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Transtorno afetivo bipolar MIRIAN PARENTE MONTEIRO QUÍMICA FARMACÊUTICA DEFA/FFOE • Transtorno Afetivo-bipolar caracterizado por dois ou mais episódios nos quais o humor e o nível de atividade do sujeito estão profundamente perturbados. • Em algumas ocasiões de uma elevação do humor e aumento da energia e da atividade (hipomania ou mania) e em outras, de um rebaixamento do humor e de redução da energia e da atividade (depressão). • Pacientes que sofrem somente de episódios repetidos de hipomania ou mania são classificados como bipolares. Características do transtorno afetivo bipolar. • A sequência, número e intensidade dos episódios maníacos e depressivos são altamente variáveis. • A causa das mudanças de humor do características do transorno afetivo bipolar é desconhecida, embora exista uma preponderância da atividade neuronal relacionada com as catecolaminas. • O transtorno bipolar tem um forte componente familiar e existe forte evidência de que seja geneticamente determinado. MANIA sem sintomas psicóticos Elevação do humor fora de proporção com a situação do sujeito, podendo variar de uma jovialidade descuidada a uma agitação praticamente incontrolável. Aumento da energia, levando à hiperatividade, um desejo de falar e uma redução da necessidade de sono. A atenção não pode ser mantida, e existe frequentemente uma grande distração. O sujeito apresenta frequentemente um aumento da autoestima com ideias de grandeza e superestimativa de suas capacidades. Perda das inibições sociais pode levar a condutas imprudentes, não razoáveis, inapropriadas ou deslocadas. MANIA com sintomas psicóticos • Presença, além do quadro clínico descrito acima, de ideias delirantes (em geral de grandeza) ou de alucinações (em geral do tipo de voz que fala diretamente ao sujeito) ou de agitação, de atividade motora excessiva e de fuga de ideias de uma gravidade tal que o sujeito se torna incompreensível ou inacessível a toda comunicação normal. TEORIAS QUE TENTAM EXPLICAR O DISTÚRBIO BIPOLAR A teoria catecolaminérgica, que sustenta existir uma deficiência de NE na fase depressiva e excesso de NE na fase maníaca (Bunney & Davis,1965; Schilkraudt,1965.) • Fármacos que aumentam essa atividade tendem a exarcebar a mania, enquanto aqueles que reduzem a atividade de dopamina ou norepinefrina aliviam os sintomas da mania. • Acetilcolina ou glutamato podem estar envolvidos. A hipótese do balanço adrenérgico – colinérgico, que sustenta haver um desequilíbrio na proporção relativa de NE e Ach. Haveria um aumento proporcional de NE na fase maníaca, e um aumento proporcional de Ach na fase depressiva (Janowsky et al. 1972) Teoria da alteração da atividade funcional dos complexos de receptores, que sustenta haver uma hiperatividade em nível de receptores variáveis com a fase da doença (Stahl & Palazidou,1986: Lipinski et al. 1987) TEORIAS QUE TENTAM EXPLICAR O DISTÚRBIO BIPOLAR SAIS DE LÍTIO • CITRATO; CLORETO E CARBONATO • Carbonato (Li2CO3) – mais utilizado, por ser mais estável e menos irritante ao intestino. • Aprovado pelo FDA para o tratamento da mania em 1970. • O lítio controla a mania aguda e previne sua recidiva em cerca de 80% dos portadores de transtorno bipolar; é eficiente no tratamento da depressão associada ao transtorno bipolar e como tratamento de manutenção para reduzir a frequência, gravidade e duração dos episódios maníacos e depressivos em pessoas com transtorno bipolar. Efeitos colaterais do lítio • O lítio possui ação sobre o metabolismo dos carboidratos. • EFEITOS NEUROLÓGICOS – fadiga, letargia e tremor de extremidades. GANHO DE PESO Efeitos colaterais do lítio • POLIÚRIA – consequência da ação do hormônio antidiurético. • O lítio interfere com a ação do hormônio estimulante da tireoide (TSH); • Diminui a liberação de T3 e T4 O lítio desacopla a vasopressina de seu receptor. O lítio desacopla TSH do receptor. Doses terapêuticas do Lítio • A dose de lítio necessária para manter um nível sérico terapêutico (0,5 a 1,2mEq/L) depende da idade, peso, medicações em uso e condições clinicas associadas. • O manejo de efeitos colaterais pode requerer o ajuste de dose em limites inferiores do nível terapêutico preconizado. • Em condições ideais, a dose inicial pode variar de 600 a 900mg/dia, dividida em duas ou três tomadas. • A dosagem sérica (litemia) deve ser medida sempre a partir do quinto dia do inicio do uso ou do ajuste de dose, tempo necessário para obtenção de steady-state. • O incremento de dose deve ser feito baseado na litemia até obtenção do nível terapêutico. Após atingido este nível, a litemia pode ser feita a cada dois ou três meses, se não houver intercorrências no período. Intoxicação por lítio • Níveis acima de 1,5mEq/L estão frequentemente relacionados a sinais clínicos de intoxicação, caracterizados por exacerbação dos efeitos colaterais comumente observados. • Acima de 2,0mEq/l as alterações podem ser graves, com risco de arritmias cardíacas, estados confusionais, ataxia, convulsão, rebaixamento do nível de consciência e coma. • O tratamento pode requerer hemodiálise se houver insuficiência renal com objetivo de acelerar a eliminação do lítio . • O risco de intoxicação aumenta com fatores que levem à desidratação, ao uso de medicamentos que alteram o nível sérico do lítio, e à tomada de maior quantidade de lítio que a prescrita . Intoxicação por lítio • Acontece gradualmente e são estabelecidos três níveis. 1º nível – sonolência, vômito, debilidade muscular, secura da boca, dor abdominal, letargia, vertigens, disartria e nistagmo. 2º nível – anorexia, náuseas persistentes e vômitos, visão turva, fasciculações musculares, movimentos clônicos, crises convulsivas, psicose, síncope e coma. 3º nível- convulsões generalizadas e mortes. Efeitos do lítio sobre eletrólitos e transporte iônico • Propriedades semelhantes ao sódio; • Substitui o Na+ na geração dos potenciais de ação. • Diminui a concentração intracelular de Na+. • Em concentrações terapêuticas(1mmol) não afeta a troca Na+/ Ca++, ou a bomba Na+ /K+ /ATPase. Efeitos do lítio sobre neurotransmissores • Parece intensificar algumas ações da serotonina; • Aumenta a liberação de 5-HT, especialmente no hipocampo; • Possui efeitos variáveis sobre a noradrenalina; • Pode alterar ligeiramente a recaptação e o armazenamento pré-sináptico das catecolaminas. • Inibe liberação de noradrenalina e dopamina dependente de Ca++ ; Efeitos do lítio sobre neurotransmissores • Parece bloquear o desenvolvimento da supersensibilidade dos receptores dopamínicos (tratamento prolongado com antipsicóticos); • Pode aumentar a síntese de acetilcolina, possivelmente por facilitar a captação de colina pelas terminações nervosas; • Aumenta a liberação de acetilcolina. Efeitos do lítio sobre os 2ºs mensageiros celulares • Estudos indicam que o lítio pode inibir a adenililciclase sensível a noradrenalina. • Possui ação sobre os fosfatos de inositol (inibe resposta celular mediada pelo cálcio). Efeitos do lítio sobre os 2ºs mensageiros celulares • O lítio atenua a atividade da adenilil ciclase, enzima ligada ao complexo Receptor/Proteína G. Dois estudos pós-mortem que avaliaram o córtex frontal e temporal, e dois estudos em plaquetas confirmaramum aumento da atividade da PKA em pacientes bipolares. Em conjunto, esses estudos consistentemente sugerem um aumento da atividade da via do AMPc-PKA em diversas regiões cerebrais nos indivíduos com desordem bipolar. Efeitos do lítio sobre os 2ºs mensageiros celulares AÇÃO SOBRE OS FOSFATOS DE INOSITOL • Lítio inibe a monofosfatase de inositol (IMPase) e outras importantes enzimas na reciclagem dos fosfoinositídeos de membrana. Enzimas afetadas pelo lítio em concentrações terapêuticas Enzima Função da enzima/ ação do lítio Inositol monofosfatase Enzima limitante da velocidade na reciclagem do inositol; inibida pelo lítio, resultando na depleção de substrato para produção de IP3 Inositol polifosfato 1-fosfatase Enzima que também atua na reciclagem do inositol; inibida pelo lítio, resultando na depleção de substrato para produção de IP3. Bifosfato nucleotidase Envolvida na produção de AMPc; inibida pelo lítio; pode ser alvo que resulta no diabetes insípido nefrogênico induzido pelo lítio. Enzimas afetadas pelo lítio em concentrações terapêuticas Enzima Função da enzima/ ação do lítio Frutose 1,6-bifosfatase Envolvida na gliconeogênese; a inibição pelo lítio é de relevância desconhecida. fosfoglicomutase Envolvida na glicogenólise; a inibição pelo lítio é de relevância desconhecida. Glicogênio sintase cinase-3 Enzima constitutivamente ativaque parece limitar processos neurotróficos e neuroprotetores; inibida pelo lítio. (Myristoylated alanine- rich C-kinase substrate) Diacilglicerol quinase Ácido fosfatídico As vias de IP3 e DAG estão aumentadas no episódio maníaco e passam a ser reduzidas por ação do lítio. Ação do lítio sobre a via de IP3 • Para conservar a eficiência da transmissão da via do IP3, a célula necessita manter uma oferta adequada de inositol para a re-síntese do PIP2. Uma vez que dificilmente o inositol atravessa a barreira hemato- encefálica, o aporte do inositol dá-se pela desfosforilação do IP3, através da reação catalisada pela enzima inositol monofosfatase (IMPase). Citidina difosfo -DAG Ciclo do fosfatidilinositol e inibição pelo lítio. Ação do lítio sobre GSK-3 • Estudos in vivo e in vitro, observaram que o lítio tem efeitos neuroprotetores e neurotróficos importantes através de vários mecanismos de ação • Um dos principais mecanismos de ação é a inibição da enzima glicogênio- sintetase - quinase-3-beta (GSK-3- beta), responsável pela síntese de glicogênio e fosforilação da proteína tau. • A proteína tau hiperfosforilada é um dos principais constituintes dos emaranhados neurofibrilares, que juntamente com as placas amilóides, são os constituintes anatomopatológicos da Doença de Alzheimer (DA). GLICOGÊNIO SINTASE CINASE -3 • GSK-3 é ativa em um grande número de vias de sinalizações intracelulares incluindo proliferação celular, migração, inflamação, respostas imunes, regulação da glicose e apoptose. • Exemplos: sinalização do fator de crescimento insulina-like; via de sinalização do fator neurotrófico derivado do cérebro(BDNF). EFEITOS DO LÍTIO SOBRE A GLICOGÊNIO SINTASE CINASE -3 • A inibição da GSK-3 pelo lítio resulta na redução da fosforilação da β-catenina, o que leva ao seu acúmulo e translocação para o núcleo. • No núcleo β-catenina facilita a transcrição de uma variedade de proteínas. • As vias que são facilitadas pelo acúmulo de β-catenina via inibição de GSK-3 modulam metabolismo de energia, fornece neuroproteção e aumenta a neuroplasticidade. • A β-catenina é extremamente relevante na estimulação da memória. • O tratamento a longo prazo com lítio também aumenta a expressão de fatores neurotróficos e neuroprotetores, principalmente cAMP related element binding protein (CREB), proteína bcl-2, MAP-quinases e fator neurotrófico derivado do cérebro (BDNF). Outros fármacos empregados no distúrbio afetivo bipolar ÁCIDO VALPRÓICO Exerce efeitos antimaníacos; A eficácia do ácido valpróico é equivalente a do lítio durante as primeiras semanas de tratamento; Eficaz em pacientes que não conseguem responder ao lítio; A ocorrência de náusea parece ser o único fator limitante do uso em alguns pacientes; Outros fármacos empregados no distúrbio afetivo bipolar ÁCIDO VALPRÓICO O ácido valpróico é reconhecido como tratamento de 1ª linha apropriado na mania; O uso do ácido valpróico como tratamento de manutenção em todos os sub-grupos de pacientes ainda não teve a eficácia comprovada. Outros fármacos empregados no distúrbio afetivo bipolar CARBAMAZEPINA Alternativa razoável quando o lítio não tem eficácia ótima; Pode ser usada na mania aguda e também na terapia profilática; Pode ser utilizada isoladamente ou, em pacientes refratários, associada ao lítio, ou raramente ao valproato. Como fármaco estabilizador do humor a carbamazepina não tem apresentado os efeitos adversos que apresenta como anticonvulsivante. Outros fármacos usados no tratamento do distúrbio afetivo bipolar • Lamotrigina – aprovada para a prevenção da recorrência . • Gabapentina, oxcarbazepina e topiramato são algumas vezes usados para tratar o transtorno bipolar mas não aprovados pelo FDA para essa indicação. • Aripiprazol, clorpromazina, olanzapina, quetiapina, risperido na, e ziprasidona são aprovados pelo FDA para tratamento da fase maníaca do transtorno bipolar. • Olanzapina associada a fluoxetina e quetiapina são aprovados para tratamento da depressão bipolar. • Distúrbios esquizoafetivos caracterizam-se por uma mistura de sintomas esquizofrênicos e alterações do afeto, na forma de depressão ou excitação. • Na fase de excitação, bem como na fase de manutenção, são utilizados fármacos antipsicóticos, isoladamente ou em associação ao lítio; a clozapina pode ser particularmente eficaz. • O lítio pode ser usado como adjuvante de antidepressivos tricíclicos e de inibidores seletivos de recaptação da serotonina em pacientes com depressão unipolar que não respondem bem à monoterapia com antidepressivo. • Para pacientes que têm sintomatologia psicótica como parte de sua depressão bipolar, existem recomendações para adicionar olanzapina, olanzapina-fluoxetina em combinação ou eletroconvulsoterapia. Referências • Transtornos do humor - Disponível em: http://www.icb.usp.br/farmaco/uploads/estabilizadores-do- humor-psico-2011-pdf4ec39e4e5236d.pdf • Ruggiero, GM., Rosa MA ., Mello, M F. Mecanismo de ação do lítio: o papel do fosfatidil inositol. Rev. Neuropsiq. da Infância e Adolescência 2(3) :34-41,1994. • Basic & Clinical Pharmacology, 14ª Edition McGraw-Hill Education.2015.