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Mobiliario Baiano_Monumenta IPHAN

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Podia obedecer às estações do ano. Também 
eram feitas escariações a navalha, permitindo o sangue aflorar com a aplicação de ventosas 
(Priori, apud jesus, 2001. jesus, Nauk Maria de. Saúde e doença: práticas de cura no centro da 
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M ã o d e o b r a : o s o f í c i o s m e c â n i c o s
América do Sul; 1725-1808, disponível em <www1.capes.gov.br/teses/pt/2001_mest_ufmt_
nauk_maria_de jesus,pdf>, acesso 6 nov. 2006. p. 90). 
68 – livro dos guardiães do convento de são francisco da baHia; 1587-1862. Rio de Janeiro: Ministério 
da Educação e Cultura/Iphan, 1978. p. 43.
69 – Apud toledo, Roberto Pompeu de. À sombra da escravidão. In Revista Veja, no 1444, 15 mai 
1996. Disponível em <www.revista.agulha.nom.br/pompeu/01.html>. Acesso em 16 out. 2006
70 – Provia os médicos.
71 – jesus, N. M. de. Loc. cit., p. 94-95.
72 – vilHena, L S. Op. cit., v. 3, p. 915. 
73 – inventários, Loc. cit., doc. no 04/1710/2180/06, 1811, ms. 
74 – Contraditoriamente, chegavam à maestria como mestres de embarcações – nas quais 
podiam fugir com mais facilidade –, tanto de navegação costeira, quanto de longa distância.
75 – silva, Maria Beatriz Nizza da. A primeira gazeta da Bahia: Idade d’Ouro do Brazil, 2ed. 
Salvador: Edufba, 2005. p. 168-169.
76 – langHans, F.-P. As corporações..., v. 1. p. 8. 
77 – In: Posturas (1650-1787), Arquivo da Prefeitura Municipal do Salvador / Fundação Gregório 
de Mattos. fl. 134. ms.
78 – silva, M. B. N. da. Op. cit., 2005.
79 – debret, Jean Baptiste. Viagem pitoresca e histórica ao Brasil. São Paulo: Martins Fontes, 
1940.
80 – Koster, Henry. Viagens ao Nordeste do Brasil, 2 ed. Recife: SEC/Departamento de Cultura, 
1978. (Coleção Pernambucana, 17.)
81 – barreto, Domingos Alves Branco Muniz. Memória sobre a abolição do comércio da 
escravatura. In Memórias sobre a escravidão. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1988. (Memória 
escrita em 1817, publicada em 1837.)
82 – querino, Raymundo Manoel. querino, Manoel Raymundo. Artistas bahianos; indicações 
biographicas. 2ed. Bahia: A Bahia, 1911. p. 152-154, 239-254. 
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M o b i l i á r i o b a i a n o
Materia is ut il izados
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Examinam-se a seguir os materiais utilizados na confecção dos móveis na Bahia, 
no período abordado.
M a d e i r a s
Desde cedo as florestas brasileiras, especialmente as da orla Atlântica, começaram 
a ser exploradas. Suas madeiras eram enviadas para as obras da corte, sobretudo para 
o Arsenal da Marinha. Logo, porém, reis, governadores e câmaras tomaram providências 
contra a depredação arbitrária das matas1.
As madeiras utilizadas na construção dos móveis vieram principalmente das 
regiões sul e sudeste da Bahia e do Espírito Santo2. A região da Capitania de Ilhéus forneceu 
grande quantidade desse material até o século XIX.
Até 1780, os móveis eram feitos quase que essencialmente de três espécies de 
madeiras: o jacarandá, o vinhático – em igual quantidade – e a madeira branca. Esta última 
foi utilizada principalmente na confecção de móveis de uso popular e de serviços domésticos.
Baltazar da Silva Lisboa, Juiz Conservador dos Cortes de Madeiras, a mando de D. 
Maria I, catalogou e descreveu todas as espécies existentes na mata Atlântica, em torno 
de Ilhéus e Cairu, onde se fixou. De acordo com o juiz, o jacarandá servia para todas as 
obras de decoração e ornatos das salas, e complementava: “a sua cor é preta luzente”3. Já 
o vinhático, segundo Vilhena, “é bem conhecido por todos, serve tanto para marcenaria, 
como para a construção de edifícios e naval”4. Lisboa5 dizia que servia para cintados, 
“alcaixes”6 e tabuados de coberta e obras das salas, e recomendava que, para as obras 
serem duráveis, era preciso pregar as tábuas com pregos de cobre, porque os de ferro 
“abrem com a ferrugem buracos no lugar pregado”. 
A madeira branca é referida na grande parte dos inventários pesquisados. Em 
documentos portugueses, aparecem também com a mesma denominação, tendo seu uso 
inclusive proibido: 
“há cento e vinte anos pouco mais ou menos mostrando a experiência que uma certa 
espécie de madeira branca que, nesse tempo, vinha do Brasil, era muito vaporosa 
e quebradiça se lhe fez um capítulo dezenove do mesmo Regimento uma genérica 
proibição para não poderem lavrar madeira branca que daquele Estado viesse.”7 
As madeiras estavam se extinguindo em Portugal e se notificava que “se lhe vai 
também extinguindo a nogueira”. E observava-se:
“[para o] bem comum e por esta razão os obriga a necessidade a se valerem 
algumas vezes de outra espécie de madeira branca do mesmo Estado do Brasil 
M a t e r i a i s u t i l i z a d o s
Banca de esbarra rococó (alterada), século XIX. Museu de Arte da Bahia.
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M o b i l i á r i o b a i a n o
diferente daquela que lhe está proibida porque se achou espécie de madeira branca 
do mesmo Estado do Brasil diferente daquela que lhe está proibida porque se 
achou há poucos anos e em que continuamente vem os açúcares, daquelas partes 
bastante prova da sua bondade e fortaleza pelo grande número de arrobas que em 
si sustenta [...]”8
Pedia-se que:
“lhes faça mercê mandar-lhes emendar o dito capítulo dezenove declarando-se 
que nele se não entendia proibida esta boa madeira branca que hoje vem daqueles 
Estados do Brasil”. 
O despacho do Senado da Câmara aprovou o uso dessa madeira branca, 
proibindo, entretanto, de se “dar tinta de nenhum gênero”. O documento datava de 12 
de agosto de 16899. 
Marcgrave10 falava que a madeira própria para as caixas de açúcar era o “camaçari”, 
mas a apontava como amarela. A mesma madeira foi indicada como própria para caixas 
de açúcar na obra de Gabriel Soares de Souza11, servindo “para toda a obra das casas, de 
que se faz muito tabuado para elas”. As posturas da Câmara taxaram várias madeiras, 
como o “tabuado de camaçari para os altos tambores barcal”, putumuju, vinhático, louro, 
paraparaíba, cedro, jataipeba, maçaranduba. Sem se referir à madeira, dizia “que nenhuma 
pessoa que fizer caixões os poderá vender por mais de dez tostões cada um”12. 
Vilhena e Silva Lisboa se referiam às várias madeiras próprias para caixas de 
açúcar sem, no entanto, designar especificamente a madeira branca. Não se conseguiu, 
pois, identificá-la melhor, embora Franco13 destaque o uso contínuo do pinho em Lisboa, 
entre 1750 e 1800.
É interessante verificar que alguns autores deram notícias escassas acerca do 
jacarandá. Dois exemplos são Gabriel Soares de Souza e Luís dos Santos Vilhena. O primeiro, 
colocando o jacarandá apenas entre as “árvores de cheiro”, acrescentava que “é muito dura 
e boa de lavrar para obras primas”. E prosseguia, em outro trecho: “parece razão que se 
dê o primeiro lugar ao vinhático: serve para as rodas dos engenhos, para outras obras 
deles, e para casas e outras obras-primas.”14 Gonzaga15 apontou dois tipos de jacarandá, o 
jacarandatã ou jacarandá-pardo e o jacarandá-violeta ou caviúna, indicando este último 
como próprio para móveis de alto padrão, peças torneadas, etc.
Vilhena falou, com entusiasmo, das madeiras sebastião-de-arruda, pequiá-
marfim, pequiá-gema, pequiarana, cupiúba e bacuri, não fazendo referências ao jacarandá. 
Esse cronista viveu na Bahia numa época em que os trabalhos de marchetaria estavam em 
moda, bem como os móveis feitos inteiramente com madeiras claras. O uso de madeiras 
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M a t e r i a i s u t i l i z a d o s
claras estendeu-se mais ou menos de 1780 a 1820. O jacarandá e o 
vinhático não deixaram de ser utilizados nesse período, mas não na 
escala anterior. Os embutidos, ou trabalhos de marchetaria, eram feitos, 
ainda, com outros tipos de madeiras, como gonçalo-alves e cedro. O 
autor dizia que “sebastião-de-arruda é das melhores, e mais lindas 
madeiras,