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Imprimir INTRODUÇÃO Bem-vindo, prezado aluno. Nesta aula conheceremos o sistema multiportas e os meios integradores de resolução de con�itos. Modernamente, mais do que o simples acesso ao Poder Judiciário, a efetividade do acesso à justiça e da prestação jurisdicional é assunto de extrema importância. Muito mais do que ter o direito de ingressar com uma ação no sistema judiciário para pleitear o cumprimento de uma norma, a preocupação atual é com a efetividade dessa prestação, inclusive na perspectiva da realização, por parte do Estado, de sua função na paci�cação dos con�itos sociais. Tudo isso ganha ainda mais relevância com o protagonismo que o Código de Processo Civil trouxe, em 2015, para os sujeitos do processo como atores nesse mecanismo de resolução de con�itos. Com isso, vemos a relevância e a atualidade do tema e a necessidade de conhecer e dominar essas competências, as quais precisam de estudo constante por parte do pro�ssional do Direito. MODELO MULTIPORTAS E MEIOS INTEGRADORES DE RESOLUÇÃO DE CONFLITOS. A NOÇÃO DE CONFLITO DE DIREITO Antes de ingressarmos no estudo e na discussão sobre o modelo multiportas e os meios integradores de resolução de con�itos, precisamos estabelecer e ter bastante claro o objetivo desse estudo e considerar o objeto principal que permeia nossa análise: o con�ito. Os con�itos de direito, as lides ou os con�itos entre pessoas que discutem quem tem determinado direito em uma determinada relação são uma realidade da vida em sociedade. Desde os primórdios, as sociedades humanas adotaram múltiplos e distintos modelos para resolver esses con�itos e fazer prevalecer o interesse de uma das partes. Do simples uso da força até complexas fórmulas processuais, todos são modelos criados com o objetivo de resolver os con�itos entre as pessoas e reestabelecer, de alguma forma, a paz no convívio social. Neste contexto podemos inserir o Estado, que, no exercício do poder jurisdicional, tem por objetivo resolver os con�itos entre as pessoas, restaurar e manter a vida pací�ca na sociedade. Aula 1 ASPECTOS INTRODUTÓRIOS Nesta aula conheceremos o sistema multiportas e os meios integradores de resolução de con�itos. 22 minutos O modelo adotado no Código de Processo Civil anterior, ainda que bastante moderno para sua época, ainda se valia de princípios e fundamentos herdados do formalismo europeu, com um sistema que prezava a imperatividade, em que a decisão judicial era imposta sobre a vontade das partes, dizendo quem tinha razão jurídica no processo através da sentença. Ainda que se possa defender as vantagens desse modelo em solucionar de maneira imperativa o con�ito e pôr �m à discussão do direito, ele não visava atender ao con�ito social por trás do con�ito jurídico, de modo que não atendia integralmente à função de paci�cação social. O Estado, no exercício da jurisdição, resolvia o problema, impondo uma solução na sentença, mas não se preocupava em solucionar as raízes dos problemas. A questão passa a ser, então, sobre a efetividade da atuação do Estado na resolução dos con�itos e na manutenção da paz social e sobre a efetividade do acesso à justiça. Com a Constituição Federal, em 1988, muitas garantias individuais e sociais se tornaram objetivos explícitos a serem realizados pelo Estado Democrático de Direito, entre os quais está a garantia de acesso à justiça. Muito mais do que o direito subjetivo de ação, que é o direito de apresentação de uma demanda ao judiciário, ou a garantia de que o Estado não pode, pela atuação do legislativo, impor obstáculos para esse acesso à justiça, também se passou a discutir sobre a celeridade e a efetividade da prestação jurisdicional. E mais ainda, começou a ser debatido se a atuação do Estado é capaz de garantir justiça que devolva e mantenha a paz na sociedade. Neste contexto, o modelo multiportas se insere como alternativa às formalidades do processo e institucionaliza meios integradores de resolução dos con�itos. O ENFRENTAMENTO DOS CONFLITOS E A JURISDIÇÃO Podemos estabelecer que o processo é o meio do qual o Estado se vale para conhecer os con�itos entre as pessoas na sociedade e apresentar uma solução, dizendo, no caso concreto, a quem cabe o direito pretendido. Conforme vimos, e até mesmo como um re�exo do fato de as raízes do nosso sistema jurídico estarem na Europa continental, o Código de Processo Civil adotou um modelo judicializado de resolução de con�itos, como mecanismo formal e exclusivo para determinar, de maneira de�nitiva, a conclusão de uma discussão jurídica. Nesse modelo, as partes apresentam ao Estado suas demandas e razões, discutindo determinado direito, e ao �nal, o juiz, no exercício do poder jurisdicional, profere uma sentença, dizendo a quem cabe o direito. Essa decisão, que, vencidos os recursos, passa a ter caráter de�nitivo, tem por característica sua imperatividade, ou seja, é uma decisão imposta pelo Estado a todas as partes envolvidas na discussão e que não pode ser contrariada. Poderíamos dizer que ela põe �m à discussão sobre o con�ito, mas não necessariamente encerra o problema em si. Novamente retornamos à discussão: a prestação judiciária equivale à prestação de justiça? Conforme vimos, a Constituição Federal (BRASIL, 1988) inseriu uma série de garantias individuais e sociais a serem buscadas pelo Estado, dentre as quais cabe aqui citar a garantia de acesso à justiça e seus desdobramentos: a garantia de celeridade e de efetividade da prestação jurisdicional. Ou seja, muito mais do que apenas o direito subjetivo de ação, trata-se do direito de poder ingressar com uma demanda em juízo, pleiteando o cumprimento de uma norma, e da garantia de que o Estado e as leis não criarão obstáculos para esse direito. A atuação do Estado na jurisdição deve atender às expectativas das partes no processo em um tempo razoável, e a decisão deve possuir efetividade e alcançar os objetivos aos quais se propõe; caso contrário, a atuação do Estado terá atendido a seus objetivos formais, mas não conseguirá pôr �m aos con�itos. Ou seja, tal procedimento acaba por gerar descrédito na própria atuação jurisdicional e no exercício da justiça. Nesta linha de raciocínio, diversas foram as iniciativas para atender a essa necessidade de efetividade da realização e do acesso à justiça, buscando-se alternativas às formalidades e ao rigorismo do processo para encontrar caminhos válidos que atendessem às necessidades das pessoas que tivessem um con�ito de direito para resolver, da sociedade na manutenção da paz e na resolução dos con�itos, e do Estado na realização ativa das garantias previstas pelo texto constitucional. É possível delimitar que, até então, o único caminho o�cial e formal a ser trilhado para a resolução de con�itos seria o processo, e essa seria a única porta disponível na qual, ao �m, as partes teriam uma decisão imposta pelo Estado e que poderia, ou não, lhes agradar, mas, de qualquer maneira, tal decisão seria de�nitiva e indiscutível. O que se pode veri�car atualmente é a necessidade de que sejam oferecidas múltiplas possibilidades de resolução de con�itos, com o objetivo de melhor atender às pessoas envolvidas, à natureza dos con�itos e às soluções que se pretenda dar na busca da pretendida paz e harmonia social. A CONSTRUÇÃO LEGISLATIVA NO ENFRENTAMENTO DE CONFLITOS Até este ponto, construímos uma visão sobre a noção de con�itos e quais são aqueles que importam ao Direito. De uma maneira geral, a vida em sociedade e as múltiplas relações entre pessoas criam um ambiente favorável ao surgimento de con�itos de interesse, situações em que sujeitos discutem a titularidade de um direito ou uma obrigação. Para a manutenção da paz e da harmonia na sociedade, é necessário que se estabeleçam meios, métodos e caminhos para solucionar esses con�itos, retornando as partes àquela situação de tranquilidade anterior ao con�ito. Quando pensamos em sociedades cada vez mais complexas, maiores são as possibilidades e ainda mais diversasas naturezas dos con�itos de Direito que podem surgir e que precisam ser solucionados para a manutenção da paz social. Entre as �nalidades do Estado está, justamente, a manutenção da ordem e da paz social, o que se faz por diversos mecanismos institucionais, dos quais podemos destacar a resolução dos con�itos de direito entre as pessoas. Tradicionalmente entre nós se adotou o método jurisdicionalizado de resolução de con�itos, valendo-se do processo como instrumento para que o Estado resolva os desacordos entre as pessoas, impondo, ao �nal, uma solução. Como se viu, e sem ignorar as vantagens do método jurisdicionalizado de processo, este não é o único meio de resolução de con�itos, tampouco o mais adequado a todas as situações. Pensemos o quanto a sociedade brasileira se desenvolveu em relação à complexidade de relações jurídicas desde que o anterior Código de Processo Civil entrou em vigor, em 1974. Mesmo se pensarmos na Constituição Federal de 1988, a sociedade atual já não é mais a mesma, tendo ampliado as relações jurídicas e potencialmente os focos de con�itos de direito. Apenas como exemplos, podemos incluir a complexidade atual nas relações familiares, no direito de vizinhança e no direito do consumidor, assim como as relações com os ambientes e redes sociais, todos ambientes em que potencialmente podem surgir con�itos de direito. E, justamente por essa diversidade de con�itos de diferentes naturezas, o que se veri�ca é que o modelo jurisdicional e o processo nem sempre se mostram como métodos mais adequados para a resolução dos con�itos na perspectiva da realização e efetividade da justiça. Dessa constatação, diversas foram as medidas buscando estabelecer caminhos alternativos para o enfrentamento e a resolução dos con�itos em sociedade, meios que pudessem se revestir das mesmas garantias e segurança do processo, sem a necessidade das formalidades ou mesmo da imposição cogente de solução. O Código de Processo Civil, em 2015 – Lei nº 13.105/2015 –, transforma em lei, já em seu art. 3º, essa necessidade de reconhecimento e divulgação dos múltiplos meios de resolução de con�itos. Ao mesmo tempo em que reitera o princípio constitucional da inafastabilidade de jurisdição, reconhece o instituto da arbitragem, assim como o compromisso do Estado em promover os meios consensuais de resolução de con�itos, os quais deverão ser estimulados por todos os sujeitos da relação processual. Vemos então que, em nossos dias, para além do processo, existem diversas outras portas que podem ser utilizadas, e geralmente devem ser preferidas, para a resolução dos con�itos. Daí a necessidade dessa formação constante do pro�ssional do Direito em conhecer tais caminhos e adotar essas estratégias em sua atuação pro�ssional. VÍDEO RESUMO No vídeo teremos uma visão geral sobre a questão dos con�itos de direito surgidos em sociedade e a necessidade de sua resolução para garantia da paz social. Igualmente, será apresentado o papel do Estado neste contexto, bem como as linhas gerais sobre os métodos e modelos desenvolvidos para resolução dos problemas. Para visualizar o objeto, acesse seu material digital. Saiba mais Para aprender mais informações sobre o assunto, leia o artigo Formas de resolução de con�itos e acesso à justiça. INTRODUÇÃO Bem-vindo, prezado aluno. Na aula anterior discorremos sobre o direito e os con�itos que podem surgir em sociedade quando da discussão ou da negação ao exercício de um direito. Nesta aula, aprofundaremos o estudo e conheceremos os métodos que podem ser utilizados na resolução de con�itos, o tratamento que tradicionalmente o ordenamento jurídico deu a essa questão e os diversos caminhos e possibilidades que podem ser estabelecidos para o enfrentamento e a resolução de con�itos. Com isso, vemos a relevância e a atualidade do tema e a necessidade de conhecer e dominar essas competências, que precisam de estudo constante por parte do pro�ssional do Direito, especialmente revelando a ideia integralizadora e o objetivo social que se deve buscar com a resolução dos con�itos. NOÇÕES GERAIS: OS MÉTODOS DE RESOLUÇÃO DE CONFLITOS Conforme estudamos no decorrer da aula anterior, a complexidade da vida em sociedade e as diversas relações entre pessoas (multiplicidade de relações interpessoais) acabam por criar um ambiente propício à instalação de con�itos de direito. Toda vez que uma pessoa acredita possuir um direito, tendo assim uma pretensão sobre determinado direito, e essa pretensão é resistida, temos um con�ito de interesse. Pensemos em um exemplo simples: você está em sua casa, à tarde, quando começa uma forte chuva. A ventania arranca uma de suas telhas, que acaba caindo sobre o carro do vizinho, estacionado em via pública, na frente da sua casa. Aula 2 OS MÉTODOS DE RESOLUÇÃO DE CONFLITOS Na aula anterior discorremos sobre o direito e os con�itos que podem surgir em sociedade quando da discussão ou da negação ao exercício de um direito. 20 minutos https://www.trt3.jus.br/escola/download/revista/rev_76/Adriana_Sena.pdf https://www.trt3.jus.br/escola/download/revista/rev_76/Adriana_Sena.pdf https://www.trt3.jus.br/escola/download/revista/rev_76/Adriana_Sena.pdf O vizinho o procura e diz que você tem obrigação de pagar pelo conserto do carro, que foi a telha da sua casa que provocou o estrago. De sua parte, você já teve o prejuízo do telhado, que foi causado pela chuva e ventania, e acha que, assim como você, seu vizinho deve arcar com o próprio prejuízo, porque o estrago foi causado pela tempestade. Pronto! Temos aí um con�ito de interesses estabelecido. De um lado, o detentor de uma propriedade entende que o causador do dano deve ser responsável por sua reparação. Do outro, alguém entende que não deu causa ao prejuízo, que este foi decorrente de caso fortuito e, logo, não existe o dever de indenizar. É evidente que essa situação de con�ito, por conta da pretensão jurídica resistida, retira a situação de harmonia e paz social antes existente. De alguma maneira esse con�ito deverá ser solucionado, e múltiplas são as possibilidades de atuação, tanto entre as partes quanto com a intervenção de terceiros, para a resolução de um con�ito de direito. Desenvolvendo esse raciocínio, e como a todo tempo remetemos aos con�itos de direito, qual seria o papel do direito, ao menos no contexto que estudamos? Ora, somente no exemplo anterior podemos identi�car pelo menos duas funções do direito. Primeiramente, é possível identi�car a função do direito que direciona as condutas dos sujeitos, determinando o que deve ou não deve ser feito e as consequências de se agir de tal ou qual forma, além de estabelecer relações entre os sujeitos (interpessoais) e entre sujeitos e coisas (reais). Não se poderia discutir o dever de reparar um dano se antes não houvesse uma relação entre aquele que pretende a indenização e a coisa dani�cada – uma relação jurídica de propriedade. Daí é possível extrair uma segunda função do direito, essa relacionada com a vida em sociedade, que é justamente a de estabelecer métodos para tratar e resolver os con�itos de direito surgidos nas relações sociais. Não é su�ciente o reconhecimento de um direito, mas é igualmente essencial estabelecer os meios para proteção desse direito e de resolução dos con�itos que possam surgir quando o exercício de um direito se vir resistido. AUTOTUTELA E HETEROCOMPOSIÇÃO Do que analisamos até aqui, os con�itos surgem nas relações interpessoais na sociedade. Os con�itos de direito se ampliam e se tornam cada vez mais complexos conforme mais complexas são as relações sociais, e esses con�itos precisam de solução. No exemplo lançado, a solução do con�ito poderia surgir da imposição da vontade de uma das partes sobre a outra. Seja pelo dono do automóvel dani�cado, exigindo o recebimento do valor por imposição, seja pelo dono do imóvel, a�rmando que não pagaria qualquer quantia, tanto em um quanto em outro cenário, o con�ito de direito seria resolvidopela imposição da vontade de uma das partes. Neste caso, a imposição da vontade de uma das partes resulta, por consequência, no sacrifício da vontade da outra. Trata-se do modelo da autotutela. A solução do con�ito ocorre com a imposição da vontade de um dos sujeitos sobre o outro. Perceba que, na autotutela, a resolução do con�ito de direito se dá na relação interna entre os interessados, ou seja, sem a intervenção de terceiros. Não existe a participação do Estado ou de terceiro na resolução do con�ito. Na maior parte dos casos, a solução decorre da imposição moral ou física da vontade de uma das partes, e justamente por esse motivo, de maneira geral, os ordenamentos jurídicos modernos afastam a autotutela, apenas permitindo seu exercício em situações pontuais nas quais, pela natureza da relação, ela possa se justi�car, como no caso da legítima defesa, do estado de necessidade, do desforço imediato e do direito de retenção. Todas são hipóteses excepcionais, que se justi�cam apenas na impossibilidade do Estado tutelar as relações e proteger os bens jurídicos nos casos concretos em que se aplicam. Caso contrário, a autotutela, enquanto indevida imposição de vontade, acaba por con�gurar exercício arbitrário das próprias razões ou abuso de poder. Como vemos, na autotutela, o con�ito de direito pode ser resolvido. Contudo, o con�ito social nas relações entre as pessoas persiste e pode inclusive se agravar. Outra possibilidade de resolução de con�ito se dá com a participação de terceiros que, atuando com os sujeitos do con�ito, procuram uma solução. Ao contrário do que se veri�ca na autotutela, em que a solução surge da vontade de uma das partes, nesse segundo modelo, a solução decorre da vontade de um terceiro, estranho ao con�ito. Para fugir do arbítrio e da imposição de força que, geralmente, se veri�ca do modelo da autotutela, passa-se a buscar um modelo em que um terceiro, estranho ao problema, apresente uma solução. Aqui surge uma semente do que viria a se tornar o poder jurisdicional do Estado. No exercício da jurisdição, o Estado, revestido de seu poder soberano, afasta a vontade das partes e, se valendo do processo, depois de conhecer sobre o con�ito e as razões de cada envolvido, decide na sentença a quem cabe o direito, impondo sua decisão aos con�itantes. Ainda que tratemos de um modelo e�caz para a resolução de con�itos de direito, é inegável que a decisão é uma forma de imposição de vontade, em sacrifício da vontade das partes. Dentro da nossa discussão e pensando justamente nos caminhos para a resolução dos con�itos, tanto na autotutela quanto nesse modelo heterogêneo, a solução é uma imposição de vontade, sem a integração das vontades e sem a participação dos con�itantes na solução do problema. AUTOCOMPOSIÇÃO Veri�camos nos modelos até então analisados que a solução dos con�itos de direito, na autotutela ou mesmo no modelo jurisdicional, decorre da imposição de uma vontade sobre a vontade das partes. Mais do que isso, as partes não são protagonistas na solução dos problemas. Sem que se questione o valor e as vantagens do modelo jurisdicional, revestido de todas as garantias do processo, podemos veri�car que, geralmente, ele põe �m à discussão de direito, mas não soluciona o con�ito entre as partes. Conforme as particularidades de cada relação jurídica, a solução do con�ito de direito nem sempre colocará �m, necessariamente, ao con�ito entre as partes. Ao contrário, dependendo do desdobramento dos fatos, a resolução de um con�ito isolado, especialmente se a solução for imposta às partes, poderá criar ambiente ainda mais propício para novos con�itos. No modelo de autocomposição, as partes do con�ito buscam por uma solução razoável para colocar �m ao litígio. Não podemos dizer que se trata de uma inovação ou de um novo modelo de resolução de con�itos; ao contrário, é um método bastante antigo e veri�cado em diversas interações, especialmente naquelas em que a relação entre os sujeitos deve se manter independente da resolução do con�ito de direito. Nessa situação, uma das partes ou mesmo todos os envolvidos no con�ito acabam por renunciar a parte de seu direito ou de sua pretensão para encontrarem um meio termo razoável e colocar �m no problema. Marcante nesse modelo é que, ao contrário do que vimos nos outros meios, nesse método ocorre uma participação ativa dos envolvidos em encontrar uma solução para o con�ito, de modo que não se forme uma imposição – jurisdicional, arbitral ou arbitrária – sobre a vontade das partes. A solução para o con�ito surge como manifestação de vontade entre os envolvidos no problema, seja quando uma das partes abre mão de seu direito, renunciando à sua pretensão, por mera desistência ou simplesmente por reconhecer como válida a pretensão da outra parte, seja quando os envolvidos, cada qual abrindo mão de uma parcela de sua pretensão, encontram um ponto comum na resolução do con�ito em que, apesar não alcançarem a integralidade do direito pretendido inicialmente, ainda assim conseguem transacionar uma solução razoável. Um ponto relevante que precisa ser mencionado nesse modelo de resolução de con�ito é que ele pode ser veri�cado fora e independente de um processo, ou seja, sem a necessidade de qualquer intervenção do Estado-jurisdição, como um movimento da própria sociedade buscando resolver e paci�car os con�itos (extraprocessual), ou ocorrer como uma solução encontrada entre as partes em um acordo dentro do processo (processual). A rescisão de um contrato de trabalho ou de prestação de serviços, assim como o término de um relacionamento formal, seja uma sociedade ou um casamento, podem fazer surgir con�itos de direito entre os sujeitos e que necessitam de uma resolução, especialmente pensando na paci�cação social com o objetivo de evitar novos con�itos ou a ampliação daqueles já existentes. Daí a necessidade, por parte do pro�ssional, de conhecer essa realidade e ser capaz de perceber todas essas nuances para melhor aplicar os conhecimentos e encontrar a solução para con�itos que se apresentem na vida prática. VÍDEO RESUMO Na videoaula serão ampliados os conhecimentos inicialmente desenvolvidos, permitindo reconhecer as diversas formas de resolução con�itos e os caminhos possíveis na solução desses problemas, com vistas à paci�cação social. Além disso, será possível perceber que métodos distintos de resolução de con�itos podem apresentar resultados mais e�cientes conforme se veri�quem mais ou menos adequados à relação social a que são aplicados. Saiba mais Para aprender mais informações sobre o assunto, acesso o seguinte artigo: A e�cácia das soluções alternativas de con�itos no atual sistema jurídico brasileiro Para visualizar o objeto, acesse seu material digital. INTRODUÇÃO Bem-vindo, prezado aluno. Toda área de conhecimento possui fundamentos e bases principiológicas que lhe são próprias e que funcionam como ferramentas essenciais para a correta compreensão e aplicação do saber. Os princípios funcionam como guias para interpretação e aplicação dos conhecimentos jurídicos. Assim, para nós, é de extrema importância entender os princípios que norteiam o modelo multiportas e os métodos de resolução de con�itos para que possamos, de maneira e�caz, identi�car, compreender e aplicar os meios Aula 3 PRINCÍPIOS RELACIONADOS COM A RESOLUÇÃO DE CONFLITOS Compreender as noções gerais de con�itos e a necessidade de enfrentamento pelo Estado. 25 minutos https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-processual-civil/conflitos-no-atual-sistema-juridico-brasileiro https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-processual-civil/conflitos-no-atual-sistema-juridico-brasileiro disponíveis para realização da justiça. Entender os princípios envolvidos nos habilita a melhor compreender e aplicar os conhecimentos relacionados ao enfrentamento dos con�itos, permitindo perceber a situação atual e todas as questões relacionadas ao processo e à jurisdicionalização, bem comoas alternativas integradoras apresentadas pelo modelo multiportas. Nesta aula, passaremos à análise dos princípios envolvidos com a atuação jurídica na resolução de con�itos, em especial aqueles afetos aos modelos integradores, fornecendo-nos a base e os fundamentos necessários para aplicação dos conhecimentos adquiridos. O USO DOS PRINCÍPIOS COMO MEIO DE INTERPRETAÇÃO E INTEGRAÇÃO DAS NORMAS Ao tentar entender a ideia trazida no estudo dos princípios, primeiro deveríamos buscar compreender a própria palavra princípio, que por si só pode apresentar diversos signi�cados. Segundo Nucci (2008), a palavra princípio poderia ser compreendida no sentido de: causa primária, elemento predominante na constituição de um corpo orgânico; preceito, regra ou lei; fonte ou causa de uma ação. Sob o ponto de vista jurídico, podemos conceituar princípio como sendo uma ordem ou um comando que permeia e antecede todo um sistema de normas, dando-lhe coesão, unidade como sistema, e servindo de base para sua interpretação e integração, bem como para a aplicação da norma jurídica ao caso concreto. Os princípios fazem o sistema funcionar de forma lógica e permitem uma interpretação coesa e compreensível. Quando entendemos os princípios envolvidos com o estudo, o sistema normativo passa a fazer sentido. Os princípios antecedem a norma, muitas vezes encontrando-se de forma explícita previstos na lei e, em outra fonte normativa, de forma implícita, sendo decorrentes da interpretação do sistema normativo. Podemos falar então em princípios explícitos e princípios implícitos. Explícitos são aqueles que podem ser encontrados de maneira expressa na norma, enquanto implícitos são os que, apesar de não estarem escritos de uma forma clara, podem ser extraídos da interpretação das normas. Quando pensamos em processo, por exemplo, e o relacionamos com o princípio constitucional do devido processo legal, somos levados a entender que o funcionamento do processo deve observar uma série de procedimentos previstos em lei para garantir aos envolvidos a igualdade de tratamento na análise de determinado con�ito de direito. Também quando estudamos o modelo multiportas e os métodos integradores de resolução de con�itos precisamos conhecer e entender os princípios envolvidos para melhor compreender os objetivos que pretendemos alcançar para a realização da justiça. Já nos foi apresentada a noção de que o direito tem por objetivo a resolução dos con�itos de interesse veri�cados entre as pessoas, com o objetivo de paci�car as relações e garantir a paz social, sendo esse um dos objetivos da existência do próprio Estado. Nesta linha de pensamento, se o objetivo é a garantia da paz social por meio da resolução dos con�itos, é necessário que as pessoas tenham acesso aos meios para buscar essas ferramentas e alcançar a solução dos problemas, ou seja, o acesso à justiça. Além disso, esses mecanismos de solução de con�itos devem estar disponíveis a todos, e a resolução dos problemas, dos con�itos de direito na sociedade, deve se apresentar de maneira célere, em tempo hábil para produzir os efeitos que se pretende. Ou seja, mais do que simples existência e acesso formais, os mecanismos de resolução de con�itos devem se apresentar de maneira funcional, de modo que as soluções possuam efetividade para resolver os con�itos e devolver a situação de paz anterior ao con�ito de maneira adequada. O ACESSO À JUSTIÇA Até o momento, nos foi possível construir a noção da existência dos con�itos em sociedade e da necessidade de sua resolução com o �m de manter a paz social, o que consiste em um dos objetivos da própria existência do Estado. Durante muito tempo, e como consequência do desenvolvimento histórico e cultural brasileiro, nosso sistema processual, com raízes no direito da Europa continental, adotou um modelo jurisdicionalizado de resolução de con�itos, o que se faz com a atuação do Estado, de maneira imperativa, conhecendo os con�itos e impondo a resolução com a sentença. Sem pretender ignorar o valor e as vantagens desse modelo, que pressupõe a exclusividade do Estado na função de solucionar con�itos, especialmente na medida em que afasta como regra a autotutela e os abusos de um indivíduo sobre o outro, é fato que a doutrina aponta também desvantagens nele, como a morosidade decorrente de acúmulo de demandas, a complexidade das fórmulas processuais e a natureza impositiva da decisão, que obriga às partes com a sentença, superando a vontade dos envolvidos no con�ito. Da garantia constitucional da igualdade (CF, art. 5º, caput e inciso I) (BRASIL, 1988), temos que as pessoas devem ser tratadas da mesma forma pelo Estado e que todos devem ter igual acesso à possibilidade de buscar na jurisdição a resolução dos con�itos. Falamos então da garantia de acesso ao processo e da inafastabilidade da jurisdição (CF, art. 5º, inciso XXXV): “a lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito” (BRASIL, 1988). Trata-se da garantia de acesso à jurisdição, de acesso ao processo, ou seja, o direito subjetivo de ação. Qualquer pessoa que veja resistida uma pretensão jurídica sua, que esteja diante de um con�ito, tem direito de acionar o Estado, por intermédio da jurisdição, para que o con�ito seja conhecido e solucionado com a sentença. E mais do que isso, a Constituição Federal (CF) veda qualquer iniciativa do Poder Legislativo de tentar prejudicar essa garantia criando mecanismos que tenham por objetivo, direto ou indireto, impedir o acesso ao processo. Perceba que estamos tratando do direito de ação, do direito de procurar o socorro do Estado em sua função jurisdicional para que conheça os con�itos de direito e apresente, de maneira privativa, uma solução de�nitiva ao caso. Se por um lado essa garantia pode impedir o exercício abusivo ou arbitrário da autotutela, também reduziria a efetividade das soluções encontradas pelo caminho da autocomposição, que em alguns modelos processuais seria mesmo vedada, no sentido de que não seria apta a produzir efeitos jurídicos. Temos então um modelo material e formal que garante acesso ao processo e à decisão judicial como instrumento de resolução dos con�itos. A sentença apresenta uma solução de�nitiva e incontestável (depois do trânsito em julgado) para o con�ito, obrigando as partes à vontade nela expressa. Contudo, e conforme já pudemos veri�car, a solução do con�ito isolado, objeto do processo, pode resolver a questão de direito envolvida. Isso não signi�ca que o con�ito entre as partes será efetivamente solucionado. Se o objetivo é a resolução do con�ito e a restauração da paz social, tal �nalidade pode não ser necessariamente alcançada com a decisão judicial. CELERIDADE E EFETIVIDADE DA PRESTAÇÃO JURISDICIONAL A garantia do acesso ao processo como meio de resolução de con�itos e da inafastabilidade da jurisdição funciona como uma salvaguarda para permitir que qualquer pessoa que tenha uma pretensão jurídica resistida se socorra do Estado para ter uma solução ao con�ito. O modelo adotado como regra no Brasil durante um longo período foi o método jurisdicional de resolução de con�itos. Todavia, e conforme já apontado, existem diversos pontos que podem resultar em obstáculos para a realização da justiça. Para que a prestação jurisdicional alcance minimamente os �ns pretendidos, a solução para o con�ito deve ser apresentada em um tempo razoável e de maneira que a decisão entregue de maneira útil o direito pleiteado. Uma decisão que reconheça que uma parte tem direito de receber determinado valor, mas sem a existência de meios para satisfazer esse recebimento, terá atendido ao princípio de acesso ao processo, mas não ao de acesso à justiça. Haverá a solução para o con�ito de direito – a sentença que reconhece o direito ao recebimento do valor –, mas não uma solução para o con�ito social. Da mesma forma, um processo prolongado de maneira inde�nida pode apresentar uma solução �nal na sentença que já não encontremais a própria pessoa que buscou a função jurisdicional do Estado. Por isso mesmo, a Constituição Federal, em seu art. 5º, inciso LXXVIII (BRASIL, 1988), apresenta a garantia de celeridade, de duração razoável do processo e de e�cácia da prestação jurisdicional (a todos, no âmbito judicial e administrativo, são assegurados a razoável duração do processo e os meios que garantam a celeridade de sua tramitação). Signi�ca dizer que a solução para o con�ito, para que tenha e�cácia, deve ser prestada dentro de um tempo razoável e entregar para as partes um resultado que seja útil, sob pena de não atingir a �nalidade de prestação de justiça. Apenas para ilustrar, consideremos uma discussão sobre paternidade de um feto em gestação e uma ação pleiteando alimentos durante a gravidez, em que a solução somente fosse fornecida após o nascimento da criança. Ainda que reconhecido o direito e surgida a obrigação de pagar o valor, essa decisão, que coloca �m ao con�ito de direito, teria colocado em risco o próprio direito que se pretende proteger. Da mesma forma, uma ação contra o Estado, pleiteando certo direito real de propriedade, que somente fosse solucionada depois de 100 anos, apesar de resolver o con�ito de direito, não traria efetividade para aqueles que originariamente buscaram a solução do Estado. Agora, pensemos em uma situação hipotética em que todos os con�itos de direito em uma sociedade complexa como a nossa tivessem que ser necessariamente submetidos ao crivo jurisdicional para ganharem uma solução de�nitiva. E que todos os con�itos de direito, independentemente de suas características ou complexidades, tivessem que ser submetidos aos rigores e às formalidades do processo. Nesse contexto, ou o Estado deveria possuir um aparato jurisdicional com estrutura su�ciente para atender às demandas ou encontraríamos obstáculos invencíveis para a garantia do acesso à justiça. E na medida em que as pessoas veri�cassem a demora ou a falta de efetividade na atuação da jurisdição, deixariam de procurar esse serviço, retornando para a autotutela ou simplesmente renunciando às suas pretensões. Daí poderíamos concluir que, mesmo sem ignorar as vantagens do modelo jurisdicionalizado de resolução de con�ito, o reconhecimento da autonomia da vontade dos indivíduos e da necessária e�cácia da solução de con�itos como meio de acesso à justiça demandaria o desenvolvimento e a implantação de outros modelos voltados à resolução dos múltiplos con�itos possíveis em sociedade. VÍDEO RESUMO No vídeo serão abordadas noções sobre princípios relacionados à resolução de con�itos e a importância desses instrumentos para interpretação do direito e efetivação das normas jurídicas, uma vez que servem de guia no processo de aplicação da norma aos casos concretos. Além disso, serão apresentados os princípios inerentes ao modelo multiportas, nos introduzindo à noção de inafastabilidade de jurisdição, celeridade e efetividade da prestação jurisdicional. Saiba mais Para aprofundar seus conhecimentos sobre o tema, acesse os seguintes itens: • O Fórum Múltiplas Portas como política pública de acesso à justiça e à paci�cação social Para visualizar o objeto, acesse seu material digital. https://www.cnj.jus.br/wp-content/uploads/2018/09/8f477ec6bf0626d8bf998c5b4f522458.pdf • Princípio do acesso justiça. INTRODUÇÃO Bem-vindo, prezado aluno. Dando continuidade ao estudo dos con�itos de direito e das formas de solução dessas demandas, passaremos ao estudo do papel do Estado na resolução dos con�itos, com o objetivo de manutenção da paz nas relações sociais. Delimitados os modelos de enfrentamento de con�itos e o caminho heterocompositivo fundado no método jurisdicional adotado, como regra, pelo Estado, poderemos estabelecer vantagens e desvantagens extraídas desse método. Noutro passo, trataremos da função do Estado na resolução dos con�itos e de seu papel assumido como assegurador de direitos e garantias fundamentais, conduzindo-nos ao objetivo de preservação da paz social para, �nalmente, estabelecer as diretrizes relacionadas com os métodos integralizadores para resolução dos con�itos. O PAPEL DO ESTADO NA RESOLUÇÃO DE CONFLITOS As relações entre pessoas acabam, invariavelmente, por criar con�itos de direito. Sempre que alguém, acreditando ser detentor de um direito, encontra resistência em sua pretensão, instala-se um con�ito de direito. Conforme mais complexas as sociedades e as relações sociais, proporcionalmente mais complexos os con�itos de direito que potencialmente podem surgir. De outro lado, a manutenção da vida e do funcionamento da sociedade depende da resolução dos con�itos surgidos para garantia do retorno e da manutenção da paz em sociedade. Aula 4 O MODELO MULTIPORTAS E OS MEIOS INTEGRADORES DE RESOLUÇÃO DE CONFLITOS Passaremos ao estudo do papel do Estado na resolução dos con�itos, com o objetivo de manutenção da paz nas relações sociais. 20 minutos https://enciclopediajuridica.pucsp.br/verbete/201/edicao-2/principio-do-acesso-justica Com o surgimento do Estado moderno, calcado em modelos constitucionalistas e com os fundamentos construídos nas revoluções liberais, expandiu-se o ideal de que o Estado existe em função dos indivíduos que compõem determinada sociedade, o que pode ser extraído do art. 3º da Constituição Federal (BRASIL, 1988), que apresenta os objetivos fundamentais a serem perseguidos pelo Estado brasileiro. Podemos então apreender a noção de que, dentre os objetivos do Estado, se acha a manutenção da ordem e da paz social, o que deve ser buscado, dentre outros meios, com a resolução dos con�itos surgidos na sociedade. Para tanto, o ordenamento jurídico delimita diversos direitos materiais e os desdobramentos de seus exercícios. Assim, podemos falar em direito de família e todos os seus segmentos, direito do consumidor, direito do trabalho e tantos outros, e sempre que uma pretensão jurídica se confrontar com outra, teremos um con�ito que precisa ser solucionado. Foi apontado que, tradicionalmente, adotamos um modelo de processo jurisdicionalizado, com o monopólio do Estado em solucionar os con�itos a partir de um modelo heterogêneo, apresentando-se como substituto das partes ao conhecer e decidir sobre o con�ito e aplicando o direito ao caso concreto por intermédio da sentença. Apesar das vantagens do funcionamento desse sistema, foram indicados alguns pontos fracos nos quais o modelo jurisdicionalizado não atende integralmente à �nalidade de garantir acesso à justiça. Lembremos que, em algumas situações, a resolução apenas do con�ito de direito não é su�ciente para colocar �m no con�ito social que lhe antecede, que lhe serve de pano de fundo, o que pode acabar por criar con�itos naquela relação. Em um acidente de carro que gera danos, envolvendo pessoas que não se conhecem e que não mantêm qualquer vínculo ou relação entre si, e que não consigam ou simplesmente não queiram um acordo, o modelo heterogêneo jurisdicional, por intermédio do processo, decide quem tem o direito de ser indenizado e o valor da indenização, impondo a decisão aos con�itantes. Nesse caso, a atuação jurisdicional é su�ciente para restabelecer a paz social, na medida em que ambas as partes terão certeza do funcionamento do direito e do aparato jurisdicional. E provavelmente nunca mais terão contato. De outro lado, em uma relação de direito de família, ou de direito de vizinhança, em que a raiz social do con�ito pode estar bastante distante da pretensão jurídica apresentada à jurisdição, a sentença, enquanto solução da demanda, pode não resolver o con�ito. Assim, tomando a noção de que o Estado e o direito devem ter por objetivo solucionar os con�itos de direito para restabelecer e manter a paz e o funcionamento da sociedade, cabe ao Estado buscar os caminhos mais e�cazes e adequados nesse processo de resolução dos con�itos. O IDEAL DA INTEGRAÇÃO E PAZ SOCIAL Conforme os conhecimentos construídos em nossos estudos, os con�itos de direitosão resultados da vida em sociedade e das relações entre as pessoas, surgindo a necessidade da resolução dos con�itos para a manutenção da vida e do modelo social. Também nos foi possível determinar, de uma forma geral, modelos desenvolvidos para resolução de con�itos, dos quais podemos citar a autotutela (no estado de necessidade, por exemplo), nos modelos heterogêneos (como na arbitragem e na atuação jurisdicional do Estado) e na autocomposição. Igualmente, podemos apresentar como fator em comum entre a autotutela e a heterocomposição o fato de a decisão para o con�ito surgir da sobreposição de uma vontade à outra, na medida em que, na autotutela, uma das partes subjuga a vontade da outra, fazendo prevalecer sobre esta sua decisão para o con�ito, ao passo que na heterocomposição, um terceiro, sem envolvimento no con�ito e de maneira independente das partes, apresenta e impõe sua solução, como no caso da sentença decorrente da atuação jurisdicional. De outro lado, veri�camos que, no modelo de autocomposição, os sujeitos do con�ito, por iniciativa própria ou incentivados por fatores externos, encontram um ponto de equilíbrio para o problema e apresentam uma solução para o con�ito que acaba por atender ao interesse de todos, seja quando um dos sujeitos renuncia a sua pretensão em favor do outro, seja pelo reconhecimento da pretensão con�itante, ou ainda quando ambos renunciam a parte de seu direito para encontrar um consenso. Outro aspecto de extrema importância no desenvolvimento dos estudos foi a constatação de que a atuação do Estado para a manutenção da paz social deve buscar, mais do que a mera efetividade do processo ou as garantias do direito de ação, a realização do acesso à justiça, demandando a utilização de instrumentos adequados não apenas para resolver os con�itos de direito, mas, igualmente, para solucionar os con�itos interpessoais, fazendo reduzir os problemas nas relações potencialmente geradoras de demandas. Dentre as ferramentas possíveis para atingir essa �nalidade do Estado de solucionar os con�itos e manter a paz social, e na perspectiva de adequação do modelo de resolução dos con�itos, a restituição da condição de protagonismo aos sujeitos vem demonstrando e�cácia. Conforme a natureza do con�ito e da pretensão jurídica resistida, especialmente naquelas relações interpessoais de caráter constante ou permanente, interessa, muito além da mera resolução do con�ito jurídico, o restabelecimento da normalidade nas relações entre as pessoas como caminho para evitar novos con�itos. Neste sentido, e na linha da busca por métodos e�cazes não apenas para resolver con�itos de direito, mas para a garantia da paz social, passamos à noção dos meios integralizadores, ou seja, mecanismos que integrem, trans�ram para a condição de solucionadores do con�ito também os sujeitos do problema, para que possam, além de resolver a demanda, se sentir como parte da solução, o que empresta legitimidade e evita novos con�itos. Assim, em um modelo integrador de resolução de con�itos, o que se pretende é justamente o envolvimento e a participação dos sujeitos do litígio na busca de uma solução. AS MUITAS PORTAS NO CAMINHO DA RESOLUÇÃO DO CONFLITO A existência de modelos diversos para resolução de con�itos foi apreendida no decorrer dos estudos preliminares. Contudo, até mesmo a forma como se desenvolveram e se estabeleceram, e, igualmente, o formalismo do processo jurisdicionalizado que se difundiu em nosso meio, acabam por criar a impressão de que os métodos envolvidos se excluem mutuamente, como se não pudessem coexistir. Apesar de vedada, como regra, pelo ordenamento jurídico, a autotutela é admitida pelo direito em determinadas circunstâncias, justamente pelo sistema reconhecer a impossibilidade de o Estado, enquanto garantidor de direitos, estar presente de maneira e�caz em todas as situações. Da mesma forma, ao reconhecer e sistematizar a arbitragem como método para resolução de con�itos em um modelo de heterocomposição, veri�ca-se sua existência e validade mesmo com o princípio da inafastabilidade da jurisdição. Se essa coexistência é admitida e inclusive regulada no ordenamento jurídico, nos é possível depreender que a solução de con�itos pode ser alcançada por diversos caminhos. Apontou-se que as diversas naturezas de con�ito existentes em sociedade podem depender de soluções diferentes para cada caso. Signi�ca dizer que, apesar de a reparação de dano e a guarda se acharem disciplinadas no Código Civil e sujeitas às regras do processo civil, uma solução e�caz em um ponto pode não apresentar a mesma e�ciência em outro. Na medida em que se admite a participação dos sujeitos na construção da solução dos con�itos para que as partes con�itantes se integrem na busca da resolução, igualmente isso é admitido pela necessidade da busca não apenas dos métodos efetivos, mas também pelo estabelecimento do método mais adequado para a solução, tendo por �nalidade não o con�ito em si, mas o restabelecimento da paz social na relação entre esses agentes. Em um modelo multiportas indicamos a existência de muitos caminhos, muitos métodos dentro de um contexto de autocomposição, todos aptos a atender a esse caráter integralizador, conferindo aos sujeitos do processo a responsabilidade ativa de buscar uma solução ao con�ito. Mais do que isso, o protagonismo para a solução do con�ito envolve conhecer e utilizar o método mais adequado para atingir essa �nalidade pretendida, sempre com vistas a atender aos princípios de celeridade e efetividade na garantia de acesso à justiça. A�nal, em uma relação de direito de vizinhança envolvendo, por exemplo, a construção de um muro de divisa ou a passagem de águas, muito mais e�ciente na realização de justiça seria uma solução que emergisse da vontade das partes, as quais, após o enfrentamento dessa questão, continuariam a compartilhar o espaço de convivência social. Mais do que isso, integrar, nessa busca de soluções consensuais, não apenas as partes, mas todos os sujeitos do processo, amplia as possibilidades da resolução pací�ca e não jurisdicionalizada dos con�itos. Por isso, é de extrema importância para o pro�ssional do direito em todas as esferas de atuação conhecer essas múltiplas portas, esses múltiplos caminhos que devem ser buscados de maneira ativa para a resolução dos con�itos. VÍDEO RESUMO No vídeo apresentaremos uma visão geral sobre o papel do Estado enquanto garantidor dos direitos individuais e na resolução dos con�itos e manutenção da paz social. Além disso, introduziremos uma discussão sobre a necessidade de trazer as partes con�itantes para integrar a solução do problema, a �m de superar a noção passiva de aguardar uma solução imposta, apresentando a noção das múltiplas possibilidades de resolução. Saiba mais Para ampliar seus conhecimentos, leia o seguinte artigo: Os juizados especiais cíveis e criminais e o acesso à justiça à luz do sistema multiportas. Para visualizar o objeto, acesse seu material digital. Aula 1 ALMEIDA, D. A. R. O princípio da adequação e os métodos de solução de con�itos. Revista de Processo, v. 195, p. 185-208, maio 2011. BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm . Acesso em: mar. 2022. BRASIL. Lei nº 13.105, de 16 de março de 2015. Código de Processo Civil. Diário O�cial da União, Brasília, DF, 17 mar. 2015. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm . Acesso em: mar. 2022. DIDIER JR., F. Curso de direito processual civil: introdução ao direito processual civil, parte geral e processo de conhecimento 19. ed. Salvador: Jus Podivm, 2017. REFERÊNCIAS 15 minutos https://ambitojuridico.com.br/cadernos/outros/os-juizados-especiais-civeis-e-criminais-e-o-acesso-a-justica-a-luz-do-sistema-multiportas/ https://ambitojuridico.com.br/cadernos/outros/os-juizados-especiais-civeis-e-criminais-e-o-acesso-a-justica-a-luz-do-sistema-multiportas/http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm SENA, A. G. de. Formas de resolução de con�itos e acesso à justiça. Revista do Tribunal Regional do Trabalho: 3ª Região, Belo Horizonte, v. 46, n. 76, p. 93-114, jul./dez. 2007. Disponível em: https://www.trt3.jus.br/escola/download/revista/rev_76/Adriana_Sena.pdf. Acesso em: 17 fev. 2022. Aula 2 ALMEIDA, D. A. R. O princípio da adequação e os métodos de solução de con�itos. Revista de Processo, v. 195, p. 185-208, maio 2011. BEZERRA, É. P.; GOMES, F. D. de S.; CARNEIRO NETO, M. de C. A e�cácia das soluções alternativas de con�itos no atual sistema jurídico brasileiro. 2021. Disponível em: https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-processual-civil/con�itos-no-atual-sistema-juridico-brasileiro/. Acesso em: 17 fev. 2022. DIDIER JR., F. Curso de direito processual civil: introdução ao direito processual civil, parte geral e processo de conhecimento. 19. ed. Salvador: Jus Podivm, 2017. Aula 3 BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm . Acesso em: mar. 2022. MONTENEGRO FILHO, M. Curso de Direito Processual Civil de acordo com o novo CPC. São Paulo: Atlas, 2016. MOUZALAS, R.; TERCEIRO NETO, J. O.; MADRUGA, E. Processo Civil. Volume único. Salvador: Juspodivm, 2016. NUCCI, G. de S. Manual de Direito Penal. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2008. OLIVEIRA, L. D. de; SPENGLER, F. M. O Fórum Múltiplas Portas como política pública de acesso à justiça e à paci�cação social. Curitiba: Multideia, 2013. Disponível em: https://www.cnj.jus.br/wp- content/uploads/2018/09/8f477ec6bf0626d8bf998c5b4f522458.pdf . Acesso em: 17 fev. 2022. RUIZ, I. A. Princípio do acesso justiça. In: CAMPILONGO, C. F.; GONZAGA, A. de A.; FREIRE, A. L. (Coord.). Enciclopédia jurídica da PUC-SP. Tomo: Processo Civil. Tomo coordenado por Cassio S. Bueno e Olavo de Oliveira Neto. 2. ed. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2021. Disponível em: https://enciclopediajuridica.pucsp.br/verbete/201/edicao-2/principio-do-acesso-justica . Acesso em: 17 fev. 2022. VIANA, J. M. Prática forense em processo civil. Salvador: Juspodivm, 2017. Aula 4 BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm . 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