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TUTORIA 3 - PERDA DE SANGUE Objetivo 1: Diferenciar a fisiopatologia, quadro clínico, diagnóstico, profilaxia e tratamento da trombose arterial e venosa. Trombose Venosa Profunda (TVP) Conceito A TVP é a oclusão parcial ou total de uma veia profunda por um trombo . As veias mais comumente afetadas são as da panturrilha (tibiais, fibulares, gastrocnêmias) , as veias poplítea, femoral e ilíaca . A formação do trombo impede o fluxo sanguíneo venoso normal , levando a estase e inflamação na parede do vaso. A principal preocupação com a TVP é o risco de desprendimento de parte do trombo , que pode migrar para a circulação pulmonar, causando uma embolia pulmonar. Epidemiologia A TVP é uma condição comum, com uma incidência anual estimada de 1 a 2 casos por 1.000 pessoas na população geral. A incidência aumenta significativamente com a idade , sendo rara em crianças e mais frequente em idosos . É ligeiramente mais comum em homens do que em mulheres. Fatores de risco incluem: ● Cirurgias (especialmente ortopédicas de grande porte); ● Trauma; ● Imobilização prolongada; ● Câncer; ● Gravidez e puerpério; ● Uso de contraceptivos orais; ● Terapia de reposição hormonal; ● Obesidade; ● Tabagismo; ● Trombofilias hereditárias ou adquiridas. Tríade de Virchow A patogênese da TVP é, classicamente, explicada pela Tríade de Virchow , que descreve os três fatores principais que contribuem para a formação de trombos venosos : 1. Estase Venosa: Refere-se à diminuição da velocidade do fluxo sanguíneo nas veias. Quando o sangue flui lentamente, os fatores de coagulação e as plaquetas têm mais tempo para interagir com o endotélio vascular, aumentando a probabilidade de formação de um coágulo . ➢ A estase pode ser causada por imobilização prolongada (repouso no leito, viagens longas), compressão venosa externa (tumores, gravidez), insuficiência cardíaca ou varizes. 2. Lesão Endotelial: É o dano à camada interna da parede do vaso sanguíneo (endotélio). ➢ Um endotélio íntegro possui propriedades antitrombóticas. Quando lesado, expõe o colágeno subendotelial e o fator tecidual, ativando a cascata de coagulação e a adesão plaquetária. ➢ A lesão endotelial pode ser causada por trauma direto , cirurgia , cateteres venosos centrais , infecção ou inflamação . 3. Hipercoagulabilidade: Refere-se a um estado de aumento da tendência do sangue a coagular. Pode ser: ➢ Primária → trombofilias hereditárias, como deficiência de antitrombina III, proteína C ou S, mutação do Fator V Leiden. ➢ Secundária → câncer, gravidez, uso de estrogênios, síndrome antifosfolípide, doenças inflamatórias crônicas. Nesses estados, há um desequilíbrio entre os fatores pró-coagulantes e anticoagulantes , favorecendo a formação de trombos. Etiologia A etiologia da TVP é multifatorial , com a presença de um ou mais componentes da Tríade de Virchow. As causas podem ser classificadas como provocadas (associadas a um fator de risco claro) ou não provocadas (idiopáticas). 1. Fatores de Risco "Fortes" (Alto Risco) ● Cirurgias de grande porte: Especialmente ortopédicas (quadril, joelho) e procedimentos prolongados. ● Traumas graves: Fraturas ósseas (principalmente de membros inferiores ou pelve) e lesões na medula espinhal. ● Câncer ativo: Pacientes oncológicos têm um estado de hipercoagulabilidade persistente devido à própria neoplasia e, muitas vezes, aos tratamentos (quimioterapia). ● Trombofilias hereditárias ou adquiridas: Como a Síndrome Antifosfolípide ou mutações genéticas (ex: Fator V de Leiden). 2. Fatores de Risco Moderados ● Uso de hormônios: Contraceptivos orais e terapia de reposição hormonal. ● Gravidez e Puerpério: O corpo passa por adaptações fisiológicas que aumentam a coagulabilidade e a pressão nas veias pélvicas. ● Internação hospitalar e repouso prolongado: A falta de movimentação (imobilidade) é um dos maiores gatilhos. ● Doenças crônicas: Insuficiência cardíaca congestiva, doenças pulmonares graves e histórico de AVC. 3. Fatores de Risco "Fracos" (ou associados) ● Idade avançada: O risco aumenta progressivamente, especialmente após os 40–55 anos. ● Obesidade: Aumenta a pressão nas veias e promove um estado inflamatório. ● Viagens de longa distância: Especialmente se durarem mais de 6 horas, devido à imobilidade prolongada em posição sentada. ● Tabagismo: Prejudica a saúde do endotélio (a parede interna dos vasos). ● Varizes: Podem contribuir para a estase venosa. ● Sedentarismo: A falta de contração muscular nas pernas dificulta o retorno venoso. Fisiopatologia A formação do trombo venoso é um processo complexo que envolve a interação dos componentes da Tríade de Virchow. Em veias de baixo fluxo , como as profundas dos membros inferiores, a estase sanguínea permite que os fatores de coagulação ativados se acumulem e superem os mecanismos anticoagulantes naturais. A lesão endotelial expõe o colágeno e o fator tecidual , que iniciam a cascata de coagulação extrínseca. As plaquetas aderem ao local da lesão e são ativadas, liberando substâncias que promovem a agregação plaquetária e a ativação de mais fatores de coagulação. A trombina, uma enzima central na coagulação, converte o fibrinogênio em fibrina, que forma uma rede estável que aprisiona plaquetas, glóbulos vermelhos e leucócitos, resultando na formação do trombo. ● Formação do Trombo: O trombo venoso é predominantemente composto por fibrina e glóbulos vermelhos, com uma cabeça de plaquetas. Ele se forma tipicamente nas válvulas venosas , onde o fluxo sanguíneo é mais turbulento e a estase é maior . O trombo pode crescer proximalmente e distalmente, ocluindo o lúmen da veia. A oclusão venosa leva a um aumento da pressão hidrostática distal ao trombo, resultando em edema e dor. Quadro Clínico ● Dor: Geralmente unilateral, na panturrilha ou coxa, que pode piorar com a dorsiflexão do pé ( sinal de Homans , embora inespecífico e pouco sensível). ● Edema: Inchaço do membro afetado, que pode ser unilateral e assimétrico em comparação com o membro contralateral. O edema é mole e pode deixar cacifo. ● Eritema e Calor : A pele sobre a veia trombosada pode estar avermelhada e quente ao toque devido ao processo inflamatório . ● Sensibilidade à Palpação: Dor à palpação da panturrilha ou ao longo do trajeto da veia profunda. ● Cianose: Em casos graves de oclusão venosa extensa (flegmasia cerulea dolens), pode haver cianose do membro devido à estase venosa severa. ● Veias Superficiais Dilatadas: Devido ao desvio do fluxo sanguíneo para as veias superficiais. Diagnóstico ● Ultrassonografia Doppler (USG Doppler) de Membros Inferiores: É o exame de escolha para o diagnóstico de TVP. É não invasivo, amplamente disponível e possui alta sensibilidade e especificidade. ➢ Motivo de solicitar: Permite visualizar diretamente o trombo, avaliar a compressibilidade da veia (uma veia trombosada não é compressível) e o fluxo sanguíneo venoso. É fundamental para confirmar a presença, localização e extensão do trombo. ● Dímero-D: É um produto de degradação da fibrina . ➢ Um resultado negativo para Dímero-D, em pacientes com baixa probabilidade clínica de TVP, tem alto valor preditivo negativo, ou seja, praticamente exclui o diagnóstico de TVP. ➢ Um resultado positivo , no entanto, é inespecífico e requer investigação adicional. ➢ Motivo de solicitar: Utilizado principalmente para excluir TVP em pacientes com baixa ou intermediária probabilidade clínica, conforme o escore de Wells. Não deve ser usado isoladamente para diagnosticar TVP. ● Flebografia: Exame invasivo que envolve a injeção de contraste na veia e radiografias. Era o padrão-ouro no passado, mas foi amplamente substituído pela USG Doppler. ➢ Motivo de solicitar: Raramente utilizado hoje em dia, reservado para casos diagnósticos difíceis ou quando a USG Doppler é inconclusiva. Complicações As complicações da TVP podem ser agudas ou crônicas. ● Tromboembolismo Pulmonar (TEP): É a complicação mais grave e potencialmente fatal da TVP. ➢ Ocorre quando um fragmento do trombo se desprende da veia profunda , viaja pela corrente sanguínea, passa pelo coração e se aloja nas artérias pulmonares , obstruindo o fluxo sanguíneo para os pulmões . ➢ Os sintomas incluem dispneia súbita, dor torácica pleurítica, taquicardia, tosse e, em casos graves, hipotensão e choque. ➢ O TEP é a principal causa de morte em pacientes com TVP não tratada. ● Síndrome Pós-Trombótica (SPT): Uma complicação crônica que ocorre em até 50% dos pacientes após uma TVP. ➢ É causada por danos às válvulas venosas e obstrução residual da veia , levando a hipertensão venosa crônica no membro afetado . ➢ Os sintomas incluem dor crônica, edema persistente, sensação de peso, pigmentação da pele, lipodermatoesclerose e úlceras venosas. Doença Arterial Obstrutiva Periférica (DAOP) Conceito A DAOP é a obstrução do fluxo sanguíneo arterial para as extremidades , geralmente devido à aterosclerose . As artérias mais comumente afetadas são as ilíacas, femorais, poplíteas e tibiais . A redução do fluxo sanguíneo resulta em isquemia (falta de oxigênio e nutrientes) nos tecidos distais à obstrução, levando a sintomas como dor ao caminhar (claudicação intermitente) e, em casos avançados, dor em repouso e lesões tróficas. Epidemiologia É mais comum em homens , mas a diferença diminui após a menopausa nas mulheres . Os principais fatores de risco são os mesmos da doença aterosclerótica em outros leitos vasculares: ● Aterosclerose: É a causa subjacente em mais de 95% dos casos de DAOP. A aterosclerose é uma doença inflamatória crônica das artérias, caracterizada pela formação de placas de ateroma na parede vascular . ● Fatores de Risco: Tabagismo (o mais importante e modificável), diabetes mellitus, hipertensão arterial, dislipidemia (colesterol elevado), idade avançada, obesidade, sedentarismo, história familiar de doença cardiovascular precoce e doença renal crônica. Aterosclerose A aterosclerose é o processo patológico fundamental na DAOP. É uma doença inflamatória crônica que afeta as artérias de médio e grande calibre. O processo começa com o dano ao endotélio vascular , geralmente devido a fatores de risco como hipertensão, dislipidemia e tabagismo. Esse dano permite a entrada de LDL na parede arterial, onde são oxidadas. Macrófagos englobam estas LDL oxidadas , tornando-se células espumosas , que formam as estrias gordurosas. Com o tempo, há proliferação de células musculares lisas, deposição de colágeno e formação de uma placa fibrosa , rica em lipídios, células inflamatórias e cálcio. Essa placa de ateroma cresce progressivamente, estreitando o lúmen arterial e comprometendo o fluxo sanguíneo . Formação da Obstrução Arterial A obstrução arterial na DAOP ocorre principalmente devido ao crescimento da placa de ateroma. À medida que a placa aumenta de tamanho , ela reduz o diâmetro interno da artéria , limitando o fluxo sanguíneo. Além disso, a placa pode se tornar instável e romper, expondo seu conteúdo trombogênico ao sangue. Isso pode levar à formação de um trombo agudo sobre a placa, causando uma oclusão súbita e completa da artéria. Fisiopatologia A fisiopatologia da DAOP é centrada na isquemia tecidual resultante da redução do fluxo sanguíneo arterial . A obstrução arterial impede que oxigênio e nutrientes cheguem aos músculos e outros tecidos dos membros inferiores em quantidade suficiente para atender às suas demandas metabólicas, especialmente durante o exercício. ● Claudicação Intermitente: É o sintoma clássico da DAOP. ➢ Ocorre quando a demanda metabólica dos músculos durante o exercício excede o suprimento de oxigênio disponível através das artérias estreitadas. ➢ A dor (geralmente tipo cãibra, aperto ou queimação) surge nos músculos da panturrilha, coxa ou glúteos, e é aliviada com o repouso . ➢ O local da dor geralmente indica o nível da obstrução (ex: dor na panturrilha sugere obstrução femoral-poplítea; dor na coxa/glúteos sugere obstrução ilíaca). Quadro Clínico ● Claudicação Intermitente: Dor muscular (cãibra, aperto, queimação) nos membros inferiores que surge com o exercício e melhora com o repouso . É o sintoma mais comum. ● Isquemia Crítica (ICM) - Dor em Repouso: Dor persistente no pé ou nos dedos, geralmente pior à noite e aliviada ao abaixar o membro. Indica isquemia crítica. ● Parestesias: Sensação de dormência, formigamento ou queimação nos pés ou pernas. ● Alterações Tróficas: Pele fria, pálida ou cianótica, perda de pelos nos membros inferiores, unhas espessas e quebradiças, atrofia muscular, úlceras que não cicatrizam (geralmente nos dedos ou proeminências ósseas), gangrena. ● Pulsos Diminuídos ou Ausentes: À palpação das artérias femorais, poplíteas, tibiais posteriores e pediosas. É um sinal físico crucial. ● Sopros Arteriais: Podem ser audíveis sobre as artérias femorais ou ilíacas. ● Tempo de Enchimento Capilar Prolongado: > 3 segundos. ● Palidez à Elevação e Rubor à Dependência: O membro fica pálido quando elevado e avermelhado quando abaixado , indicando comprometimento do fluxo sanguíneo. Diagnóstico ● Índice Tornozelo-Braquial (ITB): É o exame de triagem mais importante e não invasivo para DAOP. ➢ É a razão entre a pressão arterial sistólica medida no tornozelo (artéria tibial posterior ou pediosa) e a pressão arterial sistólica medida no braço (artéria braquial). ● Ultrassonografia Doppler Arterial de Membros Inferiores: Permite visualizar as artérias, identificar estenoses e oclusões, e quantificar o grau de obstrução e a velocidade do fluxo sanguíneo. ➢ Motivo de solicitar: Confirma o diagnóstico, localiza e quantifica as lesões obstrutivas, e auxilia no planejamento terapêutico. ● Angiotomografia (Angio-TC) ou Angiorressonância (Angio-RM): Exames de imagem mais detalhados que fornecem uma visão tridimensional da anatomia vascular e das lesões. ● Angiografia por Cateter: Exame invasivo que envolve a injeção de contraste diretamente nas artérias e a obtenção de imagens de raios-X. ➢ É considerado o padrão-ouro para o diagnóstico anatômico, mas é reservado para casos em que uma intervenção endovascular ou cirúrgica é planejada.Motivo de solicitar: Usado principalmente para planejamento terapêutico invasivo, pois permite a visualização detalhada das lesões e a possibilidade de intervenção no mesmo procedimento. Objetivo 2: Explicar epistaxe, hematúria e hemoptise ● Causas ● Quadro Clínico ● Diagnóstico ● Tratamento ● Profilaxia ● Epidemiologia Epistaxe - Sangramento Nasal Conceito: Epistaxe é a hemorragia proveniente da mucosa nasal, que pode se manifestar como um sangramento visível através das narinas ou escorrendo posteriormente para a faringe. É um sintoma , e não uma doença, indicando uma ruptura na integridade vascular da mucosa nasal . A maioria dos episódios é autolimitada e de pequena intensidade, mas uma parcela significativa pode ser grave, exigindo intervenção médica. ETIOLOGIA: Pode ser causado por fatores locais ou sistêmicos Locais: da epistaxe anterior com maior frequência são: ● Trauma (fraturas nasais ou manipulação digital); ● Infecções de vias aéreas superiores ; ● Inalação de ar frio e seco (grande parte dos quadros de epistaxe ocorre durante o inverno); ● Quadros alérgicos nasais ; ● Introdução de corpos estranhos na fossa nasal ; ● Inalação de irritantes químicos (cocaína, vapores de metais pesados). Cursam com ressecamento da mucosa e formação de crostas, propiciando sangramentos. Sistêmicos: da epistaxe posterior com maior frequência são: ● Hipertensão arterial (considerada a principal causa de epistaxe severa que motiva internação hospitalar) ● Coagulopatias (hemofilias, doença de Von Willebrand, hepatopatias) ○ Mecanismo: Comprometimento da hemostasia primária (formação de tampão plaquetário) ou secundária (formação da rede de fibrina), impedindo a interrupção do sangramento. ● Doenças hematológicas , que cursam com alteração quantitativa ou qualitativa de plaquetas ● Medicamentos ○ Anticoagulantes: Varfarina, Heparina. ○ Antiagregantes plaquetários: aspirina, clopidogrel. Anatomia Relevante: A irrigação sanguínea do nariz é complexa, proveniente de ramos das artérias carótidas interna e externa. Plexo de Kiesselbach (Área de Little) O Plexo de Kiesselbach, também conhecido como Área de Little , é uma rede vascular densa localizada na porção anteroinferior do septo nasal. É o local mais comum de sangramento nasal , responsável por aproximadamente 90% dos casos de epistaxe. Esta área é uma zona de anastomose entre as artérias: ● etmoidal anterior (ramo da carótida interna); ● esfenopalatina , labial superior e palatina maior (ramos da carótida externa). A mucosa nesta região é fina e vulnerável a traumas, ressecamento e inflamação. Epistaxe Anterior Origem: Geralmente se origina do Plexo de Kiesselbach . É o tipo mais comum de epistaxe, representando cerca de 90% dos casos. Características: O sangramento é visível, fluindo para fora das narinas. Tende a ser menos grave e mais fácil de controlar com medidas conservadoras (compressão nasal) . Epistaxe Posterior Origem: Geralmente se origina de vasos maiores e mais posteriores, como a artéria esfenopalatina ou as artérias etmoidais posteriores . É menos comum (cerca de 10% dos casos), mas tende a ser mais grave e de difícil controle. Características: O sangue escorre predominantemente para a orofaringe , podendo ser deglutido (levando a náuseas e vômitos) ou expectorado . Pode não ser visível externamente. Pacientes podem apresentar sinais de hipovolemia mais rapidamente. Quadro Clínico O quadro clínico da epistaxe é dominado pelo sangramento nasal, mas pode ser acompanhado por outros sintomas dependendo da gravidade e da etiologia. Sangramento Visível: O sinal mais óbvio é o sangue fluindo de uma ou ambas as narinas. A cor pode variar de vermelho vivo (sangramento ativo) a mais escuro (sangramento mais lento ou antigo). Sangramento Posterior: Em casos de epistaxe posterior, o paciente pode sentir o sangue escorrendo pela garganta. Isso pode levar a: ● Hematêmese: Vômito de sangue, se o sangue for deglutido em grande quantidade. ● Melena: Fezes escuras e pegajosas, se o sangue deglutido for digerido no trato gastrointestinal. Sinais de Hipovolemia: Em sangramentos graves, podem surgir sinais de perda volêmica: ● Palidez: Da pele e mucosas. ● Taquicardia: Aumento da frequência cardíaca. ● Hipotensão: Queda da pressão arterial. ● Tontura/Vertigem: Devido à hipoperfusão cerebral. ● Fraqueza/Mal-estar: Sensação geral de indisposição. ● Sudorese fria: Resposta simpática. Diagnóstico O diagnóstico da epistaxe é primariamente clínico, baseado na história e no exame físico. O objetivo é identificar a origem do sangramento, avaliar sua gravidade e determinar a causa subjacente. 1. Anamnese: ● Início, duração, frequência e volume do sangramento: Estimativa da quantidade de sangue perdido (ex: quantas toalhas foram encharcadas, se houve coágulos). ● Lateralidade: Unilateral ou bilateral. ● Direção do fluxo: Anterior (pelas narinas) ou posterior (para a garganta). ● Fatores precipitantes: Trauma, manipulação nasal, resfriado, uso de sprays nasais. ● História médica: Hipertensão, distúrbios de coagulação, doenças hepáticas/renais. ● Uso de medicamentos: Anticoagulantes, antiagregantes, AINEs. ● História familiar: Distúrbios de sangramento (ex: telangiectasia hemorrágica hereditária). 2. Exame Físico: ● Avaliação dos sinais vitais: Pressão arterial, frequência cardíaca, frequência respiratória, saturação de oxigênio para avaliar a estabilidade hemodinâmica e a gravidade da perda sanguínea. ● Inspeção da cavidade nasal: Com boa iluminação e espéculo nasal, tentar localizar o ponto de sangramento. Remover coágulos para melhor visualização. ● Oroscopia/Faringoscopia: Avaliar a presença de sangramento posterior escorrendo pela orofaringe. ● Exame da pele e mucosas: Palidez, petéquias, equimoses (sugerindo distúrbio de coagulação). 3. Exames Complementares (se necessário): ● Hemograma completo: Avaliar hemoglobina, hematócrito e contagem de plaquetas. Em sangramentos agudos, os valores podem estar inicialmente normais. ● Coagulograma: Tempo de protrombina (TP), tempo de tromboplastina parcial ativada (TTPa), INR (em uso de varfarina) para avaliar distúrbios de coagulação. ● Tipagem sanguínea e prova cruzada: Em casos de sangramento grave com potencial necessidade de transfusão. ● Endoscopia nasal: Pode ser realizada por um otorrinolaringologista para identificar a fonte do sangramento, especialmente em casos recorrentes ou de difícil controle. ● Exames de imagem (TC/RM): Raramente necessários para epistaxe simples, mas podem ser indicados para investigar tumores ou malformações vasculares subjacentes em casos selecionados. Hematúria Conceito Hematúria é a presença de glóbulos vermelhos na urina. Pode ser classificada em macroscópica ou microscópica. A hematúria macroscópica é visível a olho nu, conferindo à urina uma coloração avermelhada, rosada ou acastanhada. A hematúria microscópica , por sua vez, não é visível e é detectada apenas por exames laboratoriais, como a análise de urina (urinálise) que revela a presença de 3 ou mais glóbulos vermelhos por campo de grande aumento (CGA) . Epidemiologia É mais comum em idosos e em mulheres . A hematúria macroscópica é menos comum, mas tem uma maior associação com doenças urológicas significativas,incluindo malignidades. Fatores de risco para malignidade incluem idade avançada , tabagismo , exposição a produtos químicos e história de irradiação pélvica . Etiologia A etiologia da hematúria é vasta e pode ser dividida em causas glomerulares (doença renal intrínseca) e não glomerulares (do trato urinário ou sistêmicas). Causas Glomerulares: ● Glomerulonefrites: Inflamação dos glomérulos renais. ○ Podem ser primárias (ex: doença de Berger/Nefropatia por IgA, glomerulonefrite pós-estreptocócica, glomerulonefrite membranoproliferativa) ○ ou secundárias a doenças sistêmicas (ex: lúpus eritematoso sistêmico, vasculites como granulomatose com poliangiite, síndrome de Goodpasture ). ■ Mecanismo: Lesão da barreira de filtração glomerular, permitindo a passagem de eritrócitos para o filtrado urinário . Os eritrócitos são dismórficos (alterados em sua morfologia) devido à passagem por poros anormais e ao estresse osmótico no túbulo renal. Causas Não Glomerulares (Urológicas) : ● Cálculos Renais e Ureterais (Litíase Urinária): A passagem de cálculos pode causar trauma e lesão da mucosa do trato urinário. ○ Mecanismo: Laceração da mucosa do rim, ureter ou bexiga pelos cálculos, resultando em sangramento. ● Infecções do Trato Urinário (ITU): Cistite, pielonefrite, uretrite. A inflamação e a infecção podem causar hiperemia e fragilidade da mucosa. ○ Mecanismo: Inflamação da mucosa do trato urinário, levando à ruptura de pequenos vasos sanguíneos. ● Tumores do Trato Urinário: Câncer de bexiga, câncer renal (carcinoma de células renais), câncer de próstata, tumores de ureter ou pelve renal. São causas importantes, especialmente em idosos e tabagistas. ○ Mecanismo: A proliferação tumoral pode invadir e ulcerar a mucosa, causando sangramento. A vascularização tumoral é frequentemente frágil. ● Hiperplasia Prostática Benigna (HPB): Aumento da próstata que pode causar congestão vascular e sangramento, especialmente após esforço ou trauma mínimo. ○ Mecanismo: Aumento da vascularização e congestão venosa na próstata aumentada, com ruptura de vasos. ● Trauma Renal ou do Trato Urinário: Lesões diretas nos rins, bexiga ou uretra. ○ Mecanismo: Ruptura de vasos sanguíneos devido a impacto físico. Causas Não Glomerulares (Sistêmicas) : ● Distúrbios de Coagulação: Hemofilia, doença de von Willebrand, trombocitopenia, uso de anticoagulantes. ○ Mecanismo: Comprometimento da hemostasia, levando a sangramento prolongado em qualquer sítio, incluindo o trato urinário. ● Exercício Físico Intenso: Hematúria de marcha, comum em corredores de longa distância. ○ Mecanismo: Trauma repetitivo na bexiga ou nos rins durante o exercício intenso. Hematúria Glomerular Mecanismo: A hematúria glomerular ocorre devido a uma lesão na barreira de filtração glomerular, que normalmente impede a passagem de células sanguíneas para o filtrado. Em condições como as glomerulonefrites, a inflamação e o dano estrutural aos glomérulos permitem que os eritrócitos passem através da membrana basal glomerular e do epitélio podocitário danificado. Durante a passagem pelos túbulos renais, esses eritrócitos sofrem alterações morfológicas devido a variações de pH e osmolalidade, tornando-se dismórficos. ● Alterações Urinárias: ○ Eritrócitos Dismórficos: Característica marcante da hematúria glomerular. Observados no sedimento urinário, apresentam formas variadas, como células em anel, crenadas, com brotamentos ou fragmentadas. A presença de acantócitos (eritrócitos com projeções citoplasmáticas em forma de anel ou chifre) é altamente sugestiva de origem glomerular. ○ Cilindros Eritrocitários: Formados pela aglutinação de eritrócitos dentro dos túbulos renais, são patognomônicos de doença glomerular. Sua presença indica que o sangramento se origina nos rins. ○ Proteinúria: Geralmente presente e significativa (> 500 mg/dia), pois a lesão glomerular que permite a passagem de eritrócitos também compromete a seletividade da barreira para proteínas. ○ Cor da Urina: Pode ser marrom, cor de chá ou cola, devido à oxidação da hemoglobina no ambiente ácido da urina tubular. ○ Principais Doenças: Nefropatia por IgA (doença de Berger), glomerulonefrite pós-estreptocócica, glomerulonefrite rapidamente progressiva, síndrome de Alport, lúpus nefrite. Hematúria Não Glomerular Mecanismo: A hematúria não glomerular resulta de sangramento em qualquer parte do trato urinário após os glomérulos (túbulos, pelve renal, ureteres, bexiga, uretra) ou de fontes extrarrenais que contaminam a urina. Nesses casos, a barreira glomerular está intacta, e os eritrócitos não sofrem as mesmas alterações morfológicas. ● Alterações Urinárias : ○ Eritrócitos Isomórficos : Os eritrócitos mantêm sua forma bicôncava normal. Não há sinais de dismorfismo significativo. ○ Ausência de Cilindros Eritrocitários ○ Proteinúria: Geralmente ausente ou mínima ( 500 mg/dia) associada à hematúria é um forte indicativo de doençaglomerular . ○ Proteinúria mínima ou ausente sugere causa não glomerular. ● Creatinina: Nível sérico de creatinina, um marcador da função renal . ○ Motivo de solicitar: Avalia a função renal . ○ Um aumento da creatinina pode indicar comprometimento renal, comum em glomerulonefrites ou outras nefropatias. ● Ultrassonografia (USG) do Trato Urinário: Exame de imagem não invasivo que avalia rins, ureteres e bexiga. ○ Motivo de solicitar: Identifica cálculos, tumores, cistos, hidronefrose (dilatação do sistema coletor renal) e outras anormalidades estruturais que podem causar hematúria. ○ É um bom exame de rastreamento inicial para causas urológicas. ● Tomografia Computadorizada (TC) do Abdome e Pelve com Contraste (Uro-TC) : Exame de imagem mais detalhado que a USG. ○ Motivo de solicitar: Oferece melhor visualização de cálculos, tumores renais e de bexiga, anomalias vasculares e outras patologias do trato urinário. ○ É o exame de escolha para investigação de hematúria em pacientes com alto risco de malignidade. ● Cistoscopia: Procedimento endoscópico que permite a visualização direta da uretra e da bexiga. ○ Motivo de solicitar: É o padrão-ouro para identificar lesões na bexiga (tumores, inflamação, cálculos) e na uretra. ○ É fundamental na investigação de hematúria macroscópica ou microscópica persistente, especialmente em pacientes com fatores de risco para câncer de bexiga. Hemoptise Conceito Hemoptise é a eliminação de sangue pela boca , originário das vias aéreas inferiores (laringe, traqueia, brônquios e pulmões), geralmente acompanhada de tosse. O sangue expectorado costuma ser vermelho vivo , aerado e, por vezes, misturado com escarro ou muco. É fundamental diferenciá-la de hematêmese (vômito de sangue do trato gastrointestinal) e epistaxe posterior (sangramento nasal que escorre para a faringe e é deglutido ou expectorado), pois as causas e o manejo são distintos. Fisiopatologia O suprimento sanguíneo pulmonar é realizado pelos sistemas arteriais brônquico e pulmonar . Quando ocorre insultos específicos ao pulmão ou vias aéreas ocorre liberação de fatores de crescimento angiogênicos, que promovem neovascularização e surgimento de circulação colateral dos vasos adjacentes . Esses novos vasos, geralmente de paredes finas e frágeis, estão expostos a maiores pressões arteriais sistêmicas e mais propensos a sofrer ruptura , resultando em hemoptise. Etiologia A maioria dos episódios de hemoptise não apresenta risco de vida e tem origem na circulação da artéria pulmonar . As que ameaçam a vida e o sangramento geralmente derivam da artéria brônquica. As causas mais comuns de hemoptise sem risco de vida são bronquite aguda, bronquiectasias e câncer de pulmão. Em países subdesenvolvidos, a tuberculose ainda é causa frequente de hemoptise. Outras causas menos comuns incluem: ● Embolia ● Insuficiência cardíaca congestiva ● Corpo estranho inalado ● Fístulas das vias aéreas vasculares ● Lesões de Dieulafoy ● Infecções do parênquima, como pneumonia e abscesso pulmonar ● Distúrbios imunológicos, como síndrome de Goodpasture, lúpus eritematoso, granulomatose com poliangeíte ● Distúrbios genéticos, como síndrome de Ehlers-Danlos ● Hipertensão pulmonar venosa e arterial ● Malformações arteriais ● Trauma, incluindo iatrogênico ● Uso de cocaína, cigarro eletrônico ou vaping ● Endometriose, como foco pulmonar As causas comuns de hemoptise com risco de vida incluem bronquiectasia, tuberculose, carcinoma broncogênico e infecções fúngicas, especialmente aspergiloma. Características da hemoptise Os sintomas associados à hemoptise, os fatores de risco, assim como o volume de sangramento podem ajudar a identificar a causa. ● Febre, tosse produtiva: Pneumonia, traqueobronquite aguda ● Perda de peso: Tuberculose, câncer de pulmão, bronquiectasias, abscesso pulmonar, HIV ● Uso de anticoagulantes: Efeito medicamentoso, desordem de coagulação ● Associação com menstruação: Hemoptise catamenial ● Dispnéia e cansaço aos esforços, dispnéia paroxística noturna, ortopneia, escarro espumoso róseo: Insuficiência cardíaca congestiva, disfunção ventricular esquerda, estenose de válvula mitral ● História de doença pulmonar crônica, infecções do trato respiratório inferior recorrentes, tosse com abundante, escarro purulento: Bronquiectasias, abscesso pulmonar ● HIV, imunossupressão: Pneumonia, tuberculose, sarcoma de Kaposi, neoplasia ● Dor torácica pleurítica: Pneumonia, tromboembolismo com infarto pulmonar ● Tabagismo: Bronquite aguda e crônica, câncer de pulmão, pneumonia Avaliação de hemoptise Uma avaliação inicial deve incluir radiografia convencional de tórax em PA e perfil , podendo ser necessária em alguns casos tomografia computadorizada e broncoscopia . A tomografia geralmente é utilizada em pacientes com hemoptise recorrente, mesmo que tenham uma radiografia de tórax normal. A broncoscopia é geralmente utilizada como último recurso diagnóstico adicional. #Ponto importante: A malignidade pulmonar é encontrada em aproximadamente 10% dos pacientes com hemoptise que têm fatores de risco para câncer de pulmão e uma radiografia de tórax normal. Tratamento da hemoptise Nos casos de expectoração inicial, a causa benigna conhecida ou provável, como bronquite ou exacerbação de bronquiectasia conhecida, normalmente observamos. Isso porque, as principais causas de bronquites agudas são virais e nestes casos são autolimitadas. Se houver suspeita de infecção bacteriana , deve ser realizado o tratamento com antimicrobianos , geralmente utilizando esquemas com beta-lactâmicos , macrolídeos ou fluorquinolonas respiratórias . Nesses casos de volume baixo, ausência de fatores de risco para malignidade pulmonar e um radiografia de tórax normal, pode ser adiado uma avaliação mais aprofundada enquanto se aguarda uma recorrência ou aumento na quantidade de hemoptise. Caso ocorra permanência da hemoptise, exista fatores de risco para doenças mais complexas e malignidades, recorrência dos sintomas, uma avaliação adicional deve ser feita e o tratamento é baseado na causa subjacente. Após correta estabilização hemodinâmica do paciente com hemoptise maciça, a embolização da artéria brônquica é a primeira linha de tratamento para hemorragia da periferia pulmonar. É realizada para tratar hemoptises maciças ou recorrentes ou como medida pré-cirúrgica e proporciona hemostasia bem-sucedida em 75-98% dos casos.