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DIREITO CIVIL IV - BEDONE

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natural (que só possui o elemento dívida) e sem se olvidar da obrigação moral (destituída de qualquer desses dois elementos)
Conteúdo: econômico, consoante lição de Orlando Gomes, ocasião de se lembrar que o DC procede ao estudo das relações jurídicas de caráter patrimonial direto (caso da obrigação pessoal) e das de natureza patrimonial indireta
- Em suma, os direitos pessoais consubstanciam uma relação jurídica entre credor e devedor, capaz de estabelecer um vínculo obrigacional entre os mesmos
- Traços mais significativos dos direitos pessoais, para adiante serem confrontados com os dos direitos reais: partes determinadas, objeto obrigacional e garantia
Partes determinadas: credor e devedor são conhecidos
Objeto obrigacional: o dar, o fazer e o não fazer dizem respeito a coisas corpóreas e incorpóreas (ex.: locação e cessão de crédito)
Garantia: detém o credor a garantia genérica de cumprimento da obrigação, quer dizer, o patrimônio ativo do devedor (dívidas quirografárias), não se olvidando do sistema especial de garantias, que é pessoal (fiança e aval) e real (penhor, hipoteca e anticrese)
- Se a conceituação dos direitos pessoais é mais tranqüila, o mesmo não se dá relativamente aos direitos reais, para os quais há várias correntes doutrinárias, razão pela qual serão apresentadas apenas as duas mais importantes: teoria clássica (ou realista), e teoria personalista
Clássica ou realista: contrapõe-se ao conceito de direito pessoal (relação estabelecida entre credor e devedor), pois considera que o direito real é uma relação estabelecida diretamente entre o titular e a coisa, de modo a se criar um vínculo de submissão entre esta e aquele, já que, conceitualmente falando, sujeito de direito e objeto de direito não podem estabelecer relação jurídica entre si
Personalista: criada por Planiol, no Século XIX, afirma que esse vínculo de submissão entre o titular e a coisa é o mero resultado de uma relação jurídica anterior, estabelecida entre dois sujeitos de direito
Noutros termos, o direito real é uma relação jurídica estabelecedora de prerrogativa que incide diretamente sobre a coisa, criando um liame de subordinação entre a mesma e o titular
- O CC não adota nem uma nem outra doutrina, mas podem-se extrair elementos de ambas, como se vê dos arts. 1.226, 1.227, 1.228, caput, 1.390 e 1.417, exemplificativamente
E, fora dessa parte do CC, lembrar também como exemplo o direito de preferência, que assiste ao locatário, para adquirir o imóvel alugado, cuja natureza é pessoal ou real, conforme o caso (Lei nº 8.245/91, art. 33), dependendo da averbação ou não do contrato no CRI; se pessoal: conversão em perdas e danos (RCSE do art. 186), e, se real: desfazimento do negócio realizado entre o locador e o terceiro, e adjudicação do imóvel, mediante o pagamento do preço, tanto por tanto
- No nosso modo de sentir, o Direito contempla todo o fenômeno jurídico, sendo que cada parte daquele é focado em determinado instante, ou seja, um momento desse fenômeno; exs.: o contrato de compra e venda, do Direito das Obrigações, permite a aquisição da propriedade, após a tradição (481, 1.226 e 1.227), enquanto que o Direito das Coisas estuda os atributos da propriedade e os direitos do proprietário (1.228 e ss.)
- Daí é possível extraírem-se também os traços mais marcantes dos direitos reais, comparativamente aos direitos pessoais, acima examinados: partes, objeto e garantia
Partes: o titular do direito real é conhecido, ao passo que as prerrogativas incumbidas ao mesmo são exercíveis contra qualquer pessoa (sujeito passivo universal); já nos direitos pessoais credor e devedor são conhecidos
Objeto: o objeto dos direitos reais diz respeito à sujeição da coisa ao respectivo titular, como o que acontece, por exemplo, com a propriedade, o usufruto e as servidões, e quase que invariavelmente diz respeito a coisas corpóreas; já os direitos pessoais são marcados pelas obrigações de dar, fazer e não fazer, as quais dizem respeito a coisas corpóreas e incorpóreas
Garantia: os direitos reais por vezes se prestam a concretizar um dos sistemas especiais de garantia, as reais (penhor, hipoteca e anticrese); já nos direitos pessoais detém o credor a garantia genérica de cumprimento da obrigação, quer dizer, o patrimônio ativo do devedor (dívidas quirografárias)
C-) CARACTERÍSTICAS DOS DIREITOS REAIS:
	- Oponibilidade erga omnes: corrobora a idéia de sujeito passivo universal, já que pode ser invocado contra qualquer pessoa; exs.: preferência na locação cujo contrato foi averbado junto ao CRI, exercício do direito de propriedade, utilização da servidão
	- Direito de seqüela: prerrogativa atribuída ao titular consistente em reivindicar a coisa de quem quer que a detenha; exs.: proprietário esbulhado em sua posse, instituição financeira que empreende busca e apreensão do veículo alienado
	- Objeto: bens corpóreos ou incorpóreos, conceitualmente falando, mas na imensa maioria dos casos o objeto é tangível, podendo-se apenas pontuar os direitos reais cujo objeto é intangível, como o que sói ocorrer, exemplificativamente, com o penhor de direitos e a titularidade de linha telefônica
	- Numerus clausus: o rol é taxativamente definido pela lei (1.225), a cuja enumeração só se deve acrescentar a posse, também prevista pelo CC (1.196 e ss.); desse modo, não podem as partes, via contrato, criarem outros direitos reais a par dos já existentes, diferentemente do que acontece com os contratos, no direito obrigacional, que podem ser tanto nominados quanto inominados (425)
	- Passíveis de serem achados e abandonados: corolário de serem constituídos geralmente por coisas corpóreas; exs.: ocupar um imóvel, achar um bem móvel, descobrir um tesouro
	- Passíveis de prescrição aquisitiva: possibilidade de atribuição da propriedade decorrente da posse prolongada no tempo, aliada a outros requisitos, conforme o caso (usucapião)
	Pode-se adquirir servidão também, e não exatamente propriedade, através da usucapião
	- Passíveis de posse: o possuidor age como se dono fosse em relação a coisas corpóreas, se bem que seja igualmente cogitável falar-se em posse de direitos pessoais, como se verá adiante
22/02/13
A-) POSSE:
	- Talvez seja um dos conceitos mais tormentosos do DC, pelo que se faz necessária uma pequena digressão histórica acerca do assunto
	Nesse sentido, tradicionalmente são apresentadas as duas principais teorias a respeito do tema, que são de Savigny e Ihering, como se as mesmas formassem um contraponto perfeito uma em relação à outra, mas não é bem assim
	Na verdade, é preciso, historicamente falando, dar um passo atrás relativamente às duas doutrinas, bem como um passo adiante, a fim de se obter um quadro mais completo
	- O passo atrás: os romanos encaravam a posse de uma maneira bem simples, quer dizer, deveria estar presente a idéia de contato físico entre o possuidor e a coisa (elemento material)
	Por outras palavras, tratava-se de mero estado de fato, pelo que, se não se exercesse ostensivamente a condição de possuidor, não haveria se falar em posse
	E, a par desse elemento material, cumpriria existir também um elemento psíquico, qual seja, um liame psicológico pelo qual o possuidor havia a coisa para si, como se dono fosse, independentemente de ser ou não proprietário da mesma; noutros termos, o possuidor agia parecendo ser o dono
	Bem por isso já dizia o Digesto que “et adipiscimur possessionem corpore et animo: neque per se animo aut per se corpore” (e a posse é vislumbrada pelo corpo e pelo sopro: nem só pelo sopro ou só pelo corpo)
	OBS: Adipiscor: lit., alcançar com a mente; por ext., vislumbrar, conceber
	- Savigny: no começo do século XIX, retomou a concepção romana de posse, para dizer que a mesma é formada pelo corpus e pelo animus, designando, assim, seu fato exterior e seu fato interior
	Chamada de teoria subjetivista, porque contempla também o liame psicológico existente

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