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MECÂNICA DOS SÓLIDOS AULA 06 – A TORÇÃO E OS EIXOS Prezado(a) aluno(a), Na presente aula, você continuará seus estudos a respeito da mecânica dos sólidos. Dessa vez o objetivo será a torção e os tipos de eixos. Aqui procuraremos definir o que é torção, torque, eixo, e centro de torção. Você terá também a oportunidade de aprender sobre a variação de deformação em corpo circular sujeito a torque, a fórmula de torção, bem como o cálculo do esforço dos eixos. Utilizaremos principalmente os autores Botelho (2013), Popov (2019) e Hibbeler (2018) para nos guiar nessa importante etapa do estudo. Bons estudos! 6 TORÇÃO E OS EIXOS Para o início de nossos estudos, é importante definir alguns conceitos básicos que serão observados mais adiante. De acordo com Hibbeler (2018) torção se refere ao giro de uma barra retilínea quando carregada por momentos (ou torques) que possuem a tendencia de produzir rotação sobre o eixo longitudinal da barra. O centro de torção é o ponto em torno do qual a seção transversal gira. Em seções simétricas, ele coincidirá com o centro de gravidade. O eixo de torção se refere ao lugar geográfico dos centros de torção. Hibbeler (2018) define torque como um momento em que tende a torcer um elemento em torno de seu eixo longitudinal. De acordo com o autor, seu efeito é uma preocupação primária no projeto de eixos de transmissão utilizados em veículos e maquinas; por esta razão é fundamental determinar a tensão e a deformação que acontece em um eixo quando está sujeito a cargas de torção. Membros cilíndricos que são sujeitos a torques e que transmitem potência através de rotação são denominados eixos. A maioria dos eixos possui seções transversais circulares, sólidas ou tubulares. De acordo com Popov (2019), algumas premissas básicas devem ser compreendidas. Para que se estabeleça uma relação entre o conjugado interno e as tensões decorrentes de suas aplicações em membros com seções transversais circulares e tubos cilíndricos, é necessário estabelecer várias premissas, em que a validade possa ser justificada posteriormente. As adições à homogeneidade do material são: • Uma seção plana do material, perpendicular ao eixo de um membro circular, permanece plana após a aplicação dos torques, isto é, nenhum empenhamento ou distorção acontece nos planos paralelos, normais ao eixo de um membro. • Em um membro circular sujeito à ação de um conjugado, as deformações angulares 𝛾 variam linearmente a partir do eixo central. Tal premissa pode ser ilustrada na Figura 1, em que um plano imaginário como 𝐴𝑂1𝑂3𝐶 é movido para 𝐴′𝑂1𝑂3𝐶, no momento que o torque é aplicado. Caso um raio imaginário 𝑂3𝐶 seja considerado com direção fixa, raios similares em 𝑂2𝐵 e 𝑂1𝐴 giram para novas posições 𝑂2𝐵 e 𝑂1𝐴. Esses raios continuaram retos. Figura 1 – Variação da deformação em um membro circular sob a ação de um toque Fonte: adaptado de Popov, 2019. É importante enfatizar que essas premissas se mantêm apenas para membros circulares furados. Para essa classe de membros tais premissas são muito boas, tanto é que Popov (2019) as aplica além do limite elástico de um material. O autor então conclui que a tensão de cisalhamento é proporcional a deformação angular. No interior de um membro, é difícil justificar as duas premissas de maneira direta. No entanto, após a dedução de formulas de tensão e deformação baseadas nelas, é possível verificar uma concordância inquestionável entre as quantidades medidas e as calculadas. Além do mais, suas validades podem ser rigorosamente demonstradas através dos métodos da teoria da elasticidade, que se baseiam nos requisitos de compatibilidade de deformação da Lei de Hooke generalizada. Botelho (2013) também nos explica esse fenômeno, para demonstrar o fenômeno, imagine que uma barra possui força F, atuando tangencialmente à sua seção. Tal força tenderá a girar a seção. Isso consiste em uma torção da seção, o que é diferente da flexão, que tendia a dobrar (flexionar) um eixo da barra. Através da Figura 2 é possível observar que o eixo da peça e a reta de suporte da ação que gera torção não estão no mesmo plano, em outras palavras, são reversos. A seção é torcida pela força F, o ponto A é forçado para girar e possui a tendencia de se deslocar de A para 𝐴1. Figura 2 – Torção Fonte: adaptado de Botelho, 2013. De acordo com Botelho (2013), nas construções mecânicas é importante diferenciar os conceitos de “eixos” do termo “árvores”. As “árvores” são os eixos que realizam transmissão de potência, enquanto os eixos são dispositivos que não transmitem potência mecânica. Barras sofrendo torção são geralmente árvores em situações típicas em construções mecânicas. Nessas situações, os eixos possuem, geralmente, seção circular. Historicamente rodas unidas por um eixo estão entre as principais criações da humanidade. Tais criações estão presentes desde de tempos imemoriais, e ao redor de todo o globo. Sejam rodas ou roletes, são peças que devido ao atrito, enfrentam forças tangenciais que causam momentos de torção nas estruturas. Na roda ou eixos, camadas são forçadas a escorregar sob camadas. O que as faz resistir é a coesão material (Figura 3). Figura 3 – Diagrama do momento torçor Fonte: adaptado de Botelho, 2013. No ponto A → momento torçor = 𝑀𝑡 = 𝐹 𝑟 Botelho (2013) nos explica que a força F multiplicada pelo braço de alavanca 𝑑 2⁄ (raio) gera o momento de torção. O momento de torção, também chamado de esforço solicitante gera no eixo uma tendencia de deslocamento de superfície sobre superfície. Nesse caso então teremos tensão de cisalhamento que são máximas nas periferias e nulas no centro da seção do eixo. Ao esforço solicitante, resiste o esforço resistente, que constitui a resistência do material ao cisalhamento. Existem grandes quantidades de eixos-roda diferentes. Alguns são eixos fixos ligados a rodas que giram graças a mancais, e existem sistemas eixos-rodas que giram de forma conjunta. De qualquer forma, existem esforços de atritos a serem vencidos e esses esforços de forma geral criam momentos de torção. Por esta razão é importante calcular os esforços nos eixos. 6.1 A fórmula de torção No momento em que um torque externo é aplicado a um eixo, ele criara um torque correspondente no interior do eixo. Se o material for linear elástico, a lei de Hooke se aplica, 𝜏 = 𝐺𝛾 ou 𝜏𝑚á𝑥 = 𝐺𝛾, e, em consequência, uma variação linear na deformação por cisalhamento leva a uma variação linear na tensão de cisalhamento correspondente ao longo da linha radial. Dessa forma, 𝜏 irá variar no valor, de zero no centro longitudinal, para um valor 𝜏𝑚á𝑥 em sua superfície externa. Dessa forma Hibbeler (2019) conclui que: 𝜏 = ( 𝑝 𝑐 ) 𝜏𝑚á𝑥. Como cada elemento da área dA, localizado em p, está sujeito a uma forma 𝑑𝐹 = 𝜏 𝑑𝐴, o torque produzido por esta força será 𝑑𝑇 = 𝑝( 𝜏𝑑𝐴) conforme a Figura 4. Para toda seção transversal teremos: 𝑇 = ∫ 𝑝( 𝜏𝑑𝐴) 𝐴 = ∫ 𝑝 ( 𝑝 𝑐 ) 𝐴 𝜏𝑚á𝑥𝑑𝐴. Entretanto 𝜏𝑚á𝑥/𝑐 é constante e, portanto, 𝑇 = 𝜏𝑚á𝑥 𝑐 ∫ 𝑝2𝑑𝐴 𝐴 . Figura 4 – Variação linear da tensão de cisalhamento Fonte: adaptado de Hibbeler, 2019. 6.2 Cálculo dos esforços nos eixos 𝑊𝑝 é denominado módulo polar da seção e vale para seções circulares: 𝑊𝑝 = 𝜋𝑑4 32 . 𝑑 2 = 𝜋𝑑3 16 ≈ 0,2𝑑3, dessa forma 𝜏𝑚á𝑥 = 𝑀 0,2𝑑3, portanto 𝑑 = 1,72√ 𝑀𝑡 𝜏 3 (Figura 5). Figura 5 – Flexão Fonte: adaptado de Botelho, 2013. 𝜎𝑐 = 𝜎𝑡 = 𝑀 𝐽 . ℎ 2 = 𝑀 𝑊 Figura 6 – Torção Fonte: adaptado de Botelho, 2013 𝜏𝑚á𝑥 = 𝑀𝑡 𝑊𝑝 Paraefeito de dimensionamento e objetivando uma economia material, deve- se procurar o diâmetro mínimo e será ele a causar no eixo valores próximos de 𝜏 (tensão admissível de cisalhamento). A torção nos eixos tenderá a girar os pontos externos, o que é interrompido pela coesão do material. Uma corda que é torcida é facilmente torcida, pois existe folga entre as fibras que a constituem, ou seja, a coesão do material “corda” é reduzida, dessa forma, as cordas não podem ser utilizadas em sistemas que usam a torção. Botelho (2013) para fins didáticos divide a torção em torção dinâmica e torção estática. De forma resumida, o autor conclui que na torção estática é criado um sistema para vencer a torção e para que o eixo não gire. Nesse caso o sistema estrutural torção estática possui maior resistência que a solicitação criada pela torção e o sistema se mantem estável. Na torção dinâmica, existe a intenção que o eixo de uma máquina gire, apesar dos atritos que geram um momento torçor oposto à tendência de giro e do esforço útil de movimentar as cargas. Procura-se vencer esse momento de torção. A Figura 7, demonstra um exemplo de torção dinâmica. Figura 7 – Torção dinâmica Fonte: adaptado de Botelho, 2013. O momento de torção útil vale F.r, é transmitido pelo eixo e é um momento ativo. O sistema reage com um momento torçor reativo igual F.r somado à tensão causada pelas forças de atrito. Botelho (2013) então questiona: qual é a potência que o eixo sofrendo pressão transmite? Para o autor a potência transmitida pelo eixo não é a potência do motor. A potência transmitida pelo eixo é necessária para levantar o peso F, na altura h, no tempo t e superar as resistências de atrito de todos os componentes do sistema. Para exemplificar a matéria estudada até o momento, imagine a seguinte situação: Um motor de 20 cv transmitindo ao eixo uma potência de 4 cv. Com o tempo e se os mancais não forem lubrificados para levantar o mesmo peso na altura h no tempo t, consome-se uma potência de 5,4 cv. A demanda de potência para atender ao primeiro item acima é constante e para atender ao segundo item pode ser variável. Se soubermos que a máxima potência a ser consumida pelo eixo será de 6 cv, dimensionaremos para essa o eixo. A única coisa que se espera do motor é que tenha potência superior a demanda do sistema. Caso a potência do motor seja inferior a requerida, com o tempo o motor “queimara”. Vamos calcular a demanda de uma para acionar um eixo, admitindo que não existem atritos. Na prática, é necessário aumentar essa potência de dimensionamento do eixo por sabermos que haverá atritos e que eles aumentarão a demanda, e o eixo terá que resistir a essa maior potência. Trabalho = força x distância. Dessa forma, quando o eixo dá uma volta, toda a força se desloca de 2𝜋𝑅. Em um eixo que dê n voltas por minuto, a potência será: 𝑃 = 𝑇 𝑡 = 𝑛.𝐹.2𝜋𝑅 𝑡 . Em que T representa o trabalho e t o tempo. Ao converter as unidades, 𝑃(ℎ𝑝) = 𝑇 60𝑥75 = 𝑛.𝐹.2𝜋𝑅 4500 . Sabendo que 𝑀𝑡 = 𝐹𝑥𝑅 , então 𝑃(ℎ𝑝) = 𝑛.𝑀𝑡 716 , onde n, representa a rotação e 𝑀𝑡 a potência do eixo de rotação. A tensão de cisalhamento nas bordas do eixo é: 𝜏𝑠 = 𝑀𝑡 𝑊𝑝 = 16.𝑀𝑡 𝜋𝑑3 𝑀𝑡 = 𝜋𝑑3.𝜏𝑠 16 , 𝑑 = 71. √ 𝑃(ℎ𝑝) 𝑛.𝜏𝑠 3 , 𝜏𝑠 = 1200𝑘𝑔𝑓/𝑐𝑚² (tensão admissível de cisalhamento do aço comum). De acordo com Popov (2019) as tensões de cisalhamento que agem nos planos axiais, seguem a mesma variação de intensidade que as tensões de cisalhamento nos planos perpendiculares ao eixo da barra. Botelho (2013) destaca que, semelhante aos esforços de flexão em que o uso de estruturas muito delgadas, pode levar a flambagem lateral, com perda na estabilidade, na torção pode acontecer também a perda da mesma. O autor denomina tal fenômeno como flambagem torcional, que pode ocorrer em casos que se utiliza eixos vazados de espessura reduzida. Em relação aos eixos, também é preciso diferenciar os eixos transmissores de potência, que podem ser eixos traseiros de um carro com tração traseira e eixos livres que seriam os eixos dianteiros do carro. Por hábito é possível imaginar que os eixos sempre possuem seção circular, entretanto o eixo mais comum no mundo é o eixo com seção quadrada. Em uma bicicleta, o eixo traseiro é o transmissor de potência de acionamento, enquanto o eixo dianteiro da roda é livre, esse tipo de eixo é denominado de árvore. No eixo transmissor de potência, o eixo sofrerá torção proporcional à potência transmitida, e o eixo livre a torção gerada pelo atrito é muito menor (Figura 8). Figura 8 – Eixos transmissores de potência Fonte: adaptado de Botelho, 2013. Onde: • 𝜏 – Tensão de cisalhamento, tendência a deslocamento das diversas camadas do eixo. É máxima na periferia e nula no centro; 𝑀𝑇 = 𝐹. 𝑑 – ação externa. • 𝐽𝑃 – Característica geométrica de seção transversal, geralmente circular. É denominada momento polar de inércia: 𝐽𝑃 = 𝜋 32 𝐷4 𝛼 = 𝑀𝑡.𝐿 𝐺.𝐽𝑃 𝛼 = 𝛼𝐿 • 𝛼 representa o ângulo de deformação causado pela ação de tração no eixo; • Δα representa a deformação na extremidade do eixo Δα = αL; • L corresponde ao comprimento do eixo até a seção considerada; • G representa o módulo de elasticidade transversal, característica do material do eixo. Quanto maior o valor de G, menor será a deformação sofrida pelo eixo, pois G causa na torção o mesmo que E causa na flexão, compressão e tração. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BOTELHO, M. H. C. Resistência dos materiais. 2 ed. São Paulo, Blucher, 2013. HIBBELER, R. C. Resistência dos Materiais, 10. ed. São Paulo, SP: Pearson, 2018. POPOV, E. P. Introdução à mecânica dos sólidos, 1. Ed. São Paulo, SP. Blucher, 2019.