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APOSTILA 1 SEMESTRE Cultura e Sociedade 2016 apostila Carlos Roberto (1) pdf

Plano de ensino da disciplina Cultura e Sociedade (UNIPAM): ementa e objetivos; conteúdo com temas como trabalho, cultura, conhecimento, ética, mídias, globalização, Geração Y, ecologia, gênero e violência; atividades práticas, metodologia e critérios de avaliação.

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1 
 
 
 
 
CENTRO UNIVERSITÁRIO DE PATOS DE MINAS - UNIPAM 
 
 
CURSO – 
ANO LETIVO PERÍODO CARGA HORÁRIA SEMANAL 
2016 1º 4 h/a 
Identificação da Disciplina: CULTURA E SOCIEDADE 
Professor: Carlos Roberto Silva 
 
 
 
Ementa 
Estudo de temas clássicos e contemporâneos essenciais para o entendimento da configuração do mundo 
atual nas perspectivas histórica, antropológica, sociológica e filosófica. Conhecimento dos aspectos 
caracterizadores da formação étnico-racial e cultural da sociedade brasileira. 
 
Objetivos gerais 
Desenvolver a capacidade de reflexão crítica por meio da discussão e da análise dos principais temas 
relacionados às áreas do saber histórico, filosófico, antropológico e sociológico. 
 
Objetivos específicos 
- Compreender o processo de constituição da cultura ocidental a partir das matrizes da antiguidade 
clássica greco-romana. 
- Analisar a geopolítica contemporânea, a partir das relações do Brasil com o mercado internacional. 
- Reconhecer aspectos relevantes da cultura contemporânea para a formação profissional. 
- Estimular a leitura, a interpretação e a produção de textos relacionados às áreas do conhecimento 
humanístico. 
- Estabelecer relações, comparações e contrastes em diferentes situações. 
- Compreender os aspectos caracterizadores da formação étnico-racial e cultural brasileira. 
 
 
 
 
 
 
2 
 
Conteúdos do plano de ensino 
1 Trabalho, mercado e responsabilidade social 
1.1 Educação e Sociedade do Conhecimento na pós-modernidade PAG. 05 
1.2 Relações de trabalho e o perfil do profissional no século XXI 
1.3 Empreendedorismo e inovação 
1.4 Responsabilidade social: setor público, privado e terceiro setor 
 
2 O homem e a cultura PAG. 22 
3.1 O homem: ser biológico e cultural 
3.2 A cultura: definições, cultura popular e cultura erudita 
3.3 Multiculturalismo, relações étnico-raciais, história e cultura afro-brasileira e indígena 
3.4 Indústria Cultural 
 
3 O conhecimento em seus diversos aspectos PAG. 35 
3.1 Tipos de conhecimento (religioso, popular, filosófico e científico) 
3.2 Senso comum x conhecimento científico 
3.3 Ciências exatas / ciências humanas 
3.4 Método científico 
 
4 Ética e Ideologia PAG. 41 
4.1 Moral e ética 
4.2 Ética geral e profissional 
4.3 Democracia, ética e cidadania 
4.4 Ideologia 
 
5 Meios de comunicação de massa, tecnologia e novas mídias PAG. 55 
5.1 Os meios de comunicação de massa e suas características 
5.2 As velhas e novas mídias 
5.3 Comunicação e tecnologia de informação 
5.4 Mídia e sociedade de consumo 
 
6 Reestruturação Produtiva e geopolítica PAG. 69 
6.1 Reestruturação produtiva e toyotismo 
6.2 Globalização e Neoliberalismo 
6.3 A globalização e a crise financeira mundial 
6.4 Reflexos político-institucionais, econômicos e sociais da globalização no Brasil 
 
7 Geração Y PAG. 88 
7.1 Novas tecnologias e a nova geração de trabalhadores do conhecimento (Y) 
7.2 Contexto histórico do nascimento das gerações Baby Boomers, X, Y e Z 
7.3 O que a Geração Y quer e precisa no trabalho 
7.4 Estratégias e programas para gerenciar a geração Y 
 
8 Ecologia e Biodiversidade PAG. 95 
8.1 Natureza e sociedade como espaço de cidadania 
8.2 O movimento ecológico e políticas públicas 
8.3 Desenvolvimento, sustentabilidade social e ambiental 
8.4 Catástrofes ambientais e sociedade 
3 
 
9 Relações sociais de gênero PAG. 107 
9.1 Configurações de gênero na sociedade atual 
9.2 Machismo e sexismo 
9.3 Feminismo 
9.4 Desigualdade e discriminação da mulher na cultura e na sociedade brasileira. 
 
10 Violência urbana e rural PAG. 117 
10.1 Origens da violência 
10.2 Discurso midiático e a violência 
10.3 Políticas públicas e violência 
10.4 Movimentos Sociais 
 
 
Atividades práticas supervisionadas 
Os discentes farão leituras de ensaios científicos e artigos de revistas selecionados pelo 
professor e assistirão a filmes, cuja abordagem se refira à disciplina, com a finalidade de 
reconhecer, interpretar e analisar os apontamentos teóricos analisados nas aulas. Além disso, 
serão realizados trabalhos e exercícios. 
 
Metodologia 
Pretende-se, mediante fundamentação teórica e recortes da realidade, compreender e criticar as 
transformações engendradas pelo homem na sociedade. As aulas serão desenvolvidas sob a 
forma de exposições dialogadas, seminários, análises de textos e filmes. 
 
Recursos didáticos 
Quadro, datashow, filmes e livros e textos das obras indicadas na referência bibliográfica. 
 
Avaliação 
Durante o semestre letivo, a nota do discente na disciplina será composta pelos seguintes 
indicadores avaliativos: 
a) Quarenta pontos distribuídos pelo docente da disciplina, em exercícios, trabalhos e provas. 
b)Vinte pontos distribuídos no Projeto Integrador. 
c) Vinte pontos da Avaliação Colegiada. 
d) Vinte pontos da Avaliação Integradora (AVIN) 
Considerar-se-ão dois critérios, que não se excluem, para a aprovação na disciplina, a saber: 
a) Mínimo de sessenta pontos de aproveitamento, conforme nota global da disciplina. 
b) Mínimo de setenta e cinco por cento de frequência na disciplina. 
 
4 
 
Referência bibliográfica básica 
 
ARON, R. As etapas do pensamento sociológico. 7. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2008. 
BRASIL. Ministério da Educação e Cultura. Lei nº 11.465, de março de 2008. Altera a Lei nº 
9.394, de 20 de dezembro de 1996, modificada pela Lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003, ... 
a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena”. Brasília: 
SEPPIR/SECAD/INEP, 2005. Disponível em: < 
http://www.iteral.al.gov.br/legislacao/http___www.iteral.al.gov.br_legsilacao_Lei-2011.465_-
20de-202008.pdf/view>. Acesso em: 18 jul. 2014. 
CHAUÍ, M. Convite à filosofia. 14. ed. São Paulo: Ática, 2011. 
LARAIA, R. de B. Cultura: um conceito antropológico. 24. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2009. 
 
Referência bibliográfica complementar 
 
ANTUNES, Ricardo. Os sentidos do trabalho: ensaio sobre a afirmação e a negação do 
trabalho. 5. ed. São Paulo: Boitempo, 2009. 
ARANHA, M. L. de A. Filosofando: introdução à filosofia. 4. ed. São Paulo: Moderna, 2009. 
BRASIL. Ministério da Educação e Cultura. Diretrizes Curriculares Nacionais para a 
Educação das Relações Étnico-Raciais e para o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira 
e Africana. Brasília: SEPPIR/SECAD/INEP, 2005. Disponível em: 
<http://www.sinpro.org.br/arquivos/afro/diretrizes_relacoes_etnico-raciais.pdf>. Acesso em: 
14 jul. 2014. 
BRASIL. Lei nº 10.639, de 09 de janeiro de 2003. Altera a Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 
1996. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil. Brasília, DF, 09 jan. 2003. 
Disponível em:<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/l10.639.htm>. Acesso em: 14 
jul. 2014. 
CARVALHO, J. Murilo de. Cidadania no Brasil: o longo caminho. 14. ed. Rio de Janeiro: 
Civilização Brasileira, 2011. 
COLEÇÃO. Os Pensadores. 5. ed. São Paulo: Nova Cultura, 1991. 
DE MASI, Domenico. A sociedade pós-industrial. 4. ed. São Paulo: Senac, 2003. 
NILO, Odália. O que é violência. São Paulo: Brasiliense, 1983. 
SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. 
22. ed. Rio de Janeiro: Record, 2012. 
VALLS, A. L. O que é ética. 9. ed. São Paulo: Brasiliense, 1994. 
5 
 
CULTURA E SOCIEDADE – textos 
adaptados 
 
1º texto: Trabalho, mercado e 
responsabilidade social 
 
Trabalho: Atividade Humana 
 
O que é o trabalho? Como podemosdefinir essa atividade? O trabalho, segundo o 
pensador Karl Marx, coloca frente a frente o 
homem e a natureza, ou seja, o trabalho é uma 
atividade que medeia à relação homem e 
natureza por ser uma prática que aproxima um 
do outro, provocando transformações materiais 
e espirituais. 
 
O trabalho para além da transformação 
da natureza, esse algo é o planejamento, a pré-
ideação, em outras palavras, o ser humano 
constrói seu objeto - tendo por base o mundo 
material - primeiro na sua mente, isto é, cria a 
ideia do objeto, planeja como construí-lo e 
depois materializa sua ideia, executa a 
atividade prática-transformadora da natureza 
com consciência. 
 
Essa atividade laboral também 
transforma o próprio ser que trabalha, em 
outros termos, essa atividade transforma a 
natureza e, ao mesmo tempo, transforma o 
homem, ou melhor, quando o homem produz 
objetos ele se autoproduz. 
 
 História do Trabalho 
 
 A concepção de trabalho sempre 
esteve ligada a uma perspectiva negativa. A 
palavra “trabalho” deriva etimologicamente do 
vocabulário latino tripaliare do substantivo 
tripalium, aparelho de tortura formado por três 
paus, ao qual eram atados os condenados e que 
também servia para manter presos os animais 
difíceis de ferrar. Daí a associação do trabalho 
com tortura, sofrimento, pena, labuta. 
 Na Antiguidade grega, o trabalho 
manual é desvalorizado por ser feito por 
escravos, enquanto as pessoas da elite, 
desobrigadas de se ocuparem com a própria 
subsistência, dedicam-se ao “ócio digno”, que, 
para os gregos, significa a disponibilidade de 
gozar do tempo livre e cultivar o corpo e o 
espírito. Não por acaso, a palavra grega scholé, 
da qual deriva “escola”, significava 
inicialmente “ócio”. Para Platão, por exemplo, 
a finalidade das pessoas livres é justamente a 
“contemplação das ideias”, na medida em que 
a atividade teórica é considerada mais digna, 
por representar a essência fundamental de todo 
ser racional. 
 Também a Roma escravagista 
desvaloriza o trabalho manual. É significativo 
o fato de a palavra negotium indicar a negação 
do ócio: a ênfase posta no trabalho como 
“ausência de lazer” o distingue do ócio, 
prerrogativa das pessoas livres. 
 Na Idade Média, Santo Tomás de 
Aquino procura reabilitar o trabalho manual, 
dizendo que todos os trabalhos se equivalem, 
mas, na verdade, a própria construção teórica 
de seu pensamento calcada na tradição grega, 
tende a valorizar a atividade contemplativa. 
Muitos textos medievais consideram a ars 
mechanica (arte mecânica ou trabalho 
mecânico) uma ars inferior. 
 Na Idade Moderna, a situação 
começa a se alterar: o crescente interesse pelo 
trabalho justifica-se pela ascensão dos 
burgueses, vindos de segmentos de antigos 
servos, acostumados ao trabalho manual, que 
compram sua liberdade e dedicam-se ao 
comércio. 
 A burguesia nascente procura novos 
mercados, estimulando as navegações. No 
século XV os grandes empreendimentos 
marítimos culminam com a descoberta de 
outro caminho para as Índias e das terras do 
Novo Mundo. O interesse prático em dominar 
o tempo e o espaço faz com que sejam 
aprimorados os relógios e a bússola. Com o 
aperfeiçoamento da tinta e do papel e a 
descoberta dos tipos móveis, Gutenberg 
inventa a imprensa. Todas essas mudanças 
indicam a expectativa com relação a novas 
formas do agir e do pensar humanos, às quais 
se acrescentam, no século seguinte, s 
revoluções do comércio e da ciência. 
 Como se vê, está ocorrendo uma 
mudança de enfoque na relação entre o pensar 
e o fazer. Enquanto na Idade Média uma 
hierarquia privilegia o saber contemplativo em 
detrimento da prática, no Renascimento e na 
Idade Moderna dá-se a valorização da técnica, 
da experimentação, do conhecimento 
alcançado por meio da prática. 
 
 
Nascimento das fábricas 
6 
 
 
 Na passagem do feudalismo para o 
capitalismo, ocorrem marcantes 
transformações na vida social e econômica, 
como o aperfeiçoamento das técnicas e a 
ampliação dos mercados. O capital acumulado 
torna possível a compra de matérias-primas e 
de máquinas, obrigando muitas famílias, que 
desenvolviam o trabalho doméstico nas antigas 
corporações e manufaturas, a disporem de seus 
instrumentos de trabalho e, para sobreviver, a 
venderem sua força de trabalho em troca de 
salário. 
 Com o aumento da produção, 
aparecem os primeiros barracões das futuras 
fábricas, onde os trabalhadores são submetidos 
a uma nova ordem, a da divisão do trabalho 
com ritmo e horários preestabelecidos. O fruto 
do trabalho deixa de pertencer aos 
trabalhadores e a sua produção passa a ser 
vendida pelo empresário, que retém os lucros. 
Está ocorrendo o nascimento de uma nova 
classe: o proletariado. 
 No século XVIII, a mecanização do 
setor da indústria têxtil sofre impulso 
extraordinário na Inglaterra, como 
aparecimento da máquina a vapor, que 
aumenta significativamente a produção de 
tecidos. Outros setores se desenvolvem, como 
o metalúrgico; também no campo se processa 
a revolução agrícola. 
 No século XIX, o resplendor do 
progresso não oculta a questão social, 
caracterizada pelo recrudescimento da 
exploração do proletariado e das condições 
subumanas de vida. A nova classe é submetida 
a extensas jornadas de trabalho, de dezesseis a 
dezoito horas, sem direito a férias, sem 
garantia para velhice, doença e invalidez. As 
condições de trabalho nas fábricas são 
insalubres, por serem elas escuras e sem 
higiene. 
 Embora todos sejam mal pagos, 
crianças e mulheres são arregimentadas como 
mão de obra mais barata ainda. Os 
trabalhadores moram em alojamentos 
inadequados e apertados, nos quais não se 
consegue evitar a promiscuidade. 
 Em decorrência desse estado de coisas, 
surgem no século XIX os movimentos 
socialistas e anarquistas, que denunciam a 
exploração e propõem formas para a 
modificação das relações de produção. 
 
Taylorismo e Fordismo 
 
 Nos sistemas domésticos de 
manufatura, era comum o trabalhador 
conhecer todas as etapas da produção, desde o 
projeto até a execução. A partir da inauguração 
do sistema fabril, no entanto, isso deixa de ser 
possível, devido à crescente complexidade da 
divisão do trabalho. Chamamos dicotomia 
concepção-execução do trabalho ao processo 
pelo qual um pequeno grupo de pessoas 
concebe, cria, inventa o produto, inclusive a 
maneira como vai ser produzido, enquanto 
outro grupo é obrigado à simples execução do 
trabalho, sempre parcelado, pois a cada um 
cabe apenas parte do processo. 
 Frederick Taylor (1856-1915), no 
livro Princípios de administração científica, já 
estabelecera os parâmetros do método 
científico de racionalização da produção. O 
taylorismo visa o aumento de produtividade 
com economia de tempo, supressão de gestos 
desnecessários no interior do processo 
produtivo e utilização máxima da máquina. 
 A divisão do trabalho foi intensificada 
por Henry Ford (1863-1947), que introduziu a 
linha de montagem na indústria 
automobilística, procedimento que ficou 
conhecido como fordismo. 
 
A flexibilização da produção 
 
 Com a implantação da tecnologia 
avançada da automação, da robótica, da 
microeletrônica, surgem novos padrões de 
produtividade, a partir das décadas de 1970 e 
1980. A tendência nas fábricas é de quebrar a 
rigidez do fordismo, caracterizada pela linha 
de montagem e produção em série, centrado na 
produção em massa. Destaca-se a atuação da 
fábrica de automóveis Toyota, no Japão, ao 
criar novo método degerenciamento que 
passou a ser conhecido como toyotismo. 
 Essa revolução administrativa 
adaptou-se melhor à economia global e ao 
sistema produtivo flexível, evitando a 
acumulação de estoques ao atender aos pedidos 
à medida da demanda, com planejamento a 
curto prazo. Privilegia-se agora o trabalho em 
equipe, a descentralização da iniciativa, com 
maior possibilidade de participação e decisão, 
além da necessidade da polivalência de mão de 
obra, já que o trabalhador passa a controlar 
diversas máquinas ao mesmo tempo. 
7 
 
 Além disso, como a flexibilização 
depende da demanda flutuante, algumas tarefas 
são encomendadas a empresas “terceiras” 
subcontratadas. Essa terceirização atomiza os 
empregados, antes unidos nos sindicatos, o que 
provocou seu enfraquecimento no final da 
década de 1980, repercutindo negativamente 
na capacidade de reivindicação de novos 
direitos e manutenção das conquistas 
realizadas. Os temores mais frequentes dessa 
nova geração de trabalhadores da era da 
automação são o desemprego e o excesso de 
trabalho decorrente do “enxugamento” 
realizado pelas empresas em processo de 
“racionalização” de atribuição de tarefas. 
 
A sociedade pós-industrial 
 
 A partir de meados do século XX, 
surge o que chamamos de sociedade pós-
industrial, caracterizada pela ampliação dos 
serviços (setor terciário). Isso não significa que 
os outros setores tenham perdido importância, 
mas que as atividades agrícolas e industriais 
também dependem do desenvolvimento de 
técnicas de informação e comunicação. 
 A mudança de enfoque descentraliza a 
atenção, antes voltada para a produção 
(capitalista versus operário), e orientando-se 
agora para a informação e o consumo. A 
atividade da maioria dos trabalhadores se 
encontra nos escritórios, ampliada por uma 
comunicação ágil, instantânea, veiculada em 
âmbito mundial pela expansão da Internet. 
 Desde as décadas de 1980 e 1990, 
outra tentativa em direção à ética e à qualidade 
de vida está na efetiva ampliação das empresas 
do terceiro setor, assim chamadas por não 
serem gestadas nem pelo setor governamental 
(o Estado) nem pelo mercado econômico, que 
visa lucros. Trata-se das organizações não 
governamentais (ONGs) que representam uma 
forma de atuação privada, mas com funções 
públicas e sem fins lucrativos. Tais instituições 
ocupam-se de atendimento de causas coletivas 
e sobrevivem de doações, que são aplicadas 
nas atividades-fim e no pagamento dos 
especialistas contratados. 
 
I - Educação e Sociedade do Conhecimento 
 
Inovação no contexto da Sociedade do 
Conhecimento 
 
1. Introdução 
Na sociedade do conhecimento, o elemento 
diferenciador na atividade produtiva é o 
próprio conhecimento, sendo que as matérias 
primas passam a ter uma conotação 
secundária. Nessa sociedade produziram-se 
também outras grandes mudanças nos âmbitos 
social, econômico e produtivo. Entre elas, a 
mudança no modo de comunicação, derivada 
do surgimento da internet e das tecnologias de 
digitalização de documentos. A comunicação 
passa a ser processada de “muitos para 
muitos", facilitando a disseminação de 
informações e a socialização do conhecimento. 
Fortes investimentos em pesquisa e 
desenvolvimento feitos pelas organizações e 
promovidos geralmente pelos governos dos 
países desenvolvidos, e o intercâmbio de 
fluxos de informação entre países além de bens 
e capitais, entre outros, são fatores 
preponderantes nessa nova sociedade. 
Todos esses fatores dão suporte e facilitam a 
criação de conhecimento, o bem mais 
apreciado nesta época. A inovação é vista 
como uma vantagem competitiva pelas 
organizações e, consequentemente, 
investimentos em pesquisa e desenvolvimento 
de produtos são realizados, para se criar 
conhecimento, o principal insumo do processo 
inovativo. 
A inovação é entendida no contexto da 
sociedade do conhecimento, identificando sua 
relação com o conhecimento, as novas 
tendências empresariais frente a ela, e os novos 
papéis que os governos têm para fomentar esse 
processo. 
2. A Sociedade do Conhecimento 
A sociedade do conhecimento é 
compreendida como aquela na qual o 
conhecimento é o principal fator estratégico 
de riqueza e poder, tanto para as organizações 
quanto para os países. Nessa nova sociedade, a 
inovação tecnológica ou novo conhecimento, 
passa a ser um fator importante para a 
produtividade e para o desenvolvimento 
econômico dos países. 
8 
 
A sociedade de conhecimento é então 
posterior à sociedade industrial moderna, na 
qual matérias primas e o capital eram 
considerados como o principal fator de 
produção. Essa nova sociedade é 
impulsionada também por contínuas 
mudanças, algumas tecnológicas como a 
Internet e a digitalização, e outras econômico-
sociais como a globalização. 
2.1. Características da sociedade do 
conhecimento 
 
Quando se observa a sociedade pelo prisma 
histórico percebe-se, que do ponto de vista 
econômico, pode-se visualizar várias fases tais 
como: da sociedade agrícola, na qual a terra e 
a mão de obra foram os fatores preponderantes 
para determinar o nível de desenvolvimento; 
sociedade industrial, na qual o capital e o 
trabalho passam a ser forças motrizes do 
desenvolvimento econômico e na sociedade 
do conhecimento, na qual o conhecimento 
passa a ser o fator essencial do processo de 
produção, geração de riquezas e 
desenvolvimento dos países. O conhecimento 
se tornou a principal força produtiva, os 
produtos da atividade social não são mais 
produtos de trabalho cristalizado, mas de 
conhecimento cristalizado. O valor de troca 
das mercadorias não é determinado pela 
quantidade de trabalho social nelas contidas, 
mas pelo conteúdo de conhecimento, de 
informações e de inteligências gerais. Assim, o 
capital humano passa a fazer parte do capital 
da empresa, os trabalhadores pós-fordistas 
entram no processo de produção com toda a 
sua bagagem cultural. 
 
Assim, entre as principais características da 
sociedade do conhecimento, encontram-se as 
seguintes: 
 
A - Os produtos são valorados pelo 
conhecimento neles embutido. Assim, o 
poderio econômico das organizações e dos 
países está diretamente relacionado ao fator 
conhecimento. 
B - A pesquisa científica tornou-se 
fundamental para o desenvolvimento dos 
países. 
C - A criação de conhecimento 
organizacional tornou-se um fator estratégico 
chave para as organizações, sendo fonte de 
inovação e vantagem competitiva. 
D - O conhecimento, a comunicação, os 
sistemas e usos da linguagem tornaram-se 
objetos de pesquisa científica e tecnológica, 
sendo o estado um agente estratégico para o 
desenvolvimento científico. 
E - Os fluxos de informação e conhecimento 
entre países são acrescentados aos fluxos de 
capital e de bens já existentes, tornando-se uma 
economia transnacional. 
F - Ocorreu uma mudança no paradigma de 
comunicação, a lógica comunicacional de “um 
para muitos" foi substituída pela de “muitos 
para muitos", impulsionado pelo surgimento 
da Internet como meio de disseminação de 
informações e pelas novas tecnologias 
motivadas pela digitalização de documentos. 
 
O declínio do peso e valor das matérias primas 
usadas nos produtos industriais finais, em 
favor do aumento em valor e quantidade do 
componente do conhecimento é claramente 
observado na atualidade, por exemplo, na 
indústria automotriz, na qual um automóvel 
pode ter um custo de até US$ 300,000,00, não 
pela manufatura das suas partes ou amontagem dele, mas pelo conhecimento 
envolvido nele, tangível nos sistemas de 
computador de última tecnologia que o carro 
traz para melhorar o seu o conforto e a sua 
segurança. 
Outro ponto importante refere-se à mudança 
do conceito de obsolescência. Na sociedade 
moderna a obsolescência era determinada 
pelo fato de que se faziam produtos com menor 
vida útil para incrementar a produção. Na 
sociedade do conhecimento, a própria 
inovação gera a obsolescência, novos 
produtos, novas máquinas e novas formas de 
produção eliminam os bens antigos, originando 
uma rápida substituição de bens finais e das 
máquinas utilizadas para a sua produção. 
Identifica-se assim, um conjunto de fatos 
sociais relacionando-os com a sociedade do 
conhecimento, algumas deles também 
discutidos por outros autores, embora com 
visões distintas. Entre estes fatos indica a 
entrada da mulher no mundo do trabalho, a 
ampliação da exclusão, o enfraquecimento do 
Estado pela globalização. Para alguns autores, 
na sociedade do conhecimento, a informação 
9 
 
sobre ciência e tecnologia é transmitida 
imediatamente produzindo uma 
democratização do conhecimento. Mattelart 
não concorda com essa ideia, alegando que 
‘monopólios de informação' são produzidos 
pelas desigualdades na velocidade das 
comunicações, constituindo ao mesmo tempo 
um instrumento e o resultado da dominação 
política. Além disso, na experiência atual, 
observa-se que mesmo que o conhecimento 
possa ser disseminado ou transmitido 
facilmente, rapidamente e ainda a baixo custo, 
precisa-se de uma base já existente de 
conhecimento e experiência por parte das 
pessoas, para estas possam estar capacitadas 
em receber aquele conhecimento. Nos países 
subdesenvolvidos, grande para da população 
não tem um nível de letramento adequado, nem 
uma base de conhecimento capaz de assimilar 
o conhecimento inovador. Portanto, no curto 
prazo, a democratização do conhecimento é 
quase impossível nesse aspecto. 
Na sociedade do conhecimento, o sociólogo 
Bauman indica que a informação flui de um 
modo mais rápido independentemente dos seus 
portadores, fenômeno que ele chama de 
“liberação dos corpos". Este fenômeno produz 
tanto emancipação nos países desenvolvidos 
com capacidades tecnológicas adequadas, 
quanto confinamento nos países pobres. Com a 
mudança no modo de comunicação, que a 
sociedade do conhecimento trouxe consigo e 
que constitui uma mudança de paradigma, 
desenvolveram-se novas formas de se 
comunicar, de disseminar informação, de criar 
conhecimento, e inclusive houve um grande 
impacto sobre outras áreas. 
A mudança é explicada desta forma. Os meios 
de comunicação tradicionais como o rádio, a 
televisão e a imprensa, funcionam conforme 
um modelo de comunicação de “um para 
muitos", tendo com uma hierarquia bem 
definida de emissor-receptor. A Internet surge 
e por meio dela um novo modelo de 
comunicação, de “muitos para muitos", no 
qual os atores do processo de comunicação não 
têm um papel fixo, podendo ser ao mesmo 
tempo produtores e receptores de informação. 
Para Lévy, “a comunicação interativa e 
coletiva é a principal atração do ciberespaço", 
mas evidentemente, segundo ao autor, o 
ciberespaço também pode ser usado para 
comunicações ponto a ponto, ou que 
reproduzam o modo mídia com a emissão de 
informações a partir de um centro. 
Para Lévy quanto maior a interconexão de 
computadores, maior será o potencial de 
inteligência coletiva à disposição em tempo 
real. Assim, considerando a mudança do 
paradigma de comunicação e a capacidade de 
colocar na Internet todos os documentos / 
informações digitalizadas do planeta, a world 
wide web, constitui segundo Lévy, a maior 
revolução na história da escrita depois da 
invenção imprensa. 
Com relação às consequências desse nesse 
novo meta-meio comunicacional, Lévy afirma 
que a Internet ao possibilitar o entrelaçamento 
de múltiplos fluxos, torna-se um centro virtual 
e um poderoso instrumento de poder. Outra 
consequência fundamental da internet é a 
eliminação dos limites geográficos no 
acesso/produção/disseminação da informação. 
Os novos limites agora são impostos pelo 
excesso de informação. Dentro do âmbito 
social, observa-se que a exclusão é o grande 
risco do ciberespaço, sendo que as pessoas com 
menor capacidade de acesso às novas 
tecnologias vão ter uma menor capacidade de 
se desenvolver e de produzir conhecimento e 
riqueza. 
No âmbito social pode-se ressaltar mais uma 
vantagem importante: o fim do processo de 
intermediação. Agora o espaço público de 
comunicação está livre de intermediários 
institucionais ou políticos, para se publicar um 
texto na internet não é preciso ter o aval de um 
editor ou de um processo a priori de avaliação. 
As consequências políticas e culturais dessa 
desintermediação ainda não se podem avaliar. 
A publicação na Internet possibilita que o 
compartilhamento da informação seja imediato 
e, ainda, proporciona maior disponibilidade em 
termos geográficos e temporais, significando 
que a informação pode ser acessada de 
qualquer ponto da rede e em qualquer 
momento. 
Por outro lado, já no âmbito empresarial, as 
informações colocadas na Internet, 
devidamente filtradas, constituem uma das 
fontes de informação para processos 
empresariais de inteligência competitiva, 
10 
 
criação de conhecimento e tomada de decisões, 
cujas saídas são conhecimento e compromisso 
para ação. 
Consequentemente, demonstra-se que a 
mudança no paradigma comunicacional e as 
novas tecnologias, favorecem a publicação e o 
compartilhamento da informação, assim como 
a criação e o compartilhamento do 
conhecimento nas suas diferentes formas, o 
conhecimento criado por meio da interação 
social para ser um insumo fundamental na 
geração de inovações. 
3. A inovação na Sociedade do 
Conhecimento 
Na sociedade do conhecimento, as 
organizações tentam inovar para se diferenciar 
e obter vantagens competitivas, tanto pela 
melhoria nos produtos / serviços oferecidos 
quanto pela eficiência operativa. A relação 
positiva entre inovação e vantagem 
competitiva existente no contexto atual, 
confirma-se na pesquisa feita por Damanpour 
e Gopalakrishnan em 101 bancos comerciais 
nos Estados Unidos. A pesquisa concluiu que 
os bancos melhor sucedidos adotam inovações 
nos produtos e processos com maior frequência 
e consistência que os bancos com menor 
sucesso. Enquanto ao tipo de inovação 
adotada, a pesquisa revela que as adoções de 
inovações no produto estão positivamente 
associadas às adoções de inovações nos 
processos, e que as primeiras ocorrem com 
maior frequência e velocidade. 
 
4. Considerações Finais 
 
Na sociedade do conhecimento a diferença 
entre os países será balizada em função da 
capacidade de aplicar conhecimento e gerar 
inovação. Portanto, a produtividade dos 
países será incrementada na mesma medida 
das possibilidades de acesso ao conhecimento, 
dos investimentos realizados para a 
capacitação dos seus recursos humanos e para 
desenvolvimento de inovação. Além disso, 
pela reflexão feita neste artigo pode-se que 
constatar que: 
A - Os avanços tecnológicos cada vez mais 
frequentes e contínuos na sociedade do 
conhecimento, favorecem a troca de 
informações e socialização do conhecimento, 
possibilitando uma maior geração de 
inovações e desenvolvimento econômico nos 
países com um adequado nível de acesso à 
tecnologia e à ciência. Assim, torna-se 
imprescindível a ação do Estado como agenteativo visando dois objetivos. O primeiro, a 
democratização da informação, colocando as 
tecnologias ao serviço das comunidades, 
fomentando a inclusão, e em geral, criando 
oportunidades de desenvolvimento 
homogêneas na população. Em segundo lugar, 
o Estado deve fomentar a pesquisa tecnológica, 
entendida como processo criador de 
conhecimento, o qual constitui o fator 
estratégico de desenvolvimento e poder na 
atualidade. 
B - Os países e em geral, as organizações 
melhor sucedidas, são aquelas que inovam. 
Tanto no âmbito social quanto no âmbito 
econômico, as inovações são criadas a partir 
das interações sociais, quando o conhecimento 
apropriado pelos agentes individuais interage 
num domínio de conhecimento específico, seja 
organizacional, ou seja, social. Para inovar é 
necessário fomentar aquelas interações em 
todo nível, criando uma cultura e condições 
para a troca de ideias. (Texto adaptado pelo 
prof. Altamir Fernandes) 
ESCOLA, SOCIEDADE DA 
INFORMAÇÃO E O NOVO MUNDO DO 
TRABALHO (Ligia Leite) 
Introdução 
O mundo contemporâneo apresenta 
mudanças que afetam todos os setores da 
sociedade, inclusive a educação. 
Compreendemos que passamos de uma 
sociedade cuja base tecnológica era analógica 
para uma vida digital, como nos afirma 
Negroponte (1995). Essa desafiadora situação 
exige novas capacidades mentais, habilidades 
gerais de comunicação e maior capacidade de 
abstração, num reduzido espaço de tempo. As 
pessoas e as instituições devem adaptar-se a 
esta nova situação, passando a rever, métodos 
de ensinar e aprender, tanto na escola como no 
trabalho. A sociedade global, que nos é 
imposta, objetiva um agir e pensar 
padronizados. 
11 
 
Conclui-se que neste quadro que se apresenta, 
resultam mudanças que deslocam as estruturas 
das sociedades modernas e de suas instituições. 
A escola, enquanto instituição local, que pelas 
novas tecnologias pode inserir-se globalmente, 
não poderia deixar de acompanhar estas 
transformações. 
Dentro deste contexto, objetivamos refletir 
sobre o papel da escola, a integração da 
tecnologia no processo ensino aprendizagem e 
a pensar sobre a formação de um educando 
integrado na sociedade da informação e capaz 
de sobreviver neste Novo Mundo do Trabalho. 
 A escola no contexto atual 
Tornou-se urgente fazer com que a escola seja 
parte integrante do futuro que por agora se 
configura, resignificando o seu papel, 
estabelecendo uma relação prazerosa entre o 
conhecimento e o saber, desenvolvendo a 
comunicação, o pensamento crítico e 
trabalhando no sentido de levar o educando a 
resolver situações problemas, num processo 
dinâmico de construção do conhecimento. 
Para que se realize um trabalho novo, há 
necessidade de mudanças na escola: 
alterações de currículo, programas, materiais 
didáticos, estrutura administrativa e 
arquitetônica, uso de novas tecnologias para 
que a escola possa enfrentar os novos desafios 
que lhe são colocados. Além de centro 
mediador da informação, ela deve ser o 
centro facilitador do acesso das comunidades 
carentes às novas tecnologias. 
Complementaria o seu papel transformando-se 
em espaço da discussão, da crítica, da 
sistematização das informações que estariam 
disponíveis dentro e fora da escola. 
Por estar inserida nas mudanças por que passa 
a sociedade, a escola apresenta-se como 
aparelho ideológico, cujas transformações se 
fazem de forma mais lenta, "mais ainda assim, 
decisiva". Dessa forma, o papel da escola 
passa a ser de fundamental importância para a 
configuração deste novo cidadão que, na 
urgência, nós, educadores, precisamos ajudar a 
formar. 
 A sociedade da informação e o novo mundo 
do trabalho 
Vivendo na cibercultura (forma sociocultural 
que advém de uma relação de trocas entre a 
sociedade, a cultura e as novas tecnologias de 
base microeletrônicas surgidas na década de 
1970, graças à convergência das 
telecomunicações com a informática) torna-se 
necessário considerar a posição de Castells ao 
se referir à Internet como a transformação 
tecnológica que resume o conjunto de 
transformações da sociedade da informação, 
ressaltando que tudo que é significativo hoje 
passa pela Internet e que as pessoas que não 
têm acesso a ela permanecem excluídas do que 
é importante, assim sendo, não se pode aceitar 
que o professor permaneça afastado da Internet 
e que esta tecnologia não esteja presente na 
sala de aula da cibercultura. 
Numa sociedade em transformação, a internet, 
juntamente com as tecnologias de 
telecomunicação, contribui para que o aluno 
aprenda a conviver com a diversidade, 
portanto, ela se apresenta como um potencial 
para produzir mudança social revolucionária 
na educação e na sociedade. Se pensarmos na 
Internet como uma tecnologia que possibilita o 
desenvolvimento de um ambiente de 
aprendizagem baseado na construção de 
conhecimento, sua presença em situações de 
aprendizagem oportuniza aos sujeitos-
aprendentes ter mais condições para 
desenvolver sua própria aprendizagem, pois 
esta tecnologia permite que eles se tornem 
participantes ativos na busca de conhecimento, 
definindo suas necessidades de aprendizagem, 
encontrando informações, construindo suas 
próprias bases de conhecimento e 
compartilhando suas descobertas. 
 Reflexões finais 
De acordo com Moran, os modelos de 
educação tradicional não nos servem mais, 
porém, a função primordial da escola continua 
sendo a mesma: o ensino, tendo a questão 
pedagógica na base de todos os esforços para a 
melhoria da sua qualidade. Porém, a escola 
precisa re-significar o seu papel estabelecendo 
uma relação prazerosa entre o conhecimento e 
o saber, transformando-se em um lugar de 
produção e não apenas apropriação de 
conhecimento e cultura. Deve procurar 
desenvolver a comunicação, a memória, o 
pensamento crítico e trabalhar no sentido de 
12 
 
levar o educando a resolver situações-
problema em todos os níveis: os que 
aparecem no trabalho escolar, os que 
pertencem ao gerenciamento de questões 
diárias e os sociais, os que encontramos na 
interação com as outras pessoas. E o trabalho 
com a imagem, através do vídeo e do 
computador pode possibilitar a concretização 
dessas possibilidades. 
A escola não deve dispensar nenhum meio de 
comunicação, mas integrá-los, utilizando-se de 
novos procedimentos e entre eles inclui-se a 
aprendizagem cooperativa, a pesquisa, o 
trabalho com projetos. 
Parece-nos premente continuar mudando a 
educação, porém, esta ação deve ser contínua 
e fruto da reflexão de professores e alunos, e 
não uma imposição do sistema educacional. 
Este novo professor deve desenvolver novas 
competências e habilidades em seus alunos, 
tornando-os capazes de sobreviver num mundo 
globalizado e fazendo-os perceberem-se como 
construtores das suas próprias histórias, 
capazes de aprender a aprender, numa 
atualização constante, na qual a imagem da 
TV, do vídeo e do computador têm papel 
significativo. 
Finalizando com Dowbor, é preciso que a 
educação mobilize a sua força na reconstrução 
de uma convergência entre o potencial 
tecnológico e os interesses humanos. Somente 
articulando dinâmicas mais amplas, que 
extrapolam a sala de aula poderá a educação 
realizar mais este novo modelo de 
alfabetização tecnológica, que permitirá a 
permanência e sobrevivência dos nossos 
alunos neste Novo Mundo do Trabalho. (Texto 
adaptado pelo prof. Altamir Fernandes) 
 Fonte: 
http://br.monografias.com/trabalhos/escola-
sociedade-informacao-mundo-trabalho/escola-sociedade-informacao-
mundo-trabalho2.shtml 
II - Relações de trabalho e o perfil do 
profissional no século XXI 
 
A formação profissional no século XXI: 
desafios e dilemas 
 O século XXI chegou e vem marcado com 
algumas características: o mundo globalizado 
e a emergência de uma nova sociedade que se 
convencionou chamar de sociedade do 
conhecimento. Tal cenário traz inúmeras 
transformações em todos os setores da vida 
humana. O progresso tecnológico é evidente, e 
a importância dada à informação é 
incontestável. 
O mundo globalizado da sociedade do 
conhecimento trouxe mudanças significativas 
ao mundo do trabalho. O conceito de emprego 
está sendo substituído pelo de trabalho. A 
atividade produtiva passa a depender de 
conhecimentos, e o trabalhador deverá ser um 
sujeito criativo, crítico e pensante, preparado 
para agir e se adaptar rapidamente às mudanças 
dessa nova sociedade. 
O diploma passa a não significar 
necessariamente uma garantia de emprego. A 
empregabilidade está relacionada à 
qualificação pessoal; as competências técnicas 
deverão estar associadas à capacidade de 
decisão, de adaptação a novas situações, de 
comunicação oral e escrita, de trabalho em 
equipe. O profissional será valorizado na 
medida da sua habilidade para estabelecer 
relações e de assumir liderança. Para o 
administrador Drucker, "os principais grupos 
sociais da sociedade do conhecimento serão os 
'trabalhadores do conhecimento"', pessoas 
capazes de alocar conhecimentos para 
incrementar a produtividade e gerar inovação. 
Na perspectiva do trabalho na sociedade do 
conhecimento, a criatividade e a disposição 
para capacitação permanente serão requeridas 
e valorizadas. As tecnologias de informação e 
comunicação estão modificando as situações 
de trabalho, e as máquinas passaram a executar 
tarefas rotineiras em substituição aos seres 
humanos. Neste ambiente de mudanças, "a 
construção do conhecimento já não é mais 
produto unilateral de seres humanos isolados, 
mas de uma vasta colaboração cognitiva 
distribuída, da qual participam aprendentes 
humanos e sistemas cognitivos artificiais". 
Nesta conjuntura, em que a mudança 
tecnológica é a regra, buscar condições para 
ancorar a preparação do profissional do futuro 
requer uma estratégia diferenciada. Este 
13 
 
profissional deverá interagir com máquinas 
sofisticadas e inteligentes, será um agente no 
processo de tomada de decisão. Além disso, o 
seu valor no mercado será estimado com base 
em seu dinamismo, em sua criatividade e em 
seu empreendedorismo. Todos esses fatores 
evidenciam que só a educação será capaz de 
preparar as pessoas para enfrentar os desafios 
dessa nova sociedade. 
Além disso, segundo o sociólogo De Masi, 
existem alguns valores emergentes, nesta nova 
sociedade, que merecem ser levados em 
consideração quando tratamos de formação e 
educação profissional. Um deles é a 
intelectualidade (valorização das atividades 
cerebrais em detrimento às atividades braçais); 
outro é a criatividade (tarefas repetitivas e 
chatas serão feitas pelas máquinas); outro é a 
estética (o que distingue hoje não é mais a 
técnica, e sim a estética, o design). Para este 
autor, autor do conceito “ócio criativo”, a 
subjetividade, a emotividade, a desestruturação 
e a descontinuidade também são valores 
importantes e, por isso, deverão, também, estar 
na mira dos processos educativos do futuro. 
Esta realidade parece apontar para uma 
educação básica e polivalente que valorize a 
cultura geral, a postura profissional, a ética e a 
responsabilidade social. 
A UNESCO (Organização das Nações 
Unidas para Educação, Ciência e Cultura), nos 
dá as dicas de algumas competências e 
conhecimentos desejados, ou seja, oito 
características do trabalhador do século 
XXI: 
1. Ser flexível e não especialista demais 
2. Ter mais criatividade do que informação 
3. Estudar durante toda a vida 
4. Adquirir habilidades sociais e capacidade de 
expressão 
5. Assumir responsabilidades 
6. Ser empreendedor 
7. Entender as diferenças culturais 
8. Adquirir intimidade com as novas 
tecnologias 
O mundo do trabalho na Sociedade do 
Conhecimento 
 
 
Sociedade Informacional 
 
Uma nova sociedade está surgindo e é 
expressa das mais diferentes formas como 
sociedade da pós-informação 
(NEGROPONTE), sociedade de 
inteligências coletivas (LEVY), sociedade 
pós-industrial (DE MASI) e do conhecimento, 
“sociedade do conhecimento” (DRUCKER). 
 Muito precisa é a definição sociedade 
informacional, baseada em um modo de 
desenvolvimento específico em que as 
informações, sua geração, processamento e 
transmissão, tornam-se as fontes fundamentais 
de produtividade e poder na sociedade 
(CASTELLS). 
Essas novas terminologias expressam 
uma das maiores reviravoltas socioeconômicas 
da história, sem falar nas consequências 
políticas e relativas à reorganização do Estado. 
Tudo isso porque há ganho de eficiência e uma 
mudança de processos que representa o 
surgimento de novas formas de fazer as coisas, 
segundo o pensamento neoliberal. 
A nova economia está nas ideias, no 
conhecimento, na inteligência. Por isso, capital 
e trabalho ficam menos antagônicos (ainda na 
concepção do “pensamento único” do “Estado 
Mínimo”, pois o verdadeiro capital passa a ser 
o capital intelectual. 
 
Novas relações de trabalho no século XXI 
 
Discutir as mudanças que estão 
ocorrendo no mundo e a sua influência nas 
várias estruturas da sociedade e das 
organizações é cada vez mais um assunto 
pertinente. Estamos vivendo uma transição 
nas relações de trabalho em decorrência da 
evolução dos processos produtivos. E nisto as 
tecnologias tiveram papel fundamental 
buscando responder ao desafio de produzir 
sempre mais com menos trabalho. 
 
Ainda vivemos numa sociedade em 
que grande parte da vida das pessoas adultas é 
dedicada ao trabalho. Constrói-se hoje uma 
sociedade na qual montante significativo do 
tempo das pessoas será dedicado a outra 
atividade, mais criativa. 
 
Essa é uma transição que se 
materializa na busca de novas formas de 
inventar e difundir um novo tipo de 
14 
 
organização capaz de elevar a qualidade de 
vida e de trabalho. Ora, a história nos mostra (e 
o nosso dia a dia) que o trabalho foi sempre 
visto como um problema e a partir daí, criou-
se, inovou-se e investiu-se em tecnologia para 
criar mecanismos que minimizassem esse 
problema. 
 
Educação e habilidades para o trabalho 
 
É por isso que a nova sociedade, e sua 
busca de eficiência e mudança de processos, 
trouxe alto ganho de produtividade e com ele 
o aumento do desemprego. Aparentemente, 
não haveria nova indústria para substituir os 
empregos perdidos. Deve surgir e está 
surgindo um novo perfil de atividades que 
podem absorver a função dos velhos processos. 
 
De qualquer forma, hoje os postos de 
trabalho estão escassos, e por motivos 
diversos. O crescimento econômico tem sido 
anêmico e, sem crescimento, não há trabalho. 
Por outro lado, as necessidades humanas são 
infinitas (não esqueça o enorme aumento da 
população) e, por isso, a demanda sempre 
existirá. 
 A argumentação neoliberal tenta, 
ideologicamente, impor sua narrativa, assim: 
“O que parece cada vez mais óbvio é o 
descompasso entre a oferta de novos empregos 
e a capacidade das pessoas para eles. As 
oportunidades estão aí. Mesmo assim, muitas 
vagas estão vazias pelo mundo afora.Isso 
mostra que, mesmo havendo postos de 
trabalho, a sociedade necessita de pessoas 
preparadas para preenchê-los. Resta, portanto, 
implementar uma educação arrojada, 
ininterrupta e abrangente. É preciso uma 
qualificação para a era da informação”. 
 
Quem vai conseguir trabalhar daqui 
para frente? O que vai acontecer nos 
próximos anos com as empresas? Essas novas 
formas de trabalhar exigem novas habilidades 
e, sobretudo, novas atitudes. Todos devem 
estar aptos para apreender novos 
conhecimentos, capacidade esta fundamental 
para encontrar um mínimo de segurança em 
um mundo que será, por natureza, bastante 
inseguro. 
 
Isso vale tanto para os indivíduos que 
participam do processo produtivo, ou deveriam 
participar, como para as empresas ou órgãos 
que produzem empregos (os órgãos do Estado 
aqui também se incluem). Estas, para serem 
competitivas e não apenas produtivas, 
precisam estar atentas à qualificação de seus 
recursos humanos. 
 
Estas habilidades permitem às 
empresas e às pessoas a consciência de seu ser 
e estar no trabalho, permitindo uma maior 
iniciativa,responsabilidade, comunicabilidade. 
Isto tudo redunda em flexibilidade para 
trabalhar em equipe, fundamental no mundo 
atual de aumento constante da complexidade 
dos processos. 
 
 Em relação especial às pessoas, este 
mundo complexo e inseguro também está 
sendo marcado por uma profunda revolução no 
campo da empregabilidade. Ser empregável, 
hoje em dia, depende de uma série de requisitos 
que não eram exigidos no passado. 
Um profissional deve hoje assumir um 
outro perfil, privilegiando: 
 Flexibilidade 
 Gerenciar risco 
 Lógica do raciocínio 
 Conhecimento de línguas 
 Saber trabalhar em equipe 
 Habilidade para lidar com pessoas 
 Iniciativa e criatividade 
 Liderança 
 Aprendizado contínuo 
 Multifuncionalidade 
Como deve ser, então, o profissional 
do futuro? Philip Kotler, em seu o livro 
Marketing para o século XXI, aponta que os 
“Profissionais do futuro” devem ter os 
seguintes atributos: 
1- Os profissionais do futuro têm que ser 
competentes – Os mercados não perdoarão o 
amadorismo. Chega de improvisação, do 
chamado “jeitinho brasileiro”! 
2- Os profissionais do futuro devem ser 
bem-educados – Isto significa que devemos 
ser cavalheiros, diplomáticos, finos no trato, 
elegantes, conhecedores de etiquetas e 
cordiais. Sim, quem não atentar para estas 
coisas estão fora de sintonia com as novas leis 
de mercado. 
15 
 
3- Os profissionais do futuro devem ser 
bem-humorados – Um toque de humor, de 
alegria, faz bem a qualquer ambiente. É bom 
ter cuidado, porém, com as piadas! Estas, 
quando bem empregadas produzem bem estar 
na maioria, mas quando mal utilizadas, podem 
comprometer qualquer negócio. 
4- Os profissionais do futuro devem ser 
confiáveis e honestos - Como isto serve para 
todas as áreas, tenho esperança de que a 
sociedade brasileira consiga mecanismos para 
viabilizar o Judiciário e este venha punir 
nossos políticos corruptos, que levam para os 
paraísos fiscais boa parte das nossas riquezas! 
O fato é que não haverá espaço, no mercado, 
em todos os segmentos, para o desonesto. 
5- Os profissionais do futuro serão 
responsáveis – Assumir os seus atos, agir com 
responsabilidade, tomar decisões abalizadas, 
trabalhar com dados que sedimentem as 
decisões, são características desse profissional 
que os mercados necessitam. Só uma 
observação: esse futuro já chegou! 
 
As desconstruções do trabalho, sua nova 
morfologia e a era das rebeliões (Ricardo 
Antunes, sociólogo da UNICAMP) 
 A “falta de trabalho qualificado” deve 
ser vista com cuidado: há setores da economia 
que carecem de novas modalidades de 
trabalho, mas há também uma poderosa 
“ideologia da qualificação” 
As precarizações sem fim 
 Desde 2008 adentramos em uma nova 
era de precarização estrutural do trabalho 
em escala global. Os exemplos são muitos: o 
desemprego vem atingindo as mais altas taxas 
das últimas décadas nos Estados Unidos, 
Inglaterra, Espanha, Portugal, Itália, Grécia, 
França, Japão. A lista é interminável: atinge 
também vários países latino-americanos, 
asiáticos, para não mencionar a tragédia 
africana, ainda que o epicentro da crise esteja 
nos países dito avançados. 
 E quanto mais a crise avança, quão 
mais o receituário destrutivo do capital 
financeiro, com seu Fundo Monetário 
Internacional (FMI) à frente se impõe, mais 
avança a sua pragmática letal para o trabalho. 
 E quando a realidade não é a do 
desemprego direto, avança de modo voraz a 
precarização do trabalho decorrente da erosão 
do emprego contratado e regulamentado que 
foi dominante no século 20 – o século do 
automóvel, dominado pelo taylorismo e pelo 
fordismo – proliferando as diversas formas de 
trabalho terceirizado, desprovido de direitos. 
 São trabalhos mascarados ou 
invisibilizados, como aquele que 
frequentemente se denomina como 
“voluntário”, mas que de fato acaba sendo 
compulsório, uma vez que, para conseguir 
qualquer emprego hoje é necessário provar que 
realizou trabalho “voluntário”. Ou ainda, o 
trabalho do estagiário, que de fato substitui um 
trabalho efetivo, ainda que recebendo uma 
subremuneração. Só essas duas modalidades 
substituem milhões de assalariados que, por 
isso, perdem seu emprego. 
 Uma boa fotografia desta quadra 
inicial do século 21 é dada pela degradação 
ainda mais intensa do trabalho imigrante em 
escala global: com o enorme incremento do 
novo proletariado informal, do subproletariado 
fabril e de serviços. 
IHU On-Line – O que caracteriza o perfil 
dos jovens no mercado de trabalho? Como 
a intolerância a problemas e a cobrança por 
resultados aparece, nesse sentido? 
Roberto Heloani – Em primeiro lugar, 
precisamos reconhecer que o mundo do 
trabalho mudou de forma significativa, e 
aqui me refiro à forma de organizar o 
trabalho. Há 30 anos uma pessoa entrava para 
uma grande organização e sabia que poderia 
permanecer lá a vida toda, caso tivesse um bom 
desempenho, fosse uma pessoa leal à 
organização, que se aplicasse, se qualificasse, 
aproveitasse as oportunidades oferecidas pela 
organização, e se fosse minimamente 
disciplinada. E o sonho de muitos jovens era 
justamente fazer carreira na organização e 
depois ser substituído pelo próprio filho. Isso 
caracterizou o que chamamos de modelo 
fordista de produção, que era piramidal, com 
uma hierarquia mais explícita – não é que não 
se tenha hierarquia hoje em dia, apenas pessoas 
ingênuas pensam que ela não existe. Em 
consequência disso, o grande sonho era fazer 
certos sacrifícios, postergar a felicidade para 
depois ter os louros, a recompensa. O próprio 
16 
 
modelo de produção era de longo prazo. Hoje 
não. Esse jovem já entra na escola e logo acaba 
recebendo a ideologia da internet, da 
informação virtual, na qual não se exige do 
sujeito grande reflexão, mas muito mais uma 
pró-atividade de resposta. Isso não quer dizer 
que o sujeito está pensando, mas que ele está 
sendo treinado para responder rapidamente. O 
resultado disso é que, quando ele entra no 
mundo corporativo, começa a ouvir 
comentários de que aquela pessoa que estava lá 
outro dia já não está mais e que a média de 
permanência naquela organização é de 2 a 3 
anos. Daí ele para e pensa: afinal de contas, me 
é permitido pensar que vou passar minha vida 
toda aqui? Será que essa será a minha casa? 
Será que devo compartilhar minhas angústias e 
incertezas com esse grupo?É outra lógica. 
Uma coisa é ter um amigo, uma pessoa com a 
qual você compartilha as ansiedades, desejos, 
medos, receios, neuras. E outra coisa é ter uma 
amizade profissional. Esse jovem, desde cedo, 
aprende que no mundo do trabalho atual é 
preciso construir amizades profissionais, o que 
é diferente de construir amizades. A amizade 
profissional dura enquanto for do interesse de 
ambos. São raras as pessoas que saem de uma 
organização e mantêm contato com seus ex-
colegas. Será que é porque são pessoas 
perversas e frias? Nada disso. São pessoas 
“normais”, que aprenderam que ter uma 
relação afetiva e efetiva pode ser até perigoso, 
porque essas amizades são datadas, não são 
verdadeiras. A relação que se estabelece com 
os colegas é a mesma que se acaba tendo com 
as empresas. E esse perfil vai sendo moldado. 
Mais do que isso: vai se criando uma cultura 
dentro das organizações, e hoje boa parte 
delas está moldada por essa lógica, cujo mote 
é o seguinte: aproveite enquanto der; o futuro 
ninguém sabe; nem você tem controle desse 
futuro. É claro que em uma situação como essa 
não se pode esperar dos jovens sonhos de longo 
prazo, uma lealdade estrita às pessoas e à 
organização e, muito menos, uma dedicação 
incondicional. Ele pode até trabalhar muito, até 
16 horas por dia, como alguns trabalham, mas 
é um trabalho voltado para si, que quer uma 
recompensa rápida, imediata e de preferência 
segura. Ele construiu uma lógica que não é 
perversa. Temos uma organização do trabalho 
que exige uma nova modelagem, uma nova 
subjetividade – chamo isso de manipulação da 
subjetividade – e responde com uma nova 
subjetividade: sendo individualista para 
melhor se adaptar a essa realidade. Quem é 
perverso não é o jovem, nem o gestor, nem o 
chefe. Se tem alguém perverso é a própria 
forma de organizar o trabalho. Essa forma 
diferenciada de organizar o trabalho tem 
obviamente benefícios, pontos positivos, mas 
também tem muitos pontos negativos. Não é à 
toa que ainda nesta década, até 2020, segundo 
relatórios internacionais, a segunda causa de 
afastamento do trabalho será o transtorno 
mental, sendo que a mais recorrente será a 
depressão. Isso é gravíssimo. Uma 
característica muito forte desse modelo de 
organização do trabalho é a solidão. Encontra-
se rodeado de pessoas, mas verdadeiramente se 
está só. 
IHU On-Line – Quais são as permanências 
e rupturas do novo chão de fábrica? O que 
o caracteriza hoje em comparação com o 
cenário de 30 anos atrás? 
Marcia de Paula Leite – Desde a década de 
1980 mudou muita coisa. A forma de 
organização do trabalho mudou muito. Em 
termos de organização do trabalho, nós 
efetivamente mudamos de paradigma. Aquele 
sistema que tínhamos de divisão do trabalho 
muito rígida, dentro da fábrica, com uma 
organização taylorista e fordista do trabalho, 
está sendo transformado e substituído por 
novas formas de organização do trabalho mais 
baseadas nos princípios japoneses. Essas 
novas técnicas mudam a forma de a fábrica 
produzir. Hoje temos uma organização da 
produção que vai de trás para frente, quando 
comparamos com os princípios tayloristas e 
fordistas. A fábrica começa a funcionar a partir 
do pedido. Ao contrário de antigamente, 
quando as fábricas produziam a partir da 
entrada da matéria-prima, porque o mercado 
era garantido. O que permanece é o princípio 
básico do capitalismo, que é a necessidade de 
sempre aumentar a produtividade, diminuir os 
tempos mortos e aumentar o lucro. Isso faz 
com que continue havendo controle sobre os 
trabalhadores para que eles produzam a maior 
quantidade possível no menor tempo possível. 
No entanto, as formas de controle mudaram. 
Giovanni Alves – As grandes fábricas no 
Brasil têm passado por profundas 
transformações produtivas nos últimos anos. 
17 
 
Desde o começo da década de 2000 alterou-se 
de forma significativa a morfologia do trabalho 
industrial no Brasil por conta das inovações 
tecnológicas e organizacionais. Nos polos 
mais desenvolvidos da indústria – e também do 
setor de serviços –, as novas tecnologias 
informáticas de base microeletrônica e 
tecnologias informacionais em rede alteraram 
o processo de produção de mercadorias e a 
organização dos serviços de distribuição e 
serviços financeiros e telecomunicações. 
Se a década de 1990 foi a década da 
reestruturação produtiva que atingiu o mundo 
do capital e, por conseguinte, o mundo do 
trabalho no Brasil, então a década de 2000 foi 
a década de reorganização do capitalismo 
brasileiro com as grandes empresas 
aumentando investimentos produtivos, 
reordenando suas estratégias de negócios na 
perspectiva da concorrência internacional 
acirrada. 
IHU On-Line – Como seriam essas novas 
formas de controle? 
Marcia de Paula Leite – Temos o controle 
pelas máquinas, que é muito maior. Nas 
equipes de trabalho o controle passa a ser dos 
próprios colegas, porque muitas vezes as 
empresas fazem competição e comparação 
entre as equipes. Além disso, temos as metas e 
participação nos lucros e resultados, o que 
causa o controle dos companheiros de equipe 
para que ninguém saia perdendo. Por exemplo, 
o colega pressiona você por sua parada a fim 
de tomar um café, e isso diminui a produção. 
Trata-se de um controle efetivo. 
IHU On-Line – Quais são as principais 
tendências do mercado de trabalho no país 
na última década? 
Ruy Braga – Eu destacaria duas tendências 
principais. Por um lado, é flagrante o que 
poderíamos chamar de formalização do 
emprego, ou seja, a criação de milhões de 
empregos formais, o que praticamente inverte 
aquela relação entre formal e informal que 
tínhamos na década de 1990. De fato, em 
termos de formalização estamos no ápice da 
curva histórica do emprego formal no Brasil. 
Isso é evidentemente positivo porque, junto 
com o emprego formal, existem algumas 
garantias trabalhistas. Mas, por outro lado, 
existe também uma ampliação da 
precarização das condições de trabalho. A 
precarização normalmente está muito 
associada à precarização contratual. No 
entanto, existe uma outra forma de 
precarização do trabalho, que é mais complexa, 
porque é multifacetada e se associa ao 
problema das condições de trabalho, ou seja, as 
condições de consumo da mercadoria “força de 
trabalho”. Temos o aumento da taxa de 
rotatividade, o aumento da flexibilização, do 
número de acidentes de trabalho e a 
generalização do que podemos chamar de 
trabalho assalariado sub-remunerado, apesar 
de formal. Ou seja, as principais tendências do 
mercado de trabalho brasileiro nessa última 
década tendem a se polarizar, a combinar essas 
duas principais dinâmicas: de um lado, a 
formalização do emprego e, de outro lado, a 
precarização das condições de trabalho. 
III Empreendedorismo e inovação 
 
Dificilmente uma pessoa tem todas as 
características de comportamento 
empreendedor em perfeito equilíbrio porque 
essas características não são herdadas, mas sim 
aprendidas ao longo da vida, com experiências 
de trabalho, determinação e estabelecimento de 
metas pessoais desafiadoras. 
 
Se você é uma pessoa obstinada, persistente e 
está o tempo inteiro buscando informações 
para melhorar e aumentar seus negócios, será 
meio caminho andado. 
 
No jogo dos negócios é muito importante que 
você identifique suas reais características 
empreendedoras, pois um grande número de 
pessoas tem buscado iniciar negócios próprios, 
sem, no entanto, apresentar comportamento 
adequado. 
 
É importante estar consciente de quais são suasqualidades e suas deficiências. Uma análise de 
suas experiências práticas, capacidade e 
personalidade ajudarão a enfrentar qualquer 
situação. De acordo com os ideólogos do 
“empreendedorismo”, algumas características 
são fundantes para delinear o comportamento: 
 
18 
 
Características de comportamento 
empreendedor 
 
1. Busca de oportunidades e iniciativa 
Faz as coisas antes de solicitado, ou 
antes, de ser forçado pelas 
circunstâncias; 
Age para expandir o negócio em novas 
áreas, produtos ou serviços; 
Aproveita oportunidades fora do comum 
para começar um negócio, obter 
financiamentos, equipamentos, terrenos, 
local de trabalho ou assistência. 
 
O empreendedor é alguém que está sempre 
buscando novas oportunidades. Observando o 
ambiente, costuma ter ideias que possam ser 
transformadas em negócios e as coloca em 
prática. 
 
2. Persistência 
Age diante de um obstáculo; 
Age repetidamente ou muda de 
estratégia a fim de enfrentar um desafio 
ou superar um obstáculo; 
Assume responsabilidade pessoal pelo 
desempenho necessário para atingir 
metas e objetivos. 
 
A persistência é uma das características do 
empreendedor. Todo negócio tem seus 
momentos difíceis. Mas é preciso persistir e 
buscar superação. 
 
3. Comprometimento 
Faz sacrifícios pessoais ou despende 
esforços extraordinários para completar 
uma tarefa; 
Colabora com os empregados, 
colaboradores e parceiros ou se coloca 
no lugar deles, se necessário, para 
terminar um trabalho; 
Esmera-se em manter os clientes 
satisfeitos e coloca em primeiro lugar a 
boa vontade em longo prazo, acima do 
lucro em curto prazo. 
 
Estar comprometido com a empresa significa 
ter envolvimento pessoal para que ela 
mantenha sua qualidade e seus compromissos 
e continue sempre crescendo. Para isso, é 
importante conhecer e cuidar também da área 
financeira; ela é uma peça-chave do seu 
sucesso empresarial. É importante estar 
presente e ter cuidado com a qualidade da 
produção e com o cumprimento de prazos. Às 
vezes, um esforço extra é necessário para 
garantir a satisfação do cliente. 
 
4. Exigência de qualidade e eficiência 
Encontra maneiras de fazer melhor, 
mais rápido ou mais barato; 
Age de maneira a fazer coisas que 
satisfazem ou excedem padrões de 
excelência; 
Desenvolve ou utiliza procedimentos 
para assegurar que o trabalho seja 
terminado a tempo ou que o trabalho 
atenda a padrões de qualidade 
previamente combinados. 
 
A exigência de qualidade e eficiência é um 
importante diferencial em qualquer tipo de 
negócio. Quando você cumpre todos os prazos 
e garante a qualidade esperada pelo cliente, 
está conquistando a confiança dele. Lembre-se 
que, por mais qualidade que você forneça é 
preciso estar sempre melhorando para superar 
as expectativas e se destacar em relação à 
concorrência. 
 
5. Correr riscos calculados 
Avalia alternativas e calcula riscos 
deliberadamente; 
Age para reduzir os riscos ou controlar 
os resultados; 
Coloca-se em situações que implicam 
desafios ou riscos moderados. 
 
Montar uma empresa ou investir para melhorá-
la implica riscos. Ser ousado é muito 
importante. No entanto, é fundamental calcular 
esses riscos para saber onde, como e quando 
você deve arriscar para fazer sua empresa 
crescer. Aprender a correr riscos calculados 
significa avaliar as alternativas, reduzir os 
riscos e controlar os resultados. Se, por 
exemplo, você desejar investir em sua empresa 
para aumentar a produção e as vendas, é 
importante realizar uma pesquisa para saber se 
existe mercado para absorver este volume de 
produção adicional. 
 
6. Estabelecimento de metas 
Estabelece metas e objetivos que são 
desafiantes e que têm significado 
pessoal; 
19 
 
Define metas de longo prazo, claras e 
específicas; 
Estabelece objetivos de curto prazo, 
mensuráveis. 
 
Estabelecer uma meta é muito importante, pois 
especifica as condições, o tempo e onde se quer 
chegar. Para atingir sua meta é interessante que 
você crie estratégias. Se sua meta é abrir uma 
empresa, este curso é uma ótima oportunidade 
para você testar seu comportamento 
empreendedor. Se seu objetivo é melhorar os 
resultados de sua empresa ou negócio, você 
também encontrará no IPGN (Iniciando um 
pequeno e grande negócio) instrumentos que 
lhe auxiliarão no gerenciamento de seu 
empreendimento. 
Para seu objetivo se transformar em uma meta 
você precisa saber onde quer chegar e definir 
como e quando chegar. 
 
7. Busca de informações 
Dedica-se pessoalmente a obter 
informações de clientes, fornecedores e 
concorrentes; 
Investiga pessoalmente como fabricar 
um produto ou fornecer um serviço; 
Consulta especialistas para obter 
assessoria técnica ou comercial. 
 
Conversar com clientes, fornecedores e 
concorrentes é essencial para posicionar 
melhor sua empresa no mercado. 
 
Um empreendedor está constantemente 
querendo saber mais e mais. Saber procurar e 
selecionar informações ajuda a melhorar o seu 
negócio. Você pode obter informações de 
diversas fontes. Procure saber as opiniões dos 
consumidores sobre o seu produto, fique atento 
às suas sugestões e observações; pesquise 
maneiras de melhorar seu produto ou serviço; 
identifique vantagens e desvantagens de sua 
empresa em relação à concorrência; leia 
jornais, revistas, navegue na Internet, há 
sempre cursos e palestras e novas informações 
no mercado. Visite o concorrente, experimente 
o modelo dele e, quando a sua pesquisa pessoal 
não for suficiente, procure a ajuda 
especializada de um técnico. E lembre-se de 
consultar o SEBRAE de seu estado. Lá estão 
disponíveis publicações, cursos e serviços que 
lhe ajudarão nessa busca por informações. 
 
8. Planejamento e monitoramento 
sistemáticos 
Planeja dividindo tarefas de grande 
porte em subtarefas com prazos 
definidos; 
Revisa seus planos constantemente, 
levando em conta os resultados obtidos 
e as mudanças circunstanciais; 
Mantém registros financeiros e utiliza-
os para tomar decisões. 
 
Para se tornar um empreendedor bem-sucedido 
é preciso que você aprenda a planejar. Por isso, 
é indispensável que você aprenda a fazer um 
planejamento de suas ações futuras. 
Além de planejar, é preciso acompanhar 
sempre os resultados da empresa – fazer o que 
se chama de monitoramento sistemático, que 
consiste em: 
 
Divida as tarefas maiores em pequenas 
tarefas; 
Defina um prazo para cumprir cada uma 
dessas tarefas; 
Verifique sempre os resultados para 
saber se estão dentro do que havia sido 
planejado. 
 
 
9. Persuasão e rede de contatos 
Utiliza estratégias deliberadas para 
influenciar ou persuadir os outros; 
Utiliza pessoas-chave como agentes 
para atingir seus próprios objetivos; 
Age para desenvolver e manter relações 
comerciais. 
 
Um empreendedor está sempre em contato 
com muitas pessoas: clientes, fornecedores, 
concorrentes, técnicos, especialistas de 
diversas áreas etc. Muitas vezes, são pessoas 
que não estão diretamente ligadas ao seu 
negócio, mas que, a qualquer momento, podem 
ser muito úteis. Busque manter contato com as 
pessoas que podem se tornar fonte de 
informações e/ou soluções para você. 
Todo empreendedor precisa mais do que uma 
rede de contatos: precisa saber convencer as 
pessoas a fazerem o que ela deseja. Convencer 
o cliente a comprar mais ou o fornecedor a 
entregar mais rápido, por exemplo. Mas, para 
convencer alguém, é preciso ter bonsargumentos, é preciso que estejam de acordo 
20 
 
com os interesses da pessoa que está sendo 
convencida. 
 
10. Independência e autoconfiança 
Busca autonomia em relação a normas e 
controles de outros; 
Mantém seu ponto de vista, mesmo 
diante da oposição ou de resultados 
inicialmente desanimadores; 
Expressa confiança na sua própria 
capacidade de complementar uma tarefa 
difícil ou de enfrentar um desafio. 
 
Um empreendedor é sempre autodeterminado, 
sabe tomar decisões com segurança. Faz 
questão de ser seu próprio patrão e dono do seu 
nariz; acredita em si e na capacidade de realizar 
sonhos e projetos. Tem a humildade para 
perguntar, pesquisar, ouvir e refletir sobre 
sugestões dadas, principalmente pelos mais 
experientes. Todo o empreendimento é um 
desejo concretizado por alguém que confiou no 
próprio potencial. 
 
Fonte: 
<http://super.abril.com.br/ciencia/sucesso-
584272.shtml> 
 
IV – Responsabilidade social: setor público, 
privado e terceiro setor 
 
A função social da empresa sob a 
ótica do desenvolvimento sustentável 
 
Bruna Medeiros David de Souza 
Advogada, Pós-graduanda em Direito Civil pela 
Faculdade de Direito Milton Campos. 
 
A função social da propriedade 
privada é um princípio consagrado na 
Constituição brasileira de 1988, que, em seu 
artigo 170, preceitua que “a ordem econômica, 
fundada na valorização do trabalho humano 
e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a 
todos existência digna, conforme os ditames da 
justiça social, observado, dentre outros, o 
Princípio da Função Social da Propriedade”. 
O princípio da função social da 
empresa busca estabelecer um equilíbrio 
entre a nova ordem econômica e social e as 
ideias do liberalismo clássico, mesclando 
elementos de ambos. Diante dessa nova 
concepção, o lucro, por si só, não é mais um 
elemento capaz de justificar a existência de 
uma empresa. A missão das companhias 
privadas não é somente gerar lucro; este é uma 
recompensa justa e legítima a ser recebida 
pelos investidores, que aceitaram correr o risco 
de aplicar seu capital em um empreendimento 
produtivo. 
Outra forma de atuação empresarial 
que se coaduna com a função social da 
empresa é a busca pelo desenvolvimento 
sustentável. Exerce função social a empresa 
que utiliza os recursos naturais de forma justa 
e reduz ao mínimo o impacto de suas 
atividades no meio ambiente. 
Responsabilidade socioambiental é a 
“forma de gestão que se define pela relação 
ética e transparente da empresa com todos os 
públicos com os quais ela se relaciona e pelo 
estabelecimento de metas empresariais 
compatíveis com o desenvolvimento 
sustentável da sociedade, preservando recursos 
ambientais e culturais para as gerações futuras, 
respeitando a diversidade e promovendo a 
redução das desigualdades sociais”. 
Bem assim, o respeito às leis 
trabalhistas e aos interesses dos empregados 
também demonstram o princípio da função 
social pautando as relações da empresa com 
seus empregados. Tal forma de atuação 
empresarial prevê, além da observância aos 
direitos trabalhistas, respeito à dignidade dos 
trabalhadores, em seus diversos aspectos. 
Uma empresa realiza sua função 
social com a opção por ações que promovam a 
dignidade da pessoa humana, como a 
valorização do trabalho, a busca do pleno 
emprego e a redução das desigualdades sociais. 
Hoje, os consumidores estão mais 
exigentes e demonstram preocupação com o 
futuro do nosso ambiente, o que tem alterado 
seu comportamento ao adquirir um produto. 
Dá-se preferência hoje aos ecologicamente 
sustentáveis, que não agridem a natureza, sem 
se esquecer da qualidade. Empresas de 
diferentes atividades estão tentando se adaptar 
a essa nova realidade, e atender a essa nova 
busca do consumidor. 
A atuação empresarial, em relação 
aos consumidores, também deve ser orientada 
pelo princípio da função social. O Código de 
Defesa do Consumidor determina a 
responsabilidade empresarial pela prestação de 
serviços e pela qualidade dos produtos, 
reconhecendo a função social da empresa ao 
estabelecer finalidades sociais e proteção aos 
interesses do consumidor (CDC, art.51). 
21 
 
A questão da responsabilidade social 
tem sido tema recorrente no mundo dos 
negócios. Há uma crescente preocupação por 
parte das empresas brasileiras em compreender 
seu conceito e dimensões e incorporá-los à sua 
realidade. Muitas empresas já se mobilizaram 
para a questão e estruturaram projetos voltados 
para uma gestão socialmente responsável, 
investindo na relação ética, transparente e de 
qualidade com todos os seus públicos de 
relacionamento. 
Essas iniciativas, apesar de 
apresentarem resultados positivos, 
representam, na maioria das vezes, ações 
pontuais e desconectadas da missão, visão, 
planejamento estratégico e posicionamento da 
empresa e, consequentemente, não expressam 
um compromisso efetivo para o 
desenvolvimento sustentável. 
Em muitos casos, as empresas 
brasileiras acabaram por associar 
responsabilidade social à ação social, seja pela 
via do investimento social privado, seja pela 
via do estímulo ao voluntariado. Esse viés de 
contribuição, embora relevante, quando tratado 
de maneira isolada, coloca o foco da ação fora 
da empresa e não tem alcance para influenciar 
a comunidade empresarial a um outro tipo de 
contribuição, extremamente importante para a 
sociedade: a gestão dos impactos ambientais, 
econômicos e sociais provocados por decisões 
estratégicas, práticas de negócio e processos 
operacionais. Para que se compreenda esta 
abordagem mais ampla, que podemos chamar 
de sustentabilidade empresarial é necessário 
que se conheça previamente o conceito de 
desenvolvimento sustentável. 
O conceito de responsabilidade 
social empresarial traz, ainda, a questão da 
relação da empresa com seus diversos públicos 
de interesse, conforme expresso na definição 
do Instituto Ethos: “Responsabilidade social 
empresarial é a forma de gestão que se define 
pela relação ética e transparente da empresa 
com todos os públicos com os quais ela se 
relaciona e pelo estabelecimento de metas 
empresariais compatíveis com o 
desenvolvimento sustentável da sociedade, 
preservando recursos ambientais e culturais 
para as gerações futuras, respeitando a 
diversidade e promovendo a redução das 
desigualdades sociais”. 
Dito de outra maneira espera-se cada 
vez mais que as organizações sejam capazes de 
reconhecer seus impactos ambientais, 
econômicos e sociais e, a partir desse pano de 
fundo, construam relacionamentos de valor 
com os seus diferentes públicos de interesse, os 
chamados stake-holders – público interno, 
fornecedores, clientes, acionistas, comunidade, 
governo e sociedade, meio ambiente, entre 
outros. Embora já haja diversos exemplos de 
práticas de gestão socialmente responsável, a 
inserção da sustentabilidade e responsabilidade 
social às práticas diárias de gestão ainda 
representa um grande desafio para grande parte 
da comunidade empresarial brasileira. A 
associação desses conceitos à gestão dos 
negócios deve necessariamente expressar o 
compromisso efetivo de todos os escalões da 
empresa, de forma permanente e estruturada. 
Do exposto conclui-se que, diante da 
nova ordem constitucional, toda empresa 
deve pautar sua atuação de acordo com o 
Princípio da Função Social da Empresa, não 
visando unicamente o lucro, mas também o 
atendimento dos interesses socialmente 
relevantes, buscando um equilíbrio da 
economia de mercado com a supremacia dosinteresses sociais previstos na Constituição 
Federal. (Artigo adaptado pelo prof. Altamir 
Fernandes) 
fonte<http://direito.newtonpaiva.br/revistadire
ito/docs/convidados/13_convidado_bruna.pdf 
 
 
2º texto: O homem e a Cultura 
 
A cultura: definições, cultura popular, 
cultura erudita e indústria cultural 
A origem da palavra CULTURA 
* Uma definição da cultura é difícil, porque a 
cultura pode ser estudada de vários pontos de 
vista. 
* primeiro significado da palavra cultura na 
tradição romana. A palavra cultura é latina e 
sua origem é o verbo colere. Colere 
significava, na língua romana mais antiga, “eu 
cultivo”; particularmente, “eu cultivo solo”. A 
primeira acepção de colere estava ligada ao 
mundo agrário. Os romanos começaram 
efetivamente pela agricultura. A palavra 
agricultura diz muito: “cultura do campo”. 
22 
 
* Inicialmente, a palavra cultura, por ser um 
derivado de colo, significava, rigorosamente, 
“aquilo que deve ser cultivado”. 
* Esse significado relacionado com a 
sociedade agrária, durou séculos; até que os 
romanos conquistaram a Grécia (146 a.C.) e 
foram em parte helenizados. E os gregos 
tinham já uma palavra para o desenvolvimento 
humano, que era Paideia. 
* Paideia significava, inicialmente, o conjunto 
de conhecimentos que se devia transmitir às 
crianças – paidós (criança é paidós); mais 
tarde era o "processo de educação em sua 
forma verdadeira, a forma natural e 
genuinamente humana" na Grécia antiga, ou 
seja, a ampliação do conceito fez com que ele 
passasse também a designar o resultado do 
processo educativo que se prolonga por toda 
vida, muito para além dos anos escolares. 
* Mas, conhecendo a palavra Paideia e não 
querendo usá-la porque era uma palavra 
estrangeira, os romanos passaram a traduzi-la 
por cultura. A palavra cultura passou do 
significado puramente material que tinha em 
relação à vida agrária para um significado 
intelectual, moral, que significa conjunto de 
ideias e valores. 
* Se tivéssemos que definir a palavra a partir 
dessas considerações, teríamos uma riqueza de 
possibilidades, porque a cultura, pensada 
como um conjunto de ideias, valores e 
conhecimentos, traz dentro de si, em 
primeiro lugar, a dimensão do passado. A 
primeira ideia que temos quando falamos em 
cultura é a de transmissão de conhecimentos 
e valores de uma geração para outra, de 
uma instituição para outra, de um país para 
outro; subsiste sempre a ideia de algo que já 
foi estabelecido em um passado – que pode ser 
um passado próximo ou um passado remoto. 
 Dois são os significados iniciais da 
noção de cultura: 
01 – De acordo com o sociólogo Raymond 
Williams, a palavra cultura vinda do verbo 
latino colere, que significa cultivar, criar, 
tomar conta e cuidar. Cultura significa o 
cuidado do homem com a natureza. Donde: 
agricultura. Significava, também, cuidado 
dos homens com os deuses. Donde: culto. 
Significava ainda, o cuidado com a alma e o 
corpo das crianças, com sua educação e 
formação. Donde: puericultura (em latim, 
puer significa menino; puera, menina), ou 
seja, conjunto de noções e técnicas voltadas 
para o cuidado médico, higiênico, nutricional, 
psicológico etc., das crianças pequenas, da 
gestação até quatro ou cinco anos de idade. 
 A cultura é o aprimoramento da 
natureza humana pela educação em sentido 
amplo, isto é, como formação das crianças 
não só pela alfabetização, mas também pela 
iniciação à vida da coletividade por meio do 
aprendizado da música, dança, ginástica, 
gramática, poesia, história, filosofia, etc. A 
pessoa culta era a pessoa moralmente 
virtuosa, politicamente consciente e 
participante, intelectualmente desenvolvida 
pelo conhecimento das ciências, das artes e da 
filosofia. É este sentido que leva muitos, ainda 
hoje, a falar em “cultos” e “incultos”. 
 
02 – A partir do século XVIII, cultura passa a 
significar os resultados daquela formação ou 
educação dos seres humanos, resultados 
expressos em obras, feitos, ações e instituições: 
as artes, as ciências, a Filosofia, os ofícios, a 
religião e o Estado. Foi na Europa, a partir do 
século XVIII, que o conceito de cultura 
passou a ser associado ao conceito de 
civilização. 
No correr da história do ocidente, no 
século XVIII, com a Filosofia da Ilustração, 
a palavra cultura ressurge, mas como 
sinônimo de outro conceito, torna-se sinônimo 
de civilização. Sabemos que civilização 
deriva-se de ideia de vida civil, portanto, de 
vida política e de regime político. Com o 
Iluminismo, a cultura é o padrão ou o critério 
que mede o grau de civilização de uma 
sociedade. Assim, a cultura passa a ser 
encarada como um conjunto de práticas 
(artes, ciências, técnicas, filosofia, os ofícios) 
que permite avaliar e hierarquizar o valor dos 
regimes políticos, segundo um critério de 
evolução. No conceito de cultura introduz-se 
a ideia de tempo, mas de um tempo muito 
preciso, isto é, contínuo, linear e evolutivo, de 
tal modo que pouco a pouco, cultura torna-se 
sinônimo de progresso. Avalia-se o progresso 
de uma civilização pela sua cultura e avalia-se 
a cultura pelo progresso que traz a uma 
civilização. 
23 
 
 Civilização X Barbárie 
Civilização 
 sistema de normas, de paradigma a ser 
tomado como modelo 
 conjunto de aspectos peculiares à vida 
intelectual, artística, moral e material 
de uma época, de uma região, de um 
país ou de uma sociedade 
 Antiguidade – os gregos se viam 
como os únicos civilizados e os não-
helênicos eram considerados 
“bárbaros” por não falarem grego 
 Neocolonialismo europeu (XIX) – 
potências julgavam-se superiores aos 
povos colonizados – aspectos técnico 
e científico, ético – enquanto os 
demais “fósseis vivos” estavam 
mergulhados na barbárie. 
 Missão Civilizatória – White man’s 
burden – (dever ou responsabilidade 
do homem branco) - retirar da barbárie 
os infelizes nativos 
 
Barbárie 
 A palavra bárbaro é de origem grega. 
Designava, na Antiguidade, as nações 
não-gregas, consideradas primitivas, 
incultas, atrasadas e brutais 
 O termo “barbárie” para Lowy, tem 
dois significados distintos, mas 
ligados: “falta de civilização” e 
“crueldade de bárbaro” 
 Segundo Adorno, a barbárie é a 
agressividade primitiva humana, os 
impulsos de destruição, ou seja, é um 
ato considerado desumano porque não 
respeita os fundamentais valores 
conquistados no campo da ética, do 
direito, da ciência, da democracia 
pluralista e da própria organização 
social. 
 
 O conceito iluminista de cultura, 
profundamente político e ideológico, reaparece 
no século XIX, quando se constitui um ramo 
das ciências humanas, a antropologia. No 
início da constituição da antropologia, os 
antropólogos guardarão o conceito iluminista 
de evolução ou progresso. Por tornarem a 
noção de progresso como medida de cultura, 
os antropólogos estabeleceram um padrão 
para medir a evolução ou o grau de progresso 
de uma cultura e esse padrão foi, 
evidentemente, o da Europa capitalista. As 
sociedades passaram a ser avaliadas segundo a 
presença ou a ausência de alguns elementos 
que são próprios do ocidente capitalista e a 
ausência desses elementos foi considerada 
sinal de falta de cultura ou de uma cultura 
pouco evoluída. Que elementos são esses? O 
Estado, o mercado e a escrita. Todas as 
sociedades que desenvolvessem formas de 
troca, comunicação e poder diferentes do 
mercado, da escrita e do Estado europeu, foram 
definidas como culturas “primitivas”. Em 
outras palavras,foi introduzido um conceito de 
valor para distinguir as formas culturais. 
 Para os filósofos Voltaire (1694 - 
1778) e Kant (1724 - 1804), cultura e 
civilização representavam ambas, o processo 
de aperfeiçoamento moral e racional da 
sociedade, sendo a cultura a forma de avaliar 
o estágio de progresso e desenvolvimento de 
uma civilização. 
 
Cultura e Antropologia 
 
A antropologia é uma ciência social 
surgida no século XVIII. Porém, foi somente 
no século XIX que se organizou como 
disciplina científica. A palavra tem o seguinte 
significado: antropo=homem e logia=estudo. 
 A antropologia, como ciência, 
desenvolveu-se principalmente a partir do 
século XVIII com a expansão colonial 
europeia. Novos territórios vinham sendo 
descobertos e ocupados pelas potências 
europeias (principalmente a Inglaterra) e 
novos povos (considerados primitivos, quando 
comparados com a sociedade ocidental) eram 
contactados. Era preciso conhecer e 
compreender seus hábitos, costumes e valores, 
principalmente para melhor dominá-los. A 
antropologia surgiu, como se pode deduzir, 
como consequência da política imperialista e 
com o intuito de auxiliá-la. Ao longo do 
tempo, porém, a atuação dos antropólogos 
desenvolveu-se de maneira mais 
independente e num sentido muitas vezes 
oposto ao que deles se exigia. 
 
Estudo antropológico 
 
Esta ciência estuda, principalmente, 
os costumes, crenças, hábitos e aspectos físicos 
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dos diferentes povos que habitaram e habitam 
o planeta. 
Portanto, os antropólogos estudam a 
diversidade cultural dos povos. Como cultura, 
podemos entender todo tipo de manifestação 
social. Modos, hábitos, comportamentos, 
folclore, rituais, crenças, mitos e outros 
aspectos são fontes de pesquisa para os 
antropólogos. 
 Nas últimas décadas, o estudo do 
“outro” (outros povos, suas crenças e 
costumes) passa a se desenvolver no sentido 
político de mostrar que diferenças culturais 
não significam inferioridade nem justificam 
a dominação. Por essa razão, a antropologia 
ajudou a desqualificar o etnocentrismo (isto 
é, a tendência a valorizar a própria cultura, 
tomando-a como parâmetro para avaliar as 
demais, ocorre quando um determinado 
indivíduo ou grupo de pessoas, que têm os 
mesmos hábitos e caráter social, discrimina 
outro, julgando-se melhor, seja pela sua 
condição social, pelos diferentes hábitos) e a 
admitir o relativismo cultural. Para ela, cada 
sociedade possui o direito de se desenvolver de 
modo autônomo, não existindo uma teoria 
sobre a humanidade que possua alcance 
universal, e que seja capaz de impor-se a 
outras, com base em qualquer tipo de 
superioridade. 
 A lei humana é um imperativo social 
que organiza toda a vida dos indivíduos e da 
comunidade, determinando o modo como são 
criados os costumes, como são transmitidos de 
geração a geração, como fundam as 
instituições sociais (religião, família, formas 
do trabalho, guerra e paz, distribuição das 
tarefas, formas do poder, etc). A lei não é uma 
simples proibição para certas coisas e 
obrigação para outras, mas é a afirmação de 
que os humanos são capazes de criar uma 
ordem de existência que não é simplesmente 
natural (física, biológica). Esta ordem é a 
ordem simbólica. 
 Quando dizemos que a cultura é a 
invenção de uma ordem simbólica, estamos 
dizendo que nela e por ela os humanos 
atribuem à realidade significações novas por 
meio das quais são capazes de se relacionar 
com o ausente: pela palavra, pelo trabalho, 
pela memória, pela diferenciação do tempo 
(passado, presente, futuro), pela diferenciação 
do espaço (próximo, distante, grande, 
pequeno, alto, baixo), pela diferenciação 
entre o visível e o invisível (os deuses, o 
passado, o distante no espaço) e pela 
atribuição de valores às coisas e aos homens 
(bom, mau, justo, injusto, belo, feio, 
verdadeiro, falso, possível, impossível). 
 Comunicação (por palavras, gestos, 
sinais, escrita, monumentos), trabalho 
(transformação da natureza), determinação de 
regras e normas para a realização do desejo, 
percepção da morte e doação de sentido a ela, 
percepção da diferença sexual e doação de 
sentido a ela, interdições e punição das 
transgressões, determinação da origem e da 
forma de poder legítimo e ilegítimo, criação 
de formas expressivas para a relação com o 
outro com o tempo (dança, música, rituais, 
guerra e paz, pintura, escultura, construção da 
habitação, culinária, tecelagem, vestuário, 
etc) são as principais manifestações do 
surgimento da cultura. 
 
 Em termos antropológicos, podemos 
então, definir a cultura como tendo três 
sentidos principais: 
 
 Criação da ordem simbólica da lei, 
isto é, de sistemas de interdições e 
obrigações estabelecidos a partir da 
atribuição de valores a coisas (boas, 
más, perigosas, sagradas, diabólicas), 
a humanos e suas relações (diferença 
sexual e proibição do incesto, 
virgindade, fertilidade, puro-impuro, 
virilidade; diferença etária e forma de 
tratamento dos mais velhos e mais 
jovens; diferença de autoridade e 
formas de relação com o poder, etc) e 
aos acontecimentos (significado da 
guerra, da peste, da fome, do 
nascimento e da morte, obrigação de 
enterrar os mortos, proibição de ver o 
parto, etc); 
 A criação de uma ordem simbólica da 
linguagem, do trabalho, do espaço, do 
tempo, do sagrado e do profano, do 
visível e do invisível. Os símbolos 
surgem tanto para representar 
quanto para interpretar a realidade, 
dando-lhe sentido pela presença do 
humano no mundo; 
 Conjunto de práticas, 
comportamentos, ações e instituições 
pelas quais os humanos se relacionam 
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entre si e com a natureza e dela se 
distinguem, agindo sobre ela ou 
através dela, modificando-a. Este 
conjunto funda a organização social, 
sua transformação e sua transmissão 
de geração a geração. 
 Em sentido antropológico, não 
falamos em cultura no singular, mas em 
culturas, no plural, pois a lei, os valores, as 
crenças, as práticas e instituições variam de 
formação social para formação social. 
 Assim, compreendemos que a 
cultura é a maneira pela qual os humanos se 
humanizam por meio de práticas que criam 
a existência social, econômica, política, 
religiosa, intelectual e artística. 
 A religião, a culinária, o vestuário, o 
mobiliário, as formas de habitação, os hábitos 
à mesa, as cerimônias, o modo de relacionar-
se com os mais velhos e os mais jovens, com 
os animais e com a terra, os utensílios, as 
técnicas, as instituições sociais (como a 
família) e políticas (como o Estado), os 
costumes diante da morte, a guerra, o trabalho, 
as ciências, a Filosofia, as artes, os jogos, as 
festas, os tribunais, as relações amorosas, as 
diferenças sexuais e étnicas, tudo isso constitui 
a cultura como invenção da relação com o 
outro. 
O mundo cultural é um sistema de 
significados já estabelecidos por outros, de 
modo que, ao nascer, a criança encontra o 
mundo de valores já dados, onde ela vai se 
situar. A língua que aprende, a maneira de se 
alimentar, o jeito de se sentar, andar, correr, 
brincar, o tom da voz nas conversas, as 
relações familiares; tudo, enfim, se acha 
codificado. Até na emoção, que nos parece 
uma manifestação tão espontânea, ficamos à 
mercê de regras que educam desde a infância a 
nossa expressão. 
 
Etnocentrismo 
 
 Todas as culturas têm um padrão de 
comportamento próprio, que parece estranho 
a pessoas de outros contextos culturais. Se já 
viajou ao estrangeiro, é lhe provavelmentefamiliar a sensação resultante de se encontrar 
inserido numa cultura nova. Certos aspectos 
da vida cotidiana que, em determinada 
cultura, são inconscientemente tomados como 
assentes podem, em outras partes do mundo, 
não fazer parte do dia a dia. Mesmos países que 
partilham a mesma língua podem ter hábitos, 
costumes e modos de comportamento bem 
diferentes. A expressão choque cultural é 
adequada. É frequente as pessoas sentirem-se 
desorientadas, quando se inserem numa cultura 
nova, pois perdem os pontos de referência que 
lhes são familiares e que ajudam a entender o 
mundo que as rodeia e ainda não aprenderam a 
orientar-se na nova cultura. 
 As culturas podem ser 
extremamente difíceis de entender quando 
vistas de fora. Não é possível compreender 
crenças e práticas se as separamos das culturas 
de que fazem parte. Uma cultura tem de ser 
estudada segundo os seus próprios 
significados e valores – um pressuposto 
essencial da Sociologia. Esta ideia é também 
conhecida como relativismo cultural. Os 
sociólogos esforçam-se o mais possível por 
evitar o etnocentrismo, que consiste em julgar 
as outras culturas tomando como medida de 
comparação a nossa. Dada a ampla variação 
das culturas humanas, não é surpreendente que 
as pessoas provenientes de uma cultura achem 
frequentemente difícil aceitar as ideias ou o 
modo de comportamento das pessoas de uma 
diferente. 
 
Conclusão: a cultura como conceito 
antropológico 
 
 O antropólogo inglês Edward Tylor 
(1832-1917) reuniu sob a palavra inglesa 
culture os sentidos que, entre finais do século 
XVII e começos do XIX, costumavam estar 
contidos na palavra alemã Kultur (aspectos 
espirituais de uma comunidade) e na palavra 
francesa civilization (realizações materiais de 
um povo). Tylor definiu cultura como um 
“todo complexo que inclui conhecimentos, 
crenças, arte, moral, leis, costumes ou 
qualquer outra capacidade ou hábitos 
adquiridos pelo homem como membro de 
uma sociedade”. Nessa ampla definição, Tylor 
incorporava todas as possibilidades de 
realização humana e enfatizava o aspecto de 
aprendizado da cultura (em oposição à ideia de 
transmissão genética dos conhecimentos). O 
aprendizado pressupunha, evidentemente, as 
ideias de comunicação e linguagens 
(fundamentais para a transmissão, manutenção 
e transformação culturais). 
 A manutenção da sociedade decorria 
das relações entre os homens e entre os homens 
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e a natureza. Essas relações estariam 
registradas nas normas, regras, imagens, 
mitos, ritos e discursos – elementos que 
poderíamos chamar de representações 
simbólicas. Todos esses elementos são 
socialmente construídos e relacionados à 
própria existência da sociedade. 
 
CULTURA POPULAR versus CULTURA 
ERUDITA 
 
 O que seria erudito? O que seria 
popular? A que grupo ou classe social 
poderíamos associar cada um desses 
conceitos? 
 O “popular“ relaciona-se ao povo; o 
“erudito” (conhecimento ou cultura variada, 
adquiridos por meio da leitura, às elites. Essa 
seria, sem dúvida, a associação mais imediata 
a ser feita com esses conceitos. 
 Mas como defini-las e distingui-las? 
Há autores que dizem já não ser possível 
pensar em cultura puramente popular ou 
puramente erudita, numa sociedade como a 
nossa, integrada e padronizada pela cultura 
de massa ou indústria cultural. Outros autores 
discordam dessa postura, diferenciado não 
duas, mas três culturas, em constante inter-
relação: a cultura popular, a cultura erudita e a 
indústria cultural. 
 Não vivemos em uma sociedade 
homogênea, toda produção cultural está 
sujeita a avaliação que dependem da posição 
social do grupo a que ela pertence. Para 
exemplificar vamos estabelecer algumas 
distinções, considerando as seguintes divisões: 
- A Cultura Erudita é a produção acadêmica 
centrada no sistema educacional, sobretudo na 
universidade, produzida por uma minoria de 
intelectuais. 
- A Cultura Popular é identificada com 
folclore, conjunto das lendas, contos e 
concepções transmitidas oralmente pela 
tradição. É produzida pelo homem do campo, 
das cidades, do interior ou pela população 
suburbana das grandes cidades. 
- A Cultura de Massa é aquela resultante dos 
meios de comunicação de massa. Produzida 
“de cima para baixo”, impondo padrões e 
homogeneíza o gosto. 
Cultura erudita e cultura popular: o que são 
e quem as produz? 
 
 Se quando pensamos em cultura 
erudita é quase automático associá-la ao 
plano da escrita e da leitura, do saber 
universitário, dos debates, da teoria e do 
pensamento científico, definir cultura 
popular não é tão automático assim. Na 
verdade, definir cultura popular representa 
uma polêmica que cientistas sociais, 
historiadores. 
 
A cultura erudita é a produção 
elaborada, acadêmica, centrada no sistema 
educacional, sobretudo na universidade, 
também conhecida como cultura de elite, por 
ser produzida por uma minoria de intelectuais 
das mais diversas especialidades (escritores, 
artistas em geral, cientistas, tecnólogos). 
Com a cultura erudita, são 
produzidas as obras-primas que revolucionam 
os diversos campos do saber e da ação, como 
as descobertas científicas, os novos modos de 
pensar, as técnicas revolucionárias, as grandes· 
obras literárias ou artísticas em geral, enfim, 
produtos humanos que provocam "cortes" na 
maneira de pensar e agir e que, por isso, se 
tornam clássicos. 
Esse tipo de produção cultural é 
erudito por exigir maior rigor na sua 
elaboração, sendo, por isso mesmo, uma 
produção elitizada, acessível a um público 
restrito (tanto na sua produção como no 
aproveitamento. Afinal, supõe-se que a 
maioria não está interessada em física 
quântica, alta filosofia ou música clássica nem 
se encontra apta a compreender essa produção 
sem longo preparo para tal. 
 Quanto à cultura popular, é 
igualmente impossível dar à cultura popular 
um caráter, consideradas as produções 
culturais diferenciadas de camponeses, 
classes médias baixas e outros setores e 
subsetores sociais marginalizados. Com a 
multinacionalização do capital e com a 
consequente transnacionalização da cultura (na 
globalização), até os grupos étnicos mais 
remotos e as comunidades mais isoladas têm 
que se submeter a um processo de intercâmbio 
econômico, político e cultural com o seu 
entorno, com as instituições governamentais, 
com as estruturas de mercado. 
27 
 
 O historiador inglês Peter Burke 
define a cultura popular como uma cultura 
não oficial, do povo comum. Nesse sentido, o 
autor segue o pensamento de Gramsci, para 
quem a cultura popular é a cultura do povo, e 
os seus produtores são as classes subalternas. 
 
Um pouco de história: como os intelectuais 
descobriram o povo? 
 
 É interessante pensar no surgimento da 
separação entre cultura erudita e cultura 
popular. O historiador Peter Burke observa 
que foi no final do século XVIII e início do 
século XIX que os intelectuais europeus 
passaram a se interessar pelo povo. Visitavam 
as casas e festas dos artesãos e camponeses 
para ouvir e aprender suas estórias e canções. 
Quando pensavam no povo, imaginavam-no 
natural, simples, analfabeto, instintivo, 
irracional, enraizado na tradição e na terra, sem 
nenhum sentido de individualidade. 
Exatamente por isso, queriam conhecê-lo. 
Primeiramente, o povo foi considerado 
exótico, depois passou a ser admirado e até 
mesmo imitado por alguns intelectuais. 
 Esse movimento de valorização do 
povo pelos intelectuais teve razões estéticas, 
intelectuaise também políticas. Passou-se a 
valorizar a simplicidade e o encanto naturais 
que caracterizavam os velhos poemas 
populares e que estavam ausentes da arte 
erudita do período. Esse movimento foi 
também uma reação contra o Iluminismo de 
Voltaire: contra seu elitismo, seu desinteresse 
pela tradição, contra sua ênfase na razão. 
 Outro motivo para que os intelectuais 
europeus se voltassem para o povo foi o 
caráter sociológico que o estudo dos usos e 
costumes foi adquirindo no século XVIII. A 
descoberta de outros povos e a compreensão da 
diversidade de suas crenças e práticas eram um 
desafio fascinante e fizeram com que 
intelectuais franceses, ingleses e italianos 
também se debruçassem sobre o tema. 
 
Cultura popular ou folclore? 
 
 A concepção de cultura popular ou 
folclore que a maioria dos pesquisadores dos 
séculos XVIII e XIX possuía, e que muitos 
possuem até hoje, é de uma manifestação 
tradicional e imutável, livre de interferências 
estrangeiras, próxima da natureza, pura e 
primitiva. 
 A chamada cultura popular já não é 
mais o folclore. Folclore é uma palavra 
cunhada pelos românticos no século XIX e 
significava “a sabedoria do povo”; “Folk” = 
“Povo” e “Lore” é um substantivo inglês, hoje 
muito pouco usado, erudito, que significa 
“sabedoria, conhecimento.” 
 É importante notar a presença de certa 
confusão quando se pensa em cultura popular 
ou em folclore. Existem pesquisadores que 
preferem o termo cultura popular ao termo 
folclore e há outros que não fazem nenhuma 
distinção entre eles. Para Carlos Brandão, a 
ideia de folclore foi-se ampliando, ao longo do 
tempo, e se associando à maneira de viver do 
povo, à sua capacidade de criar e recriar. 
Passou a incorporar não só as festas e ritos, 
mas também o cotidiano e seus produtos: a 
comida, a casa, a vestimenta, os artefatos de 
trabalho. E, nesse sentido – cultura popular e 
folclore – querem dizer a mesma coisa. 
 A expressão cultura popular pode 
ser entendida como uma forma mais moderna 
de designar o folclore. A palavra folclore 
encontra-se desgastada e tem conotações 
pejorativas. A expressão cultura popular, 
como vimos é também discutível. Alguns 
como Canclini (1983), propõem a expressão 
culturas do povo. O conceito de cultura 
popular, criticado, por numerosos cientistas 
sociais, vem sendo hoje largamente utilizado 
no âmbito da História. 
 Quando pensamos em cultura 
popular no Brasil, costumam vir à nossa 
mente, além do carnaval e da Folia de Reis, 
festas como a do Divino, São João, e bumba-
meu-boi; personagens como Negrinho do 
Pastoreio, Mãe-d’água, Curupira, Saci Pererê; 
músicas como samba, maxixe, xaxado, forró, 
sertaneja; literatura como a de cordel, 
adivinhas e ditados populares e o duelo entre 
repentistas; artesanato como vasos de cerâmica 
e barro cozido, carrancas de madeira que são 
colocadas na proa de barcos no norte e no 
nordeste do país, rendas e colchas de retalho 
feitas por mulheres renderias; comidas como 
feijoada, tutu de feijão, quindim, vatapá, 
acarajé... 
 Se tentássemos, por outro lado, reunir 
elementos da cultura erudita no Brasil, 
falaríamos primeiramente da produção 
científica e filosófica das universidades; 
28 
 
depois pensaríamos em toda a reflexão crítica 
que se faz sobre a própria questão cultural. 
Selecionaríamos também a produção literária 
divulgada em livros, lembraríamos de filmes e 
peças de teatro. Teríamos que selecionar a 
poesia de um poeta como Carlos Drummond; 
as obras arquitetônicas de Niemeyer; os 
romances de Guimarães Rosa; a música de 
Villa-Lobos, etc. Mas será realmente possível 
fazer uma seleção tão precisa e definir que 
todas essas produções são completamente 
eruditas? No primeiro caso, seriam produções 
eruditas por terem sido elaboradas nas 
universidades? E, no segundo, seriam 
produções eruditas por sua forma de 
elaboração? Se analisarmos a obra dos 
autores apontados, poderemos ver, no 
entanto, como ela contém uma relação 
intensa e profunda com elementos 
vinculados à cultura popular, à cultura 
nacional. 
 
A INDÚSTRIA CULTURAL OU 
CULTURA DE MASSA 
 A expressão “cultura de massa” foi 
muito usada, principalmente pelos norte-
americanos. Os sociólogos americanos 
criaram a expressão mass culture, que foi 
moeda corrente até os anos 1950. Nos anos 
1950 falava-se em mass communication, mass 
culture, muitos livros traziam esses títulos. 
Mas na Europa, particularmente na Alemanha, 
com a Escola de Frankfurt (Adorno, 
Horkheimer, filósofos marxistas) implantou-se 
uma forte tendência humanista. Estes filósofos 
eram críticos da cultura de massas e eles 
próprios, sobretudo Adorno, julgaram que 
essa expressão era inadequada, porque 
cultura de massas poderia dar a impressão de 
que é uma cultura produzida pelas massas; 
cultura de massas, como se as massas, que são 
alguma coisa anônima, (massas de uma cidade, 
massas de um país – a palavra “massa” já é por 
si anônima) produzissem cultura. 
Indústria cultural 
 Conceito formulado pelos filósofos 
alemães Adorno e Horkheimer, em 
1947. 
 É fruto de uma sociedade capitalista 
industrializada, onde até mesmo a 
cultura é vista como produto a ser 
comercializado. 
 É a exploração com fins econômicos e 
comerciais de bens considerados 
culturais. 
 Tudo que é produzido pelo sistema 
industrializado de produção cultural 
(TV, rádio, jornal, revistas, etc) 
elaborado de forma a influenciar, 
aumentar o consumo, transformar 
hábitos, educar, informar, etc. 
 I.C. tem como único objetivo a 
dependência e a alienação dos homens. 
Ao maquiar o mundo nos anúncios que 
divulga, ela acaba seduzindo as massas 
para o consumo de mercadorias 
culturais. 
 I.C. promove a resignação, manipula 
as distrações, permanece ligada aos 
clichês ideológicos e chavões que 
perpetuam os estereótipos e que são 
repetidas à exaustão. 
 
 Indústria cultural é o nome genérico 
que se dá ao conjunto de empresas e 
instituições cuja principal atividade econômica 
é a produção de cultura, com fins lucrativos 
e mercantis. No sistema de produção cultural 
encaixam-se a TV, o rádio, jornais, revistas, 
entretenimento em geral; que são elaborados 
de forma a aumentar o consumo, modificar 
hábitos, educar, informar, podendo pretender 
ainda, em alguns casos, ter a capacidade de 
atingir a sociedade como um todo. 
 Desde a década de 1990, seis empresas 
transnacionais tomaram conta de 96% do 
mercado mundial de música. No que se refere 
ao cinema a situação é ainda mais chocante. 
Mais de 90% das telas norte-americanas só 
exibem filmes feitos no próprio país. O 
americano comum, portanto, não conhece o 
que se faz no estrangeiro. E o que se produz, na 
verdade, é pouco -- 85% dos filmes exibidos 
em todo o planeta brotam de Hollywood. 
Para o crítico literário e escritor Umberto 
Eco: 
 
01 – Apocalípticos (Adorno e outros): aqueles 
que criticam os MCM. 
02 – Integrados (McLuhan): aqueles que os 
elogiam. 
29 
 
 
Entre os motivos para a crítica dos MCM: 
a) veiculação que eles realizam de uma 
cultura homogênea (que desconsidera 
as diferenças culturais). 
b) O estímulo publicitário 
c) A sua definição como simples lazer e 
entretenimento, não encorajando o 
público a pensar, tornando-o passivo e 
conformista. 
d) MCM: instrumentos para controle e 
manutenção do capitalismo 
 
Entre os motivos para elogiar os MCM: 
a) MCM: única fonte de informação 
possível para uma parcela significativa 
da população. 
b) Informações veiculadaspor eles 
podem contribuir para a formação 
intelectual e política. 
 
 Para a filósofa Marilena Chauí, a 
indústria cultural vende cultura. Para vendê-la, 
deve seduzir e agradar o consumidor. Para 
seduzi-lo e agradá-lo, não pode chocá-lo, 
provocá-lo, fazê-lo pensar, fazê-lo ter 
informações novas que o perturbem, mas deve 
devolver-lhe, com nova aparência, o que ele já 
sabe, já viu, já fez. A “média” é o senso comum 
cristalizado que a indústria cultural devolve 
com cara de coisa nova. 
 Ela define a cultura como lazer e 
entretenimento, diversão e distração, de modo 
que tudo o que nas obras de arte e de 
pensamento significa trabalho da 
sensibilidade, da imaginação, da inteligência, 
da reflexão e da crítica não tem interesse, não 
“vende”. Massificar é, assim, banalizar a 
expressão artística e intelectual. Em lugar de 
difundir e divulgar a cultura, despertando 
interesse por ela, a indústria cultural realiza a 
vulgarização das artes e dos conhecimentos. 
 
 É dentro deste contexto que ele 
formula o conceito de Indústria Cultural que 
ocorre, pela primeira vez, em 1947, na obra 
Dialética do Iluminismo, escrita em parceria 
com Horkheimer, na qual defende que o 
Iluminismo, tido como um esforço consciente 
de valorização da razão . 
 A publicidade é, hoje, um exemplo 
forte da Indústria Cultural porque ambas estão 
fundidas. A função de um publicitário é fazer 
com que o consumidor compre aquilo que ele 
não precisa com o dinheiro que ele não tem; 
ele, de fato, consegue cumpri-la: quando 
produz uma propaganda, já sabe qual público 
atingir porque pesquisou, anteriormente, suas 
necessidades (que foram construídas por ele 
próprio). Deste modo, o consumidor é o objeto 
da Indústria Cultural. A Indústria Cultural 
extermina o que é particular, nega a 
particularização, seja a cor, a composição, a 
arquitetura. 
 O que a Indústria Cultural fornece, de 
fato, é a vida cotidiana, a verdadeira imagem 
do mundo tal qual ela se apresente; ela 
promove a resignação que se quer esquecer 
nela, estraga o prazer, manipula as distrações, 
permanece voluntariamente ligada aos clichês 
ideológicos da cultura em vias de liquidação, 
defende e justifica a arte física em confronto 
com a arte espiritual, não tem substância e 
despersonaliza o humano contra o mecanismo 
social. 
 O melhor sinônimo para Indústria 
Cultural é, hoje, a globalização: processo de 
aceleração capitalista que vem ocorrendo 
desde a Pré-história, mas que só recentemente 
ganhou a velocidade da luz; pode criar uma 
civilização genuinamente transnacional 
alimentada pela exposição à tecnologia e pelas 
mesmas fontes de informação; possui um 
tremendo potencial para solucionar os 
problemas do homem contemporâneo e pode 
criar riquezas num ritmo alucinante; 
Arte, Indústria Cultura e Educação 
 Quando a Indústria Cultural privilegia 
um produto pseudo-artístico padronizado, 
calculado tecnicamente para surtir efeitos 
determinados de modo a serem por todos 
desejados e repetidos, na forma e na medida 
adequados a garantir o poder e o lucro do 
sistema dominante. 
 Como consequência dessa 
massificação, podemos considerar que o fato 
de se ter acesso somente à cultura de massa 
acaba por não permitir ao indivíduo a 
aquisição do conhecimento de outros aspectos 
culturais que expressam a cultura do povo, seus 
valores e suas lutas. Em nosso entender, a 
música é a expressão do pensar e do sentir das 
pessoas de uma determinada época. Além de 
proporcionar prazer, ela também pode 
informar e conscientizar. Portanto, para nós, 
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esta postura de consumo significa estar à 
margem da cultura como um todo. 
 Adorno considera que a Indústria 
Cultural prostitui os valores estéticos da arte, 
dando-lhe uma falsa imagem. A música 
tornou-se um fundo convencionalmente 
necessário e repetitivo. O público a escuta de 
forma infantil ou não a escuta. Vemos que essa 
crítica é muito atual quando sintonizamos 
qualquer emissora de rádio ou de televisão 
preocupadas, tão somente, com o sentido 
mercadológico da arte musical. Os ritmos e as 
letras das músicas são sempre idênticos, não 
acrescentando absolutamente nada à nossa 
formação cultural e como pessoa. 
 As implicações da chamada "música 
de mercado" influenciam, tanto no aspecto 
cultural como no social, a formação das 
crianças. De maneira especial, seduzem-nas 
pela sensualidade das danças e das letras 
musicais, acarretando um desenvolvimento 
precoce de aspectos da sexualidade que 
atropelam, de alguma forma, seu 
desenvolvimento afetivo. Isso sem falar em 
outros aspectos, pois o vocabulário pobre e 
equivocado de muitas músicas acaba por 
interferir, também, em seu processo de 
desenvolvimento cognitivo. Veja este funk: 
“Mas se liga aí novinha, por favor tu não se 
engane. Abre as pernas e relaxa. Que esse é o 
Bonde do Inhame. Que esse é o Bonde do 
Inhame. Esse é o bonde dos cria que enfogueta 
as novinhas. Esse é o bonde dos cria que 
enfogueta as novinhas. Vai na treta do Nem 
que a Kátia tá também eeemmm. Larga o 
inhame na Silvinha.” 
No dizer de Adorno, a música atual, 
ao invés de entreter, parece contribuir "para o 
emudecimento dos homens, para a morte da 
linguagem como expressão, para a 
incapacidade de comunicação". 
 A música de entretenimento 
preenche os vazios do silêncio que se instalam 
entre as pessoas deformadas pelo medo, pelo 
cansaço e pela docilidade de escravos sem 
exigências. Assume ela em toda parte, e sem 
que se perceba, o trágico papel que lhe 
competia ao tempo e na situação específica do 
cinema mudo. A música de entretenimento 
serve ainda e apenas como fundo. 
Contracultura 
 
Contracultura é um movimento que 
teve seu auge na década de 1960, quando teve 
lugar um estilo de mobilização e 
contestação social e utilizando novos meios de 
comunicação em massa. Jovens inovando 
estilos, voltando-se mais para o antissocial aos 
olhos das famílias mais conservadoras, com 
um espírito mais libertário, resumido como 
uma cultura underground, cultura 
alternativa ou cultura marginal, focada 
principalmente nas transformações 
da consciência, dos valores e do 
comportamento, na busca de outros espaços e 
novos canais de expressão para o indivíduo e 
pequenas realidades do cotidiano, embora o 
movimento Hippie, que representa esse auge, 
almejasse a transformação da sociedade como 
um todo, através da tomada de consciência, da 
mudança de atitude e do protesto político. 
O Festival de Woodstock foi um marco da 
Contracultura. A contracultura pode ser 
definida como um ideário altercador que 
questiona valores centrais vigentes e 
instituídos na cultura ocidental. 
 
 3.3 Multiculturalismo 
 
Hibridismo, diversidade étnica e 
racial, novas identidades políticas e culturais: 
estes são termos diretamente relacionados 
ao multiculturalismo. Se a diversidade 
cultural acompanha a história da humanidade, o 
acento político nas diferenças culturais data da 
intensificação dos processos de globalização 
econômica que anunciam, segundo os analistas, 
uma nova fase do capitalismo, denominada por 
autores como Ernest Mandel de "capitalismo 
tardio" e por outros, como Daniel Bell, de 
"sociedade pós-industrial". A despeito das 
querelas acerca das origens dessa nova fase, o 
fato é que as discussões acerca do 
multiculturalismo acompanham os debates 
sobre o pós-modernismo e sobre os efeitos da 
pós-colonização na cena contemporânea, o que 
se verifica de forma mais evidente a partir dos 
anos 1970, sobretudonos Estados Unidos. A 
globalização do capital e a circulação 
intensificada de informações, com a ajuda de 
novas tecnologias, longe de uniformizar o 
planeta (como propalado por certas 
interpretações fatalistas), trazem a afirmação de 
identidades locais e regionais, assim como a 
31 
 
formação de sujeitos políticos que 
reivindicam, com base em garantias 
igualitárias, o direito à diferença. Mulheres, 
negros (ou afro-americanos), homossexuais, 
populações latino-americanas ("hispanos" ou 
chicanos) e migrantes em geral se fazem 
presentes como atores políticos com 
a marcação de diferenças de gênero, culturais 
e étnicas. A cultura torna-se instrumento de 
definição de políticas de inclusão social - as 
"políticas compensatórias" ou as "ações 
afirmativas" - que tomam os diversos setores da 
vida social. Cotas para minorias, educação 
bilíngue, programas de apoio aos grupos 
marginalizados, ações antirracistas e 
antidiscriminatórias são experimentadas em 
toda parte. 
 
Primeiro, é conveniente esclarecer as 
diferenças entre multiculturalismo, pluralismo, 
universalismo e relativismo. O pluralismo é 
uma característica de sociedades livres, em que 
há a convivência pacífica e respeitosa entre 
pensamentos diferentes, atualmente encontrada 
nos Estados Democráticos de Direito. Não se 
pode falar em um pensamento melhor que outro, 
pois todos são dignos de respeito. O pluralismo 
combate o pensamento único, o que contraria 
uma das tendências do processo de globalização. 
O fenômeno da globalização não admite 
diálogo ou outra opção; se é universal, não pode 
ser local. Não existe alternativa possível, o 
mundo deve ser unipolar. Pauta-se por uma ética 
individualista, mas sem liberdade para o 
indivíduo seguir qualquer plano de vida. Há um 
único modelo a ser seguido. A globalização 
como projeto político e econômico transmuta-se 
no neoliberalismo (democracia + livre 
mercado) e repercute na seara dos direitos 
humanos com o plano de diminuição dos direitos 
sociais, econômicos e culturais, bem como com 
a sobrevalorização dos direitos de propriedade. 
Não existem mais pessoas ou cidadãos, mas 
clientes. O projeto político mundial é conduzido 
conforme interesse de grandes multinacionais ou 
transnacionais. 
 
No multiculturalismo, existe a 
convivência em um país, região ou local de 
diferentes culturas e tradições. Há uma mescla 
de culturas, de visões de vida e valores. O 
multiculturalismo é pluralista, como já se pode 
observar, pois aceita diversos pensamentos 
sobre um mesmo tema, abolindo o pensamento 
único. Há o diálogo entre culturas diversas para 
a convivência pacífica e com resultados 
positivos a ambas. 
 
O problema reside no fato de que o 
multiculturalismo pode ser abordado de 
forma relativista e de forma universalista. Há 
a abordagem relativista quando não se 
estabelecem critérios mínimos para o diálogo 
entre culturas, isto é, tudo é aceito e tudo é 
correto. O julgamento interno é mais importante 
do que o julgamento externo (da sociedade 
internacional). Nessa concepção do 
multiculturalismo, não se pode falar em direitos 
humanos universais, pois cada cultura é livre 
para estabelecer seus próprios valores e direitos. 
Não existe a possibilidade de proteção 
internacional dos direitos humanos nessa visão. 
 
O multiculturalismo também pode 
ser universalista, ou seja, permitir a propagação 
e convívio de diferentes ideias, desde que esteja 
estabelecido um denominador mínimo, comum 
entre as partes para o início do diálogo (valores 
universais). Esse mínimo a ser respeitado são os 
direitos humanos. 
No multiculturalismo universalista, 
pode-se defender o caráter geral da Declaração 
Universal de Direitos Humanos (para todos, em 
qualquer nação, em qualquer tempo). Esta seria 
a base para o convívio entre os povos. Imaginem 
se em um condomínio não existissem regras de 
convivência, sobre como possuir animais, sobre 
como jogar o lixo fora, sobre os horários de 
festas etc. Imaginem se todas as atitudes de 
quaisquer moradores fossem aceitas. 
Provavelmente, os conflitos seriam maiores. 
Como realizar intervenções humanitárias? No 
relativismo o peso da soberania ganha novo 
fôlego na sociedade internacional, podendo 
justificar inação dos agentes globais e graves 
violações aos direitos humanos. 
Assim, a defesa dos direitos 
humanos universais é compatível com o 
pluralismo e com o multiculturalismo 
universalista, mas é totalmente inviável em um 
ambiente de multiculturalismo relativista. 
Pode-se dizer que é uma visão ocidental e 
limitada, mas não vejo possibilidade em 
conciliar toda e qualquer prática em nosso 
mundo. Não consigo ver como aceitável ou 
com a possibilidade de me adaptar à 
circuncisão feminina em diversos países da 
África do Norte, à discriminação feminina em 
32 
 
diversos países, a sacrifícios humanos etc. O 
direito à diferença e o respeito às tradições 
culturais devem ter um limite, e este limite são 
os direitos humanos. 
 
História e Cultura Afro-Brasileira e 
Indígena 
 
 A força da cultura dos negros e 
indígenas pode ser vista em todos os momentos 
cotidianos da vida. Nos seus modos diversos de 
falar, andar, comer, orar, celebrar e brincar, 
estão inscritas as marcas civilizatórias desses 
povos que, ancorados na dimensão do sagrado, 
celebram e respeitam a vida e a morte, 
mantendo uma relação ética com a natureza. É 
através destas formas cotidianas de se 
expressar e de ver o mundo que indígenas e 
afro-brasileiros têm resistido culturalmente na 
manutenção de sua história. 
 A importância de crianças e 
adolescentes, independente da raça, etnia ou 
cor da pele, serem estimuladas a reconhecer e 
valorizar as identidades culturais da sua região 
– que podem estar presentes em quilombos, 
terreiros, aldeias, bairros populares, 
assentamentos e outros territórios – é que elas 
podem se orgulhar de que a cultura da sua 
localidade integra a diversidade que 
caracteriza a cultura brasileira. 
 
Educação, relações étnico-raciais e a Lei 
10.639/03 
 
A Lei nº 10.639/03 estabelece a 
obrigatoriedade do ensino da história e 
cultura afro-brasileiras e africanas nas 
escolas públicas e privadas do ensino 
fundamental e médio. É nesse mesmo 
contexto que foi aprovado, em 2009, o Plano 
Nacional das Diretrizes Curriculares Nacionais 
para a Educação das Relações Étnico-Raciais e 
para o Ensino de História e Cultura Afro-
Brasileira e Africana. 
Ele se insere em um processo de luta 
pela superação do racismo na sociedade 
brasileira e tem como protagonistas o 
Movimento Negro e os demais grupos e 
organizações partícipes da luta antirracista. 
Revela também uma inflexão na postura do 
Estado, ao pôr em prática iniciativas e 
práticas de ações afirmativas na educação 
básica brasileira, entendidas como uma forma 
de correção de desigualdades históricas que 
incidem sobre a população negra em nosso 
país. 
É sabido o quanto a produção do 
conhecimento interferiu e ainda interfere na 
construção de representações sobre o negro 
brasileiro e, no contexto das relações de poder, 
tem informado políticas e práticas tanto 
conservadoras quanto emancipatórias no trato 
da questão étnico-racial e dos seus sujeitos. No 
início do século XXI, quando o Brasil revela 
avanços na implementação da democracia e 
na superação das desigualdades sociais e 
raciais, é também um dever democrático da 
educação escolar e das instituições públicas 
e privadas de ensino a execuçãode ações, 
projetos, práticas, novos desenhos 
curriculares e novas posturas pedagógicas 
que atendam ao preceito legal da educação 
como um direito social e incluam nesse o 
direito à diferença. 
A referida determinação da Lei de 
Diretrizes e Bases da Educação visa, educar a 
todos os brasileiros e brasileiras para que 
conheçam, respeitem e valorizem uma das 
raízes fundadoras de sua cultura e 
nacionalidade, a africana. O que precisa ser 
mudada não é a imagem dos negros, mas a 
imagem negativa que a sociedade criou e 
fomenta como se fosse própria deles. Uma 
imagem que muitos brasileiros, que pretendem 
manter privilégios e direitos para si próprios e 
seus grupos originários, cultivam, tentando 
fazer com que todos partilhem do ideal de fazer 
do Brasil uma nação monocultural, de raiz 
predominantemente europeia. 
Os sistemas de ensino e as escolas de 
diferentes níveis da educação – infantil ao 
superior – são espaços necessários e 
competentes para combater o racismo e 
discriminações, assegurando, conforme consta 
do Parecer CNE/CP3/2004, “o direito à 
igualdade de condições de vida e cidadania”, 
assim como garantindo “igual direito às 
histórias e culturas que compõem a nação 
brasileira, além do direito de acesso a 
diferentes fontes da cultura nacional a todos os 
brasileiros”. 
É nesse contexto que a referida lei 
pode ser entendida como uma medida de 
ação afirmativa. As ações afirmativas são 
políticas, projetos e práticas públicas e 
privadas que visam à superação de 
desigualdades que atingem historicamente 
determinados grupos sociais, a saber: 
33 
 
negros, mulheres, homossexuais, indígenas, 
pessoas com deficiência, entre outros. Tais 
ações são passíveis de avaliação e têm caráter 
emergencial, sobretudo no momento em que 
entram em vigor. Elas podem ser realizadas por 
meio de cotas, projetos, leis, planos de ação, 
etc. 
É importante desmistificar a ideia de 
que tais políticas só podem ser implementadas 
por meio da política de cotas e que, na 
educação, somente o ensino superior é passível 
de ações afirmativas. Tais políticas possuem 
caráter mais amplo, denso e profundo. Ao 
considerar essa dimensão, a Lei nº 10.639/03 
pode ser interpretada como uma medida de 
ação afirmativa, uma vez que tem como 
objetivo afirmar o direito à diversidade 
étnico-racial na educação escolar, romper 
com o silenciamento sobre a realidade 
africana e afro-brasileira nos currículos e 
práticas escolares e afirmar a história, a 
memória e a identidade de crianças, 
adolescentes, jovens e adultos negros na 
educação básica e de seus familiares. 
Ao introduzir a discussão sistemática 
das relações étnico-raciais e da história e 
cultura africanas e afro-brasileiras, essa 
legislação impulsiona mudanças 
significativas na escola básica brasileira, 
articulando o respeito e o reconhecimento à 
diversidade étnico-racial com a qualidade 
social da educação. Ela altera uma lei 
nacional, a saber, a Lei nº 9.394/96 – Lei de 
Diretrizes e Bases da Educação Nacional 
(LDB) –, incluindo e explicitando nesta que o 
cumprimento da educação enquanto direito 
social passa necessariamente pelo 
atendimento democrático da diversidade 
étnico-racial e por um posicionamento 
político de superação do racismo e das 
desigualdades raciais. É importante 
compreender, então, que a Lei nº 10.639/03 
representa uma importante alteração da LDB, 
por isso, o seu cumprimento é obrigatório para 
todas as escolas e sistemas de ensino. Estamos 
falando, portanto, não de uma lei específica, 
mas, sim, da legislação que rege toda a 
educação nacional. 
Por mais que ainda tenhamos 
resistência em relação ao teor dessa Lei que 
altera a LDB e suas Diretrizes Curriculares, e 
por mais que o seu cumprimento ainda esteja 
aquém do esperado, é preciso reconhecer que a 
sua aprovação tem causado impactos e 
inflexões na educação escolar brasileira, como: 
ações do MEC e dos sistemas de ensino no que 
se refere à formação de professores para a 
diversidade étnico-racial; novas perspectivas 
na pesquisa sobre relações raciais, no 
Brasil; visibilidade à produção de 
intelectuais negros sobre as relações raciais 
em nossa sociedade; inserção de docentes da 
educação básica e superior na temática 
africana e afro-brasileira; ampliação da 
consciência dos educadores de que a questão 
étnico-racial diz respeito a toda a sociedade 
brasileira, e não somente aos negros; e 
entendimento do trato pedagógico e 
democrático da questão étnico-racial como um 
direito. 
 
As relações étnico-raciais 
 
 Todo esse processo e a própria 
existência da Lei nº 10.639/03 se localizam em 
um campo mais complexo e tenso, isto é, o 
contexto das relações étnico-raciais. Mas, 
afinal, o que queremos dizer com o termo 
“relações étnico-raciais” ao pensarmos em 
projetos, políticas e práticas voltadas para a 
implementação da Lei nº 10.639/03 enquanto 
uma alteração da Lei nº 9394/96 – LDB? São 
relações imersas na alteridade e construídas 
historicamente nos contextos de poder e das 
hierarquias raciais brasileiras, nos quais a 
raça opera como forma de classificação 
social, demarcação de diferenças e 
interpretação política e identitária. Trata-se, 
portanto, de relações construídas no processo 
histórico, social, político, econômico e 
cultural. 
Mas o que queremos dizer com os 
conceitos raça e etnia quando os introduzimos 
na reflexão sobre as relações étnico-raciais? 
Nos limites deste artigo, destacaremos alguns 
aspectos considerados principais. O primeiro 
deles se refere à concepção de raça presente 
nesta reflexão. 
Sociólogos, antropólogos, psicólogos 
sociais e educadores, bem como o Movimento 
Negro, quando usam o conceito de raça, não 
o fazem alicerçados na ideia de raças 
superiores e inferiores como originalmente 
foi usado pela ciência no século XIX. Pelo 
contrário, usam-no com uma nova 
interpretação que se baseia na dimensão 
social e política dele. E ainda o empregam 
porque a discriminação racial e o racismo 
34 
 
existentes na sociedade brasileira se dão não 
apenas em razão dos aspectos culturais 
presentes na história e na vida dos 
descendentes de africanos, no Brasil e na 
diáspora, mas também graças à relação que se 
faz entre esses e os aspectos físicos 
observáveis na estética corporal desses 
sujeitos. 
A forma como a raça opera em nossa 
sociedade possibilita, portanto, que militantes 
do Movimento Negro e um grupo de 
intelectuais não abandonem o conceito de raça 
para falar sobre a realidade do negro brasileiro, 
mas o adotem de maneira ressignificada. 
Nesse sentido, rejeitam o sentido biológico 
de raça, já que todos sabem e concordam com 
os avanços da ciência de que não existem raças 
humanas. O conceito de raça é adotado, nessa 
perspectiva, com um significado político e 
identitário construído com base na análise 
do tipo de racismo que existe no contexto 
brasileiro, as suas formas de superação e 
considerando as dimensões histórica e cultural 
a que esse processo complexo nos remete. 
Não podemos negar que, na construção 
das sociedades, na forma como os negros e os 
brancos são vistos e tratados no Brasil, a raça 
tem uma operacionalidade na cultura e na vida 
social. Se ela não tivesse esse peso, as 
particularidades e características físicas não 
seriam usadas por nós para classificar e 
identificar quem é negro e quem é branco no 
Brasil. E mais, não seriam usadas para 
discriminar e negar direitos e oportunidades 
aos negros em nosso país. 
É importante destacarque, nesse 
sentido, as raças são compreendidas como 
construções sociais, políticas e culturais 
produzidas no contexto das relações de 
poder ao longo do processo histórico. Não 
significam, de forma alguma, um dado da 
natureza. É na cultura e na vida social que 
nós aprendemos a enxergar as raças. Isso 
significa que aprendemos a ver as pessoas 
como negras e brancas e, por conseguinte, a 
classificá-las e a perceber suas diferenças no 
contato social, na forma como somos educados 
e socializados a ponto de essas ditas diferenças 
serem introjetadas em nossa forma de ser e ver 
o outro, na nossa subjetividade, nas relações 
sociais mais amplas. Aprendemos, na cultura e 
na sociedade, a perceber as diferenças, a 
comparar, a classificar. Se as coisas ficassem 
só nesse plano, não teríamos tantos 
complicadores. O problema é que, nesse 
mesmo contexto, aprendemos a hierarquizar as 
classificações sociais, raciais, de gênero, entre 
outras. Ou seja, também vamos aprendendo a 
tratar as diferenças de forma desigual. 
O segundo aspecto a destacar, quando 
adotamos a expressão relações étnico-raciais 
para compreender as formas como negros e 
brancos se relacionam em nosso país, refere-
se ao conceito de etnia. Geralmente, aqueles 
que o adotam o fazem por acharem que, se 
falarmos em raça, mesmo que de forma 
ressignificada, acabamos presos ao 
determinismo biológico, o qual já foi abolido 
pela biologia e pela genética. 
É fato que, durante muitos anos, o 
uso do termo raça na área das ciências, da 
biologia, nos meios acadêmicos, pelo poder 
político e na sociedade, de modo geral, esteve 
ligado à dominação político-cultural de um 
povo em detrimento de outro, de nações em 
detrimento de outras, e possibilitou tragédias 
mundiais, como foi o caso do nazismo. A 
Alemanha nazista utilizou-se da ideia de 
raças humanas para reforçar a sua tentativa 
de dominação política e cultural e penalizou 
vários grupos sociais e étnicos que viviam na 
Alemanha e nos países aliados ao ditador 
Hitler, no contexto da Segunda Guerra 
Mundial (1939-1945). 
 
História e Cultura Afro-Brasileira e 
Africana – Determinações 
 
A obrigatoriedade de inclusão de 
História e Cultura Afro-Brasileira e Africana 
nos currículos da Educação Básica trata-se de 
decisão política, com fortes repercussões 
pedagógicas, inclusive na formação de 
professores. Com esta medida, reconhece-se 
que, além de garantir vagas para negros nos 
bancos escolares, é preciso valorizar 
devidamente a história e cultura de seu povo, 
buscando reparar danos, que se repetem há 
cinco séculos, à sua identidade e a seus 
direitos. A relevância do estudo de temas 
decorrentes da história e cultura afro-brasileira 
e africana não se restringe à população negra, 
ao contrário, dizem respeito a todos os 
brasileiros, uma vez que devem educar-se 
enquanto cidadãos atuantes no seio de uma 
sociedade multicultural e pluriétnica, capazes 
de construir uma nação democrática. 
35 
 
Precisa, o Brasil, país multiétnico e 
pluricultural, de organizações escolares em que 
todos se vejam incluídos, em que lhes seja 
garantido o direito de aprender e de ampliar 
conhecimentos, sem ser obrigados a negar a si 
mesmos, ao grupo étnico/racial a que 
pertencem e a adotar costumes, ideias e 
comportamentos que lhes são adversos. E 
estes, certamente, serão indicadores da 
qualidade da educação que estará sendo 
oferecida pelos estabelecimentos de ensino de 
diferentes níveis. 
 Entre a população indígena, a luta 
maior é por uma educação escolar 
diferenciada, que respeite a sua diversidade 
cultural e linguística, garantida pela 
Constituição de 1988 e pela Resolução 03 da 
Câmara de Educação Básica – CEB, de 
novembro de 1999. 
 Segundo o Censo Escolar de 2003, 
existem 149.311 estudantes indígenas que 
frequentam a educação básica no Brasil, em 
mais de 2000 escolas indígenas. 
 Indígenas e afro-brasileiros ainda são 
vistos na escola de forma preconceituosa e 
estereotipada, ou seja, sem respeito a suas 
características étnicas e culturais. Dois 
documentos podem ajudar a comunidade e a 
escola a mudar essa visão, com uma 
abordagem que garanta os direitos 
educacionais e culturais dessas populações. 
 
3º texto - O conhecimento em seus diversos 
aspectos 
 
Introdução 
 
No processo de apreensão da realidade 
do objeto, o sujeito cognoscente pode penetrar 
em todas as esferas do conhecimento: ao 
estudar o homem, por exemplo, pode-se tirar 
uma série de conclusões sobre a sua atuação 
na sociedade, baseada no senso comum ou na 
experiência cotidiana; pode-se analisá-lo como 
um ser biológico, verificando através de 
investigação experimental, as relações 
existentes entre determinados órgãos e suas 
funções; pode-se questioná-lo quanto à sua 
origem e destino, assim como quanto à sua 
liberdade; finalmente, pode-se observá-lo 
como ser criado pela divindade, à sua imagem 
e semelhança, e meditar sobre o que dele dizem 
os textos sagrados. 
 
Apesar da separação metodológica 
entre os tipos de conhecimento popular, 
filosófico, religioso e científico, estas formas 
de conhecimento podem coexistir na mesma 
pessoa: um cientista, voltado, por exemplo, ao 
estudo da física, pode ser crente praticante de 
determinada religião, estar filiado a um sistema 
filosófico e, em muitos aspectos de sua vida 
cotidiana, agir segundo conhecimentos 
provenientes do senso comum. 
 
Ao se falar em conhecimento 
científico, o primeiro passo consiste em 
diferenciá-lo de outros tipos de conhecimento 
existentes. Para tal, analisemos uma situação 
histórica, que pode servir de exemplo. 
 
Desde a Antiguidade, até aos nossos 
dias, um camponês, mesmo iletrado e/ou 
desprovido de outros conhecimentos, sabe o 
momento certo da semeadura, a época da 
colheita, a necessidade da utilização de adubos, 
as providências a serem tomadas para a defesa 
das plantações de ervas daninhas e pragas e o 
tipo de solo adequado para as diferentes 
culturas. Tem também conhecimento de que o 
cultivo do mesmo tipo, todos os anos, no 
mesmo local, exaure o solo. Já no período 
feudal, o sistema de cultivo era em faixas: duas 
cultivadas e uma terceira "em repouso", 
alternando-as de ano para ano, nunca 
cultivando a mesma planta, dois anos seguidos, 
numa única faixa. O início da Revolução 
Agrícola não se prende ao aparecimento, no 
século XVIII, de melhores arados, enxadas e 
outros tipos de maquinaria, mas à introdução, 
na segunda metade do século XVII, da cultura 
do nabo e do trevo, pois seu plantio evitava o 
desperdício de deixar a terra em pousio: seu 
cultivo "revitalizava" o solo, permitindo o uso 
constante. Hoje, a agricultura utiliza-se de 
sementes selecionadas, de adubos químicos, de 
defensivos contra as pragas e tenta-se, até, o 
controle biológico dos insetos daninhos. 
 
Mesclam-se, neste exemplo, dois 
tipos de conhecimento: o primeiro, vulgar ou 
popular, geralmente típico do camponês, 
transmitido de geração para geração por meio 
da educação informal e baseado em imitação e 
experiência pessoal; portanto, empírico e 
desprovido de conhecimento sobre a 
composição do solo, das causas do 
desenvolvimento das plantas, da natureza das 
36 
 
pragas, do ciclo reprodutivo dos insetos etc.; o 
segundo, científico, é transmitido por 
intermédio de treinamento apropriado, sendo 
um conhecimento obtido de modo racional, 
conduzido por meio de procedimentos 
científicos. Visa explicar "por que" e "como"os fenômenos ocorrem, na tentativa de 
evidenciar os fatos que estão correlacionados, 
numa visão mais globalizante do que a 
relacionada com um simples fato - uma cultura 
específica, de trigo, por exemplo. 
 
1. Os quatro tipos de conhecimento 
 
Existem pelo menos quatro tipos 
fundamentais de conhecimento, que são: o 
conhecimento popular (senso comum), 
conhecimento científico, conhecimento 
filosófico e conhecimento religioso 
(teológico). Trujillo (1974, p.11) sistematiza as 
características dos quatro tipos de 
conhecimento: 
 
Conhecimento 
Popular 
Conhecimento 
Científico 
Valorativo Real (factual) 
Reflexivo Contingente (incerto, 
eventual) 
Assistemático Sistemático 
Verificável Verificável 
Falível Falível 
Inexato Aproximadamente 
exato 
 
 
Conhecimento 
Filosófico 
Conhecimento 
Religioso 
(Teológico) 
Valorativo Valorativo 
Racional Inspiracional 
Sistemático Sistemático 
Não Verificável Não Verificável 
Infalível Infalível 
Exato Exato 
 
1.1 Conhecimento Popular 
 
O conhecimento popular é valorativo 
por excelência, pois se fundamenta numa 
seleção operada com base em estados de ânimo 
e emoções: como o conhecimento implica uma 
dualidade de realidades, isto é, de um lado o 
sujeito cognoscente (indivíduo capaz de 
adquirir conhecimento) e, de outro, o objeto 
conhecido, e este é possuído, de certa forma 
pelo cognoscente, os valores do sujeito 
impregnam o objeto conhecido. É também 
reflexivo, mas, estando limitado pela 
familiaridade com o objeto, não pode ser 
reduzido a uma formulação geral. A 
característica de assistemático baseia-se na 
"organização" particular das experiências 
próprias do sujeito cognoscente, e não em uma 
sistematização das ideias, na procura de uma 
formulação geral que explique os fenômenos 
observados, aspecto que dificulta a 
transmissão, de pessoa a pessoa, desse modo 
de conhecer. É verificável, visto que está 
limitado ao âmbito da vida diária e diz respeito 
àquilo que se pode perceber no dia-a-dia. 
Finalmente é falível e inexato, pois se 
conforma com a aparência e com o que se 
ouviu dizer a respeito do objeto. Em outras 
palavras, não permite a formulação de 
hipóteses sobre a existência de fenômenos 
situados além das percepções objetivas. 
 
Características do Conhecimento Popular 
 
"Se o ‘bom-senso’, apesar de sua 
aspiração à racionalidade e objetividade, só 
consegue atingir essa condição de forma muito 
limitada", pode-se dizer que o conhecimento 
vulgar ou popular, latu sensu, é o modo 
comum, corrente e espontâneo de conhecer, 
que se adquire no trato direto com as coisas e 
os seres humanos: "é o saber que preenche 
nossa vida diária e que se possui sem o haver 
procurado ou estudado, sem a aplicação de um 
método e sem se haver refletido sobre algo" 
(BABINI, 1957, p.21). 
Para Ander-Egg (1978, p.13-14), o 
conhecimento popular caracteriza-se por ser 
predominantemente: 
superficial, isto é, conforma-se com a 
aparência, com aquilo que se pode comprovar 
simplesmente estando junto das coisas: 
expressa-se por frases como "porque o vi", 
"porque o senti", "porque o disseram", "porque 
todo mundo o diz"; 
sensitivo, ou seja, referente a vivências, 
estados de ânimo e emoções da vida diária; 
subjetivo, pois é o próprio sujeito que organiza 
suas experiências e conhecimentos, tanto os 
que adquire por vivência própria quanto os 
"por ouvi dizer"; 
assistemático, pois esta "organização" das 
experiências não visa a uma sistematização das 
37 
 
ideias, nem na forma de adquiri-las nem na 
tentativa de validá-las; 
acrítico, pois, verdadeiros ou não, a pretensão 
de que esses conhecimentos o sejam não se 
manifesta sempre de uma forma crítica. 
 
1.2 Conhecimento Filosófico 
 
O conhecimento filosófico é 
valorativo, pois seu ponto de partida consiste 
em hipóteses, que não poderão ser submetidas 
à observação: "as hipóteses filosóficas 
baseiam-se na experiência, portanto, este 
conhecimento emerge da experiência e não da 
experimentação" (TRUJILLO, 1974.p. 12); 
por este motivo, o conhecimento filosófico é 
não verificável, já que os enunciados das 
hipóteses filosóficas, ao contrário do que 
ocorre no campo da ciência, não podem ser 
confirmados nem refutados. É racional, em 
virtude de consistir num conjunto de 
enunciados logicamente correlacionados. Tem 
a característica de sistemático, pois suas 
hipóteses e enunciados visam a uma 
representação coerente da realidade estudada, 
numa tentativa de apreendê-la em sua 
totalidade. Por último, é infalível e exato, já 
que, quer na busca da realidade capaz de 
abranger todas as outras, quer na definição do 
instrumento capaz de apreender a realidade, 
seus postulados, assim como suas hipóteses, 
não são submetidos ao decisivo teste da 
observação (experimentação). Portanto, o 
conhecimento filosófico é caracterizado pelo 
esforço da razão pura para questionar os 
problemas humanos e poder discernir entre o 
certo e o errado, unicamente recorrendo às 
luzes da própria razão humana. Assim, se o 
conhecimento científico abrange fatos 
concretos, positivos, e fenômenos perceptíveis 
pelos sentidos, através do emprego de 
instrumentos, técnicas e recursos de 
observação, o objeto de análise da filosofia 
são ideias, relações conceptuais, exigências 
lógicas que não são redutíveis a realidades 
materiais e, por essa razão, não são passíveis 
de observação sensorial direta ou indireta (por 
instrumentos), como a que é exigida pela 
ciência experimental. O método por 
excelência da ciência é o experimental: ela 
caminha apoiada nos fatos reais e concretos, 
afirmando somente aquilo que é autorizado 
pela experimentação. Ao contrário, a filosofia 
emprega "o método racional, no qual prevalece 
o processo dedutivo, que antecede a 
experiência, e não exige confirmação 
experimental, mas somente coerência lógica" 
(RUIZ, 1979, p. 110). O procedimento 
científico leva a circunscrever, delimitar, 
fragmentar e analisar o que se constitui o 
objeto da pesquisa, atingindo segmentos da 
realidade, ao passo que a filosofia encontra-se 
sempre à procura do que é mais geral, 
interessando-se pela formulação de uma 
concepção unificada e unificante do universo. 
Para tanto, procura responder às grandes 
indagações do espírito humano e, até, busca as 
leis mais universais que englobem e 
harmonizem as conclusões da ciência. 
 
1.3 Conhecimento Religioso 
 
O conhecimento religioso, isto é, 
teológico, apoia-se em doutrinas que contêm 
proposições sagradas (valorativas), por terem 
sido reveladas pelo sobrenatural 
(inspiracional) e, por esse motivo, tais 
verdades são consideradas infalíveis e 
indiscutíveis (exatas); é um conhecimento 
sistemático do mundo (origem, significado, 
finalidade e destino) como obra de um criador 
divino; suas evidências não são verificadas: 
está sempre implícita uma atitude de fé perante 
um conhecimento revelado. Assim, o 
conhecimento religioso ou teológico parte do 
princípio de que as "verdades" tratadas são 
infalíveis e indiscutíveis, por consistirem em 
"revelações" da divindade (sobrenatural). A 
adesão das pessoas passa a ser um ato de fé, 
pois a visão sistemática do mundo é 
interpretada como decorrente do ato de um 
criador divino, cujas evidências não são postas 
em dúvida nem sequer verificáveis. A postura 
dos teólogos e cientistas diante da teoria da 
evolução das espécies, particularmente do 
Homem, demonstra as abordagens diversas: deum lado, as posições dos teólogos 
fundamentam-se nos ensinamentos de textos 
sagrados; de outro, os cientistas buscam, em 
suas pesquisas, fatos concretos capazes de 
comprovar (ou refutar) suas hipóteses. Na 
realidade, vai-se mais longe. Se o fundamento 
do conhecimento científico consiste na 
evidência dos fatos observados e 
experimentalmente controlados, e o do 
conhecimento filosófico e de seus enunciados, 
na evidência lógica, fazendo com que em 
ambos os modos de conhecer deve a evidência 
38 
 
resultar da pesquisa dos fatos ou da análise dos 
conteúdos dos enunciados, no caso do 
conhecimento teológico o fiel não se detém 
nelas à procura de evidência, pois a toma da 
causa primeira, ou seja, da revelação divina. 
 
1.4 Conhecimento Científico 
 
Finalmente, o conhecimento científico 
é real (factual) porque lida com ocorrências ou 
fatos, isto é, com toda "forma de existência que 
se manifesta de algum modo" (TRUJILO, 
1974, p. 14). Constitui um conhecimento 
contingente, pois suas proposições ou 
hipóteses têm sua veracidade ou falsidade 
conhecida através da experiência e não apenas 
pela razão, como ocorre no conhecimento 
filosófico. É sistemático, já que se trata de um 
saber ordenado logicamente, formando um 
sistema de ideias (teoria) e não conhecimentos 
dispersos e desconexos. Possui a característica 
da verificabilidade, a tal ponto que as 
afirmações (hip6teses) que não podem ser 
comprovadas não pertencem ao âmbito da 
ciência. Constitui-se em conhecimento falível, 
em virtude de não ser definitivo, absoluto ou 
final e, por este motivo, é aproximadamente 
exato: novas proposições e o desenvolvimento 
de técnicas podem reformular o acervo de 
teoria existente. 
Apesar da separação "metodológica" 
entre os tipos de conhecimento popular, 
filosófico, religioso e científico, no processo de 
apreensão da realidade do objeto, o sujeito 
cognoscente pode penetrar nas diversas áreas: 
ao estudar o homem, por exemplo, pode-se 
tirar uma série de conclusões sobre sua atuação 
na sociedade, baseada no senso comum ou na 
experiência cotidiana; pode-se analisá-lo como 
um ser biol6gico, verificando, através de 
investigação experimental, as relações 
existentes entre determinados órgãos e suas 
funções; pode-se questioná-lo quanto à sua 
origem e destino, assim como quanto à sua 
liberdade; finalmente, pode-se observá-lo 
como ser criado pela divindade, à sua imagem 
e semelhança, e meditar sobre o que dele dizem 
os textos sagrados. 
Por sua vez, estas formas de 
conhecimento podem coexistir na mesma 
pessoa: um cientista, voltado, por exemplo, ao 
estudo da física, pode ser crente praticante de 
determinada religião, estar filiado a um sistema 
Filosófico e, em muitos aspectos de sua vida 
cotidiana, agir segundo conhecimentos 
provenientes do senso comum. 
 
3- CONCEITO DE CIÊNCIA 
 
Diversos autores tentaram definir o 
que se entende por ciência. Consideramos mais 
precisa a definição de Trujillo Ferrari, expressa 
em seu livro Metodologia da ciência. 
Entendemos por ciência uma 
sistematização de conhecimentos, um conjunto 
de proposições logicamente correlacionadas 
sobre o comportamento de certos fenômenos 
que se deseja estudar: "A ciência é todo um 
conjunto de atitudes e atividades racionais, 
dirigidas ao sistemático conhecimento com 
objeto limitado, capaz de ser submetido à 
verificação" (1974, p.8). 
As ciências possuem: 
 
a) Objetivo ou finalidade. Preocupação em 
distinguir a característica comum ou as leis 
gerais que regem determinados eventos. 
b) Função, Aperfeiçoamento, através do 
crescente acervo de conhecimentos, da relação 
do homem com o seu mundo. 
c) Objeto. Subdividido em: 
 material, aquilo que se pretende estudar, 
analisar, interpretar ou verificar, de modo 
geral; 
 formal, o enfoque especial, em face das 
diversas ciências que possuem o mesmo objeto 
material. 
 
3.1 CLASSIFICAÇÃO E DIVISÃO DA 
CIÊNCIA 
 
A complexidade do universo e a 
diversidade de fenômenos que nele se 
manifestam, aliadas à necessidade do homem 
de estudá-los para poder entendê-los e explicá-
los, levaram ao surgimento de diversos ramos 
de estudo e ciências específicas. Estas 
necessitam de uma classificação, quer de 
acordo com sua ordem de complexidade, quer 
de acordo com seu conteúdo: objeto ou temas, 
diferença de enunciados e metodologia 
empregada. 
 
3.1.1 Ciências Exatas e Ciências Humanas 
 
Uma ciência exata é qualquer campo 
da ciência capaz de expressões quantitativas e 
predições precisas e métodos rigorosos de 
39 
 
testar hipóteses, especialmente os 
experimentos reprodutíveis envolvendo 
predições e medições quantificáveis. 
Matemática, Estatística, Física, Química, 
assim como partes da Biologia, Psicologia, e 
Economia podem ser consideradas ciências 
exatas nesse sentido. O termo implica uma 
dicotomia entre esses campos e outros, como 
as ciências humanas, que possuem um caráter 
menos preciso. 
As ciências exatas estão entre as mais 
antigas, desde a antiguidade, o homem utiliza 
a matemática para resolver seus problemas e 
organizar melhor a sua sociedade. Foram as 
ciências exatas que proporcionaram que os 
antigos egípcios construíssem as pirâmides, 
permitiu que os gregos erguessem suas 
acrópoles e monumentos e também que o 
homem realizasse a viagem espacial até a lua 
no século 20. 
Embora do ponto de vista técnico, toda 
e qualquer conhecimento produzido pela 
humanidade seja uma “ciência humana”, a 
expressão Ciências Humanas em si refere-se 
somente a aquelas ciências que tem o ser 
humano como seu objeto de estudo ou então o 
seu foco. Em outras palavras, as ciências 
humanas consistem nas profissões e as 
carreiras que tratam primariamente dos 
aspectos humanos. 
Basicamente são apoiadas na Filosofia 
(tentativa de compreensão do homem e da sua 
sociedade), beleza (artes em geral, 
relacionadas ao entretenimento ou a cultura) e 
comunicação (questão da informação, questão 
da política e questão da linguística). 
As ciências humanas, devido as suas 
bases, assim como a condição humana em si, 
tem um caráter múltiplo: ao mesmo tempo em 
que engloba características teóricas em ramos 
tais como linguística, gramática e filosofia, 
engloba características práticas através do 
jornalismo, comunicação social e direito e 
também engloba características subjetivas, 
quando entra no ramo da arte. 
Geralmente definida como uma 
ciência “não exata” e de grande margem 
subjetiva, as ciências humanas são também 
muito profundas, complexas e de grande 
importância na sociedade, afinal sem 
matemática e engenharia não se pode 
sobreviver, mas sem arte e sem compreensão 
do mundo, também, não se pode viver. 
As ciências humanas ou humanidades 
são as disciplinas que tratam dos aspectos do 
homem como indivíduo e como ser social, tais 
como a antropologia, história, sociologia, 
ciência política, linguística, pedagogia, 
economia, geografia, direito, arqueologia, 
filosofia, teologia, psicologia entre outros. 
(Adaptação de: 
<http://www.guiadacarreira.com.br/artigos>. 
Acesso em: 22 jan.2015. 
 
4-Método científico 
 
 Todas as ciências caracterizam-se pela 
utilização de métodos científicos; em 
contrapartida, nem todos os ramos de estudo 
empregam estes métodos são ciências. Dessas 
afirmações podemos concluir que a utilização 
de métodos científicos não é da alçada 
exclusiva da ciência, mas não há ciência sem o 
emprego de métodos científicos. 
 Assimsendo, o método é o conjunto 
das atividades sistemáticas e racionais que, 
com maior segurança e economia, permite 
alcançar o objetivo-conhecimento válido e 
verdadeiro, traçando o caminho a ser seguido, 
detectando erros e auxiliando as decisões do 
cientista. 
 
Desenvolvimento histórico do Método 
 
 A preocupação em descobrir e, 
portanto, explicar a natureza vem desde os 
primórdios da humanidade, quando as 
principais questões referiam-se às forças da 
natureza, a cuja mercê viviam os homens, e à 
morte. O conhecimento mítico voltou-se à 
explicação desses fenômenos, atribuindo-os a 
entidades de caráter sobrenatural. A verdade 
era impregnada de noções supra-humanas e a 
explicação fundamentava-se em motivações 
humanas, atribuídas a “forças” e potências 
sobrenaturais. 
 À medida que o conhecimento 
religioso se voltou, também, para a explicação 
dos fenômenos da natureza e do caráter 
transcendental da morte, como fundamento de 
suas concepções, a verdade revestiu-se de 
caráter dogmático, baseada em revelações da 
divindade. É a tentativa de explicar os 
acontecimentos através de causas primeiras- os 
deuses-, sendo o acesso dos homens ao 
conhecimento derivado da inspiração divina. O 
caráter sagrado das leis, da verdade, do 
40 
 
conhecimento, como explicações sobre o 
homem e o universo, determina uma aceitação 
sem crítica dos mesmos, deslocando o foco das 
atenções para a explicação da natureza da 
divindade. 
 O conhecimento filosófico, por seu 
lado, volta-se para a investigação racional na 
tentativa de captar a essência imutável do real, 
através da compreensão da forma e das leis da 
natureza. 
 O senso comum, aliado à explicação 
religiosa e ao conhecimento filosófico, 
orientou as preocupações do homem com o 
universo. Somente no século XVI é que se 
iniciou uma linha de pensamento que propunha 
encontrar um conhecimento embasado em 
maiores garantias, na procura do real. Não se 
buscam mais as causas absolutas ou a natureza 
íntima das coisas; ao contrário, preocupa-se 
compreender as relações entre elas, assim 
como a explicação dos acontecimentos, através 
da observação científica aliada ao raciocínio. 
 Com o passar do tempo, muitas 
modificações foram feitas nos métodos 
existentes, inclusive surgiram outros novos. 
Para Bunge, (1980, p.25), “o método científico 
é a teoria da investigação”. Esta alcança seus 
objetivos, de forma científica, quando cumpre 
ou se propõe a cumprir as seguintes etapas: 
 
a) descobrimento do problema ou lacuna 
num conjunto de conhecimentos. Se o 
problema não estiver enunciado com clareza, 
passa-se à etapa seguinte; se o estiver, passa-se 
à subsequente; 
b) colocação precisa do problema, ou ainda a 
recolocação de um velho problema, à luz de 
novos conhecimentos (empíricos ou teóricos, 
substantivos ou metodológicos); 
c) procura de conhecimentos ou 
instrumentos relevantes ao problema (por 
exemplo, dados empíricos, teorias, aparelhos 
de mediação, técnicas de cálculo ou de 
mediação). Ou seja, exame do conhecido para 
tentar resolver o problema; 
d) tentativa de solução do problema com 
auxílio dos meios identificados. Se a tentativa 
resultar inútil, passa-se para a etapa seguinte; 
em caso contrário, à subsequente; 
e) invenção de novas ideias (hipóteses, teorias 
ou técnicas) ou produção de novos dados 
empíricos que prometam resolver o problema; 
f) obtenção de uma solução (exata ou 
aproximada) do problema com auxílio do 
instrumental conceitual ou empírico 
disponível; 
g) investigação das consequências da 
solução obtida. Em se tratando de uma teoria, 
é a busca de prognósticos que possam ser feitos 
com seu auxílio. Em se tratando de novos 
dados, é o exame das consequências que 
possam ter para as teorias relevantes; 
h) prova (comprovação) da solução: 
confronto da solução com a totalidade das 
teorias e da informação empírica pertinente. Se 
o resultado é satisfatório, a pesquisa é dada 
como concluída, até novo aviso. Do contrário, 
passa-se para a etapa seguinte; 
i) correção das hipóteses, teorias, 
procedimentos ou dados empregados na 
obtenção da solução incorreta. Esse é, 
naturalmente, o começo da um novo ciclo de 
investigação" (BUNGE, 1980, p.25). 
 
Fonte: MARCONI, M. A.; LAKATOS, E.M. 
Fundamentos da metodologia científica. 5. ed. 
São Paulo: Atlas, 2003, p. 83-85. 
 
4º texto: Ética e Ideologia 
O analfabeto Político 
Bertold Brecht (1898-1956) - escritor, poeta e 
teatrólogo alemão 
 
 “O pior analfabeto é o analfabeto 
político. Ele não ouve, não fala, nem participa 
dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que 
o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da 
farinha, do aluguel, do sapato e do remédio 
dependem das decisões políticas. 
 O analfabeto político é tão burro que 
se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a 
política. Não sabe o imbecil, que da sua 
ignorância política, nasce a prostituta, o 
menor abandonado e o pior de todos os 
bandidos, que é o político vigarista, pilantra, 
corrupto e lacaio das empresas nacionais e 
multinacionais”. 
 
 Origens da Política 
 
 Usamos a palavra política de diversas 
formas no cotidiano que não se 
referem a seu sentido fundamental; 
“política” da empresa, da escola, da 
igreja ... como formas de exercício e 
disputa de poder político. 
41 
 
 A política é a arte de governar, de gerir 
o destino da cidade. 
Etimologicamente, política vem de 
PÓLIS (cidade, em grego). Político é 
aquele que atua na vida pública e é 
investido de poder de imprimir 
determinado rumo à cidade. 
 Política designa a esfera das ações 
que tem relação direta ou indireta com 
a conquista e o exercício do poder 
sobre a comunidade de indivíduos em 
um território 
 É possível entender a Política como 
luta pelo poder: a conquista, a 
manutenção e a expansão do poder. 
Ou refletir sobre as instituições 
políticas por meio das quais se exerce 
o poder. 
 Poder: é a capacidade de um sujeito 
influir, condicionar e determinar o 
comportamento de outro indivíduo. 
 O poder é uma relação ou um 
conjunto de relações pelas quais 
indivíduos ou grupos interferem na 
atividade de outros indivíduos ou 
grupos. 
 Qual é a finalidade da política? Seria 
o bem comum (interesse coletivo ou 
geral)? 
 Temos dificuldade em determinar em 
que consiste o bonnus comune, devido 
à divisão da sociedade em classes 
opostas. 
 
A pólis e a res publica 
 Para Aristóteles, um dos maiores 
filósofos gregos, "o homem é por natureza 
um animal político", isto é, um ser vivo (zoon) 
que, por sua natureza (physei), é feito para a 
vida da cidade (bios politikós, derivado de 
pólis, a comunidade política). O sentido último 
da vida do homem: o viver na pólis, onde o 
homem se realiza como cidadão (politai). 
 Em síntese, o homem é um animal 
político, isto é, que só se realiza na polis. E 
fazer parte da polis significava pertencer à 
sociedade política, ou seja, influir nos 
destinos da cidade, direito esse reservado 
apenas aos cidadãos. Por isso, para 
Aristóteles, o homem só começa a se 
diferenciar dos animais na polis, o único lugar 
em que poderia relacionar o ideal humano de 
viver e conviver de maneira inteligente e de 
acordo com a razão. 
 
 Para os gregos, somente na política, na 
qual predominavam a ação e o discurso, esse 
ideal seria alcançável. 
 
 Porém, mesmo na polis esse ideal não 
estava propriamente ao alcance de todos, 
pois, na Grécia, (exemplo Esparta) inclusivedurante a democracia, os cidadãos eram 
minoria e formavam a aristocracia 
privilegiada. Dessa condição estavam 
excluídos os escravos (hilotas, eram a classe 
mais baixa e pertenciam como escravos ao 
Estado), os estrangeiros (metecos residentes 
em Atenas), as mulheres, os periecos (homens 
da periferia de Esparta, formavam uma camada 
intermediária, constituída de homens livres, 
porém sem direitos políticos. Dedicavam-se à 
agricultura, ao comércio e ao artesanato, 
atividades proibidas à aristocracia espartana. 
Formando uma comunidade de iguais, 
unicamente os homens livres e maiores de 
idade, nascidos de famílias locais, eram 
considerados cidadãos. 
 
 O que os gregos denominavam polis, 
os romanos chamavam de res publica (coisa 
pública). Nesta, a participação dos indivíduos 
era mais restrita ainda, pois somente os 
patrícios pertenciam à res publica. 
 
O que é política? 
 Segundo Nicolau Maquiavel, em O 
Príncipe, política é a arte de conquistar, 
manter e exercer o poder, o próprio 
governo. Ainda existem algumas divergências 
sobre o tema, para alguns, política é a ciência 
do poder e para outros é a Ciência do Estado. 
 Se há alguma certeza nos tempos em 
que vivemos, é a de que vivemos um 
momento de incerteza e desordem em todas 
as atividades humanas: saber, poder, ética e 
valores. 
 Há uma tendência atual de 
menosprezar o papel da política em nosso 
dia a dia e de elogiar o seu esquecimento, 
dando mais importância à economia, à 
privatização da vida pública, à religião, ao 
moralismo e à eficiência técnica. Este 
42 
 
pensamento é defendido pelos grandes 
empresários da comunicação, reforçando a 
estratégia dos poderosos de manter os cidadãos 
longe do exercício da política, principalmente 
os jovens. 
 Acontece que a política não deixou de 
ser exercida em momento algum. Ela apenas 
ganhou novos contornos e novos espaços nas 
lutas pelas políticas afirmativas (inclusão, 
direito à livre orientação sexual, etc), por 
exemplo. 
MAQUIAVEL (1469-1527) e a Política 
como categoria autônoma 
Introdução 
 
 O poder atrai e emociona: pode 
corromper ou engrandecer 
 Governar é impor e conciliar 
 Estado medieval: descentralização 
política; espaço para realização do 
bem comum, de acordo com Deus. A 
Igreja é um superestado 
 Maquiavel: infância e juventude – 
nova era: Idade Moderna soterra 
instituições medievais 
 XVI: Itália: ausência de um poder 
centralizador 
 Sua obra mais famosa O Príncipe, 
escrita em 1513 e foi publicada, 
postumamente em 1532. A obra reflete 
os seus conhecimentos da arte política 
dos antigos, bem como dos estadistas 
de seu tempo e expressa claramente a 
mentalidade da época. Formulando 
uma série de conselhos ao príncipe, o 
autor expôs uma norma de ação 
autoritária, no interesse do Estado. 
 “O Príncipe”: é um guia que orienta o 
acesso e a permanência no poder 
 Maquiavel – vive na época do 
Renascimento - antropocentrismo 
 Controvérsias sobre “O Príncipe” 
(1513). Escrito em 1513 e dedicado a 
Lourenço de Médici, provocou 
inúmeras interpretações e 
controvérsias. À primeira vista, essa 
obra parece defender o Absolutismo 
e o imoralismo. A leitura apressada de 
sua obra levou à criação do Mito do 
Maquiavelismo. Pejorativamente, 
maquiavélica é pessoa sem 
escrúpulos, traiçoeira que para 
atingir seus fins, usa de mentira e de 
má-fé. Como expressão dessa 
amoralidade, costuma-se atribuir a ele 
a famosa máxima (que ele nunca 
escreveu): “os fins justificam os 
meios”; 
 Essa é uma interpretação simplista e 
deformadora de seu pensamento. Para 
o filósofo Rousseau (XVIII), 
Maquiavel ao afirmar que O Príncipe 
era na verdade uma sátira e a intenção 
verdadeira de Maquiavel seria o 
desmascaramento das práticas 
despóticas, ao ensinar o povo a se 
defender dos tiranos. 
 IDEIA CENTRAL – força é inerente 
ao exercício do poder = política é 
uma esfera da vida social que tem leis 
próprias. 
 Política: pela primeira vez é 
mostrada como esfera autônoma da 
vida social relativamente à ordem 
moral e religiosa. Ele nega a 
anterioridade de questões morais na 
avaliação da ação política. Para a 
moral cristã (Idade Média), há 
valores espirituais superiores aos 
políticos, além de que o bem comum 
da cidade se subordina ao bem 
supremo da salvação da alma. 
 A sociedade é necessariamente 
dividida. 
 A ordem política está sempre baseada 
em algum tipo de coerção. A política 
identifica-se com o espaço do poder, 
enquanto atividade que na qual se 
assenta a existência coletiva. 
 Conquistar e manter o poder, eis a 
síntese da finalidade essencial da 
política. 
 Em “O Príncipe”, o bom político deve 
conhecer os ardis do leão e da raposa, 
símbolos da força e da astúcia 
(habilidade em enganar, manha). Estas 
duas características nada tem a ver 
com a finalidade do bem comum: 
referem-se exclusivamente ao objeto 
imediato de conservar o poder 
 O príncipe deve atuar como a raposa, 
que sabe reconhecer as armadilhas e o 
leão, que se defende dos lobos. 
43 
 
 Todo Príncipe prudente deve prever 
os casos futuros e preveni-los com 
toda perícia. Conhecendo os males 
com antecedência, rapidamente, são 
curados. 
 Quando uma determinada ação, por 
pior que seja, for inevitável, é preciso 
fazê-la rapidamente e não adiá-la. 
 Ao assumir o governo, o dirigente 
deve realizar todas as ações que 
produzem malefícios a membros da 
sociedade, de uma só vez e de maneira 
completa, para que seus efeitos não 
perdurem durante todo o governo. 
 Os benefícios devem ser realizados, 
pouco a pouco, para que sejam melhor 
saboreados. 
 O Príncipe que ignora o terreno sobre 
o qual se desenvolve a guerra e 
desconhece os soldados que comanda, 
conduz necessariamente, as suas 
forças para a derrota. 
 A um governante não é essencial que 
possua todas as boas qualidades, mas é 
fundamental que aparente possuí-las. 
Preocupação principal é com a 
aparência. “é bom ser e parecer fiel, 
humano, íntegro e religioso, mas é 
importante ter o espírito preparado e 
estar disposto a agir de modo contrário 
sempre que seja necessário.” 
Afinal, o que é política? 
Vivemos hoje em um momento em que 
a política é questionada, pois, ela é 
sistematicamente confundida com as ações dos 
políticos profissionais, principalmente, pelos 
maus políticos. 
A filósofa Arendt nos diz que "A 
política baseia-se no fato da pluralidade dos 
homens", portanto, ela deve organizar e 
regular o convívio dos diferentes e não dos 
iguais. 
Vejamos o que diz Hannah Arendt: 
"Tarefa e objetivo da política é a garantia da 
vida no sentido mais amplo". Para ela, a tarefa 
da política esta diretamente relacionada com a 
grande aspiração do homem moderno: a busca 
da felicidade. 
Não é fácil discutir a questão da 
política nos dias de hoje. Estamos carregados 
de desconfianças em relação aos homens do 
poder. Porém, o homem é um ser 
essencialmente político. Todas as nossas ações 
são políticas e motivadas por decisões 
ideológicas. Tudo que fazemos na vida tem 
consequências e somos responsáveis por 
nossas ações. 
Nossa ação política está presente em 
todos os momentos da vida, seja nos aspectos 
privado ou público. Vivemos com a família, 
relacionamos com as pessoas no bairro, na 
escola, somos parte integrante da cidade, 
pertencemos a um Estado e País. 
Não podemos confundir que política 
é simplesmente o ato de votar. Estamos 
fazendo política como tomamos atitudes em 
nossotrabalho. Estamos fazendo política 
quando exigimos nossos direitos de 
consumidor, quando nos indignamos ao 
vermos nossas crianças fora das escolas sendo 
massacradas nas ruas. 
A política está presente 
cotidianamente em nossas vidas: na luta das 
mulheres contra uma sociedade machista que 
discrimina e age com violência; na luta dos 
portadores de necessidade especiais para 
pertencerem de fato à sociedade. 
DEMOCRACIA, ÉTICA E CIDADANIA 
 
CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. 13. ed. 
São Paulo: Ática, 2005. 
 
 Democracia 
 
Se a política tem como finalidade a 
vida justa e feliz, isto e, a vida propriamente 
humana digna de seres livres, então é 
inseparável da ética. De fato, para os gregos, 
era inconcebível a ética fora da comunidade 
política – a polis como koinonía ou 
comunidade dos iguais, pois nela a natureza ou 
essência humana encontrava sua realização 
mais alta. 
 
 A democracia é a única forma política 
que considera o conflito legítimo e legal, 
permitindo que seja trabalhado politicamente 
pela própria sociedade. Da mesma maneira, as 
44 
 
ideias de igualdade e liberdade como 
direitos civis dos cidadãos vão muito além de 
sua regulamentação jurídica formal. 
Significam que os cidadãos são sujeitos de 
direitos e que, onde tais direitos não existam 
nem estejam garantidos, tem-se o direito de 
lutar por eles e exigi-los. É esse o cerne da 
democracia. 
 
 A democracia ateniense era direta. 
A democracia moderna, porém, é 
representativa. O direito à participação 
tornou-se, portanto, indireto, por meio da 
escolha de representantes. Ao contrário dos 
outros dois direitos, este último parece ter 
sofrido diminuição em lugar da ampliação. 
 A república liberal (a partir do século 
XVIII) tendeu a limitar os direitos políticos 
aos proprietários privados dos meios de 
produção e aos profissionais liberais da classe 
média. Todavia, as lutas socialistas e populares 
forçaram a ampliação dos direitos políticos 
com a criação do sufrágio universal (todos são 
cidadãos eleitores: homens, mulheres, jovens, 
analfabetos, etc). 
 As lutas por igualdade e liberdade 
ampliaram os direitos políticos (civis) e a 
partir destes, criaram os direitos sociais – 
trabalho, moradia, saúde, transporte, educação, 
lazer, cultura, os direitos das chamadas 
“minorias” – mulheres, idosos, negros, 
homossexuais, crianças, índios e o direito à 
segurança planetária – as lutas ecológicas e 
contra as armas nucleares. 
 As lutas populares por participação 
política ampliaram os direitos civis: direito de 
opor-se à tirania, à censura, à tortura, direito de 
fiscalizar o Estado por meio de organizações 
da sociedade (associações, sindicatos, partidos 
políticos). 
 Em síntese, ainda, segundo a filósofa 
Marilena Chauí, as determinações 
constitutivas do conceito de democracia são 
as ideias de conflito, abertura e rotatividade. 
 
Conflito – se a democracia respeita o 
pensamento divergente, isto é, os múltiplos 
discursos, ela também admite uma 
heterogeneidade essencial. Então, o conflito é 
inevitável. Divergir é inerente à sociedade 
pluralista. 
Abertura – significa que na democracia a 
informação circula livremente e a cultura não 
é privilégio de alguns. A circulação não se 
reduz ao mero consumo de informação e 
cultura, mas pressupõe também a produção de 
cultura, que a enriquece. 
Rotatividade – significa tornar o poder na 
democracia realmente o lugar vazio por 
excelência, sem privilegiar grupo ou classe. É 
permitir que todos os setores da sociedade 
sejam legitimamente representados. 
 
Os obstáculos à democracia 
 
 Liberdade, igualdade e participação 
conduziram à célebre formulação da política 
democrática como “governo do povo, pelo 
povo e para o povo”. Entretanto, o povo da 
sociedade democrática está dividido em 
classes sociais – sejam os ricos e os pobres 
(Aristóteles), os grandes e o povo (Maquiavel), 
sejam as classes sociais antagônicas (Marx). 
 No capitalismo, são imensos os 
obstáculos à democracia, pois o conflito dos 
interesses é posto pela exploração de uma 
classe social por outra, mesmo que a ideologia 
afirme que todos são livres e iguais. 
 
Dificuldades para a democracia no Brasil 
 
 Periodicamente, os brasileiros 
afirmam que vivemos numa democracia, 
depois de concluída uma fase de 
autoritarismo. Por democracia entendem a 
existência de eleições, de partidos políticos e 
da divisão republicana dos três poderes, além 
da liberdade de pensamento e de expressão. 
Por autoritarismo entendem um regime de 
governo em que o Estado é ocupado por meio 
de um golpe, não há eleições nem partidos 
políticos, o Poder Executivo domina o 
Legislativo e o Judiciário, há censura do 
pensamento e da expressão. Em suma, 
democracia e autoritarismo são vistos como 
algo que se realiza na esfera do Estado e este é 
identificado como o modo de governo. 
 Essa visão é cega para algo profundo 
na sociedade brasileira: o autoritarismo social. 
Nossa sociedade é autoritária porque é 
hierárquica, pois divide as pessoas, em 
qualquer circunstância, em inferiores, que 
devem obedecer e superiores, que devem 
mandar. Não há percepção nem prática da 
igualdade como um direito. Nossa sociedade 
também é autoritária porque é violenta: nela 
vigoram racismo, machismo, discriminação 
religiosa e de classe social, desigualdades 
45 
 
econômicas que estão entre as maiores do 
mundo, exclusões culturais e políticas. Não há 
percepção nem prática do direito à liberdade. 
 Entretanto, para Maria Lúcia Arruda 
Aranha: “A ampliação da democracia ocorre 
paralelamente à multiplicação dos órgãos 
representativos da sociedade civil, de modo 
a ativar as formas de participação dos cidadãos 
em geral. É isto que pode tornar a democracia 
uma policracia, ou seja, o regime que não tem 
apenas um centro, mas que o poder se encontra 
dividido entre os inúmeros setores da 
sociedade”. 
 
 
BOTTOMORE, Tom. Dicionário do 
Pensamento Social do século XX. Rio de 
Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1996. 
 
 Cidadania 
 
 Ideias de cidadania floresceram em 
diversos períodos históricos - na Grécia e na 
Roma antigas, nos burgos da Europa medieval, 
nas cidades do Renascimento. Mas a cidadania 
moderna, embora influenciada por essas 
concepções antigas, possui um caráter próprio. 
Um dos sentidos mais atuais da cidadania 
nasce com o Estado moderno, quando a 
burguesia contrapõe ao antigo sistema de 
privilégios feudais. O liberalismo institui a 
igualdade jurídica (todos os cidadãos 
possuem direitos e deveres iguais); por outro 
lado, as classes sociais constituem um sistema 
marcado pela desigualdade. Assim, todos os 
cidadãos são considerados iguais do ponto de 
vista jurídico e formal. Mas, na realidade, a 
nação apresenta-se dividida em classes. 
 Primeiro, a cidadania formal é hoje 
quase universalmente definida como a 
condição de membro de um estado-nação. Em 
segundo lugar, porém, a cidadania 
substantiva, definida como a posse de um 
corpo de direitos civis, políticos e 
especialmente sociais, tem-se tornado cada vez 
mais importante. 
 O desenvolvimento da cidadania 
substantiva foi analisado em um estudo 
clássico de T.H. Marshall (sociólogo inglês), 
em 1949 e republicado em 1992, que descrevia 
um desenrolar da extensão de direitos civis, 
políticos e sociais para toda a população de 
uma nação. Na Europa Ocidental depois de 
1945, foi o aumento dos direitos sociais – a 
criação de um Estado do Bem EstarSocial 
(Welfare State) que produziu as maiores 
mudanças, estabelecendo princípios mais 
coletivistas e igualitárias da economia 
capitalista. 
Para T.H. Marshall deve se distinguir 
três dimensões na construção histórica da 
cidadania: a civil, a política e a social. (ele 
tem uma visão otimista), baseando-se na 
história da Grã-Bretanha (texto clássico 
Cidadania e classe social, de 1949). É 
indiscutível que essa ordem cronológica, do 
modo “clássico” não se reproduziu do mesmo 
modo em um grande número de países, entre 
os quais o Brasil. (tal definição de Marshall é 
considerada vaga e obscura). Cidadania, para 
Marshall é a participação integral do indivíduo 
na comunidade política. 
 
Século XVIII – criaram condições para o 
desenvolvimento da CIDADANIA CIVIL: 
direito à liberdade de expressão, de 
pensamento e de religião. Ou seja, direitos 
necessários à liberdade individual: liberdade 
de ir e vir, liberdade de expressão, pensamento 
e fé, o direito à propriedade. 
Século XIX – permitiu o desenvolvimento da 
CIDADANIA POLÍTICA: direitos políticos, 
o direito à participação do exercício do poder, 
como membros de um organismo investido de 
autoridade político ou como eleitores de tais 
membros.. A cidadania se dirige a todos, inclui 
as massas, mas para discipliná-las e domesticá-
las. Os direitos sociais não são conquistados, 
são outorgados pelo Estado. 
 
Século XX – condições para a construção da 
CIDADANIA SOCIAL: extensão da 
cidadania para a esfera social mediante o 
desenvolvimento dos direitos sociais e 
econômicos (o direito à educação, ao bem-
estar, à saúde, ao trabalho, etc). 
Novas acepções ao conceito de cidadania. O 
projeto burguês enfatizará a questão dos 
direitos dos indivíduos, menos como direitos e 
mais como deveres. Deveres para com o 
Estado e este passa a regulamentar os direitos 
dos cidadãos e a restringi-los ou cassa-los, em 
determinadas conjunturas históricas. A questão 
da cidadania deixa de ser conquista da 
sociedade civil e passa a ser competência do 
Estado. 
46 
 
Os direitos civis e políticos são 
chamados direitos de primeira geração; os 
sociais, de segunda geração. 
Na segunda metade do século XX 
surgiram os direitos de terceira geração, que 
tem como titular não o indivíduo, mas os 
grupos humanos, como o povo, a nação, 
coletividades étnicas, minorias discriminadas. 
Os direitos humanos, o direito das mulheres, o 
direito ao desenvolvimento, direito à paz, 
direito ao meio ambiente. Entre esses direitos 
da terceira geração estariam também os “novos 
movimentos sociais”, como direitos relativos a 
interesses difusos, direito do consumidor, 
direito à ecologia, direito à qualidade de vida, 
direito da terceira idade, direito das crianças, 
etc. 
 
No Brasil, primeiro vieram os direitos 
sociais (com a Consolidação das Leis 
Trabalhistas - CLT, de 1943 – em plena 
ditadura de Getúlio Vargas). Depois, os civis e 
os políticos. Nesse processo sócio histórico, 
ficamos sem a clara noção de que ter direitos 
políticos interfere diretamente na obtenção de 
direitos sociais. Foi dessa forma construída 
nossa cidadania, com pouca relevância 
dispensada à nossa participação política. E 
com a atuação dos representantes cada vez 
menos transparentes e distantes da população. 
As manifestações de junho de 2013 são um 
claro indício dessa constatação. O fato é que 
estaríamos diante de um fenômeno 
geracional: os milhões de jovens que foram às 
ruas nasceram sob a égide da Constituição de 
1988 e cresceram experimentando uma 
democracia até então inédita no país. O maior 
acesso à universidade por esses jovens seria 
outro fator a colaborar para a consolidação da 
democracia e a servir de base para repensar a 
cidadania brasileira. 
Na prática, os jovens também já 
perceberam o seu poder: o resultado das 
manifestações foi um recuo das autoridades 
para reformular a maneira com que fazem 
política, além de atender à demanda mais 
premente, a do não reajuste das tarifas do 
transporte público. 
 
MANIFESTAÇÕES E/OU JORNADAS DE 
JUNHO DE 2013 NO BRASIL 
 
Causas: 
• Aumentos nas tarifas de transporte público; 
• Transporte público insuficiente e de má 
qualidade; 
• Repressão policial violenta aos protestos; 
• Serviços públicos (em geral) de má 
qualidade; 
• Gastos públicos exorbitantes em grandes 
eventos esportivos internacionais; 
• Taxas elevadas de corrupção política 
e impunidade. 
 
Objetivos 
• Democratização da mídia; 
• Diminuir o valor ou eliminar a cobrança das 
tarifas de transporte público; 
• Sistemas de transporte público de boa 
qualidade e que atendam toda a população; 
• Melhor gestão dos gastos governamentais e 
serviços públicos eficientes; 
• Impedir a aprovação de projetos como a "cura 
gay" e as PECs 37 no Congresso Nacional. 
 
20/06/2013 - Mensagens das ruas: quem, 
quais, como? Francisco Fonseca 
Quais mensagens os movimentos – não é 
possível jamais utilizar o singular – estão nos 
enviando, sobretudo aos responsáveis pela 
tomada de decisão política? Aparentemente 
são várias e igualmente difusas. Tentarei listar 
as que considero as mais importantes: 
1) A derrocada do sistema político 
brasileiro: multipartidarismo pouco 
representativo; império da “governabilidade”, 
cujas coligações e coalizões contraditórias não 
apenas impedem políticas públicas coerentes, 
como impedem reformas sociais profundas – 
cujos efeitos é o que estamos observando; 
privatização da vida política, cuja marca é o 
financiamento de campanhas políticas por 
interessados na gestão pública: indústria 
imobiliária, concessionárias de ônibus e de 
inúmeros serviços públicos etc 
2) O “mal estar social” brasileiro, que 
permanece mesmo com os inegáveis avanços 
sociais conquistados na última década. 
Sobretudo as grandes cidades, antes 
metrópoles, depois megalópoles, agora macro 
metrópoles, sintetizam toda forma de mazelas: 
47 
 
mesmo que com exceções, a educação ainda 
é precária; a saúde ainda é pouco efetiva (o 
exemplo das filas de espera é notável); e o 
transporte coletivo não prioritário aos 
governos, caro, lento e de baixa qualidade. 
Neste caso, o cálculo dos milhões de cidadãos, 
notadamente os pobres, quanto ao tempo de ida 
ao trabalho e volta à residência é incrivelmente 
grande, contribuindo para a propagação de 
doenças e a diminuição da produtividade do 
trabalhador, entre tantas outras consequências. 
3) A necessidade do avanço e 
institucionalização do trinômio 
transparência, participação popular e 
controle social. O Brasil é um país em que o 
Estado, as entidades privadas e as não 
governamentais carecem, em larga medida – 
sempre com exceções – de publicização. Ao 
lado disso, a participação popular é confinada 
às instituições tradicionais em crise (partidos, 
sindicados, movimentos sociais corporativos e 
não governamentais tópicos), aos conselhos 
gestores (em larga medida cooptados pelo 
poder público vigente), a audiências públicas 
(que são apenas consultivas) e outras poucas 
formas. Há um manancial de possibilidades 
participativas, e demandas reprimidas, como 
escancara os atuais movimentos. Quanto ao 
controle social, trata-se de conceito 
absolutamente pouco efetivo e que pode 
avançar por inúmeras formas. 
4) A necessidade de os tomadores de decisão 
se compromissarem com a inversão de 
prioridades: do automóvel individual ao 
transporte coletivo; das cidades do e para o 
Capital + classes médias para a cidade do e 
para os cidadãos, 
5)A obsolescência da polícia como agente de 
repressão, notadamente aos pobres. Em 
outras palavras, há também uma mensagem – 
após a repressão desmesurada e generalizada 
na semana passada – de que à polícia cabe 
garantir os direitos democráticos, e não 
proteger prioritariamente o patrimônio, 
especialmente o privado. 
6) A saturação da grande mídia e a incrível 
timidez dos governos petistas em enfrentá-
la. O oportunismo dos meios de comunicação 
em “mudar de posição” na tentativa de 
involucrar os movimentos sociais, colocando-
se “ao lado deles”, denota uma vez mais seu 
caráter de Partido da Imprensa Golpista. Toda 
a programação vinculada ao entretenimento 
de baixa qualidade e descompromisso com a 
cidadania, e, agora, a cobertura das 
manifestações cuja referência é o 
“vandalismo”, em oposição aos “ordeiros”, 
torna os meios de comunicação atores centrais 
na crise de representação, que necessitam, 
portanto e urgentemente, ser reformados à luz 
do que vem ocorrendo na Argentina e outros 
países e, anteriormente, o que ocorreu na 
França no pós-guerra. 
Tudo isso transparece, por formas diversas, e 
deve ser analisado em profundidade. 
Por fim, “como” tudo isso é mobilizado e 
emitido pelos movimentos sociais? Ao que 
tudo indica, pelo boca-a-boca, pelos 
“torpedos” dos celulares, pelas redes sociais 
e sobretudo pelo incrível sentimento e 
percepção de que não é mais possível aguentar 
a vida que se leva. Nesse sentido, “bastou” um 
movimento não partidário, com causa 
“universal” (não corporativa), sem lideranças 
claras e não verticalizado, para catalisar – 
enfatize-se – esse conjunto difuso e 
heterogêneo de insatisfações. 
É claro que ninguém esperava uma tal 
repercussão, nem o próprio MPL, mas esse 
próprio espanto é sinal claro de que o 
sistema político tradicional está em crise, e 
que a mídia – que tenta permanente e 
ilegitimamente ocupar o espaço da 
representação política – igualmente está em 
crise e precisa ser reformada radicalmente. 
A incapacidade do sistema político em 
auscultar a pulsão da sociedade profunda, 
sobretudo num sistema político cuja moldura 
permite aventureiros de toda sorte, é grave. 
48 
 
Aos democratas cabem tarefas urgentes de 
resgate da democracia por meio da ampliação 
radical da transparência, da participação 
popular (“ouvir a ruas”) e do controle social, 
tendo em vista a elaboração e implementação 
de políticas públicas transformadoras. 
“Os protestos de junho de 2013 parecem 
ampliar os horizontes da política e da 
democracia. A reivindicação de que “o 
cidadão, e não o poder econômico esteja em 
primeiro lugar” recoloca o conflito 
redistributivo no centro do debate nacional. O 
enfrentamento desse ponto reforça a visão de 
que o desenvolvimento requer Estado forte e 
democrático” (Eduardo Fagnani). 
28/06/2013 - Protestos na rua: mais Estado e 
menos mercado? Vicente Faleiros 
 Há um discurso dominante nos meios políticos 
e econômicos de que é preciso reduzir o Estado 
ou até mesmo substituí-lo pelo mercado, na 
ótica neoliberal. No entanto, os protestos que 
se desencadearam nas ruas em mais de 100 
cidades brasileiras no mês de junho de 2013 
pedem por mais presença e ação do Estado, 
principalmente nas esferas da educação, da 
saúde, da mobilidade urbana e do combate à 
corrupção. Os manifestantes que ocuparam 
ruas e praças reivindicam direitos assegurados, 
ou seja, cidadania na prática, não no papel. 
 
 
ARANHA, Maria Lúcia de Arruda. 
Filosofando – Introdução à Filosofia. 3. ed. 
São Paulo: Moderna, 2003. 
 ÉTICA 
01 – Os valores 
 Os valores podem ser estéticos, 
afetivos, econômicos, religiosos, éticos, etc. 
Mas o que são valores? Diante dos seres somos 
mobilizados pela nossa afetividade, somos 
afetados de alguma forma por eles, porque nos 
atraem ou provocam nossa repulsa. 
 Enfim, os valores resultam das 
relações que os seres humanos estabelecem 
entre si e com o mundo em que vivem. Por 
isso os valores são em parte herdados da 
cultura e nossa primeira compreensão da 
realidade se funda no solo dos valores da 
comunidade a que pertencemos. Esse fato 
talvez nos faça concluir que tais experiências 
variam conforme o povo e a época. 
 Os valores são, num primeiro 
momento, herdados por nós. Ao nascermos, o 
mundo cultural é um sistema de significados 
já estabelecidos, de tal modo que 
aprendemos desde cedo como nos comportar 
à mesa, na rua, diante de estranhos, como, 
quando, e quanto falar em determinadas 
circunstâncias; como andar, correr, brincar; 
como cobrir o corpo e quando desnudá-lo; qual 
o padrão de beleza; que direitos e deveres 
temos. Conforme atendemos ou transgredimos 
os padrões, os comportamentos são avaliados 
como bons ou maus. 
Para o sociólogo Durkheim, a 
consciência coletiva “é o conjunto das 
crenças e dos sentimentos comuns à média 
dos membros de uma mesma sociedade”. A 
consciência coletiva não se baseia na 
consciência dos indivíduos singulares ou de 
grupos específicos, mas está espalhada por 
toda a sociedade. Assim, a consciência coletiva 
não é o que um indivíduo pensa, mas é o que 
a “sociedade pensa”. 
É a consciência coletiva que irá impor 
as regras sociais de uma sociedade; isto 
porque ao nascer, o indivíduo já encontra a 
sociedade pronta e constituída em suas leis. 
Assim, o direito, os costumes, as crenças 
religiosas não são criados pelos indivíduos, 
mas pelas gerações passadas, sendo 
transmitidas às novas através da Educação. Ex: 
proibição de andar nus. Em síntese: não 
matar, não roubar, não andar nu são normas 
comuns a todos os indivíduos que, por serem 
comuns a todos, se convertem em leis morais 
que passam a determinar a conduta das 
pessoas na sociedade. O indivíduo não faz o 
que deseja e sim o que permite a moral social 
de época e lugar dados. 
02 – A moral 
 Os conceitos de moral e ética, ainda 
que diferentes, são com frequência usados 
como sinônimos. Aliás, a etimologia dos 
termos é semelhante: moral vem do latim mos, 
moris, que significa “costume”, “maneira de 
se comportar regulada pelo uso”, e de moralis, 
morale, adjetivo referente ao que é “relativo 
aos costumes”. Ética vem do grego ethos, que 
tem o mesmo significado de “costume”. 
49 
 
 No entanto, podemos estabelecer 
algumas diferenças entre esses dois conceitos. 
A moral é o conjunto de regras de conduta 
admitidas em determinada época ou por um 
grupo de pessoas. 
 A ética ou filosofia moral é a parte da 
filosofia que se ocupa com a reflexão a 
respeito das noções e princípios que 
fundamentam a vida moral. Por exemplo, são 
questões éticas indagar a respeito do que é o 
bem e o mal, o que são valores, qual a natureza 
do dever. 
03 – Caráter histórico e social da moral 
 Neste texto, foi seguida de maneira 
livre a exposição de Adolfo Sánchez Vasquez, 
no seu livro Ética. De início, podemos definir 
a moral como o conjunto de regras que 
determinam o comportamento dos indivíduos 
em um grupo social. 
 A fim de garantir a sobrevivência, o ser 
humano age sobre a natureza transformando-a 
em cultura. Para que a ação coletiva seja 
possível, são estabelecidas regras que 
organizam as relações entre os indivíduos. É 
de tal importância a existência do mundo moral 
que se torna impossível imaginar um povo sem 
qualquer conjunto de regras. Uma das 
características humanas fundamentais é a de 
sermos capazes de produzir interdições 
(proibições). Segundo o antropólogo francês 
Lévi-Strauss, a passagem da natureza à cultura, 
é produzida pela instauraçãoda lei, por meio 
da proibição do incesto. Assim, se estabelecem 
as relações de parentesco e de aliança sobre as 
quais é construído o mundo humano, que é 
simbólico. 
 Exterior e anterior ao indivíduo há, 
portanto, a moral constituída, que orienta seu 
comportamento por meio de normas. Em 
função da adequação ou não à norma 
estabelecida, o ato será considerado moral ou 
imoral. 
 O comportamento moral varia de 
acordo com o tempo e o lugar, conforme as 
exigências das condições nas quais as pessoas 
se organizam ao estabelecerem as formas de 
relacionamento e as práticas de trabalho. À 
medida que essas relações se alteram, exigem 
lentas modificações nas normas de 
comportamento coletivo. 
04 – Caráter pessoal da moral 
 A ampliação do grau de consciência e 
de liberdade, e, portanto, de responsabilidade 
pessoal no comportamento moral, introduz um 
elemento contraditório que irá, o tempo todo, 
angustiar a pessoal: a moral, ao mesmo tempo 
que é o conjunto de regras que determina como 
deve ser o comportamento dos indivíduos do 
grupo, é também a livre e consciente aceitação 
das normas. Isso significa que o ato só é 
propriamente moral se passar pelo crivo da 
aceitação pessoal da norma. 
 Portanto, o ser humano, ao mesmo 
tempo que é herdeiro, é criador da cultura, e a 
vida moral irá se configurar quando, diante da 
moral constituída, ele for capaz de propor a 
moral constituinte, aquela que se realiza a cada 
experiência vivida. 
 Nessa perspectiva, a vida moral se 
funda em uma ambiguidade fundamental, 
justamente a que determina o seu caráter 
histórico. Toda moral está situada no tempo e 
reflete o mundo em que nossa liberdade se 
achada situada. Diante do passado que o 
condiciona nossos atos, podemos nos colocar a 
distância para reassumi-lo ou recusá-lo. 
05 – Conclusão 
 O delicado tecido da moral diz respeito 
ao indivíduo no mais fundo do seu “foro 
íntimo”, ao mesmo tempo que o vincula às 
pessoas com as quais convive. 
 Embora a ética não se confunda com a 
política, elas se relacionam necessariamente, 
cada uma no seu campo específico. Por um 
lado, a política, ao estender a justiça social a 
todos, permite que os indivíduos tenham 
condições de melhor formação moral. Por 
outro lado, a formação ética é importante para 
o exercício da cidadania, quando os interesses 
pessoais não se sobrepõem aos coletivos. 
 
CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São 
Paulo: Ática, 2005 p. 305-310 
Os valores ou fins éticos 
 Do ponto de vista dos valores, a ética 
exprime a maneira como uma cultura e 
uma sociedade definem para si 
mesmas o que julgam ser o mal e o 
vício, a violência e o crime e, como 
contrapartida, o que consideram ser o 
bem e a virtude. Todas as culturas 
50 
 
consideram virtude algo que é o 
melhor como sentimento, como 
conduta e como ação; a virtude é a 
excelência, a realização perfeita de um 
modo de ser, sentir e agir. 
 
Os meios morais 
 Além do sujeito ou pessoa moral e dos 
valores ou fins morais, o campo ético 
é ainda constituído por um outro 
elemento: os meios para que o sujeito 
realize os fins. 
 Costuma-se dizer que os “fins 
justificam os meios”, de modo que, 
para alcançar um fim legítimo, todos 
os meios disponíveis são válidos. No 
caso da ética, porém, essa afirmação 
não é aceitável. 
 No caso da ética, portanto, nem todos 
os meios são justificáveis, mas apenas 
aqueles que estão de acordo com os 
fins da própria ação. Em outras 
palavras, fins éticos exigem meios 
éticos. 
 A relação entre meios e fins pressupõe 
a ideia de discernimento, isto é, que 
saibamos distinguir entre meios 
morais e imorais, tais como nossa 
cultura ou nossa sociedade os definem. 
Isso significa também que esse 
discernimento não nasce conosco, mas 
precisa ser adquirido por nós e, 
portanto, a pessoa moral não existe 
como um fato dado, mas é criada pela 
vida intersubjetiva e social, precisando 
ser educada para os valores morais e 
para as virtudes de sua sociedade. 
 
Ética ou filosofia moral 
 Toda cultura e cada sociedade institui 
uma moral, isto é, valores 
concernentes ao bem e ao mal, ao 
permitido e ao proibido e à conduta 
correta e à incorreta, válidos para 
todos os seus membros. 
 No entanto, a simples existência da 
moral não significa a presença 
explícita de uma ética, entendida 
como filosofia moral, isto é, uma 
reflexão que discuta, problematize e 
interprete o significado dos valores 
morais. 
 A filosofia moral ou a disciplina 
denominada a ética nasce quando se 
passa a indagar o que são, de onde vêm 
e o que valem os costumes. 
 Éthos significa na língua grega 
costume ou caráter. A filosofia moral 
ou a ética nasce quando, além das 
questões sobre os costumes, também 
se busca compreender o caráter de 
cada pessoa, isto é, o senso moral e a 
consciência moral individuais. 
Em síntese: 
ÉTICA 
 Ciência sobre o comportamento moral 
dos homens em sociedade. Sua função 
é explicar, esclarecer e investigar uma 
determinada realidade. 
 É a ciência que tem como objeto os 
juízos de valor 
 A ética tem conteúdo universal e parte 
do princípio da igualdade dos seres 
humanos e de seus direitos 
inalienáveis à paz e ao bem-estar 
 O cerne da ética universal transcende a 
todos os sistemas de crenças e valores. 
 
MORAL: “conjunto de normas, aceitas livre e 
conscientemente, que regulam o 
comportamento individual dos homens.” 
(Vasquez) 
 Manifesta-se nas diferentes 
sociedades. Sua função é regulamentar 
as relações entre os indivíduos e entre 
estes e a comunidade, contribuindo 
para a ordem social. 
 A moral não é natural e resulta da ação 
do homem enquanto ser histórico e 
social 
 
14/12/2014 - Ética não é só um problema dos 
políticos, mas do cotidiano de todos 
Se você é daqueles que se enfurecem ou se 
entristecem com o insistente tema da corrupção 
no Brasil, mas não deseja restringir-se à 
cantilena das obviedades despejada pelo 
colunismo público moralista, recorra a uma 
leitura imediata – o novo livro da filósofa 
Marcia Tiburi: Filosofia prática – Ética, vida 
cotidiana e vida virtua. 
51 
 
Em seu livro, Marcia Tiburi pensa a ética como 
ação. Pensamento é um ato, diz a filósofa, 
buscando sincronizar pensamento e ação. 
Sincronia esta que, segundo suas palavras, “é o 
desenho feito de pedras no fundo arenoso do 
rio da vida cotidiana, onde, apressados, 
molhamos os nossos pés, onde, menos atentos, 
nos afundamos até o pescoço sem perceber o 
que acontece”. Diz mais: “Chamo de Filosofia 
Prática a fotografia desse rio, ora barrento, ora 
cristalino”. 
Por vida cotidiana ela entende a vida 
“simplesmente vivida, a realidade partilhada 
como “naturalidade”. A ética corresponde à 
pergunta e, ao mesmo tempo, poderia ser a 
resposta aos problemas humanos do que 
podemos resumir como convivência. Seja a 
convivência consigo mesmo, com o outro, com 
a cultura mais ampla, com a sociedade do 
espetáculo, todos os problemas enfim do 
cotidiano – o lugar de “viver junto, de viver 
“com”. 
Eu comigo, eu com o outro 
Daí porque ela faz três perguntas essenciais: 1. 
Como me torno aquilo que sou? 2. O que 
estamos fazendo uns com os outros? 3. Como 
viver junto? Neste último caso se apropria de 
um belo título de Roland Barthes, a quem 
recorre também para a epígrafe “Por que não 
falar a língua de todo mundo?” (mais do que 
uma epígrafe, é também uma preocupação 
exposta em todo o livro, a busca por uma 
escrita sem rebuscamentos excessivos, 
contorcionismosteóricos e academicismo no 
mau sentido). 
Explica-se. 
Passo a passo, contínua e diariamente, o Brasil 
vem se acostumando à ideia de que o mal-estar 
da sociedade decorre da convicção de que as 
autoridades eleitas para administrar os recursos 
das comunidades não oferecem serviços à 
altura do combinado com seus eleitores. Pior: 
apropriam-se ilegalmente de parte desses 
recursos públicos. Em bom português: elegem-
se por um único e exclusivo e interesse. Porque 
são um bando de larápios. Todos gatunos. 
Bandidos. 
Daí a suposição coletiva, compreensiva para 
muitos ingênuos, de que existam normas 
eleitorais, a serem urgentemente postas em 
prática, capazes de propiciar uma limpeza 
irrestrita nas regras e nos costumes políticos. 
Desse modo – assim supõem “cidadãos de 
bem”, colunistas públicos, éticos e 
moralizadores em geral – os prevaricadores 
serão removidos da vida pública, os recursos 
estarão melhor administrados, e a política 
ficará livre de personagens pecaminosos. 
Difícil acreditar na existência de regras tão 
eficientes, a ponto de filtrar a esse nível os 
cidadãos em geral – incluindo, claro, aqueles 
que embarcam na vida pública. Como afirmou 
o cientista político Wanderley Guilherme dos 
Santos, num artigo publicado no iG há mais de 
um ano, ainda que existissem regras tão 
eficientes, “elas não se aplicariam ao outro lado 
das transações espúrias, isto é, aos 
corruptores”. No quesito “cidadãos virtuosos”, 
ressaltou o professor, o Brasil “hospeda 
sensacional taxa de corruptores”. Cito-o: 
“Do jovem motoqueiro insinuando uma 
gorjeta ao policial que o multa por excesso de 
velocidade ao indignado cidadão que 
esbraveja contra as instituições políticas, mas, 
enquanto feliz proprietário de um 
estabelecimento comercial, oferece modesta 
propina para que o fiscal ignore as 
insatisfatórias condições de segurança de 
incêndio de seu negócio – são raríssimas as 
exceções à cultura prevalecente no Brasil, 
segundo a qual é quase sempre possível 
esconder uma ilegalidade promovendo outra. 
E não há talvez brasileiro que nunca tenha sido 
objeto de ameaçadora pressão corruptora por 
parte dos profissionais liberais – médicos, 
advogados, dentistas, analistas, etc. – a cujos 
serviços recorre com frequência, deixando de 
cobrar-lhes recibos e tornando-se cúmplice de 
crimes fiscais.” 
Nesse caso, lembra Wanderley Guilherme dos 
Santos, são os corruptos e corruptores que se 
consideram iguais na demanda por ética na 
política, e até justificam a violência niilista de 
alguns grupos em passeatas intimidantes pelas 
ruas de grandes cidades, comuns em junho do 
ano passado. 
52 
 
Dez/2012 - O desafio da ética na Sociedade 
do Conhecimento 
Márcia Tiburi 
Ética é uma das questões mais importantes no 
contexto de nossa sociedade, tanto da esfera 
pública, quanto de nossas vidas privadas. 
Somos éticos quando refletimos sobre o que 
fazemos, quando medimos e qualificamos 
nossas ações levando em conta o que somos e 
podemos ser, com base no reconhecimento do 
outro, seja ele nosso próximo, a sociedade ou 
até mesmo o planeta. Sem a ética não sabemos 
nos situar em nenhuma esfera de nossas vidas. 
Sem a ética nos tornamos alienados, ou seja, 
figuras desconectadas de uma reflexão sobre o 
sentido da vida em sociedade. 
Mas o que é ética hoje? Como ela vem sendo 
entendida? O que é ética no mundo do 
trabalho, na família, no cotidiano, na escola? 
O que os meios de comunicação tem feito da 
ética? Ética é, principalmente, a relação que 
estabelecemos uns com os outros. É o 
questionamento sobre o sentido da convivência 
baseada na pergunta “o que estamos fazendo 
uns com os outros?”. 
Ética é um tipo de postura e, 
consequentemente, de ação, certamente 
mediada em princípios tais como o respeito à 
subjetividade, à dignidade da pessoa, à 
diversidade, ao outro. Mas não se trata de uma 
pura ação. Antes trata-se da relação entre 
pensamento e ação. Neste sentido, para que 
cheguemos à ética, precisamos lutar pela 
desmistificação da separação entre teoria e 
prática. Esta é uma das questões mais 
fundamentais quando falamos de ética como a 
“filosofia prática” que ela, de fato, é. Ética é a 
capacidade de pensar e fazer a partir de um 
princípio de autonomia pessoal em que cada 
sujeito se questiona sobre o que pensa e faz, 
levando em conta que o questionamento já é, 
em si mesmo, pensamento e ação que terá 
consequências concretas. Quem não pensa por 
conta própria é levado a pensar o que os outros 
para ele definiram como verdade. É neste 
sentido que muitos introjetam aquilo mesmo 
que lhes faz mal, que édito contra eles 
mesmos. 
Ao mesmo tempo, vivemos em uma sociedade 
caracterizada por uma relação imediata com a 
informação e certa ideia de conhecimento que 
parece não prever muito espaço e tempo para o 
cultivo da subjetividade que nos permitiria a 
invenção da ética entre nós. Os 
relacionamentos já não são baseados em 
princípios éticos porque não existe mais a 
esfera da subjetividade, ou, em outros termos, 
da interioridade, da consciência de si, do 
autoquestionamento e da crítica social. Aquilo 
que antigamente chamávamos de “alma”. 
Experimentamos nos diversos contextos da 
experiência vivida, transformações profundas 
que alteram nosso modo de ver e, portanto, de 
agir no mundo. As novas tecnologias, a 
Internet, as Redes Sociais, têm levantado 
muitas questões que tanto o campo da filosofia, 
quanto o da antropologia, da sociologia e da 
educação procuram responder. A contradição 
entre um mundo de informação e a 
desvalorização da comunicação e da educação 
é uma delas. Nossa cultura desvaloriza, 
igualmente, a cultura… Como fomentar a 
subjetividade se estas esferas que a criam estão 
aviltadas em nossos meios? 
Neste contexto, a reflexão sobre a ética se 
torna fundamental como modo de pensar e 
promover a ação nas variadas experiências no 
mundo da vida levando em conta os problemas 
culturais de nosso país que vão do 
analfabetismo generalizado à corrupção. A 
reflexão sobre a ética permite re-situar o 
sentido do conhecimento e da cultura, 
dirigindo-nos a uma valorização da educação 
em termos de formação que transcende o 
espaço da escola e nos liga novamente ao 
sentido da vida como um todo, ao espaço que 
habitamos, a cidade onde vivemos, a sociedade 
que ajudamos a formar com todas as nossas 
ações. 
 
 
ÉTICA PROFISSIONAL 
 
 Muitos autores definem a ética 
profissional como sendo um conjunto de 
normas de conduta que deverão ser postas em 
prática no exercício de qualquer profissão. 
Seria a ação "reguladora" da ética agindo no 
53 
 
desempenho das profissões, fazendo com que 
o profissional respeite seu semelhante quando 
no exercício da sua profissão. 
 
 A ética profissional estudaria e 
regularia o relacionamento do profissional 
com sua clientela, visando a dignidade humana 
e a construção do bem-estar no contexto 
sociocultural onde exerce sua profissão. 
 
 Ela atinge todas as profissões e quando 
falamos de ética profissional estamos nos 
referindo ao caráter normativo e até jurídico 
que regulamenta determinada profissão a 
partir de estatutos e códigos específicos. 
 
 Assim temos a ética médica, do 
advogado, do biólogo, do engenheiro de 
produção engenheiro químico, engenheiro 
civil, contador etc. 
 
 Sendo a ética inerente à vida 
humana, sua importância é bastante 
evidenciada na vida profissional, porque cada 
profissional tem responsabilidades individuais 
e responsabilidades sociais, pois envolvempessoas que dela se beneficiam. 
 
Virtudes profissionais 
 
 Não obstante os deveres de um 
profissional, os quais são obrigatórios, 
devem ser levadas em conta as qualidades 
pessoais que também concorrem para o 
enriquecimento de sua atuação profissional, 
algumas delas facilitando o exercício da 
profissão. 
 
 Muitas destas qualidades poderão ser 
adquiridas com esforço e boa vontade, 
aumentando neste caso o mérito do 
profissional que, no decorrer de sua 
atividade profissional, consegue incorporá-
las à sua personalidade, procurando vivenciá-
las ao lado dos deveres profissionais. 
 
 Existe uma associação entre as 
virtudes: lealdade, responsabilidade e 
iniciativa como fundamentais para a 
formação de recursos humanos. Segundo 
Clauss Moller o futuro de uma carreira 
depende dessas virtudes. 
 
 As virtudes da responsabilidade e da 
lealdade são completadas por uma terceira, a 
iniciativa, capaz de colocá-las em movimento. 
 
 Tomar a iniciativa de fazer algo no 
interesse da organização significa ao mesmo 
tempo, demonstrar lealdade pela 
organização. Em um contexto de 
empregabilidade, tomar iniciativas não quer 
dizer apenas iniciar um projeto no interesse da 
organização ou da equipe, mas também 
assumir responsabilidade por sua 
complementação e implementação. 
 
 Gostaríamos ainda, de acrescentar 
outras qualidades que consideramos 
importantes no exercício de uma profissão. 
São elas: 
 
Honestidade: A honestidade está relacionada 
com a confiança que nos é depositada, com a 
responsabilidade perante o bem de terceiros e 
a manutenção de seus direitos. A honestidade é 
a primeira virtude no campo profissional. É 
um princípio que não admite relatividade, 
tolerância ou interpretações circunstanciais. 
Sigilo: O respeito aos segredos das pessoas, 
dos negócios, das empresas, deve ser 
desenvolvido na formação de futuros 
profissionais, pois trata-se de algo muito 
importante. Uma informação sigilosa é algo 
que nos é confiado e cuja preservação de 
silêncio é obrigatória. 
 
Competência: Competência, sob o ponto de 
vista funcional, é o exercício do 
conhecimento de forma adequada e 
persistente a um trabalho ou profissão. 
Devemos buscá-la sempre. O conhecimento da 
ciência, da tecnologia, das técnicas e 
práticas profissionais é pré-requisito para a 
prestação de serviços de boa qualidade. 
 
Prudência: Todo trabalho, para ser executado, 
exige muita segurança. A prudência, fazendo 
com que o profissional analise situações 
complexas e difíceis com mais facilidade e de 
forma mais profunda e minuciosa, contribui 
para a maior segurança, principalmente das 
decisões a serem tomadas. 
 
Coragem: Todo profissional precisa ter 
coragem, pois "o homem que evita e teme a 
tudo, não enfrenta coisa alguma, torna-se um 
54 
 
covarde" (ARISTÓTELES). A coragem nos 
ajuda a reagir às críticas, quando injustas, e a 
nos defender dignamente quando estamos 
cônscios de nosso dever. Nos ajuda a não ter 
medo de defender a verdade e a justiça, 
principalmente quando estas forem de real 
interesse para outrem ou para o bem comum. 
 
Perseverança: Qualidade difícil de ser 
encontrada, mas necessária, pois todo trabalho 
está sujeito a incompreensões, insucessos e 
fracassos que precisam ser superados, 
prosseguindo o profissional em seu trabalho, 
sem entregar-se a decepções ou mágoas. 
 
Compreensão: Qualidade que ajuda muito um 
profissional, porque é bem aceito pelos que 
dele dependem, em termos de trabalho, 
facilitando a aproximação e o diálogo, tão 
importante no relacionamento profissional. 
Vê-se que a compreensão precisa ser 
condicionada, muitas vezes, pela prudência. 
 
Humildade: O profissional precisa ter 
humildade suficiente para admitir que não é o 
dono da verdade e que o bom senso e a 
inteligência são propriedade de um grande 
número de pessoas. 
 
Otimismo: Em face das perspectivas das 
sociedades modernas, o profissional precisa e 
deve ser otimista, para acreditar na capacidade 
de realização da pessoa humana, no poder do 
desenvolvimento, enfrentando o futuro com 
energia e bom humor. 
 
IDEOLOGIA: UM CONCEITO 
POLÊMICO 
 
 O conceito de ideologia foi criado por 
Destutt de Tracy, filósofo francês, no final do 
século XVIII: a ideologia deveria ser 
compreendida como “ciência das ideias”, 
assemelhando-se às ciências naturais. Partia-se 
da crença na razão (própria do espírito 
iluminista do século XVIII). 
 
 Marx e Engels afirmam, em A 
ideologia alemã, que as ideias dominantes de 
uma época são as ideias da classe então 
dominante. Poderíamos deduzir a partir desse 
pressuposto que, para manter sua dominação, 
interessa a essa classe fazer com que os seus 
próprios valores sejam aceitos como certos 
por todas as demais classes sociais. 
Expliquemos: conforme Marilena Chauí, o 
discurso ideológico se caracteriza exatamente 
por pretender anular a diferença entre o 
pensar, o dizer e o ser, criando uma lógica que 
consiga unificar pensamento, linguagem e 
realidade, obtendo a identificação de todos os 
sujeitos sociais com uma imagem particular 
universalizada: a imagem da classe 
dominante. 
 
 O Estado tem como função ocultar os 
conflitos e antagonismos que exprimem a 
existência das contradições próprias de uma 
sociedade dividida em classes – classes que se 
encontram em luta permanente. A ideologia 
veiculada pelo Estado oferece a essa 
sociedade uma imagem que anula a luta, a 
divisão e a contradição; uma imagem da 
sociedade como idêntica, homogênea e 
harmoniosa. E é por isso que ela se mantém. 
Além disso, elabora a imagem de um Estado 
que representa a sociedade como um todo. 
Segundo Chauí, a ideia de que o Estado 
representa toda a sociedade e de que todos os 
cidadãos estão representados nele é uma das 
grandes forças para legitimar a dominação 
dos dominantes (isto é, para fazer com que 
essa dominação seja aceita como norma, legal, 
justa). 
 
01 – Ideologia: sentido amplo 
 Há vários significados para a palavra 
ideologia. Em sentido amplo, é o conjunto de 
ideias, concepções ou opiniões sobre algum 
ponto sujeito a discussão. Quando 
perguntamos qual é a ideologia de 
determinado pensador, estamos nos 
referindo à doutrina, ao corpo sistemático de 
ideias e ao seu posicionamento interpretativo 
diante de certos fatos. 
 Ainda podemos considerar a ideologia 
como teoria, no sentido de organização 
sistemática dos conhecimentos que antecedem 
a ação efetiva, tal como nos referimos à 
ideologia de uma escola, que orienta a prática 
pedagógica; à ideologia religiosa, que dá 
regras de conduta aos fiéis; à ideologia de um 
partido político, que fornece diretrizes de ação 
a seus filiados. 
02 – Ideologia: sentido restrito 
55 
 
 O conceito de ideologia segundo a 
concepção marxista adquire um sentido 
negativo, como instrumento de dominação. 
Isso significa que a ideologia tem influência 
marcante nos jogos de poder e na manutenção 
dos privilégios que plasmam a maneira de 
pensar e de agir dos indivíduos na sociedade. 
 Vejamos agora a definição dada pela 
professora e filósofa Marilena Chauí: “a 
ideologia é um conjunto lógico, sistemático e 
coerente de representações (ideias e valores) e 
de normas ou regras (de conduta) que indicam 
e prescrevem aos membros da sociedade o que 
devem pensar e como devem pensar o que 
devem valorizar e como devem valorizar o que 
devem sentir e como devem sentir o que devem 
fazer e como devem fazer”.Observamos então que a ideologia é 
apresentada com as seguintes características 
fundamentais: 
 Constitui um corpo sistemático de 
representações que nos “ensinam” a 
pensar e de normas que nos “ensinam” 
a agir; 
 Assegura determinada relação dos 
indivíduos entre si e com suas 
condições de existência, adaptando-as 
às tarefas prefixadas pela sociedade; 
 As diferenças de classe e os conflitos 
sociais são camuflados, ora com a 
descrição da “sociedade una e 
harmônica”, ora com a justificação das 
diferenças existentes; 
 Assegura a coesão social e a aceitação 
sem críticas das tarefas mais penosas e 
pouco recompensadoras, em nome da 
“vontade de Deus” ou do “dever 
moral” ou simplesmente como 
decorrência da “ordem natural das 
coisas”; 
 Mantém a dominação de uma classe 
sobre outra. 
 A ideologia se caracteriza pela 
naturalização, na medida em que são 
consideradas naturais situações que na 
verdade resultam da ação humana e, como tal, 
são históricas e não naturais: por exemplo, 
quando se considera natural que a sociedade 
esteja dividida em ricos e pobres ou que uns 
mandem e outros obedeçam. 
 Outra característica da ideologia é a 
universalização, pela qual os valores de quem 
detém o poder são estendidos aos que a ele se 
submetem. A afirmação de que “o trabalho 
dignifica” é difícil de ser contestada. Essa 
afirmação torna-se ideológica quando se baseia 
em uma abstração, ou seja, quando 
consideramos apenas a ideia de trabalho, 
independentemente da análise concreta e 
histórico-social em que é de fato realizado. 
03 – A ideologia em ação 
a) a ideologia na escola 
 Por volta dos anos 1970, teóricos 
franceses passaram a admitir que a escola não 
é equalizadora, mas reprodutora das 
diferenças sociais. Segundo alguns desses 
pensadores, o próprio funcionamento da escola 
repetiria a estrutura hierarquizada do 
sistema, reproduzindo as relações autoritárias 
existentes fora dela. Em decorrência dessas 
concepções pessimistas a respeito da atuação 
da escola, outros estudiosos passaram a 
investigar o caráter ideológico da produção da 
literatura infanto-juvenil e dos livros 
didáticos. 
 Escola: “lócus” da contradição 
 Reprodução da ideologia – alienação – 
conservação e manutenção da 
sociedade ou 
 Espaço da crítica – emancipação – 
transformação da sociedade 
 Desta forma, não devemos 
generalizar apressadamente, reduzindo a 
escola e o material didático em instrumentos 
de ideologia, por ser uma posição por demais 
redutora. Além disso, as boas escolas são 
críticas do sistema e cada vez mais buscam 
aproximar ensino e vida. Sempre haverá na 
escola e nos livros, a possibilidade de 
professores, autores e alunos inventarem 
práticas que se tornem críticas da inculcação 
ideológica. 
 A escola é um espaço possível de luta, 
de denúncia da domesticação e de procura de 
soluções criativas. 
b) A ideologia nas histórias em quadrinhos 
56 
 
 Os quadrinhos são um fenômeno 
característico da indústria cultural e têm sua 
principal divulgação no século 20, quando 
começam a aparecer nas publicações diárias 
dos jornais. Além da função de 
entretenimento e lazer, representantes que 
são de uma nova linguagem artística. 
 Nossa abordagem do tema parte da 
reflexão acerca da ambiguidade de toda 
produção cultural: ao mesmo tempo que serve 
à consciência, pode servir à alienação; tanto 
ao conhecimento como à escamoteação da 
realidade; tanto pode ser criativa como 
paralisadora. 
 Os chilenos Ariel Dorfman e 
Armand Mattelart defenderam a tese de que 
a leitura das histórias em quadrinhos não era 
tão inocente assim como se pensava. Fizeram 
impiedosa crítica aos quadrinhos ao 
denunciarem a ideologia subjacente aos 
quadrinhos, nos quais as histórias 
escamoteiam os conflitos, transmitem uma 
visão deformada do trabalho e levam à 
passividade política. Para eles, na maioria das 
histórias em quadrinhos, a sociedade aparece 
como una, estática e harmônica e a “ordem 
natural” do mundo é quebrada apenas pelos 
vilões, que, encarnando o mal, atentam 
geralmente contra o patrimônio (roubo de 
bancos, joias e caixas-fortes). A defesa da 
legalidade dada e não questionada é feita pelos 
“bons”, com a morte dos “maus” ou com a 
integração desses à norma estabelecida. 
c) Outros espaços de ação ideológica 
 A ideologia se faz presente nos mais 
diversos campos de atuação. Um deles é a 
propaganda. Tudo bem que possamos 
entender a propaganda como uma maneira de 
divulgar ao provável consumidor a variedade e 
a qualidade do que é produzido, o que por sinal 
é muito bem-feito pelas competentes agências 
de propaganda. 
 A propaganda não vende apenas 
produtos, mas também ideias. Compramos o 
“sonho americano”, o desejo de “subir na 
vida”, os estilos de vida, as convicções 
políticas e éticas que de certa forma são 
veiculadas nos comerciais. Isso sem falar nas 
campanhas de governos ou no marketing dos 
candidatos a qualquer cargo público. 
 Outro espaço possível de ação da 
ideologia é o da mídia. A imprensa falada e 
escrita é formadora de opinião, o que 
representa algo positivo, desde que, numa 
sociedade plural, tenhamos acesso a diversos 
veículos de informação a fim de poder 
comparar a diversidade de posicionamentos e 
então assumir uma posição crítica pessoal. 
 As distorções ocorrem quando a 
empresa jornalística determina o que deve ser 
considerado notícia; quando é manipulada por 
meio de recursos linguísticos. Da mesma 
forma, quando são utilizados adjetivos 
carregados de juízos de valor, como 
“baderneiros”, “perturbadores da ordem” ao 
noticiar uma greve. 
5º texto: Meios de comunicação de massa, 
tecnologia e novas mídias; Sociedade de 
consumo 
 
CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. 13. ed. 
São Paulo: Ática, 2005. pag. 293-299 
 
 
MEIOS DE COMUNICAÇÃO DE MASSA, 
TECNOLOGIA E NOVAS MÍDIAS 
 
A expressão comunicação de massa 
foi criada para referir-se aos objetivos 
tecnológicos capazes de transmitir a mesma 
informação para um público muito amplo, 
isto é, para a massa. Inicialmente, referia-se ao 
rádio e ao cinema, pois a imprensa 
pressupunha pessoas alfabetizadas, o que não 
requerido pelo rádio nem pelo cinema em seus 
começos. Pouco a pouco estendeu-se para a 
imprensa, a publicidade ou propaganda, a 
fotografia, o telefone, o telégrafo, o fonógrafo 
com os discos, a televisão e a Internet. Esses 
objetos tecnológicos são os meios por 
intermédio dos quais a informação é 
transmitida ou comunicada. 
 
 Em latim, meio se diz médium e, no 
plural, meios se diz media. Os primeiros 
teóricos dos meios de comunicação 
empregaram a palavra latina media. Como 
eram teóricos de língua inglesa, diziam mass 
media, isto é, “os meios de massa”. A 
57 
 
pronúncia em inglês, do latim media é 
“mídia”. Quando os teóricos de língua inglesa 
dizem “the media”, estão dizendo “os meios”. 
Por apropriação da terminologia desses 
teóricos no Brasil, a palavra mídia passou a ser 
empregada como se fosse uma palavra 
feminina no singular – “a mídia”. 
 
 O que os meios (ou “a mídia”) 
veiculam? O que transmitem? Sob a forma 
de romances, novelas, contos, notícias, 
músicas, debates, danças, jogos, eles 
transmitem informações. 
 
Em síntese, o termo "meio de 
comunicação" refere-se ao instrumento ou à 
forma de conteúdo utilizados para a realização 
do processo comunicacional. Quando referido 
a comunicação de massa, pode ser considerado 
sinônimo de mídia. Entretanto, outros meios 
de comunicação, como o telefone, nãosão 
massivos e sim individuais (ou interpessoais). 
 O jornal foi o primeiro meio de 
comunicação de massa criado pelo homem: 
originário dos documentos informativos dos 
navegadores do século XVI, esse meio 
originalmente impresso tomou a forma que 
tem hoje em 1836, na França; o jornal, hoje, 
também tem a forma falada (imprensa 
falada), no rádio, e a forma televisiva 
(imprensa televisada). Veracidade, 
imparcialidade, objetividade e credibilidade 
são as qualidades que garante o sucesso de 
um jornal. A base do jornalismo é a notícia, 
seu objeto e seu fim (o resto é secundário). A 
função principal da linguagem nesse meio 
de comunicação é a referencial ou 
informativa. Para que o receptor tenha acesso 
à mensagem veiculada por esse meio, é 
preciso que ele saiba ler e escrever, ou seja, 
pertencer a uma parcela privilegiada da 
sociedade. 
 O rádio ainda é o meio de comunicação 
mais popular que existe já que para ter acesso 
às mensagens que ele veicula o receptor não 
precisa ler e escrever: o rádio é um meio que 
se utiliza da linguagem verbal oral, a 
linguagem que todos os ouvintes sabem usar 
desde que aprenderam a falar. Praticamente 
quase toda a população de uma localidade 
possui um aparelho de rádio. Os primeiros 
inventos que possibilitaram a concretização do 
rádio como meio de comunicação de massa 
também datam do século XIX. As primeiras 
emissoras de rádio norte-americanas datam de 
1920 e as do Brasil, entre 1922-25, tendo seu 
clímax nos anos 1930. 
Rádio e televisão 
 
 Os primeiros estudos sociológicos, 
psicológicos e filosóficos sobre os meios de 
comunicação de massa foram feitos quando se 
deu a expansão das ondas de rádio. O rádio 
despertou interesse porque com ele iniciou-se 
efetivamente a informação e a comunicação de 
massa a distância. 
 Dois fatos, o caso da transmissão 
radiofônica de A guerra dos mundos e o uso de 
mensagens radiofônicas pelo nazismo, nos 
ajudam a perceber o impacto e a importância 
do rádio. 
 
 Nos meados dos anos 1930, o ator e 
diretor de cinema, o jovem Orson Welles, 
irradiou por uma rádio de Nova York o 
romance de H.G.Welles, A guerra dos mundos, 
que narrava a invasão da Terra por 
marcianos. Orson Welles e sua turma não 
avisaram o público de que se tratava de uma 
obra de ficção científica, mas a apresentaram 
como se de fato Nova York estivesse sendo 
invadida por alienígenas. O pânico tomou a 
cidade, pessoas fugiram de suas casas, 
procurando trens, ônibus, metrôs e automóveis 
para escapar da ameaça. E depois o pânico 
tomou o país, sendo necessário que o governo 
e o exército norte-americanos interviessem 
para acalmar a população. 
 
 A transmissão de A guerra dos mundos 
mostrou o poder de persuasão e de 
convencimento do rádio e nos explica o 
segundo fato, isto é, seu uso cotidiano e intenso 
feito pelo poder nazista alemão com finalidade 
de propaganda política. Conferências de 
intelectuais nazistas, discursos de Hitler, 
entrevistas com militantes do partido nazista, 
transmissão de notícias diretamente das frentes 
de guerra foram empregados pra convencer a 
sociedade alemã sobre a grandeza, justeza e 
poderio do nazismo. Em outras palavras, o 
nazismo descobriu e explorou a capacidade 
mobilizadora do rádio. 
 
58 
 
Segundo os preceitos desse líder, a 
arte da propaganda nazista consistia em ser 
capaz de despertar a imaginação pública 
apelando para os sentimentos. Essa estratégia 
correspondia à ideia do indivíduo como ser 
irracional movido por instintos. 
 
Não só os meios de comunicação 
como imprensa, rádio, cinema (em 
documentários) foram utilizados, mas também 
literatura, teatro, filmes de ficção, pintura, 
arquitetura, ritos, festas, comemorações, 
desfiles, manifestações cívicas e esportivas. 
 
A propaganda política nazista foi 
organizada por Goebbels (Ministro da 
Informação Popular e Propaganda). Segundo o 
ministro, a Igreja católica continuava viva 
porque repetia a mesma coisa por mais de dois 
mil anos. Ele considerava a repetição a regra 
básica da propaganda. As mensagens deveriam 
ser curtas, repetitivas e com capacidade de 
exercer forte influência psicológica. 
 
A mentira, a calúnia e as 
deformações, constitutivas do nazismo, 
também deveriam fazer parte da propaganda. 
 
 No Brasil, nos anos 1940, durante a 
ditadura de Getúlio Vargas, foi criado pelo 
governo um programa diário para transmitir as 
notícias oficiais e as ideias do ditador: a Voz do 
Brasil, existente até hoje. 
A televisão surgiu nos anos 1940 nos 
Estados Unidos e, nos anos 1950, no Brasil. É 
um “liquidificador cultural”, pois é capaz de 
diluir Cinema, Teatro, Música, Dança, 
Literatura, etc, num só espetáculo, além de ser 
um meio de entretenimento. 
O Grande Irmão 
 
 A maioria do público brasileiro talvez 
não saiba o que seja e quem seja o Big Brother, 
ou o Grande Irmão. É uma personagem do 
romance de George Orwell, 1984. O romance 
descreve uma sociedade totalitária na qual 
todos são permanentemente vigiados por 
câmeras de televisão. Ao infringirem alguma 
regra ou lei, são presos e torturados, 
condicionados para não voltar a errar. As 
pessoas não convivem umas com as outras, 
mas sentem solidão e necessidade de se 
comunicarem. Para isso, todos os dias e várias 
vezes por dia “conversam” com uma tela de 
televisão na qual há um rosto bondoso, o Big 
Brother, o Grande Irmão, que os vigia e lhes 
fala, sem na verdade dizer-lhes nada, a não 
ser dar-lhes ordens. Nessa sociedade, existe o 
“Ministério da Verdade”, cuja função é 
produzir a mentira, eliminando e deformando 
fatos, pessoas e acontecimentos por meio de 
narrativas falsas, a serviço do poder do Big 
Brother. Nela também foi criada a 
“Novilíngua”, um departamento encarregado 
de mudar o sentido das palavras conforme os 
desejos do Big Brother, impedindo que as 
pessoas compreendam o verdadeiro sentido 
delas. 
 
 Essa história terrível sobre o controle 
de corpos, corações e mentes das pessoas por 
sistemas cruéis de vigilância em sociedades 
totalitárias teve seu conteúdo crítico 
inteiramente esvaziado ao servir de modelo 
para um programa de televisão “engraçado 
e divertido” (BBB Brasil), um entretenimento, 
como acontece com tudo na indústria cultural. 
 O espetáculo de vulgaridade e 
ignorância oferecido no vídeo não tem 
similares mundo Creio que a Globo ocupe a 
vanguarda desta operação de imbecilização 
coletiva, de espectro infindo, na sua 
capacidade de incluir a todos, do primeiro ao 
último andar da escada social. 
 Mídia e Política 
 
A “ditadura” da mídia 
 
 “não se preocupem. Não queremos 
controlar o mundo. Só queremos um 
pedaço dele.” (Murdoch, dono do império 
midiático News Corporation, presente em 
133 países) 
 “Sim, eu uso o poder (da Rede Globo), mas 
eu sempre faço isto patrioticamente”. 
(Roberto Marinho) 
 A mídia hegemônica vive um paradoxo: 
ela nunca foi tão poderosa no mundo e no 
Brasil, em decorrência dos avanços 
tecnológicos nos ramos das comunicações 
e das telecomunicações. 
a) exerce uma “ditadura” midiática, 
manipulando informações e 
deturpando comportamentos. Na 
59 
 
crise de hegemonia dos partidos, a 
mídia transforma-se no “partido do 
capital”, diz Gramsci. 
b) Ela é vulnerável e sofre 
questionamentos da sociedade. 
Cresce a resistência ao enorme poder 
manipulador da mídia, como por 
exemplo, as mentiras ditadas pela 
CNN e Fox para justificar a invasão 
dos EUA no Iraque ou suaação 
golpista na Venezuela. 
 Os paradoxos colocam em novo patamar a 
luta pela democratização da mídia e pelo 
fortalecimento de meios alternativos. 
Mídia e poder mundial 
1 - O papel estratégico da mídia global 
 
 As corporações de mídia e 
entretenimento têm papel estratégico no 
processo de reprodução ampliada do 
capitalismo. Não apenas legitimam o ideário 
global, como também o transformam no 
discurso social hegemônico, propagando 
visões de mundo e modos de vida. 
 
 A retórica da globalização enquadra o 
consumo como valor universal, capaz de 
converter necessidades, desejos e fantasias em 
bens integrados à esfera da produção. 
 
 Os aparatos da veiculação fabricam o 
consenso sobre a hipotética superioridade das 
“economias abertas”, insistindo que não há 
saída fora dos pressupostos neoliberais. 
 O avanço do neoliberalismo no terreno 
político-cultural repousa na capacidade das 
indústrias de informação e entretenimento de 
operar como máquinas produtivas. O papel da 
mídia é neutralizar as expressões de crítica e 
dissenso. O “pensamento único” oculta as 
desigualdades. 
2 - O domínio da produção simbólica 
 
 A mídia global está nas mãos de duas 
dezenas de conglomerados, com receitas 
entre 8 e 40 bilhões de dólares. Eles veiculam 
dois terços das informações e dos conteúdos 
culturais disponíveis no planeta. São 
proprietários de estúdios, produtoras, 
distribuidoras e exibidoras de filmes, 
gravadoras de discos, editoras, TVs abertas e 
pagas, emissoras de rádio, revistas, jornais, 
serviços on line, portais e provedores de 
Internet, vídeos, agências de publicidade, 
telefonia celular, etc. 
 
 Uns chamaram a imprensa, e com 
maior razão, a mídia, de quarto poder. Na 
verdade, a mídia não é simplesmente uma força 
estranha à máquina de poder. Ela é parte 
integrante dele. Hoje não há poder sem mídia. 
A mídia é o que divulga, propagandeia, 
sustenta ou derruba um sistema, um regime 
(ver o caso das revoluções no mundo árabe, 
desde janeiro de 2011). 
 
 A mídia tem dono, tem classe, tem 
interesses de classe a defender. Se desejamos a 
livre circulação de informações, é hora de 
revitalizar a sociedade civil e arregimentar 
forças para as ingentes tarefas de revalorizar a 
política como âmbito público de representação 
de anseios e de revitalizar os laços 
comunitários. 
 
O “latifúndio” midiático no Brasil 
 
 Na década passada, nove grupos 
familiares controlavam o grosso da mídia 
nativa: Marinho (Globo), Abravanel 
(SBT), Saad (Bandeirantes), Bloch 
(Manchete), Civita (Abril), Mesquita 
(Estadão), Frias (Folha), Levy (Gazeta), 
Nascimento e Silva (Jornal do Brasil). 
Hoje são apenas seis, com a débâcle das 
famílias Mesquita, Bloch, Levy e 
Nascimento e a inclusão de Macedo. 
 
 Concentração da mídia foi impulsionada 
pela ausência na legislação de qualquer 
norma proibindo a propriedade cruzada – a 
posse de inúmeros veículos em diferentes 
setores (jornais, rádio, televisão); nos EUA 
existem regras que limitam a 
concentração. 
 TV Globo possui 223 emissoras próprias 
ou filiadas 
 Em 2003, as TVs abocanharam 60,4¨% do 
total da verba publicitária do país 
(R$6,53 bilhões). Destas 78% foram para 
a Rede Globo. Em 2005, a Rede Globo 
(sem incluir as filiadas) teve um 
faturamento líquido de R$4,3 bilhões. 
 
Hegemonia e poder manipulador 
60 
 
 
O poder descomunal da mídia sempre 
procurou manipular a sociedade brasileira 
no passado, usando o denuncismo do “mar de 
lama” levou Vargas ao suicídio em 1954; 
contra o governo Goulart, fez campanha por 
sua derrubada, alardeando “o perigo do 
comunismo”; na redemocratização do país, a 
mídia tentou criar obstáculos para o avanço das 
lutas operárias; em 1978, tratou os grevistas 
como arruaceiros; na constituinte de 1988, ela 
defendeu as teses neoliberais; em 1989, criou a 
imagem do “caçador de marajás”, garantindo 
a vitória de Collor. 
Anos 1990, a mídia foi a vanguarda 
para implantar o neoliberalismo; blindou FHC, 
pregando a privatização do Estado, a 
desnacionalização e a desregulamentação. A 
vitória de Lula em 2002 foi encarada como um 
grave risco para os “donos da mídia”. 
 
Revisitando algumas teses sobre Mídia e 
Política no Brasil 
 
Mídia: indústria da cultura, isto é, as 
emissoras de rádio e TV, jornais, revistas e ao 
cinema. 
 mídia – plural latino de “medium”, meio – 
é o conjunto das instituições que utiliza 
tecnologias específicas para realizar a 
comunicação humana. 
 
Primeira tese: a mídia ocupa uma posição 
de centralidade nas sociedades atuais, 
permeando diferentes processos e esferas da 
atividade humana, em particular a esfera da 
política. 
 
 Na década de 1970, do ponto de vista 
político, o papel central da mídia – mídia 
eletrônica – TV foi reconhecido pelos 
regimes militares, ou seja, criaram as 
condições de infraestrutura física para 
consolidar a mídia nacional. 
 Papel mais importante da mídia: poder 
de longo prazo – “construção da 
realidade” através da representação que 
faz dos diferentes aspectos da vida humana 
– étnicas, gêneros, estética, da política e 
dos políticos. 
 
Segunda tese: não há política nacional sem 
mídia 
 
 a política nos regimes democráticos é 
uma atividade pública e visível. E 
somente a mídia é que tem o poder de 
definir o que é público no mundo 
contemporâneo. 
 os atores políticos têm de disputar 
visibilidade na mídia e os diferentes 
campos políticos têm de disputar 
visibilidade favorável de seu ponto de vista 
(ver telejornais, Voz do Brasil). 
 
Terceira tese: a mídia exerce várias das 
funções tradicionais atribuídas aos partidos 
políticos 
 
 no Brasil, a crise dos partidos é consenso 
sobre a histórica inexistência de uma 
tradição partidária consolidada. 
 torna-se mais fácil o exercício pela mídia 
das tradicionais funções atribuídas aos 
partidos, como por exemplo: 
a) construção da agenda política ; b) 
geração e transmissão de informações 
políticas ; c) fiscalização das ações de 
governo; d) exercício da crítica das 
políticas públicas; e) canalização das 
demandas da população 
 
 a ocupação do espaço institucional pela 
mídia é uma das causas da crise 
generalizada dos partidos 
 preferência da mídia pela cobertura 
jornalística dos candidatos e não dos 
partidos = “personalização” da política e 
do processo político, como se fosse uma 
“disputa entre pessoas (políticos) e não 
entre propostas políticas alternativas 
(partidos). 
 Muitas emissoras de rádio AM brasileiras 
se caracterizam por exercer o papel de 
canalizadoras das demandas populares 
através de programas comandados por 
radialistas (que tem se transformado em 
políticos profissionais, exercendo 
mandatos na Câmara) 
 Às vezes, ao praticar um denuncismo 
vazio, a mídia acusa e condena 
publicamente, sem o devido julgamento, 
tanto pessoas como instituições, 
desempenhando indevidamente, uma 
função específica do Poder Judiciário. 
 
Quarta tese: a mídia alterou radicalmente 
as campanhas eleitorais 
61 
 
 
 campanhas de prefeito e vereador só 
existem no horário gratuito de 
propaganda eleitoral na TV nos 
municípios, com geradoras de televisão. 
Nas eleições de 2004, eles eram apenas 
185 dos 5.559 municípios brasileiros (40% 
do eleitorado) 
 
Quinta: a mídia se transformou, ela própria, 
em importante ‘ator político’ 
 
 as empresas de mídia são hoje atores 
econômicos fundamentais como parte de 
grandes conglomerados empresariais 
 se transformaram em atorescom 
interferência direta no processo político. 
Exemplo: Rede Globo 
 
Sexta: as características específicas da 
população brasileira potencializam o poder 
da mídia no processo político, sobretudo no 
processo eleitoral. 
 
 pesquisa de 2005: apenas 26% dos 
brasileiros entre 15 e 64 anos têm 
domínio pleno das habilidades de leitura 
e escrita, ou seja, consegue entender as 
informações de textos mais longos e 
relaciona-las com outros dados 
 30% dos brasileiros são considerados 
analfabetos funcionais ou “alfabetizados 
rudimentares”, isto é, pessoas com esse 
nível de leitura não conseguiriam entender 
as orientações de um médico passadas por 
escrito 
 Pesquisa de 2006: 58% dos entrevistados 
têm televisão como a sua principal fonte 
de informação política; os familiares e 
amigos (expostos também à TV) vêm em 
segundo lugar com 18%. Só depois vêm os 
jornais com 7%, o radio com 6% e os 
colegas de trabalho com 4%. 
 
 Nov/2010: resumo de pesquisa realizada 
pelo TSE com eleitores, que mostra que a 
internet já alcança quase 10% das citações 
como fonte de informação, contra 56% da 
TV. É pouco? Não, é um número 
excepcional. Quanto será em 2014? 20%? 
30%? Além disso, praticamente 1/3 do 
eleitorado já acessa a internet 
"sempre". Veja abaixo, alguns quadros da 
pesquisa realizada pelo TSE: 
 
 14/04/2011 - O DataSenado perguntou aos 
entrevistado qual é a sua principal fonte de 
informação sobre política. Em primeiro 
lugar apareceu a TV, com 56%, seguida de 
jornais e revistas, com 20%. 
A internet surge à frente do rádio como 
fonte de informação (15% e 5%). O 
interesse por política foi avaliado como 
médio por 53% dos pesquisados. 
 90,3% dos domicílios brasileiros 
possuem pelo menos um aparelho de TV, 
ou seja, a grande maioria de nossa 
população vive uma situação paradoxal de 
exposição à mídia 
 A grande maioria de nossa população 
continua sem o domínio da leitura e da 
escrita, mas convive com as imagens da 
televisão, para entretenimento e 
informação. 
20/08/2012 - TV é a principal fonte de 
informação sobre política. 
Não tem para internet, com suas poderosas 
redes sociais. A televisão continua sendo o 
principal fonte de informação para o eleitor no 
que diz respeito à política local. 
62 
 
De acordo com a primeira rodada da pesquisa 
DiarioData Associados, 60% dos 
entrevistados informaram ser este meio mais 
utilizado para acompanhar notícias sobre o 
tema. 
A web ficou e segundo lugar, com 11%. Jornal 
(8%) e carro de som (7%) vêm a seguir. O rádio 
só aparece em quinto lugar com 6%. Por fim, 
5% disseram que se informam por meio de 
conversas com amigos e parentes. 
 A Televisão 
 criada em 1936, mas produzida em 
massa após 1945 
 “domesticação da fantasia”: introduz 
novas ideias e comportamentos, mas 
também pode limitar a potencialidade 
inovadora e imaginativa das pessoas. 
 
Televisão no Brasil 
 A televisão brasileira surgiu em 1950, 
em São Paulo, com a TV Tupi. 
 O Brasil era o 5º país do mundo a 
implantar a TV e o 1º da América 
Latina. 
 A partir de 1968, com a implantação 
da indústria eletroeletrônica e do 
programa de crédito ao consumidor, as 
vendas aumentaram e já existiam 4 
milhões de televisores. 
 1965: nasce a TV Globo, no Rio de 
Janeiro 
 Acordo de cooperação técnico-
financeiro: Globo + Time-Life 
 Comprometimento recíproco entre o 
regime autoritário e a Rede Globo 
(relação incestuosa) 
 Globo consolida-se como “Ministério 
da informação” 
 1º/9/1969: nasce o Jornal Nacional 
 
Virtual monopólio da Rede Globo (1965 a 
1980) 
 Globo a partir de 1982 se torna a 4a. 
maior rede de TV do mundo 
 Dados de 1980: 75% da audiência era 
da Globo 
 Jornal Nacional era visto por mais de 
60 milhões de pessoas 
 Domínio de audiência e de 
concentração de verbas publicitárias 
 
Regime autoritário e Rede Globo 
 Golpe de 1964: regime autoritário + 
modelo econômico excludente 
 Programação da Rede Globo: 
portadora de uma mensagem nacional 
de otimismo desenvolvimentista = 
para dar sustentação e legitimação à 
hegemonia autoritária. 
 Globo: “dançou a sinfonia do poder”: 
conchavos, acordos políticos, etc 
 Formadora de estereótipos, criando 
modelos de comportamento, de moda, 
de linguagem, sedutor poder da 
informação 
 Globo possui uma ideologia de 
características americanas, que 
auxiliou na criação de uma subcultura 
que dominou a consciência das 
massas. 
 Fraude nas eleições para governador 
do Rio de 1982 
 Padrão Globo de Qualidade: foi 
substituído pela lógica do mercado ou 
pela força do ibope. 
 
Rede Globo na redemocratização política do 
Brasil 
 Omissão da Globo na campanha das 
Diretas-Já, de 1984 
 a fabricação do caçador de marajás 
(Collor) na programação global a 
partir de 1987 
 edição do debate do 2º turno nas 
eleições presidenciais - Collor e Lula 
(1989) 
 
 
 INTERNET 
 A Internet tornou-se o mais novo e mais 
eficaz meio de comunicação de massa. Por 
isso, ainda é o menos abrangente, já que para 
ter acesso a ele, é preciso ter um computador, 
uma placa de “fax modem”, uma linha 
telefônica e um provedor de acesso... 
 Sempre que um novo meio de comunicação 
surge, o otimismo da democratização dos 
meios de comunicação toma conta daqueles 
que a desejam. Essa democracia, porém, só 
será possível no dia em que mudanças políticas 
diminuírem a distância entre os indivíduos que 
têm e os que não têm a informação, retirando 
63 
 
do controle comunicacional os poderosos de 
sempre, pois se os novos meios de 
comunicação tiverem os mesmos donos dos 
meios existentes, eles serão tão tendenciosos 
quanto eles. 
Estatísticas, dados e projeções atuais 
sobre a Internet no Brasil – outubro/2013 
Número de usuários 
 
Segundo o Ibope Media, somos 105 milhões 
de internautas tupiniquins (out/2013), sendo o 
Brasil o 5º país mais conectado. De acordo com 
a Fecomércio-RJ/Ipsos, o percentual de 
brasileiros conectados à internet aumentou de 
27% para 48%, entre 2007 e 2011. 
Internautas ativos 
O número de usuários ativos de internet em 
casa ou no trabalho chegou a 60,7 milhões no 
mês de março, segundo levantamento 
divulgado pela Nielsen Ibope nesta quarta-
feira (7). Segundo a companhia, houve um 
crescimento de 6,5% nesse número comparado 
a fevereiro. A razão para esse aumento é o 
crescimento do acesso feito em domicílios. A 
quantidade de usuários que acessa a rede só em 
casa, diz o Nielsen Ibope, chegou a 51,6 
milhões. No mês anterior (fevereiro), esse 
número foi 48 milhões. É considerado usuário 
ativo pela Nielsen Ibope quem acessou a 
internet pelo menos uma vez nos últimos 30 
dias. A empresa não divulgou margem de erro. 
30/07/2013 - Facebook alcança 76 milhões de 
usuários no Brasil 
O Facebook alcançou 76 milhões de usuários 
no Brasil em março deste ano, segundo dados 
da empresa obtidos com exclusividade pelo 
site de VEJA. Considerando que o país tem 105 
milhões de pessoas com acesso à internet – 
segundo última pesquisa publicada pelo 
Ibope. Os números consolidam um 
crescimento de 630% desde fevereiro de 2011, 
quando o Facebook começou oficialmente sua 
operação no Brasil e abriu um escritório no 
Itaim Bibi, em São Paulo. Na época, o 
Facebook tinha 10 milhões de usuários. 
04/09/2015 - WhatsApp chega a 900 milhões 
de usuários 
O WhatsApp chegou a 900 milhões de usuários 
ativos em todo o mundo, informou nesta quinta-
feira (3) o cofundador doaplicativo de 
mensagens, Jan Koum. Desde o começo do ano, 
o serviço de bate-papo passou a ser usado por 
200 milhões de novos usuários. 
A informação, publicada em post no Facebook, 
foi curtida por Mark Zuckerberg, presidente-
executivo e um dos fundadores da rede social, 
que se tornou dona do aplicativo em 2014 
depois de desembolsar US$ 22 bilhões. 
 “WhatsApp está no caminho para conectar um 
bilhão de pessoas. Serviços que atingem a casa 
do milhar são incrivelmente valiosos”, afirmou 
Mark Zuckerberg em fevereiro do ano passado. 
O serviço de mensagens já possui mais usuários 
do que o Messenger, app de chat para os 
indivíduos que possuem conta no Facebook. 
O WhatsApp atinge a marca de 900 milhões de 
membros poucos dias depois de o Facebook 
anunciar ter sido acessado por 1 bilhão de 
pessoas em um único dia. 
4/08/2015 - A semente do ódio 
A mídia tem contribuído para a ascensão do 
comportamento fascista, que se resume no 
racismo, na xenofobia e na dificuldade em 
aceitar as diferenças. 
Luiz Claudio Tonchis - Jornal GGN 
Atualmente, vivemos uma verdadeira 
enxurrada de propaganda fascista, a 
propaganda do ódio, que prega a intolerância e 
que se afirma estarrecedoramente com muita 
facilidade e velocidade, através das tecnologias 
digitais. É o ódio justificado dentro de uma 
certa ideologia irracional. Trata-se de 
verdadeiro aliciamento, um sequestro do 
pensamento, uma reprodução de uma atitude 
passional de intolerância e de agressividade 
relativamente às pessoas que não comungam 
do mesmo ideal. 
Refiro-me ao “fascista em potencial”, chamado 
assim por Theodor Adorno, em um estudo 
psicossociológico publicado em 1950, feito 
com a intenção de abordar o surgimento, 
naquela época, de um novo tipo de indivíduos, 
com ideias conservadoras, reacionárias e 
64 
 
antidemocráticas. Hoje, esse tipo de indivíduo 
é cada vez mais comum. Conforme comenta 
Tiburi (2012), para Adorno, “a característica 
fundamental do que se chamou de 
‘personalidade autoritária’ era a combinação 
contraditória, num mesmo indivíduo, entre 
uma postura racional e idiossincrasias 
irracionais”. E, o que ele chamou de “fascismo 
potencial”, para Tiburi, “seria uma 
característica de indivíduos que teriam se 
mimetizado às tendências antidemocráticas da 
sociedade.”1 
O fascismo emerge do comportamento social, 
e não é necessariamente político. Dessa forma, 
podemos entender o comportamento fascista: o 
racismo, xenofobia, dificuldade em aceitar as 
diferenças, desejo de exclusão ou descarte 
daquilo que não lhe agrada, intolerância e o 
fundamentalismo religioso, preconceito, etc. 
Como por exemplo, as manifestações de ódio 
aos nordestinos que votaram na presidente 
Dilma, a não aceitação explícita e radical 
daqueles que a apoiam, ou sejam, daqueles que 
não comungam com os seus mesmos ideais 
políticos e partidários. Para esses, a pessoa que 
pensa diferente, é “cega” e “burra”. 
Existem fatos que apresentam especificidades 
muitos especiais: consistem em determinadas 
tendências nos modos de agir, pensar e sentir, 
exteriores aos indivíduos e dotados de um 
poder de coerção muito forte, que são 
impostas, porém facilmente assimiladas pelos 
indivíduos – as ideologias pré-fabricadas que 
são facilmente aceitas pelo senso comum. 
Antes o rol de informações que alimentavam 
esse tipo de pensamento era emitido por 
vizinhos, amigos, jornais, televisão, religião, 
etc. Atualmente, além da mídia, a internet 
passou a ser o principal meio de veiculação e 
reprodução desse tipo de pensamento e, 
também de sentimentos, cuja sua principal 
marca é uma construção coletiva da ausência 
de reflexão e a aceitação pacífica e inocente das 
informações. 
Tanto o senso comum como o senso crítico 
fazem parte das formas de encarar, se 
posicionar e conhecer a realidade, cada qual 
com a sua maneira e implicação. O senso 
comum possui a marca do ordinário, normal, 
coletivo, caracterizado pelo pensamento 
superficial, irrefletido e inocente. Ele não 
possui rigor quanto à coerência e lógica de seus 
conceitos, o que faz com que sejam mais 
facilmente massificados, manipulados, 
alienados e o indivíduo não é capaz de entender 
as relações de força que definem uma 
determinada situação. 
O senso crítico, ao contrário do senso comum, 
possui como principais características a 
reflexão, a análise, a crítica consciente e 
coerente. Ele pauta-se pelo uso consciente da 
razão para administrar as ideias e os próprios 
sentimentos. Dogmas, opiniões e crenças são 
minuciosamente investigadas e analisadas, o 
que proporciona um juízo coerente, autônomo 
e flexível. No uso do senso crítico o 
pensamento é complexo e dialético, capaz de 
distinguir, identificar as ideologias 
conspiradoras e manipuladoras, tão comuns 
nas redes sociais, blogs, mensagens do 
WhatsApp que são espalhadas, muito 
rapidamente, através dos smartphones. 
Os meios de comunicação têm um papel 
fundamental nesse processo: a propaganda 
disfarçada de jornalismo tem uma 
característica peculiar na reprodução do ódio e 
negação da alteridade, ou seja, a não aceitação 
do outro como ele é, diferente. Ainda 
consegue, com muita facilidade, mascarar a sua 
intencionalidade fascista aos olhos do senso 
comum e do analfabeto político, levando o 
indivíduo a achar que é politizado porque 
comunga da mesma ideia. A aceitação pacífica, 
irrefletida e irracional o faz pensar que é um 
cidadão consciente e passa a reproduzir a 
violência, sem pensar com cuidado crítico nas 
causas e consequências dos seus atos. 
O analfabeto político é aquele que não entende 
de história política, que não sabe interpretar os 
acontecimentos históricos e contextualizá-los. 
Ele não sabe as relações de força de uma 
determinada situação, não tem noção da 
profundidade dos problemas políticos do país. 
Seu conhecimento limita-se à construção 
coletiva do senso comum, construção essa que 
atualmente é potencializada através da internet. 
Não conhece – e talvez nem saiba o que é a 
nossa Constituição. É inocente, pensa que a 
corrupção foi inventada pelo Partido dos 
Trabalhadores, ou qualquer outro partido 
político, não conhece a promíscua história 
65 
 
brasileira marcada pelas relações fisiológicas 
entre o público e o privado. 
Não há democracia sem respeito à 
singularidade e aos direitos fundamentais 
assegurados pelo Estado, que cada instituição e 
cada cidadão deve ao outro com quem 
compartilha a vida, seja ela pública ou privada. 
A essência da democracia é a aceitação da 
pluralidade, o que implica a coexistência 
pacífica das diferenças, sejam elas de ideias 
partidários, de gênero, de interesses etc. 
Essa disseminação do ódio é a anti-democracia 
inconsciente, uma desconstrução da 
democracia, ainda infantilizada e em processo, 
pelas características de nossa história. Cada um 
tem o direito de pensar como quiser, a 
liberdade é uma outra prerrogativa da própria 
democracia, por exemplo. A filósofa Hannah 
Arendt dedicou-se a reflexões sobre dois temas 
fundamentais do período pós-guerra: o 
totalitarismo e a banalização do mal. Segundo 
a pensadora, os regimes totalitários de 
esquerda ou de direita tiveram como 
pressuposto a aniquilação das classes sociais, a 
atomização das pessoas, e a uniformidade e 
homogeneidade sociais. A banalização do mal, 
fenômeno necessário e correlato ao 
totalitarismo, se caracteriza por não ser mero 
fruto da perversidade ou da crueldade pessoais, 
pois, em sua radicalidade desumana, consiste 
da recusa em examinaratos e ações inerentes à 
existência humana. Em virtude disso, Hannah 
Arendt aponta como antídoto à ascensão 
totalitária e à banalização do mal, a atividade 
autônoma do pensamento. Assim, para a 
pensadora, somente a preservação da 
capacidade de reflexão crítica permite que o 
indivíduo possa resistir à atomização e ao mal. 
Dessa forma, os argumentos de Arendt, não se 
fundamentam na perversidade ou na crueldade 
das pessoas em si, mas sim na falta da reflexão. 
A incapacidade de pensar é uma característica 
do senso comum que reproduz o pensamento 
vazio de valores morais, o ódio. Para ela, a 
saída seria o desenvolvimento da capacidade 
de romper com o cotidiano, uma 
descontinuidade própria da vida humana, uma 
parada, uma reflexão, um olhar de fora - o ato 
de refletir sobre os acontecimentos a fim de dar 
significados a eles. É como se a experiência do 
pensamento se originasse numa sensação de 
estranhamento da realidade, e isso não exclui 
as coisas mais comuns. 
Por isso, atualmente, tornou-se urgente 
reinventar um modelo de educação voltado a 
uma forma de pensar mais complexa, voltada à 
conquista da autonomia intelectual, para o 
exercício da atividade crítica coerente e 
consistente, de forma que os valores humanos 
estejam sempre em vista. 
O modelo de educação em voga é pragmático, 
o estudante apreende o mundo em partes 
fragmentadas de forma utilitarista e 
funcionalista, sem comprometimento com a 
vida adulta, nas suas mais diferentes 
implicações e complexidades. De acordo com 
Callegaro (2012), “Hannah Arendt acreditava 
que só é possível dar um significado ao mundo, 
na medida em que os homens tomarem 
consciência de que o mundo, este mundo no 
qual vivemos, é resultado de artefatos humanos 
que trazem em seu bojo individualidades, que 
somadas formam um constructo coletivo.” 
Para isso, é preciso renovar nossa capacidade 
de diálogo com propostas de um novo projeto 
de sociedade. Uma sociedade mais 
humanizada. Por enquanto, mesmo parecendo 
ineficaz, é preciso combater a intolerância e o 
ódio com todas as garras. Não podemos assistir 
passivamente a este fenômeno de “olhos 
fechados”. É nossa responsabilidade moral e 
ética combater a inanição intelectual em voga. 
E a ferramenta de combate que por hora 
dispomos é o diálogo. 
 
 
 
 
 
 
SOCIEDADE DE CONSUMO 
 
O desenvolvimento industrial, comercial, 
tecnológico e de serviços a partir do século 
XVIII, com a Revolução Industrial, 
cimentou os alicerces para a constituição da 
sociedade de consumo. Com a produção e a 
oferta generalizada de produtos 
66 
 
eletrodomésticos, maquinarias, alimentos 
descartáveis, automóveis, têxteis, telefones, 
aparelhos portáteis, computadores, etc, além 
do aumento do capital circulante e da elevação 
do poder aquisitivo das classes trabalhadora e 
burguesa, a sociedade passa então no século 
XX a se embriagar numa orgia consumista. O 
homem que entra no século XX como cidadão 
sai dele como consumidor. 
Sociedade de consumo, termo que designa o 
tipo de sociedade que se encontra numa 
avançada etapa de desenvolvimento industrial 
capitalista e que se caracteriza pelo consumo 
massivo de bens e serviços, disponíveis graça 
a elevada produção dos mesmos. 
O conceito de sociedade de consumo está 
ligado ao de economia de mercado e, por fim, 
ao conceito de capitalismo, entendendo 
economia de mercado aquela que encontra o 
equilíbrio entre oferta e demanda através da 
livre circulação de capitais, produtos e pessoas, 
sem intervenção estatal. 
O Capitalismo e a Sociedade de Consumo 
Nas últimas décadas houve um aumento 
significativo do consumo em todo mundo, 
provocado pelo crescimento populacional e, 
principalmente, pela acumulação de capital 
das empresas que puderam se expandir e 
oferecer os mais variados produtos, 
conjuntamente com os anúncios publicitários 
que propõe o consumo a todo o momento. 
Chamamos de consumo o ato da sociedade de 
adquirir aquilo que é necessário a sua 
subsistência e também aquilo que não é 
indispensável, ao ato do consumo de 
produtos supérfluos, denominamos 
consumismo. 
Para suprir as sociedades de consumo, o 
homem interfere profundamente no meio 
ambiente, pois tudo que o homem desenvolve 
vem da natureza, aqui nesse contexto é o palco 
das realizações humanas. Através da força de 
trabalho o homem transforma a primeira 
natureza (intacta) em segunda natureza 
(transformada). É a natureza que fornece todas 
matérias primas (solo, água, clima energia 
minérios etc) necessárias às indústrias. 
O planeta já mostra sinais de esgotamento, um 
exemplo disso é a escassez de petróleo que é 
um recurso não renovável, e sua utilização 
corresponde a 40% da energia consumida no 
mundo, tendo em vista a sua importância no 
cenário mundial a situação é preocupante pois 
alguns estudos mostram que o petróleo 
existente será suficiente por mais 70 anos. 
Os problemas ambientais diferem em 
relação aos países ricos e pobres, a prova 
disso é que 20% da população é responsável 
pela geração da maior parte da poluição e esse 
percentual é similar ao percentual da 
população que possui as riquezas do mundo. 
Enquanto essa população vive em altos níveis 
de consumo, outra grande maioria, cerca de 
2,4 bilhões de pessoas, não possui saneamento, 
1 bilhão não tem acesso a água potável, 1,1 
bilhão não tem habitação adequada e 1 bilhão 
de crianças estão subnutridas. 
Segundo Zygmunt Bauman, no livro 
Globalização: as consequências humanas, 
“Para aumentar sua capacidade de consumo, 
os consumidores não devem nunca ter 
descanso. Precisam ser mantidos acordados e 
em alerta sempre, continuamente expostos a 
novas tentações, num estado de excitação 
incessante — e também, com efeito, em estado 
de perpétua suspeita e pronta insatisfação. As 
iscas que os levam a desviar a atenção 
precisam confirmar a suspeita prometendo 
uma saída para a insatisfação: “Você acha que 
já viu tudo? Você ainda não viu nada!” 
"Sociedade do consumo e do crédito não 
funciona mais" 
Quando as ruas de Londres e outras cidades 
inglesas assistiram em agosto de 2011, a 
explosões violentas de saques e incêndios, 
um detalhe chamou a atenção de sociólogos e 
outros analistas: o movimento não tinha 
slogans políticos, não articulava exigência, 
nem apresentava protestos. Teóricos tentam 
explicar a explosão, responsabilizando desde a 
ausência de estrutura familiar à pobreza, 
desemprego, falta de educação formal e de 
perspectiva, sobretudo para os jovens. O 
sociólogo Zygmunt Bauman, polonês 
radicado na Inglaterra, tem sua própria versão. 
Ele viu nos distúrbios ingleses a expressão 
radical da sociedade de consumo em que as 
67 
 
pessoas buscam sua identidade não naquilo 
que são, mas naquilo que consomem e exibem 
como se dissessem: “Eu sou o que o que eu 
compro”. Esse fenômeno faz parte da fluidez 
na sociedade de consumo onde não se valoriza 
o permanente, mas o temporário; onde 
predomina o que Bauman chama de 
modernidade líquida na medida em que nada 
é sólido ou conserva a forma por muito tempo. 
Tudo em mudança, vive-se inconstância, o que 
provoca insegurança e medo. 
Silio Boccanera — No meio de 2011, houve 
rebeliões na Inglaterra. O senhor estava no 
país na época. Imagino que não estivesse 
surpreso de ver que os principais alvos eram 
as lojas. Os jovens pegavam tênis, camisas 
de marca. Eles não pareciam nem ter uma 
motivação política. Eles queriam consumir. 
O senhor também vê assim? 
Zygmunt Bauman — Muito doque aconteceu 
era esperado, na verdade. As regiões de 
Londres onde os conflitos ocorreram tinham 
taxa de desemprego três vezes maior que a 
média. Há muitas pessoas desempregadas, em 
especial, jovens, que não têm nada para fazer, 
morrem de tédio, sem perspectivas de 
emprego. Imagine-se nessa condição. No meio 
do seu bairro, há um shopping center todo 
iluminado, um supermercado, convidando 
todos que têm direito de entrar lá. 
Oficialmente, não há necessidade de um visto 
para entrar nesses lugares, mas os guardas 
ficam de olho nas pessoas que andam por ali à 
toa, que não prometem ser clientes, e fazem o 
possível para não deixá-las entrar. A 
mensagem da sociedade de consumo foi 
enviada a todos nós, não apenas para algumas 
pessoas. O homem mediano comum atual vê, 
em um dia, mais comerciais do que as pessoas 
viam durante toda vida cem anos atrás. Eles são 
inundados por tentações... 
Silio Boccanera — Quer possam comprar 
ou não. 
Zygmunt Bauman — Exato. Todo mundo 
recebe a mesma mensagem. Algumas pessoas 
podem fazer algo quanto a isso. Lembre que as 
pessoas que se rebelaram em Londres 
roubaram coisas, mas também as queimaram. 
Foi um ato de vingança contra as fortalezas do 
consumo onde eles não podem entrar. Roubar 
foi uma coisa, mas não era apenas pegar os 
objetos que os motivava. Eles queriam se 
vingar da humilhação de serem consumidores 
desqualificados em uma sociedade de 
consumo. 
Silio Boccanera — Que pontos em comum 
— se é que há algum — o senhor vê entre 
esses movimentos, protestos que ocorreram 
em Londres, e as ações que têm acontecido 
em várias capitais europeias, na maior parte 
das vezes lideradas por jovens? 
Zygmunt Bauman — Não, é diferente. Em 
Londres, até agora, houve uma rebelião ligada 
unicamente ao consumo. Foi um protesto de 
consumidores imperfeitos contra o 
consumismo. Não tinha a intenção de acabar 
com o consumismo, mas de participar da orgia 
consumista, pelo menos por três noites. 
Silio Boccanera — Essa nova geração tem 
sido extensivamente exposta, como 
conversamos antes, a ideia da falta de 
privacidade, de que a vida das pessoas é 
exposta, os segredos são expostos, o culto às 
celebridades está em toda parte. As pessoas 
chegam até a impor sua intimidade aos 
outros. Esse é um fenômeno novo? 
Zygmunt Bauman — Elas impõem, mas a 
prática da exposição pública, do “strip-tease 
espiritual público”, podemos dizer, já foi 
internalizada, não é mais imposta. Crianças de 
oito, 10 anos, passam várias horas por dia na 
frente do laptop contando tudo sobre elas 
mesmas a quem quiser ler ou ouvir. 
Silio Boccanera — E mesmo para quem não 
quer. 
Zygmunt Bauman — Exato. Nem todos 
podem ser vistos na TV. Se alguém for visto na 
TV é porque, realmente, é importante. Mas, se 
não for, pelo menos há a possibilidade de ser 
visto na tela do computador. Talvez alguém, 
por acidente, passeie pelo website, pelo blog. 
Silio Boccanera — Ou pelo seu Facebook. 
Zygmunt Bauman — E escreva, mande um 
recado. Assim ela se sente realmente membro 
do mundo, não foi deixada para trás, não foi 
excluída. Nós estamos dentro com a ajuda da 
68 
 
internet, da realidade virtual. Quando 
desconectados, a vida é cada vez mais deserta, 
porque a oferta da socialização, da 
convivência, da união, da amizade, foi 
assumida pela implementação da internet, por 
ofertas online. Portanto, essa é outra grande 
mudança. Mais uma vez, é cedo demais para 
analisar isso e para fazer alguma previsão certa 
e confiável sobre o que acontecerá. 
Acrescente-se a isso a comercialização da 
moral humana. Nós já nos convertemos ao 
consumismo obsessivo-compulsivo. Temos 
que trabalhar duro, já que a fronteira entre a 
hora do trabalho e a do lazer, do escritório e da 
família, foi apagada. Assim, as pessoas 
esquecem seu dever moral para com o filho, a 
filha, a mulher... 
Silio Boccanera — A pessoa está sempre 
conectada. 
Zygmunt Bauman — Ela não pode dedicar 
tempo a eles e o que faz? Compra presentes 
caros para compensar a sua ausência. Quanto 
mais caro o presente, mais profundos devem 
ser sua responsabilidade moral e seu amor. 
Juntando tudo isso, vemos sinais de mudanças 
culturais muito intensas. Eu acho que estamos 
passando por uma profunda revolução 
cultural. Mas não me sinto realmente capaz, 
com conhecimento suficiente para arriscar em 
um prognóstico sobre que direção isso irá 
tomar. Como você acertadamente disse, há 
muitas pressões contraditórias. Por um lado, 
austeridade; por outro, consumismo. Como 
conciliar os dois? 
 Sedução para o consumo 
 
Da tradição tecnicista vem a "necessidade 
vital" do consumo, e as poderosas técnicas da 
publicidade têm no homem atual presa fácil 
pelo vazio existencial proporcionado na era 
pós-moderna. 
 
A infinidade de marcas e tipos de produtos 
contribuiu ainda mais para a exacerbação do 
consumo. Há que se pensar em publicidade 
não apenas como um ato de divulgação 
objetivo. 
O grande motor da propaganda consiste na 
sua habilidade em estimular o indivíduo a 
consumir um dado produto, destacando-se as 
características que se julga como potenciais 
fontes de atração da percepção do indivíduo. 
As técnicas publicitárias geralmente 
associam a imagem do produto divulgado com 
elementos que não correspondem 
imediatamente ao objeto destacado, pois esse 
procedimento gera, na mentalidade do 
consumidor, a ideia de que, ao adquirir um 
produto específico, as qualidades 
supostamente contidas nesse produto serão 
assimiladas. O especialista em Comunicação 
Social, Gino Giacomini Filho, destaca que “a 
publicidade nasceu com o claro propósito de 
fomentar a transação econômica, 
principalmente diminuindo a resistência do 
consumidor”. 
O consumidor caracterizado por seguir os 
normativos mandamentos publicitários, 
propagadores das imagens espetaculares de 
sucesso pessoal e profissional, se encontra na 
obrigação de ser feliz, mas esse estado de 
beatitude (felicidade eterna e suprema) não se 
concretiza da maneira esperada na vida 
cotidiana. Este é seu maior malogro, havendo 
assim uma descontinuidade entre aquisição de 
bens materiais e felicidade genuína. Conforme 
complementa Adriana Santos, especialista em 
Imagens e Culturas Midiáticas: “Cada vez 
mais, os meios de comunicação, não apenas 
sinônimos de troca de informação como 
também de publicidade e propaganda – acenam 
com maiores quantidades de objetos de desejo 
para os consumidores, fazendo com que, um 
dia, o paraíso e o bem-estar prometidos por tais 
produtos possam ser - finalmente 
encontrados”. 
O prazer existencial prometido pelo consumo 
de bens materiais não se encontra de modo 
algum imediatamente associado a esses, ainda 
que haja uma maciça campanha publicitária 
que promova o poder mágico desses bens 
como acessórios por excelência para que o 
consumidor conquiste o patamar de satisfação 
material esperado. Consumir é sempre uma 
atividade supressora do estresse; logo, por qual 
motivo não se aproveitar da sensação geral de 
instabilidade psíquica reinante nos agitados 
centros urbanos para se promover a 
comercialização dos diversos tipos de objetos 
disponíveis, revestindo-os com os efeitos 
espetaculares da propaganda? Vejamos o 
parecer crítico de Schröder e Vestergaard: 
69 
 
“Mostrando gente incrivelmente feliz e 
fascinante, cujo êxito em termos de carreira ou 
de sexo – ou ambos – é óbvio, a propaganda 
constrói um universo imaginário em que o 
leitor consegue materializar os desejos 
insatisfeitos da sua vidadiária”. 
Os critérios “morais” da sociedade 
consumista, herdeira do tecnicismo industrial, 
consistem na obrigação incondicional do 
indivíduo se apresentar publicamente como 
alguém plenamente capacitado a consumir, 
mesmo sem que isso resulte na realização de 
uma necessidade vital básica; com efeito, a 
lógica consumista faz da disposição de 
consumir coisas uma necessidade vital 
irrevogável. 
É impossível negarmos a inexistência de 
qualquer responsabilidade social dos agentes 
publicitários, especuladores dos desejos 
coletivos, em forjar novas demandas 
consumistas, como forma de pretensamente 
outorgar aos consumidores tanto uma sensação 
de pertencimento social quanto de status quo. 
Para o sociólogo, Don Slater, “as pessoas 
compram a versão mais cara de um produto 
não porque tem mais valor de uso do que a 
versão mais barata (embora possam usar essa 
racionalização), mas porque significa status e 
exclusividade; e, claro está, esse status 
provavelmente será indicado pela etiqueta de 
um designer ou de uma loja de 
departamentos”. 
O indivíduo que recebe essas informações é 
levado a acreditar que, se ele consumir esse 
produto, ele também será feliz e bonito, tal 
como veiculado pelo garoto- -propaganda. 
Para o - filósofo francês Gilles Lipovetsky, “a 
sedução tomou o lugar do dever, o bem-estar 
tornou-se Deus, e a publicidade é seu profeta. 
O reino do consumo e da publicidade exprime 
muito bem o sentido coeso da cultura pós-
moralista. Assim, as relações entre os 
homens - ficam sendo sistematicamente menos 
simbolizadas e apreciadas do que as relações 
entre os homens e as coisas”. 
Fonte: Revista Filosofia ano VI nº 66. São 
Paulo: Editora Scala, 2011. 
 Consumo alienado 
“Hoje estamos vivendo um período de 
compulsão: por comida, bebida, compra e por 
sexo. Comprar sem parar, gastar mais do que 
ganha e ver a vida financeira no fundo do poço 
pode não ser apenas um problema de 
desequilíbrio financeiro. Comprar demais pode 
ser uma doença: a oniomania (mania de 
comprar), um dos transtornos do impulso. 
(Paulo Gaudêncio, psiquiatra) 
 
“O que você come, como você come, onde 
você come, com quem você come e o quão 
frequentemente você come, são questões 
relacionadas à sua identidade social mais do 
que você imagina. Elas podem dizer de onde 
você vem, se é homem ou mulher, sua classe 
social, sua cor, sua religião e também muito 
sobre sua personalidade” (Sidney Mintz) 
“O futebol é um dos carros-chefes da indústria 
do entretenimento e de um tema central da 
publicidade. O futebol é vendido das mais 
diversas formas: pay per view, álbuns de 
figurinhas, jogos eletrônicos. Dentro dessa 
lógica de mercantilização do futebol, não é de 
surpreender que o torcedor seja visto cada vez 
mais como consumidor. Nesse cenário, não é 
de estranhar que o estádio de futebol exigido 
pela Fifa e idealizado por boa parte da mídia, 
autoridades, dirigentes seja o “estádio 
shopping center”. Saem de cena as gerais e 
entram os camarotes executivos, com poltronas 
confortáveis, televisores de última geração, 
petiscos finos e evidentemente, isolamento da 
“massa”. O futebol tornou-se um evento para 
olhar, e nada mais. Nesse cenário, a liberação 
da emoção intensa tem sido cada vez mais 
combatida. Tudo parece ser feito para que o 
torcedor se torne mero espectador-consumido. 
Não é de se estranhar o investimento crescente 
em equipamentos tecnológicos, que estão se 
transformando em grandes salas de TV, na 
tentativa de tornar telespectadores os 
torcedores de estádio. Na tentativa de substituir 
a “massa” que xinga e protesta, no torcedor 
contido e consumista: que come sua 
pipoquinha sentado numa confortável poltrona 
enquanto assiste aos comerciais dos 
patrocinadores do evento em enormes e 
luminosos telões. O torcedor, antes do jogo e 
durante o intervalo, em vez de passear para 
observar e interagir com o resto dos torcedores 
age como um consumidor, saindo para olhar 
vitrines das lojas dos estádios e comprar os 
70 
 
produtos do clube; tudo isso sendo controlado 
por câmeras espalhadas por todos os cantos”. 
(Felipe Tavares Paes Lopes in: Torcedor: 
consumidor ou cidadão? Revista Ética) 
 CULTO AO CORPO 
 
“A vigorexia é um dos extremos da 
preocupação exagerada com a forma física. 
Enquanto a anorexia e a bulimia são mais 
frequentes em mulheres, que deixam de se 
alimentar ou comem para depois vomitar 
porque acreditam estar gordas, a vigorexia 
afeta mais os homens que desejam desenvolver 
seus músculos, já que se veem fracos e doentes. 
A vigorexia associa beleza com músculos 
definidos e é um transtorno vinculado a 
problemas de personalidade”. (Maria Luisa 
Rubio. 23/06/2008) 
 
Pode se observar na sociedade atual, uma 
variedade de distúrbios, como anorexia, 
bulimia, medo de envelhecer, compulsão por 
se exercitar, tudo isso como tentativa, por parte 
dos indivíduos, de se livrar da vergonha do 
corpo. Por que existe tanta aflição em relação 
ao corpo, ou seja, essa sensação de que o corpo 
não nos pertence, que ele não é adequado e 
desejamos ter outro corpo? “Acho que nós 
transmitimos, através do corpo, o modo como 
queremos ser vistos, como queremos ser 
considerados e o que desejamos falar sobre nós 
mesmos. O corpo se tornou um signo, uma 
espécie de cartão de visita que expressa quem 
somos, como nos percebemos e como nos 
posicionamos no mundo”. (Susie Orbach, 
psicanalista, em entrevista a Globonews – 
9/10/2010) 
 
 A insustentável sociedade de consumo 
O consumo é considerado, por alguns 
economistas, como a "mola propulsora" da 
economia mundial. Consumir geraria 
demanda, que por sua vez geraria maior 
produção por parte das indústrias, 
estimulando o surgimento de novos 
empregos, o aumento de salários e até mesmo 
o investimento em novas tecnologias para 
aprimorar a produção. Isso significaria mais 
trabalhadores, com salários melhores, que 
também seriam levados a consumir, formando 
um ciclo que manteria a economia aquecida e 
contribuiria para o desenvolvimento dos 
países. Por muito tempo, essa foi uma 
corrente de pensamento econômico 
predominante nos países capitalistas. Mas esse 
modelo neoliberal, que tinha os Estados 
Unidos como seu principal representante, está 
sendo cada vez mais questionado. 
Dessa forma, o consumo acabou se tornando 
um fator importante de construção de 
representações sociais. Ao comprar, não 
apenas se adquire um produto ou um serviço, 
mas define-se o status, e mesmo a identidade, 
de um indivíduo. É o "compro, logo existo", 
uma forma do indivíduo se posicionar – e se 
diferenciar - dentro da sociedade através do 
que consome. "Aquilo que você veste, come e 
bebe define socialmente quem você é, onde 
você está e até onde pode ir. 
Comprando felicidade 
Não é preciso apenas consumir para existir, 
mas é preciso consumir para ser feliz. Nessa 
lógica, vale tudo para se realizar um sonho 
de consumo: fazer horas-extras, "bicos" ou 
prestações a perder de vista. "É como se os 
objetos fossem capazes de propiciar o bem-
estar social e a segurança que tanto se reclama 
e proclama". Assim, busca-se a realização 
pessoal e a felicidade através do consumo. A 
sociedade de consumo vende a satisfação dos 
desejos individuais, mas desperta nos 
consumidores a cada momento novos 
desejos a serem satisfeitos, fazendo-os querer 
(e consumir) sempre mais. "O vazio existencial 
cavado pela complexidade dos 
relacionamentos psicossociais não se preenche 
facilmente com bolsas, celulares e carros.Se a 
felicidade prometida pela sociedade de 
consumo fosse real, nós não estaríamos 
vivendo uma sociedade tão violenta como a 
nossa. A violência física e simbólica são frutos 
da desigualdade e da perversidade da 
sociedade de consumo que elege os 
endinheirados como os sortudos da ilha da 
fantasia", alerta Padilha. 
"O consumo é indispensável na vida de todos 
os cidadãos. O que está em discussão é a 
tipologia, o significado e o montante do 
consumo. Principalmente no que diz respeito 
às produções que envolvem matérias-primas 
há uma crescente preocupação. A finitude 
dos recursos naturais é evidente, e é agravada 
71 
 
pelo modo de produção regente, que destrói e 
polui o meio ambiente.", diz Ruscheinsky. "O 
consumo é indispensável e cumpre diversas 
funções sociais, mas, nos níveis e padrões 
atuais, e em expansão, precisa ser modificado 
em direção a formas mais sustentáveis, tanto 
do ponto de vista social quanto ambiental", 
concorda Portilho. 
Repensando o modelo 
O modelo da sociedade de consumo está tão 
enraizado na sociedade contemporânea que 
alguns pesquisadores já chegaram a afirmar 
que ele é irreversível. Porém, Padilha 
discorda: "Nada é irreversível quando se 
pensa em sociedade". Para a pesquisadora, a 
atual crise nos Estados Unidos é um sinal de 
que esse modelo deve começar a ser 
repensado. "O produtivismo e o 
consumismo desenfreados são insustentáveis 
por mais tempo. O primeiro e mais importante 
limite dessa cultura do consumo, que 
estamos testemunhando hoje, são os próprios 
limites ambientais. O planeta não suportaria 
se cada habitante tivesse um automóvel, por 
exemplo. Psicológica e sociologicamente 
também não será suportável por muito mais 
tempo essa lógica de produção e consumo 
destrutivos a que estamos sujeitos hoje", 
afirma. 
De acordo com os pesquisadores, é preciso 
trabalhar em vários níveis – do consumidor, 
da empresa e do Estado – para que haja uma 
alteração no sistema. Os consumidores 
precisam ser informados e conscientizados, 
buscando promover uma "mudança de hábito" 
que controle os efeitos do consumo 
desenfreado. As empresas, igualmente, devem 
procurar agir rumo a uma produção 
sustentável. E o Estado, através da promoção 
de políticas públicas, deve exercer diversas 
funções regulatórias, inclusive com as 
chamadas políticas de consumo sustentável 
(eliminação de subsídios, compras 
sustentáveis, políticas de estímulo ao 
transporte coletivo etc.). 
Entrevista com a psicanalista Maria Rita 
Kehl 
No livro O Tempo e o Cão – a atualidade das 
depressões, de Maria Rita Kehl recém-
lançado pela Boitempo, ela expõe sua teoria de 
que a depressão, para além de ser o sintoma de 
sujeitos em sofrimento, se tornou um sintoma 
social. "A moral social contemporânea 
praticamente obriga ao gozo e à alegria. E as 
pessoas deprimidas ficam na contramão, 
digamos assim", afirma Maria Rita. 
Na França, da década de 1970 para a década de 
80, o número de depressivos aumentou 50%. 
No Brasil, nos primeiros anos do século XXI, 
17 milhões de pessoas foram diagnosticadas 
como depressivas. 
Para ela, as pessoas, quando sofrem, já não 
sofrem mais apenas daquilo que as faz 
sofrer - uma perda amorosa, uma morte na 
família, o desemprego -, mas sofrem ainda 
mais da culpa de estar sofrendo. "Há uma 
dívida generalizada do sujeito contemporâneo 
de nunca estar tão em sintonia com essa euforia 
que lhe é exigida", completa Maria Rita, 
doutora em psicanálise pela PUC de São 
Paulo. 
“A aliança entre a expansão do capital e a 
liberação sexual fez do interesse das massas 
consumidoras pelo sexo um ingrediente 
eficiente de publicidade. Tudo o que se vende 
tem apelo sexual: um carro, um liquidificador, 
um comprimido contra dor de cabeça, um 
provedor de internet, um tempero 
industrializado. A imagem publicitária evoca o 
gozo que se consuma na própria imagem, ao 
mesmo tempo em que promete fazer do 
consumidor um ser pleno e realizado. Tudo 
evoca o sexo ao mesmo tempo em que afasta o 
sexual, na medida em que a mercadoria se 
oferece como presença segura, positivada no 
real, do objeto de desejo”. Leia a seguir trechos 
de sua entrevista: 
 
E por que os deprimidos são o sintoma social 
deste início do século XXI? 
Se você pensar nos parâmetros da sociedade 
contemporânea, é possível dizer que se trata 
de uma sociedade antidepressiva. É uma 
sociedade, aparentemente, com muita 
liberdade de escolha: como você quer viver, 
seu estilo de vida, como você vai se vestir, que 
tribo vai frequentar, o que vai comer, beber. Há 
muita liberdade no plano superficial, no 
plano da festa. Existe muito apelo para a 
diversão. Em contraste com o século XIX, em 
72 
 
que o apelo era para contenção, sobriedade, 
repressão da sexualidade, hoje, a moral social 
é uma moral da diversão, não do sacrifício. É 
uma moral que chama para aquilo que, na 
psicanálise, chamamos de gozo. É mais do que 
o prazer, é o excesso. A rave não é, de alguma 
maneira, o símbolo disso tudo? E para aguentar 
uma rave você é obrigado, inclusive, a tomar 
uma química. O apelo social não é para você 
aguentar o trabalho, mas a festa. Claro que a 
festa é ótima. Mas o que digo é que ela foi 
transformada no ideal social deste momento. E 
o deprimido destoa radicalmente desse ideal. 
Sim, porque esta é a única sociedade em que as 
pessoas ficam infelizes por se sentirem 
culpadas de não estarem tão felizes quando 
deveriam. Se alguém está triste, o que é natural 
na vida, essa cobrança social duplica a 
infelicidade. O depressivo é sintoma social 
porque ele é aquele que não consegue aceitar o 
convite tão sedutor para estar sempre de bem 
com a vida. Mas esse é apenas um dos 
paradoxos. O outro diz respeito ao uso 
excessivo de medicação. 
Esse é um fenômeno que atinge muito os 
adolescentes, não? 
Sim. Os adolescentes são as meninas dos olhos 
da publicidade, do mercado, e estão numa fase 
de passagem, não têm ainda as 
responsabilidades dos adultos, estão mudando 
de um campo de identidade, são muito 
vulneráveis a aceitar novas modas. Eles são, 
pelo menos como faixa etária, os maiores 
alvos desse apelo pelo gozo, pela festa. O 
adolescente de hoje que se sente incapaz de 
responder a esse apelo se deprime. E ele se 
deprime porque se vê isolado, a autoestima 
dele fica muito comprometida, e ele não conta 
mais, como nos anos 60, com o apoio do 
próprio grupo adolescente. Hoje, o adolescente 
que se deprime tem até vergonha de que os 
amigos saibam. Ele sofre de um isolamento 
cruel, quando não de uma ostensiva 
humilhação. 
Quando a sra. diz consumo, não trata 
apenas de consumo de bens materiais? 
Maria Rita: Na verdade, uma sociedade é dita 
de consumo não porque todos estejam aptos, e 
o tempo todo, a consumir o que lhes é 
oferecido. Ela é uma sociedade de consumo 
porque o valor da vida, do sujeito, das 
escolhas de vida que ele tem vão ser medidos 
pelo que ele é capaz de consumir. Consumir 
dá o parâmetro da inserção, da valorização. 
Em outras épocas, podia ser trabalhar, podia 
ser nascer com sangue nobre. Hoje é o 
consumo que dita a qualidade e a 
possibilidade de inserção dos sujeitos. Por 
isso eu insisto em manter essa denominação 
aparentemente gasta de sociedade de consumo. 
Entenda o que é obsolescência programada 
 
O desgaste natural dos produtos é 
normal. Porém, o produto ser “planejado” para 
parar de funcionar ou se tornarem obsoletos em 
um curto período de tempo é uma prática da 
indústria que deveser combatida. 
Conforme usamos um produto, é 
natural que este sofra desgastes e se torne 
antigo com o passar do tempo. O que não é 
natural é que a própria fabricante planeje o 
envelhecimento de um produto, ou seja, 
programar quando determinado objeto vai 
deixar de ser útil e parar de funcionar, apenas 
para aumentar o consumo. 
Essa prática, intitulada de 
Obsolescência Programada, basicamente se 
aplica toda vez que os fabricantes produzem 
um ou vários produtos que, artificialmente, 
tenham, de alguma forma, sua durabilidade 
diminuída do que originalmente se espera. 
Como efeito, os consumidores são obrigados a 
descartar os produtos adquiridos em um prazo 
muito menor e a substituí-los por novos, que 
provavelmente também tiveram sua 
durabilidade alterada. 
 Esse ciclo infinito de consumo acaba 
tornando-se um grave problema, e não apenas 
aos consumidores brasileiros. O aumento de 
lixo eletrônico e tóxico, bem como a falta de 
informações claras sobre como deve ser 
realizado o descarte destes produtos obsoletos, 
tem provocado impactos ao meio ambiente e 
à qualidade de vida da população mundial ao 
longo dos anos. 
 Apesar do avanço tecnológico, que 
resultou na criação de uma diversidade de 
materiais disponíveis para produção e 
consumo, hoje nossos eletrodomésticos são 
piores, em questão de durabilidade, do que há 
50 anos. Os produtos são fáceis de comprar, 
mas são desenhados para não durar. Por esta 
razão, o consumidor sofre para dar a eles uma 
73 
 
destinação final adequada e ainda se vê 
obrigado a comprar outro produto. 
Um dos principais exemplos de 
obsolescência programada é a lâmpada. 
Quando criada, ela durava muito, mas as 
fabricantes viram que venderiam apenas um 
número limitado de unidades. Por isso, criaram 
uma fórmula para limitar o funcionamento das 
lâmpadas, que passaram a durar apenas mil 
horas, por exemplo. 
Além disso, é dever do Estado 
regularizar, fiscalizar e induzir esses novos 
padrões. As empresas, por sua vez, devem 
garantir ao consumidor acesso à informação e 
assumir a responsabilidade pelo ciclo de vida 
dos produtos, visando ao desenho adequado 
dos produtos e embalagens e o fim da 
obsolescência programada. 
 
6º texto: Reestruturação produtiva: 
Taylorismo, Fordismo e Toyotismo 
 
A revolução técnico-científica e a 
organização científica do trabalho 
 
Época e caracterização: final do século XIX: 
mudança no papel da ciência na produção. 
Ciência se transforma em propriedade 
capitalista: meio para estimular a acumulação 
do capital. 
Com a Segunda Revolução Industrial, fase 
da nova indústria: era do aço, da eletricidade e 
do petróleo. 
 TAYLORISMO 
Idealizador: o engenheiro norte-americano 
Frederick Taylor (1856/1915), fundador da 
“Administração Científica”; foi educado 
dentro de uma mentalidade de disciplina, 
devoção ao trabalho e poupança. Escreveu o 
livro Princípios de Administração Científica 
(1911). 
Objetivo: descobrir um método científico de 
direção das indústrias, visando o máximo de 
eficácia e maior rendimento. 
Conceito: “Método de racionalizar a produção, 
logo, de possibilitar o aumento da 
produtividade do trabalho “economizando 
tempo”, suprimindo gestos desnecessários e 
comportamentos supérfluos no interior do 
processo produtivo” (Margareth Rago) 
 
Gerência primitiva: problemas 
 a Administração não tinha noção clara 
da divisão de suas responsabilidades 
com o trabalhador 
 muitos trabalhadores não cumpriam 
suas responsabilidades 
 não havia integração entre os 
departamentos da empresa 
 havia conflitos entre capatazes e 
operários a respeito da quantidade da 
produção 
 em síntese: até a época do surgimento 
do taylorismo, cada trabalhador de 
ofício detinha o conhecimento do 
processo de produção. Detinha, o 
controle dos tempos e processos de 
trabalho, bem como de sua concepção. 
Para Taylor, os operários retardavam o 
ritmo da produção, devido à 
“indolência sistemática”. 
 
Gerência Científica 
 
 A gerência científica significa o 
empenho de aplicar os métodos da ciência aos 
problemas complexos do controle do trabalho 
nas empresas capitalistas em rápida expansão. 
Ela parte, não do ponto de vista do ser humano, 
mas do capitalismo. Investiga a adaptação do 
trabalho às necessidades do capital. 
 O taylorismo é uma manipulação total 
e brutal do ser humano no processo produtivo 
= controle do tempo e movimento, o qual é 
determinado pelo gerente. Quando os 
trabalhadores perdem o controle do processo 
produtivo, passa-se o controle do trabalho para 
o gerente e este não pode desconhecer o 
processo. 
 
O Taylorismo ou Princípios da 
Administração Científica, desenvolvido por 
Frederick W. Taylor, surge no final do século 
XIX, num período marcado pelo avanço da 
grande indústria no ramo têxtil e da 
permanência da manufatura em outras áreas 
produtivas. 
Estes princípios de Taylor reúnem teorias 
sobre a racionalização do processo de trabalho, 
fundamentadas em estudos e experiências que 
ele realizou nas oficinas. Aplicado 
inicialmente nos Estados Unidos e depois, nas 
indústrias de todo o mundo, o método 
propunha uma nova organização produtiva 
destinada a assegurar a maior economia de 
74 
 
tempo possível, a partir dos seguintes fatores: 
acentuada divisão social e técnica do trabalho, 
padronização das tarefas, sistema de 
remunerações estruturado em função do 
rendimento pessoal e controle dos 
trabalhadores por parte dos supervisores. 
Taylor tem como preocupação o aumento da 
produtividade e a superação da “anarquia na 
produção”, com a utilização da administração 
científica. Para ele, os operários tinham uma 
tendência natural para a “indolência 
sistemática” – produziam menos do que 
podiam propositadamente. A “cera” no serviço 
era considerada uma manifestação da 
solidariedade de classe e da própria segurança 
do emprego. 
O método de Taylor não se resume a constatar 
que a “cera” no processo de trabalho era uma 
das causas do desperdício; além dela havia a 
“anarquia” das formas de produção. O 
trabalho era ensinado oralmente pelos próprios 
operários entre si, o que levava à coexistência 
de inúmeras formas de realizar a mesma tarefa. 
Taylor considerava que, para cada tarefa e 
movimento dos trabalhadores, havia uma 
ciência, um saber profissional. Dever-se-ia 
escolher a forma mais racional. 
Então, Taylor elabora a teoria da administração 
científica, que iria classificar e sistematizar tais 
conhecimentos, separando da etapa de 
execução as etapas de planejamento, 
concepção e direção das tarefas. 
 
Princípios do taylorismo: 
 
a) desenvolver para cada elemento do 
trabalho individual uma ciência que 
substitua os métodos empíricos de 
trabalho, isto é, é necessário reduzir o 
saber operário complexo a seus elementos 
simples, estudar os tempos de cada 
trabalho decomposto, com a utilização do 
cronômetro nas oficinas. Em síntese, o 
que este primeiro princípio estabelece é a 
separação das especialidades do 
trabalhador do processo de trabalho. 
b) selecionar cientificamente, depois treinar, 
ensinar e aperfeiçoar o trabalhador. Este 
princípio ficou conhecido como o que 
estabelece a separação entre o trabalho 
de concepção e o de execução. Para 
Taylor, a “ciência do trabalho” deve ser 
desenvolvida sempre pela gerência e 
nunca estar de posse do trabalhador. 
c) Controlar os mínimos detalhes de sua 
execução 
d) Manter a divisão equitativa do trabalho e 
das responsabilidades entre a direçãoe o 
operário 
e) Individualização dos salários, para quebrar 
toda forma de articulação e todo laço de 
solidariedade entre os trabalhadores. 
Taylor pregava que a direção da fábrica se 
dirigisse a cada trabalhador 
individualmente, distribuindo prêmios e 
gratificações. 
 
 
Incentivos salariais e prêmios de produção 
 
Uma vez analisado o trabalho, racionalizadas 
as tarefas e padronizado o método e o tempo 
para sua execução, selecionado 
cientificamente o operário e treinado de acordo 
com o método preestabelecido, resta fazer com 
que o operário colabore com a empresa e 
trabalhe dentro dos padrões de tempo 
previstos. Para obter a colaboração do 
operário, Taylor e seus seguidores 
desenvolveram planos de incentivos salariais 
e de prêmios de produção. A ideia básica era 
a de que a remuneração baseada no tempo 
(salário mensal, diário ou por hora) não 
estimula ninguém a trabalhar mais e deve ser 
substituída por remuneração baseada na 
produção de cada operário (salário por peça 
ou por produção). 
 
 
 FORDISMO 
 
Idealizador: engenheiro Henry Ford 
(1863/1947) 
Objetivo: produção em massa, onde o capital 
não encontrasse limites técnicos. 
 
 O Fordismo é um termo que se 
generalizou a partir da concepção de Antônio 
Gramsci (filósofo italiano, marxista e 
fundador do PCI), que o utiliza para 
caracterizar o sistema de produção e gestão 
empregado por Henry Ford em sua fábrica, a 
Ford Motor Co., em Highland Park, Detroit, 
em 1913. 
 Hoje, o termo tornou-se a maneira 
usual de se definirem as características daquilo 
75 
 
que muitos consideram constituir-se um 
modelo/tipo de produção, baseado em 
inovações técnicas e organizacionais que se 
articulam tendo em vista a produção e o 
consumo em massa. Nesse sentido, o fordismo 
é uma prática de gestão na qual se observa a 
radical separação entre concepção e execução, 
baseando-se esta no trabalho fragmentado e 
simplificado, com ciclos operatórios muito 
curtos, requerendo pouco tempo para formação 
e treinamento dos trabalhadores. O processo de 
produção fordista fundamenta-se na linha de 
montagem acoplada à esteira rolante que evita 
o deslocamento dos trabalhadores e mantém 
um fluxo contínuo e progressivo das peças e 
partes, permitindo a redução dos tempos 
mortos. O trabalho, nessas condições, torna-se 
repetitivo, parcelado e monótono, sendo sua 
velocidade e ritmo estabelecidos 
independentemente do trabalhador, que o 
executa através de uma rígida disciplina. O 
trabalhador perde suas qualificações, as quais 
são incorporadas à máquina. 
 
Princípios do Fordismo: 
 
a) separação entre projeto e execução 
b) divisão e subdivisão de tarefas, permitindo 
a cada movimento um tempo específico 
c) introdução da linha de fluxo (correia 
transportadora) – sistema mecânico 
coordena a circulação de peças e 
ferramentas e fixa o trabalhador na sua 
posição de trabalho. 
d) mudança salarial: salário diário. 
Efeitos 
a) surge o trabalhador em massa em 
decorrência da crescente automatização da 
produção. 
b) Separação entre os processos de 
concepção, produção e realização. 
Características do Fordismo 
 
 introdução em 1914 da “Linha de 
Montagem”: utilização do 
maquinismo para a intensificação do 
trabalho e de subordinação do 
processo de trabalho à lógica da 
valorização do capital. A linha de 
montagem permite a circulação de 
matérias-primas e os operários 
permanecem fixos em seus postos de 
trabalho. O ritmo de trabalho pode ser 
regulado de maneira exterior ao 
operário pelo controle de gerência (ver 
o filme Tempos Modernos, 1936, de 
Charles Chaplin) 
 tempo de trabalho imposto pela 
máquina 
 “savoir-faire” (saber-fazer): 
apropriação e transferência para a 
gerência científica 
 the one best way (uma única maneira 
certa de realizar cada operação) 
 produção em grande escala (em série) 
e padronizada + cronômetro taylorista 
 five dollars day: Em 1914, Ford 
passou o salário de 2,3 dólares para 5 
dólares por dia e a jornada de trabalho 
para 8h dia, para superar as altas taxas 
de absenteísmo e turnover 
(rotatividade) e para debilitar a força 
dos sindicatos. A política do “five 
dollars day” não era aplicável a todos 
os trabalhadores. Estes deveriam ter 
mais de 6 meses de emprego, ser 
maiores de 21 anos e homens. 
 O método fordista de produção 
alcançou surpreendente crescimento 
da produtividade: a produção anual de 
carros na fábrica de Detroit passou de 
300.000, em 1913, para 2.000.000, em 
1923. 
 Apesar do significativo desempenho, o 
fordismo teve dificuldades em 
difundir-se, mesmo nos Estados 
Unidos, mas, principalmente, na 
Europa, e isso em razão da resistência 
dos trabalhadores ao sistema de 
produção baseado no trabalho 
rotinizado e fragmentado. 
 Controle da vida privada e 
valorização da família nuclear e 
monogâmica. Ford criou o 
Departamento de Sociologia com o 
objetivo de analisar a forma como cada 
trabalhador gastava seu salário. O 
operário tinha que se encaixar no tipo 
de moral requerida, a saber, ser bom 
pai de família, ter cerca de dois filhos, 
com a mulher-esposa permanecendo 
no lar para o bom desempenho de suas 
tarefas domésticas. Além disso, o 
trabalhador deveria “ser limpo”, não 
usar tabaco ou álcool e não jogar. O 
benefício (de receber esse salário) 
76 
 
poderia ser retirado por seis meses, 
caso o operário incorresse num erro de 
conduta. Se após esse período não 
tivesse “corrigido seus erros”, era 
mandado embora da Ford. Tudo isso 
implicava um misto de paternalismo e 
vigilância policialesca. 
 As fábricas fordizadas instituíram as 
“vilas operárias” circundando a 
própria empresa. Com guaritas, 
vigilantes e funcionários que 
investigavam a vida privada dos 
trabalhadores. Investir em 
alimentação, zelando por sua saúde e 
de sua família, e comprar bens de 
consumo era o destino que o operário 
deveria dar ao seu salário. Não 
bastava subordinar a família sob a 
lógica do consumo. Era necessário 
controlar a moralidade e as relações 
sociais dentro da própria família.. Se 
os novos métodos de trabalho exigiam 
do trabalhador todas as suas energias 
orgânicas, até mesmo seus instintos 
sexuais deveriam ser regulamentados, 
controlados e racionalizados. O 
projeto fordista procurou reforçar a 
moral familiar, exigindo do 
trabalhador, através de inquéritos 
industriais sobre sua vida íntima, a 
relação monogâmica exclusiva. O 
trabalhador não poderia desperdiçar 
suas energias nervosas na busca de 
satisfação sexual desordenada: “o 
operário que vai ao trabalho depois de 
uma noite de desvarios, não é um bom 
trabalhador, a exaltação passional não 
está de acordo com os movimentos 
cronometrados dos gestos produtivos 
ligados aos processos de automação”. 
 A necessidade da a indústria controlar 
o corpo do operário inclui também 
seus prazeres. “Em nossas fábricas, 
afirma Ford, ninguém fuma.” Assim, 
proibiu o fumo na fábrica, vigiou a 
moralidade operária, exigiu a 
fidelidade conjugal, prescreveu como 
gastar os salários, submeteu, enfim, as 
famílias a uma norma social de 
consumo. 
 Estímulo às atividades esportivas e 
culturais que ajudavam a manter a 
eficiência e a boa forma física dos 
trabalhadores. 
 No que se refere ao contexto de países 
periféricos, como o Brasil, a 
implantação do fordismo realizou-se 
em termos precários, já que o 
desenvolvimento industrial verificou-
se em contexto de exclusão, de forte 
concentração derenda, 
impossibilitando, portanto, a vigência 
das características básicas do 
fordismo, ou seja, a criação de um 
mercado/consumo de massa, assim 
como o chamado “compromisso 
fordista”, que implicava negociação 
com os sindicatos e no qual, em troca 
da elevação dos níveis de 
produtividade, assegurava-se elevação 
do nível de vida dos trabalhadores. Por 
essa razão, o fordismo dos países 
periféricos recebe qualificativos como 
“fordismo periférico”, fordismo 
incompleto (baixos níveis de 
qualificação e de escolaridade da força 
de trabalho, altos índices de 
rotatividade, baixos salários). 
 
Modelo de desenvolvimento 
Fordista-Keynesianismo (Welfare 
State) – 1945 a 1973 
 
 Características do modelo de 
desenvolvimento hegemônico - 
fordista-keynesiano a) rápido e 
prolongado crescimento internacional 
da produção; b) liderança do setor 
industrial; c) ritmo do comércio 
internacional mais intenso; d) 
crescimento econômico do mercado 
interno. 
 (Anos Dourados): crescimento 
econômico e aumento da 
produtividade + política 
redistributivista. Onde? países da 
Europa ocidental. 
 Sistema de “compromisso” e de 
“regulação”, isto é, compromisso entre 
capital e trabalho mediado pelo 
Estado. 
 A Crise de 1929, que se tornou 
mundial, desarticulou todos os níveis 
da produção burguesa. O Estado do 
Bem-Estar Social apareceu como 
uma saída para esse tipo de crise. O 
inglês John Keynes (1883-1946) 
elaborou uma série de princípios sobre 
77 
 
esse tipo de Estado. Contrariando o 
credo liberal, o Estado do Bem-estar 
Social interferiu na economia para 
garantir o pleno emprego. Ele assim o 
fez por meio de uma política financeira 
(taxas de juros insignificantes) que 
incentivou a iniciativa privada. Mas 
isso não foi suficiente para eliminar 
totalmente o desemprego. O Estado 
teve de oferecer uma ajuda social aos 
desempregados. O contrato entre 
empregador e empregado, garantido 
por lei sob proteção do Estado, passou 
a estender-se até a assistência 
realizada pelas instituições oficiais. O 
custo da política social do Estado 
providência foi pago com a cobrança 
de taxas e impostos da grande 
burguesia e de alguns segmentos 
sociais de alto poder aquisitivo. 
Cobrando impostos da burguesia, 
garantindo o emprego e assistência 
social ao trabalhador, o Estado passou 
a ser interpretado como um agente 
redistribuidor de renda. 
 Em síntese, a constituição do Welfare 
State – Estado do Bem-Estar Social 
(ganhos sociais e seguridade social, 
desde que os operários abandonassem 
a luta pelo socialismo); salários mais 
altos; política macroeconômica do 
pleno emprego; direitos sindicais para 
determinar salário. O Welfare State 
socialdemocrata concebe as políticas 
sociais como parte do Estado, o qual 
deve garantir a todos os cidadãos o 
acesso a bens e serviços mínimos, 
independente de critérios de mérito, 
carências ou situações de emergência. 
 movimento operário 
(socialdemocrata) atrelou-se ao pacto 
com o capital. 
 
ANTUNES, Ricardo. Os sentidos do trabalho. 
São Paulo: Boitempo, 2003. 
DIMENSÕES DA CRISE ESTRUTURAL 
DO CAPITAL 
Síntese sobre os limites do 
taylorismo/fordismo 
 
 vigorou no século XX na grande 
indústria 
 produção em massa de mercadorias 
 aumento do ritmo do trabalho 
 parcelamento e fragmentação e 
decomposição de tarefas 
(ação mecânica e trabalho repetitivo, 
desumanização) 
 produção em série fordista + 
cronômetro taylorista 
 concepção e execução – apropriação 
do savoir-faire do trabalho e 
transferência para a gerência científica 
 pós-1945 erigiu um sistema de 
“compromisso” e de “regulação”, isto 
é, compromisso entre “capital e 
trabalho” mediado pelo Estado 
 constituição do Welfare State (ganhos 
sociais e seguridade social, desde que 
os operários dos países centrais 
abandonassem a luta pelo socialismo) 
 
A crise do taylorismo e do fordismo 
 
Após longo período de acumulação de 
capitais, que ocorreu no auge do Fordismo + 
Keynesianismo, o capitalismo a partir dos 
anos 1970, deu sinais de uma crise, cujos 
traços mais evidentes são: 
 queda da taxa de lucro (aumento do 
preço da força de trabalho no período 
dos anos dourados; intensificação das 
lutas sociais dos anos 1960; redução 
dos níveis de produtividade do 
capital); 
 esgotamento do padrão de 
acumulação taylorista/fordista 
(incapacidade de responder à retração 
do consumo; desemprego estrutural); 
 hipertrofia da esfera financeira 
(relativa autonomia frente aos capitais 
produtivos); 
 a maior concentração de capitais 
(devido às fusões entre empresas 
monopolistas); 
 a crise do welfare state (crise fiscal 
do Estado capitalista e retração dos 
gastos públicos); 
 incremento das privatizações 
(devido à desregulamentação e 
flexibilização do processo produtivo, 
dos mercados e da força de trabalho). 
 
Diagnóstico da crise de produtividade 
 
78 
 
 deslocamento do capital para as 
finanças 
 perda de lucratividade nas indústrias 
de transformação no final dos anos 
1960 
 crise do fordismo e do keynesianismo 
exprimia uma “crise estrutural do 
capital” (tendência decrescente da taxa 
de lucro; desmoronamento do 
mecanismo de “regulação” que 
vigorou no pós-guerra) 
 
Respostas para a crise dos anos 1970 
 
 processo de reorganização do capital e 
de seu sistema ideológico e político de 
dominação neoliberalismo ( 
privatização do Estado, a 
desregulamentação dos direitos do 
trabalho e a desmontagem do setor 
produtivo estatal). 
 processo de reestruturação da 
produção e do trabalho (reorganizar o 
ciclo produtivo = toyotismo) 
 
 
 TOYOTISMO 
 
 conceito: sistema de organização da 
produção baseado em um resposta 
imediata às variações de demanda e 
que exige, uma organização flexível 
do trabalho e integrada. 
 o capital deflagrou transformações no 
processo produtivo = Acumulação 
flexível para repor projeto de 
dominação societal – formas de gestão 
organizacional do avanço tecnológico 
– toyotismo. 
 sistema industrial japonês, a partir dos 
anos 1970, teve impacto no mundo 
ocidental – opção para os países 
avançados, visando a superação da 
crise capitalista 
 adaptação no Ocidente às 
singularidades de cada país 
 toyotismo ou ohnismo nasceu na 
Toyota no Japão pós-1945 
 Origem: as empresas japonesas 
precisavam ser tão competitivas 
quanto as americanas; necessidade de 
aplicar o fordismo no Japão, mas 
conforme as condições próprias do 
arquipélago. 
 
Histórico e conceituação do Toyotismo 
ou Ohnismo ou Modelo Japonês ou 
Acumulação Flexível 
 
 modelo gerencial implantado no 
Japão, em um contexto peculiar: o 
país estava em processo de 
reconstrução no pós II Guerra 
Mundial, vivenciando a restrição de 
mercado interno e externo e a escassez 
de matéria-prima. Para enfrentar essa 
situação, buscou ganhos de 
produtividade no próprio interior da 
empresa, intensificando a flexibilidade 
interna, tornando-a mais competitiva. 
Isto gerou um tipo de organização 
fabril enxuta e buscou-se uma maior 
integração e responsabilização dos 
trabalhadores pela qualidade do 
produto. 
 Deming (estatístico norte-americano e 
um dos fundadores (1946) da 
American Society for Quality Control, 
uma revolução na administração. Para 
ele seria necessário eliminar-se o 
desperdício, fator considerado 
responsável pela elevação dos custos 
de fabricação dos produtos norte-
americanos. O maior desperdício seria 
a subutilizaçãodas pessoas. Deming e 
Juran, juntamente com o engenheiro 
japonês Ishikawa, foram dos que mais 
influenciaram os japoneses na 
formulação do modelo TQC, ao 
introduzirem seus princípios sobre 
Qualidade Total no Japão, a partir dos 
anos 1950, na tentativa de auxiliar a 
recuperação da indústria daquele país. 
Qualidade significaria queda nos 
custos em razão da eliminação daquilo 
que, de fato, encareceria a produção, 
ou seja, defeitos/desperdícios e não-
trabalho. 
 modelo japonês ou TQC (Total 
Quality Control) é uma conjunção de 
inúmeros fatores históricos, com 
características próprias, que 
dificilmente se repetiram em outros 
países. Ou seja, é uma fusão de 
utilização de novas tecnologias com 
novos processos gerenciais e 
organizacionais do trabalho. 
79 
 
Características principais da nova 
organização do trabalho 
 
 base tecnológica: informática – 
“década de grande salto tecnológico, a 
automação, a robótica e a 
microeletrônica invadiram o universo 
fabril, inserindo-se e desenvolvendo-
se nas relações de trabalho e de 
produção do capital” 
 flexibilidade: trabalho em equipe. 
Integração da produção. Superação do 
trabalho manual direto, fragmentado e 
pouco qualificado, substituição por 
sistemas automatizados. 
 trabalho em equipe: “ao invés de se 
pensar em especialização e divisão 
rígida do trabalho, pensa-se em 
flexibilização do trabalho e na criação 
de grupos polivalentes com relativa 
autonomia para a elaboração do 
trabalho. 
 A ênfase na cooperação expressar-se-
ia na valorização do trabalho em 
equipe. 
 Esta gestão apoia-se numa 
transformação cultural que atingiria 
a empresa como um todo, incluindo a 
esfera gerencial e a alta gerência. 
Nesse sentido, apregoa-se a 
necessidade de redução dos níveis 
hierárquicos e de descentralização e 
de autogerenciamento de 
departamentos/setores/áreas, o 
compartilhamento de 
responsabilidades, a circulação de 
informações e a transparência nas 
decisões. 
 Inovação como incremento da 
produção e da competitividade. 
 Investimento crescente em pesquisa e 
desenvolvimento. 
 Produção não mais em série, mas 
condicionada ao gosto do cliente. 
Produção sem estoques. 
 Perfil do trabalhador exigido: 
capacidade de integração, de tomar 
decisões rápidas, de trabalho em 
equipe, responsável e leal. 
 Assim, no que se refere aos 
trabalhadores, destaca-se a atitude de 
comprometimento com os objetivos da 
empresa, juntamente com a adesão a 
uma ética do trabalho, de tal forma que 
ele se transforme em preocupação 
central na vida do indivíduo. 
 O pressuposto é que não haveria 
necessidade de coagir, de controlar as 
pessoas para que elas 
desempenhassem satisfatoriamente 
suas funções, uma vez que “elas 
próprias desejam realizar-se e alcançar 
metas, influenciar nas atividades e 
desafiar suas habilidades”. 
 No que se refere às relações 
empregadores-empregados, a ênfase 
é colocada nas atitudes de negociação, 
cooperação e solidariedade, uma vez 
que os trabalhadores (agora chamados 
de “colaboradores”) são considerados 
os agentes da transformação da 
empresa. Esta postura é uma ameaça 
ao movimento sindical, na medida em 
que as empresas tendem a adiantar-se, 
tomando suas próprias iniciativas no 
que diz respeito a demanda dos 
trabalhadores e desenvolvimento de 
acordos e de negociações, embasando-
as em vantagens mútuas. 
 O foco no cliente envolve a 
necessidade de se apreender a sua 
expectativa, o que é realizado através 
de instrumentos, tais como pesquisa de 
mercado e conscientização dos 
empregados. Entretanto, a estratégia 
satisfação do cliente, considerada 
exigência fundamental e em nome da 
qual ações e iniciativas que 
pressionam os empregados são 
tomadas pela organização, constitui-
se, na verdade, em recurso para desviar 
o foco do motivo central – a 
necessidade de garantir maior 
competitividade, maior produtividade 
e maior lucratividade. 
 A nova concepção supõe mudanças 
culturais, cuja extensão tende a afetar 
as relações de poder nas organizações. 
 
Em suma, as características do toyotismo: 
 
A) produção vinculada à demanda, 
visando atender às exigências mais 
individualizadas do mercado consumidor 
(a empresa só produz o que é vendido), ou 
seja, existe um estoque mínimo 
apresentado ao cliente. 
80 
 
B) fundamenta-se no trabalho operário 
em equipe, com multivariedade de 
funções. 
C) produção se estrutura num processo 
produtivo flexível, que possibilita ao 
operário operar simultaneamente várias 
máquinas. 
D) tem como princípio o “just in time”, 
(tempo justo) o melhor aproveitamento 
possível do tempo de produção. 
E) funciona segundo o sistema de 
“kanban”, placas ou senhas de comando 
para reposição de peças e de estoque. 
F) as empresas têm uma estrutura 
horizontalizada e transfere a “terceiros”, 
grande parte do que antes era produzido 
dentro da fábrica. 
G) “gerência participativa”. 
H) organização de Círculos de Controle de 
Qualidade, constituindo grupos de 
trabalhadores que são instigados pelo 
capital a discutir seu trabalho e 
desempenho com vistas a melhorar a 
produtividade da empresa. 
I) combate ao desperdício e é preciso 
limitar o tempo de transporte, estocagem e 
controle de qualidade. 
j) estímulo à subcontratação com os 
fornecedores (geralmente os custos 
salariais são de 30 a 50% inferiores) 
 propostas do capital: reorganização 
produtiva + ideológico, culto de 
ideário individualista. 
 Falácia da qualidade total, segundo 
os autores críticos: a) redução do 
tempo útil dos produtos para ter 
reposição ágil no mercado; b) negação 
da durabilidade das mercadorias; c) 
tendência depreciativa e decrescente 
do valor de uso das mercadorias; d) 
alta competitividade; e) intensificação 
das condições de exploração da força 
de trabalho (reengenharia, aumento de 
produtividade, GQT, empresa enxuta). 
 
Repercussões das mutações no processo 
produtivo no mundo do trabalho 
 
 desregulamentação e flexibilização 
dos direitos do trabalho; 
 fragmentação no interior da classe 
trabalhadora; 
 precarização e terceirização; 
 destruição do sindicalismo de classe 
(conversão do sindicalismo dócil, de 
parceria ou sindicalismo de empresa). 
 
Diferenças entre Taylorismo e Toyotismo 
 
Princípios 
gerenciais 
 
Taylorism
o 
 
Toyotismo 
Relação 
capital-
trabalho 
Conflito Cooperação 
 divisão 
entre 
direção e 
operação 
integração: 
direção e 
operação 
 relação 
hierarquiza
da 
relação 
horizontaliz
ada 
Organização 
processo 
trabalho 
conhecime
nto do 
trabalhador 
é 
transferido 
para a 
gerência 
conhecimen
to 
(criatividad
e) do 
trabalhador 
é valorizado 
Relações 
interempresa
riais 
Verticaliza
ção 
terceirizaçã
o das 
empresas 
 
 
Gerência de Qualidade Total – 
características principais 
 
 As atividades devem obedecer ao ciclo 
PDCA (Plan – Do – Check – Action), 
ou seja, planejar, executar, verificar e 
agir corretivamente. 
 A GQT tem como objetivo geral: 
rebaixamento dos custos através da 
diminuição de defeitos e do aumento 
da produtividade 
 GQT é modelo de gestão que busca o 
envolvimento e controle de um 
processo de produção ou da prestação 
de serviço, exigindo-se a participação 
de todos. 
 Qualidade: é a possibilidade de 
produzir, fornecer produtos e serviços 
sem falhas; quer dizer, “satisfação”total das pessoas, isto é, dos clientes, 
funcionários, acionistas das empresas 
e da própria sociedade. 
81 
 
 Produtividade: a produção com 
menos trabalho, com custos mínimos, 
evitando-se desperdício. 
 Assim a “nova ideologia 
desenvolvimentista” – produzir com 
melhor qualidade, maior 
produtividade – resultaria em menos 
desperdício e menos retrabalho. 
 Institui dois tipos de gerenciamento: 
a) de rotina (para o controle das 
tarefas diárias, feito pelo pessoal da 
operação (base); b) interfuncional 
(estipula as estratégias mais globais da 
empresa – direção da empresa). 
 Auto ativação – o trabalhador 
polivalente se auto administra 
 Compõe-se de programas de 
organização do ambiente do trabalho 
os 5 S: Seiri, Seiton, Seiso, Seiketsu e 
Shitsuke (separação, ordem, limpeza, 
asseio e disciplina) 
 Flexibilização, terceirização, 
subcontratação, eliminação do 
desperdício, “gerência participativa”, 
sindicalismo de empresa – 
características dos novos tempos 
 Críticas ao modelo da GQT: vários 
críticos alertam para o processo de 
manipulação do afeto, do desejo e da 
cognição dos trabalhadores, na 
medida em que objetiva formar um 
trabalhador bem identificado com os 
interesses e com a lógica da empresa. 
Se por um lado, há a diminuição da 
hierarquia na empresa, isto não 
significa um menor controle sobre o 
trabalhador. Este controle é agora 
mais sutil e, em certa medida, mais 
eficaz. Ele ocorre através dos grupos 
de trabalho, das metas de 
produtividade e mesmo do maquinário 
eletrônico introduzidos nas empresas e 
que prestam informações sobre o 
menor gesto do trabalhador, de forma 
mais eficaz do que qualquer olho 
humano. Há descontratualização das 
normas salariais. 
 Assim, criticamente, este modelo de 
gerenciamento tem como núcleo: 
treinar massiva, intensivamente e 
repetidas vezes as pessoas da 
organização. É preciso motivar, 
propiciar o envolvimento de todos 
para que haja mudança de 
mentalidade, de cultura, de 
comportamentos. É preciso favorecer 
a autoestima: todos pensam e podem 
e devem se habilitar para treinar outras 
pessoas. É preciso garantir a 
participação de todos, pois quem 
conhece melhor os problemas do 
processo e dos equipamentos não são 
as chefias, mas os operadores diretos. 
Gestão da qualidade total: os princípios e o 
mito 
Grande moda durante os anos 1990, a Gestão 
da Qualidade Total, continua a ser ainda hoje 
uma das ferramentas de gestão de empresas 
mais poderosas. Se aplicada com sucesso, a 
Gestão da Qualidade Total permite reduzir 
custos, melhorar brutalmente a produtividade e 
motivar os seus colaboradores. A sua 
implementação permanece, no entanto, um 
mito para muitas empresas. 
A Gestão da Qualidade Total concentra-se no 
cliente e salienta o trabalho em equipe e gestão 
participativa como forma de motivar os 
empregados (colaboradores) e estimular a 
inovação e melhorias. Ao examinar 
constantemente e aperfeiçoando sistemas e 
processos, as empresas podem melhorar 
continuamente e progressivamente ao longo do 
tempo. 
Baseada no conceito de melhoria contínua, a 
Gestão da Qualidade Total é uma abordagem 
proativa da produção, usada de alguma forma 
pela maior parte das empresas industriais. A 
sua origem está nos círculos de controle da 
qualidade utilizados na produção japonesa. Os 
círculos de controle da qualidade eram, de 
início, usados como instrumento moralizador, 
para incitar o envolvimento dos empregados. 
No início dos anos 1960, a Matsushita 
começou a aplicar a técnica para gerir a 
produção. A Gestão da Qualidade Total foi 
aplicada como solução para a baixa 
produtividade, a produção defeituosa, a 
paralisia burocrática e os problemas com 
empregados. 
Os trabalhadores são formados na utilização de 
medidas de controle da qualidade e em meios 
de analisar a produção e distribuição de forma 
a melhorar a eficácia e a qualidade. 
82 
 
Os princípios básicos da Gestão da 
Qualidade Total são: 
 Produzir bens ou serviços que 
respondam concretamente às 
necessidades dos clientes; 
 Garantir a sobrevivência da empresa 
por meio de um lucro contínuo obtido 
com o domínio da qualidade; 
 Identificar o problema mais crítico e 
solucioná-lo pela mais elevada 
prioridade; 
 Falar, raciocinar e decidir com dados e 
com base em fatos; 
 Administrar a empresa ao longo do 
processo e não por resultados; 
 O cliente é tudo. Não se permitir servi-
lo se não com produtos de qualidade; 
 A prevenção deve ser a tão montante 
quanto possível; 
 Na lógica anglo-saxônica de "trial and 
error", nunca permitir que um 
problema se repita; 
 Críticas ao modelo da qualidade total 
Vários críticos alertam para o processo de 
manipulação do afeto, do desejo e da cognição 
dos trabalhadores, na medida em que objetiva 
formar um trabalhador bem identificado com 
os interesses e com a lógica da empresa. 
Se por um lado, há a diminuição da 
hierarquia na empresa, isto não significa um 
menor controle sobre o trabalhador. 
Este controle é agora mais sutil e, em certa 
medida, mais eficaz. Ele ocorre através dos 
grupos de trabalho, das metas de produtividade 
e mesmo do maquinário eletrônico 
introduzidos nas empresas e que prestam 
informações sobre o menor gesto do 
trabalhador, de forma mais eficaz do que 
qualquer olho humano. Há descontratualização 
das normas salariais. 
O trabalho é constantemente flexibilizado e é 
intensificado ao máximo; é contratado um 
mínimo de operários, que executam o máximo 
de horas extras; o sindicato é totalmente 
vinculado ao patrão; a contratação de 
trabalhadores é reduzida (agora os operários ou 
são subcontratados ou são temporários, 
dependendo das condições e das demandas do 
mercado); há a implantação da terceirização, 
que provoca a segmentação dos trabalhadores, 
a precarização do trabalho e o enfraquecimento 
dos sindicatos, em que direitos trabalhistas são 
flexibilizados ou até mesmo eliminados. 
No toyotismo’ é a vigência da "manipulação" 
do consentimento operário, objetivada em um 
conjunto de inovações organizacionais, 
institucionais (e relacionais) no complexo de 
produção de mercadorias. 
 Globalização, Neoliberalismo e Crise 
Financeira Mundial 
 Neoliberalismo 
 
Conceituação: denominação de uma corrente 
doutrinária do liberalismo que se opõe ao 
modelo econômico keynesiano e retoma 
algumas das posições do liberalismo clássico, 
preconizando a minimização do Estado, a 
economia com plena liberação das forças de 
mercado e a liberdade de iniciativa econômica. 
Origem: o termo neoliberalismo surgiu nas 
décadas de 1930-40, no contexto da recessão 
(iniciada com a quebra da Bolsa de New York, 
em 1929) e da Segunda Guerra Mundial (1939-
45). Ao final da Segunda Guerra Mundial, a 
intervenção estatal na economia, que já havia 
sido implementada na experiência do New 
Deal (Nova Política), durante a década de 
1930, foi retomada em função das 
necessidades da reconstrução. Nesse contexto, 
constituiu-se o “Estado do Bem-Estar Social” 
(Welfare State), caracterizado pela construção 
de uma extensa rede de proteção social, cujas 
bases fundamentavam-se na atuação do 
Estado em diversas instâncias, tais como: 
previdência, educação, saúde, habitação 
popular, etc. Outras medidas foram 
implementadas visando a uma melhor 
distribuição de renda por meio da elevação dos 
salários, da consolidação de conquistas sociais. 
Essa ação se inseriu no contexto da Guerra 
Fria, pois se tratava de “humanizar”o mundo 
do trabalho, objetivando afastar a “ameaça 
vermelha” e a atração da ideologia socialista. 
 
Pensadores ou teóricos: Ludwig von Mises, 
Hayek, Milton Friedman. 
Características: Critica o paternalismo estatal 
e a crescente estatização e regulação social que 
atuam sobre as liberdades fundamentais do 
83 
 
indivíduo por meio de interferências 
arbitrárias, pondo em risco a liberdade política, 
econômica e social (Hayek). A liberdade 
econômica é tida como condição para a 
existência das demais liberdades, como a 
política, a individual, a religiosa, etc. Desse 
modo, o mercado é tido como princípio 
fundador, auto unificador e autorregulado da 
sociedade. 
Defende a economia de mercado 
dinamizada pela empresa privada, ou melhor, a 
liberdade total do mercado, e ainda o governo 
limitado, o Estado mínimo e a sociedade 
aberta, concorrencial / competitiva. Opõe-se 
radicalmente às políticas estatais de 
universalidade, igualdade e gratuidade dos 
serviços sociais, como saúde, seguridade social 
e educação. 
 
Consenso de Washington (1989): conjunto de 
regras e medidas estabelecidas pelo G-7 para 
os demais países se ajustarem à nova realidade 
econômica mundial. 
 Esta expressão “Consenso de 
Washington” surgiu numa conferência 
organizada em Washington, em novembro de 
1989, pelo Institute for International Economis 
e patrocinado pelo Banco Mundial, pelo Fundo 
Monetário Internacional (FMI) e pelo governo 
norte-americano, para discutir políticas 
econômicas para a América Latina. Nesse 
encontro, foi esboçada toda uma política 
reformista para a América Latina, de acordo, 
com os interesses norte-americanos e dos 
demais países do G-7. 
 A política de reformas – princípios 
neoliberais – pode ser assim resumida: 
a) controle do déficit fiscal 
b) corte de gastos públicos 
c) reforma tributária 
d) administração da taxa de juros 
e) política comercial de abertura do mercado e 
liberação de importações 
f) liberdade para a entrada de investimentos 
externos 
g) privatização das empresas estatais 
h) desregulamentação da economia, 
eliminação de barreiras, flexibilização de leis 
trabalhistas 
i) abertura ao sistema financeiro 
j) redisciplinamento do mundo do trabalho 
 
Traços mais evidentes do projeto 
político-econômico-social do neoliberalismo 
de mercado: 
 
 desregulamentação estatal e 
privatização de bens e serviços; 
 abertura externa; 
 liberação de preços; 
 prevalência da iniciativa privada; 
 redução das despesas e do déficit 
públicos; 
 flexibilização das relações 
trabalhistas e informalização nos 
mercados de trabalho; 
 cortes dos gastos sociais, eliminando 
programas e reduzindo benefícios; 
 supressão dos direitos sociais; 
 programas de descentralização com 
incentivo aos processos de 
privatização; 
 arrocho salarial / queda do salário 
real; 
 terceirização de serviços. 
Política Neoliberal no Brasil 
 
* Governos Collor (1990-92), Itamar Franco 
(1992-94) e Fernando Henrique Cardoso - 
FHC (1995-2002) e a política econômica 
conservadora do Ministério da Fazenda 
(Palocci) e Banco Central no governo Lula e de 
Levy (governo Dilma) 
26/08/2010 - Esfera pública x Esfera 
mercantil - Emir Sader 
 
O neoliberalismo é a realização 
máxima do capitalismo: transformar tudo em 
mercadoria. Foi assim que o capitalismo 
nasceu: transformando a força de trabalho 
(com o fim da escravidão) e as terras em 
mercadorias. Sua história foi a crescente 
mercantilização do mundo. 
A crise de 1929 – de que o liberalismo 
foi unanimemente considerado o responsável – 
gerou contra tendências, todas antineoliberais: 
o fascismo, o modelo soviético (com 
eliminação da propriedade privada dos meios 
de produção) e o keynesianismo (com o Estado 
assumindo responsabilidades fundamentais na 
economia e nos direitos sociais). 
O capitalismo viveu seu ciclo longo 
(Anos Dourados) mais importante do segundo 
pós-guerra (1945) até os anos 1970. Quando 
84 
 
foi menos liberal, foi menos injusto. Vários 
países – europeus, mas também a Argentina – 
tiveram pleno emprego, os direitos sociais 
foram gradualmente estendidos no que se 
convencionou chamar de Estado de bem-estar-
social. 
Esgotado esse ciclo, o diagnóstico 
neoliberal triunfou, voltando de longo 
refluxo: dizia que o que tinha levado a 
economia à recessão era a excessiva 
regulamentação. O neoliberalismo se propôs a 
desregulamentar, isto é, a deixar circular 
livremente o capital. Privatizações, abertura de 
mercados, “flexibilização laboral” – tudo se 
resume a desregulamentações. 
A hegemonia neoliberal se traduziu, 
no campo teórico, na imposição da polarização 
estatal/privado como o eixo das alternativas. 
Como se sabe, quem parte e reparte fica com a 
melhor parte – privado – e esconde o que lhe 
interessa abolir – a esfera pública. Porque o 
eixo real que preside o período neoliberal se 
articula em torno de outro eixo: esfera 
pública/esfera mercantil. 
Porque a esfera do neoliberalismo não 
é a privada. A esfera privada é a esfera da vida 
individual, da família, das opções de cada um 
– clube de futebol, música, religião, casa, 
família, etc.. Quando se privatiza uma 
empresa, não se colocam as ações nas mãos dos 
indivíduos – os trabalhadores da empresa, por 
exemplo -, se jogam no mercado, para quem 
possa comprar. Se mercantiliza o que era um 
patrimônio público. 
O ideal neoliberal é construir uma 
sociedade em que tudo se vende, tudo se 
compra, tudo sem preço. Ao estilo shopping 
center. Ou do modo de vida norte-americano, 
em que a ambição de todos seria ascender 
como consumidor, competindo no mercado, 
uns contra os outros. 
O neoliberalismo mercantilizou e 
concentrou renda, excluiu de direitos a milhões 
de pessoas – a começar os trabalhadores, a 
maioria dos quais deixou de ter carteira de 
trabalho, de ser cidadão, sujeito de direitos -, 
promoveu a educação privada em detrimento 
da pública, a saúde privada em detrimento da 
pública, a imprensa privada em detrimento da 
pública. 
O próprio Estado se deixou 
mercantilizar. Passou a arrecadar para, 
prioritariamente, pagar suas dívidas, 
transferindo recursos do setor produtivo ao 
especulativo. O capital especulativo, com a 
desregulamentação, passou a ser o hegemônico 
na sociedade. Sem regras, o capital – que não é 
feito para produzir, mas para acumular – se 
transferiu maciçamente do setor produtivo ao 
financeiro, sob a forma especulativa, isto é, não 
para financiar a produção, a pesquisa, o 
consumo, mas para viver de vender e comprar 
papéis – de Estados endividados ou de grandes 
empresas -, sem produzir nem bens, nem 
empregos. É o pior tipo de capital. O próprio 
Estado se financeirizou. 
O neoliberalismo destruiu as funções 
sociais do Estado e depois nos jogou como 
alternativa ao mercado: se quiserem, defendam 
o Estado que eu destruí, tornando-o 
indefensável; ou venham somar-se à esfera 
privada, na verdade o mercado disfarçado. 
Mas se a esfera neoliberal é a esfera 
mercantil, a esfera alternativa não é a estatal. 
Porque há Estados privatizados, isto é, 
mercantilizados, financeirizados; e há Estados 
centrados na esfera pública. A esfera pública é 
centrada na universalização dos direitos. 
Democratizar, diante da obra neoliberal, é 
desmercantilizar, colocar na esfera dos direitos 
o que o neoliberalismo colocou na esfera do 
mercado. Uma sociedade democrática, pós-
neoliberal, é uma sociedade fundada nos 
direitos,na igualdade dos cidadãos. Um 
cidadão é sujeito de direitos. O mercado não 
reconhece direitos, só poder de comprar, é 
composta por consumidores. 
Na esfera da informação, houve até 
aqui predomínio absoluto da esfera mercantil. 
Para emitir notícias era necessário dispor de 
recursos suficientes para instalar condições de 
ter um jornal, um rádio, uma TV. A internet 
abriu espaços inéditos para a democratização 
da informação. 
A democratização da mídia, isto é, 
sua desmercantilização, a afirmação do direito 
a expressar e receber informações pluralistas 
tem que combinar diferentes formas de 
expressão e de mídia. A velha mídia é uma 
mídia mercantil, composta de empresas 
financiadas pela publicidade, hoje aderida ao 
pensamento único. Uma mídia composta por 
empresas dirigidas por oligarquias familiares, 
sem democracia nem sequer nas redações e nas 
pautas dos meios que a compõem. 
A nova mídia, por sua vez, é uma 
mídia barata nos seus custos, pluralista, crítica. 
O novo espaço criado pelos blogueiros 
85 
 
progressistas faz parte da esfera pública e 
promove os direitos de todos, a democracia 
econômica, política, social e cultural. A esfera 
pública tem expressões estatais, não-estatais, 
comunitárias. Todas comprometidas com os 
direitos de todos e não com a seletividade e a 
exclusão mercantil. 
Consequências das políticas neoliberais na 
América Latina 
* Aumento do desemprego estrutural. 
* Transferência de custos sociais para setores 
populares. 
* Exclusão social e crescimento da violência. 
* Redução de gastos sociais nas áreas de 
educação, saúde 
* Esvaziamento do movimento sindical e 
novas legislações conservadoras. 
* Diminuição da taxa de inflação. 
* Acirramento da competitividade global. 
* Recuperação da taxa de lucros. 
* Reforma fiscal para incentivar os 
investimentos privados e redução de impostos 
sobre o capital. 
* Abolição do controle estatal sobre o fluxo 
financeiro. 
* A moeda nacional se reduz a um apêndice do 
dólar. 
* Aumento da dívida interna e também da 
dívida externa. 
* Vasto programa de privatização. 
G GLOBALIZAÇÃO E SEUS (
 DES)CAMINHOS 
Introdução 
O termo “globalização” foi utilizado 
pela primeira vez em 1985, em um trabalho de 
Theodore Levitt denominado “A globalização 
dos mercados”. Com esse termo pretendia-se 
caracterizar as grandes transformações 
ocorridas na esfera econômica mundial nos 
anos que se seguiram ao colapso da ordem 
bipolar, com uma notável expansão do 
capitalismo no contexto do desaparecimento 
das economias de planejamento centralizado. 
“Os povos de Porto Alegre e os povos 
de Davos - New York se batem pela 
globalização. Qual globalização? Os 
poderosos, e por isso são poderosos, se 
apropriaram da palavra globalização e lhe 
impuseram uma significação que serve a seus 
interesses. É o processo mundial de 
homogeneização do modo de produção 
capitalista, de globalização dos mercados e das 
transações financeiras, do entrelaçamento das 
redes de comunicação e do controle mundial 
das imagens e das informações. A lógica que a 
preside é a competição de todos com todos”. 
(Leonardo Boff) 
 
Conceito: 
 “Etapa recente (pós-1980) e mais 
avançada do processo de 
internacionalização da economia” 
(Luciano Coutinho, economista da 
UNICAMP) 
 Conjunto de transformações na ordem 
política e econômica mundial – 
integração dos mercados numa “aldeia 
global”, explorada pelas empresas 
transnacionais. 
 Fenômeno sócio histórico 
contraditório e complexo que 
caracteriza uma nova etapa de 
desenvolvimento do capitalismo. 
Dimensões da globalização 
 
a) globalização como ideologia (na 
política) – disseminada pela mídia 
b) globalização como mundialização do 
capital (na economia e sociedade) 
c) globalização como processo 
civilizatório (vinculado ao 
desenvolvimento das forças 
produtivas), isto é, aos avanços da 3a. 
Revolução Industrial ou Tecnológica. 
Faces da globalização econômica 
 
 financeira (o capital sem pátria) 
 comercial (comércio para todos) 
 produtiva (produzir em qualquer 
lugar) 
 
Críticas e mitos (ou ideologias) ao conceito 
de globalização (Hirst e Thompson) 
 
 é um processo sem precedentes 
(fenômeno irreversível) – nações 
devem aderir incondicionalmente ao 
mercado global 
 é apresentada como uma fatalidade – 
fora dela não há alternativa para as 
86 
 
economias (Estado seria impotente) – 
ligado à lógica do “darwinismo social” 
 é um processo sem controles 
(comandado por forças impessoais do 
mercado) 
 é democrático e possibilita o 
desenvolvimento 
 
Características da globalização 
 
a) aceleração da mudança tecnológica (3ª 
Revolução Industrial ou Tecnológica); 
b) reorganização dos padrões de gestão e 
organização da produção através da GQT; 
c) crescente hegemonia do capital 
financeiro (tem autonomia em relação aos 
bancos centrais e amplia o seu controle 
sobre o setor produtivo); fuga de capitais 
voláteis 
d) concentração do capital em grandes 
oligopólios internacionais e em setores 
vitais do processo produtivo. Segundo 
pesquisa da revista Fortune, de 1998, as 
dez principais corporações do mundo 
(General Motors, Daimler-Chrysler, Ford 
Motors, Wal-Mart, Mitsui, Itochu, 
Mitsubishi, Exxon, General Eletric e 
Toyota Motors) tiveram um faturamento 
de 1,2 trilhão de dólares nesse ano, valor 
50% maior que o PIB brasileiro de 1998; 
e) crescente fusão de empresas (formação de 
trustes) para reduzir custos e ganhos de 
escala de produção, além de maior 
inserção numa economia cada vez mais 
competitiva e globalizada; 
f) internacionalização dos processos de 
produção, tanto em escala mundial como 
regional; 
g) ausência de um padrão monetário mundial 
estável; 
h) liberalização e expansão do comércio 
internacional num volume jamais visto, 
possibilitando a integração total de 
praticamente todos os mercados do mundo 
e superando fronteiras geográficas e 
barreiras histórico-culturais; 
i) formação de megamercados ou grandes 
blocos econômicos, com o intuito de se 
alcançar maior integração regional e 
consequente expansão de mercados. Nesse 
sentido, numa tendência aparentemente 
contraditória da globalização, verifica-se a 
regionalização de mercados com o 
estabelecimento de barreiras protecionistas 
entre os megablocos. Isso explica, por 
exemplo, as dificuldades de acesso do 
agronegócio brasileiro na União Europeia. 
j) a terceirização de amplos setores da 
cadeia produtiva; 
k) a desterritorialização do capital em 
função do surgimento de um mercado 
financeiro global que transaciona bilhões 
de dólares em todo o mundo. “São bilhões 
de dólares a circular globalmente em 
tempo real. A velocidade de circulação 
desse capital é fantástica e sua volatilidade 
também. Países são levados de roldão e 
mergulhados em crises profundas, os 
estados nacionais e seus respectivos 
bancos centrais são inoperantes frente a 
esta avalanche de dólares globalizados.” 
(economista Ari Zenha) 
l) nova divisão internacional do trabalho; 
m) a contínua dissolução do mundo agrário 
e alteração das condições de vida e de 
trabalho no campo – alterações nos 
processos produtivos do meio rural e 
disseminação, nas áreas rurais, de valores 
socioculturais típicos do mundo urbano; 
n) comprometimento da soberania 
nacional e a redefinição do papel 
tradicional do Estado-nação, 
considerando-se que os grandes grupos 
financeiros e empresas agem em escala 
planetária, independentemente das 
decisões governamentais. A constituiçãode um mercado global integrado tem 
garantido ao grande capital internacional 
uma liberdade de ação que se sobrepõe aos 
interesses nacionais; 
o) a emergência de uma sociedade global de 
perfil crescentemente homogeneizado e 
caracterizada, também, pela ampliação das 
desigualdades, tensões, contradições e 
carências; 
p) organização do processo produtivo – 
flexibilização do trabalho e do trabalhador; 
 
Resistências à Globalização 
 
 Pode-se perceber que o capitalismo 
globalizado vem comprometendo as 
particularidades culturais dos povos. Observa-
se, ao mesmo tempo, uma reação a essa 
tendência que procura resgatar e preservar 
valores culturais específicos. 
 
87 
 
 A sedutora ideologia da globalização, 
apresenta o fenômeno como algo 
inexorável, contra o qual não há 
alternativa. Para Fernando Henrique 
Cardoso (FHC), a “globalização era 
uma realidade contra a qual não havia 
como lutar. O que o país deveria fazer 
era simplesmente adaptar-se à nova 
realidade”. 
 No entanto, as contradições 
decorrentes da globalização e, em 
particular, as que geraram um 
aprofundamento no fosso entre as 
economias capitalistas centrais e as 
economias capitalistas periféricas têm 
levado, a um progressivo desencanto 
com a chamada economia global. 
 Crescimento dos protestos 
antiglobalização, a partir de maio de 
1998 em Genebra, Suíça. Intelectuais, 
ativistas políticos de matizes 
ideológicas diversas, ONGs e a própria 
Anistia Internacional procuram se 
fazer ouvir numa onda crescente de 
protestos contra os perversos efeitos 
sociais da globalização. 
 O I Fórum Social Mundial, realizado 
em janeiro de 2001, em Porto Alegre, 
como contraponto ao Fórum 
Econômico Mundial, de Davos 
(Suíça – desde 1971 tem cumprido o 
papel estratégico na formulação do 
pensamento dos que promovem e 
defendem as políticas neoliberais em 
todo o mundo. Sua base 
organizacional é uma fundação suíça e 
financiada por mais de mil empresas 
multinacionais). O Fórum Social 
Mundial apresentou alternativas às 
políticas neoliberais e à globalização, 
por meio de debates que contaram com 
a participação de ONGs nacionais e 
estrangeiras; reuniu representantes de 
122 países com o objetivo de inserir, 
na pauta da globalização, os princípios 
fundamentais da solidariedade 
humana. Ele denuncia a perplexidade 
e a angústia de muitos com a economia 
globalizada. 
 
 CRISE FINANCEIRA MUNDIAL DE 
2008 e SUAS REPERCUSSÕES 
 
Para compreender a crise financeira 
(08/10/2008) 
 
Antecedentes 
 
 capitalismo vive do seu processo de 
reprodução, articulado por ciclos 
curtos e longos 
 ciclo de expansão e períodos 
recessivos 
 Chesnais: décadas neoliberais: 
aumento da acumulação capitalista; 
automação; deslocalização das 
empresas; emergência da Índia e 
China como centros produtivos 
 Década de 1980: processo de 
transferência de capitais do setor 
produtivo para o especulativo 
 Desregulamentação: livre de travas, o 
capital migrou para o setor financeiro 
(especulativo) onde obtêm muito mais 
lucros 
 90% dos movimentos econômicos não 
se dão na esfera da produção, mas na 
compra e venda de papéis, nas Bolsas 
de Valores ou de papéis das dívidas 
públicas dos governos 
 Crises da fase neoliberal: mexicana, 
asiática, russa, brasileira e argentina = 
ataques especulativos que se 
alastraram para o conjunto da 
economia; saída brusca de capitais 
 Saídas para estas crises: mais 
abertura das economias; empréstimos 
dos FMI e aumento dos ajustes fiscais 
 
Sintomas da crise financeira de 2008 
 
 a crise é de natureza distinta das outras 
e projeta uma fase mais longa de 
dificuldades: iniciou-se no país 
central, por ter afetado o seu sistema 
financeiro e por questionar o atual 
arranjo desequilibrado da economia 
global 
 ausência de regulação do sistema 
financeiro 
 redução do investimento produtivo 
 fortíssima expansão do consumo 
 déficit do comércio exterior 
 aumento da dívida interna das famílias 
norte-americanas 
 
88 
 
Crise financeira mundial 
 
 crise iniciou-se em julho/2007 no setor 
de empréstimos hipotecários dos 
EUA: primeira crise sistêmica do 
capitalismo financerizado 
 entre 15 e 16/09/2008: falências de 
grandes instituições financeiras norte-
americanas 
 instituições bloquearam a concessão 
de empréstimos 
 dogma neoliberal: mercados são 
capazes de se autorregular e toda 
intervenção estatal sobre eles é 
contraproducente 
 pacote dos 700 bilhões de dólares dos 
EUA para socorrer sistema financeiro 
 governo socorre bancos com dinheiro 
público, mas não assegura que os 
recursos irriguem a economia 
 governo dos EUA estatizou 2 maiores 
empresas de financiamento 
hipotecário 
 sensação de insegurança e a crise 
alastrou-se dos EUA para a Europa 
 crise atinge “economia real”: falta de 
financiamento (crédito) afeta vendas 
de veículos; GM dá férias coletivas 
 Análises: não é possível prever nem a 
duração, nem a profundidade, nem as 
consequências da crise 
 
Consequências da crise 
 
 aumento dos preços do petróleo, dos 
produtos agrícolas e diminuição da 
demanda dos EUA e da Europa, os 
países mais pobres perderão 
claramente com fortes pressões 
recessivas, déficit na balança 
comercial e aumento do 
endividamento 
 Europa e Japão sofrerão impacto da 
desaceleração da economia norte-
americana = recessão 
 contração do crédito 
 
 
24/09/2008 - O impensável aconteceu 
(Boaventura de Sousa Santos) 
 
O Estado deixou de ser o problema 
para voltar a ser a solução; cada país tem o 
direito de fazer prevalecer o que entende ser o 
interesse nacional contra os ditames da 
globalização; o mercado não é, por si, 
racional e eficiente, apenas sabe racionalizar 
a sua irracionalidade e ineficiência enquanto 
estas não atingirem o nível de autodestruição. 
A palavra não aparece na mídia norte-
americana, mas é disso que se trata: 
nacionalização. Perante as falências ocorridas, 
anunciadas ou iminentes de importantes 
bancos de investimento, das duas maiores 
sociedades hipotecárias do país e da maior 
seguradora do mundo, o governo dos EUA 
decidiu assumir o controle direto de uma parte 
importante do sistema financeiro. 
A medida não é inédita, pois, o 
Governo interveio em outros momentos de 
crise profunda: em 1792 (no mandato do 
primeiro presidente do país), em 1907 (neste 
caso, o papel central na resolução da crise 
coube ao grande banco de então, J.P. Morgan, 
hoje, Morgan Stanley, também em risco), em 
1929 (a grande depressão que durou até à 
Segunda Guerra Mundial: em 1933, 1000 
norte-americanos por dia perdiam as suas casas 
a favor dos bancos) e 1985 (a crise das 
sociedades de poupança). 
O que é novo na intervenção em curso 
é a sua magnitude e o fato de ela ocorrer ao fim 
de trinta anos de evangelização neoliberal 
conduzida com mão de ferro a nível global 
pelos EUA e pelas instituições financeiras por 
eles controladas, FMI e o Banco Mundial: 
mercados livres e, porque livres, eficientes; 
privatizações; desregulamentação; Estado fora 
da economia porque inerentemente corrupto e 
ineficiente; eliminação de restrições à 
acumulação de riqueza e à correspondente 
produção de miséria social. 
Foi com estas receitas que se 
“resolveram” as crises financeiras da América 
Latina e da Ásia e que se impuseram 
ajustamentos estruturais em dezenas de países. 
Foi também com elas que milhões de pessoas 
foram lançadas no desemprego, perderamas 
suas terras ou os seus direitos laborais, tiveram 
de emigrar. 
À luz disto, o impensável aconteceu: o 
Estado deixou de ser o problema para voltar 
a ser a solução; cada país tem o direito de fazer 
prevalecer o que entende ser o interesse 
nacional contra os ditames da globalização; o 
mercado não é, por si, racional e eficiente, 
apenas sabe racionalizar a sua irracionalidade 
89 
 
e ineficiência enquanto estas não atingirem o 
nível de autodestruição. 
Mas muito mais mudará. Primeiro, o 
declínio dos EUA como potência mundial 
atinge um novo patamar. Este país acaba de ser 
vítima das armas de destruição financeira 
maciça com que agrediu tantos países nas 
últimas décadas e a decisão “soberana” de se 
defender foi afinal induzida pela pressão dos 
seus credores estrangeiros (sobretudo 
chineses) que ameaçaram com uma fuga que 
seria devastadora para o atual american way of 
life. 
Segundo, o FMI e o Banco Mundial 
deixaram de ter qualquer autoridade para 
impor as suas receitas, pois sempre usaram 
como bitola uma economia que se revela agora 
fantasma. A hipocrisia dos critérios duplos 
(uns válidos para os países do Norte global e 
outros válidos para os países do Sul global) 
está exposta com uma crueza chocante. Daqui 
em diante, a primazia do interesse nacional 
pode ditar, não só proteção e regulação 
específicas, como também taxas de juro 
subsidiadas para apoiar indústrias em perigo 
(como as que o Congresso dos EUA acaba de 
aprovar para o setor automóvel). 
Não estamos perante uma 
desglobalização mas estamos certamente 
perante uma nova globalização pós-
neoliberal internamente muito mais 
diversificada. Emergem novos regionalismos, 
já hoje presentes na África e na Ásia mas 
sobretudo importantes na América Latina, 
como o agora consolidado com a criação da 
União das Nações Sul-Americanas e do Banco 
do Sul. Por sua vez, a União Europeia, o 
regionalismo mais avançado, terá que mudar o 
curso neoliberal da atual Comissão sob pena de 
ter o mesmo destino dos EUA. 
Terceiro, as políticas de privatização 
da segurança social ficam desacreditadas: é 
eticamente monstruoso que seja possível 
acumular lucros fabulosos com o dinheiro de 
milhões trabalhadores humildes e abandonar 
estes à sua sorte quando a especulação dá 
errado. Quarto, o Estado que regressa como 
solução é o mesmo Estado que foi moral e 
institucionalmente destruído pelo 
neoliberalismo, o qual tudo fez para que sua 
profecia se cumprisse: transformar o Estado 
num antro de corrupção. 
Isto significa que se o Estado não for 
profundamente reformado e democratizado em 
breve será, agora sim, um problema sem 
solução. Quinto, as mudanças na 
globalização hegemônica vão provocar 
mudanças na globalização dos movimentos 
sociais que vão certamente se refletir no Fórum 
Social Mundial: a nova centralidade das lutas 
nacionais e regionais; as relações com Estados 
e partidos progressistas e as lutas pela 
refundação democrática do Estado; 
contradições entre classes nacionais e 
transnacionais e as políticas de alianças. 
 
Boaventura de Sousa Santos é sociólogo e professor 
catedrático da Faculdade de Economia da 
Universidade de Coimbra (Portugal). Fonte: 
www.agenciacartamaior.com.br 
As repercussões da crise financeira mundial 
no Brasil: entre tsunamis e marolinhas, por 
Victor de Sá Neves (14/10/2012) 
 É fato que o cenário econômico internacional 
mudou muito desde as primeiras evidências da 
crise imobiliária dos Estados Unidos, mas o 
que não se pensava era que isso ainda geraria 
grandes impactos globais mesmo quatro anos 
depois da quebra do Lehman Brothers. A crise 
se espalhou e atingiu fortemente os países 
europeus que praticavam irresponsabilidade 
fiscal sem levar em consideração que a 
qualquer momento essa bolha poderia 
explodir. E hoje, mesmo depois de todos os 
pacotes de ajuda e medidas de austeridade para 
salvar bancos e economias nacionais, pode-se 
dizer que a crise financeira é mundial e as suas 
repercussões são preocupantes. A partir da 
declaração do então Presidente Luiz Inácio 
Lula da Silva, em outubro de 2008, de que a 
crise econômica mundial seria uma 
“marolinha” para o Brasil e da posição de 
observador em um cenário atual 
completamente diferente, pretende-se analisar 
qual foi o comportamento do Brasil durante 
esses longos quatro anos e traçar algumas 
perspectivas sobre o futuro do país. 
No ano do colapso do sistema imobiliário 
estadunidense, o Brasil ainda apresentou 
índices de crescimento razoáveis até o terceiro 
trimestre, conseguindo fechar o ano com um 
crescimento de 5,4% do PIB. Entretanto, o que 
Lula não contava no momento da sua 
declaração era que, a partir do quarto trimestre 
de 2008 até esse mesmo período de 2009, a 
economia brasileira passou por um momento 
90 
 
em que os índices de crescimento despencaram 
para abaixo dos 2% negativos em média por 
trimestre, um reflexo do forte baque pelo qual 
uma economia dependente da exportação de 
commodities passaria frente a um cenário de 
intensa crise de demanda. É evidente que o 
antigo Presidente acertou em partes, já que 
disse que os efeitos aqui seriam muito menores 
do que nos países desenvolvidos, nos quais os 
impactos foram relacionados com um 
“tsunami”. Entretanto, a comparação ficou 
desequilibrada na medida em que não levou em 
consideração o forte impacto que uma 
economia exportadora de produtos primários 
poderia sofrer em um contexto desfavorável. 
Nesse sentido, ao contrário do que os 
economistas diziam ao final de 2009 (quando 
já eram divulgados os primeiros números 
apontando para a recuperação do crescimento 
da economia brasileira), a “marola” não estava 
ultrapassada e uma segunda fase ainda estava 
por vir. É certo que, do fim de 2009 até a 
metade de 2010, os índices já indicavam um 
aumento intenso no ritmo de crescimento do 
Brasil, mas a partir do momento em que a crise 
na zona do euro se difundiu, o cenário 
internacional voltou a ficar negativo e, 
novamente, o crescimento econômico por aqui 
sofreu um grande abalo. Os números 
evidenciam que, desde o primeiro trimestre de 
2010, o ritmo só vem caindo, quando 
comparado com o mesmo trimestre do ano 
anterior, de acordo com os apontamentos dos 
relatórios de contas nacionais do IBGE. 
Como já foi dito anteriormente, o Brasil tem a 
sua economia fortemente influenciada pela 
exportação de commodities, principalmente 
cereais e minérios de ferro. Com a crise de 
crédito no mercado mundial, os compradores 
restringem a sua demanda, o que faz com que 
o preço dos produtos brasileiros caia 
juntamente com o lucro dos exportadores. A 
partir disso, a resposta dada a esse incentivo é 
a diminuição da produção para reter a oferta e 
segurar um pouco o preço. 
A saída encontrada pelo governo brasileiro foi 
investir na potencialidade do mercado 
consumidor interno. Durante os últimos anos, 
o Banco Central se valeu de várias medidas 
macroeconômicas com o intuito de aquecer a 
economia para que a crise mundial não 
produzisse aqui impactos tão intensos quanto 
os ocorridos em países europeus. A principal 
delas é a taxa de juros SELIC, que atingiu a 
marca dos 7,5% na última reunião no mês de 
agosto, na tentativa de incentivar a produção 
industrial e o consumo. Além disso, podem ser 
citadas também as isenções fiscais, como o 
IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) e 
o IPI (Imposto sobre Produtos 
Industrializados), e as facilidades de acesso ao 
crédito, bastante comuns nos últimos dois 
anos.Mais recentemente, o Banco Central se 
valeu ainda da diminuição da alíquota do 
compulsório dos bancos, o que deve injetar nos 
próximos meses cerca de 30 bilhões de reais no 
mercado brasileiro. É inegável que os efeitos 
do pessimismo gerado pela crise mundial são 
muito menores no Brasil, mas o fato é que 
essas medidas não estão sendo suficientes para 
sustentar o ritmo almejado pelo governo (vide 
projeções de crescimento para 2012: no início 
do ano, a expectativa era de alcançar os 4%; há 
alguns dias, a meta foi abaixada para 1,6%). 
Assim, compreende-se porque o termo 
“marolinha” utilizado por Lula não explica por 
completo as repercussões da crise financeira no 
Brasil. Por um lado, o país tem se mostrado 
muito mais efetivo nas suas medidas de 
contenção da crise do que as grandes 
economias desenvolvidas. Por outro, mesmo 
com os vários esforços adotados pelo governo 
na tentativa de tornar os impactos menos 
severos, nota-se que os resultados obtidos 
estão constantemente abaixo das expectativas. 
Nesse contexto, defende-se que o termo ideal 
para ilustrar a situação em que o Brasil se 
insere frente à crise é “pororoca”, visto que os 
efeitos se estendem desde 2008 e já 
provocaram certo estrago na economia 
brasileira desde então, com ênfase no 
crescimento negativo de 2009 e na 
desaceleração intensa que se deu a partir de 
2010. 
Dessa forma, conclui-se que a tendência é que 
o Brasil continue engatinhando até que os 
mercados consumidores dos seus produtos de 
exportação se recuperem e voltem a demandar 
como antes. Apesar disso, é preciso ter em 
mente o fato de que a população brasileira não 
sentiu muito os efeitos da crise, até por conta 
da inflação nunca ter saído do controle do BC 
durante esses quatro anos. Na verdade, o que 
91 
 
se tem visto é que a parcela da população que 
pertence à classe média aumentou 
significativamente a sua potencialidade de 
consumo em função das facilidades de acesso 
ao crédito dadas pelo governo, como no 
programa Minha Casa, Minha Vida e nos 
financiamentos de carros novos. Porém, 
afigura-se que o potencial do mercado 
consumidor brasileiro já está saturado e não se 
encontra nele a solução para a volta ao antigo 
ritmo de crescimento. É certo que ele tem se 
mostrado uma solução paliativa bastante 
durável, mas é difícil que algo mais seja obtido 
além do que já foi. Portanto, é possível chegar 
à conclusão de que a “pororoca” que assola o 
Brasil só se esmaecerá à medida que os 
“tsunamis” dos países desenvolvidos também 
perderem força. 
7º Texto: A Geração Y 
Introdução 
Juventude: 
 
“Nossa juventude adora o luxo, é mal 
educada, caçoa da autoridade e não tem o 
menor respeito pelos mais velhos. Nossos 
filhos hoje são verdadeiros tiranos. Eles não se 
levantam quando uma pessoa idosa entra, 
respondem a seus pais e são simplesmente 
maus.” (Sócrates 470-399 a. C.). 
 
“Não tenho mais nenhuma esperança no 
futuro do nosso País se a juventude de hoje 
tomar o poder amanhã, porque essa juventude 
é insuportável, desenfreada, simplesmente 
horrível.” Hesíodo (720 a.C) 
 
“Nosso mundo atingiu seu ponto crítico. Os 
filhos não ouvem mais seus pais. O fim do 
mundo não pode estar muito longe.” 
(Sacerdote do ano 2000 a.C.) 
 
“Essa juventude está estragada até o fundo do 
coração. Os jovens são malfeitores e 
preguiçosos. Eles jamais serão como a 
juventude de antigamente. A juventude de hoje 
não será capaz de manter a nossa cultura.” 
(Descoberta nas ruínas da Babilônia (atual 
Bagdá). 4000 anos de existência.) 
 
Nada mudou! 
 
Um Estudo das Gerações: os comportamentos, 
valores de vida, expectativas com relação ao 
futuro mudam de forma considerável e, 
mundialmente a cada 20 anos... 
 
Porém... 
 
Pela primeira vez as empresas estão lidando 
com diferenças de mais de 40 anos de 
idade... e esta diferença vai crescer ainda 
mais... 
 
01 - Geração Baby Boomers – nascidos entre 
1946 e 1964 
 
Baby Boomers é uma definição 
genérica para crianças nascidas durante uma 
explosão populacional - Baby Boom em inglês, 
ou, em uma tradução livre, Explosão de Bebês. 
Em geral, a atual definição de Baby 
Boomers, se refere aos filhos da Segunda 
Guerra Mundial, já que durante a guerra 
houve uma explosão populacional. 
Normalmente, são as pessoas nascidas 
no final da década de 1940, se consideram 
como Baby Boomers os nascidos entre 1946 e 
1964, separados em duas gerações: 
 
Podemos determinar as seguintes 
características para a Geração de Baby 
Boomers: 
 Possui renda mais consolidada. 
 Tem um padrão de vida mais estável. 
 Prefere qualidade a quantidade. 
 Não se influencia facilmente por 
outras pessoas. 
 É firme e maduro nas decisões 
 
 Enfim, sua atitude típica: “Só se vive 
uma vez, então aproveite” e para subir na vida 
é preciso trabalhar muito; seus empregos eram 
para a vida toda e a carreira era linear; eles 
trabalham mais tempo e se aposentam mais 
tarde. 
 
02 - Geração X – nascidos entre 1965 e 1980 
 
Os integrantes da Geração X têm sua 
data de nascimento localizada, 
aproximadamente, entre os anos 1960 e 1980. 
A Geração X é formada pelos filhos da 
Geração Baby Boomers, formada logo após a 
Segunda Guerra Mundial e pelos pais da 
Geração Y. 
92 
 
 
Os integrantes da geração X são as 
pessoas nascidas entre meados dos anos 60 e 
início dos 1980. Essa geração viveu momentos 
importantes na política: a Guerra Fria, a 
Perestroika precipitando a queda do Muro de 
Berlim. Foi a época dos últimos líderes, como 
Mikhail Gorbatchov, Ronald Reagan, 
Margareth Thatcher... 
 
As pessoas X não vêem o êxito da 
mesma forma que seus pais. Ao contrário, 
nutrem certo cinismo e desilusão em relação 
aos valores deles. São mais céticas, mais 
difíceis de atingir pelos meios de comunicação 
e marketing convencionais. É a geração da 
MTV, do Nirvana, das Tartarugas Ninjas. 
 
Preferem um estilo de vida que lhes dê 
status, dinheiro e poder. 
 
Do ponto de vista social, alguns 
acontecimentos marcaram essa geração, 
entre eles o aparecimento da AIDS, em 1981. 
Essa doença provocou um posicionamento 
ideológico de dimensões muito relevantes, 
provavelmente nunca associado a uma 
enfermidade, tendo assim grande influência 
na mudança de pautas de comportamento 
da geração seguinte. 
 
Diante de tal panorama de incerteza e 
sensação de mudança, não é de estranhar que, 
ao ir ao cinema, esses jovens tenham assistido 
a Blade Runner (1982), um dos maiores 
expoentes do movimento cultural conhecido 
como cyberpunk. A atual geração Y 
possivelmente desconhece que as origens 
ideológicas de alguns de seus ícones culturais, 
como Matrix, venha diretamente dessa visão 
apocalíptica e obscura, própria da evolução do 
movimento punk. 
 
Entre as principais características 
dos indivíduos da geração X, encontramos: 
 Busca da renda mais consolidada. 
 Maturidade e escolha de produtos 
de qualidade. 
 Busca por seus direitos. 
 Respeito à família menor que o de 
outras gerações. 
 Procura de liberdade. 
 
03 - Geração Y – nascidos entre 1981 e 
1995 
 
A Geração Y, ao contrário do que 
muitos pensam, não se refere exatamente a 
uma legião de adolescentes, mas sim a uma 
"determinada" geração, nascida entre os anos 
1980 e 1990. São os filhos da Geração X e 
netos dos Baby Boomers. 
 
Quem são os integrantes da geração Y? 
 
 Nascidos na década de 1980 e 90. 
 Entrando no mercado de trabalho, 
os mais velhos chegando aos 25 anos.Propósito: 
 Satisfação imediata de seus anseios 
e sonhos e uma vida com significado. 
 
Como é uma geração relativamente 
nova, ainda não há uma conceituação clara das 
características desta geração, a não ser pelo 
fato que nasceram em um mundo que estava 
se transformando em uma grande rede global. 
A Internet, e-mails, redes de 
relacionamento, recursos digitais, fizeram 
com que a geração Y fizesse milhares de 
amigos ao redor do mundo, sem ao menos 
terem saído da frente de seus computadores. 
 
Não há acordo entre os estudiosos a 
respeito da data exata de início e fim desta 
geração. Alguns voltam alguns anos e 
ultrapassam os anos 70. Outros dizem que a 
geração Y se manteve até 2010. O que há em 
comum, no entanto são os novos hábitos 
voltados à comunicação e obtenção da 
informação instantânea. 
 
Também são chamados de Millennials 
por serem a geração da mudança do milênio. A 
definição foi criada pelo Advertising Age. 
Uma revista de publicidade e propaganda 
norte-americana, que definiu, em 1993, os 
hábitos de consumo dos adolescentes da época. 
Como eram filhos dos integrantes da Geração 
X, se achou óbvio, que esta nova geração fosse 
chamada pela próxima letra do Alfabeto. 
 
Histórico Familiar 
 Filhos de pais dedicados à carreira; 
 Pais “culpados” pela pouca 
dedicação à família; 
93 
 
 Pais com o pensamento: “Quero 
propiciar para o meu filho o que eu 
não tive”; 
 Filhos cuidados, nutridos e 
programados para inúmeras 
atividades desde muito cedo; 
 Pouca hierarquia entre pais e 
filhos; 
 Injeções de autoconfiança 
 
Contexto Mundial: 
 Fast-food: tudo rápido e ao alcance 
 globalização 
 Não existe distância 
 Revolução tecnológica 
 
Entre as principais características 
dos indivíduos da Geração Y, encontramos: 
 Estão sempre conectados; 
 São divertidos, empolgados e 
gostam de desafios; 
 Procuram informação fácil e 
imediata; 
 Preferem computadores a livros; 
 Preferem e-mails a cartas; 
 Digitam ao invés de escrever; 
 Vivem em redes de relacionamento 
(principalmente Facebook); 
 Compartilham tudo o que é seu: 
dados, fotos, hábitos; 
 Eles querem empregos que 
combinam seu estilo de vida e suas 
necessidades; 
 Eles não separam a vida pessoal do 
trabalho, ou seja, para eles a vida é 
uma só; 
 Estão sempre em busca de novas 
tecnologias. 
 
Em síntese, as características da Geração Y 
 
a) Preparados para superar desafios; 
 Vencedores; 
 Responsáveis; 
 Valorizam a empregabilidade e não 
a fidelidade. 
 
b) Esperançosos: 
 Otimistas; 
 Acreditam no futuro e no seu papel 
nele; 
 Local de trabalho desafiante e 
agradável; 
 Colaborativos e sociáveis; 
 Criativos e inovadores; 
 Divertidos. 
 
c) Orientados para metas e realizações: 
 Traçam metas ousadas, altas 
expectativas; 
 Foco e multitarefas; 
 Aprendem rapidamente; 
 Dispostos a correr riscos; iniciativa; 
 Têm pressa de construir a carreira; 
 Lidam muito bem com as mudanças; 
 Compromisso com atingimento de 
objetivos. 
 
d) Consciência cidadã: 
 Pensam no bem maior; ambiente 
sustentável; 
 Engajados em questões de 
responsabilidade social; 
 Transparência; 
 Idealistas; 
 Equilíbrio entre trabalho e vida 
pessoal como obrigação. 
 
e) Inclusivos: 
 Trabalho em equipe; 
 Poder coletivo; 
 Justiça no ambiente de trabalho; 
 Diversidade é norma; 
 Não têm protocolos de hierarquia 
 
 
04 - Geração Z 
 
Formada por indivíduos 
constantemente conectados através de 
dispositivos portáteis e, preocupados com o 
meio ambiente, a Geração Z não tem uma data 
definida. Pode ser integrante ou parte da 
Geração Y, já que a maioria dos autores 
posiciona o nascimento das pessoas da 
Geração Z entre 1990 e 2009. 
 
Quem é a geração Y – Pilar Garcia 
Lombardia 
 
Pela primeira vez na história do 
mercado de trabalho, as organizações estão 
acolhendo pessoas cujas idades cobrem um 
espectro de mais de 40 anos. Essa tendência 
vai aumentar na próxima década, devido ao 
94 
 
necessário prolongamento dos anos de trabalho 
motivado pela escassez de profissionais. 
 É necessário identificar um conjunto 
de vivências históricas compartilhadas – 
obviamente, de caráter macrossocial – que 
determina alguns princípios de visão de vida, 
contexto e, certamente, valores comuns. Sob 
essa lógica, podemos afirmar que estamos em 
um momento em que quatro gerações 
trabalham e convivem nas empresas, cada uma 
com aspirações e contratos psicológicos 
diferentes com o empregador. 
 
Geração Y 
 
A nova geração abrange os nascidos 
nos anos 1980 e 90. Os mais velhos estão 
chegando aos 25; os mais jovens acabam de 
sair da adolescência. É a geração dos Power 
Rangers e da internet, da variedade, das 
tecnologias que mudam contínua e 
vertiginosamente. 
Os membros dessa geração são 
considerados independentes, autossuficientes, 
honestos, empreendedores e seguros em 
relação ao que sabem e ao que querem. São 
vistos como profundos conhecedores da 
tecnologia e a utilizam como principal aliada 
no processo de aprendizagem e obtenção de 
informação 
A geração Y só conhece a 
democracia. Não deixam de se surpreender 
com o fato de que a geração anterior tenha 
sobrevivido sob a tirania de poucas redes de 
televisão, sob controle governamental estrito, 
e com telefones pregados na parede. 
Na geração Y não ocorreu uma 
ruptura social evidente; não houve 
Woodstock nem maio de 1968. Os Y são 
silenciosos e contundentes, parecem saber 
exatamente o que querem. Eles não 
reivindicam: executam a partir de suas 
decisões, dos blogs e dos SMS. Não 
polemizam nem pedem autorização: agem. 
Enquanto os X enfrentam o mundo profissional 
com relativo ceticismo, os Y adotam uma visão 
mais esperançosa. Seu alto nível de formação 
os torna mais decididos. Sua atitude diante da 
hierarquia é cortês, mas não de estrito respeito 
ou amor/ódio, como a das gerações anteriores. 
 
A integração dos Y às empresas está 
sendo especialmente complicada. Suas 
expectativas são novas e eles se consideram 
“a geração excluída”. Chegaram ao mundo em 
clima de mudança, transformação e certo 
desassossego político. 
 
Esses jovens, além de ver televisão, 
começaram a dar seus primeiros passos com os 
computadores de seus pais ou irmãos: a 
tecnologia nunca vai ser um problema para 
eles. Cerca de 91,6% dos que têm entre 16 e 24 
anos são usuários da internet, porcentagem que 
cai para 63,4% no caso das pessoas entre 35 e 
44 anos. Já se acostumaram ao bombardeio de 
imagens, à informação imediata e visual, à 
realidade em 3D. Não desenvolveram a 
paciência e a laboriosidade, e sim o “já” e o 
“agora”. Não aprenderam a desfrutar um livro, 
uma vez que podem obter a mesma informação 
em minutos, com um clique. É uma geração de 
resultados, não de processos. 
 
Outra diferença importante: se as 
gerações anteriores se caracterizavam por 
receber as mensagens, as modas, a música de 
modo uniforme, a Y, ao contrário, destaca-se 
pela diversidade. Não que a geração Y não 
tenha nenhuma tribo ou subgrupo. Ela tem, 
sim. É a elite urbana, que, de alguma forma, 
cristaliza seus valores e estilos de vida: são os 
CBP (cosmopolitan business people, ou 
pessoas de negócios cosmopolitas). A 
globalização está criando um coletivo social 
transversal, situado em todo o mundo (ou 
quase todo), com traços homogêneos, 
independentemente da origem cultural, racialou geográfica. 
 
Características comuns diferenciam 
essa tribo de outros coletivos. Entre as mais 
significativas estão: 
 Costumam conhecer vários 
idiomas. Concretamente, seu inglês é fluente, 
mesmo não sendo sua língua materna. 
 Seu nível de educação é alto. Têm 
pós-graduação (MBA ou mestrado) ou 
especialização em alguma instituição de ensino 
superior de prestígio. 
 São solteiros ou casados com poucos 
filhos. Às vezes, o casal também é um CBP. 
Suas famílias tendem à instabilidade. 
 A rede de amizades e conhecidos 
está distribuída por todo o mundo ou em 
região ampla. Raça, nacionalidade e religião 
são secundárias. Os laços profissionais ou de 
gostos pessoais é que contam. 
95 
 
 No mercado de trabalho, possuem 
experiências multinacionais. 
 Têm gostos variados, em que 
sobressaem os esportes, as artes, a leitura e, 
sobretudo, as viagens. 
 O manejo das novas tecnologias é 
inerente a seu cotidiano - tanto profissional 
como pessoal. 
 Buscam carreiras brilhantes, altos 
salários 
 
MOTIVAÇÕES E VALORES 
 
É bom lembrar que os conceitos de 
motivação e valores pertencem à geração X 
e até mesmo à anterior, ou seja, foram 
concebidos por gerações que trocaram uma 
concepção mecanicista do trabalho por uma 
mais aberta, na qual o trabalho não é só uma 
forma de sobreviver economicamente, mas 
fonte de satisfação e desenvolvimento pessoal. 
É possível, portanto, que esses termos não se 
apliquem à geração Y. 
Por sua vez, o cenário de trabalho de 
hoje é especialmente complexo, por conta de 
alguns fenômenos: 
 
 A idade de aposentadoria 
aumentou. Ao mesmo tempo, as empresas não 
valorizam os profissionais mais velhos. 
 Faltam profissionais em vários 
setores. 
 Um fator de diversidade é acrescido 
com a imigração e a crescente incorporação 
das mulheres nas empresas. 
 Em muitas organizações, as horas de 
trabalho e a pressão são muito altas, o que 
dificulta a conciliação entre vida profissional 
e pessoal. 
 Os trabalhadores têm mantido ou 
reduzido seu poder aquisitivo; os benefícios 
empresariais e os salários da alta direção, 
porém, aumentaram extraordinariamente. 
 
Devido ao ambiente em que 
cresceram, os Y são pessoas com iniciativa e 
grande capacidade de resolver problemas, e 
seu estado mental diante das opções e desafios 
costuma ser: “Por que não?”. Desenvolvem-se 
bem em espaços criativos, nos quais suas 
iniciativas possam render frutos e seus esforços 
individuais por conquistar objetivos sejam 
reconhecidos. Os jovens dessa geração são 
mais individualistas que os das anteriores e 
reivindicam a autonomia em suas opiniões e 
atuações, situando seu âmbito pessoal acima 
das considerações de ordem laboral ou social. 
 
Os Y parecem não se importar muito 
com uma questão-chave para as gerações 
anteriores: a promoção. A rotação não os 
assusta (a situação do mercado lhes permite 
isso) e, apesar de se motivarem a escalar 
posições, não é tanto pelo que estas 
representam em poder, mas porque implicam 
reconhecimento e maior possibilidade de 
colocar em marcha suas iniciativas. Por isso, 
podem rechaçar promoções que resultem em 
perda da qualidade de vida. 
 
Os integrantes da geração Y têm um 
acesso à informação que nunca existiu. Isso é 
tão importante que provocou uma verdadeira 
mudança de paradigma no consumo. Quando 
um Y vai comprar um celular, por exemplo, é 
possível que saiba mais de suas características 
técnicas que o próprio vendedor. E também 
terá consultado todos os blogs e fóruns para 
saber a opinião de outros consumidores. O fato 
é que esse jovem terá a mesma atitude quando 
comparecer a uma entrevista de emprego. Sabe 
o que quer, conhece o setor e a empresa, leu 
notícias a respeito dela. Além disso, a 
facilidade com que o candidato pode ter acesso 
à informação sobre o mercado de trabalho 
faz com que se abram diante dele muitas e 
diversas alternativas, e ele pulará de uma para 
outra se as respostas não o convencerem. 
No entanto, podemos nos aventurar a 
algumas conclusões: 
 São filhos de seu tempo, pós-
modernos. Estão imersos em preocupações 
ecológicas e se interessam pelos problemas 
sociais, sobre os quais estão sempre 
informados. 
 Como são geralmente jovens, 
mostram-se abertos a novas correntes 
ideológicas e são sensíveis à injustiça. 
Aqui há uma grande pergunta para 
fazer: a formação que recebem das instituições 
de ensino e as experiências de trabalho os 
levarão a pender para um lado ou para o outro, 
ou seja, eles vão exacerbar o peso do valor 
econômico em sua vida ou integrá-lo a um 
contexto moral e social mais amplo? 
 
Diante disso, três aspectos parecem 
ser fundamentais para gerenciar esses jovens: 
96 
 
 
 Um clima cosmopolita que os 
atraia, geralmente cidades populosas, em que 
possam usar o inglês como meio comum de 
expressão, com acesso às artes, ao lazer e aos 
esportes, além de instituições de ensino de 
prestígio. 
 Expectativas de carreira tão 
motivadoras quanto a remuneração, assim 
como um tipo de trabalho igualmente 
motivador, que ofereça desafios constantes. 
 Garantia de autonomia 
profissional. As tarefas lhes devem ser 
delegadas e eles precisam ter poder para 
trabalhar. Os Y costumam se dar muito bem 
em equipe. 
 
CONSELHOS PARA ATRAIR, RETER E 
GERENCIAR COLABORADORES Y 
 
O que os atrai? 
 Seus critérios de decisão entre 
diferentes ofertas de emprego são: 
estabilidade, equilíbrio entre vida 
profissional e pessoal e nível salarial 
adequado. 
 Valorizam e representam a 
diversidade. 
 Tendem a pensar no curto prazo. 
(Lembre-se de que, como têm amplo acesso à 
informação, possivelmente têm várias 
alternativas a escolher). 
 
O que esperam como remuneração? 
Para eles, remuneração está 
relacionada com resultados. Geralmente têm 
expectativas de alta remuneração, para 
manter elevado padrão de vida. 
 
O que os reterá? 
 Consideram fundamentais a 
responsabilidade individual e a liberdade para 
tomar decisões. 
 Crêem mais na co-decisão do que na 
hierarquia. 
 Pedem flexibilidade de tempo e 
espaço para manter sua esfera privada. 
 Querem que seu estilo de vida e sua 
forma de enfocar o trabalho sejam respeitados. 
 Não é fácil despertar neles um 
sentido de fidelidade à empresa “para a vida 
toda”. 
 
O que oferecem às empresas? 
 Alto nível de formação. 
 Iniciativa e criatividade. 
 Resultados. 
 
ALGUNS ASPECTOS PARA REFLEXÃO 
 
A convivência de diversas gerações 
no mercado de trabalho, como hoje está 
acontecendo, implica, de saída, a necessidade 
de incorporar a inovação, a criatividade e a 
flexibilidade nas tarefas próprias da gestão 
de pessoas. Se a situação já não fosse 
complexa em si, uma análise mais profunda 
exigiria ter em conta outras variáveis que 
também afetam a questão. 
As mulheres da geração X, que em 
grande medida entraram de forma maciça no 
mercado de trabalho e de modo relevante 
(mas não maciço) ocuparam postos de 
direção, fizeram-no sem modelos, na maioria 
dos casos. Essas profissionais abriram 
caminho, mas seguramente tiveram de pagar 
um preço alto, dedicando-se menos à família. 
As mulheres da geração Y provavelmente 
vão rechaçar esse modelo, e agora se fala de 
conciliação de agendas, igualdade e 
flexibilidade. Serão capazes de construir um 
novo modelo que concilie vida profissional e 
pessoal? 
E as grandes perguntas: que traços 
marcarão os integrantes da geração seguinte? 
O que vão aprender a partirda variedade de 
modelos, atitudes e comportamentos que 
compõem o meio sociocultural em que estão 
crescendo? Como a geração Y vai reagir se a – 
vamos chamá-la assim – geração Z desbancá-
la antes do tempo, como ela fez com a geração 
X? 
 
 
Pirâmide da Motivação Geração Y 
 
1. SIGNIFICADO 
2. RESPONSABILIDADE 
3. O AMBIENTE DE TRABALHO 
4. ENVOLVIMENTO NO TRABALHO 
5. O SIGNIFICADO DA 
REMUNERAÇÃO 
6. ACOMPANHAMENTO E 
RECONHECIMENTO 
7. RELAÇÃO COM NORMAS, REGRAS 
E SUBORDINAÇÃO FUNCIONAL 
 
1. Significado 
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 Tudo tem um porquê; dá sentido 
para tudo o que faz; 
 Pouco treino com processos 
cognitivos. Não são leitores de obras 
literárias mais densas; 
 Não são adeptos da instrução formal. 
Empresas e Gestores: 
 Liderança deverá dar 
direcionamento, clareza de objetivos; 
 Liderança deve ajudá-los a serem 
daqui a 10 anos homens mais plenos, 
complexos, profundos e maduros. 
Muitas empresas estão instituindo o 
papel de mentores/tutores; 
 Invista em desenvolvimento e 
capacitação. Mas se esforce para que 
os conhecimentos adquiridos sejam 
aplicados; 
 Crie comunidades de aprendizagem, 
blogs internos de liderança, programas 
via satélite, videoconferência, 
Podcasts, etc; 
 Edutainment (educação com 
entretenimento); 
 Utilize o trabalho em equipe e 
tecnologia (Wikipédia, Google, 
publicações on line, multitarefas, 
ipods). 
 
2. Responsabilidade 
 Responsável com aquilo que lhe é 
atribuído; 
 A empresa não é o único foco dele, 
responsabiliza-se por tudo que tem 
significado para ele. 
Empresas e Gestores: 
 Ofereça horário flexível, 
oportunidade de trabalhar em casa; 
 Reveja políticas de concessão de 
férias e licenças por períodos 
prolongados; 
 A Xerox já está usando um slogan 
“auto expressão” para descrever o perfil dos 
candidatos que busca. E são incentivados a 
proporem mudanças e novas soluções; 
 Invista em programas de 
voluntariado. 
 
3. O ambiente de trabalho 
 Alegre, descontraído, espírito leve; 
 Não importa com hierarquia; 
 O sobrenome corporativo não exerce 
fascínio sobre eles; 
 Trabalhar com pessoas com as quais 
se identificam; 
 Aparência informal. 
Empresas e Gestores: 
 Diversão, humor e até uma pitada de 
tolice; 
 Irreverência tornará o ambiente mais 
atrativo; 
 Forneça várias oportunidades às 
equipes; 
 Algumas empresas já estão 
contratando grupos de amigos; 
 Seja criativo para celebrar, happy-
hour, confraternizações; 
 Não descuide da comunicação. 
 
4. Envolvimento no trabalho 
 Não tem paciência para coisas 
longas e demoradas; 
 Quer tentar coisas novas; “Respeite 
as nossas ideias”; 
 Necessidade de arriscar-se; 
 Não tem problemas em falhar, em 
recomeçar, aprender com os erros; 
 Fiel a seus projetos e não à empresa. 
 Empresas e Gestores 
 Empresas estão indo antes às 
universidades; 
 Estimulem-os a resolver problemas 
complexos; 
 Quebrem os planos e programas das 
empresas em projetos; 
 Dê direcionamento e acompanhe; 
 Coloquem-os em mais de um 
projeto; 
 Liberdade para EXPERIMENTAR; 
 Utilize o erro como processo de 
aprendizagem; 
 Nos programas de estágios e 
trainees diversifique ainda mais as áreas para 
que eles sejam mais expostos e tenham mais 
desafios; 
 Projetos fora do país de origem 
“chance de conhecer outros países”. 
 
5. O significado da remuneração 
 Gratificação instantânea: não lida 
bem com promessas futuras; 
 Gosta de “ganhar” premiações, 
viagens, promoções; 
 Preocupa-se com benefícios e 
Previdência Privada; 
 Recompensa x competência; 
98 
 
 Ele não está disposto a esperar muito 
tempo para uma promoção: planejamento de 
carreira mais transparente. 
 Empresas e gestores 
 Reveja políticas de bônus anuais e 
semestrais; 
 Una aprendizado com fazer 
dinheiro; 
 Implemente programas de 
incentivos mensais com prêmios, viagens, etc.; 
 Na Microsoft os funcionários agora 
revisam metas de carreira duas vezes ao ano 
com o superior imediato; 
 A GE passou a oferecer progressão 
salarial aos participantes de seu programa de 
trainee; 
 Pense num cardápio de benefícios e 
deixem que façam opções. 
 
6. Acompanhamento e reconhecimento 
 Demanda muito feedback; 
 Gosta de autonomia; 
 Movido a elogios; Adora ser 
reconhecido; 
 Ambicioso. 
Empresas e Gestores: 
 Implante cultura do feedback 
imediato e avaliação 360 on-line; 
 Não avalie aparência e gostos 
pessoais; 
 Invista tempo em reconhecimento; 
 Liderança forte que seja exemplo, 
propõe metas, apoie, inspire, acompanhe e 
avalie continuamente; 
 Proporcione reconhecimento e não 
necessariamente um cargo; 
 O salário é importante, mas o 
reconhecimento é vital para permanência 
deles. 
 
7. Relação com normas, regras e 
subordinação funcional 
 Insubordinados; 
 Ele se subordina a vínculos e não a 
cargos; 
 Não se adapta a regras muito rígidas; 
 Critério de julgamento é a 
consciência e não a obediência; 
 Informal; questionador; 
independente; 
 Respeita e gosta de ser respeitado; 
 Abordam com informalidade até o 
presidente da empresa. 
Empresas e Gestores: 
 Não o engesse com normas e regras 
“bobas”, principalmente com aquelas rígidas e 
exageradamente formais; 
 Sentirá melhor em ambientes mais 
informais; 
 Algumas empresas estão treinando 
lideranças para lidarem com eles; 
 Sejam flexíveis, adote 
procedimentos mais informais com relação à 
aparência; 
 Sem perder a essência, revisite 
práticas e comportamentos. 
 
 
8º texto: Ecologia e biodiversidade 
 
I – Movimento ecológico e políticas públicas 
 
 Modelo de desenvolvimento que tem por 
base a sociedade de consumo 
 
 Os problemas ambientais causados 
pelo homem, em seu processo de construção e 
reconstrução de espaços geográficos, não são 
somente de ordem ecológica, mas 
fundamentalmente política, econômica e 
cultural. 
 
 Eles decorrem sobretudo do modo 
como as sociedades se apropriam da natureza e 
usam, destinam e transformam os recursos 
naturais. É uma questão de ordem política, 
econômica e cultural porque o homem age na 
natureza segundo os padrões ou costumes – 
políticos, econômicos e culturais – criados por 
ele mesmo, ou seja, segundo o tipo de 
civilização ou sociedade que construiu. Assim 
sendo, a degradação do meio ambiente está 
intimamente relacionada ao modelo de 
desenvolvimento econômico adotado ou ao 
próprio sistema capitalista, que encontra sua 
base de sustentação no processo de produção e 
fazer consumir mais para continuar a produzir 
mais. 
 
 Dessa forma, vivemos sob um modelo 
de desenvolvimento calcado no consumo, ou 
melhor, na sociedade de consumo. Nesse tipo 
de sociedade, os valores sociais estão, de um 
modo geral, apoiados na ideia de que o sucesso 
do ser humano é medido pelo que ele consome 
de bens e serviços. 
 
99 
 
 O aspecto econômico foi divinizado, 
na sociedade de consumo, passando a ocupar o 
centro do sistema de valores. Atrelados a ele 
estão os demais valores sociais e a própria 
prática política, de modo que, se falta ética na 
economia, não existirá ética na política e nos 
valores. E aqui podemos incluir as relações 
homem-natureza ou homem-meio ambiente 
como sendo, por conseguinte, relações 
desprovidas de ética, na medida em que o 
homem vem destruindo ou deteriorando a 
natureza e o meio ambiente sem se importar 
com as gerações futuras. 
 
 O modelo de desenvolvimento 
vigente necessita cada vez mais de recursos

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