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RUBENS SILVA ARGUELHO 
(Organizador) 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
CORPOREIDADE E MOTRICIDADE HUMANA 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Campo Grande/MS 
2018 
 
 
 
 
 
 
Sumário 
 
 
CORPOREIDADE E MOTRICIDADE HUMANA 02 
CORPO E MOVIMENTO 03 
REFLEXÕES SOBRE O CORPO. UMA BREVE INTRODUÇÃO 06 
CORPOREIDADE E MOTRICIDADE HUMANA NA 
EDUCAÇÃO FÍSICA: UMA POSSIBILIDADE DE 
TRANSCENDÊNCIA PARA A ÁREA 
20 
FORMAÇÃO PROFISSIONAL NA ÁREA DA EDUCAÇÃO 
FÍSICA: O FENÔMENO CORPOREIDADE COMO EIXO 
BALIZADOR 
 
35 
 SEDENTARISMO 47 
 A TECNOLOGIA E SUA INFLUÊNCIA SOBRE O CORPO; 
 PADRÕES DE BELEZA NA SOCIEDADE ATUAL 
 
51 
 QUALIDADE DE VIDA: DEFINIÇÕES E CONCEITOS 
 
66 
 
2 
 
CORPOREIDADE E MODRCICIDADE HUMANA 
 
Essa disciplina visa analisar o fenômeno corporeidade ao longo da 
história, através da identificação dos paradigmas científicos e teorias que 
influenciam suas diversas concepções de corpo trazendo à tona o discurso do 
corpo sujeito e do corpo próprio. Estudar das contribuições das teorias da 
corporeidade aos desafios da produção do conhecimento para o século XXI. 
Vivenciar as possibilidades de identificar o corpo de modo sensível e 
reflexivo, nas suas relações consigo mesmo, com o outro e com o mundo, 
bem como, enquanto lugar de construção de saberes, abrigo de múltiplas 
inteligências, sensações, emoções e iniciativas critico-criativas. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
3 
CORPO E MOVIMENTO 
 
A relação corpo-movimento se insere na história da própria 
humanidade, desde os embates dos nossos mais remotos ancestrais pela 
sobrevivência: na caça, na luta ou na fuga, nos movimentos de correr, saltar, 
arremessar e puxar, entre outros. 
Os movimentos são uma parte importante do nosso ser. Eles são 
essenciais para o crescimento e desenvolvimento da pessoa, bem como têm 
papel relevante para o seu relacionamento com o ambiente que a cerca, desde 
a fase intra-uterina. 
Na etapa da escolarização inicial, jogos e brincadeiras, não sem 
propósito, são centrais para uma educação infantil de qualidade e, portanto, 
também para os programas de Educação Física voltada para as crianças 
pequenas. 
Desde cedo aprendemos que, de certa forma, movimentar-se é 
comunicar-se. O corpo se movimenta e fala. Tem uma linguagem própria: a 
linguagem corporal. Outro aspecto funcional do movimento é que ele é 
importante para a aquisição da autonomia. Isso se evidencia na medida em 
que crescemos e nos desenvolvemos. Uma habilidade adquirida ajuda no 
desenvolvimento de outras. 
Percebeu que, no geral, falamos aqui sobre o binômio 
corpo/movimento? Contudo, pergunto: será que falamos das mesmas coisas? 
Explico-me: parei para pensar se o nosso interesse comum pela educação 
garante que tenhamos o mesmo entendimento sobre os conceitos aqui usados. 
Por exemplo, será que damos ao “corpo” os mesmos significados? 
Pensemos um pouco nisso agora. Suponho concordar, pois, mais do 
que eu, você sabe que o entendimento do corpo e do seu funcionamento é 
central para os profissionais da educação física, não é mesmo? 
 
 
4 
 
Para começar, responda à pergunta: Os movimentos também são importantes 
para a socialização e o desenvolvimento da linguagem. 
 
Que idéias o conceito de “corpo” lhe traz? 
 
O conceito de Corporeidade 
 
 
 
Corporeidade é a maneira pela qual o cérebro reconhece e utiliza o 
corpo como instrumento relacional com o mundo. 
 O corpo é movido por intenções provenientes da mente. As intenções 
manifestam-se através do corpo, que interage com o mundo, que dá uma 
resposta para o corpo, que informa a mente através de seus órgãos sensoriais, 
que, analisando as respostas obtidas do ambiente, muda ou reafirma suas 
intenções, utilizando o corpo para novas manifestações. 
A esta capacidade de o indivíduo sentir e utilizar o corpo como 
ferramenta de manifestação e interação com o mundo chamamos de 
corporeidade. 
A corporeidade do indivíduo evolui com a idade. É lógico que a 
corporeidade do recém-nascido é totalmente diferente daquela da criança de 
dez anos, do adulto ou do velho de oitenta anos; a do homem é diferente da 
da mulher; como a do indivíduo doente o é da que possui quando sadio. 
 Durante a evolução da criança, a qualidade da corporeidade é um dos 
principais determinantes da estruturação neuropsicomotora. Por outro lado, a 
estruturação corporal na mente da criança é fundamental para o 
desenvolvimento do próprio corpo como organismo físico. Crianças privadas 
de adequado relacionamento corporal com o mundo tendem a ter 
desenvolvimento físico atrasado em relação às demais (o que chamamos em 
clínica de nanismo psico-afetivo). 
 
5 
 A qualidade da corporeidade depende, como em todas as funções 
neurológicas, da qualidade e desenvolvimento das relações neuroniais 
estabelecidas entre as áreas sensoriais e motoras do cérebro. Estas relações, a 
maioria estabelecida durante a primeira infância, desenvolvem-se através do 
treinamento corporal. Para ilustrar a que ponto o ser humano pode 
desenvolver a corporeidade, basta observar um grande dançarino de balé, um 
ginasta olímpico ou um campeão de judô. Nem é preciso dizer que, quanto 
mais cedo na vida do indivíduo as atividades forem treinadas, melhor será a 
performance. Mais adiante, demonstrarei algumas técnicas simples para o 
desenvolvimento dos diversos aspectos da corporeidade, em cada período da 
primeira infância. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
6 
REFLEXÕES SOBRE O CORPO. UMA BREVE INTRODUÇÃO 
 
 
 Em vários âmbitos como o religioso, o filosófico, o científico e até 
mesmo no âmbito da magia e no imaginário das pessoas, o corpo humano, 
desde tempos mais remotos, tem sido objeto de estudo e reflexão. Dessa 
forma, as investigações sobre corpo atuam como objeto de pesquisa para 
melhor compreensão dos homens acerca desse assunto. 
 São várias as inferências que buscam definir o que é o corpo afinal. Para 
Vargas (1990, p. 33), o corpo é um turbilhão de acontecimentos culturais, 
sociais, animais e psíquicos, uma confluência de fenômenos, uma teia de 
emoções, de movimentos, um leque inesgotável de gestos. Feijó (1992, p. 7) 
considera que corpo e mente são um dado fenomenológico da percepção 
diária, dessa forma, nenhum dos dois devem ser negados ou diminuídos. Brito 
(1996, p. 44) afirma que estudos atuais têm evidenciado como a 
psiconeuroimunologia e a psiconeuroendocrinologia, estudam as relações do 
corpo físico, com os corpos energético, emocional e mental. Ladislau e Pires 
(2007, p.1) relatam que o corpo de um indivíduo ao mesmo tempo em que 
guarda vários traços de sua subjetividade e de sua fisiologia, também pode 
esconder tais traços, e se aventurar na tentativa de desvendar esses mistérios 
é perceber o quanto é inútil separar a obra da natureza daquela realizada pelos 
homens, pois o corpo é “biocultural”, tanto a nível genético, quanto oral e 
gestual. Para Villaça e Góes (1998, p. 29), pensar o corpo é pensar em suas 
possibilidades e em seus limites, percebendo-o como um dos elementos 
constitutivos do universo, no qual se produzem as subjetividades. 
 Na Grécia antiga, vários filósofos já passavam a expressar discussões sobre 
a relevância da dimensão corporal do homem, tentando explicar sua 
importância. Eles buscavam preconizar a harmonia entre corpo emente, 
demonstrada nas belas estátuas nuas, feitas através de uma expressão 
 
7 
inteligente (VARGAS, 1998, p. 33). Platão pregava a dicotomia entre corpo-
alma, para ele era fundamental fazer ginástica desde a infância e a 
adolescência, dessa maneira, a ginástica cuidaria do corpo e a música cuidaria 
da alma, criando uma harmonia entre os dois. Sócrates considerava que um 
corpo saudável era resultado de um corpo trabalhado e Aristóteles postulava 
que a educação compreendia três momentos: a vida física, o instinto e a razão. 
 Ainda segundo Vargas (1998, p. 33), na idade média, o corpo e a 
sexualidade eram vistos como sinônimos de pecado e, assim, os conceitos 
religiosos da educação preconizavam a elevação do poder mental e espiritual, 
renegando-se qualquer ação expressiva corporal. Somente as habilidades 
guerreiras dos cavaleiros e seus soldados eram permitidas, quando tinham 
como ideal a conquista de “lugares santos” e o combate às pessoas 
consideradas infiéis. 
 Contemporaneamente Marleau-Ponty em sua obra Fenomenologia da 
Percepção, propõe uma nova idéia sobre dimensão corporal e ressalta que é 
através do nosso próprio corpo que interagimos com o mundo e as pessoas ao 
nosso redor. Dessa forma, compreende-se que, quer seja na filosofia antiga, 
quer seja na filosofia atual, o corpo surge como um ponto crucial para as 
relações humanas (NOVAES, 2001, p. 17). 
 Segundo Silva et al. (2007, p. 2) o corpo que temos hoje, guarda muitos 
vestígios dos corpos de antigamente. Alguns desses vestígios vêm à tona com 
maior evidência, outros nem tanto, mas todos deixaram suas marcas. 
Representações de saúde, beleza, doença, juventude, virilidade, etc., não 
desapareceram, simplesmente, adquiriram novas características, produzindo 
“novos corpos”. Dessa forma, a individualidade das aparências criadas a 
partir da super valorização da imagem, leva o indivíduo a acreditar que o 
corpo é o local da identidade, que o corpo fala sobre a personalidade e 
 
8 
atualmente a individualização do eu é de grande importância, já que, hoje ser 
único é ser visível. 
 Analisar o corpo através do parâmetro cultural é compreendê-lo situado no 
tempo onde vive, mas não apenas ligado à natureza biológica, e sim, em 
interação com o mundo ao seu redor, e dessa maneira, perceber como o corpo 
é provisório, passível de inúmeras mudanças, de diversas formas de 
aperfeiçoá-lo, significá-lo. É acima de tudo, entender que a construção 
daquele corpo é a todo o momento atravessada por diferentes marcadores 
sociais como raça, gênero, geração, classe social e sexualidade (LADISLAU 
& PIRES, 2007, p. 2). 
 Intimamente ligadas ao corpo humano estão às relações sociais, culturais, 
políticas e econômicas do momento histórico vivido e essas relações 
influenciam por completo o universo das técnicas e práticas corporais, 
fazendo com que, o corpo tenha, após a modernidade, se tornado um dos 
elementos mais complexos e interessantes (SOARES, 
2001 apud BANDEIRA & ZANELLA, 2007, p.2-3). 
 Segundo Adorno (1994) citado por Bandeira e Zanella (2007, p. 3), dentre 
as várias categorias que constituem essas relações, encontramos a indústria 
cultural e sua relação com o corpo humano sob o âmbito mercadológico, 
fazendo do corpo uma mercadoria. Nessa conjuntura, a indústria cultural tenta 
alienar a sociedade e convencê-la de que o consumidor é o sujeito nessa 
relação, quando na verdade ele não passa de objeto. 
 Na Grécia, mais ou menos entre os séculos 300 a.C. e 200 d.C. reinava 
o período Helenístico. Nesse período, a idéia de corpo era traduzida através 
da physis (físico), sinônimo de corpo na atualidade e que se tornou popular 
após o século XIX com a prática das chamadas educação física e atividade 
física (SOARES, 2007, p. 14). 
 
9 
 Segundo Soares (2006, p. 31) o caminho grego no qual o ser humano 
poderia existir e se desenvolver era guiado por três valores: o belo, a justiça 
e o bem, de forma que a prática da ginástica atuaria para manutenção e 
equilíbrio destes. 
 No helenismo, a estética corporal em harmonia com os valores culturais 
formava o homem grego sensível. Nesse período, a ginástica era vista como 
exercício das faculdades individuais e o ginásio como um indicador do nível 
de desenvolvimento da nação, essa duplicidade diferenciava os gregos das 
sociedades bárbaras, dando-lhes sensibilidade (SOARES, 2006, p. 31). 
 Abrantes (1998) citado por Soares (2006, p.35) afirma que o período 
helenístico foi fortemente influenciado pelo pensamento estóico, que pregava 
a exclusividade da existência dos corpos. O materialismo e o corporeísmo 
valorizados pelas idéias estóicas foram criticados pelo cristianismo e pelas 
filosofias e ciências modernas, já que o fato de Deus ser considerado pelos 
estóicos como modo de ser da matéria, não estava de acordo com os princípios 
filosóficos e científicos. 
 O helenismo ao seu final foi revolucionado por Alexandre Magno, que na 
tentativa da monarquia universal e dotado de valores estóicos, inverteu a 
problemática platônica e aristotélica de valorização do equilíbrio entre corpo 
e espírito e também a idéia da physis, que juntamente com as mudanças na 
política, destruiu a harmonia entre sociedade e indivíduo na Grécia, levando 
a sua invasão pelo Império Romano. “A estruturação do individualismo, 
fundamentado na nova filosofia helenística, leva a uma perspectiva individual 
da ética da estética, a physis transforma-se em um físico material singular de 
cada indivíduo” (SOARES, 2006 apud SOARES, 2007, p.15). 
 A inversão do entendimento da physis faz com que o povo grego, agora 
greco-romano perca a capacidade de manter o equilíbrio entre corpo, espírito 
 
10 
e beleza (SOARES, 2007, p.15). Para Soares (2006, p. 39) foi nessa época 
que teve início o individualismo e o egocentrismo que reinam até hoje. 
 Com a queda da sociedade grega o entendimento da civilização quanto às 
relações entre corpo e espírito também caem por terra, a partir desse momento 
tem início a idéia da atual cultura corporal de valorização do físico ao 
espiritual. Surge na antiguidade, a idéia da superioridade da matéria em 
relação ao espírito. Quando o cidadão greco-romano adota o pensamento 
estóico pregado no helenismo, talvez inconscientemente, ele esteja criando 
um novo fenômeno de culto ao corpo, conhecido na modernidade como 
fenômeno estético de adoração ao belo, o determinado modelo corporal 
imposto pela sociedade (SOARES, 2007, p. 16). 
 Entende-se estética como a ciência do belo, sendo o belo o subjetivo de 
cada um, ou seja, características que tornam um objeto ou corpo agradável ou 
não (DUFRENNE, 1998 apud CARDOSO, 2006, p. 26). 
 Segundo Novaes (2001, p.35), nas civilizações pré-colombianas, a beleza 
estava ligada ao privilégio de poder produzir alguma deformidade. Assim, 
uma desproporcionalidade entre a orelha e o nariz, pode ser considerada uma 
deformidade para a nossa cultura, mas para outro povos não. Por outro lado, 
uma musculatura desenvolvida pode ser considerada uma anomalia por 
alguém de uma cultura diferente da nossa. 
 Para Feijó (1992) citado por Novaes (2001, p. 35) o conceito de beleza é 
universal, já aquilo que é considerado belo é relativo aos padrões de cada 
cultura, de cada época. Hoje a estética surge atrelada à noção de beleza, ligada 
a cultura corporal (DUFRENNE, 1998 apud CARDOSO, 2006, p.26). 
 Segundo Aranha e Martins (2003, p. 371) citados por Soares (2007, p. 17) 
a beleza muda de padrão com o tempo, e tal mudança depende mais da cultura 
 
11 
e da visão em alta no momento do que de uma exigência interior de belo, 
assim,fatores como mídia e cultura podem influenciar na subjetividade 
estética das pessoas. 
 Desde a queda do período helenístico quando teve início o fenômeno 
estético, o corpo passou por diversas transformações. Hoje ele passa a ser 
visto como objeto de beleza, desejo, status. Surgem padrões a serem seguidos 
no que diz respeito à estética corporal, técnicas de modificação para que as 
pessoas se enquadrem nesses padrões. A prática de exercícios, as dietas, as 
cirurgias são algumas dessas técnicas que têm se tornado comuns no campo 
do esteticismo (SOARES, 2007, p. 17). Para Soares (2006, p. 21) é como se 
hoje fosse necessário sintonizar os corpos com os objetos tecnológicos de 
consumo. 
 De acordo com Le Breton (2003) citado por Vilaça et al. (2007, p.3) o 
avanço tecnológico, que culminou com a substituição do trabalho braçal pelas 
máquinas, ajudou para o engrandecimento do fenômeno do culto ao corpo, 
pois a partir do momento em que os músculos não estavam mais ligados à 
idéia de força e eficiência mecânica para gerar lucros, o corpo estaria livre 
para ser trabalhado das mais diversas formas possíveis fora das indústrias. 
 No decorrer da história da humanidade, a forma como homens e mulheres 
trataram o corpo se fez sob uma quase total irracionalidade. Isso pode ser 
percebido pelos padrões estabelecidos em diferentes momentos na história, 
assim, a sociedade sempre determinou, ao longo das décadas, um tipo de 
corpo (FERREIRA et al., 2005, p.168). 
 Voltamos aqui àquela noção do “paradoxo contemporâneo”; o transcorrer 
da história determinou ao longo dos anos o fim de certas “amarras” da 
sociedade, no momento em que o corpo poderia ser tratado e trabalhado sob 
os mais diversos pontos de vista, ele se vê encurralado por um novo modelo 
 
12 
que restringe seu uso. Dessa forma é necessário se pensar o corpo como um 
objeto destinado a seguir determinado padrão (VILAÇA et al., 2007, p.3). 
Dando-se evidência aos corpos masculinos o que é padrão atualmente são os 
modelos altos, fortes e robustos (LADISLAU & PIRES, 2007, p.6). 
 Hoje em dia, pode-se perceber que o sexo masculino tem se mostrado muito 
mais preocupado com a aparência. Essas preocupações estão voltadas para os 
cabelos, para a altura, para os pêlos, entre outras. Segundo Pope et al. (2000, 
p.204) a preocupação masculina com os cabelos se faz pelo medo de que estes 
sejam ralos demais anunciando uma provável calvície ou que estejam ficando 
grisalhos. Para os homens, um cabelo livre da aparência grisalha, das caspas 
e da calvície, sugere que eles sejam mais jovens, mais bonitos e bem-
sucedidos, atraindo as mulheres. 
 O aspecto das mamas também é uma das preocupações masculinas. Mamas 
grandes ou gordas podem ficar com um aspecto feminino e gerar certa 
insegurança dos rapazes quanto à masculinidade e virilidade. Dessa forma 
milhares de homens recorrem à cirurgia para redução de mamas anualmente 
(POPE et al., 2000, p.208-209). 
 Preocupar- se com o fato de ter pêlos demais ou de menos também é 
comum entre os homens e ser baixo para a maioria deles também é motivo de 
alerta, já que para a sociedade os homens têm que ser mais altos que as 
mulheres (POPE et al., 2000, p.209). 
 Analisando todas essas características consideradas importantes para o 
gênero masculino, pode-se concluir que ter muito cabelo, mamas que não 
tenham aspecto feminino e ser bastante alto são para a maioria dos homens 
sinônimos de força, virilidade, dureza e masculinidade (POPE et al., 2000, 
p.210). 
 
13 
 Para Beiras (2007), a masculinidade que os homens tanto buscam afirmar, 
nada mais é do que uma construção histórica e social, que através de certos 
atributos determinam o que é o masculino. Mas com o tempo esses símbolos 
sofreram certas transformações e a noção de maturidade e masculinidade 
anunciadas antigamente pela barba e por outros pêlos corporais, hoje está 
mais voltada para a aparência musculosa e mesomórfica. 
 Pope et al. (2000, p.13) ressaltam que essa preocupação com a aparência 
musculosa tem levado muitos homens a sacrificar boa parte de suas vidas para 
se exercitarem exaustivamente nas academias, buscando um tórax mais 
musculoso, um abdômen mais definido. Vários homens e jovens adultos estão 
gastando muito na compra de suplementos alimentares, esteróides 
anabolizantes ou outras drogas perigosas para “aumentar” o corpo, e assim, 
melhorar a estética. No entanto, podemos nos questionar, por que a noção de 
beleza do masculino está ligada a imagem de um corpo musculoso? 
 A pergunta acima pode ser respondida se resgatarmos a história e 
verificarmos que desde antigamente a doutrina cristã por mais rigorosa que 
fosse, permitiu que o tema da imagem musculosa do herói se tornasse 
convenção artística, até a invenção da fotografia no século XIX (VILLAÇA 
& GÓES, 1998, p.58). 
 Na era pós-industrial a idéia de construção do corpo (body building) 
ganhou força quando os antigos valores a que o corpo se apegava sofreram 
um impacto com a espetacularização do mundo contemporâneo. Kenneth 
Dutton, primeiro body builder, ao final do século XIX, Sandow, o magnífico, 
ressaltam que sua expressão individual passou a ser valorizada, diante de uma 
série de acontecimentos, entre eles o movimento da cultura física germânica, 
a espetacularização das formas corporais para a população e o importante 
papel da fotografia para contemplação da estética, o que acontecia anos atrás 
 
14 
somente através da pintura e das esculturas (VILLAÇA & GÓES, 1998, p.58-
60). 
 Para Ito et al. (2008, p.54), desde o surgimento da primeira fotografia, esta 
tinha como função primordial apenas reproduzir de maneira precisa os 
fenômenos naturais, sendo usada somente de forma objetiva e realista. 
Posteriormente, o caráter apenas documental da fotografia viu surgir outra 
maneira de se ver o mundo sob o ponto de vista da preocupação estética nas 
imagens. 
 Em meio às crises que se configuravam entre os anos de 1870 a 1880, às 
greves violentas e a imigração descontrolada de povos do sul e do centro da 
Europa, a cultura física passou a fazer parte da cultura americana como 
motivo de fuga para todos os problemas. Foi o momento da valorização dos 
músculos masculinos. A nudez passou a encontrar nos heróis gregos e 
romanos a permissão estética e a aceitação pela moral puritana devido à força 
e vigor muscular. Naquela época, passou-se a pensar que um corpo de 
homem, se fosse musculoso, jamais estaria verdadeiramente nu (VILLAÇA 
& GÓES, 1998, p.60). 
 Segundo Suguihura (2007, p.199), desde as estátuas gregas, há um elo entre 
imagem e o discurso que determina o tipo de corpo característico de cada 
sociedade. Na Grécia antiga, os heróis da mitologia eram imortalizados em 
estátuas que expressavam, pelos corpos “perfeitos”, os valores, as atitudes 
que levavam ao sucesso, ao reconhecimento. 
 Com todos os eventos que cercavam essa nova moda de adoração às formas 
corporais masculinas, o body building entrou em ascensão, passando a 
caracterizar a construção da massa muscular, desligada da noção de força e 
saúde. Tal tendência se estendeu até a Primeira Guerra, como um ideal de 
perfectibilidade a ser alcançado. No início do século XX, a exibição corporal 
 
15 
se tornou freqüente. Com o desprendimento das amarras da moralidade, nos 
anos de 1920 a 1930, os ícones esportivos eram mostrados ressaltando o 
hedonismo que se instaurou no mundo do esporte. Surge uma nova 
linguagem, a body language, caracterizada como um tipo de comunicação 
não verbal, que utiliza as posturas, os gestos e expressões faciais (VILLAÇA 
& GÓES, 1998, p.61). 
 A comunicaçãonão-verbal deslumbra os seres humanos desde seus 
primórdios, pois envolve todas as manifestações de comportamento não 
expressadas pelas palavras, podendo ser observada na pintura, literatura, 
escultura e outras formas de expressão humana. Pode-se dizer que o 
movimento inserido em um contexto traduz o significado de uma mensagem 
(SILVA, 2000). 
 Muitos dos adeptos do body building até 1930 eram levantadores de peso 
que se apresentavam em circos, ou como modelos fotográficos, porém com o 
declínio do teatro de variedades, o body building passou a seguir caminhos 
variados. O levantamento de peso se tornou uma modalidade olímpica em 
1920 e se transformou em um tipo de treinamento para aquisição de força. O 
ato de posar passou a exigir uma ênfase na estética voltada para fotografias e 
a atenção as formas seria o determinante. Com a crise do modelo “herói”, a 
espetacularização dos músculos do homem perfeito se tornou curiosidade de 
cabaré (VILLAÇA & GÓES, 1998, p.61-62). 
 A preocupação com o corpo perfeito renasce nos anos 40 com a criação do 
concurso de Mister América. Da América essa obsessão pelo corpo se 
espalhou pelo mundo e novos concursos para exaltação do físico masculino 
foram criados como o Mister Universo, no final dos anos 60, e o Mister 
Olympia, repercutindo nos cinemas com os filmes de gladiadores até a era 
Schwarzenegger. Dessa forma, o body building é reinventado (VILLAÇA & 
GÓES, 1998, p.62). A preocupação masculina com relação ao corpo faz parte 
 
16 
da cultura narcísica, que tem no body building, uma de suas mais fortes 
expressões. 
 Segundo Pope et al.(2000, p.73-74) a valorização da beleza corporal 
masculina é muito comum em outras culturas, sendo que em algumas delas, 
a estética do homem é tida como mais importante que a estética da mulher. 
Na África, os homens da tribo Wodaabe, são fortes guerreiros e líderes 
políticos, mas também cuidam de sua aparência, enfeitam-se, ficam 
descontentes com suas rugas e imperfeições, pintam seus rostos e fazem 
penteados nos cabelos. Nessa tribo, os homens até participam de concursos 
de beleza tendo as mulheres como juradas. 
 A adoração ao corpo masculino pode ser vista em vários momentos da 
história. A masculinidade das estátuas gregas e romanas é um exemplo. Na 
idade média a beleza masculina era contemplada através dos heróis cristãos: 
altos, fortes e elegantes. Na Inglaterra elisabetana, os homens já eram muito 
vaidosos com sua aparência e preocupados com seu vestuário (POPE et al., 
2000, p.74). 
 Contemporaneamente um corpo esculpido, com músculos bem torneados 
é objeto de valorização para os homens. Cada cultura constrói sua imagem de 
corpo e essas imagens se estabelecem como maneiras próprias de ver e viver 
o próprio corpo (RUSSO, 2005, P.81-83). 
 A preferência por determinadas características do corpo masculino, pode 
ser explicada parcialmente pela biologia e pelo processo evolutivo. A idéia 
de beleza através da simetria dos traços corporais, já está moldada na mente 
das pessoas e se torna uma preferência coletiva. Outro exemplo dessa 
preferência coletiva é um grande tamanho de corpo. No mundo animal, o 
tamanho corporal é extremamente importante, já que o animal maior é aquele 
que domina. Da mesma maneira, desde tempos mais antigos, para o sexo 
 
17 
masculino, ter um corpo maior e mais forte, confere aos homens algumas 
vantagens, como proteção para a prole e luta por uma fêmea (POPE et al., 
2000,p.75). 
 Durante séculos a aparência masculina foi valorizada por diversas culturas, 
nos mais diversos locais, muito disso, pela vontade de atrair as mulheres e 
dominar outros homens. No entanto, os homens modernos estão mais 
inseguros com seus corpos, com relação aos homens de antigamente e isso 
pode ser explicado pelo papel de destaque que as mulheres conquistaram na 
sociedade (POPE et al., 2000,p.75-79). 
 Vários autores (Assunção, 2002; Ballone, 2005; Choi, Pope Jr., Olivardia, 
2006; Pope Jr., Phillpis, Olivardia, 2000; Mirella, 2006; entre outros) citados 
por Falcão (2007, p.6) afirmam que o papel masculino e feminino na 
sociedade vem sendo modificado nas últimas décadas. 
 Pope et al. (2000, p.75-76) acreditam que a igualdade entre os sexos 
conquistada pelas mulheres ao longo dos anos em muitos aspectos da vida 
diária, foi um dos responsáveis por desencadear a insegurança dos homens 
com relação à imagem corporal. Os autores ressaltam que as mulheres hoje 
podem fazer praticamente qualquer coisa como um homem. Atualmente é 
possível encontrá-las ocupando desde cargos políticos, até ingressando em 
academias militares, papéis antes, restritos apenas ao público masculino, além 
disso, elas se tornaram mais independentes financeiramente. Diante dessa 
situação, o que teria restado aos homens para afirmar a sua masculinidade, 
teria sido apenas o corpo, pois um dos aspectos em que as mulheres 
dificilmente se igualam ao sexo masculino é no desenvolvimento da 
musculatura. 
 De acordo Falcão (2008), à medida que as conquistas femininas foram 
ganhando destaque na sociedade, a preocupação masculina com relação ao 
 
18 
corpo também aumentou, devido a um sentimento de masculinidade 
ameaçada. Esse fato pode ser visto com mais intensidade a partir dos anos 60 
em que é possível perceber os maiores avanços tecnológicos das mulheres e 
as mais notáveis transformações nas atitudes culturais com relação ao corpo 
masculino. Para eles, obter um corpo musculoso se tornou importante porque 
a musculatura representa a masculinidade e está relacionada às funções 
culturais dos homens de serem fortes, poderosos, eficazes, dominadores e 
destruidores. 
 Escritores como James Gillett e Philip White, citados por Pope et al. (2000, 
p.77) afirmam que um corpo musculoso representa hoje em dia, uma tentativa 
dos homens de resgatarem o auto controle e o valor masculino, já que a 
igualdade entre os sexos, tirou deles o papel exclusivo de provedores e 
protetores. Michelle Cottle, jornalista, afirmou em um artigo recente 
que “com as mulheres tornando-se cada vez mais independentes, os 
pretendentes estão descobrindo que precisam colocar na mesa mais do que 
uma carteira recheada se esperam ganhar (e manter) a linda donzela”. 
 A estética corporal masculina evoluiu com o passar dos anos, acompanhou 
o desenvolvimento da história da humanidade, caracterizando-se e se 
deixando influenciar pelas mais diversas culturas. Atualmente, ela se 
caracteriza por corpos fortes e musculosos, como uma maneira dos homens 
afirmarem a masculinidade ameaçada pelo avanço do feminismo, mas 
também como tendência a acompanhar a padronização dos corpos através de 
um modelo de beleza imposto pela mídia e pela sociedade. 
 
 
 
 
19 
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA 
 
SOUZA, Átila Regina de. CUNHA, Saulo Daniel Mendes. RODRIGUES, 
Vinicius Dias. Reflexões sobre o corpo. Uma breve introdução. 
EFDeportes.com, Revista Digital. Buenos Aires – Año 16 – n° 157 – junio 
de 2011. Disponivel em: http://www.efdeportes.com/efd157/reflexoes-
sobre-o-corpo-uma-breve-introducao.htm 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
20 
 CORPOREIDADE E MOTRICIDADE HUMANA 
NA EDUCAÇÃO FÍSICA: 
Uma Possibilidade de Transcedencia para a Área 
 
Regina Simões 
Vilma Leni Nista Piccolo 
 
1. Introdução 
 
Associarmos os termos corporeidade e motricidade humana à Edu- 
cação Física parece-nos necessário, uma vez que esta área produz conhe- 
cimentos e intervenções que consideram o corpo como algo desvinculado 
da transcendência, do sensível e em muitos momentos até do inteligível,enfatizando sempre o sentido do trabalho racional e linear do movimento 
que o corpo expressa. 
Daí o nosso propósito neste escrito que se estrutura em dois gran- 
des momentos: no primeiro, traçamos uma visão panorâmica do trato 
com o corpo na sociedade ocidental, procurando enfatizar as diferenças 
entre corpo e corporeidade, esta focada na visão fenomenológica; no se- 
gundo, ressaltamos a necessidade da opção da motricidade humana como 
referencial de critérios para o trabalho com o corpo que realiza exercícios 
e ou pratica esportes. 
 
2. Do Corpo à Corporeidade: 
Um Possível Caminho para a Educação Física 
 
Qual o sentido de falarmos, no momento atual, de corporeidade? O 
que significa a prática de exercícios, de atividades corporais sistematizadas, 
de práticas esportivas, em academias, clubes, escolas, ou mesmo em par- 
ques nas grandes cidades, num contexto em que, na maioria das vezes, os 
praticantes tem como objetivo a busca por um corpo “sarado”? 
A importância do corpo na sociedade ocidental é inquestionável, 
desde a cultura grega clássica. Dela, podemos retirar duas posturas dife- 
rentes para nossa análise: a primeira centrada em Aristóteles e a segunda 
em Platão, mencionadas não no sentido cronológico, evidentemente, mas 
por considerarmos que o primeiro apresenta argumentos mais interessan- 
 
21 
tes para o trato da corporeidade. 
Gallo (2006) nos lembra que Aristóteles criou a teoria do hilemor- 
fismo, a qual dizia que forma e conteúdo não podem ser compreendidos 
separadamente. Para o filósofo, o corpo era uma realidade física limitada 
por uma superfície, mas nem por isso podia ser considerado puramente 
matéria. Soma e psique seriam dois aspectos distintos, mas constitutivos 
de uma mesma realidade. Interessante notar que para este filósofo, como 
para os gregos em geral, todos os seres vivos possuíam alma e nesta es- 
tavam presentes as funções anímicas de nutrição, de reprodução, de sen- 
sação, de imaginação, de memória, de apetite, de desejo, de pensamento, 
todas funções que animam e tornam a vida dinâmica. 
Na proposta aristotélica vemos a possibilidade de já identificar os 
pressupostos da corporeidade, como nos diz Gallo (2006, p.12-13): 
 
A visão de Aristóteles pode ser chamada de orgânica; a alma é 
aquilo que anima o corpo, mas está plenamente integrada a ele. O 
movimento, qualquer movimento físico, é feito pelo corpo, mas 
possibilitado pela ação da alma; da mesma maneira, o pensamento 
é faculdade da alma, mas só pensamos porque somos corpóreos. 
Parece-me ficar claro, assim que, para Aristóteles (representando 
o espírito da cultura grega da época), “corpo ativo” não seria um 
conceito estranho, posto que o corpo é necessariamente lugar de 
atividade, garantindo o dinamismo da vida. 
 
Aristóteles já tecia considerações que muitos pensam que só nos 
tempos atuais apareceram, tais como: cuidado com as crianças desde o 
ventre das mães, recomendando a estas que não ficassem ociosas, deven- 
do ter boa alimentação e exercitar o corpo; prescrição do que ensinar às 
crianças e, em se tratando de ginástica, críticas ao modelo espartano, uni- 
camente voltado para a formação de guerreiros. 
No entanto, sua proposta educativa não abdicava da importância 
dos exercícios, mas já estabelecendo cuidados que, infelizmente, foram es- 
quecidos ao longo dos tempos pela área da Educação Física e do Esporte. 
Senão vejamos: 
 
Que seja preciso algo de ginástica [...] estamos de acordo. Mas até 
a puberdade só se praticarão exercícios leves, sem sujeitar os cor- 
pos aos excessos da alimentação, nem aos trabalhos violentos, por 
temor de que isso impeça o crescimento. A prova do efeito funes- 
 
22 
to deste regime forçado é que entre os que venceram nos jogos 
olímpicos, em sua juventude, dificilmente se encontrarão dois ou 
três que também venceram numa idade mais avançada. Por que 
isto? Porque a violência dos exercícios a que se tinham submetido 
desde a infância esgotara sua força e seu vigor (ARISTÓTELES, 
1991, p. 71). 
 
Como pode ser observado em Aristóteles, o sentido da corporei- 
dade poderá ser encontrado, a partir da ideia de que é importante que o 
corpo esteja ativo e a atividade corporal seja realizada de forma refletida, 
descartando o movimento realizado de forma automática, apenas. 
Porém, na tradição ocidental, o pensamento que prevalece é o de 
Platão e não o de Aristóteles. Platão era um atleta que cultivava o corpo, 
mas, influenciado por Sócrates, contribuiu decisivamente para separar as 
noções de corpo e de alma. 
Há aqui o parcelamento do real em dois grandes universos: de um 
lado a realidade sensível, captada pelos sentidos e composta de matéria; de 
outro, a realidade ideal, captada pelo intelecto e que seria a verdade última 
de todas as coisas. O mundo das ideias é perfeito e eterno, enquanto o 
mundo material, composto pela matéria, é dado às imperfeições, à cor- 
rupção. 
Platão afirma que o ser humano é composto por um corpo, porção 
material, habitante de um mundo sensível, por essa razão corruptível e 
tendendo à morte. Também é composto por uma alma, perfeita e eterna, 
pertencente ao mundo ideal (GALLO, 2006). 
Vê-se aqui a afirmação da concepção dualista, tornando corpo e 
alma como realidades distintas, posição essa que prevalece na formatação 
do paradigma cartesiano, quando da institucionalização do novo conceito 
de ciência, a partir de Newton e Descartes. 
É no cartesianismo científico que a Educação Física e o Esporte 
vão desenvolver seus princípios de produção de conhecimento e de ação 
prática, trazendo para dentro da área o dualismo psicofísico reinante. 
Para Descartes, as distintas substâncias que compõem o ser hu- 
mano assim se constituem: de um lado, o corpo, de natureza material; do 
outro, a alma, uma substância ou coisa pensante. Nesta proposta dual, não 
cabe pensarmos em corporeidade, pois, na contemporaneidade, passamos 
a tratar o corpo como mercadoria. A alma representava a mais valia por ser 
 
23 
ela a detentora do conhecimento verdadeiro, enquanto o conhecimento 
vindo do corpo, o sensível, era enganador. 
O corpo, o de hoje, em nossa cultura racionalizada, cientificizada 
e de escala industrial produtiva, torna-se um objeto de uso, um utensílio, 
uma ferramenta, passível de ser utilizada segundo a vontade de outros, de- 
pendente dos interesses econômicos, políticos ou ideológicos. É o corpo 
objeto de transação, de troca, de exclusão, de coisa a ser descartável após 
seu uso e, normalmente, abuso. 
É o corpo que, para ser conhecido, deve ser esquadrinhado, inva- 
dido, manipulado, sem vontade própria, não podendo ser senhor de sua 
existencialidade. É o corpo máquina de Descartes, onde o mau funciona- 
mento de uma peça exigirá a troca dessa peça e nada mais. 
É o corpo material, massa muscular, apêndice daquelas reais quali- 
dades do ser humano que são o espírito e o intelecto. É o corpo discipli- 
nado, submisso, que pode ser conhecido e controlado por médicos, treina- 
dores, professores, industriais.... . É o corpo direito de posse, por exemplo, 
das ciências da saúde e das práticas médicas, que sempre reivindicaram o 
direito exclusivo de intervirem nos corpos doentes ou “mal acabados”, 
através de cirurgias de reconstrução estética, de oferecimento de regimes 
nutricionais, de malhações em academias da moda, etc... . É o corpo direi- 
to de posse e propriedade, historicamente presente nos códigos de direito. 
É o corpo docilizado pelas pregações religiosas, com direitos futuros de 
um grande palácio celestial, quando já não for mais corpo bruto e pecador. 
É o corpo que, para ser conhecido, apresenta-se como problemapara a academia, e que será analisado como algo complicado, necessitando 
ser simplificado em suas partes para o estudo de sua constituição. Co- 
nhecidos seus mínimos detalhes, estaremos prontos para compor esses 
detalhes e teremos então o entendimento do todo – corpo de ser humano. 
O estudo desse corpo problema tem como paradigma o princípio 
anatomofisiológico. Não é por outra razão que nos cursos de Educação 
Física oferecemos grande destaque para as disciplinas que se preocupam 
com esta visão. Sem menosprezarmos a importância deste conhecimen- 
to, é fundamental, desde já, assumirmos o seguinte entendimento: o ser 
humano não é apenas um ser biológico, como também não é apenas psi- 
cológico, ou antropológico ou... .O corpo humano é exatamente a com- 
plexidade e a conexão de todas as formas possíveis de interpretação deste 
 
24 
fenômeno. 
Assim, já podemos propor a primeira síntese: quando falamos de 
corpo, estamos nos referindo a um objeto concreto, possuidor de volume, 
disciplinado, que serve para obedecer às ordens de um intelecto ou de um 
espírito. 
Só no século XIX é que vamos encontrar um grande crítico à forma 
de pensar cartesiana e seu desprezo pelo corpo em favor da alma. É Niet- 
zsche quem afirma que o pensamento é algo encarnado, é uma atividade 
corporal. Para esse pensador, o ponto de partida do conhecimento é o 
corpo. 
Gallo (2006) também nos revela que no século XX outro filóso- 
fo, Michel Foucault, influenciado por Nietzsche, mostra que o 
supostodesprezo pelo corpo que aparece na sociedade moderna, com 
gênese na filosofia cartesiana, é na verdade um investimento que a 
estrutura burgue- sa e capitalista exerce sobre o corpo, operando sobre 
ele como força de trabalho. Esquecer o corpo é torná-lo força produtiva e, 
ao mesmo tempo, objeto submisso. 
Toda essa constatação ao longo do tempo provoca hoje a era dos 
corpos hiperativos, mas controlados. Daí a necessidade de um projeto de 
resistência à cultura do hiperconsumo, que pode ser encontrado na atitude 
da corporeidade, enquanto antagonista à estética padronizada, ao narcisis- 
mo sem limites, ao controle generalizado. Pensamos numa corporeidade 
que nos faça cuidar de nós mesmos e de melhorar as nossas relações com 
os próximos, que nos faça ao mesmo tempo mais saudáveis e mais cons- 
cientes de nossas possibilidades, de nosso entorno, de nosso limite. 
A corporeidade, neste sentido, implica numa atitude ética, na qual o 
ato de movimentar-se, na Educação Física e no Esporte, demanda trans- 
cendência, aprimoramento de si mesmo, obtenção de conhecimento e 
preocupação com o outro. E isto envolve atitudes responsáveis perante o 
mundo, visando a contribuir para a construção de um futuro melhor, no 
qual a vida seja vivida com qualidade, pela maior parcela possível de seres 
humanos. Para que isto se materialize, é preciso produzir resistência ao que 
nos cerca, nos dias atuais. É pertinente, neste momento, observar o que 
Gallo diz acerca da resistência ante a: 
 
[...] educação que recebemos, prática disciplinar e biopolítica de 
controle que nos leva ao corpo superexcitado, supermalhado, hi- 
 
25 
perativo. Resistência a uma eternidade falsa. Resistência a uma tra- 
dição que vê no corpo nada mais do que uma “prisão da alma” 
[...] materialidade mortal [...] finitude, produzindo novas formas 
de viver o corpo, de fazê-lo ativo, inventando novas formas de 
produzir a vida. Eis os desafios para o corpo ativo nestes tempos 
hipermodernos (GALLO, 2006, p.29). 
 
Enfocamos, a partir deste ponto, um escrito anterior (MOREIRA, 
SIMÕES E MURIA, 2009), no qual afirmamos que um autor importante 
para a compreensão do sentido de corporeidade é Merleau-Ponty (1994, 
p. 114), pois este afirma: “Só posso compreender a função do corpo vivo 
realizando-a eu mesmo, e na medida em que sou um corpo que se levanta 
em direção ao mundo”. O corpo não é a junção de uma parte com a outra, 
nem uma máquina automática de causa e efeito comandada pelo espírito, 
ou mesmo um psiquismo, unido a um organismo, isolado do resto do 
mundo. O corpo é uma casa, uma morada localizada em um quarteirão 
infinito, construída com partes interligadas por substâncias vitais, habitada 
por sentidos e segredos, envolta por janelas perspectivais, circunvizinhada 
por outras casas, com as quais mantém uma relação de dependência e ao 
mesmo tempo de individualidade. 
O filósofo há pouco citado critica a objetividade da ciência clássica, 
caracterizada pela cisão do corpo-objeto e corpo-espírito, defendendo que 
no mundo vivido da unidade corporal, ou seja, da corporeidade, repleto 
de experiências, projetos e valores, é possível atingir o corpo sujeito-corpo 
próprio. Observemos suas palavras: 
 
[...] como a gênese do corpo objetivo é apenas um momento na 
constituição do objeto, o corpo, retirando-se do mundo objetivo, 
arrastará os fios intencionais que o ligam ao seu ambiente e final- 
mente nos revelará o sujeito que percebe como o mundo percebi- 
do. (MERLEAU-PONTY, 1994, p. 110) 
 
O sentido de corporeidade nos remete ao mundo de novas percep- 
ções que deverão substituir visões antigas. A corporeidade é um corpo 
engendrando vida, experienciando, vivenciando, na perspectiva humana, 
a caminhada em direção ao mundo. Essa relação corpo-mundo é funda- 
mental, pois: 
 
 
26 
 
 
[...] se é verdade que tenho consciência de meu corpo através do 
mundo, que ele é, no centro do mundo, o termo não percebido 
para o qual todos os objetos voltam a sua face, é verdade pela mes- 
ma razão que meu corpo é o pivô do mundo: sei que os objetos 
tem várias faces porque eu poderia fazer a volta em torno deles, e 
neste sentido tenho consciência do mundo por meio de meu cor- 
po. (MERLEAU-PONTY, 1994, p.122) 
 
Desta forma, como prognóstico para a área da Educação Física e 
do Esporte, devemos buscar o sentido de um corpo existencial que, ao 
movimentar-se, busque sempre sua superação. Reconhecer o movimento 
como indispensável para o hominal se tornar humano é colocar o trabalho 
com o corpo, nos exercícios físicos e nas práticas esportivas, na categoria 
da complexidade. 
A noção de corporeidade nos obriga ao estudo do corpo-sujeito, 
existencial, indivisível, que se movimenta para garantir a vida, entendida 
esta tanto no sentido individual quanto coletivo, oportunizando o enten- 
dimento de que esta área de conhecimento científico, mesmo tendo todas 
as características de inter e até de transdisciplinaridade, exige sua identi- 
ficação disciplinar, calcada nos estudos históricos do esporte, do jogo, da 
dança, das lutas e dos movimentos gímnicos. 
O sentido da corporeidade deve nos mostrar que o corpo-sujeito 
é ator e autor de sua história e de sua cultura. É um sujeito relacional, daí 
a necessidade da consciência de si, dos outros e das coisas ou do mundo. 
É o estudo de um corpo-sujeito que visa a autossuperação, o querer 
ser mais daqueles que se dedicam às práticas esportivas ou às mais diversas 
manifestações de atividades físicas, superando seus próprios limites. É o 
estabelecimento de princípios éticos desejáveis para um atleta alcançar o 
seu mais, seja isto na beleza plástica da performance, seja no milésimo de 
segundo superado, seja na habilidade eficiente. 
O estudo do fenômeno corporeidade admite, dentre outras vanta- 
gens, a vivência da competição em seu sentido mais amplo, como o da mo- 
tivação, do prazer, da ludicidade, não entendendo que o ato competitivo é 
necessariamente antagônico à cooperação e à participação, descortinando, 
assim, o entendimento de que a corporeidade deve ser vivenciada das mais 
variadas formas, no mundo predominantemente cosmopolitade hoje. O 
 
27 
problema é que, em muitos locais e situações, às vezes, privilegia-se o inte- 
ligível em detrimento do sensível e do motor, privilegia-se o motor em de- 
trimento do sensível e do inteligível (como a própria história da Educação 
Física), ou privilegia-se o sensível em detrimento dos outros dois. 
Viver é conviver e na convivência não nos relacionamos apenas 
com a mesma faixa etária ou com os mesmos grupos sociais. Nosso dia a 
dia é permeado de relações múltiplas em gênero, em grupos de interesses, 
em localizações geográficas de moradia e de trabalho. 
Um encontro de profissionais da Educação Física e dos Esportes 
em Berlim, em 1999, mostrou que a Educação Física, mesmo tendo seu 
ponto principal ainda na atividade pedagógica na escola, hoje caminha 
velozmente para também atuar junto a profissionais de saúde, no sentido 
da orientação de exercícios físicos para a manutenção da vida saudável. 
Outro ponto perspectivado neste encontro foi o da Educação Física hoje 
trabalhar com grupos específicos, como os de cardiopatas, obesos, terceira 
idade, gestantes, e ainda com as mais variadas atividades em academias, 
condomínios e outros locais, caracterizando a necessidade de se saber 
orientar grupos compostos pelas mais variadas faixas etárias. 
O ponto mais importante analisado em Berlim foi o de que, pela 
primeira vez, a área deve exercitar em sua ação educativa o conceito de 
inclusão, não mais trabalhando apenas com os corpos de maior habilida- 
de e coordenação. Estes pontos todos exigirão, na formação profissional, 
mudanças significativas de enfoque e de valores. 
O estudo da corporeidade irá remeter nossas preocupações às ins- 
tâncias reflexivas que envolvem uma vida corpórea com qualidade, bem 
como a valores integrativos, no sentido de cultivar o senso intuitivo, o 
poder de síntese, as ações não lineares e a visão sistêmica, minimizando 
a importância do pensamento autoafirmativo, que valoriza o racional, o 
sentido da análise, a visão reducionista e o sentido linear (CAPRA, 1993). 
Desta forma, os valores de expansão, competição, quantidade e domina- 
ção, tão presentes no aprisionamento do corpo do ser humano hoje, po- 
derão ser substituídos por valores de conservação, cooperação, qualidade 
e parceria. 
Por todos estes argumentos é que afirmamos, no título deste traba- 
lho, ser a corporeidade uma possibilidade para um trabalho adequado na 
área da Educação Física e do Esporte. 
 
28 
 
3. Motricidade Humana: Muito mais que o Movimento 
Corporal 
 
Ao analisarmos a cultura ocidental, podemos identificar que a 
compreensão mais difundida de corpo é aquela que o considera como 
instrumento da alma. Saliente-se ainda que nem mesmo a interpretação 
materialista, a partir do século XIX, conseguiu anular a compreensão ins- 
trumental de corpo. 
A tradição do trato com o corpo na Educação Física, buscou priori- 
tariamente considerar causalidades, determinantes, traços lineares, em que 
o movimento seria considerado como algo causado por estímulos origi- 
nários do meio ambiente, na velha tradição psicológica estímulo-resposta. 
Por sua vez, o conceito de motricidade exige o reconhecimento e a 
consideração de que o corpo em movimento é pertencente a um sistema 
autopoiético, é um fenômeno impossível de ser reduzido a causalidades, 
a linearidades. 
A motricidade integra, no tempo, no espaço, no movimento, a vida 
concreta, a vida em abundância, não sendo limitada por acontecimentos 
do passado nem por projeções do futuro (características visíveis no senti- 
do de desenvolvimento, onde há início, meio e um fim projetado). Na mo- 
tricidade a vida é, com todas as tatuagens adquiridas de ontem, presentes 
hoje e com todas as perspectivas e os sonhos do amanhã; mas é! 
A permanente superação, vivida e buscada por todo ser em movi- 
mento, em qualquer valor de juízo que se possa ter, depende da motrici- 
dade, pois ela engloba ações, aspirações, intencionalidades, percepções, 
qualidades e características essas que compõem a motricidade. 
A motricidade revela o corpo-sujeito, dialeticamente objetivo e sub- 
jetivo, hominal e humano, realizando história e cultura e sendo modificado 
por sua história e cultura. A motricidade é a expressão do corpo e corpo 
sou eu, sujeito práxico e carente, dependente do movimento para garantir 
a vida. 
Nestas condições, podemos ousar interpretar o conceito de motri- 
cidade na unidade hominal e humana, afirmando que: 
 
 
 
 
29 
 
- a característica hominal do ser humano está ligada a sua essência, 
onde encontramos as necessidades básicas para sua sobrevivência, 
levando o ser humano a movimentar-se determinadamente por 
seus instintos, seus reflexos, suas funções orgânicas; 
 
- já a característica humana vincula-se a sua existência, onde o ho- 
mem cria situações com o sentido simbólico, através de sua racio- 
nalidade, de sua inteligência, de sua sensibilidade, de sua criativida- 
de, onde a intenção desses atos resulta em expressões significativas 
e significantes. 
 
Motricidade é, portanto, a complexidade da relação e do intercam- 
biamento de movimentos e expressões significativas e significantes, viven- 
ciada pelo humano em sua humanidade, em sua experiência de vida. 
Trigo (2009, p.65) nos lembra que Motricidade Humana em Manuel 
Sérgio é: 
 
Itencionalidad operante; acción; movimiento intencional hacia la 
trascendencia (o superación); práxis creadora; movimiento centrí- 
fugo y centrípeto de la personalización em busca de la trascenden- 
cia; proceso y producto, es bio y cultura, presencia, comunicación 
y vivencia. 
 
A mesma autora ainda informa que para o Grupo Kon-traste, mo- 
tricidade é: “ expresión de la corporeidad (expresión-impresión de la cor- 
poreidad). Pensar-sentir-querer-hacer-comunicar”(TRIGO, 2009, p.66). 
Recorrendo a texto recente (MOREIRA, CARBINATTO, SI- 
MÕES 2009), observa-se que a Ciência da Motricidade Humana, postu- 
lada por Manuel Sérgio, aparece, então, com o desafio de estudar o ser 
humano em movimento e as intenções que o levam a esta ação, sem a 
ousadia de saber muitas coisas, mas com subsídios capazes de atender aos 
anseios dos que estudam efetivamente o ser humano, em seu movimento 
intencional de transcendência. 
Ciência da Motricidade Humana: Ciência da compreensão e da ex- 
plicação das condutas motoras, visando ao estudo e constantes tendências 
da motricidade humana, levando em conta o desenvolvimento global do 
indivíduo e da sociedade e tendo como fundamento simultâneo o físico, o 
biológico e o antropossociológico (SÉRGIO, 1999, p. 160). 
 
30 
O autor, crendo na autonomia e singularidade das Faculdades de 
Educação Física, propõe uma ciência sistemática, bem elaborada, que dia- 
logue com suas contradições, suficiente e acima de tudo independente de 
outras áreas, como a da Medicina, por exemplo. 
Pois bem, Manuel Sérgio, então, tinha como um de seus ideais a 
criação de uma comunidade científica para a área da Educação Física, vi- 
sando a, sobretudo, que a mesma dialogasse com outras ciências, trazendo 
à tona um labor mais transdisciplinar para a área (SÉRGIO, 1996). 
Possuindo um caráter já de inter-relações e intercomunicação entre 
as disciplinas, “a epistemologia da motricidade humana faz seus os inte- 
resses técnicos e práticos de todas as disciplinas” (SÉRGIO, 1996, p.14); 
ela procura igual matriz curricular entre as diversas matérias do ensino e 
seu maior objetivo é o de tornar “o desenvolvimento humano através da 
motricidade, pelo estudo do corpo e das suas manifestações, na interação 
dos processos biológicos com os valores sócio-culturais” (SÉRGIO, 1996, 
p.15),tendo como paradigma norteador a busca pela “totalidade huma- 
na”, por meio da corporeidade: 
 
[...] É que o ser humano é corporeidade e, por isso, é movimento, 
expressividade e presença. A mulher e o homem são movimento 
que se faz gesto, gesto que fala e que se assume como presença 
expressiva, falante e criadora. E assim, se manifesta a Motricida- 
de Humana...que não cansa porque não é repetição, mas criação 
(SÉRGIO, 1996, p.22). 
 
E ainda, o autor revela que a Ciência da Motricidade Humana: 
 
[...] estabelece uma harmonia, a mais perfeita possível, entre o ho- 
mem e a natureza; indica-nos o lugar da natureza no homem e do 
homem na natureza; sublinha o homem como ser de cultura, [...] 
ensina que a formação do ser humano não pode explicar-se em 
termos de uma causalidade que desconhece a singularidade, [...] 
refere que é no movimento da superação que o homem faz história 
e se sabe história [...] (SÉRGIO, 1995, p. 167). 
 
Uma das críticas que o autor faz relaciona-se à questão do corpo- 
saúde e, neste ponto, seu pensamento assemelha-se ao de Capra (1997). 
Ambos nos mostram que a visão reducionista de corpo influenciou o 
pensamento das Ciências Médicas, levando a uma conceituação de saúde 
 
31 
também mutilada: 
 
[...] os cientistas, encorajados pelo seu êxito em tratar os organis- 
mos vivos como máquinas, passaram a acreditar que estes nada 
mais são do que máquinas. As conseqüências nefastas dessa falá- 
cia reducionista tornaram-se especialmente evidentes na medicina, 
onde a adesão ao modelo cartesiano do corpo humano, como um 
mecanismo de relógio, impediu os médicos de compreender mui- 
tas das mais importantes enfermidades atuais (SÉRGIO, 1996, p. 
96). 
 
Também apoiada no pensamento cartesiano, a Educação Física 
estabeleceu como critérios de sua prática o desenvolvimento das capaci- 
dades físicas como força, velocidade, agilidade, impulsão etc, e isto “não 
pode dar saúde, porque lhe falta um trabalho ao nível da complexidade, 
estruturado de acordo com o ego-pensado e pondo de lado o multipen- 
sante, isto é, centrado mais sobre a facticidade quantitativa e menos sobre 
a realidade qualitativa” (SÉRGIO, 1996, p. 97). Afinal, a motricidade hu- 
mana não se interessa pelo simples movimento, pois ela “é práxis e, como 
tal, cultura (ou seja, transformação que o homem realiza, consciente e 
livremente, tanto em si mesmo como no mundo que o rodeia)” (SÉRGIO, 
1996, p.100). 
É imprescindível pautar que o autor demonstra alguns pontos para 
a construção e consolidação da Ciência da Motricidade Humana e suas 
suposições: visão sistêmica do homem; ser carente, aberto ao mundo, aos 
outros e à transcendência; ser práxico, que encontra e produz unidade e 
realização e, por fim, um ser axiotrópico, que sendo intrinsecamente cul- 
tural absorve, mas, também, transforma e cria valores. 
Para os especialistas da Motricidade Humana, os conteúdos que de- 
vem ser enfatizados são os jogos, o desporto, a ginástica, a dança, o circo, a 
ergonomia e a reabilitação, lembrando que neles deverá ser construído um 
“espaço onde o homem se forma pessoa, isto é, se reconheça e o reconhe- 
çam como consciência e liberdade” (SÉRGIO, 1996, p.162). 
Subsidiado pela noção de práxis fenomenológica, Sérgio (1996, p. 
119) reflete acerca da simultaneidade entre teoria e prática, formulando 
que “a teoria não se sobrepõe à prática, nem a prática à teoria, porque cada 
uma nasce e desenvolve-se (também) no seio da outra”. 
 
32 
Para melhor permitir o acesso e os estudos sobre a Ciência da Mo- 
tricidade Humana pelos profissionais, Manuel Sérgio propõe a Educação 
Motora como o Ramo Pedagógico, “[...] e deverá estar presente (como 
meio indispensável) nas manifestações concretas da ludomotricidade, da 
ergomotricidade e da ludoergomotricidade” (SÉRGIO, 1996, p. 103). 
Estruturado nesta trilha, Moreira (1995) indica que a Educação Mo- 
tora deve operacionalizar novos valores em sua prática educativa, como 
pode ser identificado no quadro 1, a seguir. 
Quadro 1 - Valores que devem ser transformados na Educação Física, 
agora abarcada pela Educação Motora 
Educação Física Escolar Tradicional Educação Motora 
Corpo-Objeto Corpo-Sujeito 
Ato Mecânico Ato da Corporeidade Consciente 
Participação Elitista Massificação da Prática 
Ritmo Padronizado Ritmo Próprio 
Busca pelo Rendimento Busca do Prazer e Ludicidade 
Fonte: Moreira (1995, p.101) 
 
Os conceitos explicitados da Motricidade Humana devem reco- 
mendá-la como possível eixo norteador dos critérios que balizariam as 
ações dos profissionais da Educação Física e do Esporte. 
 
Considerações Finais 
 
Afirmamos, no título deste trabalho, que os sentidos de corporeida- 
de e de motricidade humana poderiam ser uma possibilidade de transcen- 
dência da área da Educação Física. 
Acreditamos que cumprimos a missão, mais uma vez lembrando 
que aqui não se trata de mudança de nome ou denominação, mas sim, de 
valores, de atitude perante uma área de conhecimento que, a nosso ver, 
deve ser efetivada. 
Não somos cordatos com a situação atual da Educação Física, que 
não tem a autonomia de uma área de conhecimento, estando muito mais 
perto de ser uma aplicação pedagógica de várias áreas já consagradas. 
Não temos dúvida de que a principal função da Educação Física é 
pedagógica, mas isto não significa que a área seja confundida apenas com 
 
33 
o próprio professor de Educação Física. 
Também não nos envolvemos na estéril briga entre as áreas bioló- 
gica e humana, pela hegemonia do conhecimento produzido na área da 
Educação Física. É sempre importante lembrar que, como ser humano e 
hominal, o ser humano é, ao mesmo tempo, totalmente biológico e total- 
mente cultural. 
Defendemos uma área de conhecimento que deve ter um bacha- 
rel, pois, em nossa maneira de entender, bacharel é aquele que domina 
uma área de conhecimento. Se a opção for a de não lutarmos pela identi- 
ficação e autonomia da área de conhecimento, não há, evidentemente, a 
necessidade de um bacharel. 
Assim, a corporeidade e a motricidade, enquanto produções epis- 
têmicas e enquanto conhecimentos produzidos na área, podem colaborar 
para a superação do atual estágio da Educação Física. 
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 
 
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CAPRA, Fritjof. O ponto de mutação. São Paulo: Cultrix, 1993. 
 
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XXI: a era do corpo ativo. Campinas: Papirus, 2006. 
 
MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da percepção. São Paulo: Martins Fontes, 
1994. 
 
MOREIRA, Wagner Wey. Perspectivas da educação motora na escola. In: DE MAR- 
CO, Ademir (org.). Pensando a educação motora. Campinas: Papirus, 1995. 
 
MOREIRA, Wagner Wey; CARBINATTO, Michele; SIMÕES, Regina. Motricidade e 
humanismo: para ale do status atual da educação física. In: GENU et. al. (org.) Motri- 
cidade humana: uma metaciência? Belém: Uepa, 2009. 
 
 ; SIMÕES, Regina; MURIA, Angelo. O fenômeno corporeidade na forma- 
ção profissional em educação física: a perspectiva docente. In: MOREIRA, Wagner 
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2009. 
 
SERGIO, Manuel. Educação motora: o ramo pedagógico da ciência da motricidade 
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rus, 1995. 
 
 
34 
 
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 . A racionalidade epistêmica na educação física do século XX. In: Sergio, 
MANUEL, Sergio et. al. (org.). O sentido e a acção. Lisboa: Instituto Piaget,1999. 
 
TRIGO, Eugenia. Motricidade humana hoje. In: GENU, Marta et. al. (org.). Motricida- 
de humana: uma metaciência? Belém: Uepa, 2009. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
35 
 
FORMAÇÃO PROFISSIONAL NA ÁREA 
DA EDUCAÇÃO FÍSICA: 
O FENÔMENO CORPOREIDADE COMO EIXO 
BALIZADOR 
 
Wagner Wey Moreira 
 
1. Introdução 
 
Falar em formação profissional na área da Educação Física remete- 
-nos ao entendimento e à produção de conhecimento relacionada ao cor- 
po. Afinal, toda a ação da área, quer no trato da atividade física, do exer- 
cício e da prática esportiva, destina-se ao ser humano que se movimenta. 
Outro ponto importante a ser salientado já neste início, diz respeito 
a como nós vemos essa área de conhecimento. Advogamos que a Educa- 
ção Física deve lutar para identificar seu estatuto epistemológico, quer seja 
via Teoria da Motricidade, quer seja via Ciência do Desporto, ou alguma 
outra. O importante é que ela destine tempo e reflexão para esse fim, no 
afã de se mostrar como ciência autônoma, podendo assim dialogar com as 
demais áreas científicas já consagradas. 
Daí o propósito deste escrito, que é o de refletir sobre uma área de 
conhecimento científico ora denominada Educação Física, a qual forma 
profissionais para a ação relacionada com os corpos humanos, devendo, 
por essa razão, balizar o entendimento que tem sobre o corpo que se mo- 
vimenta para a superação. 
Na estrutura do texto identificam-se dois momentos: no primeiro, 
analisaremos como está o trato com o corpo apresentado pela ciência e 
pela Educação Física; no segundo, estabeleceremos a corporeidade como 
fio condutor da transformação de valores necessária para a produção de 
conhecimento científico, notadamente na Educação Física. 
 
2. A Ciência, o Corpo e a Educação Física 
 
A relação entre ciência e corpo não é nova, considerando que há 
mais de quatrocentos anos o corpo do homem vem sendo progressiva- 
mente desvelado. O preocupante, nos dias atuais, é continuarmos a con- 
 
36 
siderar o corpo como uma máquina a ser melhorada em seu rendimento 
para atingir a perfeição, porque nesta trilha já partimos do princípio que 
o corpo humano é imperfeito, justificando todo tipo de manipulação e de 
invasão para consertá-lo. Melhor dizendo nas palavras de Novaes (2003, 
p. 10) 
 
Se a perfeição é o esquecimento de certos fenômenos, o corpo 
contemporâneo é absolutamente imperfeito, uma vez que ele se 
tornou não apenas objeto de controvérsia, mas também campo 
de todas as experiências possíveis. O corpo transformou-se em 
máquina ruidosa a ser reparada a cada movimento. Máquina defei- 
tuosa, “rascunho” apenas, como escreve David Le Breton, sobre o 
qual a ciência trabalha para aperfeiçoar. 
 
Por um lado, vemos o corpo humano sendo determinado pelo 
meio, o que leva a supor que as mudanças sociais podem modificar suas 
condições de existência. Ao longo da história, as condições sociais tatua- 
ram nos corpos a docilidade, que nos dizeres de Foucault (1977) podiam 
ser objeto e alvo do poder. Objeto porque ele poderia ser manipulado, mo- 
delado, treinado; alvo porque ele poderia se tornar hábil, economizando 
forças para o trabalho necessário. 
Os corpos dóceis recebiam com naturalidade a disciplina, que se 
constituía de métodos que permitiam o controle minucioso das ações cor- 
póreas, através da delimitação do espaço, controle do tempo e do movi- 
mento. Se pensarmos na Educação Física, em seu trilhar histórico, não 
identificaremos exatamente isto? Ela não foi mestre em controlar 
espaço, tempo e movimento? 
Como o que nos preocupa é o hoje, podemos afirmar que o que 
Foucault (1997, p.127) escreveu para o século XVII, pode ser reeditado 
hoje, sem alterações: 
 
A disciplina fabrica assim corpos submissos e exercitados, corpos 
“dóceis”. A disciplina aumenta as forças do corpo (em termos po- 
líticos de obediência). Em uma palavra: ela dissocia o poder do 
corpo; faz dele por um lado uma “aptidão”, uma “capacidade” que 
ela procura aumentar; e inverte, por outro lado a energia, a potên- 
cia que poderia resultar disso, e faz dela uma relação de sujeição 
estrita. 
 
37 
 
Também podemos ainda, dentro desta vertente, encontrar outras 
metáforas que existiram no sentido de controlar os corpos. Moreira(1995) 
apropriando-se do pensamento de Hugo Assmann, revela que há o “cor- 
po jardim fechado”, aquele que é sacralizado, que tem sua existência sepa- 
rada de sua essência, vivendo em função do desenvolvimento do espírito. 
É um corpo que não pode possuir desejos, que é sinônimo de templo, de 
residência da alma. 
Nos tempos modernos aparece o “corpo ajustável ao que se pre- 
cisa”, o qual é dotado de plasticidade, moldabilidade, elasticidade. É o 
corpo-força de trabalho, útil no cumprimento das funções regulares do 
mercado. São os corpos-professores, corpos-estivadores, corpos-executi- 
vos, corpos-operários, corpos-relação do poder, corpos-relação mercantil. 
Isto, na área da Educação Física, pode ser encontrado com muita freqüên- 
cia na área dos esportes, na qual o corpo atleta muitas vezes é invadido em 
sua intimidade e degradado em sua essência, para manter o rendimento ou 
a performance exacerbada. 
Há ainda os “corpos asceta-indiferentes”, em que as relações cor- 
porais, por não apresentarem significado, perdem significância. Num 
mundo em que o consumo substitui a ação de movimentar-se na direção 
da superação, corre-se o risco de substituir paixão pela vida por indiferen- 
ça emocional. 
Por outro lado, Rouanet (2003) nos lembra a obra do médico Julien 
Offray de La Mettrie, que viveu no século XVIII, mencionada aqui por 
nos parecer muito atual no que concerne às suas reflexões a respeito do 
corpo. La Mettrie acreditava que o organismo determina o essencial da 
vida do homem e que a felicidade deve ser buscada no bom funciona- 
mento do corpo e não na transformação social. Como se vê, estas idéias 
parecem propostas da modernidade, pois, na ciência, o homem novo con- 
tinua sendo um ideal, só que hoje ele deve ser fabricado no laboratório, 
nas clínicas médicas de cirurgias estéticas, nas academias de ginástica etc. 
O autor já simbolizava o que nos dias atuais temos como o materialismo 
biologizante, assunto tão debatido no mundo acadêmico 
O pensamento de La Mettrie poderia ser considerado, tempos atrás, 
como impróprio: 
 
38 
 
porque o paradigma era o liberal-utilitarista-socialista, baseado na 
convicção de que para o bem ou para o mal a sociedade tinha sem- 
pre a primeira e a última palavra. Como vimos, tem-se a impressão 
de que o paradigma mudou. Agora deixou de ser absurdo ou pro- 
vinciano falar num determinismo do corpo. O homem-genoma as- 
sumiu a sucessão do homem-máquina: nos dois casos é a biologia 
o fator determinante, e não a sociedade. (ROUANET, 2003, p.52) 
 
Este problema se avoluma, porque ainda hoje a maioria dos cien- 
tistas não concebe sua ação como política, apoiada nos padrões de “neu- 
tralidade” exigidos pela ciência. O mesmo Rouanet (2003, p. 57) aponta 
o perigo: 
 
O ideal platônico dos reis-filósofos parece ter sido reformulado 
hoje exatamente nos termos propostos por La Mettrie: a redefini- 
ção dos filósofos como cientistas naturais, e dos cientistas naturais 
como médicos, isto é, especialistas do corpo humano. Nessa utopia 
biológica que já se desenha no horizonte, o poder seria exercido 
pelos que sabem manipular geneticamente [...] isto é, não pelos que 
sabem conduzir os homens pela fabricação de ficçõesúteis, como 
dizia nosso filósofo, com um cinismo ainda inocente, mas pela re- 
programação genética dos homens, para torná-los mais dóceis e 
menos violentos. 
 
Corpo da biotecnologia, apoiado em um ideal padronizado de per- 
feição, que para ser alcançado é permitido recorrer a implantes e próteses, 
com os quais se aumenta ou se diminui seios, pernas, bundas e tudo mais. 
Corpo imperfeito no padrão estético vigente, que recorre aos martírios 
dos treinamentos infindáveis, das dietas irracionais, dos modismos do mo- 
mento. 
Corpo imperfeito que pode ser escondido nos sites de relaciona- 
mento dos programas computacionais mais acessados, corpo que se rela- 
ciona sem a necessidade do ir ao encontro do outro corpo para o estabe- 
lecimento da comunhão. 
Esta é a ciência atual, privando o corpo de ser humano, de movi- 
mentar-se em direção ao outro, de buscar a autossuperação, procurando 
gostar-se mais, porque sem isto é impossível gostar do outro. Corpo que 
se não alcançar o padrão estético vigente como o certo, estará fadado a ser 
desprezado, considerado imperfeito e não digno de atenção. 
 
39 
Isto poderá propiciar o que Le Breton (2003, p. 128/129) denomi- 
na um adeus ao corpo, pois: 
 
Com o passar do tempo, o corpo transforma-se num estorvo, ex- 
crescência desastrosa do computador. 
Se o longínquo está infinitamente próximo, a comunicação fora do 
corpo distancia o imediato, inscreve-se no afrouxamento dos vín- 
culos sociais, no alargamento do espaço pessoal. As comunidades 
virtuais desenham um universo abstrato geralmente mais íntimo 
que a família ou a vizinhança. Os ciberamigos são às vezes mais 
íntimos que as pessoas mais próximas, porque jamais os encon- 
tramos. 
[...] Superequipado com que lhe permite comunicar-se sem preci- 
sar deslocar-se (telefone celular, e-mail, internet, etc.), o indivíduo 
não precisa mais, necessariamente, encontrar-se fisicamente com 
outros; a conversa frente a frente durante um passeio tranqüilo ou 
em um lugar silencioso parece hoje perder espaço diante do diálo- 
go apaixonado do proprietário de um celular ou computador com 
seus interlocutores invisíveis e falantes. 
 
No entanto, as duas vertentes mencionadas e mesmo as preocupa- 
ções levantadas podem ser superadas. Nada impede que uma humanidade 
que se tornou tecnologicamente autônoma, graças a sua concepção de ci- 
ência, possa se organizar socialmente, de modo que a autonomia de todos 
os indivíduos também possa ser assegurada. A autonomia dos indivíduos, 
proposta pela linhagem social, pode ser conseguida também com a pre- 
ocupação relacionada com a autonomia da espécie, objetivo da linhagem 
biologizante. 
Ou, nas palavras finais de Rouanet (2003, p. 62/63): 
 
Depende de nós, agindo politicamente, ou que não haja nenhum 
homem-máquina, ou que ele seja tão amável quanto o homem de 
lata do Mágico de Oz, que acaba ganhando um coração no final da 
jornada. É o homem como autor do seu destino, suficientemente 
corajoso para rejeitar qualquer apelo a um pai transcendente, sufi- 
cientemente humanista para não transformar a pedagogia em arte 
de amestrar, e suficientemente democrático para não substituir a 
política pela biologia. 
 
Estas preocupações devem estar presentes na área de conhecimen- 
to denominada Educação Física. Participar de atividades físicas progra- 
 
40 
madas, de exercícios controlados, de vivências esportivas, remete a uma 
ideia de corpo individual e coletivo, que se reconhece como autor e ator 
da história, não podendo isto ser alcançado com movimentos meramente 
mecânicos e repetitivos, realizados por um corpo burro, com a finalidade 
de moldar o corpo próprio segundo um padrão externo a este, definido, 
por exemplo, pelos modismos de época ou pelos meios de comunicação. 
Daí a necessidade de enfatizarmos a busca do entendimento e da 
vivência do fenômeno corporeidade, o qual, quando buscado pela ciência, 
terá nesta um instrumento para o alcance da transcendência, 
descartando-se ser ela um fim em si mesma. 
 
3. A Corporeidade e a “Ciência da Educação Física” 
 
Colocamos entre aspas a relação ciência e Educação Física (justifi- 
ca-se no momento atual) pelos motivos já expostos na introdução, enfati- 
zando a necessidade da área alcançar sua autonomia enquanto produtora 
de conhecimento. 
Ainda para que não sejamos interpretados de forma equivocada, 
claro está que estamos cientes de que corporeidade não é o objeto cientí- 
fico da Educação Física, como aliás não será objeto científico de nenhuma 
área de conhecimento em particular. Corporeidade é sim uma atitude que 
deve nortear os profissionais pesquisadores que trabalham com o corpo, 
com o movimento, com o esporte, tanto no sentido coletivo quanto no 
individual. 
Dados esses esclarecimentos, vamos justificar as razões pelas quais 
a corporeidade deve ser o eixo norteador da Educação Física, enquanto 
área de produção de conhecimento científico. 
A principal função da Educação Física no mundo do trabalho (e 
para tanto forma profissionais para isto) é pedagógica. Quer estando o 
graduado nessa área, atuando na educação, quer estar atuando na saúde, 
ou mesmo quer estar atuando no esporte, esse fenômeno complexo e de 
largo desenvolvimento no último século, a função do profissional de Edu- 
cação Física é pedagógica. Ele deve, na escola, ensinar os conhecimentos 
históricos da área, de maneira contextualizada; na saúde, colaborar no en- 
sino para a apropriação de hábitos salutares, que resultem na melhoria 
 
41 
da qualidade de vida; no esporte, propiciar a aprendizagem e a vivência 
de modalidades esportivas e de condicionamentos físicos os mais varia- 
dos, sempre no sentido do movimentar-se na direção do outro, na direção 
das coisas ou do mundo, com intencionalidade, com regularidade e com 
controle da atividade. Isto será conseguido com qualidade se a atitude da 
corporeidade estiver presente. 
Advogar corporeidade é lutar pelo princípio de uma aprendizagem 
humana e humanizante em que, em sua complexidade estrutural, o ser 
humano passa a ser considerado, a um só tempo, totalmente antropológi- 
co, psicológico e biológico. O corpo do homem não é um simples corpo, 
mas corporeidade humana, só compreensível através de sua integração na 
estrutura social. 
Falar de uma educação do corpo é falar de uma aprendizagem hu- 
mana, é aprender de maneira humana (por isto existencial) a ser homem, 
a existir como homem. Falar de uma educação do corpo é explicitar a 
corporeidade. 
Já escrevemos certa vez (MOREIRA, 1995) que a corporeidade é, 
existe, e através da cultura ela possui significado. Daí a constatação de que 
a relação corpo-educação, por meio da aprendizagem, significa aprendi- 
zagem da cultura – dando ênfase aos sentidos dos acontecimentos -, e 
aprendizagem da história – enfatizando aqui a relevância das ações hu- 
manas. Corpo que se educa é corpo humano que aprende a fazer história, 
fazendo cultura. 
Corporeidade, enquanto objeto de estudo da educação, deve ser 
considerada, ao mesmo tempo, nos planos pessoal, político, cultural e 
histórico, pois estas dimensões representam a estrutura do fenômeno hu- 
mano, sem reduzi-lo a nenhum de seus elementos. 
Também em outro escrito recente (MOREIRA, 2008, p.93), afir- 
mamos que no caso da formação profissional em Educação Física, no 
trato com a corporeidade, há que se superar os sistemas que provocam a 
disjunção entre as humanidades e as ciências, da mesma forma que levam 
à separação das ciências em disciplinas hiperespecializadas, fechadas em si 
mesmas, como razões últimas do conhecimento científico. 
O fenômeno corporeidade não pode se dar a conhecerpela hipe- 
respecialização. A Educação Física, através de seus profissionais forma- 
 
42 
 
dos, deverá colaborar para a análise e o entendimento da corporeidade no 
contexto da condição humana. O estudo do ser humano que se movimen- 
ta intencionalmente na direção da superação ou transcendência, através 
dos conhecimentos históricos da chamada Educação Física, deve estar 
atrelado ao entendimento da complexidade humana, ou, nas palavras de 
Morin (2001, p.55 e 61) 
 
Todo desenvolvimento verdadeiramente humano significa o de- 
senvolvimento conjunto das autonomias individuais, das participa- 
ções comunitárias e do sentimento de pertencer à espécie humana. 
A educação deveria mostrar e ilustrar o destino multifacetado do 
humano: o destino da espécie humana, o destino individual, o des- 
tino social, o destino histórico, todos entrelaçados e inseparáveis. 
Assim, uma das vocações essenciais da educação do futuro será o 
exame e o estudo da complexidade humana. 
 
A corporeidade deve servir como eixo primordial na formação pro- 
fissional em Educação Física porque só é possível conhecer e definir o 
humano a partir da realidade corporal, como já afirmava Merleau-Ponty 
(1994): “Eu sou o meu corpo e assim o ser, a realidade ontológica coincide 
com a realidade corpórea. O ser humano pode ser definido como tal, a 
partir de sua realidade corpórea e não a partir de seu pensamento”. Aqui, 
mais uma vez, se justifica o estudo da corporeidade, pois ela reúne o ser 
físico, o intelectivo, o sensível, o transcendente, deixando de lado a exacer- 
bação da perspectiva racionalista e racionalizadora. 
Melhor ainda, nas palavras de Nóbrega (2009, p.68) 
 
O corpo expressa a unidade na diversidade, entrelaçando o mundo 
biológico e o mundo cultural e rompendo com o dualismo entre 
os níveis físicos e psíquicos. Com meu corpo, atuo no mundo. Vale 
lembrar que o mundo, ou melhor, a existência do sujeito no mundo 
é ponto central da Fenomenologia, mais especificamente, na ver- 
são existencialista formulada por Merleau-Ponty, na qual a relação 
homem-mundo é corporal. 
 
 
 
 
43 
 
A Educação Física deve levar a seus profissionais o sentido da cor- 
poreidade, porque a aprendizagem do mundo se faz com o corpo, mesmo 
considerando que sempre numa síntese inacabada. Apreender o mundo 
significa considerarmos as representações intelectuais, motoras e sensiti- 
vas. 
O sentido da corporeidade evidencia-se quando sabemos que o uso 
do corpo ultrapassa o nível biológico, o nível dos instintos, chegando à 
criação de um mundo simbólico, de significações. Mundo natural e mundo 
cultural formam uma unidade que a corporeidade vivencia. 
A formação profissional na área de conhecimento científico deno- 
minada ainda hoje de Educação Física, a qual tem como função principal 
o sentido da aprendizagem, deve reconhecer que: 
 
A aprendizagem é basicamente uma reorganização da corporeida- 
de. Quando aprende, quando encontra um sentido e uma significa- 
ção para um acontecimento em sua existência, o ser humano passa 
a habitar o espaço e o tempo de uma forma diferente. Esse aconte- 
cimento é ao mesmo tempo motor e perceptivo, não há separação 
entre o corpo que age e o cogito que organiza a ação. O corpo é 
o lugar de aprendizagem, de apropriação do entorno por parte do 
sujeito. Uma aprendizagem na qual o motor e o perceptivo, o 
corpo e a consciência compõem um sistema único. (NÓBREGA, 
2009, p.73) 
 
Mais uma vez enfatizamos que o conceito de corporeidade em 
Merleau-Ponty considera a realidade do corpo para além das dicotomias 
corpo e mente, natureza e cultura, individual e coletivo. Para esse autor, 
corporeidade é consciência encarnada, existencializada. 
Corporeidade pode favorecer a associação da ciência e da Educação 
Física, deixando a primeira de ser manipuladora de corpos para, através 
da segunda, habitá-los, deixando para trás a idéia de corpo-objeto e cami- 
nhando na direção do estudo do corpo-sujeito. 
Quando se fala em conhecimentos históricos da área da Educação 
Física, ou seja, o esporte, a ginástica, a luta, o jogo e a dança, mais ainda 
 
 
44 
 
se vê a necessidade da associação desses conteúdos com o sentido de cor- 
poreidade. Com ele (o sentido da corporeidade), a Educação Física pode 
ousar em transformar, inclusive, o movimento realizado, antes meramente 
mecânico, em manifestação de arte. Quanta beleza estética, quanta plasti- 
cidade podemos perceber no corpo dançando, no sujeito driblando com 
suas gingas mais desconcertantes, nos gestos de chutar a gol, de cortar 
acima de um bloqueio, de arremessar à cesta de uma grande distância. 
Pinturas, realizadas sem tinta, mas com movimentos corporais expressos 
pelas mãos, pelos braços, pelas pernas, pelos pés, enfim, por toda a cor- 
poreidade que joga. 
Enquanto atitude, a corporeidade pode auxiliar a rever o sentido e 
o significado do esporte, que escapa a muitos olhares menos atentos: iden- 
tificar que o esporte, tem como razão de ser, o trato da forma humana, 
o aprimoramento corporal, gestual e comportamental do ser humano. E 
este propósito só pode ser alcançado através da técnica, esta também ne- 
cessitando de um redimensionamento, como o proposto por Bento (2006, 
p.157) 
 
É a técnica que precede e possibilita a criatividade e a inovação. A 
criatividade será uma espécie de estado de graça, de harmonia e 
perfeição, um sopro de inspiração que responde a uma ordem e a 
uma voz que vem de dentro, mas que só resulta quando a técnica se 
instala como uma segunda natureza. Sim, difícil é a técnica; com ela 
o resto é fácil. A técnica é uma condição acrescida e aumentativa; 
não serve apenas a eficácia, transporta para a leveza, a elegância e 
a simplicidade, para a admiração e o espanto, para o engenho e a 
expressão do encanto. Sem ela não se escrevem poemas, não se 
compõem melodias, não se executam obras de arte, não se marcam 
gols, não se conseguem cestas e pontos, não se pode ser bom em 
nenhum ofício e mister. A arte, a qualidade, o ritmo, a harmonia 
e a perfeição implicam tecnicidade. Sem técnica não há estética de 
coisa alguma. E a ética fica deficitária e manca. Enfim, sem técnica 
não logramos ser verdadeiramente humanos. 
 
 
 
41 
 
45 
 
A formação profissional na área científica da Educação Física, as- 
sociada à compreensão acerca corporeidade, permitirá rever conceitos, a 
partir do redimensionamento do saber o que é esse ser humano corpóreo. 
Sentir, pensar, agir, sonhar, criar, ousar, transcender, são palavras 
que podem e devem estar presentes na preocupação científica. Que estas 
palavras e preocupações possam fazer parte da ciência da Educação Física 
e que elas tenham a missão de nortear a formação profissional nesta área 
de conhecimento. 
 
4. Considerações Finais 
 
Sempre nos vem à mente a frase de Merleau-Ponty: “A máquina 
funciona; o corpo vive.” Temos dito que se os pesquisadores, os profes- 
sores universitários, os que trabalham com o jogo, com o esporte, com 
a dança, com a ginástica e com a luta, enfim, se todos aqueles que pos- 
sam estar inseridos na produção de conhecimento científico na área da 
Educação Física conseguirem captar a diferença fundamental indicada por 
Merleau-Ponty entre máquina e corpo do ser humano, estaremos aptos a 
colaborar para a transformação da área e trabalhar adequadamente com o 
fenômeno corporeidade. 
A nós, pesquisadores da área, cabe essa missão. Para isto, temos que 
superar divergências ideológicas estéreis, não abrindo mão de valores, mas 
negociando estratégias. 
Lembramo-nos também, aqui, de Geraldo Vandré: “quem sabe faz 
a hora, nãoespera acontecer”. 
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 
 
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46 
 
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homem-máquina: a ciência manipula o corpo. São Paulo: Cia das Letras, 2003. 
 
 
 
 
 
47 
SEDENTARISMO 
 
 
A redução da atividade física, ocasionada pela automação e 
modificações no ambiente de trabalho, assim como pelo decréscimo do tempo 
destinado ao lazer, tornouse cada vez mais evidente a partir dos anos 70. O 
sedentarismo, reconhecido como importante fator de risco para doenças 
cardiovasculares, é definido como a falta ou a grande diminuição de atividade 
física. O estilo de vida sedentário, assim como o tabagismo, a hipertensão 
arterial, a dislipidemia e a obesidade, são considerados os principais fatores 
de risco para a morte súbita, estando na maioria das vezes associado, direta 
ou indiretamente, às causas ou ao agravamento da grande maioria das doenças 
(BLAIR, 1993; CARVALHO et al., 1996). 
É sabido que a atividade física estimula a função dos sistemas 
cardiovascular, respiratório e músculo-esquelético. A incorporação desta, 
como hábito, contribui para o controle de peso, assim como também promove 
motivação psicológica e sensação de bem estar, sendo este fator relevante na 
prevenção primária e também como suporte terapêutico das doenças crônicas 
não transmissíveis (BLAIR et al., 1996). 
O baixo envolvimento em atividades físicas regulares, aliado aos 
distúrbios nutricionais, fatores sócio-econômicos e psicológicos estão 
associados a maior probabilidade da incidência de obesidade (PARSONS et 
al, 1999; WHO, 1998). 
Nos dias de hoje, com o tipo de vida "natural" que vivemos, com mais 
conforto, mais facilidades, mesmo que para termos esse estilo de vida, têm 
que trabalhar mais sem nos preocupar com nossa qualidade de vida, onde as 
atividades físicas acabam ficando em segundo plano. 
Dessa forma, surge então uma palavra que começa a nos preocupar: 
"o sedentarismo". De acordo com Guiselini (1996), se as pessoas 
conhecessem os benefícios da atividade física, as academias, os clubes, 
 
48 
centros esportivos, parques, campos e quadras não seriam suficientes para 
atender à grande demanda. A partir desta colocação temos a idéia da grande 
quantidade de pessoas que estão totalmente ou quase inativas. 
O sedentarismo já esta sendo considerada como a doença do próximo 
milênio, na verdade trata-se de um comportamento induzido por hábitos 
errôneos decorrentes dos confortos da vida moderna. Com a evolução da 
tecnologia e a tendência cada vez maior de substituição das atividades 
ocupacionais que demandem algum gasto energético por facilidades 
automatizadas, o ser humano adota cada vez mais a lei do menor esforço 
reduzindo assim o consumo energético de seu corpo (BARROS, 2000). 
O número de pessoas que não praticam nenhum tipo de atividade 
física vem crescendo cada vez mais, decorrente destas praticidades e das 
facilidades dos dias de hoje. Vemos que atualmente as pessoas estão tão 
atarefadas que não acham tempo para praticar algum tipo de atividade física, 
sendo que esta está totalmente relacionada com a qualidade de vida. 
Nos últimos anos tem sido observado um maior cuidado com o uso 
de denominações apropriadas na estratificação dos níveis de atividade física 
e comportamentos sedentários. A inatividade física vem sendo entendida 
como a condição de não atingir as diretrizes de saúde pública para os níveis 
recomendados de atividade física de intensidade moderada a vigorosa 
(AFMV) (Hallal et al., 2012). O comportamento sedentário tem sido definido 
para se referir à exposição a atividades com baixo dispêndio energético, 
atividades ≤ 1.5 equivalentes metabólicos (METs) (Owen et al., 2010; R. R. 
Pate et al., 2008). 
Comportamento sedentário é o termo direcionado para as atividades 
que são realizadas na posição deitada ou sentada e que não aumentam o 
dispêndio energético acima dos ní- veis de repouso (Ainsworth et al., 2000; 
R. R. Pate et al., 2008). São exemplos de atividades sedentárias as que estão 
relacionadas com uma exigência energética baixa, como ver televisão, o uso 
 
49 
do computador, assistir às aulas, trabalhar ou estudar numa mesa e a prática 
de jogos eletrónicos na posição sentada (Amorim & Faria, 2012; Owen et al., 
2010). A simples posição em pé, mesmo sem a realização de alguma 
atividade, não é considerada como comportamento sedentário, podendo ser 
diferenciada das atividades sentadas, já que exige contração isométrica da 
musculatura para se opor à gravidade (Hamilton et al., 2007, 2008). Na 
classificação do comportamento sedentário tanto a topografia corporal como 
o equivalente metabólico podem conduzir a dúvidas na interpretação no 
momento de estratificação do risco para a saúde, a exemplo das atividades de 
escrever ou digitar na posição sentada que correspondem a 1.8 METs, sendo 
este score metabólico similar à atividade de leitura na posição ortostática 
(Ainsworth et al., 2000). 
Fonte: Meneguti et all, 2015. 
 
 
 
50 
Há consenso entre estudos para a condição elevada do tempo exposto 
a comportamentos sedentários estar associada a um maior risco de 
mortalidade (Katzmarzyk et al., 2009; van der Ploeg et al., 2012). 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
51 
A TECNOLOGIA E SUA INFLUÊNCIA SOBRE O CORPO; 
PADRÕES DE BELEZA NA SOCIEDADE ATUAL 
 
 
Na última década do século XX, o mundo sofreu mudanças 
intensas como privatizações, concentração de propriedade, 
comercialização e ainda os avanços tecnológicos. Mercados nacionais com 
o processo de globalização tornaram-se mais integrados, os meios de 
comunicação em massa e a mídia começaram a se consolidar a partir dessa 
nova ordem mundial. 
As pessoas em todo mundo começaram a ter mais acesso a 
imagens e sons e também a compartilhar as diferentes culturas entre países. 
Esse acesso ilimitado a outras culturas através dos meios de comunicação 
(principalmente a TV) ocasionou a homogeneização cultural. Como forma 
de vender seus produtos e serviços, grandes corporações sediadas no EUA, 
Japão e Europa, começaram a produzir mercadorias para cultura 
massificada utilizando como meio a mídia, alcançando um númerocada 
vez maior de consumidores em todo o planeta. Nesse processo de mídia 
globalizada e como alvo das indústrias, não é exagero dizer que as crianças 
são os indivíduos mais vulneráveis, necessitando de atenção especial de 
pais, educadores e governantes (CARLSSON & FEILITZEN, 2002). 
Lisbôa (2003) destaca que as crianças no seu cotidiano se 
defrontam com uma nova realidade sociocultural, uma sociedade 
tecnológica, globalizada e consumista. Por isso, a importância de se 
pesquisar sobre a influência da mídia no padrão estético das crianças. 
Diante destas questões, objetivou-se analisar sobre a influência da 
mídia no padrão de beleza das crianças entre 8 e 12 anos, segundo a 
percepção dos pais. Ainda teve como objetivos específicos: identificar o 
padrão de beleza das crianças entre 08 e 12 anos, segundo a percepção dos 
pais; identificar as semelhanças e diferenças que os pais estabelecem entre 
 
52 
o padrão de beleza das crianças e o padrão estético veiculado na mídia 
televisiva; identificar o contato que as crianças possuem com a mídia 
televisiva no decorrer do dia, segundo os pais; apontar a influencia da mídia 
para o mercado de beleza das crianças, segundo a percepção dos pais; 
analisar as conseqüências positivas e negativas do padrão de beleza 
veiculado na mídia para o desenvolvimento da auto-imagem e da auto-
estima das crianças, segundo os pais. 
 
Mercado da Beleza 
 
Na década de 90 e no começo do século XXI a economia para bens 
e serviços de beleza aumentou significativamente. Segundo Castro (2007), 
a ABIHPEC (Associação Brasileira de Indústria de Higiene, Perfumaria e 
Cosméticos), apresentou dados informando o excelente desempenho da 
fabricação dos produtos de higiene pessoal, cosméticos e perfumaria 
representando uma grande fatia no mercado da beleza. No período de 1991 
a 1995 o faturamento passou de 1,5 bilhões de dólares, para 3,4 bilhões de 
dólares que equivale a um crescimento de 126,6% (CASTRO, 2007). 
O crescimento dessas indústrias no início dos anos noventa se 
deve a diminuição da carga tributária dos produtos cosméticos, também o 
preço real reduziu e por último o aumento da base do consumo que teve 
uma maior motivação da parte dos empresários para investir nessa área. 
Esses três fatores levaram a população consumir em uma grande 
quantidade. O impacto do “Plano Real” fez aumentar o poder aquisitivo 
dos brasileiros, além disso, houve a redução da carga tributária sobre as 
vendas destes produtos levando o maior consumo da população em 
produtos de beleza. O mercado de beleza brasileiro passou da sexta posição 
ocupada em 2000 passando para terceira posição em 2007, ficando apenas 
atrás dos EUA e Japão (Dados ABIHPEC). O mercado brasileiro 
 
53 
representa 4% do mercado mundial dos produtos de beleza ficando uma 
distância significativa referente aos outros produtos nacionais que 
representam de 1% a 2% (CASTRO, 2007). 
Segundo Harada (2008) na ANVISA (Agência Nacional de 
Vigilância Sanitária existem 3,5 mil produtos registrados voltados ao 
público infantil. 
O mercado Brasileiro de cosmético voltado para criança (Dados 
Euromonita) ocupa o segundo lugar no ranking mundial, levando em 
consideração os 50 milhões de consumidores infantis brasileiros, 
representando 29,6% da população do Brasil. Segundo dados da ABIHPEC 
essa posição está ocorrendo desde 2005 até os dias de hoje (HARADA, 
2008). 
Muitas vezes a criança se torna presa fácil das indústrias de consumo 
da pós-modernidade (ARGOLLO & OLIVEIRA, 2007). E na lógica do 
capitalismo a criança é vista como um indivíduo independente do adulto e 
elevada a status de cliente, ou seja, uma pessoa que gasta consome, e é muito 
exigente (PEREIRA, 2002). Oliveira cita que: 
A prática do consumo é incentivada por todo o sistema 
sócio-econômico além do cultural. Em época de Natal, 
São João e outras datas comemorativas nacionais e 
regionais, por exemplo, a pressão de consumo é 
intensificada. Os shoppings e o comércio ficam lotados 
e o horário de atendimento é prolongado. Não se pode 
deixar de destacar a importância da publicidade como 
um dos elementos moldadores de comportamentos na 
atualidade. A televisão e os demais meios de 
comunicação, através do discurso publicitário, exercem 
grande pressão para que consumamos. 
Independentemente de classe social, raça ou cor, a 
maioria das pessoas participa ou tem o desejo de estar 
incluído neste sistema repleto de símbolos 
- dentre elas, as crianças (ARGOLLO & OLIVEIRA, 
2007, p. 4). 
 
 
 
 
54 
O padrão estético hegemônico na mídia 
 
No final do século XX e no início do século XXI a mídia 
influenciada pelo interesse das indústrias de consumo, veicula somente 
tipos de corpos que fazem parte do padrão estético realmente aceitável para 
a sociedade atual. Em um jogo de sedução e imagem a mídia evidencia 
modelos como indicativo de ideal de beleza. É uma forma de vincular à 
representação da beleza estética ideais de saúde, magreza e desejo no 
imaginário social e gera uma busca do corpo que se encaixe no padrão 
estético imposto na mídia correlacionando com o sucesso (PELIGRINI, 
2009). 
A influência de um determinado estereótipo corpóreo vinculado na 
mídia, além de atingir homens e mulheres, também influencia as crianças, 
um grupo de indivíduos frágeis, principalmente as meninas, que desde cedo 
são educadas nos moldes padronizados da sociedade. Essas meninas muitas 
vezes, se submetem a ‘torturas’ imposta pela moda corpórea atual. Na 
medida em que essas crianças crescem, criam gostos e desejos e acabam 
por se sujeitar a moda situada no seu contexto social (FIORANI, 2007). As 
imagens de crianças divulgadas através dos meios de comunicação são na 
maioria brancas e classe média alta, contrapondo a realidade da maioria 
das crianças brasileiras. As crianças mestiças, afro- descendentes, gordas e 
pobres fazem parte de um grupo preterido pelos meios publicitários 
(SAMPAIO, 2000). No nível global a preocupação com a beleza em 10 
meninas começaram entre 6 á 11 anos, suas principais queixas no que se 
referem a aparência são; o peso, forma corpórea, traços faciais. Mas na 
maioria dos casos essa preocupação se fortalece nas idades de 12 e 14 anos. 
Portanto a preocupação com a beleza começou desde muito cedo. Então 
quanto mais cedo essa apreensão, o impacto negativo é maior sobre essas 
crianças na auto-estima e na satisfação com seu corpo (MORENO, 2008). 
 
55 
A Indústria da Corpolatria: O Mercado Brasileiro da Beleza 
e da Boa Forma 
 
Com a difusão do conceito de beleza, aliado à saúde, bem-estar e 
sucesso criado pelo discurso veiculado pela mídia, a oferta e procura por 
bens e serviços que reforçam e ajudam os indivíduos a alcançarem esse 
ideal vêm crescendo vertiginosamente nos últimos anos. 
A Indústria Brasileira de Higiene Pessoal, Perfumaria e 
Cosméticos – ABIHPEC (2006) apresentou um crescimento médio de 
10,7% nos últimos 5 anos, tendo passado de um faturamento líquido de R$ 
7,5 bilhões em 2000 para R$ 15,4 bilhões em 2005. Os índices demonstram 
que o setor apresentou, neste período, crescimento bem mais vigoroso que 
o restante da indústria (10,7% de crescimento médio no setor contra 2,1% 
da Indústria Geral): Nesse mercado, o Brasil ocupa a quarta posição, com 
especial destaque para os produtos para cabelo e perfumaria em que o 
Brasil figura em terceiro lugar. 
 Dados da Associação Brasileira de Alimentos Dietéticos – 
ABIAD (2006) mostram que 1 em cada 2 brasileiros faz regime em algum 
momento de sua vida. Hoje aproximadamente 35% dos domicílios 
consomem algum tipo de produto light/diet. No período de 1990 a2003, o 
faturamento do setor passou de aproximadamente R$ 160 milhões para R$ 
3 bilhões. 
Dados da Associação Brasileira de Academias – ACAD (2006) 
estimam existirem 7.000 academias em todo o país, com um total de 2,8 
milhões de pessoas freqüentando as academias (1,6 % da população) e 
gerando um faturamento anual de R$ 1,5 bilhões. Estima-se um 
crescimento no Brasil superior ao do mercado americano, líder nesse setor. 
Estima-se ainda que, aqui no Brasil, a venda de equipamento fitness gire 
em torno de R$ 150 milhões para o mercado profissional e o triplo desse 
 
56 
valor para o mercado de home fitness. 
Dados da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica – SBCP (2006) 
mostram que o Brasil é o país que lidera o ranking desse tipo de cirurgia 
no mundo, superando os Estados Unidos. Das cirurgias realizadas no país, 
80% têm finalidades estéticas enquanto apenas 20% possuem finalidades 
reparadoras. 
 
O Corpo na Mídia e na Publicidade 
 
A interação do público com a propaganda e outras formas de mídia 
de massa é muito complexa (GULAS e MCKEAGE, 2000). Consumidores 
desenvolvem um mosaico de significados através da construção e 
desconstrução da propaganda e outras formas de mídia (HIRSCHMAN e 
THOMPSON, 1997). Raramente uma pessoa não atraente é apresentada 
como garoto-propaganda nos filmes publicitários, justamente por 
acreditar-se que a atratividade física aumenta a eficácia do efeito da 
propaganda nos telespectadores e, com isso, incrementará a venda do 
produto anunciado. A atratividade física tornou-se recurso de persuasão e 
tentativa de melhoria da atitude do consumidor para com o produto, com a 
marca e incremento na sua intenção de compra (BRUMBAUGH, 1993). A 
atratividade física é o elemento visível que as pessoas dispõem e utilizam 
para formar opiniões e fazer julgamentos acerca da personalidade, status e 
posição social de outras pessoas. 
 Kalick, 1988 (apud BRUMBAUGH, 1993) realizou uma pesquisa 
em que foram selecionados retratos de pessoas de diferentes sexos e 
diferentes graus de atratividade física e os exibiu às pessoas. Algumas 
características de status social e condição familiar foram apresentadas aos 
respondentes e pediu-se que associassem tais condições às fotografias 
apresentadas. Descrições de alta condição social eram associadas com 
 
57 
retratos das pessoas fisicamente atraentes, e descrições de mais baixa 
condição social com fotografias de pessoas menos atraentes. 
 Consumidores percebem que a mídia apresenta um mundo 
estilizado e idealizado. Programas de televisão, filmes, anúncios em 
revistas, fotos e imagens em calendários, etc., são todos bem iluminados, 
harmônicos, transmitindo e reforçando a imagem idealizada de perfeição. 
Imagens de homens musculosos e bem-sucedidos e de mulheres bonitas, 
atraentes e sensuais são veiculadas ostensivamente em uma tentativa de 
transferir sentimentos e características do(a) modelo para o produto 
(ENGLIS, SOLOMON e ASHMORE, 1994; ENGLIS e SOLOMON, 
1995), como uma “contaminação” com o sagrado. Corpos são colocados 
em cena em função das fantasias humanas tentando-se, assim, evocar (e 
satisfazer?) seus desejos sexuais. O corpo nada mais é, nesse contexto, que 
um objeto socialmente estereotipado, idealizado. 
 A exposição prolongada a essas imagens pode provocar efeitos 
negativos nos indivíduos e na sociedade como um todo. Homens e 
mulheres comparam sua atratividade física com as dos modelos dos 
anúncios e estas comparações, muitas vezes, levam a uma baixa auto-
estima e auto-percepção negativa (MARTIN e GENTRY, 1997), uma vez 
que a mídia tem o poder de criar e ditar padrões de beleza, moda e 
comportamentos. Em estudos que comparam a satisfação de homens e 
mulheres com sua aparência física, os homens geralmente se dizem mais 
satisfeitos que as mulheres (BURTON, NETEMEYER e 
LICHTENSTEIN, 1994). Entretanto, a pressão sobre os homens com 
relação à sua atratividade física é crescente. 
 Nunca se falou tanto em vaidade masculina como nos dias de hoje. 
Já não é mais tão difícil encontrarmos homens indo a salões de beleza para 
fazer as unhas, se submeterem às cirurgias estéticas, freqüentarem clínicas 
especializadas em beleza e utilizarem cosméticos. Homem que se preocupa 
 
58 
com sua aparência física já não é mais sinônimo de “frescura” como em 
outros tempos, apesar de ainda existirem preconceitos sociais. Novas 
categorias emergem nesse contexto, tais como o metrossexual, o 
urbessexual, entre outros, como representação moderna das novas 
preocupações masculinas com sua atratividade física. 
 
Corpo, Cultura e Sociedade: A Instrumentalidade do Corpo ou o 
Corpo como Capital 
 
De acordo com Oliveira, 1997 (apud ASSANTE, 2005:13) o corpo 
é considerado “o ponto de referência que o ser humano possui para 
reconhecer e interagir com o mundo”. É o corpo que expressa o indivíduo. 
Ferreira, 2002 (apud ASSANTE, 2005:15) defende que: 
 
O universo do corpo significa o corpo no universo, ou 
seja, saber o seu lugar, seu ritmo, dirigir o seu olhar, 
se colocar, se adaptar pelos gestos desembaraçados, 
rápidos, aos outros, às situações e repeti-los mais 
complexos, evoluídos, emotivos, sofridos. Esse é o 
programa de toda uma vida, desde o nascimento até a 
morte. 
 
 O corpo e a atratividade física são ativos preciosos que geram bons 
retornos àqueles que os utilizam e os preservam da maneira mais eficaz no 
jogo das relações sociais. Não há sociabilidade sem sedução e, por 
conseqüência, sem esse reconhecimento de que o meu próprio corpo é 
reconhecido como objeto pelo outro. As encenações de cada dia e a 
teatralização da vida na sociedade do espetáculo fazem parte de uma 
obstinação quotidiana de estetismo (JEUDY, 2002). O corpo tornou-se um 
produto social e cultural do mesmo modo que um outro objeto qualquer 
com valor de troca; transformou-se em instrumento de sociabilidade. O 
corpo bem cuidado pode garantir ao indivíduo melhor performance e 
 
59 
aceitação social, tornando a pessoa mais vendável e aceitável. Aqueles que 
não alcançam o padrão de beleza vigente ficam estigmatizados, 
desprezados e com menos oportunidades (CASTRO, 2003). “Ou se é um 
corpo espetacular ou se é um João ou Maria Ninguém” (COSTA, 2004: 
231). 
 McCracken (2003), Douglas e Isherwood (2004) e outros, 
afirmam que os bens são utilizados como pontes das relações sociais e 
servem como comunicadores de categorias culturais e valores sociais. Os 
bens estabelecem e mantêm relações sociais - constroem vínculos. Por 
mais estranho que nos possa parecer, fazemos uso de nosso corpo, 
consumimos e somos consumidos nos processos diários de interação 
social. Utilizamos o nosso corpo para fins de comunicação, significação e 
marcação. No mercado de consumo de corpos, os mais esbeltos, torneados, 
sensuais e atraentes são os mais disputados, desejados e valorizados. A 
aparência física e a performance do corpo funcionam como características 
distintivas, signos de status e condição social. São signos relacionais e com 
valor de troca. Julgamentos sociais são feitos com base nesses signos. “O 
corpo funciona como materialidade simbólica de significação”, sendo 
“uma superfície sobre o qual se inscreve o social” (SOUZA, 2004). 
O corpo, por suas formas e usos pode, assim, ser considerado um 
capital, ou seja, um recurso de poder que os atores sociais utilizam em um 
determinado espaço social para nele obter vantagens. Esse capital pode ser 
convertido em outros tipos de capitais – econômico, social, cultural e 
simbólico (BOURDIEU, 2007; GOLDENBERG, 2007). 
Embora o culto ao corpo seja uma tendência de comportamento 
geral,a forma como o corpo é utilizado é diversificada, diferenciada por 
cada grupo, exprimindo o estilo de vida e a condição de classe de cada um. 
Segundo Bourdieu (1983), cada classe possui um habitus, que é herdado e 
adquirido no curso das interações sociais dos indivíduos em sua classe. 
 
60 
Para ele, habitus é: 
 
[...] sistema de disposições duráveis e transferíveis 
que, integrando todas as experiências passadas, 
funciona a cada momento como uma matriz de 
percepções, apreciações e ações, e torna possível a 
realização de tarefas infinitamente diferenciadas, 
graças às transferências analógicas de esquemas que 
permitem resolver os problemas da mesma forma e 
graças às correções incessantes dos resultados 
obtidos, dialeticamente produzidas por estes 
resultados (BOURDIEU, 1983: 65). 
 
Para Bourdieu, habitus é ainda um sistema de esquemas 
individuais, socialmente construídos de disposições estruturadas (no 
social) e estruturantes (na mente), adquirido na e pelas experiências 
práticas, orientado para funções do agir cotidiano. É fruto do conjunto de 
experiências do indivíduo no meio social em que vive. É, ao mesmo tempo, 
construído continuamente, aberto e constantemente sujeito a novas 
experiências. São esquemas mentais (construídos a partir de interações 
sociais do sujeito no meio social) que moldam nosso modo de pensar e agir 
e que se modificam ao longo do tempo, conforme nossos padrões de 
experiências e pressões sociais. 
Sendo assim, emerge o conceito de habitus corporal 
(BOLTANSKI, 1989), ou seja, um sistema de disposições que orienta a 
relação dos indivíduos com os seus corpos, diferenciando a performance e 
os sinais que o corpo irá transmitir na sua interação com o mundo. Na 
sociedade moderna, constata-se o aumento da consciência corporal e do 
uso da sensualidade como instrumento de sedução e obtenção de vantagens 
de todos os tipos nas relações interpessoais. Mauss (2003), afirma que o 
corpo é o primeiro e mais natural instrumento, objeto e meio técnico do 
homem. 
O corpo, segundo Levi-Strauss, é a melhor ferramenta para aferir 
 
61 
a vida social de um povo. Cabe a ele uma linguagem que se institui antes 
daquilo que denominamos “falar”, ou seja, exprimir um conjunto de 
valores, crenças e ideais aprendidos durante a vida e numa determinada 
cultura. São manifestações simbólicas, dotadas de significado e sentido, 
representadas numa corporeidade manifestada no conjunto de relações 
sociais que os indivíduos estabelecem no dia a dia. 
 
Uso do corpo e suas representações na sociedade brasileira 
 
O culto ao corpo extrapola as práticas e relações do microambiente 
das interações pessoais. Assume também proporções maiores, quando 
atinge dimensões macro, em atividades e eventos pertencentes à sociedade 
como um todo. Por exemplo, o Brasil é reconhecido por suas belezas 
naturais e peculiaridades culturais, o que o posiciona internacionalmente 
como um país exótico, o que atrai visitantes de todas as partes do mundo. 
O exotismo relaciona-se, inseparavelmente, à apreciação da beleza. 
Contudo, o lado exótico também é fortemente associado a um viés erótico. 
Paisagens paradisíacas associam-se à sexualidade no imaginário coletivo; 
o clima quente dos trópicos aliado à abundância litorânea do Brasil, 
reforçam o mito do “país sensual”. As imagens produzidas na mente dos 
indivíduos e grupos estimulam incessantemente esse culto ao corpo, 
introduzindo-se (e reforçando-se) na cultura local. 
Uma diversidade de aspectos culturais do Brasil têm relação estrita 
com o corpo, explorando a sensualidade ou o erotismo. A capoeira, pelo 
gingado sensual, é sempre lembrada como uma manifestação cultural típica 
brasileira, apesar de ser originária da África. O futebol, pelo jogo de corpo 
e o “swing” típico da latinidade, é uma das marcas mais fortes que o Brasil 
possui. 
 
 
62 
O carnaval, com danças envolventes e corpos semi-nus, à mostra, 
provoca, de forma extremamente forte, o interesse pelo uso da atratividade 
do corpo como instrumento de poder pessoal. Mas, ainda mais que isso, a 
dinâmica proporcionada por essa adoração ao corpo e às possibilidades que 
isso proporciona, estimula o aproveitamento ou a potencialização desses 
movimentos, também como oportunidade comercial. O carioca (e pode-se 
dizer, o brasileiro), segundo Goldenberg (2002) é um povo que tem no 
corpo a sua marca distintiva e sobre o qual desenha suas fronteiras. Sendo 
assim, o corpo torna-se “roupa, máscara, veículo de comunicação 
carregado de signos que posicionam os indivíduos na sociedade” 
(GOLDENBERG, 2002:10). 
 
 O Consumo e o Uso do Corpo como locus da Construção de 
Identidade. 
 
Para Hall (2004) o sujeito pós-moderno assume identidades 
diferentes em diferentes momentos e instâncias da vida. Essas identidades 
são dinâmicas e estão sendo continuamente deslocadas. 
Muitas confusões teóricas são feitas em torno dos conceitos de 
identidade e autoconceito, ao ponto de alguns autores considerá-los 
categorias idênticas. Portanto, é importante entendermos as diferenças 
entre esses dois conceitos. Cass (1984:110 apud PEREIRA, AYROSA, 
OJIMA, 2006) define autoconceito como a “totalidade dos pensamentos e 
sentimentos que um indivíduo tem em relação a si próprio”. É a imagem 
que o indivíduo tem de si próprio. A identidade é construída socialmente e 
representa e classifica o indivíduo em função de situações sociais 
específicas. É, portanto, uma construção cultural situacional, contextual e 
relacional. Uma pessoa tem um autoconceito e muitas identidades 
(PEREIRA, AYROSA, OJIMA, 2006). 
 
63 
Segundo alguns autores como Belk, Douglas & Isherwood, 
McCracken e outros, os indivíduos constroem suas identidades através do 
consumo de bens e serviços que funcionarão não só como um meio para as 
relações sociais, mas também como signos distintivos, categorizadores dos 
sujeitos no espaço social. O consumo tornou-se uma esfera social que 
regula e orienta as práticas do cotidiano na sociedade contemporânea. Nele 
os indivíduos se reconhecem um nos outros (e com os outros) e constroem 
suas identidades de forma mais ou menos intencional. 
Considerando o corpo como mercadoria-signo, portanto, locus e 
veículo comunicacional, sua linguagem, gestualidade e forma 
(culturalmente codificada), ou seja, suas formas de manipulação, cuidado 
e expressão, são instrumentos de distinção social e indicadores de poder 
pessoal e prestígio. Nesse contexto, o culto ao corpo pode ser interpretado 
como uma esfera de consumo que garantiria a determinados indivíduos a 
aceitação e pertencimento a um grupo social específico, através do qual 
constrói sua identidade no conjunto de atividades e experiências 
quotidianas desenvolvidas e vivenciadas para esse fim. 
 
Considerações Finais 
 
 A mídia e a publicidade, agindo em conjunto com a indústria da 
corpolatria, estimulam e reforçam a cultura do culto ao corpo na sociedade 
contemporânea. Cirurgias plásticas, academias de ginástica, alimentos 
light/diet e cosméticos servem como canais para a obtenção do tão 
propagado corpo esteticamente perfeito e atraente, utilizado como 
instrumento de socialização, competição e poder. 
 É importante considerarmos que toda a gama de estereótipos 
corporais construídos no discurso midiático (e presente no imaginário 
coletivo) e a apologia ao consumo têm em comum uma “moral” da 
 
64 
aparência. Esses valores estão em consonância com os da sociedade 
contemporânea, em que são estimuladas a competição coletiva e individual 
(superar a si mesmo). 
Estudos revelam que o Brasil é um dos países em que a atratividadefísica é bastante valorizada. Aspectos culturais contribuem para que o 
erotismo e jogos de sensualidade façam parte não apenas do imaginário, 
como também das experiências e práticas vivenciadas pelos indivíduos. 
A análise das relações de poder entre a indústria da corpolatria, a 
mídia e o indivíduo, como atores que produzem discursos acerca da 
importância da atratividade física, apresenta uma atuação complexa, por se 
basear em interesses diversos. Cada ator exerce poder dentro de sua área 
ao mesmo tempo em que recebe influência de outro. Percebemos aí uma 
manipulação do indivíduo pela mídia e pela indústria, que se reforçam 
mutuamente, re-significando os discursos desses atores e assumindo 
também o seu poder, na medida em que toma para si a responsabilidade de 
cuidar do próprio corpo, construindo uma individualidade distintiva. 
Na medida em que o corpo é utilizado como um instrumento de 
poder, questionamos até que ponto o indivíduo não se transforma em uma 
mercadoria ao reificá-lo ou considerá-lo como uma parte não pertencente 
ao seu self. Ao mesmo tempo, o indivíduo conhece seu corpo como algo 
não dissociado da alma, participante da construção de sua identidade e 
personalidade. 
Esperamos que, com este trabalho, sejam levantadas novas 
questões relevantes ao estudo da corpolatria e do culto ao corpo no 
contexto brasileiro, bem como sejam analisadas as relações de poder entre 
os diversos atores que interagem nesse processo de construção da moral da 
aparência. 
 
 
 
65 
REFERENCIA BIBLIOGRAFICA 
 
KNOPP, Glauco da Costa. A influência da mídia e da indústria da beleza 
na cultura de corpolatria e na moral da aparencia na sociedade 
contemporanea. V ENECULT - Encontro de Estudos Multidisciplinares 
em Cultura 28 a 30 de maio de 2008 Faculdade de Comunicação/UFBa, 
Salvador-Bahia-Brasil. Disponivel em: 
http://www.cult.ufba.br/enecult2008/14415.pdf 
 
RIBEIRO, Larissa Gabrielle de Paula Wehner. ILDEBRANDO, Morgana 
Karoline. PLONER, Katia Simone. A influência da mídia no padrão de 
beleza das crianças entre 8 e 12 anos: sob a percepção dos pais. 
Disponovel em 
http://siaibib01.univali.br/pdf/Larissa%20Gabrielle%20de%20Paula%20We
hner%20Ribeiro%20e%20Morgana%20Karoline%20Ildebrando.pdf 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
66 
 
 
QUALIDADE DE VIDA: DEFINIÇÕES E CONCEITOS 
 
 
 
 O universo de conhecimento em qualidade de vida se expressa como 
uma área multidisciplinar de conhecimento que engloba além de diversas 
formas de ciência e conhecimento popular, conceitos que permeiam a vida 
das pessoas como um todo. Nessa perspectiva, lidase com inúmeros 
elementos do cotidiano do ser humano, considerando desde a percepção e 
expectativa subjetivas sobre a vida, até questões mais deterministas como o 
agir clínico frente a doenças e enfermidades. Pode-se perceber inúmeros 
esforços na tentativa de elucidar esse campo de conhecimento. Compreender 
qualidade de vida como uma forma humana de percepção do próprio existir, 
a partir de esferas objetivas e subjetivas, é um desses. Porém, é preciso que, 
para uma compreensão adequada, não haja reducionismo perante esse tema, 
pois o que se percebe são inter-relações constantes entre os elementos que 
compõem esse universo. Para melhor compreender a área de conhecimento 
em qualidade de vida é necessário adotar uma perspectiva, ou um paradigma 
complexo de mundo, pois se expressa na relação entre o Homem, a natureza 
e o ambiente que o cerca (BARBOSA, 1998). Por exemplo, embora haja 
diferença entre esferas de percepção deste conceito, para compreendê- las 
melhor é preciso que sejam associadas, que a influência de uma sobre a outra 
seja considerada, formando um todo. 
A presença do termo qualidade de vida é facilmente percebida no 
linguajar da sociedade contemporânea, sendo incorporado ao vocabulário 
popular com várias formas de conotação. Parece que existe um consenso de 
que é algo bom falar em qualidade de vida, mesmo sem definir exatamente 
do que está se falando. 
O senso comum se apropriou desse objeto de forma a resumir 
 
67 
melhorias ou um alto padrão de bem-estar na vida das pessoas, sejam elas de 
ordem econômica, social ou emocional. Todavia, a área de conhecimento em 
qualidade de vida encontra-se numa fase de construção de identidade. Ora 
identificam-na em relação à saúde, ora à moradia, ao lazer, aos hábitos de 
atividade física e alimentação, mas o fato é que essa forma de saber afirma 
que todos esses fatores levam a uma percepção positiva de bem-estar. A 
compreensão sobre qualidade de vida lida com inúmeros campos do 
conhecimento humano, biológico, social, político, econômico, médico, entre 
outros, numa constante inter-relação. Por ser uma área de pesquisa recente, 
encontra-se em processo de afirmação de fronteiras e conceitos; por isso, 
definições sobre o termo são comuns, mas nem sempre concordantes. Outro 
problema de ordem semântica em relação à qualidade de vida é que suas 
definições podem tanto ser amplas, tentando abarcar os inúmeros fatores que 
exercem influência, como restritas, delimitando alguma área específica. 
Analisando o termo qualidade de vida, nota-se que o emprego da 
palavra Qualidade a essa forma de percepção de mundo estabelece uma 
existência inerente a esse campo de conhecimento, independente de ser 
considerado bom ou ruim. A qualidade de vida sempre esteve entre os 
homens; remete-se ao interesse pela vida. 
Logo, é possível estabelecer que qualidade de vida não é algo a ser 
alcançado, um objeto de desejo da sociedade contemporânea que deve ser 
incorporado à vida a partir de esforço e dedicação individual. Pelo contrário, 
é uma percepção que sempre esteve e sempre estará presente na vida do ser 
humano. O fato é que, a partir desse tipo de análise, todos os sujeitos têm 
qualidade de vida, não sendo esse um elemento a ser alcançado através de 
ações embutidas no padrão de boa vida da sociedade contemporânea; porém, 
o interessante para a vida de cada um é buscar uma boa qualidade frente às 
suas possibilidades individuais de ação. 
Quanto ao valor implícito a essa percepção (bom ou ruim), é possível 
 
68 
afirmar que respeita tanto questões de ordem concreta, que exercem 
influência direta sobre as possibilidades de ação do sujeito frente à própria 
vida, como formas de percepção, ação e expectativas individuais frente a 
esses elementos. Inclusive, estabelecer se algo é bom ou ruim depende de 
diferentes referenciais ou pontos de vista. 
 
De acordo com Minayo et al. (2000, p.10), qualidade de vida é: 
 
[…] uma noção eminentemente humana, que tem sido 
aproximada ao grau de satisfação encontrado na vida 
familiar, amorosa, social e ambiental e à própria estética 
existencial. Pressupõe a capacidade de efetuar uma 
síntese cultural de todos os elementos que determinada 
sociedade considera seu padrão de conforto e bem-estar. 
O termo abrange muitos significados, que refletem 
conhecimentos, experiências e valores de indivíduos e 
coletividades que a ele se reportam em variadas épocas, 
espaços e histórias diferentes, sendo, portanto, uma 
construção social com a marca da relatividade cultural. 
 
Nota-se que essa abordagem esbarra numa compreensão social do 
termo, que considera questões subjetivas como bem-estar, satisfação nas 
relações sociais e ambientais, e a relatividade cultural. Ou seja, esse 
entendimento depende da carga de conhecimento do sujeito, do ambiente em 
que ele vive, de seu grupo de convívio, da sua sociedade e das expectativas 
próprias em relaçãoa conforto e bem-estar. 
Gonçalves e Vilarta (2004) abordam qualidade de vida pela maneira 
como as pessoas vivem, sentem e compreendem seu cotidiano, envolvendo, 
portanto, saúde, educação, transporte, moradia, trabalho e participação nas 
decisões que lhes dizem respeito. 
Essa abordagem indica, num primeiro momento, para as expectativas 
de um sujeito ou de determinada sociedade em relação ao conforto e ao bem-
estar. Isso depende das condições históricas, ambientais e socioculturais de 
 
69 
determinado grupo, ou seja, o entendimento e a percepção sobre qualidade de 
vida, nessa perspectiva, são relativos e variáveis. 
Qualidade de vida não se esgota nas condições objetivas de que 
dispõem os indivíduos, tampouco no tempo de vida que estes possam ter, mas 
no significado que dão a essas condições e à maneira com que vive. Nessa 
concepção, a percepção sobre qualidade de vida é variável em relação a 
grupos ou sujeitos. Para essa autora, o termo está relacionado ao significado 
que damos às condições objetivas da vida. 
 Para Nahas (2001, p. 5), qualidade de vida é a “condição humana 
resultante de um conjunto de parâmetros individuais e socioambientais, 
modificáveis ou não, que caracterizam as condições em que vive o ser 
humano”. 
Gonçalves (2004, p.13) define qualidade de vida como “a percepção 
subjetiva do processo de produção, circulação e consumo de bens e riquezas. 
A forma pela qual cada um de nós vive seu dia-a-dia”. 
Por fim, qualidade de vida, para a Organização Mundial da Saúde 
(OMS) (1995), é “a percepção do indivíduo de sua inserção na vida no 
contexto da cultura e sistemas de valores nos quais ele vive e em relação aos 
seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações”. 
Não é possível existir um conceito único e definitivo sobre qualidade 
de vida, mas se pode estabelecer elementos para pensar nessa noção enquanto 
fruto de indicadores ou esferas objetivas (sociais) e subjetivas, a partir da 
percepção que os sujeitos constroem em seu meio (BARBOSA, 1998). 
 Segundo Vilarta e Gonçalves (2004, p. 33), essas esferas se 
caracterizam como: 
 
 
 
 
 
70 
Objetividade das condições materiais: interessa a 
posição do indivíduo na vida e as relações estabelecidas 
nessa sociedade; 
Subjetividade: interessa o conhecimento sobre as 
condições físicas, emocionais e sociais relacionadas aos 
aspectos temporais, culturais e sociais como são 
percebidas pelo indivíduo. 
 
Pontos de vista objetivos buscam uma análise ou compreensão da 
realidade pautada em elementos quantificáveis e concretos, que podem ser 
transformados pela ação humana. A análise desses elementos considera 
fatores como alimentação, moradia, acesso à saúde, emprego, saneamento 
básico, educação, transporte, ou seja, necessidades de garantia de 
sobrevivência próprias da sociedade contemporânea. 
Essa perspectiva caracteriza a análise em qualidade de vida como 
uma busca por dados quantitativos e qualitativos que permitam traçar um 
perfil de um indivíduo ou grupo em relação ao seu acesso a bens e serviços. 
Esses dados são gerados com base em informações globais dos grupos 
estudados. A partir deles, são traçados índices estatísticos de referência sobre 
posições socioeconômicas de populações, assim como comparações entre 
objetos diferentes. Com esse tipo de tratamento, torna-se possível estabelecer 
quadros de perfis socioeconômicos para ações voltadas à melhoria da 
qualidade de vida dos sujeitos envolvidos. 
A análise de qualidade de vida sob um aspecto subjetivo também leva 
em conta questões de ordem concreta, porém, considera variáveis históricas, 
sociais, culturais e de interpretação individual sobre as condições de bens 
materiais e de serviços do sujeito. Não busca uma caracterização dos níveis 
de vida apenas sobre dados objetivos; relaciona-os com fatores subjetivos e 
emocionais, expectativas e possibilidades dos indivíduos ou grupos em 
relação às suas realizações, e a percepção que os atores têm de suas próprias 
vidas, considerando, inclusive, questões imensuráveis como prazer, 
felicidade, angústia e tristeza. 
 
71 
Quanto aos aspectos subjetivos, é preciso uma caracterização prévia 
do ambiente histórico-social em que vive o grupo ou sujeito para uma análise 
sobre seus níveis de qualidade de vida. Lembrando que o estabelecimento 
desses níveis se dá de forma relativa às necessidades, expectativas e 
percepções individuais. 
 Relacionando as definições de qualidade de vida apresentadas com 
as duas esferas em que circula essa área de conhecimento, podese observar 
que, embora os autores citados apresentem prevalências individuais de 
análise quanto a elementos objetivos ou subjetivos, não é possível isolá-los 
em suas definições. 
Há uma relação íntima entre aspectos objetivos e subjetivos a respeito 
desse tema: “nenhuma análise sobre qualidade de vida individual poderá ser 
desenvolvida sem uma contextualização na qualidade de vida coletiva” 
(TUBINO, 2002, p. 263). Do mesmo modo, a definição de qualidade de vida 
da OMS, por exemplo, contempla as concepções de subjetividade do 
indivíduo e de objetividade das condições materiais (VILARTA e 
GONÇALVES, 2004). 
 
Qualidade de vida e atividade física 
 
Em relação aos hábitos individuais e estilos de vida dos sujeitos, a 
esfera subjetiva de cuidados à saúde diz respeito ao impacto dos costumes 
cotidianos do indivíduo perante sua vida. Entre os comportamentos 
considerados saudáveis na sociedade contemporânea, Vilarta e Gonçalves 
(2004, p. 47) destacam: 
Adotar hábitos alimentares que respeitem as 
necessidades biológicas de regularidade de ingestão de 
nutrientes (distribuir a quantidade total de alimentos 
ingeridos em várias refeições ao longo do dia); Respeitar 
as necessidades específicas de nutrientes para cada etapa 
da vida (considerar as demandas por vitaminas, 
 
72 
minerais, água, carboidratos, lipídeos, ou proteínas de 
acordo com o estado fisiológico, por exemplo, 
adolescentes, gestantes, atletas e crianças); Praticar 
atividade física apropriada à própria condição fisiológica 
e com regularidade; 
Controlar o estresse físico e emocional com técnicas 
específicas às expectativas e os objetivos de cada pessoa; 
Envolver-se em ações comunitárias estabelecendo laços 
de apoio e convívio familiar e social; 
 Dedicar-se ao lazer não-sedentário, baseado em ações 
que envolvam atividade esportiva, hobbies ou trabalho 
voluntário. 
 
 Nota-se que, dentre as ações listadas, pode-se observar aspectos 
voltados à alimentação, aos relacionamentos sociais e às práticas sistemáticas 
de atividade física. Como o foco desse trabalho reside nas relações entre a 
prática esportiva e a qualidade de vida, faz-se de fundamental importância 
uma reflexão sobre o impacto desse tipo de atividade na percepção humana, 
assim como os aspectos sociais envolvidos nessa prática. Porém, não se pode 
ignorar o fato de que a adoção de hábitos saudáveis depende da atitude e da 
adequação do sujeito a uma rotina apropriada, desde que suas condições de 
vida proporcionem sua opção de escolha. Por exemplo, é utópico falar em 
prática periódica e frequente de atividade física sistematizada para um sujeito 
que mal consegue realizar três refeições diárias e não tem acesso a bons 
sistemas de atenção à saúde clínica. A adoção de um estilo de vida tido como 
saudável depende de acesso à informação, às oportunidades para prática de 
atividade física e aos hábitos positivos, ao apoio socioeconômico e à atitude 
para mudança de comportamento (NAHAS, 2001). 
A atividade física é colocada na sociedade contemporânea como uma 
ponte segura paramelhores situações de saúde. É uma função bastante ampla, 
atribuída a um único conceito, sintetizando a abrangência das inúmeras 
consequências do mesmo sobre o organismo humano. Porém, esse termo é 
utilizado de maneira generalizante, pois é possível que seja direcionado ao 
controle do estresse, assim como uma prática antissedentária, e também para 
 
73 
fins estéticos ou de melhora de performance atlética (LOVISOLO, 2002). 
 Com o intuito de apresentar uma definição acerca do termo atividade 
física, apresenta-se três opções, sendo que duas apontam para um sentido 
semântico de qualquer prática corporal que gaste mais energia do que o estado 
de repouso (NAHAS, 2001 e CARVALHO, 2001), enquanto uma terceira 
estabelece a necessidade de racionalização e sistematização da prática 
(LOVISOLO, 2002). 
O termo atividade física carrega toda e qualquer ação 
humana que comporte a ideia de trabalho como conceito 
físico. Realiza-se trabalho quando existe gasto de 
energia. Esse gasto ocorre quando o indivíduo se 
movimenta. Tudo que é movimento humano, desde fazer 
sexo até caminhar no parque, é atividade física 
(CARVALHO, 2001, p. 69). 
 
É uma característica humana que representa qualquer movimento 
corporal produzido pela musculatura esquelética, que resulte num gasto 
energético acima dos níveis de repouso. Inclui atividades da vida diária, do 
trabalho e do lazer” (NAHAS, 2001, p. 30). 
“A atividade física refere-se a motivos e intenções de movimento ou 
conservação das capacidades físicas, e implica um plano de ações 
racionalizadas ou sistematizadas [...] controlada e corrigida por especialistas” 
(LOVISOLO, 2002, p. 281). 
Para esse trabalho, serão adotadas como significado de atividade 
física as duas primeiras definições, que expressam nesse termo o movimentar-
se humano. Dessa forma, é possível que, ao abordar esse tipo de prática, sejam 
englobados desde a realização de trabalhos cotidianos, quanto de atividades 
planificadas, sistematizadas e a prática esportiva. Essa opção se dá com o 
intuito de apontar a necessidade de, ao realizer reflexões sobre atividade 
física, especificar o tipo de prática a qual se faz menção, como por exemplo, 
atividade física moderada como prática antissedentária, ou atividade física 
ligada ao treinamento esportivo. 
 
74 
Por outro lado, embora adote uma concepção diferenciada de 
atividade física, as reflexões de Lovisolo (2002) denunciam a existência de 
mitos ou crenças ligadas à atividade física e saúde. Para a abordagem 
realizada sobre o trabalho desse autor, seu conceito de atividade física (mais 
específico do que os de Carvalho e Nahas) não se coloca como um empecilho 
ou como fator de incompatibilidade teórica, visto que essa conceituação se 
encaixa na esfera de abrangência da definição de atividade física adotada, 
pois se caracteriza como uma das possibilidades de entendimento sobre o 
termo em questão (atividade física de forma sistematizada). 
Carvalho (2001) também denuncia a existência de um mito na 
sociedade contemporânea, que associa atividade física com saúde, promovido 
especialmente pelos meios de comunicação. Nesse contexto, a ideia de que 
atividade física está diretamente relacionada com uma boa saúde é 
literalmente vendida, segundo a autora, como uma prática generalizante e que 
cultua estereótipos de boa forma física e saúde. Essa ideia pode ser até 
comprovada por métodos científicos; porém, é preciso considerar esse 
elemento função coadjuvante nesse processo, pois, como já descrito nesse 
trabalho, a saúde é um complexo de vários componentes que interagem e 
exercem influência sobre o resultado final. 
Faz-se necessária certa reflexão (LOVISOLO, 2002): Qualquer tipo 
de atividade física é benéfico para a manutenção da saúde? A mesma forma 
de atividade física serve tanto para diminuir o estresse quanto para 
proporcionar melhoria de performance atlética? A simples ausência de 
sedentarismo garante um bom quadro de saúde? 
Inicialmente, torna-se necessário definir os limites e as fronteiras 
sobre sedentarismo. Nahas (2001) classifica que um sujeito sedentário é o que 
não produz gasto energético mínimo de 500 Kcal/semana, ou seja, que não 
pratica atividade física por 30 minutos, cinco vezes por semana. Essa 
definição, baseada em gasto energético ou periodicidade da prática, se faz um 
 
75 
tanto quanto genérica, pois conforme o próprio autor salienta, ao adotar essa 
concepção é preciso não ignorar as ações corporais dos sujeitos em seu dia-
a-dia, inclusive em momento de trabalho. 
Ao considerar tais realizações, estabelece-se que qualquer forma de 
movimento corporal é benéfica para a saúde, desde que compreenda 30 
minutos do dia do sujeito. Isso pode ser considerado um equívoco, pois 
existem diversas práticas de atividade física, desde caminhadas leves, até 
trabalhos com peso ou um treinamento intenso de um triatleta, com efeitos 
diversos sobre o organismo, assim como seu benefício ou malefício à saúde 
(LOVISOLO, 2002). 
Ao levar em consideração a multiplicidade de formas de atividade 
física e suas consequências para o bem-estar do sujeito, para a manutenção 
ou melhoria dos quadros de saúde, é necessário que essa prática esteja 
adequada às condições e expectativas individuais, assim como ao local, aos 
processos e ao ambiente em que ocorre. Por isso, a concepção de 
antissedentarismo, que orienta para que o indivíduo se movimente 
independente da forma de atividade, aponta para um passo inicial para 
campanhas pró-atividade física, mas não é o trabalho suficiente. O ideal, para 
um estilo de vida tido como saudável, seria a adoção de práticas de atividade 
física sistematizada, considerando toda a condição de vida e saúde do sujeito. 
Porém, como nem tudo acontece próximo do ideal, o que se observa é uma 
realidade pautada pelo acesso um tanto quanto restrito dessa forma de prática 
a algumas camadas da sociedade, devido a critérios socioeconômicos. Por 
isso, a questão do sedentarismo apresenta um quadro no qual a ideia de 
movimentar-se, independente da forma e processos adotados, tem certa 
validade e impacto positivo sobre a saúde dos sujeitos, incorporando, 
infelizmente, o sentimento de que é melhor isso do que nada. 
Por outro lado, Lovisolo (2002) atenta para o fato de que classes 
socialmente privilegiadas também apresentam altos índices de sedentarismo, 
 
76 
mesmo com a divulgação de que um estilo de vida saudável e as condições 
de saúde são diretamente dependentes da prática de atividade física. O autor 
aponta para uma tese ligada ao aumento do avanço tecnológico, que, por um 
lado, é benéfico à qualidade de vida dos sujeitos, facilitando a comunicação 
e tornando a vida mais ágil e segura, mas que privilegia a substituição do 
esforço humano pelo da máquina. Essa ideia é compartilhada por outros 
autores, que denunciam um menor uso da força humana no decorrer do tempo 
na sociedade contemporânea. 
Avanços tecnológicos apresentam uma relação ambígua frente à 
prática cotidiana de atividade física na sociedade contemporânea. Podem 
tanto ser um fator de estímulo à inatividade (com inovações que facilitam 
atividades do dia-a-dia, demandando esforço físico, divulgação e criação de 
formas de consumo do lazer sedentário), como também a manutenção de um 
estilo de vida ativo para praticantes já engajados nesse hábito, com produtos 
ligados à melhoria de condições de prática. 
 
Nesse aspecto, nota-se um filão de mercado que visa 
desde desenvolver produtos que melhorem as condições 
de prática (como isotônicos ou calçados apropriados), 
até artigos que criam novas atividades (bicicletas para 
ciclismo indoor). De todaforma, os avanços 
tecnológicos estabelecem aos consumidores praticantes 
algumas novas necessidades, como roupas com tecidos 
especiais ou materiais que prometem melhora de 
performance, que, se utilizados de forma adequada, e 
com consciência de que não é o produto que promove a 
prática, mas sim o sujeito, podem colaborar para manter 
o interesse e a inserção desse hábito presente no estilo de 
vida, o que pode ser favorável à qualidade de vida 
(MARQUES, 2007, p. 145). 
 
A influência da tecnologia sobre os hábitos de atividade física é um dos 
inúmeros aspectos que inter-relaciona essa ação humana com qualidade de 
vida. A questão abordada numa reflexão acerca das relações entre saúde, 
atividade física e qualidade de vida não é de causalidade direta entre as partes, 
 
77 
tida como consenso na sociedade contemporânea, mas a forma, a intensidade 
e o impacto com que se estabelece essa interrelação. O foco da reflexão não 
é abordar se a atividade física colabora ou não com a melhoria dos quadros 
de saúde, mas que tipo de atividade, e em que contexto se faz positivo ou 
negativo esse processo. 
Autores como Nahas (2001) e Lovisolo (2002) salientam diferenças 
entre formas de atividade física (exercício e atividade, práticas leves e 
intensas, treinamento e prática voltada ao bem-estar), que se fazem 
importantes devido aos diferentes impactos causados pelas variadas formas 
de práticas sobre o organismo e também sobre o convívio social dos sujeitos. 
Pode-se diferenciar as formas de atividade física como ligadas a momentos 
de trabalho e não-trabalho (CARVALHO, 2001). Essa proposta estabelece 
um parâmetro para compreensão desse termo, pois especifica que, embora em 
momentos diferentes, é possível a prática de atividade física. Por outro lado, 
abre a possibilidade de interpretação para um campo em que a prática tenha 
sentido profissional, como por exemplo, atletas de alto rendimento. 
Nahas (2001, p. 33) chama atenção para uma variável que se 
relaciona com a prática de atividade física, a aptidão física, definida como “a 
capacidade que um indivíduo tem para realizar atividade física. Deriva da 
hereditariedade, estado de saúde, alimentação e prática regular de exercícios 
físicos”. 
 Pode estar relacionada à melhoria de performance, contribuindo para 
um bom desempenho em tarefas específicas, trabalho ou esporte; ou à saúde, 
lidando com prevenção de doenças e busca de maior disposição para 
atividades do dia-a-dia, exercendo influência sobre o bem-estar. Pode-se 
diferenciar formas de atividade física de acordo com o sentido dado à prática, 
significado e motivação. Dessa forma, é possível elencar duas categorias que 
podem ocorrer tanto em momentos de trabalho como de não-trabalho do 
sujeito praticante, e acabam por influenciar a aptidão física do sujeito, de 
 
78 
forma voluntária ou involuntária: 
a.) Atividade física ligada à incorporação ao estilo de vida: Práticas 
sem o intuito de alcançar os limites de alto rendimento físico do organismo, 
privilegiando o antissedentarismo, o prazer pela prática e a socialização. 
Podem ou não ser sistematizadas, embora não excluam o sentimento de 
esforço e cansaço. 
b.) Atividade física ligada ao treinamento e melhoria de performance 
atlética: Práticas que buscam estabelecer melhores patamares de limite de 
realização de performance atlética. Ocorrem (ou pelo menos deveriam 
ocorrer) de forma sistematizada, com controle da intensidade, buscando 
segurança e bem-estar do sujeito. Nessa categoria, são englobadas situações 
de treinamento esportivo, estético, com auxílio de controle das variáveis do 
treino e efeitos deste sobre o organismo. 
Os diferentes tipos de atividade física apontados nessa divisão 
caracterizam uma heterogeneidade perante o sentido e os efeitos de sua 
prática, mas, de toda forma, lidam com a melhoria do bem-estar do sujeito. 
Esse quadro fundamenta o risco de generalizar afirmações referentes à 
relação atividade física e saúde, pois, por exemplo, atividades voltadas à 
melhoria de performance, visando um trabalho físico próximo do patamar de 
limite de realização do sujeito, não se fazem interessantes para um indivíduo 
sedentário iniciante em atividade física, podendo até gerar um impacto 
negativo sobre sua saúde (NAHAS, 2001; WEINECK, 2003). 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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REFERENCIA BIBLIOGRAFICA 
 
ALMEIDA, Marcos Antonio Bettine de. GUTIERREZ, Gustavo Luis. 
MARQUES, Renato: Qualidade de vida: definição, conceitos e interfaces 
com outras áreas, de pesquisa / Marcos Antonio Bettine de Almeida, : 
prefácio do professor Luiz Gonzaga Godoi Trigo. – São Paulo: Escola de 
Artes, Ciências e Humanidades – EACH/USP, 2012. Disponovel em: 
http://each.uspnet.usp.br/edicoes-each/qualidade_vida.pdf

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