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Queiroz, R.S. & Otta, E. “A beleza em foco- condicionantes culturais e psicobiológicos na definição da estética corporal”, em O Corpo do Brasileiro- estudo de estética e beleza. São Paulo- Editora Senac São Paulo, 2000.

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de dialogar com o que quero pesquisar ao adentrar nas formações sociais mais complexas, que não tem nada de igualitárias. Nesse contexto, de desigualdade e extrema hierarquização dessa disparidade, o corpo é objeto de “adestramento”. Essa sujeição às normais especificas se faz necessário para que ele “adquira e expresse as características nele impressas pelos grupos hegemônicos e seus interesses de dominação” (p.32). É nessa conjuntura que pensamos as “disciplinas” tratadas por Foucault. Uma boa definição de disciplinas, que está no texto, é “métodos que, automatizam os movimentos, posturas, gestos, etc., permitem o minucioso controle das operações do corpo, não apenas para incrementar o seu rendimento, controlar a sujeição constante de suas forças, impondo-lhe uma relação de utilidade/docilidade, mas, sobretudo, para submetê-lo politicamente” (p.32). Os autores associam esse argumento ao filme Tempos Modernos de Chaplin e A classe operária vai ao paraíso, de Elio Petri. Os dois filmes falam sobre controle imposto ao corpo dos trabalhadores nas grandes indústrias e em como isso difere das possibilidades que esses corpos possuem; suas potencialidades.	Comment by flavia cunha da silva: Boa definição de disciplinas
 “Ainda a respeito das marcas e dos ornamentos corporais, Seeger assinala que as partes do corpo merecedoras de ornamentação mais elaborada são aquelas ligadas às faculdades socialmente mais valorizadas” (p.33). Associo isso imediatamente ao usos da tatuagem e como escolher determinados lugares do corpo para tatuar valorizam papeis de gênero e de posição social. Tatuar pescoço, nuca, pés e pulso se enquadram nas possibilidades de corpos femininos, enquanto costas e braços, corpos masculinos. “Culturas diferentes, prossegue Seeger, definem e enfatizam os significados de órgãos e suas faculdades de formas bem variadas, para concluir que os adornos e o simbolismo corporal não são aleatórios nem dissociados, mas compõem um sistema simbólico cujo estudo permite a compreensão de valores culturais relevantes” (p.34). Para ilustrar esse ponto, o autor usa o exemplo do uso de brincos por mulheres e como isso pode significar a sujeição desses corpos, pelo fato da orelha estar associada a obediência e submissão. Segundo Seeeger, nós damos muito valor ao sentido da visão e esse sentido desempenha um papel de controle social; “tendemos a considerar as noites e os lugares escuros como perigosos, castigamos nossos filhos colocando-os em quartos escuros, surpreendemo-nos com um crime “em plena luz do dia” (p.34). “Esse papel de controle social é desempenhado, em muitas situações, por técnicas de apavoramento, por meio das quais se submetem as pessoas às regras de conduta estabelecidas no interior de um grupo social” (p.34). Os autores citam um artigo de Duvignaud sobre espantalhos e como esse artificio “presta-se muito mais a transmitir determinadas mensagens aos próprios homens do que a afastar as pragas da lavoura. Uniformes militares, máscaras, certos ornamentos e padrões de pintura corporais aterrorizam as pessoas, fazendo com que se conformem a determinadas condutas prescritas pelos agentes do controle social, constituindo, portanto, autênticos espantalhos marcadores de interdições morais ou espaciais” (p.35).
 Nessa altura do texto, os autores retomam Mauss e voltam a fazer menção a “Técnicas corporais”, mas dessa vez, explicando o texto de uma forma mais completa. Apontam novamente que o corpo é o primeiro e mais natural instrumento humano. E que, tendo como evidencia a enorme quantidade e variedade de hábitos em relação ao próprio corpo de sociedade distintas, Mauss inicia seu trabalho ao definir as “técnicas corporais” como “séries de atos montados, e montados nos indivíduos não simplesmente por ele mesmo, mas por toda a sua educação, por toda a sociedade da qual ele faz parte, no lugar que ele nela ocupa. Segundo Mauss, uma técnica constitui um ato tradicional e eficaz, não havendo técnica nem sua transmissão por meio da educação, sem que haja tradição” (p.35). Não se trata de simples imitação, mas adestramento de corpos, transmissão de técnicas, adaptações do corpo a essas técnicas, “o que nos leva a concluir que o uso que dele fazemos nas mais diversas atividades não configura um desempenho simplesmente natural, espontâneo ou aleatório, mas em grande parte, um uso propriamente cultural. Nesses diferentes uso, prossegue Mauss, combinam-se elementos bio-psico-socioculturais (incluindo-se nesses últimos, aspectos religiosos rituais e morais), sem que os próprios agentes disso tenham consciência. Todavia, as técnicas do corpo são tão dependentes da convenção quanto os códigos jurídicos ou as regras de etiqueta” (p.36). É importante lembrar que essas técnicas variam de acordo com sexo, idade, disposição na hierarquia social, etc. No texto “O Tabu do Corpo”, de Rodriguez, o mesmo aponta para essas especificidades. Ele insiste na “concepção de que o corpo humano, a despeito de constituir um sistema biológico, é permanentemente afetado pela ocupação, religião, estruturas de classes, grupo familiar e outros fatores socioculturais, mesmo quando o uso que dele fazemos aparecem em nossa consciência como operações exclusivamente naturais” (p.36). A relação com o corpo parece ser menos consciente quando o esforço físico é maior, nesse sentido podemos inferir que as classes que menos usam o corpo (mais altas) e conferem ao mesmo um sistema de regras especifico, rígido e intenso (etiqueta, etc) são mais disciplinadas, no sentido em que Foucault utiliza o termo; existe mais controle e sujeição. Boltanski tem um estudo sobre até que ponto a condição econômica e a estrutura de classes impõem regras ao corpo. Podemos pensar instantaneamente na diferenciação de padrões de gordura corporal para as classes mais elevadas e as oprimidas.
 Concluindo essa parte, podemos considerar o corpo como “artefato cultural”, considerando a domesticação a que ele é submetido. Não podemos naturalizar as práticas corporais, por mais automáticas que elas nos pareçam. Geertz aponta uma coisa importante: a sincronia entre as fases da historia filogenética humana e a fase inicial da historia cultural. Isso quer dizer que “o corpo constitui um constructo bastante complexo, dada a dupla procedência, natural e cultural, das pressões seletivas que nos fizeram- biologicamente, inclusive- humanos. Tudo leva a crer que, tornando-se os nossos ancestrais dependentes da cultura para sobreviver, a seleção natural começou a favorecer genes para o comportamento cultural. Daí, a dificuldade em se traçar com nitidez uma linha entre o que é natural, universal e constante nos seres humanos, e o que é convencional, local e variável. De qualquer forma, somos biologicamente culturais, ou seja, o ser cultural do homem deve ser entendido como biológico”. (p.38)
- O corpo e suas expressões psicobiológicas
UNIVERSAIS NO JULGAMENTO ESTÉTICO
 “Em nosso julgamento estético, frequentemente reagimos a certos estímulos de forma automática e previsível. Embora haja grande diversidade quanto aos conceitos de beleza no variado universo das culturas, acredita-se que existam alguns padrões universais, como sugerem certas evidencias de similaridades interculturais no julgamento da beleza facial e corporal” (p.39).
BELEZA FACIAL & BELEZA CORPORAL
 Essa parte do texto não me interessa muito, portanto vou só apontar as coisas mais importantes em tópicos (algumas vezes citações):
- Características que aproximam a face adulta da de bebês são tidas como atraentes em mulheres e as simulações de sinais infantis podem reduzir ou reorientar agressividade. O emprego de tal recurso pode apaziguar o dominante/opressor. “O sorriso também emerge como um gesto micropolítico, prestando-se à redução de hostilidade e à manutenção de contato amistoso, podendo ser visto, pois, como parte de um ritual de apaziguamento” (p.39).
- Verbalizações e uso de diminutivo é mais típico de crianças e mulheres e tem o mesmo papel
- Parte mais “biológica- evolutiva” do