Prévia do material em texto
MECÂNICA DOS SÓLIDOS AULA 01 – INTRODUÇÃO À MECÂNICA DOS SÓLIDOS Prezado(a) aluno(a), A mecânica dos sólidos é uma disciplina fundamental da engenharia que se dedica ao estudo do comportamento dos materiais sólidos sob a ação de forças externas. Essa área da mecânica abrange uma variedade de fenômenos, desde o comportamento estático de estruturas simples até a análise dinâmica de sistemas complexos. Ao compreender os princípios da mecânica dos sólidos, os engenheiros podem projetar estruturas eficientes e seguras, prever o desempenho de materiais em diferentes condições de carga e resolver uma ampla gama de problemas de engenharia. Na presente aula apresentaremos a evolução dos estudos da mecânica dos sólidos, bem como a apresentação de aplicações práticas em algumas áreas, assim como os maiores desafios presentes no tópico. Bons estudos! 1 INTRODUÇÃO À MECANICA DOS SÓLIDOS A mecânica dos sólidos aborda conceitos como tensão, deformação, rigidez, elasticidade, plasticidade e falha dos materiais. Esses conceitos são fundamentais para entender como os materiais respondem às forças aplicadas e como sua forma e propriedades podem ser afetadas. Além disso, a mecânica dos sólidos é essencial para o projeto e análise de estruturas civis, máquinas, veículos, dispositivos médicos, entre outros. Muitas coisas requerem uma estrutura para funcionar mecanicamente e desempenhar sua função, interagindo com o mundo físico real (um hardware) ou com uma ideia (um software). De aviões e pontes até computadores e discos rígidos e circuitos integrados, são necessárias estruturas mecânicas. Por esta razão, é importante começar com conceitos fundamentais de uma realização humana concreta. Mecânica é a ciência física que se concentra no estudo do comportamento dinâmico (que é diferente do comportamento químico ou térmico) de corpos sob a ação de perturbações mecânicas, como as forças. Como esse comportamento está envolvido em quase todas as situações na vida profissional de um engenheiro, a mecânica consiste no núcleo principal de grande parte da análise em engenharia. Na realidade, nenhuma outra ciência física exerce papel tão importante na engenharia quanto a mecânica, a mais antiga de todas as ciências físicas (SHAMES, 2002, p. 1). Popov (2019) define que sólidos, em contraste com fluidos, são conjuntos de materiais conectados que mantêm uma forma definida quando não estão sujeitos a quaisquer forças externas. Na Mecânica dos Meios Contínuos, os sólidos são vistos como um conjunto contínuo de pontos materiais identificáveis pela sua posição no espaço tridimensional. Um sólido é considerado rígido se a distância entre quaisquer dois de seus pontos não se altera ao longo do tempo; caso contrário, é considerado deformável. Em todas as construções, as peças componentes da estrutura devem ter tamanhos físicos definidos, com proporções adequadas para resistir às forças existentes ou prováveis impostas sobre elas. Por exemplo, as paredes de um reservatório de pressão devem ter resistência apropriada para suportar a pressão interna; os pavimentos de um prédio devem ser suficientemente fortes para suas finalidades; o eixo de uma máquina deve ter dimensão adequada para o torque aplicado; uma asa de avião deve suportar com segurança as cargas aerodinâmicas durante o voo ou a decolagem. Da mesma forma, as peças de uma estrutura composta devem ser suficientemente rígidas para evitar deflexão ou flexão excessiva sob carregamentos impostos. Um piso de edifício, por exemplo, deve ser suficientemente forte para sua finalidade, mas pode defletir excessivamente, resultando em desalinhamento do equipamento de produção em alguns casos, ou fissuras no teto de gesso do andar inferior em outros. Além disso, um membro estrutural pode ser tão delgado que, submetido a um carregamento compressivo, entra em colapso por flambagem, tornando-se instável. Dessa forma, é crucial a habilidade em determinar o máximo carregamento suportável por uma coluna delgada antes da flambagem, ou o nível seguro de vácuo que um recipiente pode manter. Na engenharia, todos esses requisitos devem ser atendidos com o mínimo gasto de material possível. Além do custo, em certos casos, como no projeto de satélites, a factibilidade e o sucesso da missão podem depender do peso total do conjunto. Anteriormente, textos que abordavam esses problemas eram denominados como "Resistência dos Materiais" ou "Mecânica dos Materiais". Embora o assunto também possa ser chamado de "Mecânica dos Sólidos Deformáveis", é importante destacar que grande parte do material apresentado neste texto é uma teoria técnica sobre corpos deformáveis, em contraste com a teoria matemática da elasticidade ou a teoria dos sólidos perfeitamente plásticos. De acordo com Assis (2016), o primeiro estudo elaborado a respeito da resistência dos materiais foi elaborado por Leonardo da Vinci, com interesse em fios metálicos, o estudioso italiano realizou estudos e ensaios sobre tração. Para Popov (2019), a mecânica dos sólidos é um campo de estudo com uma longa história. Seu conhecimento remonta ao trabalho de Galileu, na primeira metade do século XVII. Antes de sua investigação sobre o comportamento dos corpos sólidos sob carregamento, os construtores seguiam regras empíricas. Galileu foi o pioneiro em tentar explicar racionalmente o comportamento de alguns membros submetidos a carregamentos. Galileu estudou membros em tração e compressão, incluindo vigas usadas na construção de cascos de navios para a marinha italiana. Desde então, houve um progresso significativo, mas é importante observar que o desenvolvimento desse campo deve muito aos pesquisadores franceses do final do século XIX, como Coulomb, Poisson, Navier, St. Venant e Cauchy, que deixaram uma marca duradoura no assunto, que ainda está em constante evolução. A era espacial continua a apresentar demandas cada vez mais precisas e abrangentes. Assis (2016), afirma que a engenharia aeronáutica foi uma das principais responsáveis pelo desenvolvimento da mecânica dos sólidos no século XX, pois as estruturas dos aviões eram compostas por barras e cabos revestidas de tecido, e que com o desenvolvimento de ligas leves resistentes feitas de alumínio, a construção dos aviões passou a acontecer de maneira mais segura. No entanto, à medida que a complexidade geométrica aumentava devido à otimização do peso e ao aumento da velocidade, também se tornava necessário desenvolver métodos matriciais que permitissem a divisão da estrutura em elementos, facilitando a análise. Isso ocorreu no início dos anos 1950, quando o método da flexibilidade foi desenvolvido e equações de compatibilidade foram montadas, tendo as forças internas como incógnitas. Naquele momento, alguns cientistas demonstraram a superioridade do método da rigidez (ou dos deslocamentos) para lidar com estruturas complexas, antecedendo o que viria a ser conhecido como Método dos Elementos Finitos (MEF). Paralelamente a esses estudos, o desenvolvimento dos computadores digitais na década de 1950 proporcionou meios de cálculo para resolver sistemas de equações lineares provenientes dos novos métodos. E, por volta dos anos 1960, o MEF foi estabelecido em bases sólidas, encontrando aplicações em placas, cascas e sólidos bi e tridimensionais de forma arbitrária. Atualmente, o MEF se firmou como uma ferramenta universal para a análise de estruturas, possibilitando a base para diversos softwares comerciais altamente sofisticados. Segundo Assis (2016), o MEF pode ser aplicado também na análise de fluidos e em sua interação com estruturas, problemas de contato, fratura e fadiga, análise térmica e análise de campos eletromagnéticos. Isso é especialmente relevantena modelagem de sistemas híbridos, como os sistemas micro eletromecânicos (ou microssistemas), nos quais a interação entre os fenômenos estruturais, térmicos e eletromagnéticos pode ser intensa. Uma das poucas limitações do MEF seria a análise de altas frequências, nas quais o comprimento de onda é pequeno em comparação com as dimensões físicas da estrutura; nesses casos, os modelos de elementos finitos podem se tornar extremamente grandes e a solução pode se tornar inviável, mesmo para computadores muito potentes e avançados. Essa limitação tem motivado a pesquisa em métodos numéricos baseados em equações integrais, como o Método dos Elementos de Contorno, além de métodos de propagação de ondas (espectrais). A mecânica dos sólidos é amplamente aplicada em diversos setores da engenharia. Seus métodos são essenciais para projetistas de submarinos, engenheiros civis envolvidos no projeto de pontes e edifícios, engenheiros aeronáuticos, engenheiros de minas, arquitetos preocupados com estruturas, engenheiros mecânicos e químicos no projeto de máquinas e vasos de pressão, metalurgistas que buscam melhorar os materiais existentes, e até mesmo engenheiros eletricistas que dependem desses métodos para compreender a mecânica de muitas peças do equipamento elétrico. A mecânica dos sólidos possui métodos distintos e é uma disciplina fundamental em um currículo de engenharia, ao lado de outras disciplinas básicas como mecânica dos fluidos, termodinâmica e eletricidade básica. 1.1 Métodos das seções Para Popov (2019) o principal desafio da mecânica dos sólidos está presente na investigação da resistência interna e da deformação de um corpo sólido sujeito a carregamentos. Isso requer o estudo da natureza das forças que surgem dentro de um corpo para contrabalançar os efeitos das forças externas. Para isso, é empregado um método uniforme de resolução. Primeiramente, um esquema diagramático completo do membro em análise é preparado, no qual todas as forças externas atuantes sobre o corpo são representadas em seus respectivos pontos de aplicação. Esse esquema é conhecido como diagrama de corpo livre. Todas as forças que agem sobre o corpo, incluindo as reações provenientes dos apoios e o próprio peso do corpo, são consideradas forças externas. Além disso, como um corpo em repouso estável está em equilíbrio, as forças que atuam sobre ele satisfazem as equações do equilíbrio. Portanto, se as forças atuantes sobre o corpo, conforme mostrado na imagem 1(a), satisfazem as equações do equilíbrio estático e todas atuam sobre ele, o esquema representa o diagrama de corpo livre. Em seguida, como a determinação das forças internas decorrentes das externas é uma das principais preocupações do campo, uma seção arbitrária é passada pelo corpo, separando-o completamente em duas partes. O resultado desse procedimento pode ser observado na Figura 1(b) e (c), onde o plano arbitrário ABCD divide o corpo sólido original da Figura 1(a) em duas partes distintas. Esse processo é conhecido como método das seções. Portanto, se o corpo como um todo está em equilíbrio, qualquer parte dele também deve estar em equilíbrio. Entretanto, para essas partes de um corpo, algumas das forças necessárias ao equilíbrio devem atuar na seção de corte. Essas considerações levam à seguinte conclusão fundamental: as forças externas aplicadas a um lado de um corte arbitrário devem ser equilibradas pelas forças internas. Mais adiante, será visto que os planos de corte são orientados em uma direção específica para atender aos requisitos especiais. No entanto, o conceito acima mencionado é aplicável a todos os problemas nos quais as forças internas estão sendo investigadas. Figura 1 – Exemplo de corpo deformado Fonte: adaptado de Popov, 2019. Popov (2019), destaca que alguns corpos, embora não estejam em equilíbrio estático, podem estar em equilíbrio dinâmico. Esses problemas podem ser reduzidos a outros equilíbrios estáticos. Inicialmente, a aceleração da parte em questão é calculada, depois é multiplicada pela massa do corpo, dando uma força. A força calculada, caso aplicada ao corpo no seu centro de massa, em direção oposta à aceleração, reduz o problema dinâmico a outro estático. Esse é o princípio de d’Alembert. Todos os corpos podem ser imaginados como imediatamente em estado de equilíbrio estático. Dessa forma, qualquer corpo em equilíbrio estático ou dinâmico, pode-se preparar o diagrama de corpo livre, onde as forças necessárias para manter o corpo como um todo em equilíbrio são demonstradas. Em outras palavras, o princípio de d’Alembert, estabelece que, em um sistema em equilíbrio ou movimento, a soma das forças reais e das forças fictícias (ou virtuais) atuando sobre um corpo é igual a zero. As forças fictícias são introduzidas artificialmente e têm o objetivo de simplificar a análise do sistema, tornando-o estaticamente equivalente ao sistema original. As forças virtuais são chamadas assim pois não são reais, ou seja, não representam interações físicas reais, mas são introduzidas matematicamente para simplificar o problema. Elas são escolhidas de modo que o corpo esteja em equilíbrio ou movimento com velocidade constante. Isso permite que as equações de movimento sejam escritas de forma mais simples, muitas vezes reduzindo um problema dinâmico a um problema estático. O princípio de d'Alembert é especialmente útil na resolução de problemas envolvendo restrições de movimento, como as encontradas em sistemas mecânicos sujeitos a forças de reação ou em problemas envolvendo a análise de estruturas. Ele fornece uma abordagem sistemática para determinar as equações de movimento de um sistema mecânico, simplificando a análise e permitindo a obtenção de soluções mais facilmente. 1.2 Solução básica Popov (2019) explica que um membro simples é isolado por meio de um arranjo específico de elementos estruturais ou de máquinas. Esse membro é representado em um diagrama, onde todas as forças e reações que atuam sobre ele são indicadas, constituindo o corpo livre do membro. As reações são determinadas aplicando-se as equações da estática ou as condições de contorno com as equações diferenciais apropriadas. Nos problemas indeterminados, a estática é complementada por considerações cinemáticas. Uma seção perpendicular ao eixo do corpo é passada no ponto onde a magnitude da tensão é desconhecida, e uma parte do corpo, de um lado ou de outro da seção, é completamente removida. No trecho investigado da seção, o sistema de forças internas necessário para manter a parte isolada do membro em equilíbrio é determinado. Geralmente, esse sistema de forças consiste em uma força axial, uma de cisalhamento, um momento fletor e um conjugado (torque). Essas quantidades são encontradas tratando parte do membro como um corpo livre. Com o sistema de forças na seção devidamente resolvido, as fórmulas estabelecidas permitem determinar as tensões na seção considerada. Se a magnitude da máxima tensão na seção é conhecida, é possível selecionar o material apropriado para essa seção. Por outro lado, se as propriedades físicas de um material são conhecidas, pode-se escolher um membro com dimensões adequadas. Em certos problemas, o conhecimento da deformação de um membro em uma seção arbitrária, causada pelas forças internas, permite prever a deformação da estrutura como um todo e, se necessário, projetar membros que não sofram deflexão ou flexão excessiva (Figura 2). Figura 2 – Representação esquemática para um problema bidimensional Fonte: adaptado de Popov, 2019. A Figura 2 apresenta uma representação esquemática de algumas das etapas mencionadas acima para um problema bidimensional. Os dois corpos livres isolados do membro, através das seções a-a e b-b, respectivamente, são mostrados nas imagens2 (b) e (c). Assim sendo, é fundamental possuir a habilidade de visualizar a natureza das quantidades calculadas. Todas as quantidades consideradas na mecânica dos sólidos possuem um significado físico definido, muitas das quais podem ser interpretadas de forma esquemática. Os diagramas de corpo livre são de um auxílio valioso nesse processo. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ASSIS, A. R. de (org.), Mecânica dos sólidos, 1. Ed. São Paulo, SP. Pearson, 2016. POPOV, E. P. Introdução à mecânica dos sólidos, 1. Ed. São Paulo, SP. Blucher, 2019. SHAMES, I. H. Mecânica para engenharia: estática, 4. Ed. São Paulo, SP, Pearson Education do Brasil, 2002.