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Mobiliario Baiano_Monumenta IPHAN

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licença para vender móveis, provavelmente peças deixadas pelos maridos por ocasião do 
falecimento. Infelizmente não é possível identificar os respectivos maridos, porque não 
havia, na época, a obrigatoriedade de uso do mesmo sobrenome entre marido e esposa e 
mesmo entre os filhos. 
o a r r u a M e n t o d o s o F í c i o s
Ainda nos setecentos, a Câmara tentava estabelecer as “arruações” dos ofícios. 
O sistema de arruação fora adotado em Lisboa para facilitar a fiscalização efetuada pelos 
juízes nas tendas dos oficiais mecânicos. Nas cidades portuguesas “urbanizadas” no estilo 
que se observava em Salvador, as lojas e tendas espalhavam-se por “labirintos de velhas 
ruas”, situação que tornava árdua a fiscalização. Com o arruamento obrigatório, “cada 
ofício passou a ter um local determinado dentro da área da cidade e só nesse local os 
respectivos oficiais podiam abrir loja”76.
Em Salvador foi determinado, pela Postura 33, de 178577, que os ferreiros e 
caldeireiros deviam se instalar do trapiche do Azeite até o hospício dos Padres de São 
Felipe Neri; os negociantes de atacado ou retalho, “promiscuamente”, da Alfândega até a 
Igreja do Pilar, na Cidade Baixa, e, na Alta, das Portas de São Bento até as Portas do Carmo, 
pela rua Direita, e do Taboão até a “Rua nova que se está fazendo”; os latoeiros, funileiros, 
douradores e picheleiros, do início da ladeira das Portas do Carmo até a Cruz do Pascoal; os 
mestres das tendas de barbeiro “que ensinam a tocar instrumentos”, no início da ladeira do 
Álvaro (Alvo) e bairro da Saúde; os tanoeiros, na rua dos Coqueiros; os tabaqueiros, na rua 
do Passo; os alfaiates, seleiros e sapateiros, na rua que vem das Portas de São Bento até as 
Portas do Carmo, por trás de Nossa Senhora da Ajuda.
Aos marceneiros, torneiros, carpinteiros de móveis e samblagem, correeiros 
e ferreiros, porém, não foram designadas áreas específicas. Pelas licenças e termos de 
eleições, verifica-se que possuíam tendas ou lojas em vários pontos da cidade: ladeira da 
Misericórdia, ladeira da Conceição, Terreiro, rua Direita das Portas do Carmo, São Bento, rua 
Direita de Palácio, Maciel, Preguiça, rua do Tijolo, Saúde, trapiche do Azeite, Barroquinha, 
rua do Passo, do Colégio, etc. Muitos desses artífices concentravam-se nas ladeiras do 
Carmo e da Misericórdia.
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M o b i l i á r i o b a i a n o
M u d a n ç a s n o s é c u l o x i x
As cartas de examinações dos marceneiros não foram mais registradas nos livros 
da Câmara a partir de 1819, as eleições aparecem até 1814 e as licenças, até 1831, com 
muitas interrupções. Assim, desse período em diante, há poucas informações sobre os 
oficiais mecânicos que trabalhavam na confecção de móveis.
Entre 1811 e 1821, o primeiro jornal baiano, a Idade d’Ouro do Brazil, trazia tanto 
notícias sobre as lojas, bazares e artífices brancos, quanto se referia a escravos78. 
Nesse século, a indústria estrangeira começava a invadir o mercado, bem como 
os artífices ingleses, franceses e, principalmente, italianos. Com a presença dos artífices 
de origem européia, coincidindo com a introdução de instrumentação mecanizada 
inglesa, os homens de condição escrava participavam mais das tarefas de acabamento 
de edifícios, móveis, ferragens, etc. Assimilando as técnicas, tornavam-se rivais de seus 
próprios mestres de ofício, como observaram Debret79, em relação ao Rio de Janeiro, e 
Koster80, em Pernambuco.
Muniz Barreto, em suas memórias publicadas em 183781, salientava as vantagens 
da importação de “homens livres” africanos – que ficariam servindo na lavoura ou 
“aprendendo, com mestres, artes e ofícios” –, que aceitariam melhor que os europeus os 
trabalhos que a estes repugnavam. Vem, portanto, também do século XIX, a idéia conservada 
por muitos de que os ofícios mecânicos eram considerados uma ocupação socialmente 
desmerecedora desde o século XVI.
No Diário da Bahia dos dias 1 a 4 de maio de 1879, constam das listas de eleitores 
para o referido ano muitos marceneiros, distribuídos por vários quarteirões da cidade. Para o 
fim do século XIX, os “Arrolamentos das Casas de Negócio” fornecem algumas informações 
acerca de depósitos de móveis, bazares de móveis novos e usados e oficinas de marceneiros. 
Também as edições do Almanak administrativo, indicador, noticioso comercial e literário do 
estado da Bahia trazem algumas indicações para os anos de 1898 e 1903. Outras poucas 
informações são encontradas, ainda, na obra de Manoel Raymundo Querino82.
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M ã o d e o b r a : o s o f í c i o s m e c â n i c o s
n o t a s
1 – Embora fossem considerados profissionais liberais, os artistas seguiram de perto os mesmos 
rituais na elaboração de suas pinturas e esculturas, em relação à aprendizagem e hierarquia da 
profissão, seguindo, também, a norma da cópia.
2 – O entalhador não tinha obrigação de cumprir os preceitos da Câmara por ser classificado 
junto com o escultor.
3 – flexor, Maria Helena Ochi. Ofícios, manufaturas e comércio. In szMrecsányi, Tamás (Org.). 
História econômica do período colonial. São Paulo: Hucitec/Fapesp, 1996. p. 189.
4 – ruy, Affonso. História da Câmara Municipal da Cidade do Salvador. Salvador: Câmara 
Municipal do Salvador, 1953. p. 175.
5 – Idem, p. 174. 
6 – atas da câMara, 1625-1641. Bahia: Prefeitura Municipal do Salvador, 1944. v. 1, p. 16-19. 
7 – O governo do Senado da Câmara era exercido pelos vereadores, mas, nos assuntos de 
grande importância, estes deviam convocar o Conselho para que se ouvisse também o povo. Os 
prejuízos das grandes concentrações fizeram nascer o sistema de representações delegadas, de 
onde nasceu a “Casa dos Vinte e Quatro”. Essa casa, ou assembléia dos deputados dos ofícios 
mecânicos, elegia os seus representantes ao Senado da Câmara, que eram o juiz do povo, 
presidente da Casa dos Vinte e Quatro, e os procuradores dos mesteres, tendo a faculdade, em 
última instância, de recorrer diretamente ao rei (langHans, Franz-Paul. As corporações dos ofícios 
mecânicos. Lisboa: Imprensa Nacional, 1943. 2 v.; Idem. A Casa dos Vinte e Quatro de Lisboa; 
subsídios para a sua historia. Lisboa: Imprensa Nacional, 1948). 
8 – fazenda, José Vieira. As bandeiras dos ofícios. In Revista do Instituto Histórico e Geográfico 
Brasileiro, Rio de Janeiro, v. 140, t. 86, p. 152-158, 1921.
9 – Como insígnias do cargo, em Lisboa, os procuradores dos mesteres usavam uma vara 
vermelha e, em fins do século XVIII, passaram a usar espadim. Tinham privilégios atributivos de 
direitos: administração autônoma, representação política (ruy, A. Op. cit., p. 176).
10 – Idem, p. 177.
11 – Podiam intervir somente nas questões relacionadas ao bom governo dos ofícios mecânicos, 
abastecimento e preços dos gêneros usados na sua profissão.
12 – ruy, A. Op. cit., p. 181.
13 – Idem, p. 182-184.
14 – Idem. p. 185-188.
15 – vilHena. Luís dos Santos. A Bahia no século XVIII. Bahia: Itapuã, 1969. v. 1. p. 79.
16 – Vide, também relacionado aos próprios oficiais mecânicos, as CARTAS DO SENADO (1690-
1710). Salvador: Arquivo Municipal do Salvador, 1962. v. 5, p. 90-91.
17 – flexor, Maria Helena. Oficiais mecânicos na Cidade do Salvador. Salvador: Prefeitura 
Municipal do Salvador/Departamento de Cultura/Museu da Cidade, 1974. 90 p.
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M o b i l i á r i o b a i a n o
18 – correia, Vergílio. Livro dos regimento dos officiaes mecânicos da mui nobre e sempre leal 
cidade de Lixboa (1752). Coimbra: Imprensa da universidade, 1926. XIX + 255p.; langHans, f$.P. 
As corporações...,1943.
19 – cartas do senado, Loc. cit., p. 90-91.
20 – Posturas, 1716-1742, Salvador, Arquivo da Prefeitura Municipal do Salvador / Fundação 
Gregório de Mattos, fl. 20, ms.
21 – Postura 81, 1710, Lo 2º, Posturas (1650-1787), Arquivo