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Autores: Prof. Mauricio Narciso da Silva Profa. Sirlei Pitteri Colaboradoras: Profa. Cristiane Nagai Profa. Christiane Mazur Doi Ciências Contábeis Interdisciplinar Professores conteudistas: Mauricio Narciso da Silva / Sirlei Pitteri Mauricio Narciso da Silva Possui mestrado em Ciências Contábeis e Atuárias pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC‑SP), graduação em Ciências Contábeis e pós‑graduação lato sensu com MBA em Controladoria pela Universidade Nove de Julho (Uninove), e MBA em Gestão de Riscos Fiscais pela Business School São Paulo (BSSP). Atua na área contábil, tributária e trabalhista há 27 anos. É coordenador auxiliar do curso de Ciências Contábeis da Universidade Paulista (UNIP) desde 2012 e professor dessa instituição de ensino desde 2008, lecionando diversas disciplinas para os cursos presenciais de Ciências Contábeis e Administração. Atua na mesma instituição como professor titular, na modalidade EAD, das disciplinas Contabilidade Tributária e Planejamento Contábil Tributário para o curso de Ciências Contábeis e da disciplina Contabilidade para os cursos de gestão de curta duração. Sirlei Pitteri Possui pós‑doutorado em Economia das Organizações e graduação em Física, ambos pela Universidade de São Paulo (USP), e mestrado e doutorado em Administração pela Universidade de São Caetano do Sul (USCS). Tem experiência profissional como executiva do Citibank na área de gerência de projetos de TI para tesouraria, mercado de capitais e negócios internacionais. É professora e pesquisadora em administração, com ênfase em relações entre organizações, inovação em gestão, gestão das informações, governança corporativa e finanças corporativas. © Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou quaisquer meios (eletrônico, incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem permissão escrita da Universidade Paulista. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) S586c Silva, Mauricio Narciso da. Ciências Contábeis Interdisciplinar / Mauricio Narciso da Silva, Sirlei Pitteri. – São Paulo: Editora Sol, 2026. 116 p., il. Nota: este volume está publicado nos Cadernos de Estudos e Pesquisas da UNIP, Série Didática, ISSN 1517‑9230. 1. Governança corporativa 2. SPED. 3. Escrituração. I. Silva, Mauricio Narciso da. II. Pitteri, Sirlei. III. Título. CDU 657 U524.05 – 26 Prof. João Carlos Di Genio Fundador Profa. Sandra Rejane Gomes Miessa Reitora Profa. Dra. Marilia Ancona Lopez Vice-Reitora de Graduação Profa. Dra. Marina Ancona Lopez Soligo Vice-Reitora de Pós-Graduação e Pesquisa Profa. Dra. Claudia Meucci Andreatini Vice-Reitora de Administração e Finanças Profa. M. Marisa Regina Paixão Vice-Reitora de Extensão Prof. Fábio Romeu de Carvalho Vice-Reitor de Planejamento Prof. Marcus Vinícius Mathias Vice-Reitor das Unidades Universitárias Profa. Silvia Renata Gomes Miessa Vice-Reitora de Recursos Humanos e de Pessoal Profa. Laura Ancona Lee Vice-Reitora de Relações Internacionais Profa. Melânia Dalla Torre Vice-Reitora de Assuntos da Comunidade Universitária UNIP EaD Profa. Elisabete Brihy Profa. M. Isabel Cristina Satie Yoshida Tonetto Material Didático Comissão editorial: Profa. Dra. Christiane Mazur Doi Profa. Dra. Ronilda Ribeiro Apoio: Profa. Cláudia Regina Baptista Profa. M. Deise Alcantara Carreiro Profa. Ana Paula Tôrres de Novaes Menezes Projeto gráfico: Revisão: Prof. Alexandre Ponzetto Fernanda Rodrigues Fernanda Felix Sumário Ciências Contábeis Interdisciplinar APRESENTAÇÃO ......................................................................................................................................................7 INTRODUÇÃO ...........................................................................................................................................................8 Unidade I 1 O QUE É GOVERNANÇA CORPORATIVA?................................................................................................ 12 1.1 Valor e propósito das empresas ...................................................................................................... 13 1.2 Da sociedade limitada para a sociedade por ações ................................................................ 16 1.3 Separação entre a propriedade e a gestão ................................................................................ 18 1.3.1 O surgimento de empresas gigantes .............................................................................................. 20 1.3.2 As bolsas de valores e a dispersão de capital no mundo........................................................ 22 1.3.3 Surgimento de proprietários passivos ............................................................................................ 22 1.4 Conflitos de agência e desalinhamentos do macroambiente ............................................ 24 1.4.1 Conflitos entre proprietários e gestores ........................................................................................ 24 1.4.2 Conflitos entre acionistas majoritários e minoritários ............................................................ 25 1.4.3 Outros conflitos e outros desalinhamentos ................................................................................. 26 1.5 Valores fundamentais (compliance, accountability, disclosure e fairness)................... 27 2 PRINCÍPIOS E OBJETIVOS DA GOVERNANÇA CORPORATIVA ......................................................... 29 2.1 Objetivos da governança corporativa .......................................................................................... 31 2.2 Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC) ........................................................ 31 2.3 Fiscalização e monitoramento do desempenho ...................................................................... 35 2.4 Princípios da OCDE .............................................................................................................................. 37 2.5 Governança corporativa no Brasil e no mundo ....................................................................... 41 2.5.1 Shareholder‑oriented e stakeholder‑oriented ............................................................................ 42 2.5.2 Fatores de diferenciação da governança corporativa .............................................................. 43 2.5.3 Governança corporativa no Brasil ................................................................................................... 45 3 USO DOS CONTROLES INTERNOS DA GOVERNANÇA CORPORATIVA ........................................ 46 3.1 Lei Sarbanes‑Oxley ............................................................................................................................... 47 3.2 Lei das S/A comparada com a Lei SOX ......................................................................................... 50 3.3 Comissão de Valores Mobiliários (CVM) ...................................................................................... 52 3.4 Bolsa de Valores (B3) ........................................................................................................................... 56 3.4.1 Ações ordinárias e ações preferenciais .......................................................................................... 58 3.4.2 Mercado primário e mercado secundário ..................................................................................... 58 3.4.3 Segmentos da B3 para governança corporativa ........................................................................ 59 3.4.4 Índices representativos do mercado de ações ............................................................................ 60 3.4.5 Retorno e risco no mercado de ações ............................................................................................ 62 3.5 Falhas na governança corporativa ................................................................................................de cada parte interessada com a organização, motivada pelo senso de justiça, respeito, diversidade, inclusão, pluralismo e igualdade de direitos e oportunidades. Responsabilização Desempenhar suas funções com diligência, independência e com vistas à geração de valor sustentável no longo prazo, assumindo a responsabilidade pelas consequências de seus atos e omissões. Além disso, prestar contas de sua atuação de modo claro, conciso, compreensível e tempestivo, cientes de que suas decisões podem não apenas responsabilizá‑los individualmente, como impactar a organização, suas partes interessadas e o meio ambiente. 35 CIÊNCIAS CONTÁBEIS INTERDISCIPLINAR Sustentabilidade Zelar pela viabilidade econômico‑financeira da organização, reduzir as externalidades negativas de seus negócios e operações, e aumentar as positivas, levando em consideração, no seu modelo de negócios, os diversos capitais (financeiro, manufaturado, intelectual, humano, social, natural, reputacional) no curto, médio e longo prazos. Nessa perspectiva, compreender que as organizações atuam em uma relação de interdependência com os ecossistemas social, econômico e ambiental, fortalecendo seu protagonismo e suas responsabilidades perante a sociedade (IBGC, 2023, p. 18‑19). Saiba mais O vídeo a seguir apresenta a sexta edição do Código Oficial das Melhores Práticas da Governança Corporativa do IBGC. CÓDIGO das Melhores Práticas da Governança Corporativa – 6ª edição. 2023. 1 vídeo (3 min). Publicado pelo canal IBGC Oficial. Disponível em: https://tinyurl.com/5639jswa. Acesso em: 9 set. 2025. 2.3 Fiscalização e monitoramento do desempenho O diagrama apresentado na figura a seguir aborda o tema fiscalização e monitoramento do desempenho na governança corporativa, destacando os agentes e a estrutura organizacional envolvidos no processo. Importante 1) A figura demonstra a estrutura e os agentes de governança que são tratados ao longo do código 2) Os princípios e as boas práticas de governança corporativa devem alcançar toda a organização Conselho físcal Sócios Diretor- presidente Auditoria independente Comitê de auditoria1 Comitês de assessoramento ao conselho de administração Conselho de administração DiretoriasAuditoria interna Área de governança2 Gerenciamento de riscos Controles internos Compliance Essas áreas devem ter acesso direto ao conselho de administração da organização 1 O comitê de auditoria, quando existente, deve supervisionar a atuação da auditoria interna e da auditoria independente 2 Área preferencialmente sob a liderança de um profissional com a função de governance officer Figura 11 – Estrutura organizacional da governança corporativa Fonte: IBGC (2023, p. 20). 36 Unidade I A governança corporativa se fundamenta em uma estrutura de agentes e mecanismos para assegurar a transparência, a prestação de contas e o alinhamento entre os interesses da organização e de seus stakeholders. O diagrama apresentado evidencia os principais elementos responsáveis pelo monitoramento e fiscalização dentro dessa estrutura: • Sócios: representam o interesse dos proprietários e têm papel fundamental na eleição do conselho de administração e no acompanhamento da governança. • Conselho de administração: órgão colegiado responsável por definir as diretrizes estratégicas da organização e supervisionar a atuação da administração. • Conselho fiscal: atua de forma independente, revisando a conformidade das práticas financeiras e auxiliando na fiscalização das operações. • Auditoria independente: avalia as demonstrações financeiras da organização de forma imparcial, garantindo que estejam de acordo com as normas contábeis. • Comitê de auditoria: supervisiona tanto a auditoria interna quanto a independente, sendo crucial para a mitigação de riscos e a integridade da gestão financeira. • Auditoria interna: examina os processos internos, avaliando a eficácia dos controles e a aderência às políticas corporativas. • Área de governança: preferencialmente liderada por um governance officer, promove boas práticas e coordena iniciativas relacionadas à governança. • Diretor-presidente e diretorias: executam as estratégias definidas pelo conselho de administração e asseguram a implementação dos controles internos. • Gerenciamento de riscos, controles internos e compliance: essas áreas garantem a identificação, mitigação e monitoramento dos riscos corporativos, além de assegurar a conformidade com regulamentações e normas internas. Saiba mais O sistema de fiscalização e controle em governança corporativa é o tema do vídeo indicado a seguir. SISTEMAS de fiscalização e controle em governança. 2020. 1 vídeo (4 min). Publicado pelo canal Governança já ‑ Adriana Solé. Disponível em: https://tinyurl.com/mvynd25h. Acesso em: 9 set. 2025. 37 CIÊNCIAS CONTÁBEIS INTERDISCIPLINAR 2.4 Princípios da OCDE A OCDE é uma organização internacional criada em 1961, que promove políticas públicas para melhorar o bem‑estar econômico e social das pessoas ao redor do mundo. Surgiu em sucessão à Organização para a Cooperação Econômica Europeia (OCEE), que ajudou a administrar os fundos do Plano Marshall para reconstruir a Europa após a Segunda Guerra Mundial. Com sede em Paris, na França, reúne 38 países‑membros, incluindo algumas das economias mais avançadas do mundo, como EUA, Canadá, Reino Unido, França, Alemanha, fundadores da organização. Também conta com nações em desenvolvimento, com economias emergentes, entre seus membros. O Brasil atualmente não faz parte da OCDE, porém participa como convidado em muitos dos comitês, e está em processo de adesão. Entre os principais objetivos da OCDE, estão: • fomentar o crescimento econômico sustentável, incentivando políticas que gerem prosperidade a longo prazo aos países; • promover o emprego e melhorar a qualidade de vida das pessoas; • garantir a estabilidade financeira, por meio de políticas de redução de crises econômicas globais; • facilitar o comércio global, reduzindo barreiras comerciais e estimulando a economia global integrada; • apoiar o desenvolvimento sustentável, por meio de práticas sustentáveis que respeitem o meio ambiente. A OCDE atua fortemente em pesquisas e análises, produzindo relatórios, estudos e estatísticas em diversas áreas, como economia, educação, saúde, meio ambiente, ciência e tecnologia. Além disso, faz recomendações baseadas em evidências para governos em todos os países do mundo. Os princípios de governança corporativa da OCDE são um conjunto de diretrizes internacionais destinadas a orientar governos, empresas e reguladores sobre boas práticas de governança corporativa. Eles visam criar uma base sólida para empresas, proteger os direitos dos acionistas e partes interessadas, e garantir transparência e responsabilidade. Os princípios, atualizados em 2015, são amplamente reconhecidos como referência global. Os seis principais pilares são: • Garantia da base de um quadro eficaz de governança corporativa, estabelecendo que o ambiente de governança corporativa deve: — ser baseado em regras claras e transparentes; — estimular a eficiência econômica, o crescimento sustentável e a estabilidade dos mercados financeiros; — garantir a proteção dos direitos dos investidores, especialmente os minoritários; — evitar conflitos de interesse e promover a supervisão regulatória eficaz. 38 Unidade I • Os direitos dos acionistas devem ser protegidos, independentemente do tamanho de suas participações, por meio de um tratamento equitativo. Isso inclui: — participação em decisões importantes, como mudanças estatutárias e nomeação de conselheiros; — direito de votar em assembleias gerais e ser informado de maneira adequada sobre questões importantes; — tratamento igualitário para todos os acionistas, especialmente os minoritários; — transparência sobre transações com partes relacionadas (por exemplo, empresas do mesmo grupo ou controladores). • Reconhecimento do papel das partesinteressadas na governança corporativa, evidenciando a importância das partes interessadas (stakeholders), além dos acionistas, no sucesso a longo prazo das empresas: — incentiva empresas a respeitar os direitos legais dos stakeholders, como funcionários, credores e comunidades; — promove a cooperação entre as empresas e os stakeholders para criar valor e alcançar sustentabilidade; — exige que empresas adotem práticas responsáveis, como respeito aos direitos humanos e ao meio ambiente. • Transparência e divulgação são essenciais para que acionistas e partes interessadas tomem decisões informadas. Este princípio exige: — relatórios financeiros e não financeiros claros, precisos e acessíveis, auditados por auditores independentes; — divulgação de informações‑chave, como estrutura de propriedade, governança, políticas de remuneração e riscos materiais; — relatórios regulares sobre o desempenho da empresa e impactos sociais e ambientais. • O conselho de administração é órgão central na governança corporativa, e seus membros devem: — atuar no melhor interesse da empresa e de seus acionistas, com independência, ética e responsabilidade; — ter uma composição diversificada e qualificada para tomar decisões estratégicas e de supervisão; — monitorar e mitigar riscos que possam impactar o desempenho da empresa; — definir políticas de remuneração dos executivos e avaliar o desempenho da alta liderança. 39 CIÊNCIAS CONTÁBEIS INTERDISCIPLINAR • A governança corporativa deve promover mercados financeiros eficientes e transparentes, que: — facilitem o acesso ao capital para empresas; — reduzam os custos de transação e promovam a confiança dos investidores; — mantenham regras que permitam a concorrência justa entre empresas, prevenindo práticas monopolistas ou anticompetitivas. Os princípios da OCDE para governança corporativa são importantes como uma espécie de base reguladora global, ou seja, eles servem como referência para os governos e as organizações criarem leis e regulamentos sobre governança corporativa. Assim, melhoram a confiança dos investidores, tornando os mercados mais atrativos e eficientes e incentivam práticas que equilibram retorno financeiro e impactos sociais e ambientais. Os princípios são flexíveis para serem adaptados às diferentes estruturas jurídicas, culturais e econômicas de cada país. Muitas jurisdições, como o Brasil, alinham seus códigos locais de governança corporativa com esses princípios. O Código Brasileiro de Governança Corporativa do IBGC e as práticas do Novo Mercado da Bolsa de Valores (B3), por exemplo, são inspirados por esses padrões. Exemplo de aplicação Vamos imaginar a aplicação prática dos princípios de governança corporativa da OCDE em uma empresa fictícia chamada EcoTech S/A, uma companhia de capital aberto, que atua no setor de energia renovável. Figura 12 Disponível em: https://tinyurl.com/cnujs5en. Acesso em: 10 set. 2025. 40 Unidade I Vejamos como os seis princípios da OCDE podem ser integrados ao dia a dia da empresa. 1. Garantir a base de um quadro eficaz de governança corporativa A EcoTech adota um estatuto social atualizado, compatível com a legislação vigente, incluindo cláusulas claras sobre a estrutura de governança. Estabelece um código de ética seguido por todos os níveis da organização e adere às normas da CVM, garantindo estabilidade regulatória e transparência. 2. Proteger os direitos dos acionistas e promover tratamento equitativo Durante as assembleias gerais, todos os acionistas recebem informações claras sobre propostas de fusões ou aquisições, políticas de remuneração de executivos e distribuição de dividendos. Os acionistas minoritários têm direito a voto proporcional e acesso aos mesmos documentos e informações que os majoritários, garantindo tratamento justo. 3. Reconhecer o papel das partes interessadas na governança corporativa A empresa engaja regularmente as partes interessadas. Cria programas de participação nos lucros aos colaboradores e incentiva treinamentos contínuos. Apoia projetos sociais e ambientais promovidos por comunidades locais, como a instalação de painéis solares em escolas públicas próximas às plantas de energia. Implementa políticas para assegurar práticas éticas e sustentáveis na cadeia de suprimentos com os fornecedores. 4. Fomentar a divulgação e transparência A empresa publica relatórios anuais detalhados, como as demonstrações financeiras auditadas por uma empresa independente. Além disso, desenvolve processos de controle e indicadores de desempenho ambiental, como a redução de emissões de carbono alcançada no ano; divulga os riscos identificados, como a dependência de materiais raros para a produção de turbinas eólicas; e mantém uma seção em seu site dedicada a investidores, atualizada com todas as informações relevantes. 5. Definir as responsabilidades do conselho de administração O conselho de administração tem uma composição diversa, incluindo especialistas em sustentabilidade e tecnologia. O conselho realiza reuniões trimestrais para avaliar o desempenho da diretoria e aprovar decisões estratégicas, como a entrada em novos mercados. Acompanha as ações do comitê de auditoria, responsável por avaliar controles internos e relatórios financeiros. Define políticas de remuneração variável para executivos, vinculadas a metas financeiras, ambientais e sociais. 41 CIÊNCIAS CONTÁBEIS INTERDISCIPLINAR 6. Incentivar mercados de capital eficiente A empresa adota práticas do Novo Mercado (segmento da B3 com as mais altas exigências de governança corporativa no Brasil), como o tag along de 100% para proteção dos acionistas minoritários. Promove ações mercadológicas regulares com investidores, divulgando os resultados financeiros e estratégias para atrair capital estrangeiro. Contribui para a eficiência do mercado ao divulgar informações de maneira padronizada e em tempo hábil. O resultado da aplicação prática dos princípios de governança corporativa aumenta o valor mercadológico da empresa, pois promove a atração de investidores nacionais e internacionais e cresce, de forma sustentável, gerenciando riscos econômicos, sociais e ambientais. Com um conselho de administração preparado e controles internos robustos, a EcoTech enfrenta desafios econômicos e regulatórios com mais eficiência. 2.5 Governança corporativa no Brasil e no mundo Nesse momento, você deve ter muitas dúvidas sobre como adotar a governança corporativa em uma diversidade de situações. Na figura a seguir, encontram‑se algumas perguntas para refletirmos sobre as questões envolvidas na adoção de boas práticas. Como as empresas multinacionais conciliam diferentes práticas de governança ao operar em vários países? Como o estágio de desenvolvimento econômico de um país afeta suas práticas de governança corporativa? Em que medida os princípios globais de governança corporativa são aplicados ou adaptados a contextos locais? Como a relação entre governo e setor privado molda os sistemas de governança corporativa em diferentes países? Como a cultura e os valores de um país influenciam as práticas de governança corporativa? Quais desafios surgem ao tentar implementar um modelo único de governança corporativa em países com estruturas diferentes? Quais diferenças nas legislações impactam a forma como as empresas são governadas em diferentes países? Qual é o papel das tradições locais no desenvolvimento de práticas de governança? Figura 13 – Questões sobre diferenças de práticas da governança corporativa 42 Unidade I De fato, essas perguntas são muito pertinentes e adequadas para esse momento. E já se pode adiantar que não existe um modelo único e universal de governança corporativa. As diferenças resultam da diversidade cultural e institucional das nações, criando fatores de diferenciação da governança corporativa em cada país. Vamos começar fazendo uma distinção importante entre duas abordagens, que serão referência paraos fatores de diferenciação nos modelos de governança. Shareholder Stakeholder Figura 14 – Shareholder‑oriented versus stakeholder‑oriented 2.5.1 Shareholder‑oriented e stakeholder‑oriented As abordagens shareholder‑oriented (em tradução livre, “orientada aos acionistas”) e stakeholder‑oriented (“orientada aos públicos interessados”) refletem visões diferentes de como uma empresa deve ser gerida e quais interesses devem prevalecer na governança corporativa. Na abordagem shareholder‑oriented, o foco principal é atender os interesses dos acionistas, maximizando o retorno financeiro, como dividendos e valorização das ações. Desse modo, o conselho de administração e os executivos tomam decisões visando aumentar o valor para os acionistas, e a empresa é vista como instrumento de geração de riqueza para seus proprietários. Por sua vez, na abordagem stakeholder‑oriented, o foco principal é atender os interesses de todos os stakeholders, que incluem acionistas, funcionários, clientes, fornecedores, comunidades locais e o meio ambiente, promovendo sustentabilidade e responsabilidade social. Assim, as decisões empresariais consideram o impacto em uma gama mais ampla de grupos, não apenas nos acionistas, e a empresa é vista como parte integrante da sociedade, com responsabilidades que vão além do lucro. 43 CIÊNCIAS CONTÁBEIS INTERDISCIPLINAR O quadro 4 apresenta uma síntese das características de cada abordagem. Quadro 4 – Abordagens shareholder-oriented e stakeholder-oriented Shareholder-oriented Stakeholder-oriented Foco principal Acionistas Todos os stakeholders Objetivo central Aumento dos lucros Criação de valor equilibrado Horizonte temporal Curto prazo Longo prazo Responsabilidade social Secundária Central Exemplo geográfico EUA, Reino Unido Alemanha, Suécia, Japão Observação Enquanto a abordagem shareholder‑oriented é frequentemente associada à eficiência econômica, a stakeholder‑oriented busca alinhar os interesses da empresa aos da sociedade em geral. 2.5.2 Fatores de diferenciação da governança corporativa Existem nítidas diferenças entre os modelos de governança, uma vez que não existem modelos perfeitamente adequados às abordagens apresentadas. Na maior parte dos casos, essas diferenças estão associadas a fatores externos, que determinam as características internas de governança, como os listados a seguir. • Estrutura e propriedade: em mercados desenvolvidos como EUA, Reino Unido e Canadá, a propriedade é mais dispersa. Em mercados emergentes, como Brasil, Índia e China, predominam estruturas concentradas, como famílias, grupos ou governo. • Sistema jurídico legal: países com sistemas legais baseados no direito comum (common law), como EUA e Reino Unido, geralmente oferecem maior proteção aos acionistas minoritários. Países com direito civil (civil law), como Brasil, França e Alemanha, podem ter proteção menor e maior interferência estatal. • Fontes de financiamento das empresas: nos EUA e no Reino Unido, o mercado de capitais é uma importante fonte de financiamento, o que é conhecido como equity. Já em países como Alemanha e Japão, bancos e financiamentos privados desempenham papel predominante, o que é conhecido como debt. • Proteção aos acionistas minoritários: os acionistas minoritários são fortemente protegidos em mercados desenvolvidos em virtude da regulação robusta e do enforcement eficaz (expressão que está associada ao rigor da aplicação das leis). Nos mercados emergentes, os minoritários frequentemente enfrentam desafios relacionados a práticas de controle excessivo e abuso de poder. 44 Unidade I • Cultura empresarial: em países asiáticos, como Japão e Coreia do Sul, há forte ênfase no coletivismo e na lealdade corporativa. Já em países ocidentais, o foco tende a ser no desempenho financeiro e na geração de valor para os acionistas. • Composição e independência do conselho: nos EUA e no Reino Unido, conselhos de administração independentes são uma prática consolidada. Já em mercados emergentes, ainda é comum a presença de conselhos dominados por acionistas controladores ou familiares. • Transparência e divulgação de informações: países desenvolvidos exigem altos níveis de transparência, incluindo relatórios financeiros detalhados e divulgações sobre ESG. Em mercados emergentes, a transparência ainda é limitada, especialmente em empresas de capital fechado. • Participação de investidores institucionais: nos mercados desenvolvidos, investidores institucionais, como fundos de pensão e fundos de investimentos, desempenham papel ativo na governança. Nos mercados emergentes, essa influência está crescendo, mas ainda é limitada. • Influência do governo: em economias como China e Brasil, o governo é um ator significativo, seja como acionista de estatais ou por meio de regulação e subsídios. Em mercados desenvolvidos, o papel do governo geralmente é mais regulador do que participativo. • Abordagem ESG e sustentabilidade: nos EUA e na Europa, a governança está cada vez mais focada em ESG, com exigências claras para empresas atenderem critérios de sustentabilidade. Em países emergentes, as práticas ESG estão em ascensão, mas ainda enfrentam desafios de implementação. Esses fatores mostram que a governança corporativa não é universal, mas adaptada às características únicas de cada mercado. A globalização e iniciativas como os princípios da OCDE ajudam a alinhar as práticas, mas as diferenças ainda refletem o contexto local. Saiba mais Assista ao vídeo da especialista em governança corporativa Adriana Solé sobre os modelos de governança efetivamente praticados. MODELOS de Governança efetivamente praticados | Digital on Board, da HSM. 2020. 1 vídeo (8 min). Publicado pelo canal Governança já ‑ Adriana Solé. Disponível em: https://tinyurl.com/4mr8djf3. Acesso em: 9 set. 2025. 45 CIÊNCIAS CONTÁBEIS INTERDISCIPLINAR 2.5.3 Governança corporativa no Brasil A governança corporativa no país tem evoluído de forma significativa ao longo das últimas décadas, influenciada por reformas legais, desenvolvimento de mercado e adoção de boas práticas internacionais. No Brasil, os principais eventos associados à governança corporativa, praticamente inexistente até então, datam da década de 1970. Antes, o cenário era de um mercado de capitais muito restrito, em que as empresas dependiam majoritariamente de financiamento bancário ou estatal. A Lei das S/A (Lei n. 6.404/1976) foi um marco importante, introduzindo normas sobre transparência e proteção aos acionistas minoritários, ainda que de maneira limitada. As privatizações e a abertura ao mercado na década de 1990 expandiram o mercado de capitais e deram início à criação de novas estruturas empresariais. O Brasil começou a receber mais investimentos estrangeiros, e a demanda por práticas de governança alinhadas aos padrões internacionais cresceu. A consolidação de práticas de governança no Brasil ocorreu com a fundação do IBCA, em 1995 (posteriormente denominado IBGC), disseminando ações de boas práticas, tanto para empresas privadas quanto empresas públicas. As exigências da CVM e a criação do Novo Mercado pela B3, em 2000, configuraram um marco importante, estabelecendo regras diferenciadas para empresas listadas na bolsa, como maior transparência, dispersão acionária e direitos ampliados para acionistas minoritários. As reformas legais, como a Lei n. 10.303/2001, ampliaram os direitos dos acionistas minoritários. A partir de 2010, ocorreram inúmeros aperfeiçoamentos e desafios nas regulamentações da CVM, a fim de inibir os casos de corrupção e escândalos corporativos, como a Operação Lava Jato. Esses escândalos evidenciaram falhas na governança de empresas públicas e privadas. A Lei Anticorrupção (Lei n. 12.846/2013) reforçou a necessidade de compliance e integridade nas organizações, bem como os temas sustentabilidade, diversidade e ESG ganharam relevância nas práticas de governança. As principais características da governança corporativa no Brasilsão: • o modelo predominante é o de propriedade concentrada, com controle familiar ou de grupos específicos, contrastando com mercados mais dispersos, como os EUA; • empresas de capital aberto no Novo Mercado da B3 tendem a adotar práticas mais robustas, como conselhos de administração independentes; • a exigência de demonstrações financeiras auditadas e relatórios anuais detalhados está consolidada, especialmente para empresas listadas na bolsa; 46 Unidade I • a transparência é uma demanda crescente, especialmente em relação a práticas ambientais, sociais e de governança (ESG); • regras de tag along, que conferem segurança aos sócios minoritários em caso de venda do controle, são um avanço relevante; • a arbitragem para resolução de disputas entre acionistas tem sido uma prática comum promovida pela B3; • programas de compliance têm se tornado obrigatórios em grandes empresas, principalmente em setores regulados ou com contratos com o governo. A implementação de canais de denúncia e códigos de ética são comuns. Apesar dos avanços, práticas como nepotismo, influência excessiva dos controladores e falhas na fiscalização ainda são problemas a serem resolvidos. A adaptação à agenda ESG e a promoção da diversidade em conselhos de administração ainda estão em estágios iniciais. A governança corporativa no Brasil segue em evolução, especialmente com o fortalecimento de instituições e a maior exigência de transparência por parte de investidores e da sociedade. Saiba mais O vídeo indicado a seguir conta como foi realizada a implementação da governança corporativa na empresa Natura & Co. B3 CONVIDA Empresas | Natura &Co ‑ Episódio 1. 2021. 1 vídeo (4 min). Publicado pelo canal B3. Disponível em: https://tinyurl.com/bp8rvntz. Acesso em: 9 set. 2025. 3 USO DOS CONTROLES INTERNOS DA GOVERNANÇA CORPORATIVA A governança corporativa está intrinsecamente ligada ao cumprimento das legislações vigentes, atuando como um pilar fundamental para a construção de empresas éticas, transparentes e comprometidas com a integridade. Ressalta‑se, porém, que as recomendações de boas práticas do IBGC e da OCDE são não suficientes para desenvolver uma cultura corporativa adequada às boas práticas de governança corporativa. Em um cenário global de negócios cada vez mais dinâmico e regulado, entender e implementar as normas jurídicas se torna indispensável para diminuir riscos, garantir a conformidade e promover a confiança dos investidores e demais stakeholders. 47 CIÊNCIAS CONTÁBEIS INTERDISCIPLINAR Como visto anteriormente, o quarto e último marco histórico da governança corporativa se relaciona à lei estadunidense Sarbanes‑Oxley (Lei SOX), instituída em 2002. Essa lei consolidou a governança corporativa, por ter criado uma legislação específica para inibir fraudes na gestão de empresas listadas em bolsas de valores. Este tópico aborda a relevância das leis que moldam a prática da governança corporativa, incluindo os marcos regulatórios locais e internacionais, destacando como elas influenciam a transparência, a equidade, a prestação de contas e a responsabilidade social corporativa. 3.1 Lei Sarbanes‑Oxley Em um ambiente econômico, fragilizado por diversos escândalos financeiros coorporativos nos EUA, surgiu a Lei Sarbanes‑Oxley (SOX), elaborada por dois congressistas: o senador Paul Sarbanes e o deputado republicano Michael Oxley. Essa lei foi sancionada em 30 de julho de 2002 pelo presidente estadunidense, George W. Bush. O processo teve início com a descoberta de fraudes contábeis na empresa Enron, em 2001, uma das organizações mais conceituadas nos EUA. A constatação de práticas de manipulação, em várias outras empresas, inclusive de outros países, resultou em uma crise de confiança no mercado de capitais, em níveis inéditos, desde a quebra da Bolsa de Nova York, em 1929. O mercado de capitais sempre foi a base fundamental da economia estadunidense, conhecido por uma rígida estrutura regulatória e por uma agência que por muito tempo foi admirada, considerada uma inspiração para as agências regulatórias no restante do mundo. A Securities and Exchange Commission (SEC) é o órgão criado em 1934 nos EUA com o objetivo de proteger investidores e manter a integridade dos mercados de valores mobiliários. Figura 15 – Logo da Securities and Exchange Commission (SEC) Disponível em: https://tinyurl.com/9rjp7kdn. Acesso em: 7 out. 2025. 48 Unidade I Assim, fica a cargo da SEC promover a divulgação de informações relevantes, fazer cumprir as leis que regem os mercados, e proteger os investidores que interagem neles. A SEC é o órgão regulador do mercado de capitais dos EUA, equivalente à CVM no Brasil. A SEC teve sua estrutura abalada quando gigantes da área de auditoria mostraram sua ineficácia. A reação do mercado financeiro foi, então, imediata e as bolsas de valores despencaram no mundo inteiro. O quadro a seguir apresenta as principais empresas de auditoria e o envolvimento em fraudes por parte de seus clientes. Quadro 5 – Empresas de auditoria envolvidas em escândalos de empresas clientes Auditoria Evento Consequência Artur Andersen Diretamente envolvida no escândalo da Enron. Acusada de destruir documentos importantes relacionados à auditoria da empresa, prejudicando a investigação Perdeu sua licença de auditoria nos EUA e deixou de existir em 2002 KPMG Foi criticada por sua atuação na auditoria da empresa Xerox, acusada, em 2002, de aumentar seus lucros em aproximadamente US$ 6 bilhões ao longo de vários anos Embora tenha sobrevivido ao escândalo, a reputação da KPMG foi abalada PwC Foi associada ao escândalo da Satyam, conhecida como a Enron na Índia, em 2009, quando foi acusada de falhas na auditoria que permitiram a manipulação financeira Sua reputação foi afetada, porém a PwC implementou reformas para recuperar sua credibilidade Ernst & Young (EY) Foi a auditoria da HealthSouth, acusada de fraudes financeiras, em 2000. Em 2008, foi a auditoria do Lehman Brothers, acusado de práticas contábeis duvidosas Sua reputação foi abalada por não identificar fraudes e práticas contábeis duvidosas nessas instituições Deloitte Foi envolvida em casos como o da Adelphia Communications, acusada de não identificar irregularidades contábeis que levaram a empresa ao colapso Apesar disso, a Deloitte conseguiu preservar sua posição como uma das maiores firmas globais de auditoria Adaptado de: Gara (2015). Os escândalos envolvendo essas empresas expuseram conflitos de interesses e falhas na supervisão regulatória. Muitas vezes, as empresas de auditoria tinham conhecimento das irregularidades, porém, se dessem transparência, poderiam perder seus vultosos contratos. Além disso, as empresas de auditoria tinham contratos de consultoria com as mesmas empresas que auditavam. Os analistas financeiros, por sua vez, também tinham conhecimento das irregularidades, porém, poderiam comprometer suas rendas variáveis se não oferecessem as ações aos seus clientes. Antes da Lei SOX, não havia controles rigorosos para assegurar a qualidade da auditoria e a separação entre auditoria e consultoria. Hoje, com regulamentações mais rígidas, como a Lei Sarbanes‑Oxley (SOX), essas firmas adotaram processos mais rigorosos, porém os escândalos continuam sendo um marco que moldou o setor de auditoria. No Brasil, a consequência foi uma forte evasão dos investimentos estrangeiros, pois estes últimos buscavam oportunidades de investimentos mais seguras. A fim de reverter essa situação, as autoridades de vários países introduziram uma série de medidas regulatórias e destacaram a importância dos EUA em aprovar uma legislação que resgatou a confiança e a credibilidade do mercado. 49 CIÊNCIAS CONTÁBEIS INTERDISCIPLINAR O objetivo da Lei SOX, portanto, foi restaurar o equilíbrio dos mercados por meio de mecanismos que assegurem a responsabilidade da alta administração de uma empresa sobre a confiabilidade da informação por ela fornecida (Rossetti; Andrade,2014). Lembrete A Lei SOX se aplica a todas as empresas, sejam elas americanas ou estrangeiras, que tenham ações registradas na Securities and Exchange Commission (SEC). A Lei SOX é dividida em 11 capítulos, com um número variável de seções cada, totalizando 69 artigos. Essa lei obriga as empresas a reestruturarem processos para aumentar os controles, a segurança e a transparência na condução dos negócios, na administração financeira, nas escriturações contábeis e na gestão e divulgação das informações. Ela prevê a criação de mecanismos de auditoria e segurança confiáveis, definindo regras para a criação de comitês encarregados de supervisionar suas atividades e operações, formados em boa parte por membros independentes. Desse modo, torna os diretores executivos e diretores financeiros explicitamente responsáveis por estabelecer e monitorar a eficácia dos controles internos em relação aos relatórios financeiros e à divulgação de informações. As empresas de auditoria e os advogados contratados ganham maior independência, mas também aumenta muito o grau de responsabilidade sobre seus atos (Marciano, 2015). Quadro 6 – Capítulos da Lei Sarbanes‑Oxley Capítulo I Criação do Órgão de Supervisão do Trabalho dos Auditores Independentes Capítulo II Independência do Auditor Capítulo III Responsabilidade corporativa Capítulo IV Aumento do nível de divulgação de informações financeiras Capítulo V Conflito de interesses de analistas Capítulo VI Comissão de recursos e autoridade Capítulo VII Estudos e relatórios Capítulo VIII Prestação de contas das empresas e fraudes criminais Capítulo IX Aumento das penalidades para crimes de “colarinho branco” Capítulo X Restituição de impostos corporativos Capítulo XI Fraudes corporativas e prestação de contas Fonte: Marciano (2015, p. 17). 50 Unidade I Saiba mais Os vídeos indicados a seguir foram produzidos pelo canal Controles Internos – SOX (CSI), fundado e administrado pela contadora tributarista Cilene Silva. A proposta é alcançar estudantes e profissionais de controles internos com objetivo de fornecer uma base de informações que agreguem e aperfeiçoem a iniciativa da gestão na aplicação de seus processos internos de controles. LEI Sarbanes‑Oxley: SOX – Parte 1. 2020. 1 vídeo (5 min). Publicado pelo canal Controles Internos – SOX. Disponível em: https://tinyurl.com/5n8k77dp. Acesso em: 9 set. 2025. LEI Sarbanes‑Oxley: SOX – Parte 2. 2020. 1 vídeo (5 min). Publicado pelo canal Controles Internos – SOX. Disponível em: https://tinyurl.com/msckdw7s. Acesso em: 9 set. 2025. LEI Sarbanes‑Oxley: SOX – Parte 3. 2020. 1 vídeo (6 min). Publicado pelo canal Controles Internos – SOX. Disponível em: https://tinyurl.com/49scnvx8. Acesso em: 9 set. 2025. 3.2 Lei das S/A comparada com a Lei SOX No Brasil, as normas que regem a auditoria, bem como a responsabilidade dos administradores referente às informações apresentadas nos relatórios financeiros das empresas e medidas que visam à punição em casos de fraude, apresentam‑se dispersas na legislação brasileira, diferentemente do que ocorre nos EUA, no qual existe uma lei específica para esses assuntos. Conclui‑se, assim, que a SOX é mais abrangente e rígida do que a legislação brasileira. Portanto, os indícios de ocorrências de ações dolosas no Brasil por falta de uma regulamentação específica são nitidamente maiores do que nos EUA. O mercado de capitais, composto por bolsas de valores, sociedades corretoras e outras instituições financeiras autorizadas, desempenha papel relevante no desenvolvimento econômico de um país. O Brasil tem se mostrado preocupado com o desenvolvimento desse mercado e, por isso, é possível identificar algumas normas que objetivam assegurar um ambiente transparente e legal, como a aprovação das Leis n. 11.638/2007 e 11.941/2009. Ambas introduziram novos conceitos, métodos e critérios contábeis e fiscais, com o fim de harmonizar as normas contábeis presentes no Brasil aos padrões internacionais de contabilidade, garantindo, assim a transparência internacional de regras e informações contábeis a serem observadas por todas as companhias abertas e pelas empresas de grande porte. Outros exemplos que ilustram esse desenvolvimento na legislação são as normas emitidas pelo Comitê de Pronunciamentos Contábeis (CPC). 51 CIÊNCIAS CONTÁBEIS INTERDISCIPLINAR Na regulamentação de mercados financeiros e de capitais do Brasil, destacam‑se como principais responsáveis os seguintes órgãos: Conselho Monetário Nacional (CMN), Banco Central do Brasil (BCB) e Conselho de Valores Mobiliários (CVM); este último possui acordos com autoridades regulatórias de outros mercados, tais como a SEC, nos EUA. A medida mais recente foi a Lei das Estatais (Lei n. 13.303/2016), que reforça a governança e o controle nas empresas públicas, cujo objetivo é um maior alinhamento com os padrões internacionais. Mesmo com a presença de leis e órgãos que visam à proteção do mercado no geral, o Brasil, assim como outros países, também sofreu reflexos após o colapso no mercado financeiro causado pela ocorrência das fraudes nas empresas estadunidenses, que culminaram em indagações sobre procedimentos de controle e de divulgação de informações contábeis. Vale ressaltar que, após a promulgação da Lei SOX, ainda surgiram e surgirão leis que complementem essa relação entre Brasil, países do exterior e organizações, tais como as leis de 2007, 2009 e 2016 citadas. Observa‑se essa necessidade de criar e complementar normas, em razão do dinamismo do mercado financeiro. Esses acontecimentos demonstram que as empresas sempre deverão estar preparadas para se adequar às exigências do meio em que atuam (Marciano, 2015). Observação Quando a Lei Sarbanes‑Oxley foi criada, empresas brasileiras com ações negociadas no mercado de capitais dos EUA tiveram de se adequar às novas normas estabelecidas por essa lei. Assim, as empresas listadas na Bolsa de Valores dos EUA aderiram à Lei SOX, o que trouxe custos operacionais adicionais para as empresas, mas também aumentou a credibilidade. A seguir, um quadro comparativo entre a Lei SOX e a Lei das S/A apresenta as diferenças e semelhanças mais significativas entre elas. Quadro 7 – Comparativo entre a Lei SOX e a Lei das S/A Lei SOX (EUA) Lei das S/A (Brasil) Objetivo principal Reforçar transparência e confiabilidade das informações financeiras Regular a administração e a fiscalização das S/A Abrangência Empresas listadas que negociam ações nos EUA Empresas brasileiras de capital aberto e fechado Controle interno Foco na auditoria de controles internos (Seção 404) Exigência de autoria externa, mas sem ênfase específica em controles internos Responsabilidade dos executivos Diretores executivos e diretores financeiros devem certificar a veracidade das demonstrações financeiras Responsabilidade solidária dos administradores Sanções Penalidades severas, incluindo prisão Penalidades administrativas e civis 52 Unidade I Em síntese, podem‑se destacar os pontos fortes e os desafios de cada uma: • Pontos fortes da SOX: foco na auditoria interna detalhada e nas responsabilidades dos executivos. • Pontos fortes da Lei das S/A: alinhamento com a realidade brasileira e proteção a investidores minoritários. • Desafios no Brasil: falta de um equivalente à Seção 404 da SOX, tornando a auditoria de controles internos menos rigorosa. • Adaptação global: a influência da SOX levou a um aumento nas exigências de governança global, impactando o Brasil via CVM e o Novo Mercado da B3. Conclui‑se, portanto, que uma lei por si só não é suficiente para extinguir as fraudes no mercado, mas colabora para um ambiente mais seguro. 3.3 Comissão de Valores Mobiliários (CVM) A CVM é o órgão regulador do mercado de capitais no Brasil, responsável por garantir a transparência, a eficiência e a proteção dos investidores. Figura 16 – Logo da Comissão de Valores Mobiliários Disponível em: https://tinyurl.com/53kn48y3. Acesso em: 7 out. 2025. Encontram‑seelencadas, a seguir, as principais funções da CVM. Fiscalização e regulamentação A CVM supervisiona o funcionamento do mercado de capitais, garantindo que empresas, investidores e intermediários sigam as regras estabelecidas. A regulamentação ocorre por meio da emissão de normas sobre a oferta pública de ações, debêntures, cotas de fundos de investimento e outros valores mobiliários. A fiscalização ocorre por meio de monitoramento das operações e informações divulgadas ao mercado para evitar irregularidades, como manipulação de preços e uso indevido de informações privilegiadas, prática conhecida como insider trading: se uma empresa tenta vender ações sem divulgar informações corretas ao público, a CVM pode intervir e suspender a oferta. 53 CIÊNCIAS CONTÁBEIS INTERDISCIPLINAR Saiba mais Acesse a reportagem no link a seguir sobre a condenação do empresário Eike Batista por crimes no mercado financeiro. GAIER, R. V. Eike é condenado a quase 12 anos por insider trading e manipulação de mercado. UOL, 12 fev. 2021. Disponível em: https://tinyurl.com/4bz587be. Acesso em: 15 set. 2025. Proteção dos investidores O principal objetivo da CVM é garantir um ambiente seguro e transparente para os investidores. A CVM evita fraudes, investigando empresas que divulgam informações enganosas ou distorcidas; impede a manipulação de mercado, por meio de acompanhamento de oscilações suspeitas no preço de ações e outros ativos e garante transparência, exigindo que empresas listadas na bolsa divulguem seus balanços financeiros, contratos relevantes e riscos de operação. Se um grupo de investidores tenta inflacionar artificialmente o preço de uma ação para lucrar, a CVM pode investigar e punir os envolvidos. Esse tipo de manipulação de mercado ocorreu em várias ocasiões ao redor do mundo, incluindo no Brasil. Saiba mais Veja a reportagem a seguir sobre a multa aplicada a um executivo por manipulação de mercado. ANDRADE, J. CVM multa ex‑diretor do IRB em R$ 20 mi por manipulação de mercado. E‑Investidor, 20 dez. 2024. Disponível em: https://tinyurl.com/27d5z2tj. Acesso em: 15 set. 2025. Autorização e supervisão de participantes A CVM regula e supervisiona diversas entidades que atuam no mercado de capitais. Corretoras e distribuidoras de títulos e valores mobiliários devem seguir normas de transparência e boas práticas na negociação de ativos. Por sua vez, as gestoras de fundos precisam prestar contas aos investidores e atuar dentro das diretrizes da CVM. Do mesmo modo, os auditores independentes devem garantir que as demonstrações financeiras das empresas estejam corretas. 54 Unidade I Por fim, empresas listadas na bolsa precisam divulgar seus resultados e informações relevantes ao mercado. Se uma corretora de valores engana seus clientes sobre os riscos de um investimento, a CVM pode aplicar sanções e até cassar sua licença. Existem inúmeros casos em que a CVM aplicou sanções a corretoras de valores que não informaram adequadamente seus clientes sobre os riscos de investimentos. Saiba mais O link indicado a seguir traz uma notícia sobre um processo de fraude julgado pela CVM em 2022. CVM retoma julgamento de suposta prática de operação fraudulenta no mercado de valores mobiliários. Comissão de Valores Mobiliários, 8 nov. 2022. Disponível em: https://tinyurl.com/5n79uy6f. Acesso em: 15 set. 2025. Educação financeira A CVM incentiva a formação de investidores mais informados para reduzir riscos e aumentar a confiança no mercado. Ela disponibiliza inúmeros programas educacionais, realiza cursos e campanhas para ensinar sobre investimentos e mercado de capitais. Saiba mais O programa “Como investir” da Comissão de Valores Mobiliários é uma iniciativa dedicada a promover a educação financeira e o conhecimento sobre o mercado de capitais entre investidores e o público em geral. Embora o site específico (comoinvestir.cvm.gov.br) não esteja mais ativo, a CVM continua oferecendo uma variedade de ferramentas, como cursos, publicações e educação financeira, por meio de seu portal oficial. EDUCAÇÃO. Comissão de Valores Mobiliários, [s.d.]. Disponível em: https://tinyurl.com/y6b5h7a3. Acesso em: 9 set. 2025. Investigação e penalização Quando há suspeitas de irregularidades, a CVM pode abrir investigações e aplicar punições como advertências, multas, suspensões, inabilitação de profissionais e até o cancelamento do registro de empresas. As irregularidades investigadas envolvem fraudes contábeis, uso de informações privilegiadas, pirâmides financeiras, entre outras infrações previstas na legislação. 55 CIÊNCIAS CONTÁBEIS INTERDISCIPLINAR Exemplo de aplicação Petrobrás e a Operação Lava Jato A Comissão de Valores Mobiliários desempenhou um papel significativo ao investigar possíveis omissões de informações pela Petrobras que prejudicaram seus acionistas, especialmente no contexto da Operação Lava Jato, que revelou um esquema de corrupção que resultou em prejuízos significativos para a estatal e seus acionistas. Diante das suspeitas, a CVM iniciou diversas investigações para apurar se a companhia e seus executivos cumpriram com suas obrigações de transparência e governança corporativa. Em 2015, a CVM instaurou o Processo Administrativo n. RJ 2015/3346 para analisar os procedimentos adotados pela Petrobras ao reconhecer, nas demonstrações financeiras de 31/12/2014, perdas expressivas decorrentes das irregularidades descobertas pela Lava Jato. A investigação buscou verificar se houve falhas na divulgação de informações relevantes aos acionistas e ao mercado. Vários executivos da Petrobras foram alvo de processos na CVM. Por exemplo, Nestor Cerveró, ex‑diretor internacional da Petrobras, foi acusado de omitir informações relevantes em apresentações à diretoria executiva e ao conselho de administração, resultando em perdas financeiras substanciais para a estatal. A Lei das S/A (Lei n. 6.404/1976) estabelece que acionistas têm direito a informações completas e precisas sobre a companhia. O descumprimento desse dever de transparência pode levar à responsabilização da empresa e de seus administradores. Nesse sentido, ao identificar possíveis omissões de informações que poderiam prejudicar os acionistas, a CVM tem a prerrogativa de instaurar processos administrativos sancionadores. Esses processos podem resultar em penalidades para a companhia e seus executivos, incluindo multas e outras sanções administrativas. No caso da Petrobrás, portanto, a CVM atuou de forma diligente ao investigar a empresa no contexto da Lava Jato, buscando assegurar a transparência e a proteção dos direitos dos acionistas. A CVM adota processos estruturados para gerenciar atualizações relacionadas ao seu corpo de pessoal e à emissão de súmulas. Ela também mantém transparência nas movimentações de sua força de trabalho por meio do Boletim de Pessoal. Essas informações são atualizadas regularmente e estão disponíveis no portal da CVM, garantindo clareza e acesso público aos dados referentes ao quadro de pessoal. Embora a CVM não possua um procedimento específico para a emissão de súmulas, é relevante mencionar o papel do Conselho de Recursos do Sistema Financeiro Nacional (CRSFN). Também conhecido como “Conselhinho”, ele é responsável por julgar, em última instância administrativa, recursos contra sanções aplicadas por entidades como o BCB e a própria CVM. Para a edição de súmulas, é necessário cumprir os requisitos estabelecidos no regimento interno da CVM, conforme anexado à Portaria MF n. 68/2016. A criação de súmulas pelo CRSFN visa consolidar entendimentos sobre matérias recorrentes, proporcionando maior segurança jurídica e uniformidade nas decisões administrativas. Esse processo envolve um grupo de estudo composto por conselheiros e procuradores, que analisam precedentes e propõem enunciados para aprovação. 56 Unidade I Em síntese, a gestão de atualizações de pessoal na CVM é conduzida com transparência por meio do Boletim de Pessoal, enquantoa emissão de súmulas é uma atribuição do CRSFN, seguindo procedimentos regimentais específicos para assegurar consistência nas interpretações e decisões no âmbito do sistema financeiro nacional. Saiba mais Conheça a CVM no vídeo indicado a seguir. CVM e o Mercado de Capitais Brasileiro. 2024. 1 vídeo (2 min). Publicado pelo canal CVM – Comissão de Valores Mobiliários. Disponível em: https://tinyurl.com/427ya68n. Acesso em: 9 set. 2025. 3.4 Bolsa de Valores (B3) A B3 (Brasil, Bolsa, Balcão) é a principal bolsa de valores do Brasil e uma das maiores do mundo em valor de mercado. Seu papel é facilitar a negociação de ativos financeiros e garantir segurança e eficiência nas operações. Figura 17 – Logo da Bolsa de Valores Brasil, Bolsa, Balcão (B3) Disponível em: https://tinyurl.com/mwbyuv34. Acesso em: 7 out. 2025. Após uma empresa vender suas ações em uma oferta pública inicial (IPO), é importante que exista um mercado secundário onde os investidores que adquiriram essas ações possam revendê‑las quando acharem apropriado. Buscando garantir a liquidez dos investimentos, foram criados os ambientes de bolsas de valores e mercados de balcão. As bolsas de valores são ambientes organizados para negociação de títulos e valores mobiliários. Sua principal função é proporcionar um ambiente mais líquido, transparente e seguro para a realização de negócios, contribuindo assim para a eficiência do mercado de capitais. 57 CIÊNCIAS CONTÁBEIS INTERDISCIPLINAR Elas utilizam sistemas eletrônicos de negociação para registro das ordens de compra e venda. No Brasil, atualmente, as bolsas são organizadas sob a forma de sociedade por ações (S/A), regulada e fiscalizada pela CVM. As bolsas têm autonomia para exercer seus poderes de autorregulamentação sobre as corretoras de valores que nela operam. Todas as corretoras são registradas no BCB e na CVM. Somente por meio das corretoras e distribuidoras, os investidores têm acesso aos sistemas de negociação para efetuarem suas transações de compra e venda. As empresas que têm ações negociadas nas bolsas são chamadas de empresas listadas. Essas empresas devem atender aos requisitos estabelecidos pela Lei das S/A e às instruções da CVM, além de obedecer a uma série de normas e regras estabelecidas pelas próprias bolsas. No Brasil, embora a história das bolsas de valores no Brasil tenha iniciado há mais de 200 anos, ocorreram muitas mudanças e fusões nas instituições que operavam no mercado de capitais e, em 2017, a Brasil, Bolsa, Balcão (B3) se consolidou como a única bolsa de valores brasileira. A primeira fusão ocorreu em 2008, entre a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) e a Bolsa de Mercadorias e Futuros (BMF), depois de uma reorganização societária que transformou a Bovespa em sociedade por ações, derivando a BMF&Bovespa. A segunda fusão ocorreu em 2017, com a fusão da BMF&Bovespa e a Central de Custódia e Liquidação Financeira de Títulos Privados (Cetip), formando a B3. Saiba mais No vídeo comemorativo aos 130 anos da B3, conheça a história do surgimento da Bolsa de Valores no Brasil. HISTÓRIA da Bolsa de Valores no Brasil: Em 2020 a B3/ antiga Bovespa completou 130 anos. 2020. 1 vídeo (14 min). Publicado pelo canal Eu Quero Investir | Juliano Custodio. Disponível em: https://tinyurl.com/2ztj2xtz. Acesso em: 9 set. 2025. No Brasil, a bolsa de valores é adequada para as empresas de grande porte, pelas exigências administrativas, jurídicas e legais que elas precisam atender. Além disso, existem muitos custos para as empresas se prepararem para operar seus títulos na bolsa de valores. Já o mercado de balcão pode ser a solução ideal para empresas de menor porte, que podem facilmente negociar suas ações sem a necessidade de atender a todas as exigências necessárias para a bolsa de valores. 58 Unidade I Saiba mais Conheça melhor o mercado de balcão no vídeo indicado a seguir. COMO funciona o Mercado de Balcão: Jornada do Investidor ‑ Aula 32. 2020. 1 vídeo (11 min). Publicado pelo canal Eu Quero Investir | Juliano Custodio. Disponível em: https://tinyurl.com/4hwwermp. Acesso em: 9 set. 2025. 3.4.1 Ações ordinárias e ações preferenciais Ações são títulos que representam a menor fração com que se subdivide o capital social de uma empresa organizada sob a forma de sociedade por ações, representando um investimento permanente na instituição. O acionista é, portanto, um proprietário da empresa, participando dos resultados alcançados pela empresa proporcionalmente à quantidade de ações que possui. As ações podem ser classificadas como ordinárias (ON) ou preferenciais (PN). As ações ordinárias são ações comuns, e quem as possui tem todos os direitos e obrigações de legítimos proprietários da empresa, por exemplo, direito a voto nas assembleias de acionistas, nas quais cada ação equivale a um voto. As ações preferenciais, ao contrário do que o nome sugere, são aquelas em que os acionistas têm restrição de direitos em relação àqueles que possuem ações ordinárias. Eles não podem, por exemplo, votar nas assembleias, porém, para compensar essa limitação, têm prioridade no recebimento de dividendos, e, em caso de liquidação da empresa, também têm prioridade no recebimento do reembolso de capital. A distribuição de dividendos é a principal forma de remuneração dos acionistas, e, por lei, o dividendo obrigatório não poderá ser inferior a 25% do lucro líquido. Sob o ponto de vista econômico, essa distribuição mínima obrigatória não faz necessariamente sentido. Isso dependerá de cada empresa, da fase do ciclo de vida em que ela se encontra. Uma empresa de grande crescimento, com muitos projetos de investimento, não deveria ser obrigada a distribuir dividendos, pois isso talvez não esteja de acordo com os interesses dos acionistas. Uma empresa já madura, gerando muito lucro e que não tenha muitos projetos de investimento, talvez prefira, por sua vez, distribuir todo ou quase todo o lucro, em forma de dividendos. A relação percentual entre a parte distribuída em forma de dividendos e o lucro líquido total é denominada taxa payout. 3.4.2 Mercado primário e mercado secundário O mercado de ações pode ser classificado em mercado primário e mercado secundário. Diz‑se que o mercado é primário quando as ações são lançadas pela primeira vez e o dinheiro arrecadado, líquido de custos, vai para a empresa emitente das ações. Diz‑se que o mercado é secundário quando essas ações mudam de mãos, ou seja, quando são negociadas pelos seus proprietários para outros acionistas. Nesse 59 CIÊNCIAS CONTÁBEIS INTERDISCIPLINAR caso, os valores envolvidos apenas trocam de mãos, de um acionista para outro, sem financiar projetos de investimentos para a empresa emitente. 3.4.3 Segmentos da B3 para governança corporativa A B3 classifica as ações listadas em diferentes segmentos, de acordo com critérios específicos. Vale ressaltar que essas classificações e segmentos podem ser atualizados ou alterados ao longo do tempo, de acordo com as regras e políticas da própria B3. São eles: • Mercado tradicional: empresas listadas nesse segmento cumprem apenas as exigências mínimas da legislação para negociar ações na bolsa. Não há necessidade de compromissos adicionais de governança corporativa. O controle pode ser exercido por ações ordinárias ou preferenciais. • Nível 1 de governança corporativa: os requisitos adicionais em relação ao mercado tradicional incluem melhor divulgação das informações financeiras e operacionais; a adoção de práticas de transparência para os investidores e as empresas devem manter, pelo menos, 25% das ações em circulação (free float). Porém, essas empresas ainda podem emitir ações preferenciais, que não dão direito a voto. • Nível 2 de governança corporativa: as exigências nesse nível são ainda mais rigorosas que no nível 1, já que as empresas devem conceder 100% de tag along para ações ON e 80% para PN (direito de o acionista vender sua participação em caso de troca de controle). Para resolverdisputas entre acionistas e a empresa são utilizados acordos de arbitragem. Em alguns casos, existe a obrigação de estender direito de voto a acionistas preferenciais. Aqui, empresas ainda podem ter ações preferenciais, mas com direitos mais equilibrados. • Novo Mercado: é um segmento especial da B3 que abriga as empresas que possuem os mais elevados padrões de governança corporativa. As empresas listadas no Novo Mercado se comprometem a adotar práticas adicionais de transparência e proteção aos acionistas minoritários, emitindo apenas ações ordinárias, que concedem direito a voto. É necessário que as empresas concedam 100% de tag along, para proteção dos investidores em caso de venda do controle da empresa. O conselho de administração deve ter, pelo menos, cinco membros, sendo 20% independentes, ou seja, sem possuir ações nem participar da gestão. A divulgação de demonstrações financeiras deve ser de acordo com padrões internacionais. Esse segmento é considerado o mais seguro e atrativo para investidores. • Bovespa Mais e Bovespa Mais Nível 2: esses segmentos são destinados a pequenas e médias empresas que querem abrir o capital gradativamente. São empresas que ainda não preenchem os requisitos para ingressar nos segmentos anteriormente citados, mas buscam maior visibilidade e acesso ao mercado de capitais. As empresas podem começar com baixa dispersão de ações e aumentar aos poucos. O objetivo é incentivar o acesso de novas empresas à bolsa. 60 Unidade I Quadro 8 – Segmentos da B3 em relação à governança corporativa Mercado tradicional Nível 1 Nível 2 Novo Mercado Bovespa Mais Bovespa Mais Nível 2 Tipos de ações permitidas ON e PN ON e PN ON e PN Apenas ON Apenas ON ON e PN Tag along (proteção ao acionista minoritário) 80% (ON), 0% (PN) 80% (ON), 0% (PN) 100% (ON), 80% (PN) 100% (ON) 100% (ON) 100% (ON), 80% (PN) Free float mínimo (ações em circulação) Não exigido 25% 25% 25% 25% (até 7 anos para atingir) 25% (até 7 anos para atingir) Conselho de administração Não obrigatório Mínimo de três membros Mínimo de cinco membros, 20% independentes Mínimo de cinco membros, 20% independentes Mínimo de cinco membros, 20% independentes Mínimo de cinco membros, 20% independentes Arbitragem para conflitos Não obrigatório Não obrigatório Obrigatório Obrigatório Obrigatório Obrigatório Divulgação de informações extras Apenas exigências legais Informações financeiras adicionais Demonstrações financeiras completas e em padrão internacional Demonstrações financeiras completas e em padrão internacional Demonstrações financeiras completas e em padrão internacional Demonstrações financeiras completas e em padrão internacional Objetivo do segmento Mínimos legais Governança básica Governança avançada Máxima transparência Entrada gradual na bolsa Entrada gradual na bolsa 3.4.4 Índices representativos do mercado de ações A B3 coleta, organiza e divulga uma série de informações sobre os negócios realizados em cada pregão e, entre elas, estão os índices que mostram o comportamento de todo mercado ou de segmentos específicos de mercado. A título de exemplo, vamos conhecer alguns. O Ibovespa é o principal índice de referência do mercado de ações brasileiro e é um dos mais importantes indicadores econômicos do país. Ele foi criado em 1968 pela bolsa de valores da época, a Bovespa. Embora a B3 seja a bolsa de valores que divulga esse índice, o nome Ibovespa permaneceu pela sua importância no mercado de capitais. Ele é composto por uma carteira teórica de ações das empresas mais negociadas na bolsa. O objetivo do Ibovespa é acompanhar o desempenho médio das ações listadas na B3 e refletir a evolução do mercado acionário brasileiro como um todo. Para isso, ele utiliza uma metodologia de cálculo que considera tanto o valor de mercado das ações das empresas quanto a liquidez de negociação. A composição do Ibovespa é revista periodicamente, e as ações que o compõem podem variar ao longo do tempo. Geralmente, a carteira teórica do Ibovespa é composta por cerca de 60 a 80 ações, que representam uma parcela significativa do volume negociado na bolsa. As empresas listadas no Ibovespa são ponderadas de acordo com sua participação no mercado acionário. Ou seja, empresas com maior valor de mercado e maior liquidez têm maior peso no índice, influenciando mais o seu desempenho. 61 CIÊNCIAS CONTÁBEIS INTERDISCIPLINAR O Ibovespa é utilizado como uma referência para acompanhar a evolução do mercado de ações brasileiro e como base para a criação de produtos financeiros, como fundos de investimento e contratos futuros. Para os investidores, o Ibovespa é uma ferramenta importante para avaliar o desempenho de suas carteiras de ações e comparar o retorno de seus investimentos com o desempenho médio do mercado. No entanto, é fundamental lembrar que investir em ações envolve riscos e que o Ibovespa não garante resultados futuros para os investidores individuais. Encontram‑se listados, a seguir, os principais índices do mercado. • IBrX-100 (Índice Brasil 100): índice que inclui as 100 ações mais negociadas na B3, abrangendo uma maior diversificação em relação ao Ibovespa, que possui uma carteira teórica menor. • IBRX-50 (Índice Brasil 50): semelhante ao IBrX‑100, mas com apenas 50 ações de empresas consideradas líderes em liquidez na B3. • IBrX-50 Dividendos: índice que seleciona as 50 ações com maior potencial de pagamento de dividendos entre os componentes do IBrX‑100. • IVBX-2 (Índice Valor Bovespa 2): índice que mede o desempenho das ações de empresas que atendem a critérios específicos de valor de mercado e liquidez. • IEE (Índice de Energia Elétrica): índice que reflete o desempenho das ações de empresas do setor de energia elétrica listadas na B3. • ICON (Índice de Consumo): índice que mede o desempenho das ações de empresas do setor de consumo, incluindo varejistas, empresas de alimentos, bebidas, entre outros. • IMOB (Índice Imobiliário): índice que acompanha o desempenho das ações de empresas do setor imobiliário. • IFIX (Índice de Fundos de Investimentos Imobiliários): índice que reflete o desempenho dos fundos de investimentos imobiliários listados na B3. • Small Cap (Índice Small Cap): índice que reúne ações de empresas com menor capitalização de mercado e menor liquidez. • ITAG (Índice de Ações com Tag Along Diferenciado): índice que engloba ações de empresas que oferecem maior proteção aos acionistas minoritários em caso de venda do controle da empresa. • ESG (Índice ESG): trata‑se de uma métrica utilizada para avaliar o desempenho ambiental, social e de governança corporativa de uma empresa. A sigla ESG refere‑se a três pilares principais: ambiental (E – environmental), social (S – social) e governança corporativa (G – governance). 62 Unidade I Os investidores, analistas e gestores utilizam o Índice ESG para avaliar o comprometimento de uma empresa com a sustentabilidade e a responsabilidade social. Empresas com altas pontuações no Índice ESG são frequentemente vistas como mais atraentes para investidores que desejam combinar retornos financeiros com impactos positivos no meio ambiente e na sociedade. 3.4.5 Retorno e risco no mercado de ações Investir em ações envolve considerar o equilíbrio entre o retorno potencial e o risco associado a essa classe de ativos. Vamos explorar cada um desses conceitos. O retorno em investir em ações refere‑se aos ganhos ou perdas obtidos pelos investidores ao longo do tempo. Ele é influenciado principalmente pela variação do preço das ações e pelos proventos distribuídos pelas empresas, como dividendos e juros sobre capital próprio. O retorno potencial em ações pode ser atrativo, especialmente no longo prazo. As empresas bem‑sucedidas têm o potencial de aumentar seus lucros e, consequentemente, o valor de suas ações, o que pode resultar em ganhos significativos para os investidores. Além disso, os proventos distribuídos pelasempresas podem representar uma fonte adicional de renda para os investidores. Contudo, é essencial compreender que investir em ações também envolve riscos, e o retorno não é garantido. O preço das ações pode ser volátil e pode ser influenciado por diversos fatores, como condições econômicas, desempenho da empresa, concorrência, mudanças regulatórias, entre outros. O risco em investir em ações refere‑se à incerteza e à possibilidade de perdas financeiras. As ações são consideradas ativos de maior risco no mercado financeiro quando comparadas a outros investimentos, como títulos de renda fixa. O principal risco associado ao investimento em ações é o risco de mercado, que está relacionado à volatilidade dos preços das ações. Os preços podem flutuar significativamente em curtos períodos de tempo, e os investidores podem enfrentar perdas substanciais se as ações desvalorizarem. Há, ainda, riscos específicos de empresa, que estão associados ao desempenho e às operações de uma empresa em particular. Problemas financeiros, problemas de gestão, concorrência acirrada ou eventos inesperados podem afetar negativamente o desempenho de uma empresa e, consequentemente, o valor de suas ações. Para lidar com o risco ao investir em ações, os investidores podem diversificar suas carteiras, investindo em várias empresas e setores diferentes. A diversificação pode ajudar a reduzir o impacto de perdas individuais e equilibrar os riscos em geral. É importante ressaltar que o risco e o retorno estão interligados. Geralmente, ativos de maior risco oferecem maior potencial de retorno, enquanto ativos mais seguros oferecem retornos mais modestos. Portanto, ao investir em ações, é fundamental que o investidor esteja ciente dos riscos envolvidos e esteja preparado para enfrentar a volatilidade do mercado. 63 CIÊNCIAS CONTÁBEIS INTERDISCIPLINAR Antes de investir em ações ou em qualquer outro ativo financeiro, é recomendável buscar conhecimento, entender seu perfil de investidor, definir seus objetivos financeiros e, se necessário, contar com o auxílio de um profissional devidamente habilitado, como um assessor financeiro, para tomar decisões mais informadas e alinhadas com suas necessidades e tolerância ao risco. 3.5 Falhas na governança corporativa A governança corporativa é mais que um simples conjunto de regras ou processos. Assim, apesar de haver valores e princípios bem definidos, e a existência de instituições normativas e reguladoras e legislações rígidas, nem sempre uma ótima governança corporativa será eficaz e conseguirá prever fraudes e acidentes envolvendo as instituições, públicas e privadas. Isso ocorre porque nosso conhecimento é majoritariamente formado por informações passadas ou presentes e, a cada dia, a previsão dos efeitos futuros de nossas atividades se torna mais complexa e improvável. Desse modo, embora todas essas ferramentas e metodologias sejam baseadas nas melhores práticas e sirvam para gerar conforto a acionistas e outros stakeholders, elas não garantem segurança diante de operações de grande impacto. Vejamos as quatro principais falhas de governança corporativa para exemplificar os casos em que sua aplicação é feita de maneira equivocada e não traz os resultados desejados. • Conselho administrativo sem independência: uma das formas de garantir que as práticas da governança corporativa sejam bem definidas e respeitadas é por meio da autonomia do Conselho Administrativo. Seu papel é a diminuição de riscos e a melhoria da tomada das decisões estratégicas da empresa. Para que possa exercê‑lo, é imprescindível que haja independência, o que garante que os interesses da companhia sejam colocados sempre em primeiro lugar. • Falta de comunicação: um dos princípios da governança corporativa é justamente a transparência. Assim, a falta de comunicação representa um grande problema na sua implantação. A comunicação precisa ser vista como um fator‑chave para o sucesso dos processos internos das empresas, com um papel estratégico cada vez maior. Para isso, é necessário que operações importantes com impactos significativos, como financeiros e tributários, por exemplo, sejam avaliadas previamente, ao invés de executadas sem qualquer preparação. Uma boa comunicação aumenta a confiança entre as partes interessadas e minimiza a ocorrência de riscos. • Auditorias independentes ineficazes: a realização de auditorias independentes é um recurso de extrema importância para as empresas, pois é por meio delas que a utilização de recursos de maneira eficiente é analisada com imparcialidade e eficiência. É parte fundamental da governança corporativa assegurar que a realização das auditorias aconteça de forma tranquila, com autonomia e independência. Somente assim será possível identificar os processos necessários para a melhoria constante na empresa. 64 Unidade I • Políticas de remuneração ineficazes: as políticas de remuneração têm como objetivo o incentivo à produtividade e à eficiência por meio da premiação pelo bom desempenho. Um sistema ineficaz, quando os executivos podem definir a própria remuneração, tem o efeito totalmente contrário e atua na contramão das práticas propostas pela governança corporativa. É necessário manter uma política de remuneração justa, que inspire confiança (As quatro […], [s.d.]). Vários casos de falhas na governança corporativa servem de alerta para investidores e empresas. Vejamos alguns exemplos notáveis no Brasil e no mundo. No Brasil, destacam‑se três casos: Americanas (2023), Petrobrás (2014‑2016) e Vale (2019). Americanas: fraude contábil de R$ 20 bilhões A Americanas revelou um rombo contábil de R$ 20 bilhões, escondido em operações de risco nas modalidades forfait e risco sacado. Forfait e risco sacado são termos que se referem à mesma operação bancária de antecipação de recebíveis. É uma operação de curto prazo que envolve a empresa, o fornecedor e uma instituição financeira. Funciona da seguinte maneira: o fornecedor emite uma fatura com um prazo de pagamento determinado. A empresa compradora solicita a antecipação dos recebíveis a uma instituição financeira. A instituição financeira torna‑se credora da operação e a empresa compradora deve pagar o valor à instituição financeira até ao final do prazo de pagamento. Embora seja uma operação legal e apresente vantagens, existem riscos se a empresa não for bem gerida financeiramente. Os juros elevados podem ter um impacto negativo no resultado financeiro da empresa. Os controladores da Americanas (3G Capital – Jorge Paulo Lemann, Marcel Herrmann Telles, Carlos Alberto Sicupira, Alex Behring e Roberto Thompson Motta) alegaram desconhecimento da fraude, levantando dúvidas sobre a transparência na gestão. A empresa entrou em recuperação judicial, afetando credores e acionistas. A falha na auditoria e na transparência financeira foram os pontos centrais do escândalo (Andrade; Nascimento; Iácone, 2023). Petrobras: escândalo da Lava Jato As principais falhas de governança corporativa envolveram os seguintes aspectos: • o conselho executivo da Petrobras não era suficientemente independente e apresentava deficiências estruturais; • os canais de denúncias não eram eficazes, além de estarem vinculados a setores internos da companhia; • os controles internos apresentavam diversas fragilidades; • os sistemas integrados de gestão continham falhas de parametrização e, somente a partir do segundo semestre de 2014 a empresa passou a ter um código de conduta. 65 CIÊNCIAS CONTÁBEIS INTERDISCIPLINAR Embora os sistemas de governança implantados na Petrobras atendessem às formalidades exigidas pelas instituições, eles não foram suficientes para evitar as práticas de corrupção na empresa. O conselho de administração, os controles internos e o compliance não atendiam à maioria das recomendações de boas práticas. Esse cenário facilitou a execução de atos ilícitos na empresa. A investigação revelou corrupção massiva, com desvio de bilhões em contratos superfaturados.Ocorreu envolvimento de diretores, políticos e empreiteiras na manipulação de contratos públicos. A Petrobrás teve grande perda de valor de mercado e de credibilidade (Pereira; Souza, 2017). Vale: rompimento da barragem de Brumadinho Em 25 de janeiro de 2019, a barragem em Brumadinho, de propriedade da Vale S/A, rompeu, causando 272 mortes e danos ambientais severos. Os relatórios de segurança foram ignorados e a empresa não tomou medidas preventivas adequadas. Após o desastre, a Vale perdeu credibilidade e bilhões em valor de mercado. O principal problema residiu na falha da gestão risco e responsabilidade socioambiental. Mas o que a governança corporativa tem a ver com esse caso? Para responder a essa pergunta, observa‑se o tema sob a seguinte perspectiva: segundo o IBGC, as boas práticas convertem princípios básicos em recomendações objetivas, com a finalidade de preservar e otimizar o valor econômico de longo prazo da organização, facilitando seu acesso a recursos e contribuindo para a qualidade da gestão da empresa, sua longevidade e o bem comum. O risco está sempre presente nas atividades das organizações e, por definição, tem potencial de causar dano ao patrimônio tangível ou intangível da empresa. Os riscos mudam conforme a empresa, o segmento em que atua e a robustez de seus controles internos. Embora a Vale seja reconhecidamente uma empresa com fortes controles internos, o desastre aconteceu e, portanto, algo falhou. Por mais rígido que possa ser o gerenciamento de risco de uma empresa, ele não é imune a falhas, simplesmente porque estas decorrem da ação ou omissão humana. Sob o enfoque da governança, o que se pode dizer é que em empresas com potencial de impacto ambiental muito grande, a gestão de risco deve estar permanentemente na pauta do conselho de administração, além da necessária abrangência e rigidez dos seus controles internos. Não se pretende que os conselheiros sejam especialistas em gestão de risco ambiental, mas eles precisam ter condições e efetivamente praticar o hábito de fiscalizar a adequação dos controles internos e do compliance. Eles precisam ter conhecimento dos riscos envolvidos nos negócios da empresa. Só assim, podem fiscalizar a alta administração e cobrar o seu devido gerenciamento. 66 Unidade I Em determinados segmentos, como o da mineração, a dimensão risco requer tanta atenção que é necessária a existência de um comitê de risco e até de um comitê de crise, com o objetivo de assessorar o conselho de administração no desempenho de suas atribuições. Esses casos mostram que falhas na governança corporativa podem resultar em prejuízos bilionários, crises institucionais e até falências. Empresas precisam de transparência, ética e controles internos rígidos para evitar escândalos. Saiba mais Os vídeos indicados a seguir tratam dos escândalos envolvendo fraudes em empresas estadunidenses no início dos anos 2000. CASO Enron resumido ‑ maior fraude da história (contabilidade/auditoria/ governança/SOX). 2021. 1 vídeo (13 min). Publicado pelo canal GCoelho. Disponível em: https://tinyurl.com/yrbkhsn7. Acesso em: 9 set. 2025. CASO Worldcom. 2022. 1 vídeo (6 min). Publicado pelo canal Ricardo Saul. Disponível em: https://tinyurl.com/3f4bzaef. Acesso em: 9 set. 2025. 4 RISCOS E OPORTUNIDADES EM SUSTENTABILIDADE No cenário corporativo atual, a sustentabilidade deixou de ser apenas um diferencial competitivo para se tornar um fator estratégico essencial. Empresas de todos os setores enfrentam riscos ambientais, sociais e de governança (ESG) que podem impactar sua reputação, operações e rentabilidade. As práticas ESG adotadas pelas empresas são avaliadas por instituições reguladoras de diversas áreas, inclusive por instituições financeiras que utilizam os indicadores para classificar as empresas e criar o Índice ESG. Contudo, a adoção de práticas ESG pelas empresas traz tanto riscos quanto oportunidades. A maneira como essas organizações gerenciam esses fatores pode impactar diretamente sua reputação, competitividade e rentabilidade. Os principais riscos da adoção de práticas ESG são: • Custos iniciais elevados: investimentos em tecnologias sustentáveis, compliance regulatório e mudanças estruturais podem representar um impacto financeiro significativo. • Exposição a riscos regulatórios: governos e órgãos reguladores estão cada vez mais exigentes quanto ao cumprimento de normas ambientais e sociais, impondo multas e restrições para empresas que não se adequam. 67 CIÊNCIAS CONTÁBEIS INTERDISCIPLINAR • Greenwashing: empresas que não adotam práticas ESG genuínas correm o risco de serem acusadas de “maquiagem verde”, prejudicando sua credibilidade no mercado. • Resistência interna e cultural: a implementação de práticas ESG pode enfrentar resistência de stakeholders internos, como funcionários e acionistas, em virtude da mudança de processos e dos custos envolvidos. • Pressão dos investidores e consumidores: empresas que não conseguem demonstrar resultados concretos em ESG podem perder o interesse de investidores e consumidores preocupados com sustentabilidade. Por sua vez, existem oportunidades da adoção de práticas ESG: • Acesso a capital e financiamento sustentável: investidores institucionais e fundos especializados estão cada vez mais focados em apoiar empresas com boas práticas ESG. • Vantagem competitiva e diferenciação no mercado: empresas sustentáveis atraem consumidores que valorizam responsabilidade ambiental e social, fortalecendo sua marca e reputação. • Eficiência operacional e redução de custos: práticas ESG podem levar à economia de recursos, como energia e água, além da redução de desperdícios na cadeia produtiva. • Engajamento e retenção de talentos: funcionários tendem a se sentir mais motivados e engajados em empresas que demonstram compromisso com causas ambientais e sociais. • Conformidade regulatória e redução de riscos legais: empresas que se antecipam às exigências ambientais e sociais minimizam riscos jurídicos e evitam sanções regulatórias. Empresas que integram práticas ESG de forma estratégica e consistente não apenas mitigam riscos, mas também criam oportunidades de crescimento sustentável, inovação e fortalecimento de sua posição no mercado. 4.1 Conceitos emergentes sobre meio ambiente e mudanças climáticas As tendências de investimentos em empresas de capital aberto podem ser influenciadas por diversos fatores econômicos, sociais e tecnológicos. É importante notar que essas tendências estão sempre em constante evolução e o cenário pode mudar significativamente ao longo do tempo. Algumas das principais tendências de investimentos em empresas de capital aberto encontram‑se elencadas a seguir. • Sustentabilidade e responsabilidade social: investidores têm demonstrado maior interesse em empresas que adotam práticas sustentáveis e têm responsabilidade social corporativa. Empresas que priorizam questões ambientais, sociais e de governança (ESG) têm atraído investidores conscientes, que desejam aliar seus investimentos ao impacto positivo no mundo. 68 Unidade I • Tecnologia e inovação: empresas de capital aberto que estão na vanguarda da inovação tecnológica costumam ser alvo de investidores, especialmente aquelas que estão envolvidas em setores disruptivos, como inteligência artificial, blockchain, tecnologia de saúde e energias renováveis. A inovação é vista como um motor de crescimento no longo prazo e pode impulsionar o desempenho das ações. • Setores de crescimento acelerado: investidores tendem a buscar empresas em setores que estão experimentando um rápido crescimento. Isso pode incluir empresas em setores emergentes, como as que investem em canabidiol, biotecnologia, inteligência artificial, energia limpa, entre outros. Esses setores promissores atraem investidores em busca de retornos potencialmente elevados. • Investimentos baseados em dados: com o avanço da tecnologia, a análise de dados tornou‑se uma parte fundamental do processo63 4 RISCOS E OPORTUNIDADES EM SUSTENTABILIDADE ....................................................................... 66 4.1 Conceitos emergentes sobre meio ambiente e mudanças climáticas ............................ 67 4.2 Conceito de fundos ESG .................................................................................................................... 70 4.3 Conceito de ativos e passivos ambientais .................................................................................. 71 4.4 Técnicas de divulgação de informação sobre sustentabilidade NBC‑TDS .................... 72 4.5 Conceito de GRI (Global Reporting Initiative) .......................................................................... 73 4.6 Conceito de relato integrado........................................................................................................... 74 Unidade II 5 SPED E DOCUMENTOS ELETRÔNICOS ..................................................................................................... 80 5.1 SPED e cruzamentos ........................................................................................................................... 81 5.2 Auditoria: de função corretiva à função estratégica............................................................. 82 5.3 Principais pontos de auditoria nos arquivos SPED ................................................................. 83 5.4 Ferramentas e tecnologia na auditoria SPED ........................................................................... 84 5.5 Considerações finais ............................................................................................................................ 85 6 SPED FISCAL ICMS/IPI VERSUS SPED CONTRIBUIÇÕES ................................................................... 85 6.1 O que é o SPED Fiscal e o SPED Contribuições? ...................................................................... 85 6.2 Quem está obrigado à entrega do SPED Fiscal e do SPED Contribuições? ................... 87 6.3 Estrutura da EFD ................................................................................................................................... 88 6.4 Transmissão e validação .................................................................................................................... 89 6.5 Apuração do PIS e Cofins no SPED Contribuições .................................................................. 90 6.6 Escrituração Fiscal Digital no contexto da reforma tributária: SPED Fiscal ICMS/IPI e SPED Contribuições ...................................................................................... 90 6.7 Orientações para a elaboração e entrega do SPED Fiscal e do SPED Contribuições ..................................................................................................................................... 91 7 ESCRITURAÇÃO CONTÁBIL DIGITAL (ECD) VERSUS ESCRITURAÇÃO CONTÁBIL FISCAL (ECF) ..................................................................................................................................... 92 7.1 O que é a ECD e a ECF? ...................................................................................................................... 93 7.2 Quem está obrigado à entrega da ECD e da ECF? ................................................................... 94 7.3 Estrutura da ECD e da ECF ................................................................................................................ 95 7.4 Transmissão e validação .................................................................................................................... 96 7.5 Recomendações de processos na elaboração da ECD e da ECF ........................................ 98 7.6 Considerações finais ............................................................................................................................ 99 8 EFD‑REINF E ESOCIAL .................................................................................................................................... 99 8.1 O que é a EFD‑Reinf e o eSocial? ................................................................................................... 99 8.2 Obrigatoriedade e informações ....................................................................................................101 8.3 Prazos e penalidades .........................................................................................................................104 8.4 Boas práticas do departamento fiscal, contábil e de recursos humanos ....................105 8.5 Considerações finais ..........................................................................................................................105 7 APRESENTAÇÃO Olá, aluno(a)! No mundo contemporâneo, as empresas enfrentam uma complexa rede de expectativas e de demandas que vão além da simples busca por lucro. Com a globalização e a crescente importância das questões sociais e ambientais, surge a necessidade da implantação de práticas consistentes de governança corporativa e sustentabilidade, tópico abordado na disciplina Ciências Contábeis Interdisciplinar. Você deve estar se perguntando: governança corporativa não é mais um modismo da moderna gestão de empresas? Com toda certeza, pode‑se afirmar que não! Ela baseia‑se em fundamentos sólidos, definidos pelas ciências econômicas e por princípios éticos. A governança corporativa é essencial para garantir que as organizações atuem de forma ética, sustentável e com foco na criação de valor no longo prazo. Sua importância reside, primeiramente, no fato de que ela aumenta a confiança dos investidores e das demais partes interessadas ao assegurar que a empresa está sendo gerida com responsabilidade e eficiência. Com práticas de governança bem estruturadas, as empresas tornam‑se mais atrativas e aumentam seu valor de mercado. Além disso, uma boa governança contribui para a mitigação de riscos, já que estabelece políticas de controle e de auditoria, buscando identificar e corrigir falhas de gestão e auxiliando na elaboração de planos de contingências para a prevenção de acidentes. Ao adotar práticas alinhadas com os princípios ambientais, sociais e de governança (ESG, do inglês environmental, social, governance), as empresas conseguem se posicionar de maneira responsável frente a questões que impactam tanto seu ambiente interno quanto a sociedade como um todo. Nesse cenário, o Sistema Público de Escrituração Digital (SPED) surge como marco na digitalização dos processos contábeis e fiscais no Brasil, com impactos profundos na gestão, na conformidade e na eficiência das empresas. Sua conexão e sua integração com a escrituração contábil, a gestão tributária, as obrigações trabalhistas e a governança corporativa criam um ambiente mais seguro, transparente e eficiente para as empresas, além de facilitar o cumprimento das obrigações legais. Esses conceitos não apenas ajudam as organizações a construírem uma base sólida para o crescimento, mas também asseguram transparência, responsabilidade e ética em suas operações. Assim, a disciplina Ciências Contábeis Interdisciplinar ultrapassa o escopo do desempenho financeiro e incorpora valores que sustentam a reputação e a longevidade das empresas, promovendo o bem‑estar coletivo e o impacto social positivo. Este livro‑texto tem, portanto, como objetivo estabelecer um diálogo entre os conhecimentos adquiridos na área contábil e aqueles advindos de outros campos do saber. Trata dos conceitos de governança corporativa e da sua relação com a sustentabilidade e o SPED, que se destaca como uma solução tecnológica que facilita o envio da escrituração contábil e fiscal das empresas para a administração pública. Boa leitura! 8 INTRODUÇÃO Este livro‑texto, composto por duas unidades, busca relacionar a governança corporativa e o Sistema Público de Escrituração Digital (SPED), fundamental para garantir que as empresas operem de maneira transparente, eficientede tomada de decisão dos investidores, que cada vez mais, têm utilizado dados quantitativos e análises estatísticas para avaliar o desempenho das empresas. • Dividendos e retornos constantes: investidores, especialmente os de perfil mais conservador, têm procurado empresas que pagam dividendos consistentes e oferecem retornos estáveis ao longo do tempo. Essas empresas são frequentemente vistas como investimentos de baixo risco e podem ser atraentes para aqueles que buscam renda de investimentos. • Investimentos em mercados emergentes: à medida que a globalização continua a evoluir, investidores têm buscado oportunidades em mercados emergentes que apresentam um potencial de crescimento significativo. Esses mercados podem oferecer oportunidades de investimento atraentes, mas também podem envolver riscos adicionais. • Investimentos temáticos: investidores têm mostrado interesse crescente em investimentos temáticos, como empresas que se concentram em saúde e bem‑estar, educação, tecnologia limpa, entre outros. Essas temáticas podem refletir as tendências sociais e comportamentais predominantes em determinado momento. Entre os temas apresentados, o debate sobre meio ambiente e mudanças climáticas continua evoluindo, com novos conceitos emergentes e abordagens desenvolvidas para enfrentar os desafios ambientais globais. Alguns desses conceitos incluem: • Neutralidade de carbono: a neutralidade de carbono, também conhecida como zero líquido de carbono, refere‑se ao equilíbrio entre as emissões de gases de efeito estufa liberadas na atmosfera e as emissões removidas ou compensadas por meio de ações como reflorestamento, captura de carbono ou tecnologias de remoção de CO2. O objetivo é alcançar um estado em que as emissões humanas líquidas de carbono sejam reduzidas a zero, para evitar um aumento significativo da temperatura global. • Economia circular: a economia circular é um conceito que se opõe ao modelo linear tradicional de produção, consumo e descarte, e visa criar um sistema sustentável onde os recursos são reutilizados, reciclados e regenerados. Ao aplicar a economia circular, as empresas e a sociedade podem reduzir o desperdício, a poluição e a degradação ambiental. 69 CIÊNCIAS CONTÁBEIS INTERDISCIPLINAR • Justiça climática: a justiça climática é uma abordagem que enfatiza a equidade e a inclusão nas respostas às mudanças climáticas, ao reconhecer que os impactos negativos das mudanças climáticas são desproporcionalmente sentidos por comunidades vulneráveis, como populações de baixa renda, povos indígenas e países em desenvolvimento. A justiça climática busca garantir que as políticas e medidas de adaptação e mitigação considerem e atendam às necessidades dessas comunidades. • Pegada ecológica: a pegada ecológica é uma medida do impacto ambiental de uma pessoa, comunidade ou país, expressa em termos de área de terra e recursos necessários para sustentar o seu estilo de vida ou suas atividades. Trata‑se de uma ferramenta que auxilia a entender a pressão que a humanidade exerce sobre os recursos naturais e ajuda na conscientização sobre a importância da sustentabilidade e da redução do consumo excessivo. • Descarbonização: a descarbonização refere‑se ao processo de redução das emissões de carbono, especialmente no setor de energia, substituindo fontes de energia baseadas em combustíveis fósseis por tecnologias e alternativas de baixa emissão de carbono, como a energia renovável. • Bioeconomia: a bioeconomia abrange um conjunto de atividades econômicas que utilizam recursos biológicos renováveis, como agricultura, florestas e aquicultura, para produzir alimentos, energia, materiais e produtos de base biológica. A bioeconomia promove a utilização sustentável de recursos naturais e pode contribuir para a transição para uma economia mais verde e de baixo carbono. • Conservação baseada em natureza: essa abordagem coloca a natureza como uma parte central da solução para os desafios ambientais e climáticos. A conservação baseada em natureza envolve a proteção, a restauração e o uso sustentável dos ecossistemas naturais para mitigar as mudanças climáticas, conservar a biodiversidade e promover a resiliência às alterações no clima. Esses conceitos emergentes refletem a crescente conscientização global sobre a urgência das questões ambientais e climáticas. À medida que a ciência avança e novas pesquisas são realizadas, é provável que surjam mais conceitos e abordagens para enfrentar os desafios ambientais do nosso tempo. Saiba mais Assista ao vídeo a seguir sobre investimentos temáticos. O QUE é investimento temático? 2020. 1 vídeo (11 min). Publicado pelo canal EconomicaMENTE. Disponível em: https://tinyurl.com/5y47pvdt. Acesso em: 9 set. 2025. 70 Unidade I 4.2 Conceito de fundos ESG Os fundos ESG (environmental, social e governance) são veículos de investimento que buscam incorporar critérios ambientais, sociais e de governança corporativa em suas estratégias de seleção de ativos. Esses critérios são usados para avaliar o desempenho das empresas em relação a questões ambientais, sociais e de governança, permitindo que os investidores considerem não apenas o retorno financeiro, mas também o impacto social e ambiental de suas escolhas de investimento, nos seguintes âmbitos: • Environmental (ambiental): os critérios ambientais analisam o impacto das empresas nas questões ambientais, como emissões de gases de efeito estufa, consumo de energia, gestão de resíduos, uso sustentável dos recursos naturais, entre outros. Empresas que demonstram compromisso com a sustentabilidade ambiental são mais propensas a serem selecionadas por fundos ESG. • Social: os critérios sociais examinam como as empresas interagem com suas partes interessadas, como funcionários, comunidades locais, clientes e fornecedores. Questões como tratamento justo dos funcionários, diversidade e inclusão, relações com a comunidade e práticas comerciais éticas são levadas em consideração. Empresas que têm políticas e práticas sociais positivas têm mais chance de serem incluídas em fundos ESG. • Governance (governança): os critérios de governança analisam como as empresas são gerenciadas e controladas, incluindo a estrutura de governança, o papel dos acionistas, a transparência nas operações e a prestação de contas da administração. Empresas com altos padrões de governança e gestão responsável têm maior probabilidade de serem consideradas em fundos ESG. O objetivo dos fundos ESG é investir em empresas que atendam a esses critérios, buscando não apenas o desempenho financeiro a curto prazo, mas também o impacto positivo no longo prazo em relação a questões ambientais e sociais. Além disso, muitos investidores acreditam que empresas com uma abordagem sustentável e responsável têm mais chances de serem bem‑sucedidas no futuro, gerando retornos mais consistentes ao longo do tempo. Os fundos ESG têm ganhado popularidade nos últimos anos, refletindo uma crescente conscientização sobre questões ambientais e sociais, bem como a importância de uma governança corporativa sólida. Essa tendência também é impulsionada por investidores que desejam alinhar seus valores pessoais com suas decisões de investimento, buscando, ao mesmo tempo, obter um retorno financeiro sólido. É essencial notar que os critérios ESG podem variar entre diferentes fundos e gestoras de investimento. Alguns fundos podem ter critérios mais rigorosos e focar exclusivamente em empresas que atendam a altos padrões ESG, enquanto outros podem adotar uma abordagem mais flexível e inclusiva, buscando empresas em processo de melhoria nesses aspectos. Em resumo, os fundos ESG representam uma abordagem de investimento que valoriza não apenas o retorno financeiro, mas também o impacto ambiental, social e a qualidade da governança das empresas em que investem. Essa abordagem tem sido uma força importante na promoção de práticas de negócios mais sustentáveis e responsáveis em todo o mundo. 71 CIÊNCIASCONTÁBEIS INTERDISCIPLINAR Saiba mais O vídeo indicado explora como o ESG afeta os investimentos. O QUE é ESG e como afeta o mundo dos investimentos. 2020. 1 vídeo (4 min). Publicado pelo canal InfoMoney. Disponível em: https://tinyurl.com/mubu4hb6. Acesso em: 9 set. 2025. 4.3 Conceito de ativos e passivos ambientais Ativos e passivos ambientais são conceitos contábeis e financeiros relacionados aos impactos ambientais que uma empresa pode ter em suas atividades. Eles são uma parte importante da contabilidade ambiental e podem influenciar o balanço patrimonial e demonstrações financeiras das empresas. Ativos ambientais referem‑se aos recursos e bens que uma empresa possui e que têm valor econômico relacionado às questões ambientais. Esses ativos geralmente são representados por investimentos em tecnologias, equipamentos, instalações e outros recursos que visam à preservação ou melhoria do meio ambiente. Alguns exemplos de ativos ambientais incluem: • tecnologias de controle de poluição, como filtros de ar, sistemas de tratamento de água e estações de tratamento de efluentes; • investimentos em fontes de energia renovável, como painéis solares e turbinas eólicas; • áreas de conservação e proteção ambiental, como reservas naturais e áreas verdes em torno de instalações industriais. Esses ativos são geralmente registrados no balanço patrimonial e podem ser amortizados ou depreciados ao longo do tempo, dependendo de sua vida útil. Já os passivos ambientais representam obrigações financeiras ou responsabilidades que uma empresa pode ter decorrentes de impactos ambientais passados ou presentes. São os custos associados à reparação, mitigação ou compensação de danos ambientais causados pelas atividades da empresa. Alguns exemplos de passivos ambientais incluem: • custos de descontaminação de um terreno poluído; • indenizações ou multas devidas a infrações ambientais; • custos de monitoramento e acompanhamento de impactos ambientais ao longo do tempo. 72 Unidade I Os passivos ambientais são registrados no balanço patrimonial e devem ser adequadamente provisionados para garantir que a empresa possa cumprir suas obrigações ambientais. É importante destacar que a contabilização de ativos e passivos ambientais pode variar de acordo com as normas contábeis e regulamentações específicas de cada país ou região. As empresas devem seguir as diretrizes contábeis adequadas para garantir a transparência e a responsabilidade em relação a suas atividades ambientais. Além disso, a adoção de práticas sustentáveis e a gestão adequada dos ativos e passivos ambientais são cruciais para promover a responsabilidade socioambiental e a sustentabilidade corporativa. Saiba mais O vídeo a seguir ensina como levantar passivos ambientais. COMO levantar passivos ambientais | Due Diligence Ambiental (EDD). 2020. 1 vídeo (6 min). Publicado pelo canal Valor Ambiental. Disponível em: https://tinyurl.com/5a9s6p6w. Acesso em: 9 set. 2025. 4.4 Técnicas de divulgação de informação sobre sustentabilidade NBC‑TDS As Normas Brasileiras de Contabilidade – Técnicas de Divulgação de Sustentabilidade (NBC‑TDS) estabelecem diretrizes para a divulgação de informações sobre sustentabilidade nas organizações. Seu objetivo é garantir a transparência e a padronização na comunicação de dados ambientais, sociais e de governança corporativa (ESG), promovendo a confiança dos stakeholders. A seguir, encontram‑se listados os principais recursos que as organizações podem utilizar. • Relatórios de sustentabilidade: os relatórios são uma das formas mais eficazes de divulgação. Eles podem ser elaborados seguindo padrões internacionais, como o Global Reporting Initiative (GRI) ou o Sustainability Accounting Standards Board (SASB, agora parte do International Financial Reporting Standards Foundation), garantindo maior credibilidade (GRI, 2025; IFRS Foundation, 2025). • Canais digitais: a disseminação por meio de plataformas digitais amplia o alcance das informações de sustentabilidade. Algumas técnicas incluem redes sociais, portal institucional, promoção de debates virtuais com especialistas e stakeholders, entre outros. • Certificações e selos ambientais: a obtenção e a divulgação de certificações, como ISO 14001, que trata da gestão ambiental, ou o Selo Procel, concedido para empresas que apresentam eficiência energética, reforçam a credibilidade da empresa e demonstram seu comprometimento com práticas sustentáveis. 73 CIÊNCIAS CONTÁBEIS INTERDISCIPLINAR • Engajamento dos stakeholders: o diálogo com investidores, clientes, funcionários e sociedade civil é essencial. Pesquisas de percepção sobre sustentabilidade, eventos corporativos com foco ambiental e programas de educação ambiental são algumas estratégias que podem ser utilizadas. • Relatórios integrados: os relatórios integrados combinam informações financeiras e não financeiras, proporcionando uma visão holística da empresa. O modelo do International Integrated Reporting Council (IIRC) é um referencial amplamente utilizado. • Métricas e indicadores de desempenho (Key Performance Indicators - KPIs): a utilização de indicadores padronizados permite avaliar e comparar o desempenho de sustentabilidade. Alguns indicadores como pegada de carbono, índice de satisfação de stakeholders, taxa de reciclagem de resíduos e indicadores relacionados à economia circular configuram essas estratégias. • Transparência e auditoria: a auditoria independente das informações divulgadas aumenta a credibilidade e assegura a conformidade com padrões normativos. Empresas podem recorrer a auditorias externas para validar dados. A adoção de técnicas eficazes de divulgação de sustentabilidade, conforme a norma NBC‑TDS, fortalece a imagem institucional, melhora a relação com stakeholders e contribui para uma economia mais sustentável. Empresas que adotam boas práticas e comunicam seus avanços de forma transparente se destacam no mercado e promovem impactos positivos na sociedade. 4.5 Conceito de GRI (Global Reporting Initiative) O conceito de GRI refere‑se à Global Reporting Initiative, que em português pode ser traduzido como Iniciativa de Relatórios Globais. A GRI é uma organização independente, fundada em 1997, que desenvolveu um conjunto de diretrizes amplamente reconhecidas para a elaboração de relatórios de sustentabilidade. Os relatórios de sustentabilidade GRI fornecem uma estrutura abrangente para que as organizações comuniquem suas práticas e desempenho em relação a questões ambientais, sociais e de governança (ESG). Essas questões geralmente abrangem áreas como impacto ambiental, responsabilidade social, direitos humanos, diversidade, ética, governança corporativa e outras dimensões que são relevantes para a sustentabilidade e a responsabilidade corporativas. As diretrizes da GRI são usadas por empresas, organizações não governamentais e outras entidades em todo o mundo como um padrão comum para relatórios de sustentabilidade. Elas fornecem uma estrutura consistente para coletar dados, medir o desempenho e comunicar o progresso em relação a metas e objetivos de sustentabilidade. Ao seguir as diretrizes da GRI, as organizações podem aumentar a transparência e a responsabilidade, permitindo que partes interessadas, como investidores, clientes, funcionários, comunidades e reguladores, compreendam melhor o impacto das operações da empresa no meio ambiente e na sociedade. Isso ajuda a promover a responsabilidade corporativa e a contribuir para um desenvolvimento mais sustentável. 74 Unidade I 4.6 Conceito de relato integrado O conceito de relato integrado se refere a uma abordagem de comunicação empresarial que busca apresentar uma visão holística e integrada do desempenho de uma organização em diversos aspectos, como financeiro, social, ambiental e de governança. Em vez de divulgar informações separadas em relatórios financeiros, relatórios de sustentabilidade e outros documentos, o relato integrado procura unificaressas informações em um único relatório. O objetivo do relato integrado é proporcionar uma visão mais completa e equilibrada do desempenho de uma empresa, refletindo não apenas suas finanças, mas também seu impacto nas comunidades em que opera, suas práticas de sustentabilidade ambiental, sua abordagem de governança corporativa e seu relacionamento com seus stakeholders, ou seja, partes interessadas, como funcionários, clientes, fornecedores, investidores e a sociedade em geral. Ao adotar o relato integrado, as empresas buscam aumentar a transparência, a responsabilidade e a prestação de contas, bem como melhorar sua capacidade de tomar decisões estratégicas com base em uma compreensão mais ampla de seu desempenho e seus riscos. Essa abordagem também pode ajudar as empresas a identificar oportunidades para melhorar sua sustentabilidade e seu valor a longo prazo. O relato integrado é frequentemente promovido por organizações como o IIRC e ganhou atenção e reconhecimento em todo o mundo como uma prática de comunicação empresarial que visa ir além das métricas financeiras tradicionais e considerar o impacto mais amplo da empresa em seu ambiente operacional e social. Saiba mais O link a seguir possibilita a realização do download do IR Framework, manual que contém a estrutura internacional para o relato integrado. IFRS. International Integrated Reporting Framework. Londres: IFRS Foundation, [s.d.]. Disponível em: https://tinyurl.com/bdfk4n7s. Acesso em: 10 set. 2025. Assim, o relato integrado representa um avanço significativo na forma como as organizações comunicam seu desempenho e sua criação de valor ao longo do tempo. Ao reunir em um único documento informações financeiras e não financeiras, ele promove uma compreensão mais abrangente das atividades empresariais, contribuindo para decisões mais informadas por parte de investidores e demais stakeholders, além de reforçar o compromisso das empresas com a sustentabilidade e a governança responsável. 75 CIÊNCIAS CONTÁBEIS INTERDISCIPLINAR Resumo Nesta unidade, você aprendeu os conceitos de governança corporativa e sustentabilidade. Inicialmente, fizemos uma análise do valor e do propósito das empresas. Explicamos a evolução das estruturas empresariais, como a transição da sociedade limitada para a sociedade por ações. Refletimos sobre a separação entre a propriedade e a gestão, tendo como questão central os conflitos de interesses entre os stakeholders. Vimos que os princípios de governança (compliance, accountability, disclosure e fairness) são centrais para a atuação ética e responsável. Abordamos os princípios da governança corporativa e mostramos a importância do IBGC (Instituto Brasileiro de Governança Corporativa) e o impacto das diretrizes e dos códigos de boas práticas. Exploramos os Princípios da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico e comparamos os diferentes contextos de governança no Brasil e no mundo, destacando as particularidades e os desafios de cada cenário. Discorremos também sobre os controles internos na governança corporativa, que ajudam a monitorar e a fiscalizar o desempenho organizacional, prevenindo fraudes e outras práticas prejudiciais. Analisamos a Lei Sarbanes‑Oxley e a Lei das S/A no Brasil, além do papel da Comissão de Valores Mobiliários e da Bolsa de Valores. Finalmente, tratamos da questão da sustentabilidade. Discutimos os conceitos emergentes sobre meio ambiente, as mudanças climáticas e a importância da responsabilidade social na tomada de decisões corporativas. Exploramos ainda o papel dos fundos ESG no mercado de valores mobiliários, como incentivos ao aumento do valor das empresas, bem como as diretrizes para a divulgação de informações sobre sustentabilidade, como as NBC‑TDS, o GRI e o relato integrado. 76 Unidade I Exercícios Questão 1. Leia a definição de governança corporativa, segundo o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC): Governança corporativa é o sistema pelo qual as empresas e as demais organizações são dirigidas, monitoradas e incentivadas, envolvendo os relacionamentos entre sócios, conselho de administração, diretoria, órgãos de fiscalização e controle e demais partes interessadas. As boas práticas de governança corporativa convertem princípios básicos em recomendações objetivas, alinhando interesses com a finalidade de preservar e otimizar o valor econômico de longo prazo da organização, facilitando seu acesso a recursos e contribuindo para a qualidade da gestão da organização, sua longevidade e o bem comum. Adaptado de: https://tinyurl.com/52xdxh55. Acesso em: 26 ago. 2025. Os princípios básicos de governança corporativa, alinhados com as melhores práticas de governança corporativa, são: • transparência; • equidade; • prestação de contas (accountability); • responsabilidade corporativa. Em relação a esses princípios, avalie as descrições a seguir. I – Trata‑se do zelo pela viabilidade econômico‑financeira das organizações, da redução das externalidades negativas e do aumento das positivas. II – Trata‑se do desejo de disponibilizar para as partes interessadas as informações que sejam de seu interesse e não apenas aquelas impostas por disposições de leis ou regulamentos. III – Trata‑se do tratamento justo e isonômico dos shareholders e dos stakeholders, considerando seus direitos, seus deveres, suas necessidades, seus interesses e suas expectativas. IV – Trata‑se da prestação de contas da atuação dos agentes de governança, de maneira clara, concisa, compreensível e tempestiva e a assunção integral das consequências dos seus atos e das suas omissões. 77 CIÊNCIAS CONTÁBEIS INTERDISCIPLINAR As descrições I, II, III e IV referem‑se, respectivamente, aos seguintes princípios: A) Transparência, equidade, prestação de contas (accountability) e responsabilidade corporativa. B) Transparência, prestação de contas (accountability), responsabilidade corporativa e equidade. C) Equidade, responsabilidade corporativa, prestação de contas (accountability) e transparência. D) Prestação de contas (accountability), equidade, transparência e responsabilidade corporativa. E) Responsabilidade corporativa, transparência, equidade e prestação de contas (accountability). Resposta correta: alternativa E. Análise da questão Os princípios básicos de governança corporativa, alinhados com as melhores práticas de governança corporativa, segundo o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa, são: Transparência. Consiste no desejo de disponibilizar para as partes interessadas as informações que sejam de seu interesse, e não apenas aquelas impostas por disposições de leis ou regulamentos. Não deve restringir‑se ao desempenho econômico‑financeiro: devem ser analisados também os demais fatores (inclusive intangíveis) que norteiam a ação gerencial e que conduzem à preservação e à otimização do valor da organização. Equidade. Caracteriza‑se pelo tratamento justo e isonômico de todos os sócios e demais partes interessadas (stakeholders), levando em consideração seus direitos, seus deveres, suas necessidades, seus interesses e suas expectativas. Prestação de contas (accountability). Refere‑se ao fato de que os agentes de governança devem prestar contas de sua atuação de modo claro, conciso, compreensível e tempestivo, assumindo integralmente as consequências de seus atos e de suas omissões e atuando com diligência e responsabilidade no âmbito dos seus papéis. Responsabilidade corporativa. Diz respeito ao fato de que os agentes de governança devem zelar pela viabilidade econômico‑financeira das organizações, reduzir as externalidades negativas de seus negócios e suas operações e aumentar externalidades as positivas, levando em consideração, no seu modelo de negócios, os diversos capitais (financeiro, manufaturado, intelectual, humano, social, ambiental e reputacional) no curto prazo, no médio prazo e no longo prazo. Adaptado de: LANDRISCINA, G. Conheça os quatro princípiosda governança corporativa. IBGC, 27 jan. 2020. Disponível em: https://tinyurl.com/ye26wzy8. Acesso em: 26 ago. 2025. 78 Unidade I Questão 2. Leia o texto a seguir. Environmental, Social and Governance (ESG) O ESG surgiu no mercado financeiro como uma forma de medir o impacto que as ações de sustentabilidade geram nos resultados das empresas. A sigla surgiu a primeira vez em 2004, dentro de um grupo de trabalho do Principles for Responsible Investment (PRI), rede ligada à ONU, que tem objetivo de convencer investidores sobre investimentos sustentáveis. Adaptado de: ESG: o que é a sigla que virou sinônimo de sustentabilidade. Exame, 4 jul. 2024. Disponível em: https://tinyurl.com/36rdyb5f. Acesso em: 26 ago. 2025. Com base no exposto e nos seus conhecimentos, avalie as afirmativas. I – O conceito ESG refere‑se às boas práticas empresariais que têm compromisso com a sustentabilidade, com o meio ambiente, com o social e com a governança corporativa. II – O “E” da sigla ESG relaciona‑se à energia consumida pela empresa, à emissão de resíduos e às relações de trabalho. III – A governança é um aspecto secundário e irrelevante do conceito ESG e que trata das boas práticas em relação ao meio ambiente, ao social e à gestão empresarial sustentável. É correto o que se afirma em: A) II, apenas. B) I, apenas. C) I e II, apenas. D) II e III, apenas. E) I, II e III. Resposta correta: alternativa B. Análise das afirmativas I – Afirmativa correta. Justificativa: o conceito ESG faz referência às boas práticas corporativas no que tange aos aspectos ambientais (environment), sociais (social) e de governança (governance). Tais aspectos proporcionam ganhos para as empresas, uma vez que clientes e investidores atribuem mais valor às corporações que 79 CIÊNCIAS CONTÁBEIS INTERDISCIPLINAR são responsáveis com o meio ambiente e com a sociedade, assim como com a governança corporativa, que trata da fiscalização e do controle empresariais. II – Afirmativa incorreta. Justificativa: a letra “E” da sigla ESG refere‑se às questões ambientais, como consumo de água e de energia, despejo de resíduos e outros itens. As relações de trabalho referem‑se à letra “S” da sigla ESG, ou seja, questões sociais. III – Afirmativa incorreta. Justificativa: o aspecto governança, ou seja, a letra “G” da sigla ESG, é importante e refere‑se às boas práticas de governança empresarial, isto é, ao emprego de um sistema de controle interno de processos e de procedimentos, de modo a mitigar riscos, demonstrar transparência nas operações, atender às expectativas das partes interessadas, cumprir a lei e preservar o valor da organização.e em conformidade com as regulamentações fiscais e contábeis. Na unidade I, mostraremos como a governança corporativa busca assegurar boas práticas de gestão e o alinhamento entre os interesses de acionistas, gestores e demais stakeholders, enquanto o SPED facilita o cumprimento das obrigações fiscais e contábeis por meio da digitalização dos dados. Analisaremos o valor e o propósito das empresas, explicaremos a evolução das estruturas empresariais, como a transição da sociedade limitada (LTDA.) para a sociedade por ações (S/A), e refletiremos sobre a separação entre propriedade e gestão, tendo como questão central os conflitos de interesses entre os stakeholders. Destacaremos que os princípios de governança compliance, accountability, disclosure e fairness são centrais para uma atuação ética e responsável e serão detalhados ao longo deste livro‑texto. Mergulharemos nos princípios da governança corporativa, abordando a importância do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC) e os impactos das diretrizes e dos códigos de boas práticas. Exploraremos os princípios da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e compararemos os diferentes contextos de governança no Brasil e no mundo, enfatizando as particularidades e os desafios de cada cenário. Trataremos do uso dos controles internos na governança corporativa, que ajudam a monitorar e a fiscalizar o desempenho, prevenindo fraudes e outras práticas prejudiciais. Nesse contexto, analisaremos a Lei Sarbanes‑Oxley (SOX) dos Estados Unidos e a Lei das S/A do Brasil, além dos papéis da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e da Bolsa de Valores (B3). Discutiremos os conceitos emergentes sobre meio ambiente e mudanças climáticas e a importância da responsabilidade social. Observaremos que a sustentabilidade empresarial evoluiu para incorporar o conceito de ESG, que integra práticas ambientais, sociais e de governança na tomada de decisões corporativas. Exploraremos o papel dos fundos ESG no mercado de valores mobiliários como incentivo ao aumento do valor das empresas, bem como as diretrizes para a divulgação de informações sobre sustentabilidade, como as Normas Brasileiras de Contabilidade – Técnicas de Divulgação de Informações sobre Sustentabilidade (NBC‑TDS), a Global Reporting Initiative (GRI) e o relato integrado. Explicaremos que as NBC‑TDS, aprovadas pelo Conselho Federal de Contabilidade (CFC), trazem diretrizes para relatórios financeiros de sustentabilidade. O objetivo dessas normas é auxiliar empresas a reportarem dados sobre riscos e oportunidades relacionadas a questões climáticas e de sustentabilidade, permitindo que investidores e outros usuários entendam o impacto ambiental e social das operações da empresa. Na unidade II, abordaremos as tecnologias tributárias. Começaremos explicando como o SPED organiza as informações geradas pelas empresas para que se possa ter o cruzamento dos dados das operações tributárias, contábeis e trabalhistas das empresas, permitindo ao governo auditar as empresas por meio dos dados fornecidos. Entenderemos como deve ser feita a escrituração nos diversos sistemas do SPED, a fim de evitar que a empresa seja notificada por estar em uma malha fiscal ou receba uma autuação. 9 Estudaremos como os registros gerados pela Escrituração Fiscal Digital (EFD) cruzam as informações quanto à apuração do Imposto sobre Circulação de Mercadoria e Serviços (ICMS), que tem competência estadual, e à apuração do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), que tem competência federal. Apresentaremos o sistema EFD Contribuições, que consiste na demonstração da apuração do Programa de Integração Social (PIS), e a Contribuição para Financiamento da Seguridade Social (Cofins), contribuições sociais de competência da União. Abordaremos as informações e as demonstrações contábeis elaboradas pelas empresas na Escrituração Contábil Digital (ECD), que terá relação direta tanto com o sistema da Escrituração Contábil Fiscal (ECF) quanto com a apuração do Imposto de Renda Pessoa Jurídica (IRPJ) e da Contribuição Social sobre o Lucro (CSLL) para os regimes de lucro presumido e de lucro real trimestral ou anual. Trataremos das informações geradas na prestação de serviço de forma profissional e autônoma e da contratação de serviço declaradas na Escrituração Fiscal Digital de Retenções e Outras Informações Fiscais (EFD‑Reinf). Discorreremos sobre como funciona o sistema de dados trabalhistas e previdenciários enviados ao SPED eSocial. É importante enfatizar que as leis trabalhistas e previdenciárias vigentes no país devem ser instrumentos para que as empresas cumpram seus direitos e os direitos do trabalhador. Por meio dessa análise abrangente, esperamos fornecer uma base sólida de conhecimento e insights práticos que apoiem gestores, profissionais da contabilidade e demais profissionais na aplicação dos princípios de governança e sustentabilidade, sempre adotando uma visão integrada com a tecnologia tributária. As práticas abordadas neste livro‑texto são essenciais para empresas que buscam não apenas prosperar, mas também contribuir positivamente para a sociedade e para o meio ambiente. Desejamos a você uma experiência agradável na leitura deste livro‑texto e sucesso na carreira profissional que você escolheu. 11 CIÊNCIAS CONTÁBEIS INTERDISCIPLINAR Unidade I Um modo interessante de introduzir o tema “governança corporativa e sustentabilidade” é apresentar um livro essencial, publicado na década de 1990. Trata‑se da obra intitulada Cannibals with forks: the triple bottom line of 21st century business, escrita por John Elkington, traduzida para o português como Sustentabilidade: canibais com garfo e faca. Esse livro é uma obra inovadora que reformula a maneira como as empresas pensam sobre sucesso e responsabilidade. O autor introduz o conceito revolucionário do triple bottom line (TBL), ou tríplice resultado, enfatizando que as empresas devem ser avaliadas não apenas pelo lucro, mas também pelo impacto social e ambiental que geram. O autor defende que as corporações do século XXI precisam se afastar de um modelo de crescimento “canibal”, aquele que devora recursos naturais sem considerar as consequências, e adotar práticas que garantam a sustentabilidade a longo prazo. Figura 1 – Capa do livro Sustentabilidade: canibais com garfo e faca Disponível em: https://tinyurl.com/yc2h57wh. Acesso em: 3 set. 2025. A metáfora do título faz uma crítica às tentativas superficiais de algumas empresas de parecerem “verdes”, ao mesmo tempo em que continuam a explorar e esgotar os recursos naturais de maneira predatória. 12 Unidade I O TBL sugere que as organizações devem medir o seu desempenho em três dimensões: lucro (profit), pessoas (people) e planeta (planet). Essa abordagem inovadora implica uma transformação profunda na gestão empresarial, incentivando modelos que integrem responsabilidade social e proteção ambiental à viabilidade econômica. O autor discute também as barreiras culturais e institucionais que dificultam a adoção de um modelo mais equilibrado, bem como as mudanças de mentalidade necessárias para que o TBL seja mais do que um conceito teórico. Veremos, a seguir, os conceitos que nortearam a origem e as motivações para a consolidação da governança corporativa, seus princípios e objetivos, como as empresas se estruturam para esse modelo de gestão e, também, como a governança corporativa vem sendo praticada no Brasil e no mundo. Assim, apresentaremos a integração do modelo de governança corporativa com instrumentos definidos por instituições como o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), Comissão de Valores Mobiliários (CVM), a Bolsa de Valores (B3) e o Conselho Federal de Contabilidade (CFC), cuja finalidade é comunicar aos investidores e à sociedade quais empresas se destacam nesse novo cenário, por seus critérios éticos e responsáveis. 1 O QUE É GOVERNANÇA CORPORATIVA? Governança corporativaé um tema relativamente recente na administração. Até o final da década de 1980, essa expressão ainda não era usada, embora as questões centrais envolvidas nesse conceito já fossem uma preocupação tanto para os empresários quanto para os estudiosos do pensamento econômico. Desde o século XIX, esses pensadores se defrontam com questões relacionadas à separação entre a propriedade e a gestão das organizações. Os conflitos de agência, decorrentes dessa separação, são considerados os fatores cruciais para o surgimento da governança corporativa. O início da governança corporativa pode ser associado aos estudos de Michael Jensen e William Meckling, em 1976. Esses autores publicaram o resultado de suas pesquisas sobre empresas estadunidenses e britânicas, apontando características que eles convencionaram chamar de problema do agente principal. Esse problema deu origem à Teoria da Firma, também conhecida como Teoria do Agente Principal. Segundo esses acadêmicos, o problema do agente principal surge quando o sócio (principal) contrata outra pessoa (agente) para administrar a empresa em seu lugar. De acordo com a teoria desenvolvida, os executivos e conselheiros contratados pelos acionistas tenderiam a agir de forma a aumentar seus próprios benefícios, por exemplo, maiores salários, maior estabilidade no emprego, mais poder, entre outros, agindo em interesse próprio, deixando, assim, os interesses da empresa e das demais partes interessadas (stakeholders) em segundo plano. Para minimizar o problema, os autores sugeriram que as empresas e seus acionistas devessem adotar uma série de medidas para alinhar os interesses dos envolvidos, objetivando, acima de tudo, o sucesso da empresa. 13 CIÊNCIAS CONTÁBEIS INTERDISCIPLINAR Assim, foram elaboradas propostas de ações práticas para monitorar, controlar e divulgar amplamente todas as informações aos públicos interessados: acionistas, governos, órgãos de fiscalização e regulação, sistema financeiro e sociedade. Esse conjunto de práticas foi chamado de governança corporativa. A preocupação da governança corporativa é criar um conjunto eficiente de mecanismos, tanto de incentivos quanto de monitoramento, a fim de assegurar que o comportamento dos administradores esteja sempre alinhado com o melhor interesse da empresa. O desenvolvimento da governança corporativa tem raízes firmes e existem fortes razões para adotá‑la e disseminá‑la. Organizações multilaterais como as Nações Unidas (ONU) e a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) consideram as boas práticas da governança corporativa fundamentais na economia global em suas três dimensões: econômica, social e ambiental (Rossetti; Andrade, 2014). 1.1 Valor e propósito das empresas Empresas desempenham um papel fundamental na sociedade moderna, indo além do objetivo de gerar lucro. Elas são organismos dinâmicos que influenciam a economia, fomentam a inovação e criam empregos. No entanto, seu valor e propósito vão além do financeiro; englobam também sua contribuição social, ambiental e cultural. As empresas nascem para durar para sempre. Entretanto, elas se modificam ao longo do tempo, por vários motivos. Algumas crescem e prosperam, outras atingem a maturidade e permanecem por um longo tempo nesse estágio e outras entram em declínio, quando seu modelo de negócio já não atende mais às expectativas dos seus clientes. O valor da empresa está diretamente relacionado ao seu ciclo de vida e a seus objetivos de curto, médio e longo prazos. Conhecer o valor da empresa é fundamental, independentemente de o proprietário desejar vendê‑la. Mesmo que a gestão da empresa seja competente, elas estão sujeitas aos acontecimentos do ambiente externo que podem aumentar ou diminuir o seu valor. Alguns exemplos que provocam perdas significativas no valor das empresas são boatos, notícias falsas, fatos relevantes revelados aos acionistas, resultados financeiros abaixo das expectativas dos investidores, entre outros. Assim, pode‑se avaliar as empresas pela combinação de três tipos de valores: valor patrimonial, valor econômico e valor mercadológico. O valor patrimonial é o valor do patrimônio líquido da empresa. No exemplo de balanço patrimonial dado na tabela a seguir, a conta de patrimônio líquido (R$ 900 mil) é formada por duas subcontas: o capital social (R$ 840 mil) e as reservas de capital (R$ 60 mil). 14 Unidade I Tabela 1 – Modelo de balanço patrimonial: contas sintéticas Ativo Passivo Ativo circulante 2.445.500,00 Passivo circulante 1.725.000,00 Disponível 531.500,00 Obrigações a fornecedores 845.000,00 Clientes (vendas mensais) 640.000,00 Empréstimos e financiamentos 185.500,00 Tributos a recuperar 85.000,00 Tributos e recolher 139.000,00 Estoques 1.189.000,00 Obrigações trabalhistas 555.500,00 Ativo não circulante 554.500,00 Passivo não circulante 375.000,00 Realizável no longo prazo 100.000,00 Exigível a longo prazo 375.000,00 Investimentos 150.000,00 Imobilizado 225.000,00 Patrimônio líquido 900.000,00 Intangível 79.500,00 Capital social 840.000,00 Reservas de capital 60.000,00 Total do ativo 3.000.000,00 Total do passivo 3.000.000,00 Fonte: Pitteri (2018, p. 90). Como se formaram essas contas? O capital social, no valor de R$ 840 mil, foi criado na abertura da empresa, com recursos financeiros dos seus proprietários. Esse capital pode ter sido aplicado em diversos ativos: dinheiro em bancos, aplicações financeiras, instalações, veículos, aquisição de marcas, entre outros. Assim que a empresa iniciou suas atividades, passou a efetuar compras e vendas de produtos e/ou serviços que geraram resultados, que podem ser positivos (lucro) ou negativos (prejuízo). Vamos assumir que a empresa teve um lucro de R$ 60 mil, e os proprietários decidiram não distribuir esse lucro aos sócios. Assim, criaram uma conta chamada reservas de capital (R$ 60 mil) e, futuramente, esse valor poderá ser integralizado ao capital social, aumentando, assim, o valor patrimonial da empresa. O valor patrimonial é muito importante para empresas que precisam de uma estrutura patrimonial para operar, por exemplo, indústrias, plataformas de extração de petróleo, hospitais, grandes empresas de agronegócio, entre outras. No entanto, com o intenso desenvolvimento do setor de serviços, o valor patrimonial nem sempre é o fator decisivo para valorizar a empresa. 15 CIÊNCIAS CONTÁBEIS INTERDISCIPLINAR Uma reportagem divulgada na revista Exame, em 13 de setembro de 2016, traz como título “As empresas que estão bem além do valor patrimonial na Bolsa”. Um parágrafo que define o valor mercadológico de algumas empresas diz o seguinte: Atualmente, algumas empresas são negociadas bem acima do seu valor patrimonial na Bovespa. Um dos exemplos é a Cielo. O múltiplo preço por valor patrimonial da ação está em 17,43x. Em outras palavras, isto significa que o mercado está pagando por estas empresas mais do que elas realmente valem em termos de patrimônio. Além da Cielo, outras 16 empresas estão nesta situação, conforme o levantamento realizado pela Ativa Corretora (Mamona, 2016). Isso acontece porque, além do valor patrimonial, as empresas possuem outros dois valores muito importantes – o valor econômico e o valor mercadológico –, que devem ser considerados na determinação do valor de uma empresa. O valor econômico é o potencial de geração de receita líquida ao longo do tempo. Muito além de um valor patrimonial elevado e uma imagem positiva na mente dos públicos interessados, a empresa também precisa ser capaz de gerar lucro para atender aos proprietários ou acionistas da empresa. Desse modo, quando um modelo de negócio inicia um processo de perda de receita, é fundamental que seus gestores analisem todos os fatores que retiram valor da empresa e busquem soluções para aumentar o potencial de geração de lucro. O valor mercadológico é aquele obtido por meio de uma imagem positiva na mente dos stakeholders. Atualmente, com as preocupações voltadas para aresponsabilidade social e ao meio ambiente, as empresas não podem pensar somente no lucro financeiro. Elas precisam cuidar do meio ambiente, desenvolver produtos e serviços que economizem recursos esgotáveis, evitar fraudes e escândalos por corrupção, bem como desenvolver projetos de inovação em seu modelo de negócio para que se mantenham alinhadas às necessidades dos seus clientes e da sociedade em geral. O propósito de uma empresa reflete a razão de sua existência, seu impacto positivo na vida das pessoas e na comunidade em que está inserida. Empresas bem‑sucedidas no longo prazo são aquelas que reconhecem que seus resultados financeiros caminham de mãos dadas com sua responsabilidade social e ambiental. Ao integrar valores éticos, sustentabilidade e práticas de governança transparentes, uma empresa não só fortalece sua reputação como também cultiva confiança entre clientes, colaboradores e parceiros. As empresas que aliam propósitos sólidos à geração de valor mercadológico não apenas prosperam, mas ajudam a moldar uma sociedade mais justa e sustentável. O desafio está em encontrar um equilíbrio entre a lucratividade, a responsabilidade social e a preservação do meio ambiente, reforçando a noção de que o progresso corporativo deve beneficiar tanto o negócio quanto a sociedade. 16 Unidade I Saiba mais O vídeo indicado a seguir traz definição e exemplos de propósito de empresas. COMO definir o propósito da empresa? 3 exemplos de propósitos de empresas. 2022. 1 vídeo (7min). Publicado pelo canal Gilberto de Souza. Disponível em: https://tinyurl.com/2dy5fs2d. Acesso em: 9 set. 2025. 1.2 Da sociedade limitada para a sociedade por ações As sociedades limitadas (LTDA.) foram criadas para serem sociedades de pessoas, ou seja, a qualidade pessoal dos sócios é fundamental para o seu funcionamento. O sócio, além de contribuir com dinheiro, tem papel decisivo na administração da empresa. Com a evolução das práticas empresariais, admite‑se que as sociedades limitadas possuem um caráter híbrido entre sociedade de pessoas e sociedade de capital, como veremos mais adiante. Já as sociedades por ações foram estruturadas para serem sociedades de capital. Isso significa que é muito mais importante o dinheiro que cada pessoa investe na empresa do que suas qualidades pessoais. Assim, sua característica marcante sempre foi o distanciamento entre os proprietários das ações e a administração da empresa. Para comandar as sociedades por ações foram criados mecanismos, como o conselho de administração, buscando aproximar os interesses dos acionistas do cotidiano da sociedade, algo que não existe nas sociedades limitadas, em que os papéis de sócio e administrador se confundem. A estrutura básica da empresa de sociedade limitada é mais simples do que a da sociedade por ações. As responsabilidades e os direitos pertencem aos proprietários que formaram a sociedade por meio de um contrato social. O capital social é dividido em cotas e não existe necessidade de um capital social mínimo. Sua administração é feita por, pelo menos, um administrador que possui o poder de representar a sociedade em todos seus atos. A entrada e a saída de sócios são feitas via alteração do contrato social. Já a sociedade por ações apresenta uma estrutura mais complexa e necessita de mais controles, pois, com a venda das ações da empresa para outras pessoas, os direitos e as responsabilidades adquirem mais complexidade. A administração da empresa do tipo sociedade por ações deve possuir, no mínimo, quatro órgãos: • assembleia geral; • conselho de administração; 17 CIÊNCIAS CONTÁBEIS INTERDISCIPLINAR • diretoria; • conselho fiscal. As regras de gestão e controle são estabelecidas no estatuto social. A entrada e a saída de acionistas ocorrem a qualquer momento por meio da compra e venda das ações. O capital social é dividido em ações e o órgão principal é a assembleia geral, composto pelos acionistas da empresa e/ou seus representantes. A administração é feita obrigatoriamente por uma diretoria composta por, no mínimo, dois diretores, que representam a sociedade em todos os seus atos. O conselho fiscal é composto por três a cinco membros. A figura a seguir apresenta um esquema que ilustra o passo a passo para migrar da empresa de sociedade limitada para empresa de sociedade por ações. Empresa LTDA. Empresa S/A capital fechado Capital social se transforma em ações que poderão ser negociadas no mercado de capitais Patrimônio líquido 900.000,00 Reservas de lucros 60.000,00 Capital social 840.000,00 Total do passivo 3.000.000,00 Empresa S/A capital aberto Figura 2 – Abertura de capital das empresas A abertura do capital da empresa ocorre no momento em que o capital social se transforma em ações, que poderão ser negociadas no mercado de valores mobiliários, também chamado de mercado de capitais. O contrato social é substituído pelo estatuto social e a empresa, então, inicia o processo de cumprir com os requisitos jurídicos e administrativos para abrir seu capital e colocar as ações à venda nas bolsas de valores. Esse processo não ocorre imediatamente, pois a empresa mantém o capital fechado aos sócios proprietários, logo, os donos da empresa de sociedade limitada. A empresa precisa cumprir muitas exigências e isso pode demorar meses ou anos. Por exemplo, a Bolsa de Valores do Brasil (B3) possui um 18 Unidade I segmento especial para as empresas que estão se preparando para cumprir as exigências, o que pode durar até sete anos. Quando passa a haver um número significativo de acionistas, a interferência direta dos proprietários na administração da empresa se torna impraticável. Assim, as empresas passam a contratar executivos profissionais para gerir as corporações. Vale ressaltar que as empresas de capital aberto são regulamentadas por leis e órgãos reguladores, como a Lei das S/A, a CVM e a B3, garantindo um nível de confiabilidade e transparência para os investidores que comprarem as ações das empresas. Você deve se lembrar da sigla S/A como aquela que aparece no final da razão social das empresas, indicando que se trata de uma empresa sociedade anônima. Porém, isso foi alterado na década de 1990, quando uma legislação específica estabeleceu a mudança da expressão sociedade anônima para sociedade por ações. Como nos explica Fontoura (2013), a expressão sociedade por ações substituiu a expressão sociedade anônima, para preservar a boa‑fé e a ética social, apesar do costume integrado pelo uso cotidiano de sociedade anônima. No início dos anos 1990, o governo do então presidente Fernando Collor de Mello promulgou a Lei n. 8.021/1990, que dispôs, entre outros assuntos, sobre a vedação ao pagamento ou resgate de qualquer título ou aplicação, bem como dos seus rendimentos ou ganhos, a beneficiário não identificado. Desse modo, todos os operadores do mercado de capitais devem ser identificados, o que não ocorria no passado. Daí a expressão sociedade anônima não fazer mais sentido. Lembrete Nas sociedades limitadas, as responsabilidades e os direitos pertencem aos proprietários que formaram a sociedade por meio de um contrato social. Nas sociedades por ações, as regras de gestão e controle são estabelecidas no estatuto social. A entrada e a saída de acionistas ocorrem a qualquer momento por meio da compra e venda das ações. 1.3 Separação entre a propriedade e a gestão Imagine uma empresa. Pode ser uma fábrica de brinquedos ou uma rede de restaurantes. Essa empresa tem donos, certo? São as pessoas que investiram dinheiro para que ela existisse e, assim, são os proprietários dessa empresa. 19 CIÊNCIAS CONTÁBEIS INTERDISCIPLINAR Porém, muitas vezes, esses donos não são as mesmas pessoas que administram o dia a dia da empresa. Eles podem ter outros afazeres, podem não ter o conhecimento específico para gerenciar o negócio, ou simplesmente preferem que outras pessoas cuidem disso. É aí que entra a gestão. A gestão é o time de pessoas contratadaspara administrar a empresa, como os diretores, os gerentes, os supervisores etc. Todas essas pessoas tomam decisões sobre o que produzir, como vender, quem contratar e como gastar o dinheiro. Assim, a separação entre a propriedade e a gestão se dá da seguinte forma: • Propriedade: é de quem é a empresa, quem tem o direito sobre os lucros e o poder de decidir o futuro dela – se vão vender, ampliar, mudar o modelo de negócio ou outra decisão. São os acionistas, nas empresas de capital aberto, ou os donos, nas empresas de sociedade limitada. • Gestão: é quem efetivamente administra a empresa no dia a dia, tomando as decisões operacionais e estratégicas para que o negócio funcione e dê certo. São os executivos e os gerentes contratados. Para ficar ainda mais claro, pense assim: • Empresa pequena familiar: geralmente, a propriedade e a gestão estão nas mãos das mesmas pessoas. O dono é quem trabalha na loja, atende os clientes e cuida das contas. Aqui, a separação é mínima ou inexistente. • Empresa grande ou multinacional: é muito comum que os donos e os acionistas, que podem ser milhares de pessoas, não tenham nenhuma ligação direta com a administração diária da empresa. Eles elegem um conselho de administração, que, por sua vez, contrata os executivos para gerenciar o negócio. Aqui, a separação entre propriedade e gestão é bem clara. Essa separação é importante por vários motivos: • Especialização: nem sempre o dono de um negócio tem as habilidades necessárias para gerenciar todas as áreas da empresa. Contratar profissionais especializados em finanças, marketing, operações ou logística pode trazer melhores resultados. • Escala: à medida que uma empresa cresce, fica inviável para uma ou poucas pessoas cuidarem de tudo. A separação permite delegar responsabilidades e profissionalizar a gestão. • Governança corporativa: em empresas maiores, a separação ajuda a criar mecanismos de controle e transparência, evitando que os interesses dos donos se sobreponham aos da própria empresa ou de outros stakeholders, como funcionários e clientes. • Sucessão: facilita a transição de liderança quando os donos originais se afastam, permitindo que gestores profissionais assumam o comando. 20 Unidade I Em resumo, a separação entre a propriedade e a gestão é um fenômeno comum e, muitas vezes, necessário para o crescimento e a profissionalização das empresas. Significa que quem é o dono nem sempre é quem está no comando do dia a dia, e essa divisão de papéis pode trazer muitos benefícios para o negócio. Ao longo do século XX, a separação entre a propriedade e a gestão promoveu uma profunda transformação, tanto na estrutura quanto nos controles organizacionais. Pode‑se afirmar que há três eventos de importância histórica resultantes da separação entre a propriedade e a gestão: • o surgimento de empresas gigantes; • a dispersão de capital no mundo por meio das bolsas de valores; • a despersonalização da propriedade. 1.3.1 O surgimento de empresas gigantes Muitos acontecimentos contribuíram para que as empresas se tornassem gigantes. O sistema capitalista recuperou‑se da grande depressão dos anos 1930, ocasionados pela quebra da Bolsa de Valores de Nova York, em 24 de outubro de 1929. A partir daí, as empresas voltaram a registrar notáveis índices de crescimento. A tabela a seguir apresenta a participação percentual das 500 maiores empresas estadunidenses no produto interno bruto (PIB) do país, ao longo das décadas de 1950 até 2024. Tabela 2 – Receita das 500 maiores empresas estadunidenses comparadas com o PIB dos EUA Ano 500 maiores (US$ bilhões) PIB dos EUA (US$ bilhões) Participação (%) Evento histórico 1955 137 430 32 Economia pós‑guerra em crescimento 1970 643 1.070 60 Período pré‑crise do petróleo 1995 3.100 7.660 40 Fase de expansão tecnológica e boom do setor de serviços 2013 12.100 16.690 72 Saída da crise de 2008; início da recuperação 2024 18.800 27.940* 67 Representa dois terços do PIB dos EUA *O PIB dos EUA em 2024 foi confirmado em US$ 29.985 bilhões. Fonte: United [...] (s.d.). 21 CIÊNCIAS CONTÁBEIS INTERDISCIPLINAR Em 2024, as receitas totais das empresas globais foram estimadas em aproximadamente US$ 57,7 trilhões, de acordo com dados de mais de 10 mil empresas de diversos setores, como energia, varejo, tecnologia e finanças, analisadas globalmente. A receita total das 500 maiores empresas globais foi de aproximadamente US$ 41 trilhões, o que corresponde a aproximadamente 71% do total das receitas globais, ou seja, apenas 500 empresas concentram dois terços das receitas das empresas globais. As cinco maiores empresas globais, por receita, em 2024 foram: • Walmart (EUA): US$ 648,1 bilhões. • Amazon (EUA): US$ 574,8 bilhões. • State Grid (China): US$ 545,9 bilhões. • Saudi Aramco (Arábia Saudita): US$ 494,9 bilhões. • Sinopec (China): US$ 429,7 bilhões. Apenas a State Grid não possui capital aberto negociado em bolsas de valores globais. Quadro 1 – As cinco maiores empresas globais Empresa País Capital aberto Código(s) Bolsa(s) de valores Walmart EUA Sim WMT NYSE Amazon EUA Sim AMZN NASDAQ State Grid China Não – – Saudi Aramco Arábia Saudita Sim (parcial) 2222.SR Tadawul Sinopec China Sim 0386.HK/600028.SS/SNP HKEX/SSE/NYSE Fonte: Companies [...] (2025). O agigantamento das corporações tem sido acompanhado por um processo histórico de dispersão do capital de controle, sob o impacto de cinco fatores: • constituição de grandes empresas na forma de S/A de capital aberto; • abertura de capital das empresas fechadas; • aumento do número de investidores nos mercados de capitais; • processos sucessórios de empresas familiares; • fusões e aquisições. 22 Unidade I 1.3.2 As bolsas de valores e a dispersão de capital no mundo O número de grandes companhias listadas nas bolsas de valores de todo o mundo também tem aumentado significativamente; em 1990, existiam apenas 21.585; em 2024, estima‑se que existam cerca de 41 mil empresas listadas em todo o mundo. Esse número pode variar em virtude das novas aberturas de capital, fechamentos de capital e fusões e aquisições de empresas. Aqui está uma visão geral aproximada: • Ásia (incluindo China, Índia e Japão): 26 mil empresas. • Américas (Norte, Central e Sul): 6 mil empresas. • Europa, Oriente Médio e África: 8 mil empresas. • Oceania: 700 empresas. Os números são dominados pela Ásia, principalmente pela grande quantidade de empresas listadas na China e na Índia. Já os EUA têm menos empresas, mas a maior capitalização de mercado (Santos, 2022). Saiba mais Leia a reportagem de João Paulo Santos para o site Bora Investir, que trata das principais bolsas de valores no mundo. SANTOS, J. P. Da China ao Brasil: quais são as principais bolsas de valores do mundo? Bora Investir, 17 out. 2022. Disponível em: https://tinyurl.com/5xzf3xzm. Acesso em: 8 set. 2025. 1.3.3 Surgimento de proprietários passivos Com a abertura do capital das empresas, ocorreu uma crescente desconexão entre os acionistas‑proprietários e a gestão das empresas. Esse fenômeno é muito comum em mercados financeiros modernos. As ações de grandes empresas de capital aberto são, com frequência, adquiridas por inúmeros investidores institucionais ou passivos, como os modernos Exchange Traded Funds (ETFs), ou seja, os fundos de investimentos negociados na Bolsa de Valores. O mercado de capitais acionário possibilitou, de um lado, a expansão e o agigantamento do mundo corporativo, com a concentração do poder econômico nas maiores empresas e economias dos países. 23 CIÊNCIAS CONTÁBEIS INTERDISCIPLINAR Figura 3 – Ambiente do mercado de capitais digital Disponível em: https://tinyurl.com/3tt7pkej. Acesso em: 10 set. 2025. Porém, de outro lado, manifestou‑se outro importante movimento, oposto ao da concentração: a dispersão do número de acionistas e a despersonalização da propriedade. A consequência é que os acionistas se tornaram proprietários passivos. Os proprietários passivos investemsem envolvimento na gestão das empresas. Eles não exercem influência direta sobre decisões estratégicas, delegando poder aos gestores que administram os fundos. Isso pode criar uma lacuna na responsabilidade e na supervisão corporativa. A despersonalização da propriedade tem como consequência três características. A primeira delas é a fragmentação da propriedade, em que milhões de acionistas em empresas globais não possuem influência na gestão. A falta de pressão direta de proprietários ativos pode permitir más práticas de gestão. A segunda é a redução da influência ativa, pois os investidores passivos se interessam prioritariamente pelos retornos financeiros, ou seja, quanto maior o lucro, maior a distribuição de dividendos. Eles não participam de assembleias nem de decisões corporativas. A terceira é a concentração de poder das grandes gestoras, que controlam enormes quantidades de ações em poucas organizações. Essas grandes gestoras institucionais, entretanto, promovem, frequentemente, iniciativas de sustentabilidade, já que possuem incentivos para preservar o valor das empresas no longo prazo (Rossetti; Andrade, 2014). 24 Unidade I 1.4 Conflitos de agência e desalinhamentos do macroambiente Os conflitos de agência e desalinhamentos do macroambiente que impulsionaram o desenvolvimento da governança corporativa incluem, além da separação da propriedade e da gestão, um conceito que os economistas definem como assimetria de informações. Os gestores têm acesso privilegiado às informações da empresa, dificultando a supervisão por acionistas e investidores. Em empresas com acionistas controladores, os interesses dos controladores podem conflitar com os dos acionistas minoritários, levando a decisões que os favorecem. Os gestores podem tomar decisões arriscadas, sabendo que não arcarão diretamente com as consequências financeiras, que recaem sobre os acionistas. Existem desafios importantes para equilibrar os interesses de diferentes partes interessadas, como acionistas, credores, colaboradores e a comunidade. A entrada de empresas em mercados globais aumentou a necessidade de padrões de governança robustos para atrair investidores internacionais. As exigências por práticas ambiental e socialmente responsáveis, impulsionadas pela sociedade consciente, investidores e órgãos reguladores demandaram mudanças estruturais nas empresas. Além disso, a digitalização facilitou a transparência, ao mesmo tempo que aumentou a complexidade dos negócios e os riscos associados às fraudes digitais, exigindo estruturas de governança mais robustas. Esses fatores criaram um ambiente que favoreceu o avanço da governança corporativa, destacando a importância de maior alinhamento entre as partes interessadas. 1.4.1 Conflitos entre proprietários e gestores O que está por trás da relação entre proprietários e gestores? Com o tempo, estudiosos perceberam que, dentro das empresas, surgiu uma nova força de poder: os gestores. Dois estudos ajudaram a entender essa mudança. O primeiro, de Berle e Means (1932), mostrou que os donos das empresas, ou seja, os acionistas, estavam cada vez mais distantes das decisões do dia a dia, que passaram a ser tomadas por gerentes. Já Galbraith (1967) destacou que os gestores se tornaram peças‑chave nas organizações modernas, dominando estruturas complexas, enquanto os acionistas dependem das informações que recebem desses profissionais (Rossetti; Andrade, 2014). A figura 4 a seguir ilustra justamente esse cenário: o gestor e o acionista discutindo os resultados de uma empresa. 25 CIÊNCIAS CONTÁBEIS INTERDISCIPLINAR Gestor Acionista Figura 4 – Assimetria de informações entre acionistas e gestores Adaptada de: https://tinyurl.com/4p7d7fk2. Acesso em: 10 set. 2025. Com a divisão entre quem é dono e quem administra, os conflitos começaram a surgir. Esses conflitos são conhecidos como conflitos de agência e acontecem porque os objetivos de cada lado nem sempre são os mesmos: os acionistas querem o maior retorno possível sobre seus investimentos; os gestores buscam boas remunerações, prestígio e estabilidade. Para reduzir esses atritos, é importante ter contratos claros entre acionistas e gestores e comportamentos éticos por parte destes últimos. Mas eliminar os conflitos totalmente é quase impossível. Por quê? Segundo Benjamin Klein (1985), não existe contrato que consiga prever tudo. E, como explicam Jensen e Meckling (1976), não existe o gestor perfeito: sempre haverá algum nível de interesse próprio envolvido (Rossetti; Andrade, 2014). Em suma, o desafio da governança corporativa é encontrar o equilíbrio entre os interesses dos donos e dos gestores, mesmo sabendo que conflitos sempre vão existir em algum grau. 1.4.2 Conflitos entre acionistas majoritários e minoritários Além das diferenças entre gestores e acionistas, também podem surgir conflitos entre os próprios acionistas, especialmente entre os que têm mais e os que têm menos poder. Esses conflitos costumam aparecer quando a propriedade está concentrada nas mãos de poucos (ou seja, dos acionistas majoritários, que também tomam as decisões da empresa) e quando os acionistas minoritários ficam em desvantagem, sem influência na gestão, mesmo sendo sócios. Para proteger esses acionistas minoritários, existe um mecanismo chamado tag along. Ele funciona como uma proteção, caso a empresa seja vendida para um novo dono: os minoritários têm o direito de vender suas ações junto com os majoritários, recebendo pelo menos 80% do valor pago por ação. Algumas empresas oferecem até 100%. 26 Unidade I Esse direito está na Lei das S/A, artigo 254‑A, e é especialmente importante para quem pensa no longo prazo ou busca receber dividendos. O tag along evita que o novo dono da empresa mude as regras e prejudique os acionistas minoritários, por exemplo, diminuindo ou cortando os dividendos. Saiba mais O vídeo a seguir discorre sobre o conceito de tag along. TAG along: a proteção dos acionistas minoritários. 2019. 1 vídeo (4 min). Publicado pelo Canal do FLAD. Disponível em: https://tinyurl.com/3frh6mm4. Acesso em: 9 set. 2025. 1.4.3 Outros conflitos e outros desalinhamentos A preocupação com boas práticas de governança corporativa não surgiu por acaso. Diversos fatores ajudaram a despertar esse movimento, tanto fora quanto dentro das empresas. Os fatores externos podem ser assim resumidos: • O mundo mudou; houve abertura de mercados, mais integração entre países e surgiram novos players globais. • O ambiente de negócios também se transformou, com privatizações, reestruturações de setores e novos modelos de empresa. • As regras do mercado financeiro evoluíram, com mudanças em órgãos reguladores e nas bolsas de valores. Já os fatores internos podem ser assim elencados: • As próprias empresas mudaram, com novas estruturas societárias. • Houve uma busca por alinhar melhor as estratégias de negócios. • As organizações se reorganizaram, trazendo mais profissionalismo e criando mecanismos para evitar abusos e fraudes. Esse cenário explica porque as boas práticas de governança corporativa ganharam força e se espalharam pelo mundo, desde os países emergentes aos mais ricos, tornando‑se um dos pilares mais relevantes do capitalismo moderno, da gestão empresarial e da administração no século XXI. 27 CIÊNCIAS CONTÁBEIS INTERDISCIPLINAR Saiba mais O vídeo indicado a seguir trata dos conflitos de agência. 10 GOVERNANÇA corporativa e conflitos de agência | Série Premium Editora Fórum. 2020. 1 vídeo (8 min). Publicado pelo canal Governança já ‑ Adriana Solé. Disponível em: https://tinyurl.com/v6f84f3h. Acesso em: 9 set. 2025. 1.5 Valores fundamentais (compliance, accountability, disclosure e fairness) Segundo Rossetti e Andrade (2014), quatro grandes momentos históricos ajudaram a formar a base da governança corporativa moderna. • Ativismo pioneiro de Robert Monks: embora o termo “ativismo pioneiro de Robert Monks” não tenha origem clara, ele pode ser associadoa um conceito mais antigo, usado em 1947 por Arthur Schlesinger Jr. Robert Monks, que era formado em Direito pela Universidade de Harvard e destacou‑se ao defender os direitos dos acionistas nos EUA. Ele incentivava que os sócios participassem ativamente das decisões das empresas. Dessa atuação, surgem dois valores centrais da governança: — Fairness: agir com justiça e equilíbrio. — Compliance: seguir as leis e proteger especialmente os acionistas minoritários. • Relatório Cadbury (1992): esse relatório, elaborado no Reino Unido, trouxe mais dois valores importantes: — Accountability: responsabilidade e prestação de contas. — Disclosure: transparência, principalmente em informações financeiras e no papel dos gestores. • Atuação da OCDE: a OCDE mostrou que boas práticas de governança ajudam no crescimento econômico. Empresas mais bem geridas atraem mais investidores e conseguem captar recursos com menos custos. • Lei Sarbanes-Oxley (SOX): criada nos EUA após escândalos financeiros, essa lei trouxe regras rígidas para auditoria, transparência e controle interno. Ela prevê punições severas em caso de irregularidades, tanto para conselhos quanto para diretores. Esses quatro momentos se complementam, pois todos surgiram para resolver problemas reais nas empresas e influenciaram a forma como a governança é feita hoje. Com o tempo, ficou claro que empresas com boas práticas eram mais valorizadas pelos investidores, tanto por sua gestão quanto por sua sustentabilidade no longo prazo. 28 Unidade I Na primeira década dos anos 2000, o tema ganhou ainda mais força, com foco na divulgação de informações financeiras e no papel das auditorias. A Lei Sarbanes‑Oxley se destacou nesse processo. Compliance (conformidade legal) Disclosure (transparência) Accountability (prestação responsável de contas) Fairness (senso de justiça) Figura 5 – Valores da governança corporativa Os valores compliance, accountability, disclosure e fairness são princípios fundamentais em ambientes corporativos, regulatórios e éticos. Cada um possui um significado e um propósito distinto, como podemos ver no quadro a seguir. Quadro 2 Valor O que é Para que serve Exemplo prático Compliance (conformidade legal) Refere‑se ao cumprimento de leis, regulamentos, normas e políticas internas aplicáveis a uma organização ou indivíduo Garantir que as operações estejam em conformidade com exigências legais e regulatórias, evitando sanções ou danos reputacionais Uma empresa implementa políticas de proteção de dados para estar em conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais [LGPD] – Lei n. 13.709/2018) Accountability (prestação responsável de contas) É a obrigação de assumir responsabilidade pelas ações, decisões e resultados, prestando contas de maneira clara e ética Promover a confiança e a transparência, especialmente em liderança e governança Um gestor é responsável por justificar suas decisões sobre a alocação de recursos da empresa e aceitar as consequências de erros Disclosure (transparência) Significa a abertura e a transparência na comunicação de informações relevantes, especialmente para partes interessadas Permitir que investidores, clientes e reguladores tomem decisões informadas e fortalecer a transparência organizacional Uma empresa divulga seus relatórios financeiros anuais e qualquer informação relevante que possa impactar o mercado Fairness (senso de justiça) Implica tratar todas as partes de maneira justa, ética e imparcial, evitando discriminação ou favorecimentos indevidos Fomentar um ambiente de respeito e igualdade, essencial para relações de trabalho e justiça nas interações comerciais Um processo seletivo em uma empresa segue critérios claros e imparciais, garantindo igualdade de oportunidades para todos os candidatos Esses valores, quando aplicados de forma integrada, contribuem para a criação de uma cultura organizacional ética e sustentável, fortalecendo a reputação e a confiança da empresa junto às partes interessadas. 29 CIÊNCIAS CONTÁBEIS INTERDISCIPLINAR 2 PRINCÍPIOS E OBJETIVOS DA GOVERNANÇA CORPORATIVA Desde os anos 1980, as relações entre o mundo corporativo e a sociedade têm se modificado substancialmente. As empresas de uma mesma cadeia de negócios estreitaram suas relações e desenvolveram uma lógica de colaboração, visando maximizar os retornos dos envolvidos e, dentro de uma mesma empresa, o mesmo ocorre nas relações entre acionistas, diretoria executiva e conselheiros. Figura 6 – Lógica da colaboração Disponível em: https://tinyurl.com/ydv6du8z. Acesso em: 10 set. 2025. A literatura técnica nessa área tem se ocupado de entender e discutir, de forma ampla, as relações entre as organizações e a sociedade, enquadrando‑as sob a perspectiva da responsabilidade corporativa. Ou seja, o foco preliminar da governança corporativa tem sido a análise dos objetivos das empresas, considerando todos os atores envolvidos e denominados genericamente de stakeholders. Contudo, o alcance dos objetivos da empresa e o crescente leque de riscos envolvidos nas operações da empresa variam em função do grau de envolvimento dos públicos interessados. Desse modo, Rossetti e Andrade (2014) classificam os stakeholders em quatro grupos, que desempenham papéis fundamentais: • Shareholders: são os acionistas da empresa, representados por suas ações. Podem ser individuais ou institucionais, como fundos de investimentos, bancos, fundos de pensão, entre outros, e também os acionistas majoritários. Têm direitos a voto em assembleias e participação nos lucros em forma de dividendos. • Insiders: são pessoas que possuem acesso interno às informações estratégicas e operacionais da empresa. Incluem membros do conselho de administração, diretores e outros executivos. São responsáveis por tomar decisões‑chave e têm o dever de agir em prol do interesse da empresa e dos acionistas. 30 Unidade I • Outsiders: são agentes externos à gestão direta da empresa, como conselheiros independentes ou auditores externos. Contribuem para a fiscalização e governança, ajudando a garantir a transparência e alinhamento com boas práticas. Podem oferecer perspectivas imparciais e reduzir riscos de conflitos de interesse • Entorno: engloba todos os públicos que são impactados ou que podem impactar a empresa, mas que não têm vínculo direto de propriedade ou controle. Inclui clientes, fornecedores, comunidade local, governo, ONGs e concorrentes. Suas demandas e expectativas influenciam decisões estratégicas, principalmente em questões relacionadas à sustentabilidade e responsabilidade social. Cada grupo tem interesses específicos, e a governança corporativa busca definir os objetivos com a finalidade de equilibrar os interesses de todos e para assegurar o desempenho sustentável da organização. O quadro a seguir ilustra os interesses de cada grupo, a fim de que a empresa defina os objetivos alinhados a todos os stakeholders. Quadro 3 – Interesses dos diferentes grupos de stakeholders Stakeholders Interesses Shareholders (proprietários, investidores) Dividendos ao longo do tempo Ganhos de capital; maximização do valor da empresa Máximo retorno total (dividendos) + (ganhos) Insiders (conselho, diretoria, colaboradores) Base fixa de remuneração Bonificação de balanço Stock options (remuneração variável) Benefícios assistenciais e materiais Desenvolvimento de pessoal Outsiders (integrados à cadeia de negócios) Credores: resultados positivos, capacidade de liquidação de dívidas Fornecedores: regularidade de pagamentos Clientes: preços justos, produtos conformes, confiáveis e seguros Entorno Sociedade: bem‑estar social, inclusão socioeconômica Governos: conformidade legal, crescimento, geração de empregos ONGs: adesão às três principais causas – prevenção ambiental, direitos das minorias e provisões Adaptado de: Rossetti e Andrade (2014, p. 111). Os papéis desses grupos, pormais que sejam distintos, se complementam na dinâmica organizacional. Os shareholders estão focados no retorno financeiro e na valorização do negócio, enquanto os insiders, como colaboradores e gestores, são responsáveis por implementar estratégias e garantir a operação eficiente. Já os outsiders, que incluem fornecedores, parceiros e clientes, influenciam e são influenciados pela qualidade dos produtos, serviços e relacionamentos. Por fim, o entorno, composto pela comunidade, órgãos reguladores e meio ambiente, reflete a responsabilidade social e a sustentabilidade das ações corporativas. A harmonia entre esses grupos é essencial para o sucesso no longo prazo, já que as decisões e os resultados de uma organização impactam todos eles de maneira interdependente. Essas abordagens são frequentemente debatidas em governança corporativa, especialmente em questões sobre sustentabilidade, responsabilidade social e geração de valor de longo prazo. 31 CIÊNCIAS CONTÁBEIS INTERDISCIPLINAR 2.1 Objetivos da governança corporativa As empresas que adotam a governança corporativa têm como principal objetivo promover a transparência, a equidade e a responsabilidade em suas práticas de gestão, visando à criação de valor sustentável para todos os stakeholders. Essa abordagem busca alinhar os interesses de acionistas, gestores e demais partes interessadas, fortalecendo a confiança no mercado e assegurando a integridade das decisões empresariais. Além disso, a governança corporativa tem como meta mitigar riscos, aumentar a eficiência operacional e fomentar a perenidade da organização, garantindo que suas ações estejam em conformidade com padrões éticos, regulatórios e ambientais. Cada organização deverá estar alinhada com os princípios da governança corporativa, contemplando todos os stakeholders nos seus objetivos de longo prazo. Maximizar o valor da organização Garantir uma gestão eficiente que alavanque resultados e promova o crescimento sustentável Reduzir conflitos de interesse Criar mecanismos para mitigar divergências entre acionistas, conselheiros, gestores e outros stakeholders Garantir a perenidade da organização Focar na sustentabilidade econômico, ambiental e social, assegurando a continuidade dos negócios no longo prazo Melhorar a gestão de riscos Estabelecer controles que identifiquem, monitorem e mitiguem riscos estratégicos, financeiros e operacionais Aumentar a confiança dos investidores Promover práticas que reforcem a credibilidade e a reputação da organização Figura 7 – Objetivos estratégicos na perspectiva da governança corporativa 2.2 Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC) As discussões envolvendo acadêmicos, investidores e legisladores, originando teorias e marcos regulatórios, avolumaram‑se nos anos 1990, após os graves escândalos contábeis da década anterior, envolvendo diferentes e importantes empresas. Em 1992, foi publicado na Inglaterra o Relatório Cadbury, considerado o primeiro Código de Boas Práticas de Governança Corporativa. No mesmo ano, foi divulgado o primeiro código de governança elaborado por uma empresa, a General Motors (GM), nos EUA. Sintomas do mesmo movimento são verificados pouco depois nos resultados de uma pesquisa realizada pelo California Public Employees Retirement System (Calpers), um fundo de pensão estadunidense, que constatou que mais da metade das 300 maiores companhias daquele país já tinham seus manuais de recomendações de governança corporativa (Rossetti; Andrade, 2014). No Brasil, em paralelo aos demais países, o movimento por boas práticas se mostrou mais dinâmico com as privatizações e a abertura do mercado nacional nos anos 1990. 32 Unidade I Em 1995, ocorreu a criação do Instituto Brasileiro de Conselheiros de Administração (IBCA) que, a partir de 1999, passou a ser intitulado Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), com o objetivo de influenciar os empresários, instituições financeiras e investidores na adoção de práticas transparentes, responsáveis e equânimes na administração das organizações. Ainda em 1999, o IBGC lançou seu primeiro Código das Melhores Práticas de Governança Corporativa. Saiba mais Conheça a origem do IBGC no vídeo a seguir. IBGC – Instituto Brasileiro de Governança Corporativa. 2019. 1 vídeo (5 min). Publicado pelo canal IBGC Oficial. Disponível em: https://tinyurl.com/4m22jw4a. Acesso em: 9 set. 2025. Os Códigos de Melhores Práticas da Governança Corporativa são atualizados de acordo com as mudanças dos ambientes corporativos, seja por exigências legais ou por aprimoramento das práticas empresariais. O IBGC é a referência brasileira para as empresas que pretendem se manter atualizadas com as boas práticas da governança corporativa. A última edição do Código das Melhores Práticas de Governança Corporativa foi lançada pelo IBGC em 1º de agosto de 2023. Figura 8 – Capa da sexta edição do Código das Melhores Práticas de Governança Corporativa, do IBGC Disponível em: https://tinyurl.com/92x6bb3s. Acesso em: 5 set. 2025. 33 CIÊNCIAS CONTÁBEIS INTERDISCIPLINAR A governança corporativa evoluiu significativamente nos últimos anos, expandindo seu foco da otimização de valor econômico exclusivamente aos sócios para o objetivo de geração de valor compartilhado entre os sócios e as demais partes interessadas, e com o meio ambiente. Meio ambiente Empresa ClientesFornecedores Demais partes interessadas Setores Sociedade Governo Figura 9 – Interdependência da empresas com stakeholders Adaptada de: IBGC (2023, p. 16). A sexta edição do Código das Melhores Práticas de Governança Corporativa do IBGC trouxe mudanças significativas, destacando a ética como fundamento e a importância do propósito como guia para a tomada de decisões. Desse modo, os valores e princípios da governança corporativa tiveram sua redação e denominação aperfeiçoadas, para sua melhor comunicação e entendimento pelos usuários. Integridade (Compliance) Transparência (Disclosure) Equidade (Fairness) Responsabilização (Accountability) Sustentabilidade (Meio ambiente) Figura 10 – Valores da governança corporativa do IBGC 34 Unidade I O princípio da integridade substitui o princípio de compliance da versão internacional e responsabilidade corporativa, divulgada pelo IBGC em versões anteriores do Código de Melhores Práticas de Governança Corporativa. Essa perspectiva contemporânea reconhece a interdependência entre as organizações e as realidades econômica, social e ambiental em que elas estão inseridas. Além dos quatro valores da governança corporativa, o IBGC incluiu um quinto valor: sustentabilidade. Os cinco princípios da governança corporativa são essenciais para promover uma gestão responsável, ética e eficaz em organizações públicas e privadas. A seguir, há uma breve descrição de cada um: Integridade Praticar e promover o contínuo aprimoramento da cultura ética na organização, evitando decisões sob a influência de conflitos de interesses, mantendo a coerência entre discurso e ação e preservando a lealdade à organização e o cuidado com suas partes interessadas, com a sociedade em geral e com o meio ambiente. Transparência Disponibilizar, para as partes interessadas, informações verdadeiras, tempestivas, coerentes, claras e relevantes, sejam elas positivas ou negativas, e não apenas aquelas exigidas por leis ou regulamentos. Essas informações não devem restringir‑se ao desempenho econômico‑financeiro, contemplando também os fatores ambiental, social e de governança. A promoção da transparência favorece o desenvolvimento dos negócios e estimula um ambiente de confiança para o relacionamento de todas as partes interessadas. Equidade Tratar todos os sócios e demais partes interessadas de maneira justa, levando em consideração seus direitos, deveres, necessidades, interesses e expectativas, como indivíduos ou coletivamente. A equidade pressupõe uma abordagem diferenciada conforme as relações e demandas