outros processos metabólicos. 32 O nosso organismo possui dois locais principais de armazenamento e concentração de ferro. Assim, o ferro pode estar ligado a componentes metabólicos como hemoglobina, miogloina, citocromo, enzimas. Além disso, o ferro pode estar acoplado a transportadores como ferritina, transferrina, lactoferrina, entre outros, sendo esses exames bioquímicos comuns a serem solicitados para saber sobre o status de ferro no organismo. Interessantemente, a capacidade de estocagem de ferro no organismo recebe a influência de alguns fatores como idade, sexo e composição corporal. Mulheres recebem ainda influência hormonal e do ciclo menstrual. O ferro presente em nossa dieta alimentar pode ser classificado em duas formas: ferro heme e não heme. Segundo Teixeira (2003): “o ferro heme se apresenta na sua forma iônica Fe2+ (ferroso), sendo solúvel no meio alcalino da luz intestinal, facilitando assim, sua absorção. O ferro não-heme se apresenta na maioria das vezes na forma oxidada Fe3+ (férrico), apresentando-se menos solúvel no organismo humano”. Vale notar que a biodisponibilidade do ferro não heme (presente em alimentos de origem vegetal) é menor comparada ao ferro heme (presentes em alimentos de origem animal). A seguir confira as principais interações entre o Ferro e outros nutrientes. - Ferro x Cálcio: em uma mesma refeição o cálcio parece inibir a absorção de ferro não heme. - Ferro x Zinco: o excesso de ferro na alimentação pode interferir na biodisponibilidade de zinco e vice-versa. - Ferro x Vitamina C: a vitamina C aumenta a biodisponibilidade de ferro não heme dos alimentos, independente do estado nutricional do individuo. - Ferro x Vitamina A: a deficiência de vitamina A prejudica a mobilização de ferro das reservas. - Fatores dietéticos: ácido fítico, compostos polifenois, oxalatos, soja, albumina, café entre outros, podem prejudicar a absorção do ferro não-heme. - pH: níveis mais ácidos facilitam a absorção de ferro. E com esses conceitos, finalizamos esta unidade. 33 Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: FIQUE DE OLHO O planejamento dietético é a etapa fundamental do atendimento nutricional, uma vez que as orientações qualitativas e quantitativas acerca da alimentação individual são determinantes para a qualidade de vida, saúde e manutenção adequada do peso corporal. Discutimos aqui que esse planejamento envolve um longo passo a passo, desde o conhecimento dos clientes/pacientes, até as recomendações nutricionais. Lembrem-se sempre que a ciência da nutrição está em constante avanço, por isso, não deixe de buscar artigos científicos em bases confiáveis, para que você mantenha o seu conhecimento acerca das recomendações de ingestão de energia, macro e micronutrientes, bem como a biodisponibilidade de nutrientes, sempre atualizadas para o alcance do sucesso na atuação clínica. 34 Nesta unidade, você teve a oportunidade de: • aprender sobre o planejamento qualitativo das dietas, conhecendo a pirâmide alimentar e o guia alimentar para a população brasileira; • conhecer sobre as metodologias atualmente vigentes para a determinação do gasto energético; • aprender sobre as recomendações de ingestão de macro e micronutrientes, bem como determinação do gasto energético por meio das DRIs; • conhecer as vertentes que influenciam no planejamento dietético da população adulta; • compreender princípios de biodisponibilidade de nutrientes; • compreender a biodisponibilidade do ferro, um dos principais minerais presentes na dieta humana. PARA RESUMIR BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Guia alimentar para a população brasileira / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Básica. – 2. ed., Brasília: Ministério da Saú- de, 2014. COZZOLINO, S. M. F. Biodisponibilidade de minerais. R. Nutr. Campinas, 10(2): 87-98, jul./ dez., 1997. ________. Biodisponibilidade de Nutrientes. Editora: Manole. 5ª Ed revisada e atualiza- da. 2016. ESCUDERO, P. Alimentação. Trad., Helion Póvoa e Waldemar Berardinelli. Rio de Janeiro: Scientifica, 1934. GALISA, M.S. et al. Nutrição. Conceitos e Aplicações. 1. ed. [S.l.]: MBOOKS, 2008. ILSI BRASIL. Usos e aplicações das “dietary reference intakes” DRIS. São Paulo,SP Novem- bro/2001. Disponível em: http://www.ufjf.br/renato_nunes/files/2014/03/Como-usar- -DRIs-Brasil.pdf. Acesso: 06/fev/2020. INSTITUTE OF MEDICINE (IOM). Dietary reference intakes; the essential guide to nutrien- te requirements. Washington (DC): National Academy Press; 2006. MAHAN, L. K. et al. Krause: Alimentos, Nutrição e Dietoterapia. 13ª ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2013. 1228 p PHILIPPI, S. T. Pirâmide Dos Alimentos - Fundamentos Básicos da Nutrição. Editora Mano- le - 3ª Ed. 2018. TEIXEIRA F.N. Nutrição Clínica. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2003. UNIVERSIDADE ESTADUALDE CAMPINAS - UNICAMP. Tabela brasileira de composição de alimentos - TACO. 4. ed. rev. e ampl. Campinas: UNICAMP/NEPA, 2011. 161 p. Disponível em: . Acesso em: 06/ fev/2020. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS UNIDADE 2 Gestação e lactação Bem-vindos à Unidade Gestação e Lactação. Conheça aqui a importância da nutrição em ciclos muito importantes para a vida da mulher e também para o desenvolvimento de todos os seres humanos: a gestação e a lactação. Neste sentido abordaremos a importância da preocupação com o estado nutricional e nutrição das mães, antes mesmo da concepção, sendo que a gestação e lactação constituem períodos de extrema importância para a saúde do bebê. Assim, o nutricionista possui um amplo campo de atuação nessa área. Além da nutrição da mãe durante a gestação e a lactação, você aprenderá também que o momento da seleção da alimentação complementar (ou seja, a introdução dos alimentos na alimentação dos bebês) é essencial para a saúde da criança. E, infelizmente, esse é um assunto muito negligenciado, uma vez que profissionais da área da saúde, que não o nutricionista, usualmente, fazem aconselhamentos errôneos que prejudicam o nosso trabalho, bem como a saúde da criança. Bons estudos! Introdução 39 1 NUTRIÇÃO NA GESTAÇÃO O papel do ambiente de desenvolvimento intrauterino, bem como o aleitamento materno são destaque para a saúde dos filhos. Hoje, diversos cientistas estudam uma teoria conhecida como hipótese da origem fetal das doenças que acometem os adultos. Assim, sabendo dessa importância, é natural que a preocupação com o estado nutricional e com todos os hábitos de vida que impactam nisso (atividade física, uso de drogas/medicamentos, NUTRIÇÃO) recebam cada vez mais atenção. Figura 1 - Nutrição na gestação Fonte: SUBBOTINA ANNA, Shutterstock, 2020. #PraCegoVer: A imagem mostra uma foto de uma gestante. É possível ver apenas a barriga, com as mãos da gestante acariciando-a. Sabendo que o ambiente intrauterino (e posteriormente a composição do leite materno) irá receber influências ambientais, induzindo a influências na saúde dos filhos, devemos nos atentar para o fato de que, antes mesmo da fecundação, em uma condição ideal, é necessário que as futuras mães já busquem auxílio para corrigir a sua alimentação. Vamos conhecer passo a passo os principais pontos a serem abordados no acompanhamento nutricional das mães. Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 40 1.1 Pré-concepção e concepção Conforme mencionado acima, o estado nutricional pré-concepção pode influenciar, em muitos fatores, a gestação, começando pela dificuldade em engravidar. Assim, é muito comum que mães tanto com desnutrição, como com obesidade sofram de infertilidade. Isso acontece pois os hormônios circulantes em nosso organismo, que regulam todo o nosso funcionamento biológico dependem de moléculas derivadas de lipídeos para o correto funcionamento. Na desnutrição, a porcentagem de reservas energéticas em forma de gordura é extremamente reduzida, influenciando inclusive na ausência de menstruação (amenorreia). Consequentemente, todo o ciclo menstrual de preparo para a ovulação é comprometido. Da mesma forma, o excesso de tecido adiposo também é prejudicial, visto que nesse estado doenças como hipertensão e diabetes mellitus podem se instalar. Uma vez presente, o excesso de tecido adiposo atua desencadeando um estado inflamatório de baixo grau, presente constantemente no organismo. A inflamação está associada tanto ao desenvolvimento de doenças associadas (hipertensão e diabetes), quanto à infertilidade e perda de fetos, devido a alterações na sinalização intracelular de hormônios e no funcionamento da placenta. Outro ponto importante, o próprio ganho de peso durante a gestação, será determinado a partir do IMC (índice de massa corporal) pré-gestacional. E, para finalizar, sabe-se hoje em dia, por meio dos estudos de hipótese de origem fetal, que o óvulo materno pode carregar alterações que impactam na saúde dos filhos quando eles estiverem na vida adulta. Por isso, mulheres que desejem engravidar devem procurar atendimento multiprofissional de equipes em saúde, para realizar esse planejamento. Devem tentar ganhar ou perder peso, para que a faixa da normalidade de estado nutricional seja atingida, e com isso facilite a concepção e colabore para a saúde do bebê. 1.2 Período gestacional: características Durante a gestação, a mãe passará por diversas alterações metabólicas em seu organismo, que afetam as suas necessidades nutricionais e impactam diretamente no hábito alimentar, bem como no seu estado nutricional. Dessa forma, o planejamento do ganho de peso é de extrema importância na conduta do nutricionista, bem como as orientações para o enfrentamento de algumas intercorrências normais ao período como enjoo, náuseas, entre outros. Iremos discutir o planejamento dietético logo a seguir, pois antes começaremos entendendo quais as principais mudanças no organismo materno durante a gestação. O passo inicial para a compreensão das mudanças na gestação é conhecer quanto tempo ela dura. Basicamente, uma gestação normal compreende o período de 40 semanas. Conforme mencionado, essas semanas apresentam características diferenciadas. Por isso, a gestação é normalmente dividida e agrupada em três trimestres, nos quais o desenvolvimento depende de fatores diferentes, que iremos conhecer a seguir. 41 Figura 2 - Duração da gestação em seres humanos Fonte: Elaborado pela autora, 2020 #PraCegoVer: A imagem mostra duas tabelas, uma que faz a correspondência entre semanas de gestação e trimestres de gestação; e outra que faz a correspondência entre meses de gestação e semanas de gestação Primeiro Trimestre O embrião utiliza reserva energética da mãe antes da gestação para suprir suas necessidades de crescimento. Por isso é importante que a gestante tenha mantido um peso adequado anteriormente à gestação. Segundo Mahan et al. (2010): “durante as semanas 1 e 2 o zigoto se divide, e a implantação ocorre. A partir das semanas 3 e 4, o sistema nervoso central, os olhos, os braços e as pernas começam a ser formados”. É importante observar que, nesse trimestre, é muito comum a ocorrência de enjôos e vômitos. No entanto, esses sintomas não são capazes de prejudicar o desenvolvimento do bebê se as reservas energéticas da mãe estiverem adequadas. Falaremos em breve das orientações gerais para essas complicações. Segundo e Terceiro Trimestres Nessa fase, o desenvolvimento já acaba sendo influenciado pelo meio externo. Fatores como o ganho de peso adequado, a ingestão de energia e nutrientes, fatores emocionais e o estilo de vida são capazes, portanto, de influenciar no desenvolvimento do bebê. Por isso, a mãe deve ser 42 orientada sempre a evitar situações estressantes, bem como a seguir corretamente as orientações nutricionais. Especificamente, segundo Mahan et al. (2010): “as semanas de 4 a 8 são consideradas como o período embrionário. Nas semanas 5 e 6, os olhos e os ouvidos se desenvolvem, seguidos pelo desenvolvimento genital, rins, palato e dentes. Na semana 9 é finalizado o período embrionário, começando o período conhecido como fetal. É frequentemente após 4 semanas de gestação que a mulher saberá que está grávida, o que corresponde a duas semanas após a falta de menstruação”. Agora que entendemos um pouco mais sobre como o período gestacional está subdividido, bem como sobre algumas alterações gerais relacionadas ao desenvolvimento do bebê acontece em cada trimestre, vamos entender como são as mudanças fisiológicas no período gestacional. Agora que entendemos um pouco mais sobre como o período gestacional está subdividido, bem como sobre algumas alterações gerais relacionadas ao desenvolvimento do bebê acontece em cada trimestre, vamos entender como são as mudanças fisiológicas no período gestacional. 1.3 Período gestacional: alterações fisiológicas Tudo