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Prof. Ronald Sclavi UNIDADE III Edição Jornalística Entre os paradigmas da profissão, persistiu por muito tempo a ideia de que um veículo poderia funcionar sem colunistas. Porém, jamais haveria jornalismo sem repórteres. O mesmo raciocínio, por muitos e muitos anos, valeu para os editores. Mesmo necessários e hierarquicamente superiores aos repórteres, esses profissionais não gozavam do mesmo status, tampouco do paradigma sobre o qual se erguia a produção jornalística, em meados do século XX. A menção à palavra “jornalista” parece evocar de imediato tipos profissionais muito específicos, tais como o apresentador de telejornal – simultaneamente reflexo e motor de uma sociedade profundamente imersa em uma cultura de fetichização da visibilidade/popularidade dos olimpianos, para usar a expressão de Edgar Morin disseminada no Brasil por Cremilda Medina – e, dentro de uma visão mais tradicional, o grande repórter investigador – personificado em figuras como o intrépido correspondente de guerra, o solucionador de mistérios policiais, enfim, o jornalista detetive e desbravador de segredos (Essenfelder, 2012, p. 40). O caminho histórico da função de editor O exercício da profissão de jornalista não se restringe à investigação e à apresentação da notícia – dimensões indispensáveis à atividade de comunicar, porém insuficientes. Os editores, inclusive, antecederam os repórteres. Os jornais nascem no século XVII (quando surgem as primeiras publicações com periodicidade regular) na Europa como produtos de um homem só: o editor/redator/repórter apura, escreve, monta, imprime e faz circular seu material. A opinião, aliás, foi o combustível dos primeiros periódicos que aqueceram as ruas na Revolução Francesa. A formatação de conteúdos como relatos dos acontecimentos não está na origem do jornalismo, mas sim a ideia de transformar fatos em bandeiras. O editor é o cargo fundador dessa profissão, quando os jornais eram verdadeiros panfletos. Editor: cargo fundador do jornalismo Mesmo analisando periódicos brasileiros do século XIX e início do século XX, é o editor que surge como uma espécie de faz-tudo no cenário jornalístico. Não há melhor exemplo que o heroico Sentinela da Liberdade, assinado por Cipriano Barata, um dos mais perseguidos jornalistas da história do Brasil. O veículo acrescentava ao título as prisões de onde era editado: Sentinela da Liberdade na Guarita do Quartel-general de Pirajá, Mudada Despoticamente para o Rio de Janeiro e, de Lá, para o Forte do Mar da Bahia, Depois para a Presiganga, e Logo para o Forte do Barbalho e de Novo para o Forte do Mar, e Segunda Vez para a Presiganga, por Fim para o Hospital, donde Bradou Alerta, Agora Rendida e Substituída por um Camarada que Vigia na Cidade, e Corajosamente Brada: Alerta!!! (De Rezende, 2010, p. 11). No Brasil O próprio O Estado de S. Paulo, antigo A Província de São Paulo, participou de todos os grandes levantes da República, desde a sua Proclamação, passando pela Revolução de 30 e o golpe militar de 1964. Seus editores eram, em princípio, membros da família Mesquita, que comprou esse que é o mais influente jornal brasileiro. A história do Estadão mostra que, inicialmente, publicar um jornal significava traduzir o mundo em páginas de papel. Eram as agências internacionais de notícia as primeiras fontes de captação de informação desse periódico. Na sua primeira página, os fatos ocorridos em território nacional não eram merecedores do prestígio de uma manchete. A primeira notícia nacional a ganhar esse destaque foi o suicídio de Getúlio Vargas, em 1954. O Estado de S. Paulo O apogeu desta associação entre jornalista e repórter ocorreu na década de 1970, quando os repórteres investigativos do Washington Post, Bob Woodward e Carl Bernstein, publicaram a série de reportagens sobre o escândalo de Watergate que levaria o presidente Richard Nixon a renunciar em 1974. Os anos 1970 ficaram conhecidos como a era do jornalista investigativo, assim como os anos de 1930 como a era do correspondente internacional, tendo em vista o cenário da Segunda Guerra (1939-1945) e o prestígio desses profissionais no período. No Jornal do Brasil, em 1972, começava um movimento na direção oposta do que ocorria nos EUA. Com o objetivo de instituir uma progressiva especialização de cada repórter num determinado setor de cobertura, o jornal extinguiu o cargo de chefe de reportagem e criaram-se sete grupos de trabalho, com um repórter-coordenador para cada um. E a coordenação-geral passou para a esfera da editoria – a de Criação e Produção Geral. Os anos da reportagem Ao final dos anos de 1980, as redações passaram por um processo de informatização. Apenas para deixar claro, falamos aqui de informatização, ainda não de digitalização, ou seja, com computadores, porém sem a internet. A primeira grande mudança foi o fim do ruído constante das teclas das máquinas de escrever, quase que uma trilha sonora de qualquer redação. Os editores, por sua vez, passaram a fazer o seu trabalho diante de terminais monocromáticos com letras verdes brilhantes e softwares de processamento de texto que mais pareciam fábricas de armadilhas. Na Folha de S.Paulo, no início dos anos 1990, para inserir uma palavra acentuada era necessário digitá-la com uma série de comandos antes e outra série de comandos após a letra que ganharia o acento. Bastaria um erro de digitação para que, na página dos jornais, no dia seguinte, a matéria saísse toda truncada, quase ilegível. A era dos editores A composição, que passou a ser feita também em tela, fez sumir andares inteiros de profissionais que colavam tiras de papel montando as páginas, os paste-up. Rapidamente, também desapareceriam os redatores, cuja função foi dividida entre editores e os próprios repórteres, cada vez com menos chances de errar. A mão do editor foi se avolumando nos processos de produção. As crises econômicas sucessivas associadas ao avanço tecnológico provocaram uma diminuição importante nas redações e a supervalorização de processos produtivos que uniam mídias e otimizavam mão de obra. Nas emissoras de rádio e televisão, os mesmos repórteres produziam para mídias diferentes: o AM, o FM, a TV aberta e o canal All News de TV por assinatura. Grosso modo, uma mesma unidade de informação passava a viver um processo de aproveitamento em várias mídias. Aos poucos, o editor passaria a ocupar um papel de transmutador de textos, sons e imagens para que pudessem se adaptar a um novo universo cross media. Muitas funções para os editores A era do editor se consolida, entretanto, com a internet entrando em cena. O motivo é tão simples quanto devastador. Qualquer pessoa passou a contar com recursos para captar e transmitir informações. Em termos teóricos, o receptor converteu-se em emissor de mensagens fazendo o jornalismo mergulhar em uma crise profunda no seu modelo de negócios. Essa conjuntura consolida os editores como peças essenciais no processo de produção jornalística. A presença da Inteligência Artificial (IA) nesse jogo coloca esse profissional em uma posição ainda mais delicada, tendo em vista questões éticas de altíssima complexidade que discutiremos a seguir. Resta, entretanto, entender como o pensamento moderno da comunicação, ancorado nos estudos culturais multidisciplinares, interpretam o caminho histórico que descrevemos. A web entra em cena Na década de 1970, quando os repórteres investigativos do Washington Post, Bob Woodward e Carl Bernstein, publicaram a série de reportagens sobre o escândalo de Watergate que levaria o presidente Richard Nixon a renunciar em 1974, a palavra jornalista passou a ser diretamente associada à palavra: a) Repórter. b) Editor. c) Diagramador. d) Pauteiro. e) Articulista. InteratividadeNa década de 1970, quando os repórteres investigativos do Washington Post, Bob Woodward e Carl Bernstein, publicaram a série de reportagens sobre o escândalo de Watergate que levaria o presidente Richard Nixon a renunciar em 1974, a palavra jornalista passou a ser diretamente associada à palavra: a) Repórter. b) Editor. c) Diagramador. d) Pauteiro. e) Articulista. Resposta No mundo acadêmico, a função do editor jamais esteve entre os mais estudados. Até 2012, o banco de teses da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), órgão que indexa teses e dissertações brasileiras desde 1987, não havia registrado um só trabalho sobre o papel do editor. No mesmo período, repórteres foram objeto de estudo de mais de mil pós-graduandos. Entretanto, a emergência do jornalismo digital colocou em xeque os bastiões fundadores desse ofício, e o editor passou a chamar a atenção, no contexto da reformulação desses paradigmas. Segundo Essenfelder (2012): A crise de paradigmas da ciência moderna (...) também acomete o jornalismo? Sem dúvidas. Os estudos em comunicação não escaparam do abalo do edifício positivista ocidental. Os pesquisadores mais conscientes do jornalismo já o sabem. E os jornalistas? Parecem chegar à mesma conclusão, se não pela via do exame hermenêutico e da reflexão rigorosos, pela via do insight criativo e da experiência cotidiana na função. Transformação de paradigmas O próprio interesse da sociedade mudou, com o surgimento de filmes e séries centralizando a figura do editor. Pesquisa feita por Essenfelder com 812 estudantes de graduação em jornalismo na capital paulista revelou que 16% deles manifestaram ter como meta trabalhar como editores – ainda que quase 60% não soubessem dizer o que faz um editor de jornal. Esta foi a segunda atividade mais citada pelos alunos, ficando atrás apenas da reportagem, que apareceu na enquete com 34% das intenções. Na sequência, foram citadas as atividades de assessor de imprensa, produtor de TV, redator, fotógrafo, blogueiro, professor/pesquisador e diagramador, respectivamente. O status do editor foi mudando e ganhou uma aura de profissional fundamental para dar o tom de uma publicação em um mundo onde qualquer pessoa é capaz de publicar. Status do editor Aos poucos, a teoria do Gatekeeper começa a perder força na análise do papel do editor. Segundo Hirsch (1977), as escolhas de um editor seguem um determinado padrão e “normas profissionais superavam as distorções subjetivas”. É como se houvesse uma espécie de cultura de edição. Crescia então a hipótese de uma cultura organizacional e deontológica paralela à subjetividade stricto sensu do editor, observação que abriria caminho, anos depois, à elaboração de teorias mais complexas, trazendo à tona a noção de uma produção social dos sentidos. A maior crítica sobre a hipótese do Gatekeeper não é a ideia do jornalista como decisor na escolha da notícia, mas o fato de desprezar outros filtros importantes como as próprias organizações produtoras, com seus critérios coorporativos e éticos. Gatekeeper perde a força Dávila era editor-executivo da Folha de S.Paulo, à época da entrevista para Renato Essenfelder. “Eu acordo entre 8h30 e 9h e a primeira coisa que eu faço no dia é ler os principais jornais. Eu recebo em casa as edições impressas da Folha, do Estado e do Globo. Eu leio e já faço comentários para o pessoal da manhã, já disparo e-mails e telefonemas. O dia de trabalho começa efetivamente nesse momento, logo ao acordar. Eu tomo café fazendo isso. Eu já consigo influenciar o jornal de alguma maneira na reunião das 9h”. “Ao mesmo tempo estou com o meu iPad ao lado e estou navegando na Folha e nos principais sites: New York Times, Financial Times, Guardian, Folha, Estado, Globo, Valor, CNN. Começo a checar também as newsletters que assino. Em duas horas eu me considero suficientemente bem-informado do que nós demos, do que a concorrência deu, do que nós não estamos dando e a concorrência está e qual é o drive noticioso do dia”. Relatos de Sergio Dávila “Abro os e-mails – eu recebo uma média de 400 e-mails por dia, então isso me toma muito tempo. Eu tento responder aos mais urgentes imediatamente e todas as sextas-feiras eu tento zerar a minha caixa de e-mails”. “Além de eu cuidar da Redação e de todas as suas plataformas, então você pode imaginar a quantidade de demandas que as pessoas me trazem, por e-mail, por telefone ou pessoalmente, eu sou a interface da Redação com as outras áreas do jornal e com as outras empresas do grupo. Então quando eu chego sempre haverá de 10 a 20 demandas de editorias da Redação até outras plataformas que estamos desenvolvendo, que têm mais demanda que a Redação, que anda sozinha. Tablet, celular, smartphone, TV Folha, o UOL.” “O tempo todo estou falando com o Gentile, que é o secretário de Redação, acompanho pelos e-mails – a reunião das 9h rende um relatório, depois a reunião das 12h gera outro relatório e antes da reunião das 16h tem um terceiro relatório”. “Eu sou a interface também com o UOL e para outras áreas da empresa, jurídico, gráfica, Transfolha. Se tem algo a ver com a Redação, é a mim que eles recorrem”. Relatos de Sergio Dávila “Sempre há a demanda eminentemente jornalística, mas também há dessas áreas. Então eu sou a interface com o marketing, por exemplo, a Casa da Folha na Flip, eu sentei e fechei a programação com o marketing, quem vai falar”. “Sou também a interface com a circulação, que fala olha, a Folha cresceu 5% neste mês, o Estado caiu 2% ou manteve a mesma circulação – não que eu vá fazer alguma coisa, mas preciso estar informado”. “Com o Comercial, que me diz que o Itaú quer comprar as páginas 2 e 3 do jornal, se eu aprovo, se eu acho editorialmente interessante ou não”. “A tecnologia, que me diz que o paywall vai dar pau, então preciso adiar mais um dia a estreia. O Núcleo de Revistas, que diz que tem uma edição especial sobre sei lá o quê, está aprovado ou não está aprovado? Todas as capas das revistas”. Relatos de Sergio Dávila “O almoço 95% das vezes é um almoço de trabalho. Metade é na Folha, aqui no nono andar. Aí são políticos, empresários, personalidades, lideranças civis que vêm a convite ou porque pediram audiência na Folha. E fora são fontes, economistas, jornalistas, sempre alguma coisa de trabalho”. “Das 15h às 16h eu faço de novo essa ronda de e-mail, numa versão mais compacta, faço a atualização dos e-mails. Na reunião das 16h a gente faz alguma correção de rumo na Folha.com e definimos o que vai ser a Primeira Página do jornal no dia seguinte. Depois disso, eu faço mais uma rodada disso [checagem de e-mails] das 18h às 19h. Às 19h eu vou para a Primeira Página. Eu não fecho a Primeira Página, mas eu fico ali para resolver questões mais importantes relacionadas ou ao jornal do dia seguinte ou à Redação mesmo”. Relatos de Sergio Dávila Aos poucos, a teoria do Gatekeeper começa a perder força na análise do papel do editor. Segundo Hirsch (1977), as escolhas de um editor seguem um determinado padrão e normas profissionais superam as distorções subjetivas. É como se houvesse: a) Uma cultura de opressão. b) Uma cultura de edição. c) Uma cultura de redação. d) Uma cultura de autoridade. e) Uma cultura de revisão. Interatividade Aos poucos, a teoria do Gatekeeper começa a perder força na análise do papel do editor. Segundo Hirsch (1977), as escolhas de um editor seguem um determinado padrão e normas profissionais superam as distorções subjetivas. É como se houvesse: a) Uma cultura de opressão. b) Uma cultura de edição. c) Uma cultura de redação. d) Uma cultura de autoridade. e) Uma cultura de revisão. Resposta Um dos maiores reconhecimentos que o jornalista pode ter em sua carreira é a credibilidade, que deriva da forma assertiva comque realiza entrevistas, analisa dados e compõe suas matérias com ética e objetividade. Essa confiabilidade, que também tem importante papel do processo editorial rigoroso, atrai o público, que passa a olhar com atenção o material divulgado por jornalistas com reputação ilibada, o que também chancela a qualidade das informações exibidas nos veículos de comunicação em que estes profissionais trabalham. A credibilidade facilita o contato com entrevistados, que depositam confiança no material a ser transcrito, editado e/ou exibido por esse comunicador, cientes de que não haverá má-fé ou erros de informação. A credibilidade é produzida com qualidade editorial, que pressupõe conhecer o leitor, atender suas necessidades e antecipar-se a elas, fazer valer seus direitos, defendê-lo, informá-lo com exclusividade e em primeira mão, escrever numa linguagem que ele entenda e goste, com a qual ele aprenda e se divirta. Daí nasce a relação de confiança (Bucci, 2000, p. 66). Dilemas éticos diante da necessidade de escolher e mandar A construção da credibilidade começa pelo trabalho incansável de cruzamento e verificação de dados visando garantir a precisão e a confiabilidade das informações. Essa tarefa é seguida pela contextualização, que busca oferecer ao público uma compreensão mais profunda e abrangente dos eventos e notícias, abordando contextos históricos, políticos, sociais e geográficos para ajudar o público a melhor entender as razões por trás dos acontecimentos. A contextualização, processo acompanhado e delimitado pela edição, com moderação e sem sensacionalismo, não apenas enriquece a narrativa, mas também ajuda a evitar interpretações simplistas ou tendenciosas, isso quando feita com imparcialidade e objetividade. Serve como um guia para conectar os pontos e oferecer uma visão completa do panorama em que as notícias se desenrolam. Construção da credibilidade Essa missão tem como princípio fundamental a distinção entre fatos e opiniões. Nas entrevistas, há toda uma atenção para que haja distinção clara entre os fatos apresentados pela fonte, que podem ser corroborados com a apuração de dados, e as opiniões expressas por ela, especialmente no calor das emoções, que por vezes tornam-se infundadas. Cair nessas armadilhas leva o jornalista ao pecado da incredibilidade. Toda essa atenção também é norteada pela transparência, por meio da qual o profissional deixa clara a metodologia de coleta de informações e a identidade das fontes, quando for apropriada essa divulgação. Aliás, no que se refere à divulgação das fontes, há casos em que o sigilo é essencial para a proteção dos informantes quando estes compartilham informações confidenciais ou sensíveis, bem como também a manutenção da liberdade de imprensa, o que garante que jornalistas possam investigar e relatar notícias sem receio de retaliação, promovendo uma imprensa independente e crítica. Fatos e opiniões Casos emblemáticos, como o de Watergate, nos Estados Unidos, ressaltaram a importância do sigilo. A proteção de Deep Throat, a fonte anônima que forneceu informações sobre o escândalo de corrupção, foi essencial para a exposição dos fatos. Ao longo do tempo, a jurisprudência desenvolveu precedentes legais reconhecendo o direito dos jornalistas de proteger suas fontes, uma vez que a ausência de resguardo pode levar à autocensura por parte dos denunciantes, com medo de retaliações. A atribuição do editor, resguardada por um trabalho de edição profissional e ético, vai além de ser meramente informativa, ela envolve interpretar eventos, investigar a verdade e servir como mediadora confiável entre os acontecimentos e o público. Em primeiro lugar, o jornalista – “segundo o tradicional modelo positivista, fundamentado numa teoria da verdade como correspondência em que o jornalista deve ser neutro e imparcial, evitando emitir juízo de valor” (Rocha; Alves, 2020, p. 97) – deve ser um guardião da verdade. Jurisprudência e proteção Ele busca e dissemina informações precisas e verificadas, resistindo a pressões externas que possam comprometer sua integridade. Mas para que isso ocorra, há de se estabelecer práticas editoriais que colaborem para esta finalidade. Essas práticas esbarram em dois paradoxos. O primeiro é aquele que pode colocar o editor ou no papel de zelador ou de curador da informação. O segundo diz respeito à postura humana desse profissional, suas histórias e sua trajetória. O papel contemporâneo do editor A ideia do editor como um porteiro ou zelador da informação parte do princípio de que a informação esteja sempre ali, devidamente posta em fila, aguardando a decisão sobre o que é e o que não é notícia em uma determinada periodicidade. Se isso fosse verdade, se tal poder algum dia esteve nas mãos de um jornalista, teria ele de estar ciente de absolutamente tudo que ocorre no seu campo de cobertura para, até o fechamento da sua edição, decidir o que entra e o que não entra. Há uma outra definição que aos poucos dá lugar a esse papel. É o curador. Aqui cabe uma ponderação importante. Esse termo é comumente usado em três campos distintos: nas artes, no direito e no Estado (na antiguidade). Zeladoria ou curadoria No direito, o curador é aquele que tem a tutela. O curador de um menor ou de um incapaz é quem faz tudo em nome da tal pessoa, desde que assim constituído com autorização de um juiz. Na antiguidade, os curadores também exerciam funções representando o próprio Estado. Os censores romanos eram chamados de curadores e faziam as vezes dos mandatários determinando quem teria se pronunciado contrariamente ao imperador. Eram magistrados ou funcionários imperiais encarregados de missões administrativas em um campo específico, como o abastecimento ou a gestão do patrimônio público. Nas artes, o curador é que define uma linha a partir da qual seleciona as obras de arte de uma exposição, um museu ou uma galeria de arte. Cabe ao curador justificar suas escolhas a partir de um texto curatorial que abre as mostras por ele orientadas. Zelador e curador Em um acervo impressionante como aquele que compõe o Museu de Arte de São Paulo (Masp), é o curador aquele que pode pensar em uma exposição tão somente recortando um traço comum entre as obras que irá selecionar: uma mostra de paisagens, por exemplo. Também é o curador o responsável por aquisições ou trocas de obras de arte no mesmo museu. No campo jornalístico, esse papel tem muito a ver com o formato mais contemporâneo da função de um editor. O curador, na opinião do editor-executivo da Folha de S.Paulo, Sérgio Dávila (...), é aquele que ajuda o leitor a se guiar num cenário de overdose de informação, a selecionar as que são mais relevantes em determinado momento, apresentando-as de forma contextualizada e clara – sem a pretensão autoritária, contudo, de um porteiro que regula o acesso à torre dourada da informação (Essenfelder, 2012, p. 52). Curador de arte e de notícia A atribuição do editor, resguardada por um trabalho de edição profissional e ético, vai além de ser meramente informativa, ela envolve: a) Interpretar a verdade, investigar a mediação e servir como avaliadora. b) Interpretar eventos, investigar as fontes e servir como consultora. c) Interpretar eventos, investigar a verdade e servir como mediadora. d) Interpretar eventos, investigar a verdade e servir como financiadora. e) Interpretar eventos, investigar a verdade e servir como ordenadora. Interatividade A atribuição do editor, resguardada por um trabalho de edição profissional e ético, vai além de ser meramente informativa, ela envolve: a) Interpretar a verdade, investigar a mediação e servir como avaliadora. b) Interpretar eventos, investigar as fontes e servir como consultora. c) Interpretar eventos, investigar a verdade e servir como mediadora.d) Interpretar eventos, investigar a verdade e servir como financiadora. e) Interpretar eventos, investigar a verdade e servir como ordenadora. Resposta Essa mudança de zelador para curador se verifica em função de dois fenômenos. De um lado, e o mais importante, é que a quantidade de informação circulante e disponível é infinitamente maior que aquela dos anos 1970, antes do surgimento da internet. A produção de informação, como já vimos, é muito mais intensa, já que os antigos receptores agora são produtores. De outro lado, a postura autoritária do editor como chefe está cada vez mais ultrapassada, como veremos em breve. Ganha espaço no caminho da curadoria a discussão sobre a criação de sentido da mensagem. A overdose, assim chamada pelo editor da Folha de S.Paulo, precisa estar a serviço de um significado, de algo que possa explicar o papel do próprio leitor diante dessa cacofonia informativa. O leitor necessita de um subtexto para guiá-lo por aquilo que Cazuza denominava de “um museu de grandes novidades”. A mudança Com o barateamento dos canais transmissores de informação – não é mais necessário arcar com custos de gráficas ou estúdios para divulgar uma ideia, agora basta um computador ligado à rede mundial – os consumidores passam cada vez mais a se tornar produtores. Com isso, a oferta de informação cresce exponencialmente: as notícias não desaparecem de seus veículos “tradicionais” – jornais, revistas, rádios, TVs – mas também pululam com intensidade e velocidade avassaladoras em blogs, microblogs, redes sociais virtuais, sites noticiosos ligados ou não a empresas jornalísticas, agregadores de notícias, buscadores, comunicadores instantâneos e em praticamente todos os recantos virtuais da internet, sem esquecer das redes de telefonia celular. Velozmente, passa-se da economia industrial, sólida, a uma economia cada vez mais impregnada de ícones: economia da informação. E, mais do que isso, economia de informações em rede, em que a produção de conteúdo, que gera valor, é descentralizada e aberta a uma multidão de novos atores. Crescimento de informações Esse leitor produtivo e atuante passou a ser também algo mais que um receptor, senão um coautor do próprio texto. A própria sociedade, como demonstra Eco (1994), passa a exercer influência a partir de forças inconsistentes e arquetípicas que incidem sobre todo o processo de produção de informação. A ideia de arquétipo e de uma ação inconsciente na produção do sentido – e da própria mensagem jornalística – é fundamental para desfazer a dicotomia comum que situa o editor ora como um libertário engajado ora como um mal-intencionado manipulador de massas. As teorias pioneiras na área frequentemente supunham que o sentido é construído conscientemente pelo jornalista e então simplesmente disseminado ao público – que, no pior estilo pavloviano (...), não teria como resistir à força da comunicação massiva. Os mais recentes estudos na linguística, na psicologia e na comunicação detectam, contudo, o papel preponderante do inconsciente. Leitor coautor Trata-se de um conceito teorizado pelo suíço Carl Gustav Jung designando um conjunto simbólico de símbolos atemporais e universais, resquícios da ancestralidade humana, que influenciam de forma inconsciente nossas decisões e ações. A ideia de que “lugar de jornalista é na rua” seria um desses arquétipos, reforçando a ideia do lugar jornalístico em constante atrito com o tecido social. A construção social dos sentidos acontece na rua, no cotidiano e na oratura cujas marcas de estilo revelam a poesia dos contadores anônimos. Ao relacionar as vozes e os gestos, cabe coletar esses textos, ligá-los e partilhar os sentidos da produção intertextual (Medina, 2003, p. 74). Por tudo isso, é fundamental conhecer a construção pessoal desse profissional. Se tentamos decifrar o jornalista por trás do editor, é fundamental conhecer o ser humano por trás do jornalista, com seus conflitos e contradições. Arquétipo do editor Dizia um velho professor de Metodologia Científica que cabe a um bom pesquisador discernir sobre a diferença que existe entre a autoridade da evidência ou a evidência da autoridade. Nas redações espalhadas pelo Brasil, sobram editores bufões, dados a arroubos autoritários, gritos e ofensas. A própria construção imagética desse personagem jornalístico passa por alguém que acende um cigarro na bituca daquele que termina e vive à beira de um ataque de nervos. Não é à toa que o Superman é um repórter, e não um editor – esse, sim, cheio de defeitos e problemas. O editor funciona como a válvula de uma panela de pressão, sempre à beira de uma explosão. De um lado, os donos da publicação, seus interesses e valores. De outro, a equipe com suas demandas. Isso sem falar em anunciantes ávidos por resultados comerciais. E sua majestade, o público, sedento de novos sentidos e possibilidades de participar ativamente de todo o processo. Autoridade e arbitrariedade Para Manoel Carlos Chaparro, um dos maiores teóricos da comunicação em língua portuguesa, o jornalismo é, como denominou uma de suas obras, a linguagem dos conflitos. Sob os impactos das novas tecnologias, uma revolução de efeitos culturais destruiu as fronteiras (físicas, ideológicas, científicas...) ordenadoras das interações humanas, em tempos idos. Desmoronaram mitos e dogmas. Entretanto, ainda que não se goste dos tempos novos, as mudanças melhoraram as convicções democráticas e as formas da democracia. E os conflitos tornaram-se complexos, aumentando o potencial aperfeiçoador das contradições (Chaparro, 2014, p. 15). O raciocínio de Chaparro (2014) parte de um fenômeno denominado Revolução das Fontes. Segundo ele, as fontes são o que há de mais importante na atividade jornalística. Nelas, as fontes, a notícia é gerada, tal qual a semente que resulta em uma árvore. Linguagem de conflitos Os jornalistas não gostam de ouvir nem de dizer que dependem das fontes. Entretanto, na dimensão do mundo real, é na fonte que o repórter colhe o relato, o testemunho, a opinião, os ais e uis com que compõe a narrativa do quotidiano, sua arte maior. No jornalismo, até ao mais brilhante contador de histórias de pouco servirá a arte de escrever se não souber onde estão as boas fontes e como lidar com elas (Chaparro, 2014, p. 58). Essas fontes se organizaram uma vez que compreenderam os processos produtivos do jornalismo em uma verdadeira revolução. A mais importante modificação ocorrida nos processos jornalísticos nos últimos cinquenta anos foi, a meu ver, a organização e a capacitação discursiva das fontes interessadas, produtoras e controladoras de acontecimentos, revelações e falas que alteram, explicam ou desvendam a atualidade. Elas produzem e controlam as informações que interessam ao jornalismo, e hoje fazem isso estrategicamente, como forma competente de agir e interagir no mundo. Embora no jornalismo pouco se falasse delas, as fontes fizeram uma revolução (Chaparro, 2014, p. 37). Revolução das fontes As redações, passo a passo, foram se transformando nesse palco de conflito com pressões de todos os lados, sobretudo das fontes diante de tamanho protagonismo. O editor, por sua vez, assume definitivamente o papel de mediador desses conflitos como uma regra de trabalho. O autor afirma que a perspectiva das fontes influencia, inevitavelmente, a decisão jornalística – e quanto mais competentes elas se tornam, mais capazes são de determinar enfoques, relevâncias e até títulos, na narração jornalística. Usando a frase do velho professor de metodologia, é quando o editor se dobra à autoridade da evidência, em detrimento da evidência da sua própria autoridade. Coelho Sobrinho, em 1998, alertava para o fato de que “o conceito do editor também mudou. De gerente máximo do conteúdo jornalísticoele é hoje um administrador, preocupado com os índices de leiturabilidade das várias editorias, de recall de seus leitores, da produtividade de seus repórteres, dos horários de fechamento e das multas pela desobediência desse deadline”. Redações – palcos de pressões Mesmo assim, como observa Essenfelder (2012, p. 59): “Raramente, contudo, encontramos a preocupação de apresentar o profissional editor em sua totalidade, dando-lhe voz ativa para melhor compreendê-lo. Assim, a maioria dos estudos não apreendem um elemento fundamental deste profissional: seu caráter”. Ser editor é um teste de caráter. Pelas decisões a que é obrigado a tomar em nome do público. Pelas relações que mantém com fontes e com a estrutura da empresa de informação. Da cadeia produtiva da informação, é ele quem talvez mais revele de si na operação do próprio trabalho, quaisquer que sejam suas obrigações, se atividade-fim ou atividade-meio. Editar, enfim, é escolher. Ao fazer escolhas, o editor determina o valor de um fato (Pereira Júnior, 2006, p. 14). Um teste de caráter Para Chaparro (2014), a virtude de editar reside em contribuir, e não em mandar. É a capacidade de contribuir para a criatividade daqueles que hierarquicamente comanda. De toda forma, sem quem o edite, nenhum jornal ou telejornal chega ao seu público, e depois que o editor dá o seu “OK” às decisões finais, o processo de socialização dos conteúdos inicia-se. Nele, os cidadãos destinatários assumem papéis e liberdades de protagonistas, com o notável poder de aceitar ou rejeitar o que lhe é oferecido. Se o jornalismo é a linguagem dos conflitos, o editor é aquele que sela os mais importantes acordos, seja com as fontes, seja com os leitores que acatam suas escolhas editoriais. Editar não é mandar A essência abstrata de qualquer primeira página competente está, pois, na indispensável proposta de acordo. Também por isso, contrariando dogmas espalhados até em livros famosos, digo que a persuasão se constitui traço fundamental no discurso jornalístico, mesmo quando apenas se pretende informar. Dessa proposta de acordo depende o sucesso da operação jornalística, vista como processo cultural de intervenção na realidade e empreendimento econômico (Chaparro, 2014, p. 156). Para encerrar “A mais importante modificação ocorrida nos processos jornalísticos nos últimos cinquenta anos foi, a meu ver, a organização e a capacitação discursiva das fontes interessadas, produtoras e controladoras de acontecimentos, revelações e falas que alteram, explicam ou desvendam a atualidade. Elas produzem e controlam as informações que interessam ao jornalismo, e hoje fazem isso estrategicamente, como forma competente de agir e interagir no mundo”. A esse fenômeno, o professor Manuel Chaparro denomina: a) Revolução dos jornalistas. b) Revolução dos repórteres. c) Revolução dos editores. d) Revolução das fontes. e) Revolução das palavras. Interatividade “A mais importante modificação ocorrida nos processos jornalísticos nos últimos cinquenta anos foi, a meu ver, a organização e a capacitação discursiva das fontes interessadas, produtoras e controladoras de acontecimentos, revelações e falas que alteram, explicam ou desvendam a atualidade. Elas produzem e controlam as informações que interessam ao jornalismo, e hoje fazem isso estrategicamente, como forma competente de agir e interagir no mundo”. A esse fenômeno, o professor Manuel Chaparro denomina: a) Revolução dos jornalistas. b) Revolução dos repórteres. c) Revolução dos editores. d) Revolução das fontes. e) Revolução das palavras. Resposta BUCCI, Eugênio. Sobre ética e imprensa. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. CHAPARRO, Manuel Carlos. Jornalismo, linguagem dos conflitos. São Paulo: Ed. Do Autor, 2014. DE REZENDE, Irene Nogueira; BARATA, Cipriano. A sentinela da liberdade e outros escritos (1821-1835). Organização e edição: Marco Morel. S. Paulo: EDUSP, 2009, 936 p. Várias História, v. 26, n. 43, p. 323-326, 2010. ECO, Umberto. Seis passeios pelos bosques da ficção. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. ESSENFELDER, Renato. O editor e seus labirintos: reflexos da crise de paradigmas do jornal impresso/ Renato Essenfelder. São Paulo: R. Essenfelder, 2012. HIRSCH, Paul M. Occupational, Organizational and Institutional ModeIs in Mass Media Research: Toward an Integrated Framework. In: Hirsch P. M., MilIer P, Mine F. (org.). Strategies for Communicational Research. Beverly Hills: Annual Reviews of Communication Research, v. 6, 1977. Referências MEDINA, Cremilda. A arte de tecer o presente. São Paulo: Summus, 2003. PEREIRA JUNIOR, Luiz Costa. A apuração da notícia: métodos de investigação na imprensa. 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