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foram supervalorizadas e culturas 
socialmente consideradas menos importantes, como a negra e a indígena, foram excluídas. 
Nesta aula, faremos um exame da história da formação da sociedade brasileira, a fi m de mostrar 
como a exclusão da contribuição negra ajudou a construir negros e negras como “outros”.
Estado globalizado e cidadania - Módulo 4 Cidadania
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Perspectiva Histórica
Vamos começar este tópico com algu-
mas perguntas:
Você já observou o seu rosto? E as suas 
fotos? O que se pode perceber da sua 
nacionalidade e do seu pertencimento 
étnico racial?
Provavelmente você identifi cou alguns 
traços comuns de semelhança físi-
ca, cultural e histórica que o façam 
reconhecer-se como pertencente a um 
determinado povo, não é mesmo? É a 
nossa identidade étnica. Vamos conhe-
cer melhor essa nossa herança étnica!
As teorias sobre a formação étnica do povo brasileiro são relativamente recentes. 
Durante o período colonial a refl exão acerca das relações entre negros e brancos não 
existia. Enquanto colônia, nós não possuíamos uma representação da nossa imagem, 
senão como continuidade de Portugal. Em outras palavras, o Brasil não existia como 
país e não fazia sentido tentar entender quem era o brasileiro. Éramos colônia.
A ordem escravocrata existente no período era tida como natural e não despertava 
nenhum tipo de questionamento. Nesse sentido, os quilombos representavam muito 
mais uma resistência regional resultante de uma situação de opressão do que um 
movimento político de âmbito nacional. Logo, tinha um caráter mais prático e reativo 
do que ideológico. Hoje sim, reconhecemos aqueles acontecimentos como movimen-
to de luta pela liberdade, resgatando sua memória para pensarmos a identidade e o 
valor cultura negra para o Brasil, mas na época os objetivos eram bem mais simples 
e imediatistas.
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Será que temos uma única identidade nacional?
Muitos “cientistas” da época (séc. XIX) con-
denavam a junção das raças, pois a mistura 
entre elas, segundo eles, defi nharia as ca-
racterísticas de cada uma, principalmente 
a do branco evoluído superior. Portanto, 
a miscigenação degeneraria as sociedades 
porque iria piorar as supostas limitações 
das raças inferiores (as não-brancas).
O “cientista” ideólogo Conde de Gobine-
au, Consul da França no Brasil e amigo 
do Imperador Dom Pedro II, publica em 
1856 o livro intitulado Diversidade Moral 
e Intelectual das Raças no qual defende a 
superioridade da raça branca em relação ao 
negro e ao índio. Para ele, cada etnia tinha 
uma qualidade o que resultava em atribu-
tos de superioridade física para o negro e 
superioridade intelectual para o branco.
Gobineau defendia que a ordem social se mantinha organizada, harmônica e próspera 
se cada uma delas soubesse seu lugar dentro do modelo que defendia. Nessa perspec-
tiva, o futuro do Brasil estaria comprometido, uma vez que o nosso povo era mestiço. 
A mistura de raças levaria a uma desorganização da sociedade e teria como consequ-
ência o enfraquecimento das virtudes existente em cada uma delas (DA MATTA, 1993).
O sistema vigente no Brasil colônia era extremamente desigual. Naquela época, a maioria 
absoluta da população, por ser escrava ou afrodescentente (com ascendência parcial 
ou totalmente africana), era excluída dos benefícios políticos, econômicos e sociais. 
Da Matta (1993) ressalta que nesse “sistema não há a necessidade de segregar o mes-
tiço, o mulato, o índio e o negro porque as hierarquias asseguram a superioridade do 
branco como grupo dominante”, foi por isso que os escravos e senhores interagiam 
livremente, porque cada qual sabia o seu papel na sociedade.
Operários — 1933, de Tarsila 1933” Col. do Gov. do Estado de São Paulo
Fonte: http://pigscreamo.blogspot.com.br/2010/06/oque-seria-o-new-metal.html 
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O Brasil criou uma espécie de triângulo das raças composta por brancos, índios e 
negros. Acreditar nesse triângulo é aceitar a ideia de que brancos, índios e negros 
se encontravam numa espécie de carnaval social e biológico, o que não era verdade. 
A mistura de raças serve apenas para esconder uma profunda injustiça social, porque 
é mais fácil dizer que o Brasil foi formado por um triângulo de raças, o que nos conduz 
ao mito da democracia racial, do que assumir que existe uma sociedade hierarquizada.
Democracia Racial
Segundo Damatta (1987) as teorias da democracia racial embasadas na fábula da 
relação harmônica das três raças serviram para camufl ar o preconceito e o racismo 
existente no Brasil. Para o autor, o racismo brasileiro não se dá apenas pela cor da pele, 
mas dentro de um contexto relacional, aonde a amizade, 
a beleza e o dinheiro tornam-se algumas das variáveis 
que utilizamos para agir de maneira preconceituosa ou 
não. Ou seja, o amigo negro ou a mulata bonita não são 
discriminados, mas o pobre feio sim. Nessa perspectiva 
o preconceito que praticamos pode ser até mais cruel 
por ser disfarçado e de difícil combate. O discurso da 
democracia racial parece nos convencer de que o pro-
blema racial no Brasil é assunto sem importância ou 
da imaginação das pessoas. O grau de naturalização e 
de conformismo com os problemas da nossa sociedade 
tornam-se barreiras intransponíveis.
É a partir da independência do Brasil e mais intensa-
mente com a abolição da escravidão que surge, de forma 
consistente e estruturada, um discurso racial sobre o 
Brasil. A vida política nacional, as pressões internacionais e as questões econômicas 
levam a um intenso debate sobre a formação do povo brasileiro, suas características 
e perspectivas.
Porém, mesmo após a abolição da escravidão e a proclamação da República o negro 
permanecia sendo percebido como um elemento negativo. Ele era tido como um ob-
jeto. As teses do embranquecimento racial justifi cavam o abandono que se seguiu a 
abolição dos escravos sem nenhum tipo de indenização ou políticas compensatórias. 
Ao contrário, imputavam a eles os males que impediam o nosso desenvolvimento en-
quanto país e nação.
Pelo que podemos perceber nem a abolição da escravatura, nem a proclamação da 
república com todo seu cosmopolitismo se preocuparam com a situação excludente 
que a sociedade moderna delegava aos ex-escravos e aos afrodescendentes. Ou seja, 
não colocou em prática uma política social que viesse amenizar a concorrência desleal 
que foi imposta aos ex-escravos e afrodescendentes.
Teses fundamentadas em determinismos biológicos, como as de Gobineau, continuaram 
infl uenciando o pensamento social brasileiro com a proclamação da República. Elas 
foram reinterpretadas para se adaptar a nova realidade social e a expectativa que se 
cria em torno do novo regime.
A aceitação da perspectiva de existência de uma hierarquia racial e o 
reconhecimento dos problemas imanentes a uma sociedade multirracial 
somaram-se à ideia de que a miscigenação permitiria alcançar a predomi-
nância da raça branca. A tese do branqueamento como projeto nacional 
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surgiu, assim, no Brasil, como uma forma de conciliar a crença na supe-
rioridade branca com a busca do progressivo desaparecimento do negro, 
cuja presença era interpretada como um mal para o país[...] O projeto de 
um país moderno era, então, diretamente associado ao projeto de uma 
nação progressivamente mais branca. A entrada dos imigrantes europeus 
e a miscigenação permitiriam a diminuição do peso relativo da população 
negra e a aceleração do processo de modernização do país. (JACCOUD, 
2008, p.49)
Somente a partir de 1930 as teses racistas começam a ser desacreditadas, apesar de 
persistirem até hoje no imaginário e nas falas das pessoas. Em contrapartida, desen-
volveram-se as teorias da democracia racial que enalteciam a mestiçagem e percebiam 
de maneira positiva a formação étnica brasileira. Elas defendiam um passado de con-
vivência pacífi ca que existia entre negros, brancos e índios que