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E-BOOK Doença Renal Crônica Injúria Renal Aguda e Marianna da Silva Morais Medicina de Cães e Gatos II SUMÁRIO Anatomia e fisiologia renal-------------------------------------------------------------------------3 DOENÇA RENAL CRÔNICA--------------------------------------------------------------------------4 Etiologia--------------------------------------------------------------------------------------------4 Fisiopatologia------------------------------------------------------------------------------------5 Sinais clínicos------------------------------------------------------------------------------------6 Diagnóstico---------------------------------------------------------------------------------------7 Estadiamento- IRIS-----------------------------------------------------------------------------8 Tratamento--------------------------------------------------------------------------------------10 Prevenção----------------------------------------------------------------------------------------11 INJÚRIA RENAL AGUDA-----------------------------------------------------------------------------12 Etiologia-------------------------------------------------------------------------------------------12 Fisiopatologia-----------------------------------------------------------------------------------13 Sinais clínicos------------------------------------------------------------------------------------14 Diagnóstico--------------------------------------------------------------------------------------15 Estadiamento-IRIS-----------------------------------------------------------------------------16 Tratamento--------------------------------------------------------------------------------------17 Prevenção----------------------------------------------------------------------------------------18 Considerações finais-------------------------------------------------------------------------19 Referências bibliográficas-------------------------------------------------------------------------20 Anatomia e fisiologia renal Os rins são órgãos pares, localizados retroperitonealmente, lateralmente à coluna vertebral, sendo o rim direito geralmente posicionado mais cranialmente que o esquerdo. São estruturas de coloração avermelhada, formato semelhante ao de um feijão, com consistência firme, e envoltos por uma cápsula fibrosa. A unidade funcional do rim é o néfron, composto por glomérulo, cápsula de Bowman, túbulos contorcidos (proximal e distal), alça de Henle e túbulo coletor. Em cães e gatos, estima-se que cada rim contenha cerca de 400.000 a 800.000 néfrons. O sangue chega aos rins pela artéria renal, que se ramifica em arteríolas aferentes. Estas irrigam os glomérulos, onde ocorre a filtração do plasma sanguíneo (Fig.1). O filtrado glomerular segue por todo o néfron, onde ocorre reabsorção seletiva de água e eletrólitos, além da secreção de substâncias. O conteúdo final forma a urina, que é coletada na pelve renal, conduzida pelos ureteres até a bexiga, sendo eliminada pela uretra. Além da função excretora, os rins participam ativamente na regulação da pressão arterial por meio do sistema renina-angiotensina-aldosterona, no equilíbrio ácido-base, na produção de eritropoetina (hormônio estimulador da medula óssea) e na ativação da vitamina D. A falência progressiva das estruturas renais, especialmente dos néfrons, compromete essas funções e está diretamente associada à instalação da Doença Renal Crônica (DRC), cujos efeitos metabólicos se manifestam em diversos sistemas do organismo animal. Fig. 1: Estrutura de um néfron. Fonte: TORTORA, 2016. 3 Ebook- DRC e IRA DOENÇA RENAL CÔNICA A Doença Renal Crônica (DRC) é uma afecção progressiva e irreversível que acomete cães e gatos, principalmente em idade avançada. Caracteriza-se pela perda lenta da função renal decorrente de lesões estruturais e funcionais nos néfrons. A doença pode se desenvolver ao longo de meses ou anos, resultando em alterações metabólicas, hidroeletrolíticas e endócrinas relevantes para a clínica veterinária. A DRC é considerada uma das enfermidades mais prevalentes em felinos geriátricos. Em cães, sua incidência também é significativa, especialmente em pacientes com histórico de doenças infecciosas ou exposição prolongada a fatores de risco, como uso de nefrotóxicos ou episódios de hipoperfusão renal. Em diversas regiões do país, clínicas veterinárias e hospitais universitários relatam aumento nos diagnósticos de DRC em pequenos animais, reflexo da maior expectativa de vida dos pets e do aprimoramento dos métodos diagnósticos. A condição é frequentemente diagnosticada tardiamente, quando mais de 75% da função renal já está comprometida. Assim como outras doenças crônicas, a DRC exige um plano terapêutico contínuo e individualizado. Seu manejo adequado pode retardar a progressão da lesão renal e garantir melhor qualidade de vida aos animais acometidos. A atuação precoce do médico-veterinário é fundamental para o sucesso do tratamento e para o suporte aos tutores durante todo o curso da enfermidade. A Doença Renal Crônica (DRC) é uma enfermidade que acomete principalmente cães e gatos idosos. Caracteriza-se pela perda lenta da função renal, associada à destruição e substituição dos néfrons funcionais por tecido fibroso. Em cães, frequentemente está relacionada a processos inflamatórios crônicos como glomerulonefrites e nefrite intersticial. Em gatos, é comum a associação com nefrite túbulo-intersticial idiopática, especialmente em animais acima de sete anos de idade. Doenças infecciosas, como leptospirose e pielonefrite, podem desencadear ou agravar o processo degenerativo renal. Da mesma forma, episódios repetidos de hipoperfusão renal (como em choques, desidratação severa ou insuficiência cardíaca) contribuem para a instalação da DRC. Fatores hereditários também estão envolvidos, sendo observada a poliquistose renal com frequência em raças como o Persa. Já a exposição prolongada a medicamentos nefrotóxicos, como aminoglicosídeos e anti-inflamatórios não Etiologia 4 Ebook- DRC e IRA esteroidais, constitui fator de risco importante, principalmente em pacientes hospitalizados ou com doenças concomitantes. Assim, a etiologia da DRC é multifatorial, e a progressão da doença está intimamente relacionada à perda de néfrons, inflamação crônica, isquemia renal e predisposição genética. Fisiopatologia Na DRC, há a perda progressiva e irreversível dos néfrons funcionais, que compromete a capacidade dos rins de manter a homeostase corporal. Inicialmente, os néfrons remanescentes passam por um processo de hipertrofia e hiperfiltração compensatória, aumentando temporariamente a taxa de filtração glomerular. Com o passar do tempo, esse processo leva à esclerose glomerular e fibrose intersticial, perpetuando o ciclo de dano renal. A lesão tubular impede a reabsorção de água e solutos, resultando em poliúria e perda de eletrólitos essenciais. A urina torna-se progressivamente diluída, com baixa densidade urinária (hipostenúria), e o animal manifesta polidipsia compensatória (PU/PD). Há acúmulo de substâncias nitrogenadas no sangue, como ureia e creatinina, caracterizando o quadro de azotemia. Esse excesso de compostos urêmicos compromete múltiplos sistemas, resultando em anorexia, náuseas, vômitos, gastrite urêmica e ulceração de mucosas. Além disso, a redução da taxa de filtração glomerular promove a retenção de fósforo, contribuindo para o hiperparatireoidismo secundário renal. Isso leva à desmineralização óssea progressiva, conhecida como osteodistrofia renal. O desequilíbrio ácido-base, geralmente na forma de acidose metabólica, agrava ainda mais a perda de função renal e os sinais clínicos sistêmicos. Em muitos pacientes, a produção renal de eritropoetina encontra-se reduzida, levando à anemia normocítica e normocrômica. A anemia contribui para a letargia,palidez de mucosas e intolerância ao exercício. Alguns animais podem desenvolver hipertensão arterial sistêmica em decorrência da ativação do sistema renina-angiotensina-aldosterona (SRAA), que, por sua vez, agrava ainda mais a proteinúria e a lesão glomerular. A progressão da doença é silenciosa, e o diagnóstico geralmente ocorre em fases avançadas, quando mais de 75% da função renal já foi comprometida. Em estágios terminais, pode haver convulsões, tremores, coma e morte, devido à intoxicação sistêmica por compostos nitrogenados. 5 Ebook- DRC e IRA Sinais Clínicos Os primeiros sinais clínicos são geralmente discretos e de evolução lenta (Fig 3). O animal passa a apresentar polidipsia e poliúria, reflexo da incapacidade dos rins em concentrar adequadamente a urina. A urina torna-se clara, em grande volume, e o tutor nota frequentemente o animal bebendo mais água que o habitual. Conforme a doença evolui, surgem anorexia, perda de peso (Fig. 4) e halitose urêmica, provocadas pelo acúmulo de ureia no sangue e sua excreção pelas glândulas salivares. A ureia irrita as mucosas orais, provocando estomatite, gengivite e úlceras na boca, dificultando a alimentação e agravando o estado nutricional do paciente (Fig. 2). Vômitos frequentes, apatia, letargia, pelagem opaca e desidratação persistente, mesmo com ingestão aumentada de água também é relatada. A perda contínua de líquidos e eletrólitos pela urina favorece o agravamento do quadro clínico. Alguns pacientes desenvolvem anemia normocítica e normocrômica, decorrente da redução na produção de eritropoetina pelos rins. Os sinais clínicos associados incluem palidez de mucosas, fraqueza muscular, intolerância ao exercício e taquipneia em repouso. Em casos mais graves, observa-se hipotermia, tremores, úlceras extensas, convulsões e coma urêmico. Nos gatos, a DRC apresenta particularidades importantes. Em geral, os felinos mantêm o apetite em fases iniciais, mas com o passar do tempo ocorrem emagrecimento progressivo, constipação, desidratação e retração da massa muscular lombar. Além disso, é comum a presença de halitose marcante e anemia crônica, mesmo com ingestão alimentar aparentemente normal. Em gatos idosos, a DRC é frequentemente subdiagnosticada, pois os sinais podem ser confundidos com o envelhecimento natural. Muitos permanecem alertas e interativos, mesmo apresentando azotemia significativa e proteinúria. Nos estágios terminais, os felinos manifestam letargia extrema, hipotermia, ulceração bucal severa e, em alguns casos, crises convulsivas ou coma, associados ao acúmulo de toxinas urêmicas e desequilíbrio hidroeletrolítico. Fig. 2: Úlceras orais em felino. Fonte: http://www.drzooecia.com.br/insuficiencia-renal-em-caes-e-gatos/ 6 Ebook- DRC e IRA O diagnóstico da DRC é realizado a partir da associação entre sinais clínicos persistentes, alterações laboratoriais compatíveis com disfunção renal e evidências de comprometimento estrutural dos rins. Trata-se de uma doença de evolução lenta, geralmente identificada em animais geriátricos com histórico de emagrecimento progressivo, apatia e aumento da ingestão de água. Durante o exame físico, os sinais mais frequentemente observados incluem desidratação, hálito urêmico, mucosas pálidas, pelagem opaca e perda de massa muscular. Em felinos, é comum a presença de rins pequenos, irregulares e firmes à palpação abdominal, característica de fibrose renal crônica. Nos cães, pode-se observar halitose marcante, ulceração bucal e fraqueza generalizada. Os exames laboratoriais são indispensáveis para a confirmação do diagnóstico. A dosagem sérica de ureia e creatinina é amplamente utilizada, embora só se eleve após a perda de aproximadamente 75% da função renal. O SDMA (dimetilarginina simétrica) tem se mostrado um marcador mais precoce, detectando disfunção glomerular antes mesmo da elevação da creatinina. A urinálise é essencial, devendo incluir a avaliação da densidade urinária, geralmente inferior a 1.030 em cães e 1.035 em gatos, o que indica incapacidade de concentração urinária. A presença de proteinúria persistente é outro achado comum, devendo ser quantificada por meio da relação proteína:creatinina urinária (UPC). Valores elevados reforçam o diagnóstico de nefropatia e auxiliam no estadiamento clínico. Nos exames de imagem, a ultrassonografia abdominal permite a avaliação anatômica dos rins. Em casos de DRC, observam-se rins reduzidos, com contornos irregulares, aumento da ecogenicidade cortical e perda da definição corticomedular (Fig. 5). Calcificações, cistos e sinais de fibrose avançada também podem estar presentes. Diagnóstico Fig. 3: Cão assintomático, em estágio 1 da DRC. Fig. 4: Cão com caquexia, em estágio 4 da DRC. 7 Ebook- DRC e IRA Figura: 5 (A): Ultrassonografia renal de gato não diagnosticado com DRC, a seta indica o sinal medular fino como uma linha fina, definida e hiperecoica. (B): Ultrassonografia renal de gato diagnosticado com DRC, as pontas da seta indicam o sinal medular característico, com maior espessura, contorno indefinido e hiperecoico. Fonte: CORDELLA et al., 2020. A medição da pressão arterial sistêmica deve ser rotineiramente realizada, principalmente em gatos, devido à alta frequência de hipertensão arterial associada à DRC, que contribui para a progressão da lesão renal e para o risco de complicações oculares, cardíacas e neurológicas. O diagnóstico é estabelecido quando há persistência, por 3 meses ou mais, de alterações laboratoriais e/ou morfológicas compatíveis com lesão renal crônica. A IRIS (International Renal Interest Society) propõe um sistema de estadiamento baseado em parâmetros como creatinina sérica, SDMA, proteinúria e pressão arterial, o que permite definir a gravidade da doença e orientar o manejo terapêutico. Estadiamento- IRIS O estadiamento da Doença Renal Crônica (DRC) é fundamental para orientar o manejo clínico, ajustar o tratamento conforme a gravidade do quadro e prever o prognóstico do paciente. A classificação mais adotada na medicina veterinária é a proposta pela IRIS (International Renal Interest Society), que divide a DRC em quatro estágios progressivos com base na concentração sérica de creatinina, complementada por marcadores adicionais. Inicialmente, realiza-se o estadiamento primário, utilizando como critério principal a creatinina sérica, associada ao SDMA (Symmetric Dimethylarginine) como marcador complementar. Posteriormente, o paciente é subestadiado com base na presença e gravidade da proteinúria e na pressão arterial sistêmica, que contribuem para a evolução da doença e risco de lesões em órgãos-alvo (Fig. 06). 8 Ebook- DRC e IRA No Estágio 1, a função renal ainda é preservada, embora possam ser observadas alterações estruturais ou leves elevações de SDMA. Os animais são geralmente assintomáticos, mas já requerem monitoramento e controle de fatores de risco. O Estágio 2 representa uma fase inicial de azotemia leve, com sinais clínicos discretos. O tratamento visa retardar a progressão da doença e prevenir complicações. No Estágio 3, observa-se azotemia moderada e sinais clínicos evidentes, como anorexia, vômitos e perda de peso. O manejo exige atenção especial à dieta, correção de distúrbios eletrolíticos e suporte sintomático contínuo. O Estágio 4 caracteriza-se por azotemia severa e manifestações clínicas intensas. Nessa fase, há alto risco de descompensações sistêmicas, uremia grave e alterações neurológicas. O grau de proteinúria é avaliado por meio da relação UPC (proteína:creatinina urinária), sendo classificados como: Sem proteinúria: UPC 0,5 (cães) ou > 0,4 (gatos) A pressão arterial sistêmica é classificada em quatro faixas de risco, variando de normotensa (180 mmHg), com risco crescente de lesões oculares, renais e encefálicas. O estadiamento IRIS deve serreavaliado periodicamente, principalmente após intervenções terapêuticas, internações ou alterações súbitas no quadro clínico. A aplicação criteriosa deste sistema possibilita o ajuste individualizado do tratamento e melhora da qualidade de vida do paciente. Fig. 6: Estadiamento da Doença Renal Crônica. Fonte: https://equalisveterinaria-ne.com.br/doenca-renal-cronica-em-caes-e-gatos/ 9 Ebook- DRC e IRA Tratamento O tratamento é direcionado conforme o estágio clínico do paciente, de acordo com os critérios propostos pela IRIS. O manejo é sempre conservador e visa retardar a progressão da lesão renal, controlar os sinais clínicos, corrigir desequilíbrios metabólicos e manter a qualidade de vida do animal por meio de intervenções nutricionais, farmacológicas e sintomáticas. No Estágio 1, o animal não apresenta azotemia, mas pode haver alterações estruturais, proteinúria leve ou elevação isolada de SDMA. A abordagem inicial inclui: Dieta renal especializada, com proteína de alta digestibilidade e teor reduzido de fósforo; Monitoramento semestral de ureia, creatinina, SDMA, UPC e pressão arterial; Correção de causas subjacentes, como pielonefrite ou nefrotoxicidade medicamentosa. No Estágio 2, há azotemia leve e sinais clínicos discretos, como poliúria e polidipsia. O tratamento foca em: Manutenção da dieta renal com baixa proteína e fósforo; Uso de quelantes de fósforo se o fósforo sérico estiver elevado; Hidratação contínua e acesso irrestrito à água; Introdução de anti-hipertensivos (IECA ou bloqueadores de cálcio) em casos de pressão arterial ≥160 mmHg. O Estágio 3 envolve azotemia moderada, com manifestações clínicas como anorexia, vômito, perda de peso e halitose urêmica. Nessa fase, o plano terapêutico deve incluir: Fluídoterapia intermitente ou contínua, preferencialmente por via subcutânea em ambiente domiciliar; Antieméticos (como maropitant ou metoclopramida) para controle de náuseas; Protetores gástricos (como sucralfato ou omeprazol) em casos de ulceração; Suplementação vitamínica e ferro, se houver anemia; Monitoramento mensal e ajustes frequentes na dieta e nos fármacos. No Estágio 4, há azotemia severa e sintomas urêmicos marcantes. O tratamento é intensivo e paliativo, com foco no conforto do animal: Dieta altamente palatável e específica para doença renal; Fluidoterapia intravenosa, se necessário; Terapia antianêmica com eritropoetina recombinante em casos de anemia profunda; Controle rigoroso da pressão arterial e da proteinúria; 10 Ebook- DRC e IRA Redução da carga de fósforo com quelantes mais potentes, mesmo na ausência de apetite; Cuidados com úlceras orais, convulsões e hipotermia; Acompanhamento frequente com reavaliações semanais ou quinzenais, conforme gravidade. O plano terapêutico deve ser individualizado, considerando a resposta clínica, o perfil laboratorial e as condições do tutor para manejo domiciliar. Mesmo sem cura, é possível prolongar a sobrevida com qualidade de vida satisfatória, especialmente quando o diagnóstico é realizado precocemente e o estadiamento é corretamente aplicado. Prevenção A prevenção da Doença Renal Crônica (DRC) baseia-se no monitoramento precoce, na evitação de fatores de risco e na promoção da saúde renal ao longo da vida do animal. Animais idosos ou com histórico de infecções urinárias, desidratação, uso de nefrotóxicos ou doenças sistêmicas devem ser avaliados periodicamente por meio de exames laboratoriais (ureia, creatinina, SDMA, urinálise) e aferição da pressão arterial. É fundamental garantir acesso constante à água limpa, utilizar medicamentos com cautela, manter uma alimentação adequada à faixa etária e identificar precocemente sinais como poliúria e polidipsia. A adoção de check-ups geriátricos semestrais permite diagnosticar alterações renais iniciais, retardando a progressão da doença e garantindo mais longevidade e qualidade de vida aos cães e gatos acometidos. 11 Ebook- DRC e IRA INJÚRIA RENAL AGUDA A Injúria Renal Aguda (IRA) é uma síndrome clínica caracterizada por uma perda rápida e geralmente reversível da função renal, ocorrendo em um período de horas a dias. Essa condição compromete a capacidade dos rins de realizar suas funções excretórias, metabólicas e endócrinas, levando ao acúmulo de resíduos nitrogenados como ureia e creatinina, e pode resultar em distúrbios eletrolíticos e acidobásicos significativos na prática clínica veterinária. Diferente da Doença Renal Crônica, a IRA é uma afecção súbita e potencialmente reversível, porém está associada a alta morbidade e mortalidade, especialmente em felinos. A doença se desenvolve em resposta a uma variedade de fatores, como isquemia renal prolongada, exposição a nefrotóxicos, infecções, obstruções urinárias ou lesões parenquimatosas agudas. A progressão da lesão renal pode ocorrer em diferentes estágios, desde a fase de risco até a falência renal, sendo crucial o diagnóstico precoce para evitar a evolução para Doença Renal Crônica. A IRA em gatos tem ganhado maior atenção nas clínicas veterinárias e hospitais universitários, devido ao avanço dos métodos diagnósticos, incluindo a aferição de biomarcadores como SDMA, GGTu e NAG urinário. Ainda assim, o reconhecimento precoce continua sendo um desafio, pois as manifestações clínicas podem ser inespecíficas nas fases iniciais e o diagnóstico frequentemente ocorre em estágios avançados da disfunção renal. Assim como outras síndromes agudas, a IRA requer intervenções rápidas e manejo intensivo, com estratégias terapêuticas que visam restaurar a perfusão renal, corrigir distúrbios metabólicos e, quando necessário, implementar terapias de substituição renal. A etiologia da IRA em cães e gatos é multifatorial e envolve diversos agentes e condições capazes de comprometer a integridade e a função dos néfrons de forma súbita. A IRA pode ser classificada em três categorias principais conforme o local e o mecanismo da lesão: pré-renal, renal (ou intrínseca) e pós-renal, sendo essa divisão essencial para direcionar o diagnóstico e o manejo terapêutico. Na forma pré-renal, a função renal encontra-se potencialmente preservada, mas a perfusão sanguínea está reduzida devido à hipovolemia, hipotensão, desidratação severa ou insuficiência cardíaca congestiva. Quando essa hipoperfusão não é corrigida a tempo, pode evoluir para necrose tubular aguda, principalmente nas regiões mais vulneráveis dos túbulos renais. Etiologia 12 Ebook- DRC e IRA IRA renal (intrínseca) ocorre por danos diretos ao parênquima renal, com destaque para a necrose tubular aguda (NTA), que pode ser desencadeada por isquemia prolongada ou ação de agentes nefrotóxicos. Fármacos como aminoglicosídeos, anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs) e a doxorrubicina são frequentemente associados a esse tipo de lesão, especialmente quando usados de forma inadequada ou em pacientes com função renal comprometida. Além disso, toxinas presentes em plantas como os lírios, produtos com etilenoglicol, infecções como pielonefrite e condições inflamatórias também estão implicadas. Já a IRA pós-renal resulta da obstrução ao fluxo urinário, causada por cálculos, coágulos, tampões uretrais ou massas neoplásicas, que levam à elevação da pressão intratubular, isquemia e eventual necrose tubular se não tratadas precocemente. Esse tipo é potencialmente reversível com a desobstrução imediata. Estudos relatam que em até um terço dos casos felinos, a etiologia da IRA não é identificada, o que reforça a necessidade de abordagens diagnósticas completas. A multiplicidade de causas, aliada à rapidez de evolução da lesão renal, torna a identificação da origem da injúria um dos principais desafios. Fisiopatologia A fisiopatologia da IRA é dividida em quatro fases principais: iniciação, extensão, manutenção e recuperação. Na fase de iniciação, um insulto agudo — como isquemia, toxinas ou obstrução — causa disfunção nas células epiteliais tubulares. Essa disfunção é marcada por redução na produçãode ATP, aumento de cálcio intracelular, geração de radicais livres e ativação de vias inflamatórias que comprometem a integridade celular. Na fase de extensão, a lesão tubular se agrava. A disfunção endotelial e a inflamação amplificam o dano, intensificando a apoptose e a necrose das células tubulares, especialmente nos túbulos proximais e na alça de Henle, regiões mais vulneráveis à hipóxia. A perda da integridade epitelial leva à descamação celular para o lúmen tubular, obstruindo o fluxo urinário e favorecendo o refluxo do filtrado glomerular para o interstício, reduzindo ainda mais a taxa de filtração glomerular (TFG). Na fase de manutenção, a TFG encontra-se em seu ponto mais baixo, estabilizando-se em níveis críticos. A função renal está severamente comprometida, e as complicações clínicas se tornam evidentes, como oligúria ou anúria, hiperfosfatemia, hipercalemia e acidose metabólica. Nesta etapa, o risco de morte aumenta consideravelmente, especialmente se não houver suporte clínico intensivo ou terapia de substituição renal. 13 Ebook- DRC e IRA Por fim, na fase de recuperação, inicia-se o processo de regeneração do epitélio tubular. A função renal começa a se restabelecer, geralmente acompanhada por poliúria, que pode persistir por semanas ou meses. No entanto, nem sempre a recuperação é completa. Em casos mais graves, pode haver transição da IRA para a Doença Renal Crônica, caso os danos estruturais sejam irreversíveis. A progressão da lesão renal na IRA é fortemente influenciada pela intensidade e duração do insulto inicial, bem como pela resposta inflamatória e reparativa do organismo. Sinais clínicos Os sinais clínicos da Injúria Renal Aguda (IRA) são geralmente agudos, de rápida instalação e gravidade variável. Em muitos casos, o início da sintomatologia é súbito e o tutor relata alterações comportamentais abruptas, como apatia intensa, recusa alimentar e vômitos frequentes. A evolução clínica se dá em questão de horas ou poucos dias, com risco elevado de agravamento rápido do quadro. Nos estágios iniciais, o animal pode apresentar letargia, inapetência e náuseas, reflexo do acúmulo repentino de toxinas urêmicas no organismo. À medida que a função renal se deteriora, instala-se oligúria ou anúria, resultando na retenção de líquidos e eletrólitos, o que agrava ainda mais os distúrbios hidroeletrolíticos e metabólicos. Em alguns casos, pode ocorrer poliúria transitória, principalmente na fase de recuperação, confundindo o diagnóstico inicial. A halitose urêmica é um achado clínico comum e resulta da excreção salivar de ureia, que em contato com a microbiota bucal forma compostos irritantes e voláteis. Essa condição pode provocar estomatite, gengivite e úlceras orais, dificultando a alimentação e agravando a perda de peso e o estado nutricional do paciente. Vômitos persistentes, diarreia, desidratação grave, taquipneia, fraqueza muscular e hipotermia são frequentemente observados, especialmente em felinos. O tutor pode notar também edema e abdômen distendido, secundários à retenção de líquidos. A pelagem torna-se opaca, e a musculatura lombar pode apresentar sinais de catabolismo avançado nos casos que evoluem mais lentamente. A anemia normocítica e normocrômica pode surgir devido à rápida redução da produção de eritropoetina, com sinais clínicos como mucosas pálidas, intolerância ao exercício e respiração acelerada em repouso. Em quadros avançados, são observadas tremores, convulsões, coma urêmico e, eventualmente, morte, associados ao acúmulo extremo de toxinas nitrogenadas e ao colapso sistêmico. Nos gatos, a manifestação clínica da IRA pode ser sutil inicialmente, o que torna o diagnóstico ainda mais desafiador. 14 Ebook- DRC e IRA Apesar do início abrupto, muitos felinos mantêm aparência alerta nos primeiros estágios, mascarando a gravidade da lesão renal subjacente. Casos de obstrução uretral, uso prévio de medicamentos nefrotóxicos ou episódios de desidratação severa devem sempre levantar suspeita clínica de IRA. Diagnóstico O diagnóstico é baseado na associação entre histórico clínico recente, manifestações agudas compatíveis com disfunção renal e alterações laboratoriais típicas de azotemia e desequilíbrio hidroeletrolítico. Trata-se de uma condição de instalação rápida, frequentemente identificada em pacientes com histórico de exposição a nefrotóxicos, desidratação intensa, hipotensão, infecções graves ou obstrução urinária súbita. Durante o exame físico, os sinais mais observados incluem letargia, inapetência, vômitos, halitose urêmica, desidratação e, em muitos casos, renomegalia dolorosa. Em felinos, é comum a detecção de bexiga distendida em casos de obstrução, e assimetria renal em situações de neoplasia ou hidronefrose. Em pacientes com IRA sobreposta a DRC, alterações crônicas como rins fibrosos ou irregulares também podem estar presentes. A dosagem de ureia e creatinina séricas revela elevação rápida desses compostos nitrogenados, refletindo a queda brusca da taxa de filtração glomerular (TFG). A hiperfosfatemia e a hipercalemia são achados frequentes, especialmente em pacientes oligúricos ou anúricos, podendo agravar o quadro clínico. Embora inespecífica, a anemia discreta pode estar presente em quadros associados à ulceração gastrointestinal ou DRC pré-existente. Na urinálise, achados como isoestenúria, proteinúria, hematúria e cilindros granulosos são comuns. A razão proteína:creatinina urinária (RPCu) auxilia na avaliação do comprometimento glomerular e na estratificação da gravidade da lesão renal. A excreção fracionada de eletrólitos, principalmente do sódio, é útil para diferenciar IRA pré-renal de formas intrínsecas. Nos exames de imagem, a ultrassonografia abdominal é o método mais utilizado. Em casos de IRA, os rins podem apresentar aumento de volume, redução da definição corticomedular, hiperecogenicidade difusa e presença de dilatação pélvica, especialmente em obstruções ou pielonefrites. Já a radiografia abdominal pode identificar cálculos radiopacos ou alterações ósseas associadas. A aferição da pressão arterial sistêmica é recomendada, já que a hipotensão ou hipertensão podem tanto ser causa quanto consequência da IRA. Marcadores mais sensíveis, como o SDMA (dimetilarginina simétrica), a GGT urinária e a NAG urinária, vêm sendo cada vez mais utilizados na medicina veterinária para o diagnóstico precoce de lesão tubular. Esses biomarcadores 15 Ebook- DRC e IRA permitem a identificação da injúria antes mesmo da elevação da creatinina, favorecendo intervenções terapêuticas precoces e melhorando o prognóstico A combinação desses dados clínicos e laboratoriais permite classificar a IRA conforme os critérios da IRIS, que avalia a gravidade da lesão com base na concentração de creatinina, presença de anúria e resposta à terapia volêmica (Fig.8). Esse estadiamento é fundamental para orientar o tratamento, monitorar a progressão e estabelecer o prognóstico. Estadiamento- IRIS O estadiamento da Injúria Renal Aguda (IRA), também chamada de Doença Renal Aguda (DRA), é uma ferramenta essencial para o reconhecimento precoce da lesão renal, para a estratificação do manejo clínico e para a previsão de desfechos em cães e gatos. Assim como na Doença Renal Crônica (DRC), a IRIS (International Renal Interest Society) propôs uma classificação específica para a DRA que considera o caráter dinâmico e progressivo da doença, uma vez que a IRA não é uma condição estável, mas sim transitória, podendo evoluir rapidamente ou regredir conforme a resposta ao tratamento. A classificação da IRIS para a DRA é baseada em três critérios principais: concentração sérica de creatinina, volume urinário (oligúria ou anúria) e necessidade de terapia de reposição renal (TRR). Esse estadiamento é dividido em cinco graus de gravidade (Fig. 7), variando de lesões discretas a falência renal severa: Grau I: Nesse estágio, pode haver resposta ao volume, e a lesão ainda é potencialmente reversível.Grau II: Indica uma DRA leve com azotemia estática ou progressiva, com evidência de lesão renal documentada e possível resposta ao volume. A presença de oligúria/anúria também pode estar presente. Grau III: Representa uma DRA grave, frequentemente acompanhada de sinais clínicos intensos, distúrbios hidroeletrolíticos e risco elevado de mortalidade. Grau V:Define uma falência renal aguda severa, em que há necessidade urgente de TRR, e o prognóstico é extremamente reservado. A interpretação do estadiamento da DRA deve ser feita de forma dinâmica, uma vez que o grau pode mudar conforme a evolução clínica do paciente — melhorando com a terapia adequada ou progredindo para DRC em casos de dano irreversível. A creatinina sérica e a produção urinária devem ser monitoradas com frequência durante a hospitalização para permitir ajustes rápidos no plano terapêutico. Pacientes com estadiamento Grau I ou II geralmente têm prognóstico favorável com suporte clínico intensivo, podendo recuperar-se completamente em poucos 16 Ebook- DRC e IRA dias. Já os graus mais avançados, especialmente IV e V, frequentemente requerem terapia dialítica e têm alta taxa de mortalidade, mesmo com manejo adequado. Fig.7: Estadiamento da Injúria Renal Aguda. Fonte: https://www.journals.ufrpe.br/index.php/medicinaveterinaria/article/download/3308/482483375/482489664 Tratamento O tratamento deve ser iniciado o mais precocemente possível e requer uma abordagem intensiva e individualizada, com foco tanto na correção da causa subjacente quanto no manejo dos distúrbios metabólicos e hemodinâmicos associados. A conduta terapêutica visa estabilizar o paciente, restabelecer a função renal e prevenir complicações sistêmicas, sendo o suporte clínico a base fundamental da recuperação. Inicialmente, é essencial identificar e eliminar o agente causal, como medicamentos nefrotóxicos (ex: AINEs, aminoglicosídeos) ou obstruções urinárias. A fluidoterapia intravenosa é considerada o pilar do tratamento, devendo ser cuidadosamente ajustada conforme o estado de hidratação e o débito urinário. Soluções como Ringer com Lactato, Plasma-Lyte A ou Normosol-R são indicadas, sendo a salina 0,9% preferida em casos de hipercalemia grave. A hidratação adequada promove perfusão renal e pode estimular a diurese, mas deve ser feita com cautela para evitar sobrecarga hídrica, a qual aumenta a morbidade e mortalidade. Os distúrbios eletrolíticos e ácido-base devem ser corrigidos. A hipercalemia, frequentemente presente, pode ser tratada com gluconato de cálcio intravenoso 17 Ebook- DRC e IRA para estabilização cardíaca, além de insulina, dextrose, bicarbonato de sódio e terbutalina, com monitoramento por eletrocardiograma. A hiperfosfatemia, comum em pacientes que se alimentam, pode ser tratada com ligantes de fosfato orais. Em casos de acidose metabólica severa (pHpractice. 4. ed. St. Louis: Saunders Elsevier, 2012. ELLIOTT, J.; BARBER, P. J. Feline chronic renal failure: clinical findings in 80 cases diagnosed between 1992 and 1995. Journal of Small Animal Practice, v. 39, n. 2, p. 78–85, 1998. DOI: 10.1111/j.1748-5827.1998.tb03613.x. ETTINGER, S. J.; FELDMAN, E. C. Textbook of veterinary internal medicine: diseases of the dog and the cat. 8. ed. St. Louis: Elsevier, 2017. 2 v. IRIS – INTERNATIONAL RENAL INTEREST SOCIETY. Guidelines for the staging of chronic kidney disease (CKD) in dogs and cats. Disponível em: https://www.iris- kidney.com. Acesso em: 9 jun. 2025. LANGSTON, C. Acute kidney injury in small animals. Veterinary Clinics of North America: Small Animal Practice, v. 41, n. 1, p. 1–14, 2011. DOI: 10.1016/j.cvsm.2010.09.002. LULICH, J. P. et al. Advances in the early diagnosis of chronic kidney disease in dogs and cats. Veterinary Clinics of North America: Small Animal Practice, v. 41, n. 4, p. 761–774, 2011. DOI: 10.1016/j.cvsm.2011.03.009. POLZIN, D. J. 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