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CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 151 CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III “PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA” Π CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 152 CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA* INTRODUÇÃO Para toda e qualquer intervenção cirúrgica, torna-se necessário observar os princípios gerais capazes de levá-la a um bom termo. A assepsia e a anti-sepsia do paciente e do operador, bem como a esterilização e a desinfecção, devem ser perfeitamente estudadas, para prevenir-se contra infecções tão desfavoráveis, para o inteiro sucesso das intervenções. A seleção do material e instrumental para determinadas intervenções é importante, pois nada deverá faltar na mesa cirúrgica. O conhecimento de cada um (arsenal cirúrgico), assim como a maneira como devem ser empunhados e usados, também, é de grande importância para o bom andamento da intervenção, da mesma forma que o é sua disposição na mesa auxiliar, que facilitará grandemente seu manuseio, reduzindo assim a duração das intervenções. A visualização do campo operatório, o conforto do paciente e o descanso do profissional durante a intervenção devem ser, igualmente, objeto de estudo detalhado, por estarem diretamente ligados ao sucesso da intervenção. 1. ASSEPSIA, ANTI-SEPSIA, ESTERILIZAÇÃO E DESINFECÇÃO A intervenção cirúrgica compreende um conjunto de manobras realizadas pelo cirurgião, que constituem uma agressão aos tecidos vivos. Este traumatismo que se inicia com a incisão, produz uma quebra da continuidade dos tecidos, rompendo sua proteção natural mantida pelo epitélio, sendo expostos assim os tecidos internos ao meio ambiente. Se não forem tomadas precauções necessárias, esta região será facilmente invadida por microorganismos que normalmente ali já se encontram, bem como nos instrumentos usados. Como conseqüência desta invasão, o organismo deverá lutar contra mais este agente agressor, que muitas vezes acarretará infecções com complicações difíceis de serem combatidas. Num organismo debilitado a infecção poderá assumir proporções perigosas, sendo levada à corrente circulatória, com possibilidades de provocar bacteremia ou septicemia. Com a finalidade de serem evitadas estas complicações, necessário se torna que todo o instrumental e material em contato com o campo operatório, bem como as mãos do operador, estejam isentos de microorganismos. A pele, mucosa do paciente e mãos do operador devem ser objetos de cuidados especiais, pois cada centímetro quadrado contém aproximadamente dez mil bactérias de todos os tipos, destacando-se os estafilococos e os estreptococos. _____________________________________________ *AUTORES: Prof. Dr. Clóvis Marzola Prof. Dr. João Lopes Toledo Filho CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 153 Além disso, o instrumental e material deverão ser preparados de tal maneira que não fiquem impregnados de partículas nocivas aos tecidos bucais, além de estarem, também, isentos de germes. Para serem seguidos rigorosamente estes preceitos, o conhecimento dos meios disponíveis e, como deverão ser empregados são imprescindíveis. Isto é possível através da assepsia, anti-sepsia, esterilização e desinfecção. Surge então uma pergunta: - Se há tantos microorganismos e, se existem tantas possibilidades de se infectar, como explicar que só alguns apresentam infecções ou doenças? - Porque há sempre um equilíbrio entre resistência e infecção, há também, um equilíbrio entre a resistência do hospedeiro e a atividade patogênica de um microorganismo produzir a doença. Nossa posição, portanto, não deve ser unicamente de expectativa nem a de deixar-se por conta do organismo a possibilidade de vencer ou não a luta contra os microorganismos. Existem meios para afastá-los e até eliminá-los e, quando assim se procede, executa-se uma desinfecção ou uma esterilização. É importante lembrar que em qualquer ambiente cirúrgico: “Não somos os responsáveis pelos microorganismos que encontramos, mas o somos por aqueles que levamos”. O uso de sulfas e antibióticos proporcionou extraordinários sucessos nos pós-operatórios, trazendo, entretanto um perigo, relacionado com o descuido na prática cotidiana dos métodos de esterilização, ou pelo menos o da atividade mais complacente de alguns profissionais, relativamente aos princípios rígidos da técnica da assepsia. Não se pode nem se deve transferir a responsabilidade de uma infecção após atos clínicos e cirúrgicos a determinado antibiótico, quando uma correta assepsia teria protegido melhor o paciente. TERMINOLOGIA 1. Assepsia é o conjunto de meios usados para impedir a penetração de microorganismos numa determinada área, constituindo-se assim no ideal de não infectar, sendo a base da cirurgia. 2. Asséptico é um meio isento de bactérias. As bactérias possuem a forma vegetativa que são encontradas na cavidade bucal e, mais facilmente eliminadas além dos esporos. São também encontradas as formas transitórias, adquiridas por contato e se aderem à pele, além das permanentes ou resistentes estáveis e resistentes normais. Biocida, que elimina as formas vegetativas bacterianas, esporos, fungos, bacilos, vírus lipídicos e não lipídicos. 3. Contaminação é o ato ou o efeito de contaminar-se, o contato preliminar entre o organismo vivo e o microorganismo. 4. Degermação é a remoção ou redução das bactérias da pele, seja por meio de ação ou limpeza mecânica através do uso de sabões, detergentes ou escovação, ou pela ação de agentes químicos. É aplicada sobre tecidos vivos, removendo a maior parte da flora microbiana transitória, com propriedades de umidificação, penetração, emulsificação e dispersão. 5. Descontaminação ou desinfecção prévia tem por objetivo proteger as pessoas que irão realizar a limpeza do material e instrumental. 6. Anti-sepsia é a inativação dos microorganismos, impedindo sua multiplicação, numa área de tecidos vivos na superfície do organismo. CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 154 7. Anti-sépticos são substâncias que destroem os microorganismos patogênicos em seres animados à temperatura ambiente. 8. Áreas críticas são os locais onde existe a possibilidade real de contaminação através de matéria orgânica. Devem passar pelo processo de desinfecção constantemente e, como exemplo estão as salas de cirurgia ou centros cirúrgicos, salas de hemodiálise, laboratórios de anatomia patológica e análises clínicas, etc. 9. Áreas semicríticas são os locais ocupados por pacientes portadores de doenças não infecciosas ou de baixa transmissibilidade e como exemplos estão as salas de recepção, corredores de clínicas ou de hospitais, etc. 10. Áreas não críticas são aqueles locais com acesso proibido a pacientes ou ainda edifícios abertos ao público, como o saguão de hotéis, bibliotecas, escritórios, aeroportos, etc. 11. Instrumental crítico são aqueles instrumentos que penetram nos tecidos subepiteliais, na corrente vascular e, outros órgãos isentos de flora microbiana própria, devendo estar necessariamente esterilizados, como as agulhas de sutura de anestesia, lâminas, curetas cirúrgicas e periodontais, etc. 12. Instrumental semicrítico são aqueles instrumentos que entram em contato com a mucosa íntegra, saliva e eventualmente o sangue. Devem ser esterilizados ou desinfetados e, como exemplo pode-se citar o porta-amalgama, as moldeiras, a seringa tríplice, brocas, etc. 13. Instrumental não crítico entra em contatoapenas com a pele íntegra e diretamente com o paciente, devendo ser desinfetado e isento de agentes de doenças infectos transmissíveis, podendo-se encontrar as alças de RX e refletores, botões de controle de comando, armários, telefones, termômetros, etc. 14. Esterilização é a liberação de objeto, superfície ou ambiente pela destruição de todos os microorganismos, patogênicos ou não, quer em forma vegetativa ou esporulada. 15. Esterilizante é o agente físico ou químico capaz de produzir a esterilização. 16. Fomites são objetos inanimados capazes de causarem infecção cruzada através do contágio indireto como as mesas auxiliares, telefones, canetas, alça do RX, refletores, etc. 17. Infecção representa a reprodução, multiplicação e desenvolvimento de microorganismos, em um organismo altamente desenvolvido. 18. Infecção cruzada significa que houve infecção pela transmissão de um microorganismo, de um organismo para outro susceptível, podendo-se dar por quatro maneiras: a) de pacientes para o pessoal odontológico; b) do pessoal odontológico para os pacientes; c) de paciente para paciente via pessoal odontológico e, d) de pacientes para pacientes via fomites. 19. Micróbios são seres unicelulares patogênicos capazes de causar doenças, podendo ser bactérias ou vírus. 20. Microorganismos são seres somente visualizados com auxílio do microscópico, sendo que os patogênicos são capazes de produzir uma infecção. 21. Vírus são seres que se multiplicam no interior das células vivas, e visualizados em microscópio eletrônico, podendo transmitir doenças como a hepatite B, AIDS, caxumba, herpes, etc. 22. Desinfecção é a destruição dos microorganismos patogênicos, eliminando-os de seres inanimados, matando as formas vegetativas sem atingir os CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 155 esporos, sendo realizada por meios físicos ou químicos, por ação bactericida ou bacteriostática. 23. Desinfetantes são substâncias que destroem os microorganismos patogênicos em seres inanimados à temperatura ambiente, desnaturando as proteínas celulares. 24. Equipamento de proteção individual (EPI) como gorro, máscara, óculos, luvas e aventais. 25. Esporos são bactérias que se protegem com um revestimento, ou cápsula protetora resistente, quando as condições do meio ambiente são desfavoráveis a elas, podendo resistir à ação de germicidas e alguns até a altas temperaturas. Com todas estas definições e conceitos, pode-se concluir que não existe meio termo: “quase estéril” ou “parcialmente estéril”. Um objeto está ou não está estéril. CLASSIFICAÇÃO DOS PROCESSOS DE ESTERILIZAÇÃO E DESINFECÇÃO Podem-se classificar os agentes esterilizantes e desinfetantes em três grupos de acordo com o processo de atuação dos mesmos: 1)Meios físicos, 2) Meios químicos e, Meios físico-químicos: gases. 1) Meios físicos: 1. O calor: Empregado na temperatura certa por tempo correto, constitui-se no mais importante esterilizante disponível, daí sua maior aplicação. Alguns fatores influem na esterilização pelo calor, como o tempo de exposição e, os fatores ligados diretamente aos microorganismos, como o número, o tipo na forma vegetativa ou esporulada, a idade por serem as células jovens aquelas mais vulneráveis. Destes, a umidade é o principal fator influenciador na esterilização pelo calor, pois a presença ou a ausência desta umidade é que determinará a temperatura exata na qual os microorganismos serão inativados. A morte dos microorganismos ocorre quando há coagulação das proteínas bacterianas, no protoplasma das células vivas. Um exemplo básico da relação entre umidade e coagulação pode-se observar com a clara de ovo, na sua substância protéica: Com 0 % de umidade a albumina se coagula a 160º / 170º C. Com 6 % de umidade a albumina se coagula a 145º C. Com 15% de umidade a albumina se coagula a 96º C. Com 50% de umidade a albumina se coagula a 56º C. Pode-se concluir assim que, quanto maior a umidade, menor a temperatura. Existem dois tipos de utilização do calor-seco e úmido entre os métodos de esterilização pelo calor. Quando se utiliza o calor úmido pelo vapor, a ação esterilizante provém do calor latente liberado, quando ele se condensa sobre uma superfície atingida. No microorganismo sob a forma de esporo o vapor se condensa sobre sua parede, e sendo maior o conteúdo aquoso, pela hidrólise ele se desintegra. Quando se trabalha com o calor seco sem umidade, os microorganismos são mais resistentes ao calor, daí aumentar-se ou o tempo ou a temperatura de trabalho. Os microorganismos são destruídos quando ocorre a oxidação dos CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 156 constituintes celulares. Enfim, usam-se temperaturas muito altas, maiores do que aquelas necessárias para a coagulação das proteínas. 1.1 Calor úmido: Pasteurização: • Este método, embora incluído como sendo de esterilização, é mais uma técnica de desinfecção, pois não destrói todas as formas vivas de microorganismos, em verdade elimina a maioria dos patogênicos. Assim, destroem microorganismos que contribuem para as doenças originários do leite, a brucelose, salmonelose, tuberculose e outras. Seu uso consiste no aquecimento a 63º C durante meia hora do material líquido, seguido de resfriamento rápido. Isto impede a multiplicação de microorganismos, que vem a ocorrer ao redor de 37º C que é a temperatura ótima. Fervura: • Este método embora ainda utilizado, não oferece atualmente garantia de esterilização, por não destruir todos os microorganismos. Assim, as bactérias sob a forma de esporos (tétano, botulismo e gangrena) e os vírus da hepatite, resistem bem. Seria também este, mais um processo de desinfecção. • Uso: 100º C durante 30 minutos. • Desvantagens: Esta temperatura somente é alcançada ao nível do mar, o que já vem constituir uma limitação ao método, quando usado fora daquele nível. Como a temperatura de ebulição varia com a altitude, recomenda-se que este tempo deva ser aumentado 20% em cada variação de 300 metros de altitude. Acarreta a oxidação, levando à corrosão de muitas peças. Depois da desinfecção, a possibilidade de contaminação é muito alta quando da retirada do material. • Observações: Deve-se observar imersão completa do objeto a ser fervido, para que ocorra um bom contato. A presença de bolhas de ar, gorduras, muco, sangue (soro), proteína impede um bom contato da água com o objeto. Portanto, o material deve estar sempre muito bem limpo. • O uso da água esterilizada é indicado em vez de água corrente, pois aquela evita a formação de depósitos de sais de cálcio no aparelho e no instrumental. • O acréscimo de 2% de carbonato de sódio reduz a ferrugem e destruição do corte; aumenta o poder germicida, servindo também para remoção de vestígios de material aderido ao instrumental, sendo que as borrachas e os vidros estragam-se. • A adição de detergentes catiônicos traz, da mesma forma, bons resultados. • Deve-se manter a tampa sempre bem fechada. Vapor à pressão atmosférica: • Neste método emprega-se o esterilizador de Arnoud ou a própria autoclave com a válvula de escape aberta. • Uso: 100º C durante 30 minutos. CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 157 • Material: Aqueles que se alteram com temperatura maior que 100º C. A utilização deste método repetido durante três vezes sucessivas é chamada esterilização intermitente ou tyndallização. Os seguintes materiais podem passar por este processo: leite, soluções de açúcares, soro fisiológico. • Observação: Em relação às bactérias esporuladas contata-se o seguinte: inicialmente ocorredestruição das formas vegetativas e, caindo a temperatura, os esporos germinam. No segundo e terceiro aquecimentos há destruição das formas esporuladas. Vapor saturado sobre pressão - autoclave: • O princípio físico aplicado à autoclave é o mesmo da marmita de Papin: água aquecida em recipiente fechado, ficando o vapor retido sob pressão, atingindo temperatura mais elevada que seu ponto de ebulição, sem entrar, contudo, em ebulição. Na autoclave, o que realmente esteriliza é o calor úmido, e não a pressão. • Como vantagem deste processo físico pode-se citar a alta eficiência, baixo custo, ser atóxico, prático e funciona como esporicida, podendo-se esterilizar materiais resistentes ao calor e umidade. O curto espaço de tempo para a esterilização, bom poder de penetração, e dependendo do seu tamanho comporta grande quantidade de material em seu interior. Seu princípio básico é a destruição dos microorganismos por coagulação irreversível das proteínas, e desnaturação de enzimas. São necessários para este tipo de esterilização quatro requisitos: a) vapor, b) pressão, c) tempo e d) temperatura. A temperatura ideal para a correta esterilização é de 15 a 30 minutos a 121º C, isto ainda dependendo do material e especificação do fabricante. • Vários são os modelos e tamanhos de autoclave: vertical e horizontal, sendo o horizontal usado para a esterilização de diversos tipos de materiais e, o vertical em laboratórios na esterilização de líquidos. A autoclave dispõe de válvulas de segurança, adaptadas ao orifício de escapamento do ar. É muito usada em laboratórios de bacteriologia e em hospitais, existindo tipos de autoclaves para esterilização de tecidos, campos, aventais, compressas de gaze em geral. • Este aparelho é constituído de uma câmara de vapor, que geralmente é produzido em caldeiras situadas a distância, e que por meio de outra válvula reguladora é admitido primeiramente à câmara externa, com a finalidade de aquecer a parede da câmara de esterilização e, a seguir, na câmara interna para a esterilização do material. O objeto da primeira operação é a condensação do vapor sobre a superfície interna da câmara ao ser admitida a ela num segundo tempo. A autoclave em geral é operada por um período de 30 minutos com pressão de vapor de 15 libras, que corresponde à temperatura de 121º C ou 250º F, sendo que esta temperatura deve ser regulada pelo termômetro e não pelo manômetro de pressão. CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 158 • Este processo assegura a destruição de todos os microorganismos na sua forma vegetativa ou esporulada. Nos últimos anos as autoclaves vêm sendo aperfeiçoadas, estando munidas de um controle automático, capazes de realizar todas as operações sem a intervenção humana, desde que estejam ligadas e, regulado o alarme para avisar que a esterilização está concluída. • O controle eficaz da temperatura, como já foi citado anteriormente, deve ser guiado pelo termômetro que marca a temperatura interna, e quando esta temperatura é controlada pelo termômetro acoplado ao manômetro, leva a erros de esterilização. O mais comum é a não esterilização do ar residual, o ar retido no aparelho quando é fechada a autoclave. Quando é colocada em funcionamento surge a pressão do vapor do ar residual, observando-se no manômetro a pressão recomendada, quando na realidade a temperatura ideal para a esterilização ainda não foi atingida. Quando o ar residual não é eliminado, a temperatura da mistura (ar+vapor) será menor que a temperatura de vapor puro, contudo apresenta a mesma pressão. Esta mistura ar + vapor, tem também menor poder de penetração, sendo que o ar residual forma determinados bolsões, e principalmente na parte inferior é mais pesado, impedindo a esterilização correta do material colocado a esse nível. • Material: Todo material constituído de fibras vegetais, tecidos, gazes, algodão, cones absorventes, fios de sutura com água. • Líquidos. • Artigos de borracha. • Instrumentos. • Observações práticas: Quando se pretende a destruição dos microorganismos de um instrumental cirúrgico contaminado, devem ser colocados numa bandeja com detergente catiônico ou solução de fosfato trisódico até cobri-los, usando-se a autoclave. Após o tempo de esterilização, descarregando o vapor rapidamente, o instrumental está devidamente esterilizado e limpo. Assim, consegue-se que o encarregado da lavagem de equipamentos trabalhe com maior segurança, isto porque na grande maioria dos ambientes hospitalares o instrumental sofre primeiro uma limpeza pelo encarregado e, em seguida, é que será esterilizado. A seqüência lógica é a seguinte: a) instrumental contaminado; b) esterilização + detergente; c) limpeza; d) esterilização. • A autoclave é menos nociva que a fervura para o instrumental. • Pacotes deverão sempre ser mantidos em posição vertical, não devendo ser muito grandes. • O instrumental para a autoclavagem nunca deverá ser lubrificado, mas sim muito bem limpo. • Tambores devem ser colocados e mantidos na horizontal, com musselina envolvendo todo o material como gaze e algodão, com os orifícios laterais abertos. CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 159 • Se os líquidos estiverem contidos em frascos muito grandes, sua porção central não é esterilizada. • Para o uso de cubas: num recipiente fechado de metal, que não permita a passagem de vapor, ele não entra em contato com o material, não cedendo seu calor latente, e em conseqüência nada é esterilizado. Pode-se, portanto deduzir que o material esterilizado em cubas é quanto muito desinfetado, pois na verdade o processo é suficiente apenas para destruir a maioria dos microorganismos patogênicos, mas não todos. 1.2 Calor seco: Incineração: • Uso: Carbonização do material infectante. • Material: Gaze, algodão, guardanapos, campos, animais inoculados com microorganismos patogênicos, fragmentos de tecidos ou órgão. • Observação: O material deve ser envolvido em papel-jornal, pois além de absorver umidade, protege o encarregado de sua manipulação. Incandescência: • Uso: Aquecimento ao rubro. • Material: Alça de platina que na clínica não tem muita aplicação. A esterilização pelo calor seco propriamente dita compreende duas formas: a) flambagem e, b) ar quente. Flambagem: • É o meio mais simples de esterilização de instrumental, que deve ser aquecido diretamente ao rubro no bico de Bunsen. Na técnica bacteriológica, utiliza-se para esterilizar a alça de platina, pipeta, brocas e, tubos de balões em que se faz semeadura. Usar de preferência a chama azulada que possui maior temperatura, sendo mais prática. É contra-indicado flambar agulhas hipodérmicas ou qualquer outro tipo de agulha com finalidade de esterilizar, visto que na luz da agulha não pode ser obtida a temperatura esterilizante. Ar quente - estufa ou forno de Pasteur: • O forno de Pasteur leva o nome do próprio autor. É um recipiente retangular de paredes duplas e internamente revestidas de amianto, sendo aquecido por uma coroa de bicos de gás ou eletricidade. Em seu interior existem prateleiras móveis, sendo que na sua parte superior há orifícios para a ventilação, além de outro orifício em que é colocado termômetro graduado até 200º C. • O material aqui colocado será esterilizado a 160-180º C, durante 1 hora. O papel que protege o material ou instrumental, além de tampões de algodão, adquirem coloração parda, contudo não devem escurecer muito nem se tornarem quebradiços. Deixa-se esfriar por si antes de retirá-lo, pois a abertura do forno ainda quente provoca grande variação da temperatura dentro da própria estufa, podendo com istotornar o material quebradiço, ou mesmo quebrá-lo. CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 160 • O método da estufa é eficaz, entretanto exige cuidadosa fiscalização, por variar muito a temperatura dentro da própria estufa, de um ponto para outro. • As estufas aquecidas a gás são talvez menos satisfatórias e, mesmo as elétricas só funcionam adequadamente quando providas de um ventilador para fazer circular o ar quente. O mecanismo deste tipo de esterilização dá-se pela oxidação de células secas. O uso do vapor seco limita-se à esterilização de material ou instrumental incapaz de restituição corrosiva ou hidrolizadora do calor úmido, tais como instrumentos cortantes, seringas e produtos anidros como a glicerina, óleos, etc. • Vantagens: Material em que o vapor não penetra. Material em que a umidade é nociva. Para instrumental cortante. • Desvantagens: Lenta penetração do calor. Tempo mais longo. Alta temperatura que às vezes é nociva. • Observação: A 160º C não prejudica o fio de determinados instrumentos. O calor seco é usado para a esterilização dos seguintes materiais: • Agulhas hipodérmicas: a 160º C durante 120 minutos, podendo ser colocadas em tubos especiais. • Agulhas de sutura: a 160º C durante 60 minutos, sendo as agulhas esfriadas em gaze enrolando-se em musselina. • Gaze vaselinada: a 160º C durante 150 minutos, com quantidade limitada a 20 tiras de 5 x 20 m e não mais de 120 g de vaselina, em caixas para sonda de 6,5 x 20 x 3 c/c. • Glicerina: a 170º C durante 60 minutos, com uma quantidade limitada a uma camada de 6 a7 mm, aproximadamente 30 c/c, em balão de Erlemeyer de 200 c/c. • Instrumentos com bordas cortantes: a 160º C durante 60 minutos, sendo que o instrumental deve ser limpo e livre de óleo ou gordura, e colocado em caixas metálicas abertas ou em bandejas. • Óleo: a 170º C durante 60 minutos a 160 - 120º C, sendo que a quantidade deve ser limitada a uma camada de 60 mm (aproximadamente 30 c/c), em balão de Erlemeyer de 200 c/c. Peróxido de zinco: a 140º C durante 4 horas. Para aplicação clínica a quantidade deve ser limitada a 15 ou 20 g em recipiente adequado. • Pós (sulfanilamida, sulfapiridina e sulfatiazol): a 170-160º C durante 4 horas. Quantidade limitada a uma camada de 6 a 7 mm (aproximadamente 30 g) em placa de Petri, pote para pomada ou outro aparato semelhante. • Seringas (em pacotes): a 160º C durante 60 minutos. As seringas devem ser desmontadas e enroladas em musselina. Agulhas enfiadas num pedaço de gaze podem ser incluídas no pacote. • Sulfas em pó: a 140º C durante 3 horas. Quantidade limitada a 4 ou 5 g em envelopes de paredes duplas, ou em tubos de ensaio fechados com algodão. CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 161 • Vaselina líquida: a 170º C durante 60 minutos, e 160º C durante 120 minutos. A quantidade deve ser limitada a uma camada de 6 a 7 mm (aproximadamente 30 c/c) em balão de Erlemeyer. • Vaselina sólida: a 170º C durante 60 minutos e, 160º C durante 120 minutos. A quantidade de ser limitada a uma camada de 60 mm (aproximadamente 30 c/c) em placa de Petri ou outra vasilha semelhante (pirex ou tampa). • Vidraria: a 160º C durante 60 minutos. As peças devem estar limpas e livres de óleo ou gordura. • Algumas sugestões: Para proteger de contaminação pós- esterilização o material ou instrumental que vai ao forno, um ótimo recurso é envolvê-lo com papel Kraft. Convém marcar o dia da esterilização e o nome do instrumento. As seringas podem ser esterilizadas com o êmbolo em seu interior envoltas em papel Kraft. A esterilização das agulhas se faz interiormente nos tubos de ensaio pequenos, com ou sem algodão no fundo, protegendo-as com um tubo de plástico pequeno e transparente. 1.3 Filtração: velas, filtros de asbestos e membranas filtrantes: 1.4 Radiação tipo não ionizante: raios ultravioletas e infravermelhos: 1.5 Radiação ionizante: raios gama e elétrons de alta energia: • A esterilização é realizada em temperatura ambiente, pela ação dos raios gama e/ou cobalto 60. Artigos para a implantodontia são exemplos de materiais esterilizados por este processo. A maior desvantagem é o alto custo. 2) Meios químicos: • O termo “estéril” não deve ser empregado para designar o resultado da ação dos agentes químicos, pois na prática não há destruição de todos os germes. A designação correta seria “desinfecção química” e, não “esterilização química”. Os desinfetantes químicos de uso prático não destroem todos os esporos bacterianos, incluindo os patogênicos. Entretanto, na literatura especializada, encontram-se já alguns desinfetantes que são classificados como esporicidas. Entre eles, destaca-se a solução aquosa ativada de glutaraldeído a 2% (Cidex da Johnson & Johnson). • Mecanismo de ação: Os agentes químicos são em sua grande maioria venenos protoplasmáticos, causando, a desnaturação das proteínas; hidrólise; formação de sais insolúveis com proteínas; oxidação; aumento de permeabilidade; bloqueio de enzimas; formação de potencial de oxi-redução inadequada. • Qualidades do agente químico: O agente químico ideal seria aquele que apresentasse as seguintes propriedades: 1. Ação antimicrobiana de largo espectro, tanto in vitro, como in vivo. 2. Atuação rápida em fracas concentrações. 3. Não inibir defesas naturais do hospedeiro. 4. Não ter sua ação inibida pela presença de soro, pus ou muco. 5. Ser ativo à temperatura e pH normais. 6. Não ser corrosivo. 7. Ser insípido e inodoro. 8. Ser solúvel em água. 9. Ser quimicamente estável. 10. Ser econômico. CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 162 • Fatores que interferem na desinfecção química: Contato - limpeza. Poder de contato - poder umectante - tensão superficial. Concentração - material a seco. Tempo. Temperatura. pH. Matéria orgânica. Número de organismos. Agentes químicos mais usados na prática: 2.1 Álcoois: Etílico, isopropílico, triclorobutanol: • Na concentração de 70 ou 77% são germicidas tendo pouca ação residual evaporando rapidamente. São bactericidas eliminando as formas vegetativas. Têm ação fungicida e virucida para alguns vírus, além de ser cáustico, irritando e ressecando a pele. Na presença de matérias orgânicas são inativados. A concentração oficial como anti-séptico é a de 70% peso/volume ou 77º GL (v/v). Para observação desta concentração utiliza-se o alcoômetro. Para serem feitas diluições dos álcoois, é necessário conhecer sua concentração em peso. O alcoômetro indica apenas a concentração do álcool em volume. Como explicar a não-infecção da pele em maior escala, se a maioria dos profissionais emprega o álcool 96 GL na anti-sepsia ? - A não-infecção deve-se mais à resistência do indivíduo (a pele), do que à ação do álcool 96 GL ou 42 Cartier. Na literatura especializada há trabalhos demonstrando que a fricção com gaze embebida em álcool a 70 GL corresponde a seis minutos de escovação. Outros ainda afirmam que a fricção de gaze durante 3 minutos com as mãos e antebraços imersos em álcool a 70 GL reduz 97% da flora bacteriana. • Observação: o álcool não atua sobre os esporos. 2.2 Aldeídos: Formaldeído, formol e glutaraldeído: • O formaldeído é eficaz na eliminação de bactérias, fungos e vírus, sendo um potente germicida, entretanto é tóxico aos tecidos em concentrações ideais (8% em álcool e 10% em solução aquosa), podendo provocar dermatite e reações alérgicas. Sua ação é lenta, sendo que o tempo preconizado para produzir uma desinfecção é de 30 minutos, e a partir de 18 horas é também esporicida. É um produto volátil, desprendendo odor e gases irritantes.Para alguns metais é corrosivo. É encontrado em forma de pastilhas, sendo, entretanto inadequadas como desinfetantes. Pode-se citar como exemplo o Germekil. • O formol é irritante para pele e mucosa e sua ação está diretamente relacionada à umidade relativa. Assim, na sua forma em tabletes, deve ser empregado em ambientes fechados com a temperatura mínima de 60º C e, umidade maior que 60% num tempo maior que 20 horas. Todo material desinfetado por esta substância deve ser lavado anteriormente ao seu uso, com água esterilizada ou esperar que a substância evapore-se (exemplo os fios de sutura). • O glutaraldeído comparado com o formaldeído, sua potência é de 2 a 8 vezes superior. Quando usado por mais de 12 horas tem o poder de esterilização, mas normalmente é utilizado por 30 CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 163 minutos, sendo apenas um desinfetante. Algumas embalagens segundo o fabricante, podem permanecer por até 28 dias. Na presença de matéria orgânica, não sofre qualquer alteração. Podem-se desinfetar as peças de mão que não são autoclaváveis. Após a imersão do instrumental obedecendo ao tempo preconizado procede-se à limpeza dos mesmos com água esterilizada ou soro fisiológico, pois pode irritar a pele e a mucosa. Como exemplo pode-se encontrar o Cidex e o Glutarex. Normalmente estes produtos têm uma alta atividade germicida, não sendo corrosivos. É muito eficaz contra quase todos os microorganismos e entre eles o HBV e HIV. Alguns exemplos de materiais que podem passar por este processo estão o enxerto de acrílico, cateteres e, tubos de borracha. 2.3 Halogênicos: • Cloro: ou hipoclorito de sódio ou o líquido de Dakin, é um potente germicida e, de baixo custo e seu uso contínuo é irritante para a pele. São considerados agentes alvejantes e, dissolvem a matéria orgânica como os coágulos sangüíneo e material necrótico, contudo têm um poder reduzido na presença destes. Além de serem irritantes para a pele, são corrosivos para os metais, provocam a descoloração de tecidos, são instáveis, devendo-se assim proteger o frasco da luz solar e do calor. Normalmente são utilizados nas concentrações de 0,5% e de 1,0%. Os nomes comerciais são: Líquido de Dakin 0,5%, Solução de Milton 1,0% e Virucid a 1,0%. Têm ação sobre o vírus da AIDS. Sua diluição deve ser efetuada no momento de sua utilização, daí um dos inconvenientes. Ele inativa o vírus HIV em 5 minutos e o Micobacterium tuberculosis em 30 minutos. • Iodo: É bactericida, tuberculicida, fungicida e, também para alguns vírus. Alguns autores preconizam a remoção parcial do PVPI para aumentar sua ação residual. São produtos de baixa toxicidade, podendo reduzir em até 85% da população bacteriana existente. Na presença de matéria orgânica têm sua eficiência reduzida. Aplicações repetidas podem ocasionar uma dermatite de contato, podendo manchar e corroer certos instrumentos. Como exemplo pode-se encontrar o PVPI tópico e o Povidine tópico. • Solução aquosa ou alcoólica de iodo - a tintura: É mais penetrante, mas também mais irritante, não devendo ser usada em pessoas sensíveis. 2.4 Agentes ativos em superfície: Compostos aniônicos, catiônicos e, aniônicos anfolíticos: • Os compostos aniônicos liberam ions com carga negativa. • Os compostos catiônicos são bactericidas para bactérias gram positivas e negativas, não eliminando o bacilo da tuberculose, vírus e esporos. Também são inativados na presença de matéria orgânica. Como exemplo pode-se encontrar no mercado o Germekil, e sua ação consiste em liberar ions com cargas positivas. • Os compostos não iônicos não se dissolvem em solução aquosa. CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 164 2.5 Fenóis: Ácido carbórico, cresóis, xilóis, clorofenóis, cloroxilenóis, bifenóis: • São os clorofenóis, ácido carbórico e os xilóis. O hexaclorofeno 3% é bacteriostático, atuando contra as bactérias gram positivas, tendo baixa atividade na presença de matéria orgânica. São encontrados no mercado com o nome de Sabofen e Duplofen. A clorexidina 4% tem ação prolongada e rápida, sendo bactericida para bactérias gram positivas e negativas, mas ineficaz para o bacilo da tuberculose, esporos e vírus da hepatite. É de baixa toxicidade perdendo parte de sua eficiência na presença de matéria orgânica e, como exemplo encontra-se o Clorohex. 2.6 Corantes: Anilina, compostos de acridina - violeta genciana: 2.7 Sais metálicos: Mercuriais, cobre e, prata: • Podem ser citados o mertiolate e o mercúrio cromo, que são germicidas fracos, não devendo ser usados para a desinfecção de instrumentos. 2.8 Detergentes enzimáticos: • São compostos que têm a propriedade de se localizarem na interfase. São agentes tensoativos e, estas substâncias apresentam um grupo solúvel em gordura e, outro grupo solúvel em água. Os detergentes enzimáticos de última geração apresentam em suas fórmulas enzimas, facilitando a remoção de sujidade como gorduras e matéria orgânica. No mercado podem ser encontrados com o nome de Endozime. 3. Meios físico-químicos: 3.1 gás de óxido de etileno (ETO): • Muito embora haja sido descoberto em 1950 por Saul Raye, somente nestes últimos anos sua utilização tem sido mais intensa. É o mais aceitável e eficaz agente esterilizante de todos os procedimentos de esterilização. Atua sobre numerosos aparelhos, substâncias e até mesmo em certos instrumentos que com outros métodos poderiam ser danificados, como por exemplo, os plásticos em geral. Sua maior desvantagem é o alto custo, devendo ser utilizado para artigos que não podem ser autoclavados. Como vantagens pode-se citar que é um método que não necessita altas temperaturas tendo grande poder de penetração, matando todas as bactérias. Suas características principais podem ser constatadas como sendo uma substância incolor, inflamável e explosiva, e por esta razão o perigo de explosão e de fogo, contudo este produto afeta a camada de ozônio, sendo sua comercialização proibida. A atividade antimicrobiana do ETO resulta da substituição dos átomos de hidrogênio por um grupo alquila de proteínas, o DNA e o RNA, impedindo o metabolismo e a replicação das células. Sua ação depende da concentração do gás, temperatura, umidade e tempo de exposição. O ideal é ter-se de 450 a 1200 mg/l, de 29º C a 65º C e de 2 a 5 horas. Entre os materiais que podem sofrer este processo CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 165 estão: marcapasso, próteses, equipamentos de hemodinâmica, acessórios de respiradores, etc. É necessário após a esterilização com o ETO, de um tempo mínimo de arejamento, sendo de 6 horas para as borrachas e materiais plásticos finos; de 24 horas para borrachas e materiais plásticos grossos; de 4 dias para marca- passos internos; de 7 dias para luvas, cateteres e outros materiais em invólucros plásticos e de 7 horas para qualquer tubo utilizado em cirurgia cardíaca. Enfim, o maior risco na esterilização pelo ETO é a aeração inadequada. 3.2 formaldeído: • Já foi explicado no 2.2 entre os aldeídos. SOLUÇÕES DESINFETANTES E AGENTES ESTERILIZANTES MAIS UTILIZADAS NA PRÁTICA • Dermoiodine ou povidine degermante: é uma solução detergente à base de iodo ativo, cujo veículo é o PVPI a 10% ou seja, polivinilpirolidona. Sua ação é por contato, sendo que após mergulhar as mãos na solução ou após friccioná-la na pele do paciente, deve-se deixar em contato por dois minutos antes de enxugá-la com toalha estéril. • Dermoiodine ou povidine tópico: sendo a base a mesma que o anterior, somente sendo modificada a ação emoliente ou degermante para atintura, em que a substância cora as mucosas, por pequeno período de tempo. Não se dissolve facilmente na presença de água e outros líquidos. É utilizado para a anti-sepsia das mucosas. • Sterylderme: é um anti-séptico concentrado, incolor e tensoativos, sendo usado na anti-sepsia pré-operatória das mãos e braços do cirurgião. Para isto deve-se diluir 10 c/c em 1 litro de álcool e imergir os braços e mãos na solução ou espalhar sobre a pele, deixando-se em seguida secar. É germicida para material não metálico como borrachas, plásticos e vidros após diluição de 10 c/c em 1 litro de água. • Soapex com HTC o hexaclorofeno e triclorocarbalinídica é um sabonete anti-séptico e detergente, sendo usado na anti-sepsia das mãos e braços, molhando-se a pele, usando-se como sabonete comum por 2 minutos e em seguida enxugar. • Marcus 88 é um desincrostante do material cirúrgico, quando principalmente sangue, pus e muco, não são facilmente despregados e dispensados. É usado para a limpeza do instrumental cirúrgico, agulhas, plásticos, seringas, vidraria e borrachas, com uma colher-medida de Marco 88 em 1 litro d’água. • Cidex é uma solução aquosa de dialdeído ativado de ação rápida, não corrosiva, não manchando e, além de inibir a ferrugem tem ação desinfetante e esterilizante, sendo usado para instrumentos e utensílios médico-cirúrgicos. Sua ação é esporicida, tuberculicida, CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 166 virucida, bactericida, fungicida e pseudomonácida. A desinfecção ocorre em 10 minutos, matando todos os germes patogênicos nas formas negativas, inclusive o Mycobacterium tuberculosis e a Pseudomona aeroginosa. Sua utilização promove a esterilização em 10 horas no mínimo, matando assim todas as formas esporuladas patogênicas. • Duo-cide é um desinfetante, desodorizante, detergente e germicida. É um germicida para o chão, paredes, corredores, banheiros, vidros de janelas, etc. utilizando-se duas colheres de sopa de Duo-cide em um litro d’água, aplicando-o com pano ou esponja. Máscaras cirúrgicas, gorros e aventais devem ser mergulhados na solução por 10 minutos. • Germ pol, foi especialmente formulado para desinfetar todas as dependências dos hospitais e sanatórios para tuberculosos. ANTI-SEPSIA DAS MÃOS DO OPERADOR Esta manobra requer grande esmero, pois a destruição dos germes nelas, é um problema muito difícil. De um lado, a escovação e desinfetantes poderosos provocarão irritações. Por outro lado, deve-se levar em conta, que os germes alojam-se nos interstícios da pele protegidos pela camada cutânea e, somente por meio de uma ótima anti-sepsia, lavação e escovação se conseguirá sua remoção. As mãos e antebraço devem obrigatoriamente passar por um processo de degermação e anti-sepsia antes de qualquer procedimento, quer cirúrgico ou não. A forma mais indicada para se efetuar corretamente este passo, e assim ter-se maior segurança na cirurgia, é a lavação acompanhada da escovação. Com sabonetes normais removem-se as bactérias transitórias e, com sabonetes específicos aquelas permanentes ou resistentes, sendo estas compostas por microorganismos que vivem e multiplicam-se na própria pele sendo de baixa virulência, e dificilmente causam uma infecção. As transitórias são passageiras e seus microorganismos são mais facilmente removidos, como os Staphilococcus epidermie e o aureus. Os anti-sépticos aplicados na pele e mucosa classificam-se em dois tipos: • Os detergentes ou degermantes que têm como função remover detritos e impurezas sendo encontrados com os nomes comerciais de PVPI a 10% (1% de iodo ativo) e a Clorexidina a 4% (com 4% de álcool etílico) para aqueles casos em que existe alergia pelo iodo. • As soluções alcoólicas. Os produtos indicados para a anti-sepsia das mãos e antebraços não devem irritar nem manchar a pele, sendo que a técnica preconiza os seguintes passos: • Remover todos os adornos de dedos, mãos, pulsos e antebraços. • Equipar-se com os EPIs. • Molhar os dedos, mãos, antebraços e cotovelos. • Submeter as superfícies aos produtos anti-sépticos. • Escovar com auxílio de uma escova de cerdas macias todas as regiões citadas, iniciando pelas unhas indo a direção ao cotovelo. CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 167 Lembrar que não se deve voltar a escova para áreas que já sofreram a anti-sepsia. • Enxaguar com água corrente todas as superfícies escovadas de forma que a água escorra da ponta dos dedos em direção ao cotovelo. • Secar com campo ou papel toalha esterilizados. • Vestir avental cirúrgico. • Calçar luvas esterilizadas. Deve-se sempre dar preferência aos papéis toalhas de cor branca, pois sua qualidade é superior àqueles de cor parda. Quadro III. I - Potência germicida de alguns anti-sépticos (PRICE, 1957). Porcentagem de redução da flora bacteriana de mãos e antebraço, 120 segundos após sua aplicação: Tintura de iodo a 7% 99,0% após 30’’ Iodo a 2% em álcool a 77% v/v 97,5% Iodo a 5% em água (solução de lugol) 98,5% Iodo a 1% em álcool a 77% v/v 95,0% Álcool a 77% v/v 90,0% Nitromersol (Metafen) a 1:2000 (em álcool e acetona) 70,0% Álcool a 50% p/v - acetona a 10% 54,0% Merbromino (Mercurocromo) 1:50 (em álcool e acetona) 50,0% Nitromersol (Metafen) 1:500 (em água) 40,0% Cloreto de mercúrio (em álcool e acetona) .35,0% Timersol (Mertiolate) 1:1000 (em álcool e acetona) 30,0% Nitromersol (Metafen) 1:2500 (em água) 30,0% Cloreto de mercúrio 1:1000 (em água) 20,0% Timersol (Mertiolate) 1:1000 (em água) 18,0% Sabão e água 10,0% LAVAÇÃO E ESCOVAÇÃO DAS MÃOS E DOS ANTEBRAÇOS Após a devida paramentação, já estando com gorro, máscara e óculos de proteção, deve-se passar para a lavação e anti-sepsia dos antebraços e das mãos. Para que isto ocorra de maneira efetiva, as unhas devem estar sempre bem aparadas, devendo ser removidos todos os anéis, assim como pulseiras, relógios e outros objetos que possam interferir na realização adequada deste importante ato pré- operatório. Costuma-se dividir para isto o antebraço e as mãos em 3 terços, onde o nível de infecção aumenta, quando se caminha para a extremidade (mãos e dedos) (Fig. III. 1). A partir desta divisão, existem duas técnicas de escovação: a primeira inicia-se pela área considerada como menos contaminada, caminhando-se progressivamente até atingir as unhas. Na outra ocorre exatamente o inverso. CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 168 Fig. III. 1 - O nível de infecção aumenta no sentido inferior (C para A). Inicialmente deve-se promover ensaboamento abundante das mãos e dos antebraços com sabão de coco e, em seguida com uma escova de cerdas macias, estéril ou mergulhada em solução bactericida, inicia-se a seqüência da escovação (Fig. III. 2). A técnica consiste nos seguintes passos: • Escovar as unhas da mão. • Escovar a palma da mão e dos dedos. • Escovar o dorso da mão e dos dedos. • Escovar o antebraço até o cotovelo. • Remover completamente o sabão, deixando escorrer a água pelo cotovelo. • Enxugar as mãos com toalha esterilizada. A escova utilizada deve ficar na pia sendo recolhida pelos funcionários da clínica e, na necessidade de repetição da manobra, será necessário utilizar outra escova desinfetada. Antes de enxugar as mãos, o profissional deverá passá-las numa solução de Dermoiodine ou Povidine degermante. Completada a seqüência da escovação das mãos e antebraços, deve-se mantê-los numa posiçãotal, que as mãos fiquem num nível mais alto que os cotovelos. Deve-se enxaguar as mãos em água corrente, de tal maneira que venha a escorrer para os cotovelos. CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 169 Fig. III. 2 – Escovação enérgica em água corrente da ponta dos dedos e das unhas e ao redor delas. O ato de calçar as luvas segue o seguinte ritual (Fig. III. 3): • As luvas são apresentadas com as faces palmares voltadas para cima e com os punhos dobrados para fora, a fim de serem apanhadas sem tocar-lhes a face externa. • Ajeita-se a abertura da luva esquerda e os quatro últimos dedos penetram no interior da luva. • Após a introdução dos 4 últimos dedos nas suas respectivas aberturas, penetra-se com o polegar. • Os dedos são aprofundados até ficarem nos seus respectivos lugares. • Com a mão esquerda já enluvada, se pega com a mão direita na dobra da luva direita. • Os dedos da mão esquerda são introduzidos na dobra do punho e a face palmar externa da luva direita é apresentada para a introdução da mão direita. Notar o contato de luva com luva. A mão não pode contaminar a parte externa das luvas. • Os 4 últimos dedos da mão direita nas respectivas aberturas. • A mão direita já enluvada, notando-se o contato de luva com luva. • Apoiam-se os dedos da mão esquerda na dobra da luva direita a fim de tracioná-la sobre os punhos do avental, em toda a volta. • Mão e punho direitos completamente enluvados. • Apoiam-se os quatro dedos da mão direita na dobra da luva esquerda. Traciona-se e aplica-se a luva sobre os punhos do avental, em toda a volta. • Ambas as mãos e punhos enluvados, não deixando qualquer parte do punho do avental para fora. CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 170 B A Fig. III. 3 – (A e B) Aspectos parciais de como se coloca uma luva cirúrgica. Do mesmo modo que se dá muita importância ao ato de calçar as luvas com técnica, torna-se necessário também, descalçá-las de maneira correta, pois a contaminação da luva poderá ser passada para o cirurgião ao final da cirurgia, através do contato com a luva contaminada (Fig. III. 4). O problema da assepsia e anti-sepsia do paciente é também muito importante, por ser a cavidade bucal meio altamente contaminado. Aconselha-se fazer assepsia extra-oral com solução de Povidine ou Dermoiodine degermante da seguinte maneira: • Com gaze passa-se inicialmente a solução por toda a região da cavidade bucal extra-oralmente e, em seguida, repete-se a manobra de modo centrífugo. • A anti-sepsia intra-oral é realizada passando-se gaze embebida numa solução de Dermoiodine ou Povidine tópico em toda a cavidade bucal. Desta maneira, o profissional estará em condições de iniciar a intervenção cirúrgica. Para o paciente aconselha-se ainda o emprego de campos autoclavados na região do tórax, por ser o local em que o profissional está mais em contato com o paciente. Dependendo do caso, sendo também essencial, o profissional deverá colocar um turbante no paciente ou ainda o campo perfurado (Fig. III. 5). CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 171 Fig. III. 4 – Seqüência de retirada de luva sem comprometer a pele do cirurgião. B A Fig. III. 5 – (A) Anti-sepsia do paciente extra e intrabucal (B) e o paciente devidamente preparado para as manobras cirúrgicas. CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 172 MONITORAÇÃO DA ESTERILIZAÇÃO O controle da eficácia dos métodos de esterilização e desinfecção deve ser monitorado seguidamente por meio de indicadores biológicos, químicos ou físicos. Um correto acondicionamento e armazenamento dos artigos, o controle dos equipamentos utilizados e, o uso correto dos agentes e meios da esterilização e desinfecção, também é de fundamental importância para se obter o sucesso nos tratamentos médicos e odontológicos. Três são os processos utilizados: • Método físico: realizado a partir da observação física da temperatura, pressão e outros parâmetros. • Método químico, quando há mudança de cor de indicadores corados com tinta termosensível. • Método biológico que é o mais eficiente indicando se os esporos foram eliminados. Para o processo de esterilização que se preconiza o calor seco e o óxido de etileno, usa-se o Bacillus subtilis e, para o vapor o Bacillus stearthermophilus. O procedimento para este processo é submeter a tira com o esporo teste ao método de esterilização, depois cultivá-lo em meio de cultura adequado, incubando-o por 7 dias a 55º C e, caso haja crescimento bacteriano houve falha na esterilização. As seguintes embalagens podem ser usadas: • Tecido de algodão cru duplo que são econômicos e duráveis. • Papel grau cirúrgico, o que melhor atende às exigências. • Papel Kraft branco, que é de baixo custo e descartável. • Caixas metálicas de alumínio ou de aço inoxidável. A estocagem do material ou instrumental deve seguir algumas normas como ficar guardado em armários fechados, em áreas limpas e livres de poeira, sendo desaconselhável ficar próximo à pias, fontes de água e tubos de drenagem. Caso fique em prateleiras abertas o prazo de validade da esterilização chega a 7 dias, podendo chegar a 1 mês quando cobertos com plástico ou bolsa selada. DESINFECÇÃO Alguns procedimentos são de extrema importância para diminuir o risco de infecção cruzada, entre os quais pode-se citar: • A utilização de aspiradores intra-orais de alta potência para a interceptação de aerosóis formados em procedimentos cirúrgicos ou não. • A solicitação para que os pacientes façam bochechos com soluções anti-sépticas antes de qualquer intervenção. • O uso de EPIs. • A remoção de todos os adornos como jóias, anéis, relógios, etc. é obrigatória. • Quando acontecer de derramar sangue no piso ou mesmo nas cuspideiras, deve ser imediatamente limpo com hipoclorito de sódio a 1% e, utilizar para a lavagem das mãos uma torneira CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 173 específica, de preferência com acionamento automático, evitando o contato com as mãos. As barreiras que protegem os profissionais e pessoal auxiliar são os chamados de EPIs, podendo-se citar os gorros, máscaras, óculos de proteção, luvas e aventais, existindo também as barreiras para a proteção de superfícies, como as folhas de alumínio e plástico, além dos campos cirúrgicos ou não. A anti-sepsia previne de bacteremia, diminui o número de microorganismos, diminui a contaminação pelo aerossol, sendo a microbiota oral do paciente também é reduzida. Realizada intra-oralmente pode-se usar clorexidina 0,12%, iodo a 2% e, extra-oralmente o mais indicado é a solução de PVPI. Entre os agentes físicos citados na literatura como anti-sépticos aquele de maior importância é o uso do ultra-som na linha cervical ou o jato de bicarbonato. Sabe-se que o uso de anti-sépticos e desinfetantes diminui o número de microorganismos locais e conseqüentemente o risco de infecção e infecção cruzada. Este procedimento tem como objetivo reduzir a intensidade da resposta inflamatória séptica adquirida da contaminação da ferida cirúrgica. A desinfecção pode ser classificada em dois tipos: • Por imersão, quando o material ou instrumental é deixado imerso por um período de tempo preconizado pelofabricante. • De superfície, realizado na desinfecção da parte externa do material. Um desinfetante ideal deve ter as seguintes qualidades: • Ação rápida. • Alto nível biocida. • Ação prolongada. • Estabilidade química. • Odor agradável. • Incolor. • Não produzir manchas. • Não ser corrosivo ao material. • Não irritar os tecidos vivos. • Não ser inativado na presença de matéria orgânica. A partir do conceito de desinfecção, deve-se submeter a este processo, materiais e instrumentos que não possam ser esterilizados e assim, citam-se os seguintes exemplos: • Moldeiras e modelos devem ser desinfetados em imersão com hipoclorito a 1% durante 30 minutos e, diques de borracha com iodo a 1%. • Tubetes de anestésico devem ser imersos em álcool 70% por 3 minutos, ou em clorexidina 0,5 % por 10 minutos. • Rx e cabos de refletores devem estar limpos e cobertos com película de pvc ou de plástico. • A luz solar tem importância na desinfecção do consultório odontológico, porque exerce efeito antibactericida. • Para as peças de mão é aconselhável dar preferência àquelas que possam ser esterilizadas, caso contrário, friccioná-las por 3 minutos com álcool 70%, sendo este processo ineficaz para vírus e esporos, mas é bactericida contra certos microorganismos CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 174 encontrados na saliva e no sangue. Para remover-se sangue, aconselha-se o uso de água oxigenada. • Para brocas e materiais plásticos proceder à limpeza mecânica, removendo sujidade e imergí-los em solução desinfetante como o glutaraldeído 2%. Pode-se concluir com a frase: NUNCA DESINFECTAR O QUE SE PODE ESTERILIZAR E O QUE PODE SER ESTERILIZADO, QUE SEJA ESTERILIZADO Para a mesa cirúrgica o profissional deverá também colocar campos autoclavados duplos, não sem antes ter praticado uma desinfecção do local com o álcool. ARSENAL CIRÚRGICO Observação e verificação de todo o instrumental e material cirúrgico é muito importante para o profissional. Por sua perfeita apresentação, uso e manuseio, além de sua distribuição na mesa auxiliar, chega-se a um bom termo numa cirurgia. Assim, conhece-se um bom profissional pela sua destreza no emprego de seu instrumental, na arrumação e disposição correta de sua mesa cirúrgica, bem como no aspecto em que se encontra esta mesma mesa cirúrgica no final da cirurgia. São descritos a seguir alguns instrumentos e materiais mais utilizados em cirurgia bucal, assim como sua maneira de empunhá-los e como são corretamente usados: 1. Porta-agulhas: São de certa forma, a mão do cirurgião, pois mediante este instrumento, são manuseadas as agulhas e os fios de sutura. Existem porta-agulhas de vários tamanhos e formas, adequados a determinados tipos de cirurgias e às especialidades cirúrgicas. O mais empregado em Odontologia é o de Mathieu, que possui nos ramos compridos a cremalheira para a fixação da agulha. Apresenta uma trava na extremidade do cabo longo, permitindo ao cirurgião executar manobras mais suaves e precisas. Sua ponta ativa pode ser com ponta de vídea que confere a este instrumento uma duração muito maior, além de um poder espetacular de aderência à agulha. Deve ser tomado da seguinte maneira: dentro dos ramos menores deve ser orientada a agulha no sentido que melhor convier ao cirurgião, devendo ficar sempre bem na extremidade do ramo e, este, bem próximo ao olho da agulha. Os ramos maiores, o cabo, são tomados com a palma da mão, sendo que a pressão exercida sobre eles determinará a fixação da agulha na cremalheira. A agulha deverá passar sempre do tecido móvel para o fixo, devendo ser assim orientada no porta-agulhas. O seu empunhamento é dígito-palmar. A porta-agulhas de Hegar é também muito utilizado, de acordo sempre com as preferências individuais. O seu empunhamento é dígito-digital, em que os dedos anular e polegar ficam nos anéis e o indicador na articulação (Fig. III. 6). CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 175 Fig. III. 6 – Empunhadura correta do porta-agulha de Hegar. 2. Agulhas: São destinadas a passar fios através dos tecidos. O cirurgião poderá referir-se às agulhas baseado em alguns de seus elementos constitutivos, à sua forma ou ainda ao modo de manejá-las. As agulhas são constituídas por ponta, corpo e olho, podendo ser: • Curvatura: curvas, semi-retas, retas e mistas. • Formato: prismáticas (cortantes) e cilíndricas (atraumáticas). • Uso: montadas com fio e para serem montadas. É importante que a ponta da agulha seja aguda e afilada, pois assim penetrará mais facilmente nos tecidos, cujos elementos são afastados com o mínimo de traumatismo. São conhecidos os seguintes tipos de agulhas: cônicas, lanceoladas, rombas e triangulares. A forma do corpo das agulhas é estabelecida pela sua secção transversal, podendo ser: redonda, triangular, plana transversal, plana lateral e completa. O olho poderá ser fechado ou aberto e, em cada um sua forma é variada: oval, circular e triangular. Aquelas agulhas que possuem o olho fechado apresentam alguma dificuldade para serem montadas, o que não ocorre com as de outro tipo. A abertura em algumas é posterior e em outras, lateral, sendo que nas primeiras, a pressão que se exerce com o fio separa o delgado aço da extremidade, que logo se fecha ao penetrar o fio. Nas agulhas de abertura lateral, o olho é aberto graças a um passador que excursiona movido por um botão ou alavanca. Sua dimensão é muito variada, podendo-se considerá-las dentro da seguinte escala: grandes: com mais de 46 mm; médias: 45 a 36 mm; menores: de 35 a 26 mm; pequenas: de 25 a 16 mm e, as ínfimas: de 15 a 2 mm. As formas que as agulhas podem apresentar são as seguintes: • Retas: com ponta cônica, olho fechado e corpo redondo (agulhas de costureira). • Lanceoladas: de secção completa (de Pauchet ou de Keith). • Atraumáticas: quando o fio já vem unido à agulha. CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 176 • Curvas: com ponta triangular, corpo plano-lateral e olho fechado (de Hagedorn). • Circulares: com ponta triangular, corpo aplanado, olho fechado ou aberto. Existem ainda as agulhas de Meynihan, de Doyan, de Martin, de Mayo, que não têm muita aplicação em cirurgia bucal. As agulhas retas e curvas devem ser tomadas com 3 dedos, de tal forma que seja possível seu firme manuseio e, tanto uma quanto a outra, após a passagem do fio, são usadas da seguinte maneira: toma-se com uma pinça de dissecção o lábio proximal da ferida, atravessando-o com a agulha, repetindo-se a manobra para o lábio distal, e assim sucessivamente, até terminar a sutura. Para as cirurgias da boca, onde devem ser realizadas suturas delicadas, são empregadas sempre agulhas pequenas ou ínfimas, manejadas com o auxílio de porta-agulhas (Fig. III. 9). 3. Fios de sutura: Uma das preocupações constantes do cirurgião é dispor de fios de sutura que sejam garantia para a união de planos e, para uma hemostasia perfeita. Assim, devem procurar fios que ofereçam maior resistência, menor calibre, máxima segurança de esterilização e, de baixo custo. Qualquer um deles atuará como corpo estranho, provocando reação defensiva do organismo, que se traduzirá num processo de inflamação asséptica, cuja resultante fibrosa virá constituir o verdadeiro e definitivo elemento de união e de oclusão vascular. Entretanto, este processo inflamatório não tem a mesma intensidade e duração frente aos fios. Com efeito, segundo experiências de diversos autores, o categute produz edema e inflamação nas primeiras 48 horas, o mesmoocorrendo com o linho e, com menor intensidade a seda e o algodão. Por outro lado, a reação que provocam estes 3 últimos fios tende a desaparecer rapidamente, enquanto a do categute, somente desaparecerá após o décimo dia. Os fios de sutura podem ser classificados em: • Absorvíveis e, • Não absorvíveis. Os fios absorvíveis são todos de origem animal como o categute, o tendão de canguru, etc. Devido sua constituição albuminóide são facilmente atacados pelos fagócitos e seus fermentos, fazendo digestão em prazo variável, porém breve. Por esta razão são empregados para suturas e ligaduras na intimidade dos tecidos. Os fios não absorvíveis podem ser orgânicos e metálicos. Os orgânicos, uma vez abandonados na intimidade dos tecidos, não são digeridos pelos fagócitos, contudo seus fermentos sofrem enquistamento, que não é prejudicial, desde que o fio tenha sido corretamente esterilizado. Caso contrário provocam reação tecidual inflamatória, muitas vezes tardia, a qual se abre no exterior, terminando somente quando desaparece o corpo estranho. O material inabsorvível à base de seda, linho ou algodão é superior ao categute, como foi comprovado experimentalmente, razão pela qual, têm grande aplicação em cirurgia. Para empregá-los três itens devem ser resolvidos antecipadamente: • a eleição do fio: aqueles que possuem menor calibre são mais vantajosos porque se necessita de técnica suave para manuseá-los; • a esterilização; que pode ser realizada pela autoclave; CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 177 • o acondicionamento: que deverá ser efetuado enrolando-o em bobinas de vidro; • a técnica: pontos próximos uns dos outros. A fim de serem cumpridos todos estes requisitos, é indispensável a utilização de instrumental delicado, tanto para a hemostasia quanto para as suturas. Assim, o pedículo é muito pequeno, as ligaduras exigem pouco fio e, sua aproximação se faz sem tensão e mais perfeitamente, sendo a cicatrização da ferida excelente. Os fios orgânicos empregados são: seda, algodão, nylon e ainda o Dexon que é uma sutura sintética de ótima aplicação, além do Polivicryl que é uma poliglectina 910. O fio de algodão mais utilizado em cirurgia bucal é o de natureza celulósica. É delgado, flexível, de fácil esterilização, muito barato e não irritante para as feridas, sendo, portanto, muito bem tolerado. Todas as pesquisas realizadas neste sentido revelaram tratar-se o algodão de um excelente material, notando-se ainda que as suturas realizadas com fios de nylon eram aquelas que apresentavam menor reação, assim como aqueles monofilamentados, cuja reação era menor do que aqueles multifilamentados. Ao aplicar-se o fio de algodão é indispensável tomá-lo pelas suas extremidades, de tal modo que a zona central, aquela que fará a sutura, não seja contaminada. Nós feitos com este fio são mais firmes, pois não correm nem se desmancham. Dentre os fios metálicos, investigações realizadas demonstraram que o tantalium é o melhor, sendo bem aceito pelos tecidos vivos, tanto normais quanto enfermos. A reação que provoca é mínima comparada com a de outros metais, sendo resistente e podendo ser seccionado e torcido, apesar de sua dureza. O Dexon (polyglycolic acid suture synthetic, absorbable sterile) está sendo largamente utilizado em cirurgias gerais e, também da cavidade bucal, sendo que nos casos por nós realizados, foi observada sua ótima aplicação, principalmente nas intervenções em que há necessidade da sutura permanecer por um tempo maior. Para melhor compreensão pode-se agrupá-los de acordo com sua origem, na indicação material e desvantagem. • De origem orgânica: • a. de origem animal: • Categute - simples e cromado; monofilamentar. • Indicação: suturas profundas, laqueadura de vasos, sínteses em locais sem infecção. • Material: absorvível, 8-10 dias de pós-operatório. • Desvantagem: pode desencadear reações alérgicas, de difícil esterilização, e podendo manter latente o bacilo tetânico. • Seda - multifilamentar, retorcido e trançado. • Indicação: já foi considerado o fio ideal e/ou mais empregado em suturas intrabucais. • Material: não reabsorvível. • Desvantagem: sua característica, aos 4 dias de pós- operatório é que ele induz uma resposta inflamatória. CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 178 • b. de origem vegetal: • Algodão: fio multifilamentar, retorcido e pouco estirado: 1.0, 2.0, 3.0, 4.0 e 5.0. • Indicação: suturas superficiais intrabucais, em exodontias, regularização de rebordos, onde não sejam necessárias as permanências de suturas além de 5 a 7 dias e detalhes estéticos. • Material: não absorvível. • Desvantagem: na cavidade bucal interfere no processo cicatricial, provocando áreas inflamadas e deposição de matéria alba (placa). • De origem sintética: • Poliéster - fio multifilamentar, traçado e estirado; Prolene, Mersilene 2.0, 3.0 e 4.0. • Indicações: suturas superficiais e em cirurgias parendodônticas. • Material: não absorvível. • Desvantagem: provoca reação inflamatória por tempo limitado. • Vantagem: apesar de apresentar reação inflamatória, há melhor aceitação pelo organismo e menor reação inflamatória inicial em suturas superficiais. • Nylon - fio monofilamentar; Mononylon, 2.0, 3.0, 4.0, 5.0, 6.0, 7.0 e 8.0; Polipropileno. • Indicações: suturas de pele. • Material: não absorvível. • Desvantagem: provoca reação inflamatória de pequena extensão e por tempo limitado. • Vantagem: apesar de ser um fio ideal do ponto de vista biológico, deve-se concordar que tem a desvantagem de traumatizar a mucosa bucal. • PGA (ácido poliglicólico): fio multifilamentar e trançado. • Indicações: suturas profundas, internas. • Material: absorvível por hidrólise em 30 a 60 dias. • Desvantagem: acúmulo de indutos em suturas superficiais além do alto custo. • Poliglactina 910: multifilamentar trançado bem estirado, boa resistência à tração e fácil manuseio. • Indicações: qualquer tipo ou plano de suturas em estruturas intrabucais, inclusive nas condições mais delicadas de sutura e que possam requerer maior tempo de permanência. • Material: absorvível num período de 60 a 80 dias. • Vantagem: ótima compatibilidade tecidual, não oferecendo aderência de indutos (Fig. III. 7). CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 179 Fig. III. 7 – Porta-agulhas montando a agulha com o fio correto. 4. Seringa tipo Carpule: Empregada em cirurgia bucal para as anestesia intra-orais e algumas extra-orais. Atualmente desde que foram abandonados os intermediários e as agulhas tradicionais, que possibilitavam a esterilização, são oferecidos dois tipos de agulhas: curtas e longas, sendo descartáveis. Os tubos de anestésicos são adaptados à seringa, que tem duas amplas aberturas laterais, através das quais o profissional observa a saída do anestésico ou a penetração do sangue mesclando a solução anestésica (Fig. III. 11). Fig. III. 8 – A empunhadura correta da seringa Carpule, observando-se o tubete de anestésico inserido no local devido. 5. Seringa tipo Luer-Look: É empregada em cirurgia bucal para aplicação de algumas anestesias extra-orais ou ainda para irrigação de lojas cirúrgicas. 6. Espelho bucal e pinças: Empregado em cirurgia bucal como auxiliar no exame clínico e, além de permitir o afastamento das bochechas, lábio e língua, para melhor visão do campo CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 180 operatório, oferecendoo recurso de uma visão indireta de estruturas inacessíveis à visão. O espelho bucal poderá servir ainda, para proteger a língua em casos de exodontia por seccionamento dental. As pinças clínicas são usadas para embrocação intra e extra-oral, além de serem utilizadas também, como auxiliares para eliminação de fios de sutura. As pinças dente-de-rato são utilizadas como auxiliares para a tomada de retalhos e, são assim chamadas por possuírem na ponta ativa forma semelhante aos dentes de um rato. Tanto os espelhos bucais quanto as pinças, são tomados como se toma uma faca ou uma caneta. 7. Bisturi: Para as cirurgias bucais, o bisturi mais indicado é aquele para lâminas intercambiáveis (Fig. III. 9). Serve para incisão ou secção dos tecidos moles. As lâminas mais utilizadas para este bisturi são: • número 11, para drenagem de abcessos, alguns tipos de incisões ou ainda para incisões de papilas interdentais no preparo da sindesmotomia; • número 12, para incisões distalmente aos segundo e terceiro molares; • número 15, para as incisões na mucosa bucal. As lâminas devem ser sempre montadas ao cabo do bisturi (geralmente número 3) com o auxílio do porta-agulhas, para serem evitados acidentes desagradáveis, assim como para retirá-las (Fig. III. 9). O bisturi pode ser empunhado como caneta (Fig. III. 10) na grande maioria das oportunidades e ainda, como arco de violino ou como se segura uma faca. A B Fig. III. 9 – (A) Os bisturis utilizados com as lâminas intercambiáveis (B) e a maneira correta para a montagem da lâmina ao cabo do bisturi para serem evitados acidentes desagradáveis. CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 181 Fig. III. 10 – Maneira correta de empunhar-se um bisturi para cirurgias da cavidade bucal, em forma de caneta. 8. Sindesmótomo: Instrumento cirúrgico destinado à sindesmotomia (sindesmo=ligamento e, tomia=corte). Este instrumento tem como objetivo romper, cortar ou dilacerar pela insinuação da sua lâmina entre o dente e o alvéolo, as fibras gengivais e cristodentais. Assim, a desinserção da gengiva será facilitada, possibilitando a introdução das pontas ativas dos fórceps ou dos extratores. O sindesmótomo deve ser empunhado como caneta, com apoio digital nos dentes vizinhos. Pode também ser utilizada para este fim a espátula número 7. 9. Destaca-periósteo: Instrumento cirúrgico destinado para o descolamento do retalho mucoperiostal. Este instrumento deve ser empunhado como caneta, com ponto de apoio nos dentes vizinhos, ou ainda como faca. 10. Tesouras: São utilizadas para o corte ou secção dos tecidos moles, sendo que em exodontia, as mais empregadas são aquelas com lâminas finas, retas ou curvas, pontiagudas ou rombas. As tesouras com pontas rombas e curvas são usadas para o corte de fios de sutura. Devem ser empunhadas introduzindo-se os dedos anular e polegar nas alças, apoiando-se o indicador na união das lâminas, enquanto que o médio apoia-se numa das alças (Fig. III. 11). Isto facilita a manobra de jogar a tesoura para a palma da mão, para trabalhar em seguida com os outros dedos. No caso de cirurgias bucais são utilizadas: • Tesoura de Metzenbaum: instrumento delicado geralmente utilizado para diérese em tecidos frouxos. • Tesoura de Mayo: empregada para cortar fios de sutura existindo dois tipos: a reta para fios superficiais e a curva para fios no interior de cavidades. CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 182 Fig. III. 11 – Tesoura cirúrgica curva, notando-se a maneira correta de empunhá-la. 11. Cinzéis: São instrumentos cortantes destinados à osteotomia (osteo=osso e tomia=corte), ou ostectomia (osteo=osso; ec=com retirada e tomia=corte). Os cinzéis empregados em exodontia são retos, goivos e, em bisel duplo. Podem e preferentemente devem ser utilizados sob pressão manual, evitando sérios desconfortos para o paciente, ou com o auxílio do martelo cirúrgico, ainda em prática por muitos profissionais. Nas osteotomias realizadas com cinzéis sob pressão manual, eles devem ser empunhados como faca, e quando usados com o auxílio do martelo cirúrgico, devem ser tomados como caneta. Atualmente foi adaptado, por nossa sugestão, o cabo dos extratores ao cabo dos cinzéis, para maior facilidade de tomada para as ostectomias (Chinellato e SS White). Estes mesmos cinzéis foram também confeccionados em alumínio, diminuindo consideravelmente seu peso (Duflex) (Fig. III. 12). Fig. III. 12 – Diferentes tipos de cinzéis quer no seu cabo ou em sua ponta ativa, notando-se a modificação por nós sugerida aos cabos dos cinzéis e a maneira correta de empunhá-los. CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 183 12. Osteótomos de Winter: São instrumentos destinados à eliminação de osso e mais particularmente dos septos inter-radiculares. As pontas ativas destes instrumentos são anguladas com relação à haste e, esta última é perpendicular ao cabo, devendo ser empunhados como uma faca. Não são tão necessários numa mesa cirúrgica, podendo ser perfeitamente substituídos pelas pinças-goivas, ou ainda pelos extratores angulados. 13. Pinça-goiva, alveolótomo ou Rongeur: É usado para a remoção de espículas ósseas alveolares, septos inter- radiculares supra-alveolares ou interdentais e, ainda determinadas exostoses. Deve ser empunhada colocando-a totalmente na palma da mão, com a parte convexa sempre voltada para a cirurgia (Fig. III. 13). Existem dois tipos, a reta e a curva. Fig. III. 13 – Maneira correta de empunha uma pinça-goiva, sempre com a parte convexa voltada para a cirurgia. 14. Limas para osso: São instrumentos cortantes empregados para limar e alisar determinadas superfícies ósseas, na grande maioria das cirurgias bucais. São empunhadas como caneta. Assim, após intervenções nas quais são praticadas osteotomia, ficando o tecido ósseo irregular, utiliza-se lima para a eliminação das espículas ósseas. Conseqüentemente, promovem a regularização dos rebordos alveolares. 15. Trefina, brocas cirúrgicas e discos: Para a trepanação da tábua óssea labial ou vestibular, com a finalidade de alcançar um resíduo de raiz ou um ápice radicular dilacerado numa apicoplastia, ou ainda para a colocação de um implante, utiliza-se a trefina, que consiste num cilindro oco, denteado em sua porção ativa e, acionado pela peça de mão comum. As brocas cirúrgicas podem também ser usadas com a mesma finalidade, além de servirem para o alisamento do tecido ósseo em alveoloplastias extensas. Para o seccionamento dental são utilizadas as brocas dentais números 703, 704 e 706 da S.S. White. As brocas dentais são montadas em peças de mão, contra-ângulo ou mesmo ângulo. São ainda utilizadas as brocas número 8 da S.S. CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 184 White para eliminação de septos inter-radiculares, a fim de se promover a regularização dos rebordos alveolares (Fig. III. 14). Fig. III. 14 – Brocas comuns e brocas cirúrgicas usadas em cirurgia bucal. 16. Fórceps: São pinças denominadas impropriamente de boticões, destinadas à extração dental devendo ser empunhados corretamente para um perfeito desenvolvimento da técnica exodôntica. Adaptam--se totalmente na palma da mão, estando o polegar sempre entre seus braços para dosar a força neles exercida(Fig. III. 15). Fig. III. 15 – A maneira corretas para realizar a empunhadura de um fórceps. Podem ser divididos, para finalidade didática nas seguintes partes: • Partes constituintes: • Ponta ativa e braço. CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 185 • Relação entre a ponta ativa e o braço: • Ponta ativa num ângulo obtuso com relação ao braço: fórceps números 151 e, 18R e 18L. • Ponta ativa no mesmo plano que o braço: fórceps número 1. • Ponta ativa num ângulo reto em relação ao braço: fórceps número 17. • Ponta ativa em baioneta: fórceps números 32 e 53R e L. • Uso de fórceps segundo a relação entre a ponta ativa e o braço: • Ponta ativa num ângulo obtuso em relação ao braço: • Para os dentes inferiores de incisivos a pré- molares. • Para os dentes superiores primeiros e segundos molares direitos e esquerdos. • Ponta ativa no mesmo plano que o braço: • Para os dentes superiores anteriores, inclusive pré- molares. • Ponta ativa num ângulo reto em relação ao braço: • Para os molares inferiores. • Ponta ativa em baioneta: • Para os dentes superiores anteriores, inclusive pré- molares e, também para os molares superiores. • Tipos de fórceps: • São aconselhados os seguintes tipos de fórceps, de acordo com sua numeração de fábrica: • Incisivos centrais: • Superiores: 1 e 32. • Inferiores: 151. • Incisivos laterais: • Superiores: 1 e 32. • Inferiores: 151. • Caninos: • Superiores: 1 e 32. • Inferiores: 151. • Primeiros e Segundos Pré-molares: • Superiores: 1 e 32. • Inferiores: 151. • Primeiros, Segundos e Terceiros Molares: • Superiores: 18R, 18L, 53R e 53L. • Inferiores: 17. • Raízes: • Superiores: 32. • Inferiores: 151. Pode-se, portanto, constatar que somente com seis fórceps consegue- se extrair todos os dentes superiores ou inferiores, variando somente aqueles fórceps para profissionais destros (números 53R e 53L) (MARZOLA, 2000). CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 186 17. Extratores: Extrator é o nome sugerido às alavancas ou aos elevadores, cuja função é também a de extrair dentes. Adapta-se totalmente na palma da mão do profissional, devendo o dedo indicador situar-se nas proximidades da ponta ativa (Fig. III. 16). Fig. III. 16 – Os extratores dentais e a maneira correta para empunhá-los. Estão divididos da seguinte maneira: • Partes constituintes: • Ponta ativa, haste e cabo (Fig. III. 23). • Relação entre a ponta ativa e a haste: • Ponta ativa num mesmo plano que a haste e, • Ponta ativa perpendicular à haste. • Relação entre o cabo e a haste: • Cabo num mesmo plano que a haste e, • Cabo perpendicular à haste. • Tipos de extratores: • Extratores dentais: angulados e retos e, • Extratores apicais (MARZOLA, 2000). 18. Pinças hemostáticas: As pinças hemostáticas retas e curvas tipo Halstead com 12 cm de comprimento, são usadas para hemostasia, provocando o esmagamento de tecidos moles em casos de hemorragia em lençol (capilar), ou para o laqueamento de vasos. São igualmente utilizadas para o pinçamento dos frênulos labial e lingual em casos de frenulectomia. São empunhadas com os dedos polegar e anular em suas alças e, o indicador na porção intermediária (Fig. III. 17). CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 187 Fig. III. 17 – Pinças hemostáticas tipo Halstead e a maneira correta como devem ser empunhadas. 19. Afastadores: Além dos espelhos bucais, que podem ser utilizados como afastadores, existem os afastadores de Farabeuf. Possuem as extremidades em ângulo reto, possibilitando sua introdução entre os tecidos moles, facilitando assim, a visualização do campo operatório por parte do cirurgião. Devem ser apreendidos pelo auxiliar sem apoiá-lo na cabeça do paciente e segurando-o pela outra extremidade. Pode, também, serem usados com uma adaptação em forma de alça com grandes vantagens, principalmente no deslocamento de retalhos, sem traumatizá-lo em demasia (Fig. III. 18), como acontece com muitos outros afastadores que estão sendo adaptados para sua utilização em cirurgia oral. Fig. III. 18 – O afastador de Farabeuf modificado corretamente empunhado. CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 188 20. Curetas: São instrumentos que possuem a ponta ativa em forma de colher. Existem em vários tamanhos, sendo, entretanto os mais utilizados em cirurgia oral aquelas de números 1, 2, 3, 4 e 5. São empregadas para curetar e, não raspar, na grande maioria das cirurgias bucais, para a eliminação de granulomas, cistos, esquírolas ósseas, seqüestros ósseos, etc. Devem ser empunhadas como uma caneta (Fig. III. 19). Fig. III. 19 – Maneira correta como se deve empunhar uma cureta ou uma lima para osso. 21. Gaze: Material imprescindível em qualquer mesa cirúrgica. Para a cirurgia bucal a gaze pode ser cortada em retângulos dobrados de 4x3 cm e autoclavada. É utilizada na cirurgia bucal para hemostasia do campo operatório, para assepsia e anti- sepsia. Pode ser ainda utilizada embebida em soro fisiológico para limpeza do instrumental utilizado durante a cirurgia por parte do instrumentador, podendo-se notar qual deve ser sua colocação na mesa auxiliar. 22. Campos: Também denominados de “guardanapos”, são destinados a cobrir a mesa auxiliar, bem como o instrumental. São colocados no paciente, sobre seu tórax, impedindo que o fio de sutura entre em contato com suas vestes, podendo também ter uma perfuração correspondente à boca do paciente, cobrindo assim também sua cabeça. Devem ser corretamente autoclavados, pois entrarão em contato com o instrumental e material já devidamente esterilizados, havendo possibilidade de contaminação evidente. Não se admite usar estes campos sem sua correta esterilização. CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 189 DISPOSIÇÃO DO MATERIAL E INSTRUMENTAL NA MESA AUXILIAR O material e o instrumental devem estar dispostos na mesa auxiliar obedecendo a uma metodologia correta de acordo com a seqüência da cirurgia e, de acordo com o seguinte esquema, além de preparar a mesa de maneira adequada, tanto para o operador quanto para o auxiliar (Fig. III. 20) (MARZOLA, 2000): 1. Anestesia e diérese (canto superior esquerdo): • Seringa Carpule. • Seringa Luer-Look. • Bisturi e lâminas. • Tesouras. • Agulhas descartáveis para seringas. • Tubetes de anestésico. 2. Hemostasia (centro, acima): • Compressas de gaze. • Cubeta inoxidável para soro fisiológico. • Pinças hemostáticas ou instrumentos ou materiais afins. 3. Síntese (canto superior direito): • Pinças porta-agulhas. • Agulhas para sutura. • Fios de sutura. • Tesouras. • Pinças anatômicas. 4. Instrumental auxiliar (canto inferior esquerdo): • Pinça clínica. • Espelho bucal. • Explorador. • Destaca-periósteo. • Brocas para alta e baixa rotação. 5. Instrumental especial (inferior-meio): • Aqui é colocado todo o instrumental que é o objeto da cirurgia: • Cinzéis. • Martelo. • Extratores. • Fórceps. 6. Instrumental complementar (canto inferior direito): • Alveolótomos. • Limas para osso. • Curetas. • Afastadores. • Pontas para aspiração. Este material, à medida que o cirurgião vai utilizando, o auxiliar ou o instrumentadordeverá limpá-lo e colocá-lo novamente em seu respectivo local. Assim, o instrumentador ou mesmo o cirurgião, saberá sua correta localização, CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 190 quando houver necessidade de utilizá-lo novamente, procurando sempre a colocação exata e não deixando a mesa comprometida. Após a cirurgia o instrumental deverá ser colocado numa cuba com uma solução desincrostante para limpá-lo corretamente (MARZOLA, 2000). Fig. III. 20 – Cirurgião montando corretamente a mesa cirúrgica. Deve-se sempre lembrar que: “Se reconhece um bom cirurgião pela mesa cirúrgica – ao terminar uma cirurgia, ela deverá estar da mesma maneira como ao ser iniciada”. Quadro III. II - Disposição dos instrumentais na mesa cirúrgica. (1) (2) (3) ANESTESIA E HEMOSTASIA SÍNTESE DIÉRESE (4) (5) (6) INSTRUMENTAL INSTRUMENTAL INSTRUMENTAL AUXILIAR ESPECIAL COMPLEMENTAR CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 191 POSIÇÃO DO PACIENTE E DO OPERADOR O paciente deverá estar sempre confortavelmente instalado na cadeira cirúrgica, variando sua posição conforme se trate de intervenções para a maxila ou para a mandíbula (MARZOLA, 2000). Deve-se sempre destacar que para a exodontia com fórceps sempre se torna necessário que o profissional fique sempre em pé, para que a distribuição de forças que ele fará durante a mecânica da exodontia, distribua-se por todo o seu corpo e termine nos pés. Se ele estiver sentado a distribuição das forças não se fará corretamente, daí a indicação sempre correta de que para a exodontia com fórceps o profissional deverá sempre trabalhar em pé. 1. Posição do paciente para as intervenções na maxila: O espaldar da cadeira deverá estar num ângulo de 45° com relação ao solo. A cabeça deverá estar ligeiramente para trás, de tal modo que o arco dental superior forme um ângulo de 90° com o longo eixo do tronco (Fig. III. 21). B A Fig. III. 21 – (A) Esquema da posição do paciente e cirurgião para as intervenções na maxila. (B) Demonstração clínica da posição correta. 2. Posição do paciente para as intervenções na mandíbula: O espaldar da cadeira deverá formar um ângulo de aproximadamente 60° com o piso, de tal forma que o plano oclusal dos dentes inferiores esteja sempre paralelo ao solo quando o paciente estiver com a boca aberta (Fig. III. 22). CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 192 B A Fig. III. 22 – (A) Esquema da posição do paciente e cirurgião para as intervenções na mandíbula. (B) Demonstração clínica da posição correta. Para ambas as posições, a parte superior do espaldar da cadeira deverá ficar na altura da omoplata do paciente, enquanto os coxins deverão estar situados sempre na altura das protuberâncias occipitais. 3. Posição do operador: Para extração de qualquer dente da maxila ou outra região, o operador deverá situar-se à direita e ligeiramente à frente do paciente ou ainda atrás (Fig. III. 23). Fig. III. 23 – Posição correta do cirurgião e seu auxiliar para cirurgias na maxila. CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 193 Para a extração de qualquer dente da mandíbula, ou para outra intervenção, o operador deverá situar-se, sempre que possível, à direita e um pouco à frente do paciente, de tal forma que seu cotovelo fique numa linha imaginária traçada a partir da altura da boca do paciente. Devem ser evitadas posições inadequadas que muito prejudicarão a postura do profissional após alguns anos de profissão (Fig. III. 24). Fig. III. 24 – Posição incorreta do profissional ou de seu auxiliar para as intervenções na cavidade bucal. Existe, ainda, a posição supina, em que o profissional deve trabalhar sentado. Esta posição, porém, não se presta para exodontias a fórceps. Uma das complicações de urgência de maior ocorrência em exodontias ou cirurgias, de modo geral, é a lipotimia, falta de oxigenação súbita no cérebro, causada principalmente por ansiedade e tensão emocional, que são bastante freqüentes em pacientes cirúrgicos. Muitas vezes pode também ser ocasionada pela nutrição deficiente do paciente. O profissional deve estar sempre preparado para tal ocorrência que, basicamente se resolve colocando o paciente numa posição tal que favoreça o aporte sangüíneo para o cérebro. Esta posição que foi idealizada há muitos anos, por um alemão chamado Trendelemburg, consiste em colocar-se o paciente com o tronco e a cabeça em 30° negativos em relação aos membros inferiores. Evidentemente, todas estas posições poderão variar de acordo com o tipo de intervenção, segundo as aptidões do profissional e, ainda de acordo com seu tipo físico. O profissional deverá sempre, antes de se preparar convenientemente para uma cirurgia, adaptar a cadeira e a posição do paciente à sua. Deste detalhe dependerá em muito a rapidez da cirurgia e, conseqüentemente seu sucesso. Outro fato muito importante também, é que o profissional que trabalha numa posição correta sempre manterá seu estado físico de maneira plenamente satisfatória, o que CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 194 não acontecerá caso venha adaptar-se a determinadas posições ou colocações totalmente incorretas. Um detalhe muito importante neste item é que para todas as intervenções cirúrgicas com fórceps, sempre o profissional deverá trabalhar em pé, para que as forças exercidas possam distribuir-se por completo pelo corpo do profissional, sendo eliminadas para o solo. Se o profissional encontrar-se sentado, estas forças não serão eliminadas, não ocorrendo um perfeito rendimento mecânico. PRÉ E PÓS-OPERATÓRIO EM CIRURGIA Pré-operatório é o conjunto de medidas adotadas para a realização de um tratamento cirúrgico, desde a recepção do paciente até o planejamento da intervenção. Para a indicação metódica dos caminhos que deve o profissional seguir, desde a recepção do paciente até a conclusão total de seu tratamento é necessário estabelecer-se um roteiro cirúrgico. Assim, para toda e qualquer intervenção cirúrgica, devem ser obedecidas as seguintes etapas neste roteiro cirúrgico. O encontro inicial do cirurgião com seu paciente é o momento mais importante desta associação. Nunca se deve esquecer que cada um está avaliando o outro: o paciente avaliando seu cirurgião, bem como sendo avaliado pelo cirurgião. O procedimento do cirurgião é tão importante para o paciente quanto as palavras que escolher para explicar a conduta que adotará. A avaliação pré-operatória começa portanto, no primeiro momento do encontro e, continua durante todo o período do pré-operatório. Sua finalidade é permitir ao cirurgião tirar proveito de todas as informações que julgar necessárias ao preparo do paciente para a cirurgia ou freqüentemente tão importante, para adiar a cirurgia ou julgá-la desnecessária. Até a bem pouco tempo cirurgiões-dentistas não dispensavam ao pré- operatório a devida importância, por uma simples questão de conceituação de amplitude das intervenções cirúrgicas que se realizam em consultórios dentários. Tais cirurgias eram encaradas como pequenas ou menores e, que não necessitavam de cuidados maiores que a simples esterilização do material e instrumental necessários. Não se lembravameles de que uma pequena intervenção cirúrgica é também uma agressão, podendo acarretar, devido a fatores circunstanciais muitas vezes imprevisíveis, problemas no trans e pós-operatório, de ordem local ou geral, capazes de levar a intervenção a resultados não desejados. A uma pequena agressão aos tecidos respondem complexos sistemas, uns aumentando a taxa de adrenalina na corrente circulatória, com significativo aumento na pressão arterial e, outros enviando à ferida operatória elementos de defesa, etc. Uma exodontia não deve ser encarada como simples rompimento ou esmagamento dos ligamentos alvéolo-dentais, ou a extração do dente de seu alvéolo. Este conceito é tão restrito quanto aquele que vê o dente a ser extraído como se estivesse no espaço, desvinculado de um todo orgânico. A Odontologia já está se libertando deste conceito unitarista, simplista e até mesmo arcaico, lançando-se em direção àquele de sentido mais amplo, mais científico, de interdependência orgânica, conceito de o paciente ser encarado como um “todo”. CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 195 No estudo do paciente como um todo já existe uma correlação entre o dente a ser extraído e os tecidos periodontais, aquele com a cavidade bucal e esta com o soma do paciente. O conceito vai ainda mais longe, relacionando o soma ao componente psíquico e, assim, no pré-operatório de um paciente que deverá ser submetido a uma cirurgia bucal menor, deverá ocorrer análise ampla, se bem que muitas vezes rápida, de seu complexo psíquico-somático. Tão importantes e íntimas são as relações entre o componente psíquico e o soma, que a medicina, que há bem pouco tempo tratava de seus pacientes como um “indivíduo psíquico-somático”, agora os vê como um “indivisível psíquico-somático”. Assim, a Odontologia psíquico-somática os está estudando sob este aspecto, relacionando-o entre o bem-estar mental, saúde e integridade dos tecidos bucais. O conhecimento dos princípios psíquico-somáticos influenciará sobremaneira o comportamento dos pacientes e o andamento das intervenções cirúrgicas. Assim, o pré-operatório poderia ser situado não a partir do estabelecimento da necessidade da intervenção, mas como já se citou anteriormente, desde o momento em que o paciente se encaminha ao consultório dentário, na suposição ou certeza de ser submetido a uma intervenção cirúrgica. A análise do roteiro cirúrgico se faz da seguinte maneira, podendo seguir o esquema proposto (Quadro III. 3): Quadro III. 3 – Seqüência a ser seguida num roteiro cirúrgico Recepção do paciente ↓ Identificação ↓ Queixa ↓ Anamnese ↓ Exames clínicos → Exames complementares ↓ Necessidade → Oportunidade ↓ Tratamento pré-operatório ↓ Planejamento → Tratamento cirúrgico ↓ Tratamento pós-operatório 1. Recepção do paciente: O primeiro contato do profissional com o paciente é de significativa importância pela análise recíproca, cujo complemento entre ambos será psicologicamente favorável ou não no desenvolvimento de futuros tratamentos cirúrgicos. O primeiro contato objetivo entre o profissional e o paciente é realizado ao ser preenchida a ficha clínica, onde deverão ser anotados: dados CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 196 pessoais do paciente, respostas à anamnese a ser encarada como um questionário e, não um inquérito além, dos resultados dos exames clínicos e complementares. 2. Identificação: O fichamento dos dados pessoais do paciente será realizado pelas seguintes perguntas: nome, idade, gênero, cor, nacionalidade, profissão, estado civil, endereço residencial e o endereço profissional, com a finalidade de se conhecer o cliente em sua intimidade. 3. Anamnese: Após o fichamento, o paciente deverá ser instado a fornecer elementos relativos à razão principal de sua visita, bem como a relatar suas enfermidades. A qualidade de um cirurgião reflete-se na obtenção da história inicial e no exame físico. A queixa principal deve constar de uma breve declaração com as próprias palavras do paciente. A história da doença atual deverá ser cuidadosamente apurada e, o início de quaisquer alterações dos sintomas deverão ser sempre anotados com referência às datas e aos seus intervalos. A história familiar poderá ajudar na descoberta de distúrbios metabólicos subjacentes e, será completada pelos parentes mais chegados. A tabulação da história patológica pregressa do paciente incluirá doenças próprias da infância, condições inflamatórias, tendências hemorrágicas, distúrbios mentais, traumas, operações, uso de drogas e antecedentes alérgicos. Breve histórico social também será anexado, pois amiúde mostra alguma indicação da estabilidade emocional do paciente. Contudo, o relato das enfermidades por parte do paciente, muitas vezes é insuficiente ou impreciso, sendo necessária a realização de um interrogatório de forma objetiva em auxílio às suas enfermidades e informações, entretanto, este interrogatório deverá ser levado a efeito de maneira descontraída e amigável. No entanto, não são poucos aqueles que, percorrendo as numerosas perguntas em roteiros de anamnese, perguntam a si próprios se deveriam fazer tantas perguntas ou, ainda, se seriam dispensáveis algumas delas, ou como poderiam chegar às conclusões sobre o diagnóstico provisório baseado em tais inquirições. Estas perguntas não encontram freqüentemente alguma resposta e, a ausência na literatura em nosso meio, de relatos sobre complicações ou acidentes no trans ou pós- operatório levam à falsa sensação de segurança. Esta é a razão maior pela qual é limitado o número de profissionais que lançam mãos da anamnese no pré-operatório, corretamente. Ideal seria que o próprio profissional realizasse seu interrogatório, que lhe traria ótimo benefício, pois assim, faria algumas perguntas que representassem melhor suas necessidades de informação. Para a organização deste interrogatório, o profissional deveria rever algumas situações que a técnica semiológica evidencia relativamente ao estado geral do paciente. Assim, como exemplo pode-se citar: • num primeiro caso o paciente desconhece ou ignora seu estado geral e, o profissional não suspeita de enfermidade alguma; • num segundo caso o paciente informa, em sua queixa, ser portador de determinada enfermidade e, • num terceiro caso, o profissional suspeita da presença de determinada enfermidade. CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 197 Para todos os casos são estabelecidas enfermidades que possam acarretar acidentes ou complicações no trans e pós-operatório cirúrgico. No primeiro caso será necessário que o profissional, para evidenciar alguma enfermidade não suspeitada, tenha já estabelecido qual ou quais enfermidades, cuja possibilidade do paciente ser portador, sejam afastadas. É assim, estabelecida uma lista de enfermidades que ele julgue importantes para serem evidenciadas ou não. Como exemplo: - Desejo saber se meu paciente é anêmico, emotivo, alérgico, etc. Neste caso, anotará ao lado de cada enfermidade a pesquisar os sinais e sintomas, assim: • anemia: tonturas, cefaléias, taquicardia, palidez, etc. • emotividade: preocupação inusitada ao ser submetido a exame médico ou odontológico, sensação de mal-estar ao sofrer aplicação da agulha para anestesia, instabilidade emocional, etc. Com esta lista de enfermidades a serem pesquisadas, irá ao paciente e perguntará se ele sofre de tonturas, cefaléias, taquicardia, avaliando o grau de palidez de seu rosto, sendo possível concluir, pelas respostas, se o paciente é anêmico ou não. No segundo caso, se o paciente disser: -“Sou anêmico”, ou ainda, “meu médico disse que estou anêmico”, o profissional deverá ir em busca de informações do paciente observando os sinais e sintomas característicos desta enfermidade: tonturas, cefaléias, etc. ao praticar exercícios ou esforço moderado. Com isto, poderá confirmar ou não o diagnóstico feito anteriormente ou suspeitado. No terceiro caso, serão realizadas perguntas relativas aos sinais e sintomas característicos da enfermidade suspeitada. Muitas vezes, o aluno ou o profissional pouco experiente tem alguma dificuldade em estabelecer certos diagnósticos provisórios, tendo em vista que determinados sinais e sintomas são comuns a várias enfermidades. Daí ser aconselhável e correto mesmo procurar-se estabelecer diagnóstico diferencial entre as diversas enfermidades encontradas na cavidade oral ou no organismo. Desta maneira, serão unificadas as principais enfermidades e seus sinais e sintomas, além de sua verificação pelos exames complementares. PRINCIPAIS ENFERMIDADES E SEUS SINAIS E SINTOMAS 1. Agranulocitose ou neutropenia maligna: • Sinais: lesões ulcerosas na mucosa nasal e na faringe; hipertermia e esplenomegalia. • Sintomas: mal-estar; febre; debilidade e cefaléias (semelhantes aos da gripe e do resfriado). 2. Anemias: • Sinais: palidez; glossite; atrofia das papilas linguais. • Sintomas: anorexia; diarréia intermitente; náuseas e vômitos; debilidade; vertigens; desmaios e palpitações. 3. Alergia (medicamentos): • Rinite alérgica: CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 198 • Sinais: lacrimejar; espirros e coriza. • Sintomas: congestões e edema das mucosas; prurido das partes afetadas. • Asma: • Sinais: respiração do tipo sibilante; dispnéia. • Sintomas: dispnéia. • Edema angioneurótico (edema de Quincke): • Sinais: tumefação rápida dos lábios, pálpebras, em alguns casos edema da glote. • Sintomas: prurido ou ardor; sensação de aumento volumétrico dos lábios e pálpebras, dificuldade em deglutir. 4. Diabetes mellitus: • Sinais: perda de peso; raramente hálito de acetona, baixa resistência às infecções, dificuldade na cicatrização. • Sintomas: debilidade geral; aumento de apetite e maior ingestão de alimentos (polifagia), sede intensa (polidipsia); eliminação urinária abundante (poliúria); prurido localizado ou generalizado. 5. Neuroses: • Sinais: taquicardia e desmaios. • Sintomas: nervosismo ao ser submetido ao exame médico ou odontológico; irritação ou perda de calma com facilidade; ansiedade. 6. Endocardite bacteriana subaguda: • Sinais: perda de peso; febre moderada de longa duração; palidez; sopro cardíaco; esplenomegalia. • Sintomas: astenia; dispnéia; anorexia; dores e sintomas semelhantes aos da gripe. 7. Epilepsia: • Sinais: acessos convulsivos seguidos de períodos comatosos. • Sintomas: não existem. 8. Hemofilia: • Sinais: na infância: intensas hemorragias cutâneas após ligeiros traumas; hematomas na língua, nas articulações, etc.; hemorragias gengivais espontâneas. • Sintomas: hemorragias freqüentes e abundantes, além de prolongadas em indivíduos do sexo masculino. 9. Hipertensão arterial: • Sinais: freqüentes hemorragias nasais; edema das extremidades. • Sintomas: fadiga; insônia; cefaléia; vertigem; zumbido nos ouvidos; formigamento das extremidades. 10. Hipotensão: • Sinais: não existem. • Sintomas: tonturas; freqüentes desmaios; fadiga fácil e taquicardia. 11. Leucemia: • Sinais: hipertermia (39° a 40°); palidez; hemorragias gengivais; equimoses; diarréias; linfoadenopatia generalizada; hepatoesplenomegalia. CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 199 • Sintomas: esgotamento profundo; cefaléias; mialgias; febre; hemorragias. 12. Púrpura trombocitopênica essencial: • Sinais: manchas purpúreas abaixo da pele; epistáxis; hemorragias de tipos diversos; algumas vezes hipertermia. • Sintomas: não existem. 13. Sífilis: • Sinais: erupção eritematosa cutânea (secundária); exantemas generalizados (secundária); placas mucosas (terciária). • Sintomas: mal-estar; anorexia; cefaléia; ligeira elevação de temperatura. 14. Telangiectasia hereditária: • Sinais: dilatações de pequenos vasos tomando aspectos variados: em teia de aranha, etc.; pequenas manchas purpúreas na pele e mucosa; hemorragias profusas e espontâneas após traumatismos. • Sintomas: hemorragias. Pode-se também, chegar a determinadas conclusões baseando-se nos tipos de medicamentos que os pacientes estão ingerindo, mas para isto necessita-se possuir perfeita base farmacodinâmica, a fim de poder analisar corretamente o tipo de medicamento que o paciente está tomando, bem como sua ação. Enfim, todos estes sinais e sintomas devem ser observados como um todo, para estabelecer-se corretamente um diagnóstico diferencial, o qual será devidamente firmado com os exames complementares especiais e de rotina. 4. Exame clínico: É outra etapa do roteiro cirúrgico, muito importante, pois após o interrogatório e anamnese, minucioso exame da cavidade bucal deverá ser efetuado por inspeção direta ou indireta, além da palpação. Diretamente são notadas todas as estruturas bucais e, indiretamente com o auxílio dos espelhos ou sondas. A inspeção, quer direta ou indireta, deve ser feita de maneira ordenada, para não ser omitida estrutura alguma da cavidade bucal. Entretanto, se neste exame de rotina evidenciar- se qualquer alteração morfológica ou funcional, deve-se passar à palpação. Este exame possibilitará a verificação da consistência dos tecidos, sua sensibilidade dolorosa, tamanho, mobilidade dos nódulos, etc. Com os dados obtidos por estes exames, o cirurgião poderá firmar um diagnóstico provisório. É importante, todavia, que o profissional tenha em mente quais as principais enfermidades cujos reflexos são notados na cavidade bucal, que são relacionadas a seguir: 4.1. Hiperplasia e hipertrofia das papilas interdentais e zona marginal da gengiva: • Origem local: má higiene oral; irritação conseqüente às bordas cavitárias; restaurações salientes; produtos farmacológicos, respiração bucal. • Origem geral: granuloma gravídico; gengivites da gestação; carência do complexo B ou de vitamina C; disfunção endócrina, especialmente as da puberdade; hipertireoidismo; produtos farmacológicos; hipertrofia tecidual na diabete não tratada; leucemia e neoplasias. CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 200 4.2. Destruição, atrofia e ulceração das papilas interdentais e zona marginal gengival: • Origem local: fusoespiroquetose; cáusticos empregados para a cura da fusoespiroquetose; hiperfunção mandibular; retenção de partículas alimentares e hábitos. • Origem geral: carências nutritivas; fusoespiroquetose; neutropenia maligna (precoce); anemia aplástica e neoplasias. 4.3. Hiperplasia e hipertrofia da gengiva vestibular e lingual: • Origem local: má higiene bucal; cálculos e abcessos periodontais; fibromatose difusa. • Origem geral: transtornos endócrinos especialmente durante a puberdade; hiperplasia por barbitúricos ou dilantínica; escorbuto e leucemia. 4.4. Destruição, ulceração ou atrofia da gengiva vestibular e lingual: • Origem local: úlcera trofoneurótica; queimaduras graves; osteorradionecroses. • Origem geral: leucemia (tardia); agranulocitose; gangrena diabética; necrose por mercúrio, arsênio e fósforo e, úlceras sifilíticas. 4.5. Inflamação aguda da gengiva labial e lingual: • Origem local: reações de hipersensibilidade e colutórios; pastas dentais e cremes; estomatites estafilocócicas e estomatites gonocócicas.• Origem geral: carência de vitaminas do complexo B; alterações teciduais por disfunção gonadal na menopausa; exantemas do sarampo e escarlatina; reações agudas à administração do mercúrio e bismuto; reações alérgicas a alimentos; líquen plano (tipo erosivo). 4.6. Palato duro e mole: • Origem local: leucoplasia, inflamação ou hipertrofia das glândulas palatinas; inflamação da papila incisiva por fatores mecânicos; cistos da papila; fenda palatina parcial ou total; neoplasia; traumatismos e reações alérgicas aos materiais de dentaduras. • Origem geral: goma sifilítica; lesões necróticas nas discrasias sangüíneas; neutropenia maligna e leucemia; líquen plano; herpes; eritema polimorfo; manifestações alérgicas; equimose da icterícia; endocardite bacteriana subaguda; pênfigo; úlceras tuberculosas; necroses após exodontias em diabéticos não tratados ou mal tratados; placas sifilíticas. 4.7. Mucosa das bochechas: • Origem local: leucoplasia; lesões traumáticas; queimaduras e traumatismos, incluindo os produzidos durante a assistência odontológica; cistos de retenção; neoplasias; pontos de Fordyce; irritação traumática por mal oclusão; restaurações e próteses defeituosas; hábitos; estomatite estreptocócica. • Origem geral: herpes simples; queilites carenciais; cancro sifilítico; eritema polimorfo; pênfigo: pigmentação racial; líquen CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 201 plano; lesões necróticas na leucemia e neutropenia maligna; aftas; reações alérgicas; pigmentação na enfermidade de Addison; manchas de Koplik. 4.8. Lábios: • Origem local: leucoplasia; queilose por umedecimento; queilose por contato; lesões traumáticas; queimaduras físicas ou químicas; anomalias congênitas; queilose angular por diminuição da dimensão vertical; sialorréia; ulcerações por fusoespiroquetose; pigmentação metálica por contato; inflamação das glândulas solitárias dos lábios; neoplasias. • Origem geral: herpes simples; queilose nos estados carenciais; lesões generalizadas no período secundário da sífilis; líquen plano; eritema polimorfo; cancro sifilítico; fissuras sifilíticas; úlceras tuberculosas; pênfigo e edema angioneurótico; manifestações medicamentosas. 4.9. Língua: • Origem local: língua geográfica; leucoplasia lingual; carcinoma; glossite esclerosante sifilítica; revestimento anormal da língua; anomalias congênitas e de desenvolvimento; anquiloglossia e macroglossia; glossites rômbicas medianas; traumatismos por dentes, restaurações ásperas ou cálculos; aparelhos protéticos traumatizantes; neoplasias. • Origem geral: atrofia e inflamação das papilas; carência do complexo B; síndrome de Plumer-Vinson; anemia secundária; descompensação cardíaca; hipercloridria; líquen plano; sífilis; eritema polimorfo; edema angioneurótico; úlcera tuberculosa; pênfigo: lesões por anemia perniciosa; hipotireoidismo; diabetes. 5. Exames complementares: Na prática, o profissional não deve e não pode estabelecer um diagnóstico definitivo baseado apenas na anamnese e nos exames clínicos. Há necessidade, freqüentemente, de estes exames serem comprovados por outros, chamados de complementares. Estes exames são realizados quer na clínica, quer em laboratórios especializados, sendo classificados em exames de rotina e especiais, sendo que ambos, por sua vez, podem ser locais e gerais. • Exames de rotina: • Locais: • radiografias periapicais (dentados), • radiografia oclusais (desdentados), • radiografias panorâmicas. • Gerais: • Tempo de coagulação, sangramento e dosagem de hemoglobina; pressão arterial e pulso. • Exames especiais: • Locais: • radiografias oclusais (dentados), • radiografias extra-orais, • radiografias pelo método de Miller-Winter, CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 202 • biópsia; transiluminação; cutirreação; intradermorreação; oftalmorreação. • Gerais: • Exame de urina; hemograma; prova de retração do coágulo; prova de fragilidade capilar; reação de Wassermann (sorológica); Machado Guerreiro (sorológica); reflexo-óculo-cardíaco; HIV (AIDS). PRINCIPAIS ENFERMIDADES E SUA CONSTATAÇÃO POR EXAMES COMPLEMENTARES • Agranulocitose ou neutropenia maligna: • Hemograma: • ausência de granulocitos jovens, • diminuição do número de polimorfonucleares, • eritrócitos normais, • hemoglobina normal. • Anemia perniciosa: • Hemograma: • hemoglobina reduzida a 5,8 a 6 g%, • redução do número de eritrócitos a 1 milhão/mm3, • aumento do volume dos eritrócitos, • diminuição do número de plaquetas a 40.000 mm3. • Anemia hipocrômica microcítica: • Hemograma: • hemoglobina reduzida para 6 g%, • redução do número de eritrócitos para 3 milhões/mm3, • diminuição do volume dos eritrócitos, • Anemia aplástica: • Hemograma: • hemoglobina reduzida, • redução do número de eritrócitos para 1 milhão/mm3, • redução notável de neutrófilos, • hemoglobina reduzida. • tempo de coagulação prolongado. • Alergia: • Cutirreação: são praticadas escarificações na face ventral do braço próximo ao antebraço, depositando-se aí algumas gotas do medicamento. Espera-se de 10 a 16 minutos para a verificação das reações que venham a decorrer. Se a reação for positiva, surgirá no local da escarificação uma intensa hiperemia. • Intradermorreação: injeta-se uma gota de solução a ser estudada no antebraço subcutaneamente. Se a reação for positiva aparecerá no local da pápula formada pela CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 203 penetração da substância uma formação semelhante a pseudópodos, acompanhada algumas vezes de hiperemia e reação geral de pequena intensidade. • Oftalmorreação: instila-se uma gota da solução a ser estudada na conjuntiva, apreciando a reação surgida nos 15 minutos seguintes. Se for positiva poderá haver marcante reação. Se forem fracamente positivas, dentro de alguns minutos involuirão. Se forem intensas, haverá necessidade da aplicação de solução milesimal de adrenalina para instalação na conjuntiva ou intramuscular. Se forem sistêmicas, há necessidade de um antiestamínico. • Diabetes mellitus: • Exame de urina: • verificação da glicosúria pela reação de Benedict ou pela utilização da glicofita. • Hematológico: • verificação da glicemia. • Hemofilia: • Tempo de sangria: • normal. • Tempo de coagulação: • excessivamente prolongado. • Retração do coágulo: • normal. • Plaquetas: • normal. • Prova de Rumpel-Leede: • Hipertensão arterial: • Pressão arterial: • diastólica: acima de 90 mmHg. • sistólica: acima de 150 mmHg. • Leucemia linfóide aguda: • Hemograma: • eritrócitos reduzidos. • redução da hemoglobina (6 a 8 g). • aumento exagerado de leucócitos (de 150.000 a 250.000 por mm3. • grande número de linfoblastos. • redução do número de plaquetas (100.000). • Leucemia mielóide aguda: • Hemograma: • redução do número de eritrócitos (2 milhões). • dosagem de hemoglobina (6 a 8 g). • aumento exagerado de leucócitos. • grande número de mieloblastos. • redução do número de plaquetas (50 mil). • Púrpura trombocitopênica essencial: CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 204 • Tempo de sangria: • prolongado. • Tempo de coagulação: • normal. • Retração do coágulo: • prolongada. • Prova de Rumpel-Leede: • positiva. • Número de plaquetas: • diminuído. • Telangiectasia hereditária: • Tempo de sangria: • normal. • Tempo de coagulação: • normal. • Retração do coágulo: • normal. • Sífilis: • Reações sorológicas: • VDRL:positivo. • Wassermann: positivo. • AIDS: • Exame: • HIV. DA AVALIAÇÃO DO RISCO CIRÚRGICO Baseando-se nas informações obtidas pela anamnese e exames clínicos, a indicação da cirurgia pode ser determinada com alguma segurança e, o cirurgião saberá quando deverá realizá-la, ficando apto a fazer uma estimativa do risco envolvido. Tal avaliação neste período é importante, a fim de se planejar quais determinações laboratoriais deverão ser requisitadas, solicitar pareceres, se necessário e, preparar o paciente para o que possa advir. Prévia avaliação do risco cirúrgico, em uma das três categorias que se seguem, não deverá ser difícil: Pacientes considerados de bom risco são aqueles encontrados em excelentes condições de saúde, que se internam num hospital para submeter-se à correção cirúrgica de lesão de natureza local e, não apresentam efeitos sistêmicos. Neste paciente, não existe qualquer doença imediatamente manifesta, envolvendo outros órgãos. Paciente considerado de mau risco é aquele cuja lesão local é suficientemente grave para produzir efeitos sistêmicos pronunciados, ou que apresenta enfermidade grave de um ou outro órgão vital. Tal enfermidade exigirá investigação minuciosa e, poderá requerer medidas de emergência capazes de controlá-la temporariamente e, muito certamente influenciará na escolha do agente anestésico, da oportunidade e caráter do plano cirúrgico. Pacientes considerados de risco intermediário são aqui incluídos muitos daqueles devido a razões de idade, de doenças sistêmicas de mediana CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 205 gravidade ou de efeitos sistêmicos precoces da própria lesão cirúrgica, que exigirão certas condutas de correção e, a realização de investigações pré-operatórias, além das rotineiras. 6. Necessidade das intervenções: Firmado o diagnóstico definitivo com dados já obtidos por exames clínicos e complementares, o cirurgião deve verificar problemas relativos à necessidade da intervenção. -Quando se deve optar pelo tratamento cirúrgico ? Este é dos mais delicados assuntos em todo tratamento cirúrgico, pois requer do profissional, ética e conhecimento de todas as especialidades odontológicas, para conscientemente, decidir por um tratamento cirúrgico ou não, além da possibilidade de avaliação do risco cirúrgico. O bom cirurgião é aquele que, na medida do possível, realiza tratamento clínico ou cirúrgico-conservador, preferentemente a um tratamento cirúrgico-radical. 7. Oportunidade da intervenção: Verificada a necessidade de se intervir cirurgicamente, devem-se avaliar as possibilidades da oportunidade da intervenção: - É oportuna ou não a intervenção ? O profissional deverá constatar a oportunidade da intervenção cirúrgica naquele momento. Muitas vezes não será oportuna ou conveniente, isto porque alterações de ordem geral ou local, patológicas ou não, podem contra-indicar o tratamento cirúrgico naquele instante. O adiamento da cirurgia para outra ocasião será muitas vezes necessário, para que o paciente possa ser operado em melhores condições. Assim, deve-se verificar: menstruação, gestação, agranulocitose ou neutropenia maligna, anemia perniciosa, anemia hipocrômica microcítica, anemia aplástica, alergia, diabetes mellitus, hemofilia, hipertensão arterial, leucemia, púrpura hemorrágica, telangiectasia hereditária, sífilis, tuberculose e outras. Todas estas condições estão explicadas com minúcias na oportunidade da intervenção (Capítulo IV). 8. Tratamento pré-operatório: Diversos tratamentos para pacientes com as alterações vistas anteriormente podem ser: • Pacientes alérgicos: • Pacientes que apresentam reações alérgicas à anestesia local, antibióticos ou a outros medicamentos devem ser preparados antes das intervenções cirúrgicas. Recomenda- se geralmente: • Peridex comprimidos (Merck Sharp & Dohme): • Adultos: 1 a 5 comps ao dia. • Crianças: 1,5 a 4 comps ao dia. Para melhor resultado terapêutico é importante que a posologia seja freqüentemente ajustada às necessidades de cada paciente. • Trilergon comprimidos (Quimiofarma): CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 206 • Adultos: 4 comps ao dia de 4/4 horas. • Crianças: 1 a 3 comps ao dia. Com 6 anos: 1 comp. ao dia ou a critério médico. • Benadryl (Parke Davis): • Adultos: 0,05 a 1 cm injetável via intramuscular ou endovenosa ao dia - 1 cápsula 3 a 4 vezes ao dia. • Crianças: 1 a 3 colheres de chá 3 a 4 vezes ao dia. • Fenergan (Rhodia): • Adultos: 2 a 6 drágeas ao dia. • Casos de emergência: injetável via intramuscular (50 mg) (choque anafilático ou crises de asma). Antes de qualquer receita, consultar o DEFE, a fim de ser verificada qualquer alteração nos medicamentos e em sua posologia. • Pacientes diabéticos: • Por apresentar baixa resistência às infecções merecem cuidados especiais, não somente no pré-operatório como também durante o trans-operatório. A intervenção deve ser realizada durante a curva decrescente de glicemia, geralmente uma hora e meia a três horas após aplicação de insulina. Devem ser evitados os problemas da apreensão, ansiedade, tratamentos longos que poderão acarretar aumento ainda maior de glicose na corrente sangüínea. Durante o trans-operatório, indicam-se soluções anestésicas sem vaso- constritores e, as intervenções deverão ser de pequena duração e extensão. O trauma deve ser mínimo em razão da dificuldade no processo de reparo. Não são raros os casos de necrose nos tecidos moles após cirurgias. • Pacientes hemofílicos: • Tratamento nestes pacientes deve ser realizado em hospitais em colaboração com o médico. Administra-se geralmente, plasma liofilizado antes da intervenção e nos três dias subseqüentes ao tratamento cirúrgico, para manter o tempo de coagulação em nível abaixo de 20 minutos. Devem ser extraídos no máximo dois dentes em cada etapa. Empregam-se também as transfusões sangüíneas. Como tratamento local, a esponja de fibrina preparada com fibrinogênio e trombina humanos tem oferecido bons resultados. Podem ser utilizados, ainda, gelfoan e celulose absorvível. A celulose absorvível poderá ser umedecida com solução de trombina. • Pacientes com hipertensão arterial anormal: • Profissional deve tomar certas precauções antes e durante o tratamento cirúrgico de pacientes hipertensos, mesmo após a autorização do médico especialista. Assim, deverá evitar todo e qualquer procedimento que possa elevar sua pressão, como: apreensão e excitação, ambas de fundo psíquico; solução anestésica contendo vasoconstritores; cirurgias extensas e de CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 207 grande duração. Recomenda-se ainda, a utilização de medicação pré-anestésica. • Pacientes com afecções hepáticas: • Pacientes portadores de icterícia obstrutiva ou hepatopatias primitivas podem apresentar deficiências na formação de protrombina devidas à hipovitaminose K. Estão assim, sujeitos a hemorragias no trans e pós-operatório cirúrgicos. Quando a intervenção cirúrgica for necessária, o tratamento pré-operatório à base de vitamina K é recomendado. Administra-se geralmente, de 1 a 3 ampolas de Sinkavit (Roche) por via intramuscular cada 6 a 12 horas. • Pacientes com fragilidade capilar ou prova de Rumpel-Leede positiva: • Pacientes com púrpura trombocitopênica apresentam fragilidade capilar e, em conseqüência, graves hemorragias no trans e pós- operatórios cirúrgicos. Nestes casos, deve ser utilizado como tratamento pré-operatório medicamento com ação sobre os capilares. Geralmente, aplica-se 1 a 2 ampolas de Adrenostase(Keto) por via intramuscular profunda, ou uma ampola de Styptanon (Organon-20 mg) por via endovenosa ou intramuscular antes da intervenção cirúrgica. 9. Planejamento das intervenções cirúrgicas: Antecedendo a qualquer intervenção cirúrgica, é necessário que ela seja objeto de cuidadoso planejamento. Neste planejamento, devem ser analisados os seguintes fatores: Localização do processo patológico ou do elemento sede do processo. Relações de contigüidade do processo a ser eliminado com estruturas anatômicas importantes. Vias de acesso ao elemento e suas vias de eliminação. Recursos que facilitam a eliminação do processo patológico. Material e instrumental indicado para facilitar a intervenção. Para toda e qualquer intervenção, serão estabelecidos planejamentos cirúrgicos, segundo técnicas cirúrgicas e tempos operatórios, capazes de satisfazer todos os itens acima citados. 10. Tratamentos pós-operatórios e cuidados: Para que não ocorram acidentes após uma cirurgia, deve-se proceder a um diagnóstico correto, levando a cabo a cirurgia dentro dos preceitos da técnica. Em cirurgia surgem acidentes, apesar das maiores preocupações comumente tomadas pelos operadores. Para diminuir cada vez mais o número e a freqüência dos acidentes desta natureza, seria necessária uma revisão periódica das condições que podem concorrer para produzi-los. Grande parte das dificuldades apresentadas pelos cirurgiões deve-se a mau julgamento, planejamento deficiente ou a procedimentos operatórios deficientes. Para evitar ainda mais problemas pós- operatórios, deve-se logo após o ato cirúrgico, instruir devidamente os pacientes a respeito dos cuidados e tratamentos pós-operatórios que devem seguir (SCHRAM, 1964). Estes devem ser adequados, a fim de assegurar o êxito da intervenção, pois a CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 208 inadequada ou simples falta de instrução pós-operatória, podem ser a causa de deiscência da ferida convenientemente operada (HINDS, 1960). Estas instruções devem ser entregues por escrito ao paciente, pois as verbais podem não ser perfeitamente compreendidas ou até mesmo esquecidas, devendo este método ser empregado tanto em clínica particular como em escolas de Odontologia, para evitarem-se sérios mal-entendidos. As instruções pós-operatórias devem ser claras e sucintas, porém com detalhes suficientes para resolver os problemas. Deve-se ainda, dentro do possível, advertir o pacientes sobre seqüelas operatórias que poderão advir. Do ponto de vista psicológico, é bem melhor que o paciente conheça a extensão de desconforto pós-operatório, pois isto parece condicioná-lo mais adequadamente para o evento. Por outro lado, caso ocorram acidentes desagradáveis, mesmo que sejam de gravidade menor do que poderia ser esperado, o paciente não advertido estaria mais propício a fazer uma crítica mais severa ao tratamento cirúrgico recebido. Na Faculdade de Odontologia de Bauru, no Departamento de Estomatologia (Disciplina de Cirurgia) e em Cursos de Especialização e Residência por nós coordenados, é adotada uma ficha com as seguintes instruções mínimas necessárias para o paciente: • Não fazer bochechos, pelo menos durante 24 horas após a intervenção, devendo somente lavar a boca após as refeições com solução de água fria e sal. • Retirar a gaze protetora da boca após uma hora. • Aplicar bolsa de gelo sobre o local operado, durante todo o dia em que foi realizada a intervenção, com períodos de descanso, de aproximadamente 1 hora, até à noite, começando imediatamente após a intervenção. • Em caso de dor, tomar um a dois comprimidos de..................(colocar o nome do comprimido), ou.......................gotas de.................... • Em caso de dor forte..................(explicar por escrito o que o paciente deverá fazer). • Alimentos líquidos, de preferência frios ou gelados (caldos, sopas, mingaus, suco de frutas, etc.). • Evitar os excessos físicos e mentais, se necessário manter repouso na cama e deitar sempre com a cabeça mais elevada que o resto do corpo. • Em caso de saída de sangue maior que a normal, morder ou comprimir no local um rolo de gaze ou de algodão durante 10 minutos e fazer uma injeção de......................(Colocar o nome da injeção). • Em caso de complicação chamar pelo telefone (colocar os números dos telefones onde provavelmente será encontrado). • No dia seguinte à intervenção, fazer a higiene da boca com ..........(colocar a solução), fisioterapia e compressas quentes no local da intervenção (3 ou 4 vezes ao dia). • Voltar no dia...../...../.....às.....horas, para observação e para a retirada dos pontos. CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 209 Com respeito aos acidentes de discrasias sangüíneas, o profissional que pratica cirurgia bucal deve estar sempre atento para evitar, controlar e tratar a hemorragia. Inicia-se por prevenir a instalação de uma hemorragia, durante a operação, com medidas cirúrgicas. Na maioria dos casos a dissecção limpa e cuidadosa evita a hemorragia trans e pós-operatória, pois como diz BERMAN (KRUGER, 1960) “tratando-se os tecidos com bondade amorosa, eles saram”. É de suma importância fazer incisões nítidas, evitar romper tecidos, fragmentar ossos. Para controle e prevenção de hemorragias pós-operatórias, o cirurgião deve proceder com método planificado de maneira eficiente. A sutura deve ser realizada em todos os casos, mesmo naqueles em que a única finalidade seja a proteção do coágulo sangüíneo, porque uma de suas razões é a manutenção dos tecidos moles sobre o alvéolo após a extração, protegendo a região. Ajuda na formação de correta coagulação, que significará menos dor pós- operatória, especialmente aquela originada pela exposição do tecido ósseo. Além disso, evita a penetração de alimentos, microorganismos orais na ferida, diminuindo riscos de uma infecção. Completando-se a prevenção de uma hemorragia, deve-se proteger o local da intervenção com gaze colocada firmemente entre os dentes ou rebordos, a qual deverá permanecer durante meia a uma hora após a intervenção. Deve-se ainda, instruir o paciente para que não faça bochechos, pois sua utilização poderia provocar uma hemorragia, se feito antes de a coagulação haver-se processado, ou mesmo após. Além disso, o paciente deve ser instruído para que faça aplicações de gelo extra-oralmente sobre o local operado durante 15 minutos, permanecendo 15 minutos ou mais descansando, iniciando imediatamente após a intervenção. Esta aplicação é feita com o objetivo de evitar a congestão da dor pós-operatória, prevenir hematomas e hemorragia, além de diminuir e circunscrever o edema pós-operatório. Com a aplicação do frio sobre a região, provoca-se inicialmente uma contração dos tecidos, obtendo-se assim, uma isquemia devido à expulsão do sangue dos capilares pela contração das fibras elásticas e musculares dos tecidos. Havendo, portanto, esta contração dos vasos sangüíneos haverá diminuição, por reflexos, da irrigação dos tecidos subjacentes. Extrai-se o calor do interior pela aplicação do frio, diminuindo- se a sensibilidade das terminações periféricas nervosas e, por conseguinte a dor. Pelo resfriamento dos tecidos impede-se a circulação, inibe-se a leucocitose e o afluxo de linfa às partes afetadas, havendo conseqüentemente diminuição de pressão sobre as fibras nervosas e a distensão dos tecidos. Por este mesmo processo fisiológico, este mecanismo pode inibir a cura, privando os tecidos afetados de maior circulação, pois está provado que a inflamação é a resposta natural à lesão. Por este motivo as aplicações de frio devem ser breves, devendo-se evitá-las principalmente empessoas idosas, nas quais existe afluxo de menor intensidade. O frio agrava a êxtase no lugar da inflamação, portanto seu uso prolongado poderá levar à necrose e à gangrena. Deduz-se que a aplicação do frio tem sua utilização limitada, devendo ser empregada apenas nos primeiros períodos do trauma, nos quais não há infecção aguda (após extrações e outras cirurgias), com a finalidade de diminuir a inflamação. Se a ação do frio, para os casos em que foi indicada, não produziram nenhuma redução do processo, decorrido 24 horas, deve-se recorrer às aplicações do calor. Quando se emprega o calor, em forma de cataplasmas, compressas, bolsas de água, etc., sua penetração nos tecidos não é grande, pois alcança somente 1 mm e, o aquecimento dos tecidos é feito por condução. Isto está em oposição à maior ação CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 210 penetrante de fontes luminosas de calor, tais como a luz solar, lâmpadas de tungstênio ou lâmpadas de filamento de carvão. Tanto por condução ou por radiação, em qualquer método, a quantidade de calor que penetra nos tecidos é baixa. Se for aumentada a temperatura dos tecidos acima de 37°C, o organismo se incumbe rapidamente de regular este calor mediante reflexos circulatórios. Daí concluir-se que a quantidade de energia calórica, necessária para alterar a temperatura dos tecidos a qualquer profundidade, deve ser muito grande. A exposição local ao calor resulta pois, num estímulo aos reflexos vasomotores. Desta maneira, há aumento do número de capilares abertos e uma aceleração do metabolismo dos tecidos, havendo conseqüentemente aumento das trocas entre o sangue e os tecidos. O calor, causando dilatação das fibras musculares lisas nas paredes dos vasos periféricos, produz também vasodilatação periférica e elevação da pressão capilar. Ao mesmo tempo em que os capilares se distendem, aumentam as áreas das paredes capilares para a troca dos líquidos, resultando assim maior afluência de linfa, plasma e líquidos tissurais e, desta maneira, aumento dos mecanismos locais de defesa. Com o aumento da circulação local, o edema destaca-se. O calor local aumentando a rede de capilares linfáticos e, conseqüentemente a formação de linfa e, esta por sua vez, acelera a drenagem linfática, havendo assim estímulo da atividade dos leucócitos na fagocitose. Estes fatores desempenham importante papel na luta contra a infecção. Se esta se inclinar para a formação de coleção purulenta, o calor apressará este processo e, se a infecção tiver tendência à cura espontânea e rápida, então o calor acelerará a cura. Não tem qualquer fundamento a teoria de que o calor, produzindo localização de uma infecção, retardaria a cura, impedindo assim o processo de reparo por si mesmo. O paciente deverá alimentar-se com líquidos, de preferência frios ou gelados, promovendo-se com isto a reposição de líquidos, pois a cirurgia bucal influi na ingestão de líquidos e eletrólitos. Certos fatores podem alterar a ingestão de alimentos e água devido à ansiedade, estados patológicos predisponentes que produzem dor pré e pós-operatória, tumorações, trismo, mal-estar ou náuseas, ocasionando a perda de equilíbrio dos líquidos. Estas condições atuando por mais de 24 horas, diminuem a ingestão de 2,5 litros, com ligeira desidratação do paciente, o que irá perturbar o equilíbrio ácido-base, aumentando assim a possibilidade de se apresentarem complicações e retardando a convalescença. Como outra recomendação instrui-se o paciente para evitar excessos físicos, mantendo-se em repouso, com a cabeça mais elevada que o corpo, exercícios muscular e, a conseqüente vasodilatação, de modo a não prejudicar a hemostasia e, assim o processo de reparo. Depois de tomados todos estes cuidados iniciais, se o paciente notar sangramento maior que o normal, é necessário que saiba as medidas a tomar imediatamente, ou seja, comprimir o local com gaze ou algodão, procurando com isto coibir a hemorragia pela ação mecânica local, até chegar ao consultório do profissional ou na escola. Os cuidados a serem tomados no dia seguinte à intervenção cirúrgica devem ser: Fazer a higienização da boca com solução anti-séptica como o Malvatricin ou derivados da malva. CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 211 Aconselhar o paciente a fazer compressas quentes, ou ainda a aplicação de raios infravermelhos no local operado, no caso de se apresenta edema. Desde que as instruções não sejam suficientemente razoáveis para a resolução dos problemas, o paciente deverá entrar em contato com o profissional, para que providências imediatas sejam tomadas. Os problemas mais freqüentes que poderão ocorrer por uma extração dental são: hemorragia e alveolite. Em casos de hemorragia, deve-se primeiramente pesquisar qual o tipo que está ocorrendo, além de sua localização, se óssea ou dos tecidos moles, pois para cada caso haverá um procedimento terapêutico. Quando a hemorragia for devida a problemas de ordem geral, deve-se encaminhar o paciente imediatamente a um hospital, para a realização de uma intervenção com maiores cuidados e segurança (Veja em Manobras Cirúrgicas Fundamentais). As alveolites são infecções causadas por estafilococos e estreptococos após uma extração dental, podendo ser devidas à falta de circulação alveolar e conseqüentemente à falta de coágulo. Ainda poderão ser devidas à retirada do coágulo do alvéolo pelo paciente, à falta de assepsia e anti-sepsia do operador e do paciente, bem como pela falta de esterilização do instrumental. Poderá também vir a ocorrer pela raspagem do alvéolo após uma extração pela remoção dos restos de ligamentos periodontais, impossibilitando desta maneira uma fixação correta do coágulo neste alvéolo (Veja em Acidentes e Complicações das Exodontias). o0o CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 212 MANOBRAS CIRÚRGICAS FUNDAMENTAIS Para toda e qualquer intervenção cirúrgica, torna-se necessária a observação de princípios gerais e, de manobras fundamentais, capazes de levá-la a um bom termo. A assepsia e anti-sepsia do paciente e do operador, bem como a esterilização e desinfecção, devem ser perfeitamente estudadas para prevenir-se contra infecções, desfavoráveis para o sucesso das intervenções. A seleção do material e instrumental para determinadas manobras é importante, pois nada poderá faltar na mesa cirúrgica. O conhecimento de cada um (arsenal cirúrgico), assim como a maneira como devem ser empunhados e usados, também é de grande importância para o bom andamento de uma intervenção, da mesma forma que o é a disposição na mesa auxiliar, que virá facilitar grandemente seu manuseio, reduzindo assim a duração das intervenções. A visualização do campo operatório, conforto do paciente e descanso do profissional durante a intervenção devem ser igualmente, objetos de estudo detalhado, pois estão diretamente ligados ao sucesso da intervenção. A cirurgia compreende um conjunto de manobras realizadas pelo cirurgião e seu auxiliar, que constituem uma agressão aos tecidos vivos. Este traumatismo, que já se inicia com a manobra da incisão, produz uma quebra da continuidade dos tecidos, rompendo sua proteção natural mantida pelo epitélio, expondo, desta maneira, os tecidos internos ao meio ambiente. Se não forem tomadas precauções necessárias, esta região será fatalmente invadida por microorganismos que normalmente ali se encontram, bem como nos instrumentos usados. Como conseqüência natural desta invasão, o organismo deverá lutar contra mais este agente agressor, que muitas vezes acarretará infecções com problemas difíceis de serem combatidos. Num organismo debilitadoa infecção poderá assumir proporções perigosas, sendo levada à corrente circulatória, com possibilidade de provocar uma bacteremia ou uma septicemia. Para serem evitadas estas complicações, além de todos os cuidados de assepsia, anti-sepsia, esterilização e desinfecção já vista nos capítulos anterior, o cirurgião deverá ter conhecimento preciso e seguro sobre a diérese, hemostasia e síntese, a fim de levar a cirurgia a um bom final. DIÉRESE É o tempo operatório que reúne em si um certo número de manobras cirúrgicas destinadas à separação cruenta dos tecidos. A diérese está dividida, com finalidade didática em: diérese dos tecidos moles e dos tecidos duros. 1. Diérese dos tecidos moles: Compreende: incisão corte ou secção e a divulsão podendo como conseqüência ser aqui incluídos os retalhos. 1.1 Incisão: É a manobra cirúrgica na qual os tecidos são separados pela penetração da lâmina cortante do bisturi. Os bisturis constam de 2 partes: cabo e lâmina. O uso de bisturis e lancetas com a ponta ativa fixada ao cabo era bastante generalizado, entretanto a utilização de bisturis com lâminas intercambiáveis, é quase que total, possibilitando o emprego de lâminas sempre novas, pela sua simples CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 213 substituição. A lâmina intercambiável é montada sob pressão na ranhura do cabo. Existe uma série variada de pontas ativas e, cada uma idealizada para uma determinada espécie de incisão. Assim, em cirurgias da cavidade bucal, são usadas as lâminas: número 11, para incisões intra-orais e drenagem de abcessos; número 12, para incisões mucoperiostais distalmente aos segundos e terceiros molares; número 15, para a grande maioria das incisões intra-orais, além de também algumas extra- orais (Ver “Arsenal Cirúrgico”). É usado ainda para incisões o bisturi elétrico, contudo, com indicações bastante limitadas em Odontologia. THOMA (1963) faz as seguintes referências com respeito à eletrocirurgia: “É muito útil para execução de operações sem hemorragia, para destruir por coagulação neoplasmas malignos profundos e, para efetuar descamação de lesões superficiais da boca por fulguração. O eletrodo uniterminal bipolar serve para fazer uma coagulação ou seja, a destruição de lesões pequenas por ação limitada. Para operações extensas prefere-se o método biterminal unipolar”. Dá-se o nome de acussecção ao corte feito com eletrodo em agulha ou em alça. Sua ação depende da intensidade da corrente e da rapidez com que é aplicada. Quando se faz com a agulha um movimento rápido, desintegra-se o tecido e divide-se quase antes que chegue à agulha, da mesma forma que se corta a manteiga com uma faca quente. O resultado depende assim mesmo do tamanho do eletrodo: quanto maior a superfície de contato, tanto maior é a destruição. Quando a corrente de alta freqüência divide os tecidos, oclui os vasos linfáticos e capilares e evita a hemorragia. Grandes vasos podem ser comprimidos com pinças hemostáticas, as quais são tomadas com a mão, sem deixar que toquem em nenhuma outra parte do corpo, fazendo-se passar por elas a corrente de coagulação, ocluindo assim, os vasos sangrantes e, evitando-se a necessidade de ligá-los. Deve-se lembrar que, produzindo-se calor intenso, ele se propaga à distância considerável do eletrodo e ao tecido ósseo contíguo, sofrendo necrose e seqüestração. Geralmente forma-se um esfacelamento na superfície tratada desta maneira, que vem a cair após 10 a 14 dias. Para evitar-se uma infecção prescreve-se antibiótico. Pacientes que sofrem este tipo de cirurgia não sentem quase nenhuma dor, pois são destruídas as terminações nervosas. É provável que a cicatriz deixada pela eletrocoagulação seja densa e fibrosa. A fulguração é uma rápida carbonização superficial, que impede a ulterior penetração da corrente. Mantém-se a agulha à curta distância da lesão, distribuindo-se por toda a região faíscas produzidas pela corrente cortante. O tecido tratado desta maneira descama-se, eliminando assim as lesões mais superficiais. O método é bastante útil para o tratamento de leucoplasias. Não produz efeito muito profundo para a destruição de neoplasias malignas. Como se deve empunhar um bisturi: O bisturi deve ser empunhado de 3 maneiras: como caneta (com 3 pontos de apoio), como arco de violino e, como faca. É aconselhável usá-lo como se apreende uma caneta, porque permite orientar sua ponta ativa com delicadeza e incisar com precisão, além de manter-se a mão com possibilidade de apoio. O dedo polegar é colocado no lado esquerdo do cabo, o indicador na parte superior e o médio à direita e abaixo. Desta maneira, podem-se imprimir todos os movimentos desejados, à custa das articulações dos dedos e do punho. Quando se pretende tomar o bisturi com extrema precisão, devem-se manter os dedos indicador e médio na proximidade da ponta ativa da lâmina (Ver “Arsenal Cirúrgico”). CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 214 A incisão deve ser iniciada penetrando-se a ponta ativa da lâmina perpendicularmente aos tecidos. A seguir, a lâmina deve ser inclinada, estendendo- se a incisão. Ao término desta, o bisturi volta novamente à posição inicial para poder sair perpendicularmente aos tecidos. Com esta técnica evitam-se as denominadas caudas de incisões em suas extremidades, e ainda, as indesejáveis linhas secundárias. Convém também, dar-se uma ligeira inclinação à lâmina do bisturi, para coaptar-se melhor as bordas da ferida. Requisitos das incisões: As incisões devem ser praticadas observando-se certo número de exigências impostas pela técnica cirúrgica, cujas finalidades são evitar mutilações desnecessárias, além de auxiliarem no processo de cicatrização. O planejamento de uma incisão é essencial, porque após sua realização não existe mais possibilidade de sua correção. Os requisitos são os seguintes: a. conhecimento anatômico perfeito da região onde se opera, para evitar-se lesões de órgãos vizinhos, ou ainda de vasos e nervos com funções essenciais. b. deve ser ampla a incisão, a fim de que o campo operatório seja bem visualizado e, o profissional possa trabalhar com liberdade. Contudo, não devem ser desnecessariamente extensas, sendo que o retalho deve ser bem irrigado para evitar necroses e auxiliar a cicatrização. c. a incisão deve ser nítida e não apresentar linhas secundárias, porque incisões sinuosas e linhas secundárias produzem cicatrizes deformantes. d. as incisões praticadas sobre o tecido ósseo, com a finalidade de nele se intervir, devem abranger o periósteo, bem como ser traçadas de modo que, ao adaptar-se o retalho em sua posição primitiva, a linha de incisão repouse sobre tecido ósseo íntegro. O periósteo incisado será lesado ou desgarrado, causando copiosa hemorragia e dificultando a regeneração óssea. Se a linha de incisão repousar sobre a cavidade óssea, haverá deiscência de sutura, impedindo o bom andamento da cicatrização. e. a lâmina do bisturi deve estar com ligeira inclinação, para a mucosa ser incisada em bisel. Tipos de incisões: As incisões podem ser planejadas obedecendo a todos estes requisitos. Isto é muito importante, pois uma incisão mal planejada produzirá cicatrizes deformantes. Existem diferentes tipos de incisões para todas as cirurgias, sendo que algumas delas poderão ser estudadas pelas figuras expostas. Pode-se assim, aquilatar qual a incisão que melhores vantagens trará ao paciente e, aquela que não segue os requisitos julgados fundamentais. Observam-se incisões corretas e incorretas para apicoplastias (Fig. III. 25), para toro palatino (Fig. III. 26), para a extração de terceiros molares inferiores retidos, para as extrações de raízes, para as drenagens deabcessos (Fig. III. 27) e para a extração de dentes retidos no palato (Fig. III. 28), para rânulas e freios linguais (Fig. III. 29). Finalidades: Podem ser: a. Incisional propriamente dita, quando para as drenagens de abcessos intra ou extra-orais (lâmina n°11) e, para o preparo de acesso à sindesmotomia nas papilas gengivais (lâmina n°11); incisões localizadas distante dos segundos e terceiros molares (lâmina n°12), para a confecção de retalho (lâmina n°15) e, para incisões de pele (lâminas n°10 e 15) (Figs. III. 30). CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 215 A B D C Fig. III. 25 – (A, B, C e D) Incisões corretas e incorretas para apicoplastias. B A C D Fig. III. 26 – (A, B, C e D) Incisões corretas para toro palatino. A B Fig. III. 27 – (A e B) Incisões para a extração de terceiros molares inferiores retidos. CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 216 B A Fig. III. 28 – (A e B) Incisões para a extração de caninos superiores retidos no palato. Fig. III. 29 – Incisão para o soalho de boca para frenulectomias. A B Fig. III. 30 – (A e B) Incisões com finalidade incisional. b. Excisional, quando nas exéreses de tecidos moles, biópsias, hiperplasias de palato, frenulectomias, neoplasias, etc. (Fig. III. 31). Fig. III. 31 – Incisão com finalidade excisional. CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 217 c. Plástica, quando nas comunicações buconasais e sinusais, regularizando bordas de feridas cirúrgicas ou não, para dar-lhes forma geométrica favorável ao seu fechamento e, na elaboração de retalhos com finalidade plástica (Fig. III. 32). Fig. III. 32 – Incisão com finalidade plástica. 1.2 Corte ou secção: É a manobra cirúrgica na qual os tecidos são separados pelas pontas ativas de uma tesoura. As tesouras são instrumentos destinados a cortar ou seccionar tecidos ou ainda, materiais usados em cirurgia. A tesoura, como os demais instrumentos, deve ser tomada com 3 pontos de apoio: o dedo polegar é introduzido numa alça, o anular na outra alça e o dedo médio é apoiado junto a esta alça, ficando o indicador apoiado no cruzamento das duas lâminas. Esta maneira de segurar a tesoura permite colocá-la na palma da mão, quando não estiver em uso, ficando-se com os dedos médios, indicador e polegar relativamente livre (Ver “Arsenal Cirúrgico”). 1.3 Divulsão: É a manobra cirúrgica na qual cria-se um espaço entre os tecidos sem, contudo incisá-los ou cortá-los. A divulsão permite poupar tecidos, evitar traumatismos desnecessários e impedir que estruturas anatômicas importantes sejam seccionadas. É empregada geralmente nos planos musculares ou no tecido conjuntivo. Esta manobra é realizada com tesoura de pontas rombas, da mesma forma que para cortar ou seccionar. O instrumento é introduzido fechado nos tecidos, sendo afastadas suas pontas ativas (Fig. III. 33). A B Fig. III. 33 – (A e B) Divulsão dos tecidos. CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 218 1.4 Retalhos: Os retalhos são aqui incluídos porque nada mais são do que conseqüências das incisões e, por isto devem obedecer a todos os requisitos das incisões e mais: a. tamanho: deverá ser suficiente para cobrir com folga a cavidade, de tal modo que a linha de sutura não fique sobre a antiga comunicação. Além disso, devem cobrir sem que os tecidos fiquem em tensão (Fig. III. 34). b. sua nutrição deve ser assegurada por amplos pedículos dispostos de maneira que facilitem a irrigação e, para isto sua base deve ser sempre maior que a extremidade, para não contrariar sua natural irrigação, evitando-se assim a necrose por deficiência circulatória (Fig. III. 35). A B Fig. III. 34 – (A e B) Retalhos suficientes para cobrir com folga a cavidade. A B Fig. III. 35 – (A e B) Retalhos com nutrição suficiente para assegurar um amplo pedículo. c. sua mobilidade deve ser tal que os tecidos nunca fiquem tensos ao serem suturados. Aí reside a causa de vários fracassos na elaboração de retalhos, CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 219 pois os tecidos são muito esticados, sendo a separação deles a resposta à imperícia técnica. Para ser conseguida uma boa mobilidade não se deve vacilar em recorrer à incisões amplas e profundas, atingindo em muitos casos o periósteo transversalmente ao nível do pedículo para eliminar este fator adverso à mobilidade (Fig. III. 36). Fig. III. 36 – (A e B) A mobilidade do retalho deve ser tal, que os tecidos nunca fiquem tensos ao serem suturados. Os retalhos são indicados sempre que: a. permitirem melhor acesso e visibilidade. b. houver necessidade da remoção de osso. c. desejar a eliminação de uma solução de continuidade. d. desejar-se evitar desgarros do tecido mole. e. houver necessidade de perfeita plástica e melhor cicatrização. Os retalhos são sempre descolados delicadamente com o auxílio dos destaca-periósteos ou espátulas número 7 (Ver “Arsenal Cirúrgico”). 2. Diérese dos tecidos duros: É a manobra cirúrgica pela qual é removido parcial ou totalmente o tecido ósseo de uma região. Pode ser dividida em: a. Ostectomia: quando o tecido ósseo é cortado e removido. b. Osteotomia: quando o tecido ósseo é apenas cortado. Seu objetivo é corrigir uma deformidade congênita ou adquirida, retificar o eixo de uma fratura mal consolidada, corrigir uma anquilose e, criar condições para a realização de determinadas cirurgias. Em ambas as diéreses de tecidos duros, o corte do osso é precedido pela incisão dos tecidos moles, podendo esta incisão ser ampla ou pequena. Quando ampla, é praticada diérese a céu aberto e, quando é pequena, o suficiente para permitir a passagem do instrumento que deverá efetuar o corte do osso, a diérese é denominada de subcutânea. Estas manobras podem ser ainda: Lineares - em traço único ou, Segmentárias - que podem ser cuneiformes, trapezoidais, discoidais, planas e convexas. Para as ostectomias ou osteotomias são usados os seguintes instrumentos: cinzéis, pinças goivas, limas para osso, serras e brocas (Ver Cap. II - “Arsenal Cirúrgico”). HEMOSTASIA CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 220 A hemostasia é toda manobra que tem por finalidade evitar a perda de sangue - hemorragia - de uma ferida, acidental ou operatória. É complemento de toda técnica cirúrgica, pois nas incisões há sempre uma secção de vasos de maior ou de menor calibre. A hemorragia é um dos obstáculos que deve o cirurgião vencer em qualquer operação que efetue. O ideal é operar em campo exangue, para melhor visualização do campo. Por outro lado os pacientes têm resistência limitada à hemorragia que, quando copiosa, diminui grandemente esta resistência, favorecendo a instalação de infecção, bem como aumentando o perigo do choque operatório. Partindo deste princípio, a hemostasia é um dos processos profiláticos do choque. Para tomar-se conhecimento do tratamento das hemorragias, é necessário saber-se como classificá- las. Assim, as hemorragias podem ser classificadas em: 1. Segundo a localização: 1.1Externa: tipo de hemorragia que se exterioriza na superfície da área em que se intervém, sendo por este motivo de fácil diagnóstico. Geralmente, nas intervenções intra-orais, as hemorragias são externas. 1.2 Interna: tipo de hemorragia produzido numa cavidade fechada, sem que se exteriorize. O diagnóstico é feito pelos sinais clínicos apresentados pelo paciente. Ocorre raramente em intervenções realizadas na cavidade bucal. 2. Segundo a natureza do vaso: 2.1 Arterial: quando o sangue flui em jatos intermitentes que acompanham a pulsação arterial. Apresenta o sangue uma coloração vermelho-vivo. 2.2 Venosa: quando a hemorragia é contínua, apresentando o sangue uma coloração vermelho-escuro. 2.3 Capilar: também chamada de hemorragia em lençol, quando o sangue flui na superfície cruenta de modo difuso e contínuo, sendo aquela mais freqüente na cavidade bucal. Desta maneira pode-se deduzir que a hemostasia será mais facilmente coibida na lesão de uma artéria que de uma veia, pois no primeiro caso, o vaso seccionado poderá ser mais facilmente reconhecido que no segundo. 3. Segundo o momento da hemorragia: 3.1 Imediata: quando consecutiva ao traumatismo acidental ou operatório de um vaso. 3.2 Mediata: poderá ser por recorrência ou secundária. Por recorrência ocorre após algumas horas, ou ainda nas primeiras 24 horas após a intervenção, sendo possivelmente devida à hemostasia deficiente. Deve-se ainda a vasos não ligados, nos quais a circulação já tenha sido restabelecida diretamente por colaterais e anastomoses, sendo constatadas através de hematomas. A hemorragia secundária é, na grande maioria das vezes, conseqüência do rompimento de suturas, ocorrendo alguns dias após a intervenção cirúrgica. Causas das hemorragias: • Traumáticas; • Cirúrgicas; • Hipertensão - arteriosclerose; • Neoplasias; • Diáteses sangüíneas: • afecções hepáticas; • hemofilia; CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 221 • leucemia; • anemia perniciosa aplástica; • trombocitopenia; • telangiectasia hereditária e, • falta de vitaminas, principalmente C e K. • Tratamento das hemorragias - Hemostasia • O tratamento das hemorragias pode ser: • Profilático: quando realizado anteriormente ao ato cirúrgico para suprir deficiências dos elementos responsáveis pela coagulação. • Curativo: quando efetuado imediatamente no paciente, podendo ser: • De ordem geral: bem como o profilático é, necessário sempre que não se obtiver do paciente uma boa história clínica, ou ainda quando não a souber interpretá-la, ou mesmo quando é enviado com hemorragia acidental ou secundária. São utilizados os seguintes meios no tratamento de ordem geral bem como para o profilático: transfusão de sangue integral ou parcial, ou de plasma, dependendo, contudo, da causa da hemorragia ou do estado geral do paciente. Pode ser utilizada também a antibióticoterapia (após ser efetuada a hemostasia local), quando for observado que a causa da hemorragia foi uma infecção local pós-operatória, que destruiu ou lesou vasos da região interessada. Também pode ser empregada medicação anti-hemorrágica, de acordo com a causa determinante (adrenocromos, estrógenos, venenos de cobra, protrombina concentrada, vitamina K, ACTH e cortisona, etc.). • De ordem local: Este tratamento é feito sobre a região da hemorragia, podendo ser: medicamentoso, principalmente nas hemorragias em lençol ou capilares, e mecânico, que pode ser realizado por: • Pressão com substâncias hemostáticas: é colocada uma porção de gaze sobre a superfície sangrante, sendo feita compressão digital por alguns minutos. Este método é empregado para hemorragias em lençol, podendo ser usados os seguintes medicamentos: espuma de fibrina, esponja de gelatina e a celulose oxidada. Após esta aplicação o local deve ser perfeitamente suturado, sendo aconselhada a aplicação de gelo extra-oralmente. CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 222 • Laqueamento ou ligadura: Este tipo de hemostasia é usado para coibir hemorragias provenientes de vasos de maior calibre. A técnica é a seguinte: o vaso deve ser pinçado com uma pinça hemostática tipo mosquito pelo auxiliar que a levanta, com o objetivo de formar um pequeno pedículo. A seguir o cabo da pinça é baixado, sendo apresentada ao cirurgião sua ponta ativa, com o fio passando por baixo desta ponta, dando-se o primeiro nó para a fixação do pedículo. Após este nó, a auxiliar solta a pinça e o cirurgião dá o segundo nó, com o ajudante cortando os fios, deixando suas extremidades livres (Ver “Arsenal Cirúrgico”). • Eletrocoagulação: é o processo físico mais empregado atualmente para a hemostasia, podendo ser utilizado para as hemorragias em lençol e de artérias de pequeno calibre. O aparelho utilizado é o mesmo que para eletrocirurgia, variando a ponta ativa do bisturi e a intensidade da corrente. Para hemorragias em lençol usa-se ponta ativa esférica com baixa intensidade e alta freqüência, que permitirá coagular somente a superfície. Para hemorragias provenientes de vasos, pode-se pinçá-los com uma pinça hemostática, tocando-se com a ponta ativa do bisturi nas proximidades da ponta ativa da pinça. Por condução, coagula-se a luz do vaso. • Crioterapia: consiste em baixar a temperatura corporal com aplicação de gelo triturado sendo no homem nos testículos e, na mulher nas proximidades dos ovários, durante 15 a 20 minutos, controlando-se a temperatura do corporal do paciente. É providência para casos extremos, devendo ser levada a efeito com supervisão médica. Com este processo muitas vezes consegue- se coibir hemorragias graves. • Hemostasia de vasos intra-ósseos: • Quando a hemorragia é capilar usa-se o processo de compressão com gaze, simples ou associada a hemostáticos. Quando é proveniente de vasos de maior calibre, como não é possível fazer a ligadura, é usado um artifício que consiste no seguinte: localiza-se a região do vaso lesado e, com um instrumento rombo, faz-se CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 223 pressão sobre a superfície óssea para que as trabéculas ósseas se aproximem e obliterem sua luz. • Hemostasia dos alvéolos: • Pode ser feita com: • 1. Gaze sob pressão: toma-se um chumaço de gaze, com ou sem hemostático, colocando-o no alvéolo e, pedindo ao paciente para que morda durante alguns minutos. Casos mais simples são bem resolvidos desta maneira. • 2. Tamponamento: quando a hemorragia é mais difícil de ser debelada, toma-se gaze embebida com hemostáticos ou adrenalina a 1/1000 e se tampona o alvéolo, colocando a gaze em forma de sanfona no seu interior. Os tecidos moles das bordas do alvéolo são suturados para manter o tampão em posição. Dois dias após retira-se o tampão do local. • Conduta a seguir para o atendimento de portador de hemorragia acidental ou secundária: • 1. Preparar todo o material, instrumental e medicamentos, tão logo seja recebida a comunicação de encaminhamento de tal natureza. • 2. Chegando o paciente, procurar tranqüilizá-lo, e ao mesmo tempo limpando cuidadosamente sua face e boca. • 3. Por meio de uma aspiração e assepsia, observar o local sangrante, para determinar se a hemorragia é arterial, venosa ou capilar ou ainda, se proveniente de tecido mole ou ósseo, e qual a causa local ou geral determinante. • 4. Fazer aplicação dos métodos sugeridos e, de preferência sob anestesia. • 5. Somente liberar o paciente após o estancamento completo da hemorragia e, depois de havê-lo instruído convenientemente sobre o pós-operatório. • Hemostáticos: São substâncias capazesde sustar o derramamento de sangue - hemorragia. Alguns são aplicados localmente (hemostáticos locais), enquanto outros são introduzidos no organismo (hemostáticos gerais). • Alguns grupos locais: ácido tânico a 10% (tanino), ácido oxálico, esponja de gelatina, espuma de fibrina com trombina, celulose oxidada absorvível estéril, água oxigenada, percloreto de ferro e adrenalina. • Alguns hemostáticos gerais: vitaminas C, P e K, transfusão sangüínea, soro normal, plasma humano, solução fisiológica isotônica, sais de cálcio e extratos glandulares. • Nomes comerciais de alguns hemostáticos: botropase, hemostyl, flavonil, syncavit, zimoespuma, trombin tópico, hemostático rhesus, serpentase, adrenostase, kanakion, CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 224 trombovitan, vitarrutin, oxycel, tanino, neosinefrina, adrenoxil, gluconato de cálcio, rutina, vitamina C, coaguleno, gynergene, sucedâneos da vitamina K e anti- histamínicos. • Principais constituintes sangüíneos - Seus valores normais e interpretação clínica das suas variações: • 1. Elementos nitrogenados: • 1.1 Hemoglobina: • Normal: 13 a 18 g. • Aumento indica: policitemia, ciorréia grave, cianose. • Diminuição indica: anemias, moléstias parasitárias, tumores malignos e doenças infecciosas. • 1.2 Uréia: • Normal: 20 a 50 mg. • Aumento indica: glomerulonefrite aguda e crônica, nefrites tóxicas, nefrosclerose, obstrução intestinal, rim policístico e insuficiência cardíaca. • 1.3 Azoto uréico: • Normal: 9,6 a 17,6 mg. • Aumento indica: insuficiência renal e córtico-supra-renal, toxicose gravídica, obstrução intestinal, nefrite, uremia, peritonite, pneumonia e insuficiência cardíaca. • 1.4 Azoto total: • Normal: 22 a 29 mg. • Aumento indica: desidratação. • Diminuição indica: pletora hidrópica. • 1.5 Azoto não protéico: • Normal: 25 a 35 mg. • Aumento indica: nefrite, especialmente crônica. • 1.6 Ácido úrico: • Normal: 4 a 5 mg. • Aumento indica: insuficiência renal, eclampsia, diátese artrítica. • 1.7 Creatina: • Normal: 1,5 a 3 mg. • Aumento indica: graves moléstias musculares e diabete. • 1.8 Creatinina: • Normal: 1 a 2 mg. CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 225 • Aumento indica: insuficiência renal e descompensação cardíaca. • 1.9 Proteínas totais: • Normal: 6,5 a 7,9g. • Só as variações quantitativas consideráveis, juntamente com as modificações qualitativas das várias frações protéicas, têm valor clínico. • 1.10 Albumina: • Normal: 4,7 a 5,7 g. • Aumento indica: desidratação. • Diminuição indica: nefroses, nefrites agudas e desnutrição. Uma diminuição da albumina se observa fisiologicamente na gravidez. • 1.11 Globulina: • Normal: 1,46 a 2,54g. • Aumento indica: tumores malignos, nefroses, toxiinfecções, anafilaxia. O aumento da globulina se observa fisiologicamente na gravidez. • 1.12 Fibrinogênio: • Normal: 200 a 400 mg. • Aumento indica: pneumonia aguda, nefroses, carcinomas. • Diminuição indica: cirrose hepática e íleo- tifo. • 1.13 Bilirrubina: • A bilirrubina hepática normalmente não se encontra no sangue, aparecendo na icterícia obstrutiva infecciosa ou tóxica, nas moléstias hemolíticas e na necrose do pâncreas. • 2. Elementos inorgânicos: • 2.1 Cálcio: • Normal: 9 a 11,5 mg. • Aumento indica: hiperplasias ou tumores da tireóide. • Diminuição indica: tetania, diarréia, doença celíaca, raquitismo, osteomalácia, nefrose e paratireoidectomia. • 2.2 Cloro: • Normal: 335 a 376 mg. • Aumento indica: nefrite, eclampsia, hipertrofia da próstata ou prostática, cardiopatias, anemias, anestesia por éter. CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 226 • Diminuição indica: diarréia, diabete, vômitos, febre, pneumonia, policitemia, jejum e queimaduras. • 2.3 Fósforo inorgânico: • Normal: 3,7 a 5 mg. • Aumento indica: nefrite, hiperinsulinismo, formação de calo ósseo, hipervitaminose D, insuficiência renal. • Diminuição indica: raquitismo, osteíte fibrosa e osteomalácia. • 2.4 Magnésio: • Normal: 1,65 a 2,22 mg. • Aumento indica: paratireoidismo. • Diminuição indica: tetania. • 2.5 Potássio: • Normal: 16 a 22 mg. • Aumento indica: pneumonia, doença de Addison, infecções agudas, uremia. • Diminuição indica: hipertrofia córtico- supra-renal e desidratação. • 2.6 Sódio: • Normal: 315 a 340 mg. • Aumento indica: nefrite, obstrução pilórica. • Diminuição indica: déficit de substâncias alcalinas, doença de Addison e mixedema. • 3. Enzimas: • 3.1 Fosfatase ácida: • Normal: 0 a 1,1 unidade Bodansky. • Aumento indica: metástases ósseas do carcinoma da próstata. • 3.2 Fosfatase alcalina: • Normal: 2 a 34 unidades Bodansky. • Aumento indica: icterícias obstrutivas, colecistites, cirrose biliar, raquitismo, osteomalácia, doença de Paget, hiperparatireoidismo e tumores ósseos. • 3.3 Transaminases: • Glutâmico-oxalacética: • Normal: 8 a 40 unidades espectrofotométricas. • Glutâmico-pirúvica: • Normal: 5 a 35 unidades espectrofotométricas. • Quando alteradas: hepatite viral (inversão entre as duas transaminases) e em outras CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 227 formas de hepatopatias e nas necroses de tecidos ricos das duas enzimas, que passam na circulação (enfarte do miocárdio, pancreatite hemorrágica, arteriopatias com gangrena, etc...). • 4. Elementos glicídicos: • 4.1 Glicose: • Normal: 80 s 110 mg. • Aumento indica: diabete, hipertrofia córtico-supra-renal, feocromocitoma, hipertireoidismo. • Diminuição indica: hiperinsulinismo, insuficiência córtico-supra-renal e glicogenólise. • 5. Elementos lipídicos: • 5.1 Lípides totais: • Normal: 385 a 675 mg. • Aumento indica: xantomatose, arteriosclerose, diabete, hipotireoidismo e nefrose lipóide. • 5.2 Colesterol total: • Normal: 150 a 230 mg. • 5.3 Colesterol esterificado: • Normal: 65 a 75 mg. • Aumento indica: nefrose, hipotireoidismo, diabete e colecistite. • Diminuição indica: doenças caquéticas, hipertireoidismo, anemia perniciosa e infecções. • Principais vitaminas, avitaminoses correspondentes, características mais importantes do quadro carencial no homem, mecanismo de ação e fontes naturais: • 1. Classe de vitaminas hidrossolúveis: • 1.1 Vitaminas do complexo B: • Vitamina B1 ou tiamina: • Avitaminose: beribéri ou doença dos comedores de arroz. • Característica principal: polineurite. • Mecanismo de ação: atua na descarbozilação do ácido pirúvico. • Fontes naturais: germe de trigo, farinha integral de cereais, legumes, levedura de cerveja, ovos, fígado, coração e rins, porco magro e verduras. • Vitamina B2 ou riboflavina: • Avitaminose: arriboflavinose. CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 228 • Característica principal: queilite e córnea vascularizada. • Mecanismo de ação: componente de sistemas óxido-redutores, essenciais para o metabolismo celular. • Fontes naturais: germe de trigo, fígado, levedura, folhas verdes, ovos, leite e carne magra. • Vitamina B6 ou piridoxina: • Avitaminose: dermatite dos ratos ou acrodinia. • Característica principal: conjunto de fenômenos a cargo do sistema nervoso central, da cútis e do sangue. • Mecanismo de ação: intervém no metabolismo dos aminoácidos, na síntese de gorduras, das proteínas e na formação da 5- hidroxitriptamina. • Fontes naturais: cereais integrais, levedura, fígado, músculos erins, ervilhas e leite. • Vitamina PP ou nicotinamida: • Avitaminose: pelagra ou doença dos comedores de fubá de milho. • Característica principal: estados demenciais, dermatite e gastrenterocolite. • Mecanismo de ação: faz parte de sistemas de desidrogenação. • Fontes naturais: fígado, levedura, carne magra, batata-doce, cenoura, trigo integral, leite, ovos, peixe e amendoim. • Ácido pantotênico: • Avitaminose: dermatite dos frangos, acromotriquia dos ratos. • Característica principal: síndrome do pé quente, incoordenação motora, hipocalcemia e perturbações gastrointestinais. • Mecanismo de ação: coenzima da acetilação. • Fontes naturais: é largamente difundido nos alimentos. • Vitamina H ou biotina: • Avitaminose: dermatite seborréia dos ratos. • Característica principal: seborréia da criança de peito. • Mecanismo de ação: coenzima das reações de carboxilação. CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 229 • Fontes naturais: trigo e sementes de muitas plantas, levedura de cerveja, fígado e rins. • Vitamina H1 ou ácido p-aminobenzóico: • Avitaminose: parada do desenvolvimento de muitas espécies bacterianas. • Característica principal: descoramento do pelo dos ratos. • Mecanismo de ação: princípio essencial para o metabolismo de muitos microorganismos. • Fontes naturais: levedura de cerveja, fígado e germe de trigo. • Ácido fólico ou ácido pteroilglutânico: • Avitaminose: não tem nome característico, mas corresponde à anemia (macrocítica e megaloblástica). • Característica principal: anemia. • Mecanismo de ação: é necessário para a síntese de nucleótides precursor dos ácidos nucleínicos. • Fontes naturais: folhas verdes, couve-flor, fígado e levedura de cerveja. • Vitamina B12 ou cianocobalamina: • Avitaminose: anemia perniciosa progressiva. • Característica principal: anemia macrocítica megaloblástica, acloridria, degeneração de feixes medulares. • Mecanismo de ação: fator de maturação eritroblástica. • Fontes naturais: fígado cru, extratos de fígado e atividade metabólica de certos microorganismos. • 1.2 Vitaminas do complexo C: • Vitamina C ou ácido ascórbico: • Avitaminose: escorbuto ou doença dos marinheiros. • Característica principal: dentes abalados, hemorragias e tumefação gengival. • Mecanismo de ação: é essencial à formação de substâncias intercelulares dos tecidos de derivação mesenquimática e à consolidação dos capilares. • Fontes naturais: frutas cítricas frescas, caju, tomate cru, pimentões e pimenta, saladas verdes, batatas. • Vitamina P ou rutina: CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 230 • Avitaminose: não apresenta denominação normal. • Característica principal: traduz-se por uma exagerada fragilidade e permeabilidade capilar, com pequenas perdas sangüíneas, espontâneas ou por causas desproporcionais. • Mecanismo de ação: fator de economia e de potencialmente da vitamina C, por diminuir-lhe a eliminação e destruição oxidativa. • Fontes naturais: é extraída de muitos vegetais, mas é do trigo sarraceno que vem sido obtida comumente. • 2. Classe de vitaminas lipossolúveis: • Vitamina A ou axeroftol: • Avitaminose: xeroftalmia ou cegueira crepuscular. • Característica principal: secura da conjuntiva e da córnea, lenta adaptação à obscuridade, distrofia dos epitélios. • Mecanismo de ação: necessária à regeneração da púrpura visiva na retina, bem como ao desenvolvimento e à maturação das células epiteliais. • Fontes naturais: leite, manteiga, queijo, fígado, ovos, óleo de fígado de peixe (principalmente o bacalhau) e, vegetais verdes (nos quais está presente sob a forma de provitamina A ou beta-caroteno). • Vitamina D ou ergocalciferol: • Avitaminose: raquitismo ou doença dos países brumosos. • Característica principal: defeituosa calcificação dos ossos. • Mecanismo de ação: condiciona a absorção de cálcio e sua fixação nos ossos. • Fontes naturais: óleo de peixe (principalmente bacalhau), gema de ovo e ação da luz solar sobre a pele. • Vitamina E ou alfa-tocoferol: • Avitaminose: não apresenta denominação característica, sendo causa de esterilização no rato macho e de aborto ou morte do feto (com sua sucessiva reabsorção) na fêmea. • Característica principal: aborto habitual, distrofias musculares, inclusive do miocárdio. CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 231 • Mecanismo de ação: é ainda obscura a natureza de ação da vitamina E sobre a estrutura dos músculos, dos testículos e do tecido fetal. • Fontes naturais: certas verduras foliáceas, óleos vegetais, óleo de germe de trigo, carne, leite, manteiga, queijo e ovos. • Vitamina K ou menodiona: • Avitaminose: hipoprotrombinemia. • Característica principal: prolongamento do tempo de coagulação do sangue, determinando às vezes, hemorragias. • Mecanismo de ação: aumenta a taxa de protrombina. • Fontes naturais: folhas verdes, alfafa, espinafre, repolho, urtiga, gordura de fígado e proteínas em putrefação. SÍNTESE Após a realização da diérese, na maioria das vezes, é necessário restabelecer-se a continuidade dos tecidos, sendo isto conseguido através da síntese. Por síntese dos tecidos entende-se o conjunto de manobras realizadas pelo cirurgião para aproximá-los de tal forma a coaptá-los o melhor possível, favorecendo a perfeita e rápida cicatrização da ferida cirúrgica. Esta sutura poderá ser imediata ou mediata, sendo a primeira durante o ato cirúrgico e, a segunda a posteriori, uma vez que a limpeza e a boa granulação da ferida assim o requeiram. Na cirurgia bucal existem duas correntes antagônicas com relação à sutura: a primeira, daqueles que não adotam esta manobra e a segunda, daqueles que a realizam sistematicamente. As razões apresentadas pelos partidários da sutura como rotina são as seguintes: 1. prevenção de acidentes hemorrágicos pós-operatórios, particularmente do mais freqüente tipo de hemorragia pós-exodôntica, a capilar. 2. proteção do alvéolo, exposto em algumas exodontias, favorecendo formação e manutenção do coágulo neste alvéolo. 3. manutenção do retalho em posição. 4. prevenção da entrada no alvéolo, de microorganismos, afastando possível infecção. Muito embora apenas estes argumentos já bastem para indicação da sutura, é necessário que em cirurgia o profissional seja eclético, adotando meio- termo e “bom senso”, utilizando este recurso cirúrgico quando necessário e imprescindível. As condições a serem seguidas para a realização de uma boa sutura e, que são fundamentais para a obtenção de rápida cicatrização da ferida, são as seguintes: 1. correta assepsia e anti-sepsia. 2. perfeita hemostasia. CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 232 3. bordas retas ou bem regulares e nítidas. 4. material e instrumental delicado e adequado. 5. técnica delicada. 6. tração moderada. 7. pontos em número suficiente e nos locais mais aconselháveis. 8. coaptação plano a plano. 9. indicação correta do tipo de sutura mais aconselhável. Para serem corretamente realizadas devem ser muito bem treinadas preferentemente em locais onde se podem observar suas características estéticas e de perfeito domínio da técnica. Assim, elas poderão ser treinadas em pranchas confeccionadas com madeira e feltro (Fig. III. 37), na laranja (Fig. III. 38) e, em língua de vaca (Fig. III. 39). Assim o profissional ou o aluno poderá ter uma perfeita destreza para realizarem de modo correto todasessas manobras que exigem muita presteza, técnica e domínio do instrumental. As suturas são realizadas com porta-agulha, agulhas e fios, podendo classificar-se da seguinte maneira (Ver “Arsenal Cirúrgico”) (MARZOLA, 2000): Fig. III. 37 – Aspecto do treinamento realizado em modelo para maior destreza na confecção de uma sutura e de nós cirúrgicos. A B Fig. III. 38 – (A) Aspecto do treinamento realizado em laranja para maior adestramento na confecção de uma sutura (B) e de nós cirúrgicos. CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 233 Fig. III. 39 – Aspecto do treinamento efetuado em língua de vaca para um maior adestramento na confecção de suturas e de nós cirúrgicos. • 1. Quanto à localização: • 1.1 Superficiais: Denomina-se sutura superficial aquela realizada no plano dos tegumentos, compreendendo, portanto pele e tecido celular subcutâneo (Fig. III. 40). • 1.2 Profundas: A sutura profunda tem lugar a partir do plano aponevrótico (Fig. III. 41). Fig. III. 40 – Representação esquemática de uma sutura superficial. Fig. III. 41 – Representação esquemática de uma sutura profunda. • 2. Quanto à forma de reunir os tecidos: CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 234 • 2.1 Em massa: A sutura em massa consiste em englobar com cada fio todos os planos que o cirurgião interessou na diérese. É uma sutura pouco utilizada na cirurgia oral. É um tipo de sutura aplicável em casos de urgência, servindo para aproximar os planos. Por ser pouco anatômica e deixar espaços mortos, tem escassa aplicação (Fig. III. 42). Fig. III. 42 – Representação esquemática de uma sutura em massa. • 2.2 Por planos: É a ideal, porquanto realiza uma síntese anátomo-fisiológica, evitando assim espaços livres entre os tecidos (Fig. III. 43). Fig. III. 43 – Representação esquemática de uma sutura por planos. • 2.3 Mista: É aquela que reúne tecidos com pontos em massa e por planos alternadamente, sendo freqüentemente usada em cirurgia de lábio, nas exéreses ou ainda em casos de acidente (Fig. III. 44). Fig. III. 44 – Representação esquemática de uma sutura mista, podendo-se notar também o ponto de Donati de sustentação e coaptação. CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 235 Quadro III. 4- Fatores de coagulação com os respectivos sinônimos. FATOR DE COAGULAÇÃO SINÔNIMO Fibrinogênio Fator I Plaquetas Fator plaquetário 3 Protrombina Fator II Fator V Pró-acelerina; fator lábil; Ac-globulina: Ac-G. Fator VII Acelerador sérico da conversão da protrombina: SPCA; pró-convertina; autoprotrombinal. Fator VIII Fator anti-hemofílico: AHF; globulina anti-hemofílica: AHG. Fator IX Componente tromboplastínico plasmático: PTC; fator Christmas: CF; autoprotrombina II. Fator X Fator Stuart; fator Stuart Prower; fator Proxer; autoprotrombina Ic. Fator XI Antecedente plasmático da tromboplastina: PTA. Fator XII Tromboquinase; tromboplastina completa. • 3. Quanto à disposição dos fios: • 3.1 Por pontos separados ou simples: Este tipo de sutura é dos mais utilizados. Apresenta sobre o surjet a grande vantagem de permitir, em casos de necessidade, a abertura parcial da ferida para a saída de exudatos ou coleções purulentas, ou ainda a colocação de drenos, bastando para isso seccionar um ou mais pontos, sem que o restante da sutura venha a soltar-se. Isto não ocorre com o surjet, no qual o seccionamento de um ponto determinaria um afrouxamento de toda a sutura. São conhecidos os seguintes tipos de sutura por pontos separados (Fig. III. 45): Fig. III. 45 – Representação esquemática de uma sutura simples. • Sutura de pontos separados simples: são dados pontos interrompidos e um nó em seguida, sendo cortadas as extremidades do fio. Estas suturas podem ser treinadas em laranja para maior destreza do profissional ou na língua, como já foi visto anteriormente (Fig. III. 37, 38 e 39 ). CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 236 • Sutura por pontos em X: Da mesma maneira que a anterior somente que é dado um ponto em cruz, que poderá ficar por cima do tecido ou abaixo dos tecidos. • Sutura por pontos em U: Da mesma maneira que na sutura contínua, somente que cortando o fio em toda a volta do U. • Sutura capitonada: Procede-se da seguinte maneira: introduz-se uma gaze numa das alças que forma o fio, tanto de um lado como do outro, podendo em lugar da gaze ser utilizado um pedaço de borracha, botão, etc. Estas suturas capitonadas são muito empregadas quando há necessidade de serem coaptadas superfícies espessas, resistentes e separadas, nas quais o ponto simples fracassaria pelo seccionamento dos tecidos. • Sutura com pontos de Donati: O objetivo é evitar a inversão dos lábios da ferida. Donati idealizou o ponto também denominado de duplo U vertical da seguinte maneira: 2 cm da borda cruenta a agulha é introduzida, emergindo a igual distância na outra borda, sendo a continuação feita por um segundo ponto saindo a poucos milímetros desta segunda borda e penetrando a igual distância na primeira, suturando-se as duas extremidades na mesma região onde foi iniciada a sutura (Fig. III. 44). • 3.2 Contínuas: São suturas com pontos comuns, empregadas no tecido celular subcutâneo e, em cirurgia bucal, geralmente nas alveoloplastias extensas (Fig. III. 39) (MARZOLA, 2000). Segundo a maneira com que o fio é passado entre as margens da ferida distinguem-se vários tipos: • Sutura em surjet simples ou espiral: é a mais simples e rápida dentre todas, sendo indicada quando os lábios da ferida não são muito espessos e estão separados e ainda quando não há perigo de infecção. É também chamada de sutura em espiral. • Sutura do ponto passado (Doyen): quando o surjet é muito comprido, convém assegurar a fixação da sutura que foi feita, evitando que ela se afrouxe. O surjet é praticado como de rotina, contudo a cada 3 ou 4 pontos, a agulha é passada no ponto anterior, dando-se um nó a fim de ficar firme, continuando normalmente a sutura. É pouco utilizada em suturas da cavidade bucal. • Sutura festonada (Reverdin): É assim denominada pelos franceses, representando excelente método de sutura contínua, pois que realiza a coaptação muito firme e exata dos tecidos. Realmente, é um surjet simples, no qual todos os CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 237 pontos foram passados sobre o anterior ou sobre ele mesmo. O fio, como em toda sutura contínua, deverá ser mantido em tensão durante todo o procedimento. É o tipo de sutura contínua mais realizado em cirurgias orais extensas, principalmente por ser muito estética. • Sutura retrógrada ou do ponto atrás: É um surjet no qual cada 2 ou 3 pontos são intercalados por um ponto cruzado. • Sutura em zigue-zague ou em barra grega: Neste tipo de sutura, as porções visíveis do fio, ao invés de cruzarem o leito da ferida como nos tipos anteriores, conservam-se paralelas àquele. É uma sutura contínua de pontos em U. • 4. Quanto ao material utilizado: • 4.1 Fios absorvíveis: ETHICON* - VICRYL* 4-0 DG - DAVIS + GECK - T - 16 ETHICON*-4- 0-CROMADO ETHICON* - 3-0 SIMPLES ETHICON* - 3-0 SIMPLES Gastrointestinal (poligalactina910) violeta trançada - 70 cm - estéril Gastrointestinal 7217-41 Dexon*-Sutura ácido poliglicól. verde, sintética, absorvível, estéril trançada - 70 cm Especial torcido absorvível - 45 cm. Gastrointest. - G- 44103 - Absorvível - 70 cm. CS - 113 - Absorvível - 2,5 m. • 4.2 Fios não absorvíveis: CIRUMÉDICA* - SEDA 4-0 CIRUMÉDICA* - SURGILENE ETHICON*- ALGODÃO 2-0 ETHICON* - 5-0 ETHICON* - VICRYL 3-0 V-24203, vascular, preta, trançada, siliconizada, não absorvível - 75 cm. Poliéster, trançado, siliconizado, verde 3-0, 45 cm. Cuticular - Algodão/ algodón preto/negro torcido/ trançado - 45 cm. B-1102 - nylon - incolor - monofilamento- 45 cm. Gastrointest. (poligalactina 910) - violeta - trançado - 70 cm. * Marca de Indústria e Comércio • 5. Quanto aos tipos de nós empregados (Fig. III. 46) (MARZOLA, 2000): • 5.1 Nó simples: é aquele executado com o auxílio do porta-agulha. CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 238 • 5.2 Nó de cirurgião: é aquele executado com o auxílio dos dedos, sendo de mais fácil manobra. • 5.3 Nó triplo com travamento: é aquele executado para tratamento com fios à base de polietileno. C B A Fig. III. 46 – (A) Tipos de nós utilizados, destacando-se o nó simples, (B) o nó de cirurgião (C) e o nó triplo. • 6. Quanto à permanência dos fios: • 6.1 Transitória: quando depois de alguns dias o fio deverá ser eliminado. A técnica para a retirada do fio de sutura é a seguinte: • 1. passa-se algodão com anti-séptico com a finalidade de praticar-se uma anti-sepsia local, que é muito importante. • 2. toma-se a pinça de dissecção, apreendendo uma extremidade do fio e tracionando-o. • 3. com uma tesoura de ponta fina, seccionasse o fio junto à mucosa. • 4. continua-se a tração até sua completa eliminação. • Em algumas oportunidades a retirada dos pontos torna-se difícil devido a uma retração cicatricial ou, uma aderência do tecido. Nestes casos, deve-se retirar o ponto o mais depressa possível, usando a tesoura com o máximo de cuidado para não traumatizar os tecidos. • Nas suturas contínuas, corta-se somente uma volta da espiral em todo seu trajeto, para evitar a penetração de resíduos alimentares para dentro da loja cirúrgica, por este motivo é que se reveste de grande importância a anti-sepsia anteriormente à retirada dos pontos. • 6.2 Definitiva: quando o tipo de fio utilizado assim o permitir, sendo empregada apenas para suturas abandonadas no interior dos tecidos. CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 239 Princípios gerais para uma sutura • 1. Quando o plano de sutura é profundo, e não podendo exteriorizar-se, usam-se agulhas curvas, sendo que a sutura deverá ser iniciada da esquerda para a direita, de acordo com a posição da ferida. • 2. Não deixar nós sobre a linha de incisão, que provocaria deiscência de sutura ou retrações cicatriciais. • 3. Se o plano for superficial, pode ser empregado qualquer tipo de agulha curva ou reta. O tipo de sutura deverá ser por pontos separados ou contínuos. • 4. Não deixar osso exposto ou desprotegido, que viria prejudicar sensivelmente a cicatrização da ferida. • 5. A sutura deverá ser realizada sempre se partindo do retalho móvel para o fixo. • 6. Quando a ferida é extensa, aconselha-se a colocação do primeiro ponto na metade dela, para facilitar a perfeita coaptação de seus lábios, além da sutura inicial em suas extremidades iniciais. Em seguida deverão ser aplicados os pontos remanescentes em cada um dos segmentos formados. • 7. Dentes vizinhos poderão ser usados, em alguns casos, como ancoragem. • 8. Em toda sutura deve-se tomar a mesma quantidade de tecido nas duas bordas da ferida. • 9. Para que uma ferida tenha bons resultados cicatriciais, é necessário que a incisão seja bem planejada. OSTEOSSÍNTESE É assim denominada a reunião cruenta de dois fragmentos ósseos, por meio de fios ou placas metálicas (Figs. III. 47 e III. 48). Poderá também ser empregada para unir uma prótese interna à porção restante da mandíbula ou maxila, após sua ressecção parcial, ou para manter em seu lugar um enxerto ósseo. A grande porcentagem de fracassos nas osteossínteses deve-se a seu emprego em pessoas com idade avançada, diabéticos ou ainda quando existe qualquer tipo de infecção local ou geral. Como causa local destes insucessos, pode- se apontar a mobilidade dos fragmentos ósseos e, necrose óssea no local em que são realizadas as perfurações para a passagem dos fios metálicos ou parafusos. A técnica para a osteossíntese consiste no seguinte: após a realização da incisão, desloca-se o tecido muco-perióstico junto à fratura e, com o auxílio de brocas esféricas perfura-se a mandíbula em dois pontos eqüidistantes em ambos os fragmentos, de modo que a reta que passe pelos dois orifícios fique perpendicular à linha de fratura. Deve-se proceder assim, para que o fio metálico fique bem fixado e mantenha as superfícies da fratura bem coaptadas. Após, com porta-agulha ou pinça hemostática, passa-se o fio pelos orifícios e com alicate prendem-se as duas pontas do fio, torcendo-o até que fique bem adaptado às superfícies ósseas e, que as mesmas também estejam bem resolvidas. Corta-se o excesso de fio, adaptando as pontas CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 240 junto ao orifício para não traumatizar os tecidos moles da região. Os retalhos são colocados em posição e suturados, para que o osso fique protegido do meio bucal. A osteossíntese pode também, ser realizada com placas, mini e micro- placas de vitallium ou de titânio, sendo a técnica efetuada da seguinte maneira: preparam-se as placas que se adaptem perfeitamente à superfície da mandíbula, perfurando-se suas extremidades, ou quantas vezes for necessária devido ao tamanho da placa utilizada. Em seguida as placas são adaptadas ao osso, fixando-as com parafusos também de vitallium ou de titânio. A B Fig. III. 47 – (A e B) Osteossíntese realizada na mandíbula utilizando-se de fios de aço. A B Fig. III. 48 – (A) Osteossíntese realizada na mandíbula utilizando-se de placas (B) e miniplacas. Quando houver fratura com perda de substância óssea ou for realizada uma mandibulectomia segmentar, procede-se de modo semelhante ao caso anterior, utilizando-se para isto uma placa de reconstrução, para que os fragmentos sejam ligados à placa, podendo-se colocar no interstício enxerto ósseo para produzir uma perfeita consolidação do local. Nestes casos a sutura ou a osteossíntese poderá ser definitiva (ZORZETTO; MARZOLA, C.; TOLEDO FILHO, J. L. et al., 1998; TOLEDO FILHO; MARZOLA; PASTORI et al., 1998; PASTORI; MARZOLA; TOLEDO FILHO et al., 1998; MARZOLA; TOLEDO FILHO; PASTORI et al., 1998). o0o CLÓVIS MARZOLA CAPÍTULO III PRINCÍPIOS GERAIS E FUNDAMENTAIS DA CIRURGIA 241 REFERÊNCIAS 1. AIDS - Manual sobre manifestações bucais e controle de infecção. GT AIDS. Rede CEDROS. 1992. Cadernos de Saúde Bucal, 3. 2. ALVES-REZENDE, M. C. R.; LORENZATO, F. Efeito da desinfecção por aerossóis sobre a capacidade de umedecimento de moldes de poliéster por gesso tipo IV. Rev. Odont. Univ. S. Paulo, v. 13, n. 4, p. 363-7, out.,/dez., 1999. 3. ANDERSON, J. Fisiologia para dentistas, Rio de Janeiro: Ed. Científica, 1957. 4. APRILE, E. C. Anatomia y fisiologia patológica bucodental. Buenos Aires: Ed. Ateneo, 1954.5. ARCHER, W. H. A manual of oral surgery. 4a ed. Philadelphia: W. B. Saunders Co. 1966. 6. 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