Prévia do material em texto
MINISTÉRIO DA SAÚDE Guia de acolhimento à crise em saúde mental na Rede de Atenção Psicossocial (Raps) Brasília – DF 2026 MINISTÉRIO DA SAÚDE Secretaria de Atenção Especializada à Saúde Departamento de Saúde Mental, Álcool e outras Drogas Guia de acolhimento à crise em saúde mental na Rede de Atenção Psicossocial (Raps) Brasília – DF 2026 2026 Ministério da Saúde. Esta obra é disponibilizada nos termos da Licença Creative Commons – Atribuição – Não Comercial – Compartilhamento pela mesma licença 4.0 Internacional. É permitida a reprodução parcial ou total desta obra, desde que citada a fonte. A coleção institucional do Ministério da Saúde pode ser acessada, na íntegra, na Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde: bvsms.saude.gov.br. Tiragem: 1ª edição – 2026 – 5.000 exemplares Elaboração, distribuição e informações: MINISTÉRIO DA SAÚDE Secretaria de Atenção Especializada à Saúde Departamento de Saúde Mental, Álcool e outras Drogas Coordenação Geral de Atenção Psicossocial Esplanada dos Ministérios, bloco G, Edifício Sede, 9° andar, ala sul CEP: 70058-900 – Brasília-DF Site: https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/Saes/Desmad E-mail: saudemental@saude.gov.br Telefone: (61) 3315-9144 Coordenação: Bruno Ferrari Emerich Karime Porto Marcelo Kimati Dias Organização do trabalho: Evandro de Oliveira Gavi Bruno Ferrari Emerich Michelle Chanchetti Silva Elaboração: Ana Cristina Carvalho Curvina Ângela Slongo Benetti Aretuza Oliveira Bruno Ferrari Emerich Evandro de Oliveira Gavi Henrique Almeida Silva Galrao Keyla Kikushi Michelle Chanchetti Silva Nathalia Nakano Telles Rodrigo Fernando Presotto Vanuse Braga Revisão técnica e colaboração: Adriane Wollman Angela Slongo Benetti Gabriella de Andrade Boska Juliana Azevedo Fernandes Renata Filgueiras Pimentel Rodrigo Fernando Presotto Vinícius Vieira Editora responsável: MINISTÉRIO DA SAÚDE Secretaria-Executiva Subsecretaria de Assuntos Administrativos Coordenação-Geral de Documentação e Informação Coordenação de Gestão Editorial Esplanada dos Ministérios, bloco G, Edifício Anexo, 3º andar, sala 356-A CEP: 70058-900 – Brasília/DF Tels.: (61) 3315-7790 / 3315-7791 E-mail: editora.ms@saude.gov.br Equipe editorial: Normalização: Delano de Aquino Silva Revisão textual: Tamires Felipe Alcântara Design editorial: Yves Levi Impresso no Brasil / Printed in Brazil Ficha Catalográfica Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde. Departamento de Saúde Mental, Álcool e outras Drogas. Guia de acolhimento à crise em saúde mental na Rede de Atenção Psicossocial (Raps) / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção Especializada à Saúde, Departamento de Saúde Mental, Álcool e outras Drogas. – Brasília : Ministério da Saúde, 2026. 88 p. : il. ISBN 978-85-334-2962-8 1. Saúde mental. 2. Reabilitação psiquiátrica. 3. Sistema Único de Saúde. I. Título. CDU 616.89 Catalogação na fonte – Bibliotecário: Delano de Aquino Silva – CRB 1/1993 – Editora MS/CGDI – OS 2026/0187 Título para indexação: Guidelines for mental health crisis care within the Psychosocial Care Network (Raps) SUMÁRIO APRESENTAÇÃO 5 1 CONTEXTUALIZAÇÃO DA SITUAÇÃO DA ATENÇÃO À CRISE NA RAPS 7 1.1 Introdução 7 1.2 Crise em saúde mental 8 1.3 Marcos normativos e legislação 9 1.4 A situação da Raps em dados 13 2 PRINCÍPIOS DE FUNCIONAMENTO DA RAPS 15 3 DIRETRIZES PARA UM ACOLHIMENTO HUMANIZADO 17 3.1 Acolhimento à situação de crise em saúde mental 17 3.1.1 Plano de crise 20 3.2 Acolhimento para situações de comportamento desorganizado e/ ou agressivo 24 3.3 Acolhimento em situações de risco de suicídio 30 3.4 Acolhimento às situações de crise relacionadas ao uso de álcool e outras drogas 34 3.4.1 Abordagem inicial e avaliação das situações de crise 35 3.4.2 Tomada de decisão apoiada 36 3.4.3 Redução de danos como diretriz ética e prática de cuidado 36 3.4.4 Avaliação de gravidade 38 3.4.5 Práticas de cuidado nas situações de crise de pessoas sob efeito de álcool e outras drogas e da abstinência 40 3.5 Acolhimento a crianças e adolescentes em situação de crise 44 3.6 Determinações sociais da saúde e interseccionalidade na compreensão das crises em saúde mental 47 4 FUNCIONAMENTO EM REDE NO ACOLHIMENTO DA CRISE 53 4.1 Componentes da Raps 54 4.1.1 Componentes da Atenção Primária à Saúde 57 4.1.2 Componentes da atenção psicossocial especializada 60 4.1.3 Componentes da atenção hospitalar 64 4.1.4 Componentes da atenção às urgências e emergências 66 4.2 Registros ambulatoriais, subnotificação e dados epidemiológicos 69 5 APOIO MATRICIAL, CUIDADO COMPARTILHADO E ARTICULAÇÃO DE REDE 71 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS 73 REFERÊNCIAS 75 APÊNDICE — VOZES DA CRISE – RELATO DOS ENCONTROS VIRTUAIS COM USUÁRIOS E USUÁRIAS DA REDE DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL 85 5 APRESENTAÇÃO O presente Guia de Acolhimento à Crise em Saúde Mental na Rede de Atenção Psicossocial (Raps) insere-se no conjunto de esforços do Ministério da Saúde (MS) para qualificar o cuidado em saúde mental no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), com especial atenção às situações de crise. Trata-se de um tema central para a organização da atenção psicossocial, uma vez que as crises expressam momentos de intensificação do sofrimento psíquico, frequentemente associados à ruptura de vínculos, à diminuição de graus de autonomia e à necessidade de respostas rápidas, contínuas e articuladas entre os diferentes pontos da rede de cuidado. A relevância deste tema se expressa tanto na magnitude epidemiológica dos transtornos mentais quanto nos desafios concretos enfrentados pelos serviços para ofertar cuidado qualificado, oportuno e humanizado. Nesse contexto, o acolhimento à crise configura-se como um dispositivo estratégico para a produção do cuidado em liberdade, exigindo a articulação entre a Atenção Primária à Saúde (APS), os Centros de Atenção Psicossocial (Caps), a Rede de Atenção às Urgências e Emergências (RUE) e a atenção hospitalar, de modo a garantir a continuidade do cuidado e evitar desfechos marcados pela institucionalização e pela ruptura do vínculo com o território. Este material busca contribuir para a qualificação da oferta assistencial, apoiando a organização dos processos de trabalho, a pactuação de fluxos e a ampliação da capacidade de resposta dos serviços frente às experiências dos usuários1. Ao mesmo tempo, reconhece que o cuidado à crise demanda investimento contínuo na formação dos trabalhadores, não apenas em termos técnico-clínicos, mas também no desenvolvimento de competências relacionais, éticas e políticas, fundamentais para a sustentação de práticas de cuidado centradas no usuário, em sua singularidade e em seu contexto de vida. Este Guia foi elaborado a partir de demandas identificadas nos territórios, de contribuições de gestores e trabalhadores em diferentes espaços de governança, da atuação do apoio institucional do Departamento de Saúde Mental, Álcool e outras Drogas (Desmad) nos estados brasileiros. Ainda, foi composto a partir de escuta de usuários da Raps, com destaque para encontros virtuais com usuários de Caps de todo o Brasil, em que puderam relatar como deveria ser o cuidado ¹ O termo “usuário” faz referência às pessoas acompanhadas pelos serviços de saúde. A expressão está vinculada às discussões consolidadas na II Conferência Nacional de Saúde Mental (1992), na qual se destacou que essa terminologia remete a uma posição mais ativa do sujeito que utiliza os serviços. MINISTÉRIO DA SAÚDE 6 recebido por eles durante essa experiência (Apêndice); além de escutas com outras representações de usuários e familiares e de especialistas. Orientado pelos princípios da Reforma Psiquiátrica Brasileira e pelas diretrizes da Raps, o Guia reafirma o compromisso com a garantia dos direitos humanos, destacando o cuidado em liberdade, o respeito à autonomia e a valorização do protagonismo dos usuários e de suaspor manutenção do uso agravam vulnerabilidades e ampliam riscos. Fundamentos ético-clínicos da redução de danos A redução de danos fundamenta-se na proteção da vida e da integridade física como prioridade absoluta, independentemente do padrão de uso ou da escolha pela abstinência, orientando intervenções que minimizem riscos e previnam agravos. Reconhece, ainda, a autonomia progressiva do usuário, mesmo em contextos de vulnerabilidade, sustentando processos de decisão apoiada e pactuação de metas possíveis. Afasta-se de julgamentos morais ou abordagens punitivas, substituindo-os por escuta qualificada e compreensão dos determinantes sociais do uso. Por fim, organiza-se a partir do vínculo e da corresponsabilidade no PTS, evitando práticas coercitivas e reafirmando o cuidado em liberdade como eixo ético da Raps (Brasil, 2015a; WHO; UNODC, 2020). MINISTÉRIO DA SAÚDE 38 Entre as estratégias possíveis de redução de danos nos momentos de crise, destacam-se: • acolhimento imediato centrado na pessoa e não na(s) substância(s) de uso; • garantia de acesso ao cuidado sem julgamentos, considerando as necessidades de grupos mais vulnerabilizados, como mulheres, pessoas gestantes, jovens, indígenas e pessoas em situação de rua; • oferta de espaço protegido no território durante períodos de maior vulnerabilidade; • prevenção de intoxicações, overdoses, fissuras e outras condições, incluindo qualificação das equipes, para reconhecimento de sinais, e articulação da rede para a continuidade do cuidado integral no território; • informações e educação em saúde baseadas em evidências científicas sobre os riscos e danos que envolvem o uso de álcool e outras drogas; • disponibilidade e acesso a insumos de proteção e prevenção de transmissão de doenças e infecções sexualmente transmissíveis relacionadas ao uso de álcool e outras drogas; • pactuação de metas graduais e factíveis com o usuário; • inclusão da rede de confiança no planejamento de segurança. Em síntese, faz-se necessário fazer um deslocamento da substância de uso como a principal questão de intervenção no acolhimento de situações de crise relacionadas ao uso de álcool e outras drogas, para então olhar a pessoa em sua totalidade, considerando a complexidade do contexto psicossocial que envolve o uso e a garantia da continuidade do cuidado comunitário. 3.4.4 Avaliação de gravidade A avaliação deve integrar exame clínico geral e exame do estado mental, reconhecendo que a crise pode envolver, simultaneamente, sofrimento psíquico intenso e instabilidade orgânica, relacionados ou não ao uso de álcool e outras drogas. Em várias situações, é possível que o usuário não consiga ou não queira fornecer as informações solicitadas, então cabe à equipe manejar e avaliar a pessoa GUIA DE ACOLHIMENTO À CRISE EM SAÚDE MENTAL NA REDE DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL (RAPS) 39 a partir de sua apresentação e das possibilidades de acordos no momento do cuidado, garantindo os direitos das pessoas atendidas (Brasil, 2015a). A avaliação deve ser imediata e considerar, quando possível (Brasil, 2015a; WHO, 2016): • tipo(s) de substância(s) utilizada(s); • uso de múltiplas substâncias; • tempo da última dose; • via de uso (oral, injetável, fumada, aspirada); • padrão de uso (uso episódico, uso contínuo); • presença de intoxicação aguda; • sinais e sintomas de síndrome de abstinência; • risco e/ou presença de overdose; • presença de comorbidades clínicas e/ou psiquiátricas; • risco de auto ou heteroagressão; • ruptura da contratualidade social; • condições de suporte familiar e social; • histórico e avaliação de ideação e/ou tentativas de suicídio (que pode estar relacionada ao uso de álcool e outras drogas). Quando houver sinais de risco vital (rebaixamento do nível de consciência, instabilidade hemodinâmica, depressão respiratória, convulsões, delirium), a retaguarda hospitalar, ou retaguarda de urgência, deve ser acionada imediatamente. Da mesma forma, quadros com risco agudo de suicídio, agitação psicomotora, ausência de suporte sociofamiliar capaz de conter o risco, ou síndrome de abstinência avaliada como moderada a grave demandam avaliação em serviço de emergência (NICE, 2010; WHO, 2016). MINISTÉRIO DA SAÚDE 40 3.4.5 Práticas de cuidado nas situações de crise de pessoas sob efeito de álcool e outras drogas e da abstinência a) Pessoa sob efeito do uso de álcool e outras drogas (intoxicação aguda) A intoxicação aguda corresponde ao estado transitório decorrente do uso recente de álcool, outras drogas ou substâncias psicoativas, incluindo medicamentos prescritos ou não, podendo provocar alterações da consciência, da cognição, da percepção, do afeto, do comportamento e de outras funções psicofisiológicas. Em termos assistenciais, trata-se da pessoa que chega ao serviço sob efeito de substâncias, com manifestações clínicas cuja gravidade pode variar de quadros leves a situações com risco vital (Cruz, 2014; WHO, 1994, 2016). Nas situações de intoxicação, o manejo deve priorizar (Cruz, 2014): • monitoramento clínico; • hidratação e nutrição, quando viável; • promoção de medidas de conforto, como banho e local adequado para repouso; • prevenção de aspiração e outras complicações; • suporte ventilatório, quando necessário; • identificação de trauma associado; • estabilização hemodinâmica; • uso de antídotos, quando indicados (exemplo: naloxona em suspeita de opioides). É esperado que pessoas que necessitam de cuidado em saúde mental procurem serviços porta aberta, como Unidades Básicas de Saúde (UBS), Caps, unidades de pronto atendimento, entre outros, sob efeito de álcool e outras drogas. Nesses casos, a abordagem deve partir do acolhimento e da avaliação da situação, garantindo espaço protegido e seguro para que a pessoa possa permanecer nos serviços até o devido encaminhamento, articulando o cuidado na rede intra e intersetorial a partir das necessidades de cada caso e conforme a gravidade. Os serviços não devem negar ou restringir o cuidado de pessoas que se encontrem sob efeitos de álcool e outras drogas, garantindo acesso ao cuidado de forma singular, organizando espaços protegidos para esses casos. GUIA DE ACOLHIMENTO À CRISE EM SAÚDE MENTAL NA REDE DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL (RAPS) 41 3.4.5 Práticas de cuidado nas situações de crise de pessoas sob efeito de álcool e outras drogas e da abstinência a) Pessoa sob efeito do uso de álcool e outras drogas (intoxicação aguda) A intoxicação aguda corresponde ao estado transitório decorrente do uso recente de álcool, outras drogas ou substâncias psicoativas, incluindo medicamentos prescritos ou não, podendo provocar alterações da consciência, da cognição, da percepção, do afeto, do comportamento e de outras funções psicofisiológicas. Em termos assistenciais, trata-se da pessoa que chega ao serviço sob efeito de substâncias, com manifestações clínicas cuja gravidade pode variar de quadros leves a situações com risco vital (Cruz, 2014; WHO, 1994, 2016). Nas situações de intoxicação, o manejo deve priorizar (Cruz, 2014): • monitoramento clínico; • hidratação e nutrição, quando viável; • promoção de medidas de conforto, como banho e local adequado para repouso; • prevenção de aspiração e outras complicações; • suporte ventilatório, quando necessário; • identificação de trauma associado; • estabilização hemodinâmica; • uso de antídotos, quando indicados (exemplo: naloxona em suspeita de opioides). É esperado que pessoas que necessitam de cuidado em saúde mental procurem serviços porta aberta, como Unidades Básicas de Saúde (UBS), Caps, unidades de pronto atendimento, entre outros, sob efeito de álcool e outras drogas. Nesses casos, a abordagem deve partir do acolhimento e da avaliação da situação, garantindo espaço protegido e seguro para que a pessoa possa permanecer nos serviços até o devido encaminhamento, articulando o cuidado na rede intrae intersetorial a partir das necessidades de cada caso e conforme a gravidade. Os serviços não devem negar ou restringir o cuidado de pessoas que se encontrem sob efeitos de álcool e outras drogas, garantindo acesso ao cuidado de forma singular, organizando espaços protegidos para esses casos. Sempre que houver dúvida diagnóstica, suspeita de intoxicação por substância desconhecida, necessidade de orientação toxicológica específica ou definição de antídotos e condutas, recomenda-se contato com o Centro de Informação e Assistência Toxicológica (CIATox), em articulação com a rede de urgência e emergência. É importante atentar, também, para a questão das adulterações, especialmente frequentes no mercado ilícito. Em casos de intoxicação ou de efeitos adversos, deve-se considerar a possível presença de outras substâncias além daquela cujo consumo foi relatado. Destaca-se, ainda, o fenômeno das Novas Substâncias Psicoativas (NSP), utilizadas para imitar os efeitos de drogas convencionais, porém sem estarem enquadradas nas convenções internacionais de controle. As NSP configuram-se como um fenômeno global, com impacto relevante também no Brasil, onde novas substâncias vêm sendo identificadas a cada ano. Informações sobre seus riscos, interações, efeitos adversos e consequências em longo prazo são bastante limitadas. Nesse contexto, foi desenvolvido o Sistema de Alerta Rápido sobre drogas (SAR), vinculado ao Observatório Brasileiro de Informações sobre Drogas (Obid) e coordenado pela Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas e Gestão de Ativos (Senad), do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP). O SAR tem como função monitorar, analisar e disseminar informações sobre NSP e outras questões emergentes relacionadas às drogas, constituindo, portanto, uma importante fonte de informação para profissionais de saúde. b) Síndrome de abstinência A síndrome de abstinência pode variar de quadros leves a graves, e sua avaliação deve considerar, sempre que possível, a substância envolvida, o tempo decorrido desde a última dose2, a intensidade do uso prévio, comorbidades clínicas e psiquiátricas, condições de suporte social e sinais de risco orgânico. Embora diferentes substâncias possam produzir quadros de abstinência, é especialmente importante reconhecer que a abstinência de álcool e de benzodiazepínicos pode evoluir com gravidade e risco vital (Brasil, 2021). Devem-se observar: ² Para acessar alertas, publicações e também realizar notificações, acesse: https://www.gov.br/mj/pt-br/assuntos/ sua-protecao/politicas-sobre-drogas/obid/sistema-de-alerta-rapido-sobre-drogas-sar. https://www.gov.br/mj/pt-br/assuntos/sua-protecao/politicas-sobre-drogas/obid/sistema-de-alerta-rapido-sobre-drogas-sar https://www.gov.br/mj/pt-br/assuntos/sua-protecao/politicas-sobre-drogas/obid/sistema-de-alerta-rapido-sobre-drogas-sar MINISTÉRIO DA SAÚDE 42 • histórico de síndromes de abstinência; • tremores; • sudorese; • ansiedade intensa; • agitação; • convulsões; • delirium tremens. A equipe deve realizar avaliação clínica sistemática, exame do estado mental, monitoramento de sinais vitais e identificação precoce de desidratação, confusão, alucinações, rebaixamento do nível de consciência e outras intercorrências clínicas (Brasil, 2021). Quadros leves, e parte dos quadros moderados, podem ser acompanhados em Caps ou em outro dispositivo de saúde do território, desde que haja capacidade de monitoramento contínuo, acompanhamento multiprofissional e articulação ágil com a rede para eventual escalonamento do cuidado. Quadros graves, casos com risco de convulsões, delirium tremens, importante instabilidade clínica, comorbidades relevantes ou suporte social insuficiente exigem suporte hospitalar e monitorização contínua (Brasil, 2022). Quando indicado, o uso de medicação específica deve seguir protocolos clínicos baseados em evidências, como parte de um manejo que não se limita à prescrição farmacológica, mas integra observação contínua, proteção clínica, escuta qualificada e organização do cuidado em rede (WHO, 2016). c) Fissura intensa e comportamento desorganizado associado ao uso de álcool e outras drogas A fissura pode ser acompanhada de intenso sofrimento psíquico, não se limitando a um desejo físico ou automático pelo uso da substância. Frequentemente, vem associada a angústia, pensamentos repetitivos, inquietação, irritabilidade e dificuldade de sustentar acordos de cuidado, razão pela qual o acompanhamento do usuário nesse momento é particularmente importante. Em algumas situações, a fissura pode se associar a comportamento agitado, impulsividade, abandono do cuidado e conflitos interpessoais, exigindo atenção clínica e psicossocial qualificada (Cruz, 2014; WHO, 2020). GUIA DE ACOLHIMENTO À CRISE EM SAÚDE MENTAL NA REDE DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL (RAPS) 43 A manifestação da fissura é esperada em casos de uma relação de dependência com álcool e outras drogas. As Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS) têm demonstrado efeitos positivos nesses casos, evitando a medicalização. Ainda, é importante considerar que os usuários podem optar pelo uso de substâncias alternativas para redução da fissura, como o uso do tabaco, situações que devem ser acolhidas pelas equipes na perspectiva da redução de danos e do cuidado. Figura 3 – Fluxograma de cuidados para pessoa sob efeito de álcool e outras drogas SITUAÇÃO DE CRISE IDENTIFICADA Pessoa sob efeito de álcool ou outras drogas Acolhimento imediato: • Escuta qualificada. • Postura não julgadora. • Proteção e vínculo. • Redução de danos. Há sinais de risco vital ou instabilidade orgânica? NÃO NÃO SIM SIM Avaliação inicial de gravidade: • Substância(s) envolvida(s). • Intoxicação? • Abstinência? • Agitação/comportamento desorganizado? • Risco auto/heteroagressivo? • Sinais de risco vital? • Suporte social disponível? Quadro predominante: • Pessoa sob efeito/ intoxicação aguda. • Síndrome de abstinência. • Fissura com sofrimento intenso. • Agitação/comportamento desorganizado associado ao uso. Urgência/retaguarda hospitalar. Há condições de cuidado territorial? Articular seguimento: • Caps AD. • APS. Reavaliar nível de retaguarda (serviço com maior suporte): • Caps AD III. • Urgência/retaguarda hospitalar. Continuidade do cuidado pós-crise: • Revisão do PTS. • Estratégias de redução de danos. • Prevenção de recaídas, overdoses e novas crises. • Plano antecipado de cuidado. TODOS OS NÍVEIS Construção de rede de cuidados: • Acionar rede de confiança. • Articular Caps, APS e urgência. • Pactuar manejo. • Definir seguimento em 24 a 72 horas. Fonte: elaboração própria. MINISTÉRIO DA SAÚDE 44 3.5 Acolhimento a crianças e adolescentes em situação de crise As diretrizes gerais para o manejo da agitação, do risco de suicídio e das crises associadas ao uso de álcool e outras drogas também se aplicam a crianças e adolescentes, devendo, contudo, ser adaptadas às especificidades clínicas, subjetivas, familiares e legais próprias dessa etapa do ciclo de vida. Nesses casos, o manejo deve priorizar intervenções proporcionais, contextualizadas e orientadas pelo princípio da proteção integral. As intervenções, incluindo a escolha medicamentosa, quando necessária, devem respeitar indicações específicas para a idade, o peso e o perfil clínico, evitando extrapolação automática de protocolos adultos. A seguir, serão abordadas as principais situações desafiadoras no contexto da crise nas infâncias e adolescências. 1. Agitação e comportamento agressivo Episódios de agitação e agressividade podem ocorrer no curso da vida de crianças e adolescentes com diagnósticos de transtornos do neurodesenvolvimento, especialmente transtorno do espectro autista (TEA), transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), e transtornos do comportamento, além de situações de sobrecargasensorial, frustração ou dificuldades de comunicação. Outras situações associadas à agitação e ao comportamento agressivo são o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), transtornos de humor, transtornos psicóticos, bem como respostas a contextos de violências, luto e traumas. Devem-se, portanto, evitar inferências diagnósticas precipitadas em episódios isolados de desorganização comportamental (NICE, 2013). O manejo deve priorizar (Saidinejad, 2024): • redução de estímulos ambientais; • abordagem calma e previsível; • manutenção de figuras de referência quando possível; • uso de linguagem simples e direta; • intervenções de regulação sensorial, quando indicadas. GUIA DE ACOLHIMENTO À CRISE EM SAÚDE MENTAL NA REDE DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL (RAPS) 45 2. Risco de suicídio e comportamento autolesivo Na infância e, sobretudo, na adolescência, o risco de suicídio exige atenção especial, em razão da combinação entre sofrimento psíquico intenso, impulsividade elevada e influência de fatores relacionais, incluindo os ambientes digitais. A avaliação deve distinguir entre ideação suicida estruturada, comportamento autolesivo não suicida e atos impulsivos em contexto de conflito agudo (Brasil; UnB, 2018; NICE, 2022). Particularidades relevantes incluem (NICE, 2022): • maior associação com bullying, violência intrafamiliar e conflitos escolares; • influência de redes sociais e exposição a conteúdos autolesivos; • flutuação rápida da intenção suicida; • necessidade de supervisão e proteção intensiva por adultos responsáveis. O manejo deve incluir envolvimento dos responsáveis, orientação clara sobre medidas de proteção (restrição de meios letais, supervisão contínua, quando indicado) e articulação com escola e serviços territoriais. A alta não deve ocorrer sem avaliação mínima das condições de proteção no ambiente familiar. 3. Crises associadas ao uso de álcool e outras drogas Na infância e, sobretudo, na adolescência, o uso de álcool e outras drogas frequentemente se apresenta em padrões episódicos e de maior risco, incluindo consumo episódico excessivo de álcool (binge drinking), podendo associar-se a impulsividade, acidentes, violência e outros fatores socioculturais. Nessas situações, a crise pode envolver intoxicação aguda, desinibição comportamental, conflitos interpessoais, exposição a situações de violência e associação com risco suicida, exigindo avaliação clínica e psicossocial cuidadosa (Brasil, 2015a). O manejo deve considerar: • efeitos significativos no sistema nervoso central, alterando funções cognitivas, comportamentais e emocionais; • risco aumentado de comportamentos impulsivos; • necessidade de abordagem familiar estruturada; • importância de intervenções breves motivacionais. MINISTÉRIO DA SAÚDE 46 A abordagem deve evitar estigmatização e punição moral, priorizando orientação, vínculo e articulação com a escola e a assistência social, quando necessário (NIAAA, 2011, 2018). 4. Centralidade da família e da rede No contexto de crise das infâncias e adolescências, o manejo não se restringe ao indivíduo, devendo incluir a avaliação das condições familiares, comunitárias e institucionais que sustentam ou fragilizam o cuidado. A capacidade da família ou dos responsáveis de oferecer supervisão, proteção e continuidade do acompanhamento constitui elemento central da avaliação e da tomada de decisão clínica. Quando a rede familiar se mostra protetiva, deve ser incorporada ativamente ao plano terapêutico; quando estiver fragilizada, ausente ou constituir fator de risco, torna-se necessária a articulação com a rede de proteção social e de garantia de direitos, incluindo, quando cabível, Conselho Tutelar, assistência social, educação e demais dispositivos do território (Brasil, 2014). A decisão sobre a necessidade de internação ou outra forma de retaguarda intensiva deve considerar não apenas a gravidade clínica, mas também as condições concretas de cuidado no território, a disponibilidade de supervisão qualificada, a capacidade protetiva do domicílio e a possibilidade de seguimento em rede. Em algumas situações, a ausência de condições mínimas de proteção e cuidado pode aumentar a necessidade de retaguarda institucional temporária ou de intensificação do cuidado, desde que essa decisão se mantenha articulada à avaliação clínica, à proteção integral e à busca de alternativas territoriais logo que possíveis (Brasil, 2014). 3.6 Determinações sociais da saúde e interseccionalidade na compreensão das crises em saúde mental “ Em primeiro lugar, as mulheres que estão ali, quase todas são traumatizadas, então é necessário demais que essas coisas sejam dadas, assim como a seriedade [...] os preconceitos, as homofobias, as transfobias, as violências todas de gênero, o racismo, isso tem que ser base, porque senão fica inviável. Usuário participante do Vozes da Crise A compreensão das crises em saúde mental no âmbito do SUS exige o reconhecimento das determinações sociais da saúde (Borghi; Oliveira; Sevalho, 2018) como elementos estruturantes da produção do sofrimento psíquico. Tais determinações correspondem a processos históricos, econômicos, políticos e culturais que organizam a vida social e conformam, de modo desigual, as condições de existência dos sujeitos, incidindo sobre o acesso a direitos, bens e serviços (Borghi; Oliveira; Sevalho, 2018). Nessa perspectiva, as crises não se configuram como eventos isolados ou estritamente individuais, mas como expressões agudas de trajetórias marcadas por desigualdades de classe, raça, gênero, território e outras relações de poder, o que desloca sua análise do plano exclusivamente clínico para o campo das responsabilidades públicas e reafirma o papel do Estado na garantia do direito à saúde mental. Ao reconhecer as determinações sociais como constitutivas do processo saúde-doença, a Raps orienta suas respostas às crises pelos princípios da universalidade, da integralidade e da equidade, priorizando estratégias territorializadas, intersetoriais e de cuidado em liberdade. As situações de crise passam a ser compreendidas como momentos de intensificação de processos de exclusão social, violências institucionais, rupturas de vínculos e fragilização das redes de apoio, exigindo intervenções que ultrapassem a lógica da contenção e da institucionalização e se articulem às políticas de assistência social, habitação, trabalho, educação e direitos humanos. Nesse horizonte, a interseccionalidade constitui chave analítica e ético-política fundamental para qualificar a compreensão e o manejo das crises em saúde mental no contexto da Reforma Psiquiátrica. Ao evidenciar que as experiências de sofrimento e o acesso aos dispositivos da Raps são atravessados simultaneamente por múltiplas formas de opressão, essa abordagem permite problematizar a GUIA DE ACOLHIMENTO À CRISE EM SAÚDE MENTAL NA REDE DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL (RAPS) 47 3.6 Determinações sociais da saúde e interseccionalidade na compreensão das crises em saúde mental “ Em primeiro lugar, as mulheres que estão ali, quase todas são traumatizadas, então é necessário demais que essas coisas sejam dadas, assim como a seriedade [...] os preconceitos, as homofobias, as transfobias, as violências todas de gênero, o racismo, isso tem que ser base, porque senão fica inviável. Usuário participante do Vozes da Crise A compreensão das crises em saúde mental no âmbito do SUS exige o reconhecimento das determinações sociais da saúde (Borghi; Oliveira; Sevalho, 2018) como elementos estruturantes da produção do sofrimento psíquico. Tais determinações correspondem a processos históricos, econômicos, políticos e culturais que organizam a vida social e conformam, de modo desigual, as condições de existência dos sujeitos, incidindo sobre o acesso a direitos, bens e serviços (Borghi; Oliveira; Sevalho, 2018). Nessa perspectiva, as crises nãose configuram como eventos isolados ou estritamente individuais, mas como expressões agudas de trajetórias marcadas por desigualdades de classe, raça, gênero, território e outras relações de poder, o que desloca sua análise do plano exclusivamente clínico para o campo das responsabilidades públicas e reafirma o papel do Estado na garantia do direito à saúde mental. Ao reconhecer as determinações sociais como constitutivas do processo saúde-doença, a Raps orienta suas respostas às crises pelos princípios da universalidade, da integralidade e da equidade, priorizando estratégias territorializadas, intersetoriais e de cuidado em liberdade. As situações de crise passam a ser compreendidas como momentos de intensificação de processos de exclusão social, violências institucionais, rupturas de vínculos e fragilização das redes de apoio, exigindo intervenções que ultrapassem a lógica da contenção e da institucionalização e se articulem às políticas de assistência social, habitação, trabalho, educação e direitos humanos. Nesse horizonte, a interseccionalidade constitui chave analítica e ético-política fundamental para qualificar a compreensão e o manejo das crises em saúde mental no contexto da Reforma Psiquiátrica. Ao evidenciar que as experiências de sofrimento e o acesso aos dispositivos da Raps são atravessados simultaneamente por múltiplas formas de opressão, essa abordagem permite problematizar a MINISTÉRIO DA SAÚDE 48 seletividade histórica das práticas de internação, medicalização e contenção. Sua incorporação como princípio estruturante da gestão, da clínica ampliada, da formação profissional e da produção de dados no SUS desloca a resposta às crises de soluções asilares e coercitivas para estratégias de cuidado em liberdade, baseadas no território, na garantia de direitos e na justiça social, reafirmando o compromisso antimanicomial e com a equidade (Passos; Campos, 2025). A centralidade das determinações sociais da saúde e da interseccionalidade na compreensão das crises em saúde mental implica, necessariamente, a afirmação do usuário como sujeito de direitos. No âmbito do SUS, esse princípio encontra respaldo não apenas na Constituição Federal de 1988, que estabelece a saúde como direito de todos e dever do Estado, mas também nas diretrizes da Reforma Psiquiátrica Brasileira, que deslocam o foco do cuidado da tutela para a autonomia, da institucionalização para o território e da contenção para a produção de vida (Amarante, 2007; Brasil, 1988). Nesse sentido, o cuidado em situações de crise deve ser orientado pelo reconhecimento da pessoa em sofrimento como sujeito ativo, portador de direitos e de saberes sobre sua própria experiência. Isso implica recusar práticas que reduzam o sujeito à sua crise ou ao seu diagnóstico, bem como estratégias que operem pela via da coerção, do isolamento ou da desresponsabilização institucional. Ao contrário, trata-se de construir intervenções que garantam escuta qualificada, acolhimento, vínculo e corresponsabilização, articulando diferentes pontos da Raps e outros setores das políticas públicas. É nesse contexto que retomamos a ideia anteriormente apresentada, de que a interseccionalidade se apresenta não apenas como ferramenta analítica, mas como princípio ético-político orientador do cuidado. O conceito, formulado por Kimberlé Crenshaw, refere-se à compreensão de que diferentes sistemas de opressão (como racismo, sexismo, classismo e outras formas de desigualdade) não atuam de maneira isolada, mas se articulam, produzindo experiências específicas e não redutíveis à soma de suas partes (Crenshaw, 2002). Assim, a interseccionalidade permite compreender que o sofrimento psíquico não se distribui de forma homogênea, mas é produzido e vivido de maneira diferenciada conforme a posição social dos sujeitos. Essa perspectiva implica reconhecer que o sofrimento não pode ser apreendido de maneira abstrata ou universal, como se todos os sujeitos experimentassem a GUIA DE ACOLHIMENTO À CRISE EM SAÚDE MENTAL NA REDE DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL (RAPS) 49 crise a partir das mesmas condições. Ao contrário, a interseccionalidade evidencia que os processos de adoecimento e de sofrimento psíquico estão profundamente enraizados em trajetórias marcadas por desigualdades estruturais, violências históricas e formas diferenciadas de acesso a direitos, ou de negação destes (Lima; Navasconi, 2022). Nesse sentido, não se trata apenas de identificar marcadores sociais, mas de compreender como eles se entrecruzam na produção concreta da vida e, consequentemente, da crise. No campo da saúde mental, essa perspectiva possibilita problematizar práticas historicamente marcadas pela universalização abstrata, que desconsidera as especificidades dos sujeitos e dos territórios. Como apontam estudos recentes, a ausência de uma leitura interseccional pode resultar na reprodução de desigualdades no acesso ao cuidado, na qualidade das intervenções e nos desfechos clínicos (Passos; Campos, 2025). Por exemplo, pessoas negras, mulheres, populações em situação de rua, pessoas LGBTQIA+ (lésbicas, gays, bissexuais, transgêneras/travestis, queer, intersexo, assexuais e outras), povos indígenas, pessoas migrantes e refugiadas, bem como pessoas com deficiência, constituem grupos historicamente atravessados por múltiplas formas de exclusão e violência, que incidem diretamente sobre suas condições de vida e saúde mental. Esses sujeitos frequentemente enfrentam maiores barreiras de acesso aos serviços, seja por obstáculos territoriais, institucionais, linguísticos ou culturais, seja por práticas discriminatórias que atravessam o próprio campo da saúde. No caso das pessoas negras, é fundamental reconhecer que o racismo estrutura de maneira profunda as experiências de sofrimento, incidindo tanto nas condições materiais de vida quanto nos processos de subjetivação. A exposição contínua a violências – sejam elas institucionais, simbólicas ou cotidianas –, a negação de direitos, a desigualdade no acesso a bens e serviços e a produção histórica de não pertencimento constituem elementos centrais na compreensão da saúde mental dessa população (Navasconi, 2019). Além disso, o racismo também se manifesta no interior dos próprios serviços de saúde, seja por meio da invisibilização do sofrimento racial, da naturalização de determinadas violências ou da adoção de práticas que desconsideram as especificidades dessas experiências (Mendes, 2017). Nesse sentido, a ausência de uma abordagem interseccional pode levar à patologização de respostas que são, muitas vezes, produzidas por contextos de opressão, deslocando o problema da estrutura social para o indivíduo. MINISTÉRIO DA SAÚDE 50 No caso dos povos indígenas, por exemplo, a desconsideração de seus modos próprios de viver, cuidar e significar o sofrimento pode resultar em intervenções inadequadas, que desrespeitam saberes tradicionais e produzem novas formas de violência. De maneira semelhante, pessoas migrantes e refugiadas podem vivenciar processos intensos de ruptura de vínculos, deslocamento territorial e insegurança social, ao mesmo tempo em que enfrentam barreiras de acesso aos serviços de saúde, muitas vezes agravadas por questões documentais e linguísticas. Já as pessoas com deficiência, historicamente marcadas por processos de exclusão e capacitismo, podem ter suas demandas reduzidas a diagnósticos ou limitações, invisibilizando dimensões subjetivas e sociais de seu sofrimento. Essas experiências evidenciam que o sofrimento psíquico não pode ser compreendido de forma dissociada das condições sociais e das relações de poder que atravessam os sujeitos. Ao contrário, ele se constitui na intersecção entre diferentes marcadores sociais, produzindo formas específicas de vulnerabilidade, mas também de resistência. Nesse sentido, a ausência de uma abordagem interseccionalnão apenas limita a compreensão do fenômeno, mas contribui para a reprodução de práticas excludentes, que reforçam desigualdades já existentes. Dessa forma, incorporar a interseccionalidade no cuidado em saúde mental implica reconhecer que não há um sujeito universal da clínica, mas sujeitos situados, atravessados por histórias, territórios e relações de poder. Isso exige que o cuidado seja, ao mesmo tempo, singularizado e contextualizado. Singularizado, na medida em que considera a história, os desejos, os vínculos e os sentidos atribuídos pelo próprio sujeito à sua experiência de sofrimento. Contextualizado, porque reconhece que essa experiência não se dá no vazio, mas em condições concretas de vida, marcadas por desigualdades estruturais. No contexto brasileiro, essa articulação ganha ainda mais relevância. Trata-se de um país marcado por profundas desigualdades sociais e raciais, em que o acesso a direitos é alcançado de maneira desigual. Assim, pensar o cuidado em saúde mental exige considerar não apenas quem é o sujeito, mas em que condições esse sujeito vive, quais violências atravessam sua trajetória e quais redes de apoio estão disponíveis em seu território. Nesse sentido, produzir cuidado interseccionalmente implica uma série de deslocamentos na prática profissional. Em primeiro lugar, exige ampliar a escuta, reconhecendo que a crise não é apenas um evento clínico, mas uma expressão de múltiplos atravessamentos. Isso significa perguntar não apenas sobre sintomas, mas sobre condições de vida, relações familiares, experiências de violência, racismo, discriminação e exclusão. Em segundo lugar, implica trabalhar de forma articulada com o território, reconhecendo que o cuidado não se esgota no serviço de saúde. A construção de estratégias de cuidado deve envolver a articulação com outros equipamentos e políticas públicas, como assistência social, educação, habitação e trabalho, bem como com redes comunitárias e coletivas. Em terceiro lugar, requer a problematização das próprias práticas institucionais. Isso inclui refletir sobre como o racismo, o sexismo e outras formas de opressão podem estar presentes nas instituições de saúde, influenciando decisões clínicas, encaminhamentos e formas de abordagem. Assim, o cuidado interseccional também é um exercício de crítica institucional e de transformação das práticas. Por fim, produzir cuidado interseccionalmente implica afirmar o compromisso com a equidade e com a justiça social. Isso significa reconhecer que tratar igualmente sujeitos desiguais pode aprofundar desigualdades, sendo necessário construir respostas diferenciadas, que considerem as especificidades e necessidades de cada grupo. Assim, ao articular determinações sociais da saúde, interseccionalidade e cuidado em crise, reafirma-se que o desafio da saúde mental no SUS não se restringe à ampliação de serviços, mas envolve a construção de práticas comprometidas com a vida, com os direitos e com a dignidade dos sujeitos. Trata-se de produzir um cuidado que não apenas responda à crise, mas que contribua para a transformação das condições que a produzem. GUIA DE ACOLHIMENTO À CRISE EM SAÚDE MENTAL NA REDE DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL (RAPS) 51 mas sobre condições de vida, relações familiares, experiências de violência, racismo, discriminação e exclusão. Em segundo lugar, implica trabalhar de forma articulada com o território, reconhecendo que o cuidado não se esgota no serviço de saúde. A construção de estratégias de cuidado deve envolver a articulação com outros equipamentos e políticas públicas, como assistência social, educação, habitação e trabalho, bem como com redes comunitárias e coletivas. Em terceiro lugar, requer a problematização das próprias práticas institucionais. Isso inclui refletir sobre como o racismo, o sexismo e outras formas de opressão podem estar presentes nas instituições de saúde, influenciando decisões clínicas, encaminhamentos e formas de abordagem. Assim, o cuidado interseccional também é um exercício de crítica institucional e de transformação das práticas. Por fim, produzir cuidado interseccionalmente implica afirmar o compromisso com a equidade e com a justiça social. Isso significa reconhecer que tratar igualmente sujeitos desiguais pode aprofundar desigualdades, sendo necessário construir respostas diferenciadas, que considerem as especificidades e necessidades de cada grupo. Assim, ao articular determinações sociais da saúde, interseccionalidade e cuidado em crise, reafirma-se que o desafio da saúde mental no SUS não se restringe à ampliação de serviços, mas envolve a construção de práticas comprometidas com a vida, com os direitos e com a dignidade dos sujeitos. Trata-se de produzir um cuidado que não apenas responda à crise, mas que contribua para a transformação das condições que a produzem. 53 4 FUNCIONAMENTO EM REDE NO ACOLHIMENTO DA CRISE O cuidado em saúde mental no SUS é orientado por princípios de territorialidade, integralidade, assim como por corresponsabilidade e cuidado compartilhado, que se materializam no PTS e no funcionamento articulado entre os diferentes pontos da Raps. O cuidado em rede pressupõe circulação do usuário entre os serviços, continuidade terapêutica e comunicação permanente entre equipes, evitando rupturas e favorecendo o acompanhamento ampliado da vida cotidiana. Os pontos de atenção da Raps são estratégicos para identificação precoce da intensificação do sofrimento, acolhimento e manejo apropriado das situações de crise, garantindo suporte ao usuário e à sua rede social e prevenindo internações desnecessárias. Por seu caráter territorial e comunitário, esses pontos permitem uma abordagem longitudinal e próxima da realidade de vida das pessoas, minimizando o circuito de reinternações. O acolhimento em situações de crise deve ocorrer em qualquer ponto dessa rede, desde a APS, porta de entrada preferencial do SUS, até os serviços especializados da Raps, como os Caps. Quando necessário, como em caso de risco de vida, complicações clínicas e/ou outras especificidades do caso, a retaguarda dos componentes da atenção hospitalar e da urgência e emergência deve ser acionada para o manejo adequado, garantindo o cuidado até que seja possível o retorno do usuário à APS e/ou ao Caps. A presença de pessoas em sofrimento psíquico intenso nos serviços da Raps é esperada. O manejo adequado dessas situações requer preparo técnico especializado, sensibilidade ética e integração efetiva entre os diferentes pontos da Raps, assim como outras redes da saúde e redes intersetoriais. A qualificação insuficiente dos profissionais, a falta de fluxos pactuados ou a desintegração das equipes podem resultar em condutas inadequadas, violação de direitos, excesso de medicalização e internações desnecessárias e recorrentes. Por isso, a construção e a implementação de fluxos regionais de cuidado são fundamentais. Fortalecer o cuidado em rede significa apoiar e qualificar os serviços de saúde, promover abordagens humanizadas e tecnicamente fundamentadas, e alinhar as práticas às diretrizes da Política de Saúde Mental. Esses elementos permitem consolidar fluxos estruturados e articulações intersetoriais capazes de garantir acolhimento adequado, segurança e continuidade do cuidado às pessoas em situação de crise. MINISTÉRIO DA SAÚDE 54 A seguir, serão apresentados os componentes da Raps e o papel específico de cada serviço no manejo da crise. 4.1 Componentes da Raps A Raps é composta por um conjunto de pontos de atenção articulados territorialmente, que devem funcionar em rede para garantir identificação precoce da intensificação do sofrimento, acolhimento qualificado e manejo adequado das situações de crise. Seus componentes formais, conforme Portaria n.º 3.088/2011 e Anexo IX da Portaria de Consolidação n.º 3/2017, estão descritos no quadro a seguir. Quadro4 – Resumo dos componentes da Raps por eixo de atenção Eixo de atenção Descrição Serviços/ dispositivos Atenção Básica Porta de entrada preferencial do SUS, com papel central na detecção precoce do sofrimento psíquico, no acolhimento inicial e no acompanhamento longitudinal dos usuários. Unidade Básica de Saúde, Unidade Básica de Saúde Fluvial, Unidade Móvel Consultório na Rua, Unidade Odontológica Móvel, Academia da Saúde, Consultório na Rua, Centros de Convivência. Atenção Psicossocial Coordenadora do cuidado, responsável pelos casos graves (incluindo pessoas em crise), pelo acolhimento contínuo (24 horas nos Caps III e AD III), pela elaboração do PTS e pela articulação com os demais pontos da rede. • Caps I e Caps II. • Caps AD. • Caps IJ. • Caps III, Caps AD III e Caps IJ III. Continua GUIA DE ACOLHIMENTO À CRISE EM SAÚDE MENTAL NA REDE DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL (RAPS) 55 Atenção às Urgências e Emergências Responsável pelo atendimento imediato às situações de crise em saúde mental, garantindo estabilização inicial e articulação com a Raps. • Unidade de Pronto Atendimento (UPA) 24 horas. • Samu 24 horas. • Sala de estabilização. Atenção Hospitalar Atua como retaguarda para situações de crise com risco de vida, complicações clínicas ou necessidade de estabilização com suporte hospitalar. • Leitos de Saúde Mental em Hospital Geral (LSMHG). • Serviço Hospitalar de Referência. Atenção Residencial em Caráter Transitório (Unidade de Acolhimento – UA) Oferece cuidados contínuos de saúde, com funcionamento 24 horas, em ambiente residencial, para pessoas com necessidades decorrentes do uso de crack, álcool e outras drogas, de ambos os sexos, que apresentem acentuada vulnerabilidade social e/ou familiar e demandem acompanhamento terapêutico e protetivo de caráter transitório. • UA Adulto • UA Infantojuvenil Estratégias de Reabilitação Psicossocial Iniciativas de trabalho, renda, cultura e inclusão social que fortalecem a autonomia e os vínculos comunitários e reduzem vulnerabilidades sociais. • Cooperativas sociais • Empreendimentos solidários • Iniciativas de trabalho e renda Continuação Continua MINISTÉRIO DA SAÚDE 56 Estratégias de desinstitucionalização Os Serv iços Res idencia is Terapêuticos (SRT) caracterizam-se como moradias inseridas na comunidade destinadas a pessoas com transtorno mental, egressas de hospitais psiquiátricos e/ou hospitais de custódia. O Programa de Volta para Casa (PVC) é um auxílio-reabilitação psicossocial para assistência, acompanhamento e integração social, fora de unidade hospitalar, de pacientes acometidos de transtornos mentais por longo tempo internados em hospitais ou unidades psiquiátricas. • SRT • PVC Fonte: elaboração própria. Papel dos componentes da Raps no acolhimento e no manejo às situações de crise em saúde mental Abordaremos a seguir os pontos de atenção dos componentes responsáveis pelo cuidado clínico à pessoa em situação de crise, considerando seu mandato de assistência, embora outros pontos da Raps (Centro de Convivência, UA, SRT, geração de renda) também lidem e acolham pessoas em situações de crise. Faz-se necessário o vínculo entre esses equipamentos e os serviços de referência em saúde mental, com construção compartilhada do PTS conforme as singularidades do usuário. Também importa que os profissionais dos pontos de atenção dialoguem, no sentido de reconhecerem potencialidades no manejo da crise em diferentes pontos (em um Ceco, por exemplo, quando possível), assim como reconheçam a necessidade de acionamento de atendimentos compartilhados, ou de composições de cuidado a serem criadas. Conclusão GUIA DE ACOLHIMENTO À CRISE EM SAÚDE MENTAL NA REDE DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL (RAPS) 57 4.1.1 Componentes da Atenção Primária à Saúde A APS é a porta de entrada preferencial do SUS e desempenha papel essencial na identificação precoce de sofrimento psíquico, na prevenção de crises e no acompanhamento longitudinal após a intensificação do sofrimento Muitas vezes, a intensificação do sofrimento psíquico aparece inicialmente no território, durante atendimentos na unidade de saúde, visitas domiciliares, ações comunitárias ou outros contatos cotidianos realizados pelas equipes. Por sua presença contínua nos territórios e pela proximidade com usuários, famílias e comunidades, diferentes profissionais e equipes da APS podem contribuir para a identificação precoce de situações de sofrimento psíquico, agravamento clínico, risco e ruptura de vínculos. Isso inclui equipes de Saúde da Família (eSF), equipes de Atenção Primária (eAP), equipes de Saúde Bucal (eSB), equipes multiprofissionais (eMulti) e Consultório na Rua (eCR), quando existentes. No contexto das situações de crise, cabe à APS acolher a pessoa e sua rede de apoio, ofertar escuta qualificada, identificar sinais de gravidade e construir estratégias iniciais de cuidado e proteção, considerando a realidade do território e os recursos disponíveis na rede local. Também é importante que as equipes reconheçam situações que demandem suporte intensivo ou acompanhamento especializado, realizando articulação oportuna com Caps, serviços de urgência e emergência e atenção hospitalar, quando necessário. As equipes da APS também têm papel importante na continuidade do cuidado após a crise, contribuindo para o fortalecimento de vínculos, o acompanhamento no território, a prevenção de novas situações de agravamento e a redução da descontinuidade do cuidado. Destacam-se como ações da APS no cuidado às situações de crise em saúde mental: • acolhimento e escuta qualificada; • identificação de sinais de agravamento e situações de risco; • articulação com Caps e outros serviços da rede; • acompanhamento compartilhado e continuidade do cuidado; • ações no território e visitas domiciliares, quando pertinentes; MINISTÉRIO DA SAÚDE 58 • fortalecimento de vínculos familiares, comunitários e intersetoriais; • construção e acompanhamento do PTS; • apoio à prevenção de novas crises e à redução da descontinuidade do cuidado. A atuação da APS deve ocorrer de forma articulada com os demais pontos da Raps, respeitando as atribuições de cada serviço e reconhecendo que o cuidado às situações de crise em saúde mental exige respostas compartilhadas, contínuas e territorialmente organizadas. eMulti As eMulti são equipes que devem atuar a partir do apoio e da atenção de forma compartilhada com as eSF, realizando o cuidado de pessoas com sofrimentos mentais prevalentes e de gravidade moderada, tais como transtornos de ansiedade, transtornos do humor e sofrimento relacionados ao uso de álcool e outras drogas e a jogos e apostas. O cuidado deve ser realizado por equipe multiprofissional, podendo ser composta por médico-psiquiatra, psicólogo, assistente social, terapeuta ocupacional, fonoaudiólogo e demais profissionais de saúde, conforme a organização do serviço e as necessidades dos usuários. A organização da atenção deve prever a oferta de atendimentos individuais e coletivos, de forma articulada com a eSF e os demais pontos da RAS, explicitando as especificidades e complementaridades das práticas desenvolvidas em relação a outros serviços de saúde mental. Deve-se assegurar a manutenção do vínculo do usuário com a equipe de origem da APS, garantindo a corresponsabilização pelo cuidado. As ações assistenciais devem estar orientadas à qualificação diagnóstica, à definição e ao acompanhamento do PTS, bem como à condução do acompanhamento, em diálogo com a Raps. As eSF e as eMulti, por acompanhar os usuários de forma próxima e contínua, pode identificar situações de intensificação do sofrimento precocemente e propor estratégias de cuidado nas situações de crise mais condizentes com a necessidade eas singularidades da pessoa. Entre as ações possíveis, estão o aumento de frequência dos atendimentos, a discussão de caso em apoio matricial, o atendimento conjunto com serviços especializados ou intersetoriais, entre outras. GUIA DE ACOLHIMENTO À CRISE EM SAÚDE MENTAL NA REDE DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL (RAPS) 59 Consultório na Rua As equipes do Consultório na Rua (eCR) (Portaria n.º 2.436, de 21 de setembro de 2017) devem desenvolver suas ações a partir de um processo de trabalho de caráter itinerante, garantindo o cuidado in loco, fundamentado em uma abordagem ampliada das necessidades de saúde e das demandas sociais da população em situação de rua. Esse cuidado deve ser construído de forma integrada e compartilhada com as UBS do território, e em articulação com toda a RAS e as redes intersetoriais. A estratégia do Consultório na Rua tem como objetivo levar assistência integral à saúde para população em situação de rua, além de ampliar o acesso aos serviços de saúde, ofertando atenção integral, oportuna e contínua a um grupo populacional marcado pela invisibilidade e vulnerabilidade social e por vínculos familiares fragilizados ou rompidos. Nos contextos de acolhimento à crise em saúde mental, a eCR tem importante papel na identificação, no acolhimento e na construção de respostas adequadas à experiência de intensificação do sofrimento. As eCR mantêm estreita proximidade com o contexto de vida das pessoas em situação de rua e, frequentemente, já dispõem de vínculos previamente estabelecidos. Essa relação favorece a aproximação, bem como a construção e a sustentação dos PTS com os outros pontos de atenção da rede. A estratégia de redução de danos deve orientar de forma transversal as ações desenvolvidas pelas equipes, constituindo-se como princípio organizador do cuidado. MINISTÉRIO DA SAÚDE 60 4.1.2 Componentes da atenção psicossocial especializada Centro de Atenção Psicossocial (Caps I, II, III, Álcool e outras Drogas, Infantojuvenil) “ A outra coisa é que a gente, em momentos de crise, quer ser atendida e acolhida e cuidada pelos profissionais que cuidam de mim [...] então daí eles mandam a gente pro hospital geral... eu não vou, eu acho que tem que ter um jeito de que nós que estamos referenciados no Caps, em momento de crise, antes da crise e pós-crise, a gente seja acompanhada pelos profissionais com quem a gente tem vínculo, né? Acho um absurdo isso da gente ser mandada, justamente na crise, para um lugar onde a gente não conhece ninguém. Usuário participante do Vozes da Crise Os Caps são serviços estratégicos para o cuidado às situações de crise, sendo responsáveis pela articulação do cuidado da pessoa em intensificação do sofrimento na Raps. São serviços de base territorial, porta aberta, multiprofissionais, comunitários e com a possibilidade de promover o cuidado intensivo em liberdade. Como dispositivos que também atendem às situações de crise, necessitam ter uma organização do trabalho que privilegie o acolhimento imediato a esse momento, por meio de escuta qualificada e de avaliação clínica ampliada e cuidadosa da modalidade de cuidado mais ajustada para o momento. As situações de crise são acompanhadas por equipe multiprofissional, com ofertas diversificadas de cuidado diurnas e nas modalidades Caps III e AD III, que contam com funcionamento contínuo 24 horas. Possuem capacidade de manejar diferentes situações, incluindo agitação, intervenções intensivas no território e suporte à família, acionando a retaguarda da atenção hospitalar, urgência e emergência (Samu, UPA ou LSMHG), quando há risco iminente ou necessidade clínica específica. Nos territórios onde existem Caps de base regional (conhecidos como Caps regional), estes assumem função ampliada de referência intermunicipal, recebendo encaminhamentos de municípios vizinhos, apoiando tecnicamente as equipes locais e articulando fluxos de acesso à crise por meio de pactuações regionais. Já nas localidades que não dispõem de Caps, a APS e os serviços de urgência devem acolher e avaliar o usuário, acionar imediatamente o Caps regional, ou o mais próximo, e organizar, com apoio matricial, a continuidade do cuidado no GUIA DE ACOLHIMENTO À CRISE EM SAÚDE MENTAL NA REDE DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL (RAPS) 61 território, garantindo que nenhuma pessoa em sofrimento psíquico agudo fique sem referência psicossocial. O cuidado no Caps passa pela construção do Projeto Terapêutico Singular3, que é (re)modelado, sempre que necessário, com o usuário e sua família/rede, de acordo com o momento do sofrimento, os acontecimentos da vida e as necessidades identificadas pelos atores envolvidos. No processo de acolhimento à crise, o Caps reorganiza com o usuário o PTS, reavaliando medicações, quando necessário, ajustando a frequência de acompanhamento, os recursos territoriais e as metas terapêuticas, além de apoiar o retorno seguro à APS e aos dispositivos comunitários. Também desenvolve estratégias para reduzir a recorrência da crise, como planos antecipados de cuidado. Por ser de base comunitária, permite a elaboração de práticas de cuidado que incluam as diferentes dimensões da vida: trabalho, lazer, convivência familiar e comunitária e direitos civis. Neste sentido, acolher a crise no Caps também é estar atento a essas questões. É imperativo que o Caps sustente plasticidade para considerar as necessidades da pessoa em crise, desenvolva novas formas na organização institucional e na clínica do cuidado. Entre os arranjos organizacionais, destaca-se a importância da constituição de uma equipe/profissional de referência (Campos; Domitti, 2007), que se alicerça no vínculo entre esta e o usuário e na interdisciplinaridade para um cuidado singular e integral. A equipe/profissional de referência (Brasil, 2004) tem como responsabilidade acompanhar, de maneira próxima e constante, seu percurso de cuidado na rede, ofertar suporte contínuo, coconstruir o PTS e reavaliá-lo com o usuário e sua rede, articular a rede de cuidado e garantir continuidade, inclusive durante e após a crise. Esse vínculo fortalece o cuidado em liberdade, contribui também para a sustentação do cuidado à crise e evita fragmentações desse cuidado. O vínculo com o serviço e com a equipe promove aproximação da equipe com as pessoas em sofrimento psíquico, sua família/rede, sua história de vida e adoecimento, e permite muitas vezes a identificação precoce de uma intensificação do sofrimento. 3 Para saber mais sobre o PTS, consulte o documento Vista do Projeto Terapêutico Singular: uma visão panorâmica de sua expressão na produção científica brasileira, disponível em https://periodicos.ufsc.br/index.php/cbsm/article/ view/73119/48704. https://periodicos.ufsc.br/index.php/cbsm/article/view/73119/48704. https://periodicos.ufsc.br/index.php/cbsm/article/view/73119/48704. MINISTÉRIO DA SAÚDE 62 Figura 4 – Fluxograma de acolhimento à crise no Caps SITUAÇÃO DE CRISE Acolhimento em Caps Demanda de intensificação do sofrimento Acolhimento Identificação da situação de criseNÃO NÃO SIM SIM NÃO SIM • Escuta. • Esclarecimentos e orientações. • Capacidade resolutiva. • Construção compartilhada. Discutir motivo do acolhimento em passagem de plantão e/ou equipe de referência. • Comunicar equipe de acolhimento/plantão. • Comunicar profissional(ais) de referência. Discussão de caso e intensificação do cuidado. PTS de crise. Cuidado no território/Caps Cuidado compartilhado com atenção hospitalar, urgência e emergência (LSMHG, UPA, PA). Encaminhamento qualificado. Manutenção da comunicação: contato diário e passagem das informações na passagem de plantão do Caps. Manutenção de atendimento presencial ou teleatendimento. Discussão de caso e pactuações de transição do cuidado com equipes, usuário e rede. Diurno ou integral. Pactuação de permanência. Ofertasterapêuticas (atendimentos, grupos, oficinas). Avaliação enfermagem e SAE. Avaliação médica e prescrição (caso necessário). Avaliação da equipe de acolhimento/plantão. Comunicação/articulação qualificada entre plantões. Avaliação da equipe de acolhimento/plantão e/ou referência. Mantém avaliação de crise Diminuição da intensificação do cuidado e pactuações da continuidade do cuidado. Revisão do PTS de crise, continuidade na intensificação do cuidado. Estratégias de cuidado diversificadas (visita domiciliar, acompanhamento terapêutico, busca ativa, teleatendimento, entre outros). Comunicação do acompanhamento do caso entre equipe e atores envolvidos. Ativar serviços e rede de suporte. Fonte: elaboração própria, adaptado de Abbud et al., [2025]. GUIA DE ACOLHIMENTO À CRISE EM SAÚDE MENTAL NA REDE DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL (RAPS) 63 Situações de maior sofrimento psíquico demandam, frequentemente, respostas de cuidado mais intensivas e proporcionais à sua complexidade. A seguir, estão algumas possibilidades de cuidados intensivos e hospitalidade integral/acolhimento noturno. Ações cotidianas no cuidado à crise: • Acompanhamento intensivo em hospitalidade-dia, com organização das ofertas avaliadas individualmente. • Acolhimento em espaço protegido, priorizando profissionais com mais vínculo e proximidade com o usuário. • Manejo individualizado, com escuta e acompanhamento corpo a corpo. • Uso de atividades expressivas e artísticas, como forma de sustentação e expressão não verbal. • Cuidado corporal, com ofertas para cuidados básicos como higiene, alimentação, hidratação e repouso. • Uso de medicações, quando avaliado o critério. Ações extramuros: • Acompanhamento terapêutico no território, com a presença de profissional nos territórios existenciais e espaços cotidianos do usuário. • Visitas domiciliares com equipes de referência e vínculo que compõem a rede assistencial do usuário. • Articulação com a rede de apoio territorial, a fim de ampliar a corresponsabilização pelo cuidado. • Articulação intersetorial, com equipamentos que abrangem desde a APS até a assistência social, além dos centros comunitários e Ceco. • Apoio matricial. Ações no acolhimento noturno: • Acolhimento em leito de hospitalidade noturna, quando há critério de acompanhamento 24 horas para manejo da crise. MINISTÉRIO DA SAÚDE 64 • Ambiência protegida e com poucos estímulos, favorecendo espaço acolhedor e seguro. • Acolhimento e escuta qualificada. • Acompanhamento clínico e psicossocial contínuo, com avaliação das necessidades ao longo do período. • Articulação com a equipe de referência do cuidado diurno, para continuidade e integração do cuidado. • Articulação com a rede de apoio, envolvendo a presença de familiares ou vínculos importantes. • Uso de medicações, quando avaliado o critério, com a construção de discussão ou protocolos entre profissionais que atuam durante o período diurno e o período noturno. • Reforça-se a importância do investimento por parte da equipe, e a responsabilidade por parte do gestor da unidade, na sustentação dos espaços de passagem de plantão (ou de discussão dos casos e do processo de trabalho diário, a depender de como se organiza a unidade), de modo a evitar fragmentação do cuidado entre as ofertas pelos profissionais nos turnos do serviço 24 horas. O acolhimento em leito de hospitalidade diurna e/ou noturna é prioritário para o cuidado em situações de crise, por ser o espaço onde o usuário tem vínculo estabelecido pelo cuidado longitudinal, a organização de seu PTS e a familiaridade com o espaço físico/ambiência. Ao priorizar o cuidado à crise no Caps, além disso, evitam-se ruptura de cuidado e internações desnecessárias, além de promover a permanência do usuário próximo à sua rede de relações e imprimir transformações culturais e simbólicas no território. 4.1.3 Componentes da atenção hospitalar Leitos de Saúde Mental em Hospital Geral Os LSMHG integram o componente hospitalar da Raps e destinam-se ao atendimento qualificado de pessoas em sofrimento ou com transtornos mentais, ou com problemas relacionados ao uso de álcool e outras drogas. Conforme a Portaria n.º 148, de 31 de janeiro de 2012, esses leitos podem estar organizados em GUIA DE ACOLHIMENTO À CRISE EM SAÚDE MENTAL NA REDE DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL (RAPS) 65 enfermarias específicas de saúde mental, dentro do hospital geral, ou distribuídos como leitos qualificados em enfermarias de clínica médica e de pediatria, a depender da quantidade instalada. O cuidado hospitalar deve ser acionado quando a tecnologia de cuidado do Caps não for suficiente, especialmente nas situações de urgência e emergência decorrentes do consumo ou da abstinência de álcool e outras drogas, ou de agravamento do sofrimento psíquico, com ou sem comorbidades clínicas. O acesso ocorre por encaminhamento qualificado, com internações breves (pelo menor tempo possível), regulação em rede, e contemplando o atendimento a todas as faixas etárias, observando as disposições do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). A atenção hospitalar é retaguarda clínica temporária, acionada quando há: • risco iminente de morte; • necessidade de suporte médico e monitoramento clínico contínuo; intoxicações graves, delirium, complicações clínicas; • impossibilidade absoluta de manejo territorial. Princípios como humanização, ética, flexibilidade, proximidade com o território e construção do PTS, em articulação com a rede, orientam o funcionamento desses leitos. Assim, a equipe da enfermaria deve acolher o usuário na chegada, identificar o histórico de acompanhamento em saúde mental e o serviço territorial de referência, e realizar a avaliação clínica e psicossocial por equipe multiprofissional, em perspectiva interdisciplinar. Após a avaliação inicial, preferencialmente multiprofissional, é fundamental contatar, ainda no início da internação, o ponto da Raps mais adequado ao caso, para qualificar o PTS, pactuar a transição do cuidado, definir responsabilidades e reduzir fragmentação e reinternações. Quando o usuário já está em seguimento em saúde mental, o serviço de referência deve ser comunicado para compartilhar o cuidado e manter o vínculo por visitas, telessaúde, discussões de caso e/ou apoio matricial. No cuidado à crise, a atenção hospitalar deve concentrar-se na estabilização clínica do usuário, realizando intervenções medicamentosas, exames e suporte médico sempre que necessário, garantindo segurança e manejo adequado de condições que ultrapassam a capacidade dos serviços territoriais. Deve ser pelo tempo mínimo indispensável e sempre em consonância com princípios éticos e de proteção de direitos. Importante destacar que o hospital não substitui o cuidado MINISTÉRIO DA SAÚDE 66 psicossocial: sua função é de retaguarda clínica, devendo assegurar continuidade em rede e evitar internações prolongadas ou desvinculadas da Raps. A presença da equipe multiprofissional de maneira longitudinal, em todos os momentos do período de internação (admissão, permanência e processo de transição do cuidado), é imprescindível para que o cuidado integral e qualificado supere a lógica da centralidade do cuidado médico como historicamente construído. É importante que a equipe multidisciplinar componha as tomadas de decisão relacionadas ao processo de cuidado. 4.1.4 Componentes da atenção às urgências e emergências Samu 192, UPA 24h, sala de estabilização, portas hospitalares A pactuação de fluxos entre os diferentes componentes da Raps é importante para o cuidado do usuário em rede, sendo os componentes da atenção às urgências e emergências retaguardas fundamentais para o manejo da situação de crise quando existe risco de morte, complicações clínicas ou necessidade de estabilização rápida. O Samu 192, a UPA 24h, a sala de estabilização e as portas hospitalaresatuam nas situações de crise quando há risco auto ou heteroagressivo grave, tentativa de suicídio ou ameaça iminente à vida, bem como nos quadros de intoxicação severa, delirium ou desorganização extrema que ultrapassam a capacidade de manejo dos serviços territoriais. O Samu 192, integrante da RUE, é responsável por oferecer resposta rápida às demandas clínicas, cirúrgicas, traumáticas, obstétricas, pediátricas, psiquiátricas, entre outras, que possam gerar sofrimento, sequelas ou risco de óbito. Atua como serviço pré-hospitalar, cujo propósito é intervir nos agravos agudos e, quando indicado, realizar o transporte seguro para a unidade de saúde mais adequada. No que se refere à Raps, o Samu 192 deve apoiar o manejo das urgências e emergências em saúde mental, assegurando acesso, acolhimento e assistência nos episódios agudos que envolvem sofrimento psíquico e o uso de álcool e outras drogas, especialmente quando houver risco para a própria pessoa, familiares ou terceiros. Por ser um componente assistencial móvel, o Samu 192 deve reconhecer sinais de gravidade psiquiátrica/sofrimento psíquico intenso no local, aciona e informa o(a) médico(a) regulador(a) sobre o quadro observado e articula o encaminhamento com os demais pontos da rede, visando ao melhor manejo clínico, de forma oportuna, ágil e segura. É importante que os pontos de atenção às urgências e emergências possam estabelecer parceria de trabalho com os Caps, em especial para atendimento de usuários com acompanhamento prévio neles. É possível, por exemplo, que a equipe do Caps acompanhe o manejo dos usuários de sua referência pelo Samu, em uma situação de crise. O vínculo e o conhecimento prévio do usuário e de seu processo de sofrimento podem contribuir para qualificação do manejo e evitar procedimentos desnecessários, aumentando a resolutividade. UPA As UPAs 24h constituem pontos estratégicos para o acolhimento e o manejo inicial das situações de urgência em saúde mental, integrando tanto a Raps quanto a RUE. Esses serviços são responsáveis por ofertar atendimento imediato a pessoas em situação de crise, incluindo, entre outras, situações de agravamento do sofrimento psíquico com risco de auto ou heteroagressão, quadros depressivos intensificados, ideação suicida, agitação psicomotora e intoxicação por álcool e outras drogas. No âmbito de suas atribuições, cabe à UPA realizar o acolhimento qualificado, proceder à avaliação da gravidade do quadro, promover a estabilização clínica, quando necessária, e assegurar o encaminhamento responsável e adequado aos demais pontos da rede de atenção, tais como os Caps, os serviços especializados de urgência e os hospitais gerais com leitos de saúde mental. A articulação com esses serviços é fundamental para o acesso a informações relevantes sobre a trajetória de cuidado do usuário, subsidiando a condução clínica durante a permanência na UPA e garantindo a continuidade do cuidado no processo de transferências. A alta não articulada com os serviços de base territorial de referência fragmenta a continuidade do cuidado do usuário, que, por vezes, não retorna ao serviço de referência. Além disso, o próprio serviço pode não ser informado de que o usuário recebeu atendimento na urgência. Considerando a singularidade e a complexidade da crise em saúde mental, é fundamental a articulação ou o contato direto entre os serviços, para além da referência e da contrarreferência. GUIA DE ACOLHIMENTO À CRISE EM SAÚDE MENTAL NA REDE DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL (RAPS) 67 os demais pontos da rede, visando ao melhor manejo clínico, de forma oportuna, ágil e segura. É importante que os pontos de atenção às urgências e emergências possam estabelecer parceria de trabalho com os Caps, em especial para atendimento de usuários com acompanhamento prévio neles. É possível, por exemplo, que a equipe do Caps acompanhe o manejo dos usuários de sua referência pelo Samu, em uma situação de crise. O vínculo e o conhecimento prévio do usuário e de seu processo de sofrimento podem contribuir para qualificação do manejo e evitar procedimentos desnecessários, aumentando a resolutividade. UPA As UPAs 24h constituem pontos estratégicos para o acolhimento e o manejo inicial das situações de urgência em saúde mental, integrando tanto a Raps quanto a RUE. Esses serviços são responsáveis por ofertar atendimento imediato a pessoas em situação de crise, incluindo, entre outras, situações de agravamento do sofrimento psíquico com risco de auto ou heteroagressão, quadros depressivos intensificados, ideação suicida, agitação psicomotora e intoxicação por álcool e outras drogas. No âmbito de suas atribuições, cabe à UPA realizar o acolhimento qualificado, proceder à avaliação da gravidade do quadro, promover a estabilização clínica, quando necessária, e assegurar o encaminhamento responsável e adequado aos demais pontos da rede de atenção, tais como os Caps, os serviços especializados de urgência e os hospitais gerais com leitos de saúde mental. A articulação com esses serviços é fundamental para o acesso a informações relevantes sobre a trajetória de cuidado do usuário, subsidiando a condução clínica durante a permanência na UPA e garantindo a continuidade do cuidado no processo de transferências. A alta não articulada com os serviços de base territorial de referência fragmenta a continuidade do cuidado do usuário, que, por vezes, não retorna ao serviço de referência. Além disso, o próprio serviço pode não ser informado de que o usuário recebeu atendimento na urgência. Considerando a singularidade e a complexidade da crise em saúde mental, é fundamental a articulação ou o contato direto entre os serviços, para além da referência e da contrarreferência. MINISTÉRIO DA SAÚDE 68 As UPAs devem orientar sua atuação no sentido de evitar internações desnecessárias, priorizando o cuidado em liberdade, sempre que clinicamente possível, de forma articulada com os demais serviços da rede territorial. O atendimento às situações de urgência em saúde mental deve estar fundamentado nos princípios dos direitos humanos, assegurando práticas éticas, não coercitivas e pautadas no consentimento informado, respeitando a dignidade, a autonomia e a singularidade das pessoas atendidas. Para o adequado cumprimento dessas responsabilidades, é imprescindível que as UPAs disponham de protocolos clínicos específicos para o manejo das urgências em saúde mental, equipes devidamente capacitadas, apoio matricial em saúde mental e fluxos assistenciais pactuados com os serviços de referência da Raps e da RUE, de modo a garantir respostas oportunas, seguras e integradas às situações de crise. Portas de entrada (UPA e portas de entrada) As portas de entrada hospitalares do SUS, como prontos-socorros e serviços de pronto atendimento, exercem papel estratégico na articulação entre RUE e Raps, sendo frequentemente o primeiro acesso de pessoas em sofrimento psíquico intenso. Devem realizar acolhimento qualificado, avaliação de risco e identificação das necessidades clínicas e psicossociais, orientando intervenções proporcionais e adequadas ao território. Sua atuação integrada à rede, com fluxos pactuados e comunicação efetiva com os Caps e demais serviços, garante a continuidade do cuidado após a estabilização, com encaminhamento para acompanhamento longitudinal e reabilitação psicossocial. GUIA DE ACOLHIMENTO À CRISE EM SAÚDE MENTAL NA REDE DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL (RAPS) 69 As UPAs devem orientar sua atuação no sentido de evitar internações desnecessárias, priorizando o cuidado em liberdade, sempre que clinicamente possível, de forma articulada com os demais serviços da rede territorial. O atendimento às situações de urgência em saúde mental deve estar fundamentado nos princípios dos direitos humanos, assegurando práticas éticas, não coercitivas e pautadas no consentimentoinformado, respeitando a dignidade, a autonomia e a singularidade das pessoas atendidas. Para o adequado cumprimento dessas responsabilidades, é imprescindível que as UPAs disponham de protocolos clínicos específicos para o manejo das urgências em saúde mental, equipes devidamente capacitadas, apoio matricial em saúde mental e fluxos assistenciais pactuados com os serviços de referência da Raps e da RUE, de modo a garantir respostas oportunas, seguras e integradas às situações de crise. Portas de entrada (UPA e portas de entrada) As portas de entrada hospitalares do SUS, como prontos-socorros e serviços de pronto atendimento, exercem papel estratégico na articulação entre RUE e Raps, sendo frequentemente o primeiro acesso de pessoas em sofrimento psíquico intenso. Devem realizar acolhimento qualificado, avaliação de risco e identificação das necessidades clínicas e psicossociais, orientando intervenções proporcionais e adequadas ao território. Sua atuação integrada à rede, com fluxos pactuados e comunicação efetiva com os Caps e demais serviços, garante a continuidade do cuidado após a estabilização, com encaminhamento para acompanhamento longitudinal e reabilitação psicossocial. A atuação multiprofissional articulada, com protocolos compartilhados e comunicação entre serviços, contribui para evitar internações desnecessárias e reduzir o tempo de permanência hospitalar e a recorrência de crises. Além disso, esses serviços possibilitam a identificação de vulnerabilidades sociais e fatores associados às crises, favorecendo encaminhamentos para dispositivos comunitários e ações intersetoriais, consolidando um cuidado contínuo, integrado, humanizado e baseado em direitos, em consonância com os princípios do SUS e da Política Nacional de Saúde Mental. 4.2 Registros ambulatoriais, subnotificação e dados epidemiológicos Orienta-se aos gestores e trabalhadores da Raps o fortalecimento dos registros epidemiológicos dos usuários, considerando a importância da compreensão da realidade em cada território e os subsídios para tomadas de decisão. Com maior ênfase, cabe reforçar a necessidade de implementação da Portaria n.º 344/2017, assegurando o registro qualificado do quesito raça/cor, por autodeclaração, nos sistemas de informação do SUS, como instrumento analítico indispensável à atenção à crise em saúde mental. Tal medida deve ser compreendida não apenas como exigência normativa, mas como ferramenta estratégica para o percurso e os desfechos do cuidado, especialmente no que se refere às práticas nos serviços e às respostas territoriais às situações de crise. De acordo com Passos e Campos (2025), mesmo em situações de crise, a pergunta sobre autodeclaração racial deve ser realizada assim que for possível estabelecer algum nível de diálogo, sendo importante considerar que respostas aparentemente desorganizadas ou delirantes não devem ser automaticamente descartadas. Caso a pergunta ainda não tenha sido feita, ela deve ser realizada no encontro seguinte, o mais brevemente possível, e devidamente registrada no prontuário ou na ficha do usuário. Além disso, se a resposta obtida não for considerada satisfatória, seja por influência de medicação sedativa ou do uso de substâncias psicoativas, por ter sido respondida por um responsável, no caso de crianças e adolescentes, por apresentar discrepâncias em relação à percepção do profissional, ou por qualquer outro motivo, a pergunta pode ser refeita em outro momento. Havendo alteração na resposta, MINISTÉRIO DA SAÚDE 70 a informação registrada deve ser atualizada, garantindo maior fidedignidade dos dados (Passos; Campos, 2025). Recomenda-se, ainda, que os dados relativos ao quesito raça/cor sejam articulados a informações territoriais e socioeconômicas, de modo a subsidiar análises interseccionais que qualifiquem o planejamento, o monitoramento e a avaliação das ações da Raps. Essa articulação deve orientar a organização das linhas de cuidado, a alocação de recursos, a pactuação intersetorial e a definição de estratégias de cuidado em liberdade, contribuindo para a redução de desigualdades raciais e territoriais, o enfrentamento de práticas institucionais excludentes e a efetivação dos princípios da equidade, da integralidade e da garantia de direitos no manejo das crises em saúde mental. As questões relacionadas a outras determinações sociais da saúde, tais como gênero, sexualidade e território, configuram-se como elementos centrais para a análise crítica das práticas desenvolvidas no âmbito dos serviços de saúde mental, bem como para a compreensão das relações estabelecidas no interior dessas unidades. Tais dimensões influenciam diretamente os modos de acesso, permanência, vínculo e qualidade do cuidado ofertado, exigindo abordagens sensíveis às especificidades socioculturais dos sujeitos e das coletividades atendidas. 71 5 APOIO MATRICIAL, CUIDADO COMPARTILHADO E ARTICULAÇÃO DE REDE O apoio matricial em saúde mental constitui estratégia fundamental para qualificar o manejo das crises e fortalecer o funcionamento integrado da rede. Trata-se de um arranjo de apoio técnico-pedagógico, clínico e institucional, por meio do qual equipes especializadas, em especial os Caps e as eMulti, compartilham saberes, estratégias terapêuticas e corresponsabilidade com as equipes da Atenção Primária e outros pontos da Raps. Essa prática não se limita a repasses pontuais de orientação, mas envolve construção conjunta de casos, elaborações de PTS, discussões clínicas, atendimentos compartilhados, ações educativas e pactuação de fluxos, que devem ser construídas na relação entre os serviços, considerando suas necessidades. Nesse processo, ganha destaque o papel do profissional de referência, que coordena o cuidado do usuário e dialoga com diferentes dispositivos da rede, de modo a assegurar continuidade, comunicação e alinhamento das ações. Com a expansão das tecnologias digitais, a telessaúde emerge como ferramenta estratégica de apoio matricial, permitindo suporte clínico imediato, discussão de casos complexos, orientação em situações de crise e oferta contínua de educação permanente para equipes de territórios distantes ou com baixa cobertura especializada. Essa modalidade amplia a resolutividade local, reduz encaminhamentos desnecessários e fortalece a capacidade territorial de cuidado, especialmente em regiões sem Caps ou com recursos limitados. O apoio matricial, presencial ou remoto, consolida-se como elemento estruturante da Raps, favorecendo abordagens compartilhadas, intervenções mais qualificadas e garantia de que nenhum serviço da rede atue isoladamente frente ao sofrimento psíquico intenso. Essa perspectiva reafirma que o cuidado em crise é sempre uma construção coletiva, sustentada por comunicação efetiva, pactuação entre equipes e valorização dos vínculos locais. 73 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS “ Então, as pessoas entram e saem de crises ao longo da vida, todas as pessoas. E lidar com a crise de um usuário de saúde mental não deveria ser diferente de lidar com a crise de outras pessoas. Usuário participante do Vozes da Crise A qualificação do acolhimento e do manejo das crises em saúde mental depende diretamente da capacidade da rede de atuar de forma integrada, corresponsável e orientada pelos princípios da atenção psicossocial. As análises e as diretrizes apresentadas neste documento evidenciam que o cuidado em crise não se limita à intervenção imediata, mas envolve a compreensão ampliada do sofrimento, a articulação entre serviços, o reconhecimento das vulnerabilidades sociais e o fortalecimento dos vínculos que sustentam a vida cotidiana. A ação coordenada entre os pontos da Raps, apoiada pelo apoio matricial e por estratégias como a telessaúde, permite respostas mais rápidas, qualificadas e alinhadas ao território, o que é essencial para reduzir internaçõesredes de suporte. Nesse sentido, compreende-se que as situações de crise não suspendem direitos, mas, ao contrário, exigem sua máxima proteção. Importa destacar que este documento não se propõe a prescrever modos únicos ou padronizados de cuidado. Trata-se de um conjunto de orientações técnicas que devem ser apropriadas criticamente pelas equipes, compondo processos coletivos de reflexão e construção de práticas nos diferentes contextos territoriais em que se inserem os serviços da Raps. Reconhece-se, portanto, que o cuidado à crise é sempre situado, relacional e dependente das condições concretas de cada território, das redes existentes e das possibilidades de articulação intersetorial. Espera-se, assim, que este Guia se constitua em um instrumento com valor de uso no cotidiano dos serviços, capaz de apoiar decisões clínicas, fortalecer o trabalho em equipe, qualificar a articulação em rede e contribuir para a produção de um cuidado mais integral, resolutivo e comprometido com a vida, a dignidade e a cidadania das pessoas em sofrimento psíquico. 7 1 CONTEXTUALIZAÇÃO DA SITUAÇÃO DA ATENÇÃO À CRISE NA RAPS 1.1 Introdução Segundo dados divulgados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 1 bilhão de pessoas vivem com algum transtorno de saúde mental em todo o mundo, e estima-se que os transtornos mentais, neurológicos ou decorrentes do uso de álcool e outras drogas representem 14% da carga mundial de doenças (WHO, 2008). Transtornos como ansiedade e depressão são altamente prevalentes em todos os países e comunidades, afetando pessoas de todas as idades e níveis de renda. Representam a segunda maior causa de incapacidade de longo prazo, contribuindo para a perda de renda e de anos de vida (WHO, 2008). O Relatório Mundial de Saúde Mental (WHO, 2022) destaca, ainda, que a distribuição desses transtornos não é uniforme. Embora a prevalência dos transtornos de saúde mental possa variar por sexo, as mulheres são desproporcionalmente mais afetadas no geral. O suicídio afeta pessoas de todos os países e contextos socioeconômicos, e é uma das principais causas de morte entre jovens em todos os países. Esses dados reforçam a necessidade de sistemas de saúde capazes de oferecer respostas ágeis, contínuas e integradas às demandas de saúde mental, incluindo situações de maior gravidade. Nesse contexto, o acolhimento às situações de crise em saúde mental ocupa posição central do cuidado em saúde mental no SUS. A crise representa uma intensificação súbita do sofrimento psíquico, frequentemente associada à diminuição do grau de autonomia e à necessidade de cuidados imediatos. Sua adequada abordagem requer integração entre os diferentes componentes da Raps, garantindo respostas oportunas, seguras e humanizadas. Desse modo, o presente material objetiva qualificar o processo de cuidado às situações de crise – identificação precoce, manejo da crise e cuidado pós-crise – em componentes da Raps, à luz do cenário epidemiológico e das diretrizes nacionais da Política Nacional de Saúde Mental. MINISTÉRIO DA SAÚDE 8 1.2 Crise em saúde mental “ Que às vezes parece uma rachadura assim no sujeito, sabe? [...] A crise é um sofrimento que dilacera a gente. E eu tenho essa experiência desse dilaceramento. Usuário participante do Vozes da Crise No âmbito da atenção psicossocial, diversos autores apontam que a crise em saúde mental deve ser compreendida para além da intensificação da sintomatologia psiquiátrica, mas incorporando outras dimensões da vida, das relações e da subjetividade, como abertura e possibilidade (Ferigato; Onocko; Ballarin, 2007). O cuidado às situações de crise em saúde mental deve superar a visão centrada exclusivamente na contenção de sintomas para uma compreensão da crise como um processo, que demanda redes de cuidado capazes de sustentar a liberdade, garantir direitos e favorecer novas possibilidades de existência nos contextos concretos de vida, substituindo a lógica manicomial (centrada no isolamento) por uma lógica relacional e territorial, que valoriza o cuidado em liberdade, a corresponsabilidade das equipes e a construção coletiva de saídas possíveis. Sendo assim, a crise em saúde mental é compreendida como um momento de sofrimento psíquico intenso que impacta a vida cotidiana do sujeito, exigindo acolhimento imediato, reorganização das relações de cuidado e sustentação terapêutica (Yasui; Costa-Rosa, 2008). Não se trata apenas de uma exacerbação de sintomas, mas de uma ruptura na contratualidade social (Saraceno, 1999), em que o sujeito pode ter diminuída, temporariamente, sua capacidade de manter vínculos significativos e seu grau de autonomia. Trata-se de um momento intenso que, se bem cuidado, pode se transformar em oportunidade de fortalecimento dos vínculos (Amarante, 2019). Se, por um lado, é uma experiência que rompe a capacidade de simbolização do sujeito, por outro, torna possível a construção de outras ligações, de novos modos de lidar com aspectos da subjetividade (Knoblock, 1998 apud Ferigato; Onocko; Ballarin, 2007), o que inclui novas projetualidades, para além do sofrimento (sem negá-lo). Entretanto, persistem fragilidades estruturais e operacionais que dificultam o manejo qualificado das crises, tais como: ausência de fluxos pactuados entre serviços; dificuldades dos Caps em realizar acolhimento em momentos de alta demanda; descontinuidade do cuidado durante e após internações; fragmentação GUIA DE ACOLHIMENTO À CRISE EM SAÚDE MENTAL NA REDE DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL (RAPS) 9 entre pontos de atenção; formação inadequada das equipes; ausência de educação permanente; insuficiência de equipes para acolhimento integral; fragilidades da Atenção Primária à Saúde (APS) no manejo inicial; e compreensões conceituais que reduzem a crise ao que se conhece por surto, desconsiderando sua dimensão psicossocial (Brasil, 2013, 2022). Essas fragilidades têm sido amplamente descritas na literatura científica nacional e internacional, incluindo dificuldades de articulação entre serviços, ausência de fluxos pactuados, descontinuidade do cuidado entre Caps e hospital geral, limitações estruturais para o manejo da crise e lacunas na formação das equipes (Cruz; Guerrero; Scarcelli, 2019; Krachenski, 2019; Silva; Ferigato, 2020; Muusse et al., 2022, Emerich; Onocko-Campos, 2019). A crise em saúde mental, portanto, deve ser compreendida como um fenômeno complexo, relacional e processual, cuja abordagem adequada depende da articulação entre os diversos pontos da Raps, da formação contínua das equipes e da adoção de práticas de cuidado em liberdade orientadas pelos direitos humanos. Esse entendimento fundamenta a necessidade de diretrizes bem definidas para o acolhimento à crise, tema que se desenvolverá nas próximas seções. 1.3 Marcos normativos e legislação O cuidado às situações de crise em saúde mental no âmbito do SUS está fundamentado em um conjunto articulado de leis, portarias e diretrizes políticas que garantem o direito ao cuidado em liberdade, o direito de receber atenção humanizada e o direito a uma rede organizada para cuidar das demandas de saúde mental. Esses marcos estruturam o modo como o País compreende o sofrimento psíquico intenso e responde a ele, orientando práticas clínicas, arranjos institucionais e responsabilidades intersetoriais. No ordenamento jurídico brasileiro, a Lei n.º 10.216, de 6 de abril de 2001, institui um marco normativo voltado à garantia dos direitos das pessoas em sofrimento psíquico e à reorganização da atenção em saúde mental, rompendo com práticas assistenciais excludentes e afirmando princípios como a não discriminação, o respeito à dignidade humana, a autonomia e a promoção do cuidado em liberdade. A legislação atribui ao Estado a responsabilidade pela formulação de políticas públicas construídas com participação social, incluindo usuários e seusdesnecessárias, evitar circuitos recorrentes de crise, ampliar a autonomia dos usuários e garantir que o cuidado se mantenha em liberdade, conforme preconiza a Lei n.º 10.216/2001 e as diretrizes da Política Nacional de Saúde Mental. Ao reconhecer a crise como ponto de inflexão e possibilidade de reorganização dos projetos de vida, reafirma-se a importância de práticas que valorizem a singularidade, a escuta qualificada, a intervenção colaborativa e a construção compartilhada do PTS. É nessa direção que este documento busca fortalecer práticas clínicas, organizacionais e éticas que permitam às equipes sustentarem cuidado humanizado, baseado em direitos e articulado ao território. O cuidado em crise é responsabilidade de toda a rede. Somente por meio da cooperação intersetorial, do trabalho multiprofissional e do reconhecimento das necessidades reais dos usuários, será possível construir respostas eficazes, sustentáveis e verdadeiramente transformadoras. 75 REFERÊNCIAS ABBUD, J. C.; FARIA, A. C. S.; ALVES, L. C. S.; SIQUEIRA, C. A.; ARAUJO, R. A. Atenção à crise: uma perspectiva de cuidado em liberdade. Brasília: Fiocruz, [2025]. Disponível em: https://brasilia.fiocruz.br/nosnarede/wp-content/ uploads/sites/10/2025/01/ATENCAO-A-CRISE-UMA-PERSPECTIVA-DE- CUIDADO-EM-LIBERDADE.pdf. Acesso em: 24 mar. 2026. AMARANTE, P. Saúde mental e atenção psicossocial. 5. ed. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2019. AMARANTE, P. Saúde mental e atenção psicossocial. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2007. BALDAÇARA, L. et al. Diretrizes brasileiras para o manejo da agitação psicomotora. Debates em Psiquiatria, Rio de Janeiro, v. 11, n. 1, p. 22-27, 2021. BORGHI, C. M. S. O.; OLIVEIRA, R. M.; SEVALHO, G. Determinação ou determinantes sociais da saúde. Trabalho, Educação e Saúde, Rio de Janeiro, v. 16, n. 3, p. 869-897, set./dez. 2018. BOTEGA, N. J. Crise Suicida: avaliação e manejo. Porto Alegre: Artmed, 2015. BOWERS, L. et al. Reducing conflict and containment rates on acute psychiatric wards. International Journal of Nursing Studies, Oxford, v. 52, n. 9, p. 1412-1422, 2015. BRASIL [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal, 1988. BRASIL, Ministério da Saúde. Secretaria-Executiva. Núcleo Técnico da Política Nacional de Humanização. HumanizaSUS: equipe de referência e apoio matricial. Brasília, DF: MS, 2004. BRASIL. Ministério da Saúde. Atenção psicossocial a crianças e adolescentes no SUS. Brasília, DF: MS, 2014. BRASIL. Ministério da Saúde. Atendimento pré-hospitalar em saúde mental. Brasília, DF: MS, 2021. BRASIL. Ministério da Saúde. Departamento de Informática do SUS. [Site]. Brasília, DF: MS, 2026. Disponível em: http://datasus.saude.gov.br/. Acesso em: 22 maio 2026. MINISTÉRIO DA SAÚDE 76 BRASIL. Ministério da Saúde. Guia estratégico para o cuidado em álcool e outras drogas. Brasília, DF: MS, 2015a. BRASIL. Ministério da Saúde. Instrutivo técnico da RAPS no SUS. Brasília, DF: MS, 2022. BRASIL. Ministério da Saúde. Lei n.º 10.216, de 6 de abril de 2001. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, p. 2, 9 abr. 2001. BRASIL. Ministério da Saúde. Política Nacional de Educação Permanente em Saúde. Brasília, DF: MS, 2009. BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria de Consolidação GM/MS n.º 3, de 28 de setembro de 2017. Consolidação das normas sobre as redes do Sistema Único de Saúde. Diário Oficial da União: suplemento, Brasília, DF, 3 out. 2017a. BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria n.º 1.600, de 7 de julho de 2011. Reformula a Política Nacional de Atenção às Urgências e institui a Rede de Atenção às Urgências no Sistema Único de Saúde (SUS). Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 8 jul. 2011a. BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria n.º 148, de 31 de janeiro de 2012. Define as normas de funcionamento e habilitação do Centro de Atenção Psicossocial de Álcool e outras Drogas (CAPS AD III). Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 1 fev. 2012. BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria n.º 2.391/GM/MS, de 26 de dezembro de 2002. Brasília, DF: MS, 2002. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/ saudelegis/gm/2017/MatrizesConsolidacao/comum/15791.html. Acesso em: 14 maio 2026. BRASIL, Ministério da Saúde. Portaria n.º 2.436, de 21 de setembro de 2017. Aprova a Política Nacional de Atenção Básica, estabelecendo a revisão de diretrizes para a organização da Atenção Básica, no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). Brasília, DF: MS, 2017b. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/ bvs/saudelegis/gm/2017/prt2436_22_09_2017.html. Acesso em: 14 maio 2026. BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria n.º 2.488, de 21 de outubro de 2011. Aprova a Política Nacional de Atenção Básica. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 24 out. 2011b. GUIA DE ACOLHIMENTO À CRISE EM SAÚDE MENTAL NA REDE DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL (RAPS) 77 BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria n.º 3.033, de 30 de julho de 2025. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 31 jul. 2025a. BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria n.º 3.088, de 23 de dezembro de 2011. Institui a Rede de Atenção Psicossocial para pessoas com sofrimento ou transtorno mental e com necessidades decorrentes do uso de crack, álcool e outras drogas, no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 26 dez. 2011c. BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria n.º 344, de 1 de fevereiro de 2017. Redefine a composição da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS). Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 2 fev. 2017b. BRASIL. Ministério da Saúde. RAPS em dados: relatório de monitoramento. Brasília, DF: MS, 2023. BRASIL. Ministério da Saúde. Saúde mental. Brasília, DF: MS, 2013. (Cadernos de Atenção Básica, n. 34). BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde. Saúde Mental em Dados: edição n.º 13, fevereiro de 2025. Brasília, DF: MS, 2025b. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Gestão Estratégica e Participativa. Departamento de Apoio à Gestão Participativa e ao Controle Social; UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA. Observatório de Saúde de Populações em Vulnerabilidade. Óbitos por suicídio entre adolescentes e jovens negros: 2012 a 2016. Brasília, DF: MS, 2018. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/ publicacoes/obitos_suicidio_adolescentes_negros_2012_2016.pdf. Acesso em: 15 abr. 2026. BRASIL. Presidência da República. Lei n.º 13.146, de 6 de julho de 2015. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, p. 2, 7 jul. 2015b. CAMPOS, G. W. S.; DOMITTI, A. C. Apoio matricial e equipe de referência. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 23, n. 2, p. 399-407, fev. 2007. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM. Resolução Cofen n.º 746, de 20 de março de 2024. Normatiza os procedimentos de enfermagem na contenção mecânica de pacientes. Brasília, DF: Cofen, 2024. Disponível em: https://www. cofen.gov.br/resolucao-cofen-no-746-de-20-de-marco-de-2024/. Acesso em: 15 abr. 2026. https://www.cofen.gov.br/resolucao-cofen-no-746-de-20-de-marco-de-2024/ https://www.cofen.gov.br/resolucao-cofen-no-746-de-20-de-marco-de-2024/ MINISTÉRIO DA SAÚDE 78 CONSELHO NACIONAL DE SAÚDE. V Conferência Nacional de Saúde Mental. Brasília, DF: CNS, 2023. CONSELHO NACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS (Brasil). Resolução n.º 8, de 14 de agosto de 2019. Dispõe sobre soluções preventivas de violação e garantidoras de direitos aos portadores de transtornos mentais e usuários problemáticos de álcool e outras drogas. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 16 ago. 2019. CRENSHAW, K. Documento para o encontro de especialistas. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 10, n. 1, p. 171-188, 2002. CRUZ, K. F.; GUERRERO, A. V. P.; SCARCELLI, I. R. Atenção à crise em saúde mental: um desafio para a reforma psiquiátrica brasileira. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, São Paulo, v. 22,n. 1, p. 117-140, 2019. CRUZ, M. S. Manejo de crise. In: UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA. Singularidades no cuidado da RAPS: álcool e outras drogas. Florianópolis: Departamento de Saúde Pública/UFSC, 2014. p. 11-46. Disponível em: https:// ares.unasus.gov.br/acervo/html/ARES/1724/1/M%C3%B3dulo%207%20 %C3%81lcool%20e%20Drogas.pdf. Acesso em: 15 abr. 2026. DASSOLER, V. A.; PALOMBINI, A. L. Atenção à crise na contemporaneidade: desafios à Reforma Psiquiátrica Brasileira. Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 44, n. 3, p. 278-291, out. 2020. Número especial. DE FREITAS, C. A participação e preparação prévia do usuário para situações de crise mental: a experiência holandesa do plano/cartão de crise e desafios para a sua apropriação no contexto brasileiro. In: VASCONCELOS, E. (ed.). Abordagens psicossociais. São Paulo: Huticec, 2008. v. 2: Reforma Psiquiátrica e saúde mental na ótica da cultura e das lutas populares. p. 142-170. DE JONG, M. H.; KAMPERMAN, A. M.; OORSCHOT, M.; PRIEBE, S.; BRAMER, W.; VAN DE SANDE, R.; VAN GOOL, A. R.; MULDER, C. L. Interventions to reduce compulsory psychiatric admissions: a systematic review and meta-analysis. JAMA Psychiatry, Chicago, v. 73, n. 7, p. 657-664, 2016. DOI: 10.1001/ jamapsychiatry.2016.0501. DESVIAT, M. A reforma psiquiátrica. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2011. GUIA DE ACOLHIMENTO À CRISE EM SAÚDE MENTAL NA REDE DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL (RAPS) 79 DISTRITO FEDERAL. Secretaria de Estado de Saúde. Protocolo: manejo da agitação psicomotora aguda. Brasília, DF: SES-DF, 2023. EMERICH, B. F.; ONOCKO-CAMPOS, R. (org.). Saúde e Loucura 10: Tessituras da clínica – itinerários da reforma psiquiátrica. São Paulo: Hucitec, 2019. FERIGATO, S. H.; ONOCKO-CAMPOS, R. T.; BALLARIN, M. L. G. S. O atendimento à crise em saúde mental: ampliando conceitos. Revista de Psicologia da UNESP, Assis, v. 6, n. 1, p. 31-44, 2007. FIOCRUZ. Observatório de Saúde Mental. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2022. GILMORE, I.; DRUMMOND, C.; REHM, J. The crisis in clinical training for addiction. The Lancet, London, v. 394, n. 10201, p. 122-124, jul. 2019. HART, Carl. Drogas para adultos. Rio de Janeiro: Zahar, 2021. HENDERSON, C. et al. Effect of joint crisis plans. BMJ, London, v. 329, n. 7458, p. 136, jul. 2004. HUCKSHORN, K. Six core strategies to reduce seclusion and restraint. Alexandria: National Association of State Mental Health Program Directors, 2008. KNOBLOCH, F. O tempo do traumático. São Paulo: Educ, 2016. KRACHENSKI, N. B. A experiência de profissionais de um CAPS a partir de uma proposta de atenção em saúde mental às primeiras crises. 2019. Dissertação (Mestrado em Psicologia) – Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2019. LEQUIN, P. et al. The joint crisis plan: a powerful tool to promote mental health. Frontiers in Psychiatry, Lausanne, v. 12, art. 621436, 2021. LIMA, L.; NAVASCONI, P. (Re)pensando o suicídio. Salvador: Edufba, 2022. LUCIO, A. G. O Cuidado às crises nos Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Outras Drogas (CAPS-AD): concepções dos trabalhadores. 2022. Dissertação (Programa de Pós-Graduação) – Psicologia, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2022. MAÎTRE, E. et al. Les directives anticipées en psychiatrie: revue de la littérature qualitative, état des lieux et perspectives. L’Encéphale, Paris, v. 39, n. 4, p. 244-251, 2013. MINISTÉRIO DA SAÚDE 80 MENDES, M. M. G. Raça e saúde: uma análise sobre a população negra no Brasil. 2017. Dissertação (Mestrado em Saúde Pública) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2017. MUESER, K. T.; BOND, G. R.; DRAKE, R. E.; RESNICK, S. G. Models of community care for severe mental illness: a review of research on case management. Schizophrenia Bulletin, Oxford, v. 24, n. 1, p. 37-74, 1998. DOI: 10.1093/ oxfordjournals.schbul.a033314. MUUSSE, C. et al. Caring for a crisis: a systematic review of interventions for people in mental health crisis. Frontiers in Psychiatry, Lausanne, v. 13, p. 882084, 2022. NATIONAL ALLIANCE ON MENTAL ILLNESS. Navigating a mental health crisis. Arlington: NAMI, 2016. NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH AND CARE EXCELLENCE. Alcohol-use disorders: diagnosis and clinical management of alcohol-related physical complications. London: NICE, 2010. NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH AND CARE EXCELLENCE. Preventing suicide. London: NICE, 2018. NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH AND CARE EXCELLENCE. Psychosis and schizophrenia in children. London: NICE, 2013. NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH AND CARE EXCELLENCE. Self-harm: assessment, management and preventing recurrence. London: NICE, 2022. (NICE guideline, NG225). Disponível em: https://www.nice.org.uk/guidance/ ng225. Acesso em: 15 abr. 2026. NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH AND CARE EXCELLENCE. Violence and aggression: short-term management. London: NICE, 2015. NATIONAL INSTITUTE ON ALCOHOL ABUSE AND ALCOHOLISM. Alcohol screening and brief intervention for youth. Bethesda: NIAAA, 2019. NATIONAL INSTITUTE ON ALCOHOL ABUSE AND ALCOHOLISM. Alcohol screening and brief intervention for youth: a practitioner’s guide. Bethesda, MD: NIAAA, 2011. Disponível em: https://www.niaaa.nih.gov/sites/default/files/ publications/YouthGuide.pdf. Acesso em: 15 abr. 2026. GUIA DE ACOLHIMENTO À CRISE EM SAÚDE MENTAL NA REDE DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL (RAPS) 81 NATIONAL INSTITUTE ON ALCOHOL ABUSE AND ALCOHOLISM. Underage drinking. Bethesda, MD: NIAAA, 2018. Disponível em: https://www.niaaa.nih.gov/ sites/default/files/publications/NIAAA_Underage_Drinking.pdf. Acesso em: 15 abr. 2026. NAVASCONI, P. Vida, adoecimento e suicídio. Belo Horizonte: Letramento, 2019. OLIEVENSTEIN, C. O. A clínica do toxicomano. Porto Alegre: Artes Médicas. 1989. ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência. Nova York: ONU, 2006. PASSOS, R. G.; CAMPOS, D. S. (org.). Caderno de práticas antirracistas na RAPS. Rio de Janeiro: UFRJ, 2025. PIERINI, M. M.; BOSKA, G. A.; CLARO, H. G.; LUZ, P. O.; OLIVEIRA, M. A. F. Capacidade de manejo de situações de crise por Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas. Revista Latino-Americana de Enfermagem, Ribeirão Preto, v. 31, e3850, 2023. PITTA, A. (org.). Reabilitação psicossocial no Brasil. São Paulo: Hucitec, 2001. RACHENSKI, N. Crisis management in CAPS. Revista PsicoFAE: Pluralidades em Saúde Mental, Curitiba, v. 8, n. 2, p. 71-84, 2019. RICHMOND, J. S.; BERLIN, J. S.; FISHKIND, A. B.; HOLLOMAN, G. H.; ZELLER, S. L.; WILSON, M. P.; RIFAI, M. A.; NG, A. T. Verbal de-escalation of the agitated patient: consensus statement of the American Association for Emergency Psychiatry Project BETA De-escalation Workgroup. Western Journal of Emergency Medicine, Orange, v. 13, n. 1, p. 17-25, fev. 2012. SAIDINEJAD, M. et al. Strategies for optimal management of pediatric acute agitation in emergency settings. Journal of the American College of Emergency Physicians Open, Hoboken, v. 5, n. 4, e13264, 2024. DOI: 10.1002/ emp2.13264. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39183940/. Acesso em: 15 abr. 2026. SAILAS, E. E. S.; FENTON, M. Seclusion and restraint for people with serious mental illnesses. Cochrane Database of Systematic Reviews, Oxford, n. 1, art. n. CD001163, 2000. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39183940/ MINISTÉRIO DA SAÚDE 82 SARACENO, B. Libertando identidades. Rio de Janeiro: TeCorá, 1999. SILVA, M. C.; FERIGATO, S. H. Articulação de redes de cuidado. Interface: comunicação, saúde e educação, Botucatu, v. 24, e190532, 2020. SKOVGAARD LARSEN, J. et al. MYPLAN – a mobile phone application for supporting people at risk of suicide. Crisis, Göttingen, v. 37, n. 3, p. 236-240, 2016. STANLEY, B.; BROWN, G. Safety planning intervention. Cognitive and Behavioral Practice, New York, v. 19, n. 2, p. 256-264, maio 2012. STEFANELLO, S.; CAMPOS, P. J. Cuidado/manejo da pessoa em crise emsituações específicas. In: LOBOSQUE, A. M.; STEFANELLO, S.; CAMPOS, P. J. O cuidado às pessoas em situação de crise e urgência na perspectiva da atenção psicossocial. Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina, 2015. p. 61-177. SWANSON, J. W.; SWARTZ, M. S.; FERRON, J.; ELBOGEN, E. B.; VAN DORNM, R. A. Psychiatric advance directives: an alternative to coercive treatment? Psychiatry, Washington, DC, v. 63, n. 2, p. 160-172, 2000. THORNICROFT, G. et al. Clinical outcomes of joint crisis plans. The Lancet, London, v. 381, n. 9878, p. 1634-1641, maio 2013. WORLD HEALTH ORGANIZATION. Guidance on community mental health services. Geneva: WHO, 2021. WORLD HEALTH ORGANIZATION. International standards for the treatment of drug use disorders: revised edition incorporating results of field-testing. Geneva: WHO, 2020. WORLD HEALTH ORGANIZATION. Lexicon of alcohol and drug terms. Geneva: WHO, 2025. WORLD HEALTH ORGANIZATION. Lexicon of alcohol and drug terms. Geneva: WHO, 1994. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/ item/9241544686. WORLD HEALTH ORGANIZATION. mhGAP Intervention Guide for mental, neurological and substance use disorders in non-specialized health settings: Version 2.0. Geneva: WHO, 2016. GUIA DE ACOLHIMENTO À CRISE EM SAÚDE MENTAL NA REDE DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL (RAPS) 83 WORLD HEALTH ORGANIZATION. Preventing suicide: a global imperative. Geneva: WHO, 2014. WORLD HEALTH ORGANIZATION. Psychological First Aid. Geneva: WHO, 2012. WORLD HEALTH ORGANIZATION. Scaling up care for mental, neurological, and substance use disorders. Geneva: WHO, 2008. Disponível em: https://iris. who.int/server/api/core/bitstreams/f7ca6984-5c5c-462c-a77b-169313ae3fa1/ content. Acesso em: 17 abr. 2026. WORLD HEALTH ORGANIZATION. World mental health report: transforming mental health for all. Geneva: WHO, 2022. Disponível em: https://www.who.int/ publications/i/item/9789240049338. Acesso em: 17 abr. 2026. WORLD HEALTH ORGANIZATION; UNITED NATIONS OFFICE ON DRUGS AND CRIME. International standards for drug use disorders. Geneva: WHO: UNODC, 2020. YASUI, S.; COSTA-ROSA, A. Atenção psicossocial e reforma psiquiátrica. São Paulo: Hucitec, 2008. ZEFERINO, M. T.; RODRIGUES, J.; ASSIS, J. T. Crise e urgência em saúde mental: fundamentos da atenção à crise e urgência em saúde mental. Florianópolis: UFSC, 2015. ZIGURAS, Stephen J.; STUART, Geoffrey W. A meta-analysis of the effectiveness of mental health case management over 20 years. Psychiatric Services, Washington, DC, v. 51, n. 11, p. 1410-1421, 2000. 85 APÊNDICE — VOZES DA CRISE – RELATO DOS ENCONTROS VIRTUAIS COM USUÁRIOS E USUÁRIAS DA REDE DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL Em 30 de janeiro e 6 de fevereiro, foram realizados encontros virtuais com usuários e usuárias de Centros de Atenção Psicossocial (Caps) de todos os estados do Brasil, com o objetivo de ouvir suas experiências sobre o acolhimento à crise nesses dispositivos da Rede de Atenção Psicossocial (Raps). A iniciativa integrou um esforço de aproximação entre gestão pública, equipes de saúde mental e as principais partes interessadas no cuidado: as próprias pessoas que vivenciam o sofrimento psíquico e utilizam os serviços da rede. O propósito foi criar um espaço de escuta qualificada, diálogo aberto e construção coletiva de propostas para a qualificação do cuidado em saúde mental no País. Os encontros revelaram, de forma consistente, que a crise em saúde mental não pode ser compreendida apenas como um episódio clínico isolado. Ela está profundamente relacionada a trajetórias de vida marcadas por violência, desigualdades sociais, relações de poder, perdas e silenciamentos prolongados. Muitas participantes relataram experiências de violência doméstica, violência institucional e situações de desproteção que atravessam tanto a vida pessoal quanto os próprios serviços de saúde. Um ponto recorrente foi a percepção de que o diagnóstico, quando utilizado de forma reducionista, pode deslegitimar a fala das pessoas. Usuários relataram que queixas físicas, denúncias de violência ou sofrimentos concretos foram, em alguns momentos, atribuídos exclusivamente ao “transtorno mental”, produzindo descrédito e invisibilização. Essa experiência reforça o estigma e compromete a confiança no cuidado. O Caps foi amplamente reconhecido como espaço fundamental de acompanhamento, vínculo e cuidado em liberdade. Muitos participantes destacaram a importância de ter um serviço de referência no território, capaz de prevenir crises, acompanhar ao longo do tempo e evitar internações desnecessárias. Ao mesmo tempo, foram apontadas fragilidades, como a rotatividade de profissionais, vínculos precários de trabalho, insuficiência de equipe, dificuldades de articulação com a Atenção Básica e com serviços de urgência, além de lacunas no manejo das comorbidades clínicas. MINISTÉRIO DA SAÚDE 86 A gestão da crise na rede foi identificada como um dos principais pontos críticos. Relataram-se experiências de encaminhamentos considerados inadequados, excesso de medicação, contenções e atendimentos hospitalares vividos como tendo sido violentos. A ausência de diálogo entre Caps, Unidade de Pronto Atendimento (UPA), Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e hospitais gerais foi apontada como fator que agrava o sofrimento. Houve demanda por critérios mais claros de encaminhamento, qualificação da retaguarda hospitalar e fortalecimento do cuidado territorial. Também foi enfatizado que o cuidado em saúde mental não se resume à prescrição medicamentosa. Usuários ressaltaram a importância de terapias, grupos, oficinas, espaços de convivência e reabilitação psicossocial. O cuidado foi compreendido como fenômeno relacional e social, que envolve vínculo, escuta, reconhecimento e respeito à singularidade de cada pessoa. Questões de gênero, raça, orientação sexual e território apareceram de forma marcante. Mulheres, mulheres negras, pessoas periféricas e LGBTQIAPN+ (lésbicas, gays, bissexuais, transgêneras/travestis, queer, intersexo, assexuais, pansexuais, não binárias e outras) relataram maior vulnerabilidade, invisibilização e dificuldade de acesso à proteção. A crise foi descrita como atravessada por desigualdades estruturais que exigem respostas intersetoriais. Destacou-se ainda a importância da participação ativa dos usuários na construção do cuidado. Assembleias, espaços de fala, controle social e participação em movimentos comunitários foram valorizados como instrumentos de fortalecimento da autonomia. Ficou claro que autonomia não significa abandono: significa decidir junto, ser ouvido mesmo em sofrimento intenso e ter apoio para superar os momentos mais difíceis. Entre as propostas concretas levantadas, destacou-se a sugestão de criação de um plano de crise, no qual a própria pessoa possa registrar suas preferências de cuidado, os locais de referência e os contatos de confiança, garantindo mais respeito às suas escolhas em situações agudas. GUIA DE ACOLHIMENTO À CRISE EM SAÚDE MENTAL NA REDE DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL (RAPS) 87 Os encontros reafirmaram a potência do modelo de atenção psicossocial e do cuidado em liberdade, mas também evidenciaram a necessidade de qualificação permanente das equipes, fortalecimento da gestão, ampliação do investimento público e melhoria da articulação em rede. Sobretudo, mostraram que ouvir diretamente os usuários é condição essencial para avaliar e aprimorar os serviços. A experiência confirmou que o cuidado também acontece no encontro, na troca e no reconhecimento mútuo. Dar visibilidade às vozes da crise é um passo fundamental para a construção de uma Raps mais humana, integrada e comprometida com os direitos das pessoas. As falas compartilhadas reafirmam que o cuidado em liberdade se sustenta somente quando há investimento, vínculo, formação qualificada e respeito aos direitos das pessoas.A crise não pode ser enfrentada com isolamento, silenciamento ou violência institucional, mas com presença, articulação territorial e reconhecimento da autonomia. Ao dar visibilidade às vozes de quem vivencia a crise, reafirmamos os princípios da atenção psicossocial e da Reforma Psiquiátrica Brasileira: cuidado territorial, participação social e centralidade da pessoa. O fortalecimento da Raps passa, necessariamente, pela escuta de quem a utiliza. É nesse diálogo que se constroem caminhos para um cuidado mais justo e verdadeiramente público. Conte-nos o que pensa sobre esta publicação. Responda a pesquisa disponível por meio do QR Code ao lado: Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde bvsms.saude.gov.br MINISTÉRIO DA SAÚDE Guia de acolhimento à crise em saúde mental na Rede de Atenção Psicossocial (Raps) Brasília – DF 2026 G u ia d e a c o lh im e n t o à c r is e e m s a ú d e m e n t a l n a R e d e d e A t e n ç ã o P s ic o s s o c ia l (R a p s ) M IN IS T É R IO D A S A Ú D E Acesse a obra na BVS por meio do QR Code:MINISTÉRIO DA SAÚDE 10 familiares, orientadas pela centralidade do cuidado em serviços territoriais e de base comunitária, restringindo as internações psiquiátricas a situações excepcionais, em que os recursos extra-hospitalares se revelem insuficientes, devendo ser realizadas em serviços não asilares que sejam capazes de garantir seus direitos com articulação a estratégias de cuidado integral e de inserção social do usuário em seu contexto de vida. A organização operacional desse cuidado está definida pela Raps, regulamentada por meio da Portaria 3.088, de 23 de dezembro de 2011 (Brasil, 2011d), que tem a finalidade de criar, ampliar e articular os diversos pontos de atenção à saúde destinados às pessoas com sofrimento ou transtorno mental e às que têm necessidades decorrentes do uso de crack, álcool e outras drogas. Nela, estão dispostos os componentes e pontos de atenção, desde a Atenção Básica até a Atenção Especializada, urgência e emergência e hospitalar, bem como são estabelecidas estratégias de desinstitucionalização e ações de reabilitação psicossocial (art. 1º, do Anexo V, da Portaria de Consolidação GM/MS n.º 3, de 28 de setembro de 2017). A RUE, instituída pela Portaria GM/MS n.º 1.600, de 7 de julho de 2011, por sua vez, complementa essa organização ao normatizar o cuidado às urgências no SUS e ao orientar a integração entre pré-hospitalar móvel, serviços 24 horas e atenção hospitalar. As Conferências Nacionais de Saúde Mental desempenham papel político fundamental na consolidação dessas diretrizes. A III Conferência, ocorrida em 2001, contribuiu para o avanço da Reforma Psiquiátrica, difundindo a importância da substituição progressiva dos hospitais psiquiátricos por serviços comunitários e redes territoriais de cuidado; a IV Conferência, de 2010, enfatizou a intersetorialidade, a integralidade e a compreensão da crise como parte do processo de cuidado, e não apenas como evento de urgência; e a V Conferência, em 2023, retomou os princípios da Reforma Psiquiátrica Brasileira e da Luta Antimanicomial para a organização e o funcionamento da Raps como política estruturante, defendendo financiamento adequado, ampliação dos Caps e fortalecimento do cuidado comunitário e humanizado. Esse conjunto normativo e político compõe o alicerce da atenção à crise em saúde mental no Brasil. Ele orienta a construção de um cuidado integral, territorial, baseado em direitos humanos, que valoriza o protagonismo dos usuários, a corresponsabilidade das equipes e o funcionamento articulado em rede. GUIA DE ACOLHIMENTO À CRISE EM SAÚDE MENTAL NA REDE DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL (RAPS) 11 O Quadro 1, a seguir, sintetiza os principais marcos normativos e políticos que fundamentam a atenção às situações de crise em saúde mental no SUS, evidenciando a centralidade do cuidado em liberdade, da organização em rede e da garantia de direitos. Quadro 1 – Quadro-resumo dos principais marcos normativos e políticos da atenção à crise em saúde mental no SUS Portaria/marco e ano Descrição Lei n.º 10.216/2001 Redireciona o modelo assistencial em saúde mental no Brasil, garantindo os direitos das pessoas com transtornos mentais e afirmando o cuidado em liberdade. Estabelece a prioridade dos serviços comunitários, determina que internações ocorram preferencialmente em hospitais gerais e serviços não asilares e define a internação como medida excepcional, orientada pela proteção de direitos e pela reabilitação psicossocial. Constitui o eixo estruturante da atenção à crise em saúde mental no SUS. III Conferência Nacional de Saúde Mental (2001) Consolida politicamente a Reforma Psiquiátrica Brasileira, legitimando a substituição progressiva do modelo hospitalocêntrico por redes territoriais de cuidado comunitário. Afirma a crise como objeto legítimo da atenção psicossocial e reforça a centralidade dos serviços substitutivos. Portaria GM/MS n.º 1.600/2011 (RUE) Institui a Rede de Atenção às Urgências e Emergências, organizando o cuidado às situações de urgência no SUS. Define a articulação entre pré-hospitalar móvel (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência – Samu 192), serviços 24 horas, salas de estabilização e atenção hospitalar, compondo a retaguarda assistencial para o manejo das crises em saúde mental. Continua MINISTÉRIO DA SAÚDE 12 Portaria GM/MS n.º 3.088/2011 (Raps) Institui a Rede de Atenção Psicossocial, organizando o cuidado em saúde mental de forma territorial, comunitária e em rede. O cuidado, no âmbito do Centro de Atenção Psicossocial, é desenvolvido por intermédio de Projeto Terapêutico Individual, envolvendo em sua construção a equipe, o usuário e sua família, e a ordenação do cuidado estará sob a responsabilidade do Centro de Atenção Psicossocial ou da Atenção Básica, garantindo permanente processo de cogestão e acompanhamento longitudinal do caso. IV Conferência Nacional de Saúde Mental – Intersetorial (2010) Reafirma os princípios da Reforma Psiquiátrica, enfatizando a intersetorialidade, a integralidade do cuidado e a compreensão da crise como parte do processo terapêutico, e não apenas como evento de urgência. Fortalece a noção de corresponsabilidade das redes de saúde, assistência social, justiça e educação. Portaria de Consolidação GM/MS n.º 3/2017 – Anexo V (Raps) Consolida normativamente a Raps no âmbito do SUS, detalhando seus componentes, suas diretrizes e suas responsabilidades. Reafirma o papel dos Caps como serviços estratégicos no manejo da crise e na articulação com a RUE e a atenção hospitalar. Portaria n.º 344, de 1º de fevereiro de 2017 Dispõe sobre o preenchimento do quesito raça/ cor nos formulários dos sistemas de informação em saúde. V Conferência Nacional de Saúde Mental (2023) Reafirma a Raps como política estruturante da atenção à saúde mental no Brasil. Defende financiamento adequado, ampliação dos Caps, fortalecimento do cuidado comunitário e humanizado, e qualificação das respostas às situações de crise, com base em direitos humanos e cuidado em liberdade. Fonte: elaboração própria. Conclusão GUIA DE ACOLHIMENTO À CRISE EM SAÚDE MENTAL NA REDE DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL (RAPS) 13 1.4 A situação da Raps em dados De acordo com o Saúde Mental em Dados 2025 (Brasil, 2025), nos últimos cinco anos observou-se a expansão dos Caps e o aumento de leitos em hospital geral voltados ao cuidado em saúde mental. Atualmente, a rede conta com 2.169 Leitos de Saúde Mental em Hospital Geral (LSMHG) e 3.070 Caps habilitados em todo o País. Com relação aos Caps tipo III, observa-se aumento expressivo no número de serviços habilitados nos últimos dez anos, correspondente a 51,5% para os Caps III e 52,8% para os Caps AD III. No entanto, apesar desse crescimento, a distribuição territorial dos Caps permanece desigual, com regiões que continuam apresentando baixa cobertura e menor capacidade de resposta comunitária à crise. Esse descompasso territorial reforça a necessidade de revisão do planejamento regional e da alocação de serviços de base comunitária, especialmente em áreas de maior vulnerabilidade psicossocial (Brasil, 2025). Apesar da heterogeneidade na distribuição territorial, o funcionamento dos Caps tem se qualificado progressivamente no manejo das situações agudas. O número de acolhimentos noturnos e de atendimentos à crise realizados nos Caps mais do que dobrou nos últimos anos, indicando maior capacidade dessas unidades de atuarem como referência territorial para o cuidado imediato, em consonância com as diretrizes da Raps (DataSUS, 2026). Os registros do procedimento “Atenção às Situações de Crise” nos Caps (código 03.01.08.029-1) demonstram aumento expressivo no período analisado, passando de 352.515 registros em 2020 para 446.966 em 2025. Ainda que esses dados possam não refletir integralmente a complexidade e a dimensão do cuidadoofertado às situações de crise — considerando possíveis subnotificações e a realização de outros procedimentos também relacionados ao manejo da crise, como acolhimento diurno e noturno —, observa-se um volume significativo de atendimentos vinculados à atenção à crise no âmbito da Raps. Esses dados reforçam a centralidade dos Caps no acolhimento e acompanhamento das situações de sofrimento psíquico agudo nos territórios. Destaca-se o acolhimento diurno como principal estratégia de cuidado intensivo nos Caps, com crescimento expressivo ao longo da série, seguido pela ampliação do acolhimento noturno, indicando fortalecimento da retaguarda 24 horas nos Caps, especialmente nos serviços tipo III. O procedimento de atenção às situações de crise também apresenta aumento de aproximadamente 51% – de 1.932.369 para 2.916.063 –, ainda que com oscilações, MINISTÉRIO DA SAÚDE 14 o que pode refletir variações nos processos de registro e na organização local do cuidado (DataSUS, 2026). Esses achados sugerem avanços na consolidação do modelo de atenção psicossocial, com maior oferta de cuidado em liberdade e no território, ao mesmo tempo em que apontam para a necessidade de qualificação dos registros, maior padronização conceitual e fortalecimento da articulação entre os diferentes pontos da Rede de Atenção Psicossocial e da Rede de Urgência e Emergência. No âmbito das urgências, as internações de curta permanência mantêm-se como o principal desfecho (DataSUS, 2026). As internações de longa permanência e os casos de reinternação representam a minoria dos atendimentos, alinhando-se à diretriz de evitar institucionalizações prolongadas e priorizar estabilizações breves, acompanhadas de continuidade do cuidado na rede territorial. Quanto ao perfil diagnóstico, dados do Departamento de Informação e Informática do SUS (DataSUS) apontam que, nos últimos sete anos, foram registrados mais de 1,5 milhão de atendimentos de urgência em saúde mental. Os transtornos psicóticos representam aproximadamente 27% das demandas e constituem a principal causa de atendimento em urgência, seguidos pelos transtornos do humor (22%), por uso de substâncias psicoativas (16%) e por uso de álcool (11%). O comportamento desorganizado e/ou disruptivo e o elevado risco de suicídio são duas razões clínicas de acolhimento em urgência e emergência que se destacam por sua elevada frequência, acumulando, de 2020 a 2025, 274 mil e 150 mil casos, respectivamente. Esses dados, tomados em conjunto, demonstram a magnitude da situação e reforçam a importância de fortalecer dispositivos regionais de acolhimento à crise, integrando Caps, serviços de urgência e Atenção Básica em torno de fluxos pactuados e estratégias de cuidado intensivo no território. 15 2 PRINCÍPIOS DE FUNCIONAMENTO DA RAPS A Raps opera a partir de princípios que orientam a organização dos serviços e o cuidado às pessoas em sofrimento psíquico e às suas famílias. São princípios no funcionamento da Raps: • Acesso ampliado das pessoas com questões de saúde mental em todos os pontos de atenção, com acolhimento e vínculo. • Regionalização do atendimento, com articulação entre os serviços e pactuação de fluxos entre municípios e regiões de saúde. • Atendimento centrado no usuário e nas suas necessidades, com respeito aos direitos humanos, garantia de autonomia, cuidado em liberdade e combate ao estigma. • Atenção multidisciplinar e em equipe, com diversificação das estratégias de cuidado e valorização do Projeto Terapêutico Singular (PTS). • Articulação e integração dos diversos serviços e equipamentos de saúde, funcionando como rede territorial e comunitária. • Participação e controle social dos usuários e familiares nos processos de cuidado e na formulação das políticas. • Qualificação da assistência por meio da educação permanente das equipes. • Promoção da inclusão social e da reabilitação psicossocial, ampliando acesso a trabalho, renda, moradia e convivência comunitária. • Desenvolvimento de estratégias de redução de danos, especialmente nas situações relacionadas ao uso de álcool e outras drogas. 17 3 DIRETRIZES PARA UM ACOLHIMENTO HUMANIZADO “ Eu senti essa humanização não só na pessoa que me atende, mas em todos os profissionais que estão ali dentro [...] desde a recepção até a pessoa que fica lá dentro, que a gente não vê. Tem que ser humanizado. Tem que ter esse olhar cuidadoso [...] E tem que saber o manejo, tem que saber o cuidado, porque às vezes uma forma de falar, uma forma de agir pode fazer com que a pessoa tenha uma recaída muito pior, ou pode fazer com que a pessoa simplesmente se afaste de tudo [...] Vamos conversar, não só trocar medicação, porque isso também faz toda a diferença [...] entender o que está acontecendo contigo, que é isso que eu vi com meu psiquiatra do Caps daqui. Usuário participante do Vozes da Crise 3.1 Acolhimento à situação de crise em saúde mental O primeiro passo para o acolhimento qualificado em situações de crise é o conhecimento amplo dos equipamentos da rede local e da estrutura de cuidados já disponível para o usuário. Isso inclui a identificação prévia dos recursos territoriais, dos fluxos consensuados, dos serviços com funcionamento 24 horas e das possibilidades de continuidade do cuidado após o momento de maior intensidade do sofrimento. A crise não pode ter seu cuidado reduzido a um único ponto da rede; por isso, seu manejo exige articulação intersetorial, comunicação entre equipes e compreensão dos itinerários possíveis no território. Um elemento importante do acolhimento é a classificação de risco específica para a saúde mental, que difere da classificação de risco utilizada na urgência clínica tradicional. Na saúde mental, o risco não se limita a parâmetros clínicos ou sinais vitais, mas envolve riscos psicossociais, ruptura da contratualidade social, risco de auto ou heteroagressividade, impossibilidade de autocuidado, grau de desorganização do pensamento e da conduta, além da intensidade do sofrimento. Por isso, torna-se indispensável a avaliação do exame do estado mental, conduzida de forma sensível, técnica e livre de preconceitos. O cuidado deve também considerar a autonomia do usuário e sua rede familiar e social. Em situações de crise, a autonomia pode estar parcialmente MINISTÉRIO DA SAÚDE 18 comprometida, exigindo que a equipe e a rede de suporte sustentem decisões com o usuário, sempre com vistas à garantia de direitos, ao cuidado em liberdade e à menor intervenção possível. A Lei n.º 10.216/2001 regulamenta as internações involuntárias, reconhecendo que podem existir contextos clínicos nos quais a pessoa não está em condições de organizar seus pensamentos, expressar sua vontade ou manter a própria segurança. Contudo, trata-se de medida excepcional, por tempo reduzido e com garantia de continuidade do cuidado na rede. Nessas situações, a indicação de internação involuntária deve ser fundamentada em avaliação clínica criteriosa, especialmente quando há comprometimento importante da capacidade de julgamento e presença de risco relevante para si, para terceiros, de grave exposição social ou de incapacidade de autocuidados, sempre após se constatar insuficiência dos recursos extra-hospitalares disponíveis. Além disso, por se tratar de medida excepcional, a internação involuntária deve ser comunicada pelo responsável técnico do estabelecimento ao Ministério Público estadual no prazo de até 72 horas, assim como a respectiva alta, nos termos da Portaria GM n.º 2.391, de 26 de dezembro de 2002, que regulamenta o controle das internações involuntárias, e de acordo com o disposto na Lei n.º 10.216/2001 (Brasil, 2001, 2002). Nas situações de crise, é imprescindível preservar a contratualidade do sujeito e envolver ativamente sua rede socioafetiva no cuidado, pois isso amplia alternativas de manejo e sustenta decisões compartilhadas(Silva; Ferigato, 2020). À luz da Reforma Psiquiátrica, que recolocou no centro do cuidado o direito de decisão e a participação ativa das pessoas em sofrimento psíquico, é preciso enfrentar a tendência histórica de suspender direitos sob o argumento de capacidade de julgamento reduzida. Nesses momentos de maior vulnerabilidade, a postura das equipes deve orientar-se para reconstruir possibilidades e autonomia, reafirmando o lugar do usuário como agente do próprio projeto terapêutico (Zeferino; Rodrigues; Assis, 2015). Vale ainda reforçar que as intervenções nas situações de crise demandam um investimento de tempo e energia diferenciado pelas equipes em comparação às demandas convencionais, sendo importante haver uma maior flexibilidade na construção de respostas e estratégias de resolução das questões apresentadas GUIA DE ACOLHIMENTO À CRISE EM SAÚDE MENTAL NA REDE DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL (RAPS) 19 (Dassoler; Palombini, 2020), incluindo conversa com o usuário e sua rede sobre as tomadas de decisão e etapas da condução do cuidado. Para realizar o acolhimento e o manejo das situações de crise, é fundamental utilizar estratégias baseadas no cuidado relacional. O vínculo com o usuário em crise é um elemento importante, pois pressupõe confiança, troca e corresponsabilidade, ampliando as possibilidades de intervenção. Nesse contexto, a postura de suporte do profissional oferece sustentação e referência em meio à desorganização. O acompanhamento com a presença mais próxima, com cuidados atrelados às necessidades do usuário, pode envolver estratégias como escuta, uso de recursos expressivos, além de outras que favoreçam a regulação do sujeito. A escuta constitui recurso fundamental, mesmo quando a fala ou os comportamentos pareçam desconexos, assim como a avaliação de risco deve ser contínua, sustentando decisões clínicas ao longo do manejo. Tal perspectiva se estende também à família ou à rede de suporte, que podem passar a viver sobrecargas objetivas e subjetivas, assim como também podem ter que construir novas formas de lidar com relações até então instituídas (exercício de papéis de seus membros, sofrimento das pessoas em relação ao usuário, entre outros aspectos). Diretrizes gerais para o acolhimento da crise: 1. Conhecimento da rede e articulação local. 2. Acolhimento e continuidade da presença e do cuidado, por meio de diferentes estratégias. 3. Classificação de risco específica da saúde mental/psicossocial. 4. Avaliação clínica e exame do estado mental. 5. Proteção de direitos, autonomia e tomada de decisão. 6. Internação involuntária sempre como exceção, com estabelecimento de limites, critérios e ampliada avaliação prévia e posterior. 7. Planejamento antecipado de crises (planos de cuidado). Recomenda-se que as equipes mantenham postura clínica reflexiva e analisem criticamente, de modo contínuo, a condução do acolhimento e do manejo das situações de crise em saúde mental. Condutas de caráter excepcional, especialmente quando passam a ocorrer com frequência aumentada ou a se tornar respostas habituais da equipe, devem ser examinadas com cautela, à luz da singularidade MINISTÉRIO DA SAÚDE 20 dos casos, dos direitos dos usuários e da necessidade de evitar automatismos no cuidado. Medidas como internação involuntária e contenção mecânica exigem fundamentação clínica e devem ter uso restrito, com permanente avaliação da necessidade (Brasil, 2001, 2009). Recomenda-se, ainda, que o cuidado em saúde mental seja orientado por sensibilidade intercultural, com reconhecimento e respeito às diferenças socioculturais e aos distintos modos de compreender o sofrimento, o cuidado e a vida coletiva. Esse princípio é especialmente importante no atendimento a povos e comunidades tradicionais, devendo favorecer abordagens cuidadosas, respeitosas e não homogeneizadoras no âmbito da atenção psicossocial (Conselho Nacional dos Direitos Humanos, 2019). 3.1.1 Plano de crise “Também acho que a crise não é um ponto isolado quando ela emerge. Ela vem de um contínuo [...] tem o pós-crise, mas eu acho que tem o pré, o antes. E às vezes é possível a gente não chegar a derramar. Eu acho que a crise é o momento em que a gente derrama, transborda assim. E se a gente está bem vinculada no serviço, se a gente tem relações com a nossa referência, bem vinculados, né? Se a gente tem uma relação com os serviços, se a gente tem uma relação boa com os nossos familiares, se a gente tem uma rede de apoio, muitas vezes esse momento em que a gente transborda, ele poderia não ter acontecido. Usuário participante do Vozes da Crise Como prática recomendável, especialmente fora dos momentos de intensificação do sofrimento, as equipes devem apoiar os usuários na construção de planos antecipados de cuidado, como plano de crise. GUIA DE ACOLHIMENTO À CRISE EM SAÚDE MENTAL NA REDE DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL (RAPS) 21 O plano de crise é uma ferramenta para que pessoas em acompanhamento em serviços de saúde mental e suas equipes expressem antecipadamente suas preferências em relação a intervenções, cuidados e tratamento em situações de crise (Maître et al., 2013; Skovgaard Larsen et al., 2016; Swanson et al., 2000). Trata-se também de facilitar a detecção de crises, descrevendo ou abordando sinais, sintomas e manifestações que permitam a identificação precoce do início de uma situação de crise (Henderson et al., 2004; Lequin et al., 2021; National Alliance on Mental Illness, 2016). Alguns tipos de planos de crise foram propostos na literatura, incluindo o plano de segurança (Stanley; Brown, 2012), as diretivas antecipadas de vontade (Maître et al., 2013) e o plano de crise conjunto (Thornicroft et al., 2013). Esse tipo de intervenção é apoiado pela OMS (WHO, 2021), que, em suas recomendações mais recentes sobre o cuidado e o apoio a pessoas com transtornos mentais graves, enfatiza a relevância dos planos de crise para promover uma melhor aliança terapêutica entre o paciente e a equipe de saúde e para garantir que ambos estejam mais bem preparados para prevenir ou resolver futuras crises. Esses planos, que foram identificados como uma das intervenções mais eficazes para reduzir a taxa de hospitalizações involuntárias relacionadas a crises de saúde mental do usuário, fortalecem o protagonismo e a autonomia do usuário (de Jong et al., 2016), oferecem previsibilidade às equipes e reduzem intervenções mais invasivas (Henderson et al., 2004). A seguir, apresenta-se um quadro-síntese contendo os principais pontos do plano de crise, com o objetivo de apoiar trabalhadores da Raps na construção compartilhada do cuidado em situações de crise. A ferramenta busca ampliar a participação do usuário nas decisões relacionadas ao seu tratamento, valorizando sua experiência, sua autonomia, seus desejos e as estratégias previamente pactuadas para o manejo da crise. MINISTÉRIO DA SAÚDE 22 Quadro 2 – Quadro-síntese do plano de crise Eixo do plano de crise Conteúdo a ser construído com o usuário Objetivo no cuidado à crise Identificação do usuário Nome, endereço, telefone, data de nascimento, número do cartão/seguro de saúde, contatos principais. Facilitar a identificação e o acionamento rápido da rede de cuidado. Reconhecimento da crise Descrição dos sinais iniciais, mudanças de comportamento, s e n t i m e n t o s , s i t u a ç õ e s desencadeantes e formas como a crise costuma se manifestar. Favorecer a identificação precoce e intervenções menos invasivas. Formas preferidas de abordagem Estratégias que ajudam o usuário em momentos de sofrimento; fo r m a s d e co m u n i c a ç ã o acolhedoras; condutas que devem ser evitadas. Qualificar o acolhimento, reduzir conf l i tos e fortalecer o cuidado centrado na pessoa. Tratamento e manejo desejado Preferências em relação ao cuidado, medicaçõesjá utilizadas, recursos terapêuticos que ajudam, estratégias de desescalonamento. Orientar intervenções respeitosas e singulares. Cotidiano e contexto de vida Organização da rotina, atividades significativas, vínculos familiares, trabalho, estudo, hábitos e rede social. C o m p r e e n d e r a singularidade do usuário e preservar aspectos importantes da vida cotidiana. Condições clínicas e de saúde Problemas de saúde física e mental, alergias, comorbidades e necessidades específicas. Garant i r segurança c l í n i c a e c u i d a d o integral. Uso de medicações Nome dos medicamentos, doses, horários de uso, efeitos desejados e reações adversas importantes. Subsidiar continuidade e segurança do cuidado. Continua GUIA DE ACOLHIMENTO À CRISE EM SAÚDE MENTAL NA REDE DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL (RAPS) 23 Acordos para situações de crise Combinações previamente pactuadas: quem acionar, quais serviços procurar, profissional/ equipe de referência, estratégias combinadas. Organizar respostas compartilhadas e reduzir improvisações. Preferências em caso de internação Serviços de preferência para acolhimento e cuidado, recusas previamente manifestadas, c o n d i ç õ e s c o n s i d e r a d a s importantes. Respeitar a autonomia e favorecer a continuidade do cuidado em rede. Providências práticas Cuidados com filhos, trabalho, moradia, animais, contas e outras responsabilidades em caso de afastamento. Minimizar impactos sociais e cotidianos decorrentes da crise. Rede de apoio e pessoas de confiança Familiares, amigos, vizinhos, técnicos e serviços que podem apoiar durante a crise. Fortalecer suporte social e corresponsabilização no cuidado. Registro e pactuação do plano Data de elaboração, revisão periódica, assinatura do usuário, equipe e pessoas envolvidas. Formalizar pactos de cuidado e garant i r atualização contínua do plano. Fonte: elaboração própria, adaptado de De Freitas, 2008. Recomenda-se, ainda, que as equipes possam conhecer e se aproximar de outras estratégias radicalmente centradas na experiência do usuário e que se mostram como potentes dispositivos na elaboração subjetiva e na construção de novas possibilidades de lidar consigo e com o mundo, como o Open Dialogue (Diálogo Aberto), Ouvidores de Vozes, entre outros. Conclusão MINISTÉRIO DA SAÚDE 24 3.2 Acolhimento para situações de comportamento desorganizado e/ ou agressivo “ O meu Eu em crise é… Quando eu passei a perceber, me assustou.... Eu saio totalmente fora do que eu sou normalmente, fico agressiva e agrido aquelas pessoas que eu mais amo. E não é o que eu quero. E é uma dor terrível. Usuário participante do Vozes da Crise As situações de crise caracterizadas por comportamento desorganizado, disruptivo ou potencialmente agressivo exigem intervenção rápida, organizada e segura, articulando acolhimento humanizado, técnicas de desescalonamento e, apenas quando estritamente necessário, intervenções físicas ou farmacológicas, estratégias que serão detalhadas mais adiante neste documento. O manejo adequado desses quadros depende da avaliação clínica, da organização da equipe e do compromisso com o princípio da menor intervenção possível, conforme preconiza a Lei n.º 10.216/2001. Entende-se por agitação psicomotora um estado de aumento da excitabilidade, da inquietação, da irritabilidade e da atividade motora e verbal, que pode se apresentar de forma exagerada, inapropriada e flutuante. Já o comportamento desorganizado refere-se à importante desorganização da conduta, da comunicação ou da relação com o ambiente, com prejuízo da capacidade de responder de forma coerente às situações, podendo estar presente em crises psicóticas, estados confusionais ou outras condições clínicas e psiquiátricas. A agressividade, por sua vez, diz respeito a comportamentos que podem produzir dano físico ou moral à própria pessoa ou a terceiros, não devendo ser presumida automaticamente, mas avaliada no contexto clínico concreto (Brasil, 2021; Stefanello; Campos, 2015). 1. Avaliação de gravidade A avaliação inicial deve ser imediata e considerar: • risco auto ou heteroagressivo; • impossibilidade de autocuidado; • nível de desorganização do pensamento e da conduta; GUIA DE ACOLHIMENTO À CRISE EM SAÚDE MENTAL NA REDE DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL (RAPS) 25 • presença de intoxicação, delirium ou comorbidades clínicas; • ruptura da contratualidade social e grau de desorientação; • previsibilidade da escalada do comportamento. Essa avaliação deve ser conduzida com o exame do estado mental, que identifica alterações de pensamento, humor, percepção, consciência, orientação e insight. Diferentemente das urgências clínicas tradicionais, a classificação de risco na saúde mental se baseia predominantemente em indicadores psicossociais e comportamentais, e não apenas em parâmetros fisiológicos. 2. Desescalonamento verbal e manejo ambiental Antes de qualquer intervenção física ou medicamentosa, recomenda-se: • utilizar comunicação objetiva, calma e não confrontativa; • manter tom de voz baixo, postura não ameaçadora e ter poucos profissionais falando; • validar sentimentos e oferecer alternativas seguras; • reduzir estímulos ambientais (ruído, luz, fluxo de pessoas); • oferecer espaço acolhedor e privacidade; • respeitar distância segura e evitar contato físico desnecessário. O desescalonamento é a intervenção principal no manejo de agitação e deve ser tentado sempre que houver possibilidade de diálogo, mesmo quando o pensamento estiver parcialmente desorganizado. 3. Manejo físico seguro (contenção mecânica como último recurso) As medidas restritivas, entre as quais se incluem a contenção física e a contenção mecânica, podem ser utilizadas em situações em que exista risco iminente de dano a si próprio ou a terceiros. Devem ser utilizadas após análise criteriosa, pois são medidas com alto risco clínico, relacional e ético. Revisões sistemáticas apontam a limitada robustez de evidências sobre sua efetividade e indicam possíveis efeitos adversos, psicológicos e físicos, incluindo ruptura do vínculo terapêutico e trauma. Esses dados evidenciam a importância da utilização MINISTÉRIO DA SAÚDE 26 restrita, com protocolos institucionais, monitoramento contínuo e registro sistemático (Sailas; Fenton, 2000). Diretrizes internacionais também recomendam abordagem escalonada para prevenção e manejo de agressividade, priorizando avaliação clínica, intervenções ambientais e desescalada verbal antes da adoção de medidas restritivas (Baldaçara et al., 2021; NICE, 2015; Richmond et al., 2012; WHO, 2021). Algumas referências apontam que a diminuição da contenção está associada a intervenções na dinâmica institucional e do trabalho em equipe, a mudanças culturais e à qualificação dos processos de cuidado e participação dos usuários (Bowers et al., 2015; Huckshorn, 2008). Entende-se por manejo físico o conjunto de intervenções corporais diretas realizadas pela equipe com a finalidade de proteção imediata diante de risco iminente. Nesse conjunto, a contenção física corresponde à restrição manual de movimentos, realizada por profissionais treinados, sem uso de dispositivos, enquanto a contenção mecânica consiste na restrição por meio de equipamentos ou dispositivos específicos destinados a limitar parcial ou totalmente a movimentação. Embora ambas integrem o rol das medidas restritivas, sua indicação deve ser sempre excepcional, fundamentada e proporcional à gravidade da situação, não devendo ser confundidas com abordagens clínicas ordinárias de cuidado (NICE, 2015). A contenção mecânica deve ocorrer somente: • quando houver risco iminente à integridade do usuário ou de terceiros; • quando medidas verbais e ambientais falharem; • por tempo estritamente necessário; • por equipe treinada,com número suficiente de profissionais para evitar lesões. A intervenção deve obedecer a protocolos institucionais, garantindo: • proteção das vias aéreas; • posicionamento adequado; • preservação da dignidade; • monitoramento contínuo de sinais vitais, perfusão, respiração e nível de consciência. GUIA DE ACOLHIMENTO À CRISE EM SAÚDE MENTAL NA REDE DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL (RAPS) 27 A contenção mecânica tem caráter terapêutico e não punitivo, devendo ser documentada e comunicada conforme exigências legais (Cofen, 2024). Quando houver indicação clínica, recomenda-se associar intervenção farmacológica, com o objetivo de reduzir sofrimento, agitação intensa, experiência punitiva e riscos, sempre mediante avaliação, monitoramento e registro (NICE, 2015). A mediação pela palavra, durante esse momento, é fundamental, para aumento da possibilidade de simbolização. Devem ser colocadas, para a pessoa, as etapas do que se passará com ela, podendo ser explicitadas inclusive as preocupações da equipe, devendo acontecer, obrigatoriamente, a continuidade da conversa em momentos posteriores. Ressalta-se, ainda, que a permanência do profissional com o usuário deve ser integral em todo o processo. 4. Intervenções farmacológicas para manejo da agitação psicomotora Quando as estratégias de desescalonamento e manejo ambiental não forem suficientes para reduzir a agitação e permitir avaliação e cuidado adequados, pode-se recorrer ao uso criterioso de medicações. Nessas situações, a intervenção farmacológica deve seguir protocolos clínicos baseados em evidências, com preferência pela via oral sempre que possível, reservando-se a via parenteral para situações em que ela seja necessária e apropriada. A escolha da medicação deve considerar a hipótese etiológica da agitação, as comorbidades clínicas, o possível uso de álcool e outras drogas, as interações medicamentosas, a resposta prévia e o perfil de efeitos adversos. O uso deve ser acompanhado de monitorização clínica sistemática, incluindo nível de consciência, frequência respiratória, pressão arterial, pulso e sinais de sedação excessiva, depressão respiratória ou broncoaspiração, além de registro em prontuário como parte do manejo clínico da crise, e não como substituto do cuidado psicossocial. A equipe deve buscar o assentimento e a cooperação do usuário, inclusive mediante oferta e explicação da medicação proposta (Baldaçara et al., 2021; Distrito Federal, 2023; NICE, 2015). Orientações: • Usar medicação apenas após falha das medidas não farmacológicas. • Priorizar a via oral. • Escolher a medicação conforme etiologia provável, comorbidades, intoxicação e efeitos adversos. MINISTÉRIO DA SAÚDE 28 • Monitorar efeitos adversos (depressão respiratória, sedação excessiva, broncoaspiração). • Sempre que possível, realizar o uso de medicações em acordo e com consentimento do usuário. • Registrar como parte do manejo clínico, e não como substituto do cuidado psicossocial. O objetivo dessas intervenções é reduzir a agitação de modo suficiente para permitir proteção, avaliação e continuidade do cuidado, e não produzir sedação como resposta automática ao comportamento do usuário (NICE, 2015). 5. Atuação integrada da equipe Recomenda-se: • definir um líder da intervenção; • distribuir funções antes da aproximação; • orientar quem fala, quem observa, quem monitora e quem intervém; • manter comunicação verbal e não verbal consistente; • assegurar que todos os profissionais conheçam os protocolos de segurança. A comunicação entre os profissionais deve ser clara e consistente, inclusive por meio de sinais previamente combinados quando o contexto exigir. A falta de coordenação, a sobreposição de comandos e a ausência de clareza quanto aos papéis de cada profissional podem aumentar a desorganização da cena, favorecer escalada de tensão e ampliar o risco de intervenções desnecessárias ou lesivas. 6. Reavaliação e cuidados pós-contenção Após uma intervenção de contenção física ou química, deve haver reavaliação imediata e contínua, incluindo: • exame físico e do estado mental; • verificação de lesões ou desconfortos; • monitoramento de sinais vitais; GUIA DE ACOLHIMENTO À CRISE EM SAÚDE MENTAL NA REDE DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL (RAPS) 29 • explicação ao usuário, assim que possível, sobre o que ocorreu; • registro clínico detalhado do episódio; • comunicação à família ou aos responsáveis, seguindo critérios éticos; • revisão do episódio com a equipe. Sempre que apropriado, o episódio deve gerar discussões para prevenção de novas crises, integrando ajustes no PTS e no plano antecipado de cuidado do usuário (NICE, 2015; Cofen, 2024). Figura 1 – Fluxograma de cuidados para comportamento desorganizado/agressivo SITUAÇÃO DE CRISE IDENTIFICADA Comportamento desorganizado/agressivo Avaliação imediata de gravidade + exame do estado mental: • Risco auto/heteroagressivo. • Capacidade de autocuidado. • Grau de intoxicação, delirium ou • comorbidades clínicas. • Ruptura de vínculos/contratualidade • social. • Previsibilidade de escalada do comportamento NÃO (risco iminente a si ou a terceiros) SIM SIM NÃO Desescalonamento verbal e manejo ambiental: • Comunicação calma e não confrontativa. • Redução de estímulos ambientais. • Validação do sofrimento. • Respeito a distância segura. • Poucos profissionais falando. Intervenção farmacológica: • Uso conforme protocolos baseados em evidências. • Considerar comorbidades e interações. • Monitorar efeitos adversos. • Registrar como medida clínica de estabilização. Contenção mecânica (somente se): • Risco iminente ao usuário ou a terceiros. • Falha das medidas verbais e ambientais. • Equipe treinada e número adequado de profissionais. Garantias obrigatórias. • Proteção de vias aéreas. • Posicionamento adequado. • Preservação da dignidade. • Monitoramento contínuo. • Registro e comunicação conforme legislação. Acompanhamento e continuidade do cuidado em rede. Reavaliação e cuidados pós-intervenção: • Exame físico e do estado mental (verificação de lesões). • Monitoramento clínico contínuo. • Explicação ao usuário (quando possível). • Comunicação à família/rede. • Registro clínico detalhado. • Revisão do episódio com a equipe. SERVIÇOS TERRITORIAIS HÁ POSSIBILIDADE DE DIÁLOGO E SEGURANÇA MÍNIMA? PERSISTÊNCIA DE RISCO IMINENTE À INTEGRIDADE? Ajuste do Projeto Terapêutico Singular: • Atualização do plano antecipado de cuidado. • Estratégias de prevenção de novas crises. • Fortalecimento da rede territorial. Fonte: elaboração própria. MINISTÉRIO DA SAÚDE 30 3.3 Acolhimento em situações de risco de suicídio O acolhimento em situações de risco de suicídio deve ser compreendido como uma prática clínica, ética e política, orientada pela defesa da vida, pelo reconhecimento do sujeito como portador de direitos e pela produção de cuidado em liberdade. No âmbito do SUS, esse cuidado se inscreve nos princípios da Reforma Psiquiátrica e do paradigma da atenção psicossocial, recusando abordagens exclusivamente coercitivas ou medicalizantes e afirmando a necessidade de intervenções territorializadas, intersetoriais e centradas no vínculo. Essas situações exigem acolhimento imediato, comunicação objetiva e a menor intervenção necessária para garantir a segurança do usuário. Marcadores sociais que atravessam a situação (raça/cor, gênero, território, situação de vulnerabilidade social, histórico de violência, discriminação ou exclusão) devem ser considerados como estruturantes no sofrimento apresentado e, consequentemente, a compreensão e o manejo devem atentar-se a tais aspectos. A avaliação de gravidade deve considerar não apenas indicadores clínicos, mas também as condições sociais que produzem e intensificam o sofrimento, evitando leituras individualizantes. 1. Avaliação de gravidade A avaliação inicial deve identificar:• risco atual (baixo, moderado, alto, iminente); • presença de plano definido, intenção e acesso a meios letais; • histórico de tentativas anteriores; • fatores precipitantes e fatores protetivos; • alterações no estado mental (agitação, delírios, rebaixamento de consciência); • uso de álcool ou outras drogas; • ruptura da contratualidade social e perda de capacidade de autocuidado. GUIA DE ACOLHIMENTO À CRISE EM SAÚDE MENTAL NA REDE DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL (RAPS) 31 3.3 Acolhimento em situações de risco de suicídio O acolhimento em situações de risco de suicídio deve ser compreendido como uma prática clínica, ética e política, orientada pela defesa da vida, pelo reconhecimento do sujeito como portador de direitos e pela produção de cuidado em liberdade. No âmbito do SUS, esse cuidado se inscreve nos princípios da Reforma Psiquiátrica e do paradigma da atenção psicossocial, recusando abordagens exclusivamente coercitivas ou medicalizantes e afirmando a necessidade de intervenções territorializadas, intersetoriais e centradas no vínculo. Essas situações exigem acolhimento imediato, comunicação objetiva e a menor intervenção necessária para garantir a segurança do usuário. Marcadores sociais que atravessam a situação (raça/cor, gênero, território, situação de vulnerabilidade social, histórico de violência, discriminação ou exclusão) devem ser considerados como estruturantes no sofrimento apresentado e, consequentemente, a compreensão e o manejo devem atentar-se a tais aspectos. A avaliação de gravidade deve considerar não apenas indicadores clínicos, mas também as condições sociais que produzem e intensificam o sofrimento, evitando leituras individualizantes. 1. Avaliação de gravidade A avaliação inicial deve identificar: • risco atual (baixo, moderado, alto, iminente); • presença de plano definido, intenção e acesso a meios letais; • histórico de tentativas anteriores; • fatores precipitantes e fatores protetivos; • alterações no estado mental (agitação, delírios, rebaixamento de consciência); • uso de álcool ou outras drogas; • ruptura da contratualidade social e perda de capacidade de autocuidado. A avaliação de gravidade na saúde mental é ampliada, integrando elementos biológicos, subjetivos e psicossociais, e deve ocorrer em ambiente de escuta qualificada e sem julgamentos. 2. Acionamento e construção da rede de cuidados Nenhuma situação de risco de suicídio deve ser manejada isoladamente. A equipe deve: • acionar vínculos já existentes (família, Caps, APS, outros serviços de referência); • construir rede, quando inexistente, envolvendo dispositivos comunitários e proteção social; • estabelecer comunicação direta com responsáveis e serviços do território; • planejar continuidade do cuidado nas próximas 24 a 72 horas; • definir estratégias de supervisão e suporte no ambiente de vida. A articulação entre o Caps e a APS é essencial para a continuidade do cuidado, o acompanhamento intensivo pós-crise e a atualização do PTS. 3. Ambiente protegido O usuário deve ser acolhido em ambiente que minimize riscos imediatos, assegurando: • ausência de meios letais; • presença de profissionais ou familiares capazes de supervisionar; • ambiente calmo, iluminado adequadamente e sem estímulos aversivos; • espaço para escuta e conversa segura; • abordagem não coercitiva. Ambiente protegido não significa contenção, mas sim a criação de condições de segurança física e emocional, seja em serviço de saúde, seja no domicílio estruturado para tal. MINISTÉRIO DA SAÚDE 32 Figura 2 – Fluxograma de cuidados para risco de suicídio SITUAÇÃO DE CRISE IDENTIFICADA Risco de suicídio Acolhimento imediato: • Escuta qualificada. • Postura não julgadora. • Comunicação clara. • Foco em vínculo e proteção. NÃO SIM Avaliação ampliada da gravidade + exame do estado mental: • Presença de plano, intenção e acesso a meios letais. • Histórico de tentativas prévias. • Fatores precipitantes e fatores protetivos. • Alterações do estado mental. • Uso de álcool e outras substâncias. • Capacidade de autocuidado e contratualidade social. Organização de ambiente protegido: • Retirada/ausência de meios letais. • Supervisão adequada (não deixar a pessoa sozinha). • Ambiente calmo e acolhedor. • Espaço de escuta segura. • Abordagem não coercitiva. Acompanhamento intensivo e continuidade do cuidado. Reavaliar nível de retaguarda (serviço com maior suporte): • Caps. • Leito hospitalar. Continuidade do cuidado pós-crise: • Acompanhamento intensivo Caps/APS. • Atualização do Projeto Terapêutico Singular. • Fortalecimento de fatores protetivos. • Pactuação de estratégias para novas crises. TODOS OS NÍVEIS CONDIÇÕES DE SEGURANÇA ESTÃO GARANTIDAS? Construção e acionamento de rede de cuidados: • Acionar família e vínculos significativos. • Articular Caps, APS e urgência. • Envolver proteção social e dispositivos comunitários. • Definir plano de seguimento em 24 a 72 horas. Fonte: elaboração própria. GUIA DE ACOLHIMENTO À CRISE EM SAÚDE MENTAL NA REDE DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL (RAPS) 33 Quadro 3 – Níveis de gravidade da ideação suicida Nível de gravidade Características clínicas e psicossociais Risco baixo Ideação passiva (ex.: desejo de não acordar), sem plano definido, sem intenção atual e sem acesso a meios letais. Capacidade preservada de autocuidado, possibilidade de diálogo e presença de fatores protetivos. Risco moderado Ideação suicida ativa, pensamentos recorrentes, sem plano estruturado ou sem intenção imediata. Sofrimento psíquico intenso, ambivalência, fatores precipitantes recentes e possível redução parcial da contratualidade social. Risco alto Ideação suicida ativa com plano parcialmente definido e/ou intenção presente. Pode haver acesso a meios letais, histórico de tentativas anteriores, uso de álcool ou outras drogas, alterações do estado mental ou prejuízo do autocuidado. Risco iminente Ideação suicida com plano nitidamente definido, intenção explícita e acesso imediato a meios letais, ou tentativa em curso/recente. Pode coexistir grave desorganização psíquica, impulsividade, intoxicação ou incapacidade de julgamento. Fonte: adaptado de Botega (2015). A classificação dos níveis de risco deve ser compreendida como ferramenta clínica orientadora, e não como protocolo rígido, devendo sempre ser articulada à singularidade do caso. MINISTÉRIO DA SAÚDE 34 Sobre o pós-crise O manejo do risco de suicídio não se encerra no momento da crise. A continuidade do cuidado é elemento central para a redução de riscos e para a produção de vida. Deve-se: • garantir acompanhamento intensivo nas primeiras semanas pós-crise; • atualizar e compartilhar o PTS; • manter contato ativo com o usuário e sua rede; • monitorar mudanças nas condições de vida; • fortalecer vínculos com serviços e redes comunitárias; • evitar descontinuidade do cuidado após alta ou estabilização inicial. A descontinuidade do cuidado constitui um dos principais fatores de agravamento do risco, sendo fundamental a corresponsabilização entre os diferentes pontos da rede. 3.4 Acolhimento às situações de crise relacionadas ao uso de álcool e outras drogas Segundo a OMS, conceitua-se como droga ou substância psicoativa toda e qualquer substância, natural ou sintética, lícita ou ilícita, prescrita ou não prescrita, que tem a capacidade de alterar o funcionamento do organismo, podendo provocar alterações no estado de consciência, na percepção, no humor e nos comportamentos (WHO, 2025). As diversas formas de uso de álcool e outras drogas dependem da relação estabelecida entre a tríade pessoa (set), contexto (setting) e a substância. Essa teoria é comprovada pelas evidências de que o mesmo consumo pode gerar efeitos completamente distintos para cada pessoa. Os efeitos do uso de álcool e outras drogas dependem das características individuais dequem as utiliza (a personalidade, os problemas de saúde, a intenção, as expectativas e os objetivos do uso), bem como do momento de vida em que a pessoa se encontra, do ambiente, da cultura e do meio social onde está inserida, além da(s) substância(s) de escolha, devendo-se levar em consideração o tipo, a dose, a via de uso e as possíveis interações (Hart, 2021; Olievenstein, 1989). GUIA DE ACOLHIMENTO À CRISE EM SAÚDE MENTAL NA REDE DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL (RAPS) 35 Sobre o pós-crise O manejo do risco de suicídio não se encerra no momento da crise. A continuidade do cuidado é elemento central para a redução de riscos e para a produção de vida. Deve-se: • garantir acompanhamento intensivo nas primeiras semanas pós-crise; • atualizar e compartilhar o PTS; • manter contato ativo com o usuário e sua rede; • monitorar mudanças nas condições de vida; • fortalecer vínculos com serviços e redes comunitárias; • evitar descontinuidade do cuidado após alta ou estabilização inicial. A descontinuidade do cuidado constitui um dos principais fatores de agravamento do risco, sendo fundamental a corresponsabilização entre os diferentes pontos da rede. 3.4 Acolhimento às situações de crise relacionadas ao uso de álcool e outras drogas Segundo a OMS, conceitua-se como droga ou substância psicoativa toda e qualquer substância, natural ou sintética, lícita ou ilícita, prescrita ou não prescrita, que tem a capacidade de alterar o funcionamento do organismo, podendo provocar alterações no estado de consciência, na percepção, no humor e nos comportamentos (WHO, 2025). As diversas formas de uso de álcool e outras drogas dependem da relação estabelecida entre a tríade pessoa (set), contexto (setting) e a substância. Essa teoria é comprovada pelas evidências de que o mesmo consumo pode gerar efeitos completamente distintos para cada pessoa. Os efeitos do uso de álcool e outras drogas dependem das características individuais de quem as utiliza (a personalidade, os problemas de saúde, a intenção, as expectativas e os objetivos do uso), bem como do momento de vida em que a pessoa se encontra, do ambiente, da cultura e do meio social onde está inserida, além da(s) substância(s) de escolha, devendo-se levar em consideração o tipo, a dose, a via de uso e as possíveis interações (Hart, 2021; Olievenstein, 1989). Constata-se, assim, que os humanos estabelecem diferentes relações com as substâncias que utilizam e que, para alguns, pode ser uma relação problemática, que acarreta riscos e danos individuais e coletivos. Na clínica de álcool e outras drogas, o efeito ou a falta da substância de escolha podem influenciar as situações de crise. A fissura, quadros de intoxicação, overdose e sintomas de abstinência, associados à dificuldade de estabelecer e manter relacionamentos interpessoais, são comumente relacionados ao menor tempo de permanência em espaços de cuidado (Gilmore; Drummond; Rehm, 2019). As crises não são urgentes por definição, mas demandam acolhimento imediato por equipe multiprofissional qualificada (Dassoler; Palombini, 2020; Muusse et al., 2022). A OMS (WHO, 2021) recomenda que os atendimentos à crise de saúde mental sejam realizados preferencialmente no contexto comunitário, por equipes ou serviços especializados. Especial atenção deve ser dada a populações mais vulnerabilizadas, como pessoas em situação de rua, garantindo o direito ao acesso e à continuidade do cuidado às situações de crise. Em estudo em dois Caps AD III de São Paulo, Pierini e colaboradoras (2023) mostraram que mais de 86% das situações de crise foram manejadas no próprio serviço, sem necessidade de intervenção hospitalar ou de urgência. Contudo, foi necessária a articulação com a rede nos demais casos, o que demonstra boa capacidade do Caps em resolver a maioria das situações de crise e a importância da articulação de rede nos casos clinicamente mais complexos. 3.4.1 Abordagem inicial e avaliação das situações de crise Para o cuidado dessas situações, é relevante considerar diretrizes e técnicas que busquem: • priorizar a presença e a escuta; • a redução de riscos e danos; • o acolhimento e o desescalonamento verbal; • a atenção ao ambiente e ao contexto em que a crise foi identificada; • evitar o isolamento do usuário; • não promover intervenções coercitivas e/ou involuntárias; • não exercer práticas punitivas ou moralizantes. MINISTÉRIO DA SAÚDE 36 São estratégias úteis a avaliação imediata e a intervenção rápida em crises potenciais; a postura compreensiva e reconfortante; o uso de métodos de resolução de problemas; a oferta de espaço, escolhas e tempo para a pessoa pensar; bem como a identificação de fatores desencadeantes, fatores de proteção e formas de intervenção preferenciais reconhecidas pelo próprio usuário. O desescalonamento verbal e o manejo ambiental devem preceder qualquer intervenção farmacológica ou contenção (Brasil, 2013; Cruz, 2014). 3.4.2 Tomada de decisão apoiada A tomada de decisão apoiada deve ser considerada de forma estrutural na elaboração do PTS das pessoas com necessidades relacionadas ao uso de álcool e outras drogas, podendo constituir também uma estratégia relevante no cuidado às situações de crise. Trata-se da possibilidade de o próprio usuário indicar uma pessoa ou uma rede de confiança com quem possa discutir questões que a afetam, compreender melhor as opções disponíveis e comunicar suas escolhas e preferências à equipe (Brasil, 2015a; WHO, 2016). Pessoas ou redes de confiança do usuário podem auxiliar: • na discussão sobre escolhas terapêuticas; • na definição de estratégias de cuidado; • na pactuação de manejo para futuras crises; • na mediação entre equipes e usuário. É importante garantir que as ações dos profissionais em serviços territoriais no manejo de crise sejam guiadas pelo princípio da integralidade, mesmo que haja dificuldade na articulação e no compartilhamento de cuidado com a Raps, além de utilizar-se da perspectiva da redução de danos nas ações de cuidado, fortalecendo o modelo de cuidado da atenção psicossocial (Lúcio, 2022). 3.4.3 Redução de danos como diretriz ética e prática de cuidado A redução de danos constitui uma diretriz ética, clínica e política de cuidado que se consolidou internacionalmente nas décadas de 1980 e 1990, em resposta à constatação de que políticas exclusivamente proibicionistas ou centradas apenas na abstinência eram insuficientes para reduzir agravos à saúde e ampliar o acesso ao cuidado (Brasil, 2015a). GUIA DE ACOLHIMENTO À CRISE EM SAÚDE MENTAL NA REDE DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL (RAPS) 37 No campo da saúde pública, a redução de danos consolidou-se como abordagem baseada em evidências, centrada na proteção da vida, na diminuição de morbimortalidade e na ampliação do acesso aos serviços de saúde. A redução de danos baseia-se na justiça e nos direitos humanos. Organizações internacionais, como a OMS e o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), reconhecem a redução de danos como componente essencial das políticas de cuidado em saúde mental e de álcool e outras drogas (WHO; UNODC, 2020). No contexto do SUS, a redução de danos foi incorporada como princípio orientador do cuidado territorial na Raps, especialmente nos serviços que atendem pessoas com problemas relacionados ao uso de álcool e outras drogas, como Consultório na Rua, Caps, Caps AD e Unidades de Acolhimento (UA) (Brasil, 2011c, 2013, 2015a). Recentemente, a redução de danos foi incorporada nas normativas que orientam o funcionamento dos Centros de Convivência (Ceco) (Brasil, 2025). Nesse sentido, importa reconhecer que: • o uso de álcool e outras drogas é um fenômeno complexo, multifatorial e socialmente determinado; • a abstinência pode ser meta terapêutica, mas não deve ser condição prévia para acesso e continuidade do cuidado; • a exclusão ou a restrição do cuidado ao usuário