A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
178 pág.
Mobiliario Baiano_Monumenta IPHAN

Pré-visualização | Página 19 de 40

Na ladeira e na rua da Misericórdia 
havia vários “bazares” de móveis usados. Era costume, também, adquiri-los em leilões dos 
espólios. Podiam ainda resultar de herança. 
a p r o c e d ê n c i a d o s M ó v e i s
Como primeira capital administrativa do Brasil, até 1763, e mesmo posteriormente, 
a Bahia recebeu influência direta de Portugal e, através deste, principalmente da Inglaterra, 
Espanha, Itália e França. No mapa de “Importação sobre a Cidade da Bahia, fornecida 
pela Capital Corte de Lisboa e pela Cidade do Porto”, de 1797, encontram-se os artigos: 
“ditas [drogas] de alfaias particulares, tamboretes, canapés, cômodas, banquinhas, tremós, 
lustres, utensílios de cozinha, pratas de mesa e de casa, [...] carruagens e seus acessórios 
tudo em 20:000$000”2. Manufaturas inglesas, como relógios de parede, espelhos pequenos 
e de vestir, baús de couro e caixas, eram utilizados em Salvador, no século XIX. Adquiridos 
por Portugal, passavam para o Brasil3. Desde o século anterior tinha-se criado um mercado 
de exportação inglês exclusivo para a península Ibérica. O comércio de móveis foi maior 
entre a Inglaterra e Portugal do que com a Espanha, durante a primeira metade do século 
XVIII, com algumas interrupções e através, principalmente, de Londres4.
Grande parte de móveis laqueados, ou acharoados, como chamavam os portugueses, 
eram feitos na Inglaterra. Depois de enumerar vários artigos, um anúncio do “General 
Advertiser”, de 28 de fevereiro de 1751, dizia: “amongst wich are several capital pieces 
design’d for the Spanish and Portugal trade”5. Havia, inclusive, diferença entre os móveis 
laqueados, produzidos para o consumo interno inglês, e os destinados à exportação para 
~83~
M ó v e i s e m o b i l i á r i o 
Portugal e Espanha. Nos móveis para o consumo interno, os ornamentos eram aplicados 
sobre preto, azul escuro e verde-oliva, enquanto naqueles destinados a Portugal 
e Espanha eram aplicados sobre escarlate, que se transformava em “vermelho-
velho”, ou bronze, sob a ação da luz meridional da península Ibérica. Aplica-se 
ornamentação, além disso, sobre branco ou amarelo6. 
As diferenças estavam, ainda, na presença de travessas nas pernas 
das cadeiras exportadas, para garantir maior durabilidade. Juntamente com 
os contadores, também canapés, relógios, cadeiras com pés de galo e assento 
de palhinha e papeleiras laqueadas, bancos (figura 10), com decoração 
oriental, que eram apenas acharoados, foram exportadas pela Inglaterra para 
os territórios ibéricos.
Utilizaram-se alguns desses móveis, nessa primeira metade do século 
XVIII, também em Salvador, principalmente os contadores, estantes e caixas. 
Coincidem com as descrições dos móveis laqueados, importados por Portugal. 
Eram, sobretudo, em charão vermelho, embora fossem denominados “da Índia”. 
O estudioso do mobiliário português Alfredo Guimarães7 acusou a existência desse 
tipo de móvel na cidade de Guimarães:
“E as peças de técnica e caráter asiático, imitativas das lacas e charões? Singular 
é que, torna-se necessário dizê-lo, em Portugal, pelo processo de charão tanto 
se copiava este gênero, como, pela aplicação do relevo, se imitasse igualmente o 
tipo, a espessura e o esmalte – aliás tecnicamente distinto, das lacas de diferente 
caráter e corporificação material.”
10 - Tamborete acharoado, 
provavelmente de origem 
inglesa, com características 
orientais, século XIX. 
Acervo do Museu do 
Estado da Bahia.
O estudioso citou o exemplo de dois relógios e uma papeleira da primeira metade 
do século XVIII, afirmando que as peças são “com absoluta certeza, peças executadas em 
Portugal”. Referiu-se ainda a outros móveis do gênero. Todos coincidem com as descrições 
dos móveis importados da Inglaterra8. 
Até a abertura dos portos, em 1808, os móveis estrangeiros usados em Salvador 
eram, sobretudo, ingleses – ou de outros países via Portugal –, e alguns procedentes 
da Índia e da China. A partir dessa data, o número de móveis estrangeiros aumentou 
sensivelmente. Entraram em Salvador móveis americanos, fruto dos incentivos concedidos 
pelo parlamento inglês a sua colônia, principalmente cadeiras e cômodas.
A partir do fim da primeira metade do século XIX e até o alvorecer do século XX, 
começaram a aparecer os móveis franceses ou copiados dos franceses. Nessa segunda 
metade do século, ao lado dos móveis franceses, os americanos, os austríacos e os de 
fabricação nacional disputavam o mercado baiano, como já se viu.
~84~
M o b i l i á r i o b a i a n o
Deve-se salientar, no entanto, que se a Bahia importou móveis, também os exportou, 
não só para outras partes do Brasil, mas para toda a América do Sul, principalmente para 
a região do Prata.
Segundo o “Mapa dos gêneros de exportação próprio do país para todos os portos 
do Continente Americano de Barrafora, em todo o presente ano”, de 1797, a Bahia exportou:
“4 Mesas de vinhático
5 Camas de vento
2 Coxos de banho
110 Cadeiras de couro
5 Cadeiras de arruar
1 Caixa de vinhático
1 Cômoda do dito”9.
c a r a c t e r í s t i c a s e e s t i l o s
Constata-se que foram utilizados em Salvador alguns móveis bem característicos, 
cujos exemplares desapareceram totalmente. Houve dificuldade na localização de muitos 
deles nos museus e coleções particulares. Não poderia ser diferente. Por ter sido capital 
administrativa do Brasil por um longo período e uma das cidades mais povoadas do Brasil 
nos séculos XVIII e XIX, a cidade estava sujeita às mudanças constantes das modas. Com 
o decorrer dos anos, os móveis de modelos antigos foram substituídos por outros mais 
modernos. 
Os móveis antigos tinham vários destinos: passavam para as dependências menos 
aparatosas da casa, como o espaço que servia de cozinha, ou os aposentos de escravos, 
eram vendidos para as lojas de móveis usados, quebrados ou queimados nos fogões como 
lenha. As peças que foram encontradas nas coleções, na sua grande maioria, são da segunda 
metade do século XIX. As mais antigas provinham de cidades interioranas da Bahia, ou do 
seu Recôncavo, onde se conservaram, ou se originaram dos conventos, nos quais, por serem 
patrimônio coletivo, não tinham o mesmo destino que aqueles das casas particulares.
Alguns móveis de estilo e características renascentistas, herança européia, 
persistiram em uso em Salvador no princípio do século XVIII, como os oratórios, armários, 
caixas, cômodas e contadores com guarnições de almofadas. Uns desapareceram logo, 
enquanto outros continuaram a ser usados, nos setecentos adentro, especialmente os 
~85~
M ó v e i s e m o b i l i á r i o 
móveis de guardar, contrastando com as ornamentações barrocas com as quais passaram 
a conviver harmoniosamente, inclusive num mesmo móvel.
O barroco trouxe dois modelos essenciais de móveis: os torneados e os entalhados. 
Os móveis torneados e retorcidos foram ainda bastante usados até meados dos setecentos, 
como os bofetes, leitos, camas e cadeiras. Vários marceneiros e torneiros, alguns dos quais 
portugueses, confeccionaram esses móveis, o que contraria os estudos tradicionais, que os 
datam do século XVII.
Dos móveis entalhados, os mais característicos foram as camas de meias canas ou 
de telha e cabeceira entalhada, com ou sem almofadas, cadeiras, preguiceiros, camas com 
pés de burro10, oratórios grandes “de dizer missa”, pintados e dourados por dentro, camas 
e cadeiras de campanha, cômodas e bancas com gavetas e pés chamados “de volta”, todos 
com concheados, folhagens de acanto e embutidos ou trabalho de marchetaria.
Sob a influência francesa e inglesa, as talhas tornaram-se mais delicadas. Os 
móveis de influência francesa foram pintados e dourados ou, então, elaborados com 
madeiras claras. Os de influência inglesa