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RUBENS SILVA ARGUELHO (Organizador) CORPOREIDADE E MOTRICIDADE HUMANA Campo Grande/MS 2018 Sumário CORPOREIDADE E MOTRICIDADE HUMANA 02 CORPO E MOVIMENTO 03 REFLEXÕES SOBRE O CORPO. UMA BREVE INTRODUÇÃO 06 CORPOREIDADE E MOTRICIDADE HUMANA NA EDUCAÇÃO FÍSICA: UMA POSSIBILIDADE DE TRANSCENDÊNCIA PARA A ÁREA 20 FORMAÇÃO PROFISSIONAL NA ÁREA DA EDUCAÇÃO FÍSICA: O FENÔMENO CORPOREIDADE COMO EIXO BALIZADOR 35 SEDENTARISMO 47 A TECNOLOGIA E SUA INFLUÊNCIA SOBRE O CORPO; PADRÕES DE BELEZA NA SOCIEDADE ATUAL 51 QUALIDADE DE VIDA: DEFINIÇÕES E CONCEITOS 66 2 CORPOREIDADE E MODRCICIDADE HUMANA Essa disciplina visa analisar o fenômeno corporeidade ao longo da história, através da identificação dos paradigmas científicos e teorias que influenciam suas diversas concepções de corpo trazendo à tona o discurso do corpo sujeito e do corpo próprio. Estudar das contribuições das teorias da corporeidade aos desafios da produção do conhecimento para o século XXI. Vivenciar as possibilidades de identificar o corpo de modo sensível e reflexivo, nas suas relações consigo mesmo, com o outro e com o mundo, bem como, enquanto lugar de construção de saberes, abrigo de múltiplas inteligências, sensações, emoções e iniciativas critico-criativas. 3 CORPO E MOVIMENTO A relação corpo-movimento se insere na história da própria humanidade, desde os embates dos nossos mais remotos ancestrais pela sobrevivência: na caça, na luta ou na fuga, nos movimentos de correr, saltar, arremessar e puxar, entre outros. Os movimentos são uma parte importante do nosso ser. Eles são essenciais para o crescimento e desenvolvimento da pessoa, bem como têm papel relevante para o seu relacionamento com o ambiente que a cerca, desde a fase intra-uterina. Na etapa da escolarização inicial, jogos e brincadeiras, não sem propósito, são centrais para uma educação infantil de qualidade e, portanto, também para os programas de Educação Física voltada para as crianças pequenas. Desde cedo aprendemos que, de certa forma, movimentar-se é comunicar-se. O corpo se movimenta e fala. Tem uma linguagem própria: a linguagem corporal. Outro aspecto funcional do movimento é que ele é importante para a aquisição da autonomia. Isso se evidencia na medida em que crescemos e nos desenvolvemos. Uma habilidade adquirida ajuda no desenvolvimento de outras. Percebeu que, no geral, falamos aqui sobre o binômio corpo/movimento? Contudo, pergunto: será que falamos das mesmas coisas? Explico-me: parei para pensar se o nosso interesse comum pela educação garante que tenhamos o mesmo entendimento sobre os conceitos aqui usados. Por exemplo, será que damos ao “corpo” os mesmos significados? Pensemos um pouco nisso agora. Suponho concordar, pois, mais do que eu, você sabe que o entendimento do corpo e do seu funcionamento é central para os profissionais da educação física, não é mesmo? 4 Para começar, responda à pergunta: Os movimentos também são importantes para a socialização e o desenvolvimento da linguagem. Que idéias o conceito de “corpo” lhe traz? O conceito de Corporeidade Corporeidade é a maneira pela qual o cérebro reconhece e utiliza o corpo como instrumento relacional com o mundo. O corpo é movido por intenções provenientes da mente. As intenções manifestam-se através do corpo, que interage com o mundo, que dá uma resposta para o corpo, que informa a mente através de seus órgãos sensoriais, que, analisando as respostas obtidas do ambiente, muda ou reafirma suas intenções, utilizando o corpo para novas manifestações. A esta capacidade de o indivíduo sentir e utilizar o corpo como ferramenta de manifestação e interação com o mundo chamamos de corporeidade. A corporeidade do indivíduo evolui com a idade. É lógico que a corporeidade do recém-nascido é totalmente diferente daquela da criança de dez anos, do adulto ou do velho de oitenta anos; a do homem é diferente da da mulher; como a do indivíduo doente o é da que possui quando sadio. Durante a evolução da criança, a qualidade da corporeidade é um dos principais determinantes da estruturação neuropsicomotora. Por outro lado, a estruturação corporal na mente da criança é fundamental para o desenvolvimento do próprio corpo como organismo físico. Crianças privadas de adequado relacionamento corporal com o mundo tendem a ter desenvolvimento físico atrasado em relação às demais (o que chamamos em clínica de nanismo psico-afetivo). 5 A qualidade da corporeidade depende, como em todas as funções neurológicas, da qualidade e desenvolvimento das relações neuroniais estabelecidas entre as áreas sensoriais e motoras do cérebro. Estas relações, a maioria estabelecida durante a primeira infância, desenvolvem-se através do treinamento corporal. Para ilustrar a que ponto o ser humano pode desenvolver a corporeidade, basta observar um grande dançarino de balé, um ginasta olímpico ou um campeão de judô. Nem é preciso dizer que, quanto mais cedo na vida do indivíduo as atividades forem treinadas, melhor será a performance. Mais adiante, demonstrarei algumas técnicas simples para o desenvolvimento dos diversos aspectos da corporeidade, em cada período da primeira infância. 6 REFLEXÕES SOBRE O CORPO. UMA BREVE INTRODUÇÃO Em vários âmbitos como o religioso, o filosófico, o científico e até mesmo no âmbito da magia e no imaginário das pessoas, o corpo humano, desde tempos mais remotos, tem sido objeto de estudo e reflexão. Dessa forma, as investigações sobre corpo atuam como objeto de pesquisa para melhor compreensão dos homens acerca desse assunto. São várias as inferências que buscam definir o que é o corpo afinal. Para Vargas (1990, p. 33), o corpo é um turbilhão de acontecimentos culturais, sociais, animais e psíquicos, uma confluência de fenômenos, uma teia de emoções, de movimentos, um leque inesgotável de gestos. Feijó (1992, p. 7) considera que corpo e mente são um dado fenomenológico da percepção diária, dessa forma, nenhum dos dois devem ser negados ou diminuídos. Brito (1996, p. 44) afirma que estudos atuais têm evidenciado como a psiconeuroimunologia e a psiconeuroendocrinologia, estudam as relações do corpo físico, com os corpos energético, emocional e mental. Ladislau e Pires (2007, p.1) relatam que o corpo de um indivíduo ao mesmo tempo em que guarda vários traços de sua subjetividade e de sua fisiologia, também pode esconder tais traços, e se aventurar na tentativa de desvendar esses mistérios é perceber o quanto é inútil separar a obra da natureza daquela realizada pelos homens, pois o corpo é “biocultural”, tanto a nível genético, quanto oral e gestual. Para Villaça e Góes (1998, p. 29), pensar o corpo é pensar em suas possibilidades e em seus limites, percebendo-o como um dos elementos constitutivos do universo, no qual se produzem as subjetividades. Na Grécia antiga, vários filósofos já passavam a expressar discussões sobre a relevância da dimensão corporal do homem, tentando explicar sua importância. Eles buscavam preconizar a harmonia entre corpo emente, demonstrada nas belas estátuas nuas, feitas através de uma expressão 7 inteligente (VARGAS, 1998, p. 33). Platão pregava a dicotomia entre corpo- alma, para ele era fundamental fazer ginástica desde a infância e a adolescência, dessa maneira, a ginástica cuidaria do corpo e a música cuidaria da alma, criando uma harmonia entre os dois. Sócrates considerava que um corpo saudável era resultado de um corpo trabalhado e Aristóteles postulava que a educação compreendia três momentos: a vida física, o instinto e a razão. Ainda segundo Vargas (1998, p. 33), na idade média, o corpo e a sexualidade eram vistos como sinônimos de pecado e, assim, os conceitos religiosos da educação preconizavam a elevação do poder mental e espiritual, renegando-se qualquer ação expressiva corporal. Somente as habilidades guerreiras dos cavaleiros e seus soldados eram permitidas, quando tinham como ideal a conquista de “lugares santos” e o combate às pessoas consideradas infiéis. Contemporaneamente Marleau-Ponty em sua obra Fenomenologia da Percepção, propõe uma nova idéia sobre dimensão corporal e ressalta que é através do nosso próprio corpo que interagimos com o mundo e as pessoas ao nosso redor. Dessa forma, compreende-se que, quer seja na filosofia antiga, quer seja na filosofia atual, o corpo surge como um ponto crucial para as relações humanas (NOVAES, 2001, p. 17). Segundo Silva et al. (2007, p. 2) o corpo que temos hoje, guarda muitos vestígios dos corpos de antigamente. Alguns desses vestígios vêm à tona com maior evidência, outros nem tanto, mas todos deixaram suas marcas. Representações de saúde, beleza, doença, juventude, virilidade, etc., não desapareceram, simplesmente, adquiriram novas características, produzindo “novos corpos”. Dessa forma, a individualidade das aparências criadas a partir da super valorização da imagem, leva o indivíduo a acreditar que o corpo é o local da identidade, que o corpo fala sobre a personalidade e 8 atualmente a individualização do eu é de grande importância, já que, hoje ser único é ser visível. Analisar o corpo através do parâmetro cultural é compreendê-lo situado no tempo onde vive, mas não apenas ligado à natureza biológica, e sim, em interação com o mundo ao seu redor, e dessa maneira, perceber como o corpo é provisório, passível de inúmeras mudanças, de diversas formas de aperfeiçoá-lo, significá-lo. É acima de tudo, entender que a construção daquele corpo é a todo o momento atravessada por diferentes marcadores sociais como raça, gênero, geração, classe social e sexualidade (LADISLAU & PIRES, 2007, p. 2). Intimamente ligadas ao corpo humano estão às relações sociais, culturais, políticas e econômicas do momento histórico vivido e essas relações influenciam por completo o universo das técnicas e práticas corporais, fazendo com que, o corpo tenha, após a modernidade, se tornado um dos elementos mais complexos e interessantes (SOARES, 2001 apud BANDEIRA & ZANELLA, 2007, p.2-3). Segundo Adorno (1994) citado por Bandeira e Zanella (2007, p. 3), dentre as várias categorias que constituem essas relações, encontramos a indústria cultural e sua relação com o corpo humano sob o âmbito mercadológico, fazendo do corpo uma mercadoria. Nessa conjuntura, a indústria cultural tenta alienar a sociedade e convencê-la de que o consumidor é o sujeito nessa relação, quando na verdade ele não passa de objeto. Na Grécia, mais ou menos entre os séculos 300 a.C. e 200 d.C. reinava o período Helenístico. Nesse período, a idéia de corpo era traduzida através da physis (físico), sinônimo de corpo na atualidade e que se tornou popular após o século XIX com a prática das chamadas educação física e atividade física (SOARES, 2007, p. 14). 9 Segundo Soares (2006, p. 31) o caminho grego no qual o ser humano poderia existir e se desenvolver era guiado por três valores: o belo, a justiça e o bem, de forma que a prática da ginástica atuaria para manutenção e equilíbrio destes. No helenismo, a estética corporal em harmonia com os valores culturais formava o homem grego sensível. Nesse período, a ginástica era vista como exercício das faculdades individuais e o ginásio como um indicador do nível de desenvolvimento da nação, essa duplicidade diferenciava os gregos das sociedades bárbaras, dando-lhes sensibilidade (SOARES, 2006, p. 31). Abrantes (1998) citado por Soares (2006, p.35) afirma que o período helenístico foi fortemente influenciado pelo pensamento estóico, que pregava a exclusividade da existência dos corpos. O materialismo e o corporeísmo valorizados pelas idéias estóicas foram criticados pelo cristianismo e pelas filosofias e ciências modernas, já que o fato de Deus ser considerado pelos estóicos como modo de ser da matéria, não estava de acordo com os princípios filosóficos e científicos. O helenismo ao seu final foi revolucionado por Alexandre Magno, que na tentativa da monarquia universal e dotado de valores estóicos, inverteu a problemática platônica e aristotélica de valorização do equilíbrio entre corpo e espírito e também a idéia da physis, que juntamente com as mudanças na política, destruiu a harmonia entre sociedade e indivíduo na Grécia, levando a sua invasão pelo Império Romano. “A estruturação do individualismo, fundamentado na nova filosofia helenística, leva a uma perspectiva individual da ética da estética, a physis transforma-se em um físico material singular de cada indivíduo” (SOARES, 2006 apud SOARES, 2007, p.15). A inversão do entendimento da physis faz com que o povo grego, agora greco-romano perca a capacidade de manter o equilíbrio entre corpo, espírito 10 e beleza (SOARES, 2007, p.15). Para Soares (2006, p. 39) foi nessa época que teve início o individualismo e o egocentrismo que reinam até hoje. Com a queda da sociedade grega o entendimento da civilização quanto às relações entre corpo e espírito também caem por terra, a partir desse momento tem início a idéia da atual cultura corporal de valorização do físico ao espiritual. Surge na antiguidade, a idéia da superioridade da matéria em relação ao espírito. Quando o cidadão greco-romano adota o pensamento estóico pregado no helenismo, talvez inconscientemente, ele esteja criando um novo fenômeno de culto ao corpo, conhecido na modernidade como fenômeno estético de adoração ao belo, o determinado modelo corporal imposto pela sociedade (SOARES, 2007, p. 16). Entende-se estética como a ciência do belo, sendo o belo o subjetivo de cada um, ou seja, características que tornam um objeto ou corpo agradável ou não (DUFRENNE, 1998 apud CARDOSO, 2006, p. 26). Segundo Novaes (2001, p.35), nas civilizações pré-colombianas, a beleza estava ligada ao privilégio de poder produzir alguma deformidade. Assim, uma desproporcionalidade entre a orelha e o nariz, pode ser considerada uma deformidade para a nossa cultura, mas para outro povos não. Por outro lado, uma musculatura desenvolvida pode ser considerada uma anomalia por alguém de uma cultura diferente da nossa. Para Feijó (1992) citado por Novaes (2001, p. 35) o conceito de beleza é universal, já aquilo que é considerado belo é relativo aos padrões de cada cultura, de cada época. Hoje a estética surge atrelada à noção de beleza, ligada a cultura corporal (DUFRENNE, 1998 apud CARDOSO, 2006, p.26). Segundo Aranha e Martins (2003, p. 371) citados por Soares (2007, p. 17) a beleza muda de padrão com o tempo, e tal mudança depende mais da cultura 11 e da visão em alta no momento do que de uma exigência interior de belo, assim,fatores como mídia e cultura podem influenciar na subjetividade estética das pessoas. Desde a queda do período helenístico quando teve início o fenômeno estético, o corpo passou por diversas transformações. Hoje ele passa a ser visto como objeto de beleza, desejo, status. Surgem padrões a serem seguidos no que diz respeito à estética corporal, técnicas de modificação para que as pessoas se enquadrem nesses padrões. A prática de exercícios, as dietas, as cirurgias são algumas dessas técnicas que têm se tornado comuns no campo do esteticismo (SOARES, 2007, p. 17). Para Soares (2006, p. 21) é como se hoje fosse necessário sintonizar os corpos com os objetos tecnológicos de consumo. De acordo com Le Breton (2003) citado por Vilaça et al. (2007, p.3) o avanço tecnológico, que culminou com a substituição do trabalho braçal pelas máquinas, ajudou para o engrandecimento do fenômeno do culto ao corpo, pois a partir do momento em que os músculos não estavam mais ligados à idéia de força e eficiência mecânica para gerar lucros, o corpo estaria livre para ser trabalhado das mais diversas formas possíveis fora das indústrias. No decorrer da história da humanidade, a forma como homens e mulheres trataram o corpo se fez sob uma quase total irracionalidade. Isso pode ser percebido pelos padrões estabelecidos em diferentes momentos na história, assim, a sociedade sempre determinou, ao longo das décadas, um tipo de corpo (FERREIRA et al., 2005, p.168). Voltamos aqui àquela noção do “paradoxo contemporâneo”; o transcorrer da história determinou ao longo dos anos o fim de certas “amarras” da sociedade, no momento em que o corpo poderia ser tratado e trabalhado sob os mais diversos pontos de vista, ele se vê encurralado por um novo modelo 12 que restringe seu uso. Dessa forma é necessário se pensar o corpo como um objeto destinado a seguir determinado padrão (VILAÇA et al., 2007, p.3). Dando-se evidência aos corpos masculinos o que é padrão atualmente são os modelos altos, fortes e robustos (LADISLAU & PIRES, 2007, p.6). Hoje em dia, pode-se perceber que o sexo masculino tem se mostrado muito mais preocupado com a aparência. Essas preocupações estão voltadas para os cabelos, para a altura, para os pêlos, entre outras. Segundo Pope et al. (2000, p.204) a preocupação masculina com os cabelos se faz pelo medo de que estes sejam ralos demais anunciando uma provável calvície ou que estejam ficando grisalhos. Para os homens, um cabelo livre da aparência grisalha, das caspas e da calvície, sugere que eles sejam mais jovens, mais bonitos e bem- sucedidos, atraindo as mulheres. O aspecto das mamas também é uma das preocupações masculinas. Mamas grandes ou gordas podem ficar com um aspecto feminino e gerar certa insegurança dos rapazes quanto à masculinidade e virilidade. Dessa forma milhares de homens recorrem à cirurgia para redução de mamas anualmente (POPE et al., 2000, p.208-209). Preocupar- se com o fato de ter pêlos demais ou de menos também é comum entre os homens e ser baixo para a maioria deles também é motivo de alerta, já que para a sociedade os homens têm que ser mais altos que as mulheres (POPE et al., 2000, p.209). Analisando todas essas características consideradas importantes para o gênero masculino, pode-se concluir que ter muito cabelo, mamas que não tenham aspecto feminino e ser bastante alto são para a maioria dos homens sinônimos de força, virilidade, dureza e masculinidade (POPE et al., 2000, p.210). 13 Para Beiras (2007), a masculinidade que os homens tanto buscam afirmar, nada mais é do que uma construção histórica e social, que através de certos atributos determinam o que é o masculino. Mas com o tempo esses símbolos sofreram certas transformações e a noção de maturidade e masculinidade anunciadas antigamente pela barba e por outros pêlos corporais, hoje está mais voltada para a aparência musculosa e mesomórfica. Pope et al. (2000, p.13) ressaltam que essa preocupação com a aparência musculosa tem levado muitos homens a sacrificar boa parte de suas vidas para se exercitarem exaustivamente nas academias, buscando um tórax mais musculoso, um abdômen mais definido. Vários homens e jovens adultos estão gastando muito na compra de suplementos alimentares, esteróides anabolizantes ou outras drogas perigosas para “aumentar” o corpo, e assim, melhorar a estética. No entanto, podemos nos questionar, por que a noção de beleza do masculino está ligada a imagem de um corpo musculoso? A pergunta acima pode ser respondida se resgatarmos a história e verificarmos que desde antigamente a doutrina cristã por mais rigorosa que fosse, permitiu que o tema da imagem musculosa do herói se tornasse convenção artística, até a invenção da fotografia no século XIX (VILLAÇA & GÓES, 1998, p.58). Na era pós-industrial a idéia de construção do corpo (body building) ganhou força quando os antigos valores a que o corpo se apegava sofreram um impacto com a espetacularização do mundo contemporâneo. Kenneth Dutton, primeiro body builder, ao final do século XIX, Sandow, o magnífico, ressaltam que sua expressão individual passou a ser valorizada, diante de uma série de acontecimentos, entre eles o movimento da cultura física germânica, a espetacularização das formas corporais para a população e o importante papel da fotografia para contemplação da estética, o que acontecia anos atrás 14 somente através da pintura e das esculturas (VILLAÇA & GÓES, 1998, p.58- 60). Para Ito et al. (2008, p.54), desde o surgimento da primeira fotografia, esta tinha como função primordial apenas reproduzir de maneira precisa os fenômenos naturais, sendo usada somente de forma objetiva e realista. Posteriormente, o caráter apenas documental da fotografia viu surgir outra maneira de se ver o mundo sob o ponto de vista da preocupação estética nas imagens. Em meio às crises que se configuravam entre os anos de 1870 a 1880, às greves violentas e a imigração descontrolada de povos do sul e do centro da Europa, a cultura física passou a fazer parte da cultura americana como motivo de fuga para todos os problemas. Foi o momento da valorização dos músculos masculinos. A nudez passou a encontrar nos heróis gregos e romanos a permissão estética e a aceitação pela moral puritana devido à força e vigor muscular. Naquela época, passou-se a pensar que um corpo de homem, se fosse musculoso, jamais estaria verdadeiramente nu (VILLAÇA & GÓES, 1998, p.60). Segundo Suguihura (2007, p.199), desde as estátuas gregas, há um elo entre imagem e o discurso que determina o tipo de corpo característico de cada sociedade. Na Grécia antiga, os heróis da mitologia eram imortalizados em estátuas que expressavam, pelos corpos “perfeitos”, os valores, as atitudes que levavam ao sucesso, ao reconhecimento. Com todos os eventos que cercavam essa nova moda de adoração às formas corporais masculinas, o body building entrou em ascensão, passando a caracterizar a construção da massa muscular, desligada da noção de força e saúde. Tal tendência se estendeu até a Primeira Guerra, como um ideal de perfectibilidade a ser alcançado. No início do século XX, a exibição corporal 15 se tornou freqüente. Com o desprendimento das amarras da moralidade, nos anos de 1920 a 1930, os ícones esportivos eram mostrados ressaltando o hedonismo que se instaurou no mundo do esporte. Surge uma nova linguagem, a body language, caracterizada como um tipo de comunicação não verbal, que utiliza as posturas, os gestos e expressões faciais (VILLAÇA & GÓES, 1998, p.61). A comunicaçãonão-verbal deslumbra os seres humanos desde seus primórdios, pois envolve todas as manifestações de comportamento não expressadas pelas palavras, podendo ser observada na pintura, literatura, escultura e outras formas de expressão humana. Pode-se dizer que o movimento inserido em um contexto traduz o significado de uma mensagem (SILVA, 2000). Muitos dos adeptos do body building até 1930 eram levantadores de peso que se apresentavam em circos, ou como modelos fotográficos, porém com o declínio do teatro de variedades, o body building passou a seguir caminhos variados. O levantamento de peso se tornou uma modalidade olímpica em 1920 e se transformou em um tipo de treinamento para aquisição de força. O ato de posar passou a exigir uma ênfase na estética voltada para fotografias e a atenção as formas seria o determinante. Com a crise do modelo “herói”, a espetacularização dos músculos do homem perfeito se tornou curiosidade de cabaré (VILLAÇA & GÓES, 1998, p.61-62). A preocupação com o corpo perfeito renasce nos anos 40 com a criação do concurso de Mister América. Da América essa obsessão pelo corpo se espalhou pelo mundo e novos concursos para exaltação do físico masculino foram criados como o Mister Universo, no final dos anos 60, e o Mister Olympia, repercutindo nos cinemas com os filmes de gladiadores até a era Schwarzenegger. Dessa forma, o body building é reinventado (VILLAÇA & GÓES, 1998, p.62). A preocupação masculina com relação ao corpo faz parte 16 da cultura narcísica, que tem no body building, uma de suas mais fortes expressões. Segundo Pope et al.(2000, p.73-74) a valorização da beleza corporal masculina é muito comum em outras culturas, sendo que em algumas delas, a estética do homem é tida como mais importante que a estética da mulher. Na África, os homens da tribo Wodaabe, são fortes guerreiros e líderes políticos, mas também cuidam de sua aparência, enfeitam-se, ficam descontentes com suas rugas e imperfeições, pintam seus rostos e fazem penteados nos cabelos. Nessa tribo, os homens até participam de concursos de beleza tendo as mulheres como juradas. A adoração ao corpo masculino pode ser vista em vários momentos da história. A masculinidade das estátuas gregas e romanas é um exemplo. Na idade média a beleza masculina era contemplada através dos heróis cristãos: altos, fortes e elegantes. Na Inglaterra elisabetana, os homens já eram muito vaidosos com sua aparência e preocupados com seu vestuário (POPE et al., 2000, p.74). Contemporaneamente um corpo esculpido, com músculos bem torneados é objeto de valorização para os homens. Cada cultura constrói sua imagem de corpo e essas imagens se estabelecem como maneiras próprias de ver e viver o próprio corpo (RUSSO, 2005, P.81-83). A preferência por determinadas características do corpo masculino, pode ser explicada parcialmente pela biologia e pelo processo evolutivo. A idéia de beleza através da simetria dos traços corporais, já está moldada na mente das pessoas e se torna uma preferência coletiva. Outro exemplo dessa preferência coletiva é um grande tamanho de corpo. No mundo animal, o tamanho corporal é extremamente importante, já que o animal maior é aquele que domina. Da mesma maneira, desde tempos mais antigos, para o sexo 17 masculino, ter um corpo maior e mais forte, confere aos homens algumas vantagens, como proteção para a prole e luta por uma fêmea (POPE et al., 2000,p.75). Durante séculos a aparência masculina foi valorizada por diversas culturas, nos mais diversos locais, muito disso, pela vontade de atrair as mulheres e dominar outros homens. No entanto, os homens modernos estão mais inseguros com seus corpos, com relação aos homens de antigamente e isso pode ser explicado pelo papel de destaque que as mulheres conquistaram na sociedade (POPE et al., 2000,p.75-79). Vários autores (Assunção, 2002; Ballone, 2005; Choi, Pope Jr., Olivardia, 2006; Pope Jr., Phillpis, Olivardia, 2000; Mirella, 2006; entre outros) citados por Falcão (2007, p.6) afirmam que o papel masculino e feminino na sociedade vem sendo modificado nas últimas décadas. Pope et al. (2000, p.75-76) acreditam que a igualdade entre os sexos conquistada pelas mulheres ao longo dos anos em muitos aspectos da vida diária, foi um dos responsáveis por desencadear a insegurança dos homens com relação à imagem corporal. Os autores ressaltam que as mulheres hoje podem fazer praticamente qualquer coisa como um homem. Atualmente é possível encontrá-las ocupando desde cargos políticos, até ingressando em academias militares, papéis antes, restritos apenas ao público masculino, além disso, elas se tornaram mais independentes financeiramente. Diante dessa situação, o que teria restado aos homens para afirmar a sua masculinidade, teria sido apenas o corpo, pois um dos aspectos em que as mulheres dificilmente se igualam ao sexo masculino é no desenvolvimento da musculatura. De acordo Falcão (2008), à medida que as conquistas femininas foram ganhando destaque na sociedade, a preocupação masculina com relação ao 18 corpo também aumentou, devido a um sentimento de masculinidade ameaçada. Esse fato pode ser visto com mais intensidade a partir dos anos 60 em que é possível perceber os maiores avanços tecnológicos das mulheres e as mais notáveis transformações nas atitudes culturais com relação ao corpo masculino. Para eles, obter um corpo musculoso se tornou importante porque a musculatura representa a masculinidade e está relacionada às funções culturais dos homens de serem fortes, poderosos, eficazes, dominadores e destruidores. Escritores como James Gillett e Philip White, citados por Pope et al. (2000, p.77) afirmam que um corpo musculoso representa hoje em dia, uma tentativa dos homens de resgatarem o auto controle e o valor masculino, já que a igualdade entre os sexos, tirou deles o papel exclusivo de provedores e protetores. Michelle Cottle, jornalista, afirmou em um artigo recente que “com as mulheres tornando-se cada vez mais independentes, os pretendentes estão descobrindo que precisam colocar na mesa mais do que uma carteira recheada se esperam ganhar (e manter) a linda donzela”. A estética corporal masculina evoluiu com o passar dos anos, acompanhou o desenvolvimento da história da humanidade, caracterizando-se e se deixando influenciar pelas mais diversas culturas. Atualmente, ela se caracteriza por corpos fortes e musculosos, como uma maneira dos homens afirmarem a masculinidade ameaçada pelo avanço do feminismo, mas também como tendência a acompanhar a padronização dos corpos através de um modelo de beleza imposto pela mídia e pela sociedade. 19 REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA SOUZA, Átila Regina de. CUNHA, Saulo Daniel Mendes. RODRIGUES, Vinicius Dias. Reflexões sobre o corpo. Uma breve introdução. EFDeportes.com, Revista Digital. Buenos Aires – Año 16 – n° 157 – junio de 2011. Disponivel em: http://www.efdeportes.com/efd157/reflexoes- sobre-o-corpo-uma-breve-introducao.htm 20 CORPOREIDADE E MOTRICIDADE HUMANA NA EDUCAÇÃO FÍSICA: Uma Possibilidade de Transcedencia para a Área Regina Simões Vilma Leni Nista Piccolo 1. Introdução Associarmos os termos corporeidade e motricidade humana à Edu- cação Física parece-nos necessário, uma vez que esta área produz conhe- cimentos e intervenções que consideram o corpo como algo desvinculado da transcendência, do sensível e em muitos momentos até do inteligível,enfatizando sempre o sentido do trabalho racional e linear do movimento que o corpo expressa. Daí o nosso propósito neste escrito que se estrutura em dois gran- des momentos: no primeiro, traçamos uma visão panorâmica do trato com o corpo na sociedade ocidental, procurando enfatizar as diferenças entre corpo e corporeidade, esta focada na visão fenomenológica; no se- gundo, ressaltamos a necessidade da opção da motricidade humana como referencial de critérios para o trabalho com o corpo que realiza exercícios e ou pratica esportes. 2. Do Corpo à Corporeidade: Um Possível Caminho para a Educação Física Qual o sentido de falarmos, no momento atual, de corporeidade? O que significa a prática de exercícios, de atividades corporais sistematizadas, de práticas esportivas, em academias, clubes, escolas, ou mesmo em par- ques nas grandes cidades, num contexto em que, na maioria das vezes, os praticantes tem como objetivo a busca por um corpo “sarado”? A importância do corpo na sociedade ocidental é inquestionável, desde a cultura grega clássica. Dela, podemos retirar duas posturas dife- rentes para nossa análise: a primeira centrada em Aristóteles e a segunda em Platão, mencionadas não no sentido cronológico, evidentemente, mas por considerarmos que o primeiro apresenta argumentos mais interessan- 21 tes para o trato da corporeidade. Gallo (2006) nos lembra que Aristóteles criou a teoria do hilemor- fismo, a qual dizia que forma e conteúdo não podem ser compreendidos separadamente. Para o filósofo, o corpo era uma realidade física limitada por uma superfície, mas nem por isso podia ser considerado puramente matéria. Soma e psique seriam dois aspectos distintos, mas constitutivos de uma mesma realidade. Interessante notar que para este filósofo, como para os gregos em geral, todos os seres vivos possuíam alma e nesta es- tavam presentes as funções anímicas de nutrição, de reprodução, de sen- sação, de imaginação, de memória, de apetite, de desejo, de pensamento, todas funções que animam e tornam a vida dinâmica. Na proposta aristotélica vemos a possibilidade de já identificar os pressupostos da corporeidade, como nos diz Gallo (2006, p.12-13): A visão de Aristóteles pode ser chamada de orgânica; a alma é aquilo que anima o corpo, mas está plenamente integrada a ele. O movimento, qualquer movimento físico, é feito pelo corpo, mas possibilitado pela ação da alma; da mesma maneira, o pensamento é faculdade da alma, mas só pensamos porque somos corpóreos. Parece-me ficar claro, assim que, para Aristóteles (representando o espírito da cultura grega da época), “corpo ativo” não seria um conceito estranho, posto que o corpo é necessariamente lugar de atividade, garantindo o dinamismo da vida. Aristóteles já tecia considerações que muitos pensam que só nos tempos atuais apareceram, tais como: cuidado com as crianças desde o ventre das mães, recomendando a estas que não ficassem ociosas, deven- do ter boa alimentação e exercitar o corpo; prescrição do que ensinar às crianças e, em se tratando de ginástica, críticas ao modelo espartano, uni- camente voltado para a formação de guerreiros. No entanto, sua proposta educativa não abdicava da importância dos exercícios, mas já estabelecendo cuidados que, infelizmente, foram es- quecidos ao longo dos tempos pela área da Educação Física e do Esporte. Senão vejamos: Que seja preciso algo de ginástica [...] estamos de acordo. Mas até a puberdade só se praticarão exercícios leves, sem sujeitar os cor- pos aos excessos da alimentação, nem aos trabalhos violentos, por temor de que isso impeça o crescimento. A prova do efeito funes- 22 to deste regime forçado é que entre os que venceram nos jogos olímpicos, em sua juventude, dificilmente se encontrarão dois ou três que também venceram numa idade mais avançada. Por que isto? Porque a violência dos exercícios a que se tinham submetido desde a infância esgotara sua força e seu vigor (ARISTÓTELES, 1991, p. 71). Como pode ser observado em Aristóteles, o sentido da corporei- dade poderá ser encontrado, a partir da ideia de que é importante que o corpo esteja ativo e a atividade corporal seja realizada de forma refletida, descartando o movimento realizado de forma automática, apenas. Porém, na tradição ocidental, o pensamento que prevalece é o de Platão e não o de Aristóteles. Platão era um atleta que cultivava o corpo, mas, influenciado por Sócrates, contribuiu decisivamente para separar as noções de corpo e de alma. Há aqui o parcelamento do real em dois grandes universos: de um lado a realidade sensível, captada pelos sentidos e composta de matéria; de outro, a realidade ideal, captada pelo intelecto e que seria a verdade última de todas as coisas. O mundo das ideias é perfeito e eterno, enquanto o mundo material, composto pela matéria, é dado às imperfeições, à cor- rupção. Platão afirma que o ser humano é composto por um corpo, porção material, habitante de um mundo sensível, por essa razão corruptível e tendendo à morte. Também é composto por uma alma, perfeita e eterna, pertencente ao mundo ideal (GALLO, 2006). Vê-se aqui a afirmação da concepção dualista, tornando corpo e alma como realidades distintas, posição essa que prevalece na formatação do paradigma cartesiano, quando da institucionalização do novo conceito de ciência, a partir de Newton e Descartes. É no cartesianismo científico que a Educação Física e o Esporte vão desenvolver seus princípios de produção de conhecimento e de ação prática, trazendo para dentro da área o dualismo psicofísico reinante. Para Descartes, as distintas substâncias que compõem o ser hu- mano assim se constituem: de um lado, o corpo, de natureza material; do outro, a alma, uma substância ou coisa pensante. Nesta proposta dual, não cabe pensarmos em corporeidade, pois, na contemporaneidade, passamos a tratar o corpo como mercadoria. A alma representava a mais valia por ser 23 ela a detentora do conhecimento verdadeiro, enquanto o conhecimento vindo do corpo, o sensível, era enganador. O corpo, o de hoje, em nossa cultura racionalizada, cientificizada e de escala industrial produtiva, torna-se um objeto de uso, um utensílio, uma ferramenta, passível de ser utilizada segundo a vontade de outros, de- pendente dos interesses econômicos, políticos ou ideológicos. É o corpo objeto de transação, de troca, de exclusão, de coisa a ser descartável após seu uso e, normalmente, abuso. É o corpo que, para ser conhecido, deve ser esquadrinhado, inva- dido, manipulado, sem vontade própria, não podendo ser senhor de sua existencialidade. É o corpo máquina de Descartes, onde o mau funciona- mento de uma peça exigirá a troca dessa peça e nada mais. É o corpo material, massa muscular, apêndice daquelas reais quali- dades do ser humano que são o espírito e o intelecto. É o corpo discipli- nado, submisso, que pode ser conhecido e controlado por médicos, treina- dores, professores, industriais.... . É o corpo direito de posse, por exemplo, das ciências da saúde e das práticas médicas, que sempre reivindicaram o direito exclusivo de intervirem nos corpos doentes ou “mal acabados”, através de cirurgias de reconstrução estética, de oferecimento de regimes nutricionais, de malhações em academias da moda, etc... . É o corpo direi- to de posse e propriedade, historicamente presente nos códigos de direito. É o corpo docilizado pelas pregações religiosas, com direitos futuros de um grande palácio celestial, quando já não for mais corpo bruto e pecador. É o corpo que, para ser conhecido, apresenta-se como problemapara a academia, e que será analisado como algo complicado, necessitando ser simplificado em suas partes para o estudo de sua constituição. Co- nhecidos seus mínimos detalhes, estaremos prontos para compor esses detalhes e teremos então o entendimento do todo – corpo de ser humano. O estudo desse corpo problema tem como paradigma o princípio anatomofisiológico. Não é por outra razão que nos cursos de Educação Física oferecemos grande destaque para as disciplinas que se preocupam com esta visão. Sem menosprezarmos a importância deste conhecimen- to, é fundamental, desde já, assumirmos o seguinte entendimento: o ser humano não é apenas um ser biológico, como também não é apenas psi- cológico, ou antropológico ou... .O corpo humano é exatamente a com- plexidade e a conexão de todas as formas possíveis de interpretação deste 24 fenômeno. Assim, já podemos propor a primeira síntese: quando falamos de corpo, estamos nos referindo a um objeto concreto, possuidor de volume, disciplinado, que serve para obedecer às ordens de um intelecto ou de um espírito. Só no século XIX é que vamos encontrar um grande crítico à forma de pensar cartesiana e seu desprezo pelo corpo em favor da alma. É Niet- zsche quem afirma que o pensamento é algo encarnado, é uma atividade corporal. Para esse pensador, o ponto de partida do conhecimento é o corpo. Gallo (2006) também nos revela que no século XX outro filóso- fo, Michel Foucault, influenciado por Nietzsche, mostra que o supostodesprezo pelo corpo que aparece na sociedade moderna, com gênese na filosofia cartesiana, é na verdade um investimento que a estrutura burgue- sa e capitalista exerce sobre o corpo, operando sobre ele como força de trabalho. Esquecer o corpo é torná-lo força produtiva e, ao mesmo tempo, objeto submisso. Toda essa constatação ao longo do tempo provoca hoje a era dos corpos hiperativos, mas controlados. Daí a necessidade de um projeto de resistência à cultura do hiperconsumo, que pode ser encontrado na atitude da corporeidade, enquanto antagonista à estética padronizada, ao narcisis- mo sem limites, ao controle generalizado. Pensamos numa corporeidade que nos faça cuidar de nós mesmos e de melhorar as nossas relações com os próximos, que nos faça ao mesmo tempo mais saudáveis e mais cons- cientes de nossas possibilidades, de nosso entorno, de nosso limite. A corporeidade, neste sentido, implica numa atitude ética, na qual o ato de movimentar-se, na Educação Física e no Esporte, demanda trans- cendência, aprimoramento de si mesmo, obtenção de conhecimento e preocupação com o outro. E isto envolve atitudes responsáveis perante o mundo, visando a contribuir para a construção de um futuro melhor, no qual a vida seja vivida com qualidade, pela maior parcela possível de seres humanos. Para que isto se materialize, é preciso produzir resistência ao que nos cerca, nos dias atuais. É pertinente, neste momento, observar o que Gallo diz acerca da resistência ante a: [...] educação que recebemos, prática disciplinar e biopolítica de controle que nos leva ao corpo superexcitado, supermalhado, hi- 25 perativo. Resistência a uma eternidade falsa. Resistência a uma tra- dição que vê no corpo nada mais do que uma “prisão da alma” [...] materialidade mortal [...] finitude, produzindo novas formas de viver o corpo, de fazê-lo ativo, inventando novas formas de produzir a vida. Eis os desafios para o corpo ativo nestes tempos hipermodernos (GALLO, 2006, p.29). Enfocamos, a partir deste ponto, um escrito anterior (MOREIRA, SIMÕES E MURIA, 2009), no qual afirmamos que um autor importante para a compreensão do sentido de corporeidade é Merleau-Ponty (1994, p. 114), pois este afirma: “Só posso compreender a função do corpo vivo realizando-a eu mesmo, e na medida em que sou um corpo que se levanta em direção ao mundo”. O corpo não é a junção de uma parte com a outra, nem uma máquina automática de causa e efeito comandada pelo espírito, ou mesmo um psiquismo, unido a um organismo, isolado do resto do mundo. O corpo é uma casa, uma morada localizada em um quarteirão infinito, construída com partes interligadas por substâncias vitais, habitada por sentidos e segredos, envolta por janelas perspectivais, circunvizinhada por outras casas, com as quais mantém uma relação de dependência e ao mesmo tempo de individualidade. O filósofo há pouco citado critica a objetividade da ciência clássica, caracterizada pela cisão do corpo-objeto e corpo-espírito, defendendo que no mundo vivido da unidade corporal, ou seja, da corporeidade, repleto de experiências, projetos e valores, é possível atingir o corpo sujeito-corpo próprio. Observemos suas palavras: [...] como a gênese do corpo objetivo é apenas um momento na constituição do objeto, o corpo, retirando-se do mundo objetivo, arrastará os fios intencionais que o ligam ao seu ambiente e final- mente nos revelará o sujeito que percebe como o mundo percebi- do. (MERLEAU-PONTY, 1994, p. 110) O sentido de corporeidade nos remete ao mundo de novas percep- ções que deverão substituir visões antigas. A corporeidade é um corpo engendrando vida, experienciando, vivenciando, na perspectiva humana, a caminhada em direção ao mundo. Essa relação corpo-mundo é funda- mental, pois: 26 [...] se é verdade que tenho consciência de meu corpo através do mundo, que ele é, no centro do mundo, o termo não percebido para o qual todos os objetos voltam a sua face, é verdade pela mes- ma razão que meu corpo é o pivô do mundo: sei que os objetos tem várias faces porque eu poderia fazer a volta em torno deles, e neste sentido tenho consciência do mundo por meio de meu cor- po. (MERLEAU-PONTY, 1994, p.122) Desta forma, como prognóstico para a área da Educação Física e do Esporte, devemos buscar o sentido de um corpo existencial que, ao movimentar-se, busque sempre sua superação. Reconhecer o movimento como indispensável para o hominal se tornar humano é colocar o trabalho com o corpo, nos exercícios físicos e nas práticas esportivas, na categoria da complexidade. A noção de corporeidade nos obriga ao estudo do corpo-sujeito, existencial, indivisível, que se movimenta para garantir a vida, entendida esta tanto no sentido individual quanto coletivo, oportunizando o enten- dimento de que esta área de conhecimento científico, mesmo tendo todas as características de inter e até de transdisciplinaridade, exige sua identi- ficação disciplinar, calcada nos estudos históricos do esporte, do jogo, da dança, das lutas e dos movimentos gímnicos. O sentido da corporeidade deve nos mostrar que o corpo-sujeito é ator e autor de sua história e de sua cultura. É um sujeito relacional, daí a necessidade da consciência de si, dos outros e das coisas ou do mundo. É o estudo de um corpo-sujeito que visa a autossuperação, o querer ser mais daqueles que se dedicam às práticas esportivas ou às mais diversas manifestações de atividades físicas, superando seus próprios limites. É o estabelecimento de princípios éticos desejáveis para um atleta alcançar o seu mais, seja isto na beleza plástica da performance, seja no milésimo de segundo superado, seja na habilidade eficiente. O estudo do fenômeno corporeidade admite, dentre outras vanta- gens, a vivência da competição em seu sentido mais amplo, como o da mo- tivação, do prazer, da ludicidade, não entendendo que o ato competitivo é necessariamente antagônico à cooperação e à participação, descortinando, assim, o entendimento de que a corporeidade deve ser vivenciada das mais variadas formas, no mundo predominantemente cosmopolitade hoje. O 27 problema é que, em muitos locais e situações, às vezes, privilegia-se o inte- ligível em detrimento do sensível e do motor, privilegia-se o motor em de- trimento do sensível e do inteligível (como a própria história da Educação Física), ou privilegia-se o sensível em detrimento dos outros dois. Viver é conviver e na convivência não nos relacionamos apenas com a mesma faixa etária ou com os mesmos grupos sociais. Nosso dia a dia é permeado de relações múltiplas em gênero, em grupos de interesses, em localizações geográficas de moradia e de trabalho. Um encontro de profissionais da Educação Física e dos Esportes em Berlim, em 1999, mostrou que a Educação Física, mesmo tendo seu ponto principal ainda na atividade pedagógica na escola, hoje caminha velozmente para também atuar junto a profissionais de saúde, no sentido da orientação de exercícios físicos para a manutenção da vida saudável. Outro ponto perspectivado neste encontro foi o da Educação Física hoje trabalhar com grupos específicos, como os de cardiopatas, obesos, terceira idade, gestantes, e ainda com as mais variadas atividades em academias, condomínios e outros locais, caracterizando a necessidade de se saber orientar grupos compostos pelas mais variadas faixas etárias. O ponto mais importante analisado em Berlim foi o de que, pela primeira vez, a área deve exercitar em sua ação educativa o conceito de inclusão, não mais trabalhando apenas com os corpos de maior habilida- de e coordenação. Estes pontos todos exigirão, na formação profissional, mudanças significativas de enfoque e de valores. O estudo da corporeidade irá remeter nossas preocupações às ins- tâncias reflexivas que envolvem uma vida corpórea com qualidade, bem como a valores integrativos, no sentido de cultivar o senso intuitivo, o poder de síntese, as ações não lineares e a visão sistêmica, minimizando a importância do pensamento autoafirmativo, que valoriza o racional, o sentido da análise, a visão reducionista e o sentido linear (CAPRA, 1993). Desta forma, os valores de expansão, competição, quantidade e domina- ção, tão presentes no aprisionamento do corpo do ser humano hoje, po- derão ser substituídos por valores de conservação, cooperação, qualidade e parceria. Por todos estes argumentos é que afirmamos, no título deste traba- lho, ser a corporeidade uma possibilidade para um trabalho adequado na área da Educação Física e do Esporte. 28 3. Motricidade Humana: Muito mais que o Movimento Corporal Ao analisarmos a cultura ocidental, podemos identificar que a compreensão mais difundida de corpo é aquela que o considera como instrumento da alma. Saliente-se ainda que nem mesmo a interpretação materialista, a partir do século XIX, conseguiu anular a compreensão ins- trumental de corpo. A tradição do trato com o corpo na Educação Física, buscou priori- tariamente considerar causalidades, determinantes, traços lineares, em que o movimento seria considerado como algo causado por estímulos origi- nários do meio ambiente, na velha tradição psicológica estímulo-resposta. Por sua vez, o conceito de motricidade exige o reconhecimento e a consideração de que o corpo em movimento é pertencente a um sistema autopoiético, é um fenômeno impossível de ser reduzido a causalidades, a linearidades. A motricidade integra, no tempo, no espaço, no movimento, a vida concreta, a vida em abundância, não sendo limitada por acontecimentos do passado nem por projeções do futuro (características visíveis no senti- do de desenvolvimento, onde há início, meio e um fim projetado). Na mo- tricidade a vida é, com todas as tatuagens adquiridas de ontem, presentes hoje e com todas as perspectivas e os sonhos do amanhã; mas é! A permanente superação, vivida e buscada por todo ser em movi- mento, em qualquer valor de juízo que se possa ter, depende da motrici- dade, pois ela engloba ações, aspirações, intencionalidades, percepções, qualidades e características essas que compõem a motricidade. A motricidade revela o corpo-sujeito, dialeticamente objetivo e sub- jetivo, hominal e humano, realizando história e cultura e sendo modificado por sua história e cultura. A motricidade é a expressão do corpo e corpo sou eu, sujeito práxico e carente, dependente do movimento para garantir a vida. Nestas condições, podemos ousar interpretar o conceito de motri- cidade na unidade hominal e humana, afirmando que: 29 - a característica hominal do ser humano está ligada a sua essência, onde encontramos as necessidades básicas para sua sobrevivência, levando o ser humano a movimentar-se determinadamente por seus instintos, seus reflexos, suas funções orgânicas; - já a característica humana vincula-se a sua existência, onde o ho- mem cria situações com o sentido simbólico, através de sua racio- nalidade, de sua inteligência, de sua sensibilidade, de sua criativida- de, onde a intenção desses atos resulta em expressões significativas e significantes. Motricidade é, portanto, a complexidade da relação e do intercam- biamento de movimentos e expressões significativas e significantes, viven- ciada pelo humano em sua humanidade, em sua experiência de vida. Trigo (2009, p.65) nos lembra que Motricidade Humana em Manuel Sérgio é: Itencionalidad operante; acción; movimiento intencional hacia la trascendencia (o superación); práxis creadora; movimiento centrí- fugo y centrípeto de la personalización em busca de la trascenden- cia; proceso y producto, es bio y cultura, presencia, comunicación y vivencia. A mesma autora ainda informa que para o Grupo Kon-traste, mo- tricidade é: “ expresión de la corporeidad (expresión-impresión de la cor- poreidad). Pensar-sentir-querer-hacer-comunicar”(TRIGO, 2009, p.66). Recorrendo a texto recente (MOREIRA, CARBINATTO, SI- MÕES 2009), observa-se que a Ciência da Motricidade Humana, postu- lada por Manuel Sérgio, aparece, então, com o desafio de estudar o ser humano em movimento e as intenções que o levam a esta ação, sem a ousadia de saber muitas coisas, mas com subsídios capazes de atender aos anseios dos que estudam efetivamente o ser humano, em seu movimento intencional de transcendência. Ciência da Motricidade Humana: Ciência da compreensão e da ex- plicação das condutas motoras, visando ao estudo e constantes tendências da motricidade humana, levando em conta o desenvolvimento global do indivíduo e da sociedade e tendo como fundamento simultâneo o físico, o biológico e o antropossociológico (SÉRGIO, 1999, p. 160). 30 O autor, crendo na autonomia e singularidade das Faculdades de Educação Física, propõe uma ciência sistemática, bem elaborada, que dia- logue com suas contradições, suficiente e acima de tudo independente de outras áreas, como a da Medicina, por exemplo. Pois bem, Manuel Sérgio, então, tinha como um de seus ideais a criação de uma comunidade científica para a área da Educação Física, vi- sando a, sobretudo, que a mesma dialogasse com outras ciências, trazendo à tona um labor mais transdisciplinar para a área (SÉRGIO, 1996). Possuindo um caráter já de inter-relações e intercomunicação entre as disciplinas, “a epistemologia da motricidade humana faz seus os inte- resses técnicos e práticos de todas as disciplinas” (SÉRGIO, 1996, p.14); ela procura igual matriz curricular entre as diversas matérias do ensino e seu maior objetivo é o de tornar “o desenvolvimento humano através da motricidade, pelo estudo do corpo e das suas manifestações, na interação dos processos biológicos com os valores sócio-culturais” (SÉRGIO, 1996, p.15),tendo como paradigma norteador a busca pela “totalidade huma- na”, por meio da corporeidade: [...] É que o ser humano é corporeidade e, por isso, é movimento, expressividade e presença. A mulher e o homem são movimento que se faz gesto, gesto que fala e que se assume como presença expressiva, falante e criadora. E assim, se manifesta a Motricida- de Humana...que não cansa porque não é repetição, mas criação (SÉRGIO, 1996, p.22). E ainda, o autor revela que a Ciência da Motricidade Humana: [...] estabelece uma harmonia, a mais perfeita possível, entre o ho- mem e a natureza; indica-nos o lugar da natureza no homem e do homem na natureza; sublinha o homem como ser de cultura, [...] ensina que a formação do ser humano não pode explicar-se em termos de uma causalidade que desconhece a singularidade, [...] refere que é no movimento da superação que o homem faz história e se sabe história [...] (SÉRGIO, 1995, p. 167). Uma das críticas que o autor faz relaciona-se à questão do corpo- saúde e, neste ponto, seu pensamento assemelha-se ao de Capra (1997). Ambos nos mostram que a visão reducionista de corpo influenciou o pensamento das Ciências Médicas, levando a uma conceituação de saúde 31 também mutilada: [...] os cientistas, encorajados pelo seu êxito em tratar os organis- mos vivos como máquinas, passaram a acreditar que estes nada mais são do que máquinas. As conseqüências nefastas dessa falá- cia reducionista tornaram-se especialmente evidentes na medicina, onde a adesão ao modelo cartesiano do corpo humano, como um mecanismo de relógio, impediu os médicos de compreender mui- tas das mais importantes enfermidades atuais (SÉRGIO, 1996, p. 96). Também apoiada no pensamento cartesiano, a Educação Física estabeleceu como critérios de sua prática o desenvolvimento das capaci- dades físicas como força, velocidade, agilidade, impulsão etc, e isto “não pode dar saúde, porque lhe falta um trabalho ao nível da complexidade, estruturado de acordo com o ego-pensado e pondo de lado o multipen- sante, isto é, centrado mais sobre a facticidade quantitativa e menos sobre a realidade qualitativa” (SÉRGIO, 1996, p. 97). Afinal, a motricidade hu- mana não se interessa pelo simples movimento, pois ela “é práxis e, como tal, cultura (ou seja, transformação que o homem realiza, consciente e livremente, tanto em si mesmo como no mundo que o rodeia)” (SÉRGIO, 1996, p.100). É imprescindível pautar que o autor demonstra alguns pontos para a construção e consolidação da Ciência da Motricidade Humana e suas suposições: visão sistêmica do homem; ser carente, aberto ao mundo, aos outros e à transcendência; ser práxico, que encontra e produz unidade e realização e, por fim, um ser axiotrópico, que sendo intrinsecamente cul- tural absorve, mas, também, transforma e cria valores. Para os especialistas da Motricidade Humana, os conteúdos que de- vem ser enfatizados são os jogos, o desporto, a ginástica, a dança, o circo, a ergonomia e a reabilitação, lembrando que neles deverá ser construído um “espaço onde o homem se forma pessoa, isto é, se reconheça e o reconhe- çam como consciência e liberdade” (SÉRGIO, 1996, p.162). Subsidiado pela noção de práxis fenomenológica, Sérgio (1996, p. 119) reflete acerca da simultaneidade entre teoria e prática, formulando que “a teoria não se sobrepõe à prática, nem a prática à teoria, porque cada uma nasce e desenvolve-se (também) no seio da outra”. 32 Para melhor permitir o acesso e os estudos sobre a Ciência da Mo- tricidade Humana pelos profissionais, Manuel Sérgio propõe a Educação Motora como o Ramo Pedagógico, “[...] e deverá estar presente (como meio indispensável) nas manifestações concretas da ludomotricidade, da ergomotricidade e da ludoergomotricidade” (SÉRGIO, 1996, p. 103). Estruturado nesta trilha, Moreira (1995) indica que a Educação Mo- tora deve operacionalizar novos valores em sua prática educativa, como pode ser identificado no quadro 1, a seguir. Quadro 1 - Valores que devem ser transformados na Educação Física, agora abarcada pela Educação Motora Educação Física Escolar Tradicional Educação Motora Corpo-Objeto Corpo-Sujeito Ato Mecânico Ato da Corporeidade Consciente Participação Elitista Massificação da Prática Ritmo Padronizado Ritmo Próprio Busca pelo Rendimento Busca do Prazer e Ludicidade Fonte: Moreira (1995, p.101) Os conceitos explicitados da Motricidade Humana devem reco- mendá-la como possível eixo norteador dos critérios que balizariam as ações dos profissionais da Educação Física e do Esporte. Considerações Finais Afirmamos, no título deste trabalho, que os sentidos de corporeida- de e de motricidade humana poderiam ser uma possibilidade de transcen- dência da área da Educação Física. Acreditamos que cumprimos a missão, mais uma vez lembrando que aqui não se trata de mudança de nome ou denominação, mas sim, de valores, de atitude perante uma área de conhecimento que, a nosso ver, deve ser efetivada. Não somos cordatos com a situação atual da Educação Física, que não tem a autonomia de uma área de conhecimento, estando muito mais perto de ser uma aplicação pedagógica de várias áreas já consagradas. Não temos dúvida de que a principal função da Educação Física é pedagógica, mas isto não significa que a área seja confundida apenas com 33 o próprio professor de Educação Física. Também não nos envolvemos na estéril briga entre as áreas bioló- gica e humana, pela hegemonia do conhecimento produzido na área da Educação Física. É sempre importante lembrar que, como ser humano e hominal, o ser humano é, ao mesmo tempo, totalmente biológico e total- mente cultural. Defendemos uma área de conhecimento que deve ter um bacha- rel, pois, em nossa maneira de entender, bacharel é aquele que domina uma área de conhecimento. Se a opção for a de não lutarmos pela identi- ficação e autonomia da área de conhecimento, não há, evidentemente, a necessidade de um bacharel. Assim, a corporeidade e a motricidade, enquanto produções epis- têmicas e enquanto conhecimentos produzidos na área, podem colaborar para a superação do atual estágio da Educação Física. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ARISTÓTELES. A política. São Paulo: Martins Fontes, 1991. CAPRA, Fritjof. O ponto de mutação. São Paulo: Cultrix, 1993. GALLO, Silvio. Corpo ativo e a filosofia. In: MOREIRA, Wagner Wey (org.). Século XXI: a era do corpo ativo. Campinas: Papirus, 2006. MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da percepção. São Paulo: Martins Fontes, 1994. MOREIRA, Wagner Wey. Perspectivas da educação motora na escola. In: DE MAR- CO, Ademir (org.). Pensando a educação motora. Campinas: Papirus, 1995. MOREIRA, Wagner Wey; CARBINATTO, Michele; SIMÕES, Regina. Motricidade e humanismo: para ale do status atual da educação física. In: GENU et. al. (org.) Motri- cidade humana: uma metaciência? Belém: Uepa, 2009. ; SIMÕES, Regina; MURIA, Angelo. O fenômeno corporeidade na forma- ção profissional em educação física: a perspectiva docente. In: MOREIRA, Wagner Wey; SIMÕES, Regina (org.). Educação Física e produção de conhecimento. Belém: Ufpa, 2009. SERGIO, Manuel. Educação motora: o ramo pedagógico da ciência da motricidade humana. In: DE MARCO, Ademir (org.). Pensando a educação motora. Campinas: Papi- rus, 1995. 34 . Epistemologia da motricidade humana. Lisboa: Edições UTL, 1996. . A racionalidade epistêmica na educação física do século XX. In: Sergio, MANUEL, Sergio et. al. (org.). O sentido e a acção. Lisboa: Instituto Piaget,1999. TRIGO, Eugenia. Motricidade humana hoje. In: GENU, Marta et. al. (org.). Motricida- de humana: uma metaciência? Belém: Uepa, 2009. 35 FORMAÇÃO PROFISSIONAL NA ÁREA DA EDUCAÇÃO FÍSICA: O FENÔMENO CORPOREIDADE COMO EIXO BALIZADOR Wagner Wey Moreira 1. Introdução Falar em formação profissional na área da Educação Física remete- -nos ao entendimento e à produção de conhecimento relacionada ao cor- po. Afinal, toda a ação da área, quer no trato da atividade física, do exer- cício e da prática esportiva, destina-se ao ser humano que se movimenta. Outro ponto importante a ser salientado já neste início, diz respeito a como nós vemos essa área de conhecimento. Advogamos que a Educa- ção Física deve lutar para identificar seu estatuto epistemológico, quer seja via Teoria da Motricidade, quer seja via Ciência do Desporto, ou alguma outra. O importante é que ela destine tempo e reflexão para esse fim, no afã de se mostrar como ciência autônoma, podendo assim dialogar com as demais áreas científicas já consagradas. Daí o propósito deste escrito, que é o de refletir sobre uma área de conhecimento científico ora denominada Educação Física, a qual forma profissionais para a ação relacionada com os corpos humanos, devendo, por essa razão, balizar o entendimento que tem sobre o corpo que se mo- vimenta para a superação. Na estrutura do texto identificam-se dois momentos: no primeiro, analisaremos como está o trato com o corpo apresentado pela ciência e pela Educação Física; no segundo, estabeleceremos a corporeidade como fio condutor da transformação de valores necessária para a produção de conhecimento científico, notadamente na Educação Física. 2. A Ciência, o Corpo e a Educação Física A relação entre ciência e corpo não é nova, considerando que há mais de quatrocentos anos o corpo do homem vem sendo progressiva- mente desvelado. O preocupante, nos dias atuais, é continuarmos a con- 36 siderar o corpo como uma máquina a ser melhorada em seu rendimento para atingir a perfeição, porque nesta trilha já partimos do princípio que o corpo humano é imperfeito, justificando todo tipo de manipulação e de invasão para consertá-lo. Melhor dizendo nas palavras de Novaes (2003, p. 10) Se a perfeição é o esquecimento de certos fenômenos, o corpo contemporâneo é absolutamente imperfeito, uma vez que ele se tornou não apenas objeto de controvérsia, mas também campo de todas as experiências possíveis. O corpo transformou-se em máquina ruidosa a ser reparada a cada movimento. Máquina defei- tuosa, “rascunho” apenas, como escreve David Le Breton, sobre o qual a ciência trabalha para aperfeiçoar. Por um lado, vemos o corpo humano sendo determinado pelo meio, o que leva a supor que as mudanças sociais podem modificar suas condições de existência. Ao longo da história, as condições sociais tatua- ram nos corpos a docilidade, que nos dizeres de Foucault (1977) podiam ser objeto e alvo do poder. Objeto porque ele poderia ser manipulado, mo- delado, treinado; alvo porque ele poderia se tornar hábil, economizando forças para o trabalho necessário. Os corpos dóceis recebiam com naturalidade a disciplina, que se constituía de métodos que permitiam o controle minucioso das ações cor- póreas, através da delimitação do espaço, controle do tempo e do movi- mento. Se pensarmos na Educação Física, em seu trilhar histórico, não identificaremos exatamente isto? Ela não foi mestre em controlar espaço, tempo e movimento? Como o que nos preocupa é o hoje, podemos afirmar que o que Foucault (1997, p.127) escreveu para o século XVII, pode ser reeditado hoje, sem alterações: A disciplina fabrica assim corpos submissos e exercitados, corpos “dóceis”. A disciplina aumenta as forças do corpo (em termos po- líticos de obediência). Em uma palavra: ela dissocia o poder do corpo; faz dele por um lado uma “aptidão”, uma “capacidade” que ela procura aumentar; e inverte, por outro lado a energia, a potên- cia que poderia resultar disso, e faz dela uma relação de sujeição estrita. 37 Também podemos ainda, dentro desta vertente, encontrar outras metáforas que existiram no sentido de controlar os corpos. Moreira(1995) apropriando-se do pensamento de Hugo Assmann, revela que há o “cor- po jardim fechado”, aquele que é sacralizado, que tem sua existência sepa- rada de sua essência, vivendo em função do desenvolvimento do espírito. É um corpo que não pode possuir desejos, que é sinônimo de templo, de residência da alma. Nos tempos modernos aparece o “corpo ajustável ao que se pre- cisa”, o qual é dotado de plasticidade, moldabilidade, elasticidade. É o corpo-força de trabalho, útil no cumprimento das funções regulares do mercado. São os corpos-professores, corpos-estivadores, corpos-executi- vos, corpos-operários, corpos-relação do poder, corpos-relação mercantil. Isto, na área da Educação Física, pode ser encontrado com muita freqüên- cia na área dos esportes, na qual o corpo atleta muitas vezes é invadido em sua intimidade e degradado em sua essência, para manter o rendimento ou a performance exacerbada. Há ainda os “corpos asceta-indiferentes”, em que as relações cor- porais, por não apresentarem significado, perdem significância. Num mundo em que o consumo substitui a ação de movimentar-se na direção da superação, corre-se o risco de substituir paixão pela vida por indiferen- ça emocional. Por outro lado, Rouanet (2003) nos lembra a obra do médico Julien Offray de La Mettrie, que viveu no século XVIII, mencionada aqui por nos parecer muito atual no que concerne às suas reflexões a respeito do corpo. La Mettrie acreditava que o organismo determina o essencial da vida do homem e que a felicidade deve ser buscada no bom funciona- mento do corpo e não na transformação social. Como se vê, estas idéias parecem propostas da modernidade, pois, na ciência, o homem novo con- tinua sendo um ideal, só que hoje ele deve ser fabricado no laboratório, nas clínicas médicas de cirurgias estéticas, nas academias de ginástica etc. O autor já simbolizava o que nos dias atuais temos como o materialismo biologizante, assunto tão debatido no mundo acadêmico O pensamento de La Mettrie poderia ser considerado, tempos atrás, como impróprio: 38 porque o paradigma era o liberal-utilitarista-socialista, baseado na convicção de que para o bem ou para o mal a sociedade tinha sem- pre a primeira e a última palavra. Como vimos, tem-se a impressão de que o paradigma mudou. Agora deixou de ser absurdo ou pro- vinciano falar num determinismo do corpo. O homem-genoma as- sumiu a sucessão do homem-máquina: nos dois casos é a biologia o fator determinante, e não a sociedade. (ROUANET, 2003, p.52) Este problema se avoluma, porque ainda hoje a maioria dos cien- tistas não concebe sua ação como política, apoiada nos padrões de “neu- tralidade” exigidos pela ciência. O mesmo Rouanet (2003, p. 57) aponta o perigo: O ideal platônico dos reis-filósofos parece ter sido reformulado hoje exatamente nos termos propostos por La Mettrie: a redefini- ção dos filósofos como cientistas naturais, e dos cientistas naturais como médicos, isto é, especialistas do corpo humano. Nessa utopia biológica que já se desenha no horizonte, o poder seria exercido pelos que sabem manipular geneticamente [...] isto é, não pelos que sabem conduzir os homens pela fabricação de ficçõesúteis, como dizia nosso filósofo, com um cinismo ainda inocente, mas pela re- programação genética dos homens, para torná-los mais dóceis e menos violentos. Corpo da biotecnologia, apoiado em um ideal padronizado de per- feição, que para ser alcançado é permitido recorrer a implantes e próteses, com os quais se aumenta ou se diminui seios, pernas, bundas e tudo mais. Corpo imperfeito no padrão estético vigente, que recorre aos martírios dos treinamentos infindáveis, das dietas irracionais, dos modismos do mo- mento. Corpo imperfeito que pode ser escondido nos sites de relaciona- mento dos programas computacionais mais acessados, corpo que se rela- ciona sem a necessidade do ir ao encontro do outro corpo para o estabe- lecimento da comunhão. Esta é a ciência atual, privando o corpo de ser humano, de movi- mentar-se em direção ao outro, de buscar a autossuperação, procurando gostar-se mais, porque sem isto é impossível gostar do outro. Corpo que se não alcançar o padrão estético vigente como o certo, estará fadado a ser desprezado, considerado imperfeito e não digno de atenção. 39 Isto poderá propiciar o que Le Breton (2003, p. 128/129) denomi- na um adeus ao corpo, pois: Com o passar do tempo, o corpo transforma-se num estorvo, ex- crescência desastrosa do computador. Se o longínquo está infinitamente próximo, a comunicação fora do corpo distancia o imediato, inscreve-se no afrouxamento dos vín- culos sociais, no alargamento do espaço pessoal. As comunidades virtuais desenham um universo abstrato geralmente mais íntimo que a família ou a vizinhança. Os ciberamigos são às vezes mais íntimos que as pessoas mais próximas, porque jamais os encon- tramos. [...] Superequipado com que lhe permite comunicar-se sem preci- sar deslocar-se (telefone celular, e-mail, internet, etc.), o indivíduo não precisa mais, necessariamente, encontrar-se fisicamente com outros; a conversa frente a frente durante um passeio tranqüilo ou em um lugar silencioso parece hoje perder espaço diante do diálo- go apaixonado do proprietário de um celular ou computador com seus interlocutores invisíveis e falantes. No entanto, as duas vertentes mencionadas e mesmo as preocupa- ções levantadas podem ser superadas. Nada impede que uma humanidade que se tornou tecnologicamente autônoma, graças a sua concepção de ci- ência, possa se organizar socialmente, de modo que a autonomia de todos os indivíduos também possa ser assegurada. A autonomia dos indivíduos, proposta pela linhagem social, pode ser conseguida também com a pre- ocupação relacionada com a autonomia da espécie, objetivo da linhagem biologizante. Ou, nas palavras finais de Rouanet (2003, p. 62/63): Depende de nós, agindo politicamente, ou que não haja nenhum homem-máquina, ou que ele seja tão amável quanto o homem de lata do Mágico de Oz, que acaba ganhando um coração no final da jornada. É o homem como autor do seu destino, suficientemente corajoso para rejeitar qualquer apelo a um pai transcendente, sufi- cientemente humanista para não transformar a pedagogia em arte de amestrar, e suficientemente democrático para não substituir a política pela biologia. Estas preocupações devem estar presentes na área de conhecimen- to denominada Educação Física. Participar de atividades físicas progra- 40 madas, de exercícios controlados, de vivências esportivas, remete a uma ideia de corpo individual e coletivo, que se reconhece como autor e ator da história, não podendo isto ser alcançado com movimentos meramente mecânicos e repetitivos, realizados por um corpo burro, com a finalidade de moldar o corpo próprio segundo um padrão externo a este, definido, por exemplo, pelos modismos de época ou pelos meios de comunicação. Daí a necessidade de enfatizarmos a busca do entendimento e da vivência do fenômeno corporeidade, o qual, quando buscado pela ciência, terá nesta um instrumento para o alcance da transcendência, descartando-se ser ela um fim em si mesma. 3. A Corporeidade e a “Ciência da Educação Física” Colocamos entre aspas a relação ciência e Educação Física (justifi- ca-se no momento atual) pelos motivos já expostos na introdução, enfati- zando a necessidade da área alcançar sua autonomia enquanto produtora de conhecimento. Ainda para que não sejamos interpretados de forma equivocada, claro está que estamos cientes de que corporeidade não é o objeto cientí- fico da Educação Física, como aliás não será objeto científico de nenhuma área de conhecimento em particular. Corporeidade é sim uma atitude que deve nortear os profissionais pesquisadores que trabalham com o corpo, com o movimento, com o esporte, tanto no sentido coletivo quanto no individual. Dados esses esclarecimentos, vamos justificar as razões pelas quais a corporeidade deve ser o eixo norteador da Educação Física, enquanto área de produção de conhecimento científico. A principal função da Educação Física no mundo do trabalho (e para tanto forma profissionais para isto) é pedagógica. Quer estando o graduado nessa área, atuando na educação, quer estar atuando na saúde, ou mesmo quer estar atuando no esporte, esse fenômeno complexo e de largo desenvolvimento no último século, a função do profissional de Edu- cação Física é pedagógica. Ele deve, na escola, ensinar os conhecimentos históricos da área, de maneira contextualizada; na saúde, colaborar no en- sino para a apropriação de hábitos salutares, que resultem na melhoria 41 da qualidade de vida; no esporte, propiciar a aprendizagem e a vivência de modalidades esportivas e de condicionamentos físicos os mais varia- dos, sempre no sentido do movimentar-se na direção do outro, na direção das coisas ou do mundo, com intencionalidade, com regularidade e com controle da atividade. Isto será conseguido com qualidade se a atitude da corporeidade estiver presente. Advogar corporeidade é lutar pelo princípio de uma aprendizagem humana e humanizante em que, em sua complexidade estrutural, o ser humano passa a ser considerado, a um só tempo, totalmente antropológi- co, psicológico e biológico. O corpo do homem não é um simples corpo, mas corporeidade humana, só compreensível através de sua integração na estrutura social. Falar de uma educação do corpo é falar de uma aprendizagem hu- mana, é aprender de maneira humana (por isto existencial) a ser homem, a existir como homem. Falar de uma educação do corpo é explicitar a corporeidade. Já escrevemos certa vez (MOREIRA, 1995) que a corporeidade é, existe, e através da cultura ela possui significado. Daí a constatação de que a relação corpo-educação, por meio da aprendizagem, significa aprendi- zagem da cultura – dando ênfase aos sentidos dos acontecimentos -, e aprendizagem da história – enfatizando aqui a relevância das ações hu- manas. Corpo que se educa é corpo humano que aprende a fazer história, fazendo cultura. Corporeidade, enquanto objeto de estudo da educação, deve ser considerada, ao mesmo tempo, nos planos pessoal, político, cultural e histórico, pois estas dimensões representam a estrutura do fenômeno hu- mano, sem reduzi-lo a nenhum de seus elementos. Também em outro escrito recente (MOREIRA, 2008, p.93), afir- mamos que no caso da formação profissional em Educação Física, no trato com a corporeidade, há que se superar os sistemas que provocam a disjunção entre as humanidades e as ciências, da mesma forma que levam à separação das ciências em disciplinas hiperespecializadas, fechadas em si mesmas, como razões últimas do conhecimento científico. O fenômeno corporeidade não pode se dar a conhecerpela hipe- respecialização. A Educação Física, através de seus profissionais forma- 42 dos, deverá colaborar para a análise e o entendimento da corporeidade no contexto da condição humana. O estudo do ser humano que se movimen- ta intencionalmente na direção da superação ou transcendência, através dos conhecimentos históricos da chamada Educação Física, deve estar atrelado ao entendimento da complexidade humana, ou, nas palavras de Morin (2001, p.55 e 61) Todo desenvolvimento verdadeiramente humano significa o de- senvolvimento conjunto das autonomias individuais, das participa- ções comunitárias e do sentimento de pertencer à espécie humana. A educação deveria mostrar e ilustrar o destino multifacetado do humano: o destino da espécie humana, o destino individual, o des- tino social, o destino histórico, todos entrelaçados e inseparáveis. Assim, uma das vocações essenciais da educação do futuro será o exame e o estudo da complexidade humana. A corporeidade deve servir como eixo primordial na formação pro- fissional em Educação Física porque só é possível conhecer e definir o humano a partir da realidade corporal, como já afirmava Merleau-Ponty (1994): “Eu sou o meu corpo e assim o ser, a realidade ontológica coincide com a realidade corpórea. O ser humano pode ser definido como tal, a partir de sua realidade corpórea e não a partir de seu pensamento”. Aqui, mais uma vez, se justifica o estudo da corporeidade, pois ela reúne o ser físico, o intelectivo, o sensível, o transcendente, deixando de lado a exacer- bação da perspectiva racionalista e racionalizadora. Melhor ainda, nas palavras de Nóbrega (2009, p.68) O corpo expressa a unidade na diversidade, entrelaçando o mundo biológico e o mundo cultural e rompendo com o dualismo entre os níveis físicos e psíquicos. Com meu corpo, atuo no mundo. Vale lembrar que o mundo, ou melhor, a existência do sujeito no mundo é ponto central da Fenomenologia, mais especificamente, na ver- são existencialista formulada por Merleau-Ponty, na qual a relação homem-mundo é corporal. 43 A Educação Física deve levar a seus profissionais o sentido da cor- poreidade, porque a aprendizagem do mundo se faz com o corpo, mesmo considerando que sempre numa síntese inacabada. Apreender o mundo significa considerarmos as representações intelectuais, motoras e sensiti- vas. O sentido da corporeidade evidencia-se quando sabemos que o uso do corpo ultrapassa o nível biológico, o nível dos instintos, chegando à criação de um mundo simbólico, de significações. Mundo natural e mundo cultural formam uma unidade que a corporeidade vivencia. A formação profissional na área de conhecimento científico deno- minada ainda hoje de Educação Física, a qual tem como função principal o sentido da aprendizagem, deve reconhecer que: A aprendizagem é basicamente uma reorganização da corporeida- de. Quando aprende, quando encontra um sentido e uma significa- ção para um acontecimento em sua existência, o ser humano passa a habitar o espaço e o tempo de uma forma diferente. Esse aconte- cimento é ao mesmo tempo motor e perceptivo, não há separação entre o corpo que age e o cogito que organiza a ação. O corpo é o lugar de aprendizagem, de apropriação do entorno por parte do sujeito. Uma aprendizagem na qual o motor e o perceptivo, o corpo e a consciência compõem um sistema único. (NÓBREGA, 2009, p.73) Mais uma vez enfatizamos que o conceito de corporeidade em Merleau-Ponty considera a realidade do corpo para além das dicotomias corpo e mente, natureza e cultura, individual e coletivo. Para esse autor, corporeidade é consciência encarnada, existencializada. Corporeidade pode favorecer a associação da ciência e da Educação Física, deixando a primeira de ser manipuladora de corpos para, através da segunda, habitá-los, deixando para trás a idéia de corpo-objeto e cami- nhando na direção do estudo do corpo-sujeito. Quando se fala em conhecimentos históricos da área da Educação Física, ou seja, o esporte, a ginástica, a luta, o jogo e a dança, mais ainda 44 se vê a necessidade da associação desses conteúdos com o sentido de cor- poreidade. Com ele (o sentido da corporeidade), a Educação Física pode ousar em transformar, inclusive, o movimento realizado, antes meramente mecânico, em manifestação de arte. Quanta beleza estética, quanta plasti- cidade podemos perceber no corpo dançando, no sujeito driblando com suas gingas mais desconcertantes, nos gestos de chutar a gol, de cortar acima de um bloqueio, de arremessar à cesta de uma grande distância. Pinturas, realizadas sem tinta, mas com movimentos corporais expressos pelas mãos, pelos braços, pelas pernas, pelos pés, enfim, por toda a cor- poreidade que joga. Enquanto atitude, a corporeidade pode auxiliar a rever o sentido e o significado do esporte, que escapa a muitos olhares menos atentos: iden- tificar que o esporte, tem como razão de ser, o trato da forma humana, o aprimoramento corporal, gestual e comportamental do ser humano. E este propósito só pode ser alcançado através da técnica, esta também ne- cessitando de um redimensionamento, como o proposto por Bento (2006, p.157) É a técnica que precede e possibilita a criatividade e a inovação. A criatividade será uma espécie de estado de graça, de harmonia e perfeição, um sopro de inspiração que responde a uma ordem e a uma voz que vem de dentro, mas que só resulta quando a técnica se instala como uma segunda natureza. Sim, difícil é a técnica; com ela o resto é fácil. A técnica é uma condição acrescida e aumentativa; não serve apenas a eficácia, transporta para a leveza, a elegância e a simplicidade, para a admiração e o espanto, para o engenho e a expressão do encanto. Sem ela não se escrevem poemas, não se compõem melodias, não se executam obras de arte, não se marcam gols, não se conseguem cestas e pontos, não se pode ser bom em nenhum ofício e mister. A arte, a qualidade, o ritmo, a harmonia e a perfeição implicam tecnicidade. Sem técnica não há estética de coisa alguma. E a ética fica deficitária e manca. Enfim, sem técnica não logramos ser verdadeiramente humanos. 41 45 A formação profissional na área científica da Educação Física, as- sociada à compreensão acerca corporeidade, permitirá rever conceitos, a partir do redimensionamento do saber o que é esse ser humano corpóreo. Sentir, pensar, agir, sonhar, criar, ousar, transcender, são palavras que podem e devem estar presentes na preocupação científica. Que estas palavras e preocupações possam fazer parte da ciência da Educação Física e que elas tenham a missão de nortear a formação profissional nesta área de conhecimento. 4. Considerações Finais Sempre nos vem à mente a frase de Merleau-Ponty: “A máquina funciona; o corpo vive.” Temos dito que se os pesquisadores, os profes- sores universitários, os que trabalham com o jogo, com o esporte, com a dança, com a ginástica e com a luta, enfim, se todos aqueles que pos- sam estar inseridos na produção de conhecimento científico na área da Educação Física conseguirem captar a diferença fundamental indicada por Merleau-Ponty entre máquina e corpo do ser humano, estaremos aptos a colaborar para a transformação da área e trabalhar adequadamente com o fenômeno corporeidade. A nós, pesquisadores da área, cabe essa missão. Para isto, temos que superar divergências ideológicas estéreis, não abrindo mão de valores, mas negociando estratégias. Lembramo-nos também, aqui, de Geraldo Vandré: “quem sabe faz a hora, nãoespera acontecer”. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BENTO, Jorge O. Corpo e desporto: reflexões em torno desta relação. In: MOREI- RA, Wagner W. (org.). Século XXI: a era do corpo ativo. Campinas: Papirus, 2006. FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: a história da violência nas prisões. Petrópolis: Vozes, 1977. LE BRETON, David. Adeus ao corpo. In: NOVAES, Adauto (org.). O homem-máquina: a ciência manipula o corpo. São Paulo: Cia das Letras, 2003. MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da percepção. São Paulo: Martins Fontes, 1994. 46 MOREIRA, Wagner W. Corpo presente num olhar panorâmico. In: MOREIRA, Wag- ner W. (org.). Corpo pressente. Campinas: Papirus, 1995. . Corporeidade e formação profissional: a importância da teoria da motrici- dade humana para a educação física. In: GOLIN, Carlo H; PACHECO NETO, M; MOREIRA, Wagner W. (org.). Educação Física e motricidade: discutindo saberes e inter- venções. Dourados: Seriema Editora Ltda, 2008. MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo: Cortez; Brasília: Unesco, 2001. NÓBREGA, Terezinha P. Corporeidade e Educação Física: do corpo-objeto ao corpo- -sujeito, Natal: EDUFRN, 2009. NOVAES, Adauto. A ciência no corpo. In: NOVAES, Adauto (org.). O homem-máquina: a ciência manipula o corpo. São Paulo: Cia das Letras, 2003. ROUANET, Sergio Paulo. O homem-máquina hoje. In: NOVAES, Adauto (org.). O homem-máquina: a ciência manipula o corpo. São Paulo: Cia das Letras, 2003. 47 SEDENTARISMO A redução da atividade física, ocasionada pela automação e modificações no ambiente de trabalho, assim como pelo decréscimo do tempo destinado ao lazer, tornouse cada vez mais evidente a partir dos anos 70. O sedentarismo, reconhecido como importante fator de risco para doenças cardiovasculares, é definido como a falta ou a grande diminuição de atividade física. O estilo de vida sedentário, assim como o tabagismo, a hipertensão arterial, a dislipidemia e a obesidade, são considerados os principais fatores de risco para a morte súbita, estando na maioria das vezes associado, direta ou indiretamente, às causas ou ao agravamento da grande maioria das doenças (BLAIR, 1993; CARVALHO et al., 1996). É sabido que a atividade física estimula a função dos sistemas cardiovascular, respiratório e músculo-esquelético. A incorporação desta, como hábito, contribui para o controle de peso, assim como também promove motivação psicológica e sensação de bem estar, sendo este fator relevante na prevenção primária e também como suporte terapêutico das doenças crônicas não transmissíveis (BLAIR et al., 1996). O baixo envolvimento em atividades físicas regulares, aliado aos distúrbios nutricionais, fatores sócio-econômicos e psicológicos estão associados a maior probabilidade da incidência de obesidade (PARSONS et al, 1999; WHO, 1998). Nos dias de hoje, com o tipo de vida "natural" que vivemos, com mais conforto, mais facilidades, mesmo que para termos esse estilo de vida, têm que trabalhar mais sem nos preocupar com nossa qualidade de vida, onde as atividades físicas acabam ficando em segundo plano. Dessa forma, surge então uma palavra que começa a nos preocupar: "o sedentarismo". De acordo com Guiselini (1996), se as pessoas conhecessem os benefícios da atividade física, as academias, os clubes, 48 centros esportivos, parques, campos e quadras não seriam suficientes para atender à grande demanda. A partir desta colocação temos a idéia da grande quantidade de pessoas que estão totalmente ou quase inativas. O sedentarismo já esta sendo considerada como a doença do próximo milênio, na verdade trata-se de um comportamento induzido por hábitos errôneos decorrentes dos confortos da vida moderna. Com a evolução da tecnologia e a tendência cada vez maior de substituição das atividades ocupacionais que demandem algum gasto energético por facilidades automatizadas, o ser humano adota cada vez mais a lei do menor esforço reduzindo assim o consumo energético de seu corpo (BARROS, 2000). O número de pessoas que não praticam nenhum tipo de atividade física vem crescendo cada vez mais, decorrente destas praticidades e das facilidades dos dias de hoje. Vemos que atualmente as pessoas estão tão atarefadas que não acham tempo para praticar algum tipo de atividade física, sendo que esta está totalmente relacionada com a qualidade de vida. Nos últimos anos tem sido observado um maior cuidado com o uso de denominações apropriadas na estratificação dos níveis de atividade física e comportamentos sedentários. A inatividade física vem sendo entendida como a condição de não atingir as diretrizes de saúde pública para os níveis recomendados de atividade física de intensidade moderada a vigorosa (AFMV) (Hallal et al., 2012). O comportamento sedentário tem sido definido para se referir à exposição a atividades com baixo dispêndio energético, atividades ≤ 1.5 equivalentes metabólicos (METs) (Owen et al., 2010; R. R. Pate et al., 2008). Comportamento sedentário é o termo direcionado para as atividades que são realizadas na posição deitada ou sentada e que não aumentam o dispêndio energético acima dos ní- veis de repouso (Ainsworth et al., 2000; R. R. Pate et al., 2008). São exemplos de atividades sedentárias as que estão relacionadas com uma exigência energética baixa, como ver televisão, o uso 49 do computador, assistir às aulas, trabalhar ou estudar numa mesa e a prática de jogos eletrónicos na posição sentada (Amorim & Faria, 2012; Owen et al., 2010). A simples posição em pé, mesmo sem a realização de alguma atividade, não é considerada como comportamento sedentário, podendo ser diferenciada das atividades sentadas, já que exige contração isométrica da musculatura para se opor à gravidade (Hamilton et al., 2007, 2008). Na classificação do comportamento sedentário tanto a topografia corporal como o equivalente metabólico podem conduzir a dúvidas na interpretação no momento de estratificação do risco para a saúde, a exemplo das atividades de escrever ou digitar na posição sentada que correspondem a 1.8 METs, sendo este score metabólico similar à atividade de leitura na posição ortostática (Ainsworth et al., 2000). Fonte: Meneguti et all, 2015. 50 Há consenso entre estudos para a condição elevada do tempo exposto a comportamentos sedentários estar associada a um maior risco de mortalidade (Katzmarzyk et al., 2009; van der Ploeg et al., 2012). 51 A TECNOLOGIA E SUA INFLUÊNCIA SOBRE O CORPO; PADRÕES DE BELEZA NA SOCIEDADE ATUAL Na última década do século XX, o mundo sofreu mudanças intensas como privatizações, concentração de propriedade, comercialização e ainda os avanços tecnológicos. Mercados nacionais com o processo de globalização tornaram-se mais integrados, os meios de comunicação em massa e a mídia começaram a se consolidar a partir dessa nova ordem mundial. As pessoas em todo mundo começaram a ter mais acesso a imagens e sons e também a compartilhar as diferentes culturas entre países. Esse acesso ilimitado a outras culturas através dos meios de comunicação (principalmente a TV) ocasionou a homogeneização cultural. Como forma de vender seus produtos e serviços, grandes corporações sediadas no EUA, Japão e Europa, começaram a produzir mercadorias para cultura massificada utilizando como meio a mídia, alcançando um númerocada vez maior de consumidores em todo o planeta. Nesse processo de mídia globalizada e como alvo das indústrias, não é exagero dizer que as crianças são os indivíduos mais vulneráveis, necessitando de atenção especial de pais, educadores e governantes (CARLSSON & FEILITZEN, 2002). Lisbôa (2003) destaca que as crianças no seu cotidiano se defrontam com uma nova realidade sociocultural, uma sociedade tecnológica, globalizada e consumista. Por isso, a importância de se pesquisar sobre a influência da mídia no padrão estético das crianças. Diante destas questões, objetivou-se analisar sobre a influência da mídia no padrão de beleza das crianças entre 8 e 12 anos, segundo a percepção dos pais. Ainda teve como objetivos específicos: identificar o padrão de beleza das crianças entre 08 e 12 anos, segundo a percepção dos pais; identificar as semelhanças e diferenças que os pais estabelecem entre 52 o padrão de beleza das crianças e o padrão estético veiculado na mídia televisiva; identificar o contato que as crianças possuem com a mídia televisiva no decorrer do dia, segundo os pais; apontar a influencia da mídia para o mercado de beleza das crianças, segundo a percepção dos pais; analisar as conseqüências positivas e negativas do padrão de beleza veiculado na mídia para o desenvolvimento da auto-imagem e da auto- estima das crianças, segundo os pais. Mercado da Beleza Na década de 90 e no começo do século XXI a economia para bens e serviços de beleza aumentou significativamente. Segundo Castro (2007), a ABIHPEC (Associação Brasileira de Indústria de Higiene, Perfumaria e Cosméticos), apresentou dados informando o excelente desempenho da fabricação dos produtos de higiene pessoal, cosméticos e perfumaria representando uma grande fatia no mercado da beleza. No período de 1991 a 1995 o faturamento passou de 1,5 bilhões de dólares, para 3,4 bilhões de dólares que equivale a um crescimento de 126,6% (CASTRO, 2007). O crescimento dessas indústrias no início dos anos noventa se deve a diminuição da carga tributária dos produtos cosméticos, também o preço real reduziu e por último o aumento da base do consumo que teve uma maior motivação da parte dos empresários para investir nessa área. Esses três fatores levaram a população consumir em uma grande quantidade. O impacto do “Plano Real” fez aumentar o poder aquisitivo dos brasileiros, além disso, houve a redução da carga tributária sobre as vendas destes produtos levando o maior consumo da população em produtos de beleza. O mercado de beleza brasileiro passou da sexta posição ocupada em 2000 passando para terceira posição em 2007, ficando apenas atrás dos EUA e Japão (Dados ABIHPEC). O mercado brasileiro 53 representa 4% do mercado mundial dos produtos de beleza ficando uma distância significativa referente aos outros produtos nacionais que representam de 1% a 2% (CASTRO, 2007). Segundo Harada (2008) na ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária existem 3,5 mil produtos registrados voltados ao público infantil. O mercado Brasileiro de cosmético voltado para criança (Dados Euromonita) ocupa o segundo lugar no ranking mundial, levando em consideração os 50 milhões de consumidores infantis brasileiros, representando 29,6% da população do Brasil. Segundo dados da ABIHPEC essa posição está ocorrendo desde 2005 até os dias de hoje (HARADA, 2008). Muitas vezes a criança se torna presa fácil das indústrias de consumo da pós-modernidade (ARGOLLO & OLIVEIRA, 2007). E na lógica do capitalismo a criança é vista como um indivíduo independente do adulto e elevada a status de cliente, ou seja, uma pessoa que gasta consome, e é muito exigente (PEREIRA, 2002). Oliveira cita que: A prática do consumo é incentivada por todo o sistema sócio-econômico além do cultural. Em época de Natal, São João e outras datas comemorativas nacionais e regionais, por exemplo, a pressão de consumo é intensificada. Os shoppings e o comércio ficam lotados e o horário de atendimento é prolongado. Não se pode deixar de destacar a importância da publicidade como um dos elementos moldadores de comportamentos na atualidade. A televisão e os demais meios de comunicação, através do discurso publicitário, exercem grande pressão para que consumamos. Independentemente de classe social, raça ou cor, a maioria das pessoas participa ou tem o desejo de estar incluído neste sistema repleto de símbolos - dentre elas, as crianças (ARGOLLO & OLIVEIRA, 2007, p. 4). 54 O padrão estético hegemônico na mídia No final do século XX e no início do século XXI a mídia influenciada pelo interesse das indústrias de consumo, veicula somente tipos de corpos que fazem parte do padrão estético realmente aceitável para a sociedade atual. Em um jogo de sedução e imagem a mídia evidencia modelos como indicativo de ideal de beleza. É uma forma de vincular à representação da beleza estética ideais de saúde, magreza e desejo no imaginário social e gera uma busca do corpo que se encaixe no padrão estético imposto na mídia correlacionando com o sucesso (PELIGRINI, 2009). A influência de um determinado estereótipo corpóreo vinculado na mídia, além de atingir homens e mulheres, também influencia as crianças, um grupo de indivíduos frágeis, principalmente as meninas, que desde cedo são educadas nos moldes padronizados da sociedade. Essas meninas muitas vezes, se submetem a ‘torturas’ imposta pela moda corpórea atual. Na medida em que essas crianças crescem, criam gostos e desejos e acabam por se sujeitar a moda situada no seu contexto social (FIORANI, 2007). As imagens de crianças divulgadas através dos meios de comunicação são na maioria brancas e classe média alta, contrapondo a realidade da maioria das crianças brasileiras. As crianças mestiças, afro- descendentes, gordas e pobres fazem parte de um grupo preterido pelos meios publicitários (SAMPAIO, 2000). No nível global a preocupação com a beleza em 10 meninas começaram entre 6 á 11 anos, suas principais queixas no que se referem a aparência são; o peso, forma corpórea, traços faciais. Mas na maioria dos casos essa preocupação se fortalece nas idades de 12 e 14 anos. Portanto a preocupação com a beleza começou desde muito cedo. Então quanto mais cedo essa apreensão, o impacto negativo é maior sobre essas crianças na auto-estima e na satisfação com seu corpo (MORENO, 2008). 55 A Indústria da Corpolatria: O Mercado Brasileiro da Beleza e da Boa Forma Com a difusão do conceito de beleza, aliado à saúde, bem-estar e sucesso criado pelo discurso veiculado pela mídia, a oferta e procura por bens e serviços que reforçam e ajudam os indivíduos a alcançarem esse ideal vêm crescendo vertiginosamente nos últimos anos. A Indústria Brasileira de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos – ABIHPEC (2006) apresentou um crescimento médio de 10,7% nos últimos 5 anos, tendo passado de um faturamento líquido de R$ 7,5 bilhões em 2000 para R$ 15,4 bilhões em 2005. Os índices demonstram que o setor apresentou, neste período, crescimento bem mais vigoroso que o restante da indústria (10,7% de crescimento médio no setor contra 2,1% da Indústria Geral): Nesse mercado, o Brasil ocupa a quarta posição, com especial destaque para os produtos para cabelo e perfumaria em que o Brasil figura em terceiro lugar. Dados da Associação Brasileira de Alimentos Dietéticos – ABIAD (2006) mostram que 1 em cada 2 brasileiros faz regime em algum momento de sua vida. Hoje aproximadamente 35% dos domicílios consomem algum tipo de produto light/diet. No período de 1990 a2003, o faturamento do setor passou de aproximadamente R$ 160 milhões para R$ 3 bilhões. Dados da Associação Brasileira de Academias – ACAD (2006) estimam existirem 7.000 academias em todo o país, com um total de 2,8 milhões de pessoas freqüentando as academias (1,6 % da população) e gerando um faturamento anual de R$ 1,5 bilhões. Estima-se um crescimento no Brasil superior ao do mercado americano, líder nesse setor. Estima-se ainda que, aqui no Brasil, a venda de equipamento fitness gire em torno de R$ 150 milhões para o mercado profissional e o triplo desse 56 valor para o mercado de home fitness. Dados da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica – SBCP (2006) mostram que o Brasil é o país que lidera o ranking desse tipo de cirurgia no mundo, superando os Estados Unidos. Das cirurgias realizadas no país, 80% têm finalidades estéticas enquanto apenas 20% possuem finalidades reparadoras. O Corpo na Mídia e na Publicidade A interação do público com a propaganda e outras formas de mídia de massa é muito complexa (GULAS e MCKEAGE, 2000). Consumidores desenvolvem um mosaico de significados através da construção e desconstrução da propaganda e outras formas de mídia (HIRSCHMAN e THOMPSON, 1997). Raramente uma pessoa não atraente é apresentada como garoto-propaganda nos filmes publicitários, justamente por acreditar-se que a atratividade física aumenta a eficácia do efeito da propaganda nos telespectadores e, com isso, incrementará a venda do produto anunciado. A atratividade física tornou-se recurso de persuasão e tentativa de melhoria da atitude do consumidor para com o produto, com a marca e incremento na sua intenção de compra (BRUMBAUGH, 1993). A atratividade física é o elemento visível que as pessoas dispõem e utilizam para formar opiniões e fazer julgamentos acerca da personalidade, status e posição social de outras pessoas. Kalick, 1988 (apud BRUMBAUGH, 1993) realizou uma pesquisa em que foram selecionados retratos de pessoas de diferentes sexos e diferentes graus de atratividade física e os exibiu às pessoas. Algumas características de status social e condição familiar foram apresentadas aos respondentes e pediu-se que associassem tais condições às fotografias apresentadas. Descrições de alta condição social eram associadas com 57 retratos das pessoas fisicamente atraentes, e descrições de mais baixa condição social com fotografias de pessoas menos atraentes. Consumidores percebem que a mídia apresenta um mundo estilizado e idealizado. Programas de televisão, filmes, anúncios em revistas, fotos e imagens em calendários, etc., são todos bem iluminados, harmônicos, transmitindo e reforçando a imagem idealizada de perfeição. Imagens de homens musculosos e bem-sucedidos e de mulheres bonitas, atraentes e sensuais são veiculadas ostensivamente em uma tentativa de transferir sentimentos e características do(a) modelo para o produto (ENGLIS, SOLOMON e ASHMORE, 1994; ENGLIS e SOLOMON, 1995), como uma “contaminação” com o sagrado. Corpos são colocados em cena em função das fantasias humanas tentando-se, assim, evocar (e satisfazer?) seus desejos sexuais. O corpo nada mais é, nesse contexto, que um objeto socialmente estereotipado, idealizado. A exposição prolongada a essas imagens pode provocar efeitos negativos nos indivíduos e na sociedade como um todo. Homens e mulheres comparam sua atratividade física com as dos modelos dos anúncios e estas comparações, muitas vezes, levam a uma baixa auto- estima e auto-percepção negativa (MARTIN e GENTRY, 1997), uma vez que a mídia tem o poder de criar e ditar padrões de beleza, moda e comportamentos. Em estudos que comparam a satisfação de homens e mulheres com sua aparência física, os homens geralmente se dizem mais satisfeitos que as mulheres (BURTON, NETEMEYER e LICHTENSTEIN, 1994). Entretanto, a pressão sobre os homens com relação à sua atratividade física é crescente. Nunca se falou tanto em vaidade masculina como nos dias de hoje. Já não é mais tão difícil encontrarmos homens indo a salões de beleza para fazer as unhas, se submeterem às cirurgias estéticas, freqüentarem clínicas especializadas em beleza e utilizarem cosméticos. Homem que se preocupa 58 com sua aparência física já não é mais sinônimo de “frescura” como em outros tempos, apesar de ainda existirem preconceitos sociais. Novas categorias emergem nesse contexto, tais como o metrossexual, o urbessexual, entre outros, como representação moderna das novas preocupações masculinas com sua atratividade física. Corpo, Cultura e Sociedade: A Instrumentalidade do Corpo ou o Corpo como Capital De acordo com Oliveira, 1997 (apud ASSANTE, 2005:13) o corpo é considerado “o ponto de referência que o ser humano possui para reconhecer e interagir com o mundo”. É o corpo que expressa o indivíduo. Ferreira, 2002 (apud ASSANTE, 2005:15) defende que: O universo do corpo significa o corpo no universo, ou seja, saber o seu lugar, seu ritmo, dirigir o seu olhar, se colocar, se adaptar pelos gestos desembaraçados, rápidos, aos outros, às situações e repeti-los mais complexos, evoluídos, emotivos, sofridos. Esse é o programa de toda uma vida, desde o nascimento até a morte. O corpo e a atratividade física são ativos preciosos que geram bons retornos àqueles que os utilizam e os preservam da maneira mais eficaz no jogo das relações sociais. Não há sociabilidade sem sedução e, por conseqüência, sem esse reconhecimento de que o meu próprio corpo é reconhecido como objeto pelo outro. As encenações de cada dia e a teatralização da vida na sociedade do espetáculo fazem parte de uma obstinação quotidiana de estetismo (JEUDY, 2002). O corpo tornou-se um produto social e cultural do mesmo modo que um outro objeto qualquer com valor de troca; transformou-se em instrumento de sociabilidade. O corpo bem cuidado pode garantir ao indivíduo melhor performance e 59 aceitação social, tornando a pessoa mais vendável e aceitável. Aqueles que não alcançam o padrão de beleza vigente ficam estigmatizados, desprezados e com menos oportunidades (CASTRO, 2003). “Ou se é um corpo espetacular ou se é um João ou Maria Ninguém” (COSTA, 2004: 231). McCracken (2003), Douglas e Isherwood (2004) e outros, afirmam que os bens são utilizados como pontes das relações sociais e servem como comunicadores de categorias culturais e valores sociais. Os bens estabelecem e mantêm relações sociais - constroem vínculos. Por mais estranho que nos possa parecer, fazemos uso de nosso corpo, consumimos e somos consumidos nos processos diários de interação social. Utilizamos o nosso corpo para fins de comunicação, significação e marcação. No mercado de consumo de corpos, os mais esbeltos, torneados, sensuais e atraentes são os mais disputados, desejados e valorizados. A aparência física e a performance do corpo funcionam como características distintivas, signos de status e condição social. São signos relacionais e com valor de troca. Julgamentos sociais são feitos com base nesses signos. “O corpo funciona como materialidade simbólica de significação”, sendo “uma superfície sobre o qual se inscreve o social” (SOUZA, 2004). O corpo, por suas formas e usos pode, assim, ser considerado um capital, ou seja, um recurso de poder que os atores sociais utilizam em um determinado espaço social para nele obter vantagens. Esse capital pode ser convertido em outros tipos de capitais – econômico, social, cultural e simbólico (BOURDIEU, 2007; GOLDENBERG, 2007). Embora o culto ao corpo seja uma tendência de comportamento geral,a forma como o corpo é utilizado é diversificada, diferenciada por cada grupo, exprimindo o estilo de vida e a condição de classe de cada um. Segundo Bourdieu (1983), cada classe possui um habitus, que é herdado e adquirido no curso das interações sociais dos indivíduos em sua classe. 60 Para ele, habitus é: [...] sistema de disposições duráveis e transferíveis que, integrando todas as experiências passadas, funciona a cada momento como uma matriz de percepções, apreciações e ações, e torna possível a realização de tarefas infinitamente diferenciadas, graças às transferências analógicas de esquemas que permitem resolver os problemas da mesma forma e graças às correções incessantes dos resultados obtidos, dialeticamente produzidas por estes resultados (BOURDIEU, 1983: 65). Para Bourdieu, habitus é ainda um sistema de esquemas individuais, socialmente construídos de disposições estruturadas (no social) e estruturantes (na mente), adquirido na e pelas experiências práticas, orientado para funções do agir cotidiano. É fruto do conjunto de experiências do indivíduo no meio social em que vive. É, ao mesmo tempo, construído continuamente, aberto e constantemente sujeito a novas experiências. São esquemas mentais (construídos a partir de interações sociais do sujeito no meio social) que moldam nosso modo de pensar e agir e que se modificam ao longo do tempo, conforme nossos padrões de experiências e pressões sociais. Sendo assim, emerge o conceito de habitus corporal (BOLTANSKI, 1989), ou seja, um sistema de disposições que orienta a relação dos indivíduos com os seus corpos, diferenciando a performance e os sinais que o corpo irá transmitir na sua interação com o mundo. Na sociedade moderna, constata-se o aumento da consciência corporal e do uso da sensualidade como instrumento de sedução e obtenção de vantagens de todos os tipos nas relações interpessoais. Mauss (2003), afirma que o corpo é o primeiro e mais natural instrumento, objeto e meio técnico do homem. O corpo, segundo Levi-Strauss, é a melhor ferramenta para aferir 61 a vida social de um povo. Cabe a ele uma linguagem que se institui antes daquilo que denominamos “falar”, ou seja, exprimir um conjunto de valores, crenças e ideais aprendidos durante a vida e numa determinada cultura. São manifestações simbólicas, dotadas de significado e sentido, representadas numa corporeidade manifestada no conjunto de relações sociais que os indivíduos estabelecem no dia a dia. Uso do corpo e suas representações na sociedade brasileira O culto ao corpo extrapola as práticas e relações do microambiente das interações pessoais. Assume também proporções maiores, quando atinge dimensões macro, em atividades e eventos pertencentes à sociedade como um todo. Por exemplo, o Brasil é reconhecido por suas belezas naturais e peculiaridades culturais, o que o posiciona internacionalmente como um país exótico, o que atrai visitantes de todas as partes do mundo. O exotismo relaciona-se, inseparavelmente, à apreciação da beleza. Contudo, o lado exótico também é fortemente associado a um viés erótico. Paisagens paradisíacas associam-se à sexualidade no imaginário coletivo; o clima quente dos trópicos aliado à abundância litorânea do Brasil, reforçam o mito do “país sensual”. As imagens produzidas na mente dos indivíduos e grupos estimulam incessantemente esse culto ao corpo, introduzindo-se (e reforçando-se) na cultura local. Uma diversidade de aspectos culturais do Brasil têm relação estrita com o corpo, explorando a sensualidade ou o erotismo. A capoeira, pelo gingado sensual, é sempre lembrada como uma manifestação cultural típica brasileira, apesar de ser originária da África. O futebol, pelo jogo de corpo e o “swing” típico da latinidade, é uma das marcas mais fortes que o Brasil possui. 62 O carnaval, com danças envolventes e corpos semi-nus, à mostra, provoca, de forma extremamente forte, o interesse pelo uso da atratividade do corpo como instrumento de poder pessoal. Mas, ainda mais que isso, a dinâmica proporcionada por essa adoração ao corpo e às possibilidades que isso proporciona, estimula o aproveitamento ou a potencialização desses movimentos, também como oportunidade comercial. O carioca (e pode-se dizer, o brasileiro), segundo Goldenberg (2002) é um povo que tem no corpo a sua marca distintiva e sobre o qual desenha suas fronteiras. Sendo assim, o corpo torna-se “roupa, máscara, veículo de comunicação carregado de signos que posicionam os indivíduos na sociedade” (GOLDENBERG, 2002:10). O Consumo e o Uso do Corpo como locus da Construção de Identidade. Para Hall (2004) o sujeito pós-moderno assume identidades diferentes em diferentes momentos e instâncias da vida. Essas identidades são dinâmicas e estão sendo continuamente deslocadas. Muitas confusões teóricas são feitas em torno dos conceitos de identidade e autoconceito, ao ponto de alguns autores considerá-los categorias idênticas. Portanto, é importante entendermos as diferenças entre esses dois conceitos. Cass (1984:110 apud PEREIRA, AYROSA, OJIMA, 2006) define autoconceito como a “totalidade dos pensamentos e sentimentos que um indivíduo tem em relação a si próprio”. É a imagem que o indivíduo tem de si próprio. A identidade é construída socialmente e representa e classifica o indivíduo em função de situações sociais específicas. É, portanto, uma construção cultural situacional, contextual e relacional. Uma pessoa tem um autoconceito e muitas identidades (PEREIRA, AYROSA, OJIMA, 2006). 63 Segundo alguns autores como Belk, Douglas & Isherwood, McCracken e outros, os indivíduos constroem suas identidades através do consumo de bens e serviços que funcionarão não só como um meio para as relações sociais, mas também como signos distintivos, categorizadores dos sujeitos no espaço social. O consumo tornou-se uma esfera social que regula e orienta as práticas do cotidiano na sociedade contemporânea. Nele os indivíduos se reconhecem um nos outros (e com os outros) e constroem suas identidades de forma mais ou menos intencional. Considerando o corpo como mercadoria-signo, portanto, locus e veículo comunicacional, sua linguagem, gestualidade e forma (culturalmente codificada), ou seja, suas formas de manipulação, cuidado e expressão, são instrumentos de distinção social e indicadores de poder pessoal e prestígio. Nesse contexto, o culto ao corpo pode ser interpretado como uma esfera de consumo que garantiria a determinados indivíduos a aceitação e pertencimento a um grupo social específico, através do qual constrói sua identidade no conjunto de atividades e experiências quotidianas desenvolvidas e vivenciadas para esse fim. Considerações Finais A mídia e a publicidade, agindo em conjunto com a indústria da corpolatria, estimulam e reforçam a cultura do culto ao corpo na sociedade contemporânea. Cirurgias plásticas, academias de ginástica, alimentos light/diet e cosméticos servem como canais para a obtenção do tão propagado corpo esteticamente perfeito e atraente, utilizado como instrumento de socialização, competição e poder. É importante considerarmos que toda a gama de estereótipos corporais construídos no discurso midiático (e presente no imaginário coletivo) e a apologia ao consumo têm em comum uma “moral” da 64 aparência. Esses valores estão em consonância com os da sociedade contemporânea, em que são estimuladas a competição coletiva e individual (superar a si mesmo). Estudos revelam que o Brasil é um dos países em que a atratividadefísica é bastante valorizada. Aspectos culturais contribuem para que o erotismo e jogos de sensualidade façam parte não apenas do imaginário, como também das experiências e práticas vivenciadas pelos indivíduos. A análise das relações de poder entre a indústria da corpolatria, a mídia e o indivíduo, como atores que produzem discursos acerca da importância da atratividade física, apresenta uma atuação complexa, por se basear em interesses diversos. Cada ator exerce poder dentro de sua área ao mesmo tempo em que recebe influência de outro. Percebemos aí uma manipulação do indivíduo pela mídia e pela indústria, que se reforçam mutuamente, re-significando os discursos desses atores e assumindo também o seu poder, na medida em que toma para si a responsabilidade de cuidar do próprio corpo, construindo uma individualidade distintiva. Na medida em que o corpo é utilizado como um instrumento de poder, questionamos até que ponto o indivíduo não se transforma em uma mercadoria ao reificá-lo ou considerá-lo como uma parte não pertencente ao seu self. Ao mesmo tempo, o indivíduo conhece seu corpo como algo não dissociado da alma, participante da construção de sua identidade e personalidade. Esperamos que, com este trabalho, sejam levantadas novas questões relevantes ao estudo da corpolatria e do culto ao corpo no contexto brasileiro, bem como sejam analisadas as relações de poder entre os diversos atores que interagem nesse processo de construção da moral da aparência. 65 REFERENCIA BIBLIOGRAFICA KNOPP, Glauco da Costa. A influência da mídia e da indústria da beleza na cultura de corpolatria e na moral da aparencia na sociedade contemporanea. V ENECULT - Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura 28 a 30 de maio de 2008 Faculdade de Comunicação/UFBa, Salvador-Bahia-Brasil. Disponivel em: http://www.cult.ufba.br/enecult2008/14415.pdf RIBEIRO, Larissa Gabrielle de Paula Wehner. ILDEBRANDO, Morgana Karoline. PLONER, Katia Simone. A influência da mídia no padrão de beleza das crianças entre 8 e 12 anos: sob a percepção dos pais. Disponovel em http://siaibib01.univali.br/pdf/Larissa%20Gabrielle%20de%20Paula%20We hner%20Ribeiro%20e%20Morgana%20Karoline%20Ildebrando.pdf 66 QUALIDADE DE VIDA: DEFINIÇÕES E CONCEITOS O universo de conhecimento em qualidade de vida se expressa como uma área multidisciplinar de conhecimento que engloba além de diversas formas de ciência e conhecimento popular, conceitos que permeiam a vida das pessoas como um todo. Nessa perspectiva, lidase com inúmeros elementos do cotidiano do ser humano, considerando desde a percepção e expectativa subjetivas sobre a vida, até questões mais deterministas como o agir clínico frente a doenças e enfermidades. Pode-se perceber inúmeros esforços na tentativa de elucidar esse campo de conhecimento. Compreender qualidade de vida como uma forma humana de percepção do próprio existir, a partir de esferas objetivas e subjetivas, é um desses. Porém, é preciso que, para uma compreensão adequada, não haja reducionismo perante esse tema, pois o que se percebe são inter-relações constantes entre os elementos que compõem esse universo. Para melhor compreender a área de conhecimento em qualidade de vida é necessário adotar uma perspectiva, ou um paradigma complexo de mundo, pois se expressa na relação entre o Homem, a natureza e o ambiente que o cerca (BARBOSA, 1998). Por exemplo, embora haja diferença entre esferas de percepção deste conceito, para compreendê- las melhor é preciso que sejam associadas, que a influência de uma sobre a outra seja considerada, formando um todo. A presença do termo qualidade de vida é facilmente percebida no linguajar da sociedade contemporânea, sendo incorporado ao vocabulário popular com várias formas de conotação. Parece que existe um consenso de que é algo bom falar em qualidade de vida, mesmo sem definir exatamente do que está se falando. O senso comum se apropriou desse objeto de forma a resumir 67 melhorias ou um alto padrão de bem-estar na vida das pessoas, sejam elas de ordem econômica, social ou emocional. Todavia, a área de conhecimento em qualidade de vida encontra-se numa fase de construção de identidade. Ora identificam-na em relação à saúde, ora à moradia, ao lazer, aos hábitos de atividade física e alimentação, mas o fato é que essa forma de saber afirma que todos esses fatores levam a uma percepção positiva de bem-estar. A compreensão sobre qualidade de vida lida com inúmeros campos do conhecimento humano, biológico, social, político, econômico, médico, entre outros, numa constante inter-relação. Por ser uma área de pesquisa recente, encontra-se em processo de afirmação de fronteiras e conceitos; por isso, definições sobre o termo são comuns, mas nem sempre concordantes. Outro problema de ordem semântica em relação à qualidade de vida é que suas definições podem tanto ser amplas, tentando abarcar os inúmeros fatores que exercem influência, como restritas, delimitando alguma área específica. Analisando o termo qualidade de vida, nota-se que o emprego da palavra Qualidade a essa forma de percepção de mundo estabelece uma existência inerente a esse campo de conhecimento, independente de ser considerado bom ou ruim. A qualidade de vida sempre esteve entre os homens; remete-se ao interesse pela vida. Logo, é possível estabelecer que qualidade de vida não é algo a ser alcançado, um objeto de desejo da sociedade contemporânea que deve ser incorporado à vida a partir de esforço e dedicação individual. Pelo contrário, é uma percepção que sempre esteve e sempre estará presente na vida do ser humano. O fato é que, a partir desse tipo de análise, todos os sujeitos têm qualidade de vida, não sendo esse um elemento a ser alcançado através de ações embutidas no padrão de boa vida da sociedade contemporânea; porém, o interessante para a vida de cada um é buscar uma boa qualidade frente às suas possibilidades individuais de ação. Quanto ao valor implícito a essa percepção (bom ou ruim), é possível 68 afirmar que respeita tanto questões de ordem concreta, que exercem influência direta sobre as possibilidades de ação do sujeito frente à própria vida, como formas de percepção, ação e expectativas individuais frente a esses elementos. Inclusive, estabelecer se algo é bom ou ruim depende de diferentes referenciais ou pontos de vista. De acordo com Minayo et al. (2000, p.10), qualidade de vida é: […] uma noção eminentemente humana, que tem sido aproximada ao grau de satisfação encontrado na vida familiar, amorosa, social e ambiental e à própria estética existencial. Pressupõe a capacidade de efetuar uma síntese cultural de todos os elementos que determinada sociedade considera seu padrão de conforto e bem-estar. O termo abrange muitos significados, que refletem conhecimentos, experiências e valores de indivíduos e coletividades que a ele se reportam em variadas épocas, espaços e histórias diferentes, sendo, portanto, uma construção social com a marca da relatividade cultural. Nota-se que essa abordagem esbarra numa compreensão social do termo, que considera questões subjetivas como bem-estar, satisfação nas relações sociais e ambientais, e a relatividade cultural. Ou seja, esse entendimento depende da carga de conhecimento do sujeito, do ambiente em que ele vive, de seu grupo de convívio, da sua sociedade e das expectativas próprias em relaçãoa conforto e bem-estar. Gonçalves e Vilarta (2004) abordam qualidade de vida pela maneira como as pessoas vivem, sentem e compreendem seu cotidiano, envolvendo, portanto, saúde, educação, transporte, moradia, trabalho e participação nas decisões que lhes dizem respeito. Essa abordagem indica, num primeiro momento, para as expectativas de um sujeito ou de determinada sociedade em relação ao conforto e ao bem- estar. Isso depende das condições históricas, ambientais e socioculturais de 69 determinado grupo, ou seja, o entendimento e a percepção sobre qualidade de vida, nessa perspectiva, são relativos e variáveis. Qualidade de vida não se esgota nas condições objetivas de que dispõem os indivíduos, tampouco no tempo de vida que estes possam ter, mas no significado que dão a essas condições e à maneira com que vive. Nessa concepção, a percepção sobre qualidade de vida é variável em relação a grupos ou sujeitos. Para essa autora, o termo está relacionado ao significado que damos às condições objetivas da vida. Para Nahas (2001, p. 5), qualidade de vida é a “condição humana resultante de um conjunto de parâmetros individuais e socioambientais, modificáveis ou não, que caracterizam as condições em que vive o ser humano”. Gonçalves (2004, p.13) define qualidade de vida como “a percepção subjetiva do processo de produção, circulação e consumo de bens e riquezas. A forma pela qual cada um de nós vive seu dia-a-dia”. Por fim, qualidade de vida, para a Organização Mundial da Saúde (OMS) (1995), é “a percepção do indivíduo de sua inserção na vida no contexto da cultura e sistemas de valores nos quais ele vive e em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações”. Não é possível existir um conceito único e definitivo sobre qualidade de vida, mas se pode estabelecer elementos para pensar nessa noção enquanto fruto de indicadores ou esferas objetivas (sociais) e subjetivas, a partir da percepção que os sujeitos constroem em seu meio (BARBOSA, 1998). Segundo Vilarta e Gonçalves (2004, p. 33), essas esferas se caracterizam como: 70 Objetividade das condições materiais: interessa a posição do indivíduo na vida e as relações estabelecidas nessa sociedade; Subjetividade: interessa o conhecimento sobre as condições físicas, emocionais e sociais relacionadas aos aspectos temporais, culturais e sociais como são percebidas pelo indivíduo. Pontos de vista objetivos buscam uma análise ou compreensão da realidade pautada em elementos quantificáveis e concretos, que podem ser transformados pela ação humana. A análise desses elementos considera fatores como alimentação, moradia, acesso à saúde, emprego, saneamento básico, educação, transporte, ou seja, necessidades de garantia de sobrevivência próprias da sociedade contemporânea. Essa perspectiva caracteriza a análise em qualidade de vida como uma busca por dados quantitativos e qualitativos que permitam traçar um perfil de um indivíduo ou grupo em relação ao seu acesso a bens e serviços. Esses dados são gerados com base em informações globais dos grupos estudados. A partir deles, são traçados índices estatísticos de referência sobre posições socioeconômicas de populações, assim como comparações entre objetos diferentes. Com esse tipo de tratamento, torna-se possível estabelecer quadros de perfis socioeconômicos para ações voltadas à melhoria da qualidade de vida dos sujeitos envolvidos. A análise de qualidade de vida sob um aspecto subjetivo também leva em conta questões de ordem concreta, porém, considera variáveis históricas, sociais, culturais e de interpretação individual sobre as condições de bens materiais e de serviços do sujeito. Não busca uma caracterização dos níveis de vida apenas sobre dados objetivos; relaciona-os com fatores subjetivos e emocionais, expectativas e possibilidades dos indivíduos ou grupos em relação às suas realizações, e a percepção que os atores têm de suas próprias vidas, considerando, inclusive, questões imensuráveis como prazer, felicidade, angústia e tristeza. 71 Quanto aos aspectos subjetivos, é preciso uma caracterização prévia do ambiente histórico-social em que vive o grupo ou sujeito para uma análise sobre seus níveis de qualidade de vida. Lembrando que o estabelecimento desses níveis se dá de forma relativa às necessidades, expectativas e percepções individuais. Relacionando as definições de qualidade de vida apresentadas com as duas esferas em que circula essa área de conhecimento, podese observar que, embora os autores citados apresentem prevalências individuais de análise quanto a elementos objetivos ou subjetivos, não é possível isolá-los em suas definições. Há uma relação íntima entre aspectos objetivos e subjetivos a respeito desse tema: “nenhuma análise sobre qualidade de vida individual poderá ser desenvolvida sem uma contextualização na qualidade de vida coletiva” (TUBINO, 2002, p. 263). Do mesmo modo, a definição de qualidade de vida da OMS, por exemplo, contempla as concepções de subjetividade do indivíduo e de objetividade das condições materiais (VILARTA e GONÇALVES, 2004). Qualidade de vida e atividade física Em relação aos hábitos individuais e estilos de vida dos sujeitos, a esfera subjetiva de cuidados à saúde diz respeito ao impacto dos costumes cotidianos do indivíduo perante sua vida. Entre os comportamentos considerados saudáveis na sociedade contemporânea, Vilarta e Gonçalves (2004, p. 47) destacam: Adotar hábitos alimentares que respeitem as necessidades biológicas de regularidade de ingestão de nutrientes (distribuir a quantidade total de alimentos ingeridos em várias refeições ao longo do dia); Respeitar as necessidades específicas de nutrientes para cada etapa da vida (considerar as demandas por vitaminas, 72 minerais, água, carboidratos, lipídeos, ou proteínas de acordo com o estado fisiológico, por exemplo, adolescentes, gestantes, atletas e crianças); Praticar atividade física apropriada à própria condição fisiológica e com regularidade; Controlar o estresse físico e emocional com técnicas específicas às expectativas e os objetivos de cada pessoa; Envolver-se em ações comunitárias estabelecendo laços de apoio e convívio familiar e social; Dedicar-se ao lazer não-sedentário, baseado em ações que envolvam atividade esportiva, hobbies ou trabalho voluntário. Nota-se que, dentre as ações listadas, pode-se observar aspectos voltados à alimentação, aos relacionamentos sociais e às práticas sistemáticas de atividade física. Como o foco desse trabalho reside nas relações entre a prática esportiva e a qualidade de vida, faz-se de fundamental importância uma reflexão sobre o impacto desse tipo de atividade na percepção humana, assim como os aspectos sociais envolvidos nessa prática. Porém, não se pode ignorar o fato de que a adoção de hábitos saudáveis depende da atitude e da adequação do sujeito a uma rotina apropriada, desde que suas condições de vida proporcionem sua opção de escolha. Por exemplo, é utópico falar em prática periódica e frequente de atividade física sistematizada para um sujeito que mal consegue realizar três refeições diárias e não tem acesso a bons sistemas de atenção à saúde clínica. A adoção de um estilo de vida tido como saudável depende de acesso à informação, às oportunidades para prática de atividade física e aos hábitos positivos, ao apoio socioeconômico e à atitude para mudança de comportamento (NAHAS, 2001). A atividade física é colocada na sociedade contemporânea como uma ponte segura paramelhores situações de saúde. É uma função bastante ampla, atribuída a um único conceito, sintetizando a abrangência das inúmeras consequências do mesmo sobre o organismo humano. Porém, esse termo é utilizado de maneira generalizante, pois é possível que seja direcionado ao controle do estresse, assim como uma prática antissedentária, e também para 73 fins estéticos ou de melhora de performance atlética (LOVISOLO, 2002). Com o intuito de apresentar uma definição acerca do termo atividade física, apresenta-se três opções, sendo que duas apontam para um sentido semântico de qualquer prática corporal que gaste mais energia do que o estado de repouso (NAHAS, 2001 e CARVALHO, 2001), enquanto uma terceira estabelece a necessidade de racionalização e sistematização da prática (LOVISOLO, 2002). O termo atividade física carrega toda e qualquer ação humana que comporte a ideia de trabalho como conceito físico. Realiza-se trabalho quando existe gasto de energia. Esse gasto ocorre quando o indivíduo se movimenta. Tudo que é movimento humano, desde fazer sexo até caminhar no parque, é atividade física (CARVALHO, 2001, p. 69). É uma característica humana que representa qualquer movimento corporal produzido pela musculatura esquelética, que resulte num gasto energético acima dos níveis de repouso. Inclui atividades da vida diária, do trabalho e do lazer” (NAHAS, 2001, p. 30). “A atividade física refere-se a motivos e intenções de movimento ou conservação das capacidades físicas, e implica um plano de ações racionalizadas ou sistematizadas [...] controlada e corrigida por especialistas” (LOVISOLO, 2002, p. 281). Para esse trabalho, serão adotadas como significado de atividade física as duas primeiras definições, que expressam nesse termo o movimentar- se humano. Dessa forma, é possível que, ao abordar esse tipo de prática, sejam englobados desde a realização de trabalhos cotidianos, quanto de atividades planificadas, sistematizadas e a prática esportiva. Essa opção se dá com o intuito de apontar a necessidade de, ao realizer reflexões sobre atividade física, especificar o tipo de prática a qual se faz menção, como por exemplo, atividade física moderada como prática antissedentária, ou atividade física ligada ao treinamento esportivo. 74 Por outro lado, embora adote uma concepção diferenciada de atividade física, as reflexões de Lovisolo (2002) denunciam a existência de mitos ou crenças ligadas à atividade física e saúde. Para a abordagem realizada sobre o trabalho desse autor, seu conceito de atividade física (mais específico do que os de Carvalho e Nahas) não se coloca como um empecilho ou como fator de incompatibilidade teórica, visto que essa conceituação se encaixa na esfera de abrangência da definição de atividade física adotada, pois se caracteriza como uma das possibilidades de entendimento sobre o termo em questão (atividade física de forma sistematizada). Carvalho (2001) também denuncia a existência de um mito na sociedade contemporânea, que associa atividade física com saúde, promovido especialmente pelos meios de comunicação. Nesse contexto, a ideia de que atividade física está diretamente relacionada com uma boa saúde é literalmente vendida, segundo a autora, como uma prática generalizante e que cultua estereótipos de boa forma física e saúde. Essa ideia pode ser até comprovada por métodos científicos; porém, é preciso considerar esse elemento função coadjuvante nesse processo, pois, como já descrito nesse trabalho, a saúde é um complexo de vários componentes que interagem e exercem influência sobre o resultado final. Faz-se necessária certa reflexão (LOVISOLO, 2002): Qualquer tipo de atividade física é benéfico para a manutenção da saúde? A mesma forma de atividade física serve tanto para diminuir o estresse quanto para proporcionar melhoria de performance atlética? A simples ausência de sedentarismo garante um bom quadro de saúde? Inicialmente, torna-se necessário definir os limites e as fronteiras sobre sedentarismo. Nahas (2001) classifica que um sujeito sedentário é o que não produz gasto energético mínimo de 500 Kcal/semana, ou seja, que não pratica atividade física por 30 minutos, cinco vezes por semana. Essa definição, baseada em gasto energético ou periodicidade da prática, se faz um 75 tanto quanto genérica, pois conforme o próprio autor salienta, ao adotar essa concepção é preciso não ignorar as ações corporais dos sujeitos em seu dia- a-dia, inclusive em momento de trabalho. Ao considerar tais realizações, estabelece-se que qualquer forma de movimento corporal é benéfica para a saúde, desde que compreenda 30 minutos do dia do sujeito. Isso pode ser considerado um equívoco, pois existem diversas práticas de atividade física, desde caminhadas leves, até trabalhos com peso ou um treinamento intenso de um triatleta, com efeitos diversos sobre o organismo, assim como seu benefício ou malefício à saúde (LOVISOLO, 2002). Ao levar em consideração a multiplicidade de formas de atividade física e suas consequências para o bem-estar do sujeito, para a manutenção ou melhoria dos quadros de saúde, é necessário que essa prática esteja adequada às condições e expectativas individuais, assim como ao local, aos processos e ao ambiente em que ocorre. Por isso, a concepção de antissedentarismo, que orienta para que o indivíduo se movimente independente da forma de atividade, aponta para um passo inicial para campanhas pró-atividade física, mas não é o trabalho suficiente. O ideal, para um estilo de vida tido como saudável, seria a adoção de práticas de atividade física sistematizada, considerando toda a condição de vida e saúde do sujeito. Porém, como nem tudo acontece próximo do ideal, o que se observa é uma realidade pautada pelo acesso um tanto quanto restrito dessa forma de prática a algumas camadas da sociedade, devido a critérios socioeconômicos. Por isso, a questão do sedentarismo apresenta um quadro no qual a ideia de movimentar-se, independente da forma e processos adotados, tem certa validade e impacto positivo sobre a saúde dos sujeitos, incorporando, infelizmente, o sentimento de que é melhor isso do que nada. Por outro lado, Lovisolo (2002) atenta para o fato de que classes socialmente privilegiadas também apresentam altos índices de sedentarismo, 76 mesmo com a divulgação de que um estilo de vida saudável e as condições de saúde são diretamente dependentes da prática de atividade física. O autor aponta para uma tese ligada ao aumento do avanço tecnológico, que, por um lado, é benéfico à qualidade de vida dos sujeitos, facilitando a comunicação e tornando a vida mais ágil e segura, mas que privilegia a substituição do esforço humano pelo da máquina. Essa ideia é compartilhada por outros autores, que denunciam um menor uso da força humana no decorrer do tempo na sociedade contemporânea. Avanços tecnológicos apresentam uma relação ambígua frente à prática cotidiana de atividade física na sociedade contemporânea. Podem tanto ser um fator de estímulo à inatividade (com inovações que facilitam atividades do dia-a-dia, demandando esforço físico, divulgação e criação de formas de consumo do lazer sedentário), como também a manutenção de um estilo de vida ativo para praticantes já engajados nesse hábito, com produtos ligados à melhoria de condições de prática. Nesse aspecto, nota-se um filão de mercado que visa desde desenvolver produtos que melhorem as condições de prática (como isotônicos ou calçados apropriados), até artigos que criam novas atividades (bicicletas para ciclismo indoor). De todaforma, os avanços tecnológicos estabelecem aos consumidores praticantes algumas novas necessidades, como roupas com tecidos especiais ou materiais que prometem melhora de performance, que, se utilizados de forma adequada, e com consciência de que não é o produto que promove a prática, mas sim o sujeito, podem colaborar para manter o interesse e a inserção desse hábito presente no estilo de vida, o que pode ser favorável à qualidade de vida (MARQUES, 2007, p. 145). A influência da tecnologia sobre os hábitos de atividade física é um dos inúmeros aspectos que inter-relaciona essa ação humana com qualidade de vida. A questão abordada numa reflexão acerca das relações entre saúde, atividade física e qualidade de vida não é de causalidade direta entre as partes, 77 tida como consenso na sociedade contemporânea, mas a forma, a intensidade e o impacto com que se estabelece essa interrelação. O foco da reflexão não é abordar se a atividade física colabora ou não com a melhoria dos quadros de saúde, mas que tipo de atividade, e em que contexto se faz positivo ou negativo esse processo. Autores como Nahas (2001) e Lovisolo (2002) salientam diferenças entre formas de atividade física (exercício e atividade, práticas leves e intensas, treinamento e prática voltada ao bem-estar), que se fazem importantes devido aos diferentes impactos causados pelas variadas formas de práticas sobre o organismo e também sobre o convívio social dos sujeitos. Pode-se diferenciar as formas de atividade física como ligadas a momentos de trabalho e não-trabalho (CARVALHO, 2001). Essa proposta estabelece um parâmetro para compreensão desse termo, pois especifica que, embora em momentos diferentes, é possível a prática de atividade física. Por outro lado, abre a possibilidade de interpretação para um campo em que a prática tenha sentido profissional, como por exemplo, atletas de alto rendimento. Nahas (2001, p. 33) chama atenção para uma variável que se relaciona com a prática de atividade física, a aptidão física, definida como “a capacidade que um indivíduo tem para realizar atividade física. Deriva da hereditariedade, estado de saúde, alimentação e prática regular de exercícios físicos”. Pode estar relacionada à melhoria de performance, contribuindo para um bom desempenho em tarefas específicas, trabalho ou esporte; ou à saúde, lidando com prevenção de doenças e busca de maior disposição para atividades do dia-a-dia, exercendo influência sobre o bem-estar. Pode-se diferenciar formas de atividade física de acordo com o sentido dado à prática, significado e motivação. Dessa forma, é possível elencar duas categorias que podem ocorrer tanto em momentos de trabalho como de não-trabalho do sujeito praticante, e acabam por influenciar a aptidão física do sujeito, de 78 forma voluntária ou involuntária: a.) Atividade física ligada à incorporação ao estilo de vida: Práticas sem o intuito de alcançar os limites de alto rendimento físico do organismo, privilegiando o antissedentarismo, o prazer pela prática e a socialização. Podem ou não ser sistematizadas, embora não excluam o sentimento de esforço e cansaço. b.) Atividade física ligada ao treinamento e melhoria de performance atlética: Práticas que buscam estabelecer melhores patamares de limite de realização de performance atlética. Ocorrem (ou pelo menos deveriam ocorrer) de forma sistematizada, com controle da intensidade, buscando segurança e bem-estar do sujeito. Nessa categoria, são englobadas situações de treinamento esportivo, estético, com auxílio de controle das variáveis do treino e efeitos deste sobre o organismo. Os diferentes tipos de atividade física apontados nessa divisão caracterizam uma heterogeneidade perante o sentido e os efeitos de sua prática, mas, de toda forma, lidam com a melhoria do bem-estar do sujeito. Esse quadro fundamenta o risco de generalizar afirmações referentes à relação atividade física e saúde, pois, por exemplo, atividades voltadas à melhoria de performance, visando um trabalho físico próximo do patamar de limite de realização do sujeito, não se fazem interessantes para um indivíduo sedentário iniciante em atividade física, podendo até gerar um impacto negativo sobre sua saúde (NAHAS, 2001; WEINECK, 2003). 79 REFERENCIA BIBLIOGRAFICA ALMEIDA, Marcos Antonio Bettine de. GUTIERREZ, Gustavo Luis. MARQUES, Renato: Qualidade de vida: definição, conceitos e interfaces com outras áreas, de pesquisa / Marcos Antonio Bettine de Almeida, : prefácio do professor Luiz Gonzaga Godoi Trigo. – São Paulo: Escola de Artes, Ciências e Humanidades – EACH/USP, 2012. Disponovel em: http://each.uspnet.usp.br/edicoes-each/qualidade_vida.pdf