Prévia do material em texto
CAPÍTULO 12. Interpretação Eletrocardiográfica das Anormalidades do Músculo Cardíaco e do Fluxo Sanguíneo Coronariano: Análise Vetorial. Sobre a transmissão do impulso pelo coração, é óbvio que qualquer variação desse padrão de transmissão pode causar potenciais elétricos anormais em volta do coração e consequentemente alterar os formatos das ondas no eletrocardiograma. Por essa razão, muitas anormalidades sérias do músculo cardíaco podem ser diagnosticadas pela análise dos contornos das ondas, nas diferentes derivações eletrocardiográficas. Princípios de Análise Vetorial de Eletrocardiogramas (p. 137) É Possível Utilizar Vetores para Representar Potenciais Elétricos Vários princípios são utilizados na análise vetorial de potenciais elétricos: • No coração, a corrente flui a partir da área de despolarização para as áreas polarizadas, e o potencial elétrico gerado pode ser representado por um vetor, com a cabeça da seta apontando na direção positiva. • O comprimento do vetor é proporcional à voltagem do potencial. • O potencial gerado em qualquer circunstância pode ser representado por um vetor instantâneo médio. • Quando o vetor é horizontal e aponta para o lado esquerdo do indivíduo, o eixo é definido como sendo de zero grau (0°). • Se um vetor aponta diretamente para baixo, a direção do eixo é +90º. • Se um vetor aponta horizontalmente para o lado direito do indivíduo, o eixo possui direção de +180º. • Se um vetor aponta diretamente para cima, o eixo apresenta direção de −90º ou +270º. • O eixo da derivação I é zero grau (0°), pois os eletrodos repousam na direção de cada um dos braços. • O eixo da derivação II é +60º, porque o braço direito se conecta ao torso no limite superior direito, e a perna esquerda se conecta ao torso no limite inferior esquerdo. • O eixo da derivação III é 120º. • Quando o vetor que representa o fluxo de corrente médio direto no coração é perpendicular ao eixo de uma das derivações bipolares dos membros, a voltagem registrada no eletrocardiograma nessa derivação é consideravelmente baixa. • Quando o vetor apresenta quase a mesma direção do eixo de uma das derivações bipolares dos membros, aproximadamente toda a voltagem é registrada nessa derivação. O Eletrocardiograma Normal Representa os Vetores Observados Durante as Alterações de Potencial Elétrico no Ciclo Cardíaco • O complexo QRS representa a despolarização ventricular, que se inicia no septo ventricular e continua em direção ao ápice do coração, com uma direção média de 59º. • A onda T ventricular representa a repolarização ventricular, que começa perto do ápice do coração e continua em direção à base. Como o músculo cardíaco na região próxima ao ápice se torna eletropositivo depois de sofrer repolarização, enquanto o músculo na região próxima à base permanece eletronegativo, o vetor da onda T apresenta direção similar àquela da onda QRS. • A onda P atrial representa a despolarização dos átrios que começa no nodo sinusal e se espalha em todas as direções, embora o vetor médio aponte na direção do nodo atrioventricular (A-V). Vários Fatores Deslocam o Eixo Elétrico Médio dos Ventrículos para a Esquerda (Sentido Anti-horário) • Alterações na posição do coração, como as que ocorrem durante a expiração ou quando o indivíduo está deitado e os conteúdos abdominais são pressionados para cima, contra o diafragma. • Acúmulo de gordura abdominal, que também é pressionada para cima, contra o diafragma. • Bloqueio do ramo de feixes à esquerda, que ocorre quando o impulso cardíaco se espalha através do ventrículo direito 2-3 vezes mais rápido que no ventrículo esquerdo. Consequentemente, o ventrículo esquerdo permanece polarizado por muito mais tempo do que o ventrículo direito, e um forte vetor elétrico aponta a partir do ventrículo direito para o esquerdo. • Hipertrofia do ventrículo esquerdo, causada por hipertensão, estenose valvular aórtica ou regurgitação valvular aórtica. Um exemplo de desvio do eixo esquerdo causado por hipertensão, com os efeitos resultantes sobre a hipertrofia ventricular esquerda do eletrocardiograma, é mostrado na Figura 12-12. Observe que os vetores das derivações I e III foram plotados nessa figura, e que uma linha pontilhada vertical se estende a partir das extremidades desses vetores. O vetor resultante é traçado a partir da origem da intersecção entre as duas linhas pontilhadas, e representa o eixo elétrico médio nessa condição. Vários Fatores Deslocam o Eixo Elétrico Médio dos Ventrículos para a Direita (Sentido Horário) • Inspiração. • Ortostasia (ficar em pé). • Ausência de gordura abdominal, permitindo que o coração gire em sentido horário comparativamente ao indivíduo normal. • Bloqueio do ramo de feixes à direita. • Hipertrofia ventricular direita. Condições que Geram Voltagem Anormal do Complexo QRS (p. 145) A Hipertrofia do Coração Aumenta a Voltagem do Complexo QRS. Quando a soma das voltagens das ondas QRS provenientes das três derivações de membro padrão é maior do que 4 mV, considera-se que existe um eletrocardiograma de alta voltagem. A causa mais comum de complexos QRS de alta voltagem é a hipertrofia ventricular direita ou esquerda. As Condições Descritas a Seguir Reduzem a Voltagem do Complexo QRS • Corações que passaram por episódios de infarto do miocárdio há algum tempo e sofreram consequente diminuição da massa muscular cardíaca. Essa condição também retarda a onda de condução através do coração e diminui a quantidade de músculo que é despolarizada de uma vez só. Portanto, como resultado há diminuição da voltagem de QRS e prolongamento do complexo QRS. • Condições em torno do coração que efetivamente causam “curto-circuito” no potencial elétrico cardíaco. O líquido existente no pericárdio e a efusão pleural conduzem, ambos, correntes oriundas das áreas situadas ao redor do coração e evitam que uma parte significativa da voltagem atinja a superfície corporal. O enfisema pulmonar também reduz a condução dos potenciais cardíacos, porque o volume excessivo de ar contido nos pulmões isola o coração. Um Complexo QRS Prolongado é Causado pelas Seguintes Condições • A causa mais comum de um complexo QRS estendido é a condução prolongada através dos ventrículos. Essa condução ocorre tanto em corações hipertrofiados como em corações dilatados, e aumenta a duração das ondas QRS em cerca de 0,02-0,05 segundo. Uma onda QRS prolongada decorrente de hipertrofia ventricular esquerda é representada na Figura 12-12. • O bloqueio dos impulsos no sistema de Purkinje prolonga o complexo QRS porque a duração da despolarização ventricular aumenta em um ou ambos os ventrículos. Corrente de Lesão (p. 146) Várias anormalidades fazem com que uma parte do coração permaneça despolarizada o tempo todo. A corrente que flui a partir dessas áreas despolarizadas para as áreas polarizadas do coração é denominada corrente de lesão. Algumas das anormalidades que podem gerar uma corrente de lesão são: • Trauma mecânico. • Processos infecciosos que danificam a membrana do músculo cardíaco. • Isquemia coronariana. O Eixo da Corrente de Lesão Pode Ser Determinado pelo Eletrocardiograma. Quando uma parte do coração é lesada e emite uma corrente de lesão, o único momento em que o coração volta a ter potencial zero é ao final da onda QRS. É nesse momento que o coração está inteiramente despolarizado (Figura 9-1). O eixo da corrente de lesão é determinado do seguinte modo: 1. Primeiramente, determina-se o ponto J, que é ponto de potencial zero no final da onda QRS. 2. Determina-se o nível do segmento T-P em relação ao ponto J das três derivações padrão. 3. Por fim, as voltagens são plotadas sobre as coordenadas das trêsderivações para determinar o eixo da corrente de lesão. Observe que a extremidade negativa do vetor se origina na área lesada dos ventrículos. Infartos Agudos Afetando as Paredes Anterior e Posterior Podem Ser Diagnosticados pelo Eletrocardiograma. A corrente de lesão também é útil para determinar se um infarto está localizado na parede anterior ou posterior do coração. Um potencial de lesão negativo encontrado em uma das derivações precordiais indica que o eletrodo está em uma área com forte potencial negativo e também aponta a origem da corrente de lesão na parede anterior dos ventrículos. Em contraste, um segmento T-P positivo em relação ao ponto J indica a existência de um infarto na parede ventricular posterior. Anormalidades na Onda T (p. 150) Normalmente, o ápice do ventrículo repolariza antes da base, enquanto a onda T resultante possui um eixo elétrico médio similar àquele da onda QRS. Várias condições alteram o eixo elétrico da onda T: • Durante o bloqueio do ramo de feixes, um dos ventrículos se despolariza antes do outro. O primeiro ventrículo a se despolarizar é também o primeiro a se repolarizar. Isso provoca um desvio de eixo na onda T. Dessa forma, um bloqueio do ramo de feixes à esquerda causa um desvio de eixo para a direita na onda T. Durante o encurtamento da despolarização da base do coração, a base se repolariza antes do ápice, que inverte a onda T. A causa mais comum de despolarização encurtada é a isquêmica branda do músculo cardíaco na base dos ventrículos. Referências Tratado de Fisiologia Médica/John E. Hall. 12. ed.-Rio de Janeiro:Elsevier,2011. Fundamentos de Guyton e Hall Fisiologia/John E. Hall Rio de Janeiro: Elsevier,2012.