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Mobiliario Baiano_Monumenta IPHAN

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também, nos 
preguiceiros e nas cadeiras de campanha, largamente utilizadas de fins do século XVIII até 
a terceira década do século seguinte. As cadeiras de campanha (figura 42) eram mais leves, 
com assento flexível, e de fácil transporte, e apareciam em modelos com encosto e rasas.
Deve-se salientar que o damasco foi minimamente utilizado em Salvador, no 
tempo estudado. Caindo o couro lavrado ou a sola picada em desuso, a palhinha foi o 
material preferido para os assentos das cadeiras (figura 43).
A palhinha foi introduzida em Portugal já na primeira metade do século XVIII, com 
os móveis laqueados ingleses. Deve-se a técnica desse trabalho, entretanto, aos franceses 
que trabalharam naquele Reino no final do século52. 
Foram encontrados alguns exemplares de cadeiras com assento de palhinha desde 
1745, mas em obras portuguesas. A larga utilização desse tipo de assento acusou-se a 
partir de fins do século XVIII. Pode-se acrescentar que a proporção relativa do damasco 
para a palhinha ou o couro picado nunca ultrapassou de 1 a 2%. O uso desse tecido, ou do 
veludo, ambos carmesins, vulgarizou-se principalmente na segunda metade do século XIX, 
nos móveis “à Luís XV”53. Deve-se considerar que, nos setecentos, os tecidos, especialmente 
os de luxo, como o veludo, não estavam disponíveis para assentos de cadeiras.
Coincidiu com o aparecimento da palhinha a moda dos móveis pintados e dourados. 
Pintou-se, inclusive, a palhinha dos assentos. Os modelos utilizados nesse período foram, 
principalmente, os de grandes talhas, com concheados e folhas de acanto, passando, 
depois, para modelos mais simples. Os móveis antigos, já fora de moda, foram adaptados e 
revalorizados por meio de pintura e dourados. 
42 – Cadeiras de 
campanha, dobráveis 
e transportáveis. Foto 
do catálogo El arte luso 
brasileño en el Rio de la 
Plata. Buenos Aires, 1967.
43 – Palhinha, que 
substituiu o couro nos 
assentos dos móveis. 
Acervo do antigo Museu 
do Carmo.
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M ó v e i s e m o b i l i á r i o 
É interessante assinalar que as pessoas sem condições de adquirir as peças em 
madeiras claras usaram de um artifício para colocar seus móveis na moda. Foi comum 
estofar – ou, como se dizia para as imagens, encarnar e pintar as talhas –, especialmente 
de branco e dourado, os móveis barrocos ou rococós, que originalmente eram de jacarandá 
ou outras madeiras54. Os móveis populares eram pintados de branco, azul ou verde e, 
mais raramente, vermelho ou amarelo. Esses móveis pintados persistiram e acabaram se 
confundindo com os neoclássicos, que comumente também eram de cor branca, com estrias 
ou laços dourados. Depois dos móveis pintados, viria o uso do verniz, já por volta de 1840.
No início pintaram-se as cadeiras e os canapés de branco e azul, com frisos ou 
flores douradas. Foi então que se deu uma nítida divisão entre as peças confeccionadas 
em madeira clara, especialmente pequiá, que não receberiam pintura, e as feitas de outras 
madeiras, como conduru, madeira do norte e madeira branca, que seriam pintados com 
cores vivas, predominando o vermelho, o amarelo e o verde. Essa moda, provavelmente, foi 
decorrência da influência do “charão” inglês.
Os modelos continuaram mais ou menos os mesmos até o fim dos setecentos. 
Introduziu-se, porém, outro tipo de móvel de assento, o canapé. Este constituía-se 
de assentos e encostos conjugados com dois, três ou mais lugares, distinguindo-se 
perfeitamente o número de encostos. Os autores têm chamado esse móvel ora de canapé, 
ora de sofá. 
As marquesas também surgiram no fim dos setecentos e eram feitas, sobretudo, 
em vinhático, com lastro da mesma madeira. O lastro foi, aos poucos, substituído por 
palhinha. De influência inglesa, feitas em série, mas sob encomenda, as peças já compunham 
conjuntos de móveis de assento (figura 44) ou peças de mobiliário propriamente dito.
Nesses móveis, a talha foi amenizada e enriquecida, por vezes, pelos dourados, 
mas sem grande aceitação. As cadeiras e canapés de encosto redondo e assento forrado de 
palhinha (figura 45) substituíram aquelas de seção quadrangular.
No final dos setecentos, trocaram-se os encostos altos das cadeiras por outros 
rebaixados, aparecendo o modelo que se denominava, na época, cadeira com encosto de 
meio molde. O uso desse modelo estendeu-se até meados do século XIX.
No princípio do século XIX, apareceram as já referidas cadeiras americanas. Algumas 
tinham o assento de junco, outras de palhinha ou, simplesmente, de madeira. Encontram-
se nos inventários várias referências a “doze ditas (cadeiras) amarelas americanas com 
assentos de palhinha”55. Esta referência data de 1820. Boa parte delas era torneada. 
A partir, mais ou menos, dessa década de 1820, a casa baiana começou a ser 
mobiliada com cadeiras mais simples ou ordinárias, como eram chamadas na época. 
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M o b i l i á r i o b a i a n o
O trabalho em talha, rico no período anterior, começou a diminuir, embora não desaparecesse 
e, novamente, o torneado aparece como complemento de decoração.
Esse novo modelo era denominado “de rebaixo”, com assento de palhinha e 
estrutura de jacarandá, em geral, envernizada. A ele adaptou-se a cadeira de balanço, que 
teria largo uso a partir da segunda metade do século XIX. Inventada pelos americanos, 
segundo alguns autores, a cadeira de balanço (figura 46) teve ampla aceitação desde que 
foi introduzida no Brasil.
44 – Canapé e cadeiras, 
estilo rococó, século XVIII. 
Acervo do Museu de Arte 
da Bahia.
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M ó v e i s e m o b i l i á r i o 
A partir, mais ou menos, dessa mesma década, apareceram simultaneamente 
vários modelos de cadeiras. Os marceneiros do século XIX não se prenderam a um modelo 
específico. Até 1850 estavam em uso, ao lado das cadeiras de rebaixo e de meio molde, as 
chamadas singelas, lisas ou com torneados, as de leque e as de tabela. Todos esses modelos 
foram executados e usados simultaneamente. Somavam-se a eles os modelos ecléticos, 
réplicas estilizadas da mobília Luís XIV, Luís XV e Luís XVI, imitando os móveis barrocos, 
rococós e neoclássicos. Aí sim, formam-se os conjuntos de mobília, que incluíam os novos 
assentos coletivos, como os sofás atualmente denominados marquesas (figura 47). Os 
móveis, então, já eram vendidos em peças pré-moldadas, possibilitando a montagem 
doméstica e a reposição das mesmas. Entraram em Salvador junto com as chamadas 
cômodas americanas, depois da abertura dos portos.
Exemplos dessas cadeiras são encontrados, ainda, nos inventários dos marceneiros56, 
nos meados do século, especialmente entre os bens da loja do capitão Dionísio Ferreira de 
Santana, que, desde 1809, vinha trabalhando em Salvador, na ladeira da Praça57. Eram 
peças copiadas de modelos europeus ou americanos, já feitos em série, de forma mecânica 
e constituindo os conjuntos de mobília com uniformidade formal e decorativa, abrangendo, 
além dos assentos, vários outros móveis.
46 - Cadeira de balanço shaker, modelo americano, século XIX. 
Acervo do Museu de Arte Moderna do Canadá.
45 – Sofá com encostos 
arredondados, feitos em 
série, século XIX. Acervo do 
Museu de Arte Sacra.
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M o b i l i á r i o b a i a n o
47 – Sofá pré-fabricado, 
século XIX, feito em série. 
Acervo do Museu de 
Arte da Bahia. 
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M ó v e i s e m o b i l i á r i o 
M ó v e i s d e r e F e i ç ã o e d e c o r a ç ã o
Mesa, bofete e banca 
Dava-se o nome de mesa apenas aos móveis desse gênero 
próprios para as refeições, para os serviços da cozinha, ou ainda, para 
funções específicas, como jogo, chá, etc.
Ao móvel mais alto e encorpado que servia de aparador 
chamava-se bofete (figura 48) ou bofetinho (figura 49), quando tinha 
pequenas dimensões.