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EDUCAÇÃO ESPECIAL E INCLUSIVA COM ÊNFASE EM DEFICIÊNCIA INTELECTUAL E MÚLTIPLA JANAÍNA RIBEIRO SERRA PEDAGOGIA AFETIVA NO PROCESSO DE ENSINO E APRENDIZAGEM DE ALUNOS COM DEFICIÊNCIA INTELECTUAL: UMA REVISÃO BIBLIOGRÁFICA Mineiros do Tietê 2026 6 PEDAGOGIA AFETIVA NO PROCESSO DE ENSINO E APRENDIZAGEM DE ALUNOS COM DEFICIÊNCIA INTELECTUAL: UMA REVISÃO BIBLIOGRÁFICA Janaína Ribeiro Serra1 RESUMO A educação inclusiva constitui um direito fundamental e pressupõe a garantia de acesso, permanência, participação e aprendizagem de todos os estudantes, considerando suas singularidades e potencialidades. No contexto da deficiência intelectual, o trabalho pedagógico demanda práticas planejadas que reconheçam as necessidades educacionais dos estudantes sem reduzir suas possibilidades de desenvolvimento. Nesse cenário, a afetividade pode assumir papel relevante nas relações estabelecidas no ambiente escolar e na construção de condições favoráveis à participação e à aprendizagem. Este artigo teve como objetivo analisar as possíveis contribuições da pedagogia afetiva para o processo de ensino e aprendizagem de alunos com deficiência intelectual. Foi realizada uma pesquisa bibliográfica, de abordagem qualitativa e caráter descritivo, mediante levantamento de produções acadêmicas localizadas em bases e periódicos científicos, utilizando descritores relacionados à pedagogia afetiva, afetividade, educação inclusiva, deficiência intelectual, relação professor-aluno, formação docente e família-escola, além de obras clássicas e documentos legais relacionados à temática. A análise foi organizada em eixos temáticos referentes à educação inclusiva, à afetividade e ao desenvolvimento, à relação professor-aluno, às estratégias pedagógicas, à autonomia, à participação da família e aos desafios da formação docente. Os estudos analisados indicam que relações baseadas no respeito, diálogo, confiança e valorização das potencialidades podem favorecer condições de participação e envolvimento dos estudantes, especialmente quando articuladas à mediação pedagógica e ao ensino sistematizado. Conclui-se que a pedagogia afetiva não deve ser compreendida como substituição do ensino por práticas exclusivamente emocionais, mas como uma dimensão da prática educativa que pode contribuir para relações pedagógicas mais humanizadas, inclusivas e comprometidas com a aprendizagem. Palavras-chave: Educação Especial. Educação Inclusiva. Deficiência Intelectual. Afetividade. Prática Pedagógica. 1 INTRODUÇÃO A educação inclusiva constitui um princípio fundamental para a garantia do direito à educação de todos os estudantes. No contexto brasileiro, a legislação educacional estabelece a necessidade de assegurar condições para o acesso, a permanência e o desenvolvimento dos estudantes, reconhecendo a educação como 1 Acadêmico(a) do curso de Educação Especial E Inclusiva Com Ênfase Em Deficiência Intelectual E Múltipla da FACPRISMA. 7 direito e a escola como espaço de participação social. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – Lei nº 9.394/1996 – estabelece a Educação Especial como modalidade de educação escolar oferecida preferencialmente na rede regular de ensino, enquanto a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência – Lei nº 13.146/2015 – reforça o direito à educação em sistema educacional inclusivo. Mais recentemente, o Decreto nº 12.686, de 20 de outubro de 2025, instituiu a Política Nacional de Educação Especial Inclusiva e a Rede Nacional de Educação Especial Inclusiva, estabelecendo como princípios a igualdade de oportunidades, a participação, a aprendizagem, a equidade, a valorização da diversidade e o combate à discriminação. O documento também destaca a importância de apoios individualizados, acessibilidade, Atendimento Educacional Especializado e participação da família e dos estudantes. Nesse contexto, a escolarização dos estudantes com deficiência intelectual exige que a escola ultrapasse perspectivas centradas exclusivamente nas limitações individuais. É necessário reconhecer que esses estudantes possuem potencialidades e possibilidades de desenvolvimento e que as oportunidades educacionais, as relações sociais, a mediação pedagógica e as condições oferecidas pela escola interferem em suas experiências de aprendizagem. A deficiência intelectual, portanto, não deve ser compreendida como impedimento absoluto para a aprendizagem. A prática pedagógica precisa considerar as necessidades específicas do estudante, mas também criar oportunidades para que ele participe das experiências escolares, desenvolva autonomia e tenha acesso aos conhecimentos sistematizados. Entre os aspectos que podem contribuir para esse processo encontra-se a afetividade. A relação estabelecida entre professor e estudante envolve acolhimento, escuta, confiança, respeito, diálogo e reconhecimento das potencialidades. Esses elementos não substituem o planejamento e a ação pedagógica, mas podem constituir condições relacionais importantes para que o estudante se envolva nas atividades escolares. A escolha do tema deste estudo justifica-se pela necessidade de compreender como as relações estabelecidas no ambiente escolar podem estar articuladas ao processo de ensino e aprendizagem de estudantes com deficiência intelectual. O estudo parte da compreensão de que a educação não envolve somente a transmissão de conhecimentos, mas também relações humanas, interação, mediação e participação. 8 A partir dessa perspectiva, estabeleceu-se como problema de pesquisa: de que maneira a pedagogia afetiva pode contribuir para o processo de ensino e aprendizagem de alunos com deficiência intelectual? O objetivo geral foi analisar as possíveis contribuições da pedagogia afetiva para o processo de ensino e aprendizagem de alunos com deficiência intelectual. Como objetivos específicos, buscou-se: compreender a relação entre afetividade, desenvolvimento e aprendizagem; discutir aspectos relacionados à educação inclusiva e à escolarização de estudantes com deficiência intelectual; analisar a importância da relação professor- aluno no contexto da inclusão; identificar estratégias pedagógicas que possam articular afetividade, mediação e intencionalidade educativa; refletir sobre a participação da família e da escola no processo de inclusão; discutir desafios relacionados à formação docente e à efetivação de práticas pedagógicas inclusivas. Para alcançar esses objetivos, foi realizada uma pesquisa bibliográfica de abordagem qualitativa, fundamentada em produções acadêmicas, obras teóricas e documentos legais relacionados à educação inclusiva, à deficiência intelectual, à afetividade, à formação docente e às relações estabelecidas no contexto escolar. 2 DESENVOLVIMENTO 2.1 Metodologia O presente estudo caracteriza-se como uma pesquisa bibliográfica, de abordagem qualitativa e caráter descritivo. A escolha desse percurso metodológico ocorreu em razão do objetivo de compreender, a partir da produção acadêmica existente, as possíveis contribuições da afetividade para o processo de ensino e aprendizagem de estudantes com deficiência intelectual. A pesquisa bibliográfica foi desenvolvida mediante levantamento, seleção, leitura e análise de artigos científicos, trabalhos acadêmicos, livros e documentos legais relacionados ao tema. Foram consideradas produções que discutissem, de forma direta ou relacionada, os seguintes eixos: educação inclusiva, deficiência intelectual, afetividade, relação professor-aluno, desenvolvimento humano, formação docente e relação família-escola. O levantamento bibliográfico considerou publicações localizadas no Portal de Periódicos da CAPES, SciELO e periódicos científicos de instituições de ensino 9 superior, incluindo publicações encontradas em periódicos vinculados à UniversidadeFederal de Goiás, Universidade Federal de Alagoas e outras instituições, conforme as fontes identificadas durante a pesquisa. As buscas foram realizadas utilizando os seguintes descritores e combinações de palavras-chave: “pedagogia afetiva e educação especial”; “relação professor- aluno”; “educação inclusiva e deficiência intelectual”; “afetividade e deficiência intelectual”; “formação docente e inclusão”; “família escola e deficiência intelectual”; “relação família e escola no processo de inclusão do aluno com deficiência”. Foram selecionadas produções que apresentassem relação com o problema e os objetivos da pesquisa, priorizando estudos que abordassem a inclusão escolar, as relações afetivas, a deficiência intelectual, a prática docente, a participação familiar e os processos de ensino e aprendizagem. Também foram incluídas obras clássicas de Henri Wallon, Lev Vigotski e Paulo Freire, bem como a produção de Maria Teresa Eglér Mantoan, por sua relevância para a compreensão dos fundamentos teóricos relacionados ao desenvolvimento, à afetividade, à mediação, à autonomia e à educação inclusiva. Como critérios de inclusão, foram considerados trabalhos científicos disponíveis em bases ou periódicos acadêmicos, publicações relacionadas diretamente aos objetivos da pesquisa e obras teóricas e documentos legais pertinentes ao tema. Foram excluídos materiais que não apresentassem relação com a temática investigada, textos sem autoria ou procedência identificável e publicações cujo conteúdo não contribuísse para a discussão proposta. Após o levantamento, os materiais selecionados foram submetidos à leitura e análise qualitativa. A organização da discussão ocorreu a partir da identificação de temas recorrentes na literatura, sendo estabelecidos os seguintes eixos: educação inclusiva e deficiência intelectual; afetividade, desenvolvimento e aprendizagem; relação professor-aluno e mediação pedagógica; estratégias pedagógicas inclusivas; autonomia e participação; família e escola; e formação docente e desafios da inclusão. Por se tratar de pesquisa bibliográfica, não foram realizadas entrevistas, aplicação de questionários, observações em sala de aula, intervenções pedagógicas ou coleta de dados com estudantes, professores ou familiares. Após a aplicação dos critérios de seleção estabelecidos na revisão bibliográfica, os estudos considerados pertinentes à temática foram organizados no Quadro 1, considerando autoria, ano de 10 publicação, título, temática e contribuição para a pesquisa. Além das produções acadêmicas selecionadas, foram utilizados documentos legais e normativos relacionados à educação inclusiva e aos direitos das pessoas com deficiência, apresentados no Quadro 2. Esses documentos foram empregados como suporte para a contextualização do marco legal da educação especial na perspectiva inclusiva e para a fundamentação das discussões desenvolvidas ao longo do estudo. Quadro 1 – Estudos selecionados para análise Autor(es) / Ano Título Objetivo/tema principal Tipo de estudo Contribuição para a pesquisa Loos- Sant'Ana; Gasparim (2013) Investigando as interações em sala de aula: Wallon e as vinculações afetivas entre crianças de cinco anos Investigar as interações e vinculações afetivas em sala de aula Estudo teórico/empírico Contribui para a compreensão da afetividade e das relações em sala de aula Machado de Freitas (2016) Inclusão-exclusão: desafios educacionais na dialética eu-outro Discutir desafios relacionados à inclusão e exclusão educacional Estudo teórico Fundamenta a discussão sobre inclusão e relações com o outro Emygdio da Silva (2008) Inclusão e formação docente Discutir a formação de professores para a inclusão Estudo teórico Contribui para a discussão sobre formação docente Silva; Elias (2022) Inclusão de alunos com deficiência intelectual: recursos e dificuldades da família e de professoras Analisar recursos e dificuldades enfrentados por famílias e professoras Estudo empírico Contribui para a análise dos desafios da inclusão da pessoa com deficiência intelectual Farias; Cavalcante (2024) Família e escola: ponte importante no processo de escolarização de uma criança com deficiência intelectual Discutir a relação família-escola no processo de escolarização Estudo de natureza qualitativa Fundamenta a importância da parceria entre família e escola Conradt; Cristofoleti (2025) A afetividade no contexto de ensino- aprendizagem de estudantes com deficiência: contribuições das teorias de Wallon e Vigotski Analisar contribuições de Wallon e Vigotski para a compreensão da afetividade Estudo teórico Constitui referência central para a articulação entre afetividade, aprendizagem e deficiência Euzébio da Rosa; Dutra dos Santos (2020) Inclusão no Ensino Superior: os desafios de acolher para transpor barreiras Discutir desafios da inclusão e do acolhimento Estudo teórico Contribui para a discussão sobre acolhimento e barreiras à inclusão 11 Ribeiro (2021) A relação família e escola no processo de inclusão do aluno com deficiência Analisar a relação família-escola no processo inclusivo Estudo teórico Reforça a importância da participação da família Mantoan (2003) Inclusão escolar: o que é? por quê? como fazer? Discutir fundamentos da educação inclusiva Obra teórica Fundamenta a concepção de educação inclusiva adotada no estudo Freire (1996) Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa Discutir princípios da prática educativa e relação pedagógica Obra teórica Fundamenta a dimensão dialógica e relacional da prática docente Vigotski (2007) A formação social da mente Discutir desenvolvimento, aprendizagem e mediação Obra teórica Fundamenta a mediação pedagógica e a aprendizagem como processo social Wallon (2007) A evolução psicológica da criança Discutir desenvolvimento e afetividade Obra teórica Fundamenta a compreensão da afetividade como dimensão do desenvolvimento Fonte: Elaborado pela autora (2026), a partir dos estudos selecionados para a revisão bibliográfica. Quadro 2 – Documentos legais utilizados na fundamentação da pesquisa Documento/Ano Identificação Finalidade no contexto da pesquisa Contribuição para o estudo BRASIL (1996) Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996 – Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional e contempla a Educação Especial no âmbito da educação escolar. Fundamenta a discussão sobre o direito à educação e a organização da Educação Especial no sistema educacional brasileiro. BRASIL (2015) Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015 – Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (LBI) Institui a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência e assegura direitos relacionados à participação social, à acessibilidade e à educação. Sustenta a compreensão da educação inclusiva como direito da pessoa com deficiência e reforça a necessidade de condições de acesso, participação, permanência e aprendizagem. BRASIL (2025) Decreto nº 12.686, de 20 de outubro de 2025 Institui a Política Nacional de Educação Especial Inclusiva e a Rede Nacional de Educação Especial Inclusiva. Atualiza a fundamentação normativa do estudo e contribui para a discussão sobre a organização da Educação Especial na perspectiva inclusiva e o fortalecimento dos sistemas educacionais inclusivos. Fonte: Elaborado pela autora (2026), com base na legislação brasileira utilizada na pesquisa. 12 2.2 Resultados e Discussão A análise dos estudos selecionados possibilitou identificar diferentes eixos relacionados ao processo de ensino e aprendizagem de estudantes com deficiência intelectual.Os trabalhos examinados abordam, sob perspectivas distintas, a inclusão escolar, a afetividade, as relações professor-aluno, a mediação pedagógica, a participação da família, a formação docente e as barreiras presentes nos contextos educacionais. A leitura comparativa dessas produções evidenciou que a afetividade não deve ser compreendida como elemento isolado ou substitutivo do ensino sistematizado. Ao contrário, os estudos permitem relacioná-la às condições de participação, interação, mediação e aprendizagem, especialmente quando articulada ao planejamento pedagógico e aos princípios da educação inclusiva (LOOS-SANT'ANA; GASPARIM, 2013; CONRADT; CRISTOFOLETI, 2025). 2.2.1 Educação inclusiva e escolarização de estudantes com deficiência intelectual A educação inclusiva pressupõe que a escola esteja organizada para atender à diversidade dos estudantes, garantindo não apenas o acesso ao espaço escolar, mas também condições efetivas de participação e aprendizagem. No âmbito legal, a Lei nº 9.394/1996 estabelece a Educação Especial como modalidade de educação escolar e prevê sua oferta preferencialmente na rede regular de ensino (BRASIL, 1996). A Lei nº 13.146/2015, por sua vez, assegura à pessoa com deficiência o direito à educação em sistema educacional inclusivo (BRASIL, 2015). O Decreto nº 12.686/2025 reforça essa perspectiva ao instituir a Política Nacional de Educação Especial Inclusiva e a Rede Nacional de Educação Especial Inclusiva, reafirmando princípios relacionados ao acesso, à permanência, à participação e à aprendizagem dos estudantes público da Educação Especial (BRASIL, 2025). Nesse sentido, a inclusão não pode ser reduzida à presença física do estudante na sala de aula. Mantoan (2003) defende uma escola capaz de ensinar todos os estudantes, superando modelos fundamentados na homogeneização. Nessa 13 perspectiva, as diferenças não devem constituir justificativa para separar ou limitar os alunos, mas precisam ser consideradas na organização das práticas pedagógicas. Machado de Freitas (2016), ao discutir a relação entre inclusão e exclusão a partir da dialética eu-outro, amplia essa reflexão ao evidenciar a dimensão relacional presente nos processos inclusivos. A discussão proposta pela autora permite compreender que reconhecer o outro em sua singularidade constitui aspecto importante para evitar que as diferenças sejam transformadas em mecanismos de marginalização. Essa questão adquire especial relevância quando se considera a deficiência intelectual. Silva e Elias (2022), ao investigarem a inclusão de estudantes com deficiência intelectual, identificaram recursos e dificuldades vivenciados por famílias e professoras. Os resultados do estudo evidenciam que a inclusão não depende exclusivamente das características individuais do estudante, mas envolve condições familiares, escolares e pedagógicas que interferem em seu processo de escolarização. Ao aproximar essas produções, observa-se que Mantoan (2003), Machado de Freitas (2016) e Silva e Elias (2022), embora partam de enfoques diferentes, convergem para uma compreensão de inclusão que ultrapassa a simples inserção do estudante na escola. A efetivação da educação inclusiva exige reconhecimento das diferenças, revisão das práticas escolares e construção de condições concretas de participação e aprendizagem. 2.2.2 Afetividade, desenvolvimento e aprendizagem A relação entre afetividade e desenvolvimento ocupa posição central na discussão proposta neste estudo. Na perspectiva de Wallon (2007), o desenvolvimento humano deve ser compreendido de maneira integrada, considerando as relações existentes entre afetividade, motricidade e inteligência. Dessa forma, a afetividade não constitui elemento secundário do desenvolvimento. Ela participa da constituição do sujeito e das relações estabelecidas com outras pessoas, com o ambiente e com o conhecimento. Essa concepção oferece fundamentos importantes para compreender por que as interações estabelecidas no espaço escolar também precisam ser consideradas no processo educativo. 14 Loos-Sant'Ana e Gasparim (2013), fundamentadas nas contribuições de Wallon, investigaram as interações em sala de aula e as vinculações afetivas entre crianças de cinco anos. O estudo evidenciou manifestações afetivas presentes nas relações entre crianças e adultos e demonstrou a relevância dessas interações no cotidiano das atividades educativas. Embora a pesquisa de Loos-Sant'Ana e Gasparim (2013) tenha sido realizada com crianças de cinco anos e não especificamente com estudantes com deficiência intelectual, seus resultados contribuem para este estudo ao evidenciarem que as relações afetivas fazem parte das situações concretas de ensino e aprendizagem. Conradt e Cristofoleti (2025), por sua vez, aproximam as contribuições de Wallon e Vigotski para discutir especificamente a afetividade no processo de ensino- aprendizagem de estudantes com deficiência. As autoras destacam a integração entre afetividade e cognição na perspectiva walloniana e a importância das relações sociais e da mediação na perspectiva histórico-cultural. A aproximação entre os estudos de Loos-Sant'Ana e Gasparim (2013) e Conradt e Cristofoleti (2025) evidencia que a afetividade não deve ser reduzida a demonstrações de carinho. No contexto pedagógico, ela se manifesta também na qualidade das interações, na escuta, na confiança, no reconhecimento das possibilidades do estudante e na maneira como o professor organiza as situações de aprendizagem. 2.2.3 Vigotski, mediação e possibilidades de aprendizagem As contribuições de Vigotski (2007) são relevantes para compreender o desenvolvimento e a aprendizagem a partir das relações sociais e da mediação. Na perspectiva histórico-cultural, o sujeito não se desenvolve isoladamente, pois suas relações com outras pessoas e com os elementos culturais participam da constituição das funções psicológicas superiores. O conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal contribui especialmente para a reflexão sobre a escolarização de estudantes com deficiência intelectual. Vigotski (2007) diferencia aquilo que o estudante consegue realizar de forma independente daquilo que consegue realizar com a colaboração e o auxílio de outras pessoas. Essa concepção permite questionar práticas pedagógicas fundamentadas apenas naquilo que o estudante já consegue realizar sozinho. O professor precisa considerar também 15 as possibilidades de desenvolvimento e organizar mediações que favoreçam novas aprendizagens. No campo da educação de estudantes com deficiência, Conradt e Cristofoleti (2025) destacam a relevância da interação social, da mediação e da afetividade. As autoras apontam que metodologias diferenciadas e flexibilidade pedagógica podem ampliar as possibilidades de participação e desenvolvimento. A análise conjunta de Vigotski (2007) e Conradt e Cristofoleti (2025) permite compreender que mediação e afetividade podem estar articuladas. O modo como o professor oferece apoio, responde às dificuldades, reconhece avanços e incentiva novas tentativas interfere nas condições relacionais em que a aprendizagem ocorre. Assim, no trabalho com estudantes com deficiência intelectual, a mediação pode envolver explicações, perguntas, recursos visuais, materiais concretos, atividades colaborativas e diferentes formas de apresentação e registro. Entretanto, esses recursos precisam estar vinculados a objetivos pedagógicos e favorecer progressivamente maior participação do estudante. 2.2.4 Relação professor-aluno e pedagogia afetiva A relação professor-aluno constitui dimensão relevante da prática educativa. No contexto deste estudo, a pedagogia afetiva é compreendida como uma perspectiva que articula acolhimento, respeito, diálogo e relações humanas à intencionalidade pedagógica. Freire (1996)oferece fundamentos importantes para essa compreensão ao destacar o respeito ao educando, o diálogo e a autonomia como elementos da prática educativa. Nessa perspectiva, ensinar não significa apenas transmitir conhecimentos, mas reconhecer o estudante como sujeito participante do processo. Mantoan (2003), ao discutir a escola inclusiva, também contribui para essa reflexão ao defender práticas capazes de envolver os diferentes estudantes, reconhecendo suas singularidades sem estabelecer processos segregadores. Os resultados apresentados por Loos-Sant'Ana e Gasparim (2013) acrescentam a essa discussão a dimensão concreta das interações em sala de aula. As autoras evidenciam que os vínculos e as manifestações afetivas fazem parte do cotidiano das atividades escolares, demonstrando que a relação estabelecida entre os sujeitos não está separada do processo educativo. 16 Conradt e Cristofoleti (2025), ao direcionarem essa discussão para estudantes com deficiência, reforçam que afetividade, interação e mediação podem participar da construção de condições favoráveis à aprendizagem. Dessa maneira, o vínculo entre professor e estudante não substitui o ensino, mas pode integrar a organização de uma prática pedagógica mais responsiva às necessidades dos alunos. A pedagogia afetiva, portanto, não deve ser reduzida ao carinho ou à permissividade. Uma relação afetiva pode envolver escuta e acolhimento, mas também limites, responsabilidade, intervenção, acompanhamento e expectativas de aprendizagem. 2.2.5 Estratégias pedagógicas inclusivas e participação A análise dos estudos demonstra que a afetividade precisa estar articulada a práticas pedagógicas concretas. No trabalho com estudantes com deficiência intelectual, isso implica organizar situações que possibilitem diferentes formas de participação e acesso ao conhecimento. Mantoan (2003) defende práticas educacionais que reconheçam as diferenças sem separar os estudantes ou estabelecer percursos escolares empobrecidos. Sob essa perspectiva, atender às diferenças não significa retirar conteúdos ou reduzir indiscriminadamente as expectativas, mas organizar condições para que todos possam participar do processo educativo. A perspectiva de Vigotski (2007) contribui para compreender a importância da mediação na organização dessas estratégias. O professor pode oferecer níveis diferenciados de apoio e reorganizá-los à medida que o estudante desenvolve maior capacidade de realização. Conradt e Cristofoleti (2025) também destacam a importância da flexibilidade pedagógica e de metodologias diferenciadas no atendimento aos estudantes com deficiência. Essa flexibilidade pode envolver recursos visuais, materiais concretos, atividades práticas, propostas colaborativas, diferentes formas de registro e outras estratégias compatíveis com os objetivos de aprendizagem. A dimensão afetiva manifesta-se, nesse processo, na forma como a mediação é conduzida. Respeitar diferentes ritmos, valorizar as contribuições dos estudantes, permitir novas tentativas diante dos erros e construir situações de cooperação são atitudes que podem favorecer participação e pertencimento. 17 Portanto, a diferenciação pedagógica precisa preservar a intencionalidade curricular. Adaptar uma situação de aprendizagem não significa retirar do estudante o direito ao conhecimento, mas organizar caminhos e apoios que ampliem suas possibilidades de participação. 2.2.6 Autonomia, autoestima e participação A autonomia constitui aspecto importante na escolarização de estudantes com deficiência intelectual. Entretanto, não deve ser compreendida como ausência completa de apoio. Ela envolve a ampliação progressiva das possibilidades de participação, escolha, comunicação, realização de tarefas e tomada de decisões. A perspectiva de Vigotski (2007) permite compreender esse processo de maneira dinâmica. Aquilo que inicialmente é realizado com auxílio pode, por meio das experiências de aprendizagem e das mediações adequadas, passar a ser realizado com maior independência. Nesse processo, é necessário evitar tanto a superproteção quanto a ausência dos apoios necessários. Oferecer ajuda excessiva pode restringir oportunidades para que o estudante desenvolva novas capacidades, enquanto exigir uma realização sem oferecer suporte compatível pode produzir experiências recorrentes de insucesso. Freire (1996) também contribui para a compreensão da autonomia como dimensão do processo educativo. O respeito à autonomia do educando implica reconhecê-lo como sujeito capaz de participar, pensar, expressar-se e construir conhecimentos. A afetividade pode integrar esse processo quando o professor estabelece um ambiente em que o estudante encontre segurança para tentar, errar, receber orientação e tentar novamente. Dessa forma, reconhecer conquistas não significa realizar elogios indiscriminados, mas possibilitar que o estudante identifique avanços concretos em sua aprendizagem. Mantoan (2003) reforça essa compreensão ao defender a valorização das possibilidades dos estudantes e a superação de práticas fundamentadas em expectativas reduzidas. Para o estudante com deficiência intelectual, participação e autonomia precisam ser construídas por meio de experiências reais de aprendizagem. 18 2.2.7 Família e escola no processo de inclusão A relação entre família e escola destacou-se entre os estudos selecionados para a análise. A inclusão escolar não constitui responsabilidade exclusiva do professor, pois envolve diferentes sujeitos que participam da trajetória educacional do estudante. Silva e Elias (2022), em estudo especificamente relacionado à inclusão de estudantes com deficiência intelectual, identificaram recursos e dificuldades presentes tanto no contexto familiar quanto na atuação das professoras. Os resultados demonstram a importância de considerar a relação entre esses dois contextos no processo inclusivo. Farias e Cavalcante (2024), ao analisarem a relação entre família e escola na escolarização de uma criança com deficiência intelectual, também destacam a importância dessa parceria. O estudo evidencia que a aproximação entre família e instituição escolar pode contribuir para o acompanhamento do processo de escolarização. Ribeiro (2021) amplia essa discussão ao abordar a relação entre família e escola no processo de inclusão do aluno com deficiência, ressaltando a importância do diálogo e da articulação entre esses espaços. Os três estudos apresentam aproximações importantes. Silva e Elias (2022), Farias e Cavalcante (2024) e Ribeiro (2021) permitem compreender que a comunicação entre família e escola pode favorecer o compartilhamento de informações sobre necessidades, interesses, dificuldades e potencialidades do estudante. Entretanto, parceria não significa transferência de responsabilidades. A escola permanece responsável pelo ensino, pelo planejamento pedagógico e pela garantia das condições necessárias à aprendizagem. A família pode colaborar com informações e participar do acompanhamento da trajetória escolar, mas não deve assumir atribuições que pertencem à instituição. A dimensão afetiva também está presente nessa relação. Comunicação respeitosa, escuta e construção compartilhada de encaminhamentos podem fortalecer uma rede de apoio ao estudante e favorecer relações de confiança entre família e escola. 19 2.2.8 Formação docente e desafios para a efetivação da inclusão A formação docente constitui outro eixo identificado nos estudos selecionados. Emygdio da Silva (2008) discute a relação entre inclusão e formação de professores, evidenciando a importância da preparação docente para atuação diante da diversidade existente no contexto educacional. A formação para a inclusão não deve limitar-se ao conhecimento das características das deficiências. É necessárioque o professor desenvolva conhecimentos relacionados ao planejamento, à avaliação, à mediação, à acessibilidade e à organização de estratégias pedagógicas que favoreçam a participação dos estudantes. Conradt e Cristofoleti (2025) acrescentam a essa discussão a necessidade de compreender as relações entre afetividade, interação e aprendizagem no trabalho com estudantes com deficiência. As autoras demonstram que a formação também precisa oferecer subsídios para que o professor compreenda a afetividade de forma articulada ao processo pedagógico. Euzébio da Rosa e Dutra dos Santos (2020), ao discutirem inclusão e acolhimento no Ensino Superior, identificam desafios relacionados à transposição de barreiras. Embora a população investigada pelas autoras seja diferente daquela focalizada neste trabalho, o estudo contribui para evidenciar que o acesso à instituição não garante, isoladamente, participação e permanência. A comparação dessas produções permite observar que a efetivação da inclusão envolve tanto conhecimentos e práticas docentes quanto condições institucionais. Emygdio da Silva (2008) enfatiza a formação docente; Conradt e Cristofoleti (2025) acrescentam a dimensão afetiva e relacional; e Euzébio da Rosa e Dutra dos Santos (2020) chamam atenção para barreiras que podem permanecer mesmo quando o acesso à instituição educacional é garantido. Dessa maneira, não é adequado responsabilizar individualmente o professor pelo sucesso ou fracasso da inclusão. A prática docente é fundamental, mas precisa estar acompanhada de formação, planejamento, recursos, colaboração entre profissionais e organização institucional. 20 2.2.9 Limites e possibilidades da pedagogia afetiva A análise conjunta dos estudos permite compreender que a afetividade apresenta possibilidades relevantes para o processo educativo, mas não deve ser tratada de maneira isolada ou romantizada. Os resultados analisados não permitem afirmar que a afetividade, por si só, produz aprendizagem. O processo educativo envolve múltiplos fatores, entre eles mediação pedagógica, condições institucionais, formação docente, participação familiar, características dos estudantes, recursos e estratégias de ensino. Os estudos de Loos-Sant'Ana e Gasparim (2013) evidenciam a presença das vinculações afetivas nas interações em sala de aula, enquanto Conradt e Cristofoleti (2025) aproximam afetividade, interação e mediação no ensino de estudantes com deficiência. Esses achados permitem compreender a afetividade como dimensão das relações pedagógicas, e não como substituição do ensino. Da mesma forma, os estudos relacionados à inclusão demonstram que as relações afetivas precisam estar acompanhadas de mudanças nas condições educacionais. Mantoan (2003) enfatiza a reorganização da escola; Machado de Freitas (2016) chama atenção para as relações entre inclusão, exclusão e reconhecimento do outro; e Silva e Elias (2022) demonstram a existência de recursos e dificuldades concretas vivenciadas por famílias e professoras na inclusão de estudantes com deficiência intelectual. Os trabalhos de Farias e Cavalcante (2024) e Ribeiro (2021) reforçam que a participação da família e o diálogo com a escola integram esse processo. Por sua vez, Emygdio da Silva (2008) e Euzébio da Rosa e Dutra dos Santos (2020) evidenciam, sob diferentes perspectivas e contextos educacionais, que formação profissional e superação de barreiras também precisam ser consideradas na efetivação da inclusão. Dessa forma, os resultados analisados apontam para uma compreensão multidimensional do processo inclusivo. Afetividade, mediação, formação docente, organização escolar, participação familiar e estratégias pedagógicas não atuam isoladamente, mas se relacionam na construção das condições oferecidas ao estudante. As contribuições teóricas de Wallon (2007), Vigotski (2007), Mantoan (2003) e Freire (1996) oferecem fundamentos para interpretar esses resultados. Wallon possibilita compreender a afetividade como dimensão do desenvolvimento; Vigotski 21 contribui para a compreensão das relações sociais e da mediação; Mantoan oferece fundamentos para pensar a transformação da escola diante das diferenças; e Freire permite relacionar prática educativa, diálogo, respeito e autonomia. Assim, a pedagogia afetiva pode ser compreendida como uma dimensão da prática pedagógica inclusiva, desde que esteja associada ao ensino sistematizado, ao planejamento, à mediação, à formação docente e à garantia do direito à aprendizagem. Uma escola afetiva, nessa perspectiva, não é simplesmente aquela que acolhe, mas aquela que acolhe, reconhece as diferenças e organiza condições efetivas para que o estudante participe e aprenda. 3 CONCLUSÃO O presente estudo teve como objetivo analisar as possíveis contribuições da pedagogia afetiva para o processo de ensino e aprendizagem de alunos com deficiência intelectual. A partir da revisão bibliográfica realizada, foi possível compreender que a educação inclusiva exige mais do que a garantia de acesso e permanência dos estudantes na escola. É necessário criar condições para que participem das atividades, tenham acesso ao currículo, desenvolvam autonomia e sejam reconhecidos como sujeitos capazes de aprender. A análise das contribuições de Wallon permitiu compreender a importância da afetividade no desenvolvimento humano e nas relações estabelecidas entre o sujeito e o meio. Vigotski, por sua vez, possibilitou compreender o papel das relações sociais, da mediação e da Zona de Desenvolvimento Proximal no processo de aprendizagem. As contribuições de Mantoan reforçam a necessidade de transformação da escola para que ela possa atender à diversidade dos estudantes, enquanto Freire contribui para a compreensão do diálogo, do respeito e da autonomia como elementos fundamentais da prática educativa. Os estudos contemporâneos analisados também evidenciam que a inclusão de estudantes com deficiência intelectual envolve diferentes dimensões. A relação entre professores e estudantes, a participação da família, a formação docente e a organização institucional constituem elementos importantes para a efetivação de práticas inclusivas. Nesse contexto, a pedagogia afetiva pode contribuir para a construção de relações baseadas no respeito, na confiança, no diálogo e na valorização das 22 potencialidades dos estudantes. Entretanto, não deve ser entendida como substituição do ensino sistematizado por práticas exclusivamente emocionais. Uma prática pedagógica afetiva precisa estar vinculada ao planejamento, aos objetivos de aprendizagem, à mediação, à avaliação e ao compromisso com o desenvolvimento do estudante. Também se conclui que a valorização afetiva não significa diminuir expectativas ou simplificar indiscriminadamente os conhecimentos oferecidos ao aluno com deficiência intelectual. Ao contrário, significa oferecer os apoios necessários para que ele tenha oportunidades reais de aprender, participar e avançar. A parceria entre escola e família também se mostra relevante, desde que construída de maneira colaborativa e sem transferência das responsabilidades educacionais da instituição escolar para os familiares. Dessa forma, a resposta ao problema de pesquisa indica que a pedagogia afetiva pode contribuir para o processo de ensino e aprendizagem de alunos com deficiência intelectual quando compreendida como parte de uma prática pedagógica inclusiva, planejada e intencional. Seu potencial está não apenas no acolhimento, mas na construção de relações que favoreçam participação, mediação, autonomia e acesso ao conhecimento. Por fim, ressalta-se que este estudo possui como limite seu caráter bibliográfico e qualitativo, não permitindo estabelecer relações causais ou medir diretamente os efeitos da afetividade sobre a aprendizagem. Pesquisas futuras poderãoampliar essa discussão por meio de estudos de campo que investiguem as experiências de professores, estudantes e famílias em diferentes contextos educacionais. REFERÊNCIAS BRASIL. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Brasília, DF: Presidência da República, 1996. BRASIL. 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