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Mobiliario Baiano_Monumenta IPHAN

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logo se adaptaram os chamados pés 
de burro às pernas das camas e preguiceiros. Esse tipo de pé apareceu com mais freqüência 
nas camas e preguiceiros cujas cabeceiras eram lisas e apenas completadas com arremate 
em talha. O modelo era ainda usado no final do século XVIII. Infelizmente, nenhum móvel 
desse gênero, e com o destaque dos pés, foi encontrado.
O mesmo “Regimento dos marceneiros” estabelecia também preço para os 
preguiceiros: “por um preguiceiro ordinário com pés de cabra ou de burro, com cabeceira 
de talha” deviam cobrar 6$400 réis, que era um preço bastante elevado então.
Os preguiceiros, de maneira geral, e os meios-preguiceiros (figura 33) seguiam os 
mesmos modelos das camas ou das cadeiras. Foram, com as camas, os primeiros móveis 
a receber douramento, à maneira do que se praticou nas talhas dos templos, na segunda 
metade do setecentos. Antes que o século terminasse, encontrou-se o “preguiceiro de 
jacarandá de pé de burro cabeceira lisa remate de talha dourada em partes e o leito 
de tabua”40. 
Por volta de 1770, ao lado dessas camas já descritas, começaram a ter largo uso as 
chamadas camas-de-vento (figura 34). Pinto e Nascimento41 as definiram como camas cujos 
colchões de couro eram cheios de ar, sendo também chamadas camas inglesas, indicando 
a origem da influência. Alguns exemplares apareceram em Salvador na primeira metade 
do século, mas eram bem raros. Não se diferenciava muito, quanto à forma, da cama de 
campanha que, cronologicamente, a seguiu. Ambas possuíam o lastro de lona ou de couro 
– enquanto em Portugal a primeira era de couro –, varais e cabeceira talhada de madeira, 
pernas em tesoura, como em Salvador, mais leves, de leito dobradiço e desmontável e de 
fácil transporte. Quase todas, invariavelmente, eram de estilo rococó.
A Bahia exportou esse tipo de cama para o resto do Brasil e para outras regiões da 
América castelhana. Viu-se, por exemplo, que em 1797 cinco exemplares foram enviados 
para a região do Prata.
Ainda em 1806 encontra-se referência a “uma cama de jacarandá ‘moderna’ sem 
armação, com suas talhas e lastro de taboas”42 e que foi de uso corrente ainda por volta 
de 1830. E, em 1808, mencionava-se “uma cama de jacarandá ‘moderna’ com seu remate 
de talha lugar de almofada e lastro de taboas em bom uso”43. Usou-se proteger essas 
33 – Meio-preguiceiro, 
século XVIII-XIX, recortes 
rococós. Acervo do Museu 
Carlos Costa Pinto.
34 – Cama de vento, 
jacarandá, século XVIII, 
barroco-rococó híbrido. 
Acervo do Museu de Arte 
Sacra da UFBa.
~105~
M ó v e i s e m o b i l i á r i o 
camas com guarda-pó, em geral de damasco, e rodapés do mesmo tecido, guarnecidos com 
franjas e borlas de retrós.
Os preguiceiros começaram a rarear já no fim do século XVIII, época em que 
apareceram as marquesas ou canapés, que os substituíram. Lembre-se, também, que o 
canapé surgiu não só como complemento das cadeiras, mas como substituto do preguiceiro.
Quando o trabalho de marchetaria entrou em moda em Portugal, em Salvador 
ainda estavam em uso as camas e outros móveis de “volta” e “talha”, hoje conhecidos 
largamente no Brasil, como o já referido estilo D. João V. Foi nesses móveis que, nos espaços 
lisos, cercados de talhas, aplicaram-se os primeiros “embutidos”, como verificou-se com as 
cômodas. Aplicaram-se, sobretudo, motivos vegetais e geométricos, feitos com madeiras 
de diferentes colorações sobre pequiá ou sobre jacarandá.
Somente no início do século XIX começaram a ser feitos, em Salvador, os modelos 
de Portugal em que se desenvolvera a marchetaria. As talhas das camas anteriores 
desapareceram quase completamente, confinando-se, de maneira mínima, aos arremates 
dos contornos e às pernas, com um recorte ainda rococó. Na cabeceira lisa aplicava-se o 
trabalho de marchetaria que, tendo um grande espaço para se desenvolver, aparecia em 
composição múltipla e delicada. Madeira branca e diminuição dos volumes marcaram, 
dessa forma, a passagem para o neoclássico.
A partir de 1830 as camas simplificaram-se. Executadas em outras madeiras 
– vinhático, madeira do norte, conduru e pequiá –, suas cabeceiras e pernas tornaram-
se menos trabalhadas. Algumas apresentavam trabalhos de marchetaria 
emoldurando a cabeceira, mas as camas sem ornamentação foram as mais 
vulgarizadas. A esse modelo acrescentaram-se, por vezes, colunas estriadas, 
formando balaústres para cortinados, que voltaram a ser usados, embora muito 
raramente. É o modelo neoclássico propriamente dito. Nesses móveis, bem como 
nos seguintes, na maior parte das vezes o pequiá substituiu a pintura branca 
ou, quando executados em madeira escura, eram envernizados. Tratava-se já de 
móvel eclético, feito em série e integrado a um conjunto de mobília (figura 35).
Na época que limita este estudo, começaram a aparecer as primeiras 
camas denominadas “francesas”. Algumas eram simples, sendo raras as 
luxuosas, como a “cama francesa de pau cetim bordada com lastro de palhinha 
com cúpula e cortinado de cana”. Esse exemplo foi o mais rico, encontrado 
na época, cujo móvel pertencia ao reverendo cônego provisor João Pereira 
Ramos, que morava na rua do Maciel de Baixo, Freguesia da Sé, na época de 
seu falecimento, em 185944.
35 - Cama com 
ornamentação eclética, 
século XIX, feita em 
série. Acervo do Museu 
de Arte Sacra.
~106~
M o b i l i á r i o b a i a n o
Cadeiras, tamboretes, canapés e sofás
A função social dos móveis de assento ligava-se à antiga instituição portuguesa45 
e foi transferida para o Brasil. A questão do “lugar” a ser ocupado nas funções públicas, 
principalmente, foi sempre causa de atritos. Aos cargos ocupados, ou classe social, ligava-
se intimamente a qualidade e forma dos móveis de descanso, constituindo-se um privilégio 
das pessoas mais consideradas.
Uma Provisão do Senado, de 6 de novembro de 1685, mostra a importância dos 
móveis de assento nas ocasiões festivas, seguindo o “estilo” do Porto46. Argumentava um 
representante dos oficiais mecânicos:
 “que este Senado lhe tem ordenado vocalmente que nas ocasiões em que se 
puserem cadeiras de espaldas e bancos dos mesteres para se ouvirem os sermões 
nas igrejas desta cidade, se afaste o banco de ditas cadeiras dois palmos para 
baixo, e um palmo para trás para haver separação manifesta entre estes e os ditos 
mesteres e afastando o suplicante dito banco dos mesteres somente para baixo 
ditos dois palmos, toma o mester Luís Ribeiro motivo para dizer não é ordem deste 
Senado a forma da separação entre ditas cadeiras e bancos senão disposição do 
suplicante e porque neste parecer não ordenam V. Mercês siga o suplicante o estilo 
que se observa na Cidade do Porto que está registrado nos Livros deste Senado que 
declara o lugar certo em que se hão de pôr os assentos dos ditos mesteres, senão 
outro muito diverso, que é o que observa o suplicante, e ainda ai não se dá por 
satisfeito dito mester: pede a V. Mercês lhe façam mercê declarar a última forma, 
que deve seguir ele suplicante neste particular dos bancos e cadeiras para o tempo 
futuro e Receberá Mercê.” 
Ainda no século XIX, observava-se esse preceito, como se pode verificar nas 
gravuras deixadas pelos viajantes e cronistas que visitaram o Brasil.
Na ocasião da visita de D. Pedro II à Bahia, arrumou-se um pavilhão no Arsenal da 
Marinha e, dentro deste, ao fundo, foram colocados: 
“sob um pequeno estrado alcatifado de verde [...] três cadeiras de braços com 
espaldares, de rica obra de talha, as quais eram seguidas de um e outro lado de 
uma bancada de jacarandá com assentos de palhinha.47”
Ainda nessa época destinavam-se as cadeiras de braços e encosto alto para as 
pessoas mais graduadas, no caso, especialmente para o Imperador.
Mesmo na vida doméstica havia nítida