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1 Em: RANGE, B. (org) (1998). Psicoterapia Comportamental e Cognitiva de Transtornos
Psiquiátricos. Campinas: Editorial Psy.
UM MODELO COMPORTAMENTAL DE ANÁLISE DE SONHOS1
HÉLIO JOSÉ GUILHARDI
Instituto de Terapia por Contingências de Reforçamento
Uma cliente, apó s a morte de um amigo muito que rido, disse numa sessão:
“Tenho sonh ado demais c om M, eu que não c ostumava sonhar... O q ue está
acontecendo comigo?” Respondi que ela tem pensado muito no M, tem
sentido sua f alta, falado muito sobre ele, lido s uas cartas..., portanto, que
de estranho em também ter sonhado com ele? O sonho é uma das muitas
formas de se c omportar e m relação ao M e mantê-lo vivo e p resente em s ua
vida.
Alunos de psic ologia, e a mesmo profissionai s, ao terem cont ato com a Análi se
Experimental do Comportamento e c om algumas versões do beha viorismo, têm-se
perguntado o que a Terapia Comportamental faz com os eventos internos, como os conceitua
e como lida co m eles num contexto clínico. Respostas insatisfatórias a essas questões têm
levado um importante c ontingente de estudiosos a se desinteressarem da p roposta
comportamental para a tuação clínica, bem como têm produzido e sedimentado crí ticas,
muitas delas infundadas, contra o behaviorismo. A posição de Skinner (1974), explicitando
que o behaviorismo radical, difere ntemente de outras versões do behaviorismo, não ignora os
eventos internos (pensamentos, fantasias, sonhos etc.), trouxe um alívio para os seus
seguidores, em particular àqueles que atuam em clínica.
“Skinner e screveu ex tensamente sobre o c omportamento humano complexo, e laborando
intrigantes análises conceituais e, se guramente, mais da meta de dos seus textos referem-se a
análises funci onais não experimentais, isto é, à identificação (ou tentativa) de variáveis
dependentes e independentes e de processos de i nteração em exemplos de comportamento
humano” (Todorov, 1982).
No entanto, Skinner não se propôs e não f ez in cursões sistemáticas pelo universo c línico,
não fornecendo, p ortanto, um modelo teórico-experimental diretamente voltado à prática
clínica. Sua proposta é abran gente e inclui a atuação terapêutica, se assim se desejar, de
forma q ue a transposição das a nálises ski nnerianas para o c ontexto terapêutico ficou como
uma ta refa a ser desenvolvida po r a queles diretamente i nteressados nesse de safio. O presente
texto representa um esforço ne ssa direção. Tem por objeti vo exp licitar c omo a análise de
eventos internos, em particular os sonhos, pode ser formulada de ntro do contexto do
behaviorismo radic al e apresenta um modelo preliminar de como a análise dos sonhos pode
ser incorporada ao conjunto de recursos terapêuticos disponíveis ao te rapeuta
comportamental, com orientação behaviorista radical.
Ecletismo teórico versus ecletismo técnico
Tem havido, infelizmente, e ntre os terapeutas c omportamentais, uma cresce nte
preocupação com te mas ecléticos, mesc lando linguagens, conceitos e, até mesmo, objetivos
de dife rentes linhas teóricas, inflando o arsenal de rec ursos teóricos e práticos ao qual
recorrem os terapeutas. Pode-se argumentar que a aproximação de terapeutas de diferentes

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orientações t eóricas c om práticas clínicas diversas é um progresso, po is favorece a mútua
influência. Essa prática tem um apelo extremamente atraente para os alunos de psicologia, e
parece ser a panacéia pa ra as diversida des peculiares da disciplina psicológica. Esta
tendência, porém, é perigosa, equivocada e deve ser evitada.
Que razões levariam o terapeuta comportamental a abraçar este tipo de ecletis mo?
Pressões conceituais e metodol ógicas por parte da comunidade profissional (terapeutas,
pesquisadores, estudantes) e prática s, vindas dos cl ientes que buscam alívio para seus
problemas, têm f orçado o terapeuta comportamental a enfrentar o desafio de e xplicitar c omo
tem lidado com os f enômenos comportamentai s internos. Sua dificuldade (devido a
treinamento terapêutico inadequado e embasamento teó rico deficiente) em e ncontrar, d entro
do seu próprio modelo concei tual, respostas para lidar com e sses fenômenos psicol ógicos
internos dei xam-no desamparado para manejar conc retamente boa pa rte do material clínico
trazido pelos clientes. A busca de al ternativas em ou tras propos tas teóricas parece ser um
comportamento do tipo fuga-esquiva em que se engaja o terapeuta, diante da situação
aversiva de t er que lidar c om as pressõ es práticas , por part e do c liente, e conceituais, por
parte da comunidade profissional.
O fa to de ser difícil trazer para o cont exto clínico a análise dos comportamentos
encobertos não significa dizer que o beha viorismo radical não ab range a análise dos
fenômenos internos com utilidade clínica. Compreende-se, porém, a dificuldade. Basta
observar o que é ensinado nos cursos de Psicologi a para, facilmente, se constatar que o aluno
não é p reparado para tal nível de a nálise. Há carência de textos disponíveis e de centros de
treinamento para os terapeutas comportamentais. Disso resulta um contexto peculiar: se, por
um lado, o beha viorismo radical inclui a análise, compreensão e possível manejo dos
fenômenos comportamentais internos, como e onde se apre nde a fazer isso? Os cursos de
treinamento e supervisão deveriam incluir essa aprend izagem (Guilhardi, 1982). A situação
hoje não é muito dife rente da constatada por Swan e MacDonald (1978) que, ao questionarem
353 membros da AABT, concl uíram que uma perturbadora disparidade entre a terapia
comportamental, como é e nsinada e pes quisada, e a maneira pela qual é implementada na
prática.
O ecletismo t eórico representa, portanto, um e xemplo de c omportamento de fuga-
esquiva, que a fasta o terapeuta c omportamental do seu papel mais genuíno: trazer para a
situação clínica a proposta c onceitual ski nneriana de c omo l idar com fenômenos internos.
Uma p roposta t eórica s ó pode ser criticada e desenvolvida a partir de seu próprio refe rencial,
isto é, o behaviorismo rad ical pode c rescer e se r ever com o en gajamento, por parte de
seus a deptos, na pesquisa e na reflexão c rítica sobre seus conceitos. De nada adianta para o
desenvolvimento de u m corpo sistemát ico de conhecimentos a debanda da para outras
propostas teóricas, conceituais e p ráticas. Perde a abo rdagem, perde a Psicologia. Branch
(1987) fe z uma distinção útil entre ecletismo teórico (este i naceitável) e ecletismo
tecnológico.
“Ecletismo (teórico) pode parecer sedutor, pa recer mesmo um exemplo de
‘mente aberta’, mas é inócuo. O desen volvimento e a compreensão de uma
posição teórica é uma tarefa árdua, mas é e xatamente esse esforço que leva
ao avanç o científico (e, portanto, tecnológico). Ter uma visão unificada
promove consi stência por pa rte do terapeuta e permite teste e refinamento
(ou até mesmo abandono) de sua visão com a progressiva experiência.
Assumir uma posição teórica faz com que o terapeuta se torne um
participante pleno da empreitada a q ue chamamos ciência” (Branch, 1987,
pp. 79 e 80).

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Algumas conceituações teóricas sobre sonhos como eventos privados
Os sonhos se mpre f asci naram a s pess oas e e stiveram envol vidos e m auras místicas. Dois
tipos de questões básicas s urgem para aqueles que o estudam: o que é o sonho e qual a sua
natureza, por um lado; qual o se u significado e o que representam, por outro. fascinantes
ensaios sobre os sonhos, propostos por Freud e Jung, par a ci tar dois exemplos mais
conhecidos e influentes.
Para o be haviorismo radic al, sonhar é comportar-se. O sonho é conceituado como um
comportamento como qualquer outro, sujeito, portanto, às mesmas leis que os
comportamentos manifestos. Na sua manifestação e ncoberta ou interna é ace ssível ao
indivíduo que s onha. Para se ter acesso a ele e poder estudá-lo há necessidade do uso da aut o-
observação (uma forma de i ntrospecção) e o relato verbal . A introspecção, aqui, não é a
mesma das escolas mentalistas porém, p ois se q uestiona m a natureza do que é
“introspecionado” e a fidedignidade das obse rvações. Não se trata da busca dos eventos
mentais; o que se obser va é o próprio organismo. Não se trata de uma pe squisa fisiológica,
que esse não é o objeto de e studo da psicologia. O que o sujeito (que sonha) observa, via
introspecção, não é nenhum mundo imat erial d a consciência, da mente ou da vida mental
mas, uma manife stação, u ma classe de comportamentos emitida pelo próprio corpo do
observador (Skinner, 1974, pp. 16 e 17).
O f ato de um indivíduo se comportar durante o sono não deve causar estranheza.
exemplos de discriminações durante o sono: uma mãe acorda com o balbuciar de seu filho
(SD para comportamento de atendê-lo) e não ac orda diante de um ruído mais intenso que nã o
tem fu nção discriminativa para seu comportamento de acordar. As pessoas fazem
discriminações t emporais durante o sono e são capazes de aco rdar no mesmo horá rio sem o
uso de despertadores; acordam, mesmo, em horários n ão usuai s quando se propõem a fa zê-lo,
sem necessidade de relógios. O organismo, dura nte o s ono, também se comporta. Não
razão para supor qu e os comportamentos, dura nte o sono, sejam regidos por leis diferentes
daquelas que operam na vigília. A topografia e magnitude das respostas podem ser diferentes,
mas não sua natureza. Os sonhos pode m ser conceituados como comportamentos perceptivos
que ocorrem durante o sono. O relato do sonho é um comportamento verba l, sob controle de
estímulos verbais e ambientais, presentes no momento do relato.
Para um melhor entendimento de c omo conceituar o s s onhos (evento privado) é
esclarecedor lembrar como o beh aviorismo radical lida com termos, conceitos e construtos.
Segundo Skinner (1945, pp. 274 e 275),
“ganha-se uma c onsiderável vantagem ao lida r com eles na forma em que
são observados: como respostas verbais. Significa dos. conteúdos e
referências devem ser encontrados ent re os determinantes da resposta e, não
entre suas propriedades. Uma classe de respostas verbais não é definida
por sua f orma fonética, mas por suas relações funcionais. O que se deseja
saber no caso de muitos te rmos psicológicos tradicionais é , primeiramente,
as condições estimuladoras específicas sob a s quais eles s ão emitidos (isto
corresponde a “encontrar os referentes”) e, em segundo l ugar (e esta é uma
questão sistemática mais importante) por que uma res posta é co ntrolada por
sua condiçã o correspondente. O indi víduo adquire a linguagem a partir da
sociedade, mas a ação reforçadora da comunidade verbal continua a
desempenhar um papel importante na manutenção das re lações específicas