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ANÁLISE DA VANTAGEM COMPETITIVA AULA 1 Profª Beatris Kemper Fernandes 2 CONVERSA INICIAL Caros alunos, iniciamos agora nosso estudo sobre a análise da vantagem competitiva. Esse tema é extremamente importante para colaboradores em qualquer nível hierárquico nas organizações, pois a vantagem competitiva já foi comparada ao próprio sucesso estratégico por alguns autores. Porter (1999) afirmou que ela permite conquistar uma posição que possibilita ganhos acima da média. O termo vantagem competitiva foi popularizado por Porter, mas outros autores também aprofundaram seus estudos acerca do tema e trouxeram visões complementares. A compreensão desses conceitos e de sua importância ajudará a identificar e aplicar na prática as ações para fazer com que a organização em que você atua, ou venha a atuar, tenha vantagens sobre os concorrentes ao identificar e explorar os diferenciais dos seus produtos ou serviços, de modo a destacar e fortalecer sua marca no mercado. Nosso objetivo principal é conhecer e entender os principais temas estratégicos, aprofundando o estudo sobre o conceito e a importância da missão, da visão, dos valores, das políticas e princípios, além de outros conceitos importantes. CONTEXTUALIZANDO Quando avaliamos uma organização, devemos ter em mente suas vantagens competitivas, pois elas garantem que haverá rentabilidade acima da média – o que deve criar valor no longo prazo. Normalmente, essas vantagens são a força da marca, ou seja, quanto os clientes estão dispostos a pagar para ter acesso ao diferencial proporcionado por essa marca. Escala é outra vantagem, pois é assim que os custos fixos são diluídos. Veremos em mais detalhes cada uma dessas vantagens no decorrer do nosso estudo. Outro ponto é o custo de aprendizagem ou custo de troca, que demanda valor e esforço para mudar de um fornecedor para outro. O termo em inglês é switch cost. Há também o efeito de rede, que ocorre quando um ativo passa a ser mais valioso a partir do momento que outras pessoas utilizam o mesmo produto, tornando-o mais conhecido e desejado. A quinta vantagem é o acesso a recursos únicos, que faz com que haja certo privilégio com relação aos concorrentes. 3 Saiba mais Antes de estudar os temas e conceitos desta aula, que tal assistir a uma palestra inspiradora? Golden Circle (em português, Círculo Dourado) está disponível em: e é considerada por muitos especialistas uma das mais importantes palestras da área da estratégia disponíveis on-line. Nela, seu autor, o escritor, palestrante e consultor de empresas Simon Sinek, apresenta a sistematização de um novo método de pensar, agir e comunicar com o intuito de criar impacto no mundo. Com ele, você poderá incrementar o que verá na sequência desta aula sobre missão, visão e valores, além de refletir mais um pouco sobre o tema. Depois, comente com seus colegas no fórum. Vamos lá? A sugestão é que você assista à palestra toda, mas a parte que queremos destacar vai de 2′36″ até 5′34″. TEMA 1 – TEMAS ESTRATÉGICOS Quando falamos em temas estratégicos, nos referimos às direções gerais que definimos de antemão ao realizar o planejamento estratégico. Kaplan e Norton (1996) definem os temas estratégicos como os blocos de construção da estratégia, que criam um modelo microeconômico de uma dimensão da estratégia. Esses temas representam a rota que a organização pretende seguir e possibilitam a ela concentrar seus esforços nos objetivos considerados prioritários para a consecução da estratégia, estando muito alinhados à visão. Ao defini-los, a empresa pode estabelecer os mercados estratégicos que quer conquistar, os atributos necessários e os processos internos que precisam ser afetados para isso. Você já deve ter percebido que “formular estratégias é uma questão de sobrevivência, considerando principalmente as variações constantes e sem controle que ocorrem no ambiente externo” (Martins e Guindani, 2013, p. 14). Segundo esses autores, “a habilidade de perceber e entender mudanças no ambiente externo e de realizar adaptações internas para responder a essas mudanças é o que chamamos de habilidade estratégica”. 4 1.1 Estratégia Estratégia é um tema que gera muita discussão e diferentes conceituações. Podemos conceituá-la como um padrão de decisões dentro de uma empresa que determina e revela seus objetivos, propósitos e metas, e que produz suas principais políticas e planos para atingir seus objetivos (Andrews, 2001). A estratégia deve ser capaz de criar posições competitivas viáveis e sustentáveis, resultando no diferencial competitivo organizacional (Porter, 1999). Existem várias maneiras de classificar as estratégias. A seguir, veremos algumas e observaremos que uma delas classifica as estratégias em deliberadas ou emergentes. As deliberadas ocorrem a partir das intenções plenamente realizadas, de um planejamento a priori. Já as estratégias emergentes ocorrem a partir de ações que não foram planejadas previamente, mas foram necessárias e se tornaram padrões não expressamente pretendidos (Mintzberg et al., 2010). Essas últimas têm maior flexibilidade e autonomia de ação, normalmente aparecendo como resposta a uma oportunidade ou ameaça do ambiente (Luce; Borges Júnior, 2000). Porter (2004) traz a classificação de estratégia corporativa, estratégia empresarial e estratégia funcional. A estratégia corporativa busca sinergia entre diferentes unidades estratégicas de negócios de uma corporação ou conglomerado. Assim, pretende definir em que negócios a corporação deve atuar e como deve administrar o conjunto de negócios. A estratégia empresarial ou de negócios detalha as ações a serem adotadas para desenvolver ou manter uma vantagem competitiva. Ela serve de base para a decisão de se manter como está (estabilidade), expandir as atividades (crescer) ou encerrar algumas atividades (diminuir/encolher). Por fim, a estratégia funcional dá suporte, em cada função organizacional, à estratégia empresarial. Assim, cada área funcional se responsabiliza por algumas ações que contribuirão parcialmente para que os objetivos da organização sejam atingidos. São exemplos de estratégias funcionais: finanças, marketing, pesquisa e desenvolvimento (P&D), produção e recursos humanos (RH). Porter (2004) defende que a organização deve adotar um dos seguintes perfis estratégicos para ter lucros superiores à média do seu setor: liderança de custo, diferenciação ou enfoque. Fernandes e Berton (2012) explicam que, se ela optar pela liderança em custo, deverá definir um conjunto de políticas visando 5 à redução dos custos de operação, buscando diminuir seus custos em atividades que não agreguem valor, otimizando sua capacidade produtiva, trabalhando a curva de experiência e utilizando o mais racionalmente possível os fatores de produção. Assim, a organização busca a liderança por meio da redução de preços, a partir da otimização de seus custos. Já na estratégia de diferenciação, a organização busca oferecer um produto ou serviço considerado único no mercado. Isso pode ser conseguido por meio do posicionamento de marca, de fatores tecnológicos, dispositivos únicos ou por meio dos serviços ao cliente. Embora essa estratégia permita um rápido crescimento de receitas, também é facilmente imitada por concorrentes, o que pode fazer com que aumentem os custos para se manter na liderança. Por fim, a estratégia de enfoque (ou nicho) busca definir um grupo comprador, um segmento de linha de produtos ou um mercado geográfico, de determinada faixa de renda ou faixa etária para segmentar o mercado, descobrir um nicho e atender um seleto grupo de consumidores. O objetivo é conhecer e assim atender melhor às necessidadesFigura 2 – Participação relativa de mercado x crescimento de mercado 7 Definidos os quadrantes, a Matriz BCG classifica os produtos/serviços de acordo com seu posicionamento. Assim, o produto que tem alta participação em um mercado em crescimento (quadrante superior esquerdo) é denominado estrela, no sentido de estrela ascendente, brilhante. Tais produtos costumam gerar receitas, mas boa parte delas acabam sendo consumidas no esforço de sustentar o crescimento – consumidas, por exemplo, em expansão da produção, em campanhas de marketing etc. Os produtos vaca leiteira são aqueles em mercado de alta participação e baixo crescimento. Por essa condição, tendem a ser geradores de caixa, pois têm vendas elevadas e não precisam dispender muitos recursos para sustentar crescimento. Por outro lado, existem os produtos/serviços que têm baixa participação de mercado. Podem ser divididos em dois grupos: em setores de alto crescimento ou setores de baixo crescimento. Os primeiros são denominados pontos de interrogação, pois seu futuro é incerto. Por um lado, não geram caixa expressivo, pois suas vendas são relativamente pequenas e ainda são consumidas pelo esforço de crescimento. Mas, por outro lado, por estarem em setores em expansão, podem ser promissores. O caso mais crítico são os produtos de baixa participação em mercados de baixo crescimento – ou pior, crescimento negativo. Tais negócios, os abacaxis, correm risco de se tornar cada vez mais irrelevantes com o tempo. A mensagem da matriz BCG é que uma empresa deve, na medida do possível, balancear seu portfólio à luz desses quadrantes. É importante ter produtos vaca leiteira, porque eles geram recursos para investir nos pontos de interrogação e nas estrelas. Entretanto, o risco é que essas vacas leiteiras venham a se transformar, com o tempo, em abacaxis. Por isso, é importante a empresa investir, simultaneamente, em produtos mais promissores, em mercados em crescimento, alguns já mais maduros e consolidados (estrelas), outros ainda de risco e indefinidos (pontos de interrogação). Observe a similaridade entre a Matriz BCG e a matriz de portfólio, que vimos anteriormente. Ambas tratam de dimensões similares, porém a matriz de portfólio amplia o olhar sobre as variáveis, ou seja, olha atratividade, que inclui também crescimento de mercado, mas também elementos como lucratividade do setor e volume, entre outros. Por outro lado, olha competitividade, que vai além da participação de mercado: inclui, por exemplo, reputação e marca da empresa, qualidade de seus produtos e serviços, canais de distribuição etc. 8 TEMA 4 – MATRIZ GE A matriz GE é uma outra maneira de olhar e pensar o portfólio de uma organização. Em vez de considerar apenas participação e crescimento de mercado, ela aborda duas perspectivas: atratividade do setor e força da unidade de negócio (Wright et al., 2000). Recebeu esse nome por ter sido desenvolvida para a General Eletric pela empresa de consultoria McKinsey e, por esse motivo, às vezes também é denominada Matriz McKinsey. O que se entende por atratividade não está distante do que apresentamos ao discorrer sobre a matriz de portfólio. Aborda critérios como taxa de crescimento, ciclicidade do setor (por exemplo, o quanto o setor depende mais ou menos da expansão da economia, como bens supérfluos, ou tem demanda inelástica, como saneamento), tamanho do setor, sazonalidade (como consumo de ovos de Páscoa), entre outros (Wright et al., 2000). Na dimensão força da unidade de negócio, é considerada a posição competitiva da unidade naquele setor específico. Isso leva em conta participação de mercado, lucratividade da empresa, custos operacionais, reputação da marca, entre outros. À semelhança de matrizes anteriores, essas duas dimensões são cruzadas, mas neste caso, em uma matriz 3x3, que considera as gradações alto, médio, baixo. A Figura 3, a seguir, ilustra o resultado. Figura 3 – Posição do negócio em uma matriz 3x3 Na Figura 3, a matriz está ilustrada com vários negócios, de várias unidades, cada um deles representado por um círculo de diferente tamanho, expressando o volume dos negócios da empresa em termos de faturamento. Ao 9 confrontar a atratividade do mercado com a posição do negócio, a matriz sugere algumas prescrições genéricas, como apresenta a Figura 4. Figura 4 – Atratividade da indústria x força da unidade de negócio Explicando alguns dos casos, considere negócios de baixa força em mercados de baixa atratividade. Isso significa, por exemplo, uma empresa com pouca escala, marca desconhecida, baixa margem etc., em um setor em declínio, competição intensa, entre outros fatores. Não é de se estranhar que, nesse caso, haja recomendação de desinvestir ou vender a empresa (esse é o sentido de colher; colher os frutos). No outro extremo, um negócio bem posicionado (marca forte, qualidade elevada, lucratividade expressiva etc.), em um setor atrativo (em crescimento, de grande volume, baixa competição, entre outros fatores), deve ser prioritário em termos de investimentos pela empresa. TEMA 5 – ANÁLISE DA CONCORRÊNCIA E DOS CONCORRENTES Um elemento a ser levado em conta para criar uma perspectiva para a estratégia, tema deste tema, é a análise da concorrência e dos concorrentes. São consideradas concorrentes “todas as organizações que disputam o atendimento das mesmas necessidades do mercado ou público-alvo” (Costa, 2007, p. 88). Segundo Costa (2007), o fato de uma empresa ser pioneira em um mercado, tanto pode ter aspectos positivos quanto negativos. É positivo conquistar o espaço e criar um mercado próprio, mas isso logo pode ser https://www.google.com.br/url?sa=i&url=https://www.escolaedti.com.br/matriz-ge-mckinsey&psig=AOvVaw3LehODK52WrkzVjV-Spsbg&ust=1588549890381000&source=images&cd=vfe&ved=0CAIQjRxqFwoTCNDUr-OvlukCFQAAAAAdAAAAABAR 10 ameaçado por concorrentes – o que traz os aspectos negativos – que chegam com inovações e soluções diferentes, apresentando melhor desempenho, menor preço ou serviço superior. Martins e Guindani (2013) relembram que geralmente duas ou três empresas líderes dominam a indústria. É com base na liderança de preço que elas são responsáveis por coordenar a indústria. Para analisar a concorrência, é importante considerar que há diversos níveis de concorrentes. Para efeito dessa análise, vamos considerar a concorrência mais próxima, ou seja, empresas que oferecem produtos similares, para o mesmo público, atuando nas mesmas regiões, mesmo setor ou indústria. 5.1 Fatores-chave de sucesso Um conceito importante para essa análise é o de fatores-chave de sucesso (FCS). Segundo Fernandes e Berton (2012), FCS consistem em atributos essenciais a serem atendidos para competir em um dado setor. Por exemplo, uma empresa de bebidas deve atentar à força da marca, capacidade de distribuição e custo. Se descuidar desses atributos – por exemplo, por ter uma marca desconhecida, ou logística deficiente – perderá competitividade. Nesse sentido, cada setor possui atributos diferentes. Os atributos necessários para ser bem-sucedido em um hospital não são os mesmos que uma indústria siderúrgica ou uma agência de publicidade precisam. Mapear FCS, portanto, consiste em um primeiro exercício a ser feito pelas empresas para entender a dinâmica da concorrência em um setor. Assim, uma empresa que se dispõe a analisar a concorrência deve perguntar: Quais são os FCS essenciais para competir neste setor? Quais são os atributos que, se as empresas não atenderem, serão fortemente prejudicadas? Uma vez enumerados tais atributos, o passo seguinte é enumerar os diversos concorrentes presentes naquele setor ou as empresas que disputam diretamente o dinheiro dos mesmos clientes com ofertas semelhantes. O terceiro passo é comparar como cada empresa se situa em relaçãoa cada atributo. O próximo passo consiste em avaliar cada um desses concorrentes com base nos FCS elencados, utilizando dados reais do setor e atribuindo notas para cada empresa, em cada um dos quesitos do quadro. Uma maneira de proceder à análise é utilizar um quadro como o representado na seção Na Prática, mais à frente. É preciso classificar o desempenho de cada uma dessas empresas 11 utilizando um sistema de classificação numérico de 1 a 5, sendo 1: muito fraco; 2: fraco; 3: regular; 4: bom; 5; muito bom. A vantagem de utilizar essa ferramenta, além de conhecer mais a fundo a concorrência e o setor, é que a tabela pode revelar atributos em que os concorrentes podem estar falhando e que a empresa pode suprir, aproveitando a oportunidade e desenhando uma nova estratégia. 5.2 Concorrentes atuais e potenciais Costa (2007) chama a atenção para o fato de que enquanto os concorrentes atuais de uma organização normalmente são conhecidos – embora nem sempre tenham uma configuração semelhante à da nossa organização (ele cita o exemplo de casas lotéricas, agências de correio, serviços financeiros online, cooperativas de crédito ou consórcios de compradores como sendo concorrentes de um banco) –, os concorrentes potenciais podem vir de setores ainda nem imaginados. Segundo o mesmo autor, esses concorrentes “terão diferentes formas de atuar, usarão outras metodologias, tecnologias, formas e regras operativas ou comerciais” (p. 88). É útil ver o negócio de maneira mais ampla para poder identificar os potenciais concorrentes. Para mapear esses futuros concorrentes, o autor sugere que sejam feitas as seguintes perguntas: • Que mudanças tecnológicas podem afetar nosso negócio? • Que mudanças de hábitos dos clientes viabilizam negócios ou atividades atuais ou novas formas de serem atendidos? • Que novas leis, regulamentações ou desregulamentações do setor podem abrir oportunidades para que outros entrem e se estabeleçam? TROCANDO IDEIAS Agora vá ao fórum e discuta com seus colegas sobre as ferramentas apresentadas nesta aula. Qual o grau de dificuldade para colocá-las em prática? Como mapear os concorrentes de um setor, descobrir o tamanho de um mercado e obter outras informações necessárias para aplicar as ferramentas? 12 NA PRÁTICA A título de exemplo, considere uma empresa de telecomunicações. Podemos entender que nesse setor são fatores-chave de sucesso (FCS): qualidade do sinal, abrangência da cobertura, preço dos planos, atendimento. No Brasil, os concorrentes do setor atualmente são Vivo, Tim, Claro e Oi. Entretanto, não vamos considerar essas empresas, dado que uma análise real pressupõe uma pesquisa fundamentada, com dados de mercado e entrevistas a especialistas, algo não necessário nesse exemplo didático. Assim, vamos denominar estas empresas, genericamente, de empresa A, B, C e D. Analise a tabela a seguir, em que já usamos os nomes genéricos. Ao mesmo tempo, classificamos o desempenho de cada uma dessas empresas utilizando um sistema de classificação numérico de 1 a 5, sendo 1: muito fraco; 2: fraco; 3: regular; 4: bom; 5; muito bom. Utilize os conhecimentos adquiridos nesta aula e sua percepção acerca do setor, mesmo que seja como consumidor, e procure explicar as consequências da avaliação constante no quadro. Anote suas conclusões para discutir com seus colegas. Nossas considerações estão no final da próxima seção. Ao trabalho! Qualidade do sinal Abrangência da cobertura Preço dos planos Atendimento Empresa A 5 5 2 4 Empresa B 5 5 3 3 Empresa C 4 5 4 3 Empresa D 3 5 5 3 FINALIZANDO O objetivo desta aula foi trazer uma visão a respeito de algumas ferramentas muito utilizadas para analisar o setor em que uma dada organização atua, mapeando os fatores-chave de sucesso, avaliando os concorrentes e o estágio do ciclo de vida em que um produto se encontra, para manter um portfólio equilibrado e rentável, sempre de olho nas transformações do setor, da economia e do mundo como um todo. Vamos agora comentar os resultados da análise do quadro comparativo de empresas de telefonia, da seção Na Prática. No exemplo hipotético, alguns insights proporcionados pela análise são: 13 • No atributo abrangência da cobertura, as empresas apresentam excelente desempenho e nenhuma se diferencia. Nesse ponto é difícil obter vantagem competitiva, uma vez que esta pressupõe um atributo em que uma empresa seja superior às outras. • Na qualidade do sinal, duas empresas se destacam: A e B. Ao mesmo tempo, são as duas empresas que apresentam os piores planos de pagamento (os mais caros, na perspectiva do cliente), o que sinaliza que buscam um posicionamento premium, ou seja, oferecem algo melhor por um preço mais caro. • Ao olhar o atributo atendimento, a empresa A apresenta melhor desempenho, o que corrobora a suspeita de que A busca, de fato, um posicionamento premium. A empresa B peca nesse atributo; talvez até por isso pratique um preço menor. Entretanto, em um olhar mais amplo, observamos que nenhuma empresa se destaca nestes FCS, pois nenhuma alcança o conceito 5. • A empresa D sacrifica qualidade, mas oferta preços menores (mais atrativos), porém, com nível de atendimento também menor. • A empresa C adota posicionamento intermediário entre A e B, de um lado, e D, de outro. Outras conclusões poderiam ser extraídas, mas o que foi apresentado demonstra como a análise da concorrência e dos concorrentes pode ser feita e permite o entendimento de um aspecto importante para o setor; ela também instrumentaliza a tomada de decisões. Vamos supor que conduzimos a análise sob a perspectiva da empresa B, sugerindo a formulação de algumas estratégias. Por exemplo: B poderia buscar um posicionamento ainda mais premium e, nesse sentido, deveria investir no atendimento, aproveitando que nesse quesito nenhuma empresa tem conceito máximo. 14 REFERÊNCIAS COSTA, E. A. Gestão Estratégica: da empresa que temos para a empresa que queremos. 2 ed. São Paulo: Saraiva, 2007. FERNANDES, B. H. R.; BERTON, L. H. Administração Estratégica: da competência empreendedora à avaliação de desempenho. 2 ed. São Paulo: Saraiva, 2012. MARTINS, T. S.; GUINDANI, R. A. Estratégia e Competitividade. Curitiba: InterSaberes, 2013. PORTER, M. Estratégia competitiva: técnicas para análise de indústrias e da concorrência. Rio de Janeiro: Campus, 1986. WRIGHT, P. L.; KROLL, M. J.; PARNELL, J. Administração Estratégica: conceitos. São Paulo: Atlas, 2000. ANÁLISE DA VANTAGEM COMPETITIVA AULA 4 Profª Beatris Kemper Fernandes 2 CONVERSA INICIAL Moldando a estratégia: possibilidades e indicadores de desempenho Caro(a) aluno(a), nesta aula abordaremos os seguintes temas: • matriz strenghts, weaknesses, opportunities e threats (Swot); • desenvolvimento do negócio; • manutenção; • crescimento estrutural; • mudança organizacional. A expectativa é de que, ao final desta aula, você conheça uma importante ferramenta de gestão estratégica e possa identificar e aplicar as estratégias dela decorrentes, de modo a ter maiores condições de contribuir com a implementação de mudanças em uma organização, rumo a objetivos antes definidos. CONTEXTUALIZANDO Imagine enfrentar as dificuldades de um mercado cada vez mais competitivo e repleto de ameaças (e oportunidades), sem as ferramentas de diagnóstico. Agora que você já aprendeu várias ferramentas para isso, fica difícil pensar a gestão de uma organização sem utilizar essas técnicas, não é? Veremos então uma ferramenta muito utilizada por empresas de diversos portes e em diversas fases de seu ciclo de vida. Essa ferramenta dá um panorama mais amplo de um cenário muito competitivo. Mas, antes de começarmos, que tal ler uma matéria que ofereceuma visão bastante prática dessa ferramenta? Acesse o link a seguir e boa leitura: (Como avaliar, 2015). Depois de ler essa reportagem, reflita sobre a seguinte questão: de que maneira uma organização pode ter uma visão ampliada sobre em que focar esforços? TEMA 1 – MATRIZ SWOT A matriz Swot tem a origem de seu nome nas iniciais em inglês dos termos forças (strenghts), fraquezas (weaknesses), oportunidades (opportunities) e 3 ameaças (threats), o que leva alguns autores e professores a mudarem um pouco a ordem dos termos e se referirem a ela como matriz ou análise Fofa. Trata-se de um “[...] conceito que resume os principais aspectos do ambiente e as capacitações da empresa que têm maior impacto para o desenvolvimento da estratégia” (Fernandes; Berton, 2012, p. 136). Segundo Fernandes e Berton (2012), a matriz Swot funciona como um filtro no qual só devem constar os itens realmente relevantes e dos quais derivarão ações no momento da formulação da estratégia, em que as forças e fraquezas se referem a aspectos internos de uma organização e as ameaças e oportunidades são seus aspectos externos. Por outro lado, seu objetivo, segundo Wright, Kroll e Parnell (2000, p. 86), é “[...] possibilitar que a empresa se posicione para tirar vantagem de determinadas oportunidades do ambiente e evitar ou minimizar as ameaças ambientais” e, assim, possa “[...] formular estratégias realistas para que seus objetivos sejam atingidos”. Ao responder estrategicamente ao ambiente, a organização reduz as ameaças identificadas e tira proveito das melhores oportunidades, além de identificar a extensão em que as forças e fraquezas são relevantes ou capazes de lidar com as mudanças que ocorrem em um ambiente (Johnson; Whittington; Scholes, 2011), ajudando a gerar opções estratégicas e avaliar cursos de ação futuros. A análise Swot tem maior utilidade quando feita para uma empresa em relação a seus concorrentes (Johnson; Whittington; Scholes, 2011). Mas Johnson, Whittington e Scholes (2011) chamam a atenção para o que consideram ser os principais perigos dessa ferramenta: • Listas: o exercício pode gerar longas listas do que aparentam ser forças, fraquezas, oportunidades e ameaças, mas o que realmente conta é ser claro sobre o que é realmente mais importante e o que é menos importante, priorizando-se os tópicos. • Resumo e não substituto: a análise Swot deve ser usada como um resumo ou consolidação de outras análises, mas não é indicada como um substituto para elas, pois, assim, corre-se o risco de se basear em visões preconcebidas ou tendenciosas, por não serem tão profundas essas avaliações quanto às resultantes de outras ferramentas de análise. Costa (2007) considera, além dos pontos fortes e fracos do Swot, uma terceira categoria: a dos pontos a melhorar. Segundo ele, esses se tratam dos pontos positivos da organização, mas que ainda não se encontram em um nível 4 ou grau considerado suficientemente bom para contribuírem de fato para o cumprimento do propósito organizacional. Uma técnica interessante para verificar a posição de uma organização em comparação às concorrentes é o benchmarking, ou seja, identificar e se comparar aos “[...] melhores processos conhecidos em outras instituições do Brasil de do mundo” (Costa, 2007, p. 113). Assim, as instituições consideradas as melhores em determinado aspecto passam a mostrar o nível que a organização que ainda não atingiu esse patamar ainda pode alcançar. 1.1 Criação da matriz e definição da postura estratégica Existem vários modelos ou formatos da matriz Swot e cada organização deve definir o modelo com o qual mais se identifique. Um exemplo bastante simples é apresentado no Quadro 1 e cabe à organização definir os itens que devem preencher cada um dos quadrantes, de acordo com a realidade do seu negócio e ambiente. Quadro 1 – A matriz Swot Fa to re s ex te rn os Fatores internos Strengths (Forças) Weaknesses (Fraquezas) Opportunities (Oportunidades) Threats (Ameaças) Fonte: elaborado com base em Johnson; Whittington; Scholes, 2011, p. 108. Assim, após ter realizado o diagnóstico do negócio e do ambiente e finalizado uma análise com uso da matriz Swot, já é possível desenhar as estratégias e partir para a ação, procurando potencializar os pontos fortes e aproveitar as oportunidades, assim como buscando defender-se das ameaças e fortalecer os pontos então considerados como fracos, em uma organização. Com essa ferramenta, encerramos a etapa diagnóstica e a partir de agora abordaremos aspectos mais práticos da estratégia. Com as informações coletadas com a utilização da matriz Swot, deve-se definir a postura estratégica do negócio, que é a escolha feita pelos estrategistas considerando os pontos fortes da organização e visando às necessidades atuais e de longo prazo do negócio em seu mercado de atuação. Normalmente, isso é 5 feito após uma análise das alternativas disponíveis e a priorização da que melhor possibilite a realização da missão empresarial. Para se definir a postura estratégica, é preciso levar em conta a missão da empresa, a relação entre oportunidades e ameaças e a relação entre seus pontos fortes e fracos. O Quadro 2 ilustra essas estratégias. Quadro 2 – Posturas estratégicas com base na matriz Swot ANÁLISE INTERNA PREDOMÍNIO DE PONTOS FRACOS PREDOMÍNIO DE PONTOS FORTES AN ÁL IS E EX TE R N A PR ED O M ÍN IO D E AM EA Ç AS Sobrevivência Manutenção PR ED O M ÍN IO D E O PO R TU N ID AD ES Crescimento Desenvolvimento Fonte: elaborado com base em Oliveira, 2007. Com base no Quadro 2, percebe-se que, conforme seja identificado o predomínio de pontos fortes ou fracos e de oportunidades e ameaças, pode-se adotar estratégias que busquem a sobrevivência, a manutenção, o crescimento ou o desenvolvimento da organização. Veremos, a seguir, essas posturas estratégicas com mais detalhes. TEMA 2 – DESENVOLVIMENTO DO NEGÓCIO Tavares (2000) argumenta que cada uma das posturas estratégicas deriva da ênfase que se dá a cada estratégia, conforme o Quadro 3. 6 Quadro 3 – Ênfase das posturas estratégicas Estratégia Ênfase • Sobrevivência • Crescimento • Manutenção • Desenvolvimento • Reconstrução ou institucionalização • Recursos físicos e materiais • Mercado atual • Recursos humanos e tecnológicos Fonte: Tavares, 2000, p. 344. O autor faz uma analogia entre o desenvolvimento humano, cujo desenvolvimento físico deve ser ancorado no desenvolvimento intelectual, emocional e moral, e o desenvolvimento de uma organização, que deve crescer em estrutura, mas também se desenvolver em aspectos como o capital intelectual e os recursos tecnológicos (Tavares, 2000). Isso deve estar aliado a um profundo conhecimento de aspectos que já vimos nesta aula, tais como a definição da missão, da visão e os demais aspectos que vimos na etapa diagnóstica do negócio. Para Costa (2007), essa fase se chama fase pioneira e indica a ideia empreendedora que deriva da percepção de uma lacuna a ser preenchida por um novo negócio. Muitas vezes, essa percepção é praticamente intuitiva, partindo “[...] de um sentimento ou uma convicção de visão e de missão” (Costa, 2007, p. 68) dos fundadores da organização, mas, em outras vezes, essa percepção deriva “[...] de um levantamento detalhado do mercado e de suas potencialidades” (Costa, 2007, p. 67). Por essa visão, há uma ênfase na percepção de uma oportunidade e também a crença de que se possui os pontos fortes necessários para desenvolver um novo negócio. 2.1 Sobrevivência Alguns autores consideram a sobrevivência como uma das posturas estratégicas derivadas da matriz Swot. Tavares (2000) explica que essaestratégia é adequada para organizações que estejam sofrendo ameaça de extinção, ou seja, que estejam à beira da falência por algum motivo, com um desempenho muito abaixo do esperado, e necessitem se reposicionar em relação às suas áreas de negócios. Ainda assim, essa estratégia deve ser adotada somente quando não for possível vislumbrar outras formas de reverter o quadro de crise, pois ela tende a diminuir o tamanho da empresa, eliminando 7 desperdícios ou mesmo fechando uma unidade de negócio, realizando a venda de seus ativos. Normalmente, essa estratégia resulta de uma combinação de fatores internos e externos que estabeleçam um ambiente desfavorável para a operacionalização da empresa, com um grande número de pontos fracos e um alto índice de ameaças tanto internas quanto externas. Entre os fatores internos, os mais comuns são a má gestão, o mau uso dos recursos, a existência de conflitos sucessórios, de disputas por controle acionário ou de problemas de posicionamento e definição de negócio, missão, visão. Dentre os principais fatores externos figuram recessões econômicas, mudanças de hábitos ou de estilo de vida dos consumidores, aumento da pressão, mudanças nas regras competitivas ou emergência de novas tecnologias. Tavares (2000) defende que, quando a organização está nessa situação, a estratégia deve ter como objetivo a sua reconstrução ou institucionalização, para que as questões internas e/ou externas identificadas sejam superadas. Alguns autores enquadram ainda a estratégia de redução na tipologia derivada da matriz Swot. Quando se percebe um predomínio de pontos fracos e de ameaças à empresa, deve-se avaliar até que ponto insistir num negócio ou produto/serviço específico não está demandando esforços demais para pouco ou nenhum resultado. Se for percebido que o mercado em questão está em declínio ou que a empresa ficou para trás perante a concorrência, que pode ter investido mais em tecnologia, propaganda ou outros aspectos do negócio e, com isso, ter ganhado muito mercado, é preciso decidir se um negócio ou produto/serviço deve ser descontinuado, migrando os esforços e investimentos para áreas ou produtos/serviços com maior resultado e perspectivas. Assim, a estratégia de redução deve ser aplicada quando a sobrevivência de uma organização está ameaçada e ela não está competindo com eficiência. Ela visa à concentração de recursos em uma única linha de negócios, para se obter vantagem competitiva por meio do conhecimento especializado e eficiente em um determinado setor (Fernandes; Berton, 2012). Wright, Kroll e Parnell (2000) e Certo (2005) listam os seguintes tipos básicos de estratégia quando se opta pela redução: • Estratégia de reviravolta (turnaround) ou rotatividade: usada quando ainda não se chegou a um estágio crítico, mas se caminha nessa direção. Deve ser feita uma criteriosa análise de portfólio, eliminando produtos ou 8 serviços não lucrativos, para que haja redução da força de trabalho e dos canais de distribuição, com a organização diminuindo seus ativos e tornando-se mais enxuta e eficaz, ao mesmo tempo que busca alternativas para se tornar mais eficiente para, futuramente, passar para uma estratégia de crescimento, como veremos mais à frente. • Estratégia de desinvestimento: utilizada quando um negócio específico não está sendo bem gerido ou quando não atinge os objetivos definidos ou, ainda, quando se pretende melhorar os resultados financeiros. Assim, opta-se pela venda ou transferência desse negócio específico, de maneira que haja melhora financeira, já que a unidade problemática para de demandar recursos de unidades de negócio mais lucrativas. Outra forma de realizar o desinvestimento é por meio de um spin-off, ou seja, distribuição das ações da empresa em fatias, com a comercialização das ações menos e mais interessantes de forma separada. • Estratégia de liquidação: aplicada quando não existe alternativa para redução de custos e o negócio é encerrado, com os seus ativos sendo vendidos ou dispensados – carteira de produtos, clientes, fornecedores e pessoal –, o que normalmente acarreta perdas para os acionistas da organização. TEMA 3 – MANUTENÇÃO Como vimos no Quadro 2, quando predominam ameaças e forças a opção mais indicada é adotar uma postura estratégica de manutenção. Ela é recomendável quando a organização atingiu um patamar em que o investimento para sua expansão pode representar um custo maior do que os benefícios a serem obtidos com essa expansão (como quando a organização já tem alta participação no mercado e os investimentos adicionais não dão retorno compensatório) ou a concorrência implique tomada de ações para manter a posição já conquistada pela organização (barrando a entrada de um concorrente que queira conquistar uma parcela dos consumidores da organização) (Tavares, 2000). Embora nessa fase a ideia seja a manutenção de um estado de equilíbrio já adquirido, alguns autores a chamam de fase de estabilidade, uma vez que o seu objetivo é manter os negócios ou as linhas de atuação atuais, evitando que seus esforços competitivos se tornem dispendiosos. Deve-se potencializar ao 9 máximo os pontos fortes ao mesmo tempo que se busca minimizar os pontos fracos da organização, tentando, ainda, maximizar os pontos fracos e minimizar os pontos fortes dos concorrentes, assumindo uma atitude defensiva diante das ameaças. Certo (2005) afirma que os motivos que levam as organizações a adotarem a estratégia de manutenção ou estabilidade são: • evitar problemas com controles governamentais ou penalidades por monopólio, quando a organização é considerada de grande porte e domina seu mercado; • garantir o equilíbrio das atividades econômicas quando a organização está inserida em um cenário com baixo crescimento ou estagnação do crescimento, não tendo outras opções de estratégia. Wright, Kroll e Parnell (2000) complementam afirmando que a estratégia de manutenção para uma empresa atuante em mais de um setor corresponde à preservação do seu atual conjunto de empresas, enquanto que, para uma empresa que atua em um único setor, a estratégia deve ser manter praticamente as mesmas operações, sem buscar um crescimento significativo nas receitas ou no tamanho da empresa. De acordo com Oliveira (2007), essa estratégia apresenta três possibilidades: 1. estratégia de estabilidade: objetiva recuperar um estado de equilíbrio que está ameaçado, muitas vezes visando alcançar e manter o ponto de equilíbrio ou realizando esforços para solidificação da marca; 2. estratégia de nicho: busca dominar apenas um segmento do mercado; com isso, a organização dedica-se apenas a um único produto ou atua em um mercado exclusivo, focando os seus negócios; 3. estratégia de especialização: pretende levar a empresa a conquistar ou manter a liderança de mercado, por meio de uma única expansão de produtos ou serviços (mantendo um escopo estreito). Enfim, as estratégias de manutenção objetivam o aumento das posições competitivas, o foco na melhoria da produtividade e a manutenção das operações de uma organização, sem o objetivo de buscar seu crescimento significativo. A manutenção estratégica é utilizada em mercados que não possuem crescimento acelerado ou nas situações em que o crescimento no ambiente proporcionará um custo elevado, reduzindo os lucros. 10 TEMA 4 – CRESCIMENTO ESTRUTURAL Quando se fala em crescimento interno, este pode se apresentar de várias formas. Um crescimento estrutural se refere ao crescimento em termos de estrutura física (tamanho das instalações, número de unidades, distribuição geográfica, quantidade de máquinas e equipamentos), estrutura de recursos humanos (número de colaboradores diretos e indiretos) e estrutura financeira (investimentos, capital de giro). Voltando ao Quadro 2, vê-se que, quando predominamoportunidades e fraquezas após o uso da análise Swot, a opção é adotar uma postura estratégica de crescimento. Essa configuração é bastante comum em empresas iniciantes, que ainda não têm domínio sobre aspectos de funcionamento do negócio ou do mercado em que estão inseridas e acabam errando mais do que as empresas já estabelecidas. Se elas conseguem passar por esse estágio inicial, em que é muito alta a taxa de mortalidade de empresas, normalmente passam para a fase de crescimento. Costa (2007) defende que as empresas que conseguem passar pelos desafios iniciais devem ter uma estratégia adequada ao chamado triângulo estratégico, que compreende o propósito, o ambiente externo e a capacitação de uma organização. Conforme o autor, cada um desses três aspectos fica em um vértice desse triângulo e, caso algum deles não esteja sendo satisfeito ou não esteja em condições favoráveis, deve-se desenvolver “[...] planos de ação específicos para minorar as lacunas antes de implementar efetivamente a estratégia escolhida” (Costa, 2007, p. 49). Fernandes e Berton (2012) explicam que o crescimento interno ou orgânico deriva do aumento das vendas, da capacidade de produção e da força de trabalho de uma empresa. Por um lado, isso preserva melhor a cultura, a eficiência, a qualidade e a imagem organizacionais; mas, por outro lado, aumenta os seus custos burocráticos e de coordenação. A ressalva é de que somente devem ser criados novos negócios quando os seus benefícios são superiores aos seus custos. Wright, Kroll e Parnell (2000) afirmam que são três os principais fatores que demonstram o crescimento de uma organização: o lucro, as vendas ou a participação no mercado e, portanto, o porte da organização é um limitador para atender à demanda. Esse crescimento pode se dar por meio do crescimento 11 interno, integração vertical, integração horizontal, diversificação ou fusões e alianças estratégicas. A seguir veremos cada um desses meios de forma mais detalhada. 4.1 Tipos de crescimento interno Wright, Kroll e Parnell (2000) consideram que o crescimento interno de uma organização não se aplica só num mesmo negócio, mas pode incluir a criação de novos negócios, tanto na direção horizontal quanto na vertical. O crescimento interno horizontal pode envolver a criação de novas empresas que operem em negócios relacionados ou não ao atual negócio. Na integração vertical, o crescimento se dá por meio da aquisição ou criação de outras organizações em um canal de distribuição, aproximando e fortalecendo o relacionamento da organização com seus clientes ou fornecedores. Já na integração horizontal, são adquiridos concorrentes em uma mesma linha de negócios ou são lançados outros produtos ou marcas nas linhas em que a empresa já atua, fazendo com que ela aumente seu porte no mercado. A estratégia de diversificação abrange crescimento em outras linhas de negócio, seja em áreas próximas (diversificação relacionada), seja em muito distintas daquelas em que a empresa já atua (diversificação não relacionada). Já as fusões e aquisições buscam a incorporação de outras empresas. No caso de uma fusão, busca-se a “[...] partilha ou transferência de recursos e o ganho em força competitiva. Já na aquisição, uma empresa adquire o controle de outra, podendo ou não preservar a razão social e/ou marcas da adquirida” (Fernandes; Berton, 2012, p. 159). Por fim, quando ocorrem alianças estratégicas entre organizações, buscam-se parcerias externas para melhorar a posição organizacional no mercado. Nesse caso, duas ou mais empresas fazem uma parceria para realizar um projeto específico ou para cooperar em determinada área de um negócio, mesmo que apenas temporariamente (Fernandes; Berton, 2012). TEMA 5 – MUDANÇA ORGANIZACIONAL Agora que vimos as posturas estratégicas, é importante salientar que as organizações são dinâmicas e, portanto, as estratégias por elas definidas precisam ser revistas de tempos em tempos, assim como o preenchimento da 12 matriz Swot. Afinal, se trabalhamos para minimizar os pontos fracos e potencializar os pontos fortes de uma organização, é natural que haja mudança nesses indicadores, demonstrando a eficiência das estratégias e dos esforços de toda a organização para atingir os seus objetivos propostos. O cruzamento da matriz, assim como o direcionamento estratégico da organização, definirá ações importantes, que devem ser controladas com um plano de ação para garantir sua execução. A medição periódica é uma forma de checar a eficiência das ações e indicar-lhes os ajustes necessários, sempre priorizando a análise crítica e a percepção do contexto em que a empresa está inserida. Mudança organizacional é qualquer transformação de natureza estrutural, estratégica, cultural, tecnológica, humana ou de outro componente capaz de gerar impacto em partes da organização ou no seu conjunto (Wood Junior, 2000). Normalmente, parte-se de uma situação atual, que necessita de mudanças, para um estado futuro, que é a realidade a que se pretende chegar, passando por um estado de transição, que é quando as mudanças vão sendo implementadas. “A migração da situação existente para a situação desejada é papel maior da liderança organizacional” (Tavares, 2000, p. 283), que deve buscar transformar a direção em um senso de propósito comum para todos os colaboradores, que devem ter a visão e os valores comuns baseados nos princípios em que acreditam. E cabe ao líder da organização construir a rota que levará a esse destino, propondo desafios inspiradores. No entanto, em alguns casos, mudanças mais profundas precisam ser empreendidas. Nesse ponto, é importante diferenciar as mudanças incrementais das mudanças radicais. As mudanças incrementais são aquelas que produzem alterações sutis, embora muitas vezes necessárias e efetivas, mantendo uma mesma lógica de funcionamento na organização. Elas podem representar avanços nos benefícios percebidos pelo consumidor sem modificar de maneira expressiva o modelo de negócio ou a forma como o produto é consumido, mas geram um impacto mensurável nos negócios. Elas normalmente estão associadas à redução de custos e a melhorias dos produtos e serviços existentes, gerando a otimização do negócio existente e promovendo o reforço das competências já desenvolvidas. Já a mudança radical de um produto ou processo pressupõe alterações drásticas nas características de desempenho ou custo do negócio, criando novos 13 mercados ou transformando os mercados existentes, o relacionamento entre consumidores e fornecedores, reestruturando aspectos econômicos do mercado, desestabilizando produtos existentes e dando origem a novas categorias de produtos (Leifer; O’Connor; Rice, 2002). 5.1 Tipos de mudanças organizacionais Fernandes e Berton (2012) propõem que há três grupos de mudanças organizacionais: mudanças na estrutura, nas pessoas e nos processos organizacionais. A mudança na estrutura se refere à distribuição de responsabilidades em uma organização e deve ser concebida para que a organização atinja seus objetivos e cumpra sua missão. Deve-se levar em conta, ao se conceber a estrutura, a idade da organização, seu tamanho, o ambiente em que se insere, a natureza do negócio, a natureza do trabalho, as diferenças internas e a cultura organizacionais. As mudanças no âmbito das pessoas incluem questões como motivação, cultura, poder e liderança. A motivação é importante porque as pessoas precisam “comprar” a ideia que será implementada, de modo a se esforçarem para fazê-la acontecer. Às vezes, o próprio desafio que a mudança acarreta é suficiente para motivar as pessoas; mas, em muitos casos, é preciso que a liderança de uma organização intervenha para elevar a motivação das equipes. A relevância da cultura organizacional demanda que a mudança deve buscar manter valores semelhantesda velha cultura no novo modelo proposto, para ser percebida como legítima e ser de fato incorporada. Schein (1991, tradução nossa) define cultura como sendo o “[...] conjunto de pressupostos básicos que um determinado grupo inventou ou descobriu ao lidar com problemas de integração interna ou adaptação externa e ensina a outros membros a maneira correta de pensar ou agir em relação àqueles problemas”. O autor defende que a cultura está presente em uma organização em diversos níveis. O mais superficial deles é chamado de nível dos artefatos visíveis e é mais fácil de enxergar, estando presente na maneira de tomar decisões e executar as ações. O segundo é o dos valores professos, que a organização pratica e reconhece como sendo seus. Já o terceiro nível é mais profundo e engloba as crenças e pressupostos básicos da empresa. É o mais internalizado e é tido como óbvio, e qualquer pessoa que destoe desse modo de pensar e agir é tido como estranho à cultura organizacional (Schein, 1991). 14 Com relação ao poder, deve-se observar as relações de poder na organização, percebendo-se quem ganhará e quem perderá espaço com uma mudança, uma vez que implantar uma nova estratégia pode desestabilizar as relações de poder existentes e causar desconfortos e resistências. Para minimizar esses efeitos, que podem colocar em risco o sucesso das mudanças, é preciso que seja desenvolvida uma estratégia de implantação da mudança, incluindo mecanismos como coalizão, barganha, asserção, uso da autoridade e até mesmo aplicação de sanções (Fernandes; Berton, 2012). Por fim, no que diz respeito à liderança, supõe-se que haja coerência de objetivos entre líder e liderados, além de uma direção, que vai do líder para seus subordinados, devendo partir da alta administração. É importante que haja pessoas que comuniquem os novos objetivos, entusiasmem o grupo, acompanhem os resultados e deem feedbacks, refletindo as novas ideias que os líderes assumem e vendem, na organização. No âmbito dos processos, as mudanças definem as novas regras para o funcionamento da organização. Para tanto, é preciso que haja clareza nos processos organizacionais e na distribuição de responsabilidades, que muitas vezes não segue a lógica de cargos, mas de competências. Além disso, deve haver uma boa estratégia de comunicação, de modo a evitar os ruídos. Isso inclui pensar em uma estratégia de cima para baixo (da gerência para as equipes); mas também de baixo para cima (dos subordinados para os gerentes) e uma comunicação lateral (entre os pares). Outro aspecto é a utilização de recompensas, com um sistema de remuneração alinhado à estratégia do negócio e que pode prever distribuição de benefícios que não sejam somente dinheiro, mas que podem abarcar bônus, ações, programas de reconhecimento, entre outros. Outro aspecto ainda é o dos processos de controle, que “[...] remetem à ideia de monitoramento e mensuração do desempenho organizacional. Os agentes de mudança devem estabelecer indicadores-chave em dimensões associadas à estratégia” (Fernandes; Berton, 2012, p. 212). Por fim, no que tange à tecnologia, muitas vezes a estratégia implicará mudança nos padrões tecnológicos e isso pressupõe que haja pessoas capacitadas para implementar os aspectos tecnológicos e garantir que eles não representem um empecilho à implantação das mudanças. 15 TROCANDO IDEIAS Considerando os conteúdos estudados sobre a matriz Swot e as estratégias dela decorrentes, discuta com seus colegas e apresente suas considerações, no fórum de seu ambiente virtual, sobre a seguinte questão: qual a ligação entre a matriz Swot e o desenvolvimento das estratégias organizacionais? NA PRÁTICA1 A Smart Fit é uma rede de academias de baixo custo fundada por Edgard Corona. Com foco na experiência do cliente, as suas unidades têm uma arquitetura única, iluminação atraente, além de vestiários práticos e confortáveis. Corona fundou um novo conceito, além de oferecer treinos curtos e constantes para assegurar a fidelização de clientes. Logo foram desenvolvidas diversas unidades da Smart Fit no país e, assim, o empresário criou um plano especial, em que os clientes podiam treinar em qualquer unidade, de acordo com sua agenda diária. Por meio de uma estratégia de marketing digital, a rede Smart Fit conseguiu alcançar mais alunos e manter a academia em evidência. Hoje, o conceito da rede é facilitar a prática da atividade física de alto padrão. Com planos acessíveis e adesão facilitada, o aluno da rede de academias conta com serviços on-line e autoatendimento em suas 489 unidades. Mas a concorrência ao modelo não demorou a chegar. Rivais como Bluefit e Just Fit o copiaram e hoje a Bluefit é a segunda maior rede de academias low cost (de baixo custo) do mercado. Com base nisso, identifique as forças, fraquezas, oportunidades e ameaças que a Smart Fit encontra atualmente e qual das posturas estratégicas (conforme o Quadro 2) melhor se aplica a ela e o justifique. Se necessário, busque informações complementares. 1 A resposta para esse exercício pode ser encontrada ao final deste material, após a seção Referências. 16 FINALIZANDO O objetivo desta aula era descrever a ferramenta de gestão estratégica conhecida como matriz Swot e apresentar as estratégias dela decorrentes, de forma a fornecer subsídios para que você possa aplicar esses conhecimentos em uma situação real de diagnóstico e definição de estratégia organizacional. Foram abordados temas como as estratégias de desenvolvimento do negócio, de manutenção, de sobrevivência, de redução, de crescimento estrutural e de mudança organizacional. Para isso, discutimos as características do momento do negócio que levam a se optar por uma ou outra estratégia organizacional. Todos esses temas vistos na aula são relevantes porque a matriz Swot é uma das mais importantes e tradicionais ferramentas diagnósticas e de definição das estratégias, e você provavelmente terá a oportunidade de utilizá-la em sua prática profissional. 17 REFERÊNCIAS CERTO, S. C. Administração moderna. 9. ed. São Paulo: Pearson, 2005. COMO AVALIAR estrategicamente um novo projeto da sua empresa. Exame, 22 jan. 2015. Disponível em: . Acesso em: 26 jun. 2020. COSTA, E. A. Gestão estratégica: da empresa que temos para a empresa que queremos. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2007. FERNANDES, B. H. R.; BERTON, L. H. Administração estratégica: da competência empreendedora à avaliação de desempenho. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2012. JOHNSON, G.; WHITTINGTON, R.; SCHOLES, K. Exploring Strategy. 9. ed. Essex: Prentice Hall, 2011. LEIFER, R.; O’CONNOR, G. C.; RICE, M. A implementação de inovação radical em empresas maduras. Revista de Administração de Empresas: RAE, v. 42, p. 17-30, 2002. OLIVEIRA, D. P. R. Administração estratégica na prática: a competitividade para administrar o futuro das empresas. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2007. SCHEIN, E. H. Organizational culture and leadership. San Francisco: Jossey Bass, 1991. TAVARES, M. C. Gestão estratégica. São Paulo: Atlas, 2000. WOOD JUNIOR, T. Mudança organizacional: liderança, teoria do caos, recursos humanos, logística integrada, inovações gerenciais, cultura organizacional, arquitetura organizacional. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2009. WRIGHT, P. L.; KROLL, M. J.; PARNELL, J. Administração estratégica: conceitos. São Paulo: Atlas, 2000. 18 GABARITO Quadro 4 – Posturas estratégicas, com base na matriz Swot, projetadas para o caso Smart Fit Fa to re s ex te rn os Fatores internos Forças - ampla rede de unidades - marca conhecida - pioneirismo no conceito de academia de baixo custo Fraquezas - atendimento exclusivamente on-line ou autoatendimento não agrada a todosos clientes Oportunidades - existência de um grande mercado - apelos fitness e wellness - disponibilidade de tecnologia para oferta de treinos Ameaças - novas redes de academias de baixo custo - concorrência excessiva de academias independentes e de práticas do tipo faça você mesmo, como academias ao ar livre, aulas on-line, uso de equipamentos em casa e academias de condomínio Com relação à postura estratégica, conforme o Quadro 2, a postura predominante da Smart Fit é a de crescimento, uma vez que a empresa continua abrindo unidades em várias regiões simultaneamente, priorizando pontos com grande fluxo de pessoas, como próximos a terminais de ônibus e grandes prédios residenciais e/ou comerciais. ANÁLISE DA VANTAGEM COMPETITIVA AULA 5 Profª Beatris Kemper Fernandes 2 CONVERSA INICIAL Definindo a estratégia: core competences Caro(a) aluno(a), nesta aula, o tema central que abordaremos é a estratégia de Ansoff – outra importante ferramenta diagnóstica para ajudar a definir as estratégias organizacionais. Para nos aprofundarmos nesse assunto, veremos os seguintes temas: • estratégia de Ansoff e seu objetivo; • penetração e crescimento; • desenvolvimento de mercado; • desenvolvimento de produtos e estratégia competitiva; • diversificação e estratégia corporativa. A expectativa para esta aula é que você conheça mais uma importante ferramenta de gestão estratégica e as estratégias dela decorrentes, de modo a ter maiores condições de contribuir com o processo de definição da estratégia organizacional a ser seguida. CONTEXTUALIZANDO Uma consagrada ferramenta diagnóstica para auxiliar no desenvolvimento de estratégias, a matriz Ansoff propõe outra maneira de visualizar os caminhos possíveis para uma organização crescer. O esforço dedicado ao planejamento e ao conhecimento de todos os aspectos que influenciam o cotidiano de uma organização pode levá-la ao sucesso, enquanto que partir imediatamente para a ação, dando passos sem conhecer mais a fundo o terreno (mercado), pode levar ao fracasso das iniciativas. A ferramenta da matriz Ansoff ajuda, especificamente, a mapear o portfólio de produtos ou serviços de uma organização, auxiliando-a na estruturação da estratégia para avançar com segurança e crescer. Antes de adentrarmos o conteúdo, acesse o link a seguir, que traz uma interessante visão sobre a diversificação de produtos, a inovação e o crescimento, em tempos de crise: (Fonseca, 2020). Boa leitura! Depois de ler essa reportagem, reflita sobre as seguintes questões: a etapa de estudos preliminares sobre o produto e o mercado foi importante para garantir o crescimento da Fazenda Futuro? O que poderia ter acontecido se não tivesse sido investido tempo em planejamento, estudo do mercado e desenvolvimento do produto? Por fim, de que forma se deu o processo de diversificação de produtos? Agora, veremos a teoria e as estratégias que ajudam a estruturar o crescimento organizacional. TEMA 1 – ESTRATÉGIA DE ANSOFF E SEU OBJETIVO Continuando com o processo de análise do ambiente e da organização, agora apresentaremos uma ferramenta muito utilizada: a matriz produto- mercado, também conhecida como matriz Ansoff. Desenvolvida por Igor Ansoff (1977) em 1957 e com adaptações feitas por vários autores ao longo dos anos, ela visa identificar as oportunidades de crescimento, apresentando, de maneira simples, as quatro direções nas quais uma organização pode seguir com sua estratégia corporativa. Com isso, ela auxilia na avaliação de oportunidades de crescimento de um determinado negócio em um mercado específico. Afinal, uma estratégia bem elaborada provavelmente levará a organização a alcançar melhores resultados do que seus concorrentes. A ferramenta é especialmente indicada quando uma organização está definindo seu portfólio de produtos ou serviços, pois ajuda a identificar as opções de crescimento para atingir os objetivos a que se propõe. Assim, se ela alinhar adequadamente seus produtos aos mercados certos, poderá operar num estado de sinergia empresarial. Ansoff (1977) segmentou sua análise em produtos existentes e novos produtos; e em mercados atuais e mercados futuros. Dependendo do posicionamento da empresa em relação a seus produtos, é possível identificar diferentes estratégias, conforme demonstrado no Quadro 1. 4 Quadro 1 – Direções da estratégia corporativa PRODUTOS EXISTENTES PRODUTOS NOVOS Mercados atuais Penetração de mercado Novos produtos Mercados futuros Desenvolvimento de mercado Diversificação Fonte: Ansoff, 1977. Analisando-se o Quadro 1, é possível ver que a matriz Ansoff tem duas dimensões: produtos (ou serviços) e mercados, das quais emergem quatro estratégias possíveis: 1. Penetração de mercado: a empresa tenta aumentar as suas vendas para seus clientes atuais, sem alterar seus produtos, por meio de ações como redução de preços, aumento da propaganda e busca de maior exposição. 2. Desenvolvimento de mercado: a empresa busca identificar e desenvolver novos mercados para os produtos já existentes, como mercados demográficos, geográficos ou institucionais. 3. Desenvolvimento de produtos: a empresa procura oferecer produtos e serviços novos ou modificados, para os mercados já existentes. 4. Diversificação: a empresa pretende iniciar ou comprar negócios diferentes dos seus produtos e mercados atuais. Em termos práticos, deve-se buscar reunir o máximo de dados sobre a própria empresa, sobre o seu mercado e sobre os seus mercados potenciais. Pode ser útil também reunir dados sobre a concorrência, utilizando uma técnica chamada de benchmarking, que pode ser entendida como um processo que “[...] visa identificar as melhores práticas do mercado, por meio da comparação, a fim de incrementar a performance de uma companhia” (Dicionário Financeiro, [S.d.], grifo do original). A vantagem de se identificar e conhecer as melhores práticas de mercado é fazer com que, com parâmetros de comparação, uma empresa busque melhorar seus processos de forma a atingir o nível da empresa mais bem avaliada em determinado critério. De posse dessas informações, elas são distribuídas nos quadrantes da matriz. Aproveitando o levantamento feito anteriormente, ao preencher a matriz strenghts, weaknesses, opportunities e threats (Swot), é possível estimular o surgimento de insights que ajudarão a definir a ordem de prioridades das estratégias que serão implementadas. 5 1.1 Objetivo da estratégia Por meio da matriz produto-mercado, é possível traçar cenários possíveis para o negócio, bem como fazer projeções. É preciso preenchê-la com informações que reflitam o contexto real dos produtos, da empresa e do mercado. Dessa forma, ela permitirá enxergar de que maneira se pode explorar ao máximo os ativos que a empresa já tem, rendendo os melhores retornos para a organização. Para isso, é preciso que haja muito discernimento no preenchimento dos dados da matriz, evitando-se pintar um quadro muito mais otimista do que a realidade, mas também não descrevendo um cenário mais pessimista do que ele realmente é. Se agir assim, você corre o risco de não enxergar ameaças ou oportunidades. Todas essas estratégias podem ser vistas como uma progressão da maturidade do negócio. Dessa forma, a empresa consegue se reinventar, otimizar os seus recursos e rever seus objetivos estratégicos – afinal, o mercado está sempre em movimento e a organização deve monitorar constantemente seu ambiente interno e externo para se preparar para os novos desafios e para visualizar possíveis novas oportunidades. A estratégia é o rumo que a organização deveseguir para atingir os objetivos que foram definidos para ela, ajudando os gestores a tomar decisões quanto a seus recursos, políticas e condução. Em outras palavras, ela define os critérios para direcionar custos e cortar despesas, definir o perfil dos profissionais que a empresa precisa contratar, manter a sua comunicação com o mercado, priorizar o tratamento dos problemas e para eles criar soluções e obter melhorias, além de aumentar a produtividade. Agora veremos, com mais detalhes, cada uma das estratégias apontadas nos quadrantes da matriz produto-mercado. TEMA 2 – PENETRAÇÃO E CRESCIMENTO O primeiro quadrante do Quadro 1 é referente à penetração de mercado e acontece quando a organização decide oferecer os produtos de que já dispõe, no mesmo mercado em que atua. A solução para crescer, aqui, é ganhar uma maior fatia de mercado, sem arriscar tentando inovar. Conforme Martins e Guindani (2013), é tentar vender mais produtos em mercados em que já se atua. Essa é, frequentemente, a estratégia mais óbvia para uma empresa simples, que 6 atue em um negócio pouco diversificado: aumentar a penetração no mercado existente. Em outras palavras: a penetração de mercado implica a organização aumentar a sua participação em mercados atuais (market share) com a sua gama atual de produtos. Essa estratégia se baseia em competências estratégicas já adquiridas e não exige que a organização se aventure em território desconhecido. O escopo da organização pode permanecer inalterado, mas uma participação maior de mercado impõe um aumento de poder em relação a compradores e fornecedores, maior economia de escala e benefícios da curva de experiência. Dessa forma, o objetivo não é a inovação, mas a tomada de ações que podem se dar por meio de investimentos em marketing, como maior exposição dos produtos e mais propagandas; ou ampliação e diversificação das estratégias de vendas, por exemplo, com redução dos preços e promoções variadas. 2.1 Restrições Organizações que buscam maior penetração de mercado podem enfrentar duas restrições, segundo Johnson, Whittington e Scholes (2011): 1. Retaliação dos concorrentes: de acordo com as cinco forças de Porter, uma maior penetração de mercado pode aumentar a rivalidade na indústria, uma vez que outros concorrentes tentarão defender sua fatia de mercado. Uma rivalidade maior pode envolver guerras de preço ou onerosas batalhas de marketing, que podem vir a custar mais do que o aumento de faturamento que qualquer ganho de mercado possa gerar. Os perigos de provocar uma retaliação feroz são maiores em mercados de baixo crescimento, uma vez que qualquer ganho em volume será à custa de perdas para os concorrentes. Quando a retaliação envolve perigo, as organizações que estão buscando maior penetração de mercado precisam de capacidades estratégicas que possam lhes dar uma clara vantagem competitiva. Em mercados de baixo crescimento ou em declínio, pode ser mais efetivo simplesmente adquirir os concorrentes. Algumas empresas têm crescido rapidamente utilizando essa estratégia: afinal, as aquisições podem reduzir a rivalidade, ao retirar do mercado concorrentes independentes, passando-se a controlá-los. 7 2. Restrições legais: uma maior penetração de mercado pode aumentar as preocupações, por parte dos órgãos reguladores, com relação a um poder de mercado excessivo exercido por determinada empresa. A maioria dos países tem órgãos reguladores com poder de restringir o funcionamento de empresas muito poderosas ou prevenir contra fusões e aquisições que possam criar esse poder excessivo de mercado. Você provavelmente se lembra de alguns episódios recentes em que órgãos reguladores como o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) ou a Comissão Europeia avaliam se determinadas fusões ou aquisições não se configuram como cartéis. Cartel é qualquer acordo ou prática acertada entre concorrentes para fixar preços, dividir mercados, estabelecer quotas ou restringir produção, adotar posturas previamente combinadas em licitação pública ou que tenha por objeto qualquer variável concorrencialmente sensível (Cade, 2016). A penetração de mercado pode não ser uma boa opção quando as restrições econômicas são severas, como durante uma crise do mercado ou uma contenção de financiamento do setor público. Nesse caso, as organizações precisarão considerar a opção de contenção, retirando-se de atividades marginais para se concentrar nos segmentos e produtos de maior retorno no negócio existente (Johnson; Whittington; Scholes, 2011). Em todo caso, nos casos em que ainda houver possibilidade de crescimento, a estratégia de Ansoff aponta outras direções a seguir, que veremos nos próximos temas. TEMA 3 – DESENVOLVIMENTO DE MERCADO Voltando ao Quadro 1, o quadrante inferior esquerdo mostra a escolha estratégica das organizações que decidem oferecer produtos já existentes a novos mercados, buscando um novo direcionamento para seus produtos – o que chamamos de desenvolvimento de mercado. Normalmente, essa estratégia também implica um certo desenvolvimento de produto, em termos de inovações em embalagens ou serviços. De qualquer forma, o desenvolvimento de mercado continua sendo uma forma de diversificação relacionada à proximidade com produtos iguais ou muito próximos dos produtos originais. O desenvolvimento de mercado se apresenta de duas formas básicas: mercadológica, com a organização passando a atender a novos clientes na 8 mesma área em que já atua; ou geográfica, em que ela passa a atender a novas áreas, inclusive com opções de exportação ou abertura de filiais ou contratação de revendedores ou distribuidores em outras cidades ou outros bairros de grandes cidades. Em todos os casos, é essencial que as estratégias de desenvolvimento de mercado se baseiem em produtos ou serviços que atendam às demandas e exigências do novo mercado. Estratégias baseadas em simplesmente estender os produtos ou serviços tradicionais a novos mercados têm grande chance de fracassar, devido às características e particularidades de cada clientela. Em termos de capacidades estratégicas, frequentemente falta aos desenvolvedores de mercado as habilidades e marcas para progredir num mercado formado por clientes com os quais não estão familiarizados. Do ponto de vista da gestão, o desafio é coordenar diferentes clientes e áreas que podem ter necessidades diferentes (Johnson; Whittington; Scholes, 2011). Para se ter sucesso em uma estratégia de desenvolvimento de mercado, é fundamental fazer, antes de tudo, um bom estudo de mercado. Vamos ver agora sua importância e como obter informações sobre o mercado. 3.1 Importância do estudo de mercado Para evitar cometer o erro de muitas empresas, de achar que se pode simplesmente oferecer um mesmo produto a um novo mercado, sem qualquer cuidado ou customização, recomenda-se a realização do estudo de mercado antes de se dar o próximo passo rumo à expansão. De maneira semelhante ao estudo de mercado feito antes de se abrir um novo negócio, o estudo antes do desenvolvimento de um novo mercado deve levantar informações sobre as características e necessidades do mercado em que se pretende atuar, incluindo o cálculo da sua capacidade de consumo. Ele também pode levantar, dependendo do segmento e forma de atuação de uma empresa, informações sobre o público-alvo (persona), os concorrentes, os principais comportamentos de compra dos consumidores e os principais segmentos do nicho. Alguns aspectos essenciais que um estudo de mercado deve abranger são as barreiras de entrada, a concorrência, o mercado-alvo e suas necessidades, a segmentação e a regulamentação desse mercado. Muitas informações podem ser obtidas, gratuitamente, em órgãos de pesquisa, por exemplo: 9 • Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, [S.d.]): fornecedados demográficos sobre a população brasileira, com subsídios para se calcular a previsão de demanda e estimar o tamanho do mercado. Disponível em: . • Portal do Governo do Brasil (Brasil, [S.d.]b): disponibiliza dados sobre meio ambiente, economia, infraestrutura, ciência e tecnologia. Disponível em: . • Ministério da Economia: é uma fonte de leis, decretos e portarias. Disponível em: (Brasil, [S.d.]a). • Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae, [S.d.]): fornece informações sobre diversos aspectos que podem impactar os negócios. Disponível em: . • Google Trends ([S.d.]): ferramenta para identificar tendências por meio de buscas por termos, no Google. Disponível em: . Pesquise também os sites de associações de empresas ligadas ao seu negócio e os sites dos seus concorrentes e de produtos substitutos. Quanto mais informações, melhor. Esses são alguns caminhos para realizar seu estudo, mas faça também pesquisas diretamente com seus clientes atuais ou futuros, para aumentar seu conhecimento acerca do seu público e do mercado em que pretende entrar. A seguir, veremos outra estratégia com base na matriz de Ansoff: o desenvolvimento de produtos. TEMA 4 – DESENVOLVIMENTO DE PRODUTOS E ESTRATÉGIA COMPETITIVA A estratégia de desenvolvimento de produto é aquela na qual as organizações entregam produtos ou serviços novos ou modificados em mercados já existentes. Martins e Guindani (2013, p. 93) afirmam que, dessa forma, “[...] há uma proliferação da base produtiva que leva à segmentação de tipos de clientes diferentes, que, por sua vez, terão como opção produtos diferentes”. Segundo os autores, Ansoff (1977) definiu que “a característica principal dessa estratégia é a criação de novos produtos, fundamentados na 10 missão atual da empresa, em substituição aos produtos já existentes” (Martins; Guindani, 2013, p. 95), muitas vezes oferecendo novos produtos aos clientes atuais, aproveitando a vantagem de já existir um relacionamento e/ou credibilidade. A vantagem da estratégia é se trabalhar com um mercado já conhecido, tendo-se a facilidade de entender as principais demandas dos clientes e podendo oferecer uma solução inovadora. Conforme atestam Johnson, Whittington e Scholes (2011), o desenvolvimento de produtos pode ser uma atividade cara e de alto risco, devido a dois motivos, pelo menos: 1. Novas capacidades estratégicas: as estratégias de desenvolvimento de produto envolvem o domínio de novos processos ou tecnologias que não são familiares à organização, por isso a importância de se investir em inovação e desenvolvimento para se atender às expectativas do mercado de atuação. Um exemplo disso são os bancos, que passaram do atendimento nas agências para o atendimento on-line, sendo que muitos sofreram diversos revezes, uma vez que as tecnologias e a prestação dos serviços são radicalmente diferentes nos dois modelos de negócios e o desenvolvimento de produtos envolve altos investimentos e alto risco de fracasso dos projetos. É importante redobrar os cuidados com a qualidade do produto e com o marketing. 2. Risco na gestão de projetos: mesmo em domínios mais familiares, os projetos de desenvolvimento de produto estão sujeitos aos riscos de atrasos e aumento de custos devido à complexidade dos projetos e à mudança nas suas especificações, ao longo do tempo. 4.1 Inovação em produtos ou processos Assim como os gestores precisam encontrar um equilíbrio entre o impulso tecnológico e a atração do mercado, eles devem determinar também se a ênfase será relativa a lançar a inovação de um produto ou de um processo. Segundo Johnson, Whittington e Scholes (2011), a inovação de produto se refere ao produto ou serviço final, aquele que será vendido, especialmente com relação a suas características. Já a inovação de processo se refere à maneira como o produto é produzido e distribuído, especialmente com relação a melhorias no seu custo e confiabilidade. Algumas empresas se especializam na inovação de 11 produtos (como é o caso da Apple, por exemplo, que lança produtos com designs e funcionalidades atraentes); outras, na inovação de processos (como a Dell, por exemplo, que visa a processos eficientes, como vendas diretas, modularidade e customização). A importância relativa da inovação de produto e de processo costuma mudar conforme as indústrias se desenvolvem. Johnson, Whittington e Scholes (2011) afirmam que, normalmente, os primeiros estágios de uma indústria são dominados por inovações de produto baseadas em novas características. As indústrias geralmente se unem em torno de um design dominante, com um padrão de configuração de características básicas. Uma vez que o design dominante se estabeleça, a inovação se volta para inovações de processo, conforme os concorrentes passam a produzir o design dominante da maneira mais eficiente possível. Um exemplo disso é a indústria de automóveis: inicialmente, a dúvida da indústria era se o motor do automóvel seria instalado na frente ou atrás, se haveria três ou quatro rodas e se ele seria movido a vapor ou utilizaria petróleo. Depois que a Ford passou a produzir carros movidos a petróleo, a indústria passou a produzir conforme o modelo estabelecido e passou a se preocupar com processos como a linha de montagem em movimento. Depois que os concorrentes assimilam e adotam as inovações, é possível retornar a inovações de produto como, mais recentemente, o desenvolvimento de carros elétricos. Mas, normalmente, as inovações de produto e de processo andam juntas (Johnson; Whittington; Scholes, 2011). As grandes empresas já estabelecidas costumam ter vantagem durante os períodos de estabilidade no desenho dominante, quando as economias de escala e a habilidade de implantar inovações de processo importam mais. Mas é nos períodos de maior instabilidade no desenho dominante e de foco nos produtos, mais do que nos processos, que pode ser mais favorável a entrada de novos concorrentes em um mercado (Johnson; Whittington; Scholes, 2011). 4.2 Estratégia competitiva Para desenvolver um novo produto, uma empresa pode considerar três tipos de estratégias genéricas – um conceito que também vem de Porter (1986): diferenciação (desenvolver um produto premium, de qualidade superior e, assim, cobrar mais por isso), liderança em custo (desenvolver um produto de qualidade básica, produzido em escala e com custo inferior ao da concorrência) ou enfoque 12 (desenvolver um produto voltado a um público e mercado específico). Veremos cada uma dessas estratégias a seguir, com maior destaque. • Diferenciação: “[...] consiste em diferenciar o produto ou serviço oferecido pela empresa, criando algo considerado único no âmbito de toda a indústria”, em uma estratégia que “[...] envolve a criação e comercialização de produtos exclusivos para o mercado de massa (Fernandes; Berton, 2012, p. 111). Fernandes e Berton (2012, p. 111) lembram ainda que a diferenciação pode se valer “[...] do posicionamento de marca, de fatores tecnológicos, de dispositivos únicos ou, até mesmo, dos serviços aos clientes”, a fim de fazer a empresa adquirir vantagem competitiva. Apesar de gerarem um rápido aumento nas receitas, os novos produtos podem ser rapidamente copiados pelos concorrentes, fazendo com que a empresa precise investir mais em marketing e estratégias de vendas para manter sua fatia de mercado. Para atingir a diferenciação almejada, a empresa pode utilizar métodos como publicidade intensiva, pesquisa de mercado, engenharia de produtos, coordenação entre planejamento e desenvolvimento (P&D) e marketing, buscar liderança em qualidade ou tecnologia, singularidadenos produtos, serviços customizados e boa rede de fornecedores (Fernandes; Berton, 2012). • Liderança em custo: “[...] consiste em atingir a liderança por meio de um conjunto de políticas funcionais orientadas para a redução dos custos de operação” (Fernandes; Berton, 2012, p. 111). Assim, as empresas procuram reduzir os custos em atividades que não agregam valor, otimizar sua capacidade produtiva, trabalhar a curva de experiência da empresa e utilizar o mais racionalmente possível os fatores de produção. Para atingir a liderança em custo, a empresa pode utilizar métodos como ausência de estrutura (sem custos fixos) ou instalações em escala (com grandes instalações, há ganhos de escala), curva de aprendizado (com a experiência, há produção com maior eficiência), controle rígido de custos e despesas gerais, redução de custos que não sejam relacionados diretamente à produção, incentivos baseados em metas quantitativas, organização e responsabilidade estruturadas, produtos que permitam maior produtividade, boa capacidade de engenharia de processo, sistema de distribuição com baixo custo (Fernandes; Berton, 2012). 13 • Enfoque: “[...] consiste em escolher determinado grupo comprador, um segmento de linha de produtos ou um mercado geográfico” (Fernandes; Berton, 2012, p. 112), procurando-se “[...] segmentar o mercado, descobrindo o nicho e apelando somente para um ou poucos grupos de consumidores” (Fernandes; Berton, 2012, p. 112). O objetivo dessa estratégia é atender melhor a um mercado com base na segmentação, que permite conhecer melhor as necessidades e preferências de um mercado, de modo que o consumidor final perceba esse conhecimento e atendimento diferenciado. O enfoque pode distinguir mercados geograficamente distintos, faixas de renda ou faixas etárias. As empresas (em sua maioria, pequenas e médias) que optam por essa estratégia normalmente têm pouca participação no mercado, mas são líderes naquela determinada faixa de mercado a que oferecem seus produtos. TEMA 5 – DIVERSIFICAÇÃO E ESTRATÉGIA CORPORATIVA Costa (2007) explica que a estratégia de diversificação é um processo sistemático de busca de novas oportunidades de atuação para a organização, com base no que ela já faz bem hoje. Ela pode surgir de uma oportunidade de um negócio ainda inexistente, por necessidade de substituição de um produto ou serviço que ficou ultrapassado ou devido à entrada de um novo e forte concorrente no mercado. Existem dois tipos de diversificação que podem ser explorados: 1. diversificação relacionada ou concêntrica: quando há uma sinergia entre as áreas estratégicas atuais da empresa e o produto e o mercado novos; 2. diversificação não relacionada ou conglomerada: nesses casos, não há sinergia entre o modelo de negócios atual e as novas atividades, e a empresa busca ir além dos mercados e produtos já existentes. A diferença entre diversificação relacionada e conglomerada é frequentemente apenas o grau de relação entre os negócios. Mas a conglomerada pode aumentar radicalmente o escopo de atuação da empresa, pois lhe agrega diferentes negócios, muitas vezes sob uma mesma gestão. Com a definição da diversificação relacionada ou conglomerada, a estratégia pode se desenhar de forma horizontal (com lançamento de novos produtos, normalmente com incrementos tecnológicos) ou vertical (mediante 14 entrada em negócios de fornecedores e clientes). A diversificação horizontal é indicada quando o volume, as condições, a lucratividade, a atratividade ou a competitividade dos serviços ou produtos fornecidos para um mercado ou público-alvo atual não forem suficientes ou aceitáveis e, então, se oferecem os mesmos produtos para novos públicos, aproveitando-se o conhecimento que já se tem. A diversificação vertical busca, cria ou desenvolve novos serviços ou produtos para oferecer a uma mesma clientela. Costa (2007, p. 175) cita ainda a estratégia de diversificação diagonal, na qual se oferecem “[...] serviços e produtos novos para clientes novos, que não conhecem a organização”, ancorada nas competências essenciais que possam gerar vantagem competitiva para uma organização. O autor lista os fatores determinantes para as decisões estratégicas da organização e que compõem essas competências essenciais: “[...] sua cultura, sua estrutura e modelo de gestão, sua história e desafios enfrentados e vencidos, a dinâmica de seu negócio, o mercado, a tecnologia e o ambiente social, entre outros” (Costa, 2007, p. 175). A seguir, veremos de que forma os resultados da matriz produto-mercado afetam as estratégias corporativas. 5.1 Estratégia corporativa Com base nos resultados da matriz produto-mercado, a estratégia corporativa (que define em quais negócios a empresa vai atuar) pode se desenhar, ficando mais fácil visualizar cada um dos caminhos estratégicos e tornando as possibilidades imaginadas mais tangíveis, auxiliando na tomada de decisão. Cada estratégia é uma possibilidade de caminho que a empresa pode escolher explorar, uma vez que fornece informações e insights para que a tomada de decisões esteja mais embasada na realidade da empresa e do mercado. A matriz Ansoff também pode ser utilizada como uma forma de planejamento de curto, médio e longo prazo. Depois de traçar os quatro cenários propostos pela matriz, o gestor pode priorizar as estratégias a serem adotadas, de modo a definir quais serão as que desenvolverá primeiro e quais deixará para etapas posteriores. 15 TROCANDO IDEIAS Tendo em conta os conteúdos sobre a matriz de Ansoff e as estratégias dela decorrentes e retomando o caso sobre o qual você leu no início desta aula, sobre a Fazenda Futuro, discuta com seus colegas e apresente suas considerações no fórum de seu ambiente virtual sobre a seguinte questão: qual a postura estratégica adotada pela Fazenda Futuro? NA PRÁTICA1 A Apple é uma empresa multinacional norte-americana que projeta e vende produtos eletrônicos de consumo, softwares de computador e computadores pessoais. Fundada em 1976, na Califórnia, foi presidida por vários anos por Steve Jobs, cujas obsessões eram o design e a qualidade dos produtos. Por isso, os produtos da empresa são conhecidos por sua beleza e funcionalidade. Eles valorizam a simplicidade e a usabilidade. Em setembro de 2016, a Apple lançou os AirPods, fones de ouvido sem fio com a capacidade de se conectarem ao iPhone de maneira prática e rápida. Vendido separadamente, como acessório, o produto se tornou uma febre entre o público fiel e o público que admira a empresa, mas nem sempre tem poder aquisitivo para comprar seus produtos. Assim, logo surgiram as imitações, com preço muito mais baixo. Saiba mais a respeito dos AirPods em: (Apple, [20--]). Com base nessas informações, marque a alternativa correta, com relação à postura estratégica da Apple. Ela foi, nesse caso, de: a. ( ) penetração e crescimento; b. ( ) desenvolvimento de mercado; c. ( ) desenvolvimento de produtos; d. ( ) diversificação; e. ( ) manutenção. 1 O gabarito para este exercício pode ser encontrado ao final deste material, após a seção Referências. 16 FINALIZANDO O objetivo desta aula foi apresentar a estratégia de Ansoff, ou matriz produto-mercado, e apresentar as posturas estratégicas dela decorrentes. Assim, os temas abordados foram penetração e crescimento, desenvolvimento de mercado e de produto e diversificação. Com essas posturas estratégicas, vimos como se dá a estratégia competitiva e a estratégia corporativa para atingir os objetivos organizacionais. O domínio sobre esse conteúdo é muito importante, uma vez que se trata de uma ferramenta que é muito utilizada pelas empresas, ao definirem suas estratégias. 17 REFERÊNCIAS ANSOFF, I. H. Estratégia empresarial. São Paulo: Atlas,desses clientes. Independentemente da estratégia escolhida, o objetivo é “levar a organização a atingir e sustentar a vantagem competitiva sobre seus concorrentes” (Martins e Guindani, 2013, p. 39). Segundo os autores, embora o termo vantagem competitiva tenha sido utilizado inicialmente por Ansoff em sua obra de 1977, foi Porter quem o popularizou. Para Porter, vantagem competitiva pode ser explicada como o objetivo central da organização, sendo “sinônimo de sucesso estratégico ou, como o próprio autor definiu, a conquista de uma posição que possibilitaria ganhos acima da média” (Martins e Guindani, 2013, p. 39). A vantagem competitiva deve ser sustentável, resultando da habilidade da organização de lidar melhor que seus rivais, a partir das cinco forças competitivas (Porter, 2004), conforme veremos mais à frente. A sustentabilidade da vantagem competitiva, segundo McGrath et al. (1995), depende da possibilidade de não replicação estratégica, ou seja, da impossibilidade de os concorrentes copiarem ou replicarem o conjunto de suas práticas. 1.2 Objetivos e táticas Quinn (2006) apresenta o conceito de metas ou objetivos, afirmando que são decisões norteadoras dos resultados que precisam ser alcançados. Quando 6 afetam a direção e a viabilidade total da entidade, são chamadas de metas estratégicas. Muitas organizações enfatizam a definição de objetivos, além da missão, da visão e dos valores. Objetivos são afirmações de resultados específicos que devem ser atingidos e frequentemente são expressos em termos financeiros (Johnson et al., 2011). Podem ser as vendas desejadas ou os níveis de lucro, as taxas de crescimento, os níveis de dividendos ou a avaliação de ações. Aumenta o número de organizações preocupadas não só com o aspecto financeiro, mas também objetivos ambientais e sociais relacionados à responsabilidade corporativa com relação à sociedade como um todo. Por outro lado, táticas são atitudes adaptáveis, de curta duração, visando a um realinhamento das ações de modo a atingir objetivos dentro do escopo estratégico (Quinn, 2006). 1.3 Stakeholders Outro conceito importante para a compreensão da estratégia e das vantagens competitivas é o de stakeholders. O termo foi utilizado pela primeira vez por Robert E. Freeman no livro Strategic Management: a Stakeholder Approach, em 1984. A tradução é partes interessadas ou, como definiu Freeman na ocasião, elementos essenciais no planejamento estratégico de negócios. É o conjunto de todos os públicos com quem a organização interage e que são importantes para ela, de alguma maneira. Vale destacar que existe outra corrente de pensamento que surgiu nos estudos iniciais de governança com a visão dos stockholders, na qual se atribui aos gestores a incumbência de privilegiar e incrementar o retorno financeiro dos acionistas, em detrimento dos demais stakeholders. Wood (1990) os classificou em primários e secundários. Segundo a autora, os primários são: proprietários, clientes, fornecedores, empregados e a concorrência, conforme mostra a Figura 1 a seguir. 7 Figura 1 – Stakeholders primários Fonte: Wood, 1990. Os stakeholders secundários são: governos internos, governos externos, mídia, comunidade, organizações sem fins lucrativos, analistas financeiros, instituições financeiras, entre outros, conforme a Figura 2 a seguir. Figura 2 – Stakeholders secundários Fonte: Wood, 1990. Outra forma de classificar os stakeholders é separando-os em externos (atuam em um ambiente fora da organização – por exemplo, sociedade, compradores, fornecedores, concorrentes, órgãos governamentais, fiscalização, agências reguladoras, sindicatos, ambientalistas, comunidade, sociedade, mídia, vizinhança) e internos (atuam dentro da organização – por exemplo, colaboradores, subcontratados, terceirizados). Conforme Martins e Guindani (2013, p. 25), uma boa estratégia deve equilibrar os interesses dos diversos stakeholders da organização que, segundo os autores, se dividem em cinco grupos: acionistas, clientes, colaboradores, fornecedores e sociedade. 8 TEMA 2 – MISSÃO Agora que já temos mais clareza dos principais temas estratégicos que darão base para nosso estudo, vamos aprofundar cada um dos conceitos, iniciando pela missão. Ela é fundamental para as organizações terem clareza sobre o porquê da sua existência e atividade. Para isso, é preciso saber responder com clareza à seguinte pergunta: qual é o diferencial que seu serviço ou produto traz para seus clientes? É a resposta a essa pergunta que dará sentido às atividades diárias da organização. Segundo Wright, Kroll e Parnell (2000, p. 95), “uma empresa com um senso agudo de sua própria identidade tem muito mais chances de obter sucesso do que uma outra que não tenha um entendimento claro de sua razão de existir”. Por isso, o esforço no sentido de conhecer a fundo seu negócio, bem como suas forças e fraquezas, é válido para definir e delimitar a atuação organizacional. De acordo com Scott et al. (1998), a declaração de missão deve ser capaz de distinguir uma empresa de outras, tornando claro aquilo que lhe é exclusivo, servindo como ferramenta-guia para os empregados. Para isso, alguns cuidados devem ser tomados na elaboração da declaração da missão. 2.1 Cuidados na elaboração da missão O enunciado da missão deve ser “elaborado de maneira cuidadosa, evitando que ela seja circunstancial ou ambígua” (Tavares, 2000, p. 183). Segundo Fernandes e Berton (2012, p. 143), por possuir caráter inspirador e motivacional, pode ser conveniente expressar a missão de forma criativa, com o uso de uma metáfora que provoque a imaginação das pessoas, que mostre como, de alguma forma, elas contribuem para a construção de algo grande, de um propósito para o qual vale a pena emprenharem seu tempo e esforços. Os mesmos autores afirmam que o tom da missão dependerá da própria cultura organizacional, podendo ser mais tradicional e direto. Ao ler a missão, o público deve conseguir identificar o que a empresa faz e os colaboradores devem compreender o que fazem, de modo a uniformizar os esforços de todos para o que é fundamental para a organização (Fernandes e Berton, 2012). Alguns cuidados a mais devem ser tomados ao elaborar a missão. Ela “deve ser o mais perene possível”, por isso não deve se “prender a produtos ou serviços específicos ou fazer menção a situações transitórias” (Fernandes e 9 Berton, 2012, p. 146). Ainda assim, pode ser necessário repensar a missão depois de um período de existência, devido a fatores ambientais ou internos, ou ainda pelo desejo de entrar em novos mercados. Embora a missão seja uma frase que sintetiza o propósito da organização, muitas vezes é mais efetivo criar um slogan para comunicar a missão ao público externo. Pense em slogans que você conhece e, ao término do estudo de hoje, faça uma pesquisa para verificar se eles refletem a missão das empresas. TEMA 3 – VISÃO Muitas empresas, além da definição da missão, trabalham também com o conceito de visão – que é praticamente ser capaz de responder à pergunta: aonde a organização quer chegar? Você pode estar se perguntando se visão é o mesmo que meta. A resposta é não. Enquanto as metas são definidas para serem cumpridas em determinados prazos, a visão é definida como algo a ser perseguido por todas as pessoas que atuam na organização, mas que não pode ser delimitada em termos temporais – ou seja, não é algo com data para acontecer, mas algo que define os rumos estratégicos da organização. Tal qual a missão, também a visão pode mudar com o tempo. Collins e Porras (1998) sugerem que o horizonte de tempo deve ser de algo entre 10 e 30 anos. Do contrário, uma visão com horizonte de tempo mais curto pode se mostrar pouco desafiadora. Segundo Scott et al. (1998), ainda que a visão oriente1977. APPLE. Uma família de talento. Cupertino, [20--]. Disponível em: . Acesso em: 27 jun. 2020. BRASIL. Governo do Brasil. Brasília, [S.d.]a. Disponível em: . Acesso em: 27 jun. 2020. _____. Ministério da Economia. Brasília, [S.d.]b. Disponível em: . Acesso em: 27 jun. 2020. CADE – Conselho Administrativo de Defesa Econômica. Cartilha do Cade. Brasília, maio 2016. Disponível em: . Acesso em: 27 jun. 2020. COSTA, E. A. Gestão estratégica: da empresa que temos para a empresa que queremos. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2007. DICIONÁRIO FINANCEIRO. Benchmarking. [S.l.], [S.d.]. Disponível em: . Acesso em: 27 jun. 2020. FERNANDES, B. H. R.; BERTON, L. H. Administração estratégica: da competência empreendedora à avaliação de desempenho. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2012. FONSECA, M. Por que esta foodtech brasileira está entre as mais inovadoras do mundo. Pequenas Empresas & Grandes Negócios, 8 maio 2020. Disponível em: . Acesso em: 27 jun. 2020. GOOGLE TRENDS. [Veja o que o mundo está pesquisando]. [S.l.]: Google, [S.d.]. Disponível em: . Acesso em: 27 jun. 2020. IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Rio de Janeiro, [S.d.]. Disponível em: . Acesso em: 27 jun. 2020. 18 JOHNSON, G.; WHITTINGTON, R.; SCHOLES, K. Exploring strategy. 9. ed. Essex: Prentice Hall, 2011. MARTINS, T. S.; GUINDANI, R. A. Estratégia e competitividade. Curitiba: InterSaberes, 2013. SEBRAE – Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas. Brasília, [S.d.]. Disponível em: . Acesso em: 27 jun. 2020. 19 GABARITO A alternativa correta é a opção c – desenvolvimento de produtos. A Apple atua nas mesmas grandes linhas de produtos (computadores Macintosh, iPod, iPhone, iPad, Apple TV e Apple Watch), desenvolvendo novas versões ou lançando novos produtos, muitos dos quais são direcionados ao público que a empresa já tem – o que caracteriza a postura estratégica de desenvolvimento de produtos. ANÁLISE DA VANTAGEM COMPETITIVA AULA 6 Profª Beatris Kemper Fernandes 2 CONVERSA INICIAL Tomada de decisão e mudança organizacional Caro(a) aluno(a), nesta aula, o tema central que abordaremos é o processo de tomada de decisão. Veremos como ele deve ser conduzido e como impacta o processo estratégico. Para nos aprofundarmos nesse assunto, abrangeremos os seguintes temas: a. a tomada de decisão; b. a intuição do estrategista; c. a racionalidade da organização; d. o processo da estratégia em uma organização; e. o posicionamento da organização. A expectativa, ao final desta aula, é que você entenda a importância de conduzir ou participar de um processo de tomada de decisão em uam organização, de modo a contribuir com o seu posicionamento por meio das estratégias então definidas. CONTEXTUALIZANDO Já vimos várias ferramentas e técnicas para fazer os diagnósticos interno e externo da situação de uma organização. Agora chegou a hora de aprender a colocá-los em prática e decidir quais estratégias serão adotadas. Mas antes disso, vamos entender um pouco melhor como se dá o processo de tomada de decisão, examinando como empresas decidem quais produtos manterão ou excluirão de seu portfólio. Da mesma forma que os produtos, os processos de tomada de decisões estratégicas se baseiam em técnicas e na experiência acumulada. Acesse o link a seguir e leia a reportagem que nele consta: (Izique, 2014). Boa leitura! TEMA 1 – A TOMADA DE DECISÃO “Tomar decisões é um elemento crítico da vida organizacional” (Robbins, 2000, p. 57). E uma das tarefas mais desafiadoras que o tomador de decisão 3 tem pela frente é a análise das alternativas disponíveis para essa tomada de decisão (Robbins, 2000). Em qualquer processo de estratégia, é provável que surjam várias visões diferentes e, possivelmente, evidências incompletas para dar suporte a essas visões. Um dos papéis fundamentais dos líderes é ter a habilidade de dosar essas diferentes visões, interpretar os dados, ter confiança em tomar as decisões no tempo correto e autoridade para convencer outros a apostar nessas decisões. Martins e Guindani (2013) lembram que é preciso levar em conta as necessidades e expectativas de todos os stakeholders na tomada de decisão, em uma organização: acionistas, clientes, colaboradores, fornecedores e sociedade. Para isso, é fundamental que haja uma comunicação constante com todos esses grupos. Além da multiplicidade de públicos que são afetados pelas decisões tomadas pela organização, o ambiente é muito complexo e dinâmico e muitas vezes decisões são tomadas sob pressão de tempo e diante de incertezas, sendo preciso lidar com as consequências dessas decisões tomadas. Por isso, é importante ter uma habilidade específica: a capacidade de pensar considerando os resultados prováveis, antecipar e calcular as chances de acerto das decisões, procurando prever resultados de forma mais acurada, de forma a aumentar a possibilidade de tomar a decisão correta (Cohen; Fink, 2003). As decisões vão sendo tomadas de muitas maneiras, nem sempre de maneira racional, sendo passíveis de vários vieses. Um dos principais é que existe grande probabilidade de as pessoas exagerarem seus argumentos em favor de sua proposta específica; outro é a tendência de seguir a opinião da pessoa mais experiente no processo de tomada de decisão ou ainda tentar se antecipar e prever como essa pessoa irá se posicionar. Além dos vieses, há o risco de o tomador de decisões ter uma opinião acentuada sobre sua competência, tomando decisões de maneira otimista demais, especialmente quando há poucos dados disponíveis (Johnson; Whittington; Scholes, 2011). Mas, por outro lado, não adianta o líder simplesmente deixar as decisões a cargo de uma equipe de gerentes, pois isso tampouco garante o rigor e a efetividade do processo de tomada de decisões. Algumas orientações de Johnson, Whittington e Scholes (2011) para o processo são: • construir alternativas múltiplas e simultâneas, pois essa pluralidade incentiva que haja um debate crítico e acelera o processo, uma vez que 4 ouvir as propostas de maneira sequencial faz com que cada proposta somente seja apresentada depois de uma anterior ter sido apresentada e rejeitada; • rastrear informações em tempo real, mais do que se basear em estatísticas e projeções, priorizando os indicadores mais atuais, sejam eles informações diárias, sejam semanais sobre vendas, saldos, estoques ou quaisquer outras informações relevantes para o negócio, permitindo decisões rápidas; • buscar o ponto de vista de conselheiros confiáveis, pois gerentes mais experientes podem dar um rápido feedback do que pode funcionar ou não, baseados em sua vasta experiência prévia, direcionando perguntas difíceis, cujas respostas auxiliarão no processo de tomada de decisão; • buscar o consenso, se possível, apesar de ele às vezes conduzir a escolhas medíocres baseadas no mais baixo denominador comum, além de atrasar o processo, por despender muito tempo na tentativa de convencimento; porém, nem sempre um debate chega a um consenso, sendo então necessário intervir e tomar a decisão, cabendo aos demais aceitá-la e ajudar na implementação da proposta escolhida. Dequalquer maneira, os debates são uma espécie de conflito construtivo, muito positivos para o processo de tomada de decisão, especialmente porque podem trazer à luz os vieses da escolha mais votada. Algumas pessoas podem agir como “advogadas do diabo”, desafiando afirmações ou consensos que foram obtidos facilmente. Mas um bom conflito necessita de uma boa condução, podendo-se recorrer a jogos para definir como a discussão vai proceder. 1.1 Quem deve tomar as decisões? As decisões, nas organizações, podem ser tomadas tanto por indivíduos quanto por grupos, e podem ser segmentadas por nível hierárquico: algumas devem ser tomadas pela alta administração, por gerentes de nível médio, por supervisores ou pelos próprios funcionários (Robbins, 2000). Robbins (2000) lista as vantagens da tomada de decisão individual ou em grupo: • Tomada de decisão individual: tem como vantagem principal a rapidez, já que não é preciso dedicar tempo a convencer outras pessoas ou a ouvir outras propostas e considerações. Outra vantagem é saber quem é o 5 responsável pelas consequências da decisão – algo difícil quando a decisão parte de um grupo, em que também aparecem mais fortemente as influências das lutas pelo poder na organização. • Tomada de decisão em grupo: tem como vantagem principal a obtenção de um maior volume de informações e a heterogeneidade, pois se acumulam pontos de vista e diversas opiniões, gerando decisões de maior qualidade do que quando um indivíduo decide tudo sozinho. Por fim, costuma haver maior aceitação de uma decisão tomada pelo grupo, pois vários indivíduos participam do processo e tendem a apoiar com entusiasmo, incentivando outros para que a apoiem também. De maneira geral, é preferível que a tomada de decisão seja individual quando é necessária velocidade, quando as implicações da decisão não são tão importantes e quando o seu sucesso não depende do comprometimento dos subordinados e se há informações suficientes. Robbins (2000) conclui dizendo que, “[...] em termos de eficácia, o grupo [ou seja, a decisão tomada em grupo] é superior: ele gera mais alternativas, é mais criativo, mais preciso e produz decisões de melhor qualidade”. Já com relação ao nível hierárquico, normalmente as decisões recorrentes e rotineiras (decisões programadas) devem ser tomadas pelos níveis hierárquicos inferiores. Já as decisões não muito frequentes ou únicas (decisões não programadas) devem ser tomadas pela alta administração, que é responsável também pelas decisões estratégicas de longo prazo, em uma organização. Os gerentes de nível médio estão mais qualificados para tomar as decisões de coordenação, que geram implicações de médio prazo à empresa. Os supervisores devem cuidar das decisões mais rotineiras, departamentais, pois são eles que costumam decidir o que deve ser feito no dia a dia das organizações. Por fim, os funcionários operacionais devem tomar as decisões referentes ao trabalho, desde que sejam preparados para isso e tenham autonomia, de forma a garantir que o trabalho seja realizado conforme o previsto. A seguir, veremos com mais detalhes como se dá o processo de tomada de decisão pelo indivíduo (o estrategista) e pelo grupo (a organização). 6 TEMA 2 – A INTUIÇÃO DO ESTRATEGISTA Apesar de, muitas vezes, terem os dados necessários e estes apontarem para uma decisão como sendo a mais racional, os estrategistas constantemente utilizam sua intuição para definir suas escolhas. Robbins (2000, p. 68) define a decisão intuitiva como o “[...] processo inconsciente criado a partir de um refinamento da experiência”, que “[...] não opera necessariamente de um modo independente da análise racional”, sendo que “os dois se complementam entre si”. Cohen e Fink (2003, p. 22) lembram que os tomadores de decisão devem “[...] estar sintonizados com a sinalização oferecida por seus instintos tanto quanto com seu raciocínio dedutivo formal”, uma vez que “a maioria dos problemas não se apresenta como algo nítido e claramente recortado”. Nem toda decisão conduz à ação e, muitas vezes, as estratégias emergem sem terem sido conscientemente decididas. Nem sempre a intuição é algo ruim, pois pode fornecer bons palpites quando há poucos dados disponíveis (Johnson; Whittington; Scholes, 2011). A intuição, segundo Castor e Zugman (2008, p. 155), “[...] é um talento de valor inestimável para o estrategista. Ao contrário do que se imaginava, a intuição não é fruto de poderes sobrenaturais ou um tipo de sexto sentido. Pelo contrário, é uma resposta rápida, geralmente fruto de um profundo conhecimento do assunto”, sendo “[...] o resultado da acumulação de nossa experiência sobre o mundo” e estando “[...] fortemente baseada naquilo que chamamos de conhecimento tácito”, aquele “[...] adquirido através da prática”. Mas é possível desenvolver a intuição. Johnson, Whittington e Scholes (2011) passam algumas orientações para isso: • Questione-se até que ponto você experimenta e permite o surgimento da intuição. Até que ponto você confia nos seus instintos, palpites, pressentimentos? • Não confunda instinto, insight e intuição. • Busque feedback para suas intuições; construa um ambiente no qual você possa desenvolver uma melhor consciência intuitiva. • Perceba quão confiáveis são suas intuições. Pergunte-se como você pode melhorar seu julgamento intuitivo. • Use imagens, mais do que palavras. Visualize cenários possíveis que levem seu pressentimento em conta. 7 • Teste os julgamentos intuitivos: faça objeções a eles, gere contra- argumentos, perceba quão forte é a intuição, quando desafiada. • Crie um estado interno para deixar a intuição correr solta, capturando-a e se conectando a ela antes que seja censurada pela análise racional. 2.1 Teoria da imagem Robbins (2000) explica como é possível entender a maneira como se tomam decisões utilizando a intuição por meio da teoria da imagem. Segundo essa teoria, consideram-se três elementos básicos: imagens, testes e estruturas. As imagens são compostas de três visões diferentes. A primeira representa os princípios ou valores básicos, a segunda, as metas, e a terceira, os planos ou meios para alcançar essas metas. Segundo a mesma teoria, apresentada por Robins (2000), há dois tipos de testes: o teste de compatibilidade, cujo objetivo é eliminar o inaceitável, avalia se uma alternativa se ajusta aos princípios e metas adotados; e o teste de rentabilidade, que busca a melhor opção, ao comparar as consequências potenciais das alternativas existentes. Robbins (2000) explica que a teoria da imagem propõe que a tomada de decisões é um processo automático e intuitivo, que exige pouco raciocínio, podendo ser feito em apenas dois passos: a opção deve passar pelo teste de compatibilidade, respondendo se a decisão se alinha aos princípios, metas e planos traçados – se a resposta for sim e não houver alternativas, adota-se essa opção; se a resposta for não, a opção é descartada. Quando há mais de uma alternativa após o primeiro teste, aplica-se o teste de rentabilidade. Normalmente aí se encontra a melhor alternativa e, assim, o tomador de decisão forma uma opinião rapidamente e, em seguida, ele pode “[...] desenvolver e avaliar uma alternativa com base em sua intuição” (Robbins, 2000, p. 70). Já as estruturas (ou quadros) “[...] dizem respeito ao contexto de uma decisão ou como as informações são apresentadas” (Robbins, 2000, p. 69). A teoria defende que “o contexto no qual ocorrem as decisões conferem-lhe significado” (Robbins, 2000, p. 69), uma vez que o tomador de decisão busca, no repertório de sucessos e fracassos em contextos semelhantes, a “intuição para decidir o que fazer dessa vez” (Robbins, 2000, p. 69). Mas, como lembram Castor e Zugman (2008, p. 155), “antes de tomar qualquer decisão, deve-se sempre tentar complementar um palpite intuitivocom uma observação mais completa e equilibrada”. É isso que veremos a seguir. 8 TEMA 3 – A RACIONALIDADE DA ORGANIZAÇÃO Robbins (2000) faz algumas indagações sobre como são de fato tomadas as decisões nas organizações. Serão os tomadores de decisão realmente racionais? Eles examinam todas as alternativas com a devida atenção e diligência, de modo a encontrar aquela que otimizará o resultado? Utilizam sua criatividade? Ao longo do tempo e com a importância que a tomada de decisões acertadas foi ganhando nas organizações, foram desenvolvidos alguns modelos que buscavam simplificar a visualização geral das variáveis de uma decisão sem alterar a sua essência; auxiliar na identificação de possíveis relações entre os elementos envolvidos; permitir compreender relações complexas; e servir como base para estabelecer e aprimorar parâmetros (Beuren, 2000). Mas a mente humana não é capaz de “[...] formular e resolver problemas complexos de modo a atender aos requisitos da racionalidade plena” (Robbins, 2000, p. 67). Por isso, os indivíduos “[...] constroem modelos simplificados que captam as características essenciais dos problemas, sem considerar toda a sua complexidade”, operando “[...] dentro dos limites da racionalidade delimitada”. Nela, “selecionam os elementos essenciais dos problemas sem capturar toda a sua complexidade” (Robbins, 2000, p. 67). Entre os modelos de tomada de decisão, destacam-se como principais o racional, o processual, o anárquico e o político (Choo, 2003). Aqui abordaremos somente o modelo racional, por ser o mais disseminado nas organizações. Esse modelo sistematiza a lógica utilizada pelas pessoas nos processos de decisão racional em busca do alcance de seus objetivos, quaisquer que eles sejam. Ele pressupõe regras e procedimentos predefinidos, buscando um comportamento regulado por normas e rotinas que devem ser seguidas para que se possa atingir um bom resultado. Vamos olhar para esse modelo com mais profundidade, a seguir. 3.1 Modelo racional de tomada de decisão Quando o problema é simples e há poucas alternativas de ação, demandando poucos recursos para se buscar a solução (características raras de serem encontradas na hora de tomar uma decisão), é adequado utilizar o modelo racional de tomada de decisão. Esse modelo busca escolhas consistentes, que maximizam o valor de uma decisão, segundo limitações específicas. Essas 9 escolhas seguem um modelo de seis etapas, chamado modelo de tomada de decisão racional, que, segundo Robbins (2000, p. 58), é embasado pelos seguintes pressupostos específicos: a. definir o problema; b. identificar critérios de decisão; c. pesar esses critérios; d. gerar alternativas; e. classificar cada alternativa segundo cada critério; f. calcular a decisão ótima. O modelo parte da definição do problema, que pode ser qualquer “[...] discrepância entre uma situação existente e uma situação desejada” (Robbins, 2000, p. 57), embora ele nem sempre seja evidente. Em seguida, o tomador de decisão deve identificar os critérios de decisão necessários para se encontrar uma solução. Aqui, segundo Robbins (2000, p. 57), entram no processo “[...] os interesses, valores e preferências pessoais do tomador de decisão”, conferindo pesos diferentes para as informações disponíveis, conforme critérios pessoais. Assim, na etapa seguinte, justamente são determinadas as prioridades, segundo os critérios do tomador de decisão. Na próxima etapa, o tomador de decisão deve gerar as alternativas possíveis de ter sucesso na solução do problema em questão, fazendo uma lista. Em seguida, cada alternativa deve ser analisada e avaliada criticamente, resultando em uma classificação de cada alternativa, com pesos para cada critério. Com base nessa classificação, chega-se à última etapa, na qual o tomador de decisão busca o valor esperado, por meio do que Robbins (2000, p. 58) chama de cálculo da decisão ótima, em que o tomador deve multiplicar “a eficácia esperada de cada escolha pelo peso de cada critério e pela pontuação de cada critério para cada alternativa”. A escolha ótima (ou otimizadora) será a alternativa que obtiver o maior valor esperado. O valor esperado é “[...] um conceito que permite aos tomadores de decisão atribuir um valor monetário às consequências positivas e negativas que provavelmente resultem da seleção de uma determinada alternativa” (Robbins, 2000, p. 59). Robbins (2000, p. 59) continua explicando que esse valor “[...] é igual à soma dos vários resultados possíveis multiplicada pelo benefício ou custo de cada um”. Alguns pressupostos para aplicação desse modelo são: ter clareza do problema (ter informações completas sobre a situação); conhecer as opções 10 (identificar todos os critérios relevantes e listar todas as alternativas viáveis e as consequências possíveis de cada alternativa); ter preferências claras (os critérios e alternativas podem ser classificados e ponderados, refletindo seu grau de importância); ter preferências constantes (sem variação de critérios nem de pesos no decorrer do tempo); não haver restrições de tempo ou custo (não sofrer pressões para chegar à decisão antes de ter informações completas sobre critérios e alternativas); e nutrir a ideia de uma máxima compensação (será escolhida a alternativa que tiver o mais alto valor percebido pelo tomador de decisão). Agora que já vimos mais detalhadamente o modelo, vamos ver como acontece o processo estratégico, nas organizações. TEMA 4 – O PROCESSO DA ESTRATÉGIA EM UMA ORGANIZAÇÃO Já vimos diversas teorias e agora é a hora de nos perguntarmos: como, de fato, se desenvolvem as estratégias? Basicamente, de duas maneiras: a estratégia intencional e a estratégia emergente. Vamos ver como isso acontece. Johnson, Whittington e Scholes (2011) afirmam que a estratégia intencional é o resultado das deliberações da alta direção, sendo muitas vezes conhecida como visão desenhada ou racional/analítica do desenvolvimento da estratégia. Ela é formulada ou planejada pelos gestores de forma deliberada, muitas vezes com o uso de ferramentas, técnicas e modelos para análise e avaliação estratégica, podendo ser o resultado de: • Liderança estratégica: quando um indivíduo ou pequeno grupo, cuja personalidade, posição ou reputação fornece o domínio sobre o processo de desenvolvimento da estratégia. Muitas vezes, é o dono da organização ou alguém que conduziu algum importante processo de mudança estratégica, dessa forma personificando o sucesso da estratégia organizacional. Nesses casos, é comum a estratégia ser a intenção deliberada dessa liderança. • Sistemas de planejamento estratégico: são procedimentos para desenvolver a estratégia organizacional de forma sistematizada, num passo a passo que pode incluir as orientações iniciais acerca do ambiente, o planejamento no nível do negócio, o planejamento no nível corporativo e o estabelecimento de metas financeiras e estratégicas. 11 • Estratégia imposta externamente: por exemplo, pelos stakeholders mais fortes, como os acionistas ou um governo. No caso de governo, em situações de internacionalização isso acontece com frequência, pois a legislação local pode exigir mudanças nos planos iniciais de uma organização, fazendo às vezes com que as operações ocorram com base em joint-ventures ou por meio de alianças locais. Já a estratégia emergente não se desenvolve com base no planejamento, mas emerge com o passar do tempo, fruto de uma série de decisões. As decisões acumuladas podem ser descritas mais formalmente depois de implementadas, por exemplo em relatórios anuais. Isso poderá parecer um planejamento sendo cumprido, mas as estratégias emergentes é que montam esse plano posteriormente (Johnson; Whittington; Scholes, 2011). As principais explicações para as estratégias emergentes são: • Incrementalismológico: é o desenvolvimento da estratégia por meio de experimentação e aprendizado. Normalmente, acontece devido às incertezas ambientais, aos objetivos gerais, à experimentação e às estratégias emergentes coordenadas. • Resultado de processos políticos: é o desenvolvimento da estratégia após barganha e negociações entre poderosos grupos de interesses (ou stakeholders). • Adaptação a decisões prévias: trata-se de os gestores não procurarem mudar radicalmente suas estratégias, mas preferirem manter uma continuidade estratégica. • Resultado das rotinas e sistemas organizacionais: quando gerentes utilizam soluções de problemas mediante fórmulas já definidas e modos já consagrados de fazer as coisas e agem influenciados por sistemas e rotinas com os quais estão familiarizados em seu contexto. 4.1 Implicações e desafios ao lidar com o desenvolvimento da estratégia A forma como as pessoas enxergam o processo de desenvolvimento da estratégia varia. Por exemplo: executivos seniores tendem a ver esse processo como sendo um planejamento intencional, racional e analítico, enquanto gerentes médios podem vê-lo como o resultado de processos culturais e políticos. Gestores da área pública tendem a ver a estratégia como imposta 12 externamente. Em negócios familiares, as pessoas percebem a influência de indivíduos poderosos, que podem ser os proprietários (Johnson; Whittington; Scholes, 2011). Já entre as implicações da maneira como os gestores conduzem os processos de desenvolvimento da estratégia, Johnson, Whittington e Scholes (2011) destacam-se: • Múltiplos processos de desenvolvimento da estratégia: o desenvolvimento intencional não faz com que o emergente seja descartado e vice-versa. Ambos podem acontecer simultaneamente e a gestão desses processos deve levar isso em conta. • Contexto organizacional: as três principais influências do contexto são as características organizacionais (porte da organização, quantidade de unidades, quantidade de serviços oferecidos, grau de tecnologia), a natureza do ambiente (se estável ou dinâmico, se incerto, se simples ou complexo) e os efeitos do ciclo de vida (o estágio em que a organização se encontra pode indicar maior ou menor influência do seu fundador, por exemplo). • Modo de lidar com estratégias intencionais e emergentes: deve-se estar atento às implicações de lidar com os dois tipos de estratégias simultaneamente – verificar se as estratégias estão de fato sendo executadas, explicar o papel do planejamento estratégico aos stakeholders, mapear a origem das estratégias emergentes e desafiar o curso da estratégia para estimular as pessoas a mudarem seus posicionamentos e a maneira de fazerem as coisas (Johnson; Whittington; Scholes, 2011). TEMA 5 – O POSICIONAMENTO DA ORGANIZAÇÃO Agora que vimos como as estratégias surgem, vamos ver de que forma um negócio (seja ele um pequeno negócio familiar, seja uma organização sem fins lucrativos, uma organização do setor público ou uma unidade de uma grande corporação) deve se posicionar em seu mercado. Você deve se lembrar do que vimos em aulas anteriores acerca de posicionamento, não? Comentamos que Porter (2004) defende que a organização deve adotar um dos seguintes perfis estratégicos para ter lucros superiores à média do seu setor: liderança de custo, 13 diferenciação ou enfoque. Se necessário, volte ao conteúdo e releia. Vamos aprofundar um pouco mais esse assunto agora, pois, com seu conhecimento acerca de estratégias e ferramentas diagnósticas, você terá uma melhor compreensão da importância do posicionamento para o sucesso das estratégias de uma organização. Tavares (2008, p. 160) afirma que o posicionamento “[...] refere-se ao elo mental que se pretende com o mercado, principalmente consumidor. É a posição que pretende ocupar, na mente do consumidor e demais públicos”. Já Baker (2005) conceitua o termo posicionamento como a intenção da empresa de estabelecer uma vantagem competitiva em seu segmento-alvo, perfazendo também uma representação, em relação aos concorrentes, por meio da sua imagem. Por fim, Kotler (2000) defende que o processo de desenvolvimento do posicionamento é o ato de desenvolver não somente a oferta, mas também a imagem da empresa, colocando-a em destaque na mente dos seus clientes-alvo. Segundo McKenna (1999), o posicionamento sempre é competitivo, pois os consumidores se lembram de certos produtos e empresas em detrimento de outros, estabelecendo uma hierarquia, e se utilizam dessa noção para tomar suas decisões de compra. Para conquistar uma posição sólida, a empresa deve diferenciar seus produtos em relação aos dos concorrentes, enfatizando os aspectos intangíveis de seus produtos ou serviços. Normalmente, a empresa que se estabelece antes em um mercado tem a vantagem de se posicionar primeiro, obrigando os concorrentes que vão chegando a brigarem pelo espaço já ocupado. Assim, uma empresa que quer entrar em um mercado cujos principais concorrentes detêm a liderança em custos dificilmente terá alguma chance se tentar igualar seus custos (Castor; Zugman, 2008). Essa empresa deverá buscar um outro posicionamento, por exemplo oferecendo um atendimento diferenciado, customizado e, assim, se posicionar pela diferenciação, garantindo seu espaço e seus lucros. 5.1 Estratégias de posicionamento Payne (1993) afirma que o posicionamento depende da capacidade da organização de se diferenciar dos concorrentes na entrega de valor aos clientes. Essa diferenciação deve ser comprovada pela geração de características que atendam aos seguintes critérios: importância para o consumidor, distintividade, comunicabilidade, superioridade, acessibilidade por parte do consumidor e 14 alcance de lucratividade. Mas o posicionamento deve refletir a identidade da empresa, estando coerente com seu direcionamento estratégico. Conforme Aaker e Shansby (1982), há seis estratégias para se posicionar um produto: 1. por atributo: com base em uma ou mais características ou benefícios oferecidos; 2. por preço e qualidade: associa-se o produto a um determinado nível de qualidade, preço ou valor; 3. por uso ou aplicação: produto sendo o melhor para determinada finalidade; 4. por usuário ou classe de usuários: associa-se o produto a um grupo específico de usuários; 5. pela classe de produtos: associa-se o produto a determinada categoria; 6. pela concorrência: compara-se o produto aos produtos similares dos concorrentes. Mas é preciso lembrar que o mercado é dinâmico e os concorrentes estão todo o tempo trabalhando para aumentar sua participação no mercado. Assim, o posicionamento de uma organização deve ser avaliado regularmente para que se possa identificar precocemente mudanças nas preferências do público-alvo e nas estratégias dos concorrentes, para rever estratégias e corrigir o curso das ações. TROCANDO IDEIAS Suponha que você seja gestor de um pequeno negócio em um segmento de sua escolha. Descreva, no fórum de seu ambiente virtual, como você pensaria sua estratégia e definiria o posicionamento de seu negócio. NA PRÁTICA1 A Cristófoli Equipamentos de Biossegurança foi fundada em 1991 em Campo Mourão (PR), por Ater Carlos Cristófoli. Ele iniciou seu negócio sem recursos financeiros suficientes, sem planejamento e conhecimentos técnicos e do mercado no qual pretendia atuar: a produção e venda de autoclaves 1 O gabarito para este exercício pode ser encontrado ao final deste material, após a seção Referências. 15 (equipamentos voltados para esterilização de instrumentos cirúrgicos utilizados em consultórios odontológicos, clínicas médicas, laboratórios e ambulatórios hospitalares). Sua experiência vinha da atividade de vendas que tivera em outra empresa, em que viu necessidade de oferecer assistência técnica aos clientes. Posteriormente ao início do novonegócio, analisando melhor as suas possibilidades, Cristófoli percebeu que não tinha dinheiro suficiente nem experiência para tocá-lo, que Campo Mourão não dispunha da mão de obra especializada nem dos fornecedores de que precisava e os clientes eram todos de outras cidades, onde não havia uma rede de assistência técnica. Isso foi relevante, pois, no início das operações, todas as autoclaves vendidas pela Cristófoli apresentaram problemas e foi necessário arcar com custos de transporte e conserto dos equipamentos. Muitos dos clientes eram amigos de Cristófoli e isso o ajudou a manter a clientela (Mello et al., 2012). O empreendedor relata: “se eu tivesse plano de negócios, eu não tinha montado a minha empresa. Só depois que eu abri a empresa é que eu fui ver tudo isso” (Cristófoli, citado por Mello et al., 2012). “Apesar disso, trinta anos depois, seu empreendimento tornou-se a maior empresa do país em seu segmento: a produção de autoclaves” (Mello et al., 2012, p. 154). Relate momentos de tomada de decisão de Ater Cristófoli e elementos que ele considerou nesse processo, destacando aspectos de intuição e de racionalidade nas decisões tomadas (Mello et al, 2012). Por fim, descreva como foi o desenvolvimento da sua estratégia, com base nos conteúdos abordados nesta aula. FINALIZANDO O objetivo desta aula foi apresentar o processo de tomada de decisão e suas características com base na visão do processo como sendo intuitivo ou racional. Após a escolha da alternativa que representa a escolha ótima, é preciso fazer com que a alternativa escolhida e a estratégia definida sejam implementadas e realizadas, garantindo o fortalecimento do posicionamento definido. 16 REFERÊNCIAS AAKER, D. A.; SHANSBY G. J. Positioning your product. Business Horizons, Greenwich, v. 25, n. 3, p. 56-62, maio/jun. 1982. BAKER, M. J. Administração de marketing. Rio de Janeiro: Campus Elsevier, 2005. BEUREN, I. M. Gerenciamento da informação: um recurso estratégico no processo de gestão empresarial. São Paulo: Atlas, 2000. CASTOR, B. V. J.; ZUGMAN, F. Dicionário de termos de estratégia empresarial. São Paulo: Atlas, 2008. CHOO, C. W. A organização do conhecimento: como as organizações usam a informação para criar significado, construir conhecimento e tomar decisões. São Paulo: Ed. Senac, 2003. COHEN, A. R.; FINK, S. L. Comportamento organizacional: conceitos e estudos de caso. Rio de Janeiro: Campus, 2003. IZIQUE, C. Empresas ainda usam método informal na gestão de portfólio. Exame, 13 ago. 2014. Disponível em: . Acesso em: 28 jun. 2020. JOHNSON, G.; WHITTINGTON, R.; SCHOLES, K. Exploring strategy. 9. ed. Essex: Prentice Hall, 2011. KOTLER, P. Administração de marketing: análise, planejamento, implementação e controle. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2000. MARTINS, T. S.; GUINDANI, R. A. Estratégia e competitividade. Curitiba: InterSaberes, 2013. MCKENNA, R. Estratégias de marketing em tempos de crise. São Paulo: Publifolha, 1999. MELLO, C. M. et al. Cristófoli Equipamentos de Biossegurança: a trajetória de um visionário. TAC: Tecnologias de Administração e Contabilidade, Rio de Janeiro, v. 2, n. 2, p. 153-165, jul./dez. 2012. Disponível em: . Acesso em: 28 jun. 2020. PAYNE, A. The essence of services marketing. Londres: Prentice-Hall, 1993. PORTER, M. Estratégia competitiva. 16. ed. Rio de Janeiro: Campus, 2004. 17 ROBBINS, S. P. Administração: mudanças e perspectivas. São Paulo: Saraiva, 2000. TAVARES, M. C. Gestão de marcas: construindo marcas de valor. São Paulo: Harbra, 2008. 18 GABARITO Percebe-se que o fundador iniciou seu negócio sem os requisitos necessários para garantir minimamente o sucesso do empreendimento, baseado em sua percepção de uma oportunidade após sua experiência com clientes da empresa em que antes trabalhara. Quando as autoclaves apresentaram problemas, ele assumiu a responsabilidade pela manutenção, com todos os custos, embora talvez uma análise racional tivesse apontado para o encerramento das atividades como melhor decisão, à época. No entanto, sua determinação e possivelmente sua intuição o fizeram continuar. Sua estratégia foi emergente, tendo se desenhado conforme a atividade era desenvolvida, com base no incrementalismo lógico e em decisões baseadas em experiências prévias. Embora Ater tivesse uma ideia do que queria, no início, ele não traçou estratégias de forma elaborada ou embasada em ferramentas diagnósticas e exerceu a liderança estratégica (Mello et al., 2012). 1 Conversa inicial Contextualizando FINALIZANDO REFERÊNCIAS 2 Conversa inicial Contextualizando 1.1 Análise do ambiente interno 1.2 Pontos fortes, pontos fracos e pontos a melhorar Trocando ideias Na prática FINALIZANDO REFERÊNCIAS 3 Conversa inicial O processo da estratégia Contextualizando FINALIZANDO REFERÊNCIAS 4 Conversa inicial Moldando a estratégia: possibilidades e indicadores de desempenho Contextualizando Trocando ideias Na prática0F FINALIZANDO REFERÊNCIAS GABARITO 5 Conversa inicial Definindo a estratégia: core competences Contextualizando Trocando ideias Na prática0F FINALIZANDO REFERÊNCIAS GABARITO 6 Conversa inicial Tomada de decisão e mudança organizacional Contextualizando Trocando ideias Na prática0F FINALIZANDO REFERÊNCIAS GABARITOa organização para o futuro, ela parte do presente e é justamente a tensão que surge da comparação entre a imagem de futuro desejado e a realidade do presente que faz com que a visão se torne ação. Embora se baseie na realidade, ela permite explorar as possibilidades para atingir a imagem desejada. 3.1 Declaração de visão A declaração da visão organizacional se preocupa com o estado futuro desejado, devendo entusiasmar, conquistar engajamento e melhorar o desempenho por meio do comprometimento a um propósito comum (Johnson et al., 2011). Ela serve para comunicar aos stakeholders externos uma imagem clara do que é a organização como um todo. Além disso, provê uma espécie de disciplina à atuação organizacional no sentido de evitar empreender em 10 atividades inadequadas ou assumir custos desnecessários, à medida que aponta para a organização a direção em que ela deve seguir. Fernandes e Berton (2012, p. 147) afirmam que “a visão envolve os desejos de onde se quer chegar, compreendendo temas como valores, desejos, vontades, sonhos e ambição”. Assim como você se programou para pesquisar alguns slogans de empresas ao final desta aula, que tal pesquisar também a declaração de visão de algumas empresas? Com base nessa pesquisa, é possível verificar se as organizações estão seguindo na direção de sua visão ou se a declaração de visão se trata de um discurso descolado das estratégias que traçam, pois “definir a missão e a visão é o princípio da elaboração da estratégia” (Fernandes e Berton, 2012, p. 149). A seguir, veremos outro tema muito importante que trata dos valores organizacionais. TEMA 4 – VALORES Enquanto valores pessoais são indicadores das motivações do indivíduo, valores organizacionais se referem às percepções compartilhadas pelos colaboradores de uma organização. Tamayo e Borges (2001, p. 343) propuseram que valores organizacionais são “princípios ou crenças, organizados hierarquicamente, relativos a condutas ou metas organizacionais desejáveis, que orientam a vida da organização e estão a serviço de interesses individuais, coletivos ou ambos”. Segundo Meglino e Ravlin (1998), valores têm a função de integrar a organização internamente e de adaptá-la ao ambiente externo. Tamayo e Gondim (1996) defendem que há três aspectos básicos relacionados aos valores organizacionais: • Cognitivo: “representam respostas cognitivas prontas e privilegiadas a problemas organizacionais”. • Motivacional: expressam interesses e metas fundamentais. • Organização hierárquica: expressam preferências por determinadas condutas, metas ou estratégias, em detrimento de outras. Embora o conjunto formado por missão, visão e valores formem o cerne da identidade institucional, nem todas as organizações adotam a definição dos valores organizacionais, da mesma forma que acontece no caso da visão. Mas aquelas que o fazem têm mais um diferencial na definição de suas estratégias. 11 A declaração dos valores organizacionais comunica os princípios fundamentais e duradouros que guiam a estratégia organizacional e definem a maneira como a organização deve funcionar (Johnson et al., 2011). Segundo os autores, é preciso questionar se esses valores mudariam conforme as circunstâncias. Se a resposta for sim, então não são fundamentais nem duradouros. Collins e Porras (1998) afirmam que o sucesso duradouro de várias corporações americanas, como Disney, General Electric ou 3M, pode ser atribuído, pelo menos em parte, à sua clareza nas declarações de propósito. Para que sejam declarações bem-sucedidas, é preciso que as organizações vivam na prática o que declaram. 4.1 Tipos motivacionais Oliveira e Tamayo (2004) propuseram a seguinte tipologia para os valores organizacionais, tendo como base a relação destes com valores pessoais básicos do indivíduo, segundo Schwartz (1992), conforme o Quadro 1 a seguir. Quadro 1 – Tipologia dos valores organizacionais Fator Descrição 1 Realização Valores relacionados à busca de sucesso a partir da competência da organização e dos empregados. 2 Conformidade Valorização do respeito às regras e normas para definir os limites das ações organizacionais e o comportamento dos empregados. 3 Domínio Relação com o poder, tendo como meta a obtenção de status e o controle sobre pessoas, recursos e mercado. 4 Bem-estar Valorização da satisfação dos empregados, especialmente por meio da qualidade de vida no trabalho. 5 Tradição Valorização dos costumes e práticas consagradas da organização. 6 Prestígio Busca pelo prestígio organizacional e influência devido à qualidade de produtos ou serviços. 7 Autonomia Aperfeiçoamento constante do empregado e da organização, por meio da valorização da criatividade e competência. 8 Preocupação com a coletividade Valorização do relacionamento com pessoas próximas e com a comunidade. Fonte: Adaptado de Oliveira e Tamayo, 2004. 12 Ao final desta aula, aproveite sua pesquisa sobre slogans e visão e verifique se as organizações pesquisadas definiram e comunicaram seus valores. TEMA 5 – POLÍTICAS E PRINCÍPIOS Como acontece com vários outros termos, também para as políticas organizacionais é difícil chegar a um conceito que seja unanimidade entre os pesquisadores. Giuzi (1987, p. 6) afirma que “políticas organizacionais são guias orientadoras da ação administrativa para o atingimento das metas e objetivos estabelecidos para a organização”. Owens (1954, p. 3) as vê como “princípios para a conduta de uma empresa, um curso geral de ação seguido por pessoas que são responsáveis pela administração do negócio e relações com os stakeholders”. Quinn (2006) defende que as políticas estabelecem regras ou diretrizes que expressam os limites dentro dos quais a ação deve ocorrer – regras estas que podem tomar a forma de decisões contingentes para que haja a resolução de conflitos entre os objetivos específicos. Já os programas expressam como os objetivos serão alcançados, ou seja, estabelecem a sequência de ações necessárias para que sejam atingidos. Buskirk (1971) lista cinco funções básicas das políticas empresariais no processo decisório: uniformizar o comportamento na organização; dar continuidade às decisões; funcionar como um sistema de comunicação; facilitar na tomada de decisão; e proteger a organização contra pressões imediatas. Segundo Tavares (1991), a elaboração de políticas consiste em sistematizar e tornar explícitas as regras e diretrizes das áreas funcionais da organização, de maneira a possibilitar diferentes opções estratégicas. 5.1 Princípios Acabamos de ver os principais componentes dos chamados princípios ou propósitos organizacionais que são os alicerces da organização: missão, visão e valores. Estes devem ser entendidos como enunciados da organização que representam o modo de pensar sua relação com seus diversos públicos. Princípios são exatamente os tópicos que não estamos dispostos a mudar, mesmo em um tempo de grande transformação. “Eles podem vir descritos como 13 uma carta de princípios, um credo ou uma profissão de fé, declarando quais são as crenças básicas da organização” (Costa, 2007, p. 38). Além desses princípios, também os objetivos e as metas são importantes para definir como a organização alcançará sua visão de futuro. Esse conjunto de definições e declarações ajuda a organização a ter sua identidade reconhecida. TROCANDO IDEIAS Ao longo do texto você teve a sugestão de pesquisar slogan, visão e valores de algumas empresas. Agora é a hora de compartilhar no fórum de seu ambiente virtual os resultados dessas pesquisas com seus colegas. Diga a eles se as empresas que você pesquisou têm essas declarações e se elas estão alinhadas entre si e com a prática. Converse com seus colegas sobre as percep��ões que eles tiveram sobre as empresas que pesquisaram. NA PRÁTICA Assista aovídeo sobre o Kurotel – Centro Contemporâneo de Saúde e Bem-Estar, disponível em: . Em seguida, leia o trecho da entrevista de uma das filhas dos fundadores: A história do Kurotel é uma história de amor. Meus pais foram visionários. Nós acreditamos na nossa missão que é ‘melhor saúde, melhor vida’. Nossos princípios sempre foram respeito ao cliente e inovação. Desde o princípio, foi para isso que o Kurotel foi criado e para isso ele continua existindo. Nossa vida é a história das nossas escolhas e suas consequências. (Disponível em: . Acesso em: 6 jun. 2020. Adaptado). Essas afirmações foram fornecidas pela empresária e sócia-diretora do Kurotel, Rochele Silveira. Ela destacou que manter a empresa há 35 anos exige dedicação, respeito ao cliente, inovação e atendimento qualificado. Agora, responda às seguintes questões: a) Qual é a missão do Kurotel? b) Quais os valores (no trecho, também chamados de princípios)? c) Na sua opinião, existe alinhamento entre a fala do fundador e as declarações de missão e valores? Justifique sua resposta. No final da próxima seção você encontrará alguns comentários sobre as respostas a essas questões. 14 FINALIZANDO O objetivo desta aula era trazer alguns conceitos importantes do processo de planejamento estratégico, com vistas a melhorar a vantagem competitiva da organização. Para isso, discutimos conceitos como estratégia, habilidade estratégica, stakeholders, missão, visão, valores, políticas e princípios. Vimos ainda algumas classificações das estratégias, tipologias de perfis estratégicos, tipologia de stakeholders, cuidados ao fazer a declaração de missão e visão, e uma tipologia para os valores organizacionais. Embora não haja consenso entre pesquisadores para muitos desses conceitos e tipologias, elegemos algumas linhas de pensamento para visitar conceitos, tipologias e cuidados de elaboração, de forma que você seja capaz de compreender, apreender e avaliar o alinhamento entre os propósitos das organizações e o discurso que apregoam, podendo perceber se há dissonância entre discurso e prática das organizações. Afinal, é importante que todos saibam aonde a empresa quer chegar e o caminho que ela deve percorrer para alcançar sua visão. Para tanto, o detalhamento dos objetivos é que torna a missão mais real e palpável, proporcionando meios para atingir os objetivos da organização. É isso que forma a estratégia e ajuda a identificar as vantagens competitivas das organizações. Propusemos uma atividade de análise do Kurotel, e aqui fornecemos nossa sugestão de resposta às questões propostas na seção Na Prática: a missão é melhor saúde, melhor vida; os princípios são respeito ao cliente e inovação. Pelo que se pode observar nas instalações da clínica-hotel mostradas no vídeo, pela fala do fundador e pelo discurso da sócia-proprietária, parece haver alinhamento entre discurso e prática, com foco no bem-estar do cliente. 15 REFERÊNCIAS ANDREWS, K. R. O conceito de estratégia empresarial. In: Mintzberg, Henry & Quinn, James B. O Processo da Estratégia. Porto Alegre: Bookman, 2001. p. 58-64. ANSOFF, I. H. Estratégia Empresarial. São Paulo: Atlas, 1977. BUSKIRK, R. H. 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Utilizaremos uma importante ferramenta de gestão, chamada de análise de cenários e, ainda nesta aula, aprofundaremos mais nosso estudo sobre as Cinco Forças de Porter. CONTEXTUALIZANDO Para avaliar profundamente uma organização, deve ser realizado um diagnóstico estratégico – ação que corresponde à primeira fase do processo de planejamento estratégico e que procura verificar a real situação da empresa em relação aos seus aspectos internos e externos. Esse diagnóstico deve ser efetuado da forma maisrealista possível, identificando pontos positivos, regulares ou negativos em sua gestão administrativa. O ambiente externo é onde se encontram concorrentes, clientes, fornecedores e parceiros da organização. Já o ambiente interno é onde estão colaboradores e terceirizados; é o ambiente sobre o qual é possível ter mais de controle. Por isso, nesse momento, vamos enfatizar aspectos do ambiente interno como próximo passo do estudo do diagnóstico estratégico. Saiba mais Para começar, que tal assistir a mais uma interessante palestra para ajudar a preparar o futuro da sua organização? Ari Wallach é um futurista, um consultor especializado em planejamento estratégico de longo prazo que traz três dicas para realizar esse planejamento. A palestra complementa o assunto desta aula, estando especialmente alinhada aos temas 2 e 4, que tratam da mentalidade estratégica e da análise de cenários. Vale a pena assistir a palestra inteira, mas o foco principal da fala vai de 7’37” até 10’11’. Acesse o link a seguir e aproveite! https://www.ted.com/talks/ari_wallach_3_ways_to_plan_for_the_very_long_term?language=pt-br https://www.ted.com/talks/ari_wallach_3_ways_to_plan_for_the_very_long_term?language=pt-br 3 TEMA 1 – DIAGNÓSTICO ESTRATÉGICO E ANÁLISE DO AMBIENTE INTERNO O diagnóstico, segundo Oliveira (2007, p. 64), correspondente a uma análise estratégica apresenta algumas premissas básicas: • Deve considerar o ambiente no qual está inserida a organização e suas variáveis relevantes. • Esse ambiente proporcionará à organização oportunidades que deverão ser usufruídas e ameaças que deverão ser evitadas. • A organização deve ter pleno conhecimento de seus pontos fortes e fracos para enfrentar essa situação ambiental. • O processo de análise interna e externa deve ser integrado, contínuo e sistêmico. Quando se refere ao planejamento estratégico e à administração, o ambiente tem sido dividido em dois níveis: externo, geral ou macroambiente, em que se avaliam as grandes forças externas que influenciam a organização; e interno, com questões ligadas diretamente às operações da organização. Para Certo e Peter (1993), analisar o ambiente organizacional é monitorá- lo para identificar riscos e oportunidades, tanto presentes quanto futuros, que possam influenciar a capacidade das empresas de atingir suas metas. Eles ilustram essa distinção entre os dois ambientes que influenciam a organização, ressaltando que o ambiente externo se subdivide em ambiente geral e ambiente operacional, mais próximo da organização. O ambiente organizacional é o conjunto de todos os fatores, tanto internos quanto externos à organização, que possam afetar o seu processo para atingir essas metas. 4 Figura 1 – Distinção entre os ambientes que influenciam a organização Fonte: Adaptado de Certo e Peter, 1993. Vamos aprofundar agora as questões referentes à análise do ambiente interno. 1.1 Análise do ambiente interno O ambiente interno é composto de proprietários, empregados, administradores e ambiente físico de trabalho, além da cultura organizacional (Silva, 2008). Segundo Costa (2007), sua análise é muito importante porque é a partir do conhecimento das forças e fraquezas da organização que se constroem as melhores estratégias corporativas e competitivas. Certo e Peter (1993) definem o ambiente interno como sendo o que está dentro da organização e que normalmente tem implicação imediata e específica na sua administração. Oliveira (2007) defende que a análise do ambiente interno é fundamental para evidenciar deficiências e qualidades, ou seja, os pontos fracos e os pontos fortes da posição atual perante o mercado de atuação. Fernandes e Berton (2012, p. 94) afirmam que de forma geral, o diagnóstico do ambiente interno da organização (ou análise da organização) segue as seguintes etapas: identificação das competências da organização; análise da cadeia de valor; análise das estratégias genéricas; análise das áreas funcionais da empresa. 5 Costa (2007) afirma que muitas vezes as dificuldades em detectar, enfrentar e melhorar os pontos fracos decorrem de paradigmas estabelecidos há bastante tempo e que passaram a ser as verdades absolutas da organização. Os questionamentos e mudanças de atitudes podem demorar muito tempo, mas precisam estar incluídos no plano de transformação estratégica da organização. O autor defende que a falta de uma cultura de análise de problemas e aperfeiçoamento contínuo são outras fontes de dificuldade para transformações estratégicas. Ele explica a necessidade de instalar uma nova cultura, na qual pessoas e equipes sejam avaliadas e reconhecidas pelo desempenho dos processos de mudança e seu alinhamento com as estratégias estabelecidas, deixando para trás a cultura de culpar outras pessoas, departamentos ou concorrentes por pontos fracos e falhas que ocorrem na organização. 1.2 Pontos fortes, pontos fracos e pontos a melhorar Já falamos em outros momentos sobre os pontos fortes e fracos. Embora muitos autores utilizem essa classificação, traremos ainda uma categoria proposta por Costa (2007), que inclui os pontos a melhorar. Vamos esclarecer claramente o que cada um deles contempla. Segundo Costa (2007, p. 113): • Pontos fortes são características positivas de destaque que favorecem a organização no cumprimento do seu propósito. Alguns exemplos são uma marca conhecida e respeitada; rede de distribuição de cobertura nacional; presteza no atendimento a reclamações e pedidos de informações; linha de produtos diversificada; capacidade em pesquisa e desenvolvimento; recursos industriais ou de logística; recursos para suportar financiamentos de vendas; características excepcionais de seus recursos humanos etc. • Pontos fracos são características negativas que prejudicam a organização no cumprimento do seu propósito. Alguns exemplos são: ausência de um manual de produto claro; ausência de estacionamento para clientes; dificuldade de pagamento com cartões de crédito; opções de pagamento pouco flexíveis; ausência de atendimento de pós-venda; falta de integração entre setores, filiais ou unidades operacionais; falta de integração entre sistemas de informação etc. • Pontos a melhorar são características positivas que precisam aumentar seu nível ou grau para contribuir efetivamente no cumprimento do 6 propósito da organização. Alguns exemplos são: mecanismos de comunicação ampla, franca e rápida com os clientes, os fornecedores e a imprensa; qualidade do material ou da matéria-prima adquiridos de fornecedores; controle de estoques para evitar pedidos em falta; formação da mão de obra, sistemas de logística, etc. Ao final da aula, reflita e identifique pontos a melhorar nas organizações das quais você é ou foi cliente. Compartilhe suas percepções no fórum. TEMA 2 – MENTALIDADE ESTRATÉGICA Costa (2007) menciona um estudo realizado por Hamel e Prahalad (1995) em empresas internacionais na tentativa de responder à seguinte pergunta: como os líderes e executivos das empresas utilizam seu tempo disponível para trabalho? As respostas mostraram que apenas entre 3% e 5% do tempo dos executivos é dedicado à formulação de uma visão compartilhada do futuro, sendo este justamente o elemento fundamental para condução do bom encaminhamento estratégico da empresa. 2.1 Tipos de mentalidade Costa (2007) demonstra em um gráfico a mentalidade dos dirigentes de organizações em relação ao futuro, representando, no eixo horizontal, a variável tempo e, no eixo vertical, a distância. Gráfico 1 – Representação da mentalidade dos dirigentes em relação ao futuro Fonte: Costa, 2007. 7 O Gráfico 1 apresenta várias regiões concêntricas, nas quais, progressivamente,os horizontes temporal e espacial se expandem. Quanto mais ampla a abrangência da atuação da organização e do líder, e quanto mais à frente se projeta a estratégia, maior a capacidade de pensar de forma estratégica e com visão de longo prazo. O autor apresenta algumas características da mentalidade estratégica, tais como a capacidade dos dirigentes de se abstraírem do presente e voltarem sua visão e suas análises para o futuro, em um horizonte de tempo estendido, em uma perspectiva global. São essas características que permitem construir a visão do futuro, ao se transportar de cinco a dez anos à frente, detalhando a posição da organização no futuro desejado. Uma vantagem da mentalidade estratégica é que ela torna possível a realização do exercício mental de regressão do futuro da organização para o presente, o que permite a determinação dos objetivos e planos do presente de modo a selecionar e priorizar projetos que acabarão convergindo para alcançar o futuro contemplado. Costa (2007) descreve mais dois tipos clássicos de mentalidade, ambos muito presentes em executivos. O primeiro é chamado de mentalidade imediatista, na qual os executivos sofrem de uma miopia estratégica, pois enxergam muito bem o que está perto e no curto prazo, mas não fazem ideia do que pode vir a acontecer no médio e longo prazos. O segundo é a mentalidade operacional, que se baseia nos fatos do cotidiano e nas demandas para que tudo ocorra normalmente, permitindo uma visão de cerca de um ano no futuro, com bom nível de detalhamento. TEMA 3 – TRANSFORMAÇÃO ESTRATÉGICA Costa (2007) explica por que é tão importante ter distanciamento do cotidiano quando se trata de pensar estratégias. O autor chama a atenção para a diminuição da duração dos ciclos de mudanças, o que exige que o tempo de reação das organizações também seja cada vez mais curto, fazendo com que apresentem respostas mais rápidas. Ele afirma que, por um lado, tendências, mudanças de valores, novas tecnologias, surgimento ou desaparecimento de grandes agentes do mercado ocorrem hoje com muita frequência, e com menor horizonte de previsibilidade do que há uma ou duas décadas. Por outro lado, também é incontestável que oportunidades e ameaças de longa maturação acentuam-se cada vez mais. (Costa, 2007, p. 15) 8 Costa (2007, p. 16) também diz que os dirigentes precisam saber diferenciar os dois casos e devem manter aguçadas a percepção e a mentalidade estratégicas, uma vez que novas tecnologias, mudanças de estilos de vida, demográficas e geopolíticas, novas regulamentações e desregulamentações, por exemplo, podem afetar positiva ou negativamente os negócios ou atividades da organização. Podem ocorrer em uma época futura e em um local bem distante, mas podem acabar gerando oportunidades a serem aproveitadas e/ou ameaças a serem afastadas. 3.1 Ameaças e oportunidades Hamel e Prahalad (1995) defendem que estamos sujeitos a pelo menos cinco grandes tipos de transformações ao nosso redor. Elas devem ser continuamente monitoradas, a fim de identificarmos possíveis mudanças que possam impactar as organizações. As verdadeiras oportunidades e ameaças tendem a ocorrer, primordialmente, nas intersecções de duas ou mais mudanças simultâneas. Os autores afirmam que as cinco áreas são: mudanças tecnológicas; mudanças no estilo de vida das pessoas; mudanças nas leis e regulamentações; mudanças demográficas; e mudanças geopolíticas. Assim, na procura de possíveis oportunidades e ameaças, é preciso investigar primeiro os cruzamentos ou as intersecções de duas ou mais mudanças simultâneas. Costa (2007) comenta acerca da existência de outros tipos de mudanças, de natureza mais profunda, porém, mais sutis, tais como mudanças na composição da pirâmide etária, na opinião pública, no papel da mulher e de minorias na sociedade, nas atitudes e pressões em relação ao meio ambiente e nas mudanças climáticas e suas consequências. Quanto mais fatores em confluência, maiores as ameaças e oportunidades para as organizações. 3.1 Resistência aos processos de mudança Costa (2007, p. 67) comenta que “as mudanças nas organizações abrem novas perspectivas para alguns, mas que criam constrangimentos para outros, ameaçando posições consagradas, criando aborrecimentos e provocando medos, tensões e conflitos”. Isso justifica o porquê de haver opositores que demonstram resistências e obstáculos aos processos de mudança. O mundo está cheio de exemplos de empresas que não souberam se reinventar perante a necessidade de mudança e perderam mercado – muitas até 9 mesmo deixando de existir. Ao final desta aula, anote alguns exemplos de organizações que você conhecia e que já não existem mais. Reflita sobre os motivos que as levaram a encerrar suas atividades e compartilhe suas descobertas com seus colegas no fórum. Costa (2007, p. 71) afirma que “mudanças são fundamentais para a sobrevivência e para o crescimento das organizações no cumprimento de sua missão e, em última análise, para a realização da sua visão, do seu propósito”. Ele explica que a transformação estratégica acontece, mas o ambiente não se estabiliza nesse novo estágio, pois o mundo continua mudando cada vez mais rapidamente, em um processo contínuo e que exige da organização um estado de alerta constante. A seguir, veremos uma das ferramentas utilizadas para se antecipar e se preparar para mudanças. TEMA 4 – ANÁLISE DE CENÁRIOS Cabe aos estrategistas tentar se antecipar às oportunidades e ameaças do futuro da organização. Entretanto, Costa (2007) afirma que, geralmente, a percepção do futuro decorre muito mais de atitudes e posturas individuais – alguns veem a realidade de modo mais positivo ou mais negativo do que as circunstâncias reais. Por isso, devemos utilizar os cenários ou cenários alternativos, “um conjunto harmônico e consistente de hipóteses de trabalho, quantitativas ou qualitativas, sobre características, condições ou fatores que se esperam predominantes no ambiente externo” (Costa, 2007, p. 92). Os aspectos constantes do cenário devem ser os que afetam ou podem afetar as atividades futuras da organização, de seus clientes, de seus concorrentes e das demais partes interessadas, pois são eles que vão condicionar atividades, perspectivas de crescimento, rentabilidade, resultados, vulnerabilidade e até sobrevivência da organização. São uma espécie de quadro de referência, um conjunto de premissas e hipóteses básicas, um consenso dos administradores da empresa sobre o qual o plano estratégico é construído. Mudanças de cenário devem levar a reflexões sobre conveniência e necessidade de revisões das estratégias e dos planos de ação (Costa, 2007). 10 4.1 Cenários múltiplos Wright et al. (2000) afirmam que com a crescente imprevisibilidade das mudanças ambientais, fica cada vez mais difícil formular suposições seguras que sirvam como base para previsões. Uma ferramenta para aumentar as chances de acerto dessas previsões é desenvolver múltiplos cenários em relação ao futuro, formulando várias descrições alternativas de tendências e eventos futuros (Fahey e Narayanan, 1999). Wright et al. (2000, p. 77) explicam que um cenário pode especificar as condições econômicas mais prováveis de ocorrer num período futuro, podendo fazê-lo tanto de uma perspectiva mais otimista, quanto mais pessimista. Assim, ao formular os cenários, os estrategistas devem “identificar as principais forças no macroambiente e no setor, avaliar suas possíveis inter-relações e estimar sua influência sobre os eventos futuros”. Costa (2007) denomina esses cenários múltiplos de cenários alternativos e avalia como vantagem dessa técnica o fato de forçar a organização à análise de situações, condições e ações, ajudando a estabelecer o limite inferior e o superior para os resultados, preparando a organização para alternativasmais pessimistas e mais otimistas com relação a uma decisão estratégica a ser tomada – uma técnica também conhecida como análise de sensibilidade. 4.2 As grandes forças que modelam o futuro Costa (2007, p. 399) traz as principais fontes de tendências e descontinuidades que afetam o futuro das organizações e que devem ser levadas em conta ao se projetar os cenários futuros. São temas • sociais: novos hábitos, comportamentos, valores, cultura, lazer, família, educação, padrões éticos, estilos de vida, desigualdades etc. • econômicos: globalização, regionalização, câmbio, inflação, crescimento, renda, desemprego, privatização, distribuição de renda etc. • políticos e geopolíticos: movimentações geopolíticas, mudanças nas formas de governo, políticas públicas, políticas fiscais etc. • tecnológicos: redes sem fio, telefonia móvel, satélites, nanotecnologia, biocibernética, células-tronco, novas fontes de energia etc. 11 Tavares (2000) desdobra alguns dos temas mencionados, listando as seguintes variáveis que devem ser analisadas separadamente para a construção dos cenários: econômica, demográfica, social, política interna, política econômica, política externa, legal, cultural, tecnológica e de natureza. TEMA 5 – CINCO FORÇAS DE PORTER Segundo Wright et al. (2000, p. 79), “um conjunto de forças mais específicas dentro do setor de uma organização afeta direta e poderosamente o planejamento estratégico da administração”. É o que compõe o ambiente operacional, ou seja, a esfera mais próxima à organização, constituída por clientes, fornecedores, concorrentes, produtos e serviços substitutos, entre outros (Fernandes e Berton, 2012). Porter (1986) identificou as cinco forças setoriais competitivas básicas que afetam uma organização, proporcionando uma análise estrutural, como veremos mais detalhadamente a seguir. Fernandes e Berton (2012) explicam que o desempenho de uma organização estaria ligado a dois fatores: desempenho estrutural do setor e posicionamento da organização nesse setor. Os autores afirmam que a lógica subjacente ao modelo é que, quanto maior a força, menor a rentabilidade estrutural do setor e, consequentemente, da organização. A Figura 2 explica as forças que veremos em detalhes a seguir. Figura 2 – Forças dentro da organização Fonte: Adaptado de Porter, 1986. 12 a) Ameaça de entrada de novos competidores: Fernandes e Berton (2012) afirmam que se um mercado é atrativo e não existem barreiras significativas, novos competidores podem entrar a qualquer momento, roubando participação de mercado, oferecendo descontos e incrementando a necessidade de propaganda e, assim, diminuindo a rentabilidade do negócio. A ameaça deve ser considerada a partir de vários fatores, como economias de escala, diferenciação dos produtos, necessidades de capital, custos de mudança, acesso a canais de distribuição, reação dos concorrentes e políticas governamentais. b) Rivalidade em relação aos concorrentes existentes: para Fernandes e Berton (2012, p. 73) “as empresas são mutuamente dependentes, pois as ações de uma sempre exercem impacto sobre as demais”. Geralmente, a rivalidade se manifesta na forma de concorrência de preços, batalhas de publicidade ou frequente introdução de produtos. Os autores dizem que “o grau de concorrência cresce, de certo modo, em função do número de concorrentes: a presença de numerosos concorrentes faz com que muitas empresas movimentem-se no mercado sem serem percebidas; a existência de poucos concorrentes propicia a formação de oligopólios” e “a concorrência será mais acirrada quando houver equilíbrio relativo dos concorrentes em termos de recursos e tamanho”. c) Pressão dos produtos substitutos: produtos substitutos são alternativas satisfatórias às necessidades semelhantes dos consumidores, mas diferem em características específicas (Wright et al., 2000) e representam um risco para qualquer setor à medida que impõem limite para os preços (Fernandes e Berton, 2012). d) Poder de barganha dos compradores: segundo Fernandes e Berton (2012, p. 77), “o poder dos compradores pode pressionar a rentabilidade de uma indústria, forçando os preços para baixo, exigindo melhor qualidade e forçando o acirramento da concorrência”. Um grupo comprador é poderoso se: for concentrado ou representar grande volume de compra em relação às vendas do setor; adquire produtos que representam uma fração significativa de seus custos; compra produtos padronizados da indústria e não tem outras opções; enfrenta poucos custos de mudança; seus lucros são baixos; representa ameaça de integração na cadeia de fornecedores, passando a produzir aquilo que 13 adquiria de terceiros; o comprador tem total informação do mercado (demanda, preços reais praticados, custo dos fornecedores). e) Poder de barganha dos fornecedores: “os fornecedores também pressionam a rentabilidade de um setor à medida que podem aumentar seus preços e reduzir a qualidade de seus produtos” (Fernandes e Berton, 2012, p. 78). Um grupo fornecedor é poderoso se: é dominado por poucas companhias e é mais concentrado do que a indústria para a qual vende; não está obrigado a lutar com os outros produtos substitutos; a indústria não é um cliente importante para ele; a produção dos fornecedores é um insumo importante para o negócio do comprador; os produtos que compra da indústria são diferenciados ou há custos de mudança; existe ameaça de integração futuramente. Para verificar como posicionar a empresa adequadamente dentro de seu setor de atuação, existem outras ferramentas de análise, como veremos nas próximas aulas. TROCANDO IDEIAS Ao longo do texto você foi convidado a refletir e identificar pontos a melhorar nas organizações das quais é ou foi cliente, bem como identificar os motivos que levaram organizações que já não existem mais a encerrar suas atividades, compartilhando suas descobertas no fórum. Converse com seus colegas sobre percepções que eles tiveram acerca das empresas que pesquisaram e busquem pontos de sinergia e divergências entre as opiniões levantadas. Essa troca de experiências pode ampliar muito seus horizontes. NA PRÁTICA Leia o texto a seguir e faça uma breve análise do setor de academias de ginástica, verificando cada uma das Cinco Forças de Porter. Há um enorme potencial para quem atua no mercado fitness no Brasil – especialmente o de academias, mas também o de nutrição esportiva (suplementos), tecnologia (monitores de condicionamento), moda (roupas e tênis para malhar) e até beleza (cosméticos específicos para esportistas). A indústria de atividades físicas movimenta em média 2,1 bilhões de dólares no Brasil, com mais de 34.500 academias no Brasil, o que nos 14 torna o segundo país do mundo com maior concentração de academias. Diante do cenário de recessão, existe uma adaptação dos negócios, com maior diversificação. Uma das mudanças mais significativas foi o surgimento das academias de baixo custo. Franquias como Smart Fit e Bluefit, as duas maiores do segmento, consolidaram-se como modelo de negócio e já representam 13% das instituições de ginástica no país. Com mensalidades que custam em média 100 reais e estrutura enxuta, elas seguem crescendo. A Smart Fit bateu em 2018 a marca de 2 milhões de clientes em mais de 550 unidades na América Latina, e a Bluefit fechou 2018 com faturamento de 100 milhões de reais. As escolas de nicho, especializadas numa modalidade (como os estúdios de bike e corrida indoor, pilates, funcional, lutas, crossfit), muitas delas cobrando por aulas avulsas ou créditos-aula em vez de mensalidade, além das de baixo custo, tiraram muita gente das grandes academias e se tornaram uma fatia importante do mercado”. Quem se mantém nas academias convencionais é sobretudo o público com poder aquisitivo maior. Mas a academiaé a escolha principal de 28% dos praticantes, de acordo com números da IHRSA. A maior parte (41%) malha ao ar livre e faz principalmente caminhada e corrida. Atividades de todo tipo, como funcional, ioga, dança e luta, também passaram a reunir grupos em parques, praças, escadarias, terraços de shopping e até helipontos nos fins de semana. Disponível em: . Adaptado. Acesso em: 08 jun. 2020. Figura 3 – Raio-x das academias Fonte: IHRSA Global Report e Mindminers, 2018. https://vocesa.abril.com.br/mercado-vagas/onda-fitness-movimenta-us2-bi-no-brasil-e-so-cresce-veja-como-aproveitar/ https://vocesa.abril.com.br/mercado-vagas/onda-fitness-movimenta-us2-bi-no-brasil-e-so-cresce-veja-como-aproveitar/ https://vocesa.abril.com.br/mercado-vagas/onda-fitness-movimenta-us2-bi-no-brasil-e-so-cresce-veja-como-aproveitar/ 15 No final da próxima seção você encontrará alguns comentários sobre a aplicação do caso às Cinco Forças de Porter. Compare-os às suas conclusões. FINALIZANDO O objetivo desta aula foi abordar alguns elementos para análise do ambiente interno, trazendo a visão de longo prazo da mentalidade estratégica em oposição à mentalidade de curto prazo, mais operacional. Também estudamos os impactos da transformação estratégica e como o cenário de incertezas afeta os rumos estratégicos das organizações. Para lidar com essas incertezas, observamos a técnica da análise de cenários, que possibilita imaginar um futuro para a organização, seja otimista, neutro ou pessimista, permitindo traçar diferentes estratégias conforme acontecimentos previsíveis. O último tema abordou as Cinco Forças de Porter, modelo reconhecido para analisar o setor em que a organização está inserida, levando em conta aspectos que fazem toda a diferença no funcionamento e na rentabilidade de uma empresa. Propusemos uma atividade de análise do setor de academias de ginástica na seção Na Prática, e aqui fornecemos alguns comentários acerca das Cinco Forças de Porter, para que você compare às suas respostas. • Ameaça de entrada de novos competidores: qualquer novo concorrente terá que investir em equipamentos e marketing, algo que nesse segmento não significa investimento altíssimo. Portanto, considera-se como uma grande ameaça, uma vez que é possível conseguir o investimento inicial necessário para aluguel do ponto, abertura da empresa, compra de equipamentos, capital de giro. • Rivalidade entre concorrentes: a concorrência de preços achata as margens de lucro, dificultando a manutenção das empresas nesse setor. Além de diversas academias pequenas, academias de outras modalidades e grandes redes de franquias, também são considerados concorrentes parques e espaços públicos, onde muitos optam por treinar. Sendo assim, existe alta rivalidade entre os concorrentes. • Ameaça de produtos substitutos: academias que utilizam treinamento sem pesos (como a Tecfit), a prática de esportes ao ar livre – sozinho, com personal trainer ou equipes de treino, outras modalidades esportivas, 16 como pilates, yoga e dança, e também as aulas on-line. Considera-se, portanto, como sendo alta a ameaça de substitutos. • Poder de barganha dos compradores: com planos de pagamento fixos e diferentes vantagens agregadas, é sempre bom estar de olho nos preços praticados pelos concorrentes. Como esse não é um produto essencial e a concorrência é grande, essa ameaça é avaliada como média. • Poder de barganha dos fornecedores: são os fabricantes de equipamentos de ginástica e profissionais de educação física, que também percebem grande concorrência em suas áreas, portanto, não representam muita ameaça, mas, sim, têm baixo poder de barganha. 17 REFERÊNCIAS CERTO, S. C.; PETER, J. Paul. Administração estratégica: planejamento e implantação estratégica. Tradução: Flávia D. Steffen. São Paulo: Pearson Education do Brasil, 1993. COSTA, E. A. Gestão Estratégica: da empresa que temos para a empresa que queremos. 2 ed. São Paulo: Saraiva, 2007. FAHEY, L.; NARAYANAN, V. K. Análise Macroambiental: Compreendendo o ambiente fora do setor. In: FAHEY, L.; RANDALL, R. M. (org.). MBA: Estratégia. Rio de Janeiro: Campus, 1999. FERNANDES, B. H. R.; BERTON, L. H. Administração Estratégica: da competência empreendedora à avaliação de desempenho. 2 ed. São Paulo: Saraiva, 2012. HAMEL, G.; PRAHALAD, C. K. Competindo pelo futuro. Rio de Janeiro: Campus, 1995. MARTINS, T. S.; GUINDANI, R. A. Estratégia e Competitividade. Curitiba: InterSaberes, 2013. OLIVEIRA, D. P. R. Planejamento estratégico. São Paulo: Atlas, 2007. PORTER, M. Estratégia competitiva: técnicas para análise de indústrias e da concorrência. Rio de Janeiro: Campus, 1986. SILVA, R. O. Teorias da administração. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2008. WRIGHT, P. L.; KROLL, M. J.; PARNELL, J. Administração Estratégica: conceitos. São Paulo: Atlas, 2000. ANÁLISE DA VANTAGEM COMPETITIVA AULA 3 Prof.ª Beatris Kemper Fernandes 2 CONVERSA INICIAL O processo da estratégia Caros alunos! Nosso tema agora é Criando uma perspectiva para a estratégia. Para isso, vamos abordar maneiras de definir o portfólio da organização com o uso de conceitos e técnicas, como análise de portfólio, ciclo de vida do produto, matriz BCG, matriz GE e análise da concorrência e dos concorrentes. CONTEXTUALIZANDO Uma organização deve ter clareza sobre os tipos de mercado em que deseja atuar e sobre a forma de atuar neles. Para isso, deve realizar um exercício que é o foco da análise e definição de portfólio, e que é essencial para o sucesso de uma empresa. Por exemplo, uma organização que não examina seus mercados e ofertas, corre o risco de ter bons produtos em mercados ruins (porque tem forte concorrência ou porque os produtos estão em declínio) ou produtos ruins em mercados bons (neste caso não consegue aproveitar aquilo que o mercado oferece). Para evitar esses erros, a empresa deve estudar seu portfólio. Nessa seção, apresentaremos conceitos e técnicas para ajudá-lo e esperamos que com isso você possa aprimorar sua capacidade de escolha de produtos e mercados em que sua organização possa atuar. Antes de entrar no tema, assista à palestra Cinco Maneiras de Liderar em uma Era de Mudança Constante, de Jim Hemerling, especialmente o trecho que vai de 4’12’’ a 10’26’’. A palestra está disponível em: . TEMA 1 – ANÁLISE DO PORTFÓLIO “Portfólio é o conjunto das áreas estratégicas de atuação da empresa em seu mercado ou da instituição frente a seu público-alvo”, sendo que “cada área estratégica é uma combinação particular de produto ou serviço com um segmento de mercado ou de público-alvo” (Costa, 2007, p. 58). Assim, analisar um portfólio é analisar em que mercados a organização quer atuar e com que https://www.ted.com/talks/jim_hemerling_5_ways_to_lead_in_an_era_of_constant_change?language=pt-br#t-12892 https://www.ted.com/talks/jim_hemerling_5_ways_to_lead_in_an_era_of_constant_change?language=pt-br#t-12892 3 produtos ou serviços irá fazê-lo, de modo a obter retornos satisfatórios. Isso é o que se chama balanceamento de portfólio. 1.1 Balanceamento de portfólio Normalmente, a organização planeja estratégias específicas para cada um dos segmentos em que atua, mas para que o portfólio seja bem balanceado, é preciso priorizar áreas estratégicas que possam assegurar rentabilidade, caixa e resultados para sustentar a organização no futuro, remunerar seus investimentos e impulsionar a inovação (Costa, 2007). Por outro lado, portfólios problemáticos são aqueles que, normalmente, diversificamdemais ou têm baixa sinergia entre suas áreas estratégicas ou, pelo contrário, concentram demais seus produtos e/ou serviços, tecnologias, mercado ou público-alvo, ficando vulneráveis a um mesmo fator de risco. A caracterização de um segmento envolve fatores como: produtos ou serviços ofertados; tipos de clientes ou usuários; tipos de uso dos produtos (consumo direto, reposição, insumo, investimento); motivações para aquisição; estágio da curva de maturidade; atuação geográfica; ambiente competitivo (posicionamento de cada competidor); tecnologias; fatores-chave de escolha; especificações técnicas; fatores de risco ou oportunidades; processos produtivos; práticas comerciais; e canais de distribuição (Costa, 2007, p. 130- 131). 1.2 Matriz de portfólio Segundo Costa (2007), é possível representar o portfólio de uma organização por meio de um desenho esquemático em uma matriz 2x2. No eixo horizontal está representada a atratividade de cada área estratégica e no vertical, sua competitividade, conforme a Figura 1, a seguir: Figura 1 – Portfólio de uma organização em uma matriz 2x2 Competitividade Alta Quadrante 3 Quadrante 2 Baixa Quadrante 4 Quadrante 1 Baixa Alta Atratividade 4 A atratividade está relacionada a fatores externos à organização. Envolve questões relativas ao crescimento de mercado, ao ambiente competitivo, lucratividade do setor, às barreiras de entrada, ao estágio da curva de maturidade, à turbulência, às tecnologias, aos processos produtivos, às práticas comerciais e aos canais de distribuição (Costa, 2007, p. 134). A competitividade diz respeito à maneira como a organização responde a esses fatores de atratividade ou, posto de outra forma, como se posiciona em relação a atributos essenciais para aproveitar o segmento. Tal posicionamento envolve o atendimento de fatores-chave de escolha em áreas consideradas estratégicas para competição no setor. Voltando à matriz, observe que os segmentos mais interessantes são aqueles de alta atratividade (mercado interessante) e alta competitividade (a organização está bem posicionada para aproveitar esse mercado atrativo), ou seja, o quadrante 2. De modo inverso, o segmento menos interessante é aquele de baixa atratividade e baixa competitividade, ou seja, a organização está mal posicionada em um mercado pouco atrativo (quadrante 4). TEMA 2 – CICLO DE VIDA DO PRODUTO Os diversos setores de atividade econômica possuem diferentes níveis de maturidade, o que costuma ser denominado ciclo de vida do produto ou do setor. Por exemplo, há produtos ou serviços recém-lançados no mercado como um todo e que ainda não se estabilizaram (no sentido de que poucos clientes o conhecem ou experimentaram), a tecnologia e a qualidade ainda são erráticas (ou sujeitas a erros e problemas), os canais de distribuição não são consolidados. Em outro extremo, existem produtos que estão sendo ameaçados e substituídos por lançamentos, de modo que suas vendas estão declinando, como é o caso de ligações telefônicas de longa distância versus ligações por WhatsApp. Entender o nível de maturidade de um setor é fundamental para pensar estratégias, pois nos casos ilustrados, os esforços para se posicionar um produto inovador ou para retardar (ou substituir) um produto em declínio são bem diferentes. De maneira ampla, autores costumam classificar os estágios do ciclo de vida do produto (ou setor) em quatro fases: introdução (ou pioneirismo), crescimento, maturidade ou declínio (Porter, 1986; Fernandes e Berton, 2012). A introdução se caracteriza pelo lançamento de um novo produto ou serviço 5 desconhecido no mercado. Os esforços se concentram em divulgar o produto, seus benefícios, mostrar a demanda a que se propõe atender, educar o consumidor a consumir, despertando sua necessidade pelo produto. Para tanto, é comum que essas empresas, nesse momento, tenham que investir fortemente em marketing. Um exemplo que aconteceu recentemente foi a introdução do Uber no mercado de mobilidade urbana. Sua proposta foi trazer uma alternativa para o uso de carro próprio, ônibus ou táxi. Claro que, de alguma forma, esses outros segmentos se sentiram ameaçados e foi feita uma ampla campanha de marketing, com diversas promoções, para estimular o primeiro uso e tornar o serviço conhecido e desejado. O estágio seguinte é o de crescimento. O setor experimenta essa fase quando cai nas graças do cliente ou consumidor. Nesse momento, são características as altas taxas de crescimento, com novos clientes passando a adquirir o produto a cada dia, ou mesmo os clientes existentes aumentando seu consumo. Nessa fase é normal também a entrada de concorrentes, e a empresa deve cuidar para fixar sua marca. No caso do Uber, esse movimento também é observado, à medida que o transporte por aplicativo conseguiu se estabelecer, e apareceram novas empresas com ofertas semelhantes, como a 99 e a Cabify. Porém, um setor não fica eternamente em crescimento. Há um momento em que o ritmo de aquisição de novos clientes se estabiliza e reduz e o setor passa a viver de demanda de reposição por parte dos clientes estabelecidos, ou seja, o setor como um todo não vive mais um crescimento acelerado. Essa fase é chamada de maturidade e sua característica é que aspectos como escala de produção, nível de qualidade e aumento da concorrência passam a ser cruciais. Nessa etapa, conforme a natureza do setor, ocorrem movimentos de consolidação, no sentido de que muitas empresas tendem a adquirir outras e o número de competidores tende a ser bem menor do que em momentos anteriores. Muitos setores que conhecemos vivem esse momento, como o setor bancário, a indústria automobilística, a telefonia móvel, entre outros Por fim, a última fase consiste no declínio, momento em que as vendas decrescem, em geral por força do surgimento de alguma tecnologia ou oferta superior àquela que o setor faz. Exemplo clássico é o das locadoras de vídeo que alugavam DVDs e foram substituídas pelo preço decrescente ou, até mais expressivo, dos mesmos DVDs acessados diretamente pelo consumidor, por meio de TV a cabo, YouTube e Netflix. 6 A análise do ciclo de vida do setor coloca o seguinte desafio às empresas: em que momento está nosso negócio? Porque, dependendo da resposta, as estratégias devem ser diferentes. Empresas em setores em introdução, conforme descrito, devem investir fortemente em marketing; atuando em setores em crescimento, devem buscar crescer de preferência a taxas superiores às do setor, para estar entre as grandes quando o setor amadurecer. Empresas de setores maduros devem cuidar da escala, dos custos; eventualmente devem buscar nichos de consumidores não tão bem atendidos, incrementar a oferta de serviços associados ao produto, entre outros. Por fim, empresas de setores em declínio devem prospectar outros setores, ou mirar clientes saudosistas para prolongar sua existência no mercado. TEMA 3 – MATRIZ BCG A Matriz BCG complementa e sugere ações a serem realizadas com base no conhecimento do ciclo de vida dos produtos. Seu nome se deve à sigla de uma empresa de consultoria, o Boston Consulting Group, que a desenvolveu. Seu insight básico é o reconhecimento de que os produtos de uma organização podem estar em diferentes momentos do ciclo de vida e, mais ainda, talvez até seja conveniente que estejam, pois assim alguns deles podem gerar recursos para o desenvolvimento de outros. De modo mais específico, a matriz BCG, em sua concepção original, considera duas dimensões: a participação relativa de mercado e a taxa de crescimento de mercado (Wright et al., 2000). Considerando essas dimensões, a estabelecia que tanto uma como a outra poderiam ser alta ou baixa. A combinação dessas dimensões com esses níveis (alto-baixo) estabelece quatro quadrantes, como demonstra a Figura 2, a seguir: