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DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA Legislação: Art. 50 do CC/02; Arts 133 a 137 do CPC; Art. 134 e 135 do CTN; Art. 28 do CDC – ATENÇÃO Lei 13874/19 Histórico: Tem origem no direito anglo-saxão, a partir de construções pretorianas da chamada disregard os legal entity doctrine. Conceito: Intervenção de terceiro que permite à parte ou MP trazer ao processo os sócios ou responsável no processo em que se discuta a responsabilidade patrimonial da sociedade, para que com ela responda pelas dívidas. - Não se trata apenas da inclusão do patrimônio dos sócios ou administradores na responsabilidade pela dívida, mas também de fazê-lo para alcançar o patrimônio de outras empresas controladoras ou controladas (holdings), ou off shores. - Na lei 9.099/95 há possibilidade de instaurar a desconsideração de personalidade jurídica, mas não cabe intervenção de terceiro. Quando o NCPC passou a regulamentar a desconsideração da personalidade jurídica como intervenção de terceiro, passou-se a entender que, em exceção às demais, cabe esta intervenção configurada pela desconsideração da personalidade jurídica. Natureza Jurídica: Ação autônoma declaratória de responsabilidade patrimonial. Art. 50 do CC/02: “Em caso de abuso da personalidade jurídica, caracterizado pelo desvio de finalidade ou pela confusão patrimonial, pode o juiz, a requerimento da parte, ou do Ministério Público quando lhe couber intervir no processo, desconsiderá-la para que os efeitos de certas e determinadas relações de obrigações sejam estendidos aos bens particulares de administradores ou de sócios da pessoa jurídica beneficiados direta ou indiretamente pelo abuso. § 1ºPara fins do disposto neste artigo, desvio de finalidade é a utilização dolosa da pessoa jurídica com o propósito de lesar credores e para a prática de atos ilícitos de qualquer natureza. § 2º Entende-se por confusão patrimonial a ausência de separação de fato entre os patrimônios, caracterizada por: I - cumprimento repetitivo pela sociedade de obrigações do sócio ou do administrador ou vice-versa; II - transferência de ativos ou de passivos sem efetivas contraprestações, exceto o de valor proporcionalmente insignificante; III - outros atos de descumprimento da autonomia patrimonial. § 3º O disposto no caput e nos § 1º e § 2º também se aplica à extensão das obrigações de sócios ou de administradores à pessoa jurídica. § 4º A mera existência de grupo econômico sem a presença dos requisitos de que trata o caput não autoriza a desconsideração da personalidade da pessoa jurídica. (Incluído pela Medida Provisória nº 881, de 2019) § 5º Não constitui desvio de finalidade a mera expansão ou a alteração da finalidade original da atividade econômica específica da pessoa jurídica.” Requisito (regra geral): Abuso da personalidade jurídica = desvio de finalidade ou confusão patrimonial + Inadimplemento com frustração de expropriação de bens - A demonstração de insolvência, por si só, não autoriza a desconsideração: AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. CIVIL. ART. 50 DO CC. INSOLVÊNCIA E DISSOLUÇÃO IRREGULAR. DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA AFASTADA. JURISPRUDÊNCIA PACÍFICA. REGIMENTAL NÃO PROVIDO. 1. A teoria da desconsideração da personalidade jurídica (disregard of legal entity doctrine) incorporada ao nosso ordenamento jurídico tem por escopo alcançar o patrimônio dos sócios-administradores que se utilizam da autonomia patrimonial da pessoa jurídica para fins ilícitos, abusivos ou fraudulentos, nos termos do que dispõe o art. 50 do CC: comprovação do abuso da personalidade jurídica, mediante desvio de finalidade ou de confusão patrimonial, em detrimento do interesse da própria sociedade e/ou com prejuízos a terceiros. Precedentes. 2. A mera demonstração de insolvência da pessoa jurídica ou de dissolução irregular da empresa sem a devida baixa na junta comercial, por si sós, não ensejam a desconsideração da personalidade jurídica. Precedentes. 3. Tendo por incontroversa a base fática apresentada pelo Tribunal de origem – insolvência e encerramento irregular das atividades empresariais -, este Tribunal Superior não esbarra no óbice da Súmula 7/STJ por analisar a alegação de violação do art. 50 do CC. Precedente. 4. Agravo regimental não provido. (STJ – AgRg no REsp: 1225840 MG 2010/0211119-5, Relator: Ministro RAUL ARAÚJO, Data de Julgamento: 10/02/2015, T4 – QUARTA TURMA, Data de Publicação: DJe 27/02/2015). - Contudo, verificada a existência de patrimônio suficiente a satisfazer a dívida pela sociedade, a proporcionalidade, medida adotada pelos tribunais, impede a desconsideração. - Entretanto, outros diplomas legais específicos prevêem menos requisitos para a desconsideração da personalidade jurídica, e, nesses casos, dize-se que o legislador adotou a chamada “teoria menor”. Menor porque exige menos requisitos e se dá com maior facilidade que a chamada “teoria maior”, adotada pelo artigo 50 do CC/02. TEORIA MENOR Art.28 §5º do CDC – sempre que a personalidade jurídica for obstáculo ao ressarcimento dos danos do consumidor, processar-se-á a desconsideração da personalidade jurídica. BASTA A DIFICULDADE DE RESSARCIMENTO. OBRIGAÇÕES DECORRENTES DE CONTRATO DE TRABALHO OU CRÉDITO ACIDENTÁRIO: A jurisprudência pacífica das Cortes trabalhistas aplicam, de forma temerária e duvidosa, o artigo 2º da CLT, em comunhão com artigo 28, §5º do CDC, para declarar a desconsideração da personalidade jurídica sempre que importar em dificuldade à satisfação crédito. Inclusive, diferente do que ocorre no processo civil, o Juiz o faz ex officio, porquanto se aplique, às execuções trabalhistas, a lei de execuções fiscais (lei 6830/80) EXECUÇÃO DE CRÉDITO TRIBUTÁRIO – Art. 134 e 135 do CTN: Nos casos de impossibilidade de exigência do cumprimento da obrigação principal pelo contribuinte, respondem solidariamente com este nos atos em que intervierem ou pelas omissões de que forem responsáveis: III - os administradores de bens de terceiros, pelos tributos devidos por estes; VII - os sócios, no caso de liquidação de sociedade de pessoas. Art. 135. São pessoalmente responsáveis pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos: I - as pessoas referidas no artigo anterior; II - os mandatários, prepostos e empregados; III - os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado. A teoria maior acaba por ser aplicada nas relações civis e empresariais, nas quais há paridade de condições jurídicas entre as partes. OBS: A grande inovação fica por contra da chamada desconsideração inversa da personalidade jurídica. Trata-se de criação jurisprudencial, a qual acaba positivada em lei. Está prevista no artigo 133, §2º do CPC. Aplica-se aos casos em que o sócio esvazia seu patrimônio, passando seus ativos para a pessoa jurídica de que é titular, para fraudar ou obstaculizar o recebimento dos valores pelos credores. ASPECTOS PROCESSUAIS a) Cabe em todas as fases do processo: Fase de conhecimento, recursal e cumprimento de sentença. Cabe em outros procedimentos, como a execução de título extrajudicial. a.1) Na fase recursal cabe nos recursos ordinários. Ou seja, não cabe nos recursos ao STJ e STF, tendo em vista a impossibilidade de apreciação sobre as provas que dêem causa à desconsideração. b) Se requerida após a petição inicial (incidente), assume forma de intervenção de terceiro; Se requerida na inicial, assume forma de cumulação sucessiva de pedidos. c)Procedimento: 1) A parte ou o MP peticiona; 2) o juiz deverá: 2.1) suspender o processo (salvo se requerida na inicial) 2.2) comunicar o distribuidor para que anote a existência de ação incidental e inclua o sujeito trazido aos autos; 2.3) determina a citação do sócio ou responsável. 3) O sócio ou responsável terá 15 dias para contestar e requerer provas. 4) Após a instrução, o Juiz decidirá o incidente em decisão interlocutória 4.1) Nesse caso, a parte sucumbente no incidente pode interpor Agravo deinstrumento. 5) Em sede recursal, pode ser decidida monocraticamente pelo relator. 5.1) Nesse caso, desafia agravo interno. 6) Acolhida a desconsideração da personalidade jurídica, as alienações ou oneração de bens são tidas como ineficazes perante o credor. 7) Pelo princípio da adstrição e do dispositivo, a desconsideração da personalidade jurídica se presta apenas à relação processual em que foi requerida, não se estendendo a outros processos, cabendo requerer em cada um deles e sujeitando-se ao procedimento.