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II. DAS TEORIAS TRADICIONAIS ÀS TEORIAS CRÍTICASNascem os "estudos sobre as teorias tradicionais A existência de teorias sobre currí- diferentes épocas, bem antes da institucio- culo está identificada com a emergência do nalização do estudo do currículo como campo do currículo como um campo pro- campo especializado, não deixaram de fa- fissional, especializado, de estudos e pes- zer especulações sobre currículo, mes- quisas sobre o currículo. As professoras e mo que não utilizassem termo. professores de todas as épocas e luga- Mas as teorias educacionais e peda- res sempre estiveram envolvidos, de uma gógicas não são, estritamente falando, te- forma ou outra, com currículo, antes orias sobre currículo. Há antecedentes, mesmo que surgimento de uma palavra na história da educação ocidental mo- especializada como "currículo" pudesse derna, institucionalizada, de preocupa- designar aquela parte de suas atividades que ções com a organização da atividade hoje conhecemos como "currículo". A educacional e até mesmo de uma aten- emergência do currículo como campo de ção consciente à questão do que ensi- estudos está estreitamente ligada a pro- nar. A Didactica magna, de Comenius, é cessos tais como a formação de um corpo um desses exemplos. A própria emer- de especialistas sobre currículo, a forma- gência da palavra curriculum, no sentido ção de disciplinas e departamentos univer- que modernamente atribuímos ao ter- sitários sobre currículo, a institucionalização mo, está ligada a preocupações de orga- de setores especializados sobre currículo nização e método, como ressaltam as na burocracia educacional do estado e pesquisas de David Hamilton. termo surgimento de revistas acadêmicas espe- curriculum, entretanto, no sentido que cializadas sobre currículo. hoje lhe damos, só passou a ser utiliza- De certa forma, todas as teorias peda- do em países europeus como França, gógicas e educacionais são também teorias Alemanha, Espanha, Portugal muito re- sobre o currículo. As diferentes filosofias centemente, sob influência da literatu- educacionais e as diferentes pedagogias, em ra educacional americana. 21É precisamente nessa literatura que cação de massas de acordo com suas di- buscasse transformar radicalmente o siste- século XX. Mas ela iria concorrer com termo surge para designar um campo es- ferentes e particulares visões. É nesse ma educacional. Bobbitt propunha que a vertentes consideradas mais progressistas, pecializado de estudos. Foram talvez as momento que se busca responder ques- escola funcionasse da mesma forma que como a liderada por John Dewey, por condições associadas com a institucionali- tões cruciais sobre as finalidades e con- qualquer outra empresa comercial ou in- exemplo. Bem antes de Bobbitt, Dewey ti- zação da educação de massas que permiti- tornos da escolarização de massas. Quais dustrial. Tal como uma indústria, Bobbit que- nha escrito, em 1902, um livro que tinha a ram que campo de estudos do currículo objetivos da educação escolarizada: ria que sistema educacional fosse capaz palavra "currículo" no título, The child and surgisse, nos Estados Unidos, como um formar trabalhador especializado ou de especificar precisamente que resultados the curriculum. Neste livro, Dewey estava campo profissional especializado. Estão proporcionar uma educação geral, acadê- pretendia obter, que pudesse estabelecen muito mais preocupado com a constru- entre essas condições: a formação de uma mica, à população? que se deve ensi- métodos para obtê-los de forma precisa e ção da democracia que com funciona- burocracia estatal encarregada dos negó- nar: as habilidades básicas de escrever, ler formas de mensuração que permitissem mento da economia. Também em contraste cios ligados à educação; estabelecimento e contar; as disciplinas acadêmicas hu- saber com precisão se eles foram realmen- com Bobbitt, ele achava importante levan da educação como um objeto próprio de manísticas; as disciplinas científicas; as te alcançados. sistema educacional deve- em consideração, no planejamento curri- estudo científico; a extensão da educação habilidades práticas necessárias para as ria começar por de forma cular, interesses e as experiências das escolarizada em níveis cada vez mais altos ocupações profissionais? Quais as fontes precisa quais são seus objetivos. Esses ob- crianças e jovens. Para Dewey, a educação a segmentos cada vez maiores da popula- jetivos, por sua vez, deveriam se basean num não era tanto uma preparação para a vida principais do conhecimento a ser ensina- exame daquelas habilidades necessárias para ocupacional adulta, como um local de vi- ção; as preocupações com a manuten- do: conhecimento acadêmico; as disci- ção de uma identidade nacional, como exercer com eficiência as ocupações pro- vência e prática direta de princípios plinas científicas; os saberes profissionais fissionais da vida adulta. modelo de Bob- democráticos. A influência de Dewey, en- resultado das sucessivas ondas de imi- do mundo ocupacional adulto? que bitt estava claramente voltado para a tretanto, não iria se refletir da mesma gração; processo de crescente indus- deve estar no centro do ensino: os sabe- economia. Sua palavra-chave era "eficiên- forma que a de Bobbitt na formação do trialização e urbanização. res "objetivos" do conhecimento organi- cia". sistema educacional deveria ser tão currículo como campo de estudos. É nesse contexto que Bobbitt escre- zado ou as percepções e as experiências eficiente quanto qualquer outra empresa A atração e influência de Bobbitt de- ve, em 1918, livro que iria ser conside- "subjetivas" das crianças e dos jovens? Em econômica. Bobbitt queria transferir para a vem-se provavelmente ao fato de que sua rado marco no estabelecimento do termos sociais, quais devem ser as finali- escola modelo de organização proposto proposta parecia permitir à educação tor- currículo como um campo especializado dades da educação: ajustar as crianças e por Frederick Taylor. Na proposta de Bob- nar-se científica. Não havia por que dis- de estudos: The curriculum. livro de Bo- OS jovens à sociedade tal como ela existe bitt, a educação deveria funcionar de acor- cutir abstratamente as finalidades últimas bbitt é escrito num momento crucial da ou prepará-los para transformá-la; a pre- do com princípios da administração da educação: elas estavam dadas pela pró- história da educação estadunidense, num paração para a economia ou a prepara- científica propostos por Taylor. pria vida ocupacional adulta. Tudo que momento em que diferentes forças eco- ção para a democracia? A orientação dada por Bobbitt iria era preciso fazer era e mapear nômicas, políticas e culturais procuravam As respostas de Bobbitt eram claramen- constituir uma das vertentes dominantes quais eram as habilidades necessárias para moldar objetivos e as formas da edu- te conservadoras, embora sua intervenção da educação estadunidense no restante do as diversas ocupações. Com um mapa 22 23preciso dessas habilidades, era possível, to de padrões é tão importante na educa- estudos sobre currículo se tornam deci- É precisamente a esta questão que Tyler então, organizar um currículo que per- ção quanto, digamos, numa usina de fabri- didamente estabelecidos em torno da dedica a maior parte de seu livro. Tyler mitisse sua aprendizagem. A tarefa do es- cação de aços, pois, de acordo com Bobbitt, ideia de organização e desenvolvimento. identifica três fontes nas quais se devem pecialista em currículo consistia, pois, em "a educação, tal como a usina de fabrica- Apesar de admitir a filosofia e a socieda- buscar os objetivos da educação, afirman- fazer levantamento dessas habilidades, ção de aço, é um processo de moldagem". de como possíveis fontes de objetivos do que cada uma delas deve ser igualmen- desenvolver currículos que permitissem exemplo dado pelo próprio Bobbitt é para currículo, paradigma formulado te levada em consideração: estudos que essas habilidades fossem desenvol- esclarecedor. Numa oitava série, ilustra ele, por Tyler centra-se em questões de orga- sobre próprios aprendizes; 2. estudos vidas e, finalmente, planejar e elaborar algumas crianças realizam adições "a um nização e desenvolvimento. Tal como no sobre a vida contemporânea fora da edu- instrumentos de medição que possibili- ritmo de 35 combinações por minuto", modelo de Bobbitt, currículo é, aqui, cação; 3. sugestões dos especialistas das tassem dizer com precisão se elas foram enquanto outras, "ao lado, adicionam a um essencialmente, uma questão técnica. Ve- diferentes disciplinas. Aqui, Tyler expan- realmente aprendidas. ritmo médio de 105 combinações por jamos, de forma sintética, modelo pro- de modelo de Bobbitt, ao incluir duas Na perspectiva de Bobbitt, a questão minuto". Para Bobbitt, estabelecimento posto por Tyler. fontes que não eram contempladas por do currículo se transforma numa ques- de um padrão permitiria acabar com essa Bobbitt: a psicologia e as disciplinas aca- tão de organização. currículo é sim- variação. Nas últimas décadas, diz ele, os A organização e desenvolvimento do dêmicas. A segunda fonte é uma de- plesmente uma mecânica. A atividade educadores vieram a "perceber que é pos- currículo deve buscar responder, de acor- monstração de certa continuidade supostamente científica do especialista em sível estabelecer padrões definitivos para do com Tyler, quatro questões básicas: relativamente ao modelo de Bobbitt. currículo não passa de uma atividade vários produtos educacionais. A capa- que objetivos educacionais deve a escola Essas fontes gerariam, entretanto, um burocrática. Não é por acaso que con- cidade para a uma velocidade de procurar atingir?; 2. que experiências número excessivo de objetivos, os quais ceito central, nessa perspectiva, é "desen- 65 combinações por minuto [...] é uma es- educacionais podem ser oferecidas que poderiam, além disso, ser mutuamente volvimento curricular", um conceito que pecificação tão definida quanto a que se tenham probabilidade de alcançar esses contraditórios. Para consertar essa situa- iria dominar a literatura estadunidense pode estabelecen para aspecto do propósitos?; 3. como organizar eficiente- ção, Tyler sugere submetê-los a duas es- sobre currículo até os anos 80. Numa trabalho da fábrica de mente essas experiências educacionais?; 4. pécies de "filtros": a filosofia social e perspectiva que considera que as finali- modelo de currículo de Bobbitt iria como podemos ter certeza de que esses educacional com a qual a escola está com- dades da educação estão dadas pelas exi- encontrar sua consolidação definitiva num objetivos estão sendo alcançados?" As prometida e a psicologia da aprendizagem. gências profissionais da vida adulta, o livro de Ralph Tyler, publicado em 1949. quatro perguntas de Tyler correspondem Tyler insiste na afirmação de que os currículo se resume a uma questão de paradigma estabelecido por Tyler iria à divisão tradicional da atividade educa- objetivos devem ser claramente definidos desenvolvimento, a uma questão técnica. dominar o campo do currículo nos Esta- cional: "currículo" (1), "ensino e instrução" e estabelecidos. Os objetivos devem ser Tal como na indústria, é fundamental, dos Unidos, com influência em diversos (2 e 3) e "avaliação" (4). formulados em termos de comportamen- na educação, de acordo com Bobbitt, que países, incluindo o Brasil, pelas próximas Em termos estritos, pois, apenas a pri- to explícito. Essa orientação comporta- se estabeleçam padrões. estabelecimen- quatro décadas. Com o livro de Tyler, os meira questão diz respeito a "currículo". mentalista iria se radicalizar, aliás, nos anos 24 2560, com o revigoramento de uma tendên- educação universitária da Idade Média e que no século XIX tinham sido desenvol- com chamado movimento de "recon- cia fortemente tecnicista na educação do Renascimento, na forma dos chama- vidos pela perspectiva do "exercício men- ceptualização do currículo". Mas esta é estadunidense, representada, sobretudo, dos trivium (gramática, retórica, dialética) tal", segundo a qual a aprendizagem de uma outra história. por um livro de Robert Mager, Análise de e quadrivium (astronomia, geometria, mú- matérias como o latim, por exemplo, ser- objetivos, também influente no Brasil na sica, aritmética). Obviamente, currículo via para exercitar os "músculos mentais", Leituras mesma época. É apenas através dessa for- clássico humanista tinha implicitamente de uma forma que podia se aplicar a ou- HAMILTON, David. "Sobre as origens dos termos mulação precisa, detalhada e comporta- uma "teoria" do currículo. Basicamente, tros conteúdos. O modelo progressista, classe e Teoria e educação, 6, 1992: mental dos objetivos que se pode nesse modelo, objetivo era introduzir sobretudo aquele "centrado na p.33-51. às outras perguntas que cons- estudantes ao repertório das grandes atacava currículo clássico por seu dis- KLIEBARD, Herbert M. "Os princípios de Tyler". tituem paradigma de Tyler. A decisão obras literárias é artísticas das heranças tanciamento dos interesses e das experiên- In Rosemary G. Messick, Lyra Paixão e Lília da sobre quais experiências devem ser pro- clássicas grega e latina, incluindo domí- cias das crianças e dos jovens. Por estar R. Bastos (org.). Currículo: análise e debate. Rio: piciadas e sobre como organizá-las de- nio das respectivas línguas. Supostamen- centrado nas matérias clássicas, currí- Zahar, p.39-52. pende dessa especificação precisa dos te, essas obras encarnavam as melhores culo humanista simplesmente descon- KLIEBARD, Herbert M. "Burocracia e teoria do cur- objetivos. Da mesma forma, é impossível realizações e os mais altos ideais do espí- siderava a psicologia infantil. Ambas as rículo". In Rosemary G. Messick, Lyra Paixão e avaliar, como adiantava Bobbitt, sem que rito humano. conhecimento dessas contestações só puderam surgir, obvia- Lília da R. Bastos (org.). Currículo: análise e deba- se estabelecesse com precisão quais são obras não estava separado do objetivo de mente, no contexto da ampliação da es- te. Rio: Zahar, 1980: p.107-126. padrões de referência. formar um homem (sim, macho da es- colarização de massas, sobretudo da MOREIRA, Antonio F. B. e SILVA, Tomaz T. da. É interessante observar que tanto pécie) que encarnasse esses ideais. escolarização secundária que era foco do "Sociologia e teoria crítica do currículo: uma currículo clássico humanista. currículo introdução". In Antonio F.B. Moreira e Tomaz modelos mais tecnocráticos, como de Cada um dos modelos curriculares T. da Silva (orgs.). Currículo, sociedade e cultura. Bobbitt e Tyler, quanto modelos mais contemporâneos, tecnocrático e pro- clássico só pôde sobreviver no contexto São Paulo: Cortez, 1999: p.7-38. progressistas de currículo, como de gressista, ataca modelo humanista por um de uma escolarização secundária de aces- TYLER, Ralph W. Princípios básicos de currículo e ensi- flanco. tecnocrático destacava a abstra- so restrito à classe dominante. A demo- Dewey, que emergiram no início do sé- no. Porto Alegre: Globo, 1974. culo XX, nos Estados Unidos, constituíam, ção e a suposta inutilidade para a vida cratização da escolarização secundária de certa forma, uma reação ao currículo moderna e para as atividades laborais das significou também fim do currículo Nota clássico, humanista, que havia domina- habilidades e conhecimentos cultivados humanista clássico. não texto, as fontes de todas do a educação secundária desde sua ins- pelo currículo clássico. O latim e grego Os modelos mais tradicionais de cur- as citações estão listadas ao final do livro, na seção titucionalização. Como se sabe, esse e suas respectivas literaturas pouco rículo, tanto os técnicos quanto pro- "Referências currículo era herdeiro do currículo das serviam como preparação para trabalho gressistas de base psicológica, por sua vez, chamadas "artes liberais" que, vindo da da vida profissional contemporânea. Não se só iriam ser definitivamente contestados, Antiguidade Clássica, se estabelecera na aceitava, aqui, nem mesmo argumentos nos Estados Unidos, a partir dos anos 70, 26 27Onde a crítica começa: ideologia, reprodução, resistência Como sabemos, a década de 60 foi literatura inglesa reivindica prioridade para uma década de grandes agitações e trans- a chamada "nova sociologia da formações. Os movimentos de indepen- um movimento identificado com soció- dência das antigas colonias europeias; os logo inglês Michael Young. Uma revisão protestos estudantis na França e em vá- brasileira não deixaria de assinalar im- rios outros países; a continuação do mo- portante papel da obra de Paulo Freire, vimento dos direitos civis nos Estados enquanto os franceses certamente não Unidos; os protestos contra a guerra do deixariam de destacar o papel dos ensaios Vietnã; movimentos de contracultura; fundamentais de Althusser, Bourdieu e movimento feminista; a liberação sexual; Passeron, Baudelot e Establet. Uma avalia- as lutas contra a ditadura militar no Brasil: ção mais equilibrada argumentaria, entre- são apenas alguns dos importantes movi- tanto, que o movimento de renovação da mentos sociais e culturais que caracteri- teoria educacional que iria abalar a teoria zaram anos 60. Não por coincidência educacional tradicional, tendo influência foi também nessa década que surgiram não apenas teórica, mas inspirando verda- livros, ensaios, teorizações que colocavam deiras revoluções nas próprias experiên- em xeque pensamento e a estrutura cias educacionais, "explodiu" em vários educacional tradicionais. locais ao mesmo tempo. É compreensível que as pessoas en- As teorias críticas do currículo efetuam volvidas em revisar esses movimentos uma completa inversão nos fundamentos tendam a reivindicar a precedência para das teorias tradicionais. Como aqueles movimentos iniciados em seu modelos tradicionais, como de Tyler, por próprio país. Assim, para a literatura edu- exemplo, não estavam absolutamente cacional estadunidense, a renovação da ocupados em fazer qualquer tipo de ques teorização sobre currículo parece ter sido tionamento mais radical relativamente aos exclusividade do chamado "movimento de arranjos educacionais existentes, às formas Da mesma forma, a dominantes de conhecimento ou, de 29modo mais geral, à forma social dominan- lo, como, por exemplo, a "nova sociolo- O agora famoso ensaio do filósofo ideológicos de estado (a religião, a mídia, te. Ao tomar status quo como referência gia da educação" ou "movimento de re- francês Louis Althusser, A ideologia e os a escola, a família). desejável, as teorias tradicionais se concen- conceptualização" da teoria curricular. É aparelhos ideológicos de Estado, iria for- Na primeira parte do ensaio, travam, pois, nas formas de organização e importante, de qualquer forma, revisan necer as bases para as críticas marxistas dá, implicitamente, uma definição bastante elaboração do currículo. Os modelos tra- também aquelas teorias críticas mais ge- da educação que se seguiriam. Particu- simples de ideologia. A ideologia é consti- dicionais de currículo restringiam-se à ati- rais sobre educação pela influência que larmente, Althusser, nesse ensaio, iria tuída por aquelas crenças que nos levam a vidade técnica de como fazer currículo. teriam sobre desenvolvimento da teo- fazen a importante conexão entre edu- aceitar as estruturas sociais (capitalistas) As teorias críticas sobre o currículo, em ria crítica do currículo. Poderíamos cação e ideologia que seria central às existentes como boas e desejáveis. Essa contraste, começam por colocar em meçar por uma breve cronologia dos subsequentes teorizações críticas da definição é substancialmente modificada na questão precisamente pressupostos marcos fundamentais tanto da teoria edu- educação e do currículo baseadas na segunda parte do ensaio, na qual concei- dos presentes arranjos sociais e educa- cacional crítica mais geral quanto da teo- análise marxista da sociedade. A referên- to de ideologia se torna bastante mais com- cionais. As teorias críticas desconfiam do ria crítica sobre currículo: cia que Althusser faz à educação neste plexo, mas esta é uma outra discussão. A status quo, responsabilizando-o pelas de- 1970 Paulo Freire, A pedagogia do oprimido breve ensaio é bastante sumária. Essen- produção e a disseminação da ideologia é sigualdades e injustiças sociais. As teorias cialmente, argumenta Althusser, a perma- 1970 Louis Althusser, A ideologia e feita, como vimos, pelos aparelhos ideo- tradicionais eram teorias de aceitação, nência da sociedade capitalista depende aparelhos ideológicos de estado lógicos de estado, entre quais se situa, ajuste e adaptação. As teorias críticas são da reprodução de seus componentes de modo privilegiado, na argumentação de 1970 Pierre Bourdieu e Jean-Claude teorias de desconfiança, questionamento propriamente econômicos (força de Althusser, justamente a escola. A escola Passeron, A reprodução e transformação radical. Para as teorias trabalho, meios de produção) e da re- constitui-se num aparelho ideológico cen- 1971 Baudelot e Establet, L'école capita- críticas importante não é desenvolver produção de seus componentes ideoló- tral porque, afirma Althusser, atinge pra- liste en France técnicas de como fazer o currículo, mas gicos. Além da continuidade das condições ticamente toda a população por um período desenvolver conceitos que nos permitam 1971 Basil Bernstein, Class, codes and de sua produção material, a sociedade prolongado de tempo. compreender que currículo faz. V. / capitalista não se sustentaria se não hou- Como a escola transmite a ideologia? É preciso fazer uma distinção, inicial- 1971 Michael Young, Knowledge and con- vesse mecanismos e instituições encarre- A escola atua ideologicamente através de mente, entre, de um lado, as teorizações trol: new directions for the sociology gadas de garantir que status que não fosse seu seja de uma forma mais di of education críticas mais gerais como, por exemplo, contestado. Isso pode ser obtido através reta, através das matérias mais importante ensaio de Althusser sobre a 1976 Samuel Bowles e Herbert Gintis, da força ou do convencimento, da repres- ao transporte de crenças explícitas sobre ideologia ou o livro conjunto de Bourdieu Schooling in capitalist America são ou da ideologia. primeiro mecanis- a desejabilidade das estruturas sociais exis e Passeron, A reprodução, e, de outro, 1976 William Pinar e Madeleine Gru- mo está a cargo dos aparelhos repressivos tentes, como Estudos Sociais, aquelas teorizações centradas de forma met, Toward a poor curriculum de estado (a polícia, judiciário); segun- Geografia, por seja de uma for mais localizada em questões de currícu- 1979 Michael Apple, Ideologia e currículo do é responsabilidade dos aparelhos ma mais indireta, através de disciplinas 30 31mais "técnicas", como Ciências e Mate- um tipo de resposta: a escola contribui como um bom trabalhador capitalista. As trabalho que a educação contribui para mática. Além disso, a ideologia atua de for- para a reprodução da sociedade capitalis- relações sociais do local de trabalho capi- a reprodução das relações sociais de pro- ma discriminatória: ela inclina as pessoas ta ao transmitir, através das matérias es- talista exigem certas atitudes por parte dução da sociedade capitalista. Trata-se das classes subordinadas à submissão e à colares, as crenças que nos fazem ver os do trabalhador: obediência a ordens, pon- de um processo bidirecional. Num pri- obediência, enquanto as pessoas das clas- arranjos sociais existentes como bons e tualidade, assiduidade, confiabilidade, no meiro movimento, a escola é um reflexo ses dominantes aprendem a comandar e desejáveis. Baudelot e Establet, num livro caso do trabalhador subordinado; capa- da economia capitalista ou, mais especi- a controlar. Essa diferenciação é garanti- também agora clássico, A escola capitalista cidade de comandar, de formular planos, ficamente, do local de trabalho capitalis- de se conduzir de forma autônoma, no da pelos mecanismos seletivos que fazem na França, iriam desenvolver, em detalhes, ta. Esse reflexo, por sua vez, garante que, caso dos trabalhadores situados nos ní- a tese althusseriana. Caberia, entretanto, num segundo movimento, de retorno, com que as crianças das classes domina- veis mais altos da escala ocupacional. local de trabalho capitalista receba jus- das sejam expelidas da escola antes de a dois economistas estadunidenses, Sa- Como, no esquema de Bowles e Gintis, a tamente aquele tipo de trabalhador de chegarem àqueles níveis onde se apren- muel Bowles e Herbert Gintis, fornecer escola garante que essas atitudes sejam que necessita. dem os hábitos e habilidades próprios das uma resposta um pouco diferente àquela incorporadas à psique do estudante, ou classes dominantes. pergunta central sobre as conexões en- A crítica da escola capitalista, nesse es- seja, do futuro trabalhador? tágio inicial, não ficaria limitada, entretan- A problemática central da análise mar- tre produção e educação. A escola contribui para esse processo to, à análise marxista. Os sociólogos xista da educação e da escola consiste, Em seu livro, A escola capitalista na não propriamente através do conteúdo franceses Pierre Bourdieu e Jean-Claude como mostra exemplo de Althusser, em América, Bowles e Gintis introduzem explícito de seu currículo, mas ao espe- Passeron iriam uma crítica buscar estabelecen qual é a ligação entre conceito de correspondência para esta- no seu funcionamento, as relações da educação que, embora centrada no a escola e a economia, entre a educação e belecer a natureza da conexão entre es- sociais do local de trabalho. As escolas di- conceito de "reprodução", afastava-se da a produção. Uma vez que, na análise mar- cola e produção. Como vimos, rigidas aos trabalhadores subordinados análise marxista em vários aspectos. Além xista, a economia e a produção estão no enfatizava o papel do conteúdo das maté- tendem a privilegian relações sociais nas do conceito de "reprodução", a análise centro da dinâmica social, qual é papel rias escolares na transmissão da ideologia quais, ao praticar papéis subordinados, de Bourdieu e Passeron desenvolvia-se da educação e da escola nesse processo? capitalista, embora a definição de ideolo- estudantes aprendem a subordinação. Em através de conceitos que eram devedo- Como a escola e a educação contribuem gia que ele dava na segunda parte de seu contraste, as escolas dirigidas aos trabalha- res, embora apenas metaforicamente. de para que a sociedade continue sendo ensaio (a ideologia como prática) apontas- dores dos escalões superiores da escala conceitos econômicos. Mas, contraria capitalista, para que a sociedade conti- se para a possibilidade de uma outra utili- ocupacional tendem a favorecer relações mente à análise marxista, funcionamen- nue sendo dividida entre capitalistas (pro- zação desse conceito. Em contraste com sociais nas quais estudantes têm a opor- to da escola e das instituições culturais prietários dos meios de produção), de um essa ênfase no conteúdo, Bowles e Gintis tunidade de praticar atitudes de comando não é deduzido do funcionamento da lado, e trabalhadores (proprietários uni- enfatizam a aprendizagem, através da vi- e autonomia. É, pois, através de uma cor- nomia. Bourdieu e Passeron vêem, entre camente de sua capacidade de trabalho), vência das relações sociais da escola, das respondência entre as relações sociais da tanto, funcionamento da escola e da de outro? Althusser nos deu, como vimos, atitudes necessárias para se qualifican escola e as relações sociais do local de cultura através de metáforas econômicas. 32 33Nessa análise, a cultura não depende da por Bourdieu e Passeron para se referir às aqui, dois processos em funcionamento: como uma linguagem estrangeira: é incom- economia: a cultura funciona como uma estruturas sociais e culturais que se tor- de um lado, a imposição e, de outro, a preensível. A vivência familian das crian- economia, como demonstra, por exem- nam internalizadas. ocultação de que se trata de uma imposi- ças e jovens das classes dominadas não plo, a utilização do conceito de "capital domínio simbólico, que é domínio ção, que aparece, então, como natural. É os acostumou a esse código, que lhes apa- cultural". por excelência da cultura, da significação, a esse duplo mecanismo que Bourdieu e rece como algo estranho e alheio. re- Para Bourdieu e Passeron, a dinâmica atua através de um ardiloso mecanismo. Passeron chamam de dupla violência do sultado é que as crianças e jovens das da reprodução social está centrada no pro- Ele adquire sua força precisamente ao de- processo de dominação cultural. classes dominantes são bem-sucedidas na cesso de reprodução cultural. É através da finir a cultura dominante como sendo a Agora, onde entram a escola e a edu- escola, que lhes permite acesso aos reprodução da cultura dominante que a cultura. Os valores, os hábitos e costumes, cação nesse processo? Em Bourdieu e graus superiores do sistema educacional. reprodução mais ampla da sociedade fica comportamentos da classe dominante Passeron, contrariamente a outras análi- As crianças e jovens das classes domina- garantida. A cultura que tem prestígio e são aqueles que são considerados como ses críticas, a escola não atua pela incul- das, em troca, só podem encarar fra- valor social é justamente a cultura das clas- constituindo a cultura. Os valores e hábi- cação da cultura dominante às crianças e casso, ficando pelo caminho. As crianças ses dominantes: seus valores, seus gostos, tos de outras classes podem ser qualquer jovens das classes dominadas, mas, ao e jovens das classes dominantes veem seu seus costumes, seus hábitos, seus modos outra coisa, mas não são a cultura. Agora contrário, por um mecanismo que acaba capital cultural reconhecido e fortalecido. de se comportar, de agir. Na medida em é que vem truque. A eficácia dessa defi- por funcionar como um mecanismo de As crianças e jovens das classes domina- nição da cultura dominante como sendo a exclusão. currículo da escola está ba- das têm sua cultura nativa desvalorizada, que essa cultura tem valor em termos so- ciais; na medida em que ela vale alguma coi- cultura depende de uma importante ope- seado na cultura dominante: ele se ex- ao mesmo tempo que seu capital cultural, sa; na medida em que ela faz com que a ração. Para que essa definição alcance sua pressa na linguagem dominante, ele é já inicialmente baixo ou nulo, não sofre pessoa que a possui obtenha vantagens máxima eficácia é necessário que ela não transmitido através do código cultural qualquer aumento ou valorização. Com- materiais e simbólicas, ela se constitui como apareça como tal, que ela não apareça jus- dominante. As crianças das classes domi- pleta-se ciclo da reprodução cultural. É capital cultural. Esse capital cultural existe tamente como que ela é, como uma de- nantes podem facilmente essencialmente através dessa reprodução em diversos estados. Ela pode se manifes- finição arbitrária, como uma definição que esse código, pois durante toda sua vida cultural, por sua vez, que as classes sociais tar em estado objetivado: as obras de arte, não tem qualquer base objetiva, como uma elas estiveram imersas, tempo todo, se mantêm tal como existem, garantindo as obras literárias, as obras teatrais etc. A definição que está baseada apenas na for- nesse código. Esse código é natural para processo de reprodução social. cultura pode existir também sob a forma ça (agora propriamente econômica) da elas. Elas se sentem à vontade no clima Em geral, tem-se deduzido da análise de títulos, certificados e diplomas: é ca- classe dominante. É essa força original que cultural e afetivo construído por esse de Bourdieu e Passeron (e, particularmen- pital cultural institucionalizado. Finalmen- permite que a classe dominante possa de- código. É seu ambiente nativo. Em te, das análises individuais de Bourdieu) te, capital cultural manifesta-se de forma finir sua cultura como a cultura, mas nes- contraste, para as crianças e jovens das uma pedagogia e um currículo que, em incorporada, introjetada, internalizada. se mesmo definição oculta-se a classes dominadas, esse código é sim- oposição ao currículo baseado na cultura Nessa última forma ele se confunde com força que torná possível que ela possa im- plesmente indecifrável. Eles não sabem dominante, se centrariam nas culturas do- habitus, precisamente termo utilizado por essa definição arbitrária. Há, portanto, do que se trata. Esse código funciona minadas. Trata-se, provavelmente, de um 34 35mal-entendido. Sua análise não nos diz que Leituras Contra a concepção técnica: a cultura dominante é indesejável e que a ALTHUSSER, Louis. Aparelhos ideológicos de Estado. cultura dominada seria, em troca, desejá- Rio: Graal, 1983. os reconceptualistas vel. Dizer que a classe dominante define BOURDIEU, Pierre e PASSERON, Jean-Claude. arbitrariamente sua cultura como desejá- A reprodução. Rio: Francisco Alvez, 1975. No final dos anos sessenta, podia-se já com a Conferência sobre Currículo vel não é a mesma coisa que dizer que a BOURDIEU, Pierre. Escritos de educação. Petrópolis: dizer que a hegemonia da concepção téc- organizada pelo grupo, na Universidade cultura dominada é que é desejável. O que Vozes, 1999. (Organização de Maria Alice No- gueira e Afrânio Catani) nica do currículo estava com seus dias de Rochester, Nova York, em 1973. Bourdieu e Passeron propõem, através do BOWLES, Samuel e GINTIS, Herbert. La instrucción contados. Como vimos, esboçavam-se, em movimento de reconceptualização ex- conceito de pedagogia racional, é que as escolar en la América capitalista. México: Siglo XXI, vários países, ao mesmo tempo, movimen- primia uma insatisfação crescente de crianças das classes dominadas tenham 1981. tos de reação às concepções burocráticas pessoas do campo do currículo com uma educação que lhes possibilite ter na SILVA, Tomaz Tadeu da. que produz e que reproduz e administrativas de currículo. Em países parâmetros tecnocráticos estabelecidos escola a mesma imersão duradoura na em educação. Porto Alegre: Artes Médicas, 1992. como França e Inglaterra, contornos pelos modelos de Bobbitt e Tyler. As pes- cultura dominante que faz parte na mais gerais de uma teoria educacional crí- soas identificadas com que passou a ser lia da experiência das crianças das clas- tica tendiam a partir de campos não dire- conhecido como "movimento de recon- ses dominantes. Fundamentalmente, sua tamente pedagógicos ou educacionais, ceptualização" começavam a proposta pedagógica consiste em advogar como a sociologia crítica (Bourdieu, por uma pedagogia e um currículo que repro- que a compreensão do currículo como duzam, na escola, para as crianças das clas- exemplo) e a filosofia marxista (Althusser, uma atividade meramente técnica e ad- ses dominadas, aquelas condições que por exemplo). Nos Estados Unidos e Ca- ministrativa não se enquadrava muito bem apenas as crianças das classes dominantes nadá, entretanto, movimento de crítica com as teorias sociais de origem sobre- têm na família. às perspectivas conservadoras sobre cur- tudo européia com as quais elas estavam rículo tinha origem no próprio campo de Em seu conjunto, esses textos formam familiarizadas: a fenomenologia, a herme- estudo da educação. a base da teoria educacional crítica que iria nêutica, marxismo, a teoria crítica da se desenvolver nos anos seguintes. Eles Os antecedentes da rejeição dos pres- Escola de Frankfurt. Aquilo que, nas pers- podem ter sido amplamente criticados e supostos da concepção técnica de curri- pectivas tradicionais, era entendido como questionados na explosão da literatura crí- culo tal como consolidada pelo modelo de currículo era precisamente que, de acor- tica ocorrida nos anos 70 e 80, sobretudo Tyler esboçavam-se já nos escritos de au- do com aquelas teorias sociais, precisava por seu suposto determinismo econômi- tores como James McDonald e Dwayne ser questionado e criticado. Assim, por CO, mas, depois deles, a teoria curricular se- Huebner. Um movimento mais organiza- exemplo, do ponto de vista da fenome- ria radicalmente modificada. A teorização do e visível, entretanto, somente ia ganhar nologia, as categorias de aprendizagem, curricular recente ainda vive desse legado. impulso sob a liderança de William Pinar, objetivos, medição e avaliação nada tinham 36 37movimento de reconceptualização, tal em Edmund Husserl, sendo posterior- a ver com os significados do "mundo da ênfase não estava no papel das estruturas como definido por seus próprios iniciadores, mente desenvolvida por autores como vida" através dos quais as pessoas cons- ou em categorias teóricas abstratas (como pretendia incluir tanto as vertentes feno- Heiddegen e Merleau-Ponty. O ato feno- troem e percebem sua experiência. De ideologia, capitalismo, controle, dominação menológicas quanto as vertentes marxis- menológico fundamental consiste em sub- acordo com a perspectiva fenomenoló- de classe), mas nos significados subjetivos tas, mas as pessoas envolvidas nessas meter entendimento que normalmente gica, essas categorias tinham que ser que as pessoas dão às suas experiências últimas recusaram, em geral, uma identifi- temos do mundo cotidiano a uma sus- "postas entre parênteses", questionadas, pedagógicas e curriculares. Em ambas as cação plena com aquele movimento. Na pensão. A investigação fenomenológica para se chegar à "essência" da educação perspectivas tratava-se de desafiar mo- verdade, procuraram até distanciar-se de começa por colocar os significados ordi- e do currículo. Do ponto de vista mar- delos técnicos dominantes; em ambas as um movimento que viam como excessi- nários do cotidiano "entre parênteses". xista, para tomar um outro exemplo, a perspectivas procurava-se lançar mão de vamente centrado em questões subjetivas, Aqueles significados que tomamos como ênfase na eficiência e na racionalidade ad- estratégias analíticas que permitissem colo- como um movimento muito pouco políti- ministrativa apenas refletia a dominação can em xeque as compreensões naturaliza- naturais constituem apenas a "aparência" CO. Para autores de inspiração marxista, das do mundo social e, em particular, da das coisas. Temos que colocar essa apa- do capitalismo sobre a educação e cur- como Michael Apple, movimento de re- pedagogia e do currículo. No caso da feno- rência em dúvida, em questão, para que rículo, contribuindo para a reprodução conceptualização, embora constituísse um menologia, da hermenêutica, da autobiogra- possamos chegar à sua "essência". A in- das desigualdades de classe. questionamento do modelo técnico do- vestigação fenomenológica coloca em Esses dois exemplos refletem, aliás, um fia, entretanto, desnaturalizar as categorias minante, era visto como um recuo ao pes- questão, assim, as categorias do senso co- antagonismo entre os dois campos nos com as quais, ordinariamente, compreen- soal, ao narcisístico e ao subjetivo. Ao final, quais, nos Estados Unidos, dividiu-se a crí- demos e vivemos cotidiano, significa fo- mum, mas elas não são substituídas por rótulo da "reconceptualização" que ca- categorias teóricas e científicas abstratas. tica dos modelos tradicionais. De um lado, calizá-las através de uma perspectiva racterizou um movimento hoje dissolvido profundamente pessoal e subjetiva. Há um Ela está focalizada, em vez disso, na expe- estavam aquelas pessoas que utilizavam os no pós-estruturalismo, no feminismo, nos riência vivida, no "mundo da vida", nos conceitos marxistas, filtrados através de vínculo com social, na medida em que estudos culturais, ficou limitado às concep- significados subjetiva e intersubjetivamen- análises marxistas contemporâneas, como essas categorias são criadas e mantidas, in- ções fenomenológicas, hermenêuticas e te construídos. conceito de "significa- as de Gramsci e da Escola de Frankfurt, para tersubjetivamente e através da linguagem, autobiográficas de crítica aos modelos tra- do" não tem, para a fenomenologia, a crítica da escola e do currículo exis- mas, em última análise, foco está nas ex- dicionais de currículo. É por isso que, nesta mesmo sentido que, depois, teria para tentes. Essas análises enfatizavam papel periências e nas significações subjetivas. Em seção, limitaremos nossa discussão a es- uma semiologia estruturalista, a qual sur- das estruturas econômicas e políticas na re- contraste, na crítica de inspiração marxista, sas concepções. As perspectivas mais mar- produção cultural e social através da edu- desnaturalizar mundo "natural" da peda- ge e se desenvolve, de certa forma, pre- xistas e estruturais, como a de Michael cisamente em reação e oposição a ela. cação e do currículo. De outro lado, gogia e do currículo significa submetê-lo a Apple e a de Henry Giroux, serão trata- "significado", para a fenomenologia, não colocavam-se as críticas da educação e do uma análise científica, centrada em concei- das em outra seção. pode ser simplesmente determinado por currículo tradicionais inspiradas em estra- tos que as categorias de sen- A concepção contemporânea de feno- seu valor "objetivo" numa cadeia de tégias interpretativas de investigação, como so comum com as quais, ordinariamente, menologia tem origem, como sabemos, sições estruturais, como na semiologia. a fenomenologia e a hermenêutica. Aqui, a vemos e compreendemos aquele mundo. 39 38significado é, ao invés disso, algo pro- rompimento fundamental com a epis- é visto como experiência e como local de da vida cotidiana, rotineira, seja da pró- fundamente pessoal e subjetivo. Sua co- temologia tradicional. A tradição feno- interrogação e questionamento da expe- pria pessoa que faz a análise, seja das pes- nexão com social se dá não através de menológica de análise do currículo é riência. Na perspectiva fenomenológica, são, soas envolvidas na situação analisada. estruturas sociais impessoais e abstratas, aquela que talvez menos reconhece a primeiramente, as próprias categorias das Assim, para dar um exemplo pedagógico, mas através de conexões intersubjetivas. estruturação tradicional do currículo perspectivas tradicionais sobre currículo, uma professora iniciante poderia analisar Para a fenomenologia, significado mani- em disciplinas ou matérias. Para a pers- sobre pedagogia e sobre ensino que são sua própria experiência ao dar suas pri- festa-se na linguagem, através da lingua- pectiva fenomenológica, com sua ênfa- submetidas à suspensão e à redução feno- meiras aulas. Ela procuraria evitar, antes gem, mas é também aquilo que de certa se na experiência, no mundo vivido, nos menológicas. "Objetivos", "aprendizagem", de mais nada, uma descrição que se limi- forma escapa à linguagem ordinária, ao significados subjetivos e intersubjetivos, "avaliação", "metodologia" são todos con- tasse ao significado comumente atribuído senso comum implantado na linguagem. pouco sentido fazem as formas de com- ceitos de segunda ordem, que aprisionam a uma situação como essa, assim como Os verdadeiros significados de nossas preensão técnica e científica implicadas a experiência pedagógica e educacional do buscaria fugir de uma descrição demasia- experiências têm de voltar à linguagem na organização e estruturação do cur- mundo vivido de docentes e estudantes. damente dependente de categorias abs- para encontrar sua expressão, mas eles rículo em torno de disciplinas. As disci- Depois, é a própria experiência dos estu- tratas ou científicas. Ela se centraria, ao têm, antes, de certa forma, de ser recu- plinas tradicionais estão concebidas em dantes que se torna objeto da investiga- invés disso, na singularidade do significa- perados embaixo da linguagem, naquilo torno de conceitos científicos, instru- ção fenomenológica. Assim, enquanto no do que essa experiência tem para ela. Ela que foge à linguagem, no seu substrato. mentais, isto é, do mundo de segunda currículo tradicional os estudantes eram buscaria a "essência" dessa experiência, Intelectuais como Max van Mannen, ordem dos conceitos e não do mundo encorajados a adotar a atitude supostamen- não no sentido de uma "essência" ante- Ted Aoki (ambos do Canadá) e Madelei- de primeira ordem das experiências di- te científica que caracterizava as disciplinas rior, pré-existente, mas no sentido de ne Grumet (Estados Unidos), que estive- retas. No máximo, as disciplinas e maté- acadêmicas, no currículo fenomenológico uma "essência" que esteja para além das ram centralmente envolvidos, naqueles rias tradicionais aparecem como eles são encorajados a aplicar à sua pró- categorias tanto do senso comum quan- países, no desenvolvimento de uma com- categorias a serem questionadas, a se- pria experiência, ao seu próprio mundo to da ciência. Além de uma demorada preensão fenomenológica do currículo, rem "colocadas entre parênteses". vivido a atitude que caracteriza a investi- introspecção, a professora, transforma- não estavam preocupados tanto com Na perspectiva fenomenológica, cur- gação fenomenológica. da em analista fenomenológica, poderia aspectos filosóficos da fenomenologia rículo não é, pois, constituído de fatos, nem A atitude fenomenológica envolve, lançar mão dos significados que outras quanto com as possibilidades que a feno- mesmo de conceitos teóricos e abstratos: primeiramente, selecionar temas que pos- pessoas atribuem a essa situação, bem menologia apresentava para estudo do currículo é um local no qual docentes e sam ser submetidos à análise fenomeno- como dos significados com que a situação currículo. A perspectiva fenomenológica aprendizes têm a oportunidade de exami- lógica. Em geral, esses temas, como se possa ter sido descrita na literatura e na de currículo é, em termos epistemológi- nar, de forma renóvada, aqueles significa- depreende dos exemplos desenvolvidos A análise fenomenológica termina numa a mais radical das perspectivas críti- dos da vida que se acostumaram na literatura educacional de análise feno- escrita fenomenológica, na qual a analista cas, na medida em que representa um a ver como dados e naturais. O currículo menológica, são temas que fazem parte reconstitui, através da linguagem (sempre 40 41uma experiência de segunda ordem), a descrição objetiva, abstrata, universalizada, De forma geral, a hermenêutica, tal como verbo currere, em latim, correr. É, antes experiência vivida por ela ou por outras dos conceitos de tempo utilizados pela cri- desenvolvida modernamente por autores de tudo, um verbo, uma atividade e não pessoas envolvidas na situação. ança. Uma análise fenomenológica, em con- como Gadamer, destaca, em contraste uma coisa, um substantivo. Ao enfatizar Os temas submetidos à análise na lite- traste, procuraria os aspectos com a suposta existência de um significa- verbo, deslocamos a ênfase da "pista ratura fenomenológica sobre currículo subjetivos, vividos, concretos, situados, da do único e determinado, a possibilidade de corrida" para ato de "percorrer a parecem quase sempre "banais", precisa- experiência de tempo da criança. de múltipla interpretação que têm os pista". É como atividade que currículo mente porque são retirados da experiên- É precisamente caráter situacional, textos entendidos, aqui, não apenas deve ser compreendido uma atividade cia banalizada da vida cotidiana. Em certo singular, único, concreto da experiência como texto escrito, mas como qual- que não se limita à nossa vida escolar, edu- sentido, que a análise fenomenológica vivida aqui e agora que a análise quer conjunto de significados. Embora a cacional, mas à nossa vida inteira. procura é desbanalizá-los, torná-los, outra fenomenológica procura destacar. A aná- fenomenologia, tal como definida origi- Em oposição tanto às perspectivas tra- vez, significativos. Assim, por exemplo, um lise fenomenológica foge dos universais e nalmente por Husserl, esteja centrada dicionais quanto às perspectivas críticas conjunto de textos fenomenológicos di- abstratos do conhecimento científico, numa descrição das coisas tais como elas macrossociológicas, método autobiográ- vulgados recentemente pelo canadense conceitual, para se focalizar no concreto são, ela também envolve, em última aná- fico, na visão de Pinar, permite focalizar Max van Manen, na Internet, focaliza os e no histórico do mundo vivido. A análi- lise, a utilização de uma gama de estraté- concreto, singular, situacional, histó- seguintes temas, entre outros: a espera; se fenomenológica é, assim, profunda- gias interpretativas. rico na nossa vida. Ele permite conectar o sentir-se em casa; a saudação "como vai mente pessoal, subjetiva, idiossincrática. Já a autobiografia tem sido combinada individual ao social de uma forma que as você?"; a experiência de ser madrasta; a Em seus momentos mais reveladores, ela com uma orientação fenomenológica para outras perspectivas não fazem. método "malhação" (exercício físico); bem como é poética. Ela revela enfatizar aspectos formativos do cur- autobiográfico não se limita a desvelar os temas nem tão banais como a morte, a mais por evocar e sugerir do que por rículo, entendido, de forma ampla, como momentos e os aspectos formativos de doença e a experiência de se receber um mostrar e convencer. experiência vivida. Em alguns autores, nossa vida, sobretudo de nossa vida edu- diagnóstico médico. Algumas vezes Na teorização sobre currículo, a análi- como Wiliam Pinar, por exemplo, recor- cacional e pedagógica: ele próprio tem objeto da análise fenomenológica coincide se fenomenológica tem sido, frequentemen- re-se também a recursos analíticos da uma dimensão formativa, autotransfor- com o objeto de outros tipos de análise, te, combinada com duas outras estratégias psicanálise. Nessa perspectiva, método mativa. Em última análise, ao menos na mas a abordagem é radicalmente diferen- de investigação: a hermenêutica e a auto- autobiográfico nos permitiria investigan as linguagem dos anos iniciais de desenvol- te. Um dos textos mencionados focaliza, biografia. Por exemplo, Max van Manen, já formas pelas quais nossa subjetividade e vimento da perspectiva autobiográfica, a por exemplo, a noção de tempo da crian- citado, pratica aquilo que ele chama de identidade são formadas. William Pinar autobiografia tem um objetivo libertador, ça. Pode-se comparar, aqui, essa análise "hermenêutica uma recorre à etimologia da palavra curriculum emancipador. Ao permitir que se façam com aquelas análises de inspiração piagetia- abordagem combina as estratégias para dar-lhe um sentido renovado. Ele conexões entre conhecimento esco- na da mesma temática. A análise piagetia- da descrição fenomenológica com as es- destaca que essa palavra, significando ori- lar, a história de vida e o desenvolvimento na estaria centrada, provavelmente, numa tratégias interpretativas da hermenêutica. ginalmente "Rista de corrida", deriva do intelectual e profissional, a autobiografia 42 43A crítica neomarxista de Michael Apple contribui para a transformação do pró- a autobiografia poderia ser utilizada como prio eu. Na perspectiva da autobiogra- um recurso educacional nesse nível edu- fia, uma maior compreensão de si implica cacional, mas fica difícil pensar na auto- um agir mais consciente, responsável e biografia como uma abordagem única do início da crítica neomarxista às teo- outras esferas sociais, como a educação e comprometido. processo curricular. rias tradicionais do currículo e ao papel a cultura, por exemplo. Há, pois, uma re- Tal como a perspectiva mais geral de ideológico do currículo está fortemente lação estrutural entre economia e educa- análise fenomenológica do currículo, a au- Leituras identificado com pensamento de Michael ção, entre economia e cultura. Nos termos tobiografia, como uma visão epistemológi- MARTINS, Joel. Um enfoque fenomenológico do currí- Apple. Trabalhos anteriores, como os de da terminologia introduzida por autores ca que vai contra as formas racionalistas culo: educação como São Paulo: Cortez, Althusser e Bourdieu, por exemplo, tinham como Bernstein e Bourdieu, há um víncu- de conhecer das ciências sociais, não com- 1992. estabelecido as bases de uma crítica radi- lo entre reprodução cultural e reprodu- bina bem com a forma como currículo DOMINGUES, José Luiz. "Interesses humanos e cal à educação liberal, mas não tinham pro- ção social. Mais especificamente, há uma oficial está organizado, isto é, em torno de paradigmas curriculares". Revista brasileira de priamente tomado como foco de seu clara conexão entre a forma como a eco- matérias ou disciplinas. Talvez seja por isso estudos pedagógicos, 67(156), 1986: p.351-66. questionamento currículo e o conheci- nomia está organizada e a forma como que os exemplos dados nessa literatura mento escolar. Apple aproveita-se dessas currículo está organizado. tendam a se referir à área de formação críticas e de outras tradições da teoriza- Para Apple, entretanto, essa ligação não docente. William Pinar, por exemplo, su- ção social crítica mais ampla (Raymond é uma ligação de determinação simples e gere que se examine autobiograficamente Williams, por exemplo), para elaborar uma direta. A preocupação em evitar uma con- nossa vida escolar e educacional: como foi análise crítica do currículo que iria ser cepção mecanicista e determinista dos nossa experiência educacional quando muito influente nas décadas seguintes. vínculos entre produção e educação já entramos na escola; quais episódios lem- Apple toma como ponto de partida os estava presente em seu primeiro livro, bramos; quais nossos sentimentos nesses elementos centrais da crítica marxista da Ideologia e currículo, publicado pela primei- episódios; quais as conexões entre nosso sociedade. A dinâmica da sociedade capi- ra vez nos Estados Unidos em 1979, mas eu e conhecimento formal? Por seu talista gira em torno da dominação de ela iria se tornar ainda mais forte nos seus caráter autotransformativo, essa inves- classe, da dominação dos que detêm o con- livros posteriores. Basicamente, para ele, tigação autobiográfica seria extremamen- trole da propriedade dos recursos mate- não é suficiente postular um vínculo en- te importante no processo de formação riais sobre aqueles que possuem apenas tre, de um lado, as estruturas econômi- docente. A literatura autobiográfica é sua força de trabalho. Essa característica cas e sociais mais amplas e, de outro, a menos clara no que se refere à aplicação da organização da economia na sociedade educação e currículo. Esse vínculo é do método autobiográfico à educação de capitalista afeta tudo aquilo que ocorre em mediado por processos que ocorrem no crianças e jovens. Pode-se imaginar como 45 44campo da educação e do currículo e que Bernstein e Michael Young, que Michael ilegítimos. Nos modelos tradicionais, por exemplo, de Bowles e Gintis, que cha- são aí ativamente produzidos. Ele é me- Apple vai colocar currículo no centro conhecimento existente é tomado como maram a atenção para o papel exercido diado pela ação humana. Aquilo que ocor- das teorias educacionais críticas. Con- dado, como inquestionável. Se existe al- pelas relações sociais da escola no pro- re na educação e no currículo não pode trapondo-se às perspectivas tradicionais gum questionamento, ele não vai além de cesso de reprodução social. É o caso tam- ser simplesmente deduzido do funciona- sobre currículo, Apple vê currículo critérios epistemológicos estreitos de ver- mento da economia. em termos estruturais e relacionais. bém de Bernstein, que centrou sua análise É essa preocupação que leva Apple a currículo está estreitamente relaciona- dade e falsidade. Como consequência, menos naquilo que é transmitido e mais modelos técnicos de currículo limitam- do às estruturas econômicas e sociais na forma como é transmitido. De outro, recorrer ao conceito de hegemonia, tal mais amplas. currículo não é um corpo se à questão do "como" organizar cur- situam-se aquelas críticas que deram como formulado por Antonio Gramsci e neutro, inocente e desinteressado de rículo. Na perspectiva política postulada mais importância ao currículo explíci- desenvolvido por Raymond Williams. É nhecimentos. Contrariamente ao que por Apple, a questão importante é, ao in- to, oficial, ao "conteúdo" do currículo. conceito de hegemonia que permite ver supõe modelo de Tyler, por exemplo, vés disso, a questão do "por quê". Por que Pode-se dizer que este foi caso de campo social como um campo contes- tado, como um campo onde grupos currículo não é organizado através de um esses conhecimentos e não outros? Por Althusser, ao menos na primeira parte dominantes se veem obrigados a recor- processo de seleção que recorre às fon- que esse conhecimento é considerado de seu ensaio sobre a ideologia e apa- rer a um esforço permanente de conven- tes imparciais da filosofia ou dos valores importante e não outros? E para evitar relhos ideológicos de estado. Apple pro- cimento ideológico para manter sua supostamente consensuais da sociedade. que esse "por que" seja respondido sim- cura realizar uma análise que dê igual dominação. É precisamente através des- conhecimento corporificado no currí- plesmente por critérios de verdade e fal- importância aos dois aspectos do currí- se esforço de convencimento que a do- culo é um conhecimento particular. A se- sidade, é extremamente importante culo, embora se possa notar uma ênfase minação econômica se transforma em leção que constitui currículo é perguntar: "trata-se do conhecimento de ligeiramente maior no seu conteúdo ex- hegemonia cultural. Esse convencimento resultado de um processo que reflete quem?". Quais interesses guiaram a sele- plícito, naquilo que ele chama de "currí- atinge sua máxima eficácia quando se interesses particulares das classes e gru- ção desse conhecimento particular? Quais culo oficial". Ele considera necessário transforma em senso comum, quando se pos dominantes. são as relações de poder envolvidas no tanto aquilo que ele chama de naturaliza. campo cultural não é um sim- Na análise de Apple, a preocupação processo de seleção que resultou nesse do cotidiano escolar" ples reflexo da economia: ele tem a sua não é com a validade epistemológica do currículo particular? quanto currículo explícito; tanto ensi- própria dinâmica. As estruturas econô- conhecimento corporificado no currículo. No que concerne ao papel do currícu- no implícito de normas, valores e disposi- micas não são suficientes para garantir a A questão não é saber qual conhecimen- lo no processo de reprodução cultural e ções quanto pressupostos ideológicos consciência; a consciência precisa ser con- to é verdadeiro, mas qual conhecimento social, essa crítica inicial do currículo este- e epistemológicos das disciplinas que cons- quistada em seu próprio campo. é considerado verdadeiro. A preocupação é ve frequentemente dividida entre duas ên- tituem currículo oficial. É com esses elementos, acrescidos com as formas pelas quais certos conhe- fases. De um lado, estavam aquelas críticas Como boa parte da literatura socioló- de elementos tomados de empréstimo cimentos são considerados como legíti- que enfatizavam papel do chamado "cur- gica crítica sobre currículo desse período a autores como Pierre Bourdieu, Basil mos, em detrimento de outros, vistos como rículo oculto". nessa reprodução. É caso, inicial, Apple colocava uma grande ênfase, 46 47Em seu primeiro livro, Ideologia e cur- com desenvolvimento posterior da teo- em Ideologia e currículo, no processo que a de divisão da sociedade afetam rículo, Apple, em consonância com pa- rização crítica é que as contradições e re- escola exerce na distribuição do conheci- culo? Como a forma como currículo mento oficial. A suposição é de que a es- radigma marxista adotado, enfatizava as sistências iriam ganhar um papel mais processa conhecimento e as pessoas destacado. Ao dar ênfase ao conceito de cola simplesmente transmite e distribui relações sociais de classe, embora admi- contribui, por sua vez, para reproduzir tindo, talvez secundariamente, a importân- hegemonia, Apple chama atenção para conhecimento que é produzido em algum aquela divisão? Qual conhecimento de fato de que a reprodução social não é um outro lugar. Apple, entretanto, concede um cia das relações de gênero e raça no quem é privilegiado no currículo? Quais papel igualmente importante à escola como processo de reprodução cultural e social processo tranquilo e garantido. As pes- grupos se beneficiam e quais grupos são soas precisam ser convencidas da dese- produtora de conhecimento, sobretudo exercido pelo currículo. A importância prejudicados pela forma como currícu- atribuída a essas diferentes dinâmicas iria jabilidade e legitimidade dos arranjos lo está organizado? Como se formam re- daquilo que ele chama de "conhecimento sociais existentes. Mas esse convencimen- técnico". "conhecimento técnico" rela- se tornar mais equilibrada nos livros pos- sistências e oposições ao currículo oficial? teriores. que se manteria, entretanto, to não se dá sem oposição, conflito e re- ciona-se diretamente com a estrutura e Ao enfatizar essas questões, Michael Apple sistência. É precisamente esse caráter funcionamento da sociedade capitalis- era uma comum preocupação com contribui, de forma importante, para poli- ta, uma vez que se trata de conhecimento poder. que torna sua análise "política" conflagrado que caracteriza um campo tizar a teorização sobre currículo. cultural como do currículo. Como uma relevante para a economia e a produção. é precisamente essa centralidade atri- buída às relações de poder. Currículo e luta em torno de valores, significados e Obviamente, essa produção se dá princi- poder essa é a equação básica que es- propósitos sociais, o campo social e cul- palmente nos níveis superiores do siste- Leituras ma educacional, isto é, na universidade. trutura a crítica do currículo desenvolvi- tural é feito não apenas de imposição e domínio, mas também de resistência e APPLE, Michael. Ideologia e currículo. São Paulo: Mas na medida em que requisitos de da por Apple. A questão básica é a da Brasiliense, 1982. oposição. descrição do currículo como entrada na universidade pressionam os conexão entre, de um lado, a produção, distribuição e consumo dos recursos sendo também um campo de resistência APPLE, Michael. "Vendo a educação de forma currículos dos outros níveis educacionais, materiais, econômicos e, de outro, a pro- está apenas esboçada em Ideologia e cur- relacional: classe e cultura na sociologia do esses currículos refletem a mesma ênfa- nhecimento escolar". Educação e realidade. se no "conhecimento É esse dução, distribuição e consumo de recur- rículo. Ela seria reforçada posteriormente 11(1), 1986: p.19-34. tipo de conhecimento que acaba sendo sos simbólicos como a cultura, por influência, principalmente, da pesquisa visto como tendo prestígio, em detri- conhecimento, a educação e currículo. de Paul Willis relatada no livro Aprenden- APPLE, "Currículo e poder". Educação e realidade, 14(2), 1989: p.46-57. do a ser trabalhador. mento de outras formas de conheci- Como vimos, já em seu primeiro livro Em suma, na perspectiva de Apple, o APPLE, Michael. Educação e poder. Porto Alegre: mento, como o conhecimento estético Apple procurava construir uma perspec- Artes Médicas, e artístico, por exemplo. Trata-se de tiva de análise crítica do currículo que currículo não pode ser compreendido e mais um dos mecanismos pelos quais o transformado se não fizermos pergun- MOREIRA, Antonio Flavio B. A contribuição de incluísse as as contradições e Michael Apple para o desenvolvimento de uma tas fundamentais sobre suas conexões currículo se liga com o processo de re- ambiguidades do processo de reprodu- teoria curricular crítica no Brasil. Fórum educa- produção cultural e social. ção cultural e social. Entretanto, apenas com relações de poder. Como as formas cional, 1989, 13 (4), 49 48