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22 21 FACULDADE ALFA UMUARAMA BACHARELADO EM DIREITO POLYANA LIMA PERISSATO THAIS FERNANDA CARRILHO UMA ANÁLISE DO MACHISMO ENRAIZADO E SEUS EFEITOS CONTRIBUINTES PARA A VULNERABILIDADE DA MULHER NA SOCIEDADE. UMUARAMA 202 POLYANA LIMA PERISSATO THAIS FERNANDA CARRILHO UMA ANÁLISE DO MACHISMO ENRAIZADO E SEUS EFEITOS CONTRIBUINTES PARA A VULNERABILIDADE DA MULHER NA SOCIEDADE. Trabalho de conclusão de curso apresentado como um dos requisitos para obtenção do título de bacharel em direito pela faculdade ALFA Umuarama - uniALFA, sob orientação do professor Me.Felipe Gaioski . UMUARAMA FACULDADE ALFA UMUARAMA – UniALFA Credenciada pela Portaria n.º 1.390 de 14 de novembro de 2008 Av. Paraná, 7327 - Zona III - Umuarama - PR - CEP 87502-000 Fone: (44) 3622-2500 - CNPJ: 10.718.171/0001-04 2025 [Digite texto] POLYANA LIMA PERISSATO THAIS FERNANDA CARRILHO Este Trabalho de Conclusão de Curso foi julgado adequado para obtenção do Título de “BACHAREL EM DIREITO” e aprovado em sua forma final pelo Curso de Direito. Umuarama, 01 de Julho de 2025. ________________________ Prof. xxx, Dr. Coordenador do Curso Banca Examinadora: ________________________ Prof.ª xxxx, Dra. Orientadora Universidade xxxx ________________________ Prof.ª xxxx, Dra. Coorientadora Universidade xxxx ________________________ Prof. xxxx, Dr. Universidade xxxxxx Dedicamos este trabalho ao curso de Bacharelado em Direito, agradecendo a Deus, aos nossos pais e às nossas famílias pelo apoio, incentivo e amor incondicional durante toda a nossa trajetória. RESUMO O presente trabalho tem como objetivo apresentar um estudo sobre as raízes do machismo e do patriarcalismo, bem como sobre como eles se manifestam diante da vulnerabilidade das mulheres, evidenciando os fatores sociais e culturais que contribuem para a violência de gênero. Dessa forma, busca-se apontar os diversos obstáculos que o machismo estrutural impõe às mulheres, por meio de crenças, práticas, discursos e músicas que reforçam a inferiorização da figura feminina. Além disso, o estudo tem como finalidade sensibilizar os leitores sobre a necessidade de desconstruir essas práticas e valores enraizados, promovendo uma cultura de respeito, igualdade e empoderamento das mulheres, destacando, ainda, a importância da presença feminina em cargos de poder na atualidade. Para isso, utilizou-se como metodologia a pesquisa bibliográfica, com análise de artigos científicos, livros e outros materiais acadêmicos, recorrendo a autores como Gerda Lerner, Aline Bezerra, Sigmund Freud, entre outros, que colaboram para demonstrar a relevância desse tema na sociedade contemporânea. Também foi realizada uma breve análise da Lei nº 11.340/2006 (Lei Maria da Penha) e de como ela contribui para a proteção dos direitos das mulheres. Conclui-se, portanto, que a desigualdade entre homens e mulheres permanece fortemente enraizada nos dias atuais, e que essa luta está longe de chegar ao fim. No entanto, trata-se de uma luta que deve ser de toda a sociedade, sendo possível superá-la apenas por meio da união, do compromisso coletivo e da promoção da igualdade de gênero. Palavras-chave: Machismo estrutural. Violência de gênero. Desigualdade de gênero. ABSTRACT This paper aims to present a study on the roots of machismo and patriarchy, as well as how they manifest in the face of women's vulnerability, highlighting the social and cultural factors that contribute to gender-based violence. Thus, the study seeks to identify the various obstacles that structural machismo imposes on women through beliefs, practices, speeches, and songs that reinforce the inferiority of the female figure. Furthermore, the study aims to raise readers' awareness of the need to deconstruct these entrenched practices and values, promoting a culture of respect, equality, and female empowerment, while also highlighting the importance of women's presence in positions of power today. To achieve this, a bibliographic research methodology was used, analyzing scientific articles, books, and other academic materials, referring to authors such as Gerda Lerner, Aline Bezerra, Sigmund Freud, among others, who contribute to demonstrating the relevance of this issue in contemporary society. A brief analysis of Law No. 11.340/2006 (Maria da Penha Law) was also carried out, showing how it contributes to the protection of women's rights. It is concluded, therefore, that inequality between men and women remains deeply rooted in today’s society, and that this struggle is far from over. However, it is a fight that must involve the whole society, and overcoming it is only possible through unity, collective commitment, and the promotion of gender equality. Keywords: Structural machismo. Gender-based violence. Gender inequality. Sumário 1 INTRODUÇÃO 15 2 O PATRIARQUISMO/MACHISMO E SUAS MANIFESTAÇÕES 17 3 FATORES SOCIOCULTURAIS QUE CONTRIBUEM PARA A VULNERABILIDADE FEMINA 22 3.1 EDUCAÇÃO E CONSCIENTIZAÇÃO 22 3.1.1 EDUCAÇÃO E CONSCIENTIZAÇÃO 24 3.1.2 EDUCAÇÃO E CONSCIENTIZAÇÃO 24 Ilustração 1 – Relatório de transparência salarial 26 3.1.3 ACEITAÇÃO SOCIAL E VIOLÊNCIA DOMÉSTICA 27 4 VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER NO BRASIL: UM LEVE COMPARATIVO ENTRE O PERÍODO ANTERIOR À LEI 11.340/06 – MARIA DA PENHA E O CENÁRIO ATUAL 29 5 CONSCIENTIZAÇÃO DA IMPORTÂNCIA DE REPRESENTAÇÕES DE MULHERES EM CARGOS DE PODER 32 6 CONCLUSÃO 34 REFERÊNCIAS 36 INTRODUÇÃO A violência contra a mulher é uma realidade persistente e alarmante no Brasil, que reflete uma série de fatores históricos, sociais e culturais profundamente enraizados em nossa sociedade. Um dos principais obstáculos dessa problemática é o machismo estrutural, um sistema de crenças e práticas que normaliza a inferiorização da figura feminina, alimentando ciclos de desigualdade e violência contra as mulheres. Tal estrutura não se manifesta de forma isolada, mas está atrelada ao patriarcado, que, historicamente, posicionou o homem como figura dominante nas relações sociais, políticas, econômicas e familiares. Nesse contexto, observa-se que a presença desse machismo enraizado contribui significativamente para a vulnerabilidade das mulheres à violência, estabelecendo uma relação direta entre a normalização e naturalização da desigualdade de gênero e o aumento da violência doméstica, psicológica, sexual, entre outras. Quanto mais enraizado estiver esse sistema, maior será a vulnerabilidade das mulheres a diversas formas de agressão, tornando-as alvos frequentes em um ambiente discriminatório. Diante dessa realidade, o presente trabalho tem como objetivo geral analisar como o patriarcalismo foi construído e como ele está intimamente ligado à perpetuação do machismo na sociedade brasileira. Busca-se compreender de que maneira essas estruturas culturais e sociais contribuem para o aumento da violência de gênero, bem como investigar como a dependência financeira e emocional feminina pode manter e alimentar esse ciclo de opressão. Para alcançar esse objetivo, será necessário, de forma específica, compreender os tipos de violência que acometem as mulheres na atualidade, além das legislações em vigor voltadas à proteção feminina. A análise crítica dessas questões permitirá uma visão mais abrangente do problema, assim como das fragilidades nas estratégias de enfrentamento já existentes. A escolha deste tema justifica-se na necessidade de compreender como o machismo estrutural opera no cotidiano, impactando diretamente a vida das mulheres brasileiras. Ao promover uma reflexão crítica, espera-se contribuir para a desconstrução de práticas, narrativas e valores discriminatórios, incentivando o fortalecimento de políticas públicas mais eficazes e a promoção de uma cultura baseada na igualdade, no respeito e no empoderamento feminino. Trata-se, portanto, de um esforço necessário e contínuo para transformar o social e garantir às mulheres o direito de viverem com dignidade, segurança e liberdade.O PATRIARQUISMO/MACHISMO E SUAS MANIFESTAÇÕES Antes de tudo, é importante entender que patriarcalismo e machismo não são exatamente a mesma coisa, embora caminhem juntos. O patriarcalismo é um sistema social antigo que sempre colocou o homem no topo, com o poder em suas mãos, enquanto a mulher era vista como alguém que deveria obedecer, quase como uma propriedade. Já o machismo são as manifestações desse sistema: comportamentos, falas e atitudes que nascem dessa lógica de superioridade masculina e que, até hoje, continuam reforçando desigualdades. Desde muito tempo, como mostra a autora Gerda Lerner (2019), a lógica machista foi se formando dentro de um sistema patriarcal, no qual os homens sempre foram vistos como líderes, os que mandavam e detinham o poder. Esse modelo social criou a ideia de que o homem é naturalmente superior, enquanto à mulher caberia ocupar um lugar de submissão. Isso fez com que as mulheres fossem deixadas de fora de várias áreas da vida, da política ao conhecimento, sendo tratadas como menos capazes, simplesmente por serem mulheres. No dia a dia, não é difícil perceber como o machismo ainda está presente e é uma realidade profundamente enraizada na sociedade brasileira, assim como em diversas partes do mundo. Suas manifestações são percebidas em vários âmbitos sociais, como na cultura, na política, na economia e nos ambientes de trabalho. Trata-se de uma estrutura construída ao longo de décadas, que moldou comportamentos que não surgiram do nada, mas foram forjados diante de uma realidade imposta. Como aponta Heleieth Saffioti, em Gênero, Patriarquismo, Violência (2004), esses fatos e fatores contribuíram para a aceitação e a naturalização da desvalorização da mulher na sociedade. Gerda Lerner (2019) explica que foi nesse sistema que surgiu a imagem do homem como provedor, forte, racional e dominador, enquanto à mulher cabia o papel de cuidar da casa, dos filhos e do marido. Essa construção não foi apenas econômica, mas também legal e social. A mulher era vista como dependente — do pai, do marido — e sem direito à voz própria. Era tratada como frágil, passiva, e sua autonomia era negada em quase todos os sentidos. Ivonete B. de Sousa (2020) lembra que, por muito tempo, os homens decidiam até o comportamento que as mulheres deveriam ter: como se vestir, como falar e o que podiam ou não fazer em público. A mulher era tratada quase como um objeto, sem espaço para opinião. Assim, o silêncio feminino virou uma regra social, reforçada pela cultura, pela religião e até pela educação. Em livros e filosofias antigas — quase sempre escritos por homens — era comum encontrar ideias que reforçavam a inferioridade feminina. Aristóteles, por exemplo, dizia que o silêncio era uma virtude nas mulheres, e Sócrates chegou a afirmar que o ideal de casamento era aquele em que “a mulher fosse cega e o homem surdo”. Essas visões ajudaram a naturalizar a desigualdade de gênero que, infelizmente, ainda se faz presente hoje em muitos espaços. Como mostra Gerda Lerner, em A Criação do Patriarcado (2019), a dominação foi um dos principais mecanismos usados para manter as mulheres em posições de inferioridade. O sistema patriarcal reforçou uma cultura sexista que limitou o papel das mulheres, colocando-as em posições secundárias. E, quando tentavam ocupar novos espaços ou exigir direitos, suas capacidades eram logo questionadas. Essa lógica fez com que muitas acabassem acreditando que seu lugar era mesmo o da submissão, o que só fortaleceu ainda mais a desigualdade de gênero. A psicóloga Aline Bezerra (2023) chama atenção para o impacto psicológico dessa construção social. Segundo ela, essa ideia de inferioridade feminina foi tão repetida e enraizada que muita gente passou a enxergar a suposta superioridade masculina como algo natural — seja pela força física, pela genética ou pela alegada estabilidade emocional. Enquanto isso, as mulheres ficaram associadas à fragilidade, à insegurança, à baixa autoestima e até à distorção da própria imagem. Essas crenças, mesmo quando não são verdadeiras, ajudaram a consolidar uma separação simbólica entre os gêneros, dificultando a igualdade. Mais preocupante ainda é o fato de que essa lógica não foi apenas imposta pelos homens, mas também absorvida pelas próprias mulheres. Muitas vezes, isso acontecia de forma inconsciente, como aponta Freud, em Psicologia das Massas e Análise do Eu (2020), que explica que o ser humano é profundamente moldado pelo meio em que vive. Inseridas num contexto que já as colocava em desvantagem, sem liberdade de escolha ou referências diferentes, muitas mulheres não conseguiam nem mesmo questionar sua condição. O patriarcado, nesse caso, agia de dentro para fora, afetando inclusive o modo como elas viam a si mesmas. Ainda segundo Freud (2020), ninguém é formado fora do contexto cultural em que vive. Isso ajuda a entender como, por gerações, as mulheres passaram a duvidar das próprias capacidades e a repetir padrões de submissão. Quando não se tem liberdade nem estímulo para pensar diferente, o senso crítico fica comprometido. Assim, o ciclo se perpetua: mães, avós e bisavós, que também foram educadas sob essa lógica, acabam transmitindo ideias como “a mulher depende do homem” ou “cuidar da casa é papel da mulher”. Como mostram os estudos de Sarti (2004) e o artigo Patriarcalismo Legal e Cultura Machista (JusBrasil, 2021), essas crenças ainda estão muito presentes, mesmo com todos os avanços na luta por igualdade. Homens também foram moldados por esse sistema. Muitos cresceram vendo suas mães sendo silenciadas, desrespeitadas e completamente dependentes de seus pais — e, em alguns (ou muitos) casos, até vítimas de violência. De acordo com Scavone (2001) e uma análise publicada na Redalyc (2022), são poucos os que conseguiram romper com esse padrão, já que, desde cedo, aprenderam que aquilo era “normal”. Assim, a desvalorização se repetia sem que fosse percebida como injusta. Pierre Bourdieu (2002) reforça que esse ciclo se mantém com base em símbolos e discursos que colocam o homem no papel de chefe, líder e autoridade. À mulher, por outro lado, cabia obedecer, servir e se anular. Para muitos homens, essa posição é confortável: estar ao lado de alguém submisso alimenta a sensação de poder e reforça a ideia de que eles são superiores. Já as mulheres, muitas vezes, perdiam sua voz e vontade própria, sendo ensinadas a colocar os desejos do outro acima dos seus. Outro fator que perpetuou essa desigualdade foi a exclusão das mulheres da educação. Como lembra Heleieth Saffioti (2004), o acesso limitado ao conhecimento impediu o desenvolvimento de senso crítico, autonomia e independência financeira. Sem estudo e sem oportunidades no mercado de trabalho, muitas mulheres ficaram presas em relacionamentos abusivos, sem apoio da família ou do Estado. O mais grave é que, muitas vezes, até seus próprios pais as aconselhavam a não abandonar o marido agressor, reforçando um ciclo de dependência estrutural que alimenta, até hoje, a violência doméstica no Brasil. Conforme Bourdieu (2022), o machismo, nesse sentido, não se manifesta apenas por meio de atitudes explícitas, mas também por formas invisíveis, institucionalizadas e naturalizadas ao longo das décadas. Trata-se de um sistema silencioso e persistente, que atravessa as estruturas sociais e impacta profundamente a vida das mulheres. Se ao homem foi atribuído o poder, à mulher foi deixada a posição de dependência. Nesse ciclo autoritário, a repressão à desobediência feminina frequentemente se dava por meio da violência física e psicológica. A ideia de que a mulher precisava “apanhar para aprender a respeitar” evidencia a desumanização à qual muitas foram submetidas. Para essas mulheres, sair de casa não era — e, muitas vezes, ainda não é — uma opção viável diante da falta de alternativas reais. A luta das mulheres contra esse sistema patriarcal foi, e ainda é, árdua, intensa e contínua. Os avanços conquistados até hoje são resultado da resistência de gerações que enfrentaram, com coragem, uma sociedadehistoricamente moldada para silenciar e subjugar a mulher. Apesar dos progressos, os dados atuais evidenciam que a tentativa de calar a mulher persiste. Quando ela se impõe ou simplesmente busca sua liberdade — como, por exemplo, sair de um relacionamento —, observa-se o aumento dos casos de feminicídio, cujos maiores índices estão relacionados a ex-companheiros e a ocorrências em ambientes domésticos. Assim, revela-se uma realidade alarmante: quanto mais a mulher busca autonomia, mais ameaçada se torna sua existência (IPEA, 2021). Essas ideias não estão apenas no imaginário social; elas têm consequências reais. No meio de toda essa estrutura, os impactos aparecem de forma bem concreta. O IBGE divulgou, em 2023, que mulheres continuam ganhando menos que homens, mesmo quando possuem a mesma formação e exercem as mesmas funções. Isso não é só uma questão de números, mas um retrato de como o trabalho feminino ainda é desvalorizado. E, pior, muitas vezes isso acontece sem que as pessoas percebam, porque o machismo está tão naturalizado que parece normal — mas não é. Esse tipo de desigualdade, mesmo invisível aos olhos, mostra que a luta por igualdade ainda tem um longo caminho pela frente. O mais alarmante é quando esse pensamento machista começa a ser repetido até por mulheres. Quantas vezes já ouvimos uma mulher dizer que prefere ser atendida “por um homem” ou que “mulher não serve para chefiar, gerenciar e direcionar”? Essas falas, por menores que pareçam, mostram como esse sistema afeta a forma como muitas mulheres veem a si mesmas e às outras. É como se, inconscientemente, aceitassem o lugar de submissão que sempre lhes foi imposto. Isso acontece nas empresas, nas famílias, nas conversas do dia a dia — e, muitas vezes, nem nos damos conta. Essa reflexão conduz a uma pergunta essencial: como essas manifestações foram construídas e continuam sendo alimentadas? De acordo com diversas análises socioculturais, essas manifestações se originam, em muitos casos, de forma silenciosa. Elas aparecem em comportamentos corriqueiros, em discursos naturalizados e até mesmo em produtos culturais, como músicas, novelas e piadas. Quando ouvimos letras que dizem que “lugar de mulher é na cozinha” ou músicas que incentivam agressões físicas, como “chego em casa e meto a cinta nela”, estamos diante de exemplos claros de como a cultura popular reforça e até naturaliza a violência contra a mulher. Do mesmo modo, novelas que mostram relacionamentos abusivos como se fossem histórias de amor, ou que romantizam a submissão feminina, ajudam a normalizar esse tipo de comportamento (JusBrasil, 2021). Piadas machistas, comentários que desvalorizam as mulheres e letras de músicas agressivas não são só “brincadeiras” ou “tradição”; eles sustentam um sistema que prejudica milhões de mulheres todos os dias. A desconstrução desse pensamento não vem sozinha, nem de um dia para o outro. Ela exige esforço coletivo, educação desde cedo e, sobretudo, vontade de mudar. FATORES SOCIOCULTURAIS QUE CONTRIBUEM PARA A VULNERABILIDADE FEMINA Segundo o CIESP (2025), os aspectos socioculturais — como costumes, tradições e normas — resultam da interação entre o social e o cultural, influenciando diretamente os comportamentos e as práticas dentro de uma sociedade. Já a vulnerabilidade, também conforme o CIESP (2025), refere-se à condição de fragilidade e exposição a riscos, sejam eles físicos, emocionais ou psicológicos. Os fatores que serão mencionados, embora relevantes segundo pesquisas e análises, representam apenas uma parte dos inúmeros elementos que impactam a vida das mulheres na sociedade. No entanto, por limitações de espaço e tempo, destacam-se aqueles que, a nosso ver, exercem maior influência. EDUCAÇÃO E CONSCIENTIZAÇÃO A educação é, consideravelmente, uma ferramenta poderosa na construção de uma sociedade mais justa e consciente. Quando as pessoas têm acesso ao conhecimento, passam a enxergar o mundo de outra forma, ampliando suas visões, questionando desigualdades e entendendo melhor seu papel na sociedade. Isso é ainda mais importante quando falamos das mulheres, que, por muito tempo, foram deixadas de fora dos espaços de aprendizado. Aprender não é apenas sobre conseguir um bom emprego ou crescer profissionalmente, mas também sobre conquistar autonomia e sair de uma posição de submissão que foi historicamente imposta. Como disse Paulo Freire (1996): “A educação não transforma o mundo. A educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo”. Ou seja, é a partir do desenvolvimento individual que se abre espaço para mudanças maiores na sociedade. Compreendendo esse cenário, percebe-se como a educação tem sido um caminho fundamental para o empoderamento das mulheres e para o enfrentamento do machismo estrutural. Durante muito tempo, o direito ao estudo foi negado às mulheres. Sem acesso ao conhecimento, elas eram impedidas de conquistar independência, entrar no mercado de trabalho, participar da política ou, até mesmo, perceber que estavam vivendo situações de violência ou desigualdade. A falta de educação, nesse caso, era usada como uma ferramenta de controle sobre elas (SAFFIOTI, 2004). Nesse contexto, vale destacar o papel marcante de Nísia Floresta, uma das primeiras mulheres a defender a educação feminina no Brasil. No século XIX, em uma sociedade ainda profundamente machista e conservadora, ela teve a coragem de questionar essas regras e lutar pelo direito das mulheres à instrução e à educação. Em uma de suas falas mais conhecidas, ela pergunta: “Por que [os homens] se interessam em nos separar das ciências a que temos tanto direito como eles, senão pelo temor de que partilhemos com eles, ou mesmo os excedamos na administração dos cargos públicos, que quase sempre tão vergonhosamente desempenham?” (A Voz Feminina, 2021, p. 12). Essa citação evidencia como o acesso ao conhecimento era visto como uma ameaça ao poder masculino e como a exclusão das mulheres da educação era uma estratégia pensada para manter essa estrutura de dominação. Nísia não lutava apenas para que as mulheres pudessem estudar, mas também para que pudessem ensinar, formar opiniões e ocupar espaços de relevância na sociedade. Com o tempo, essa luta abriu portas para que mais mulheres pudessem entrar nas escolas, nas universidades, no mercado de trabalho, na ciência, na política e em tantos outros espaços. A educação se tornou, então, uma ferramenta real de empoderamento, ajudando mulheres a conquistarem autonomia econômica, emocional e intelectual. Sem essa base, muitas continuam presas em situações de abuso ou exploração, sem conseguir perceber ou reagir. Como bem afirma Mônica Ferreira Costa (2021), ao comentar Bell Hooks, “A educação como prática da liberdade é um ato de coragem e de esperança para romper com o ciclo de dominação.” É exatamente isso: estudar é também um ato de resistência e transformação. Diante disso, é fundamental manter a luta e incentivar o acesso das mulheres à educação, pois é por meio do conhecimento que elas compreendem as conquistas já alcançadas e os desafios enfrentados ao longo da história. Garantir esse avanço é essencial para evitar retrocessos e consolidar uma sociedade mais equitativa e consciente. EDUCAÇÃO E CONSCIENTIZAÇÃO Com o acesso limitado à educação, consequentemente, a obtenção de empregos de qualidade tornou-se difícil, dificultando que muitas mulheres conseguissem um trabalho digno com uma renda capaz de garantir sua independência financeira. Sem estudar ou trabalhar, elas acabavam ficando dependentes dos homens para sobreviver, o que tornava mais difícil tomar decisões sobre suas próprias vidas. Essa situação ajudou a manter desigualdades entre homens e mulheres, criando assim um ciclo de vulnerabilidade. Quando a mulher não tem uma renda própria, fica mais difícil sair de relações abusivas ou buscar novos caminhos para sua vida. Isso porque ela depende financeiramente de alguém, o que limita suas escolhas. Além de afetar o básico, como comida, moradia e roupas, essa dependência abala a autoestimae faz com que muitas mulheres deixem de acreditar em si mesmas. Com medo de serem julgadas, excluídas ou até de passarem fome, muitas acabam aceitando situações injustas apenas para sobreviver. Nesse sentido, Amartya Sen (2000) destaca que a ausência de liberdades econômicas restringe a capacidade das mulheres de escapar da opressão e compromete sua autonomia. Para o autor, a falta de acesso à educação e à renda reduz drasticamente as possibilidades de escolha e de transformação da realidade, impedindo o exercício pleno da liberdade e da dignidade humana (SEN, 2000, p. 243-271). EDUCAÇÃO E CONSCIENTIZAÇÃO A desigualdade de gênero não só fez com que várias mulheres aceitassem situações de exclusão como se fossem normais, mas também dificultou bastante o caminho daquelas que lutaram — e ainda lutam — para chegar a cargos de liderança e a espaços que, até hoje, são vistos como “coisa de homem” (BEAUVOIR, 2016). É preciso reconhecer que, embora as mulheres venham conquistando espaços no mundo do trabalho, ainda enfrentam resistências profundamente enraizadas na cultura. Entre essas manifestações estão a não aceitação de lideranças femininas, o desrespeito disfarçado em piadas e comentários ofensivos, e a objetificação da mulher, frequentemente tratada como inferior ou sexualizada. Frases depreciativas como “com quem você teve que dormir para conseguir esse cargo” ou “para uma mulher, até que ela fez bem” revelam a profundidade da discriminação e reforçam a necessidade contínua de provar competência e mérito, o que, por si só, já evidencia uma desigualdade estrutural (HIRATA, 2002; LOURO, 2011). Além disso, é alarmante a frequência com que casos de assédio moral e sexual continuam acontecendo. Isso decorre da ideia de que a mulher é um objeto para satisfação dos desejos masculinos, o que dificulta que ela seja vista com a autoridade e o respeito que merece no ambiente profissional (HOLANDA, 2019). Mesmo após várias lutas e conquistas, os dados mostram que a desigualdade de gênero persiste. De acordo com o 3º Relatório de Transparência Salarial do Governo Federal, publicado em 2024, as mulheres ainda recebem, em média, 20% a menos que os homens, mesmo ocupando cargos semelhantes e com igual qualificação (BRASIL, 2024). Tal realidade evidencia que a equidade de gênero, embora esteja em processo de construção, ainda está longe de ser plenamente alcançada, deixando claro que ainda temos um longo caminho até que a igualdade de gênero seja, de fato, realidade. Ilustração 1 – Relatório de transparência salarial Fonte: eSocial. Rais 2022 e Portal Empregada Brasil mar.2024 Como exposto, é nítido que a maior parte das profissões exercidas pelas mulheres está em trabalhos operacionais, enquanto o menor número se encontra em cargos superiores, como gerências e posições de liderança. Observa-se também que vivemos em uma sociedade com mais mulheres do que homens: conforme o IBGE (2022), são 6 milhões de mulheres a mais que homens, e, ainda assim, o mercado de trabalho é predominantemente preenchido por homens. Mesmo com avanços nas leis e nos costumes sociais, as mulheres ainda precisam lutar diariamente para conquistar seu espaço na sociedade. Muitos papéis ainda são impostos a elas, principalmente ligados ao cuidado da casa, à maternidade e à responsabilidade pela família. Essa visão acaba forçando muitas mulheres a provarem constantemente sua competência e merecimento para estar em espaços de destaque, como no mercado de trabalho, na política e em cargos de liderança (RIBEIRO, 2019). Esse contexto reforça, muitas vezes, a ideia equivocada de que as mulheres são menos competentes ou aptas a desempenhar funções fora do ambiente doméstico. A sobrecarga de responsabilidades — manter o lar organizado, cuidar dos filhos, exercer a maternidade em tempo integral (e, por vezes, assumir também o papel paterno) — além de contribuir financeiramente, torna sua jornada mais árdua e desproporcional. Tal cenário gera um questionamento social: como é possível alcançar igualdade de oportunidades quando as exigências impostas às mulheres já começam desequilibradas? Como falar em igualdade de oportunidades se a base da comparação já é injusta? (BUARQUE DE HOLLANDA, 2019). As cobranças sociais direcionadas às mulheres seguem firmes até os dias atuais. São expectativas impostas historicamente que moldam, limitam e, muitas vezes, desmotivam as mulheres a ocuparem cargos de liderança ou buscarem autonomia. Essa construção histórica limita bastante o espaço das mulheres fora do lar e contribui para desestimular o desejo de crescimento pessoal e profissional. Em uma sociedade marcada por padrões patriarcais e sexistas, essas cobranças são naturalizadas e atribuídas como dever exclusivo das mulheres, o que intensifica o fardo que carregam diariamente (RENATA GONÇALVES, 2023; CAMILA S. CASTRO, 2023). Muitas mulheres ainda internalizam a ideia de que não são capazes ou de que não podem “dar conta” de tudo, principalmente diante da falta de apoio estrutural, da divisão justa das tarefas domésticas e do acolhimento no ambiente de trabalho. Em uma sociedade marcada por um machismo estrutural e enraizado, o peso simbólico e real que a mulher carrega é imenso e, frequentemente, desvalorizado (JÉSSICA M. FERREIRA, 2024). ACEITAÇÃO SOCIAL E VIOLÊNCIA DOMÉSTICA A pesquisa mostra que ainda vivemos em uma sociedade onde a violência contra a mulher é muitas vezes tratada como algo normal, uma aceitação invisível. Essa cultura se manifesta em discursos e comportamentos que culpam as vítimas e protegem os agressores. É o que chamamos de "cultura do estupro", um ambiente social onde o abuso sexual é minimizado ou justificado, especialmente quando a vítima é mulher. Simone de Beauvoir (2009) já apontava essa realidade ao afirmar que “ninguém nasce mulher: torna-se mulher”, mostrando que o papel feminino foi construído socialmente a partir da submissão e da obediência ao poder masculino, no sentido de que a mulher foi criada para “servir” o homem. Essa estrutura patriarcal contribui para a vulnerabilidade dos espaços femininos, nos quais a mulher frequentemente é vista como inferior. Essa inferiorização facilita a transferência de culpa para as vítimas em casos de violência, como se elas fossem responsáveis pelos crimes cometidos contra si. A justificativa frequentemente utilizada para o assédio ou o estupro ainda hoje se baseia em roupas, comportamentos ou horários em que a mulher estava na rua — uma inversão perversa que transfere a responsabilidade do agressor para a vítima. Um caso emblemático no Brasil foi o de Mariana Ferrer, em 2020. A jovem foi vítima de estupro e, além disso, foi humilhada em uma audiência judicial. Durante o julgamento, o advogado de defesa atacou a moral da vítima, sugerindo que suas roupas e o ambiente justificavam a violência sofrida. A condução do caso escancarou o quanto o sistema judiciário brasileiro ainda está impregnado de práticas machistas e revitimizantes. Como afirma Silvia Pimentel (2015), “a culpabilização da vítima é uma das mais graves formas de perpetuação da violência de gênero”. Esse não é um episódio isolado. Milhares de mulheres enfrentam diariamente o julgamento de sua moral, de suas roupas e de seu comportamento. O Brasil ainda carrega uma cultura em que, por exemplo, o assassinato de mulheres era justificado nos tribunais como crime de “defesa da honra” — uma prática que, embora repudiada atualmente, refletia a ideia de que o corpo e a conduta feminina pertenciam aos homens. Como destaca Djamila Ribeiro (2017), “a mulher é culpada não só quando é agredida, mas também por existir fora do papel social que esperam dela”. A cultura do estupro e essa inversão da culpa são violências que nem sempre são visíveis, mas que fazem parte das estruturas da sociedade. Elas impedem que as mulheres vivam com liberdade, segurança e igualdade. Mudar isso passa por educação, mudança de mentalidade e pela atuação firme tanto do governo quanto da sociedade como um todo. VIOLÊNCIA CONTRAA MULHER NO BRASIL: UM LEVE COMPARATIVO ENTRE O PERÍODO ANTERIOR À LEI 11.340/06 – MARIA DA PENHA E O CENÁRIO ATUAL Segundo Mariana Silva (2023), antes da promulgação da Lei Maria da Penha, os casos de violência doméstica eram tratados de maneira distinta em comparação com os dias atuais. Isso se deve ao fato de que a Lei nº 11.340/2006 trouxe avanços significativos nas formas de prevenir e reprimir esse tipo de crime. Anteriormente, não existiam delegacias especializadas para lidar com ocorrências de violência contra a mulher. Na época, os casos eram encaminhados aos Juizados Especiais Criminais, criados pela Lei 9.099/95, cuja competência se restringia a infrações de menor gravidade, sem contar com estruturas voltadas especificamente para atender às demandas desse tipo de violência. Além disso, não havia respaldo legal para decretar prisão preventiva ou prisão em flagrante contra o agressor em contexto doméstico e familiar. Outra lacuna do sistema jurídico era a ausência de circunstância agravante para os crimes cometidos contra mulheres, como atualmente previsto no artigo 61, inciso II, alínea "f", do Código Penal. Antes da Lei Maria da Penha, a pena para essas condutas costumava ser apenas de detenção de seis meses a um ano, o que frequentemente resultava na substituição da pena por medidas alternativas, como a doação de cestas básicas (Silva, 2022). No entanto, ao compararmos o cenário anterior com o atual, percebe-se que, embora o número de denúncias tenha aumentado — o que pode ser interpretado como maior confiança nas instituições e mais acesso à informação —, a violência contra a mulher ainda persiste de forma alarmante. Dados recentes indicam que o número de casos não necessariamente diminuiu; ao contrário, a maior visibilidade do problema evidencia o quanto ainda é preciso avançar. O aumento das denúncias demonstra um avanço na coragem das vítimas em romper o silêncio, mas também revela que a efetivação da lei ainda encontra entraves, seja pela morosidade da Justiça, pela insuficiência de políticas públicas ou pela persistência de padrões culturais machistas. Mulheres ainda enfrentam medo, vergonha e falta de apoio para romper com o ciclo da violência. O sistema legal, por mais eficiente que possa ser, não consegue atuar plenamente sem uma mudança profunda nas mentalidades e práticas sociais (Sousa, 2018). Em muitos casos, o próprio ambiente familiar e comunitário desestimula a denúncia, culpabiliza a vítima e protege o agressor (Pasinato, 2015). De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP, 2023), o Brasil registrou um dos maiores índices de feminicídio da última década, com mais de 1.400 mulheres assassinadas apenas no ano anterior. Esses dados revelam que, quanto mais as mulheres se posicionam, denunciam e lutam por igualdade, mais enfrentam reações violentas de uma estrutura social que ainda se sustenta no patriarcado. A tentativa de romper com o silêncio e conquistar espaço torna-se, muitas vezes, um gatilho para novas formas de repressão e agressão — físicas, psicológicas e até letais. Segundo o relatório da ONU Mulheres (2021), embora os marcos legais, como a Lei Maria da Penha (2006) e a Lei do Feminicídio (2015), tenham representado avanços importantes, eles não têm sido suficientes para conter a escalada da violência. O Estado, por meio de suas instituições, apresenta falhas graves em sua capacidade de proteger as vítimas de forma eficaz. Em muitos casos, a mulher denuncia, mas não encontra o respaldo necessário para garantir sua segurança, sendo assassinada mesmo após medidas protetivas serem expedidas (IPEA, 2021). Isso levanta uma pergunta: seria o papel do Estado apenas punir os agressores e tentar proteger a vítima, ou ele também deveria assumir a responsabilidade de transformar as estruturas culturais que alimentam essa violência? Estudos como o de Silva e Lima (2020) destacam que o medo de denunciar ainda está presente entre muitas mulheres, especialmente em regiões mais vulneráveis, onde o aparato estatal é ausente ou ineficiente, e onde ainda não se tem uma delegacia da mulher especializada. Isso demonstra que o problema vai além da implementação de leis e políticas públicas, estando enraizado em uma cultura machista que ainda dita comportamentos, silencia vítimas e normaliza o controle masculino. A sociedade brasileira carrega, até hoje, as marcas de uma mentalidade opressora, construída ao longo de séculos, que naturaliza a desigualdade de gênero. Portanto, como aponta Pasinato (2019), o enfrentamento à violência contra a mulher não pode se limitar à punição do agressor. É preciso investir na desconstrução de um sistema cultural e simbólico que legitima a dominação masculina. Isso passa pela educação, pela formação de profissionais mais preparados e por políticas públicas integradas, que envolvam prevenção, acolhimento e mudança estrutural. Sem isso, continuaremos a tratar os efeitos sem enfrentar, de fato, as causas. Assim como diz Freire (2025), quando uma mulher pede ajuda, ela já não está mais aguentando. Então, não deixe de ajudá-la: você poderá salvá-la. CONSCIENTIZAÇÃO DA IMPORTÂNCIA DE REPRESENTAÇÕES DE MULHERES EM CARGOS DE PODER Diante de todas as problemáticas abordadas, torna-se evidente a urgência de promover a representatividade feminina em cargos de poder. A presença de mulheres em espaços de decisão é essencial para que suas experiências, vivências e demandas específicas sejam ouvidas, compreendidas e incorporadas em políticas públicas eficazes. Ainda hoje, muitas mulheres enfrentam barreiras estruturais para acessarem ajuda ou proteção em momentos de vulnerabilidade, justamente por não encontrarem outras mulheres em posições estratégicas que possam acolhê-las com empatia e legitimidade (Araújo, 2020). As estruturas de poder foram ocupadas majoritariamente por homens, o que contribuiu para a construção de uma lógica institucional distante das reais necessidades femininas. Simone de Beauvoir (2009) já afirmava que "basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam ameaçados", revelando o quanto a presença feminina é constantemente questionada e fragilizada em ambientes dominados pelo patriarcado. Um exemplo marcante da resistência à presença feminina no poder foi a presidência de Dilma Rousseff, a primeira mulher a ocupar o cargo mais alto do Executivo brasileiro. Apesar de sua formação técnica, currículo extenso e trajetória política, Dilma foi alvo de críticas desproporcionais, frequentemente marcadas por conotações de gênero. A ex-presidente foi ridicularizada publicamente, teve sua fala distorcida e foi alvo de um processo de impeachment amplamente considerado como golpe institucional por diversos juristas e cientistas políticos. Episódios como esse revelam a dificuldade de aceitação social quanto ao protagonismo feminino em espaços historicamente masculinos. Além disso, a ausência de mulheres nesses espaços de poder compromete diretamente a formulação de políticas públicas voltadas à equidade de gênero. Como pontua a ministra Carmen Lúcia, do STF: "Quando uma mulher é violentada, assassinada, estuprada, assediada, todas nós, mulheres do mundo, somos. Ninguém corta a cara apenas de uma mulher; corta a de todas as mulheres do mundo" (Lúcia, 2024). Essa fala sintetiza a importância da empatia feminina e da vivência compartilhada como instrumentos de transformação social. Mas ainda existe uma barreira cultural forte. Muitas vezes, os próprios discursos que afastam as mulheres do poder vêm de outras mulheres, reproduzindo falas como: “Você não vai dar conta, tem filhos” ou “vai engravidar a qualquer momento”. Esses preconceitos internalizados mostram como o machismo estrutural atua de forma silenciosa, mas eficaz. Por isso, é fundamental incentivar ativamente a presença feminina em posições de liderança, educar meninas para ocuparem todos os espaços e fortalecer o voto consciente como ferramenta de transformação (Maria B. Dias, 2025). Segundo dados do IBGE (2021), apesar das mulheres representaremmais da metade da população brasileira, sua presença nos altos escalões da política e da administração pública ainda é extremamente limitada. A disparidade de gênero nos espaços de poder perpetua desigualdades, silencia demandas femininas e impede avanços reais em direitos e igualdade. A verdadeira democracia só será possível quando todas as vozes forem igualmente representadas, e isso inclui, necessariamente, as vozes das mulheres. CONCLUSÃO Durante o desenvolvimento deste trabalho, foi possível entender melhor como o machismo estrutural está profundamente presente na nossa sociedade, influenciado por fatores sociais, culturais e políticos. Percebe-se que a desigualdade entre homens e mulheres não é apenas fruto de atitudes individuais, mas sim de um conjunto de ideias e práticas que vêm sendo repetidas há gerações e que, muitas vezes, acabam sendo vistas como normais. Ao longo da pesquisa, ficou claro que essa estrutura desigual precisa ser questionada e enfrentada. É essencial que cada vez mais mulheres não aceitem esse padrão, que se posicionem, se informem e lutem por direitos que outras mulheres no passado já buscaram com muita coragem. Se hoje conseguimos falar, estudar e nos expressar sobre esse tema, é porque muitas outras abriram caminho antes de nós. Por isso, é tão importante continuar essa luta e reconhecer as formas mais invisíveis de machismo que ainda fazem parte da nossa cultura. Temos um papel importante como sociedade: conscientizar, informar, encorajar e mostrar para as mulheres que elas podem, sim, ocupar todos os espaços que desejarem, que não são obrigadas a carregar sozinhas todas as responsabilidades e que a desigualdade não deve ser vista como algo natural. Para mudar esse cenário, é necessário investir em mais políticas públicas, principalmente na área da educação, além de rever como a figura da mulher é construída e representada em nossa sociedade. Sabemos que desconstruir algo que foi criado e mantido por tanto tempo não é fácil. Mas, com mais informação, mais incentivo e mais mulheres preparadas e confiantes, é possível mudar esse cenário e servir de exemplo para as próximas gerações. Essa transformação também exige que os homens façam parte da mudança, desde dividir as tarefas domésticas até lutar por igualdade no trabalho e, principalmente, respeitar. Talvez, por meio da educação nas escolas e da criação de leis mais firmes, seja possível proibir conteúdos e comportamentos que reforcem o machismo, seja na mídia, na música ou nas novelas. Mas, para que isso aconteça, é necessário que mais mulheres estejam dispostas a ocupar espaços de decisão, participando ativamente da construção dessas mudanças, garantindo que nossos direitos sejam respeitados e protegidos. Este TCC não teve a intenção de encerrar esse debate — até porque sabemos que há muito a explorar e aprofundar —, mas sim abrir espaço para uma reflexão mais profunda sobre a urgência de transformar padrões que ainda hoje sustentam a opressão de gênero. A luta contra o machismo exige o envolvimento de todos, mulheres e homens, e só será possível com união, coragem e compromisso com a igualdade. Por fim, a esperança é de que esta pesquisa sirva como um pequeno passo nessa caminhada e que incentive mais pessoas a pensar, agir e construir, juntas, uma sociedade mais justa, igualitária e livre de violências e opressões contra as mulheres. REFERÊNCIAS ARTIGO EM PERIÓDICO ARAÚJO, Ana Carolina. Representatividade feminina e poder: desafios para a inclusão das mulheres em espaços decisórios. Revista de Ciências Sociais, v. 12, n. 3, p. 45-60, 2020. DIAS, Maria Beatriz. Machismo estrutural e liderança feminina: desafios contemporâneos. 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