Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Prévia do material em texto

UNIVERSIDADE VEIGA DE ALMEIDA
GRADUAÇÃO EM SERVIÇO SOCIAL
LOREN FERREIRA GONÇALVES
A LIBRAS E SUAS ESPECIFICIDADES SOCIAIS
DUQUE DE CAXIAS
2026
LOREN FERREIRA GONÇALVES
A LIBRAS E SUAS ESPECIFICIDADES SOCIAIS
Trabalho de A1 do curso ,
apresentado como requisito parcial para
obtenção do título de Bacharel em 
 Serviço Social do curso de
graduação em Serviço Social da 
 Universidade Veiga de Almeida. 
ORIENTADOR (A): DAVID SANTANA LOPES
DUQUE DE CAXIAS
2026
O reconhecimento da Língua Brasileira de Sinais (Libras) como língua materna das comunidades surdas brasileiras representa um marco na transição do modelo clínico para o modelo antropológico e cultural da surdez. Historicamente, a percepção ouvinte sobre a surdez foi pautada pela ideia de "perda" e pela tentativa de controle sobre o corpo e a linguagem do surdo, manifestada pela obsessão em forçá-los à oralidade e pela proibição da língua de sinais. De acordo com Skliar (1997), essas práticas configuram uma forma de poder que busca normalizar sujeitos que possuem uma organização de mundo baseada na experiência visual e não auditiva.
Libras se afirma como um sistema linguístico completo, dotado de uma estrutura gramatical própria e independente das línguas orais. Por ser uma língua de modalidade visual-espacial, ela exige que o processo comunicativo ocorra por meio de sinais que combinam parâmetros específicos, sendo as expressões faciais e corporais elementos indispensáveis para a produção de sentido. A valorização dessa língua como instrumento de aproximação entre culturas é fundamental para romper barreiras de exclusão e garantir que o surdo seja percebido em sua totalidade histórica e sociocultural.
A compreensão da Libras como língua natural exige o entendimento de que ela não se baseia em mímicas, mas em um sistema de regras que substitui os fonemas orais pela unidade elementar visual, o sinal. De acordo com a Unidade 2, a Libras possui uma modalidade visual-espacial, onde o "falar com as mãos" é estruturado por cinco parâmetros fundamentais que se combinam para formar o significado.
Estes parâmetros são: a configuração das mãos, o ponto de articulação (local onde o sinal ocorre), o movimento, a orientação da mão e, por fim, as expressões faciais e corporais. Enquanto os quatro primeiros parâmetros determinam a forma e a execução do sinal, o quinto parâmetro — a expressão facial — é o responsável por traduzir as entonações verbais e os estados emocionais, funcionando como o traço diferenciador de sentidos.
A importância técnica das expressões faciais é evidenciada quando percebemos que elas determinam o real significado da mensagem, conferindo-lhe a carga de negação, dúvida ou afirmação necessária para a eficácia comunicativa. Conforme observado no experimento do Laboratório Virtual, o uso correto da musculatura facial é o que garante que sinais com configurações de mãos idênticas não sejam confundidos. Exemplos claros disso são as expressões de:
Raiva: que utiliza o tensionamento facial para conferir vigor e severidade ao sinal.
Espanto/Surpresa: que, através da abertura dos olhos e boca, atua como um marcador exclamativo essencial no diálogo.
Essa base gramatical refuta a visão histórica mencionada por Skliar (1997), que tentava localizar a inteligência apenas na oralidade. Ao contrário da "obsessão em fazê-los falar", o reconhecimento da Libras como língua materna valoriza o surdo em sua totalidade sociocultural.
A situação problematizadora vivenciada pelos alunos universitários ilustra a fragilidade das relações quando não há o reconhecimento pleno da Libras como língua materna. O mal-entendido ocorrido na praça de alimentação demonstra que o conhecimento isolado de sinais, sem a compreensão da estrutura gramatical e do papel das expressões faciais, é insuficiente para uma interação efetiva. O aluno ouvinte, ao manifestar uma expressão de dor por motivos de saúde, foi interpretado pelo aluno surdo como alguém que sentia desprezo ou inveja, pois, na Libras, a expressão facial é o canal que determina a "entonação" e o real significado do sinal.
Este conflito reforça a necessidade de superar o preconceito de que os sinais seriam meras mímicas ou formas inferiores de comunicação. Como enfatiza Mittler (2003), a exclusão atinge diversos grupos quando não há o respeito às singularidades. Para o surdo, a Libras é a sua língua materna e o eixo de sua identidade sociocultural. Portanto, a sociedade deve transitar para o modelo bilíngue, onde o acesso à informação ocorre primeiramente via Libras (L1), garantindo o desenvolvimento integral do sujeito nas esferas cognitiva e social.
A inclusão de pessoas surdas não se resume à convivência física nos mesmos espaços, mas à garantia de uma cidadania plena através do bilinguismo. O reconhecimento da Libras como língua legítima permite que situações de exclusão, como as provocadas por barreiras comunicacionais, sejam superadas pelo entendimento mútuo. Como observado no Laboratório Virtual, o domínio das expressões faciais é fundamental, pois elas facilitam a comunicação e conferem congruência à mensagem. Somente através da valorização da cultura surda e do respeito à modalidade visual-espacial será possível construir uma sociedade verdadeiramente inclusiva, onde a comunicação atue como ponte, e não como barreira.
Referências Bibliográficas
BRASIL. Lei nº 10.436, de 24 de abril de 2002. Dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais - Libras e dá outras providências. Brasília, DF: Presidência da República, 2002.
BRASIL. Decreto nº 5.626, de 22 de dezembro de 2005. Regulamenta a Lei nº 10.436, de 24 de abril de 2002, e o art. 18 da Lei nº 10.098, de 19 de dezembro de 2000. Brasília, DF: Presidência da República, 2005.
FENEIS. Estudos Surdos. Rio de Janeiro: Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos. Disponível em: http://www.eusurdo.ufba.br/arquivos/estudos_surdos_feneis.doc. Acesso em: 15 março. 2026.
MITTLER, Peter. Educação inclusiva: contextos sociais. Tradução de Windyz Brazão Ferreira. Porto Alegre: Artmed, 2003.
MOURA, Maria Cecília de. O surdo: caminhos para sua educação. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2000.
PERLIN, Gladis; STROBEL, Karin. História cultural dos surdos: desafios contemporâneos. Revista de Educação Especial, Santa Maria, v. 27, n. 50, p. 621-632, set./dez. 2014.
QUADROS, Ronice Müller de; KARNOPP, Lodenir Becker. Língua de sinais brasileira: estudos linguísticos. Porto Alegre: Artmed, 2004.
ROUSSEAU, Jean-Jacques. Ensaio sobre a origem das línguas. Tradução de Bento Prado Júnior. São Paulo: UNESP, 2003.
SILVA, Vilma Maria da. A educação de surdos no Brasil e o bilinguismo. Revista Espaço, Rio de Janeiro, n. 25, p. 11-20, 2006.
SKLIAR, Carlos (Org.). A surdez: um olhar sobre a diferença. Porto Alegre: Mediação, 1997.
UVA. Libras. IN: 2 Libras e suas estruturas. UVA, 2026.
UVA. Libras. IN 4: Prática introdutória em LIBRAS. UVA, 2026.

Mais conteúdos dessa disciplina