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CENTRO UNIVERSITÁRIO DE PATOS DE MINAS - UNIPAM
CURSO –
ANO LETIVO PERÍODO CARGA HORÁRIA SEMANAL
2016 1º 4 h/a
Identificação da Disciplina: CULTURA E SOCIEDADE
Professor: Carlos Roberto Silva
Ementa
Estudo de temas clássicos e contemporâneos essenciais para o entendimento da configuração do mundo
atual nas perspectivas histórica, antropológica, sociológica e filosófica. Conhecimento dos aspectos
caracterizadores da formação étnico-racial e cultural da sociedade brasileira.
Objetivos gerais
Desenvolver a capacidade de reflexão crítica por meio da discussão e da análise dos principais temas
relacionados às áreas do saber histórico, filosófico, antropológico e sociológico.
Objetivos específicos
- Compreender o processo de constituição da cultura ocidental a partir das matrizes da antiguidade
clássica greco-romana.
- Analisar a geopolítica contemporânea, a partir das relações do Brasil com o mercado internacional.
- Reconhecer aspectos relevantes da cultura contemporânea para a formação profissional.
- Estimular a leitura, a interpretação e a produção de textos relacionados às áreas do conhecimento
humanístico.
- Estabelecer relações, comparações e contrastes em diferentes situações.
- Compreender os aspectos caracterizadores da formação étnico-racial e cultural brasileira.
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Conteúdos do plano de ensino
1 Trabalho, mercado e responsabilidade social
1.1 Educação e Sociedade do Conhecimento na pós-modernidade PAG. 05
1.2 Relações de trabalho e o perfil do profissional no século XXI
1.3 Empreendedorismo e inovação
1.4 Responsabilidade social: setor público, privado e terceiro setor
2 O homem e a cultura PAG. 22
3.1 O homem: ser biológico e cultural
3.2 A cultura: definições, cultura popular e cultura erudita
3.3 Multiculturalismo, relações étnico-raciais, história e cultura afro-brasileira e indígena
3.4 Indústria Cultural
3 O conhecimento em seus diversos aspectos PAG. 35
3.1 Tipos de conhecimento (religioso, popular, filosófico e científico)
3.2 Senso comum x conhecimento científico
3.3 Ciências exatas / ciências humanas
3.4 Método científico
4 Ética e Ideologia PAG. 41
4.1 Moral e ética
4.2 Ética geral e profissional
4.3 Democracia, ética e cidadania
4.4 Ideologia
5 Meios de comunicação de massa, tecnologia e novas mídias PAG. 55
5.1 Os meios de comunicação de massa e suas características
5.2 As velhas e novas mídias
5.3 Comunicação e tecnologia de informação
5.4 Mídia e sociedade de consumo
6 Reestruturação Produtiva e geopolítica PAG. 69
6.1 Reestruturação produtiva e toyotismo
6.2 Globalização e Neoliberalismo
6.3 A globalização e a crise financeira mundial
6.4 Reflexos político-institucionais, econômicos e sociais da globalização no Brasil
7 Geração Y PAG. 88
7.1 Novas tecnologias e a nova geração de trabalhadores do conhecimento (Y)
7.2 Contexto histórico do nascimento das gerações Baby Boomers, X, Y e Z
7.3 O que a Geração Y quer e precisa no trabalho
7.4 Estratégias e programas para gerenciar a geração Y
8 Ecologia e Biodiversidade PAG. 95
8.1 Natureza e sociedade como espaço de cidadania
8.2 O movimento ecológico e políticas públicas
8.3 Desenvolvimento, sustentabilidade social e ambiental
8.4 Catástrofes ambientais e sociedade
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9 Relações sociais de gênero PAG. 107
9.1 Configurações de gênero na sociedade atual
9.2 Machismo e sexismo
9.3 Feminismo
9.4 Desigualdade e discriminação da mulher na cultura e na sociedade brasileira.
10 Violência urbana e rural PAG. 117
10.1 Origens da violência
10.2 Discurso midiático e a violência
10.3 Políticas públicas e violência
10.4 Movimentos Sociais
Atividades práticas supervisionadas
Os discentes farão leituras de ensaios científicos e artigos de revistas selecionados pelo
professor e assistirão a filmes, cuja abordagem se refira à disciplina, com a finalidade de
reconhecer, interpretar e analisar os apontamentos teóricos analisados nas aulas. Além disso,
serão realizados trabalhos e exercícios.
Metodologia
Pretende-se, mediante fundamentação teórica e recortes da realidade, compreender e criticar as
transformações engendradas pelo homem na sociedade. As aulas serão desenvolvidas sob a
forma de exposições dialogadas, seminários, análises de textos e filmes.
Recursos didáticos
Quadro, datashow, filmes e livros e textos das obras indicadas na referência bibliográfica.
Avaliação
Durante o semestre letivo, a nota do discente na disciplina será composta pelos seguintes
indicadores avaliativos:
a) Quarenta pontos distribuídos pelo docente da disciplina, em exercícios, trabalhos e provas.
b)Vinte pontos distribuídos no Projeto Integrador.
c) Vinte pontos da Avaliação Colegiada.
d) Vinte pontos da Avaliação Integradora (AVIN)
Considerar-se-ão dois critérios, que não se excluem, para a aprovação na disciplina, a saber:
a) Mínimo de sessenta pontos de aproveitamento, conforme nota global da disciplina.
b) Mínimo de setenta e cinco por cento de frequência na disciplina.
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Referência bibliográfica básica
ARON, R. As etapas do pensamento sociológico. 7. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2008.
BRASIL. Ministério da Educação e Cultura. Lei nº 11.465, de março de 2008. Altera a Lei nº
9.394, de 20 de dezembro de 1996, modificada pela Lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003, ...
a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena”. Brasília:
SEPPIR/SECAD/INEP, 2005. Disponível em: <
http://www.iteral.al.gov.br/legislacao/http___www.iteral.al.gov.br_legsilacao_Lei-2011.465_-
20de-202008.pdf/view>. Acesso em: 18 jul. 2014.
CHAUÍ, M. Convite à filosofia. 14. ed. São Paulo: Ática, 2011.
LARAIA, R. de B. Cultura: um conceito antropológico. 24. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2009.
Referência bibliográfica complementar
ANTUNES, Ricardo. Os sentidos do trabalho: ensaio sobre a afirmação e a negação do
trabalho. 5. ed. São Paulo: Boitempo, 2009.
ARANHA, M. L. de A. Filosofando: introdução à filosofia. 4. ed. São Paulo: Moderna, 2009.
BRASIL. Ministério da Educação e Cultura. Diretrizes Curriculares Nacionais para a
Educação das Relações Étnico-Raciais e para o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira
e Africana. Brasília: SEPPIR/SECAD/INEP, 2005. Disponível em:
<http://www.sinpro.org.br/arquivos/afro/diretrizes_relacoes_etnico-raciais.pdf>. Acesso em:
14 jul. 2014.
BRASIL. Lei nº 10.639, de 09 de janeiro de 2003. Altera a Lei no 9.394, de 20 de dezembro de
1996. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil. Brasília, DF, 09 jan. 2003.
Disponível em:<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/l10.639.htm>. Acesso em: 14
jul. 2014.
CARVALHO, J. Murilo de. Cidadania no Brasil: o longo caminho. 14. ed. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 2011.
COLEÇÃO. Os Pensadores. 5. ed. São Paulo: Nova Cultura, 1991.
DE MASI, Domenico. A sociedade pós-industrial. 4. ed. São Paulo: Senac, 2003.
NILO, Odália. O que é violência. São Paulo: Brasiliense, 1983.
SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal.
22. ed. Rio de Janeiro: Record, 2012.
VALLS, A. L. O que é ética. 9. ed. São Paulo: Brasiliense, 1994.
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CULTURA E SOCIEDADE – textos
adaptados
1º texto: Trabalho, mercado e
responsabilidade social
Trabalho: Atividade Humana
O que é o trabalho? Como podemosdefinir essa atividade? O trabalho, segundo o
pensador Karl Marx, coloca frente a frente o
homem e a natureza, ou seja, o trabalho é uma
atividade que medeia à relação homem e
natureza por ser uma prática que aproxima um
do outro, provocando transformações materiais
e espirituais.
O trabalho para além da transformação
da natureza, esse algo é o planejamento, a pré-
ideação, em outras palavras, o ser humano
constrói seu objeto - tendo por base o mundo
material - primeiro na sua mente, isto é, cria a
ideia do objeto, planeja como construí-lo e
depois materializa sua ideia, executa a
atividade prática-transformadora da natureza
com consciência.
Essa atividade laboral também
transforma o próprio ser que trabalha, em
outros termos, essa atividade transforma a
natureza e, ao mesmo tempo, transforma o
homem, ou melhor, quando o homem produz
objetos ele se autoproduz.
História do Trabalho
A concepção de trabalho sempre
esteve ligada a uma perspectiva negativa. A
palavra “trabalho” deriva etimologicamente do
vocabulário latino tripaliare do substantivo
tripalium, aparelho de tortura formado por três
paus, ao qual eram atados os condenados e que
também servia para manter presos os animais
difíceis de ferrar. Daí a associação do trabalho
com tortura, sofrimento, pena, labuta.
Na Antiguidade grega, o trabalho
manual é desvalorizado por ser feito por
escravos, enquanto as pessoas da elite,
desobrigadas de se ocuparem com a própria
subsistência, dedicam-se ao “ócio digno”, que,
para os gregos, significa a disponibilidade de
gozar do tempo livre e cultivar o corpo e o
espírito. Não por acaso, a palavra grega scholé,
da qual deriva “escola”, significava
inicialmente “ócio”. Para Platão, por exemplo,
a finalidade das pessoas livres é justamente a
“contemplação das ideias”, na medida em que
a atividade teórica é considerada mais digna,
por representar a essência fundamental de todo
ser racional.
Também a Roma escravagista
desvaloriza o trabalho manual. É significativo
o fato de a palavra negotium indicar a negação
do ócio: a ênfase posta no trabalho como
“ausência de lazer” o distingue do ócio,
prerrogativa das pessoas livres.
Na Idade Média, Santo Tomás de
Aquino procura reabilitar o trabalho manual,
dizendo que todos os trabalhos se equivalem,
mas, na verdade, a própria construção teórica
de seu pensamento calcada na tradição grega,
tende a valorizar a atividade contemplativa.
Muitos textos medievais consideram a ars
mechanica (arte mecânica ou trabalho
mecânico) uma ars inferior.
Na Idade Moderna, a situação
começa a se alterar: o crescente interesse pelo
trabalho justifica-se pela ascensão dos
burgueses, vindos de segmentos de antigos
servos, acostumados ao trabalho manual, que
compram sua liberdade e dedicam-se ao
comércio.
A burguesia nascente procura novos
mercados, estimulando as navegações. No
século XV os grandes empreendimentos
marítimos culminam com a descoberta de
outro caminho para as Índias e das terras do
Novo Mundo. O interesse prático em dominar
o tempo e o espaço faz com que sejam
aprimorados os relógios e a bússola. Com o
aperfeiçoamento da tinta e do papel e a
descoberta dos tipos móveis, Gutenberg
inventa a imprensa. Todas essas mudanças
indicam a expectativa com relação a novas
formas do agir e do pensar humanos, às quais
se acrescentam, no século seguinte, s
revoluções do comércio e da ciência.
Como se vê, está ocorrendo uma
mudança de enfoque na relação entre o pensar
e o fazer. Enquanto na Idade Média uma
hierarquia privilegia o saber contemplativo em
detrimento da prática, no Renascimento e na
Idade Moderna dá-se a valorização da técnica,
da experimentação, do conhecimento
alcançado por meio da prática.
Nascimento das fábricas
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Na passagem do feudalismo para o
capitalismo, ocorrem marcantes
transformações na vida social e econômica,
como o aperfeiçoamento das técnicas e a
ampliação dos mercados. O capital acumulado
torna possível a compra de matérias-primas e
de máquinas, obrigando muitas famílias, que
desenvolviam o trabalho doméstico nas antigas
corporações e manufaturas, a disporem de seus
instrumentos de trabalho e, para sobreviver, a
venderem sua força de trabalho em troca de
salário.
Com o aumento da produção,
aparecem os primeiros barracões das futuras
fábricas, onde os trabalhadores são submetidos
a uma nova ordem, a da divisão do trabalho
com ritmo e horários preestabelecidos. O fruto
do trabalho deixa de pertencer aos
trabalhadores e a sua produção passa a ser
vendida pelo empresário, que retém os lucros.
Está ocorrendo o nascimento de uma nova
classe: o proletariado.
No século XVIII, a mecanização do
setor da indústria têxtil sofre impulso
extraordinário na Inglaterra, como
aparecimento da máquina a vapor, que
aumenta significativamente a produção de
tecidos. Outros setores se desenvolvem, como
o metalúrgico; também no campo se processa
a revolução agrícola.
No século XIX, o resplendor do
progresso não oculta a questão social,
caracterizada pelo recrudescimento da
exploração do proletariado e das condições
subumanas de vida. A nova classe é submetida
a extensas jornadas de trabalho, de dezesseis a
dezoito horas, sem direito a férias, sem
garantia para velhice, doença e invalidez. As
condições de trabalho nas fábricas são
insalubres, por serem elas escuras e sem
higiene.
Embora todos sejam mal pagos,
crianças e mulheres são arregimentadas como
mão de obra mais barata ainda. Os
trabalhadores moram em alojamentos
inadequados e apertados, nos quais não se
consegue evitar a promiscuidade.
Em decorrência desse estado de coisas,
surgem no século XIX os movimentos
socialistas e anarquistas, que denunciam a
exploração e propõem formas para a
modificação das relações de produção.
Taylorismo e Fordismo
Nos sistemas domésticos de
manufatura, era comum o trabalhador
conhecer todas as etapas da produção, desde o
projeto até a execução. A partir da inauguração
do sistema fabril, no entanto, isso deixa de ser
possível, devido à crescente complexidade da
divisão do trabalho. Chamamos dicotomia
concepção-execução do trabalho ao processo
pelo qual um pequeno grupo de pessoas
concebe, cria, inventa o produto, inclusive a
maneira como vai ser produzido, enquanto
outro grupo é obrigado à simples execução do
trabalho, sempre parcelado, pois a cada um
cabe apenas parte do processo.
Frederick Taylor (1856-1915), no
livro Princípios de administração científica, já
estabelecera os parâmetros do método
científico de racionalização da produção. O
taylorismo visa o aumento de produtividade
com economia de tempo, supressão de gestos
desnecessários no interior do processo
produtivo e utilização máxima da máquina.
A divisão do trabalho foi intensificada
por Henry Ford (1863-1947), que introduziu a
linha de montagem na indústria
automobilística, procedimento que ficou
conhecido como fordismo.
A flexibilização da produção
Com a implantação da tecnologia
avançada da automação, da robótica, da
microeletrônica, surgem novos padrões de
produtividade, a partir das décadas de 1970 e
1980. A tendência nas fábricas é de quebrar a
rigidez do fordismo, caracterizada pela linha
de montagem e produção em série, centrado na
produção em massa. Destaca-se a atuação da
fábrica de automóveis Toyota, no Japão, ao
criar novo método degerenciamento que
passou a ser conhecido como toyotismo.
Essa revolução administrativa
adaptou-se melhor à economia global e ao
sistema produtivo flexível, evitando a
acumulação de estoques ao atender aos pedidos
à medida da demanda, com planejamento a
curto prazo. Privilegia-se agora o trabalho em
equipe, a descentralização da iniciativa, com
maior possibilidade de participação e decisão,
além da necessidade da polivalência de mão de
obra, já que o trabalhador passa a controlar
diversas máquinas ao mesmo tempo.
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Além disso, como a flexibilização
depende da demanda flutuante, algumas tarefas
são encomendadas a empresas “terceiras”
subcontratadas. Essa terceirização atomiza os
empregados, antes unidos nos sindicatos, o que
provocou seu enfraquecimento no final da
década de 1980, repercutindo negativamente
na capacidade de reivindicação de novos
direitos e manutenção das conquistas
realizadas. Os temores mais frequentes dessa
nova geração de trabalhadores da era da
automação são o desemprego e o excesso de
trabalho decorrente do “enxugamento”
realizado pelas empresas em processo de
“racionalização” de atribuição de tarefas.
A sociedade pós-industrial
A partir de meados do século XX,
surge o que chamamos de sociedade pós-
industrial, caracterizada pela ampliação dos
serviços (setor terciário). Isso não significa que
os outros setores tenham perdido importância,
mas que as atividades agrícolas e industriais
também dependem do desenvolvimento de
técnicas de informação e comunicação.
A mudança de enfoque descentraliza a
atenção, antes voltada para a produção
(capitalista versus operário), e orientando-se
agora para a informação e o consumo. A
atividade da maioria dos trabalhadores se
encontra nos escritórios, ampliada por uma
comunicação ágil, instantânea, veiculada em
âmbito mundial pela expansão da Internet.
Desde as décadas de 1980 e 1990,
outra tentativa em direção à ética e à qualidade
de vida está na efetiva ampliação das empresas
do terceiro setor, assim chamadas por não
serem gestadas nem pelo setor governamental
(o Estado) nem pelo mercado econômico, que
visa lucros. Trata-se das organizações não
governamentais (ONGs) que representam uma
forma de atuação privada, mas com funções
públicas e sem fins lucrativos. Tais instituições
ocupam-se de atendimento de causas coletivas
e sobrevivem de doações, que são aplicadas
nas atividades-fim e no pagamento dos
especialistas contratados.
I - Educação e Sociedade do Conhecimento
Inovação no contexto da Sociedade do
Conhecimento
1. Introdução
Na sociedade do conhecimento, o elemento
diferenciador na atividade produtiva é o
próprio conhecimento, sendo que as matérias
primas passam a ter uma conotação
secundária. Nessa sociedade produziram-se
também outras grandes mudanças nos âmbitos
social, econômico e produtivo. Entre elas, a
mudança no modo de comunicação, derivada
do surgimento da internet e das tecnologias de
digitalização de documentos. A comunicação
passa a ser processada de “muitos para
muitos", facilitando a disseminação de
informações e a socialização do conhecimento.
Fortes investimentos em pesquisa e
desenvolvimento feitos pelas organizações e
promovidos geralmente pelos governos dos
países desenvolvidos, e o intercâmbio de
fluxos de informação entre países além de bens
e capitais, entre outros, são fatores
preponderantes nessa nova sociedade.
Todos esses fatores dão suporte e facilitam a
criação de conhecimento, o bem mais
apreciado nesta época. A inovação é vista
como uma vantagem competitiva pelas
organizações e, consequentemente,
investimentos em pesquisa e desenvolvimento
de produtos são realizados, para se criar
conhecimento, o principal insumo do processo
inovativo.
A inovação é entendida no contexto da
sociedade do conhecimento, identificando sua
relação com o conhecimento, as novas
tendências empresariais frente a ela, e os novos
papéis que os governos têm para fomentar esse
processo.
2. A Sociedade do Conhecimento
A sociedade do conhecimento é
compreendida como aquela na qual o
conhecimento é o principal fator estratégico
de riqueza e poder, tanto para as organizações
quanto para os países. Nessa nova sociedade, a
inovação tecnológica ou novo conhecimento,
passa a ser um fator importante para a
produtividade e para o desenvolvimento
econômico dos países.
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A sociedade de conhecimento é então
posterior à sociedade industrial moderna, na
qual matérias primas e o capital eram
considerados como o principal fator de
produção. Essa nova sociedade é
impulsionada também por contínuas
mudanças, algumas tecnológicas como a
Internet e a digitalização, e outras econômico-
sociais como a globalização.
2.1. Características da sociedade do
conhecimento
Quando se observa a sociedade pelo prisma
histórico percebe-se, que do ponto de vista
econômico, pode-se visualizar várias fases tais
como: da sociedade agrícola, na qual a terra e
a mão de obra foram os fatores preponderantes
para determinar o nível de desenvolvimento;
sociedade industrial, na qual o capital e o
trabalho passam a ser forças motrizes do
desenvolvimento econômico e na sociedade
do conhecimento, na qual o conhecimento
passa a ser o fator essencial do processo de
produção, geração de riquezas e
desenvolvimento dos países. O conhecimento
se tornou a principal força produtiva, os
produtos da atividade social não são mais
produtos de trabalho cristalizado, mas de
conhecimento cristalizado. O valor de troca
das mercadorias não é determinado pela
quantidade de trabalho social nelas contidas,
mas pelo conteúdo de conhecimento, de
informações e de inteligências gerais. Assim, o
capital humano passa a fazer parte do capital
da empresa, os trabalhadores pós-fordistas
entram no processo de produção com toda a
sua bagagem cultural.
Assim, entre as principais características da
sociedade do conhecimento, encontram-se as
seguintes:
A - Os produtos são valorados pelo
conhecimento neles embutido. Assim, o
poderio econômico das organizações e dos
países está diretamente relacionado ao fator
conhecimento.
B - A pesquisa científica tornou-se
fundamental para o desenvolvimento dos
países.
C - A criação de conhecimento
organizacional tornou-se um fator estratégico
chave para as organizações, sendo fonte de
inovação e vantagem competitiva.
D - O conhecimento, a comunicação, os
sistemas e usos da linguagem tornaram-se
objetos de pesquisa científica e tecnológica,
sendo o estado um agente estratégico para o
desenvolvimento científico.
E - Os fluxos de informação e conhecimento
entre países são acrescentados aos fluxos de
capital e de bens já existentes, tornando-se uma
economia transnacional.
F - Ocorreu uma mudança no paradigma de
comunicação, a lógica comunicacional de “um
para muitos" foi substituída pela de “muitos
para muitos", impulsionado pelo surgimento
da Internet como meio de disseminação de
informações e pelas novas tecnologias
motivadas pela digitalização de documentos.
O declínio do peso e valor das matérias primas
usadas nos produtos industriais finais, em
favor do aumento em valor e quantidade do
componente do conhecimento é claramente
observado na atualidade, por exemplo, na
indústria automotriz, na qual um automóvel
pode ter um custo de até US$ 300,000,00, não
pela manufatura das suas partes ou amontagem dele, mas pelo conhecimento
envolvido nele, tangível nos sistemas de
computador de última tecnologia que o carro
traz para melhorar o seu o conforto e a sua
segurança.
Outro ponto importante refere-se à mudança
do conceito de obsolescência. Na sociedade
moderna a obsolescência era determinada
pelo fato de que se faziam produtos com menor
vida útil para incrementar a produção. Na
sociedade do conhecimento, a própria
inovação gera a obsolescência, novos
produtos, novas máquinas e novas formas de
produção eliminam os bens antigos, originando
uma rápida substituição de bens finais e das
máquinas utilizadas para a sua produção.
Identifica-se assim, um conjunto de fatos
sociais relacionando-os com a sociedade do
conhecimento, algumas deles também
discutidos por outros autores, embora com
visões distintas. Entre estes fatos indica a
entrada da mulher no mundo do trabalho, a
ampliação da exclusão, o enfraquecimento do
Estado pela globalização. Para alguns autores,
na sociedade do conhecimento, a informação
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sobre ciência e tecnologia é transmitida
imediatamente produzindo uma
democratização do conhecimento. Mattelart
não concorda com essa ideia, alegando que
‘monopólios de informação' são produzidos
pelas desigualdades na velocidade das
comunicações, constituindo ao mesmo tempo
um instrumento e o resultado da dominação
política. Além disso, na experiência atual,
observa-se que mesmo que o conhecimento
possa ser disseminado ou transmitido
facilmente, rapidamente e ainda a baixo custo,
precisa-se de uma base já existente de
conhecimento e experiência por parte das
pessoas, para estas possam estar capacitadas
em receber aquele conhecimento. Nos países
subdesenvolvidos, grande para da população
não tem um nível de letramento adequado, nem
uma base de conhecimento capaz de assimilar
o conhecimento inovador. Portanto, no curto
prazo, a democratização do conhecimento é
quase impossível nesse aspecto.
Na sociedade do conhecimento, o sociólogo
Bauman indica que a informação flui de um
modo mais rápido independentemente dos seus
portadores, fenômeno que ele chama de
“liberação dos corpos". Este fenômeno produz
tanto emancipação nos países desenvolvidos
com capacidades tecnológicas adequadas,
quanto confinamento nos países pobres. Com a
mudança no modo de comunicação, que a
sociedade do conhecimento trouxe consigo e
que constitui uma mudança de paradigma,
desenvolveram-se novas formas de se
comunicar, de disseminar informação, de criar
conhecimento, e inclusive houve um grande
impacto sobre outras áreas.
A mudança é explicada desta forma. Os meios
de comunicação tradicionais como o rádio, a
televisão e a imprensa, funcionam conforme
um modelo de comunicação de “um para
muitos", tendo com uma hierarquia bem
definida de emissor-receptor. A Internet surge
e por meio dela um novo modelo de
comunicação, de “muitos para muitos", no
qual os atores do processo de comunicação não
têm um papel fixo, podendo ser ao mesmo
tempo produtores e receptores de informação.
Para Lévy, “a comunicação interativa e
coletiva é a principal atração do ciberespaço",
mas evidentemente, segundo ao autor, o
ciberespaço também pode ser usado para
comunicações ponto a ponto, ou que
reproduzam o modo mídia com a emissão de
informações a partir de um centro.
Para Lévy quanto maior a interconexão de
computadores, maior será o potencial de
inteligência coletiva à disposição em tempo
real. Assim, considerando a mudança do
paradigma de comunicação e a capacidade de
colocar na Internet todos os documentos /
informações digitalizadas do planeta, a world
wide web, constitui segundo Lévy, a maior
revolução na história da escrita depois da
invenção imprensa.
Com relação às consequências desse nesse
novo meta-meio comunicacional, Lévy afirma
que a Internet ao possibilitar o entrelaçamento
de múltiplos fluxos, torna-se um centro virtual
e um poderoso instrumento de poder. Outra
consequência fundamental da internet é a
eliminação dos limites geográficos no
acesso/produção/disseminação da informação.
Os novos limites agora são impostos pelo
excesso de informação. Dentro do âmbito
social, observa-se que a exclusão é o grande
risco do ciberespaço, sendo que as pessoas com
menor capacidade de acesso às novas
tecnologias vão ter uma menor capacidade de
se desenvolver e de produzir conhecimento e
riqueza.
No âmbito social pode-se ressaltar mais uma
vantagem importante: o fim do processo de
intermediação. Agora o espaço público de
comunicação está livre de intermediários
institucionais ou políticos, para se publicar um
texto na internet não é preciso ter o aval de um
editor ou de um processo a priori de avaliação.
As consequências políticas e culturais dessa
desintermediação ainda não se podem avaliar.
A publicação na Internet possibilita que o
compartilhamento da informação seja imediato
e, ainda, proporciona maior disponibilidade em
termos geográficos e temporais, significando
que a informação pode ser acessada de
qualquer ponto da rede e em qualquer
momento.
Por outro lado, já no âmbito empresarial, as
informações colocadas na Internet,
devidamente filtradas, constituem uma das
fontes de informação para processos
empresariais de inteligência competitiva,
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criação de conhecimento e tomada de decisões,
cujas saídas são conhecimento e compromisso
para ação.
Consequentemente, demonstra-se que a
mudança no paradigma comunicacional e as
novas tecnologias, favorecem a publicação e o
compartilhamento da informação, assim como
a criação e o compartilhamento do
conhecimento nas suas diferentes formas, o
conhecimento criado por meio da interação
social para ser um insumo fundamental na
geração de inovações.
3. A inovação na Sociedade do
Conhecimento
Na sociedade do conhecimento, as
organizações tentam inovar para se diferenciar
e obter vantagens competitivas, tanto pela
melhoria nos produtos / serviços oferecidos
quanto pela eficiência operativa. A relação
positiva entre inovação e vantagem
competitiva existente no contexto atual,
confirma-se na pesquisa feita por Damanpour
e Gopalakrishnan em 101 bancos comerciais
nos Estados Unidos. A pesquisa concluiu que
os bancos melhor sucedidos adotam inovações
nos produtos e processos com maior frequência
e consistência que os bancos com menor
sucesso. Enquanto ao tipo de inovação
adotada, a pesquisa revela que as adoções de
inovações no produto estão positivamente
associadas às adoções de inovações nos
processos, e que as primeiras ocorrem com
maior frequência e velocidade.
4. Considerações Finais
Na sociedade do conhecimento a diferença
entre os países será balizada em função da
capacidade de aplicar conhecimento e gerar
inovação. Portanto, a produtividade dos
países será incrementada na mesma medida
das possibilidades de acesso ao conhecimento,
dos investimentos realizados para a
capacitação dos seus recursos humanos e para
desenvolvimento de inovação. Além disso,
pela reflexão feita neste artigo pode-se que
constatar que:
A - Os avanços tecnológicos cada vez mais
frequentes e contínuos na sociedade do
conhecimento, favorecem a troca de
informações e socialização do conhecimento,
possibilitando uma maior geração de
inovações e desenvolvimento econômico nos
países com um adequado nível de acesso à
tecnologia e à ciência. Assim, torna-se
imprescindível a ação do Estado como agenteativo visando dois objetivos. O primeiro, a
democratização da informação, colocando as
tecnologias ao serviço das comunidades,
fomentando a inclusão, e em geral, criando
oportunidades de desenvolvimento
homogêneas na população. Em segundo lugar,
o Estado deve fomentar a pesquisa tecnológica,
entendida como processo criador de
conhecimento, o qual constitui o fator
estratégico de desenvolvimento e poder na
atualidade.
B - Os países e em geral, as organizações
melhor sucedidas, são aquelas que inovam.
Tanto no âmbito social quanto no âmbito
econômico, as inovações são criadas a partir
das interações sociais, quando o conhecimento
apropriado pelos agentes individuais interage
num domínio de conhecimento específico, seja
organizacional, ou seja, social. Para inovar é
necessário fomentar aquelas interações em
todo nível, criando uma cultura e condições
para a troca de ideias. (Texto adaptado pelo
prof. Altamir Fernandes)
ESCOLA, SOCIEDADE DA
INFORMAÇÃO E O NOVO MUNDO DO
TRABALHO (Ligia Leite)
Introdução
O mundo contemporâneo apresenta
mudanças que afetam todos os setores da
sociedade, inclusive a educação.
Compreendemos que passamos de uma
sociedade cuja base tecnológica era analógica
para uma vida digital, como nos afirma
Negroponte (1995). Essa desafiadora situação
exige novas capacidades mentais, habilidades
gerais de comunicação e maior capacidade de
abstração, num reduzido espaço de tempo. As
pessoas e as instituições devem adaptar-se a
esta nova situação, passando a rever, métodos
de ensinar e aprender, tanto na escola como no
trabalho. A sociedade global, que nos é
imposta, objetiva um agir e pensar
padronizados.
11
Conclui-se que neste quadro que se apresenta,
resultam mudanças que deslocam as estruturas
das sociedades modernas e de suas instituições.
A escola, enquanto instituição local, que pelas
novas tecnologias pode inserir-se globalmente,
não poderia deixar de acompanhar estas
transformações.
Dentro deste contexto, objetivamos refletir
sobre o papel da escola, a integração da
tecnologia no processo ensino aprendizagem e
a pensar sobre a formação de um educando
integrado na sociedade da informação e capaz
de sobreviver neste Novo Mundo do Trabalho.
A escola no contexto atual
Tornou-se urgente fazer com que a escola seja
parte integrante do futuro que por agora se
configura, resignificando o seu papel,
estabelecendo uma relação prazerosa entre o
conhecimento e o saber, desenvolvendo a
comunicação, o pensamento crítico e
trabalhando no sentido de levar o educando a
resolver situações problemas, num processo
dinâmico de construção do conhecimento.
Para que se realize um trabalho novo, há
necessidade de mudanças na escola:
alterações de currículo, programas, materiais
didáticos, estrutura administrativa e
arquitetônica, uso de novas tecnologias para
que a escola possa enfrentar os novos desafios
que lhe são colocados. Além de centro
mediador da informação, ela deve ser o
centro facilitador do acesso das comunidades
carentes às novas tecnologias.
Complementaria o seu papel transformando-se
em espaço da discussão, da crítica, da
sistematização das informações que estariam
disponíveis dentro e fora da escola.
Por estar inserida nas mudanças por que passa
a sociedade, a escola apresenta-se como
aparelho ideológico, cujas transformações se
fazem de forma mais lenta, "mais ainda assim,
decisiva". Dessa forma, o papel da escola
passa a ser de fundamental importância para a
configuração deste novo cidadão que, na
urgência, nós, educadores, precisamos ajudar a
formar.
A sociedade da informação e o novo mundo
do trabalho
Vivendo na cibercultura (forma sociocultural
que advém de uma relação de trocas entre a
sociedade, a cultura e as novas tecnologias de
base microeletrônicas surgidas na década de
1970, graças à convergência das
telecomunicações com a informática) torna-se
necessário considerar a posição de Castells ao
se referir à Internet como a transformação
tecnológica que resume o conjunto de
transformações da sociedade da informação,
ressaltando que tudo que é significativo hoje
passa pela Internet e que as pessoas que não
têm acesso a ela permanecem excluídas do que
é importante, assim sendo, não se pode aceitar
que o professor permaneça afastado da Internet
e que esta tecnologia não esteja presente na
sala de aula da cibercultura.
Numa sociedade em transformação, a internet,
juntamente com as tecnologias de
telecomunicação, contribui para que o aluno
aprenda a conviver com a diversidade,
portanto, ela se apresenta como um potencial
para produzir mudança social revolucionária
na educação e na sociedade. Se pensarmos na
Internet como uma tecnologia que possibilita o
desenvolvimento de um ambiente de
aprendizagem baseado na construção de
conhecimento, sua presença em situações de
aprendizagem oportuniza aos sujeitos-
aprendentes ter mais condições para
desenvolver sua própria aprendizagem, pois
esta tecnologia permite que eles se tornem
participantes ativos na busca de conhecimento,
definindo suas necessidades de aprendizagem,
encontrando informações, construindo suas
próprias bases de conhecimento e
compartilhando suas descobertas.
Reflexões finais
De acordo com Moran, os modelos de
educação tradicional não nos servem mais,
porém, a função primordial da escola continua
sendo a mesma: o ensino, tendo a questão
pedagógica na base de todos os esforços para a
melhoria da sua qualidade. Porém, a escola
precisa re-significar o seu papel estabelecendo
uma relação prazerosa entre o conhecimento e
o saber, transformando-se em um lugar de
produção e não apenas apropriação de
conhecimento e cultura. Deve procurar
desenvolver a comunicação, a memória, o
pensamento crítico e trabalhar no sentido de
12
levar o educando a resolver situações-
problema em todos os níveis: os que
aparecem no trabalho escolar, os que
pertencem ao gerenciamento de questões
diárias e os sociais, os que encontramos na
interação com as outras pessoas. E o trabalho
com a imagem, através do vídeo e do
computador pode possibilitar a concretização
dessas possibilidades.
A escola não deve dispensar nenhum meio de
comunicação, mas integrá-los, utilizando-se de
novos procedimentos e entre eles inclui-se a
aprendizagem cooperativa, a pesquisa, o
trabalho com projetos.
Parece-nos premente continuar mudando a
educação, porém, esta ação deve ser contínua
e fruto da reflexão de professores e alunos, e
não uma imposição do sistema educacional.
Este novo professor deve desenvolver novas
competências e habilidades em seus alunos,
tornando-os capazes de sobreviver num mundo
globalizado e fazendo-os perceberem-se como
construtores das suas próprias histórias,
capazes de aprender a aprender, numa
atualização constante, na qual a imagem da
TV, do vídeo e do computador têm papel
significativo.
Finalizando com Dowbor, é preciso que a
educação mobilize a sua força na reconstrução
de uma convergência entre o potencial
tecnológico e os interesses humanos. Somente
articulando dinâmicas mais amplas, que
extrapolam a sala de aula poderá a educação
realizar mais este novo modelo de
alfabetização tecnológica, que permitirá a
permanência e sobrevivência dos nossos
alunos neste Novo Mundo do Trabalho. (Texto
adaptado pelo prof. Altamir Fernandes)
Fonte:
http://br.monografias.com/trabalhos/escola-
sociedade-informacao-mundo-trabalho/escola-sociedade-informacao-
mundo-trabalho2.shtml
II - Relações de trabalho e o perfil do
profissional no século XXI
A formação profissional no século XXI:
desafios e dilemas
O século XXI chegou e vem marcado com
algumas características: o mundo globalizado
e a emergência de uma nova sociedade que se
convencionou chamar de sociedade do
conhecimento. Tal cenário traz inúmeras
transformações em todos os setores da vida
humana. O progresso tecnológico é evidente, e
a importância dada à informação é
incontestável.
O mundo globalizado da sociedade do
conhecimento trouxe mudanças significativas
ao mundo do trabalho. O conceito de emprego
está sendo substituído pelo de trabalho. A
atividade produtiva passa a depender de
conhecimentos, e o trabalhador deverá ser um
sujeito criativo, crítico e pensante, preparado
para agir e se adaptar rapidamente às mudanças
dessa nova sociedade.
O diploma passa a não significar
necessariamente uma garantia de emprego. A
empregabilidade está relacionada à
qualificação pessoal; as competências técnicas
deverão estar associadas à capacidade de
decisão, de adaptação a novas situações, de
comunicação oral e escrita, de trabalho em
equipe. O profissional será valorizado na
medida da sua habilidade para estabelecer
relações e de assumir liderança. Para o
administrador Drucker, "os principais grupos
sociais da sociedade do conhecimento serão os
'trabalhadores do conhecimento"', pessoas
capazes de alocar conhecimentos para
incrementar a produtividade e gerar inovação.
Na perspectiva do trabalho na sociedade do
conhecimento, a criatividade e a disposição
para capacitação permanente serão requeridas
e valorizadas. As tecnologias de informação e
comunicação estão modificando as situações
de trabalho, e as máquinas passaram a executar
tarefas rotineiras em substituição aos seres
humanos. Neste ambiente de mudanças, "a
construção do conhecimento já não é mais
produto unilateral de seres humanos isolados,
mas de uma vasta colaboração cognitiva
distribuída, da qual participam aprendentes
humanos e sistemas cognitivos artificiais".
Nesta conjuntura, em que a mudança
tecnológica é a regra, buscar condições para
ancorar a preparação do profissional do futuro
requer uma estratégia diferenciada. Este
13
profissional deverá interagir com máquinas
sofisticadas e inteligentes, será um agente no
processo de tomada de decisão. Além disso, o
seu valor no mercado será estimado com base
em seu dinamismo, em sua criatividade e em
seu empreendedorismo. Todos esses fatores
evidenciam que só a educação será capaz de
preparar as pessoas para enfrentar os desafios
dessa nova sociedade.
Além disso, segundo o sociólogo De Masi,
existem alguns valores emergentes, nesta nova
sociedade, que merecem ser levados em
consideração quando tratamos de formação e
educação profissional. Um deles é a
intelectualidade (valorização das atividades
cerebrais em detrimento às atividades braçais);
outro é a criatividade (tarefas repetitivas e
chatas serão feitas pelas máquinas); outro é a
estética (o que distingue hoje não é mais a
técnica, e sim a estética, o design). Para este
autor, autor do conceito “ócio criativo”, a
subjetividade, a emotividade, a desestruturação
e a descontinuidade também são valores
importantes e, por isso, deverão, também, estar
na mira dos processos educativos do futuro.
Esta realidade parece apontar para uma
educação básica e polivalente que valorize a
cultura geral, a postura profissional, a ética e a
responsabilidade social.
A UNESCO (Organização das Nações
Unidas para Educação, Ciência e Cultura), nos
dá as dicas de algumas competências e
conhecimentos desejados, ou seja, oito
características do trabalhador do século
XXI:
1. Ser flexível e não especialista demais
2. Ter mais criatividade do que informação
3. Estudar durante toda a vida
4. Adquirir habilidades sociais e capacidade de
expressão
5. Assumir responsabilidades
6. Ser empreendedor
7. Entender as diferenças culturais
8. Adquirir intimidade com as novas
tecnologias
O mundo do trabalho na Sociedade do
Conhecimento
Sociedade Informacional
Uma nova sociedade está surgindo e é
expressa das mais diferentes formas como
sociedade da pós-informação
(NEGROPONTE), sociedade de
inteligências coletivas (LEVY), sociedade
pós-industrial (DE MASI) e do conhecimento,
“sociedade do conhecimento” (DRUCKER).
Muito precisa é a definição sociedade
informacional, baseada em um modo de
desenvolvimento específico em que as
informações, sua geração, processamento e
transmissão, tornam-se as fontes fundamentais
de produtividade e poder na sociedade
(CASTELLS).
Essas novas terminologias expressam
uma das maiores reviravoltas socioeconômicas
da história, sem falar nas consequências
políticas e relativas à reorganização do Estado.
Tudo isso porque há ganho de eficiência e uma
mudança de processos que representa o
surgimento de novas formas de fazer as coisas,
segundo o pensamento neoliberal.
A nova economia está nas ideias, no
conhecimento, na inteligência. Por isso, capital
e trabalho ficam menos antagônicos (ainda na
concepção do “pensamento único” do “Estado
Mínimo”, pois o verdadeiro capital passa a ser
o capital intelectual.
Novas relações de trabalho no século XXI
Discutir as mudanças que estão
ocorrendo no mundo e a sua influência nas
várias estruturas da sociedade e das
organizações é cada vez mais um assunto
pertinente. Estamos vivendo uma transição
nas relações de trabalho em decorrência da
evolução dos processos produtivos. E nisto as
tecnologias tiveram papel fundamental
buscando responder ao desafio de produzir
sempre mais com menos trabalho.
Ainda vivemos numa sociedade em
que grande parte da vida das pessoas adultas é
dedicada ao trabalho. Constrói-se hoje uma
sociedade na qual montante significativo do
tempo das pessoas será dedicado a outra
atividade, mais criativa.
Essa é uma transição que se
materializa na busca de novas formas de
inventar e difundir um novo tipo de
14
organização capaz de elevar a qualidade de
vida e de trabalho. Ora, a história nos mostra (e
o nosso dia a dia) que o trabalho foi sempre
visto como um problema e a partir daí, criou-
se, inovou-se e investiu-se em tecnologia para
criar mecanismos que minimizassem esse
problema.
Educação e habilidades para o trabalho
É por isso que a nova sociedade, e sua
busca de eficiência e mudança de processos,
trouxe alto ganho de produtividade e com ele
o aumento do desemprego. Aparentemente,
não haveria nova indústria para substituir os
empregos perdidos. Deve surgir e está
surgindo um novo perfil de atividades que
podem absorver a função dos velhos processos.
De qualquer forma, hoje os postos de
trabalho estão escassos, e por motivos
diversos. O crescimento econômico tem sido
anêmico e, sem crescimento, não há trabalho.
Por outro lado, as necessidades humanas são
infinitas (não esqueça o enorme aumento da
população) e, por isso, a demanda sempre
existirá.
A argumentação neoliberal tenta,
ideologicamente, impor sua narrativa, assim:
“O que parece cada vez mais óbvio é o
descompasso entre a oferta de novos empregos
e a capacidade das pessoas para eles. As
oportunidades estão aí. Mesmo assim, muitas
vagas estão vazias pelo mundo afora.Isso
mostra que, mesmo havendo postos de
trabalho, a sociedade necessita de pessoas
preparadas para preenchê-los. Resta, portanto,
implementar uma educação arrojada,
ininterrupta e abrangente. É preciso uma
qualificação para a era da informação”.
Quem vai conseguir trabalhar daqui
para frente? O que vai acontecer nos
próximos anos com as empresas? Essas novas
formas de trabalhar exigem novas habilidades
e, sobretudo, novas atitudes. Todos devem
estar aptos para apreender novos
conhecimentos, capacidade esta fundamental
para encontrar um mínimo de segurança em
um mundo que será, por natureza, bastante
inseguro.
Isso vale tanto para os indivíduos que
participam do processo produtivo, ou deveriam
participar, como para as empresas ou órgãos
que produzem empregos (os órgãos do Estado
aqui também se incluem). Estas, para serem
competitivas e não apenas produtivas,
precisam estar atentas à qualificação de seus
recursos humanos.
Estas habilidades permitem às
empresas e às pessoas a consciência de seu ser
e estar no trabalho, permitindo uma maior
iniciativa,responsabilidade, comunicabilidade.
Isto tudo redunda em flexibilidade para
trabalhar em equipe, fundamental no mundo
atual de aumento constante da complexidade
dos processos.
Em relação especial às pessoas, este
mundo complexo e inseguro também está
sendo marcado por uma profunda revolução no
campo da empregabilidade. Ser empregável,
hoje em dia, depende de uma série de requisitos
que não eram exigidos no passado.
Um profissional deve hoje assumir um
outro perfil, privilegiando:
Flexibilidade
Gerenciar risco
Lógica do raciocínio
Conhecimento de línguas
Saber trabalhar em equipe
Habilidade para lidar com pessoas
Iniciativa e criatividade
Liderança
Aprendizado contínuo
Multifuncionalidade
Como deve ser, então, o profissional
do futuro? Philip Kotler, em seu o livro
Marketing para o século XXI, aponta que os
“Profissionais do futuro” devem ter os
seguintes atributos:
1- Os profissionais do futuro têm que ser
competentes – Os mercados não perdoarão o
amadorismo. Chega de improvisação, do
chamado “jeitinho brasileiro”!
2- Os profissionais do futuro devem ser
bem-educados – Isto significa que devemos
ser cavalheiros, diplomáticos, finos no trato,
elegantes, conhecedores de etiquetas e
cordiais. Sim, quem não atentar para estas
coisas estão fora de sintonia com as novas leis
de mercado.
15
3- Os profissionais do futuro devem ser
bem-humorados – Um toque de humor, de
alegria, faz bem a qualquer ambiente. É bom
ter cuidado, porém, com as piadas! Estas,
quando bem empregadas produzem bem estar
na maioria, mas quando mal utilizadas, podem
comprometer qualquer negócio.
4- Os profissionais do futuro devem ser
confiáveis e honestos - Como isto serve para
todas as áreas, tenho esperança de que a
sociedade brasileira consiga mecanismos para
viabilizar o Judiciário e este venha punir
nossos políticos corruptos, que levam para os
paraísos fiscais boa parte das nossas riquezas!
O fato é que não haverá espaço, no mercado,
em todos os segmentos, para o desonesto.
5- Os profissionais do futuro serão
responsáveis – Assumir os seus atos, agir com
responsabilidade, tomar decisões abalizadas,
trabalhar com dados que sedimentem as
decisões, são características desse profissional
que os mercados necessitam. Só uma
observação: esse futuro já chegou!
As desconstruções do trabalho, sua nova
morfologia e a era das rebeliões (Ricardo
Antunes, sociólogo da UNICAMP)
A “falta de trabalho qualificado” deve
ser vista com cuidado: há setores da economia
que carecem de novas modalidades de
trabalho, mas há também uma poderosa
“ideologia da qualificação”
As precarizações sem fim
Desde 2008 adentramos em uma nova
era de precarização estrutural do trabalho
em escala global. Os exemplos são muitos: o
desemprego vem atingindo as mais altas taxas
das últimas décadas nos Estados Unidos,
Inglaterra, Espanha, Portugal, Itália, Grécia,
França, Japão. A lista é interminável: atinge
também vários países latino-americanos,
asiáticos, para não mencionar a tragédia
africana, ainda que o epicentro da crise esteja
nos países dito avançados.
E quanto mais a crise avança, quão
mais o receituário destrutivo do capital
financeiro, com seu Fundo Monetário
Internacional (FMI) à frente se impõe, mais
avança a sua pragmática letal para o trabalho.
E quando a realidade não é a do
desemprego direto, avança de modo voraz a
precarização do trabalho decorrente da erosão
do emprego contratado e regulamentado que
foi dominante no século 20 – o século do
automóvel, dominado pelo taylorismo e pelo
fordismo – proliferando as diversas formas de
trabalho terceirizado, desprovido de direitos.
São trabalhos mascarados ou
invisibilizados, como aquele que
frequentemente se denomina como
“voluntário”, mas que de fato acaba sendo
compulsório, uma vez que, para conseguir
qualquer emprego hoje é necessário provar que
realizou trabalho “voluntário”. Ou ainda, o
trabalho do estagiário, que de fato substitui um
trabalho efetivo, ainda que recebendo uma
subremuneração. Só essas duas modalidades
substituem milhões de assalariados que, por
isso, perdem seu emprego.
Uma boa fotografia desta quadra
inicial do século 21 é dada pela degradação
ainda mais intensa do trabalho imigrante em
escala global: com o enorme incremento do
novo proletariado informal, do subproletariado
fabril e de serviços.
IHU On-Line – O que caracteriza o perfil
dos jovens no mercado de trabalho? Como
a intolerância a problemas e a cobrança por
resultados aparece, nesse sentido?
Roberto Heloani – Em primeiro lugar,
precisamos reconhecer que o mundo do
trabalho mudou de forma significativa, e
aqui me refiro à forma de organizar o
trabalho. Há 30 anos uma pessoa entrava para
uma grande organização e sabia que poderia
permanecer lá a vida toda, caso tivesse um bom
desempenho, fosse uma pessoa leal à
organização, que se aplicasse, se qualificasse,
aproveitasse as oportunidades oferecidas pela
organização, e se fosse minimamente
disciplinada. E o sonho de muitos jovens era
justamente fazer carreira na organização e
depois ser substituído pelo próprio filho. Isso
caracterizou o que chamamos de modelo
fordista de produção, que era piramidal, com
uma hierarquia mais explícita – não é que não
se tenha hierarquia hoje em dia, apenas pessoas
ingênuas pensam que ela não existe. Em
consequência disso, o grande sonho era fazer
certos sacrifícios, postergar a felicidade para
depois ter os louros, a recompensa. O próprio
16
modelo de produção era de longo prazo. Hoje
não. Esse jovem já entra na escola e logo acaba
recebendo a ideologia da internet, da
informação virtual, na qual não se exige do
sujeito grande reflexão, mas muito mais uma
pró-atividade de resposta. Isso não quer dizer
que o sujeito está pensando, mas que ele está
sendo treinado para responder rapidamente. O
resultado disso é que, quando ele entra no
mundo corporativo, começa a ouvir
comentários de que aquela pessoa que estava lá
outro dia já não está mais e que a média de
permanência naquela organização é de 2 a 3
anos. Daí ele para e pensa: afinal de contas, me
é permitido pensar que vou passar minha vida
toda aqui? Será que essa será a minha casa?
Será que devo compartilhar minhas angústias e
incertezas com esse grupo?É outra lógica.
Uma coisa é ter um amigo, uma pessoa com a
qual você compartilha as ansiedades, desejos,
medos, receios, neuras. E outra coisa é ter uma
amizade profissional. Esse jovem, desde cedo,
aprende que no mundo do trabalho atual é
preciso construir amizades profissionais, o que
é diferente de construir amizades. A amizade
profissional dura enquanto for do interesse de
ambos. São raras as pessoas que saem de uma
organização e mantêm contato com seus ex-
colegas. Será que é porque são pessoas
perversas e frias? Nada disso. São pessoas
“normais”, que aprenderam que ter uma
relação afetiva e efetiva pode ser até perigoso,
porque essas amizades são datadas, não são
verdadeiras. A relação que se estabelece com
os colegas é a mesma que se acaba tendo com
as empresas. E esse perfil vai sendo moldado.
Mais do que isso: vai se criando uma cultura
dentro das organizações, e hoje boa parte
delas está moldada por essa lógica, cujo mote
é o seguinte: aproveite enquanto der; o futuro
ninguém sabe; nem você tem controle desse
futuro. É claro que em uma situação como essa
não se pode esperar dos jovens sonhos de longo
prazo, uma lealdade estrita às pessoas e à
organização e, muito menos, uma dedicação
incondicional. Ele pode até trabalhar muito, até
16 horas por dia, como alguns trabalham, mas
é um trabalho voltado para si, que quer uma
recompensa rápida, imediata e de preferência
segura. Ele construiu uma lógica que não é
perversa. Temos uma organização do trabalho
que exige uma nova modelagem, uma nova
subjetividade – chamo isso de manipulação da
subjetividade – e responde com uma nova
subjetividade: sendo individualista para
melhor se adaptar a essa realidade. Quem é
perverso não é o jovem, nem o gestor, nem o
chefe. Se tem alguém perverso é a própria
forma de organizar o trabalho. Essa forma
diferenciada de organizar o trabalho tem
obviamente benefícios, pontos positivos, mas
também tem muitos pontos negativos. Não é à
toa que ainda nesta década, até 2020, segundo
relatórios internacionais, a segunda causa de
afastamento do trabalho será o transtorno
mental, sendo que a mais recorrente será a
depressão. Isso é gravíssimo. Uma
característica muito forte desse modelo de
organização do trabalho é a solidão. Encontra-
se rodeado de pessoas, mas verdadeiramente se
está só.
IHU On-Line – Quais são as permanências
e rupturas do novo chão de fábrica? O que
o caracteriza hoje em comparação com o
cenário de 30 anos atrás?
Marcia de Paula Leite – Desde a década de
1980 mudou muita coisa. A forma de
organização do trabalho mudou muito. Em
termos de organização do trabalho, nós
efetivamente mudamos de paradigma. Aquele
sistema que tínhamos de divisão do trabalho
muito rígida, dentro da fábrica, com uma
organização taylorista e fordista do trabalho,
está sendo transformado e substituído por
novas formas de organização do trabalho mais
baseadas nos princípios japoneses. Essas
novas técnicas mudam a forma de a fábrica
produzir. Hoje temos uma organização da
produção que vai de trás para frente, quando
comparamos com os princípios tayloristas e
fordistas. A fábrica começa a funcionar a partir
do pedido. Ao contrário de antigamente,
quando as fábricas produziam a partir da
entrada da matéria-prima, porque o mercado
era garantido. O que permanece é o princípio
básico do capitalismo, que é a necessidade de
sempre aumentar a produtividade, diminuir os
tempos mortos e aumentar o lucro. Isso faz
com que continue havendo controle sobre os
trabalhadores para que eles produzam a maior
quantidade possível no menor tempo possível.
No entanto, as formas de controle mudaram.
Giovanni Alves – As grandes fábricas no
Brasil têm passado por profundas
transformações produtivas nos últimos anos.
17
Desde o começo da década de 2000 alterou-se
de forma significativa a morfologia do trabalho
industrial no Brasil por conta das inovações
tecnológicas e organizacionais. Nos polos
mais desenvolvidos da indústria – e também do
setor de serviços –, as novas tecnologias
informáticas de base microeletrônica e
tecnologias informacionais em rede alteraram
o processo de produção de mercadorias e a
organização dos serviços de distribuição e
serviços financeiros e telecomunicações.
Se a década de 1990 foi a década da
reestruturação produtiva que atingiu o mundo
do capital e, por conseguinte, o mundo do
trabalho no Brasil, então a década de 2000 foi
a década de reorganização do capitalismo
brasileiro com as grandes empresas
aumentando investimentos produtivos,
reordenando suas estratégias de negócios na
perspectiva da concorrência internacional
acirrada.
IHU On-Line – Como seriam essas novas
formas de controle?
Marcia de Paula Leite – Temos o controle
pelas máquinas, que é muito maior. Nas
equipes de trabalho o controle passa a ser dos
próprios colegas, porque muitas vezes as
empresas fazem competição e comparação
entre as equipes. Além disso, temos as metas e
participação nos lucros e resultados, o que
causa o controle dos companheiros de equipe
para que ninguém saia perdendo. Por exemplo,
o colega pressiona você por sua parada a fim
de tomar um café, e isso diminui a produção.
Trata-se de um controle efetivo.
IHU On-Line – Quais são as principais
tendências do mercado de trabalho no país
na última década?
Ruy Braga – Eu destacaria duas tendências
principais. Por um lado, é flagrante o que
poderíamos chamar de formalização do
emprego, ou seja, a criação de milhões de
empregos formais, o que praticamente inverte
aquela relação entre formal e informal que
tínhamos na década de 1990. De fato, em
termos de formalização estamos no ápice da
curva histórica do emprego formal no Brasil.
Isso é evidentemente positivo porque, junto
com o emprego formal, existem algumas
garantias trabalhistas. Mas, por outro lado,
existe também uma ampliação da
precarização das condições de trabalho. A
precarização normalmente está muito
associada à precarização contratual. No
entanto, existe uma outra forma de
precarização do trabalho, que é mais complexa,
porque é multifacetada e se associa ao
problema das condições de trabalho, ou seja, as
condições de consumo da mercadoria “força de
trabalho”. Temos o aumento da taxa de
rotatividade, o aumento da flexibilização, do
número de acidentes de trabalho e a
generalização do que podemos chamar de
trabalho assalariado sub-remunerado, apesar
de formal. Ou seja, as principais tendências do
mercado de trabalho brasileiro nessa última
década tendem a se polarizar, a combinar essas
duas principais dinâmicas: de um lado, a
formalização do emprego e, de outro lado, a
precarização das condições de trabalho.
III Empreendedorismo e inovação
Dificilmente uma pessoa tem todas as
características de comportamento
empreendedor em perfeito equilíbrio porque
essas características não são herdadas, mas sim
aprendidas ao longo da vida, com experiências
de trabalho, determinação e estabelecimento de
metas pessoais desafiadoras.
Se você é uma pessoa obstinada, persistente e
está o tempo inteiro buscando informações
para melhorar e aumentar seus negócios, será
meio caminho andado.
No jogo dos negócios é muito importante que
você identifique suas reais características
empreendedoras, pois um grande número de
pessoas tem buscado iniciar negócios próprios,
sem, no entanto, apresentar comportamento
adequado.
É importante estar consciente de quais são suasqualidades e suas deficiências. Uma análise de
suas experiências práticas, capacidade e
personalidade ajudarão a enfrentar qualquer
situação. De acordo com os ideólogos do
“empreendedorismo”, algumas características
são fundantes para delinear o comportamento:
18
Características de comportamento
empreendedor
1. Busca de oportunidades e iniciativa
Faz as coisas antes de solicitado, ou
antes, de ser forçado pelas
circunstâncias;
Age para expandir o negócio em novas
áreas, produtos ou serviços;
Aproveita oportunidades fora do comum
para começar um negócio, obter
financiamentos, equipamentos, terrenos,
local de trabalho ou assistência.
O empreendedor é alguém que está sempre
buscando novas oportunidades. Observando o
ambiente, costuma ter ideias que possam ser
transformadas em negócios e as coloca em
prática.
2. Persistência
Age diante de um obstáculo;
Age repetidamente ou muda de
estratégia a fim de enfrentar um desafio
ou superar um obstáculo;
Assume responsabilidade pessoal pelo
desempenho necessário para atingir
metas e objetivos.
A persistência é uma das características do
empreendedor. Todo negócio tem seus
momentos difíceis. Mas é preciso persistir e
buscar superação.
3. Comprometimento
Faz sacrifícios pessoais ou despende
esforços extraordinários para completar
uma tarefa;
Colabora com os empregados,
colaboradores e parceiros ou se coloca
no lugar deles, se necessário, para
terminar um trabalho;
Esmera-se em manter os clientes
satisfeitos e coloca em primeiro lugar a
boa vontade em longo prazo, acima do
lucro em curto prazo.
Estar comprometido com a empresa significa
ter envolvimento pessoal para que ela
mantenha sua qualidade e seus compromissos
e continue sempre crescendo. Para isso, é
importante conhecer e cuidar também da área
financeira; ela é uma peça-chave do seu
sucesso empresarial. É importante estar
presente e ter cuidado com a qualidade da
produção e com o cumprimento de prazos. Às
vezes, um esforço extra é necessário para
garantir a satisfação do cliente.
4. Exigência de qualidade e eficiência
Encontra maneiras de fazer melhor,
mais rápido ou mais barato;
Age de maneira a fazer coisas que
satisfazem ou excedem padrões de
excelência;
Desenvolve ou utiliza procedimentos
para assegurar que o trabalho seja
terminado a tempo ou que o trabalho
atenda a padrões de qualidade
previamente combinados.
A exigência de qualidade e eficiência é um
importante diferencial em qualquer tipo de
negócio. Quando você cumpre todos os prazos
e garante a qualidade esperada pelo cliente,
está conquistando a confiança dele. Lembre-se
que, por mais qualidade que você forneça é
preciso estar sempre melhorando para superar
as expectativas e se destacar em relação à
concorrência.
5. Correr riscos calculados
Avalia alternativas e calcula riscos
deliberadamente;
Age para reduzir os riscos ou controlar
os resultados;
Coloca-se em situações que implicam
desafios ou riscos moderados.
Montar uma empresa ou investir para melhorá-
la implica riscos. Ser ousado é muito
importante. No entanto, é fundamental calcular
esses riscos para saber onde, como e quando
você deve arriscar para fazer sua empresa
crescer. Aprender a correr riscos calculados
significa avaliar as alternativas, reduzir os
riscos e controlar os resultados. Se, por
exemplo, você desejar investir em sua empresa
para aumentar a produção e as vendas, é
importante realizar uma pesquisa para saber se
existe mercado para absorver este volume de
produção adicional.
6. Estabelecimento de metas
Estabelece metas e objetivos que são
desafiantes e que têm significado
pessoal;
19
Define metas de longo prazo, claras e
específicas;
Estabelece objetivos de curto prazo,
mensuráveis.
Estabelecer uma meta é muito importante, pois
especifica as condições, o tempo e onde se quer
chegar. Para atingir sua meta é interessante que
você crie estratégias. Se sua meta é abrir uma
empresa, este curso é uma ótima oportunidade
para você testar seu comportamento
empreendedor. Se seu objetivo é melhorar os
resultados de sua empresa ou negócio, você
também encontrará no IPGN (Iniciando um
pequeno e grande negócio) instrumentos que
lhe auxiliarão no gerenciamento de seu
empreendimento.
Para seu objetivo se transformar em uma meta
você precisa saber onde quer chegar e definir
como e quando chegar.
7. Busca de informações
Dedica-se pessoalmente a obter
informações de clientes, fornecedores e
concorrentes;
Investiga pessoalmente como fabricar
um produto ou fornecer um serviço;
Consulta especialistas para obter
assessoria técnica ou comercial.
Conversar com clientes, fornecedores e
concorrentes é essencial para posicionar
melhor sua empresa no mercado.
Um empreendedor está constantemente
querendo saber mais e mais. Saber procurar e
selecionar informações ajuda a melhorar o seu
negócio. Você pode obter informações de
diversas fontes. Procure saber as opiniões dos
consumidores sobre o seu produto, fique atento
às suas sugestões e observações; pesquise
maneiras de melhorar seu produto ou serviço;
identifique vantagens e desvantagens de sua
empresa em relação à concorrência; leia
jornais, revistas, navegue na Internet, há
sempre cursos e palestras e novas informações
no mercado. Visite o concorrente, experimente
o modelo dele e, quando a sua pesquisa pessoal
não for suficiente, procure a ajuda
especializada de um técnico. E lembre-se de
consultar o SEBRAE de seu estado. Lá estão
disponíveis publicações, cursos e serviços que
lhe ajudarão nessa busca por informações.
8. Planejamento e monitoramento
sistemáticos
Planeja dividindo tarefas de grande
porte em subtarefas com prazos
definidos;
Revisa seus planos constantemente,
levando em conta os resultados obtidos
e as mudanças circunstanciais;
Mantém registros financeiros e utiliza-
os para tomar decisões.
Para se tornar um empreendedor bem-sucedido
é preciso que você aprenda a planejar. Por isso,
é indispensável que você aprenda a fazer um
planejamento de suas ações futuras.
Além de planejar, é preciso acompanhar
sempre os resultados da empresa – fazer o que
se chama de monitoramento sistemático, que
consiste em:
Divida as tarefas maiores em pequenas
tarefas;
Defina um prazo para cumprir cada uma
dessas tarefas;
Verifique sempre os resultados para
saber se estão dentro do que havia sido
planejado.
9. Persuasão e rede de contatos
Utiliza estratégias deliberadas para
influenciar ou persuadir os outros;
Utiliza pessoas-chave como agentes
para atingir seus próprios objetivos;
Age para desenvolver e manter relações
comerciais.
Um empreendedor está sempre em contato
com muitas pessoas: clientes, fornecedores,
concorrentes, técnicos, especialistas de
diversas áreas etc. Muitas vezes, são pessoas
que não estão diretamente ligadas ao seu
negócio, mas que, a qualquer momento, podem
ser muito úteis. Busque manter contato com as
pessoas que podem se tornar fonte de
informações e/ou soluções para você.
Todo empreendedor precisa mais do que uma
rede de contatos: precisa saber convencer as
pessoas a fazerem o que ela deseja. Convencer
o cliente a comprar mais ou o fornecedor a
entregar mais rápido, por exemplo. Mas, para
convencer alguém, é preciso ter bonsargumentos, é preciso que estejam de acordo
20
com os interesses da pessoa que está sendo
convencida.
10. Independência e autoconfiança
Busca autonomia em relação a normas e
controles de outros;
Mantém seu ponto de vista, mesmo
diante da oposição ou de resultados
inicialmente desanimadores;
Expressa confiança na sua própria
capacidade de complementar uma tarefa
difícil ou de enfrentar um desafio.
Um empreendedor é sempre autodeterminado,
sabe tomar decisões com segurança. Faz
questão de ser seu próprio patrão e dono do seu
nariz; acredita em si e na capacidade de realizar
sonhos e projetos. Tem a humildade para
perguntar, pesquisar, ouvir e refletir sobre
sugestões dadas, principalmente pelos mais
experientes. Todo o empreendimento é um
desejo concretizado por alguém que confiou no
próprio potencial.
Fonte:
<http://super.abril.com.br/ciencia/sucesso-
584272.shtml>
IV – Responsabilidade social: setor público,
privado e terceiro setor
A função social da empresa sob a
ótica do desenvolvimento sustentável
Bruna Medeiros David de Souza
Advogada, Pós-graduanda em Direito Civil pela
Faculdade de Direito Milton Campos.
A função social da propriedade
privada é um princípio consagrado na
Constituição brasileira de 1988, que, em seu
artigo 170, preceitua que “a ordem econômica,
fundada na valorização do trabalho humano
e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a
todos existência digna, conforme os ditames da
justiça social, observado, dentre outros, o
Princípio da Função Social da Propriedade”.
O princípio da função social da
empresa busca estabelecer um equilíbrio
entre a nova ordem econômica e social e as
ideias do liberalismo clássico, mesclando
elementos de ambos. Diante dessa nova
concepção, o lucro, por si só, não é mais um
elemento capaz de justificar a existência de
uma empresa. A missão das companhias
privadas não é somente gerar lucro; este é uma
recompensa justa e legítima a ser recebida
pelos investidores, que aceitaram correr o risco
de aplicar seu capital em um empreendimento
produtivo.
Outra forma de atuação empresarial
que se coaduna com a função social da
empresa é a busca pelo desenvolvimento
sustentável. Exerce função social a empresa
que utiliza os recursos naturais de forma justa
e reduz ao mínimo o impacto de suas
atividades no meio ambiente.
Responsabilidade socioambiental é a
“forma de gestão que se define pela relação
ética e transparente da empresa com todos os
públicos com os quais ela se relaciona e pelo
estabelecimento de metas empresariais
compatíveis com o desenvolvimento
sustentável da sociedade, preservando recursos
ambientais e culturais para as gerações futuras,
respeitando a diversidade e promovendo a
redução das desigualdades sociais”.
Bem assim, o respeito às leis
trabalhistas e aos interesses dos empregados
também demonstram o princípio da função
social pautando as relações da empresa com
seus empregados. Tal forma de atuação
empresarial prevê, além da observância aos
direitos trabalhistas, respeito à dignidade dos
trabalhadores, em seus diversos aspectos.
Uma empresa realiza sua função
social com a opção por ações que promovam a
dignidade da pessoa humana, como a
valorização do trabalho, a busca do pleno
emprego e a redução das desigualdades sociais.
Hoje, os consumidores estão mais
exigentes e demonstram preocupação com o
futuro do nosso ambiente, o que tem alterado
seu comportamento ao adquirir um produto.
Dá-se preferência hoje aos ecologicamente
sustentáveis, que não agridem a natureza, sem
se esquecer da qualidade. Empresas de
diferentes atividades estão tentando se adaptar
a essa nova realidade, e atender a essa nova
busca do consumidor.
A atuação empresarial, em relação
aos consumidores, também deve ser orientada
pelo princípio da função social. O Código de
Defesa do Consumidor determina a
responsabilidade empresarial pela prestação de
serviços e pela qualidade dos produtos,
reconhecendo a função social da empresa ao
estabelecer finalidades sociais e proteção aos
interesses do consumidor (CDC, art.51).
21
A questão da responsabilidade social
tem sido tema recorrente no mundo dos
negócios. Há uma crescente preocupação por
parte das empresas brasileiras em compreender
seu conceito e dimensões e incorporá-los à sua
realidade. Muitas empresas já se mobilizaram
para a questão e estruturaram projetos voltados
para uma gestão socialmente responsável,
investindo na relação ética, transparente e de
qualidade com todos os seus públicos de
relacionamento.
Essas iniciativas, apesar de
apresentarem resultados positivos,
representam, na maioria das vezes, ações
pontuais e desconectadas da missão, visão,
planejamento estratégico e posicionamento da
empresa e, consequentemente, não expressam
um compromisso efetivo para o
desenvolvimento sustentável.
Em muitos casos, as empresas
brasileiras acabaram por associar
responsabilidade social à ação social, seja pela
via do investimento social privado, seja pela
via do estímulo ao voluntariado. Esse viés de
contribuição, embora relevante, quando tratado
de maneira isolada, coloca o foco da ação fora
da empresa e não tem alcance para influenciar
a comunidade empresarial a um outro tipo de
contribuição, extremamente importante para a
sociedade: a gestão dos impactos ambientais,
econômicos e sociais provocados por decisões
estratégicas, práticas de negócio e processos
operacionais. Para que se compreenda esta
abordagem mais ampla, que podemos chamar
de sustentabilidade empresarial é necessário
que se conheça previamente o conceito de
desenvolvimento sustentável.
O conceito de responsabilidade
social empresarial traz, ainda, a questão da
relação da empresa com seus diversos públicos
de interesse, conforme expresso na definição
do Instituto Ethos: “Responsabilidade social
empresarial é a forma de gestão que se define
pela relação ética e transparente da empresa
com todos os públicos com os quais ela se
relaciona e pelo estabelecimento de metas
empresariais compatíveis com o
desenvolvimento sustentável da sociedade,
preservando recursos ambientais e culturais
para as gerações futuras, respeitando a
diversidade e promovendo a redução das
desigualdades sociais”.
Dito de outra maneira espera-se cada
vez mais que as organizações sejam capazes de
reconhecer seus impactos ambientais,
econômicos e sociais e, a partir desse pano de
fundo, construam relacionamentos de valor
com os seus diferentes públicos de interesse, os
chamados stake-holders – público interno,
fornecedores, clientes, acionistas, comunidade,
governo e sociedade, meio ambiente, entre
outros. Embora já haja diversos exemplos de
práticas de gestão socialmente responsável, a
inserção da sustentabilidade e responsabilidade
social às práticas diárias de gestão ainda
representa um grande desafio para grande parte
da comunidade empresarial brasileira. A
associação desses conceitos à gestão dos
negócios deve necessariamente expressar o
compromisso efetivo de todos os escalões da
empresa, de forma permanente e estruturada.
Do exposto conclui-se que, diante da
nova ordem constitucional, toda empresa
deve pautar sua atuação de acordo com o
Princípio da Função Social da Empresa, não
visando unicamente o lucro, mas também o
atendimento dos interesses socialmente
relevantes, buscando um equilíbrio da
economia de mercado com a supremacia dosinteresses sociais previstos na Constituição
Federal. (Artigo adaptado pelo prof. Altamir
Fernandes)
fonte<http://direito.newtonpaiva.br/revistadire
ito/docs/convidados/13_convidado_bruna.pdf
2º texto: O homem e a Cultura
A cultura: definições, cultura popular,
cultura erudita e indústria cultural
A origem da palavra CULTURA
* Uma definição da cultura é difícil, porque a
cultura pode ser estudada de vários pontos de
vista.
* primeiro significado da palavra cultura na
tradição romana. A palavra cultura é latina e
sua origem é o verbo colere. Colere
significava, na língua romana mais antiga, “eu
cultivo”; particularmente, “eu cultivo solo”. A
primeira acepção de colere estava ligada ao
mundo agrário. Os romanos começaram
efetivamente pela agricultura. A palavra
agricultura diz muito: “cultura do campo”.
22
* Inicialmente, a palavra cultura, por ser um
derivado de colo, significava, rigorosamente,
“aquilo que deve ser cultivado”.
* Esse significado relacionado com a
sociedade agrária, durou séculos; até que os
romanos conquistaram a Grécia (146 a.C.) e
foram em parte helenizados. E os gregos
tinham já uma palavra para o desenvolvimento
humano, que era Paideia.
* Paideia significava, inicialmente, o conjunto
de conhecimentos que se devia transmitir às
crianças – paidós (criança é paidós); mais
tarde era o "processo de educação em sua
forma verdadeira, a forma natural e
genuinamente humana" na Grécia antiga, ou
seja, a ampliação do conceito fez com que ele
passasse também a designar o resultado do
processo educativo que se prolonga por toda
vida, muito para além dos anos escolares.
* Mas, conhecendo a palavra Paideia e não
querendo usá-la porque era uma palavra
estrangeira, os romanos passaram a traduzi-la
por cultura. A palavra cultura passou do
significado puramente material que tinha em
relação à vida agrária para um significado
intelectual, moral, que significa conjunto de
ideias e valores.
* Se tivéssemos que definir a palavra a partir
dessas considerações, teríamos uma riqueza de
possibilidades, porque a cultura, pensada
como um conjunto de ideias, valores e
conhecimentos, traz dentro de si, em
primeiro lugar, a dimensão do passado. A
primeira ideia que temos quando falamos em
cultura é a de transmissão de conhecimentos
e valores de uma geração para outra, de
uma instituição para outra, de um país para
outro; subsiste sempre a ideia de algo que já
foi estabelecido em um passado – que pode ser
um passado próximo ou um passado remoto.
Dois são os significados iniciais da
noção de cultura:
01 – De acordo com o sociólogo Raymond
Williams, a palavra cultura vinda do verbo
latino colere, que significa cultivar, criar,
tomar conta e cuidar. Cultura significa o
cuidado do homem com a natureza. Donde:
agricultura. Significava, também, cuidado
dos homens com os deuses. Donde: culto.
Significava ainda, o cuidado com a alma e o
corpo das crianças, com sua educação e
formação. Donde: puericultura (em latim,
puer significa menino; puera, menina), ou
seja, conjunto de noções e técnicas voltadas
para o cuidado médico, higiênico, nutricional,
psicológico etc., das crianças pequenas, da
gestação até quatro ou cinco anos de idade.
A cultura é o aprimoramento da
natureza humana pela educação em sentido
amplo, isto é, como formação das crianças
não só pela alfabetização, mas também pela
iniciação à vida da coletividade por meio do
aprendizado da música, dança, ginástica,
gramática, poesia, história, filosofia, etc. A
pessoa culta era a pessoa moralmente
virtuosa, politicamente consciente e
participante, intelectualmente desenvolvida
pelo conhecimento das ciências, das artes e da
filosofia. É este sentido que leva muitos, ainda
hoje, a falar em “cultos” e “incultos”.
02 – A partir do século XVIII, cultura passa a
significar os resultados daquela formação ou
educação dos seres humanos, resultados
expressos em obras, feitos, ações e instituições:
as artes, as ciências, a Filosofia, os ofícios, a
religião e o Estado. Foi na Europa, a partir do
século XVIII, que o conceito de cultura
passou a ser associado ao conceito de
civilização.
No correr da história do ocidente, no
século XVIII, com a Filosofia da Ilustração,
a palavra cultura ressurge, mas como
sinônimo de outro conceito, torna-se sinônimo
de civilização. Sabemos que civilização
deriva-se de ideia de vida civil, portanto, de
vida política e de regime político. Com o
Iluminismo, a cultura é o padrão ou o critério
que mede o grau de civilização de uma
sociedade. Assim, a cultura passa a ser
encarada como um conjunto de práticas
(artes, ciências, técnicas, filosofia, os ofícios)
que permite avaliar e hierarquizar o valor dos
regimes políticos, segundo um critério de
evolução. No conceito de cultura introduz-se
a ideia de tempo, mas de um tempo muito
preciso, isto é, contínuo, linear e evolutivo, de
tal modo que pouco a pouco, cultura torna-se
sinônimo de progresso. Avalia-se o progresso
de uma civilização pela sua cultura e avalia-se
a cultura pelo progresso que traz a uma
civilização.
23
Civilização X Barbárie
Civilização
sistema de normas, de paradigma a ser
tomado como modelo
conjunto de aspectos peculiares à vida
intelectual, artística, moral e material
de uma época, de uma região, de um
país ou de uma sociedade
Antiguidade – os gregos se viam
como os únicos civilizados e os não-
helênicos eram considerados
“bárbaros” por não falarem grego
Neocolonialismo europeu (XIX) –
potências julgavam-se superiores aos
povos colonizados – aspectos técnico
e científico, ético – enquanto os
demais “fósseis vivos” estavam
mergulhados na barbárie.
Missão Civilizatória – White man’s
burden – (dever ou responsabilidade
do homem branco) - retirar da barbárie
os infelizes nativos
Barbárie
A palavra bárbaro é de origem grega.
Designava, na Antiguidade, as nações
não-gregas, consideradas primitivas,
incultas, atrasadas e brutais
O termo “barbárie” para Lowy, tem
dois significados distintos, mas
ligados: “falta de civilização” e
“crueldade de bárbaro”
Segundo Adorno, a barbárie é a
agressividade primitiva humana, os
impulsos de destruição, ou seja, é um
ato considerado desumano porque não
respeita os fundamentais valores
conquistados no campo da ética, do
direito, da ciência, da democracia
pluralista e da própria organização
social.
O conceito iluminista de cultura,
profundamente político e ideológico, reaparece
no século XIX, quando se constitui um ramo
das ciências humanas, a antropologia. No
início da constituição da antropologia, os
antropólogos guardarão o conceito iluminista
de evolução ou progresso. Por tornarem a
noção de progresso como medida de cultura,
os antropólogos estabeleceram um padrão
para medir a evolução ou o grau de progresso
de uma cultura e esse padrão foi,
evidentemente, o da Europa capitalista. As
sociedades passaram a ser avaliadas segundo a
presença ou a ausência de alguns elementos
que são próprios do ocidente capitalista e a
ausência desses elementos foi considerada
sinal de falta de cultura ou de uma cultura
pouco evoluída. Que elementos são esses? O
Estado, o mercado e a escrita. Todas as
sociedades que desenvolvessem formas de
troca, comunicação e poder diferentes do
mercado, da escrita e do Estado europeu, foram
definidas como culturas “primitivas”. Em
outras palavras,foi introduzido um conceito de
valor para distinguir as formas culturais.
Para os filósofos Voltaire (1694 -
1778) e Kant (1724 - 1804), cultura e
civilização representavam ambas, o processo
de aperfeiçoamento moral e racional da
sociedade, sendo a cultura a forma de avaliar
o estágio de progresso e desenvolvimento de
uma civilização.
Cultura e Antropologia
A antropologia é uma ciência social
surgida no século XVIII. Porém, foi somente
no século XIX que se organizou como
disciplina científica. A palavra tem o seguinte
significado: antropo=homem e logia=estudo.
A antropologia, como ciência,
desenvolveu-se principalmente a partir do
século XVIII com a expansão colonial
europeia. Novos territórios vinham sendo
descobertos e ocupados pelas potências
europeias (principalmente a Inglaterra) e
novos povos (considerados primitivos, quando
comparados com a sociedade ocidental) eram
contactados. Era preciso conhecer e
compreender seus hábitos, costumes e valores,
principalmente para melhor dominá-los. A
antropologia surgiu, como se pode deduzir,
como consequência da política imperialista e
com o intuito de auxiliá-la. Ao longo do
tempo, porém, a atuação dos antropólogos
desenvolveu-se de maneira mais
independente e num sentido muitas vezes
oposto ao que deles se exigia.
Estudo antropológico
Esta ciência estuda, principalmente,
os costumes, crenças, hábitos e aspectos físicos
24
dos diferentes povos que habitaram e habitam
o planeta.
Portanto, os antropólogos estudam a
diversidade cultural dos povos. Como cultura,
podemos entender todo tipo de manifestação
social. Modos, hábitos, comportamentos,
folclore, rituais, crenças, mitos e outros
aspectos são fontes de pesquisa para os
antropólogos.
Nas últimas décadas, o estudo do
“outro” (outros povos, suas crenças e
costumes) passa a se desenvolver no sentido
político de mostrar que diferenças culturais
não significam inferioridade nem justificam
a dominação. Por essa razão, a antropologia
ajudou a desqualificar o etnocentrismo (isto
é, a tendência a valorizar a própria cultura,
tomando-a como parâmetro para avaliar as
demais, ocorre quando um determinado
indivíduo ou grupo de pessoas, que têm os
mesmos hábitos e caráter social, discrimina
outro, julgando-se melhor, seja pela sua
condição social, pelos diferentes hábitos) e a
admitir o relativismo cultural. Para ela, cada
sociedade possui o direito de se desenvolver de
modo autônomo, não existindo uma teoria
sobre a humanidade que possua alcance
universal, e que seja capaz de impor-se a
outras, com base em qualquer tipo de
superioridade.
A lei humana é um imperativo social
que organiza toda a vida dos indivíduos e da
comunidade, determinando o modo como são
criados os costumes, como são transmitidos de
geração a geração, como fundam as
instituições sociais (religião, família, formas
do trabalho, guerra e paz, distribuição das
tarefas, formas do poder, etc). A lei não é uma
simples proibição para certas coisas e
obrigação para outras, mas é a afirmação de
que os humanos são capazes de criar uma
ordem de existência que não é simplesmente
natural (física, biológica). Esta ordem é a
ordem simbólica.
Quando dizemos que a cultura é a
invenção de uma ordem simbólica, estamos
dizendo que nela e por ela os humanos
atribuem à realidade significações novas por
meio das quais são capazes de se relacionar
com o ausente: pela palavra, pelo trabalho,
pela memória, pela diferenciação do tempo
(passado, presente, futuro), pela diferenciação
do espaço (próximo, distante, grande,
pequeno, alto, baixo), pela diferenciação
entre o visível e o invisível (os deuses, o
passado, o distante no espaço) e pela
atribuição de valores às coisas e aos homens
(bom, mau, justo, injusto, belo, feio,
verdadeiro, falso, possível, impossível).
Comunicação (por palavras, gestos,
sinais, escrita, monumentos), trabalho
(transformação da natureza), determinação de
regras e normas para a realização do desejo,
percepção da morte e doação de sentido a ela,
percepção da diferença sexual e doação de
sentido a ela, interdições e punição das
transgressões, determinação da origem e da
forma de poder legítimo e ilegítimo, criação
de formas expressivas para a relação com o
outro com o tempo (dança, música, rituais,
guerra e paz, pintura, escultura, construção da
habitação, culinária, tecelagem, vestuário,
etc) são as principais manifestações do
surgimento da cultura.
Em termos antropológicos, podemos
então, definir a cultura como tendo três
sentidos principais:
Criação da ordem simbólica da lei,
isto é, de sistemas de interdições e
obrigações estabelecidos a partir da
atribuição de valores a coisas (boas,
más, perigosas, sagradas, diabólicas),
a humanos e suas relações (diferença
sexual e proibição do incesto,
virgindade, fertilidade, puro-impuro,
virilidade; diferença etária e forma de
tratamento dos mais velhos e mais
jovens; diferença de autoridade e
formas de relação com o poder, etc) e
aos acontecimentos (significado da
guerra, da peste, da fome, do
nascimento e da morte, obrigação de
enterrar os mortos, proibição de ver o
parto, etc);
A criação de uma ordem simbólica da
linguagem, do trabalho, do espaço, do
tempo, do sagrado e do profano, do
visível e do invisível. Os símbolos
surgem tanto para representar
quanto para interpretar a realidade,
dando-lhe sentido pela presença do
humano no mundo;
Conjunto de práticas,
comportamentos, ações e instituições
pelas quais os humanos se relacionam
25
entre si e com a natureza e dela se
distinguem, agindo sobre ela ou
através dela, modificando-a. Este
conjunto funda a organização social,
sua transformação e sua transmissão
de geração a geração.
Em sentido antropológico, não
falamos em cultura no singular, mas em
culturas, no plural, pois a lei, os valores, as
crenças, as práticas e instituições variam de
formação social para formação social.
Assim, compreendemos que a
cultura é a maneira pela qual os humanos se
humanizam por meio de práticas que criam
a existência social, econômica, política,
religiosa, intelectual e artística.
A religião, a culinária, o vestuário, o
mobiliário, as formas de habitação, os hábitos
à mesa, as cerimônias, o modo de relacionar-
se com os mais velhos e os mais jovens, com
os animais e com a terra, os utensílios, as
técnicas, as instituições sociais (como a
família) e políticas (como o Estado), os
costumes diante da morte, a guerra, o trabalho,
as ciências, a Filosofia, as artes, os jogos, as
festas, os tribunais, as relações amorosas, as
diferenças sexuais e étnicas, tudo isso constitui
a cultura como invenção da relação com o
outro.
O mundo cultural é um sistema de
significados já estabelecidos por outros, de
modo que, ao nascer, a criança encontra o
mundo de valores já dados, onde ela vai se
situar. A língua que aprende, a maneira de se
alimentar, o jeito de se sentar, andar, correr,
brincar, o tom da voz nas conversas, as
relações familiares; tudo, enfim, se acha
codificado. Até na emoção, que nos parece
uma manifestação tão espontânea, ficamos à
mercê de regras que educam desde a infância a
nossa expressão.
Etnocentrismo
Todas as culturas têm um padrão de
comportamento próprio, que parece estranho
a pessoas de outros contextos culturais. Se já
viajou ao estrangeiro, é lhe provavelmentefamiliar a sensação resultante de se encontrar
inserido numa cultura nova. Certos aspectos
da vida cotidiana que, em determinada
cultura, são inconscientemente tomados como
assentes podem, em outras partes do mundo,
não fazer parte do dia a dia. Mesmos países que
partilham a mesma língua podem ter hábitos,
costumes e modos de comportamento bem
diferentes. A expressão choque cultural é
adequada. É frequente as pessoas sentirem-se
desorientadas, quando se inserem numa cultura
nova, pois perdem os pontos de referência que
lhes são familiares e que ajudam a entender o
mundo que as rodeia e ainda não aprenderam a
orientar-se na nova cultura.
As culturas podem ser
extremamente difíceis de entender quando
vistas de fora. Não é possível compreender
crenças e práticas se as separamos das culturas
de que fazem parte. Uma cultura tem de ser
estudada segundo os seus próprios
significados e valores – um pressuposto
essencial da Sociologia. Esta ideia é também
conhecida como relativismo cultural. Os
sociólogos esforçam-se o mais possível por
evitar o etnocentrismo, que consiste em julgar
as outras culturas tomando como medida de
comparação a nossa. Dada a ampla variação
das culturas humanas, não é surpreendente que
as pessoas provenientes de uma cultura achem
frequentemente difícil aceitar as ideias ou o
modo de comportamento das pessoas de uma
diferente.
Conclusão: a cultura como conceito
antropológico
O antropólogo inglês Edward Tylor
(1832-1917) reuniu sob a palavra inglesa
culture os sentidos que, entre finais do século
XVII e começos do XIX, costumavam estar
contidos na palavra alemã Kultur (aspectos
espirituais de uma comunidade) e na palavra
francesa civilization (realizações materiais de
um povo). Tylor definiu cultura como um
“todo complexo que inclui conhecimentos,
crenças, arte, moral, leis, costumes ou
qualquer outra capacidade ou hábitos
adquiridos pelo homem como membro de
uma sociedade”. Nessa ampla definição, Tylor
incorporava todas as possibilidades de
realização humana e enfatizava o aspecto de
aprendizado da cultura (em oposição à ideia de
transmissão genética dos conhecimentos). O
aprendizado pressupunha, evidentemente, as
ideias de comunicação e linguagens
(fundamentais para a transmissão, manutenção
e transformação culturais).
A manutenção da sociedade decorria
das relações entre os homens e entre os homens
26
e a natureza. Essas relações estariam
registradas nas normas, regras, imagens,
mitos, ritos e discursos – elementos que
poderíamos chamar de representações
simbólicas. Todos esses elementos são
socialmente construídos e relacionados à
própria existência da sociedade.
CULTURA POPULAR versus CULTURA
ERUDITA
O que seria erudito? O que seria
popular? A que grupo ou classe social
poderíamos associar cada um desses
conceitos?
O “popular“ relaciona-se ao povo; o
“erudito” (conhecimento ou cultura variada,
adquiridos por meio da leitura, às elites. Essa
seria, sem dúvida, a associação mais imediata
a ser feita com esses conceitos.
Mas como defini-las e distingui-las?
Há autores que dizem já não ser possível
pensar em cultura puramente popular ou
puramente erudita, numa sociedade como a
nossa, integrada e padronizada pela cultura
de massa ou indústria cultural. Outros autores
discordam dessa postura, diferenciado não
duas, mas três culturas, em constante inter-
relação: a cultura popular, a cultura erudita e a
indústria cultural.
Não vivemos em uma sociedade
homogênea, toda produção cultural está
sujeita a avaliação que dependem da posição
social do grupo a que ela pertence. Para
exemplificar vamos estabelecer algumas
distinções, considerando as seguintes divisões:
- A Cultura Erudita é a produção acadêmica
centrada no sistema educacional, sobretudo na
universidade, produzida por uma minoria de
intelectuais.
- A Cultura Popular é identificada com
folclore, conjunto das lendas, contos e
concepções transmitidas oralmente pela
tradição. É produzida pelo homem do campo,
das cidades, do interior ou pela população
suburbana das grandes cidades.
- A Cultura de Massa é aquela resultante dos
meios de comunicação de massa. Produzida
“de cima para baixo”, impondo padrões e
homogeneíza o gosto.
Cultura erudita e cultura popular: o que são
e quem as produz?
Se quando pensamos em cultura
erudita é quase automático associá-la ao
plano da escrita e da leitura, do saber
universitário, dos debates, da teoria e do
pensamento científico, definir cultura
popular não é tão automático assim. Na
verdade, definir cultura popular representa
uma polêmica que cientistas sociais,
historiadores.
A cultura erudita é a produção
elaborada, acadêmica, centrada no sistema
educacional, sobretudo na universidade,
também conhecida como cultura de elite, por
ser produzida por uma minoria de intelectuais
das mais diversas especialidades (escritores,
artistas em geral, cientistas, tecnólogos).
Com a cultura erudita, são
produzidas as obras-primas que revolucionam
os diversos campos do saber e da ação, como
as descobertas científicas, os novos modos de
pensar, as técnicas revolucionárias, as grandes·
obras literárias ou artísticas em geral, enfim,
produtos humanos que provocam "cortes" na
maneira de pensar e agir e que, por isso, se
tornam clássicos.
Esse tipo de produção cultural é
erudito por exigir maior rigor na sua
elaboração, sendo, por isso mesmo, uma
produção elitizada, acessível a um público
restrito (tanto na sua produção como no
aproveitamento. Afinal, supõe-se que a
maioria não está interessada em física
quântica, alta filosofia ou música clássica nem
se encontra apta a compreender essa produção
sem longo preparo para tal.
Quanto à cultura popular, é
igualmente impossível dar à cultura popular
um caráter, consideradas as produções
culturais diferenciadas de camponeses,
classes médias baixas e outros setores e
subsetores sociais marginalizados. Com a
multinacionalização do capital e com a
consequente transnacionalização da cultura (na
globalização), até os grupos étnicos mais
remotos e as comunidades mais isoladas têm
que se submeter a um processo de intercâmbio
econômico, político e cultural com o seu
entorno, com as instituições governamentais,
com as estruturas de mercado.
27
O historiador inglês Peter Burke
define a cultura popular como uma cultura
não oficial, do povo comum. Nesse sentido, o
autor segue o pensamento de Gramsci, para
quem a cultura popular é a cultura do povo, e
os seus produtores são as classes subalternas.
Um pouco de história: como os intelectuais
descobriram o povo?
É interessante pensar no surgimento da
separação entre cultura erudita e cultura
popular. O historiador Peter Burke observa
que foi no final do século XVIII e início do
século XIX que os intelectuais europeus
passaram a se interessar pelo povo. Visitavam
as casas e festas dos artesãos e camponeses
para ouvir e aprender suas estórias e canções.
Quando pensavam no povo, imaginavam-no
natural, simples, analfabeto, instintivo,
irracional, enraizado na tradição e na terra, sem
nenhum sentido de individualidade.
Exatamente por isso, queriam conhecê-lo.
Primeiramente, o povo foi considerado
exótico, depois passou a ser admirado e até
mesmo imitado por alguns intelectuais.
Esse movimento de valorização do
povo pelos intelectuais teve razões estéticas,
intelectuaise também políticas. Passou-se a
valorizar a simplicidade e o encanto naturais
que caracterizavam os velhos poemas
populares e que estavam ausentes da arte
erudita do período. Esse movimento foi
também uma reação contra o Iluminismo de
Voltaire: contra seu elitismo, seu desinteresse
pela tradição, contra sua ênfase na razão.
Outro motivo para que os intelectuais
europeus se voltassem para o povo foi o
caráter sociológico que o estudo dos usos e
costumes foi adquirindo no século XVIII. A
descoberta de outros povos e a compreensão da
diversidade de suas crenças e práticas eram um
desafio fascinante e fizeram com que
intelectuais franceses, ingleses e italianos
também se debruçassem sobre o tema.
Cultura popular ou folclore?
A concepção de cultura popular ou
folclore que a maioria dos pesquisadores dos
séculos XVIII e XIX possuía, e que muitos
possuem até hoje, é de uma manifestação
tradicional e imutável, livre de interferências
estrangeiras, próxima da natureza, pura e
primitiva.
A chamada cultura popular já não é
mais o folclore. Folclore é uma palavra
cunhada pelos românticos no século XIX e
significava “a sabedoria do povo”; “Folk” =
“Povo” e “Lore” é um substantivo inglês, hoje
muito pouco usado, erudito, que significa
“sabedoria, conhecimento.”
É importante notar a presença de certa
confusão quando se pensa em cultura popular
ou em folclore. Existem pesquisadores que
preferem o termo cultura popular ao termo
folclore e há outros que não fazem nenhuma
distinção entre eles. Para Carlos Brandão, a
ideia de folclore foi-se ampliando, ao longo do
tempo, e se associando à maneira de viver do
povo, à sua capacidade de criar e recriar.
Passou a incorporar não só as festas e ritos,
mas também o cotidiano e seus produtos: a
comida, a casa, a vestimenta, os artefatos de
trabalho. E, nesse sentido – cultura popular e
folclore – querem dizer a mesma coisa.
A expressão cultura popular pode
ser entendida como uma forma mais moderna
de designar o folclore. A palavra folclore
encontra-se desgastada e tem conotações
pejorativas. A expressão cultura popular,
como vimos é também discutível. Alguns
como Canclini (1983), propõem a expressão
culturas do povo. O conceito de cultura
popular, criticado, por numerosos cientistas
sociais, vem sendo hoje largamente utilizado
no âmbito da História.
Quando pensamos em cultura
popular no Brasil, costumam vir à nossa
mente, além do carnaval e da Folia de Reis,
festas como a do Divino, São João, e bumba-
meu-boi; personagens como Negrinho do
Pastoreio, Mãe-d’água, Curupira, Saci Pererê;
músicas como samba, maxixe, xaxado, forró,
sertaneja; literatura como a de cordel,
adivinhas e ditados populares e o duelo entre
repentistas; artesanato como vasos de cerâmica
e barro cozido, carrancas de madeira que são
colocadas na proa de barcos no norte e no
nordeste do país, rendas e colchas de retalho
feitas por mulheres renderias; comidas como
feijoada, tutu de feijão, quindim, vatapá,
acarajé...
Se tentássemos, por outro lado, reunir
elementos da cultura erudita no Brasil,
falaríamos primeiramente da produção
científica e filosófica das universidades;
28
depois pensaríamos em toda a reflexão crítica
que se faz sobre a própria questão cultural.
Selecionaríamos também a produção literária
divulgada em livros, lembraríamos de filmes e
peças de teatro. Teríamos que selecionar a
poesia de um poeta como Carlos Drummond;
as obras arquitetônicas de Niemeyer; os
romances de Guimarães Rosa; a música de
Villa-Lobos, etc. Mas será realmente possível
fazer uma seleção tão precisa e definir que
todas essas produções são completamente
eruditas? No primeiro caso, seriam produções
eruditas por terem sido elaboradas nas
universidades? E, no segundo, seriam
produções eruditas por sua forma de
elaboração? Se analisarmos a obra dos
autores apontados, poderemos ver, no
entanto, como ela contém uma relação
intensa e profunda com elementos
vinculados à cultura popular, à cultura
nacional.
A INDÚSTRIA CULTURAL OU
CULTURA DE MASSA
A expressão “cultura de massa” foi
muito usada, principalmente pelos norte-
americanos. Os sociólogos americanos
criaram a expressão mass culture, que foi
moeda corrente até os anos 1950. Nos anos
1950 falava-se em mass communication, mass
culture, muitos livros traziam esses títulos.
Mas na Europa, particularmente na Alemanha,
com a Escola de Frankfurt (Adorno,
Horkheimer, filósofos marxistas) implantou-se
uma forte tendência humanista. Estes filósofos
eram críticos da cultura de massas e eles
próprios, sobretudo Adorno, julgaram que
essa expressão era inadequada, porque
cultura de massas poderia dar a impressão de
que é uma cultura produzida pelas massas;
cultura de massas, como se as massas, que são
alguma coisa anônima, (massas de uma cidade,
massas de um país – a palavra “massa” já é por
si anônima) produzissem cultura.
Indústria cultural
Conceito formulado pelos filósofos
alemães Adorno e Horkheimer, em
1947.
É fruto de uma sociedade capitalista
industrializada, onde até mesmo a
cultura é vista como produto a ser
comercializado.
É a exploração com fins econômicos e
comerciais de bens considerados
culturais.
Tudo que é produzido pelo sistema
industrializado de produção cultural
(TV, rádio, jornal, revistas, etc)
elaborado de forma a influenciar,
aumentar o consumo, transformar
hábitos, educar, informar, etc.
I.C. tem como único objetivo a
dependência e a alienação dos homens.
Ao maquiar o mundo nos anúncios que
divulga, ela acaba seduzindo as massas
para o consumo de mercadorias
culturais.
I.C. promove a resignação, manipula
as distrações, permanece ligada aos
clichês ideológicos e chavões que
perpetuam os estereótipos e que são
repetidas à exaustão.
Indústria cultural é o nome genérico
que se dá ao conjunto de empresas e
instituições cuja principal atividade econômica
é a produção de cultura, com fins lucrativos
e mercantis. No sistema de produção cultural
encaixam-se a TV, o rádio, jornais, revistas,
entretenimento em geral; que são elaborados
de forma a aumentar o consumo, modificar
hábitos, educar, informar, podendo pretender
ainda, em alguns casos, ter a capacidade de
atingir a sociedade como um todo.
Desde a década de 1990, seis empresas
transnacionais tomaram conta de 96% do
mercado mundial de música. No que se refere
ao cinema a situação é ainda mais chocante.
Mais de 90% das telas norte-americanas só
exibem filmes feitos no próprio país. O
americano comum, portanto, não conhece o
que se faz no estrangeiro. E o que se produz, na
verdade, é pouco -- 85% dos filmes exibidos
em todo o planeta brotam de Hollywood.
Para o crítico literário e escritor Umberto
Eco:
01 – Apocalípticos (Adorno e outros): aqueles
que criticam os MCM.
02 – Integrados (McLuhan): aqueles que os
elogiam.
29
Entre os motivos para a crítica dos MCM:
a) veiculação que eles realizam de uma
cultura homogênea (que desconsidera
as diferenças culturais).
b) O estímulo publicitário
c) A sua definição como simples lazer e
entretenimento, não encorajando o
público a pensar, tornando-o passivo e
conformista.
d) MCM: instrumentos para controle e
manutenção do capitalismo
Entre os motivos para elogiar os MCM:
a) MCM: única fonte de informação
possível para uma parcela significativa
da população.
b) Informações veiculadaspor eles
podem contribuir para a formação
intelectual e política.
Para a filósofa Marilena Chauí, a
indústria cultural vende cultura. Para vendê-la,
deve seduzir e agradar o consumidor. Para
seduzi-lo e agradá-lo, não pode chocá-lo,
provocá-lo, fazê-lo pensar, fazê-lo ter
informações novas que o perturbem, mas deve
devolver-lhe, com nova aparência, o que ele já
sabe, já viu, já fez. A “média” é o senso comum
cristalizado que a indústria cultural devolve
com cara de coisa nova.
Ela define a cultura como lazer e
entretenimento, diversão e distração, de modo
que tudo o que nas obras de arte e de
pensamento significa trabalho da
sensibilidade, da imaginação, da inteligência,
da reflexão e da crítica não tem interesse, não
“vende”. Massificar é, assim, banalizar a
expressão artística e intelectual. Em lugar de
difundir e divulgar a cultura, despertando
interesse por ela, a indústria cultural realiza a
vulgarização das artes e dos conhecimentos.
É dentro deste contexto que ele
formula o conceito de Indústria Cultural que
ocorre, pela primeira vez, em 1947, na obra
Dialética do Iluminismo, escrita em parceria
com Horkheimer, na qual defende que o
Iluminismo, tido como um esforço consciente
de valorização da razão .
A publicidade é, hoje, um exemplo
forte da Indústria Cultural porque ambas estão
fundidas. A função de um publicitário é fazer
com que o consumidor compre aquilo que ele
não precisa com o dinheiro que ele não tem;
ele, de fato, consegue cumpri-la: quando
produz uma propaganda, já sabe qual público
atingir porque pesquisou, anteriormente, suas
necessidades (que foram construídas por ele
próprio). Deste modo, o consumidor é o objeto
da Indústria Cultural. A Indústria Cultural
extermina o que é particular, nega a
particularização, seja a cor, a composição, a
arquitetura.
O que a Indústria Cultural fornece, de
fato, é a vida cotidiana, a verdadeira imagem
do mundo tal qual ela se apresente; ela
promove a resignação que se quer esquecer
nela, estraga o prazer, manipula as distrações,
permanece voluntariamente ligada aos clichês
ideológicos da cultura em vias de liquidação,
defende e justifica a arte física em confronto
com a arte espiritual, não tem substância e
despersonaliza o humano contra o mecanismo
social.
O melhor sinônimo para Indústria
Cultural é, hoje, a globalização: processo de
aceleração capitalista que vem ocorrendo
desde a Pré-história, mas que só recentemente
ganhou a velocidade da luz; pode criar uma
civilização genuinamente transnacional
alimentada pela exposição à tecnologia e pelas
mesmas fontes de informação; possui um
tremendo potencial para solucionar os
problemas do homem contemporâneo e pode
criar riquezas num ritmo alucinante;
Arte, Indústria Cultura e Educação
Quando a Indústria Cultural privilegia
um produto pseudo-artístico padronizado,
calculado tecnicamente para surtir efeitos
determinados de modo a serem por todos
desejados e repetidos, na forma e na medida
adequados a garantir o poder e o lucro do
sistema dominante.
Como consequência dessa
massificação, podemos considerar que o fato
de se ter acesso somente à cultura de massa
acaba por não permitir ao indivíduo a
aquisição do conhecimento de outros aspectos
culturais que expressam a cultura do povo, seus
valores e suas lutas. Em nosso entender, a
música é a expressão do pensar e do sentir das
pessoas de uma determinada época. Além de
proporcionar prazer, ela também pode
informar e conscientizar. Portanto, para nós,
30
esta postura de consumo significa estar à
margem da cultura como um todo.
Adorno considera que a Indústria
Cultural prostitui os valores estéticos da arte,
dando-lhe uma falsa imagem. A música
tornou-se um fundo convencionalmente
necessário e repetitivo. O público a escuta de
forma infantil ou não a escuta. Vemos que essa
crítica é muito atual quando sintonizamos
qualquer emissora de rádio ou de televisão
preocupadas, tão somente, com o sentido
mercadológico da arte musical. Os ritmos e as
letras das músicas são sempre idênticos, não
acrescentando absolutamente nada à nossa
formação cultural e como pessoa.
As implicações da chamada "música
de mercado" influenciam, tanto no aspecto
cultural como no social, a formação das
crianças. De maneira especial, seduzem-nas
pela sensualidade das danças e das letras
musicais, acarretando um desenvolvimento
precoce de aspectos da sexualidade que
atropelam, de alguma forma, seu
desenvolvimento afetivo. Isso sem falar em
outros aspectos, pois o vocabulário pobre e
equivocado de muitas músicas acaba por
interferir, também, em seu processo de
desenvolvimento cognitivo. Veja este funk:
“Mas se liga aí novinha, por favor tu não se
engane. Abre as pernas e relaxa. Que esse é o
Bonde do Inhame. Que esse é o Bonde do
Inhame. Esse é o bonde dos cria que enfogueta
as novinhas. Esse é o bonde dos cria que
enfogueta as novinhas. Vai na treta do Nem
que a Kátia tá também eeemmm. Larga o
inhame na Silvinha.”
No dizer de Adorno, a música atual,
ao invés de entreter, parece contribuir "para o
emudecimento dos homens, para a morte da
linguagem como expressão, para a
incapacidade de comunicação".
A música de entretenimento
preenche os vazios do silêncio que se instalam
entre as pessoas deformadas pelo medo, pelo
cansaço e pela docilidade de escravos sem
exigências. Assume ela em toda parte, e sem
que se perceba, o trágico papel que lhe
competia ao tempo e na situação específica do
cinema mudo. A música de entretenimento
serve ainda e apenas como fundo.
Contracultura
Contracultura é um movimento que
teve seu auge na década de 1960, quando teve
lugar um estilo de mobilização e
contestação social e utilizando novos meios de
comunicação em massa. Jovens inovando
estilos, voltando-se mais para o antissocial aos
olhos das famílias mais conservadoras, com
um espírito mais libertário, resumido como
uma cultura underground, cultura
alternativa ou cultura marginal, focada
principalmente nas transformações
da consciência, dos valores e do
comportamento, na busca de outros espaços e
novos canais de expressão para o indivíduo e
pequenas realidades do cotidiano, embora o
movimento Hippie, que representa esse auge,
almejasse a transformação da sociedade como
um todo, através da tomada de consciência, da
mudança de atitude e do protesto político.
O Festival de Woodstock foi um marco da
Contracultura. A contracultura pode ser
definida como um ideário altercador que
questiona valores centrais vigentes e
instituídos na cultura ocidental.
3.3 Multiculturalismo
Hibridismo, diversidade étnica e
racial, novas identidades políticas e culturais:
estes são termos diretamente relacionados
ao multiculturalismo. Se a diversidade
cultural acompanha a história da humanidade, o
acento político nas diferenças culturais data da
intensificação dos processos de globalização
econômica que anunciam, segundo os analistas,
uma nova fase do capitalismo, denominada por
autores como Ernest Mandel de "capitalismo
tardio" e por outros, como Daniel Bell, de
"sociedade pós-industrial". A despeito das
querelas acerca das origens dessa nova fase, o
fato é que as discussões acerca do
multiculturalismo acompanham os debates
sobre o pós-modernismo e sobre os efeitos da
pós-colonização na cena contemporânea, o que
se verifica de forma mais evidente a partir dos
anos 1970, sobretudonos Estados Unidos. A
globalização do capital e a circulação
intensificada de informações, com a ajuda de
novas tecnologias, longe de uniformizar o
planeta (como propalado por certas
interpretações fatalistas), trazem a afirmação de
identidades locais e regionais, assim como a
31
formação de sujeitos políticos que
reivindicam, com base em garantias
igualitárias, o direito à diferença. Mulheres,
negros (ou afro-americanos), homossexuais,
populações latino-americanas ("hispanos" ou
chicanos) e migrantes em geral se fazem
presentes como atores políticos com
a marcação de diferenças de gênero, culturais
e étnicas. A cultura torna-se instrumento de
definição de políticas de inclusão social - as
"políticas compensatórias" ou as "ações
afirmativas" - que tomam os diversos setores da
vida social. Cotas para minorias, educação
bilíngue, programas de apoio aos grupos
marginalizados, ações antirracistas e
antidiscriminatórias são experimentadas em
toda parte.
Primeiro, é conveniente esclarecer as
diferenças entre multiculturalismo, pluralismo,
universalismo e relativismo. O pluralismo é
uma característica de sociedades livres, em que
há a convivência pacífica e respeitosa entre
pensamentos diferentes, atualmente encontrada
nos Estados Democráticos de Direito. Não se
pode falar em um pensamento melhor que outro,
pois todos são dignos de respeito. O pluralismo
combate o pensamento único, o que contraria
uma das tendências do processo de globalização.
O fenômeno da globalização não admite
diálogo ou outra opção; se é universal, não pode
ser local. Não existe alternativa possível, o
mundo deve ser unipolar. Pauta-se por uma ética
individualista, mas sem liberdade para o
indivíduo seguir qualquer plano de vida. Há um
único modelo a ser seguido. A globalização
como projeto político e econômico transmuta-se
no neoliberalismo (democracia + livre
mercado) e repercute na seara dos direitos
humanos com o plano de diminuição dos direitos
sociais, econômicos e culturais, bem como com
a sobrevalorização dos direitos de propriedade.
Não existem mais pessoas ou cidadãos, mas
clientes. O projeto político mundial é conduzido
conforme interesse de grandes multinacionais ou
transnacionais.
No multiculturalismo, existe a
convivência em um país, região ou local de
diferentes culturas e tradições. Há uma mescla
de culturas, de visões de vida e valores. O
multiculturalismo é pluralista, como já se pode
observar, pois aceita diversos pensamentos
sobre um mesmo tema, abolindo o pensamento
único. Há o diálogo entre culturas diversas para
a convivência pacífica e com resultados
positivos a ambas.
O problema reside no fato de que o
multiculturalismo pode ser abordado de
forma relativista e de forma universalista. Há
a abordagem relativista quando não se
estabelecem critérios mínimos para o diálogo
entre culturas, isto é, tudo é aceito e tudo é
correto. O julgamento interno é mais importante
do que o julgamento externo (da sociedade
internacional). Nessa concepção do
multiculturalismo, não se pode falar em direitos
humanos universais, pois cada cultura é livre
para estabelecer seus próprios valores e direitos.
Não existe a possibilidade de proteção
internacional dos direitos humanos nessa visão.
O multiculturalismo também pode
ser universalista, ou seja, permitir a propagação
e convívio de diferentes ideias, desde que esteja
estabelecido um denominador mínimo, comum
entre as partes para o início do diálogo (valores
universais). Esse mínimo a ser respeitado são os
direitos humanos.
No multiculturalismo universalista,
pode-se defender o caráter geral da Declaração
Universal de Direitos Humanos (para todos, em
qualquer nação, em qualquer tempo). Esta seria
a base para o convívio entre os povos. Imaginem
se em um condomínio não existissem regras de
convivência, sobre como possuir animais, sobre
como jogar o lixo fora, sobre os horários de
festas etc. Imaginem se todas as atitudes de
quaisquer moradores fossem aceitas.
Provavelmente, os conflitos seriam maiores.
Como realizar intervenções humanitárias? No
relativismo o peso da soberania ganha novo
fôlego na sociedade internacional, podendo
justificar inação dos agentes globais e graves
violações aos direitos humanos.
Assim, a defesa dos direitos
humanos universais é compatível com o
pluralismo e com o multiculturalismo
universalista, mas é totalmente inviável em um
ambiente de multiculturalismo relativista.
Pode-se dizer que é uma visão ocidental e
limitada, mas não vejo possibilidade em
conciliar toda e qualquer prática em nosso
mundo. Não consigo ver como aceitável ou
com a possibilidade de me adaptar à
circuncisão feminina em diversos países da
África do Norte, à discriminação feminina em
32
diversos países, a sacrifícios humanos etc. O
direito à diferença e o respeito às tradições
culturais devem ter um limite, e este limite são
os direitos humanos.
História e Cultura Afro-Brasileira e
Indígena
A força da cultura dos negros e
indígenas pode ser vista em todos os momentos
cotidianos da vida. Nos seus modos diversos de
falar, andar, comer, orar, celebrar e brincar,
estão inscritas as marcas civilizatórias desses
povos que, ancorados na dimensão do sagrado,
celebram e respeitam a vida e a morte,
mantendo uma relação ética com a natureza. É
através destas formas cotidianas de se
expressar e de ver o mundo que indígenas e
afro-brasileiros têm resistido culturalmente na
manutenção de sua história.
A importância de crianças e
adolescentes, independente da raça, etnia ou
cor da pele, serem estimuladas a reconhecer e
valorizar as identidades culturais da sua região
– que podem estar presentes em quilombos,
terreiros, aldeias, bairros populares,
assentamentos e outros territórios – é que elas
podem se orgulhar de que a cultura da sua
localidade integra a diversidade que
caracteriza a cultura brasileira.
Educação, relações étnico-raciais e a Lei
10.639/03
A Lei nº 10.639/03 estabelece a
obrigatoriedade do ensino da história e
cultura afro-brasileiras e africanas nas
escolas públicas e privadas do ensino
fundamental e médio. É nesse mesmo
contexto que foi aprovado, em 2009, o Plano
Nacional das Diretrizes Curriculares Nacionais
para a Educação das Relações Étnico-Raciais e
para o Ensino de História e Cultura Afro-
Brasileira e Africana.
Ele se insere em um processo de luta
pela superação do racismo na sociedade
brasileira e tem como protagonistas o
Movimento Negro e os demais grupos e
organizações partícipes da luta antirracista.
Revela também uma inflexão na postura do
Estado, ao pôr em prática iniciativas e
práticas de ações afirmativas na educação
básica brasileira, entendidas como uma forma
de correção de desigualdades históricas que
incidem sobre a população negra em nosso
país.
É sabido o quanto a produção do
conhecimento interferiu e ainda interfere na
construção de representações sobre o negro
brasileiro e, no contexto das relações de poder,
tem informado políticas e práticas tanto
conservadoras quanto emancipatórias no trato
da questão étnico-racial e dos seus sujeitos. No
início do século XXI, quando o Brasil revela
avanços na implementação da democracia e
na superação das desigualdades sociais e
raciais, é também um dever democrático da
educação escolar e das instituições públicas
e privadas de ensino a execuçãode ações,
projetos, práticas, novos desenhos
curriculares e novas posturas pedagógicas
que atendam ao preceito legal da educação
como um direito social e incluam nesse o
direito à diferença.
A referida determinação da Lei de
Diretrizes e Bases da Educação visa, educar a
todos os brasileiros e brasileiras para que
conheçam, respeitem e valorizem uma das
raízes fundadoras de sua cultura e
nacionalidade, a africana. O que precisa ser
mudada não é a imagem dos negros, mas a
imagem negativa que a sociedade criou e
fomenta como se fosse própria deles. Uma
imagem que muitos brasileiros, que pretendem
manter privilégios e direitos para si próprios e
seus grupos originários, cultivam, tentando
fazer com que todos partilhem do ideal de fazer
do Brasil uma nação monocultural, de raiz
predominantemente europeia.
Os sistemas de ensino e as escolas de
diferentes níveis da educação – infantil ao
superior – são espaços necessários e
competentes para combater o racismo e
discriminações, assegurando, conforme consta
do Parecer CNE/CP3/2004, “o direito à
igualdade de condições de vida e cidadania”,
assim como garantindo “igual direito às
histórias e culturas que compõem a nação
brasileira, além do direito de acesso a
diferentes fontes da cultura nacional a todos os
brasileiros”.
É nesse contexto que a referida lei
pode ser entendida como uma medida de
ação afirmativa. As ações afirmativas são
políticas, projetos e práticas públicas e
privadas que visam à superação de
desigualdades que atingem historicamente
determinados grupos sociais, a saber:
33
negros, mulheres, homossexuais, indígenas,
pessoas com deficiência, entre outros. Tais
ações são passíveis de avaliação e têm caráter
emergencial, sobretudo no momento em que
entram em vigor. Elas podem ser realizadas por
meio de cotas, projetos, leis, planos de ação,
etc.
É importante desmistificar a ideia de
que tais políticas só podem ser implementadas
por meio da política de cotas e que, na
educação, somente o ensino superior é passível
de ações afirmativas. Tais políticas possuem
caráter mais amplo, denso e profundo. Ao
considerar essa dimensão, a Lei nº 10.639/03
pode ser interpretada como uma medida de
ação afirmativa, uma vez que tem como
objetivo afirmar o direito à diversidade
étnico-racial na educação escolar, romper
com o silenciamento sobre a realidade
africana e afro-brasileira nos currículos e
práticas escolares e afirmar a história, a
memória e a identidade de crianças,
adolescentes, jovens e adultos negros na
educação básica e de seus familiares.
Ao introduzir a discussão sistemática
das relações étnico-raciais e da história e
cultura africanas e afro-brasileiras, essa
legislação impulsiona mudanças
significativas na escola básica brasileira,
articulando o respeito e o reconhecimento à
diversidade étnico-racial com a qualidade
social da educação. Ela altera uma lei
nacional, a saber, a Lei nº 9.394/96 – Lei de
Diretrizes e Bases da Educação Nacional
(LDB) –, incluindo e explicitando nesta que o
cumprimento da educação enquanto direito
social passa necessariamente pelo
atendimento democrático da diversidade
étnico-racial e por um posicionamento
político de superação do racismo e das
desigualdades raciais. É importante
compreender, então, que a Lei nº 10.639/03
representa uma importante alteração da LDB,
por isso, o seu cumprimento é obrigatório para
todas as escolas e sistemas de ensino. Estamos
falando, portanto, não de uma lei específica,
mas, sim, da legislação que rege toda a
educação nacional.
Por mais que ainda tenhamos
resistência em relação ao teor dessa Lei que
altera a LDB e suas Diretrizes Curriculares, e
por mais que o seu cumprimento ainda esteja
aquém do esperado, é preciso reconhecer que a
sua aprovação tem causado impactos e
inflexões na educação escolar brasileira, como:
ações do MEC e dos sistemas de ensino no que
se refere à formação de professores para a
diversidade étnico-racial; novas perspectivas
na pesquisa sobre relações raciais, no
Brasil; visibilidade à produção de
intelectuais negros sobre as relações raciais
em nossa sociedade; inserção de docentes da
educação básica e superior na temática
africana e afro-brasileira; ampliação da
consciência dos educadores de que a questão
étnico-racial diz respeito a toda a sociedade
brasileira, e não somente aos negros; e
entendimento do trato pedagógico e
democrático da questão étnico-racial como um
direito.
As relações étnico-raciais
Todo esse processo e a própria
existência da Lei nº 10.639/03 se localizam em
um campo mais complexo e tenso, isto é, o
contexto das relações étnico-raciais. Mas,
afinal, o que queremos dizer com o termo
“relações étnico-raciais” ao pensarmos em
projetos, políticas e práticas voltadas para a
implementação da Lei nº 10.639/03 enquanto
uma alteração da Lei nº 9394/96 – LDB? São
relações imersas na alteridade e construídas
historicamente nos contextos de poder e das
hierarquias raciais brasileiras, nos quais a
raça opera como forma de classificação
social, demarcação de diferenças e
interpretação política e identitária. Trata-se,
portanto, de relações construídas no processo
histórico, social, político, econômico e
cultural.
Mas o que queremos dizer com os
conceitos raça e etnia quando os introduzimos
na reflexão sobre as relações étnico-raciais?
Nos limites deste artigo, destacaremos alguns
aspectos considerados principais. O primeiro
deles se refere à concepção de raça presente
nesta reflexão.
Sociólogos, antropólogos, psicólogos
sociais e educadores, bem como o Movimento
Negro, quando usam o conceito de raça, não
o fazem alicerçados na ideia de raças
superiores e inferiores como originalmente
foi usado pela ciência no século XIX. Pelo
contrário, usam-no com uma nova
interpretação que se baseia na dimensão
social e política dele. E ainda o empregam
porque a discriminação racial e o racismo
34
existentes na sociedade brasileira se dão não
apenas em razão dos aspectos culturais
presentes na história e na vida dos
descendentes de africanos, no Brasil e na
diáspora, mas também graças à relação que se
faz entre esses e os aspectos físicos
observáveis na estética corporal desses
sujeitos.
A forma como a raça opera em nossa
sociedade possibilita, portanto, que militantes
do Movimento Negro e um grupo de
intelectuais não abandonem o conceito de raça
para falar sobre a realidade do negro brasileiro,
mas o adotem de maneira ressignificada.
Nesse sentido, rejeitam o sentido biológico
de raça, já que todos sabem e concordam com
os avanços da ciência de que não existem raças
humanas. O conceito de raça é adotado, nessa
perspectiva, com um significado político e
identitário construído com base na análise
do tipo de racismo que existe no contexto
brasileiro, as suas formas de superação e
considerando as dimensões histórica e cultural
a que esse processo complexo nos remete.
Não podemos negar que, na construção
das sociedades, na forma como os negros e os
brancos são vistos e tratados no Brasil, a raça
tem uma operacionalidade na cultura e na vida
social. Se ela não tivesse esse peso, as
particularidades e características físicas não
seriam usadas por nós para classificar e
identificar quem é negro e quem é branco no
Brasil. E mais, não seriam usadas para
discriminar e negar direitos e oportunidades
aos negros em nosso país.
É importante destacarque, nesse
sentido, as raças são compreendidas como
construções sociais, políticas e culturais
produzidas no contexto das relações de
poder ao longo do processo histórico. Não
significam, de forma alguma, um dado da
natureza. É na cultura e na vida social que
nós aprendemos a enxergar as raças. Isso
significa que aprendemos a ver as pessoas
como negras e brancas e, por conseguinte, a
classificá-las e a perceber suas diferenças no
contato social, na forma como somos educados
e socializados a ponto de essas ditas diferenças
serem introjetadas em nossa forma de ser e ver
o outro, na nossa subjetividade, nas relações
sociais mais amplas. Aprendemos, na cultura e
na sociedade, a perceber as diferenças, a
comparar, a classificar. Se as coisas ficassem
só nesse plano, não teríamos tantos
complicadores. O problema é que, nesse
mesmo contexto, aprendemos a hierarquizar as
classificações sociais, raciais, de gênero, entre
outras. Ou seja, também vamos aprendendo a
tratar as diferenças de forma desigual.
O segundo aspecto a destacar, quando
adotamos a expressão relações étnico-raciais
para compreender as formas como negros e
brancos se relacionam em nosso país, refere-
se ao conceito de etnia. Geralmente, aqueles
que o adotam o fazem por acharem que, se
falarmos em raça, mesmo que de forma
ressignificada, acabamos presos ao
determinismo biológico, o qual já foi abolido
pela biologia e pela genética.
É fato que, durante muitos anos, o
uso do termo raça na área das ciências, da
biologia, nos meios acadêmicos, pelo poder
político e na sociedade, de modo geral, esteve
ligado à dominação político-cultural de um
povo em detrimento de outro, de nações em
detrimento de outras, e possibilitou tragédias
mundiais, como foi o caso do nazismo. A
Alemanha nazista utilizou-se da ideia de
raças humanas para reforçar a sua tentativa
de dominação política e cultural e penalizou
vários grupos sociais e étnicos que viviam na
Alemanha e nos países aliados ao ditador
Hitler, no contexto da Segunda Guerra
Mundial (1939-1945).
História e Cultura Afro-Brasileira e
Africana – Determinações
A obrigatoriedade de inclusão de
História e Cultura Afro-Brasileira e Africana
nos currículos da Educação Básica trata-se de
decisão política, com fortes repercussões
pedagógicas, inclusive na formação de
professores. Com esta medida, reconhece-se
que, além de garantir vagas para negros nos
bancos escolares, é preciso valorizar
devidamente a história e cultura de seu povo,
buscando reparar danos, que se repetem há
cinco séculos, à sua identidade e a seus
direitos. A relevância do estudo de temas
decorrentes da história e cultura afro-brasileira
e africana não se restringe à população negra,
ao contrário, dizem respeito a todos os
brasileiros, uma vez que devem educar-se
enquanto cidadãos atuantes no seio de uma
sociedade multicultural e pluriétnica, capazes
de construir uma nação democrática.
35
Precisa, o Brasil, país multiétnico e
pluricultural, de organizações escolares em que
todos se vejam incluídos, em que lhes seja
garantido o direito de aprender e de ampliar
conhecimentos, sem ser obrigados a negar a si
mesmos, ao grupo étnico/racial a que
pertencem e a adotar costumes, ideias e
comportamentos que lhes são adversos. E
estes, certamente, serão indicadores da
qualidade da educação que estará sendo
oferecida pelos estabelecimentos de ensino de
diferentes níveis.
Entre a população indígena, a luta
maior é por uma educação escolar
diferenciada, que respeite a sua diversidade
cultural e linguística, garantida pela
Constituição de 1988 e pela Resolução 03 da
Câmara de Educação Básica – CEB, de
novembro de 1999.
Segundo o Censo Escolar de 2003,
existem 149.311 estudantes indígenas que
frequentam a educação básica no Brasil, em
mais de 2000 escolas indígenas.
Indígenas e afro-brasileiros ainda são
vistos na escola de forma preconceituosa e
estereotipada, ou seja, sem respeito a suas
características étnicas e culturais. Dois
documentos podem ajudar a comunidade e a
escola a mudar essa visão, com uma
abordagem que garanta os direitos
educacionais e culturais dessas populações.
3º texto - O conhecimento em seus diversos
aspectos
Introdução
No processo de apreensão da realidade
do objeto, o sujeito cognoscente pode penetrar
em todas as esferas do conhecimento: ao
estudar o homem, por exemplo, pode-se tirar
uma série de conclusões sobre a sua atuação
na sociedade, baseada no senso comum ou na
experiência cotidiana; pode-se analisá-lo como
um ser biológico, verificando através de
investigação experimental, as relações
existentes entre determinados órgãos e suas
funções; pode-se questioná-lo quanto à sua
origem e destino, assim como quanto à sua
liberdade; finalmente, pode-se observá-lo
como ser criado pela divindade, à sua imagem
e semelhança, e meditar sobre o que dele dizem
os textos sagrados.
Apesar da separação metodológica
entre os tipos de conhecimento popular,
filosófico, religioso e científico, estas formas
de conhecimento podem coexistir na mesma
pessoa: um cientista, voltado, por exemplo, ao
estudo da física, pode ser crente praticante de
determinada religião, estar filiado a um sistema
filosófico e, em muitos aspectos de sua vida
cotidiana, agir segundo conhecimentos
provenientes do senso comum.
Ao se falar em conhecimento
científico, o primeiro passo consiste em
diferenciá-lo de outros tipos de conhecimento
existentes. Para tal, analisemos uma situação
histórica, que pode servir de exemplo.
Desde a Antiguidade, até aos nossos
dias, um camponês, mesmo iletrado e/ou
desprovido de outros conhecimentos, sabe o
momento certo da semeadura, a época da
colheita, a necessidade da utilização de adubos,
as providências a serem tomadas para a defesa
das plantações de ervas daninhas e pragas e o
tipo de solo adequado para as diferentes
culturas. Tem também conhecimento de que o
cultivo do mesmo tipo, todos os anos, no
mesmo local, exaure o solo. Já no período
feudal, o sistema de cultivo era em faixas: duas
cultivadas e uma terceira "em repouso",
alternando-as de ano para ano, nunca
cultivando a mesma planta, dois anos seguidos,
numa única faixa. O início da Revolução
Agrícola não se prende ao aparecimento, no
século XVIII, de melhores arados, enxadas e
outros tipos de maquinaria, mas à introdução,
na segunda metade do século XVII, da cultura
do nabo e do trevo, pois seu plantio evitava o
desperdício de deixar a terra em pousio: seu
cultivo "revitalizava" o solo, permitindo o uso
constante. Hoje, a agricultura utiliza-se de
sementes selecionadas, de adubos químicos, de
defensivos contra as pragas e tenta-se, até, o
controle biológico dos insetos daninhos.
Mesclam-se, neste exemplo, dois
tipos de conhecimento: o primeiro, vulgar ou
popular, geralmente típico do camponês,
transmitido de geração para geração por meio
da educação informal e baseado em imitação e
experiência pessoal; portanto, empírico e
desprovido de conhecimento sobre a
composição do solo, das causas do
desenvolvimento das plantas, da natureza das
36
pragas, do ciclo reprodutivo dos insetos etc.; o
segundo, científico, é transmitido por
intermédio de treinamento apropriado, sendo
um conhecimento obtido de modo racional,
conduzido por meio de procedimentos
científicos. Visa explicar "por que" e "como"os fenômenos ocorrem, na tentativa de
evidenciar os fatos que estão correlacionados,
numa visão mais globalizante do que a
relacionada com um simples fato - uma cultura
específica, de trigo, por exemplo.
1. Os quatro tipos de conhecimento
Existem pelo menos quatro tipos
fundamentais de conhecimento, que são: o
conhecimento popular (senso comum),
conhecimento científico, conhecimento
filosófico e conhecimento religioso
(teológico). Trujillo (1974, p.11) sistematiza as
características dos quatro tipos de
conhecimento:
Conhecimento
Popular
Conhecimento
Científico
Valorativo Real (factual)
Reflexivo Contingente (incerto,
eventual)
Assistemático Sistemático
Verificável Verificável
Falível Falível
Inexato Aproximadamente
exato
Conhecimento
Filosófico
Conhecimento
Religioso
(Teológico)
Valorativo Valorativo
Racional Inspiracional
Sistemático Sistemático
Não Verificável Não Verificável
Infalível Infalível
Exato Exato
1.1 Conhecimento Popular
O conhecimento popular é valorativo
por excelência, pois se fundamenta numa
seleção operada com base em estados de ânimo
e emoções: como o conhecimento implica uma
dualidade de realidades, isto é, de um lado o
sujeito cognoscente (indivíduo capaz de
adquirir conhecimento) e, de outro, o objeto
conhecido, e este é possuído, de certa forma
pelo cognoscente, os valores do sujeito
impregnam o objeto conhecido. É também
reflexivo, mas, estando limitado pela
familiaridade com o objeto, não pode ser
reduzido a uma formulação geral. A
característica de assistemático baseia-se na
"organização" particular das experiências
próprias do sujeito cognoscente, e não em uma
sistematização das ideias, na procura de uma
formulação geral que explique os fenômenos
observados, aspecto que dificulta a
transmissão, de pessoa a pessoa, desse modo
de conhecer. É verificável, visto que está
limitado ao âmbito da vida diária e diz respeito
àquilo que se pode perceber no dia-a-dia.
Finalmente é falível e inexato, pois se
conforma com a aparência e com o que se
ouviu dizer a respeito do objeto. Em outras
palavras, não permite a formulação de
hipóteses sobre a existência de fenômenos
situados além das percepções objetivas.
Características do Conhecimento Popular
"Se o ‘bom-senso’, apesar de sua
aspiração à racionalidade e objetividade, só
consegue atingir essa condição de forma muito
limitada", pode-se dizer que o conhecimento
vulgar ou popular, latu sensu, é o modo
comum, corrente e espontâneo de conhecer,
que se adquire no trato direto com as coisas e
os seres humanos: "é o saber que preenche
nossa vida diária e que se possui sem o haver
procurado ou estudado, sem a aplicação de um
método e sem se haver refletido sobre algo"
(BABINI, 1957, p.21).
Para Ander-Egg (1978, p.13-14), o
conhecimento popular caracteriza-se por ser
predominantemente:
superficial, isto é, conforma-se com a
aparência, com aquilo que se pode comprovar
simplesmente estando junto das coisas:
expressa-se por frases como "porque o vi",
"porque o senti", "porque o disseram", "porque
todo mundo o diz";
sensitivo, ou seja, referente a vivências,
estados de ânimo e emoções da vida diária;
subjetivo, pois é o próprio sujeito que organiza
suas experiências e conhecimentos, tanto os
que adquire por vivência própria quanto os
"por ouvi dizer";
assistemático, pois esta "organização" das
experiências não visa a uma sistematização das
37
ideias, nem na forma de adquiri-las nem na
tentativa de validá-las;
acrítico, pois, verdadeiros ou não, a pretensão
de que esses conhecimentos o sejam não se
manifesta sempre de uma forma crítica.
1.2 Conhecimento Filosófico
O conhecimento filosófico é
valorativo, pois seu ponto de partida consiste
em hipóteses, que não poderão ser submetidas
à observação: "as hipóteses filosóficas
baseiam-se na experiência, portanto, este
conhecimento emerge da experiência e não da
experimentação" (TRUJILLO, 1974.p. 12);
por este motivo, o conhecimento filosófico é
não verificável, já que os enunciados das
hipóteses filosóficas, ao contrário do que
ocorre no campo da ciência, não podem ser
confirmados nem refutados. É racional, em
virtude de consistir num conjunto de
enunciados logicamente correlacionados. Tem
a característica de sistemático, pois suas
hipóteses e enunciados visam a uma
representação coerente da realidade estudada,
numa tentativa de apreendê-la em sua
totalidade. Por último, é infalível e exato, já
que, quer na busca da realidade capaz de
abranger todas as outras, quer na definição do
instrumento capaz de apreender a realidade,
seus postulados, assim como suas hipóteses,
não são submetidos ao decisivo teste da
observação (experimentação). Portanto, o
conhecimento filosófico é caracterizado pelo
esforço da razão pura para questionar os
problemas humanos e poder discernir entre o
certo e o errado, unicamente recorrendo às
luzes da própria razão humana. Assim, se o
conhecimento científico abrange fatos
concretos, positivos, e fenômenos perceptíveis
pelos sentidos, através do emprego de
instrumentos, técnicas e recursos de
observação, o objeto de análise da filosofia
são ideias, relações conceptuais, exigências
lógicas que não são redutíveis a realidades
materiais e, por essa razão, não são passíveis
de observação sensorial direta ou indireta (por
instrumentos), como a que é exigida pela
ciência experimental. O método por
excelência da ciência é o experimental: ela
caminha apoiada nos fatos reais e concretos,
afirmando somente aquilo que é autorizado
pela experimentação. Ao contrário, a filosofia
emprega "o método racional, no qual prevalece
o processo dedutivo, que antecede a
experiência, e não exige confirmação
experimental, mas somente coerência lógica"
(RUIZ, 1979, p. 110). O procedimento
científico leva a circunscrever, delimitar,
fragmentar e analisar o que se constitui o
objeto da pesquisa, atingindo segmentos da
realidade, ao passo que a filosofia encontra-se
sempre à procura do que é mais geral,
interessando-se pela formulação de uma
concepção unificada e unificante do universo.
Para tanto, procura responder às grandes
indagações do espírito humano e, até, busca as
leis mais universais que englobem e
harmonizem as conclusões da ciência.
1.3 Conhecimento Religioso
O conhecimento religioso, isto é,
teológico, apoia-se em doutrinas que contêm
proposições sagradas (valorativas), por terem
sido reveladas pelo sobrenatural
(inspiracional) e, por esse motivo, tais
verdades são consideradas infalíveis e
indiscutíveis (exatas); é um conhecimento
sistemático do mundo (origem, significado,
finalidade e destino) como obra de um criador
divino; suas evidências não são verificadas:
está sempre implícita uma atitude de fé perante
um conhecimento revelado. Assim, o
conhecimento religioso ou teológico parte do
princípio de que as "verdades" tratadas são
infalíveis e indiscutíveis, por consistirem em
"revelações" da divindade (sobrenatural). A
adesão das pessoas passa a ser um ato de fé,
pois a visão sistemática do mundo é
interpretada como decorrente do ato de um
criador divino, cujas evidências não são postas
em dúvida nem sequer verificáveis. A postura
dos teólogos e cientistas diante da teoria da
evolução das espécies, particularmente do
Homem, demonstra as abordagens diversas: deum lado, as posições dos teólogos
fundamentam-se nos ensinamentos de textos
sagrados; de outro, os cientistas buscam, em
suas pesquisas, fatos concretos capazes de
comprovar (ou refutar) suas hipóteses. Na
realidade, vai-se mais longe. Se o fundamento
do conhecimento científico consiste na
evidência dos fatos observados e
experimentalmente controlados, e o do
conhecimento filosófico e de seus enunciados,
na evidência lógica, fazendo com que em
ambos os modos de conhecer deve a evidência
38
resultar da pesquisa dos fatos ou da análise dos
conteúdos dos enunciados, no caso do
conhecimento teológico o fiel não se detém
nelas à procura de evidência, pois a toma da
causa primeira, ou seja, da revelação divina.
1.4 Conhecimento Científico
Finalmente, o conhecimento científico
é real (factual) porque lida com ocorrências ou
fatos, isto é, com toda "forma de existência que
se manifesta de algum modo" (TRUJILO,
1974, p. 14). Constitui um conhecimento
contingente, pois suas proposições ou
hipóteses têm sua veracidade ou falsidade
conhecida através da experiência e não apenas
pela razão, como ocorre no conhecimento
filosófico. É sistemático, já que se trata de um
saber ordenado logicamente, formando um
sistema de ideias (teoria) e não conhecimentos
dispersos e desconexos. Possui a característica
da verificabilidade, a tal ponto que as
afirmações (hip6teses) que não podem ser
comprovadas não pertencem ao âmbito da
ciência. Constitui-se em conhecimento falível,
em virtude de não ser definitivo, absoluto ou
final e, por este motivo, é aproximadamente
exato: novas proposições e o desenvolvimento
de técnicas podem reformular o acervo de
teoria existente.
Apesar da separação "metodológica"
entre os tipos de conhecimento popular,
filosófico, religioso e científico, no processo de
apreensão da realidade do objeto, o sujeito
cognoscente pode penetrar nas diversas áreas:
ao estudar o homem, por exemplo, pode-se
tirar uma série de conclusões sobre sua atuação
na sociedade, baseada no senso comum ou na
experiência cotidiana; pode-se analisá-lo como
um ser biol6gico, verificando, através de
investigação experimental, as relações
existentes entre determinados órgãos e suas
funções; pode-se questioná-lo quanto à sua
origem e destino, assim como quanto à sua
liberdade; finalmente, pode-se observá-lo
como ser criado pela divindade, à sua imagem
e semelhança, e meditar sobre o que dele dizem
os textos sagrados.
Por sua vez, estas formas de
conhecimento podem coexistir na mesma
pessoa: um cientista, voltado, por exemplo, ao
estudo da física, pode ser crente praticante de
determinada religião, estar filiado a um sistema
Filosófico e, em muitos aspectos de sua vida
cotidiana, agir segundo conhecimentos
provenientes do senso comum.
3- CONCEITO DE CIÊNCIA
Diversos autores tentaram definir o
que se entende por ciência. Consideramos mais
precisa a definição de Trujillo Ferrari, expressa
em seu livro Metodologia da ciência.
Entendemos por ciência uma
sistematização de conhecimentos, um conjunto
de proposições logicamente correlacionadas
sobre o comportamento de certos fenômenos
que se deseja estudar: "A ciência é todo um
conjunto de atitudes e atividades racionais,
dirigidas ao sistemático conhecimento com
objeto limitado, capaz de ser submetido à
verificação" (1974, p.8).
As ciências possuem:
a) Objetivo ou finalidade. Preocupação em
distinguir a característica comum ou as leis
gerais que regem determinados eventos.
b) Função, Aperfeiçoamento, através do
crescente acervo de conhecimentos, da relação
do homem com o seu mundo.
c) Objeto. Subdividido em:
material, aquilo que se pretende estudar,
analisar, interpretar ou verificar, de modo
geral;
formal, o enfoque especial, em face das
diversas ciências que possuem o mesmo objeto
material.
3.1 CLASSIFICAÇÃO E DIVISÃO DA
CIÊNCIA
A complexidade do universo e a
diversidade de fenômenos que nele se
manifestam, aliadas à necessidade do homem
de estudá-los para poder entendê-los e explicá-
los, levaram ao surgimento de diversos ramos
de estudo e ciências específicas. Estas
necessitam de uma classificação, quer de
acordo com sua ordem de complexidade, quer
de acordo com seu conteúdo: objeto ou temas,
diferença de enunciados e metodologia
empregada.
3.1.1 Ciências Exatas e Ciências Humanas
Uma ciência exata é qualquer campo
da ciência capaz de expressões quantitativas e
predições precisas e métodos rigorosos de
39
testar hipóteses, especialmente os
experimentos reprodutíveis envolvendo
predições e medições quantificáveis.
Matemática, Estatística, Física, Química,
assim como partes da Biologia, Psicologia, e
Economia podem ser consideradas ciências
exatas nesse sentido. O termo implica uma
dicotomia entre esses campos e outros, como
as ciências humanas, que possuem um caráter
menos preciso.
As ciências exatas estão entre as mais
antigas, desde a antiguidade, o homem utiliza
a matemática para resolver seus problemas e
organizar melhor a sua sociedade. Foram as
ciências exatas que proporcionaram que os
antigos egípcios construíssem as pirâmides,
permitiu que os gregos erguessem suas
acrópoles e monumentos e também que o
homem realizasse a viagem espacial até a lua
no século 20.
Embora do ponto de vista técnico, toda
e qualquer conhecimento produzido pela
humanidade seja uma “ciência humana”, a
expressão Ciências Humanas em si refere-se
somente a aquelas ciências que tem o ser
humano como seu objeto de estudo ou então o
seu foco. Em outras palavras, as ciências
humanas consistem nas profissões e as
carreiras que tratam primariamente dos
aspectos humanos.
Basicamente são apoiadas na Filosofia
(tentativa de compreensão do homem e da sua
sociedade), beleza (artes em geral,
relacionadas ao entretenimento ou a cultura) e
comunicação (questão da informação, questão
da política e questão da linguística).
As ciências humanas, devido as suas
bases, assim como a condição humana em si,
tem um caráter múltiplo: ao mesmo tempo em
que engloba características teóricas em ramos
tais como linguística, gramática e filosofia,
engloba características práticas através do
jornalismo, comunicação social e direito e
também engloba características subjetivas,
quando entra no ramo da arte.
Geralmente definida como uma
ciência “não exata” e de grande margem
subjetiva, as ciências humanas são também
muito profundas, complexas e de grande
importância na sociedade, afinal sem
matemática e engenharia não se pode
sobreviver, mas sem arte e sem compreensão
do mundo, também, não se pode viver.
As ciências humanas ou humanidades
são as disciplinas que tratam dos aspectos do
homem como indivíduo e como ser social, tais
como a antropologia, história, sociologia,
ciência política, linguística, pedagogia,
economia, geografia, direito, arqueologia,
filosofia, teologia, psicologia entre outros.
(Adaptação de:
<http://www.guiadacarreira.com.br/artigos>.
Acesso em: 22 jan.2015.
4-Método científico
Todas as ciências caracterizam-se pela
utilização de métodos científicos; em
contrapartida, nem todos os ramos de estudo
empregam estes métodos são ciências. Dessas
afirmações podemos concluir que a utilização
de métodos científicos não é da alçada
exclusiva da ciência, mas não há ciência sem o
emprego de métodos científicos.
Assimsendo, o método é o conjunto
das atividades sistemáticas e racionais que,
com maior segurança e economia, permite
alcançar o objetivo-conhecimento válido e
verdadeiro, traçando o caminho a ser seguido,
detectando erros e auxiliando as decisões do
cientista.
Desenvolvimento histórico do Método
A preocupação em descobrir e,
portanto, explicar a natureza vem desde os
primórdios da humanidade, quando as
principais questões referiam-se às forças da
natureza, a cuja mercê viviam os homens, e à
morte. O conhecimento mítico voltou-se à
explicação desses fenômenos, atribuindo-os a
entidades de caráter sobrenatural. A verdade
era impregnada de noções supra-humanas e a
explicação fundamentava-se em motivações
humanas, atribuídas a “forças” e potências
sobrenaturais.
À medida que o conhecimento
religioso se voltou, também, para a explicação
dos fenômenos da natureza e do caráter
transcendental da morte, como fundamento de
suas concepções, a verdade revestiu-se de
caráter dogmático, baseada em revelações da
divindade. É a tentativa de explicar os
acontecimentos através de causas primeiras- os
deuses-, sendo o acesso dos homens ao
conhecimento derivado da inspiração divina. O
caráter sagrado das leis, da verdade, do
40
conhecimento, como explicações sobre o
homem e o universo, determina uma aceitação
sem crítica dos mesmos, deslocando o foco das
atenções para a explicação da natureza da
divindade.
O conhecimento filosófico, por seu
lado, volta-se para a investigação racional na
tentativa de captar a essência imutável do real,
através da compreensão da forma e das leis da
natureza.
O senso comum, aliado à explicação
religiosa e ao conhecimento filosófico,
orientou as preocupações do homem com o
universo. Somente no século XVI é que se
iniciou uma linha de pensamento que propunha
encontrar um conhecimento embasado em
maiores garantias, na procura do real. Não se
buscam mais as causas absolutas ou a natureza
íntima das coisas; ao contrário, preocupa-se
compreender as relações entre elas, assim
como a explicação dos acontecimentos, através
da observação científica aliada ao raciocínio.
Com o passar do tempo, muitas
modificações foram feitas nos métodos
existentes, inclusive surgiram outros novos.
Para Bunge, (1980, p.25), “o método científico
é a teoria da investigação”. Esta alcança seus
objetivos, de forma científica, quando cumpre
ou se propõe a cumprir as seguintes etapas:
a) descobrimento do problema ou lacuna
num conjunto de conhecimentos. Se o
problema não estiver enunciado com clareza,
passa-se à etapa seguinte; se o estiver, passa-se
à subsequente;
b) colocação precisa do problema, ou ainda a
recolocação de um velho problema, à luz de
novos conhecimentos (empíricos ou teóricos,
substantivos ou metodológicos);
c) procura de conhecimentos ou
instrumentos relevantes ao problema (por
exemplo, dados empíricos, teorias, aparelhos
de mediação, técnicas de cálculo ou de
mediação). Ou seja, exame do conhecido para
tentar resolver o problema;
d) tentativa de solução do problema com
auxílio dos meios identificados. Se a tentativa
resultar inútil, passa-se para a etapa seguinte;
em caso contrário, à subsequente;
e) invenção de novas ideias (hipóteses, teorias
ou técnicas) ou produção de novos dados
empíricos que prometam resolver o problema;
f) obtenção de uma solução (exata ou
aproximada) do problema com auxílio do
instrumental conceitual ou empírico
disponível;
g) investigação das consequências da
solução obtida. Em se tratando de uma teoria,
é a busca de prognósticos que possam ser feitos
com seu auxílio. Em se tratando de novos
dados, é o exame das consequências que
possam ter para as teorias relevantes;
h) prova (comprovação) da solução:
confronto da solução com a totalidade das
teorias e da informação empírica pertinente. Se
o resultado é satisfatório, a pesquisa é dada
como concluída, até novo aviso. Do contrário,
passa-se para a etapa seguinte;
i) correção das hipóteses, teorias,
procedimentos ou dados empregados na
obtenção da solução incorreta. Esse é,
naturalmente, o começo da um novo ciclo de
investigação" (BUNGE, 1980, p.25).
Fonte: MARCONI, M. A.; LAKATOS, E.M.
Fundamentos da metodologia científica. 5. ed.
São Paulo: Atlas, 2003, p. 83-85.
4º texto: Ética e Ideologia
O analfabeto Político
Bertold Brecht (1898-1956) - escritor, poeta e
teatrólogo alemão
“O pior analfabeto é o analfabeto
político. Ele não ouve, não fala, nem participa
dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que
o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da
farinha, do aluguel, do sapato e do remédio
dependem das decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro que
se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a
política. Não sabe o imbecil, que da sua
ignorância política, nasce a prostituta, o
menor abandonado e o pior de todos os
bandidos, que é o político vigarista, pilantra,
corrupto e lacaio das empresas nacionais e
multinacionais”.
Origens da Política
Usamos a palavra política de diversas
formas no cotidiano que não se
referem a seu sentido fundamental;
“política” da empresa, da escola, da
igreja ... como formas de exercício e
disputa de poder político.
41
A política é a arte de governar, de gerir
o destino da cidade.
Etimologicamente, política vem de
PÓLIS (cidade, em grego). Político é
aquele que atua na vida pública e é
investido de poder de imprimir
determinado rumo à cidade.
Política designa a esfera das ações
que tem relação direta ou indireta com
a conquista e o exercício do poder
sobre a comunidade de indivíduos em
um território
É possível entender a Política como
luta pelo poder: a conquista, a
manutenção e a expansão do poder.
Ou refletir sobre as instituições
políticas por meio das quais se exerce
o poder.
Poder: é a capacidade de um sujeito
influir, condicionar e determinar o
comportamento de outro indivíduo.
O poder é uma relação ou um
conjunto de relações pelas quais
indivíduos ou grupos interferem na
atividade de outros indivíduos ou
grupos.
Qual é a finalidade da política? Seria
o bem comum (interesse coletivo ou
geral)?
Temos dificuldade em determinar em
que consiste o bonnus comune, devido
à divisão da sociedade em classes
opostas.
A pólis e a res publica
Para Aristóteles, um dos maiores
filósofos gregos, "o homem é por natureza
um animal político", isto é, um ser vivo (zoon)
que, por sua natureza (physei), é feito para a
vida da cidade (bios politikós, derivado de
pólis, a comunidade política). O sentido último
da vida do homem: o viver na pólis, onde o
homem se realiza como cidadão (politai).
Em síntese, o homem é um animal
político, isto é, que só se realiza na polis. E
fazer parte da polis significava pertencer à
sociedade política, ou seja, influir nos
destinos da cidade, direito esse reservado
apenas aos cidadãos. Por isso, para
Aristóteles, o homem só começa a se
diferenciar dos animais na polis, o único lugar
em que poderia relacionar o ideal humano de
viver e conviver de maneira inteligente e de
acordo com a razão.
Para os gregos, somente na política, na
qual predominavam a ação e o discurso, esse
ideal seria alcançável.
Porém, mesmo na polis esse ideal não
estava propriamente ao alcance de todos,
pois, na Grécia, (exemplo Esparta) inclusivedurante a democracia, os cidadãos eram
minoria e formavam a aristocracia
privilegiada. Dessa condição estavam
excluídos os escravos (hilotas, eram a classe
mais baixa e pertenciam como escravos ao
Estado), os estrangeiros (metecos residentes
em Atenas), as mulheres, os periecos (homens
da periferia de Esparta, formavam uma camada
intermediária, constituída de homens livres,
porém sem direitos políticos. Dedicavam-se à
agricultura, ao comércio e ao artesanato,
atividades proibidas à aristocracia espartana.
Formando uma comunidade de iguais,
unicamente os homens livres e maiores de
idade, nascidos de famílias locais, eram
considerados cidadãos.
O que os gregos denominavam polis,
os romanos chamavam de res publica (coisa
pública). Nesta, a participação dos indivíduos
era mais restrita ainda, pois somente os
patrícios pertenciam à res publica.
O que é política?
Segundo Nicolau Maquiavel, em O
Príncipe, política é a arte de conquistar,
manter e exercer o poder, o próprio
governo. Ainda existem algumas divergências
sobre o tema, para alguns, política é a ciência
do poder e para outros é a Ciência do Estado.
Se há alguma certeza nos tempos em
que vivemos, é a de que vivemos um
momento de incerteza e desordem em todas
as atividades humanas: saber, poder, ética e
valores.
Há uma tendência atual de
menosprezar o papel da política em nosso
dia a dia e de elogiar o seu esquecimento,
dando mais importância à economia, à
privatização da vida pública, à religião, ao
moralismo e à eficiência técnica. Este
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pensamento é defendido pelos grandes
empresários da comunicação, reforçando a
estratégia dos poderosos de manter os cidadãos
longe do exercício da política, principalmente
os jovens.
Acontece que a política não deixou de
ser exercida em momento algum. Ela apenas
ganhou novos contornos e novos espaços nas
lutas pelas políticas afirmativas (inclusão,
direito à livre orientação sexual, etc), por
exemplo.
MAQUIAVEL (1469-1527) e a Política
como categoria autônoma
Introdução
O poder atrai e emociona: pode
corromper ou engrandecer
Governar é impor e conciliar
Estado medieval: descentralização
política; espaço para realização do
bem comum, de acordo com Deus. A
Igreja é um superestado
Maquiavel: infância e juventude –
nova era: Idade Moderna soterra
instituições medievais
XVI: Itália: ausência de um poder
centralizador
Sua obra mais famosa O Príncipe,
escrita em 1513 e foi publicada,
postumamente em 1532. A obra reflete
os seus conhecimentos da arte política
dos antigos, bem como dos estadistas
de seu tempo e expressa claramente a
mentalidade da época. Formulando
uma série de conselhos ao príncipe, o
autor expôs uma norma de ação
autoritária, no interesse do Estado.
“O Príncipe”: é um guia que orienta o
acesso e a permanência no poder
Maquiavel – vive na época do
Renascimento - antropocentrismo
Controvérsias sobre “O Príncipe”
(1513). Escrito em 1513 e dedicado a
Lourenço de Médici, provocou
inúmeras interpretações e
controvérsias. À primeira vista, essa
obra parece defender o Absolutismo
e o imoralismo. A leitura apressada de
sua obra levou à criação do Mito do
Maquiavelismo. Pejorativamente,
maquiavélica é pessoa sem
escrúpulos, traiçoeira que para
atingir seus fins, usa de mentira e de
má-fé. Como expressão dessa
amoralidade, costuma-se atribuir a ele
a famosa máxima (que ele nunca
escreveu): “os fins justificam os
meios”;
Essa é uma interpretação simplista e
deformadora de seu pensamento. Para
o filósofo Rousseau (XVIII),
Maquiavel ao afirmar que O Príncipe
era na verdade uma sátira e a intenção
verdadeira de Maquiavel seria o
desmascaramento das práticas
despóticas, ao ensinar o povo a se
defender dos tiranos.
IDEIA CENTRAL – força é inerente
ao exercício do poder = política é
uma esfera da vida social que tem leis
próprias.
Política: pela primeira vez é
mostrada como esfera autônoma da
vida social relativamente à ordem
moral e religiosa. Ele nega a
anterioridade de questões morais na
avaliação da ação política. Para a
moral cristã (Idade Média), há
valores espirituais superiores aos
políticos, além de que o bem comum
da cidade se subordina ao bem
supremo da salvação da alma.
A sociedade é necessariamente
dividida.
A ordem política está sempre baseada
em algum tipo de coerção. A política
identifica-se com o espaço do poder,
enquanto atividade que na qual se
assenta a existência coletiva.
Conquistar e manter o poder, eis a
síntese da finalidade essencial da
política.
Em “O Príncipe”, o bom político deve
conhecer os ardis do leão e da raposa,
símbolos da força e da astúcia
(habilidade em enganar, manha). Estas
duas características nada tem a ver
com a finalidade do bem comum:
referem-se exclusivamente ao objeto
imediato de conservar o poder
O príncipe deve atuar como a raposa,
que sabe reconhecer as armadilhas e o
leão, que se defende dos lobos.
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Todo Príncipe prudente deve prever
os casos futuros e preveni-los com
toda perícia. Conhecendo os males
com antecedência, rapidamente, são
curados.
Quando uma determinada ação, por
pior que seja, for inevitável, é preciso
fazê-la rapidamente e não adiá-la.
Ao assumir o governo, o dirigente
deve realizar todas as ações que
produzem malefícios a membros da
sociedade, de uma só vez e de maneira
completa, para que seus efeitos não
perdurem durante todo o governo.
Os benefícios devem ser realizados,
pouco a pouco, para que sejam melhor
saboreados.
O Príncipe que ignora o terreno sobre
o qual se desenvolve a guerra e
desconhece os soldados que comanda,
conduz necessariamente, as suas
forças para a derrota.
A um governante não é essencial que
possua todas as boas qualidades, mas é
fundamental que aparente possuí-las.
Preocupação principal é com a
aparência. “é bom ser e parecer fiel,
humano, íntegro e religioso, mas é
importante ter o espírito preparado e
estar disposto a agir de modo contrário
sempre que seja necessário.”
Afinal, o que é política?
Vivemos hoje em um momento em que
a política é questionada, pois, ela é
sistematicamente confundida com as ações dos
políticos profissionais, principalmente, pelos
maus políticos.
A filósofa Arendt nos diz que "A
política baseia-se no fato da pluralidade dos
homens", portanto, ela deve organizar e
regular o convívio dos diferentes e não dos
iguais.
Vejamos o que diz Hannah Arendt:
"Tarefa e objetivo da política é a garantia da
vida no sentido mais amplo". Para ela, a tarefa
da política esta diretamente relacionada com a
grande aspiração do homem moderno: a busca
da felicidade.
Não é fácil discutir a questão da
política nos dias de hoje. Estamos carregados
de desconfianças em relação aos homens do
poder. Porém, o homem é um ser
essencialmente político. Todas as nossas ações
são políticas e motivadas por decisões
ideológicas. Tudo que fazemos na vida tem
consequências e somos responsáveis por
nossas ações.
Nossa ação política está presente em
todos os momentos da vida, seja nos aspectos
privado ou público. Vivemos com a família,
relacionamos com as pessoas no bairro, na
escola, somos parte integrante da cidade,
pertencemos a um Estado e País.
Não podemos confundir que política
é simplesmente o ato de votar. Estamos
fazendo política como tomamos atitudes em
nossotrabalho. Estamos fazendo política
quando exigimos nossos direitos de
consumidor, quando nos indignamos ao
vermos nossas crianças fora das escolas sendo
massacradas nas ruas.
A política está presente
cotidianamente em nossas vidas: na luta das
mulheres contra uma sociedade machista que
discrimina e age com violência; na luta dos
portadores de necessidade especiais para
pertencerem de fato à sociedade.
DEMOCRACIA, ÉTICA E CIDADANIA
CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. 13. ed.
São Paulo: Ática, 2005.
Democracia
Se a política tem como finalidade a
vida justa e feliz, isto e, a vida propriamente
humana digna de seres livres, então é
inseparável da ética. De fato, para os gregos,
era inconcebível a ética fora da comunidade
política – a polis como koinonía ou
comunidade dos iguais, pois nela a natureza ou
essência humana encontrava sua realização
mais alta.
A democracia é a única forma política
que considera o conflito legítimo e legal,
permitindo que seja trabalhado politicamente
pela própria sociedade. Da mesma maneira, as
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ideias de igualdade e liberdade como
direitos civis dos cidadãos vão muito além de
sua regulamentação jurídica formal.
Significam que os cidadãos são sujeitos de
direitos e que, onde tais direitos não existam
nem estejam garantidos, tem-se o direito de
lutar por eles e exigi-los. É esse o cerne da
democracia.
A democracia ateniense era direta.
A democracia moderna, porém, é
representativa. O direito à participação
tornou-se, portanto, indireto, por meio da
escolha de representantes. Ao contrário dos
outros dois direitos, este último parece ter
sofrido diminuição em lugar da ampliação.
A república liberal (a partir do século
XVIII) tendeu a limitar os direitos políticos
aos proprietários privados dos meios de
produção e aos profissionais liberais da classe
média. Todavia, as lutas socialistas e populares
forçaram a ampliação dos direitos políticos
com a criação do sufrágio universal (todos são
cidadãos eleitores: homens, mulheres, jovens,
analfabetos, etc).
As lutas por igualdade e liberdade
ampliaram os direitos políticos (civis) e a
partir destes, criaram os direitos sociais –
trabalho, moradia, saúde, transporte, educação,
lazer, cultura, os direitos das chamadas
“minorias” – mulheres, idosos, negros,
homossexuais, crianças, índios e o direito à
segurança planetária – as lutas ecológicas e
contra as armas nucleares.
As lutas populares por participação
política ampliaram os direitos civis: direito de
opor-se à tirania, à censura, à tortura, direito de
fiscalizar o Estado por meio de organizações
da sociedade (associações, sindicatos, partidos
políticos).
Em síntese, ainda, segundo a filósofa
Marilena Chauí, as determinações
constitutivas do conceito de democracia são
as ideias de conflito, abertura e rotatividade.
Conflito – se a democracia respeita o
pensamento divergente, isto é, os múltiplos
discursos, ela também admite uma
heterogeneidade essencial. Então, o conflito é
inevitável. Divergir é inerente à sociedade
pluralista.
Abertura – significa que na democracia a
informação circula livremente e a cultura não
é privilégio de alguns. A circulação não se
reduz ao mero consumo de informação e
cultura, mas pressupõe também a produção de
cultura, que a enriquece.
Rotatividade – significa tornar o poder na
democracia realmente o lugar vazio por
excelência, sem privilegiar grupo ou classe. É
permitir que todos os setores da sociedade
sejam legitimamente representados.
Os obstáculos à democracia
Liberdade, igualdade e participação
conduziram à célebre formulação da política
democrática como “governo do povo, pelo
povo e para o povo”. Entretanto, o povo da
sociedade democrática está dividido em
classes sociais – sejam os ricos e os pobres
(Aristóteles), os grandes e o povo (Maquiavel),
sejam as classes sociais antagônicas (Marx).
No capitalismo, são imensos os
obstáculos à democracia, pois o conflito dos
interesses é posto pela exploração de uma
classe social por outra, mesmo que a ideologia
afirme que todos são livres e iguais.
Dificuldades para a democracia no Brasil
Periodicamente, os brasileiros
afirmam que vivemos numa democracia,
depois de concluída uma fase de
autoritarismo. Por democracia entendem a
existência de eleições, de partidos políticos e
da divisão republicana dos três poderes, além
da liberdade de pensamento e de expressão.
Por autoritarismo entendem um regime de
governo em que o Estado é ocupado por meio
de um golpe, não há eleições nem partidos
políticos, o Poder Executivo domina o
Legislativo e o Judiciário, há censura do
pensamento e da expressão. Em suma,
democracia e autoritarismo são vistos como
algo que se realiza na esfera do Estado e este é
identificado como o modo de governo.
Essa visão é cega para algo profundo
na sociedade brasileira: o autoritarismo social.
Nossa sociedade é autoritária porque é
hierárquica, pois divide as pessoas, em
qualquer circunstância, em inferiores, que
devem obedecer e superiores, que devem
mandar. Não há percepção nem prática da
igualdade como um direito. Nossa sociedade
também é autoritária porque é violenta: nela
vigoram racismo, machismo, discriminação
religiosa e de classe social, desigualdades
45
econômicas que estão entre as maiores do
mundo, exclusões culturais e políticas. Não há
percepção nem prática do direito à liberdade.
Entretanto, para Maria Lúcia Arruda
Aranha: “A ampliação da democracia ocorre
paralelamente à multiplicação dos órgãos
representativos da sociedade civil, de modo
a ativar as formas de participação dos cidadãos
em geral. É isto que pode tornar a democracia
uma policracia, ou seja, o regime que não tem
apenas um centro, mas que o poder se encontra
dividido entre os inúmeros setores da
sociedade”.
BOTTOMORE, Tom. Dicionário do
Pensamento Social do século XX. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1996.
Cidadania
Ideias de cidadania floresceram em
diversos períodos históricos - na Grécia e na
Roma antigas, nos burgos da Europa medieval,
nas cidades do Renascimento. Mas a cidadania
moderna, embora influenciada por essas
concepções antigas, possui um caráter próprio.
Um dos sentidos mais atuais da cidadania
nasce com o Estado moderno, quando a
burguesia contrapõe ao antigo sistema de
privilégios feudais. O liberalismo institui a
igualdade jurídica (todos os cidadãos
possuem direitos e deveres iguais); por outro
lado, as classes sociais constituem um sistema
marcado pela desigualdade. Assim, todos os
cidadãos são considerados iguais do ponto de
vista jurídico e formal. Mas, na realidade, a
nação apresenta-se dividida em classes.
Primeiro, a cidadania formal é hoje
quase universalmente definida como a
condição de membro de um estado-nação. Em
segundo lugar, porém, a cidadania
substantiva, definida como a posse de um
corpo de direitos civis, políticos e
especialmente sociais, tem-se tornado cada vez
mais importante.
O desenvolvimento da cidadania
substantiva foi analisado em um estudo
clássico de T.H. Marshall (sociólogo inglês),
em 1949 e republicado em 1992, que descrevia
um desenrolar da extensão de direitos civis,
políticos e sociais para toda a população de
uma nação. Na Europa Ocidental depois de
1945, foi o aumento dos direitos sociais – a
criação de um Estado do Bem EstarSocial
(Welfare State) que produziu as maiores
mudanças, estabelecendo princípios mais
coletivistas e igualitárias da economia
capitalista.
Para T.H. Marshall deve se distinguir
três dimensões na construção histórica da
cidadania: a civil, a política e a social. (ele
tem uma visão otimista), baseando-se na
história da Grã-Bretanha (texto clássico
Cidadania e classe social, de 1949). É
indiscutível que essa ordem cronológica, do
modo “clássico” não se reproduziu do mesmo
modo em um grande número de países, entre
os quais o Brasil. (tal definição de Marshall é
considerada vaga e obscura). Cidadania, para
Marshall é a participação integral do indivíduo
na comunidade política.
Século XVIII – criaram condições para o
desenvolvimento da CIDADANIA CIVIL:
direito à liberdade de expressão, de
pensamento e de religião. Ou seja, direitos
necessários à liberdade individual: liberdade
de ir e vir, liberdade de expressão, pensamento
e fé, o direito à propriedade.
Século XIX – permitiu o desenvolvimento da
CIDADANIA POLÍTICA: direitos políticos,
o direito à participação do exercício do poder,
como membros de um organismo investido de
autoridade político ou como eleitores de tais
membros.. A cidadania se dirige a todos, inclui
as massas, mas para discipliná-las e domesticá-
las. Os direitos sociais não são conquistados,
são outorgados pelo Estado.
Século XX – condições para a construção da
CIDADANIA SOCIAL: extensão da
cidadania para a esfera social mediante o
desenvolvimento dos direitos sociais e
econômicos (o direito à educação, ao bem-
estar, à saúde, ao trabalho, etc).
Novas acepções ao conceito de cidadania. O
projeto burguês enfatizará a questão dos
direitos dos indivíduos, menos como direitos e
mais como deveres. Deveres para com o
Estado e este passa a regulamentar os direitos
dos cidadãos e a restringi-los ou cassa-los, em
determinadas conjunturas históricas. A questão
da cidadania deixa de ser conquista da
sociedade civil e passa a ser competência do
Estado.
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Os direitos civis e políticos são
chamados direitos de primeira geração; os
sociais, de segunda geração.
Na segunda metade do século XX
surgiram os direitos de terceira geração, que
tem como titular não o indivíduo, mas os
grupos humanos, como o povo, a nação,
coletividades étnicas, minorias discriminadas.
Os direitos humanos, o direito das mulheres, o
direito ao desenvolvimento, direito à paz,
direito ao meio ambiente. Entre esses direitos
da terceira geração estariam também os “novos
movimentos sociais”, como direitos relativos a
interesses difusos, direito do consumidor,
direito à ecologia, direito à qualidade de vida,
direito da terceira idade, direito das crianças,
etc.
No Brasil, primeiro vieram os direitos
sociais (com a Consolidação das Leis
Trabalhistas - CLT, de 1943 – em plena
ditadura de Getúlio Vargas). Depois, os civis e
os políticos. Nesse processo sócio histórico,
ficamos sem a clara noção de que ter direitos
políticos interfere diretamente na obtenção de
direitos sociais. Foi dessa forma construída
nossa cidadania, com pouca relevância
dispensada à nossa participação política. E
com a atuação dos representantes cada vez
menos transparentes e distantes da população.
As manifestações de junho de 2013 são um
claro indício dessa constatação. O fato é que
estaríamos diante de um fenômeno
geracional: os milhões de jovens que foram às
ruas nasceram sob a égide da Constituição de
1988 e cresceram experimentando uma
democracia até então inédita no país. O maior
acesso à universidade por esses jovens seria
outro fator a colaborar para a consolidação da
democracia e a servir de base para repensar a
cidadania brasileira.
Na prática, os jovens também já
perceberam o seu poder: o resultado das
manifestações foi um recuo das autoridades
para reformular a maneira com que fazem
política, além de atender à demanda mais
premente, a do não reajuste das tarifas do
transporte público.
MANIFESTAÇÕES E/OU JORNADAS DE
JUNHO DE 2013 NO BRASIL
Causas:
• Aumentos nas tarifas de transporte público;
• Transporte público insuficiente e de má
qualidade;
• Repressão policial violenta aos protestos;
• Serviços públicos (em geral) de má
qualidade;
• Gastos públicos exorbitantes em grandes
eventos esportivos internacionais;
• Taxas elevadas de corrupção política
e impunidade.
Objetivos
• Democratização da mídia;
• Diminuir o valor ou eliminar a cobrança das
tarifas de transporte público;
• Sistemas de transporte público de boa
qualidade e que atendam toda a população;
• Melhor gestão dos gastos governamentais e
serviços públicos eficientes;
• Impedir a aprovação de projetos como a "cura
gay" e as PECs 37 no Congresso Nacional.
20/06/2013 - Mensagens das ruas: quem,
quais, como? Francisco Fonseca
Quais mensagens os movimentos – não é
possível jamais utilizar o singular – estão nos
enviando, sobretudo aos responsáveis pela
tomada de decisão política? Aparentemente
são várias e igualmente difusas. Tentarei listar
as que considero as mais importantes:
1) A derrocada do sistema político
brasileiro: multipartidarismo pouco
representativo; império da “governabilidade”,
cujas coligações e coalizões contraditórias não
apenas impedem políticas públicas coerentes,
como impedem reformas sociais profundas –
cujos efeitos é o que estamos observando;
privatização da vida política, cuja marca é o
financiamento de campanhas políticas por
interessados na gestão pública: indústria
imobiliária, concessionárias de ônibus e de
inúmeros serviços públicos etc
2) O “mal estar social” brasileiro, que
permanece mesmo com os inegáveis avanços
sociais conquistados na última década.
Sobretudo as grandes cidades, antes
metrópoles, depois megalópoles, agora macro
metrópoles, sintetizam toda forma de mazelas:
47
mesmo que com exceções, a educação ainda
é precária; a saúde ainda é pouco efetiva (o
exemplo das filas de espera é notável); e o
transporte coletivo não prioritário aos
governos, caro, lento e de baixa qualidade.
Neste caso, o cálculo dos milhões de cidadãos,
notadamente os pobres, quanto ao tempo de ida
ao trabalho e volta à residência é incrivelmente
grande, contribuindo para a propagação de
doenças e a diminuição da produtividade do
trabalhador, entre tantas outras consequências.
3) A necessidade do avanço e
institucionalização do trinômio
transparência, participação popular e
controle social. O Brasil é um país em que o
Estado, as entidades privadas e as não
governamentais carecem, em larga medida –
sempre com exceções – de publicização. Ao
lado disso, a participação popular é confinada
às instituições tradicionais em crise (partidos,
sindicados, movimentos sociais corporativos e
não governamentais tópicos), aos conselhos
gestores (em larga medida cooptados pelo
poder público vigente), a audiências públicas
(que são apenas consultivas) e outras poucas
formas. Há um manancial de possibilidades
participativas, e demandas reprimidas, como
escancara os atuais movimentos. Quanto ao
controle social, trata-se de conceito
absolutamente pouco efetivo e que pode
avançar por inúmeras formas.
4) A necessidade de os tomadores de decisão
se compromissarem com a inversão de
prioridades: do automóvel individual ao
transporte coletivo; das cidades do e para o
Capital + classes médias para a cidade do e
para os cidadãos,
5)A obsolescência da polícia como agente de
repressão, notadamente aos pobres. Em
outras palavras, há também uma mensagem –
após a repressão desmesurada e generalizada
na semana passada – de que à polícia cabe
garantir os direitos democráticos, e não
proteger prioritariamente o patrimônio,
especialmente o privado.
6) A saturação da grande mídia e a incrível
timidez dos governos petistas em enfrentá-
la. O oportunismo dos meios de comunicação
em “mudar de posição” na tentativa de
involucrar os movimentos sociais, colocando-
se “ao lado deles”, denota uma vez mais seu
caráter de Partido da Imprensa Golpista. Toda
a programação vinculada ao entretenimento
de baixa qualidade e descompromisso com a
cidadania, e, agora, a cobertura das
manifestações cuja referência é o
“vandalismo”, em oposição aos “ordeiros”,
torna os meios de comunicação atores centrais
na crise de representação, que necessitam,
portanto e urgentemente, ser reformados à luz
do que vem ocorrendo na Argentina e outros
países e, anteriormente, o que ocorreu na
França no pós-guerra.
Tudo isso transparece, por formas diversas, e
deve ser analisado em profundidade.
Por fim, “como” tudo isso é mobilizado e
emitido pelos movimentos sociais? Ao que
tudo indica, pelo boca-a-boca, pelos
“torpedos” dos celulares, pelas redes sociais
e sobretudo pelo incrível sentimento e
percepção de que não é mais possível aguentar
a vida que se leva. Nesse sentido, “bastou” um
movimento não partidário, com causa
“universal” (não corporativa), sem lideranças
claras e não verticalizado, para catalisar –
enfatize-se – esse conjunto difuso e
heterogêneo de insatisfações.
É claro que ninguém esperava uma tal
repercussão, nem o próprio MPL, mas esse
próprio espanto é sinal claro de que o
sistema político tradicional está em crise, e
que a mídia – que tenta permanente e
ilegitimamente ocupar o espaço da
representação política – igualmente está em
crise e precisa ser reformada radicalmente.
A incapacidade do sistema político em
auscultar a pulsão da sociedade profunda,
sobretudo num sistema político cuja moldura
permite aventureiros de toda sorte, é grave.
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Aos democratas cabem tarefas urgentes de
resgate da democracia por meio da ampliação
radical da transparência, da participação
popular (“ouvir a ruas”) e do controle social,
tendo em vista a elaboração e implementação
de políticas públicas transformadoras.
“Os protestos de junho de 2013 parecem
ampliar os horizontes da política e da
democracia. A reivindicação de que “o
cidadão, e não o poder econômico esteja em
primeiro lugar” recoloca o conflito
redistributivo no centro do debate nacional. O
enfrentamento desse ponto reforça a visão de
que o desenvolvimento requer Estado forte e
democrático” (Eduardo Fagnani).
28/06/2013 - Protestos na rua: mais Estado e
menos mercado? Vicente Faleiros
Há um discurso dominante nos meios políticos
e econômicos de que é preciso reduzir o Estado
ou até mesmo substituí-lo pelo mercado, na
ótica neoliberal. No entanto, os protestos que
se desencadearam nas ruas em mais de 100
cidades brasileiras no mês de junho de 2013
pedem por mais presença e ação do Estado,
principalmente nas esferas da educação, da
saúde, da mobilidade urbana e do combate à
corrupção. Os manifestantes que ocuparam
ruas e praças reivindicam direitos assegurados,
ou seja, cidadania na prática, não no papel.
ARANHA, Maria Lúcia de Arruda.
Filosofando – Introdução à Filosofia. 3. ed.
São Paulo: Moderna, 2003.
ÉTICA
01 – Os valores
Os valores podem ser estéticos,
afetivos, econômicos, religiosos, éticos, etc.
Mas o que são valores? Diante dos seres somos
mobilizados pela nossa afetividade, somos
afetados de alguma forma por eles, porque nos
atraem ou provocam nossa repulsa.
Enfim, os valores resultam das
relações que os seres humanos estabelecem
entre si e com o mundo em que vivem. Por
isso os valores são em parte herdados da
cultura e nossa primeira compreensão da
realidade se funda no solo dos valores da
comunidade a que pertencemos. Esse fato
talvez nos faça concluir que tais experiências
variam conforme o povo e a época.
Os valores são, num primeiro
momento, herdados por nós. Ao nascermos, o
mundo cultural é um sistema de significados
já estabelecidos, de tal modo que
aprendemos desde cedo como nos comportar
à mesa, na rua, diante de estranhos, como,
quando, e quanto falar em determinadas
circunstâncias; como andar, correr, brincar;
como cobrir o corpo e quando desnudá-lo; qual
o padrão de beleza; que direitos e deveres
temos. Conforme atendemos ou transgredimos
os padrões, os comportamentos são avaliados
como bons ou maus.
Para o sociólogo Durkheim, a
consciência coletiva “é o conjunto das
crenças e dos sentimentos comuns à média
dos membros de uma mesma sociedade”. A
consciência coletiva não se baseia na
consciência dos indivíduos singulares ou de
grupos específicos, mas está espalhada por
toda a sociedade. Assim, a consciência coletiva
não é o que um indivíduo pensa, mas é o que
a “sociedade pensa”.
É a consciência coletiva que irá impor
as regras sociais de uma sociedade; isto
porque ao nascer, o indivíduo já encontra a
sociedade pronta e constituída em suas leis.
Assim, o direito, os costumes, as crenças
religiosas não são criados pelos indivíduos,
mas pelas gerações passadas, sendo
transmitidas às novas através da Educação. Ex:
proibição de andar nus. Em síntese: não
matar, não roubar, não andar nu são normas
comuns a todos os indivíduos que, por serem
comuns a todos, se convertem em leis morais
que passam a determinar a conduta das
pessoas na sociedade. O indivíduo não faz o
que deseja e sim o que permite a moral social
de época e lugar dados.
02 – A moral
Os conceitos de moral e ética, ainda
que diferentes, são com frequência usados
como sinônimos. Aliás, a etimologia dos
termos é semelhante: moral vem do latim mos,
moris, que significa “costume”, “maneira de
se comportar regulada pelo uso”, e de moralis,
morale, adjetivo referente ao que é “relativo
aos costumes”. Ética vem do grego ethos, que
tem o mesmo significado de “costume”.
49
No entanto, podemos estabelecer
algumas diferenças entre esses dois conceitos.
A moral é o conjunto de regras de conduta
admitidas em determinada época ou por um
grupo de pessoas.
A ética ou filosofia moral é a parte da
filosofia que se ocupa com a reflexão a
respeito das noções e princípios que
fundamentam a vida moral. Por exemplo, são
questões éticas indagar a respeito do que é o
bem e o mal, o que são valores, qual a natureza
do dever.
03 – Caráter histórico e social da moral
Neste texto, foi seguida de maneira
livre a exposição de Adolfo Sánchez Vasquez,
no seu livro Ética. De início, podemos definir
a moral como o conjunto de regras que
determinam o comportamento dos indivíduos
em um grupo social.
A fim de garantir a sobrevivência, o ser
humano age sobre a natureza transformando-a
em cultura. Para que a ação coletiva seja
possível, são estabelecidas regras que
organizam as relações entre os indivíduos. É
de tal importância a existência do mundo moral
que se torna impossível imaginar um povo sem
qualquer conjunto de regras. Uma das
características humanas fundamentais é a de
sermos capazes de produzir interdições
(proibições). Segundo o antropólogo francês
Lévi-Strauss, a passagem da natureza à cultura,
é produzida pela instauraçãoda lei, por meio
da proibição do incesto. Assim, se estabelecem
as relações de parentesco e de aliança sobre as
quais é construído o mundo humano, que é
simbólico.
Exterior e anterior ao indivíduo há,
portanto, a moral constituída, que orienta seu
comportamento por meio de normas. Em
função da adequação ou não à norma
estabelecida, o ato será considerado moral ou
imoral.
O comportamento moral varia de
acordo com o tempo e o lugar, conforme as
exigências das condições nas quais as pessoas
se organizam ao estabelecerem as formas de
relacionamento e as práticas de trabalho. À
medida que essas relações se alteram, exigem
lentas modificações nas normas de
comportamento coletivo.
04 – Caráter pessoal da moral
A ampliação do grau de consciência e
de liberdade, e, portanto, de responsabilidade
pessoal no comportamento moral, introduz um
elemento contraditório que irá, o tempo todo,
angustiar a pessoal: a moral, ao mesmo tempo
que é o conjunto de regras que determina como
deve ser o comportamento dos indivíduos do
grupo, é também a livre e consciente aceitação
das normas. Isso significa que o ato só é
propriamente moral se passar pelo crivo da
aceitação pessoal da norma.
Portanto, o ser humano, ao mesmo
tempo que é herdeiro, é criador da cultura, e a
vida moral irá se configurar quando, diante da
moral constituída, ele for capaz de propor a
moral constituinte, aquela que se realiza a cada
experiência vivida.
Nessa perspectiva, a vida moral se
funda em uma ambiguidade fundamental,
justamente a que determina o seu caráter
histórico. Toda moral está situada no tempo e
reflete o mundo em que nossa liberdade se
achada situada. Diante do passado que o
condiciona nossos atos, podemos nos colocar a
distância para reassumi-lo ou recusá-lo.
05 – Conclusão
O delicado tecido da moral diz respeito
ao indivíduo no mais fundo do seu “foro
íntimo”, ao mesmo tempo que o vincula às
pessoas com as quais convive.
Embora a ética não se confunda com a
política, elas se relacionam necessariamente,
cada uma no seu campo específico. Por um
lado, a política, ao estender a justiça social a
todos, permite que os indivíduos tenham
condições de melhor formação moral. Por
outro lado, a formação ética é importante para
o exercício da cidadania, quando os interesses
pessoais não se sobrepõem aos coletivos.
CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São
Paulo: Ática, 2005 p. 305-310
Os valores ou fins éticos
Do ponto de vista dos valores, a ética
exprime a maneira como uma cultura e
uma sociedade definem para si
mesmas o que julgam ser o mal e o
vício, a violência e o crime e, como
contrapartida, o que consideram ser o
bem e a virtude. Todas as culturas
50
consideram virtude algo que é o
melhor como sentimento, como
conduta e como ação; a virtude é a
excelência, a realização perfeita de um
modo de ser, sentir e agir.
Os meios morais
Além do sujeito ou pessoa moral e dos
valores ou fins morais, o campo ético
é ainda constituído por um outro
elemento: os meios para que o sujeito
realize os fins.
Costuma-se dizer que os “fins
justificam os meios”, de modo que,
para alcançar um fim legítimo, todos
os meios disponíveis são válidos. No
caso da ética, porém, essa afirmação
não é aceitável.
No caso da ética, portanto, nem todos
os meios são justificáveis, mas apenas
aqueles que estão de acordo com os
fins da própria ação. Em outras
palavras, fins éticos exigem meios
éticos.
A relação entre meios e fins pressupõe
a ideia de discernimento, isto é, que
saibamos distinguir entre meios
morais e imorais, tais como nossa
cultura ou nossa sociedade os definem.
Isso significa também que esse
discernimento não nasce conosco, mas
precisa ser adquirido por nós e,
portanto, a pessoa moral não existe
como um fato dado, mas é criada pela
vida intersubjetiva e social, precisando
ser educada para os valores morais e
para as virtudes de sua sociedade.
Ética ou filosofia moral
Toda cultura e cada sociedade institui
uma moral, isto é, valores
concernentes ao bem e ao mal, ao
permitido e ao proibido e à conduta
correta e à incorreta, válidos para
todos os seus membros.
No entanto, a simples existência da
moral não significa a presença
explícita de uma ética, entendida
como filosofia moral, isto é, uma
reflexão que discuta, problematize e
interprete o significado dos valores
morais.
A filosofia moral ou a disciplina
denominada a ética nasce quando se
passa a indagar o que são, de onde vêm
e o que valem os costumes.
Éthos significa na língua grega
costume ou caráter. A filosofia moral
ou a ética nasce quando, além das
questões sobre os costumes, também
se busca compreender o caráter de
cada pessoa, isto é, o senso moral e a
consciência moral individuais.
Em síntese:
ÉTICA
Ciência sobre o comportamento moral
dos homens em sociedade. Sua função
é explicar, esclarecer e investigar uma
determinada realidade.
É a ciência que tem como objeto os
juízos de valor
A ética tem conteúdo universal e parte
do princípio da igualdade dos seres
humanos e de seus direitos
inalienáveis à paz e ao bem-estar
O cerne da ética universal transcende a
todos os sistemas de crenças e valores.
MORAL: “conjunto de normas, aceitas livre e
conscientemente, que regulam o
comportamento individual dos homens.”
(Vasquez)
Manifesta-se nas diferentes
sociedades. Sua função é regulamentar
as relações entre os indivíduos e entre
estes e a comunidade, contribuindo
para a ordem social.
A moral não é natural e resulta da ação
do homem enquanto ser histórico e
social
14/12/2014 - Ética não é só um problema dos
políticos, mas do cotidiano de todos
Se você é daqueles que se enfurecem ou se
entristecem com o insistente tema da corrupção
no Brasil, mas não deseja restringir-se à
cantilena das obviedades despejada pelo
colunismo público moralista, recorra a uma
leitura imediata – o novo livro da filósofa
Marcia Tiburi: Filosofia prática – Ética, vida
cotidiana e vida virtua.
51
Em seu livro, Marcia Tiburi pensa a ética como
ação. Pensamento é um ato, diz a filósofa,
buscando sincronizar pensamento e ação.
Sincronia esta que, segundo suas palavras, “é o
desenho feito de pedras no fundo arenoso do
rio da vida cotidiana, onde, apressados,
molhamos os nossos pés, onde, menos atentos,
nos afundamos até o pescoço sem perceber o
que acontece”. Diz mais: “Chamo de Filosofia
Prática a fotografia desse rio, ora barrento, ora
cristalino”.
Por vida cotidiana ela entende a vida
“simplesmente vivida, a realidade partilhada
como “naturalidade”. A ética corresponde à
pergunta e, ao mesmo tempo, poderia ser a
resposta aos problemas humanos do que
podemos resumir como convivência. Seja a
convivência consigo mesmo, com o outro, com
a cultura mais ampla, com a sociedade do
espetáculo, todos os problemas enfim do
cotidiano – o lugar de “viver junto, de viver
“com”.
Eu comigo, eu com o outro
Daí porque ela faz três perguntas essenciais: 1.
Como me torno aquilo que sou? 2. O que
estamos fazendo uns com os outros? 3. Como
viver junto? Neste último caso se apropria de
um belo título de Roland Barthes, a quem
recorre também para a epígrafe “Por que não
falar a língua de todo mundo?” (mais do que
uma epígrafe, é também uma preocupação
exposta em todo o livro, a busca por uma
escrita sem rebuscamentos excessivos,
contorcionismosteóricos e academicismo no
mau sentido).
Explica-se.
Passo a passo, contínua e diariamente, o Brasil
vem se acostumando à ideia de que o mal-estar
da sociedade decorre da convicção de que as
autoridades eleitas para administrar os recursos
das comunidades não oferecem serviços à
altura do combinado com seus eleitores. Pior:
apropriam-se ilegalmente de parte desses
recursos públicos. Em bom português: elegem-
se por um único e exclusivo e interesse. Porque
são um bando de larápios. Todos gatunos.
Bandidos.
Daí a suposição coletiva, compreensiva para
muitos ingênuos, de que existam normas
eleitorais, a serem urgentemente postas em
prática, capazes de propiciar uma limpeza
irrestrita nas regras e nos costumes políticos.
Desse modo – assim supõem “cidadãos de
bem”, colunistas públicos, éticos e
moralizadores em geral – os prevaricadores
serão removidos da vida pública, os recursos
estarão melhor administrados, e a política
ficará livre de personagens pecaminosos.
Difícil acreditar na existência de regras tão
eficientes, a ponto de filtrar a esse nível os
cidadãos em geral – incluindo, claro, aqueles
que embarcam na vida pública. Como afirmou
o cientista político Wanderley Guilherme dos
Santos, num artigo publicado no iG há mais de
um ano, ainda que existissem regras tão
eficientes, “elas não se aplicariam ao outro lado
das transações espúrias, isto é, aos
corruptores”. No quesito “cidadãos virtuosos”,
ressaltou o professor, o Brasil “hospeda
sensacional taxa de corruptores”. Cito-o:
“Do jovem motoqueiro insinuando uma
gorjeta ao policial que o multa por excesso de
velocidade ao indignado cidadão que
esbraveja contra as instituições políticas, mas,
enquanto feliz proprietário de um
estabelecimento comercial, oferece modesta
propina para que o fiscal ignore as
insatisfatórias condições de segurança de
incêndio de seu negócio – são raríssimas as
exceções à cultura prevalecente no Brasil,
segundo a qual é quase sempre possível
esconder uma ilegalidade promovendo outra.
E não há talvez brasileiro que nunca tenha sido
objeto de ameaçadora pressão corruptora por
parte dos profissionais liberais – médicos,
advogados, dentistas, analistas, etc. – a cujos
serviços recorre com frequência, deixando de
cobrar-lhes recibos e tornando-se cúmplice de
crimes fiscais.”
Nesse caso, lembra Wanderley Guilherme dos
Santos, são os corruptos e corruptores que se
consideram iguais na demanda por ética na
política, e até justificam a violência niilista de
alguns grupos em passeatas intimidantes pelas
ruas de grandes cidades, comuns em junho do
ano passado.
52
Dez/2012 - O desafio da ética na Sociedade
do Conhecimento
Márcia Tiburi
Ética é uma das questões mais importantes no
contexto de nossa sociedade, tanto da esfera
pública, quanto de nossas vidas privadas.
Somos éticos quando refletimos sobre o que
fazemos, quando medimos e qualificamos
nossas ações levando em conta o que somos e
podemos ser, com base no reconhecimento do
outro, seja ele nosso próximo, a sociedade ou
até mesmo o planeta. Sem a ética não sabemos
nos situar em nenhuma esfera de nossas vidas.
Sem a ética nos tornamos alienados, ou seja,
figuras desconectadas de uma reflexão sobre o
sentido da vida em sociedade.
Mas o que é ética hoje? Como ela vem sendo
entendida? O que é ética no mundo do
trabalho, na família, no cotidiano, na escola?
O que os meios de comunicação tem feito da
ética? Ética é, principalmente, a relação que
estabelecemos uns com os outros. É o
questionamento sobre o sentido da convivência
baseada na pergunta “o que estamos fazendo
uns com os outros?”.
Ética é um tipo de postura e,
consequentemente, de ação, certamente
mediada em princípios tais como o respeito à
subjetividade, à dignidade da pessoa, à
diversidade, ao outro. Mas não se trata de uma
pura ação. Antes trata-se da relação entre
pensamento e ação. Neste sentido, para que
cheguemos à ética, precisamos lutar pela
desmistificação da separação entre teoria e
prática. Esta é uma das questões mais
fundamentais quando falamos de ética como a
“filosofia prática” que ela, de fato, é. Ética é a
capacidade de pensar e fazer a partir de um
princípio de autonomia pessoal em que cada
sujeito se questiona sobre o que pensa e faz,
levando em conta que o questionamento já é,
em si mesmo, pensamento e ação que terá
consequências concretas. Quem não pensa por
conta própria é levado a pensar o que os outros
para ele definiram como verdade. É neste
sentido que muitos introjetam aquilo mesmo
que lhes faz mal, que édito contra eles
mesmos.
Ao mesmo tempo, vivemos em uma sociedade
caracterizada por uma relação imediata com a
informação e certa ideia de conhecimento que
parece não prever muito espaço e tempo para o
cultivo da subjetividade que nos permitiria a
invenção da ética entre nós. Os
relacionamentos já não são baseados em
princípios éticos porque não existe mais a
esfera da subjetividade, ou, em outros termos,
da interioridade, da consciência de si, do
autoquestionamento e da crítica social. Aquilo
que antigamente chamávamos de “alma”.
Experimentamos nos diversos contextos da
experiência vivida, transformações profundas
que alteram nosso modo de ver e, portanto, de
agir no mundo. As novas tecnologias, a
Internet, as Redes Sociais, têm levantado
muitas questões que tanto o campo da filosofia,
quanto o da antropologia, da sociologia e da
educação procuram responder. A contradição
entre um mundo de informação e a
desvalorização da comunicação e da educação
é uma delas. Nossa cultura desvaloriza,
igualmente, a cultura… Como fomentar a
subjetividade se estas esferas que a criam estão
aviltadas em nossos meios?
Neste contexto, a reflexão sobre a ética se
torna fundamental como modo de pensar e
promover a ação nas variadas experiências no
mundo da vida levando em conta os problemas
culturais de nosso país que vão do
analfabetismo generalizado à corrupção. A
reflexão sobre a ética permite re-situar o
sentido do conhecimento e da cultura,
dirigindo-nos a uma valorização da educação
em termos de formação que transcende o
espaço da escola e nos liga novamente ao
sentido da vida como um todo, ao espaço que
habitamos, a cidade onde vivemos, a sociedade
que ajudamos a formar com todas as nossas
ações.
ÉTICA PROFISSIONAL
Muitos autores definem a ética
profissional como sendo um conjunto de
normas de conduta que deverão ser postas em
prática no exercício de qualquer profissão.
Seria a ação "reguladora" da ética agindo no
53
desempenho das profissões, fazendo com que
o profissional respeite seu semelhante quando
no exercício da sua profissão.
A ética profissional estudaria e
regularia o relacionamento do profissional
com sua clientela, visando a dignidade humana
e a construção do bem-estar no contexto
sociocultural onde exerce sua profissão.
Ela atinge todas as profissões e quando
falamos de ética profissional estamos nos
referindo ao caráter normativo e até jurídico
que regulamenta determinada profissão a
partir de estatutos e códigos específicos.
Assim temos a ética médica, do
advogado, do biólogo, do engenheiro de
produção engenheiro químico, engenheiro
civil, contador etc.
Sendo a ética inerente à vida
humana, sua importância é bastante
evidenciada na vida profissional, porque cada
profissional tem responsabilidades individuais
e responsabilidades sociais, pois envolvempessoas que dela se beneficiam.
Virtudes profissionais
Não obstante os deveres de um
profissional, os quais são obrigatórios,
devem ser levadas em conta as qualidades
pessoais que também concorrem para o
enriquecimento de sua atuação profissional,
algumas delas facilitando o exercício da
profissão.
Muitas destas qualidades poderão ser
adquiridas com esforço e boa vontade,
aumentando neste caso o mérito do
profissional que, no decorrer de sua
atividade profissional, consegue incorporá-
las à sua personalidade, procurando vivenciá-
las ao lado dos deveres profissionais.
Existe uma associação entre as
virtudes: lealdade, responsabilidade e
iniciativa como fundamentais para a
formação de recursos humanos. Segundo
Clauss Moller o futuro de uma carreira
depende dessas virtudes.
As virtudes da responsabilidade e da
lealdade são completadas por uma terceira, a
iniciativa, capaz de colocá-las em movimento.
Tomar a iniciativa de fazer algo no
interesse da organização significa ao mesmo
tempo, demonstrar lealdade pela
organização. Em um contexto de
empregabilidade, tomar iniciativas não quer
dizer apenas iniciar um projeto no interesse da
organização ou da equipe, mas também
assumir responsabilidade por sua
complementação e implementação.
Gostaríamos ainda, de acrescentar
outras qualidades que consideramos
importantes no exercício de uma profissão.
São elas:
Honestidade: A honestidade está relacionada
com a confiança que nos é depositada, com a
responsabilidade perante o bem de terceiros e
a manutenção de seus direitos. A honestidade é
a primeira virtude no campo profissional. É
um princípio que não admite relatividade,
tolerância ou interpretações circunstanciais.
Sigilo: O respeito aos segredos das pessoas,
dos negócios, das empresas, deve ser
desenvolvido na formação de futuros
profissionais, pois trata-se de algo muito
importante. Uma informação sigilosa é algo
que nos é confiado e cuja preservação de
silêncio é obrigatória.
Competência: Competência, sob o ponto de
vista funcional, é o exercício do
conhecimento de forma adequada e
persistente a um trabalho ou profissão.
Devemos buscá-la sempre. O conhecimento da
ciência, da tecnologia, das técnicas e
práticas profissionais é pré-requisito para a
prestação de serviços de boa qualidade.
Prudência: Todo trabalho, para ser executado,
exige muita segurança. A prudência, fazendo
com que o profissional analise situações
complexas e difíceis com mais facilidade e de
forma mais profunda e minuciosa, contribui
para a maior segurança, principalmente das
decisões a serem tomadas.
Coragem: Todo profissional precisa ter
coragem, pois "o homem que evita e teme a
tudo, não enfrenta coisa alguma, torna-se um
54
covarde" (ARISTÓTELES). A coragem nos
ajuda a reagir às críticas, quando injustas, e a
nos defender dignamente quando estamos
cônscios de nosso dever. Nos ajuda a não ter
medo de defender a verdade e a justiça,
principalmente quando estas forem de real
interesse para outrem ou para o bem comum.
Perseverança: Qualidade difícil de ser
encontrada, mas necessária, pois todo trabalho
está sujeito a incompreensões, insucessos e
fracassos que precisam ser superados,
prosseguindo o profissional em seu trabalho,
sem entregar-se a decepções ou mágoas.
Compreensão: Qualidade que ajuda muito um
profissional, porque é bem aceito pelos que
dele dependem, em termos de trabalho,
facilitando a aproximação e o diálogo, tão
importante no relacionamento profissional.
Vê-se que a compreensão precisa ser
condicionada, muitas vezes, pela prudência.
Humildade: O profissional precisa ter
humildade suficiente para admitir que não é o
dono da verdade e que o bom senso e a
inteligência são propriedade de um grande
número de pessoas.
Otimismo: Em face das perspectivas das
sociedades modernas, o profissional precisa e
deve ser otimista, para acreditar na capacidade
de realização da pessoa humana, no poder do
desenvolvimento, enfrentando o futuro com
energia e bom humor.
IDEOLOGIA: UM CONCEITO
POLÊMICO
O conceito de ideologia foi criado por
Destutt de Tracy, filósofo francês, no final do
século XVIII: a ideologia deveria ser
compreendida como “ciência das ideias”,
assemelhando-se às ciências naturais. Partia-se
da crença na razão (própria do espírito
iluminista do século XVIII).
Marx e Engels afirmam, em A
ideologia alemã, que as ideias dominantes de
uma época são as ideias da classe então
dominante. Poderíamos deduzir a partir desse
pressuposto que, para manter sua dominação,
interessa a essa classe fazer com que os seus
próprios valores sejam aceitos como certos
por todas as demais classes sociais.
Expliquemos: conforme Marilena Chauí, o
discurso ideológico se caracteriza exatamente
por pretender anular a diferença entre o
pensar, o dizer e o ser, criando uma lógica que
consiga unificar pensamento, linguagem e
realidade, obtendo a identificação de todos os
sujeitos sociais com uma imagem particular
universalizada: a imagem da classe
dominante.
O Estado tem como função ocultar os
conflitos e antagonismos que exprimem a
existência das contradições próprias de uma
sociedade dividida em classes – classes que se
encontram em luta permanente. A ideologia
veiculada pelo Estado oferece a essa
sociedade uma imagem que anula a luta, a
divisão e a contradição; uma imagem da
sociedade como idêntica, homogênea e
harmoniosa. E é por isso que ela se mantém.
Além disso, elabora a imagem de um Estado
que representa a sociedade como um todo.
Segundo Chauí, a ideia de que o Estado
representa toda a sociedade e de que todos os
cidadãos estão representados nele é uma das
grandes forças para legitimar a dominação
dos dominantes (isto é, para fazer com que
essa dominação seja aceita como norma, legal,
justa).
01 – Ideologia: sentido amplo
Há vários significados para a palavra
ideologia. Em sentido amplo, é o conjunto de
ideias, concepções ou opiniões sobre algum
ponto sujeito a discussão. Quando
perguntamos qual é a ideologia de
determinado pensador, estamos nos
referindo à doutrina, ao corpo sistemático de
ideias e ao seu posicionamento interpretativo
diante de certos fatos.
Ainda podemos considerar a ideologia
como teoria, no sentido de organização
sistemática dos conhecimentos que antecedem
a ação efetiva, tal como nos referimos à
ideologia de uma escola, que orienta a prática
pedagógica; à ideologia religiosa, que dá
regras de conduta aos fiéis; à ideologia de um
partido político, que fornece diretrizes de ação
a seus filiados.
02 – Ideologia: sentido restrito
55
O conceito de ideologia segundo a
concepção marxista adquire um sentido
negativo, como instrumento de dominação.
Isso significa que a ideologia tem influência
marcante nos jogos de poder e na manutenção
dos privilégios que plasmam a maneira de
pensar e de agir dos indivíduos na sociedade.
Vejamos agora a definição dada pela
professora e filósofa Marilena Chauí: “a
ideologia é um conjunto lógico, sistemático e
coerente de representações (ideias e valores) e
de normas ou regras (de conduta) que indicam
e prescrevem aos membros da sociedade o que
devem pensar e como devem pensar o que
devem valorizar e como devem valorizar o que
devem sentir e como devem sentir o que devem
fazer e como devem fazer”.Observamos então que a ideologia é
apresentada com as seguintes características
fundamentais:
Constitui um corpo sistemático de
representações que nos “ensinam” a
pensar e de normas que nos “ensinam”
a agir;
Assegura determinada relação dos
indivíduos entre si e com suas
condições de existência, adaptando-as
às tarefas prefixadas pela sociedade;
As diferenças de classe e os conflitos
sociais são camuflados, ora com a
descrição da “sociedade una e
harmônica”, ora com a justificação das
diferenças existentes;
Assegura a coesão social e a aceitação
sem críticas das tarefas mais penosas e
pouco recompensadoras, em nome da
“vontade de Deus” ou do “dever
moral” ou simplesmente como
decorrência da “ordem natural das
coisas”;
Mantém a dominação de uma classe
sobre outra.
A ideologia se caracteriza pela
naturalização, na medida em que são
consideradas naturais situações que na
verdade resultam da ação humana e, como tal,
são históricas e não naturais: por exemplo,
quando se considera natural que a sociedade
esteja dividida em ricos e pobres ou que uns
mandem e outros obedeçam.
Outra característica da ideologia é a
universalização, pela qual os valores de quem
detém o poder são estendidos aos que a ele se
submetem. A afirmação de que “o trabalho
dignifica” é difícil de ser contestada. Essa
afirmação torna-se ideológica quando se baseia
em uma abstração, ou seja, quando
consideramos apenas a ideia de trabalho,
independentemente da análise concreta e
histórico-social em que é de fato realizado.
03 – A ideologia em ação
a) a ideologia na escola
Por volta dos anos 1970, teóricos
franceses passaram a admitir que a escola não
é equalizadora, mas reprodutora das
diferenças sociais. Segundo alguns desses
pensadores, o próprio funcionamento da escola
repetiria a estrutura hierarquizada do
sistema, reproduzindo as relações autoritárias
existentes fora dela. Em decorrência dessas
concepções pessimistas a respeito da atuação
da escola, outros estudiosos passaram a
investigar o caráter ideológico da produção da
literatura infanto-juvenil e dos livros
didáticos.
Escola: “lócus” da contradição
Reprodução da ideologia – alienação –
conservação e manutenção da
sociedade ou
Espaço da crítica – emancipação –
transformação da sociedade
Desta forma, não devemos
generalizar apressadamente, reduzindo a
escola e o material didático em instrumentos
de ideologia, por ser uma posição por demais
redutora. Além disso, as boas escolas são
críticas do sistema e cada vez mais buscam
aproximar ensino e vida. Sempre haverá na
escola e nos livros, a possibilidade de
professores, autores e alunos inventarem
práticas que se tornem críticas da inculcação
ideológica.
A escola é um espaço possível de luta,
de denúncia da domesticação e de procura de
soluções criativas.
b) A ideologia nas histórias em quadrinhos
56
Os quadrinhos são um fenômeno
característico da indústria cultural e têm sua
principal divulgação no século 20, quando
começam a aparecer nas publicações diárias
dos jornais. Além da função de
entretenimento e lazer, representantes que
são de uma nova linguagem artística.
Nossa abordagem do tema parte da
reflexão acerca da ambiguidade de toda
produção cultural: ao mesmo tempo que serve
à consciência, pode servir à alienação; tanto
ao conhecimento como à escamoteação da
realidade; tanto pode ser criativa como
paralisadora.
Os chilenos Ariel Dorfman e
Armand Mattelart defenderam a tese de que
a leitura das histórias em quadrinhos não era
tão inocente assim como se pensava. Fizeram
impiedosa crítica aos quadrinhos ao
denunciarem a ideologia subjacente aos
quadrinhos, nos quais as histórias
escamoteiam os conflitos, transmitem uma
visão deformada do trabalho e levam à
passividade política. Para eles, na maioria das
histórias em quadrinhos, a sociedade aparece
como una, estática e harmônica e a “ordem
natural” do mundo é quebrada apenas pelos
vilões, que, encarnando o mal, atentam
geralmente contra o patrimônio (roubo de
bancos, joias e caixas-fortes). A defesa da
legalidade dada e não questionada é feita pelos
“bons”, com a morte dos “maus” ou com a
integração desses à norma estabelecida.
c) Outros espaços de ação ideológica
A ideologia se faz presente nos mais
diversos campos de atuação. Um deles é a
propaganda. Tudo bem que possamos
entender a propaganda como uma maneira de
divulgar ao provável consumidor a variedade e
a qualidade do que é produzido, o que por sinal
é muito bem-feito pelas competentes agências
de propaganda.
A propaganda não vende apenas
produtos, mas também ideias. Compramos o
“sonho americano”, o desejo de “subir na
vida”, os estilos de vida, as convicções
políticas e éticas que de certa forma são
veiculadas nos comerciais. Isso sem falar nas
campanhas de governos ou no marketing dos
candidatos a qualquer cargo público.
Outro espaço possível de ação da
ideologia é o da mídia. A imprensa falada e
escrita é formadora de opinião, o que
representa algo positivo, desde que, numa
sociedade plural, tenhamos acesso a diversos
veículos de informação a fim de poder
comparar a diversidade de posicionamentos e
então assumir uma posição crítica pessoal.
As distorções ocorrem quando a
empresa jornalística determina o que deve ser
considerado notícia; quando é manipulada por
meio de recursos linguísticos. Da mesma
forma, quando são utilizados adjetivos
carregados de juízos de valor, como
“baderneiros”, “perturbadores da ordem” ao
noticiar uma greve.
5º texto: Meios de comunicação de massa,
tecnologia e novas mídias; Sociedade de
consumo
CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. 13. ed.
São Paulo: Ática, 2005. pag. 293-299
MEIOS DE COMUNICAÇÃO DE MASSA,
TECNOLOGIA E NOVAS MÍDIAS
A expressão comunicação de massa
foi criada para referir-se aos objetivos
tecnológicos capazes de transmitir a mesma
informação para um público muito amplo,
isto é, para a massa. Inicialmente, referia-se ao
rádio e ao cinema, pois a imprensa
pressupunha pessoas alfabetizadas, o que não
requerido pelo rádio nem pelo cinema em seus
começos. Pouco a pouco estendeu-se para a
imprensa, a publicidade ou propaganda, a
fotografia, o telefone, o telégrafo, o fonógrafo
com os discos, a televisão e a Internet. Esses
objetos tecnológicos são os meios por
intermédio dos quais a informação é
transmitida ou comunicada.
Em latim, meio se diz médium e, no
plural, meios se diz media. Os primeiros
teóricos dos meios de comunicação
empregaram a palavra latina media. Como
eram teóricos de língua inglesa, diziam mass
media, isto é, “os meios de massa”. A
57
pronúncia em inglês, do latim media é
“mídia”. Quando os teóricos de língua inglesa
dizem “the media”, estão dizendo “os meios”.
Por apropriação da terminologia desses
teóricos no Brasil, a palavra mídia passou a ser
empregada como se fosse uma palavra
feminina no singular – “a mídia”.
O que os meios (ou “a mídia”)
veiculam? O que transmitem? Sob a forma
de romances, novelas, contos, notícias,
músicas, debates, danças, jogos, eles
transmitem informações.
Em síntese, o termo "meio de
comunicação" refere-se ao instrumento ou à
forma de conteúdo utilizados para a realização
do processo comunicacional. Quando referido
a comunicação de massa, pode ser considerado
sinônimo de mídia. Entretanto, outros meios
de comunicação, como o telefone, nãosão
massivos e sim individuais (ou interpessoais).
O jornal foi o primeiro meio de
comunicação de massa criado pelo homem:
originário dos documentos informativos dos
navegadores do século XVI, esse meio
originalmente impresso tomou a forma que
tem hoje em 1836, na França; o jornal, hoje,
também tem a forma falada (imprensa
falada), no rádio, e a forma televisiva
(imprensa televisada). Veracidade,
imparcialidade, objetividade e credibilidade
são as qualidades que garante o sucesso de
um jornal. A base do jornalismo é a notícia,
seu objeto e seu fim (o resto é secundário). A
função principal da linguagem nesse meio
de comunicação é a referencial ou
informativa. Para que o receptor tenha acesso
à mensagem veiculada por esse meio, é
preciso que ele saiba ler e escrever, ou seja,
pertencer a uma parcela privilegiada da
sociedade.
O rádio ainda é o meio de comunicação
mais popular que existe já que para ter acesso
às mensagens que ele veicula o receptor não
precisa ler e escrever: o rádio é um meio que
se utiliza da linguagem verbal oral, a
linguagem que todos os ouvintes sabem usar
desde que aprenderam a falar. Praticamente
quase toda a população de uma localidade
possui um aparelho de rádio. Os primeiros
inventos que possibilitaram a concretização do
rádio como meio de comunicação de massa
também datam do século XIX. As primeiras
emissoras de rádio norte-americanas datam de
1920 e as do Brasil, entre 1922-25, tendo seu
clímax nos anos 1930.
Rádio e televisão
Os primeiros estudos sociológicos,
psicológicos e filosóficos sobre os meios de
comunicação de massa foram feitos quando se
deu a expansão das ondas de rádio. O rádio
despertou interesse porque com ele iniciou-se
efetivamente a informação e a comunicação de
massa a distância.
Dois fatos, o caso da transmissão
radiofônica de A guerra dos mundos e o uso de
mensagens radiofônicas pelo nazismo, nos
ajudam a perceber o impacto e a importância
do rádio.
Nos meados dos anos 1930, o ator e
diretor de cinema, o jovem Orson Welles,
irradiou por uma rádio de Nova York o
romance de H.G.Welles, A guerra dos mundos,
que narrava a invasão da Terra por
marcianos. Orson Welles e sua turma não
avisaram o público de que se tratava de uma
obra de ficção científica, mas a apresentaram
como se de fato Nova York estivesse sendo
invadida por alienígenas. O pânico tomou a
cidade, pessoas fugiram de suas casas,
procurando trens, ônibus, metrôs e automóveis
para escapar da ameaça. E depois o pânico
tomou o país, sendo necessário que o governo
e o exército norte-americanos interviessem
para acalmar a população.
A transmissão de A guerra dos mundos
mostrou o poder de persuasão e de
convencimento do rádio e nos explica o
segundo fato, isto é, seu uso cotidiano e intenso
feito pelo poder nazista alemão com finalidade
de propaganda política. Conferências de
intelectuais nazistas, discursos de Hitler,
entrevistas com militantes do partido nazista,
transmissão de notícias diretamente das frentes
de guerra foram empregados pra convencer a
sociedade alemã sobre a grandeza, justeza e
poderio do nazismo. Em outras palavras, o
nazismo descobriu e explorou a capacidade
mobilizadora do rádio.
58
Segundo os preceitos desse líder, a
arte da propaganda nazista consistia em ser
capaz de despertar a imaginação pública
apelando para os sentimentos. Essa estratégia
correspondia à ideia do indivíduo como ser
irracional movido por instintos.
Não só os meios de comunicação
como imprensa, rádio, cinema (em
documentários) foram utilizados, mas também
literatura, teatro, filmes de ficção, pintura,
arquitetura, ritos, festas, comemorações,
desfiles, manifestações cívicas e esportivas.
A propaganda política nazista foi
organizada por Goebbels (Ministro da
Informação Popular e Propaganda). Segundo o
ministro, a Igreja católica continuava viva
porque repetia a mesma coisa por mais de dois
mil anos. Ele considerava a repetição a regra
básica da propaganda. As mensagens deveriam
ser curtas, repetitivas e com capacidade de
exercer forte influência psicológica.
A mentira, a calúnia e as
deformações, constitutivas do nazismo,
também deveriam fazer parte da propaganda.
No Brasil, nos anos 1940, durante a
ditadura de Getúlio Vargas, foi criado pelo
governo um programa diário para transmitir as
notícias oficiais e as ideias do ditador: a Voz do
Brasil, existente até hoje.
A televisão surgiu nos anos 1940 nos
Estados Unidos e, nos anos 1950, no Brasil. É
um “liquidificador cultural”, pois é capaz de
diluir Cinema, Teatro, Música, Dança,
Literatura, etc, num só espetáculo, além de ser
um meio de entretenimento.
O Grande Irmão
A maioria do público brasileiro talvez
não saiba o que seja e quem seja o Big Brother,
ou o Grande Irmão. É uma personagem do
romance de George Orwell, 1984. O romance
descreve uma sociedade totalitária na qual
todos são permanentemente vigiados por
câmeras de televisão. Ao infringirem alguma
regra ou lei, são presos e torturados,
condicionados para não voltar a errar. As
pessoas não convivem umas com as outras,
mas sentem solidão e necessidade de se
comunicarem. Para isso, todos os dias e várias
vezes por dia “conversam” com uma tela de
televisão na qual há um rosto bondoso, o Big
Brother, o Grande Irmão, que os vigia e lhes
fala, sem na verdade dizer-lhes nada, a não
ser dar-lhes ordens. Nessa sociedade, existe o
“Ministério da Verdade”, cuja função é
produzir a mentira, eliminando e deformando
fatos, pessoas e acontecimentos por meio de
narrativas falsas, a serviço do poder do Big
Brother. Nela também foi criada a
“Novilíngua”, um departamento encarregado
de mudar o sentido das palavras conforme os
desejos do Big Brother, impedindo que as
pessoas compreendam o verdadeiro sentido
delas.
Essa história terrível sobre o controle
de corpos, corações e mentes das pessoas por
sistemas cruéis de vigilância em sociedades
totalitárias teve seu conteúdo crítico
inteiramente esvaziado ao servir de modelo
para um programa de televisão “engraçado
e divertido” (BBB Brasil), um entretenimento,
como acontece com tudo na indústria cultural.
O espetáculo de vulgaridade e
ignorância oferecido no vídeo não tem
similares mundo Creio que a Globo ocupe a
vanguarda desta operação de imbecilização
coletiva, de espectro infindo, na sua
capacidade de incluir a todos, do primeiro ao
último andar da escada social.
Mídia e Política
A “ditadura” da mídia
“não se preocupem. Não queremos
controlar o mundo. Só queremos um
pedaço dele.” (Murdoch, dono do império
midiático News Corporation, presente em
133 países)
“Sim, eu uso o poder (da Rede Globo), mas
eu sempre faço isto patrioticamente”.
(Roberto Marinho)
A mídia hegemônica vive um paradoxo:
ela nunca foi tão poderosa no mundo e no
Brasil, em decorrência dos avanços
tecnológicos nos ramos das comunicações
e das telecomunicações.
a) exerce uma “ditadura” midiática,
manipulando informações e
deturpando comportamentos. Na
59
crise de hegemonia dos partidos, a
mídia transforma-se no “partido do
capital”, diz Gramsci.
b) Ela é vulnerável e sofre
questionamentos da sociedade.
Cresce a resistência ao enorme poder
manipulador da mídia, como por
exemplo, as mentiras ditadas pela
CNN e Fox para justificar a invasão
dos EUA no Iraque ou suaação
golpista na Venezuela.
Os paradoxos colocam em novo patamar a
luta pela democratização da mídia e pelo
fortalecimento de meios alternativos.
Mídia e poder mundial
1 - O papel estratégico da mídia global
As corporações de mídia e
entretenimento têm papel estratégico no
processo de reprodução ampliada do
capitalismo. Não apenas legitimam o ideário
global, como também o transformam no
discurso social hegemônico, propagando
visões de mundo e modos de vida.
A retórica da globalização enquadra o
consumo como valor universal, capaz de
converter necessidades, desejos e fantasias em
bens integrados à esfera da produção.
Os aparatos da veiculação fabricam o
consenso sobre a hipotética superioridade das
“economias abertas”, insistindo que não há
saída fora dos pressupostos neoliberais.
O avanço do neoliberalismo no terreno
político-cultural repousa na capacidade das
indústrias de informação e entretenimento de
operar como máquinas produtivas. O papel da
mídia é neutralizar as expressões de crítica e
dissenso. O “pensamento único” oculta as
desigualdades.
2 - O domínio da produção simbólica
A mídia global está nas mãos de duas
dezenas de conglomerados, com receitas
entre 8 e 40 bilhões de dólares. Eles veiculam
dois terços das informações e dos conteúdos
culturais disponíveis no planeta. São
proprietários de estúdios, produtoras,
distribuidoras e exibidoras de filmes,
gravadoras de discos, editoras, TVs abertas e
pagas, emissoras de rádio, revistas, jornais,
serviços on line, portais e provedores de
Internet, vídeos, agências de publicidade,
telefonia celular, etc.
Uns chamaram a imprensa, e com
maior razão, a mídia, de quarto poder. Na
verdade, a mídia não é simplesmente uma força
estranha à máquina de poder. Ela é parte
integrante dele. Hoje não há poder sem mídia.
A mídia é o que divulga, propagandeia,
sustenta ou derruba um sistema, um regime
(ver o caso das revoluções no mundo árabe,
desde janeiro de 2011).
A mídia tem dono, tem classe, tem
interesses de classe a defender. Se desejamos a
livre circulação de informações, é hora de
revitalizar a sociedade civil e arregimentar
forças para as ingentes tarefas de revalorizar a
política como âmbito público de representação
de anseios e de revitalizar os laços
comunitários.
O “latifúndio” midiático no Brasil
Na década passada, nove grupos
familiares controlavam o grosso da mídia
nativa: Marinho (Globo), Abravanel
(SBT), Saad (Bandeirantes), Bloch
(Manchete), Civita (Abril), Mesquita
(Estadão), Frias (Folha), Levy (Gazeta),
Nascimento e Silva (Jornal do Brasil).
Hoje são apenas seis, com a débâcle das
famílias Mesquita, Bloch, Levy e
Nascimento e a inclusão de Macedo.
Concentração da mídia foi impulsionada
pela ausência na legislação de qualquer
norma proibindo a propriedade cruzada – a
posse de inúmeros veículos em diferentes
setores (jornais, rádio, televisão); nos EUA
existem regras que limitam a
concentração.
TV Globo possui 223 emissoras próprias
ou filiadas
Em 2003, as TVs abocanharam 60,4¨% do
total da verba publicitária do país
(R$6,53 bilhões). Destas 78% foram para
a Rede Globo. Em 2005, a Rede Globo
(sem incluir as filiadas) teve um
faturamento líquido de R$4,3 bilhões.
Hegemonia e poder manipulador
60
O poder descomunal da mídia sempre
procurou manipular a sociedade brasileira
no passado, usando o denuncismo do “mar de
lama” levou Vargas ao suicídio em 1954;
contra o governo Goulart, fez campanha por
sua derrubada, alardeando “o perigo do
comunismo”; na redemocratização do país, a
mídia tentou criar obstáculos para o avanço das
lutas operárias; em 1978, tratou os grevistas
como arruaceiros; na constituinte de 1988, ela
defendeu as teses neoliberais; em 1989, criou a
imagem do “caçador de marajás”, garantindo
a vitória de Collor.
Anos 1990, a mídia foi a vanguarda
para implantar o neoliberalismo; blindou FHC,
pregando a privatização do Estado, a
desnacionalização e a desregulamentação. A
vitória de Lula em 2002 foi encarada como um
grave risco para os “donos da mídia”.
Revisitando algumas teses sobre Mídia e
Política no Brasil
Mídia: indústria da cultura, isto é, as
emissoras de rádio e TV, jornais, revistas e ao
cinema.
mídia – plural latino de “medium”, meio –
é o conjunto das instituições que utiliza
tecnologias específicas para realizar a
comunicação humana.
Primeira tese: a mídia ocupa uma posição
de centralidade nas sociedades atuais,
permeando diferentes processos e esferas da
atividade humana, em particular a esfera da
política.
Na década de 1970, do ponto de vista
político, o papel central da mídia – mídia
eletrônica – TV foi reconhecido pelos
regimes militares, ou seja, criaram as
condições de infraestrutura física para
consolidar a mídia nacional.
Papel mais importante da mídia: poder
de longo prazo – “construção da
realidade” através da representação que
faz dos diferentes aspectos da vida humana
– étnicas, gêneros, estética, da política e
dos políticos.
Segunda tese: não há política nacional sem
mídia
a política nos regimes democráticos é
uma atividade pública e visível. E
somente a mídia é que tem o poder de
definir o que é público no mundo
contemporâneo.
os atores políticos têm de disputar
visibilidade na mídia e os diferentes
campos políticos têm de disputar
visibilidade favorável de seu ponto de vista
(ver telejornais, Voz do Brasil).
Terceira tese: a mídia exerce várias das
funções tradicionais atribuídas aos partidos
políticos
no Brasil, a crise dos partidos é consenso
sobre a histórica inexistência de uma
tradição partidária consolidada.
torna-se mais fácil o exercício pela mídia
das tradicionais funções atribuídas aos
partidos, como por exemplo:
a) construção da agenda política ; b)
geração e transmissão de informações
políticas ; c) fiscalização das ações de
governo; d) exercício da crítica das
políticas públicas; e) canalização das
demandas da população
a ocupação do espaço institucional pela
mídia é uma das causas da crise
generalizada dos partidos
preferência da mídia pela cobertura
jornalística dos candidatos e não dos
partidos = “personalização” da política e
do processo político, como se fosse uma
“disputa entre pessoas (políticos) e não
entre propostas políticas alternativas
(partidos).
Muitas emissoras de rádio AM brasileiras
se caracterizam por exercer o papel de
canalizadoras das demandas populares
através de programas comandados por
radialistas (que tem se transformado em
políticos profissionais, exercendo
mandatos na Câmara)
Às vezes, ao praticar um denuncismo
vazio, a mídia acusa e condena
publicamente, sem o devido julgamento,
tanto pessoas como instituições,
desempenhando indevidamente, uma
função específica do Poder Judiciário.
Quarta tese: a mídia alterou radicalmente
as campanhas eleitorais
61
campanhas de prefeito e vereador só
existem no horário gratuito de
propaganda eleitoral na TV nos
municípios, com geradoras de televisão.
Nas eleições de 2004, eles eram apenas
185 dos 5.559 municípios brasileiros (40%
do eleitorado)
Quinta: a mídia se transformou, ela própria,
em importante ‘ator político’
as empresas de mídia são hoje atores
econômicos fundamentais como parte de
grandes conglomerados empresariais
se transformaram em atorescom
interferência direta no processo político.
Exemplo: Rede Globo
Sexta: as características específicas da
população brasileira potencializam o poder
da mídia no processo político, sobretudo no
processo eleitoral.
pesquisa de 2005: apenas 26% dos
brasileiros entre 15 e 64 anos têm
domínio pleno das habilidades de leitura
e escrita, ou seja, consegue entender as
informações de textos mais longos e
relaciona-las com outros dados
30% dos brasileiros são considerados
analfabetos funcionais ou “alfabetizados
rudimentares”, isto é, pessoas com esse
nível de leitura não conseguiriam entender
as orientações de um médico passadas por
escrito
Pesquisa de 2006: 58% dos entrevistados
têm televisão como a sua principal fonte
de informação política; os familiares e
amigos (expostos também à TV) vêm em
segundo lugar com 18%. Só depois vêm os
jornais com 7%, o radio com 6% e os
colegas de trabalho com 4%.
Nov/2010: resumo de pesquisa realizada
pelo TSE com eleitores, que mostra que a
internet já alcança quase 10% das citações
como fonte de informação, contra 56% da
TV. É pouco? Não, é um número
excepcional. Quanto será em 2014? 20%?
30%? Além disso, praticamente 1/3 do
eleitorado já acessa a internet
"sempre". Veja abaixo, alguns quadros da
pesquisa realizada pelo TSE:
14/04/2011 - O DataSenado perguntou aos
entrevistado qual é a sua principal fonte de
informação sobre política. Em primeiro
lugar apareceu a TV, com 56%, seguida de
jornais e revistas, com 20%.
A internet surge à frente do rádio como
fonte de informação (15% e 5%). O
interesse por política foi avaliado como
médio por 53% dos pesquisados.
90,3% dos domicílios brasileiros
possuem pelo menos um aparelho de TV,
ou seja, a grande maioria de nossa
população vive uma situação paradoxal de
exposição à mídia
A grande maioria de nossa população
continua sem o domínio da leitura e da
escrita, mas convive com as imagens da
televisão, para entretenimento e
informação.
20/08/2012 - TV é a principal fonte de
informação sobre política.
Não tem para internet, com suas poderosas
redes sociais. A televisão continua sendo o
principal fonte de informação para o eleitor no
que diz respeito à política local.
62
De acordo com a primeira rodada da pesquisa
DiarioData Associados, 60% dos
entrevistados informaram ser este meio mais
utilizado para acompanhar notícias sobre o
tema.
A web ficou e segundo lugar, com 11%. Jornal
(8%) e carro de som (7%) vêm a seguir. O rádio
só aparece em quinto lugar com 6%. Por fim,
5% disseram que se informam por meio de
conversas com amigos e parentes.
A Televisão
criada em 1936, mas produzida em
massa após 1945
“domesticação da fantasia”: introduz
novas ideias e comportamentos, mas
também pode limitar a potencialidade
inovadora e imaginativa das pessoas.
Televisão no Brasil
A televisão brasileira surgiu em 1950,
em São Paulo, com a TV Tupi.
O Brasil era o 5º país do mundo a
implantar a TV e o 1º da América
Latina.
A partir de 1968, com a implantação
da indústria eletroeletrônica e do
programa de crédito ao consumidor, as
vendas aumentaram e já existiam 4
milhões de televisores.
1965: nasce a TV Globo, no Rio de
Janeiro
Acordo de cooperação técnico-
financeiro: Globo + Time-Life
Comprometimento recíproco entre o
regime autoritário e a Rede Globo
(relação incestuosa)
Globo consolida-se como “Ministério
da informação”
1º/9/1969: nasce o Jornal Nacional
Virtual monopólio da Rede Globo (1965 a
1980)
Globo a partir de 1982 se torna a 4a.
maior rede de TV do mundo
Dados de 1980: 75% da audiência era
da Globo
Jornal Nacional era visto por mais de
60 milhões de pessoas
Domínio de audiência e de
concentração de verbas publicitárias
Regime autoritário e Rede Globo
Golpe de 1964: regime autoritário +
modelo econômico excludente
Programação da Rede Globo:
portadora de uma mensagem nacional
de otimismo desenvolvimentista =
para dar sustentação e legitimação à
hegemonia autoritária.
Globo: “dançou a sinfonia do poder”:
conchavos, acordos políticos, etc
Formadora de estereótipos, criando
modelos de comportamento, de moda,
de linguagem, sedutor poder da
informação
Globo possui uma ideologia de
características americanas, que
auxiliou na criação de uma subcultura
que dominou a consciência das
massas.
Fraude nas eleições para governador
do Rio de 1982
Padrão Globo de Qualidade: foi
substituído pela lógica do mercado ou
pela força do ibope.
Rede Globo na redemocratização política do
Brasil
Omissão da Globo na campanha das
Diretas-Já, de 1984
a fabricação do caçador de marajás
(Collor) na programação global a
partir de 1987
edição do debate do 2º turno nas
eleições presidenciais - Collor e Lula
(1989)
INTERNET
A Internet tornou-se o mais novo e mais
eficaz meio de comunicação de massa. Por
isso, ainda é o menos abrangente, já que para
ter acesso a ele, é preciso ter um computador,
uma placa de “fax modem”, uma linha
telefônica e um provedor de acesso...
Sempre que um novo meio de comunicação
surge, o otimismo da democratização dos
meios de comunicação toma conta daqueles
que a desejam. Essa democracia, porém, só
será possível no dia em que mudanças políticas
diminuírem a distância entre os indivíduos que
têm e os que não têm a informação, retirando
63
do controle comunicacional os poderosos de
sempre, pois se os novos meios de
comunicação tiverem os mesmos donos dos
meios existentes, eles serão tão tendenciosos
quanto eles.
Estatísticas, dados e projeções atuais
sobre a Internet no Brasil – outubro/2013
Número de usuários
Segundo o Ibope Media, somos 105 milhões
de internautas tupiniquins (out/2013), sendo o
Brasil o 5º país mais conectado. De acordo com
a Fecomércio-RJ/Ipsos, o percentual de
brasileiros conectados à internet aumentou de
27% para 48%, entre 2007 e 2011.
Internautas ativos
O número de usuários ativos de internet em
casa ou no trabalho chegou a 60,7 milhões no
mês de março, segundo levantamento
divulgado pela Nielsen Ibope nesta quarta-
feira (7). Segundo a companhia, houve um
crescimento de 6,5% nesse número comparado
a fevereiro. A razão para esse aumento é o
crescimento do acesso feito em domicílios. A
quantidade de usuários que acessa a rede só em
casa, diz o Nielsen Ibope, chegou a 51,6
milhões. No mês anterior (fevereiro), esse
número foi 48 milhões. É considerado usuário
ativo pela Nielsen Ibope quem acessou a
internet pelo menos uma vez nos últimos 30
dias. A empresa não divulgou margem de erro.
30/07/2013 - Facebook alcança 76 milhões de
usuários no Brasil
O Facebook alcançou 76 milhões de usuários
no Brasil em março deste ano, segundo dados
da empresa obtidos com exclusividade pelo
site de VEJA. Considerando que o país tem 105
milhões de pessoas com acesso à internet –
segundo última pesquisa publicada pelo
Ibope. Os números consolidam um
crescimento de 630% desde fevereiro de 2011,
quando o Facebook começou oficialmente sua
operação no Brasil e abriu um escritório no
Itaim Bibi, em São Paulo. Na época, o
Facebook tinha 10 milhões de usuários.
04/09/2015 - WhatsApp chega a 900 milhões
de usuários
O WhatsApp chegou a 900 milhões de usuários
ativos em todo o mundo, informou nesta quinta-
feira (3) o cofundador doaplicativo de
mensagens, Jan Koum. Desde o começo do ano,
o serviço de bate-papo passou a ser usado por
200 milhões de novos usuários.
A informação, publicada em post no Facebook,
foi curtida por Mark Zuckerberg, presidente-
executivo e um dos fundadores da rede social,
que se tornou dona do aplicativo em 2014
depois de desembolsar US$ 22 bilhões.
“WhatsApp está no caminho para conectar um
bilhão de pessoas. Serviços que atingem a casa
do milhar são incrivelmente valiosos”, afirmou
Mark Zuckerberg em fevereiro do ano passado.
O serviço de mensagens já possui mais usuários
do que o Messenger, app de chat para os
indivíduos que possuem conta no Facebook.
O WhatsApp atinge a marca de 900 milhões de
membros poucos dias depois de o Facebook
anunciar ter sido acessado por 1 bilhão de
pessoas em um único dia.
4/08/2015 - A semente do ódio
A mídia tem contribuído para a ascensão do
comportamento fascista, que se resume no
racismo, na xenofobia e na dificuldade em
aceitar as diferenças.
Luiz Claudio Tonchis - Jornal GGN
Atualmente, vivemos uma verdadeira
enxurrada de propaganda fascista, a
propaganda do ódio, que prega a intolerância e
que se afirma estarrecedoramente com muita
facilidade e velocidade, através das tecnologias
digitais. É o ódio justificado dentro de uma
certa ideologia irracional. Trata-se de
verdadeiro aliciamento, um sequestro do
pensamento, uma reprodução de uma atitude
passional de intolerância e de agressividade
relativamente às pessoas que não comungam
do mesmo ideal.
Refiro-me ao “fascista em potencial”, chamado
assim por Theodor Adorno, em um estudo
psicossociológico publicado em 1950, feito
com a intenção de abordar o surgimento,
naquela época, de um novo tipo de indivíduos,
com ideias conservadoras, reacionárias e
64
antidemocráticas. Hoje, esse tipo de indivíduo
é cada vez mais comum. Conforme comenta
Tiburi (2012), para Adorno, “a característica
fundamental do que se chamou de
‘personalidade autoritária’ era a combinação
contraditória, num mesmo indivíduo, entre
uma postura racional e idiossincrasias
irracionais”. E, o que ele chamou de “fascismo
potencial”, para Tiburi, “seria uma
característica de indivíduos que teriam se
mimetizado às tendências antidemocráticas da
sociedade.”1
O fascismo emerge do comportamento social,
e não é necessariamente político. Dessa forma,
podemos entender o comportamento fascista: o
racismo, xenofobia, dificuldade em aceitar as
diferenças, desejo de exclusão ou descarte
daquilo que não lhe agrada, intolerância e o
fundamentalismo religioso, preconceito, etc.
Como por exemplo, as manifestações de ódio
aos nordestinos que votaram na presidente
Dilma, a não aceitação explícita e radical
daqueles que a apoiam, ou sejam, daqueles que
não comungam com os seus mesmos ideais
políticos e partidários. Para esses, a pessoa que
pensa diferente, é “cega” e “burra”.
Existem fatos que apresentam especificidades
muitos especiais: consistem em determinadas
tendências nos modos de agir, pensar e sentir,
exteriores aos indivíduos e dotados de um
poder de coerção muito forte, que são
impostas, porém facilmente assimiladas pelos
indivíduos – as ideologias pré-fabricadas que
são facilmente aceitas pelo senso comum.
Antes o rol de informações que alimentavam
esse tipo de pensamento era emitido por
vizinhos, amigos, jornais, televisão, religião,
etc. Atualmente, além da mídia, a internet
passou a ser o principal meio de veiculação e
reprodução desse tipo de pensamento e,
também de sentimentos, cuja sua principal
marca é uma construção coletiva da ausência
de reflexão e a aceitação pacífica e inocente das
informações.
Tanto o senso comum como o senso crítico
fazem parte das formas de encarar, se
posicionar e conhecer a realidade, cada qual
com a sua maneira e implicação. O senso
comum possui a marca do ordinário, normal,
coletivo, caracterizado pelo pensamento
superficial, irrefletido e inocente. Ele não
possui rigor quanto à coerência e lógica de seus
conceitos, o que faz com que sejam mais
facilmente massificados, manipulados,
alienados e o indivíduo não é capaz de entender
as relações de força que definem uma
determinada situação.
O senso crítico, ao contrário do senso comum,
possui como principais características a
reflexão, a análise, a crítica consciente e
coerente. Ele pauta-se pelo uso consciente da
razão para administrar as ideias e os próprios
sentimentos. Dogmas, opiniões e crenças são
minuciosamente investigadas e analisadas, o
que proporciona um juízo coerente, autônomo
e flexível. No uso do senso crítico o
pensamento é complexo e dialético, capaz de
distinguir, identificar as ideologias
conspiradoras e manipuladoras, tão comuns
nas redes sociais, blogs, mensagens do
WhatsApp que são espalhadas, muito
rapidamente, através dos smartphones.
Os meios de comunicação têm um papel
fundamental nesse processo: a propaganda
disfarçada de jornalismo tem uma
característica peculiar na reprodução do ódio e
negação da alteridade, ou seja, a não aceitação
do outro como ele é, diferente. Ainda
consegue, com muita facilidade, mascarar a sua
intencionalidade fascista aos olhos do senso
comum e do analfabeto político, levando o
indivíduo a achar que é politizado porque
comunga da mesma ideia. A aceitação pacífica,
irrefletida e irracional o faz pensar que é um
cidadão consciente e passa a reproduzir a
violência, sem pensar com cuidado crítico nas
causas e consequências dos seus atos.
O analfabeto político é aquele que não entende
de história política, que não sabe interpretar os
acontecimentos históricos e contextualizá-los.
Ele não sabe as relações de força de uma
determinada situação, não tem noção da
profundidade dos problemas políticos do país.
Seu conhecimento limita-se à construção
coletiva do senso comum, construção essa que
atualmente é potencializada através da internet.
Não conhece – e talvez nem saiba o que é a
nossa Constituição. É inocente, pensa que a
corrupção foi inventada pelo Partido dos
Trabalhadores, ou qualquer outro partido
político, não conhece a promíscua história
65
brasileira marcada pelas relações fisiológicas
entre o público e o privado.
Não há democracia sem respeito à
singularidade e aos direitos fundamentais
assegurados pelo Estado, que cada instituição e
cada cidadão deve ao outro com quem
compartilha a vida, seja ela pública ou privada.
A essência da democracia é a aceitação da
pluralidade, o que implica a coexistência
pacífica das diferenças, sejam elas de ideias
partidários, de gênero, de interesses etc.
Essa disseminação do ódio é a anti-democracia
inconsciente, uma desconstrução da
democracia, ainda infantilizada e em processo,
pelas características de nossa história. Cada um
tem o direito de pensar como quiser, a
liberdade é uma outra prerrogativa da própria
democracia, por exemplo. A filósofa Hannah
Arendt dedicou-se a reflexões sobre dois temas
fundamentais do período pós-guerra: o
totalitarismo e a banalização do mal. Segundo
a pensadora, os regimes totalitários de
esquerda ou de direita tiveram como
pressuposto a aniquilação das classes sociais, a
atomização das pessoas, e a uniformidade e
homogeneidade sociais. A banalização do mal,
fenômeno necessário e correlato ao
totalitarismo, se caracteriza por não ser mero
fruto da perversidade ou da crueldade pessoais,
pois, em sua radicalidade desumana, consiste
da recusa em examinaratos e ações inerentes à
existência humana. Em virtude disso, Hannah
Arendt aponta como antídoto à ascensão
totalitária e à banalização do mal, a atividade
autônoma do pensamento. Assim, para a
pensadora, somente a preservação da
capacidade de reflexão crítica permite que o
indivíduo possa resistir à atomização e ao mal.
Dessa forma, os argumentos de Arendt, não se
fundamentam na perversidade ou na crueldade
das pessoas em si, mas sim na falta da reflexão.
A incapacidade de pensar é uma característica
do senso comum que reproduz o pensamento
vazio de valores morais, o ódio. Para ela, a
saída seria o desenvolvimento da capacidade
de romper com o cotidiano, uma
descontinuidade própria da vida humana, uma
parada, uma reflexão, um olhar de fora - o ato
de refletir sobre os acontecimentos a fim de dar
significados a eles. É como se a experiência do
pensamento se originasse numa sensação de
estranhamento da realidade, e isso não exclui
as coisas mais comuns.
Por isso, atualmente, tornou-se urgente
reinventar um modelo de educação voltado a
uma forma de pensar mais complexa, voltada à
conquista da autonomia intelectual, para o
exercício da atividade crítica coerente e
consistente, de forma que os valores humanos
estejam sempre em vista.
O modelo de educação em voga é pragmático,
o estudante apreende o mundo em partes
fragmentadas de forma utilitarista e
funcionalista, sem comprometimento com a
vida adulta, nas suas mais diferentes
implicações e complexidades. De acordo com
Callegaro (2012), “Hannah Arendt acreditava
que só é possível dar um significado ao mundo,
na medida em que os homens tomarem
consciência de que o mundo, este mundo no
qual vivemos, é resultado de artefatos humanos
que trazem em seu bojo individualidades, que
somadas formam um constructo coletivo.”
Para isso, é preciso renovar nossa capacidade
de diálogo com propostas de um novo projeto
de sociedade. Uma sociedade mais
humanizada. Por enquanto, mesmo parecendo
ineficaz, é preciso combater a intolerância e o
ódio com todas as garras. Não podemos assistir
passivamente a este fenômeno de “olhos
fechados”. É nossa responsabilidade moral e
ética combater a inanição intelectual em voga.
E a ferramenta de combate que por hora
dispomos é o diálogo.
SOCIEDADE DE CONSUMO
O desenvolvimento industrial, comercial,
tecnológico e de serviços a partir do século
XVIII, com a Revolução Industrial,
cimentou os alicerces para a constituição da
sociedade de consumo. Com a produção e a
oferta generalizada de produtos
66
eletrodomésticos, maquinarias, alimentos
descartáveis, automóveis, têxteis, telefones,
aparelhos portáteis, computadores, etc, além
do aumento do capital circulante e da elevação
do poder aquisitivo das classes trabalhadora e
burguesa, a sociedade passa então no século
XX a se embriagar numa orgia consumista. O
homem que entra no século XX como cidadão
sai dele como consumidor.
Sociedade de consumo, termo que designa o
tipo de sociedade que se encontra numa
avançada etapa de desenvolvimento industrial
capitalista e que se caracteriza pelo consumo
massivo de bens e serviços, disponíveis graça
a elevada produção dos mesmos.
O conceito de sociedade de consumo está
ligado ao de economia de mercado e, por fim,
ao conceito de capitalismo, entendendo
economia de mercado aquela que encontra o
equilíbrio entre oferta e demanda através da
livre circulação de capitais, produtos e pessoas,
sem intervenção estatal.
O Capitalismo e a Sociedade de Consumo
Nas últimas décadas houve um aumento
significativo do consumo em todo mundo,
provocado pelo crescimento populacional e,
principalmente, pela acumulação de capital
das empresas que puderam se expandir e
oferecer os mais variados produtos,
conjuntamente com os anúncios publicitários
que propõe o consumo a todo o momento.
Chamamos de consumo o ato da sociedade de
adquirir aquilo que é necessário a sua
subsistência e também aquilo que não é
indispensável, ao ato do consumo de
produtos supérfluos, denominamos
consumismo.
Para suprir as sociedades de consumo, o
homem interfere profundamente no meio
ambiente, pois tudo que o homem desenvolve
vem da natureza, aqui nesse contexto é o palco
das realizações humanas. Através da força de
trabalho o homem transforma a primeira
natureza (intacta) em segunda natureza
(transformada). É a natureza que fornece todas
matérias primas (solo, água, clima energia
minérios etc) necessárias às indústrias.
O planeta já mostra sinais de esgotamento, um
exemplo disso é a escassez de petróleo que é
um recurso não renovável, e sua utilização
corresponde a 40% da energia consumida no
mundo, tendo em vista a sua importância no
cenário mundial a situação é preocupante pois
alguns estudos mostram que o petróleo
existente será suficiente por mais 70 anos.
Os problemas ambientais diferem em
relação aos países ricos e pobres, a prova
disso é que 20% da população é responsável
pela geração da maior parte da poluição e esse
percentual é similar ao percentual da
população que possui as riquezas do mundo.
Enquanto essa população vive em altos níveis
de consumo, outra grande maioria, cerca de
2,4 bilhões de pessoas, não possui saneamento,
1 bilhão não tem acesso a água potável, 1,1
bilhão não tem habitação adequada e 1 bilhão
de crianças estão subnutridas.
Segundo Zygmunt Bauman, no livro
Globalização: as consequências humanas,
“Para aumentar sua capacidade de consumo,
os consumidores não devem nunca ter
descanso. Precisam ser mantidos acordados e
em alerta sempre, continuamente expostos a
novas tentações, num estado de excitação
incessante — e também, com efeito, em estado
de perpétua suspeita e pronta insatisfação. As
iscas que os levam a desviar a atenção
precisam confirmar a suspeita prometendo
uma saída para a insatisfação: “Você acha que
já viu tudo? Você ainda não viu nada!”
"Sociedade do consumo e do crédito não
funciona mais"
Quando as ruas de Londres e outras cidades
inglesas assistiram em agosto de 2011, a
explosões violentas de saques e incêndios,
um detalhe chamou a atenção de sociólogos e
outros analistas: o movimento não tinha
slogans políticos, não articulava exigência,
nem apresentava protestos. Teóricos tentam
explicar a explosão, responsabilizando desde a
ausência de estrutura familiar à pobreza,
desemprego, falta de educação formal e de
perspectiva, sobretudo para os jovens. O
sociólogo Zygmunt Bauman, polonês
radicado na Inglaterra, tem sua própria versão.
Ele viu nos distúrbios ingleses a expressão
radical da sociedade de consumo em que as
67
pessoas buscam sua identidade não naquilo
que são, mas naquilo que consomem e exibem
como se dissessem: “Eu sou o que o que eu
compro”. Esse fenômeno faz parte da fluidez
na sociedade de consumo onde não se valoriza
o permanente, mas o temporário; onde
predomina o que Bauman chama de
modernidade líquida na medida em que nada
é sólido ou conserva a forma por muito tempo.
Tudo em mudança, vive-se inconstância, o que
provoca insegurança e medo.
Silio Boccanera — No meio de 2011, houve
rebeliões na Inglaterra. O senhor estava no
país na época. Imagino que não estivesse
surpreso de ver que os principais alvos eram
as lojas. Os jovens pegavam tênis, camisas
de marca. Eles não pareciam nem ter uma
motivação política. Eles queriam consumir.
O senhor também vê assim?
Zygmunt Bauman — Muito doque aconteceu
era esperado, na verdade. As regiões de
Londres onde os conflitos ocorreram tinham
taxa de desemprego três vezes maior que a
média. Há muitas pessoas desempregadas, em
especial, jovens, que não têm nada para fazer,
morrem de tédio, sem perspectivas de
emprego. Imagine-se nessa condição. No meio
do seu bairro, há um shopping center todo
iluminado, um supermercado, convidando
todos que têm direito de entrar lá.
Oficialmente, não há necessidade de um visto
para entrar nesses lugares, mas os guardas
ficam de olho nas pessoas que andam por ali à
toa, que não prometem ser clientes, e fazem o
possível para não deixá-las entrar. A
mensagem da sociedade de consumo foi
enviada a todos nós, não apenas para algumas
pessoas. O homem mediano comum atual vê,
em um dia, mais comerciais do que as pessoas
viam durante toda vida cem anos atrás. Eles são
inundados por tentações...
Silio Boccanera — Quer possam comprar
ou não.
Zygmunt Bauman — Exato. Todo mundo
recebe a mesma mensagem. Algumas pessoas
podem fazer algo quanto a isso. Lembre que as
pessoas que se rebelaram em Londres
roubaram coisas, mas também as queimaram.
Foi um ato de vingança contra as fortalezas do
consumo onde eles não podem entrar. Roubar
foi uma coisa, mas não era apenas pegar os
objetos que os motivava. Eles queriam se
vingar da humilhação de serem consumidores
desqualificados em uma sociedade de
consumo.
Silio Boccanera — Que pontos em comum
— se é que há algum — o senhor vê entre
esses movimentos, protestos que ocorreram
em Londres, e as ações que têm acontecido
em várias capitais europeias, na maior parte
das vezes lideradas por jovens?
Zygmunt Bauman — Não, é diferente. Em
Londres, até agora, houve uma rebelião ligada
unicamente ao consumo. Foi um protesto de
consumidores imperfeitos contra o
consumismo. Não tinha a intenção de acabar
com o consumismo, mas de participar da orgia
consumista, pelo menos por três noites.
Silio Boccanera — Essa nova geração tem
sido extensivamente exposta, como
conversamos antes, a ideia da falta de
privacidade, de que a vida das pessoas é
exposta, os segredos são expostos, o culto às
celebridades está em toda parte. As pessoas
chegam até a impor sua intimidade aos
outros. Esse é um fenômeno novo?
Zygmunt Bauman — Elas impõem, mas a
prática da exposição pública, do “strip-tease
espiritual público”, podemos dizer, já foi
internalizada, não é mais imposta. Crianças de
oito, 10 anos, passam várias horas por dia na
frente do laptop contando tudo sobre elas
mesmas a quem quiser ler ou ouvir.
Silio Boccanera — E mesmo para quem não
quer.
Zygmunt Bauman — Exato. Nem todos
podem ser vistos na TV. Se alguém for visto na
TV é porque, realmente, é importante. Mas, se
não for, pelo menos há a possibilidade de ser
visto na tela do computador. Talvez alguém,
por acidente, passeie pelo website, pelo blog.
Silio Boccanera — Ou pelo seu Facebook.
Zygmunt Bauman — E escreva, mande um
recado. Assim ela se sente realmente membro
do mundo, não foi deixada para trás, não foi
excluída. Nós estamos dentro com a ajuda da
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internet, da realidade virtual. Quando
desconectados, a vida é cada vez mais deserta,
porque a oferta da socialização, da
convivência, da união, da amizade, foi
assumida pela implementação da internet, por
ofertas online. Portanto, essa é outra grande
mudança. Mais uma vez, é cedo demais para
analisar isso e para fazer alguma previsão certa
e confiável sobre o que acontecerá.
Acrescente-se a isso a comercialização da
moral humana. Nós já nos convertemos ao
consumismo obsessivo-compulsivo. Temos
que trabalhar duro, já que a fronteira entre a
hora do trabalho e a do lazer, do escritório e da
família, foi apagada. Assim, as pessoas
esquecem seu dever moral para com o filho, a
filha, a mulher...
Silio Boccanera — A pessoa está sempre
conectada.
Zygmunt Bauman — Ela não pode dedicar
tempo a eles e o que faz? Compra presentes
caros para compensar a sua ausência. Quanto
mais caro o presente, mais profundos devem
ser sua responsabilidade moral e seu amor.
Juntando tudo isso, vemos sinais de mudanças
culturais muito intensas. Eu acho que estamos
passando por uma profunda revolução
cultural. Mas não me sinto realmente capaz,
com conhecimento suficiente para arriscar em
um prognóstico sobre que direção isso irá
tomar. Como você acertadamente disse, há
muitas pressões contraditórias. Por um lado,
austeridade; por outro, consumismo. Como
conciliar os dois?
Sedução para o consumo
Da tradição tecnicista vem a "necessidade
vital" do consumo, e as poderosas técnicas da
publicidade têm no homem atual presa fácil
pelo vazio existencial proporcionado na era
pós-moderna.
A infinidade de marcas e tipos de produtos
contribuiu ainda mais para a exacerbação do
consumo. Há que se pensar em publicidade
não apenas como um ato de divulgação
objetivo.
O grande motor da propaganda consiste na
sua habilidade em estimular o indivíduo a
consumir um dado produto, destacando-se as
características que se julga como potenciais
fontes de atração da percepção do indivíduo.
As técnicas publicitárias geralmente
associam a imagem do produto divulgado com
elementos que não correspondem
imediatamente ao objeto destacado, pois esse
procedimento gera, na mentalidade do
consumidor, a ideia de que, ao adquirir um
produto específico, as qualidades
supostamente contidas nesse produto serão
assimiladas. O especialista em Comunicação
Social, Gino Giacomini Filho, destaca que “a
publicidade nasceu com o claro propósito de
fomentar a transação econômica,
principalmente diminuindo a resistência do
consumidor”.
O consumidor caracterizado por seguir os
normativos mandamentos publicitários,
propagadores das imagens espetaculares de
sucesso pessoal e profissional, se encontra na
obrigação de ser feliz, mas esse estado de
beatitude (felicidade eterna e suprema) não se
concretiza da maneira esperada na vida
cotidiana. Este é seu maior malogro, havendo
assim uma descontinuidade entre aquisição de
bens materiais e felicidade genuína. Conforme
complementa Adriana Santos, especialista em
Imagens e Culturas Midiáticas: “Cada vez
mais, os meios de comunicação, não apenas
sinônimos de troca de informação como
também de publicidade e propaganda – acenam
com maiores quantidades de objetos de desejo
para os consumidores, fazendo com que, um
dia, o paraíso e o bem-estar prometidos por tais
produtos possam ser - finalmente
encontrados”.
O prazer existencial prometido pelo consumo
de bens materiais não se encontra de modo
algum imediatamente associado a esses, ainda
que haja uma maciça campanha publicitária
que promova o poder mágico desses bens
como acessórios por excelência para que o
consumidor conquiste o patamar de satisfação
material esperado. Consumir é sempre uma
atividade supressora do estresse; logo, por qual
motivo não se aproveitar da sensação geral de
instabilidade psíquica reinante nos agitados
centros urbanos para se promover a
comercialização dos diversos tipos de objetos
disponíveis, revestindo-os com os efeitos
espetaculares da propaganda? Vejamos o
parecer crítico de Schröder e Vestergaard:
69
“Mostrando gente incrivelmente feliz e
fascinante, cujo êxito em termos de carreira ou
de sexo – ou ambos – é óbvio, a propaganda
constrói um universo imaginário em que o
leitor consegue materializar os desejos
insatisfeitos da sua vidadiária”.
Os critérios “morais” da sociedade
consumista, herdeira do tecnicismo industrial,
consistem na obrigação incondicional do
indivíduo se apresentar publicamente como
alguém plenamente capacitado a consumir,
mesmo sem que isso resulte na realização de
uma necessidade vital básica; com efeito, a
lógica consumista faz da disposição de
consumir coisas uma necessidade vital
irrevogável.
É impossível negarmos a inexistência de
qualquer responsabilidade social dos agentes
publicitários, especuladores dos desejos
coletivos, em forjar novas demandas
consumistas, como forma de pretensamente
outorgar aos consumidores tanto uma sensação
de pertencimento social quanto de status quo.
Para o sociólogo, Don Slater, “as pessoas
compram a versão mais cara de um produto
não porque tem mais valor de uso do que a
versão mais barata (embora possam usar essa
racionalização), mas porque significa status e
exclusividade; e, claro está, esse status
provavelmente será indicado pela etiqueta de
um designer ou de uma loja de
departamentos”.
O indivíduo que recebe essas informações é
levado a acreditar que, se ele consumir esse
produto, ele também será feliz e bonito, tal
como veiculado pelo garoto- -propaganda.
Para o - filósofo francês Gilles Lipovetsky, “a
sedução tomou o lugar do dever, o bem-estar
tornou-se Deus, e a publicidade é seu profeta.
O reino do consumo e da publicidade exprime
muito bem o sentido coeso da cultura pós-
moralista. Assim, as relações entre os
homens - ficam sendo sistematicamente menos
simbolizadas e apreciadas do que as relações
entre os homens e as coisas”.
Fonte: Revista Filosofia ano VI nº 66. São
Paulo: Editora Scala, 2011.
Consumo alienado
“Hoje estamos vivendo um período de
compulsão: por comida, bebida, compra e por
sexo. Comprar sem parar, gastar mais do que
ganha e ver a vida financeira no fundo do poço
pode não ser apenas um problema de
desequilíbrio financeiro. Comprar demais pode
ser uma doença: a oniomania (mania de
comprar), um dos transtornos do impulso.
(Paulo Gaudêncio, psiquiatra)
“O que você come, como você come, onde
você come, com quem você come e o quão
frequentemente você come, são questões
relacionadas à sua identidade social mais do
que você imagina. Elas podem dizer de onde
você vem, se é homem ou mulher, sua classe
social, sua cor, sua religião e também muito
sobre sua personalidade” (Sidney Mintz)
“O futebol é um dos carros-chefes da indústria
do entretenimento e de um tema central da
publicidade. O futebol é vendido das mais
diversas formas: pay per view, álbuns de
figurinhas, jogos eletrônicos. Dentro dessa
lógica de mercantilização do futebol, não é de
surpreender que o torcedor seja visto cada vez
mais como consumidor. Nesse cenário, não é
de estranhar que o estádio de futebol exigido
pela Fifa e idealizado por boa parte da mídia,
autoridades, dirigentes seja o “estádio
shopping center”. Saem de cena as gerais e
entram os camarotes executivos, com poltronas
confortáveis, televisores de última geração,
petiscos finos e evidentemente, isolamento da
“massa”. O futebol tornou-se um evento para
olhar, e nada mais. Nesse cenário, a liberação
da emoção intensa tem sido cada vez mais
combatida. Tudo parece ser feito para que o
torcedor se torne mero espectador-consumido.
Não é de se estranhar o investimento crescente
em equipamentos tecnológicos, que estão se
transformando em grandes salas de TV, na
tentativa de tornar telespectadores os
torcedores de estádio. Na tentativa de substituir
a “massa” que xinga e protesta, no torcedor
contido e consumista: que come sua
pipoquinha sentado numa confortável poltrona
enquanto assiste aos comerciais dos
patrocinadores do evento em enormes e
luminosos telões. O torcedor, antes do jogo e
durante o intervalo, em vez de passear para
observar e interagir com o resto dos torcedores
age como um consumidor, saindo para olhar
vitrines das lojas dos estádios e comprar os
70
produtos do clube; tudo isso sendo controlado
por câmeras espalhadas por todos os cantos”.
(Felipe Tavares Paes Lopes in: Torcedor:
consumidor ou cidadão? Revista Ética)
CULTO AO CORPO
“A vigorexia é um dos extremos da
preocupação exagerada com a forma física.
Enquanto a anorexia e a bulimia são mais
frequentes em mulheres, que deixam de se
alimentar ou comem para depois vomitar
porque acreditam estar gordas, a vigorexia
afeta mais os homens que desejam desenvolver
seus músculos, já que se veem fracos e doentes.
A vigorexia associa beleza com músculos
definidos e é um transtorno vinculado a
problemas de personalidade”. (Maria Luisa
Rubio. 23/06/2008)
Pode se observar na sociedade atual, uma
variedade de distúrbios, como anorexia,
bulimia, medo de envelhecer, compulsão por
se exercitar, tudo isso como tentativa, por parte
dos indivíduos, de se livrar da vergonha do
corpo. Por que existe tanta aflição em relação
ao corpo, ou seja, essa sensação de que o corpo
não nos pertence, que ele não é adequado e
desejamos ter outro corpo? “Acho que nós
transmitimos, através do corpo, o modo como
queremos ser vistos, como queremos ser
considerados e o que desejamos falar sobre nós
mesmos. O corpo se tornou um signo, uma
espécie de cartão de visita que expressa quem
somos, como nos percebemos e como nos
posicionamos no mundo”. (Susie Orbach,
psicanalista, em entrevista a Globonews –
9/10/2010)
A insustentável sociedade de consumo
O consumo é considerado, por alguns
economistas, como a "mola propulsora" da
economia mundial. Consumir geraria
demanda, que por sua vez geraria maior
produção por parte das indústrias,
estimulando o surgimento de novos
empregos, o aumento de salários e até mesmo
o investimento em novas tecnologias para
aprimorar a produção. Isso significaria mais
trabalhadores, com salários melhores, que
também seriam levados a consumir, formando
um ciclo que manteria a economia aquecida e
contribuiria para o desenvolvimento dos
países. Por muito tempo, essa foi uma
corrente de pensamento econômico
predominante nos países capitalistas. Mas esse
modelo neoliberal, que tinha os Estados
Unidos como seu principal representante, está
sendo cada vez mais questionado.
Dessa forma, o consumo acabou se tornando
um fator importante de construção de
representações sociais. Ao comprar, não
apenas se adquire um produto ou um serviço,
mas define-se o status, e mesmo a identidade,
de um indivíduo. É o "compro, logo existo",
uma forma do indivíduo se posicionar – e se
diferenciar - dentro da sociedade através do
que consome. "Aquilo que você veste, come e
bebe define socialmente quem você é, onde
você está e até onde pode ir.
Comprando felicidade
Não é preciso apenas consumir para existir,
mas é preciso consumir para ser feliz. Nessa
lógica, vale tudo para se realizar um sonho
de consumo: fazer horas-extras, "bicos" ou
prestações a perder de vista. "É como se os
objetos fossem capazes de propiciar o bem-
estar social e a segurança que tanto se reclama
e proclama". Assim, busca-se a realização
pessoal e a felicidade através do consumo. A
sociedade de consumo vende a satisfação dos
desejos individuais, mas desperta nos
consumidores a cada momento novos
desejos a serem satisfeitos, fazendo-os querer
(e consumir) sempre mais. "O vazio existencial
cavado pela complexidade dos
relacionamentos psicossociais não se preenche
facilmente com bolsas, celulares e carros.Se a
felicidade prometida pela sociedade de
consumo fosse real, nós não estaríamos
vivendo uma sociedade tão violenta como a
nossa. A violência física e simbólica são frutos
da desigualdade e da perversidade da
sociedade de consumo que elege os
endinheirados como os sortudos da ilha da
fantasia", alerta Padilha.
"O consumo é indispensável na vida de todos
os cidadãos. O que está em discussão é a
tipologia, o significado e o montante do
consumo. Principalmente no que diz respeito
às produções que envolvem matérias-primas
há uma crescente preocupação. A finitude
dos recursos naturais é evidente, e é agravada
71
pelo modo de produção regente, que destrói e
polui o meio ambiente.", diz Ruscheinsky. "O
consumo é indispensável e cumpre diversas
funções sociais, mas, nos níveis e padrões
atuais, e em expansão, precisa ser modificado
em direção a formas mais sustentáveis, tanto
do ponto de vista social quanto ambiental",
concorda Portilho.
Repensando o modelo
O modelo da sociedade de consumo está tão
enraizado na sociedade contemporânea que
alguns pesquisadores já chegaram a afirmar
que ele é irreversível. Porém, Padilha
discorda: "Nada é irreversível quando se
pensa em sociedade". Para a pesquisadora, a
atual crise nos Estados Unidos é um sinal de
que esse modelo deve começar a ser
repensado. "O produtivismo e o
consumismo desenfreados são insustentáveis
por mais tempo. O primeiro e mais importante
limite dessa cultura do consumo, que
estamos testemunhando hoje, são os próprios
limites ambientais. O planeta não suportaria
se cada habitante tivesse um automóvel, por
exemplo. Psicológica e sociologicamente
também não será suportável por muito mais
tempo essa lógica de produção e consumo
destrutivos a que estamos sujeitos hoje",
afirma.
De acordo com os pesquisadores, é preciso
trabalhar em vários níveis – do consumidor,
da empresa e do Estado – para que haja uma
alteração no sistema. Os consumidores
precisam ser informados e conscientizados,
buscando promover uma "mudança de hábito"
que controle os efeitos do consumo
desenfreado. As empresas, igualmente, devem
procurar agir rumo a uma produção
sustentável. E o Estado, através da promoção
de políticas públicas, deve exercer diversas
funções regulatórias, inclusive com as
chamadas políticas de consumo sustentável
(eliminação de subsídios, compras
sustentáveis, políticas de estímulo ao
transporte coletivo etc.).
Entrevista com a psicanalista Maria Rita
Kehl
No livro O Tempo e o Cão – a atualidade das
depressões, de Maria Rita Kehl recém-
lançado pela Boitempo, ela expõe sua teoria de
que a depressão, para além de ser o sintoma de
sujeitos em sofrimento, se tornou um sintoma
social. "A moral social contemporânea
praticamente obriga ao gozo e à alegria. E as
pessoas deprimidas ficam na contramão,
digamos assim", afirma Maria Rita.
Na França, da década de 1970 para a década de
80, o número de depressivos aumentou 50%.
No Brasil, nos primeiros anos do século XXI,
17 milhões de pessoas foram diagnosticadas
como depressivas.
Para ela, as pessoas, quando sofrem, já não
sofrem mais apenas daquilo que as faz
sofrer - uma perda amorosa, uma morte na
família, o desemprego -, mas sofrem ainda
mais da culpa de estar sofrendo. "Há uma
dívida generalizada do sujeito contemporâneo
de nunca estar tão em sintonia com essa euforia
que lhe é exigida", completa Maria Rita,
doutora em psicanálise pela PUC de São
Paulo.
“A aliança entre a expansão do capital e a
liberação sexual fez do interesse das massas
consumidoras pelo sexo um ingrediente
eficiente de publicidade. Tudo o que se vende
tem apelo sexual: um carro, um liquidificador,
um comprimido contra dor de cabeça, um
provedor de internet, um tempero
industrializado. A imagem publicitária evoca o
gozo que se consuma na própria imagem, ao
mesmo tempo em que promete fazer do
consumidor um ser pleno e realizado. Tudo
evoca o sexo ao mesmo tempo em que afasta o
sexual, na medida em que a mercadoria se
oferece como presença segura, positivada no
real, do objeto de desejo”. Leia a seguir trechos
de sua entrevista:
E por que os deprimidos são o sintoma social
deste início do século XXI?
Se você pensar nos parâmetros da sociedade
contemporânea, é possível dizer que se trata
de uma sociedade antidepressiva. É uma
sociedade, aparentemente, com muita
liberdade de escolha: como você quer viver,
seu estilo de vida, como você vai se vestir, que
tribo vai frequentar, o que vai comer, beber. Há
muita liberdade no plano superficial, no
plano da festa. Existe muito apelo para a
diversão. Em contraste com o século XIX, em
72
que o apelo era para contenção, sobriedade,
repressão da sexualidade, hoje, a moral social
é uma moral da diversão, não do sacrifício. É
uma moral que chama para aquilo que, na
psicanálise, chamamos de gozo. É mais do que
o prazer, é o excesso. A rave não é, de alguma
maneira, o símbolo disso tudo? E para aguentar
uma rave você é obrigado, inclusive, a tomar
uma química. O apelo social não é para você
aguentar o trabalho, mas a festa. Claro que a
festa é ótima. Mas o que digo é que ela foi
transformada no ideal social deste momento. E
o deprimido destoa radicalmente desse ideal.
Sim, porque esta é a única sociedade em que as
pessoas ficam infelizes por se sentirem
culpadas de não estarem tão felizes quando
deveriam. Se alguém está triste, o que é natural
na vida, essa cobrança social duplica a
infelicidade. O depressivo é sintoma social
porque ele é aquele que não consegue aceitar o
convite tão sedutor para estar sempre de bem
com a vida. Mas esse é apenas um dos
paradoxos. O outro diz respeito ao uso
excessivo de medicação.
Esse é um fenômeno que atinge muito os
adolescentes, não?
Sim. Os adolescentes são as meninas dos olhos
da publicidade, do mercado, e estão numa fase
de passagem, não têm ainda as
responsabilidades dos adultos, estão mudando
de um campo de identidade, são muito
vulneráveis a aceitar novas modas. Eles são,
pelo menos como faixa etária, os maiores
alvos desse apelo pelo gozo, pela festa. O
adolescente de hoje que se sente incapaz de
responder a esse apelo se deprime. E ele se
deprime porque se vê isolado, a autoestima
dele fica muito comprometida, e ele não conta
mais, como nos anos 60, com o apoio do
próprio grupo adolescente. Hoje, o adolescente
que se deprime tem até vergonha de que os
amigos saibam. Ele sofre de um isolamento
cruel, quando não de uma ostensiva
humilhação.
Quando a sra. diz consumo, não trata
apenas de consumo de bens materiais?
Maria Rita: Na verdade, uma sociedade é dita
de consumo não porque todos estejam aptos, e
o tempo todo, a consumir o que lhes é
oferecido. Ela é uma sociedade de consumo
porque o valor da vida, do sujeito, das
escolhas de vida que ele tem vão ser medidos
pelo que ele é capaz de consumir. Consumir
dá o parâmetro da inserção, da valorização.
Em outras épocas, podia ser trabalhar, podia
ser nascer com sangue nobre. Hoje é o
consumo que dita a qualidade e a
possibilidade de inserção dos sujeitos. Por
isso eu insisto em manter essa denominação
aparentemente gasta de sociedade de consumo.
Entenda o que é obsolescência programada
O desgaste natural dos produtos é
normal. Porém, o produto ser “planejado” para
parar de funcionar ou se tornarem obsoletos em
um curto período de tempo é uma prática da
indústria que deveser combatida.
Conforme usamos um produto, é
natural que este sofra desgastes e se torne
antigo com o passar do tempo. O que não é
natural é que a própria fabricante planeje o
envelhecimento de um produto, ou seja,
programar quando determinado objeto vai
deixar de ser útil e parar de funcionar, apenas
para aumentar o consumo.
Essa prática, intitulada de
Obsolescência Programada, basicamente se
aplica toda vez que os fabricantes produzem
um ou vários produtos que, artificialmente,
tenham, de alguma forma, sua durabilidade
diminuída do que originalmente se espera.
Como efeito, os consumidores são obrigados a
descartar os produtos adquiridos em um prazo
muito menor e a substituí-los por novos, que
provavelmente também tiveram sua
durabilidade alterada.
Esse ciclo infinito de consumo acaba
tornando-se um grave problema, e não apenas
aos consumidores brasileiros. O aumento de
lixo eletrônico e tóxico, bem como a falta de
informações claras sobre como deve ser
realizado o descarte destes produtos obsoletos,
tem provocado impactos ao meio ambiente e
à qualidade de vida da população mundial ao
longo dos anos.
Apesar do avanço tecnológico, que
resultou na criação de uma diversidade de
materiais disponíveis para produção e
consumo, hoje nossos eletrodomésticos são
piores, em questão de durabilidade, do que há
50 anos. Os produtos são fáceis de comprar,
mas são desenhados para não durar. Por esta
razão, o consumidor sofre para dar a eles uma
73
destinação final adequada e ainda se vê
obrigado a comprar outro produto.
Um dos principais exemplos de
obsolescência programada é a lâmpada.
Quando criada, ela durava muito, mas as
fabricantes viram que venderiam apenas um
número limitado de unidades. Por isso, criaram
uma fórmula para limitar o funcionamento das
lâmpadas, que passaram a durar apenas mil
horas, por exemplo.
Além disso, é dever do Estado
regularizar, fiscalizar e induzir esses novos
padrões. As empresas, por sua vez, devem
garantir ao consumidor acesso à informação e
assumir a responsabilidade pelo ciclo de vida
dos produtos, visando ao desenho adequado
dos produtos e embalagens e o fim da
obsolescência programada.
6º texto: Reestruturação produtiva:
Taylorismo, Fordismo e Toyotismo
A revolução técnico-científica e a
organização científica do trabalho
Época e caracterização: final do século XIX:
mudança no papel da ciência na produção.
Ciência se transforma em propriedade
capitalista: meio para estimular a acumulação
do capital.
Com a Segunda Revolução Industrial, fase
da nova indústria: era do aço, da eletricidade e
do petróleo.
TAYLORISMO
Idealizador: o engenheiro norte-americano
Frederick Taylor (1856/1915), fundador da
“Administração Científica”; foi educado
dentro de uma mentalidade de disciplina,
devoção ao trabalho e poupança. Escreveu o
livro Princípios de Administração Científica
(1911).
Objetivo: descobrir um método científico de
direção das indústrias, visando o máximo de
eficácia e maior rendimento.
Conceito: “Método de racionalizar a produção,
logo, de possibilitar o aumento da
produtividade do trabalho “economizando
tempo”, suprimindo gestos desnecessários e
comportamentos supérfluos no interior do
processo produtivo” (Margareth Rago)
Gerência primitiva: problemas
a Administração não tinha noção clara
da divisão de suas responsabilidades
com o trabalhador
muitos trabalhadores não cumpriam
suas responsabilidades
não havia integração entre os
departamentos da empresa
havia conflitos entre capatazes e
operários a respeito da quantidade da
produção
em síntese: até a época do surgimento
do taylorismo, cada trabalhador de
ofício detinha o conhecimento do
processo de produção. Detinha, o
controle dos tempos e processos de
trabalho, bem como de sua concepção.
Para Taylor, os operários retardavam o
ritmo da produção, devido à
“indolência sistemática”.
Gerência Científica
A gerência científica significa o
empenho de aplicar os métodos da ciência aos
problemas complexos do controle do trabalho
nas empresas capitalistas em rápida expansão.
Ela parte, não do ponto de vista do ser humano,
mas do capitalismo. Investiga a adaptação do
trabalho às necessidades do capital.
O taylorismo é uma manipulação total
e brutal do ser humano no processo produtivo
= controle do tempo e movimento, o qual é
determinado pelo gerente. Quando os
trabalhadores perdem o controle do processo
produtivo, passa-se o controle do trabalho para
o gerente e este não pode desconhecer o
processo.
O Taylorismo ou Princípios da
Administração Científica, desenvolvido por
Frederick W. Taylor, surge no final do século
XIX, num período marcado pelo avanço da
grande indústria no ramo têxtil e da
permanência da manufatura em outras áreas
produtivas.
Estes princípios de Taylor reúnem teorias
sobre a racionalização do processo de trabalho,
fundamentadas em estudos e experiências que
ele realizou nas oficinas. Aplicado
inicialmente nos Estados Unidos e depois, nas
indústrias de todo o mundo, o método
propunha uma nova organização produtiva
destinada a assegurar a maior economia de
74
tempo possível, a partir dos seguintes fatores:
acentuada divisão social e técnica do trabalho,
padronização das tarefas, sistema de
remunerações estruturado em função do
rendimento pessoal e controle dos
trabalhadores por parte dos supervisores.
Taylor tem como preocupação o aumento da
produtividade e a superação da “anarquia na
produção”, com a utilização da administração
científica. Para ele, os operários tinham uma
tendência natural para a “indolência
sistemática” – produziam menos do que
podiam propositadamente. A “cera” no serviço
era considerada uma manifestação da
solidariedade de classe e da própria segurança
do emprego.
O método de Taylor não se resume a constatar
que a “cera” no processo de trabalho era uma
das causas do desperdício; além dela havia a
“anarquia” das formas de produção. O
trabalho era ensinado oralmente pelos próprios
operários entre si, o que levava à coexistência
de inúmeras formas de realizar a mesma tarefa.
Taylor considerava que, para cada tarefa e
movimento dos trabalhadores, havia uma
ciência, um saber profissional. Dever-se-ia
escolher a forma mais racional.
Então, Taylor elabora a teoria da administração
científica, que iria classificar e sistematizar tais
conhecimentos, separando da etapa de
execução as etapas de planejamento,
concepção e direção das tarefas.
Princípios do taylorismo:
a) desenvolver para cada elemento do
trabalho individual uma ciência que
substitua os métodos empíricos de
trabalho, isto é, é necessário reduzir o
saber operário complexo a seus elementos
simples, estudar os tempos de cada
trabalho decomposto, com a utilização do
cronômetro nas oficinas. Em síntese, o
que este primeiro princípio estabelece é a
separação das especialidades do
trabalhador do processo de trabalho.
b) selecionar cientificamente, depois treinar,
ensinar e aperfeiçoar o trabalhador. Este
princípio ficou conhecido como o que
estabelece a separação entre o trabalho
de concepção e o de execução. Para
Taylor, a “ciência do trabalho” deve ser
desenvolvida sempre pela gerência e
nunca estar de posse do trabalhador.
c) Controlar os mínimos detalhes de sua
execução
d) Manter a divisão equitativa do trabalho e
das responsabilidades entre a direçãoe o
operário
e) Individualização dos salários, para quebrar
toda forma de articulação e todo laço de
solidariedade entre os trabalhadores.
Taylor pregava que a direção da fábrica se
dirigisse a cada trabalhador
individualmente, distribuindo prêmios e
gratificações.
Incentivos salariais e prêmios de produção
Uma vez analisado o trabalho, racionalizadas
as tarefas e padronizado o método e o tempo
para sua execução, selecionado
cientificamente o operário e treinado de acordo
com o método preestabelecido, resta fazer com
que o operário colabore com a empresa e
trabalhe dentro dos padrões de tempo
previstos. Para obter a colaboração do
operário, Taylor e seus seguidores
desenvolveram planos de incentivos salariais
e de prêmios de produção. A ideia básica era
a de que a remuneração baseada no tempo
(salário mensal, diário ou por hora) não
estimula ninguém a trabalhar mais e deve ser
substituída por remuneração baseada na
produção de cada operário (salário por peça
ou por produção).
FORDISMO
Idealizador: engenheiro Henry Ford
(1863/1947)
Objetivo: produção em massa, onde o capital
não encontrasse limites técnicos.
O Fordismo é um termo que se
generalizou a partir da concepção de Antônio
Gramsci (filósofo italiano, marxista e
fundador do PCI), que o utiliza para
caracterizar o sistema de produção e gestão
empregado por Henry Ford em sua fábrica, a
Ford Motor Co., em Highland Park, Detroit,
em 1913.
Hoje, o termo tornou-se a maneira
usual de se definirem as características daquilo
75
que muitos consideram constituir-se um
modelo/tipo de produção, baseado em
inovações técnicas e organizacionais que se
articulam tendo em vista a produção e o
consumo em massa. Nesse sentido, o fordismo
é uma prática de gestão na qual se observa a
radical separação entre concepção e execução,
baseando-se esta no trabalho fragmentado e
simplificado, com ciclos operatórios muito
curtos, requerendo pouco tempo para formação
e treinamento dos trabalhadores. O processo de
produção fordista fundamenta-se na linha de
montagem acoplada à esteira rolante que evita
o deslocamento dos trabalhadores e mantém
um fluxo contínuo e progressivo das peças e
partes, permitindo a redução dos tempos
mortos. O trabalho, nessas condições, torna-se
repetitivo, parcelado e monótono, sendo sua
velocidade e ritmo estabelecidos
independentemente do trabalhador, que o
executa através de uma rígida disciplina. O
trabalhador perde suas qualificações, as quais
são incorporadas à máquina.
Princípios do Fordismo:
a) separação entre projeto e execução
b) divisão e subdivisão de tarefas, permitindo
a cada movimento um tempo específico
c) introdução da linha de fluxo (correia
transportadora) – sistema mecânico
coordena a circulação de peças e
ferramentas e fixa o trabalhador na sua
posição de trabalho.
d) mudança salarial: salário diário.
Efeitos
a) surge o trabalhador em massa em
decorrência da crescente automatização da
produção.
b) Separação entre os processos de
concepção, produção e realização.
Características do Fordismo
introdução em 1914 da “Linha de
Montagem”: utilização do
maquinismo para a intensificação do
trabalho e de subordinação do
processo de trabalho à lógica da
valorização do capital. A linha de
montagem permite a circulação de
matérias-primas e os operários
permanecem fixos em seus postos de
trabalho. O ritmo de trabalho pode ser
regulado de maneira exterior ao
operário pelo controle de gerência (ver
o filme Tempos Modernos, 1936, de
Charles Chaplin)
tempo de trabalho imposto pela
máquina
“savoir-faire” (saber-fazer):
apropriação e transferência para a
gerência científica
the one best way (uma única maneira
certa de realizar cada operação)
produção em grande escala (em série)
e padronizada + cronômetro taylorista
five dollars day: Em 1914, Ford
passou o salário de 2,3 dólares para 5
dólares por dia e a jornada de trabalho
para 8h dia, para superar as altas taxas
de absenteísmo e turnover
(rotatividade) e para debilitar a força
dos sindicatos. A política do “five
dollars day” não era aplicável a todos
os trabalhadores. Estes deveriam ter
mais de 6 meses de emprego, ser
maiores de 21 anos e homens.
O método fordista de produção
alcançou surpreendente crescimento
da produtividade: a produção anual de
carros na fábrica de Detroit passou de
300.000, em 1913, para 2.000.000, em
1923.
Apesar do significativo desempenho, o
fordismo teve dificuldades em
difundir-se, mesmo nos Estados
Unidos, mas, principalmente, na
Europa, e isso em razão da resistência
dos trabalhadores ao sistema de
produção baseado no trabalho
rotinizado e fragmentado.
Controle da vida privada e
valorização da família nuclear e
monogâmica. Ford criou o
Departamento de Sociologia com o
objetivo de analisar a forma como cada
trabalhador gastava seu salário. O
operário tinha que se encaixar no tipo
de moral requerida, a saber, ser bom
pai de família, ter cerca de dois filhos,
com a mulher-esposa permanecendo
no lar para o bom desempenho de suas
tarefas domésticas. Além disso, o
trabalhador deveria “ser limpo”, não
usar tabaco ou álcool e não jogar. O
benefício (de receber esse salário)
76
poderia ser retirado por seis meses,
caso o operário incorresse num erro de
conduta. Se após esse período não
tivesse “corrigido seus erros”, era
mandado embora da Ford. Tudo isso
implicava um misto de paternalismo e
vigilância policialesca.
As fábricas fordizadas instituíram as
“vilas operárias” circundando a
própria empresa. Com guaritas,
vigilantes e funcionários que
investigavam a vida privada dos
trabalhadores. Investir em
alimentação, zelando por sua saúde e
de sua família, e comprar bens de
consumo era o destino que o operário
deveria dar ao seu salário. Não
bastava subordinar a família sob a
lógica do consumo. Era necessário
controlar a moralidade e as relações
sociais dentro da própria família.. Se
os novos métodos de trabalho exigiam
do trabalhador todas as suas energias
orgânicas, até mesmo seus instintos
sexuais deveriam ser regulamentados,
controlados e racionalizados. O
projeto fordista procurou reforçar a
moral familiar, exigindo do
trabalhador, através de inquéritos
industriais sobre sua vida íntima, a
relação monogâmica exclusiva. O
trabalhador não poderia desperdiçar
suas energias nervosas na busca de
satisfação sexual desordenada: “o
operário que vai ao trabalho depois de
uma noite de desvarios, não é um bom
trabalhador, a exaltação passional não
está de acordo com os movimentos
cronometrados dos gestos produtivos
ligados aos processos de automação”.
A necessidade da a indústria controlar
o corpo do operário inclui também
seus prazeres. “Em nossas fábricas,
afirma Ford, ninguém fuma.” Assim,
proibiu o fumo na fábrica, vigiou a
moralidade operária, exigiu a
fidelidade conjugal, prescreveu como
gastar os salários, submeteu, enfim, as
famílias a uma norma social de
consumo.
Estímulo às atividades esportivas e
culturais que ajudavam a manter a
eficiência e a boa forma física dos
trabalhadores.
No que se refere ao contexto de países
periféricos, como o Brasil, a
implantação do fordismo realizou-se
em termos precários, já que o
desenvolvimento industrial verificou-
se em contexto de exclusão, de forte
concentração derenda,
impossibilitando, portanto, a vigência
das características básicas do
fordismo, ou seja, a criação de um
mercado/consumo de massa, assim
como o chamado “compromisso
fordista”, que implicava negociação
com os sindicatos e no qual, em troca
da elevação dos níveis de
produtividade, assegurava-se elevação
do nível de vida dos trabalhadores. Por
essa razão, o fordismo dos países
periféricos recebe qualificativos como
“fordismo periférico”, fordismo
incompleto (baixos níveis de
qualificação e de escolaridade da força
de trabalho, altos índices de
rotatividade, baixos salários).
Modelo de desenvolvimento
Fordista-Keynesianismo (Welfare
State) – 1945 a 1973
Características do modelo de
desenvolvimento hegemônico -
fordista-keynesiano a) rápido e
prolongado crescimento internacional
da produção; b) liderança do setor
industrial; c) ritmo do comércio
internacional mais intenso; d)
crescimento econômico do mercado
interno.
(Anos Dourados): crescimento
econômico e aumento da
produtividade + política
redistributivista. Onde? países da
Europa ocidental.
Sistema de “compromisso” e de
“regulação”, isto é, compromisso entre
capital e trabalho mediado pelo
Estado.
A Crise de 1929, que se tornou
mundial, desarticulou todos os níveis
da produção burguesa. O Estado do
Bem-Estar Social apareceu como
uma saída para esse tipo de crise. O
inglês John Keynes (1883-1946)
elaborou uma série de princípios sobre
77
esse tipo de Estado. Contrariando o
credo liberal, o Estado do Bem-estar
Social interferiu na economia para
garantir o pleno emprego. Ele assim o
fez por meio de uma política financeira
(taxas de juros insignificantes) que
incentivou a iniciativa privada. Mas
isso não foi suficiente para eliminar
totalmente o desemprego. O Estado
teve de oferecer uma ajuda social aos
desempregados. O contrato entre
empregador e empregado, garantido
por lei sob proteção do Estado, passou
a estender-se até a assistência
realizada pelas instituições oficiais. O
custo da política social do Estado
providência foi pago com a cobrança
de taxas e impostos da grande
burguesia e de alguns segmentos
sociais de alto poder aquisitivo.
Cobrando impostos da burguesia,
garantindo o emprego e assistência
social ao trabalhador, o Estado passou
a ser interpretado como um agente
redistribuidor de renda.
Em síntese, a constituição do Welfare
State – Estado do Bem-Estar Social
(ganhos sociais e seguridade social,
desde que os operários abandonassem
a luta pelo socialismo); salários mais
altos; política macroeconômica do
pleno emprego; direitos sindicais para
determinar salário. O Welfare State
socialdemocrata concebe as políticas
sociais como parte do Estado, o qual
deve garantir a todos os cidadãos o
acesso a bens e serviços mínimos,
independente de critérios de mérito,
carências ou situações de emergência.
movimento operário
(socialdemocrata) atrelou-se ao pacto
com o capital.
ANTUNES, Ricardo. Os sentidos do trabalho.
São Paulo: Boitempo, 2003.
DIMENSÕES DA CRISE ESTRUTURAL
DO CAPITAL
Síntese sobre os limites do
taylorismo/fordismo
vigorou no século XX na grande
indústria
produção em massa de mercadorias
aumento do ritmo do trabalho
parcelamento e fragmentação e
decomposição de tarefas
(ação mecânica e trabalho repetitivo,
desumanização)
produção em série fordista +
cronômetro taylorista
concepção e execução – apropriação
do savoir-faire do trabalho e
transferência para a gerência científica
pós-1945 erigiu um sistema de
“compromisso” e de “regulação”, isto
é, compromisso entre “capital e
trabalho” mediado pelo Estado
constituição do Welfare State (ganhos
sociais e seguridade social, desde que
os operários dos países centrais
abandonassem a luta pelo socialismo)
A crise do taylorismo e do fordismo
Após longo período de acumulação de
capitais, que ocorreu no auge do Fordismo +
Keynesianismo, o capitalismo a partir dos
anos 1970, deu sinais de uma crise, cujos
traços mais evidentes são:
queda da taxa de lucro (aumento do
preço da força de trabalho no período
dos anos dourados; intensificação das
lutas sociais dos anos 1960; redução
dos níveis de produtividade do
capital);
esgotamento do padrão de
acumulação taylorista/fordista
(incapacidade de responder à retração
do consumo; desemprego estrutural);
hipertrofia da esfera financeira
(relativa autonomia frente aos capitais
produtivos);
a maior concentração de capitais
(devido às fusões entre empresas
monopolistas);
a crise do welfare state (crise fiscal
do Estado capitalista e retração dos
gastos públicos);
incremento das privatizações
(devido à desregulamentação e
flexibilização do processo produtivo,
dos mercados e da força de trabalho).
Diagnóstico da crise de produtividade
78
deslocamento do capital para as
finanças
perda de lucratividade nas indústrias
de transformação no final dos anos
1960
crise do fordismo e do keynesianismo
exprimia uma “crise estrutural do
capital” (tendência decrescente da taxa
de lucro; desmoronamento do
mecanismo de “regulação” que
vigorou no pós-guerra)
Respostas para a crise dos anos 1970
processo de reorganização do capital e
de seu sistema ideológico e político de
dominação neoliberalismo (
privatização do Estado, a
desregulamentação dos direitos do
trabalho e a desmontagem do setor
produtivo estatal).
processo de reestruturação da
produção e do trabalho (reorganizar o
ciclo produtivo = toyotismo)
TOYOTISMO
conceito: sistema de organização da
produção baseado em um resposta
imediata às variações de demanda e
que exige, uma organização flexível
do trabalho e integrada.
o capital deflagrou transformações no
processo produtivo = Acumulação
flexível para repor projeto de
dominação societal – formas de gestão
organizacional do avanço tecnológico
– toyotismo.
sistema industrial japonês, a partir dos
anos 1970, teve impacto no mundo
ocidental – opção para os países
avançados, visando a superação da
crise capitalista
adaptação no Ocidente às
singularidades de cada país
toyotismo ou ohnismo nasceu na
Toyota no Japão pós-1945
Origem: as empresas japonesas
precisavam ser tão competitivas
quanto as americanas; necessidade de
aplicar o fordismo no Japão, mas
conforme as condições próprias do
arquipélago.
Histórico e conceituação do Toyotismo
ou Ohnismo ou Modelo Japonês ou
Acumulação Flexível
modelo gerencial implantado no
Japão, em um contexto peculiar: o
país estava em processo de
reconstrução no pós II Guerra
Mundial, vivenciando a restrição de
mercado interno e externo e a escassez
de matéria-prima. Para enfrentar essa
situação, buscou ganhos de
produtividade no próprio interior da
empresa, intensificando a flexibilidade
interna, tornando-a mais competitiva.
Isto gerou um tipo de organização
fabril enxuta e buscou-se uma maior
integração e responsabilização dos
trabalhadores pela qualidade do
produto.
Deming (estatístico norte-americano e
um dos fundadores (1946) da
American Society for Quality Control,
uma revolução na administração. Para
ele seria necessário eliminar-se o
desperdício, fator considerado
responsável pela elevação dos custos
de fabricação dos produtos norte-
americanos. O maior desperdício seria
a subutilizaçãodas pessoas. Deming e
Juran, juntamente com o engenheiro
japonês Ishikawa, foram dos que mais
influenciaram os japoneses na
formulação do modelo TQC, ao
introduzirem seus princípios sobre
Qualidade Total no Japão, a partir dos
anos 1950, na tentativa de auxiliar a
recuperação da indústria daquele país.
Qualidade significaria queda nos
custos em razão da eliminação daquilo
que, de fato, encareceria a produção,
ou seja, defeitos/desperdícios e não-
trabalho.
modelo japonês ou TQC (Total
Quality Control) é uma conjunção de
inúmeros fatores históricos, com
características próprias, que
dificilmente se repetiram em outros
países. Ou seja, é uma fusão de
utilização de novas tecnologias com
novos processos gerenciais e
organizacionais do trabalho.
79
Características principais da nova
organização do trabalho
base tecnológica: informática –
“década de grande salto tecnológico, a
automação, a robótica e a
microeletrônica invadiram o universo
fabril, inserindo-se e desenvolvendo-
se nas relações de trabalho e de
produção do capital”
flexibilidade: trabalho em equipe.
Integração da produção. Superação do
trabalho manual direto, fragmentado e
pouco qualificado, substituição por
sistemas automatizados.
trabalho em equipe: “ao invés de se
pensar em especialização e divisão
rígida do trabalho, pensa-se em
flexibilização do trabalho e na criação
de grupos polivalentes com relativa
autonomia para a elaboração do
trabalho.
A ênfase na cooperação expressar-se-
ia na valorização do trabalho em
equipe.
Esta gestão apoia-se numa
transformação cultural que atingiria
a empresa como um todo, incluindo a
esfera gerencial e a alta gerência.
Nesse sentido, apregoa-se a
necessidade de redução dos níveis
hierárquicos e de descentralização e
de autogerenciamento de
departamentos/setores/áreas, o
compartilhamento de
responsabilidades, a circulação de
informações e a transparência nas
decisões.
Inovação como incremento da
produção e da competitividade.
Investimento crescente em pesquisa e
desenvolvimento.
Produção não mais em série, mas
condicionada ao gosto do cliente.
Produção sem estoques.
Perfil do trabalhador exigido:
capacidade de integração, de tomar
decisões rápidas, de trabalho em
equipe, responsável e leal.
Assim, no que se refere aos
trabalhadores, destaca-se a atitude de
comprometimento com os objetivos da
empresa, juntamente com a adesão a
uma ética do trabalho, de tal forma que
ele se transforme em preocupação
central na vida do indivíduo.
O pressuposto é que não haveria
necessidade de coagir, de controlar as
pessoas para que elas
desempenhassem satisfatoriamente
suas funções, uma vez que “elas
próprias desejam realizar-se e alcançar
metas, influenciar nas atividades e
desafiar suas habilidades”.
No que se refere às relações
empregadores-empregados, a ênfase
é colocada nas atitudes de negociação,
cooperação e solidariedade, uma vez
que os trabalhadores (agora chamados
de “colaboradores”) são considerados
os agentes da transformação da
empresa. Esta postura é uma ameaça
ao movimento sindical, na medida em
que as empresas tendem a adiantar-se,
tomando suas próprias iniciativas no
que diz respeito a demanda dos
trabalhadores e desenvolvimento de
acordos e de negociações, embasando-
as em vantagens mútuas.
O foco no cliente envolve a
necessidade de se apreender a sua
expectativa, o que é realizado através
de instrumentos, tais como pesquisa de
mercado e conscientização dos
empregados. Entretanto, a estratégia
satisfação do cliente, considerada
exigência fundamental e em nome da
qual ações e iniciativas que
pressionam os empregados são
tomadas pela organização, constitui-
se, na verdade, em recurso para desviar
o foco do motivo central – a
necessidade de garantir maior
competitividade, maior produtividade
e maior lucratividade.
A nova concepção supõe mudanças
culturais, cuja extensão tende a afetar
as relações de poder nas organizações.
Em suma, as características do toyotismo:
A) produção vinculada à demanda,
visando atender às exigências mais
individualizadas do mercado consumidor
(a empresa só produz o que é vendido), ou
seja, existe um estoque mínimo
apresentado ao cliente.
80
B) fundamenta-se no trabalho operário
em equipe, com multivariedade de
funções.
C) produção se estrutura num processo
produtivo flexível, que possibilita ao
operário operar simultaneamente várias
máquinas.
D) tem como princípio o “just in time”,
(tempo justo) o melhor aproveitamento
possível do tempo de produção.
E) funciona segundo o sistema de
“kanban”, placas ou senhas de comando
para reposição de peças e de estoque.
F) as empresas têm uma estrutura
horizontalizada e transfere a “terceiros”,
grande parte do que antes era produzido
dentro da fábrica.
G) “gerência participativa”.
H) organização de Círculos de Controle de
Qualidade, constituindo grupos de
trabalhadores que são instigados pelo
capital a discutir seu trabalho e
desempenho com vistas a melhorar a
produtividade da empresa.
I) combate ao desperdício e é preciso
limitar o tempo de transporte, estocagem e
controle de qualidade.
j) estímulo à subcontratação com os
fornecedores (geralmente os custos
salariais são de 30 a 50% inferiores)
propostas do capital: reorganização
produtiva + ideológico, culto de
ideário individualista.
Falácia da qualidade total, segundo
os autores críticos: a) redução do
tempo útil dos produtos para ter
reposição ágil no mercado; b) negação
da durabilidade das mercadorias; c)
tendência depreciativa e decrescente
do valor de uso das mercadorias; d)
alta competitividade; e) intensificação
das condições de exploração da força
de trabalho (reengenharia, aumento de
produtividade, GQT, empresa enxuta).
Repercussões das mutações no processo
produtivo no mundo do trabalho
desregulamentação e flexibilização
dos direitos do trabalho;
fragmentação no interior da classe
trabalhadora;
precarização e terceirização;
destruição do sindicalismo de classe
(conversão do sindicalismo dócil, de
parceria ou sindicalismo de empresa).
Diferenças entre Taylorismo e Toyotismo
Princípios
gerenciais
Taylorism
o
Toyotismo
Relação
capital-
trabalho
Conflito Cooperação
divisão
entre
direção e
operação
integração:
direção e
operação
relação
hierarquiza
da
relação
horizontaliz
ada
Organização
processo
trabalho
conhecime
nto do
trabalhador
é
transferido
para a
gerência
conhecimen
to
(criatividad
e) do
trabalhador
é valorizado
Relações
interempresa
riais
Verticaliza
ção
terceirizaçã
o das
empresas
Gerência de Qualidade Total –
características principais
As atividades devem obedecer ao ciclo
PDCA (Plan – Do – Check – Action),
ou seja, planejar, executar, verificar e
agir corretivamente.
A GQT tem como objetivo geral:
rebaixamento dos custos através da
diminuição de defeitos e do aumento
da produtividade
GQT é modelo de gestão que busca o
envolvimento e controle de um
processo de produção ou da prestação
de serviço, exigindo-se a participação
de todos.
Qualidade: é a possibilidade de
produzir, fornecer produtos e serviços
sem falhas; quer dizer, “satisfação”total das pessoas, isto é, dos clientes,
funcionários, acionistas das empresas
e da própria sociedade.
81
Produtividade: a produção com
menos trabalho, com custos mínimos,
evitando-se desperdício.
Assim a “nova ideologia
desenvolvimentista” – produzir com
melhor qualidade, maior
produtividade – resultaria em menos
desperdício e menos retrabalho.
Institui dois tipos de gerenciamento:
a) de rotina (para o controle das
tarefas diárias, feito pelo pessoal da
operação (base); b) interfuncional
(estipula as estratégias mais globais da
empresa – direção da empresa).
Auto ativação – o trabalhador
polivalente se auto administra
Compõe-se de programas de
organização do ambiente do trabalho
os 5 S: Seiri, Seiton, Seiso, Seiketsu e
Shitsuke (separação, ordem, limpeza,
asseio e disciplina)
Flexibilização, terceirização,
subcontratação, eliminação do
desperdício, “gerência participativa”,
sindicalismo de empresa –
características dos novos tempos
Críticas ao modelo da GQT: vários
críticos alertam para o processo de
manipulação do afeto, do desejo e da
cognição dos trabalhadores, na
medida em que objetiva formar um
trabalhador bem identificado com os
interesses e com a lógica da empresa.
Se por um lado, há a diminuição da
hierarquia na empresa, isto não
significa um menor controle sobre o
trabalhador. Este controle é agora
mais sutil e, em certa medida, mais
eficaz. Ele ocorre através dos grupos
de trabalho, das metas de
produtividade e mesmo do maquinário
eletrônico introduzidos nas empresas e
que prestam informações sobre o
menor gesto do trabalhador, de forma
mais eficaz do que qualquer olho
humano. Há descontratualização das
normas salariais.
Assim, criticamente, este modelo de
gerenciamento tem como núcleo:
treinar massiva, intensivamente e
repetidas vezes as pessoas da
organização. É preciso motivar,
propiciar o envolvimento de todos
para que haja mudança de
mentalidade, de cultura, de
comportamentos. É preciso favorecer
a autoestima: todos pensam e podem
e devem se habilitar para treinar outras
pessoas. É preciso garantir a
participação de todos, pois quem
conhece melhor os problemas do
processo e dos equipamentos não são
as chefias, mas os operadores diretos.
Gestão da qualidade total: os princípios e o
mito
Grande moda durante os anos 1990, a Gestão
da Qualidade Total, continua a ser ainda hoje
uma das ferramentas de gestão de empresas
mais poderosas. Se aplicada com sucesso, a
Gestão da Qualidade Total permite reduzir
custos, melhorar brutalmente a produtividade e
motivar os seus colaboradores. A sua
implementação permanece, no entanto, um
mito para muitas empresas.
A Gestão da Qualidade Total concentra-se no
cliente e salienta o trabalho em equipe e gestão
participativa como forma de motivar os
empregados (colaboradores) e estimular a
inovação e melhorias. Ao examinar
constantemente e aperfeiçoando sistemas e
processos, as empresas podem melhorar
continuamente e progressivamente ao longo do
tempo.
Baseada no conceito de melhoria contínua, a
Gestão da Qualidade Total é uma abordagem
proativa da produção, usada de alguma forma
pela maior parte das empresas industriais. A
sua origem está nos círculos de controle da
qualidade utilizados na produção japonesa. Os
círculos de controle da qualidade eram, de
início, usados como instrumento moralizador,
para incitar o envolvimento dos empregados.
No início dos anos 1960, a Matsushita
começou a aplicar a técnica para gerir a
produção. A Gestão da Qualidade Total foi
aplicada como solução para a baixa
produtividade, a produção defeituosa, a
paralisia burocrática e os problemas com
empregados.
Os trabalhadores são formados na utilização de
medidas de controle da qualidade e em meios
de analisar a produção e distribuição de forma
a melhorar a eficácia e a qualidade.
82
Os princípios básicos da Gestão da
Qualidade Total são:
Produzir bens ou serviços que
respondam concretamente às
necessidades dos clientes;
Garantir a sobrevivência da empresa
por meio de um lucro contínuo obtido
com o domínio da qualidade;
Identificar o problema mais crítico e
solucioná-lo pela mais elevada
prioridade;
Falar, raciocinar e decidir com dados e
com base em fatos;
Administrar a empresa ao longo do
processo e não por resultados;
O cliente é tudo. Não se permitir servi-
lo se não com produtos de qualidade;
A prevenção deve ser a tão montante
quanto possível;
Na lógica anglo-saxônica de "trial and
error", nunca permitir que um
problema se repita;
Críticas ao modelo da qualidade total
Vários críticos alertam para o processo de
manipulação do afeto, do desejo e da cognição
dos trabalhadores, na medida em que objetiva
formar um trabalhador bem identificado com
os interesses e com a lógica da empresa.
Se por um lado, há a diminuição da
hierarquia na empresa, isto não significa um
menor controle sobre o trabalhador.
Este controle é agora mais sutil e, em certa
medida, mais eficaz. Ele ocorre através dos
grupos de trabalho, das metas de produtividade
e mesmo do maquinário eletrônico
introduzidos nas empresas e que prestam
informações sobre o menor gesto do
trabalhador, de forma mais eficaz do que
qualquer olho humano. Há descontratualização
das normas salariais.
O trabalho é constantemente flexibilizado e é
intensificado ao máximo; é contratado um
mínimo de operários, que executam o máximo
de horas extras; o sindicato é totalmente
vinculado ao patrão; a contratação de
trabalhadores é reduzida (agora os operários ou
são subcontratados ou são temporários,
dependendo das condições e das demandas do
mercado); há a implantação da terceirização,
que provoca a segmentação dos trabalhadores,
a precarização do trabalho e o enfraquecimento
dos sindicatos, em que direitos trabalhistas são
flexibilizados ou até mesmo eliminados.
No toyotismo’ é a vigência da "manipulação"
do consentimento operário, objetivada em um
conjunto de inovações organizacionais,
institucionais (e relacionais) no complexo de
produção de mercadorias.
Globalização, Neoliberalismo e Crise
Financeira Mundial
Neoliberalismo
Conceituação: denominação de uma corrente
doutrinária do liberalismo que se opõe ao
modelo econômico keynesiano e retoma
algumas das posições do liberalismo clássico,
preconizando a minimização do Estado, a
economia com plena liberação das forças de
mercado e a liberdade de iniciativa econômica.
Origem: o termo neoliberalismo surgiu nas
décadas de 1930-40, no contexto da recessão
(iniciada com a quebra da Bolsa de New York,
em 1929) e da Segunda Guerra Mundial (1939-
45). Ao final da Segunda Guerra Mundial, a
intervenção estatal na economia, que já havia
sido implementada na experiência do New
Deal (Nova Política), durante a década de
1930, foi retomada em função das
necessidades da reconstrução. Nesse contexto,
constituiu-se o “Estado do Bem-Estar Social”
(Welfare State), caracterizado pela construção
de uma extensa rede de proteção social, cujas
bases fundamentavam-se na atuação do
Estado em diversas instâncias, tais como:
previdência, educação, saúde, habitação
popular, etc. Outras medidas foram
implementadas visando a uma melhor
distribuição de renda por meio da elevação dos
salários, da consolidação de conquistas sociais.
Essa ação se inseriu no contexto da Guerra
Fria, pois se tratava de “humanizar”o mundo
do trabalho, objetivando afastar a “ameaça
vermelha” e a atração da ideologia socialista.
Pensadores ou teóricos: Ludwig von Mises,
Hayek, Milton Friedman.
Características: Critica o paternalismo estatal
e a crescente estatização e regulação social que
atuam sobre as liberdades fundamentais do
83
indivíduo por meio de interferências
arbitrárias, pondo em risco a liberdade política,
econômica e social (Hayek). A liberdade
econômica é tida como condição para a
existência das demais liberdades, como a
política, a individual, a religiosa, etc. Desse
modo, o mercado é tido como princípio
fundador, auto unificador e autorregulado da
sociedade.
Defende a economia de mercado
dinamizada pela empresa privada, ou melhor, a
liberdade total do mercado, e ainda o governo
limitado, o Estado mínimo e a sociedade
aberta, concorrencial / competitiva. Opõe-se
radicalmente às políticas estatais de
universalidade, igualdade e gratuidade dos
serviços sociais, como saúde, seguridade social
e educação.
Consenso de Washington (1989): conjunto de
regras e medidas estabelecidas pelo G-7 para
os demais países se ajustarem à nova realidade
econômica mundial.
Esta expressão “Consenso de
Washington” surgiu numa conferência
organizada em Washington, em novembro de
1989, pelo Institute for International Economis
e patrocinado pelo Banco Mundial, pelo Fundo
Monetário Internacional (FMI) e pelo governo
norte-americano, para discutir políticas
econômicas para a América Latina. Nesse
encontro, foi esboçada toda uma política
reformista para a América Latina, de acordo,
com os interesses norte-americanos e dos
demais países do G-7.
A política de reformas – princípios
neoliberais – pode ser assim resumida:
a) controle do déficit fiscal
b) corte de gastos públicos
c) reforma tributária
d) administração da taxa de juros
e) política comercial de abertura do mercado e
liberação de importações
f) liberdade para a entrada de investimentos
externos
g) privatização das empresas estatais
h) desregulamentação da economia,
eliminação de barreiras, flexibilização de leis
trabalhistas
i) abertura ao sistema financeiro
j) redisciplinamento do mundo do trabalho
Traços mais evidentes do projeto
político-econômico-social do neoliberalismo
de mercado:
desregulamentação estatal e
privatização de bens e serviços;
abertura externa;
liberação de preços;
prevalência da iniciativa privada;
redução das despesas e do déficit
públicos;
flexibilização das relações
trabalhistas e informalização nos
mercados de trabalho;
cortes dos gastos sociais, eliminando
programas e reduzindo benefícios;
supressão dos direitos sociais;
programas de descentralização com
incentivo aos processos de
privatização;
arrocho salarial / queda do salário
real;
terceirização de serviços.
Política Neoliberal no Brasil
* Governos Collor (1990-92), Itamar Franco
(1992-94) e Fernando Henrique Cardoso -
FHC (1995-2002) e a política econômica
conservadora do Ministério da Fazenda
(Palocci) e Banco Central no governo Lula e de
Levy (governo Dilma)
26/08/2010 - Esfera pública x Esfera
mercantil - Emir Sader
O neoliberalismo é a realização
máxima do capitalismo: transformar tudo em
mercadoria. Foi assim que o capitalismo
nasceu: transformando a força de trabalho
(com o fim da escravidão) e as terras em
mercadorias. Sua história foi a crescente
mercantilização do mundo.
A crise de 1929 – de que o liberalismo
foi unanimemente considerado o responsável –
gerou contra tendências, todas antineoliberais:
o fascismo, o modelo soviético (com
eliminação da propriedade privada dos meios
de produção) e o keynesianismo (com o Estado
assumindo responsabilidades fundamentais na
economia e nos direitos sociais).
O capitalismo viveu seu ciclo longo
(Anos Dourados) mais importante do segundo
pós-guerra (1945) até os anos 1970. Quando
84
foi menos liberal, foi menos injusto. Vários
países – europeus, mas também a Argentina –
tiveram pleno emprego, os direitos sociais
foram gradualmente estendidos no que se
convencionou chamar de Estado de bem-estar-
social.
Esgotado esse ciclo, o diagnóstico
neoliberal triunfou, voltando de longo
refluxo: dizia que o que tinha levado a
economia à recessão era a excessiva
regulamentação. O neoliberalismo se propôs a
desregulamentar, isto é, a deixar circular
livremente o capital. Privatizações, abertura de
mercados, “flexibilização laboral” – tudo se
resume a desregulamentações.
A hegemonia neoliberal se traduziu,
no campo teórico, na imposição da polarização
estatal/privado como o eixo das alternativas.
Como se sabe, quem parte e reparte fica com a
melhor parte – privado – e esconde o que lhe
interessa abolir – a esfera pública. Porque o
eixo real que preside o período neoliberal se
articula em torno de outro eixo: esfera
pública/esfera mercantil.
Porque a esfera do neoliberalismo não
é a privada. A esfera privada é a esfera da vida
individual, da família, das opções de cada um
– clube de futebol, música, religião, casa,
família, etc.. Quando se privatiza uma
empresa, não se colocam as ações nas mãos dos
indivíduos – os trabalhadores da empresa, por
exemplo -, se jogam no mercado, para quem
possa comprar. Se mercantiliza o que era um
patrimônio público.
O ideal neoliberal é construir uma
sociedade em que tudo se vende, tudo se
compra, tudo sem preço. Ao estilo shopping
center. Ou do modo de vida norte-americano,
em que a ambição de todos seria ascender
como consumidor, competindo no mercado,
uns contra os outros.
O neoliberalismo mercantilizou e
concentrou renda, excluiu de direitos a milhões
de pessoas – a começar os trabalhadores, a
maioria dos quais deixou de ter carteira de
trabalho, de ser cidadão, sujeito de direitos -,
promoveu a educação privada em detrimento
da pública, a saúde privada em detrimento da
pública, a imprensa privada em detrimento da
pública.
O próprio Estado se deixou
mercantilizar. Passou a arrecadar para,
prioritariamente, pagar suas dívidas,
transferindo recursos do setor produtivo ao
especulativo. O capital especulativo, com a
desregulamentação, passou a ser o hegemônico
na sociedade. Sem regras, o capital – que não é
feito para produzir, mas para acumular – se
transferiu maciçamente do setor produtivo ao
financeiro, sob a forma especulativa, isto é, não
para financiar a produção, a pesquisa, o
consumo, mas para viver de vender e comprar
papéis – de Estados endividados ou de grandes
empresas -, sem produzir nem bens, nem
empregos. É o pior tipo de capital. O próprio
Estado se financeirizou.
O neoliberalismo destruiu as funções
sociais do Estado e depois nos jogou como
alternativa ao mercado: se quiserem, defendam
o Estado que eu destruí, tornando-o
indefensável; ou venham somar-se à esfera
privada, na verdade o mercado disfarçado.
Mas se a esfera neoliberal é a esfera
mercantil, a esfera alternativa não é a estatal.
Porque há Estados privatizados, isto é,
mercantilizados, financeirizados; e há Estados
centrados na esfera pública. A esfera pública é
centrada na universalização dos direitos.
Democratizar, diante da obra neoliberal, é
desmercantilizar, colocar na esfera dos direitos
o que o neoliberalismo colocou na esfera do
mercado. Uma sociedade democrática, pós-
neoliberal, é uma sociedade fundada nos
direitos,na igualdade dos cidadãos. Um
cidadão é sujeito de direitos. O mercado não
reconhece direitos, só poder de comprar, é
composta por consumidores.
Na esfera da informação, houve até
aqui predomínio absoluto da esfera mercantil.
Para emitir notícias era necessário dispor de
recursos suficientes para instalar condições de
ter um jornal, um rádio, uma TV. A internet
abriu espaços inéditos para a democratização
da informação.
A democratização da mídia, isto é,
sua desmercantilização, a afirmação do direito
a expressar e receber informações pluralistas
tem que combinar diferentes formas de
expressão e de mídia. A velha mídia é uma
mídia mercantil, composta de empresas
financiadas pela publicidade, hoje aderida ao
pensamento único. Uma mídia composta por
empresas dirigidas por oligarquias familiares,
sem democracia nem sequer nas redações e nas
pautas dos meios que a compõem.
A nova mídia, por sua vez, é uma
mídia barata nos seus custos, pluralista, crítica.
O novo espaço criado pelos blogueiros
85
progressistas faz parte da esfera pública e
promove os direitos de todos, a democracia
econômica, política, social e cultural. A esfera
pública tem expressões estatais, não-estatais,
comunitárias. Todas comprometidas com os
direitos de todos e não com a seletividade e a
exclusão mercantil.
Consequências das políticas neoliberais na
América Latina
* Aumento do desemprego estrutural.
* Transferência de custos sociais para setores
populares.
* Exclusão social e crescimento da violência.
* Redução de gastos sociais nas áreas de
educação, saúde
* Esvaziamento do movimento sindical e
novas legislações conservadoras.
* Diminuição da taxa de inflação.
* Acirramento da competitividade global.
* Recuperação da taxa de lucros.
* Reforma fiscal para incentivar os
investimentos privados e redução de impostos
sobre o capital.
* Abolição do controle estatal sobre o fluxo
financeiro.
* A moeda nacional se reduz a um apêndice do
dólar.
* Aumento da dívida interna e também da
dívida externa.
* Vasto programa de privatização.
G GLOBALIZAÇÃO E SEUS (
DES)CAMINHOS
Introdução
O termo “globalização” foi utilizado
pela primeira vez em 1985, em um trabalho de
Theodore Levitt denominado “A globalização
dos mercados”. Com esse termo pretendia-se
caracterizar as grandes transformações
ocorridas na esfera econômica mundial nos
anos que se seguiram ao colapso da ordem
bipolar, com uma notável expansão do
capitalismo no contexto do desaparecimento
das economias de planejamento centralizado.
“Os povos de Porto Alegre e os povos
de Davos - New York se batem pela
globalização. Qual globalização? Os
poderosos, e por isso são poderosos, se
apropriaram da palavra globalização e lhe
impuseram uma significação que serve a seus
interesses. É o processo mundial de
homogeneização do modo de produção
capitalista, de globalização dos mercados e das
transações financeiras, do entrelaçamento das
redes de comunicação e do controle mundial
das imagens e das informações. A lógica que a
preside é a competição de todos com todos”.
(Leonardo Boff)
Conceito:
“Etapa recente (pós-1980) e mais
avançada do processo de
internacionalização da economia”
(Luciano Coutinho, economista da
UNICAMP)
Conjunto de transformações na ordem
política e econômica mundial –
integração dos mercados numa “aldeia
global”, explorada pelas empresas
transnacionais.
Fenômeno sócio histórico
contraditório e complexo que
caracteriza uma nova etapa de
desenvolvimento do capitalismo.
Dimensões da globalização
a) globalização como ideologia (na
política) – disseminada pela mídia
b) globalização como mundialização do
capital (na economia e sociedade)
c) globalização como processo
civilizatório (vinculado ao
desenvolvimento das forças
produtivas), isto é, aos avanços da 3a.
Revolução Industrial ou Tecnológica.
Faces da globalização econômica
financeira (o capital sem pátria)
comercial (comércio para todos)
produtiva (produzir em qualquer
lugar)
Críticas e mitos (ou ideologias) ao conceito
de globalização (Hirst e Thompson)
é um processo sem precedentes
(fenômeno irreversível) – nações
devem aderir incondicionalmente ao
mercado global
é apresentada como uma fatalidade –
fora dela não há alternativa para as
86
economias (Estado seria impotente) –
ligado à lógica do “darwinismo social”
é um processo sem controles
(comandado por forças impessoais do
mercado)
é democrático e possibilita o
desenvolvimento
Características da globalização
a) aceleração da mudança tecnológica (3ª
Revolução Industrial ou Tecnológica);
b) reorganização dos padrões de gestão e
organização da produção através da GQT;
c) crescente hegemonia do capital
financeiro (tem autonomia em relação aos
bancos centrais e amplia o seu controle
sobre o setor produtivo); fuga de capitais
voláteis
d) concentração do capital em grandes
oligopólios internacionais e em setores
vitais do processo produtivo. Segundo
pesquisa da revista Fortune, de 1998, as
dez principais corporações do mundo
(General Motors, Daimler-Chrysler, Ford
Motors, Wal-Mart, Mitsui, Itochu,
Mitsubishi, Exxon, General Eletric e
Toyota Motors) tiveram um faturamento
de 1,2 trilhão de dólares nesse ano, valor
50% maior que o PIB brasileiro de 1998;
e) crescente fusão de empresas (formação de
trustes) para reduzir custos e ganhos de
escala de produção, além de maior
inserção numa economia cada vez mais
competitiva e globalizada;
f) internacionalização dos processos de
produção, tanto em escala mundial como
regional;
g) ausência de um padrão monetário mundial
estável;
h) liberalização e expansão do comércio
internacional num volume jamais visto,
possibilitando a integração total de
praticamente todos os mercados do mundo
e superando fronteiras geográficas e
barreiras histórico-culturais;
i) formação de megamercados ou grandes
blocos econômicos, com o intuito de se
alcançar maior integração regional e
consequente expansão de mercados. Nesse
sentido, numa tendência aparentemente
contraditória da globalização, verifica-se a
regionalização de mercados com o
estabelecimento de barreiras protecionistas
entre os megablocos. Isso explica, por
exemplo, as dificuldades de acesso do
agronegócio brasileiro na União Europeia.
j) a terceirização de amplos setores da
cadeia produtiva;
k) a desterritorialização do capital em
função do surgimento de um mercado
financeiro global que transaciona bilhões
de dólares em todo o mundo. “São bilhões
de dólares a circular globalmente em
tempo real. A velocidade de circulação
desse capital é fantástica e sua volatilidade
também. Países são levados de roldão e
mergulhados em crises profundas, os
estados nacionais e seus respectivos
bancos centrais são inoperantes frente a
esta avalanche de dólares globalizados.”
(economista Ari Zenha)
l) nova divisão internacional do trabalho;
m) a contínua dissolução do mundo agrário
e alteração das condições de vida e de
trabalho no campo – alterações nos
processos produtivos do meio rural e
disseminação, nas áreas rurais, de valores
socioculturais típicos do mundo urbano;
n) comprometimento da soberania
nacional e a redefinição do papel
tradicional do Estado-nação,
considerando-se que os grandes grupos
financeiros e empresas agem em escala
planetária, independentemente das
decisões governamentais. A constituiçãode um mercado global integrado tem
garantido ao grande capital internacional
uma liberdade de ação que se sobrepõe aos
interesses nacionais;
o) a emergência de uma sociedade global de
perfil crescentemente homogeneizado e
caracterizada, também, pela ampliação das
desigualdades, tensões, contradições e
carências;
p) organização do processo produtivo –
flexibilização do trabalho e do trabalhador;
Resistências à Globalização
Pode-se perceber que o capitalismo
globalizado vem comprometendo as
particularidades culturais dos povos. Observa-
se, ao mesmo tempo, uma reação a essa
tendência que procura resgatar e preservar
valores culturais específicos.
87
A sedutora ideologia da globalização,
apresenta o fenômeno como algo
inexorável, contra o qual não há
alternativa. Para Fernando Henrique
Cardoso (FHC), a “globalização era
uma realidade contra a qual não havia
como lutar. O que o país deveria fazer
era simplesmente adaptar-se à nova
realidade”.
No entanto, as contradições
decorrentes da globalização e, em
particular, as que geraram um
aprofundamento no fosso entre as
economias capitalistas centrais e as
economias capitalistas periféricas têm
levado, a um progressivo desencanto
com a chamada economia global.
Crescimento dos protestos
antiglobalização, a partir de maio de
1998 em Genebra, Suíça. Intelectuais,
ativistas políticos de matizes
ideológicas diversas, ONGs e a própria
Anistia Internacional procuram se
fazer ouvir numa onda crescente de
protestos contra os perversos efeitos
sociais da globalização.
O I Fórum Social Mundial, realizado
em janeiro de 2001, em Porto Alegre,
como contraponto ao Fórum
Econômico Mundial, de Davos
(Suíça – desde 1971 tem cumprido o
papel estratégico na formulação do
pensamento dos que promovem e
defendem as políticas neoliberais em
todo o mundo. Sua base
organizacional é uma fundação suíça e
financiada por mais de mil empresas
multinacionais). O Fórum Social
Mundial apresentou alternativas às
políticas neoliberais e à globalização,
por meio de debates que contaram com
a participação de ONGs nacionais e
estrangeiras; reuniu representantes de
122 países com o objetivo de inserir,
na pauta da globalização, os princípios
fundamentais da solidariedade
humana. Ele denuncia a perplexidade
e a angústia de muitos com a economia
globalizada.
CRISE FINANCEIRA MUNDIAL DE
2008 e SUAS REPERCUSSÕES
Para compreender a crise financeira
(08/10/2008)
Antecedentes
capitalismo vive do seu processo de
reprodução, articulado por ciclos
curtos e longos
ciclo de expansão e períodos
recessivos
Chesnais: décadas neoliberais:
aumento da acumulação capitalista;
automação; deslocalização das
empresas; emergência da Índia e
China como centros produtivos
Década de 1980: processo de
transferência de capitais do setor
produtivo para o especulativo
Desregulamentação: livre de travas, o
capital migrou para o setor financeiro
(especulativo) onde obtêm muito mais
lucros
90% dos movimentos econômicos não
se dão na esfera da produção, mas na
compra e venda de papéis, nas Bolsas
de Valores ou de papéis das dívidas
públicas dos governos
Crises da fase neoliberal: mexicana,
asiática, russa, brasileira e argentina =
ataques especulativos que se
alastraram para o conjunto da
economia; saída brusca de capitais
Saídas para estas crises: mais
abertura das economias; empréstimos
dos FMI e aumento dos ajustes fiscais
Sintomas da crise financeira de 2008
a crise é de natureza distinta das outras
e projeta uma fase mais longa de
dificuldades: iniciou-se no país
central, por ter afetado o seu sistema
financeiro e por questionar o atual
arranjo desequilibrado da economia
global
ausência de regulação do sistema
financeiro
redução do investimento produtivo
fortíssima expansão do consumo
déficit do comércio exterior
aumento da dívida interna das famílias
norte-americanas
88
Crise financeira mundial
crise iniciou-se em julho/2007 no setor
de empréstimos hipotecários dos
EUA: primeira crise sistêmica do
capitalismo financerizado
entre 15 e 16/09/2008: falências de
grandes instituições financeiras norte-
americanas
instituições bloquearam a concessão
de empréstimos
dogma neoliberal: mercados são
capazes de se autorregular e toda
intervenção estatal sobre eles é
contraproducente
pacote dos 700 bilhões de dólares dos
EUA para socorrer sistema financeiro
governo socorre bancos com dinheiro
público, mas não assegura que os
recursos irriguem a economia
governo dos EUA estatizou 2 maiores
empresas de financiamento
hipotecário
sensação de insegurança e a crise
alastrou-se dos EUA para a Europa
crise atinge “economia real”: falta de
financiamento (crédito) afeta vendas
de veículos; GM dá férias coletivas
Análises: não é possível prever nem a
duração, nem a profundidade, nem as
consequências da crise
Consequências da crise
aumento dos preços do petróleo, dos
produtos agrícolas e diminuição da
demanda dos EUA e da Europa, os
países mais pobres perderão
claramente com fortes pressões
recessivas, déficit na balança
comercial e aumento do
endividamento
Europa e Japão sofrerão impacto da
desaceleração da economia norte-
americana = recessão
contração do crédito
24/09/2008 - O impensável aconteceu
(Boaventura de Sousa Santos)
O Estado deixou de ser o problema
para voltar a ser a solução; cada país tem o
direito de fazer prevalecer o que entende ser o
interesse nacional contra os ditames da
globalização; o mercado não é, por si,
racional e eficiente, apenas sabe racionalizar
a sua irracionalidade e ineficiência enquanto
estas não atingirem o nível de autodestruição.
A palavra não aparece na mídia norte-
americana, mas é disso que se trata:
nacionalização. Perante as falências ocorridas,
anunciadas ou iminentes de importantes
bancos de investimento, das duas maiores
sociedades hipotecárias do país e da maior
seguradora do mundo, o governo dos EUA
decidiu assumir o controle direto de uma parte
importante do sistema financeiro.
A medida não é inédita, pois, o
Governo interveio em outros momentos de
crise profunda: em 1792 (no mandato do
primeiro presidente do país), em 1907 (neste
caso, o papel central na resolução da crise
coube ao grande banco de então, J.P. Morgan,
hoje, Morgan Stanley, também em risco), em
1929 (a grande depressão que durou até à
Segunda Guerra Mundial: em 1933, 1000
norte-americanos por dia perdiam as suas casas
a favor dos bancos) e 1985 (a crise das
sociedades de poupança).
O que é novo na intervenção em curso
é a sua magnitude e o fato de ela ocorrer ao fim
de trinta anos de evangelização neoliberal
conduzida com mão de ferro a nível global
pelos EUA e pelas instituições financeiras por
eles controladas, FMI e o Banco Mundial:
mercados livres e, porque livres, eficientes;
privatizações; desregulamentação; Estado fora
da economia porque inerentemente corrupto e
ineficiente; eliminação de restrições à
acumulação de riqueza e à correspondente
produção de miséria social.
Foi com estas receitas que se
“resolveram” as crises financeiras da América
Latina e da Ásia e que se impuseram
ajustamentos estruturais em dezenas de países.
Foi também com elas que milhões de pessoas
foram lançadas no desemprego, perderamas
suas terras ou os seus direitos laborais, tiveram
de emigrar.
À luz disto, o impensável aconteceu: o
Estado deixou de ser o problema para voltar
a ser a solução; cada país tem o direito de fazer
prevalecer o que entende ser o interesse
nacional contra os ditames da globalização; o
mercado não é, por si, racional e eficiente,
apenas sabe racionalizar a sua irracionalidade
89
e ineficiência enquanto estas não atingirem o
nível de autodestruição.
Mas muito mais mudará. Primeiro, o
declínio dos EUA como potência mundial
atinge um novo patamar. Este país acaba de ser
vítima das armas de destruição financeira
maciça com que agrediu tantos países nas
últimas décadas e a decisão “soberana” de se
defender foi afinal induzida pela pressão dos
seus credores estrangeiros (sobretudo
chineses) que ameaçaram com uma fuga que
seria devastadora para o atual american way of
life.
Segundo, o FMI e o Banco Mundial
deixaram de ter qualquer autoridade para
impor as suas receitas, pois sempre usaram
como bitola uma economia que se revela agora
fantasma. A hipocrisia dos critérios duplos
(uns válidos para os países do Norte global e
outros válidos para os países do Sul global)
está exposta com uma crueza chocante. Daqui
em diante, a primazia do interesse nacional
pode ditar, não só proteção e regulação
específicas, como também taxas de juro
subsidiadas para apoiar indústrias em perigo
(como as que o Congresso dos EUA acaba de
aprovar para o setor automóvel).
Não estamos perante uma
desglobalização mas estamos certamente
perante uma nova globalização pós-
neoliberal internamente muito mais
diversificada. Emergem novos regionalismos,
já hoje presentes na África e na Ásia mas
sobretudo importantes na América Latina,
como o agora consolidado com a criação da
União das Nações Sul-Americanas e do Banco
do Sul. Por sua vez, a União Europeia, o
regionalismo mais avançado, terá que mudar o
curso neoliberal da atual Comissão sob pena de
ter o mesmo destino dos EUA.
Terceiro, as políticas de privatização
da segurança social ficam desacreditadas: é
eticamente monstruoso que seja possível
acumular lucros fabulosos com o dinheiro de
milhões trabalhadores humildes e abandonar
estes à sua sorte quando a especulação dá
errado. Quarto, o Estado que regressa como
solução é o mesmo Estado que foi moral e
institucionalmente destruído pelo
neoliberalismo, o qual tudo fez para que sua
profecia se cumprisse: transformar o Estado
num antro de corrupção.
Isto significa que se o Estado não for
profundamente reformado e democratizado em
breve será, agora sim, um problema sem
solução. Quinto, as mudanças na
globalização hegemônica vão provocar
mudanças na globalização dos movimentos
sociais que vão certamente se refletir no Fórum
Social Mundial: a nova centralidade das lutas
nacionais e regionais; as relações com Estados
e partidos progressistas e as lutas pela
refundação democrática do Estado;
contradições entre classes nacionais e
transnacionais e as políticas de alianças.
Boaventura de Sousa Santos é sociólogo e professor
catedrático da Faculdade de Economia da
Universidade de Coimbra (Portugal). Fonte:
www.agenciacartamaior.com.br
As repercussões da crise financeira mundial
no Brasil: entre tsunamis e marolinhas, por
Victor de Sá Neves (14/10/2012)
É fato que o cenário econômico internacional
mudou muito desde as primeiras evidências da
crise imobiliária dos Estados Unidos, mas o
que não se pensava era que isso ainda geraria
grandes impactos globais mesmo quatro anos
depois da quebra do Lehman Brothers. A crise
se espalhou e atingiu fortemente os países
europeus que praticavam irresponsabilidade
fiscal sem levar em consideração que a
qualquer momento essa bolha poderia
explodir. E hoje, mesmo depois de todos os
pacotes de ajuda e medidas de austeridade para
salvar bancos e economias nacionais, pode-se
dizer que a crise financeira é mundial e as suas
repercussões são preocupantes. A partir da
declaração do então Presidente Luiz Inácio
Lula da Silva, em outubro de 2008, de que a
crise econômica mundial seria uma
“marolinha” para o Brasil e da posição de
observador em um cenário atual
completamente diferente, pretende-se analisar
qual foi o comportamento do Brasil durante
esses longos quatro anos e traçar algumas
perspectivas sobre o futuro do país.
No ano do colapso do sistema imobiliário
estadunidense, o Brasil ainda apresentou
índices de crescimento razoáveis até o terceiro
trimestre, conseguindo fechar o ano com um
crescimento de 5,4% do PIB. Entretanto, o que
Lula não contava no momento da sua
declaração era que, a partir do quarto trimestre
de 2008 até esse mesmo período de 2009, a
economia brasileira passou por um momento
90
em que os índices de crescimento despencaram
para abaixo dos 2% negativos em média por
trimestre, um reflexo do forte baque pelo qual
uma economia dependente da exportação de
commodities passaria frente a um cenário de
intensa crise de demanda. É evidente que o
antigo Presidente acertou em partes, já que
disse que os efeitos aqui seriam muito menores
do que nos países desenvolvidos, nos quais os
impactos foram relacionados com um
“tsunami”. Entretanto, a comparação ficou
desequilibrada na medida em que não levou em
consideração o forte impacto que uma
economia exportadora de produtos primários
poderia sofrer em um contexto desfavorável.
Nesse sentido, ao contrário do que os
economistas diziam ao final de 2009 (quando
já eram divulgados os primeiros números
apontando para a recuperação do crescimento
da economia brasileira), a “marola” não estava
ultrapassada e uma segunda fase ainda estava
por vir. É certo que, do fim de 2009 até a
metade de 2010, os índices já indicavam um
aumento intenso no ritmo de crescimento do
Brasil, mas a partir do momento em que a crise
na zona do euro se difundiu, o cenário
internacional voltou a ficar negativo e,
novamente, o crescimento econômico por aqui
sofreu um grande abalo. Os números
evidenciam que, desde o primeiro trimestre de
2010, o ritmo só vem caindo, quando
comparado com o mesmo trimestre do ano
anterior, de acordo com os apontamentos dos
relatórios de contas nacionais do IBGE.
Como já foi dito anteriormente, o Brasil tem a
sua economia fortemente influenciada pela
exportação de commodities, principalmente
cereais e minérios de ferro. Com a crise de
crédito no mercado mundial, os compradores
restringem a sua demanda, o que faz com que
o preço dos produtos brasileiros caia
juntamente com o lucro dos exportadores. A
partir disso, a resposta dada a esse incentivo é
a diminuição da produção para reter a oferta e
segurar um pouco o preço.
A saída encontrada pelo governo brasileiro foi
investir na potencialidade do mercado
consumidor interno. Durante os últimos anos,
o Banco Central se valeu de várias medidas
macroeconômicas com o intuito de aquecer a
economia para que a crise mundial não
produzisse aqui impactos tão intensos quanto
os ocorridos em países europeus. A principal
delas é a taxa de juros SELIC, que atingiu a
marca dos 7,5% na última reunião no mês de
agosto, na tentativa de incentivar a produção
industrial e o consumo. Além disso, podem ser
citadas também as isenções fiscais, como o
IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) e
o IPI (Imposto sobre Produtos
Industrializados), e as facilidades de acesso ao
crédito, bastante comuns nos últimos dois
anos.Mais recentemente, o Banco Central se
valeu ainda da diminuição da alíquota do
compulsório dos bancos, o que deve injetar nos
próximos meses cerca de 30 bilhões de reais no
mercado brasileiro. É inegável que os efeitos
do pessimismo gerado pela crise mundial são
muito menores no Brasil, mas o fato é que
essas medidas não estão sendo suficientes para
sustentar o ritmo almejado pelo governo (vide
projeções de crescimento para 2012: no início
do ano, a expectativa era de alcançar os 4%; há
alguns dias, a meta foi abaixada para 1,6%).
Assim, compreende-se porque o termo
“marolinha” utilizado por Lula não explica por
completo as repercussões da crise financeira no
Brasil. Por um lado, o país tem se mostrado
muito mais efetivo nas suas medidas de
contenção da crise do que as grandes
economias desenvolvidas. Por outro, mesmo
com os vários esforços adotados pelo governo
na tentativa de tornar os impactos menos
severos, nota-se que os resultados obtidos
estão constantemente abaixo das expectativas.
Nesse contexto, defende-se que o termo ideal
para ilustrar a situação em que o Brasil se
insere frente à crise é “pororoca”, visto que os
efeitos se estendem desde 2008 e já
provocaram certo estrago na economia
brasileira desde então, com ênfase no
crescimento negativo de 2009 e na
desaceleração intensa que se deu a partir de
2010.
Dessa forma, conclui-se que a tendência é que
o Brasil continue engatinhando até que os
mercados consumidores dos seus produtos de
exportação se recuperem e voltem a demandar
como antes. Apesar disso, é preciso ter em
mente o fato de que a população brasileira não
sentiu muito os efeitos da crise, até por conta
da inflação nunca ter saído do controle do BC
durante esses quatro anos. Na verdade, o que
91
se tem visto é que a parcela da população que
pertence à classe média aumentou
significativamente a sua potencialidade de
consumo em função das facilidades de acesso
ao crédito dadas pelo governo, como no
programa Minha Casa, Minha Vida e nos
financiamentos de carros novos. Porém,
afigura-se que o potencial do mercado
consumidor brasileiro já está saturado e não se
encontra nele a solução para a volta ao antigo
ritmo de crescimento. É certo que ele tem se
mostrado uma solução paliativa bastante
durável, mas é difícil que algo mais seja obtido
além do que já foi. Portanto, é possível chegar
à conclusão de que a “pororoca” que assola o
Brasil só se esmaecerá à medida que os
“tsunamis” dos países desenvolvidos também
perderem força.
7º Texto: A Geração Y
Introdução
Juventude:
“Nossa juventude adora o luxo, é mal
educada, caçoa da autoridade e não tem o
menor respeito pelos mais velhos. Nossos
filhos hoje são verdadeiros tiranos. Eles não se
levantam quando uma pessoa idosa entra,
respondem a seus pais e são simplesmente
maus.” (Sócrates 470-399 a. C.).
“Não tenho mais nenhuma esperança no
futuro do nosso País se a juventude de hoje
tomar o poder amanhã, porque essa juventude
é insuportável, desenfreada, simplesmente
horrível.” Hesíodo (720 a.C)
“Nosso mundo atingiu seu ponto crítico. Os
filhos não ouvem mais seus pais. O fim do
mundo não pode estar muito longe.”
(Sacerdote do ano 2000 a.C.)
“Essa juventude está estragada até o fundo do
coração. Os jovens são malfeitores e
preguiçosos. Eles jamais serão como a
juventude de antigamente. A juventude de hoje
não será capaz de manter a nossa cultura.”
(Descoberta nas ruínas da Babilônia (atual
Bagdá). 4000 anos de existência.)
Nada mudou!
Um Estudo das Gerações: os comportamentos,
valores de vida, expectativas com relação ao
futuro mudam de forma considerável e,
mundialmente a cada 20 anos...
Porém...
Pela primeira vez as empresas estão lidando
com diferenças de mais de 40 anos de
idade... e esta diferença vai crescer ainda
mais...
01 - Geração Baby Boomers – nascidos entre
1946 e 1964
Baby Boomers é uma definição
genérica para crianças nascidas durante uma
explosão populacional - Baby Boom em inglês,
ou, em uma tradução livre, Explosão de Bebês.
Em geral, a atual definição de Baby
Boomers, se refere aos filhos da Segunda
Guerra Mundial, já que durante a guerra
houve uma explosão populacional.
Normalmente, são as pessoas nascidas
no final da década de 1940, se consideram
como Baby Boomers os nascidos entre 1946 e
1964, separados em duas gerações:
Podemos determinar as seguintes
características para a Geração de Baby
Boomers:
Possui renda mais consolidada.
Tem um padrão de vida mais estável.
Prefere qualidade a quantidade.
Não se influencia facilmente por
outras pessoas.
É firme e maduro nas decisões
Enfim, sua atitude típica: “Só se vive
uma vez, então aproveite” e para subir na vida
é preciso trabalhar muito; seus empregos eram
para a vida toda e a carreira era linear; eles
trabalham mais tempo e se aposentam mais
tarde.
02 - Geração X – nascidos entre 1965 e 1980
Os integrantes da Geração X têm sua
data de nascimento localizada,
aproximadamente, entre os anos 1960 e 1980.
A Geração X é formada pelos filhos da
Geração Baby Boomers, formada logo após a
Segunda Guerra Mundial e pelos pais da
Geração Y.
92
Os integrantes da geração X são as
pessoas nascidas entre meados dos anos 60 e
início dos 1980. Essa geração viveu momentos
importantes na política: a Guerra Fria, a
Perestroika precipitando a queda do Muro de
Berlim. Foi a época dos últimos líderes, como
Mikhail Gorbatchov, Ronald Reagan,
Margareth Thatcher...
As pessoas X não vêem o êxito da
mesma forma que seus pais. Ao contrário,
nutrem certo cinismo e desilusão em relação
aos valores deles. São mais céticas, mais
difíceis de atingir pelos meios de comunicação
e marketing convencionais. É a geração da
MTV, do Nirvana, das Tartarugas Ninjas.
Preferem um estilo de vida que lhes dê
status, dinheiro e poder.
Do ponto de vista social, alguns
acontecimentos marcaram essa geração,
entre eles o aparecimento da AIDS, em 1981.
Essa doença provocou um posicionamento
ideológico de dimensões muito relevantes,
provavelmente nunca associado a uma
enfermidade, tendo assim grande influência
na mudança de pautas de comportamento
da geração seguinte.
Diante de tal panorama de incerteza e
sensação de mudança, não é de estranhar que,
ao ir ao cinema, esses jovens tenham assistido
a Blade Runner (1982), um dos maiores
expoentes do movimento cultural conhecido
como cyberpunk. A atual geração Y
possivelmente desconhece que as origens
ideológicas de alguns de seus ícones culturais,
como Matrix, venha diretamente dessa visão
apocalíptica e obscura, própria da evolução do
movimento punk.
Entre as principais características
dos indivíduos da geração X, encontramos:
Busca da renda mais consolidada.
Maturidade e escolha de produtos
de qualidade.
Busca por seus direitos.
Respeito à família menor que o de
outras gerações.
Procura de liberdade.
03 - Geração Y – nascidos entre 1981 e
1995
A Geração Y, ao contrário do que
muitos pensam, não se refere exatamente a
uma legião de adolescentes, mas sim a uma
"determinada" geração, nascida entre os anos
1980 e 1990. São os filhos da Geração X e
netos dos Baby Boomers.
Quem são os integrantes da geração Y?
Nascidos na década de 1980 e 90.
Entrando no mercado de trabalho,
os mais velhos chegando aos 25 anos.Propósito:
Satisfação imediata de seus anseios
e sonhos e uma vida com significado.
Como é uma geração relativamente
nova, ainda não há uma conceituação clara das
características desta geração, a não ser pelo
fato que nasceram em um mundo que estava
se transformando em uma grande rede global.
A Internet, e-mails, redes de
relacionamento, recursos digitais, fizeram
com que a geração Y fizesse milhares de
amigos ao redor do mundo, sem ao menos
terem saído da frente de seus computadores.
Não há acordo entre os estudiosos a
respeito da data exata de início e fim desta
geração. Alguns voltam alguns anos e
ultrapassam os anos 70. Outros dizem que a
geração Y se manteve até 2010. O que há em
comum, no entanto são os novos hábitos
voltados à comunicação e obtenção da
informação instantânea.
Também são chamados de Millennials
por serem a geração da mudança do milênio. A
definição foi criada pelo Advertising Age.
Uma revista de publicidade e propaganda
norte-americana, que definiu, em 1993, os
hábitos de consumo dos adolescentes da época.
Como eram filhos dos integrantes da Geração
X, se achou óbvio, que esta nova geração fosse
chamada pela próxima letra do Alfabeto.
Histórico Familiar
Filhos de pais dedicados à carreira;
Pais “culpados” pela pouca
dedicação à família;
93
Pais com o pensamento: “Quero
propiciar para o meu filho o que eu
não tive”;
Filhos cuidados, nutridos e
programados para inúmeras
atividades desde muito cedo;
Pouca hierarquia entre pais e
filhos;
Injeções de autoconfiança
Contexto Mundial:
Fast-food: tudo rápido e ao alcance
globalização
Não existe distância
Revolução tecnológica
Entre as principais características
dos indivíduos da Geração Y, encontramos:
Estão sempre conectados;
São divertidos, empolgados e
gostam de desafios;
Procuram informação fácil e
imediata;
Preferem computadores a livros;
Preferem e-mails a cartas;
Digitam ao invés de escrever;
Vivem em redes de relacionamento
(principalmente Facebook);
Compartilham tudo o que é seu:
dados, fotos, hábitos;
Eles querem empregos que
combinam seu estilo de vida e suas
necessidades;
Eles não separam a vida pessoal do
trabalho, ou seja, para eles a vida é
uma só;
Estão sempre em busca de novas
tecnologias.
Em síntese, as características da Geração Y
a) Preparados para superar desafios;
Vencedores;
Responsáveis;
Valorizam a empregabilidade e não
a fidelidade.
b) Esperançosos:
Otimistas;
Acreditam no futuro e no seu papel
nele;
Local de trabalho desafiante e
agradável;
Colaborativos e sociáveis;
Criativos e inovadores;
Divertidos.
c) Orientados para metas e realizações:
Traçam metas ousadas, altas
expectativas;
Foco e multitarefas;
Aprendem rapidamente;
Dispostos a correr riscos; iniciativa;
Têm pressa de construir a carreira;
Lidam muito bem com as mudanças;
Compromisso com atingimento de
objetivos.
d) Consciência cidadã:
Pensam no bem maior; ambiente
sustentável;
Engajados em questões de
responsabilidade social;
Transparência;
Idealistas;
Equilíbrio entre trabalho e vida
pessoal como obrigação.
e) Inclusivos:
Trabalho em equipe;
Poder coletivo;
Justiça no ambiente de trabalho;
Diversidade é norma;
Não têm protocolos de hierarquia
04 - Geração Z
Formada por indivíduos
constantemente conectados através de
dispositivos portáteis e, preocupados com o
meio ambiente, a Geração Z não tem uma data
definida. Pode ser integrante ou parte da
Geração Y, já que a maioria dos autores
posiciona o nascimento das pessoas da
Geração Z entre 1990 e 2009.
Quem é a geração Y – Pilar Garcia
Lombardia
Pela primeira vez na história do
mercado de trabalho, as organizações estão
acolhendo pessoas cujas idades cobrem um
espectro de mais de 40 anos. Essa tendência
vai aumentar na próxima década, devido ao
94
necessário prolongamento dos anos de trabalho
motivado pela escassez de profissionais.
É necessário identificar um conjunto
de vivências históricas compartilhadas –
obviamente, de caráter macrossocial – que
determina alguns princípios de visão de vida,
contexto e, certamente, valores comuns. Sob
essa lógica, podemos afirmar que estamos em
um momento em que quatro gerações
trabalham e convivem nas empresas, cada uma
com aspirações e contratos psicológicos
diferentes com o empregador.
Geração Y
A nova geração abrange os nascidos
nos anos 1980 e 90. Os mais velhos estão
chegando aos 25; os mais jovens acabam de
sair da adolescência. É a geração dos Power
Rangers e da internet, da variedade, das
tecnologias que mudam contínua e
vertiginosamente.
Os membros dessa geração são
considerados independentes, autossuficientes,
honestos, empreendedores e seguros em
relação ao que sabem e ao que querem. São
vistos como profundos conhecedores da
tecnologia e a utilizam como principal aliada
no processo de aprendizagem e obtenção de
informação
A geração Y só conhece a
democracia. Não deixam de se surpreender
com o fato de que a geração anterior tenha
sobrevivido sob a tirania de poucas redes de
televisão, sob controle governamental estrito,
e com telefones pregados na parede.
Na geração Y não ocorreu uma
ruptura social evidente; não houve
Woodstock nem maio de 1968. Os Y são
silenciosos e contundentes, parecem saber
exatamente o que querem. Eles não
reivindicam: executam a partir de suas
decisões, dos blogs e dos SMS. Não
polemizam nem pedem autorização: agem.
Enquanto os X enfrentam o mundo profissional
com relativo ceticismo, os Y adotam uma visão
mais esperançosa. Seu alto nível de formação
os torna mais decididos. Sua atitude diante da
hierarquia é cortês, mas não de estrito respeito
ou amor/ódio, como a das gerações anteriores.
A integração dos Y às empresas está
sendo especialmente complicada. Suas
expectativas são novas e eles se consideram
“a geração excluída”. Chegaram ao mundo em
clima de mudança, transformação e certo
desassossego político.
Esses jovens, além de ver televisão,
começaram a dar seus primeiros passos com os
computadores de seus pais ou irmãos: a
tecnologia nunca vai ser um problema para
eles. Cerca de 91,6% dos que têm entre 16 e 24
anos são usuários da internet, porcentagem que
cai para 63,4% no caso das pessoas entre 35 e
44 anos. Já se acostumaram ao bombardeio de
imagens, à informação imediata e visual, à
realidade em 3D. Não desenvolveram a
paciência e a laboriosidade, e sim o “já” e o
“agora”. Não aprenderam a desfrutar um livro,
uma vez que podem obter a mesma informação
em minutos, com um clique. É uma geração de
resultados, não de processos.
Outra diferença importante: se as
gerações anteriores se caracterizavam por
receber as mensagens, as modas, a música de
modo uniforme, a Y, ao contrário, destaca-se
pela diversidade. Não que a geração Y não
tenha nenhuma tribo ou subgrupo. Ela tem,
sim. É a elite urbana, que, de alguma forma,
cristaliza seus valores e estilos de vida: são os
CBP (cosmopolitan business people, ou
pessoas de negócios cosmopolitas). A
globalização está criando um coletivo social
transversal, situado em todo o mundo (ou
quase todo), com traços homogêneos,
independentemente da origem cultural, racialou geográfica.
Características comuns diferenciam
essa tribo de outros coletivos. Entre as mais
significativas estão:
Costumam conhecer vários
idiomas. Concretamente, seu inglês é fluente,
mesmo não sendo sua língua materna.
Seu nível de educação é alto. Têm
pós-graduação (MBA ou mestrado) ou
especialização em alguma instituição de ensino
superior de prestígio.
São solteiros ou casados com poucos
filhos. Às vezes, o casal também é um CBP.
Suas famílias tendem à instabilidade.
A rede de amizades e conhecidos
está distribuída por todo o mundo ou em
região ampla. Raça, nacionalidade e religião
são secundárias. Os laços profissionais ou de
gostos pessoais é que contam.
95
No mercado de trabalho, possuem
experiências multinacionais.
Têm gostos variados, em que
sobressaem os esportes, as artes, a leitura e,
sobretudo, as viagens.
O manejo das novas tecnologias é
inerente a seu cotidiano - tanto profissional
como pessoal.
Buscam carreiras brilhantes, altos
salários
MOTIVAÇÕES E VALORES
É bom lembrar que os conceitos de
motivação e valores pertencem à geração X
e até mesmo à anterior, ou seja, foram
concebidos por gerações que trocaram uma
concepção mecanicista do trabalho por uma
mais aberta, na qual o trabalho não é só uma
forma de sobreviver economicamente, mas
fonte de satisfação e desenvolvimento pessoal.
É possível, portanto, que esses termos não se
apliquem à geração Y.
Por sua vez, o cenário de trabalho de
hoje é especialmente complexo, por conta de
alguns fenômenos:
A idade de aposentadoria
aumentou. Ao mesmo tempo, as empresas não
valorizam os profissionais mais velhos.
Faltam profissionais em vários
setores.
Um fator de diversidade é acrescido
com a imigração e a crescente incorporação
das mulheres nas empresas.
Em muitas organizações, as horas de
trabalho e a pressão são muito altas, o que
dificulta a conciliação entre vida profissional
e pessoal.
Os trabalhadores têm mantido ou
reduzido seu poder aquisitivo; os benefícios
empresariais e os salários da alta direção,
porém, aumentaram extraordinariamente.
Devido ao ambiente em que
cresceram, os Y são pessoas com iniciativa e
grande capacidade de resolver problemas, e
seu estado mental diante das opções e desafios
costuma ser: “Por que não?”. Desenvolvem-se
bem em espaços criativos, nos quais suas
iniciativas possam render frutos e seus esforços
individuais por conquistar objetivos sejam
reconhecidos. Os jovens dessa geração são
mais individualistas que os das anteriores e
reivindicam a autonomia em suas opiniões e
atuações, situando seu âmbito pessoal acima
das considerações de ordem laboral ou social.
Os Y parecem não se importar muito
com uma questão-chave para as gerações
anteriores: a promoção. A rotação não os
assusta (a situação do mercado lhes permite
isso) e, apesar de se motivarem a escalar
posições, não é tanto pelo que estas
representam em poder, mas porque implicam
reconhecimento e maior possibilidade de
colocar em marcha suas iniciativas. Por isso,
podem rechaçar promoções que resultem em
perda da qualidade de vida.
Os integrantes da geração Y têm um
acesso à informação que nunca existiu. Isso é
tão importante que provocou uma verdadeira
mudança de paradigma no consumo. Quando
um Y vai comprar um celular, por exemplo, é
possível que saiba mais de suas características
técnicas que o próprio vendedor. E também
terá consultado todos os blogs e fóruns para
saber a opinião de outros consumidores. O fato
é que esse jovem terá a mesma atitude quando
comparecer a uma entrevista de emprego. Sabe
o que quer, conhece o setor e a empresa, leu
notícias a respeito dela. Além disso, a
facilidade com que o candidato pode ter acesso
à informação sobre o mercado de trabalho
faz com que se abram diante dele muitas e
diversas alternativas, e ele pulará de uma para
outra se as respostas não o convencerem.
No entanto, podemos nos aventurar a
algumas conclusões:
São filhos de seu tempo, pós-
modernos. Estão imersos em preocupações
ecológicas e se interessam pelos problemas
sociais, sobre os quais estão sempre
informados.
Como são geralmente jovens,
mostram-se abertos a novas correntes
ideológicas e são sensíveis à injustiça.
Aqui há uma grande pergunta para
fazer: a formação que recebem das instituições
de ensino e as experiências de trabalho os
levarão a pender para um lado ou para o outro,
ou seja, eles vão exacerbar o peso do valor
econômico em sua vida ou integrá-lo a um
contexto moral e social mais amplo?
Diante disso, três aspectos parecem
ser fundamentais para gerenciar esses jovens:
96
Um clima cosmopolita que os
atraia, geralmente cidades populosas, em que
possam usar o inglês como meio comum de
expressão, com acesso às artes, ao lazer e aos
esportes, além de instituições de ensino de
prestígio.
Expectativas de carreira tão
motivadoras quanto a remuneração, assim
como um tipo de trabalho igualmente
motivador, que ofereça desafios constantes.
Garantia de autonomia
profissional. As tarefas lhes devem ser
delegadas e eles precisam ter poder para
trabalhar. Os Y costumam se dar muito bem
em equipe.
CONSELHOS PARA ATRAIR, RETER E
GERENCIAR COLABORADORES Y
O que os atrai?
Seus critérios de decisão entre
diferentes ofertas de emprego são:
estabilidade, equilíbrio entre vida
profissional e pessoal e nível salarial
adequado.
Valorizam e representam a
diversidade.
Tendem a pensar no curto prazo.
(Lembre-se de que, como têm amplo acesso à
informação, possivelmente têm várias
alternativas a escolher).
O que esperam como remuneração?
Para eles, remuneração está
relacionada com resultados. Geralmente têm
expectativas de alta remuneração, para
manter elevado padrão de vida.
O que os reterá?
Consideram fundamentais a
responsabilidade individual e a liberdade para
tomar decisões.
Crêem mais na co-decisão do que na
hierarquia.
Pedem flexibilidade de tempo e
espaço para manter sua esfera privada.
Querem que seu estilo de vida e sua
forma de enfocar o trabalho sejam respeitados.
Não é fácil despertar neles um
sentido de fidelidade à empresa “para a vida
toda”.
O que oferecem às empresas?
Alto nível de formação.
Iniciativa e criatividade.
Resultados.
ALGUNS ASPECTOS PARA REFLEXÃO
A convivência de diversas gerações
no mercado de trabalho, como hoje está
acontecendo, implica, de saída, a necessidade
de incorporar a inovação, a criatividade e a
flexibilidade nas tarefas próprias da gestão
de pessoas. Se a situação já não fosse
complexa em si, uma análise mais profunda
exigiria ter em conta outras variáveis que
também afetam a questão.
As mulheres da geração X, que em
grande medida entraram de forma maciça no
mercado de trabalho e de modo relevante
(mas não maciço) ocuparam postos de
direção, fizeram-no sem modelos, na maioria
dos casos. Essas profissionais abriram
caminho, mas seguramente tiveram de pagar
um preço alto, dedicando-se menos à família.
As mulheres da geração Y provavelmente
vão rechaçar esse modelo, e agora se fala de
conciliação de agendas, igualdade e
flexibilidade. Serão capazes de construir um
novo modelo que concilie vida profissional e
pessoal?
E as grandes perguntas: que traços
marcarão os integrantes da geração seguinte?
O que vão aprender a partirda variedade de
modelos, atitudes e comportamentos que
compõem o meio sociocultural em que estão
crescendo? Como a geração Y vai reagir se a –
vamos chamá-la assim – geração Z desbancá-
la antes do tempo, como ela fez com a geração
X?
Pirâmide da Motivação Geração Y
1. SIGNIFICADO
2. RESPONSABILIDADE
3. O AMBIENTE DE TRABALHO
4. ENVOLVIMENTO NO TRABALHO
5. O SIGNIFICADO DA
REMUNERAÇÃO
6. ACOMPANHAMENTO E
RECONHECIMENTO
7. RELAÇÃO COM NORMAS, REGRAS
E SUBORDINAÇÃO FUNCIONAL
1. Significado
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Tudo tem um porquê; dá sentido
para tudo o que faz;
Pouco treino com processos
cognitivos. Não são leitores de obras
literárias mais densas;
Não são adeptos da instrução formal.
Empresas e Gestores:
Liderança deverá dar
direcionamento, clareza de objetivos;
Liderança deve ajudá-los a serem
daqui a 10 anos homens mais plenos,
complexos, profundos e maduros.
Muitas empresas estão instituindo o
papel de mentores/tutores;
Invista em desenvolvimento e
capacitação. Mas se esforce para que
os conhecimentos adquiridos sejam
aplicados;
Crie comunidades de aprendizagem,
blogs internos de liderança, programas
via satélite, videoconferência,
Podcasts, etc;
Edutainment (educação com
entretenimento);
Utilize o trabalho em equipe e
tecnologia (Wikipédia, Google,
publicações on line, multitarefas,
ipods).
2. Responsabilidade
Responsável com aquilo que lhe é
atribuído;
A empresa não é o único foco dele,
responsabiliza-se por tudo que tem
significado para ele.
Empresas e Gestores:
Ofereça horário flexível,
oportunidade de trabalhar em casa;
Reveja políticas de concessão de
férias e licenças por períodos
prolongados;
A Xerox já está usando um slogan
“auto expressão” para descrever o perfil dos
candidatos que busca. E são incentivados a
proporem mudanças e novas soluções;
Invista em programas de
voluntariado.
3. O ambiente de trabalho
Alegre, descontraído, espírito leve;
Não importa com hierarquia;
O sobrenome corporativo não exerce
fascínio sobre eles;
Trabalhar com pessoas com as quais
se identificam;
Aparência informal.
Empresas e Gestores:
Diversão, humor e até uma pitada de
tolice;
Irreverência tornará o ambiente mais
atrativo;
Forneça várias oportunidades às
equipes;
Algumas empresas já estão
contratando grupos de amigos;
Seja criativo para celebrar, happy-
hour, confraternizações;
Não descuide da comunicação.
4. Envolvimento no trabalho
Não tem paciência para coisas
longas e demoradas;
Quer tentar coisas novas; “Respeite
as nossas ideias”;
Necessidade de arriscar-se;
Não tem problemas em falhar, em
recomeçar, aprender com os erros;
Fiel a seus projetos e não à empresa.
Empresas e Gestores
Empresas estão indo antes às
universidades;
Estimulem-os a resolver problemas
complexos;
Quebrem os planos e programas das
empresas em projetos;
Dê direcionamento e acompanhe;
Coloquem-os em mais de um
projeto;
Liberdade para EXPERIMENTAR;
Utilize o erro como processo de
aprendizagem;
Nos programas de estágios e
trainees diversifique ainda mais as áreas para
que eles sejam mais expostos e tenham mais
desafios;
Projetos fora do país de origem
“chance de conhecer outros países”.
5. O significado da remuneração
Gratificação instantânea: não lida
bem com promessas futuras;
Gosta de “ganhar” premiações,
viagens, promoções;
Preocupa-se com benefícios e
Previdência Privada;
Recompensa x competência;
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Ele não está disposto a esperar muito
tempo para uma promoção: planejamento de
carreira mais transparente.
Empresas e gestores
Reveja políticas de bônus anuais e
semestrais;
Una aprendizado com fazer
dinheiro;
Implemente programas de
incentivos mensais com prêmios, viagens, etc.;
Na Microsoft os funcionários agora
revisam metas de carreira duas vezes ao ano
com o superior imediato;
A GE passou a oferecer progressão
salarial aos participantes de seu programa de
trainee;
Pense num cardápio de benefícios e
deixem que façam opções.
6. Acompanhamento e reconhecimento
Demanda muito feedback;
Gosta de autonomia;
Movido a elogios; Adora ser
reconhecido;
Ambicioso.
Empresas e Gestores:
Implante cultura do feedback
imediato e avaliação 360 on-line;
Não avalie aparência e gostos
pessoais;
Invista tempo em reconhecimento;
Liderança forte que seja exemplo,
propõe metas, apoie, inspire, acompanhe e
avalie continuamente;
Proporcione reconhecimento e não
necessariamente um cargo;
O salário é importante, mas o
reconhecimento é vital para permanência
deles.
7. Relação com normas, regras e
subordinação funcional
Insubordinados;
Ele se subordina a vínculos e não a
cargos;
Não se adapta a regras muito rígidas;
Critério de julgamento é a
consciência e não a obediência;
Informal; questionador;
independente;
Respeita e gosta de ser respeitado;
Abordam com informalidade até o
presidente da empresa.
Empresas e Gestores:
Não o engesse com normas e regras
“bobas”, principalmente com aquelas rígidas e
exageradamente formais;
Sentirá melhor em ambientes mais
informais;
Algumas empresas estão treinando
lideranças para lidarem com eles;
Sejam flexíveis, adote
procedimentos mais informais com relação à
aparência;
Sem perder a essência, revisite
práticas e comportamentos.
8º texto: Ecologia e biodiversidade
I – Movimento ecológico e políticas públicas
Modelo de desenvolvimento que tem por
base a sociedade de consumo
Os problemas ambientais causados
pelo homem, em seu processo de construção e
reconstrução de espaços geográficos, não são
somente de ordem ecológica, mas
fundamentalmente política, econômica e
cultural.
Eles decorrem sobretudo do modo
como as sociedades se apropriam da natureza e
usam, destinam e transformam os recursos
naturais. É uma questão de ordem política,
econômica e cultural porque o homem age na
natureza segundo os padrões ou costumes –
políticos, econômicos e culturais – criados por
ele mesmo, ou seja, segundo o tipo de
civilização ou sociedade que construiu. Assim
sendo, a degradação do meio ambiente está
intimamente relacionada ao modelo de
desenvolvimento econômico adotado ou ao
próprio sistema capitalista, que encontra sua
base de sustentação no processo de produção e
fazer consumir mais para continuar a produzir
mais.
Dessa forma, vivemos sob um modelo
de desenvolvimento calcado no consumo, ou
melhor, na sociedade de consumo. Nesse tipo
de sociedade, os valores sociais estão, de um
modo geral, apoiados na ideia de que o sucesso
do ser humano é medido pelo que ele consome
de bens e serviços.
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O aspecto econômico foi divinizado,
na sociedade de consumo, passando a ocupar o
centro do sistema de valores. Atrelados a ele
estão os demais valores sociais e a própria
prática política, de modo que, se falta ética na
economia, não existirá ética na política e nos
valores. E aqui podemos incluir as relações
homem-natureza ou homem-meio ambiente
como sendo, por conseguinte, relações
desprovidas de ética, na medida em que o
homem vem destruindo ou deteriorando a
natureza e o meio ambiente sem se importar
com as gerações futuras.
O modelo de desenvolvimento
vigente necessita cada vez mais de recursos