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Queiroz, R.S. & Otta, E. “A beleza em foco- condicionantes culturais e psicobiológicos na definição da estética corporal”, em O Corpo do Brasileiro- estudo de estética e beleza. São Paulo- Editora Senac São Paulo, 2000.

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texto. Analisa como os corpos mais desejáveis devem ser para seus parceiros heterossexuais, partindo do pressuposto de “escolha para procriação” retomando Geertz e a última consideração do outro tópico. Repetindo: “o corpo constitui um constructo bastante complexo, dada a dupla procedência, natural e cultural, das pressões seletivas que nos fizeram- biologicamente, inclusive- humanos. Tudo leva a crer que, tornando-se os nossos ancestrais dependentes da cultura para sobreviver, a seleção natural começou a favorecer genes para o comportamento cultural. Daí, a dificuldade em se traçar com nitidez uma linha entre o que é natural, universal e constante nos seres humanos, e o que é convencional, local e variável” (p.38).
- Morris: Seios femininos constituem um exemplo de automímica do corpo, imitando as nádegas; assim como os lábios vermelhos simulam a vagina
- Seios suscitam reações eróticas nos homens heterossexuais, mas não quando a mulher está amamentando. Os seios lhes são uteis quando ilustram a ideia de fêmea disponível para sexo (né).
- “À medida que a beleza assume tal importância para as mulheres, seria pertinente ressaltar que a insatisfação de uma mulher neste domínio pode ter impacto negativo sobe a sua autoestima. Sendo o corpo fundamental para atratividade feminina e como esta é elemento essencial da sua autoimagem, é possível prever que o peso e a satisfação com respeito a ele sejam determinantes para a satisfação integral da mulher. É comum que elas se vejam acima do peso, mesmo quando efetivamente tal percepção não corresponde à realidade. O número de mulheres que fazem regime para emagrecer é tão elevado que o padrão alimentar “normal” delas, em países ocidentais, poderia ser caracterizado como uma permanente dieta” (p.57).
- Considerações finais
 “Nas sociedades ocidentais modernas, estabelece-se uma identidade entre beleza corporal, inteligência e poder aquisitivo elevado. Dito de outro modo: a expectativa geral é que pessoas bonitas sejam capazes e bem sucedidas. (...) O grau de tolerância em relação às transgressões quotidianas é geralmente maior quando os transgressores melhor correspondem ao ideal de beleza estabelecido. Aquelas pessoas mais conscientes de sua própria beleza podem fazer uso deste atributo visando evitar ou atenuar sanções punitivas quando se comportam de forma reprovável. Até mesmo para os criminosos a atratividade física pode contribuir para atenuar a punição legal, garantindo-lhes penas mais brandas” (p.59). Os autores citam alguns artigos comprovando esse fato. Falam também sobre depreciação, no Brasil, de traços físicos de descendentes de africanos e “na medida em que há uma identificação entre beleza e riqueza, a miséria, conforme bem notou Oracy Nogueira, é menos surpreendente em negros do que em brancos” (p.61). “Até mesmo o estigma da obesidade parece estar associado à procedência racial (...) as brancas avaliaram mulheres corpulentas, sobretudo as próprias brancas, como tendo menor atratividade, inteligência, sucesso no trabalho, sucesso em relacionamentos, felicidade e popularidade que mulheres magras ou de peso médio. As negras, por sua vez, não se pautaram por tais critérios depreciativos, notadamente quando estavam avaliando mulheres corpulentas da sua mesma cor” (p.61).
 “Avaliando-se o que até aqui foi exposto, pode-se concluir que processos culturais são, em grande parte, os responsáveis pela definição de padrões estéticos e da própria beleza corporal. É obvio que, constituindo intervenções da cultura sobre o corpo e por condicionarem a percepção que dele se tem, esses padrões, bem como a concepção de beleza corporal, sofrem variações conforme os diferentes contextos culturais que se sucedem ou coexistem no tempo e no espaço. Por outro lado, numerosas manifestações, algumas das quais foram consideradas neste capitulo, apontam para a indiscutível atuação[o de condicionantes psicobiológicos universais, seja na apreciação estética relativa ao corpo, seja no estabelecimento de critérios de atratividade, já que expressam respostas adaptativas selecionadas em nosso passado evolucionário. A existência humana, em todos os seus aspectos, configura-se, pois, como manifestação de modos de agir, pensar e sentir concebidos no ventre fecundo da nossa condição naturalmente cultural” (p.62).