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CORPO, GÊNERO E 
SEXUALIDADE 
AULA 1 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof. Victor Hugo Brandão Meireles 
 
 
2 
CONVERSA INICIAL 
Olá, estudante! Nesta aula da disciplina Corpo, Gênero e Sexualidade 
começaremos aprendendo e discutindo um pouco sobre o que é sexualidade e 
sua história na sociedade. Nesse sentindo, conversaremos um pouco sobre a 
construção da sexualidade sob o ponto de vista de Foucault, para auxiliar no 
pensamento da Psicologia em seus campos de atuação e ajudar a lidar com 
situações que envolvam o sujeito e suas complexidades. 
Os objetivos desta aula são discutir, de forma sucinta, a história da 
sexualidade na sociedade pela perspectiva de Foucault, refletir sobre a 
construção da sexualidade na sociedade e aprender o que é sexualidade. 
TEMA 1 – HISTÓRIA DA SEXUALIDADE PARA FOUCAULT 
Iremos falar um pouco sobre como constitui a sexualidade para Foucault. 
Para isso, precisamos adentrar um pouco na história sobre a sexualidade na 
perspectiva desse mesmo autor. Você já deve ter ouvido falar do filósofo, 
historiador e ativista Michel Foucault (1926-1984) considerado um pensador pós-
estruturalista. Ele desenvolve uma série de pesquisas a respeito do saber, do 
poder e da sexualidade ao lado da crítica da metafísica ocidental de Jacques 
Derrida e da teoria psicanalista de Jacques Lacan. Todavia, para esta aula 
iremos focar apenas em Foucault. 
Para Foucault (1984, p. 9), o termo sexualidade só surgiu no século XIX 
e tudo que vem antes relacionado à sexualidade era algo falado como sexo: 
O próprio termo “sexualidade” surgiu tardiamente, no início do Século 
XIX. [...] O uso da palavra foi estabelecido em relação a outros 
fenômenos: o desenvolvimento de campos de conhecimentos diversos 
(que cobriram tanto os mecanismo biológicos da reprodução como as 
variantes individuais ou sociais do comportamento); a instauração de 
um conjunto de regras e de normas, em parte tradicionais e em parte 
novas, e que se apoiam em intuições religiosas, jurídicas, pedagógicas 
e médicas; como também as mudanças no modo pelo qual os 
indivíduos são levados a dar sentido e valor a sua conduta, seus 
deveres, prazeres, sentimentos, sensações e sonhos. 
Então, para Foucault, para pensar a sexualidade em seu aspecto histórico 
ocidental, precisamos levar em consideração as instituições sociais que 
produzem saberes a respeito, como a religião, o jurídico, a educação e a 
medicina. Essas instituições constroem sistema de regulação sobre a 
sexualidade, definindo-a pelas regras e os tabus. Nesse sentido, surgem as 
 
 
3 
relações de poder, que para Foucault (1984; 2017) são relações de dominação 
que regulam suas práticas sobre corpos dos indivíduos. E o poder em Foucault 
é entendido como relações complexas, mas iremos aprender mais sobre esse 
posteriormente. 
Temos as instituições falando sobre o que é e não é sexualidade e nesse 
processo, se instala o poder, sobre o que pode fazer e o que não pode. Depois, 
o sujeito singular se questiona, se confunde e se constrói por meio desses 
discursos. Para Foucault (1984), os indivíduos devem e podem se reconhecer 
como pertencentes dessa sexualidade, que faz parte de seus corpos. 
Até meados do século XVII, o sexo foi considerado um aspecto natural da 
vida humana, não havia problemas em palavras que eram usadas para 
descrever momentos íntimos ou em falar sobre eles. Corpos nus eram comuns 
e até para crianças não havia nada de escandaloso. Assim como afirma Foucault 
(2017, p. 7), os “gestos diretos, discursos sem vergonha, transgressões visíveis, 
anatomias mostradas e facilmente misturadas, crianças astutas vagando, sem 
incômodo nem escândalo, entre os risos dos adultos: os corpos ‘pavoneavam’”. 
A expressão da sexualidade fazia parte do cotidiano. 
Desde a época clássica até o início do século XVII o sexo fazia parte de um 
campo sagrado e não profano (Nascimento, 2005), no qual as práticas sexuais 
tinham um lugar mais libertador. Apesar disso, conforme as mudanças na 
sociedade ao longo dos séculos se caracterizam pela expansão socioeconômica 
nos países desenvolvidos, e sobretudo pela religiosidade, “[...] influenciaram a 
postura que se tornou cada vez mais pessoal e menos comunal, mais interna que 
explícita, ou seja, mais privada que pública (Nascimento, 2005, p. 66). 
1.1 Hipótese repressiva 
Nessas mudanças começou a surgir uma denominação sobre o sexo e 
que precisou ser reduzida na linguagem, pois era por essa via que o controle se 
tornava livre no discurso para transformar coisas ditas em palavras presentes 
nas relações. Tentava-se impor um silêncio e uma censura (Foucault, 2017). 
Assim, surgiram diversos discursos sobre o sexo que se multiplicaram no próprio 
campo do exercício do poder: “incitação institucional a falar do sexo e a falar dele 
cada vez mais; obstinação das instâncias do poder a ouvir falar e a fazê-lo falar 
ele próprio sob a forma da articulação explícita e do detalhe infinitamente 
acumulado” (Foucault, 2017, p. 20). 
 
 
4 
Entretanto, no século XVII, a igreja católica via o sexo não mais 
mencionado sem ponderação, mas suas especificidades, suas relações e efeitos 
eram resguardados ao privado. Tudo era dito, mas sempre deixava de lado o 
desejo. Era vivida a cumplicidade do movimento do corpo e a complacência do 
espírito (Foucault, 2017). Foucault está falando do pecado, aquilo que precisa 
ser confessado, são os pensamentos, os desejos, as imaginações de prazer, a 
satisfação. Inicia um tipo de repressão. 
A igreja católica procurou produzir seus efeitos específicos sobre o desejo 
aplicando-o em formato de discurso. Tais efeitos continham o domínio e o 
desinteresse sobre o sexo, mas também a “[...] reconversão espiritual, de retorno 
a Deus [...]” (Foucault, 2017, p. 25). Então, a igreja como uma instituição social 
falava sobre sexo e consequentemente produziria um discurso a respeito? Como 
poderia ser esse discurso? 
1.2 Censura sobre o sexo 
Por mais que possa parecer que se instalava uma censura sobre o sexo, o 
que aconteceu foi ao contrário. Cada vez mais constituiu-se um sistema que produziu 
discursos sobre o sexo, mas sempre mais suscetíveis em funcionar sobre os 
indivíduos (Foucault, 2017). Imagine um sistema de mecanismos de poder que para 
seu funcionamento precisa dos discursos como parte principal para regular o sexo: 
manter seu domínio sobre os corpos. Nesse domínio se tinha a igreja. 
A partir disso, Foucault (2017) falava que nascia uma incitação política, 
econômica e de técnica como análise para falar sobre esse tema por meio de 
pesquisas quantitativas e casuais que classificou, numerou e especificou não 
pelo discurso moral, mas por um discurso racional. Para Foucault (2017, p. 28), 
se instalou uma espécie de polícia do sexo: “[...] necessidade de regular o sexo 
por meio de discursos úteis e públicos e não pelo rigor de uma proibição”. 
Não era mais visto como proibição e o Estado também tinha como 
necessidade falar sobre o sexo, sendo mais uma instituição social produzindo 
um saber a respeito ao mesmo tempo que controlando. O sexo não era mais 
julgado e, sim, administrado. Uma das grandes novidades nas técnicas de poder 
já no século XVIII foi o surgimento da população como problema econômico e 
político. Os governos e o Estado sofreram com a expansão industrial de seus 
povos e o sexo se tornou novamente um problema, sendo econômico e político 
pelos seguintes atributos: 
 
 
5 
No cerne desse problema econômico e político da população: o sexo; 
é necessário analisar a taxa de natalidade, a idade dos casamentos, 
os nascimentos legítimos e ilegítimos, a precocidade e a frequência 
das relações sexuais, as maneiras de torná-las fecundas ou estéreis, 
o efeito do celibato ou das interdições, a incidência das práticas 
contraceptivas. (Foucault, 2017, p. 29) 
Surgiram análises de condutas sexuais, de suas determinações e seus 
feitos, noslimites entre o biológico e o econômico; tornava-se um objeto de 
disputa entre as pessoas e o Estado. 
Uma forma que regulava nas organizações familiares pensava mais a 
maneira em que levavam o sexo e isso chegou às crianças. Nos colégios do 
século XVIII falava-se sobre isso, mas não explicitamente e aparecia como “o 
espaço da sala, a forma das mesas, o arranjo dos pátios de recreio, as 
distribuições dos dormitórios (com ou sem separações, com um sem cortina), os 
regulamentos elaborados para a vigilância do recolhimento e do sono (Foucault, 
2017, p. 31). O que Foucault (2017, p. 31) chamava de “discurso interno da 
instituição”. As instituições educativas falavam de sexo, mas aquele que era 
apenas conveniente para a burguesia e o Estado. 
Muito se começava a pensar e fazer sobre uma educação sexual com as 
crianças; era preciso controlar o que as crianças deveriam saber sobre sexo. As 
instituições pedagógicas falavam sobre, mas de uma forma em que tanto para 
as crianças quanto para os adolescentes os conteúdos eram codificados. 
Falava-se sobre sexo, faziam crianças e adolescentes falarem sobre sexo, a 
família falava sobre sexo, as instituições falavam sobre sexo e cada vez mais 
multiplicavam-se discursos sobre o sexo. Criaram-se inúmeros dispositivos 
institucionais e estratégias discursivas sobre o foco na sexualidade dessa parte 
da população (Foucault, 2017). 
Estamos falando de uma tentativa de repressão, que é algo que mantém 
como uma condenação ao desaparecimento de algo, pelo silêncio, uma 
afirmação da inexistência, de que não existe nada do que possa ser falado. 
(Rodrigues; Nielsson, 2019; Foucault, 2017). 
A igreja usava as confissões e o pecado para aprisionar um saber sobre 
o sexo pelo divino. Já a literatura trazia o sexo mais detalhado, aquele que é 
unicamente biológico, e a medicina, em conjunto com a psiquiatria e o direito, 
reforçava o biológico e as perversões. Eram instituições que produziram saberes 
sobre o que era, o que podia fazer e sobre o que se podia falar. 
 
 
6 
Por isso a tentativa de uma política repressiva é uma hipótese para 
Foucault (2017), pois o conjunto de características negativas relacionados ao 
poder, ora do Estado, ora do colégio, ora da Igreja, dificultava a produção do 
saber sobre o sexo e a sexualidade, mas ao mesmo tempo produziria mais 
saberes sobre. Tudo era mantido em segredo e só se falava daquilo que o 
Estado permitisse; dessa forma “é chamada a atenção para o sexo, para as 
técnicas que são usadas pelo poder e por quais meios de discurso a sexualidade 
pode regular o indivíduo” (Rodrigues; Nielsson, 2019, p. 4). 
TEMA 2 – A ERA VITORIANA 
Até o momento vimos de forma sucinta como se instalava uma perspectiva 
repressiva sobre sexualidade na sociedade. A seguir, observaremos um pouco 
sobre as instituições sociais que se instalavam na era vitoriana, marcada por um 
regime de tentativa repressiva do sexo e da sexualidade no século XIX. Isso 
ajudou na produção do saber científico criando uma scientia sexualis. 
No início do século XIX a tentativa de uma repressão sexual se tornava 
evidente com a era vitoriana (1837-1901). Essa era foi o reinado da rainha Vitória 
no Reino Unido e ficou marcada pela rigidez de princípios moralistas e religiosos 
na política, assim como o enriquecimento da classe burguesa. A sexualidade era 
resguardada e levada para dentro de casa. Ninguém falava sobre, apenas 
mencionava como uma forma funcional de reprodução (Foucault, 2017). 
Todavia, para Foucault (2017) não era exatamente um silenciamento do sexo, 
sendo já iniciada uma repressão antes desse regime. 
O direito se instalava apenas para aqueles que se classificavam como 
casais, heterossexuais, brancos, legítimos e procriadores. Estamos falando da 
formação de uma família tradicional. Para Foucault (2017, p. 7-8) “impõe-se 
como modelo, faz reinar a norma, detém a verdade, guarda o direito de falar, 
reservando-se o princípio do segredo. No espaço social, como no coração de 
cada moradia, um único lugar de sexualidade reconhecida, mas utilitário e 
fecundo: o quarto dos pais”. 
A moral vitoriana se instalou na sociedade dando o direito de que apenas 
um grupo social se apropriasse dos aspectos da sexualidade, aquele que era 
tradicional, heterossexual, reprodutora e privada. Como a razão poderia falar 
sobre isso? A filosofia evitava esse terreno; evitava a hipocrisia. O que se podia 
falar sobre o sexo publicamente era apenas aquele que funcionava para o bem 
 
 
7 
de todos, por um padrão socialmente ótimo (Foucault, 2017). Estamos falando 
da heterossexualidade. 
Para Nascimento (2005, p. 66), a repressão sexual em Foucault foi 
pensava meio das suas próprias práticas, que eram difundidas pelas “[...] 
instituições que regulamentam essas práticas, juntamente com todo o conjunto 
explicito de interdições e censuras”. É a partir disso que o sexo passava a ser 
regulamentado como forma de saber pela medicina, psiquiatria, pedagogia e 
pelo direito. Todas essas instituições se colocavam interessadas para falar sobre 
o sexo; não daquele que fazia parte de um sujeito histórico e cultural, mas 
daquele privado e censurado. 
Nesse período começavam a surgir técnicas de poder que “[...] 
regulamentam a população como problema econômico e político na relação 
entre população, riqueza, mão de obra, força de trabalho [...]” (Nascimento, 2005, 
p. 67). O sexo passava a ser uma questão de dispositivo, controlado em nível 
político na sociedade; iniciava-se a censura e noção de tabu sobre sexo e 
sexualidade. 
Mesmo que o modelo de família que se instaura na sociedade vitoriana 
encorajava o silêncio, a procriação e a hipocrisia, a invisibilidade de qualquer 
outro tipo de modelo de família surgia (Rodrigues; Nielsson, 2019). Contudo, o 
marcador de classe é evidenciado pelo capital nesse modelo de família, como 
explicitam Rodrigues e Nielsson (2019, p. 3-4). 
São desmoralizadas as sexualidades tidas como ilegítimas, sendo 
designadas apenas a lugares que gerassem retorno de capital, 
mantendo em mente que, em uma época de Revolução Industrial onde 
a mão de obra é vastamente explorada não deveriam ser gastas 
energias nos prazeres e derivados, esta é a visão histórica. 
Para Foucault (2017), eram marcantes quatro grandes conjuntos de 
estratégias desenvolvidas para construir dispositivos específicos sobre saber e 
poder sobre o sexo. O primeiro é a histerização do corpo da mulher que acontece 
em três processos que qualificam e desqualificam seu próprio corpo: é 
vislumbrado como elemento repleto de sexualidade; é relacionado a patologias 
e aos saberes médicos; é posto em comunicação com o corpo social e, dessa 
forma, faz-se necessário regular a fecundidade (Oliveira, 2015, p. 94). 
O segundo é a pedagogização do sexo da criança como estratégia de 
formação de sabres sobre ele, [...] no sentido de os pequenos serem passíveis 
de atividades sexuais, consideradas indevidas e imorais, além de trazerem 
 
 
8 
perigos físicos” (Oliveira, 2015, p. 94). Então, temos profissionais inseridos 
nesse campo educando o sexo e a criança. O terceiro é a socialização das 
condutas de procriação que ocorre pelo problema econômico, criando “[...] 
medidas sociais que visam reduzir a fecundidade descontrolada de casais” 
(Olveira, 2015, p. 94). Desse modo ocorre a responsabilização dos casais sobre 
o sexo que praticam. Por último, a psiquiatrização do prazer perverso, que 
entende a impulsão sexual como biológica e psíquica, culminando em novos 
saberes em que a psiquiatria produzirá para identificar comportamentos que 
atingem esse tipo de instinto, “[...] é a produção de tecnologias para corrigir e 
normalizar as anomalias sexuais” (Oliveira, 2015, p. 94). 
Portanto, havia tentativa de um suposto silenciamento sobre a 
sexualidade, mas com a ascensão da burguesia vitoriana o sexo só poderia ser 
vivido para um modelo familiareconômico voltado para procriação, com 
proibições e repressões, como se qualquer outra forma de expressão de 
sexualidade fosse errada; havia tentativa de repressão sexual para não se falar 
sobre o sexo, o que Foucault irá chamar de hipótese repressiva, mas que na 
verdade falava-se sobre o sexo (Rodrigues; Nielsson, 2019). 
O controle tem como intenção duas faces, o prazer e o poder. Existiam 
outras formas de expressão da sexualidade e o sujeito mais do que nunca era o 
exemplo de que o sexo já não era mais controle somente pelo prazer. Agora o 
poder também precisaria entrar em cena como via de controle dos corpos. 
Assim, surge a ciência como criadora de uma verdade sobre a sexualidade, o 
que Foucault chamava de scientia sexualis. 
TEMA 3 – SCIENTIA SEXUALIS 
A seguir, discutiremos a ciência sexual (que Foucault chamará de scientia 
sexualis) como produtora de um conhecimento unicamente verdadeiro sobre a 
sexualidade pela sua tentativa de repressão. O sexo, ao longo de todo o século 
XIX, parecia se inscrever em dois registros de saber bem distintos: um na 
biologia da reprodução desenvolvida continuamente segundo normatividade 
científica geral e um na medicina seguindo obedientemente às regras de origens 
inteiramente diversas. Nesse século, o discurso científico era aquele que se 
recusava a ver e ouvir, a recusa de se referir àquilo mesmo que se via. 
Foucault considerou um marco histórico a ruptura com as tradições 
orientais ars eotica que eram bastantes comuns em países como China, Japão, 
 
 
9 
Índia e também no Império Romano, pois tinham como base a multiplicação dos 
prazeres. Essa ruptura foi o que se instalou nas sociedades ocidentais como 
scientia sexualis, que foi desenvolvida a partir do século XIX e teve como núcleo 
singular obrigatório o ritual de confissão, como ocorreu nos séculos anteriores 
na intenção de produzir uma verdade sobre o sexo (Foucault, 2017). 
A sexualidade, a scientia sexualis era vista como um correlato de práticas 
discursivas e que tinham como características fundamentais, segundo Foucault 
(2017), a defesa de uma verdade absoluta sobre ela. Tinha como disputa um 
discurso produzido por meio da técnica de confissão da igreja e um discurso 
produzido pelo saber científico, definindo-a como algo natural e penetrável. Tal 
definição, segundo Foucault (2017), colocava os processos patológicos em um 
campo novo de significações para serem descobertas, no qual nesse momento 
a psicanálise teve grande importância. 
Estudiosos psicanalistas eram os únicos profissionais naquela época que 
estimulavam seus pacientes a explorar mais seus segredos sexuais e afetivos, 
pois poderiam representar peça importante para saúde a mental e emocional 
(Spargo, 2017). Foucault enxergava a vertente da psicanálise como caminho 
possível para produzir um saber sobre a sexualidade em seu valor cultural e não 
natural (Spargo, 2017). A psicanálise, para Tamsin Spargo (2017), não buscava 
silenciar e/ou reprimir a sexualidade das pessoas, mas se introduzir como 
instituição produtora de práticas discursivas diferentes das tradicionais da época. 
A scientia sexualis ocidental de Foucault buscava encontrar uma única 
verdade sobre a sexualidade, utilizando-se de processos da confissão da igreja 
como método assertivo (Spargo, 2017). A confissão cristã era mantida pelo 
pecado, na qual o indivíduo confessava aos padres tudo aquilo que envolvia o 
sexo no privado. Dessa forma, vimos a historicidade de pessoas que guardavam 
desejos, emoções e pensamentos até conversarem com alguém, como na igreja 
em confessionários, passando para práticas médicas, jurídicas, pedagógicas e 
familiares, até chegarem à psicanálise. Como afirma Spargo (2017, p. 17), 
contar pecados ao padre, descrever sintomas ao médico, submeter-se 
a cura pela fala: confessar pecados, confessar doenças, confessar 
crimes, confessar a verdade. E a verdade era sexual. Nesses cenários 
confessionais, quem fala produz uma narrativa sobre a própria 
sexualidade que é interpretada por uma figura de autoridade. A 
verdade revelada nesse processo, claro não é descoberta, mas 
produzida. Ela existe como um saber no interior de um discurso 
particular e está ligada a um poder. 
 
 
10 
O sexo e a sexualidade não eram julgados e, sim, administrados. A igreja e 
outras instituições sociais se preocupavam com a regulação da sexualidade, assim 
como Estado e medicina, na tentativa de repressão sexual pela produção de uma 
ciência sexual. Pela perspectiva scientia sexualis todas essas instituições 
buscavam falar sobre uma verdade a respeito da sexualidade repressiva, se 
instalando como dispositivo da sexualidade para fortalecer a verdade. 
TEMA 4 – DISPOSITIVO DA SEXUALIDADE 
Depois que culminou em ciência sexual, o dispositivo da sexualidade 
apareceu para conter a explosão de discursos sobre o sexo e a sexualidade que, 
por meio de estratégias de poder, criou populações para atenderem 
especificamente a uma urgência história: “[...] a escola, o hospital, o exército, a 
oficina, a prisão, a família, entre outros, são alguns desses dispositivos.” 
(Oliveira, 2015, p. 91). 
Ao pensar o dispositivo da sexualidade em Foucault, Oliveira (2015) trata-
o em duas formas. No primeiro momento acontecem as imposições de técnicas 
do cristianismo, caracterizadas no século XVIII como uma forma de 
obrigatoriedade dos indivíduos em se confessarem sobre o sexo. O que se 
predominava era tudo aquilo relacionado ao sexo e à sexualidade como pecado. 
No segundo momento, Foucault investiga o dispositivo da sexualidade ligado à 
repressão da burguesia. Isso se associava à força de trabalho, na qual tendia-
se a pensar o sexo controlado por dispositivos que direcionavam o indivíduo a 
prender suas energias apenas ao trabalho e não aos prazeres (Oliveira, 2015). 
O dispositivo no qual a burguesia investiu se direcionava apenas às 
classes mais populares e ao trabalho. Todavia, ela não estava fora desse 
dispositivo, mas que acontecia com outras formas de controle sobre a 
sexualidade, como pela “[...] moralização dos pobres – para que se efetive a 
organização da família e o controle judiciário e médico das perversões, que visa 
proteger a sociedade” (Oliveira, 2015, p. 100). 
O dispositivo da sexualidade se constituiu na sociedade pelo interesse 
dos governos e da saúde pública em controlar o sexo. Foram criados 
investimentos para que escola e psiquiatria pedagogizassem o sexo da criança 
e do adolescente, e políticas sobre condutas de procriação e tornassem o casal 
responsável pelo sexo que praticavam, dentre outras medidas. 
 
 
11 
Os dispositivos da sexualidade são instrumentos que surgem para 
atender às emergências sociais sobre um momento histórico: a produção de 
saberes sobre sexo e sexualidade como discursos de repressão. São estratégias 
que aparecem nas relações de força no trabalho e sustentam diversos tipos de 
saber e por elas eram sustentados. O dispositivo nada mais era do que um jogo 
de poder que sempre estava ligado ao saber que dele nasce (Nascimento, 2005). 
TEMA 5 – E O QUE É SEXUALIDADE? 
A temática da sexualidade vem sendo bastante discutida nos últimos 
séculos e a Psicologia tem sido uma das áreas do conhecimento humano e 
científico a trabalhar com esse tema. A sexualidade é mediada pelas relações 
humanas em diversos contextos da sociedade, como na família, em 
relacionamentos amorosos, afetivos e sexuais, na educação, no trabalho, dentre 
outros. 
E o que é sexualidade e como esse termo pode contribuir para as práticas 
profissionais na Psicologia? O termo sexualidade só surgiu no século XIX e 
apareceu colado com a explosão discursiva sobre o sexo. Esse termo incorporou 
em um sujeito perpassado por regras e normas sociais que dividiam o discurso 
entre diversas instituições sociais, considerando uma mudança que passava a 
vivenciar uma nova forma de conduta sobre o que se fazia, o quese falava e o 
que se sentia (Foucalt, 1984). 
Para Louro (1997), Foucault estudava em seu livro a sexualidade como 
invenção social, entendida como uma forma em que se constituía na sociedade 
a partir dos múltiplos discursos a respeito do sexo. Ainda que sejam discursos 
que regularizavam, normalizavam e instauram saberes sobre a verdade (Louro, 
1997). A sexualidade, para Louro (2008, p. 8), se constrói a partir de diversas 
formas de aprendizagens e práticas, sejam explícitas ou encobertas por junção 
de instâncias culturais e sociais como “[...] família, escola, igreja, instituições 
legais e médicas [...]”. É um processo em construção e que ainda se mantém na 
vigilância e no controle das sociedades. 
Assim, o controle sobre a sexualidade se transforma e se adapta aos 
momentos históricos, se regula e multiplica nas instâncias e instituições que 
ditam as novas normas (Louro, 2008). Aprendemos a viver a sexualidade 
inseridos na cultura que produz e reproduz os discursos da mídia, igreja, ciência 
e das leis, dos movimentos sociais e dispositivos tecnológicos, para que surjam 
 
 
12 
muitas formas de experienciar seus prazeres, desejos, troca de afetos, amar e 
ser amado (Louro, 2008). “O único modo de lidar com a contemporaneidade é, 
precisamente, não se recusar a vivê-la” (Louro, 2008, p. 23). 
Em uma perspectiva da Psicologia e como contribuição para esse tema, 
a autora Kahhale (2015) analisa o conceito de sexualidade pelas relações de 
gênero, pois amplia a noção de construção histórica e se diferencia das 
perceptivas biológicas ou exclusivas ligadas apenas ao sexo biológico que 
produzem noções estigmatizantes e discriminativas. 
As relações de gênero promovem a superação de tais mecanismos de 
controle e poder, dando espaço para que a sexualidade possa ser expressada 
por meio das condições sociais, culturais e históricas como processo simbólico 
e histórico. Esse processo constituiu a identidade do sujeito, considerando como 
ele vivencia tais sentidos simbólicos sobre suas experiências (Kahhle, 2015). 
A sexualidade é singular, histórica e social, perpassada pela cultura que 
caracteriza a vida dos sujeitos nas mais variadas relações sociais e contextos 
em que estão inseridos. Não diz respeito só a sexo, gênero, orientação sexual, 
relações sexuais, afetivas e amorosas, mas também como expressamos em 
nossas relações sociais, nossos processos emocionais e simbólicos diante disso 
que nos constituem. O beijo, o abraço, as carícias, até o amar, o gostar, o adorar 
e o sentir. Se tudo isso constitui nossa sexualidade, de onde veio? O que nos 
dizem sobre? O que é permitido e o que não é? O que e quem pode vivenciar no 
público e o que e quem só pode no privado? 
Para Kahhle (2015), debater a sexualidade é também discutir valores, 
normas sociais e culturais; é buscar compreender a singularidade do sujeito em 
um aspecto que é social, “dar sentido a ‘sexualidade de cada um’ implica tomá-
la como uma construção histórica no âmbito das relações sociais, relaciona às 
formas de vida e as necessidades que a humanidade encontrou e/ou construiu” 
(Kahhle, 2015, p. 234). 
NA PRÁTICA 
Com base no que foi discutido nesta aula, vimos que as instituições 
sociais produzem um discurso sobre a sexualidade e uma delas é a área da 
educação. Imagine que você, psicólogo escolar de uma escola pública da sua 
cidade, precisa atender ao caso de um adolescente que foi exposto por meio de 
rumores de que teria tido relações sexuais e o professor usou esse adolescente 
 
 
13 
como exemplo em sala de aula, de que aquilo na adolescência era pecado. 
Como você poderia acolher esse adolescente e quais estratégias poderia 
desenvolver em conjunto com a escola na produção de um novo saber sobre 
sexo e sexualidade, tanto para alunos quanto para professores? 
FINALIZANDO 
Em síntese, na história da sexualidade de Foucault, percebemos que as 
instituições sociais produziram saberes sobre sexo e sexualidade ao longo dos 
séculos e como formas de regulação; houve tentativas de repressão sexual 
sobre o que se falava e o que se vivia. Entretanto, aconteceu ao contrário, ainda 
se falava a respeito, tornando apenas hipótese que havia censura. Com isso, 
surgiu um tipo de ciência sexual, a scientia sexualis, uma forma de produzir 
verdade sobre o sexo e, consequentemente, a sexualidade. Uma explosão de 
discursos surge criando o dispositivo da sexualidade que historicamente foi 
formando técnicas e instrumentos para controlar os indivíduos. 
Por fim, você consegue imaginar nos dias atuais como ainda se constroem 
saberes sobre a sexualidade, sabendo que o discurso presente na sociedade é 
aquele que sempre detém o saber. E na sociedade vivemos em relações em que 
existe o saber, existe o poder. Como afirma Foucault (2017, p. 77), “a história da 
sexualidade – isto é, daquilo que funcionou no século XIX como domínio de 
verdade específica – deve ser feita, antes de mais nada, do ponto de vista de 
uma história dos discursos”. 
 
 
 
14 
REFERÊNCIAS 
FOUCAULT, M. História da sexualidade I: A vontade de saber. Tradução: Maria 
Thereza da Costa Albuquerque e J. A. Guilhon Albuquerque. 4. ed., Rio de 
Janeiro/São Paulo: Paz e Terra, 2017. 
FOUCAULT, M. História da sexualidade II: o uso dos prazeres. Tradução: 
Maria Thereza da Costa Albuquerque e J. A. Guilhon Albuquerque Rio de 
Janeiro: Graal, 1984. 
KAHHLE, E. M. P. Subsídios para reflexão sobre sexualidade na adolescência. 
In: BOCK, A. M. B.; GONÇALVES, M. G. G.; FURTADO, O. (org.). Psicologia 
sócio-histórica: uma perspectiva crítica em Psicologia. 6. ed. São Paulo: 
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