A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
138 pág.
sebenta Morfologia-e-Citologia-da-célula-bacteriana3

Pré-visualização | Página 30 de 40

e das mucosas ou uma disfunção no seu sistema imunitário. Na prática, não há 
fungos não-patogénicos, apenas doentes cujo sistema imunológico permitiu a entrada e 
permanência do(s) fungo(s). 
 
 
Micotoxicoses 
 Micotoxicoses são doenças provocadas por toxinas produzidas por fungos. Essas toxinas 
podem entrar no organismo via alimentação (ingestão de cereais, amêndoas, amendoins, azeites, 
sumos de citrinos, etc.) ou via respiratória (doenças profissionais ou a vivência em habitações com 
uma alta contagem de esporos de fungos). 
 São várias as toxinas produzidas por fungos. De notar temos: 
 Aflatoxinas (sintetizado por Aspergillus flavus, Fusarium e Penicillium): são 
imunossupressores, teratogénicos e carcinogénicos (no fígado); o mais 
potente carcinogénio hepático é o AFB1; 
 Alcalóides (sintetizados pelo Claviceps purpurea): são agentes bloqueadores 
de α-adrenérgicos (vasoconstrição), causando inflamação, necrose e/ou 
gangrena; também afectam o SNC causando delírio e também são agentes 
oxitocíticos; 
 Agentes psicotrópicos (sintetizados por vários fungos): temos por exemplo o 
ácido lisérgico (o LSD é uma amida deste ácido). 
 
 
 
 
96 
Doenças por Hipersensibilidade a Fungos 
 Alguns indivíduos apresentam manifestações alérgicas quando entram em contacto com 
esporos ou outros elementos fúngicos (por exemplo: rinite, conjuntivite, asma, pneumonia por 
hipersensibilidade [reversível se o doente for retirado do local contaminado], aspergilose alérgica 
pulmonar, etc.). Uma exposição prolongada a este tipo de alergénios poderá causar doenças 
crónicas (por exemplo: fibrose pulmonar). 
 
 
Diagnóstico 
 O diagnóstico faz-se por pesquisa do agente nas lesões tecidulares, em líquidos orgânicos 
ou em produtos de excreção. Pode-se tentar identificar o agente por exame directo com KOH, 
lactofenol e colorações específicas (PAS, Gomori ou Giemsa), mas a morfologia que se observa é 
pobre; identificam-se esporos e/ou células/hifas. 
 A cultura de fungos é possível em meio de Sabouraud (48h a 1 mês, 24 a 37 °C) ou em 
outros meios específicos para detectar o desenvolvimento de características reprodutivas 
específicas. A identificação dá-se então pela observação de características micro (características 
das hifas, estrutura de reprodução, dimorfismo) e macroscópicas (aspecto das colónias e do 
micélio). 
 As características bioquímicas (características metabólicas e moleculares), as técnicas 
serológicas e as técnicas moleculares (RFLP, sequenciação de genes, hibridização, etc.) também 
são bons meios de identificação de agentes etiológicos fúngicos. 
 
 
Tratamento 
 Uma infecção fúngica é de difícil terapia, tendo normalmente um prognóstico reservado. 
Isto deve-se a facto das células fúngicas serem eucariotas, logo sendo difícil atacar funcionalmente 
estas células com substâncias que também não afectem as células do hospedeiro. 
 Existem, hoje em dia, vários antifúngicos que actuam em diferentes áreas da célula fúngica: 
na membrana celular (pode ser atacada por polienos como a Anfotericina B), em transportadores 
membranares (por equinocandinas como a Caspofungina) e na síntese nucleica (por análogos de 
nucleósidos como a fluocitosina). O ergosterol, presente na membrana celular dos fungos, 
também é um alvo de antifúngicos como os azóis (ex: Fluconazole e Itraconazole). 
 
 
 
 
97 
Micoses Superficiais e Cutâneas 
 
Neste capítulo irá ser discutido infecções fúngicas que se limitam às camadas mais 
superficiais da pele, cabelo ou pelos. Este tipo de infecções é bastante comum. 
Os agentes das micoses superficiais colonizam de forma não destrutiva (assintomática) as 
camadas queratinizadas já referidas. A sua única preocupação é de nível estético e são fáceis de 
diagnosticar e tratar. As micoses cutâneas incluem infecções causadas por fungos dermatófitos 
(dermatofitias) e por fungos não-dermatóficos (dermatomicoses) 
 
 
Micoses Superficiais 
 
Pitiríase Versicolor 
 A pitiríase versicolor é uma infecção fúngica distribuída mundialmente causada pela 
levedura lipofílica Malassezia furfur (forma filamentosa)/Pityrisporum orbiculare (forma 
leveduriforme). Esta levedura apresenta-se como células ovais e grandes misturadas com hifas 
curtas. 
 Esta infecção é mais prevalente em regiões tropicais e subtropicais, afectando 
principalmente os jovens adultos. Pensa-se que a transmissão dá-se por transferência directa ou 
indirecta de material queratinoso infectado de uma pessoa para outra. 
 
Patogénese e Patologias 
As lesões de pitiríase versicolor são pequenas máculas irregulares e bem 
demarcadas que podem ser ligeiramente subidas e cobertas com uma fina escama; as 
máculas podem ser hipo ou hiperpigmentadas, visto que a M. furfur tende a interferir com 
a produção de melanina. 
As áreas do corpo mais vezes afectadas são a parte superior do tronco, os braços, o 
peito, os ombros, a face e o pescoço, embora qualquer zona possa ser afectada. 
Em pessoas de pele clara, as lesões têm tonalidade rosa a castanho claro e tornam-
se mais óbvias quando essas zonas da pele não conseguem bronzear, e em pessoas de pele 
escura, as lesões são hipopigmentadas. As lesões são assintomáticas, podendo causar 
prurido em casos severos; complicações incluem foliculite, perifoliculite e dermatites 
seborreicas. 
 
 
Micoses Cutâneas – Dermatofitias 
 As dermatofitias, ou tinhas, são infecções causadas por dermatófitos – fungos 
queratinófilos – de espécies taxonomicamente relacionadas de fungos filamentosos dos géneros 
Epidermophyton, Microsporum e Tricophyton. 
 Os Epidermophyton apresentam numerosos macroconídeos em forma de 
pêra ou clava de paredes lisas. Só uma espécie provoca doença, o E. 
floccosum (pele e unhas); não infecta o cabelo. 
 Os Microsporum apresentam numerosos macroconídeo, fusiformes e com 
paredes espessas e rugosas; raramente apresenta microconídeos. Exemplos 
de algumas espécies patogénicas temos: M. canis (zoofílico), M. audouinii 
(antropofílico), M. gypseum (zoofílico). 
 
 
 
98 
 Os Tricophyton apresentam principalmente microconídeos e raramente 
macroconídeos; estes últimos têm paredes finas e lisas e têm forma de 
charuto. Das espécies patogénicas mais comuns temos: T. mentagrophytes 
var. mentagrophytes (zoofílico), T. mentagrophytes var. interdigitale 
(atropofílico), T. rubrum (antropofílico). 
 
 Estas infecções fúngicas atingem o cabelo, o couro cabeludo, a pele glabra, pregas 
cutâneas e as unhas. 
 A maioria das espécies apresenta fluorescência, uma característica que pode ser usada no 
seu diagnóstico: Luz de Woods. 
 
Classificação (por habitat) 
Os dermatófitos podem ser antropofílicos, instalando-se no homem sem causarem 
sinais de inflamação, o que leva ao aparecimento de tinhas crónicas; ou podem ser 
zoofílicos ou geofílicos. Estes últimos já desencadeiam uma resposta inflamatória. 
 
Diagnóstico 
As tinhas são diagnosticadas pela demonstração dos seus elementos fúngicos (hifas 
ou esporos) em escamas, cabelos ou raspados de unhas em lactofenol ou KOH. A 
identificação pode ser clássica (aspecto da colónia e/ou morfologia de hifas e estruturas de 
reprodução assexuada) ou por biologia molecular. 
A cultura destes fungos é possível por meio de Sabouraud (crescimento das colónias 
por 7 a 30 dias). 
 
Tinha do Couro Cabeludo 
 Também conhecida como Tinea capitis, a tinha do couro cabeludo é 
uma infecção fúngica causadora de lesões no couro cabeludo com 
descamação e formação de eritema; nestes casos não há inflamação e 
formam-se zonas de alopécia71 com cabelos baços e acinzentados. Em casos 
mais graves, há uma lesão inflamatória, com formação de pústulas; podem 
ainda acontecer linfadenopatias localizadas, algumas vezes associadas a 
febre, e zonas de alopécia cicatrizante. 
 A infecção do cabelo pode tomar três formas diferentes