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DIDÁTICA PROFESSORA Me. Ionah Beatriz Beraldo Mateus DIDÁTICA 2 C397 CENTRO UNIVERSITÁRIO DE MARINGÁ. Núcleo de Educação a Distância; MATEUS, Ionah Beatriz Beraldo. Didática. Ionah Beatriz Beraldo Mateus Maringá - PR, 2016. 160 p. “Graduação em Design - EaD”. 1. Didática. 2. Formação de docentes . 3. Processo de ensino. 4. EaD. I. Título. ISBN 978-85-8084-374-3 CDD - 22 ed. 370 CIP - NBR 12899 - AACR/2 NEAD Núcleo de Educação a Distância Av. Guedner, 1610, Bloco 4 Jd. Aclimação - Cep 87050-900 Maringá - Paraná www.unicesumar.edu.br | 0800 600 6360 DIREÇÃO UNICESUMAR Reitor Wilson de Matos Silva, Vice-Reitor Wilson de Matos Silva Filho, Pró-Reitor de Administração Wilson de Matos Silva Filho, Pró-Reitor de EAD Willian Victor Kendrick de Matos Silva, Presidente da Mantenedora Cláudio Ferdinandi. NEAD - NÚCLEO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Diretoria Operacional de Ensino Kátia Coelho, Diretoria de Planejamento de Ensino Fabrício Lazilha, Direção de Operações Chrystiano Mincoff, Direção de Mercado Hilton Pereira, Direção de Polos Próprios James Prestes, Direção de Desenvolvimento Dayane Almeida, Direção de Relacionamento Alessandra Baron, Head de Produção de Conteúdos Rodolfo Encinas de Encarnação Pinelli, Gerência de Produção de Conteúdo Gabriel Araújo, Supervisão do Núcleo de Produção de Materiais Nádila de Almeida Toledo, Supervisão de Projetos Especiais Daniel F. Hey, Coordenador(a) de conteúdo Priscilla Campiolo Manesco Paixão, Projeto Gráfico José Jhonny Coelho, Editoração Humberto Garcia da Silva, Designer Educacional Rossana Costa Giani, Revisão Textual Jaquelina Kutsunugi, Simone Limonta, Ilustração Rafael Szpaki Sangueza, Fotos Shutterstock e Istockphoto. Viver e trabalhar em uma sociedade global é um grande desafio para todos os cidadãos. A busca por tecnologia, informação, conhecimento de qualidade, novas hab- ilidades para liderança e solução de problemas com eficiência tornou-se uma questão de sobrevivência no mundo do trabalho. Cada um de nós tem uma grande responsabilidade: as escolhas que fizermos por nós e pelos nossos fará grande diferença no futuro. Com essa visão, o Centro Universitário Cesumar as- sume o compromisso de democratizar o conhecimento por meio de alta tecnologia e contribuir para o futuro dos brasileiros. No cumprimento de sua missão – “promover a ed- ucação de qualidade nas diferentes áreas do conhe- cimento, formando profissionais cidadãos que con- tribuam para o desenvolvimento de uma sociedade justa e solidária” –, o Centro Universitário Cesumar busca a integração do ensino-pesquisa-extensão com as demandas institucionais e sociais; a realização de uma prática acadêmica que contribua para o desen- volvimento da consciência social e política e, por fim, a democratização do conhecimento acadêmico com a articulação e a integração com a sociedade. Diante disso, o Centro Universitário Cesumar almeja ser reconhecida como uma instituição universitária de referência regional e nacional pela qualidade e compromisso do corpo docente; aquisição de com- petências institucionais para o desenvolvimento de linhas de pesquisa; consolidação da extensão uni- versitária; qualidade da oferta dos ensinos presencial e a distância; bem-estar e satisfação da comunidade interna; qualidade da gestão acadêmica e adminis- trativa; compromisso social de inclusão; processos de cooperação e parceria com o mundo do trabalho, como também pelo compromisso e relacionamento permanente com os egressos, incentivando a educação continuada. Wilson Matos da Silva Reitor da Unicesumar boas-vindas Prezado(a) Acadêmico(a), bem-vindo(a) à Comuni- dade do Conhecimento. Essa é a característica principal pela qual a Unicesumar tem sido conhecida pelos nossos alunos, professores e pela nossa sociedade. Porém, é importante destacar aqui que não estamos falando mais daquele conhe- cimento estático, repetitivo, local e elitizado, mas de um conhecimento dinâmico, renovável em minutos, atemporal, global, democratizado, transformado pelas tecnologias digitais e virtuais. De fato, as tecnologias de informação e comunicação têm nos aproximado cada vez mais de pessoas, lugares, informações, da educação por meio da conectividade via internet, do acesso wireless em diferentes lugares e da mobilidade dos celulares. As redes sociais, os sites, blogs e os tablets aceleraram a informação e a produção do conhecimento, que não reconhece mais fuso horário e atravessa oceanos em segundos. A apropriação dessa nova forma de conhecer transfor- mou-se hoje em um dos principais fatores de agregação de valor, de superação das desigualdades, propagação de trabalho qualificado e de bem-estar. Logo, como agente social, convido você a saber cada vez mais, a conhecer, entender, selecionar e usar a tecnologia que temos e que está disponível. Da mesma forma que a imprensa de Gutenberg modi- ficou toda uma cultura e forma de conhecer, as tecno- logias atuais e suas novas ferramentas, equipamentos e aplicações estão mudando a nossa cultura e transfor- mando a todos nós. Então, priorizar o conhecimento hoje, por meio da Educação a Distância (EAD), sig- nifica possibilitar o contato com ambientes cativantes, ricos em informações e interatividade. É um processo desafiador, que ao mesmo tempo abrirá as portas para melhores oportunidades. Como já disse Sócrates, “a vida sem desafios não vale a pena ser vivida”. É isso que a EAD da Unicesumar se propõe a fazer. Willian V. K. de Matos Silva Pró-Reitor da Unicesumar EaD Seja bem-vindo(a), caro(a) acadêmico(a)! Você está iniciando um processo de transformação, pois quando investimos em nossa formação, seja ela pessoal ou profissional, nos transformamos e, consequentemente, transformamos também a sociedade na qual estamos inseridos. De que forma o fazemos? Criando opor- tunidades e/ou estabelecendo mudanças capazes de alcançar um nível de desenvolvimento compatível com os desafios que surgem no mundo contemporâneo. O Centro Universitário Cesumar mediante o Núcleo de Educação a Distância, o(a) acompanhará duran- te todo este processo, pois conforme Freire (1996): “Os homens se educam juntos, na transformação do mundo”. Os materiais produzidos oferecem linguagem dialógi- ca e encontram-se integrados à proposta pedagógica, contribuindo no processo educacional, complemen- tando sua formação profissional, desenvolvendo com- petências e habilidades, e aplicando conceitos teóricos Kátia Solange Coelho Diretoria Operacional de Ensino Fabrício Lazilha Diretoria de Planejamento de Ensino em situação de realidade, de maneira a inseri-lo no mercado de trabalho. Ou seja, estes materiais têm como principal objetivo “provocar uma aproximação entre você e o conteúdo”, desta forma possibilita o desenvolvimento da autonomia em busca dos conhe- cimentos necessários para a sua formação pessoal e profissional. Portanto, nossa distância nesse processo de cresci- mento e construção do conhecimento deve ser apenas geográfica. Utilize os diversos recursos pedagógicos que o Centro Universitário Cesumar lhe possibilita. Ou seja, acesse regularmente o AVA – Ambiente Vir- tual de Aprendizagem, interaja nos fóruns e enquetes, assista às aulas ao vivo e participe das discussões. Além disso, lembre-se que existe uma equipe de professores e tutores que se encontra disponível para sanar suas dúvidas e auxiliá-lo(a) em seu processo de aprendi- zagem, possibilitando-lhe trilhar com tranquilidade e segurança sua trajetória acadêmica. boas-vindas autora Professora Mestre Ionah Beatriz Beraldo Mateus Pedagoga pela Universidade Estadual de Maringá (2002). Especialização em Teoria Histórico Cultural - área de concentração: Educação e Psicologia (2006). Mestre em Educação pela Universidade Estadual de Maringá(2008).Atualmente é professora da Universidade Estadual de Guarapuava- UNICENTRO. Desenvolve projetos na área de formação de professores. apresentação do material DIDÁTICA Ionah Beatriz Beraldo Seja bem-vindo! Caro(a) aluno(a), é com muito carinho que lhe apresento algumas das minhas reflexões por meio deste livro. Espero que esta leitura seja, para você, um convite para novas discussões, a novos pontos de vista e posicionamentos, diante desta disciplina tão primordial na formação docente, que é a Didática. Atualmente, foi atribuído à didática, muitos objetivos e significados. Você, cer- tamente, já ouviu alguns comentários sobre professores que sabem muito de sua matéria, mas que não têm “didática” para ensinar. Neste caso, o que está sendo dito é que o referido professor não conhece técnicas ou práticas de ensino eficazes para facilitar o aprendizado de seus alunos. Mas, será que a didática é só isto? De acordo com os conhecimentos de senso comum, sim... Vejamos uma das definições encontradas em um site de pesquisa bastante utilizado por acadêmicos (Wikipé- dia): “A didática é arte ou técnica de ensinar. É a parte da pedagogia que se ocupa dos métodos e técnicas de ensino, destinados a colocar em prática as diretrizes da teoria pedagógica”. Felizmente, alguns autores, como Libâneo (2008, p. 16), pensam diferente: Sendo a Didática uma disciplina que estuda os objetivos, os conteúdos, os meios e as condições do processo de ensino tendo em vista finalidades educacionais, que são sempre sociais, ela se fundamenta na Pedagogia: é, assim, uma disciplina pedagógica. Sabedores que a pedagogia investiga a natureza das finalidades da educação como processo social, a didática coloca-se para assegurar o fazer pe- dagógico na escola, na sua dimensão político, social e técnica, afirmando daí o caráter essencialmente pedagógico desta disciplina. “Define-se assim a didática: como mediação escolar entre objetivos e conteúdos do ensino”. Gosto de pensar na didática com o mesmo olhar de Libâneo. Ele nos deixa claro que ela não é um conjunto de técnicas ou receitas prontas que parecem fazer parte de uma máquina de ensinar. A didática é humana e como tal, está inserida em um contexto histórico permeado por necessidades e contradições políticas, sociais, econômicas e éticas. É uma disciplina “viva”, em constante transformação, que acompanha as necessidades de nossas escolas, professores e alunos. Ela desempe- nha um papel primordial na educação: a didática procura integrar a relação entre professor, aluno e o conhecimento. Sendo assim, as mudanças ocorridas na sociedade, ao longo da história, afetaram e modificaram os objetivos da educação e, consequentemente, de nossa disciplina. Por isso acredito que o professor necessita de novos instrumentos, teóricos e práticos, que lhe auxiliem no trabalho docente e na criação de uma didática pessoal. Afinal, é essa didática “particular” que oferece condições para um ensino contextualizado e capaz de responder às necessidades específicas de uma turma, escola, ou bairro. Esse livro foi organizado e escrito com esse intuito, ou seja, oferecer a você, caro(a) aluno(a), material e informações capazes de instrumentalizar a sua didática pessoal. Para isso, organizamos em cinco unidades os temas mais relevantes da Didática. Na primeira unidade, entenderemos melhor o conceito de Didática, o contexto atual dessa disciplina e a sua importância para a formação docente. Na segunda unidade, você conhecerá as transformações históricas ocorridas na disciplina. Será possível observar como o ensino e seus objetivos mudaram com o tempo e quais as contribuições da didática nas diferentes concepções de escola. Na terceira unidade, trataremos da didática atual. Conheceremos seus desafios e a possibilidade de construirmos um ensino significativo, competente e real. Para isso, nos fundamentaremos na Pedagogia histórico-crítica. Para a quarta unidade, reservei um conteúdo bastante polêmico entre nós docentes: o planejamento. Discutiremos questões reais, como: para que serve um planeja- mento? Como organizar um planejamento capaz de ser colocado em prática? O planejamento deve ser seguido à risca sempre? Já para a quinta e última unidade, reservei um espaço especial para a avaliação. Esse tema tem sido destaque nos principais debates educacionais e obviamente você não poderia ficar fora dele, não é mesmo? Então, aproveite sua leitura, reflita e anote suas dúvidas. Faça todos os exercícios propostos em seu material didático e se comprometa com sua formação acadêmica. Para isso, basta seguir em frente! Boa leitura e ótimos estudos para você. Atenciosamente, Prof.ª Ionah Beatriz Beraldo UNIDADE I A PEDAGOGIA, A DIDÁTICA E A FORMAÇÃO DOCENTE 14 A Didática em seus Campos de Atuação 20 A Didática e os Processos de Ensino 24 A Didática como Facilitadora da Aprendizagem UNIDADE II A DIDÁTICA EM DIFERENTES TEMPOS HISTÓRICOS 44 A Didática Tradicional 48 A Didática da Escola Nova 54 A Didática Tecnicista UNIDADE III A DIDÁTICA ATUAL E REAL 70 A Produção do Conhecimento e os Novos Modelos Didáticos 72 A Produção do Conhecimento 75 Abordagem Sistêmica 77 Abordagem Progressista 82 O Ensino com Pesquisa 92 Didática Histórico-Crítica UNIDADE IV O PLANEJAMENTO ESCOLAR 104 Ressignificando as Aulas 110 A Importância do Planejamento 116 Os Principais Tipos de Planejamento 117 O Plano Escolar 119 O Plano de Ensino 122 Plano de Aula UNIDADE V AVALIAÇÃO ESCOLAR 136 Definindo a Avaliação Escolar 145 Características da Avaliação Escolar 158 Conclusão Geral sumário A PEDAGOGIA, A DIDÁTICA E A FORMAÇÃO DOCENTE Professora Me. Ionah Beatriz Beraldo Mateus Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: • A didática em seus campos de atuação • A didática e os processos de ensino • A didática como facilitadora da aprendizagem Objetivos de Aprendizagem • Conceituar a Pedagogia e sua implicação com a educação. • Verificar os campos de atuação da Didática. • Analisar os processos de ensino e aprendizagem. unidade I INTRODUÇÃO 12 A educação, ou prática educativa, é um fenômeno social e universal. Por meio dela, garantimos, às gerações futuras, o acesso aos conhecimentos historicamente construídos pela humanidade. Esses conhecimentos são transformados com o passar dos tempos e de acordo com as necessidades culturais, sociais, políticas e econômicas de cada nação. Sendo assim, cabe ao professor, além do ato específico de ensinar, conhecer as necessidades históricas de seu tempo para adequar os conteúdos e temas a essa realidade. A Didática, sendo uma área do conhecimento pedagógico, se respon- sabiliza em oferecer a professores e alunos os instrumentos necessários para a efetivação do ensino e da aprendizagem. No entanto, como veremos no decorrer desta unidade, o ensino e a aprendi- zagem não são conceitos deslocados do mundo da criança ou do professor. Ao contrário, eles carregam consigo posicionamentos políticos, experiências sociais, ideologias, opiniões etc. Vê-se, com isso, que a responsabilidade da escola e dos professores é muito grande, pois lhes cabe escolher uma concepção de ensino que permita o domínio dos conhecimentos e a capacidade de raciocínio, necessária à compreensão da re- alidade social e à prática profissional de seus alunos. Graças aos ramos de estudo da Pedagogia, essa não é uma tarefa que o professor deva realizar sozinho. Ele pode servir-se do conhecimento de várias áreas como a Filosofia, a Sociologia, a Psicologia, a História, os Fundamentos da Educação e também da Didática. Sendo assim, nossa primeira tarefa, nesta unidade, será conhecer a Didá- tica e seus campos de atuação. Isso quer dizer que analisaremos nossa disci- plina como um ramo de estudo da Pedagogia que busca respostasteóricas e práticas para orientar a ação educativa da escola. A partir dessas definições, podemos, então, compreender o objeto de estudo da Didática: os processos de ensino e aprendizagem. Para isso, é fundamental situarmos essa área do conhecimento em seu contexto, ou seja, na formação docente e na formação humana. E então, você está preparado? Ótimo! Vamos começar... 13 DIDÁTICA 14 Vamos iniciar nossos estudos de Didática compreendendo o seu objeto de estudo e seus campos de atuação. A didática é o ramo dos conhecimentos pedagógicos que estuda os processos de ensino e aprendizagem. No entanto, esses processos não podem ser tratados como atividade específica da escola, afinal, aprende-se e muito fora do espaço escolar. O trabalho docente é uma das modalidades de ensino que ocorrem na prática educativa. Mas, existem muitas outras práti- cas que não podem ser ignoradas e que fazem parte dos conhecimentos de vida e de sociedade de nossos alunos. De acordo com Libâneo (2008, p. 16), “a ciência que investiga a teoria e a prática da educação nos seus vínculos com a prática social e global é a Pe- dagogia”. A Didática é uma disciplina que estuda os objetivos, os conteúdos, as formas e os processos de ensino, tendo em vista as finalidades educacionais. Como essas finalidades educativas são sempre so- ciais, a Didática se fundamenta na Pedagogia para encontrar seu contexto de atuação. Dessa forma, quando estudamos a educação em seus aspectos políticos, sociais, econômicos, psico- lógicos e tentamos descrever ou explicar o fenôme- no educativo, a pedagogia conta com o auxílio de outras áreas (História, Fundamentos da Educação, Prática de Ensino e outras). Esses estudos acabam convergindo na Didática em si e assim, essa área da educação acaba reunindo em seu campo de co- nhecimento os objetivos e ações pedagógicas. Além disso, a didática compreende que a educação pro- priamente dita, não acontece apenas na instituição escola. Ela ocorre também em diversas instituições e atividades humanas, como: na família, no trabalho, nas Igrejas, nas organizações políticas, nos meios de comunicação de massa e outras. Ao englobarmos todos esses estudos e institui- ções é que compreendemos a extensão da área de atuação da Didática. Mas, toda essa área de atuação A Didática em seus Campos de Atuação EDUCAÇÃO FÍSICA 15 precisa estar focada em um objetivo. Chamaremos, então, este objetivo de objeto de estudo. Dessa ma- neira, podemos compreender que o objeto de estu- do dessa ciência é o ensino, em todos os seus pro- cessos e amplitudes. E sendo assim, Libâneo (2008, p.16) salienta que a atividade principal do professor é sempre o ensino. Essa tarefa consiste ainda em orientar, organizar e estimular a aprendizagem es- colar dos alunos. Fizemos essas considerações para mostrar que a educação é formada de múltiplos aspectos, como: a vida cotidiana, as relações entre professores e alu- nos, o trabalho docente etc. Esses aspectos estão carregados de significados sociais que se constituem na dinâmica das relações humanas entre classes, grupos, entre adultos e crianças, jovens e idosos, homens e mulheres. Isso significa que são os seres humanos que, por meio de suas diferentes relações com o mundo, dão significado às coisas, às ideias, às ideologias e opiniões. A compreensão desse fato é fundamental para organização e encaminhamento da prática educativa. Para Libâneo (2008, p. 22), Quem lida com a educação tendo em vista a formação humana dos indivíduos vivendo em contextos sociais determinados, é imprescindí- vel que se desenvolva a capacidade de descobrir as relações sociais reais implicadas em cada acontecimento, em cada situação real da sua vida e da sua profissão, em cada matéria que ensina, como também nos discursos, nos meios de comunicação, nas relações cotidianas, na fa- mília e no trabalho. Mais uma vez, concordamos com nosso autor. E arrisco um pouco mais. Nossa capacidade de descobrir as relações reais implicadas dentro das diferentes instituições é desenvolvida sempre por meio da didática. Aliás, é exatamente esse o con- texto de atuação de nossa disciplina: as relações humanas. DIDÁTICA 16 Para que você compreenda melhor o contexto de nossa discipli- na, observe o esquema da figura 1: Figura 1: elaborado pela autora 17 LEITURA COMPLEMENTAR As autoras Aliney Leandro e Stella de Sá são Psicopedagogas e pesquisam a importân- cia da Didática na formação docente. Façam a leitura do artigo e conheçam mais sobre os campos de atuação de nossa disciplina. Caso você queira ler o artigo na íntegra, acesse o site: <http://www.psicopedagogia.com.br/opiniao/opiniao.asp?entrID=212>. CONTRIBUIÇÕES DA DIDÁTICA PARA A FORMAÇÃO DO PROFESSOR A discussão sobre a formação do professor tem ocasionado muitos debates nos últi- mos tempos, todavia o conteúdo destes de alguma forma está refletindo na prática pedagógica de cada professor, permitindo-lhe uma reflexão mais profunda sobre a didática desenvolvida em nossas escolas e a apropriação do conhecimento. Por essa razão, percebe-se que as questões relacionadas à formação do professor e sua prática têm toda uma relação com a forma como ele compreende o que é didática e a relação da mesma com o momento histórico e social de determinada sociedade. Segundo Penin (1994) “a Didática é a forma como o ensino é conduzido, tendo como objeto de estudo a situação ou o acontecimento de ensino”. Porém, ao longo da história da educação brasileira, percebe-se que o período anterior aos anos 1980 foi marcado pelas pedagogias tradicional, tecnicista e nova que conce- biam a didática de forma repetitiva, técnica, fragmentada. Há, nessas abordagens, uma semelhança entre plano e planejamento, não considerando o caráter de flexibilidade que todo planejamento deve possuir. A didática aplicada é voltada para o repasse do conhecimento sem a perspectiva de construção e reconstrução do mesmo; tem como objetivo a mudança do comportamento, possuindo função ideológica e pedagógica previamente determinadas. As pedagogias acima citadas são bastante notadas na formação do professor atual, sendo a tendência tradicional a mais presente. Essa tendência transmite o conteúdo como verdade a ser assimilado pelo aluno. É a predominância da palavra do professor, das regras impostas, do cultivo exclusivamente intelectual. O professor é o principal su- jeito do processo ensino-aprendizagem; em suas mãos, está o poder decisório quanto à metodologia e avaliação do conteúdo, isto é, “a prática tradicional é caracterizada pelo ensino ‘blá-blá-blante’, salivante, sem sentido para o educando, meramente transmis- sora, passiva, acrítica, desvinculada da realidade, descontextualizada” (VASCONCELOS, 1995, p. 20). 18 LEITURA COMPLEMENTAR As tendências liberais (tecnicista e renovada), apesar de repensar o lugar do professor vendo-se como auxiliar no desenvolvimento do aluno, permanecem sem perceber o caráter histórico e social da educação, servindo ao modelo político vigente. A avaliação nesse período tinha como função classificar, medir, selecionar, e, muitas vezes, era um instrumento de punição. E isto era confirmado pela tensão dos alunos no momento da prova e pela postura autoritária do professor, já que tal prática mantinha sua imagem de “professor exigente”, ou seja, “avaliação propicia a alguns professores um caráter autoritário, prepotente e segregador, centralizado nas mãos arrogantes des- te ou daquele que fazia de sua nota seu instrumento de sadismo ou sua maneira ego- cêntrica de selecionar os bons e os maus”, afirma Antunes (2002, p. 13). Com o amadurecimento da sociedade e a contribuição de homens como Paulo Freire, Piaget, Vigotsky,entre outros, a humanidade refletiu, ampliou e reformulou suas con- cepções políticas e sociais. Por conseguinte, a didática também foi sendo ampliada, refletida, reformulada e transformada. Desse modo, falar em didática é refletir sobre o ensino e a aprendizagem, é repensar sobre a concepção de conhecimento por parte do professor, suas competências como profissional da educação. Portanto, defenderemos uma didática reflexiva voltada para a construção do conheci- mento sistematizado, o saber cotidiano e a vivência na construção do conhecimento do professor sobre o ensino. No entanto, percebe-se ao longo da história que essa compreensão sobre didática é recente, data-se dos anos 1980 com a chegada das ideias construtivistas ao Brasil e a aceitação dessa abordagem por parte dos profes- sores. A didática adequada a esta concepção de ensino é reflexiva dialética. Passa-se aqui centrado nos estudos de Piaget e Vigotsky a existir uma preocupação com a construção do conhecimento, dando ao conteúdo uma forma coerente com a pers- pectiva histórica e ideológica do movimento. A didática utilizada pelo professor deve dar ao aluno a oportunidade de ser sujeito de sua própria educação e lutar pela trans- formação social. 19 LEITURA COMPLEMENTAR Hoje vivemos a era do conhecimento, a globalização, a revolução da informática e dos meios de comunicação fazem com que a cada instante chegue até nós novos estudos, novas concepções, novos conhecimentos. Consequentemente, faz-se necessário apri- morarmos a didática que utilizamos como profissionais da educação. É cada vez mais necessário vivenciarmos uma didática reflexiva, repensar nossas competências profis- sionais e assumirmos nossa formação continuada. “O exercício e o treino poderiam bastar para manter competências essenciais se a es- cola fosse um mundo estável. Ora, exerce-se o ofício em contextos inéditos, diante de públicos que mudam, em referência a programas repensados, supostamente baseados em novos conhecimentos, até mesmo em novas abordagens e novos paradigmas. Daí a necessidade de uma formação contínua.” (PERRENOUD 2000, p. 156) Não podemos aqui afirmar que possuímos todas as competências de um professor construtivista, que apoiamos nossa prática em uma didática unicamente reflexiva e dialética, visto que somos fruto de uma escola tradicional e por muitos anos vivencia- mos a didática repetitiva. Temos convicção de que o novo nasce do velho e é a partir da desconstrução e reconstrução de velhos paradigmas que estaremos prontos para: “organizar e dirigir situações de aprendizagem; administrar a progressão de aprendiza- gem; conceber e fazer evoluir dispositivos de diferenciação; envolver os alunos em sua aprendizagem e em seu trabalho; trabalhar em equipe; participar da administração da escola; informar e envolver os pais; utilizar tecnologias novas; enfrentar os deveres e os dilemas éticos da profissão” (PERRENOUD, 2000, p. 155). Poderemos ousar ao afirmar que somos profissionais em transição e que essa é a pa- lavra chave para a construção do profissional do futuro. Necessitamos avaliar nossa didática, reaproveitando os pontos positivos e reformulando os não satisfatórios. Só a partir do momento em que nos colocarmos como aprendizes e reconstrutores da nos- sa prática, é que estaremos trilhando o caminho que todo professor deve trilhar para ser um profissional condizente com o momento histórico em que vivemos. Aliney Maria Inojosa Leandro, Stella Atiliane Almeida de Sá DIDÁTICA 20 Agora que você conheceu mais sobre os campos de atuação da Didática, podemos partir para suas funções. A Didática e os Processos de Ensino EDUCAÇÃO FÍSICA 21 Vimos, anteriormente, que a Pedagogia se ocupa da tarefa de organizar e orien-tar os processos educativos. Para isso, é preciso criar um conjunto de condições metodológicas e práticas que orientam as finalidades da escola. Sendo assim, a função primordial da didá- tica é assegurar o ensino e a aprendizagem em suas dimensões sociais e técnicas. A Didática é, então, uma disciplina pedagógica que estuda os processos de ensino em todos os seus componentes, como: conteúdos, métodos e teorias que orientam a ação docente e formula atividades facilitadoras da aprendizagem. Por isso, segundo Candau (2009, p. 46), “[...] é uma matéria de estudo fundamental na formação profissional de professo- res e um meio de trabalho do qual os professores se servem para dirigir a atividade de ensino, cujo re- sultado é a aprendizagem dos conteúdos escolares pelos alunos.” Observando a afirmação acima, podemos con- cluir que a didática é uma disciplina de mediação entre os objetivos e os conteúdos de ensino. Portan- to, sua maior função é a de investigar as condições e as formas reais de ensino. Mas como determinar as condições reais de ensino de uma escola? Para isso, é necessário realizar uma investigação acerca dos objetivos políticos e sociais do ensino. Mediante essas informações, é possível selecionar e organizar os conteúdos necessários para a aprendi- zagem. Na verdade, a conexão entre os objetivos de ensino e os conteúdos selecionados é que regulará a ação didática. Mas, afinal, quais são os objetivos de ensino? Libâneo(2008) nos explica que o conjunto de atividades de ensino não visa outra coisa senão o de- senvolvimento físico e intelectual dos alunos, com vistas a sua preparação para a vida social. Nas pala- vras do autor podemos entender que: O processo didático de transmissão e assimila- ção de conhecimentos e habilidades tem como culminância o desenvolvimento das capaci- dades cognoscitivas dos alunos, de modo que assimilem ativa e independentemente os con- teúdos sistematizados (LIBÂNEO, 2008, p. 53). Você já deve ter percebido que construir aprendi- zagens não é uma tarefa fácil. Mas, esse não é um caminho solitário. Ele pode ser orientado por mé- todos, técnicas e currículos. A seguir, analisaremos cada componente desse conjunto. DIDÁTICA 22 Vamos iniciar novamente pelo ensino. De acor- do com o Dicionário Aurélio (2009), ensino refere- -se à instrução. No entanto, para instruir alguém é necessário ter o que ensinar, ou seja, precisa existir um conteúdo. Dessa forma, podemos concluir que o núcleo do ensino são os conteúdos. Muito bem, avancemos. Tendo um conteúdo a ensinar, precisa- mos descobrir a melhor forma de transmiti-lo aos alunos. Um planejamento pode ajudar nessa tarefa (analisaremos mais profundamente essa questão na nossa unidade IV). Por meio dele, podemos organi- zar os temas, definir direções e avaliar as atividades pedagógicas para verificar se estamos concretizando nossa tarefa de ensinar. No entanto, o ensino se mo- difica no decorrer da atividade docente e de acordo com vários fatores, como: ritmo de trabalho dos alu- nos, interesse específico por um determinado tema, necessidade de aprofundamento maior de algum aspecto do conteúdo, entre outros. E para não nos desorientarmos nesse processo é que contamos com a ajuda de um currículo. O currículo, de acordo com Libâneo (2008), ex- pressa os conteúdos de ensino. Nele, os assuntos são divididos em matérias e possuem diferentes graus de aprofundamento, organizados segundo o nível escolar dos alunos. Conhecendo bem o currículo, o professor é capaz de “prever” os conhecimentos e as habilidades que serão desenvolvidas no processo de instrução. Tendo em vista as habilidades a serem construídas com seus alunos, o professor pode tra- çar, então, seus objetivos. Para alcançar esses objeti- vos, precisamos escolher um método, ou seja, uma teoria que dê conta de nos orientar enquanto per- corremos os caminhos dos conteúdos. Um método é formado por um conjunto de téc- nicas. Essas técnicas podem se referira uma instru- ção de estudo, de aplicação, de desenvolvimento ou de aprendizagem. Para se certificar de que essas te- orias podem ser aplicadas e que elas funcionam na realidade é que existe a metodologia. A metodologia nada mais é que um estudo da aplicabilidade dos métodos. Para Candau (2009), a metodologia se refere aos procedimentos de ensino e estudo das disciplinas do currículo. Sendo assim, as técnicas, recursos ou meios de ensino são elemen- tos que complementam a metodologia e devem ser colocados à disposição do professor. A partir das suas necessidades e de seu conhecimento específi- co, o professor pode selecionar o método adequado para enriquecer o processo de ensino. O campo da metodologia tem se expandido tanto que, na atualidade, já podemos contar com a EDUCAÇÃO FÍSICA 23 “tecnologia educacional”. Candau (2009) explica que essa expressão engloba técnicas de ensino muito di- versificadas e que abrange desde os recursos da in- formática, dos meios de comunicação e os audiovi- suais até os instrumentos de instrução programada e estudo individual ou em grupo. Ao percorrermos parte dos processos de instru- ção, podemos notar que o ensino não é apenas mera transmissão de informações. Trata-se, na realidade, de um trabalho de mediação entre os conhecimen- tos atuais do aluno e as novas matérias do ensino. Essa mediação é realizada pelo professor que, co- nhecendo mais profundamente os conteúdos, é ca- paz de organizar a atividade de estudo dos alunos tornando o processo mais eficaz. No entanto, o ensino só é bem-sucedido quan- do os objetivos elencados pelo professor coincidem com os objetivos de estudo e aprendizagem do alu- no. Para isso, professores e alunos precisam cons- truir entre si uma relação recíproca de confiança e autonomia. Nesse campo, também podemos contar com as contribuições da didática. Ela é capaz de construir um elo entre alunos, professores e os co- nhecimentos. Vejamos agora algumas das ações do- centes capazes de construir esse elo. Libâneo (2008, p. 71) nos indica três caminhos: • Assegurar aos alunos o domínio mais segu- ro e duradouro possível dos conhecimentos científicos. • Criar as condições e os meios para que os alu- nos desenvolvam capacidades e habilidades intelectuais de modo que dominem métodos de estudo e trabalho intelectual visando a au- tonomia no processo de aprendizagem e in- dependência de pensamento. • Orientar as tarefas de ensino para objetivos educativos de formação de personalidade, isto é, ajudar os alunos a escolherem um ca- minho na vida, a terem atitudes e convicções que norteiem suas opções diante dos proble- mas e situações da vida real. Ao analisarmos essa proposta, notamos que o senti- do do ensino está na aprendizagem significativa. Ou seja, está no aprendizado de saberes úteis à vida do aluno. Esses conhecimentos ganham sentido quan- do são capazes de orientar não somente a atividade escolar, mas a vida cotidiana dos alunos. Este é o ca- ráter educativo do ensino. Compreendido o processo de instrução, ou pro- cessos de ensino, podemos partir para o outro lado da moeda: a aprendizagem. DIDÁTICA 24 A Didática como Facilitadora da Aprendizagem EDUCAÇÃO FÍSICA 25 Ensino e aprendizagem são duas facetas da mesma moeda. O professor tem, por responsabilidade didática, de garantir os melhores meios para que o aluno aprenda. Para isso, ele planeja, dirige e controla o processo de ensino, com o objetivo único de estimular a atividade própria dos alunos – a aprendizagem. Mas não são apenas os alunos que aprendem. De acordo com os estudos de muitos teóricos, como Vy- gostsy, Piaget e Luria, a aprendizagem é característi- ca dos seres humanos. Isso quer dizer que qualquer pessoa aprende e não apenas na escola. Vejamos o que Vygotsy(2001, p. 476) diz a esse respeito: Em essência a escola nunca começa no vazio. Toda aprendizagem com que a criança depara na escola tem sempre uma pré-história. Por exemplo, a criança começa a estudar aritmética na escola. Entretanto, muito antes de ingressar na escola ela já tem experiência no que se refere a quantidade: já teve oportunidade de realizar essa ou aquela operação, de dividir, de determi- nar a grandeza, de somar e diminuir... a apren- dizagem escolar nunca começa no vazio mas sempre se baseia em determinado estágio de desenvolvimento, percorrido pela criança antes de ingressar na escola. Sendo assim, qualquer atividade social, ou seja, pra- ticada no ambiente em que vivemos, pode levar a uma aprendizagem. Desde que nascemos estamos aprendendo e continuamos aprendendo durante a vida toda. Nossa primeira fonte de aprendizagem são nossas experiências com o mundo e com as pes- soas com as quais nos relacionamos. É esse tipo de aprendizagem que nos leva a andar, falar, a mani- pular brinquedos etc. A partir desses conhecimen- tos, desenvolvemos habilidades mentais “maiores” e aprendemos a contar, a escrever, a ler, a pensar e a trabalhar junto com outras crianças. A partir dessas constatações, podemos distin- guir, então, tipos de aprendizagens diferentes. Uma que é própria da escola, que acontece com os recur- sos das instituições escolares e mediadas pelos pro- fessores. E outra que acontece por meio de nossas experiências pessoais, de nossas relações com os ou- tros e com nossa vivência de mundo. Chamaremos a aprendizagem escolar de aprendizagem sistemati- zada e a aprendizagem por meio de nossas vivências de aprendizagem casual. Segundo Libâneo (2008), a aprendizagem casual ocorre quase sempre de maneira espontânea. Surge naturalmente, pela convivência social, pela observa- ção de objetos e acontecimentos, pelo contato com os meios de comunicação, leituras, conversas... As pessoas vão acumulando essas experiências e por meio delas adquirem conhecimentos, formam, con- ceitos, atitudes e convicções. Por não exigir estraté- gias, métodos e técnicas, temos a falsa noção de que essa forma de aprendizagem é mais simples que a escolar ou sistematizada. No entanto, não é. Na rea- lidade, para que aconteça o desenvolvimento natural dos seres humanos, precisamos das duas. Ou seja, a aprendizagem casual, complementa e cria condições para que exista a aprendizagem sistematizada. Veja um exemplo disso a seguir: DIDÁTICA 26 Compreenderemos melhor a relação entre aprendizagem casual e aprendizagem sistematizada ao conhecermos mais profundamente a aprendiza- gem sistematizada. Libâneo (2008) afirma que a aprendizagem sistematizada é aquela que tem por finalidade específica aprender conteúdos científicos, ha- bilidades e normas de convivência social. Mes- mo que essa aprendizagem possa ocorrer em diversos lugares, é na escola que ela é organiza- da e selecionada, a partir da escolha das melho- res condições para a transmissão e assi- milação. Portanto, esta organização é sempre intencional e planejada. Isso significa que o principal trabalho do professor é tornar o conhecimento acessível ao aluno. “Uma professora conta para sua classe de alunos da educação infantil uma história. Os alunos ouvem a história e recebem o seu conteúdo mediante a assimilação de sua mensagem ou até mesmo da memorização. Enquanto escutam a história, aparentemente a atitude dos alunos é passiva. Mas, enquanto escutam, as crianças estão mentalmente ati- vas e organizando as informações da história com suas experiências já vividas e com seu imaginário. Dessa maneira, estão trabalhando o conteúdo em sua mente e reestruturando as novas informações a partir das que já são conhecidas. Isto significa que os alunos estão aprendendo”. SAIBA MAIS EDUCAÇÃO FÍSICA 27 Esse autor orienta que, a princípio, o profes- sor deve contrastar o conhecimento cotidiano do aluno com suas explicações.Ou seja, devemos demonstrar mediante perguntas, comparações e outras atividades que os conhecimentos que nos- sos alunos já possuem podem ser aprofundados e aprimorados. É importante, também, que eles reconheçam as limitações do que já conhecem. Mas, essas limitações devem ser apontadas de forma natural e não autoritária. Afinal, o intuito é despertar o interesse dos aprendizes e não des- motivá-los. Gasparin (2007) ainda explica que os alunos devem ser incentivados e desafiados a elaborar uma definição própria do conceito científico pro- posto (o conteúdo em si). Esse processo pode ser incentivado com espaços específicos da aula, na qual os alunos detenham a voz e a vez. Isso quer dizer que o professor pode organizar um espa- ço próprio da aula para que os alunos discutam e debatam entre si os conceitos aprendidos até o momento. É importante motivar a todos a tentar conceituar com suas próprias palavras o que en- tenderam. Assim, aos poucos, os próprios alunos perce- berão seus pontos fracos e fortes em relação ao co- nhecimento ensinado. Perceberão também que para expor em palavras um conhecimento é necessária a organização de ideias e uma sequência lógica. É, dessa maneira, que alunos e professores conseguem constatar que o processo de formação de conceitos não é espontâneo. De acordo com Vygotsky (2001), exige uma série de funções superiores, como aten- ção voluntária, memória lógica, abstrações, compa- rações e diferenciações. Para isso, Gasparin (2007) nos orienta a moti- var os alunos. Uma das formas de conquistar a mo- tivação dos alunos é conhecendo o cotidiano deles. Assim, também temos acesso ao conhecimento prévio dos alunos, ou seja, ao que eles já conhecem (aprendizagem casual) do assunto ensinado. Isso possibilita ao professor um trabalho pedagógico mais adequado, pois ele não corre o risco de iniciar o conteúdo por algo já sabido – o que pode tornar o aprendizado maçante. Também evita que inicie o ensino do conteúdo por um nível mais complexo e com isso, desmotive os alunos. Conteúdos científicos podem não interessar a princípio para quem os aprende. Por isso, é necessário suscitar nos alunos os conhecimentos relacionados ao tema que eles já possuem por aprendizagem casual. Ao relacionar um conceito científico com seus con- ceitos empíricos (o que já aprenderam por experiên- cia própria e pessoal) estamos, com isso, contextuali- zando o conhecimento e o conteúdo para os alunos. É nesse ponto que se relacionam os conhecimen- tos adquiridos por aprendizado casual e por apren- dizado sistematizado. A aprendizagem casual é o ponto de partida para novos conhecimentos. No en- tanto, isso não significa que a aprendizagem escolar seja uma continuação dos saberes casual. A aprendi- zagem escolar ou sistematizada trabalha com aqui- sição de conteúdos científicos, que é, de acordo com Gasparin (2007, p. 51), “substancialmente divergen- te da aprendizagem espontânea”. Nesse momento, você pode se questionar: como os alunos aprendem conteúdos científicos? Bem, caro(a) aluno(a), o caminho é longo, mas os resultados são em- polgantes! Quem nos auxiliará, nesta jornada, são os estudos e as pesquisas do professor João Luiz Gasparin. DIDÁTICA 28 Gasparin (2007, p. 60) destaca: Os conceitos do professor não se transmitem de forma mecânica e direta ao aluno; não são pas- sados, automaticamente, de uma cabeça para outra. O caminho vai desde o primeiro contato da criança com o novo conceito até o momen- to em que a palavra se torna propriedade sua, como conceito científico, é um complicado pro- cesso psíquico interno e envolve a compreensão da nova palavra, seu uso e assimilação real. Podemos notar, com isso, que os conceitos cientí- ficos não são aprendidos de maneira simples, uma vez que são exigidas relações mais complexas entre o ensino e o desenvolvimento desses conceitos. Para Gasparin (2007, p. 58), a construção dos conceitos científicos vai, aos poucos, formando-se “a partir da identificação das características mais específicas do conteúdo e se desenvolve com explicações mais con- sistentes das dimensões sociais desse conceito”. Evidencia-se, com isso, que para atuar no en- sino o professor precisa conhecer e “diagnosticar” a fase de desenvolvimento em que se encontra o aluno em relação ao que está sendo ensinado. Vy- gotsky (2001) estabeleceu três níveis de desenvolvi- mento de ensino. O primeiro nível é chamado, pelo autor, de zona de desenvolvimento real. Ele indica o que o aluno é capaz de fazer sozinho naquele momento. Para perceber essa fase, o professor não deve interferir na produção do aluno, mas apenas observar o que ele é capaz de desenvolver por si só. Trata-se de evi- denciar os conhecimentos já consolidados no aluno, reconhecer aquelas funções e capacidades que ele já domina e consegue utilizar sem o auxílio de alguém. Para determinar o segundo nível, conhecido como zona de desenvolvimento imediato, o profes- sor precisa auxiliar o aluno. Diferentemente da zona de desenvolvimento real (o primeiro nível), o pro- fessor agora interfere na produção do aluno com a intenção de guiá-lo. Essa interferência do professor pode ser realizada mediante perguntas sugestivas, de indicações de como iniciar a tarefa, de diálogo explicativo ou trocas de experiências. Para Gasparin (2007), essas ações determinam o processo mais sig- nificativo da aprendizagem, pois envolve atividades mais complexas que são desenvolvidas com a orien- tação do professor. Nesse momento, valoriza-se mais a transmissão do conteúdo, ou seja, o ensino. Vygotsky (2001) confirma a importância do en- sino ressaltando que a grande maioria dos conheci- mentos e habilidades do homem se forma por meio da assimilação da experiência de toda humanidade acumulada no processo da história social e trans- missível no processo de aprendizagem. O trabalho, no nível de desenvolvimento ime- diato, encerra-se quando o aluno atinge um novo ní- vel de desenvolvimento: o atual. Nesse nível, o aluno mostra que se superou. Afinal, foi exigido dele novas EDUCAÇÃO FÍSICA 29 operações mentais e a apropriação de novos conteú- dos. Quando o aprendiz atinge o nível de desenvol- vimento atual, ele realmente aprendeu e assimilou o que foi ensinado. Dessa forma, podemos concluir que, para o indivíduo construa seu próprio conhecimento, é preciso que ele se aproprie do conhecimento his- toricamente produzido pela humanidade. Esse co- nhecimento precisa estar socialmente à disposição, ou seja, a serviço de todos. Esse ato de “PAGAR” para si tais conhecimentos é que possibilita a cons- trução de novos saberes. Isso porque ninguém aprende ou entende um assunto da mesma forma. É a riqueza de possibilidades da assimilação que nos permite construir sempre, novos saberes a par- tir de outros já conhecidos. Então, toda vez que um aluno atinge consciência de um determinado tipo de conceito ou conteúdo, ele internaliza-o a sua maneira, de acordo com suas palavras. Para Gasparin (2007), essa internalização só é possível a partir das estruturas construídas com o conhecimento casual, ou seja, com aquilo que o aluno já sabe. No entanto, a estrutura obtida trans- fere-se para outros conceitos que devem ser assimi- lados e reconstrói-se com um novo conhecimento, uma nova consciência e novos domínios. Tais trans- ferências geram a elevação do nível dos conceitos es- pontâneos, que são transformados sob a influência de um novo conceito científico adquirido. Gasparin (2007) ainda demonstra que os conceitos espontâneos (adquiridos por meio da aprendizagem casual) precisam atingir um determinado patamar, a fim de que seja possível a tomada de consciência des- se saber. Para atingir esse patamar, que leva a tomada de consciência, os conceitos espontâneos precisamser contrastados com os conceitos científicos. Em outras palavras, os conceitos cotidianos preparam o caminho para a obtenção de conceitos científicos, já que criou estruturas elementares para a reflexão, análise e apreensão de novos conteúdos. Por outro lado, os conceitos científicos geram com- parações e generalizações que tornam o uso dos conceitos cotidianos conscientes e voluntários. Vygotsky (2001) explica que a apreensão de um conceito científico antecipa o caminho do desenvol- vimento, isto é, transcorre em uma zona de habili- dades que ainda não estão amadurecidas e desenvol- ve-as. Assim, podemos notar que a aprendizagem escolar (ou científica) desempenha um papel imenso e decisivo no desenvolvimento intelectual do aluno. Na interação entre professor e aluno, dá-se o confronto entre conceitos espontâneos e científicos. Os conceitos científicos assumem uma ligação com a realidade quando colocados em contato com a vi- vência dos alunos. Notamos, com isso, que a cons- trução de novos conhecimentos exige uma relação entre professores e alunos de corresponsabilidade pelo processo de aprendizagem. DIDÁTICA 30 Colocando-se como mediador, o professor se torna um facilitador, incentivador ou motivador da aprendizagem. É a forma de apresentar e tratar um conteúdo que ajuda o aprendiz a coletar informa- ções, manipulá-las e organizá-las até chegar a produ- zir um conhecimento que seja significativo e possível de ser utilizado em seu mundo intelectual e social. Para Libâneo (2008), a escola, por meio de seu currículo, representa a dimensão científica do co- nhecimento. As diversas matérias que compõe o currículo escolar representam um conjunto de co- nhecimentos socialmente produzidos e organizados com métodos e teorias que visam compreender e orientar as atividades humanas. Então, é papel do professor, tornar-se mediador e estabelecer ligações entre os conceitos científicos e cotidianos. Mas, essa mediação só se torna possível quando o professor conhece estas duas realidades: a dos con- ceitos científicos e a dos conceitos cotidianos. Por- tanto, sua primeira tarefa é a de conhecer profunda e corretamente os conceitos científicos de sua área de atuação. E sua segunda tarefa, e não menos im- portante, é a de tomar conhecimento dos conceitos e conhecimentos cotidianos dos alunos. Conhecendo o cotidiano do aluno e o conteúdo escolar, o professor pode elaborar esquemas e ações que busquem preparar os alunos para desenvol- ver as habilidades e capacidades necessárias para a construção do novo conhecimento. Assim, com es- sas ações coletivas, entre professores e alunos, aos poucos os educandos vão aprendendo os conceitos científicos. 31 considerações finais Caro(a) aluno(a), terminamos a leitura da primeira unidade de nosso livro. Espero que você tenha gostado e compreendido a importância das reflexões realizadas inicialmente. Caso tenha ficado alguma dúvida, vou retomar, com você, as principais discussões que fize- mos até agora. Iniciamos nossos estudos analisando o campo de atuação da didática e observamos notar que ela é uma disciplina pedagógica que se preocupa, prin- cipalmente, com os processos de ensino e aprendi- zagem. Pudemos notar, também, que as pessoas apren- dem dentro e fora da escola. Aliás, aprendemos o tempo todo, com nossas experiências, com nossas observações e convivência com os outros. Todo esse conhecimento pode e deve ser utilizado pela escola na aquisição de saberes científicos. A construção de novos conhecimentos e de con- ceitos científicos é função própria da escola. Mas, essa não é uma tarefa simples. Ela precisa ser orga- nizada, sistematizada e competente. Para dar conta dessa função é que a instituição escolar conta com o auxílio da didática. Seu papel, nessa tarefa, é estudar e organizar os objetivos, os conteúdos e os processos de ensino e aprendizagem. Ela se ocupa ainda com o contexto educacional, verificando para que fins se educa e em que realidade se deseja educar. Dessa forma, a didá- tica procura abranger a educação em seus aspectos políticos, sociais, econômicos e psicológicos. Para dar conta dessa tarefa, é preciso criar um conjunto de condições metodológicas e práticas que orientam as atividades escolares. A primeira questão a se observar diz respeito aos conteúdos e objetivos de ensino. É preciso existir uma coerência lógica e evidente entre o que se quer ensinar e o porquê se quer ensinar. Feito isso, temos condições de compre- ender as condições reais de ensino. A análise entre os objetivos e os conteúdos é orientada mediante um conjunto de métodos, téc- nicas e currículos. Em nosso livro, analisamos cada um desses componentes e concluímos que, tendo um conteúdo a ensinar, precisamos descobrir a melhor forma de transmiti-lo aos alunos. Por meio de um planejamento, é possível organizar os temas e definir quais atividades pedagógicas concretizarão nossa ta- refa de ensinar. 32 considerações finais Os conteúdos de ensino são expressos por meio do currículo. Nele, encontramos as matérias e os di- ferentes graus de aprofundamento dos conteúdos, organizados segundo o nível escolar dos alunos. A partir do conhecimento do currículo, o professor toma consciência das habilidades e competências que serão desenvolvidos no aluno durante o proces- so de instrução. Esse processo se torna mais claro se embasado em um bom método. A função de um método é nos oferecer instrumentos teóricos capazes de responder às nossas necessidades em relação à prática. O conhecimento geral desses processos de ensi- no dão ao professor maiores possibilidades de êxito em sua tarefa didática, que é a de garantir os melho- res meios para que o aluno aprenda. Mas, o ensino não pode ser confirmado apenas pela vontade de instruir do professor. Ele precisa contar com a participação, também voluntária, do aluno de aprender. Compreendendo melhor os ní- veis de desenvolvimento propostos por Vygotsky, o professor pode avaliar em que estágio o aluno se en- contra e motivá-lo a progredir. A aprendizagem se efetiva realmente quando o aluno é capaz de utilizar seus conhecimentos casu- ais para fundamentar novos conhecimentos cientí- ficos. Esse processo ocorre por meio da mediação do professor. Essa mediação pode ser feita mediante comparações e generalizações que tornam o uso dos conceitos cotidianos conscientes e voluntários. Assim, torna-se evidente que a construção de no- vos conhecimentos exige corresponsabilidade entre professores e alunos no processo de aprendizagem. Para terminar nossas reflexões, gostaria de sa- lientar uma outra competência necessária à cons- trução de um ensino competente e transformador: a racionalidade. Um professor que age com racionalidade em sua prática docente, toma suas decisões quanto aos conteúdos que precisam ser ensinados pen- sando nas possibilidades de satisfazer as neces- sidades intelectuais e culturais de seus alunos. Outro professor, fundamentado nos preceitos tradicionais da escola, se preocupará apenas em cumprir o “programa” e em não “atrasar” os con- teúdos. Assim, os professores ficam reduzidos a técnicos obedientes, que seguem à risca os pro- gramas curriculares. Por mais importante que seja “cumprir o progra- ma“, fazendo de maneira mecânica e tecnicista, per- demos a oportunidade de analisar o currículo oculto do que ensinamos. Ou seja, perdemos a chance de refletir sobre quais conceitos, valores e outras cren- ças estamos transmitindo silenciosamente aos nos- sos estudantes. Para tentar mudarmos essa realidade, devemos começar com o questionamento contínuo e crítico daquilo que é dado como conhecimento. Além disso, a escola precisa ser conhecida em sua realidade local, para que os estudantes tenham a chance de torna-rem-se cidadãos críticos e ativos. As escolas precisam ser vistas como instituições sociais marcadas pela diferença. Pelas mesmas dife- renças que compõem nossa cultura, nossa convivên- cia e nossa realidade. Isto também significa que pro- fessores, pais e outros interessados devem participar dos processos de ensino e aprendizagem. Ao final dessa unidade, espero que você tenha compreendido como o ensino é um ato político, mesmo quando não tomamos partindo nenhum. Por isso, caro(a) aluno(a), é muito importante que você conheça profundamente sua área de atuação e saiba o quanto ela é importante para a transformação social. 33 LEITURA COMPLEMENTAR O estudo da didática orienta que a comunidade escolar deve ser parceira na hora de planejar com intuito de oferecer o melhor ensino possível, favorecendo uma aprendi- zagem de qualidade, uma vez que ela foca sempre o melhor para o aluno e a facilidade de trabalho para o professor, tornando assim um processo prazeroso. Portanto, conclui-se que a didática em seu processo de trabalho favorece a todos, uma vez, que oferece meios eficazes para a aprendizagem que qualifica e prepara para os obstáculos, nessa arte de ensinar. Conheça também outros aspectos dos processos de ensino e aprendizagem lendo o texto abaixo. Caso você queira ler o assunto na íntegra, ele está disponível no site: <http://sandraalunamestrado.bligoo.com.br/content/view/2090826/O-PAPEL-DA-DI- DATICA-NO-PROCESSO-ENSINO-APRENDIZAGEM.html>. O PROCESSO DE ENSINO-APRENDIZAGEM O processo de ensino-aprendizagem passa por várias concepções a primeira é a tradi- cional, onde os alunos são receptores de saberes que seus professores os transmitem, nessa o que mais importa é a quantidade de conteúdos que se trabalha, o professor tem o conhecimento acabado sendo dono da verdade, onde as tarefas são padroniza- das. Na segunda vem a comportamentalista, a qual consiste num arranjo e planejamento de condições externas que proporcionam aos estudantes a aprender. Nessa o professor ensina e observa o comportamento de cada um, recebendo incentivos através de prê- mios, os elementos mais importantes são o aluno e o objetivo proposto. Na humanística, o ensino está centrado na pessoa, onde o professor deverá orientá-lo para a vida, a fim de conseguir agir em sociedade. Nesta a aprendizagem deve ser sig- nificativa, modificando o comportamento e as atitudes. Na cognitiva os alunos recebem estímulos do meio conseguindo organizar seus conhe- cimentos, sentem e resolvem problemas, adquirem conceitos e empregam símbolos verbais, conseguindo processar e interagir informações. Por isso o ensino é baseado no ensaio e erro, na pesquisa e na investigação, na solução de problemas por parte do aluno. 34 LEITURA COMPLEMENTAR Na sócio-cultural supera-se a relação opressor-oprimido através da socialização de sa- beres de igual valor, transformando a situação objetiva geradora de opressão, traba- lhando desenvolvimento da consciência crítica e da liberdade, sendo os alunos sujeitos criadores. Raimundo Nonato Silva Mesquita PESQUISAS MAIS RECENTES De acordo com as pesquisas mais recentes sobre a didática no Brasil, durante o período entre 1996 a 2000 foi possível entender que ela como compreensão do trabalho docen- te vem direcionando as necessidades de investigação e as abordagens metodológicas na perspectiva denominada da epistemologia da prática. Durante esse período as escolas começaram a vivenciar um momento ímpar, pois, hou- ve o predomínio de estudos que adotam a didática, possibilitado a interlocução crítica com as teorias elaboradas, revelando um abandono da perspectiva explicativa. Assim foi possível implantar nas escolas o método de pesquisa constante, ao qual, todo aluno tem o direito de acesso a todos os conteúdos, formulando suas novas descober- tas, com o objetivo de aperfeiçoar seus conhecimentos e de interagir com seus colegas e professores, uma vez, que se sabe que um dos objetivos da educação é construir e reconstruir conhecimentos, podendo evoluir para o novo. Diante dessa premissa afirma-se que a compreensão é um dos elementos constitutivos do processo de construir conhecimento e tem sua validade na inter-relação com as explicações teórica e historicamente sustentadas, permitindo ainda que haja interação de conhecimento. Nessa perspectiva supera-se uma tendência que individualiza o conhecimento, a qual, o professor era detentor do conhecimento e se utilizava de representações a mesma foi muito trabalhada no período anterior. Com a implantação da didática é possível 35 LEITURA COMPLEMENTAR desenvolver trabalhos que estão ligados à realidade social, o qual envolve a todos, ou seja, o sócio-interacionismo implantado na escola. Quanto às temáticas e aos propósitos, o estudo de Pimenta (2001) permite verificar que, para além das preocupações com as técnicas de ensinar e da avaliação, o campo da Didática oferece inúmeras outras a docência universitária, tais como o trabalho com a interdisciplinaridade e a pesquisa. Percebe-se que com este tipo de trabalho foi possível quebrar as barreiras que im- pediam aos professores de trabalharem interligados, podendo interagir saberes que outrora eram vistos como conhecimentos isolados, favorecendo ao individualismo, o qual dificultava a aprendizagem dos alunos. É possível afirmar ainda que desenvolvendo esse tipo de trabalho os professores per- mitem aos seus alunos um maior envolvimento com os saberes despertando a curiosi- dade de conhecer cada vez mais, observando assim as suas necessidades além de po- der interagir com o meio. Segundo Vygotsky (1980, p. 90) “aprendizagem é o processo pelo qual o indivíduo adquire informações, habilidades, valores, atitudes, etc. a partir de seu contato com a realidade, com o meio ambiente e com as outras pessoas”. Segundo essa premissa é possível perceber que Vygotsky afirma justamente um dos objetivos da didática, o de envolver os alunos com o meio podendo interagir com todos a partir do seu contato com a realidade, além de poder construir seu próprio conheci- mento, favorecendo a sua aprendizagem. Assim afirma-se que os educadores precisam reunir-se para a realização de planeja- mentos voltados para projetos que envolvam justamente o trabalho interdisciplinar, podendo escolher a melhor maneira de trabalhar conteúdos afins e não afins, selecio- nando os mais viáveis de acordo com as necessidades da clientela atendida, por isso a importância da participação do alunado na hora do planejamento, a fim de saber as idéias e os propósitos dos mesmos. 36 atividades de estudo 1. A didática é uma matéria pedagógica que se ocupa dos processos de ensi- no e aprendizagem. Releia a respeito dos campos de atuação dessa disci- plina e explique como ela atua no ensino e na aprendizagem. 2. O professor precisa acompanhar e reconhecer em que nível de desenvol- vimento se encontra o aluno em seu processo de aprendizagem. Vygotsky afirma que o aluno passa por três estágios de desenvolvimento. Explique- -os e descreva qual o papel do professor em cada um deles. 3. O processo de aprendizagem exige uma relação de corresponsabilidade entre aluno e professor. A partir dessa informação, explique como o pro- fessor pode construir essa relação com o aluno. EDUCAÇÃO FÍSICA 37 Didática no Ensino Superior Antonio Carlos Gil Editora: Atlas Edição: 1ª (2006) Páginas: 304 Sinopse: a Docência no Ensino Superior requer um profissional que, me- diante habilidosa combinação de suas habilidades pessoais com as expec- tativas dos estudantes e as exigências do ambiente, seja capaz de garantir um aprendizado agradável e eficiente. Torna-se necessário, portanto, a presença em sala de aulade um profissional que sabe definir objetivos de ensino, selecionar conteúdos, escolher as estratégias de ensino mais ade- quadas e promover uma avaliação comprometida com a aprendizagem. O propósito deste livro é o de colocar à disposição dos professores uni- versitários informações úteis para o aprimoramento de sua atividade do- cente. Embora elaborado com linguagem simples e conteúdo voltado à prática, não constitui um manual de técnicas pedagógicas. Inicia-se com uma reflexão acerca do papel do professor universitário e, após tratar das características dos estudantes universitários de hoje e do relacionamento professor-estudante, apresenta tópicos que constituem as bases do plane- jamento e da execução das atividades docentes no Ensino Superior como formulação de objetivos, seleção de conteúdos, técnicas de exposição, técnicas de discussão, aprendizagem baseada em problemas, atividades extraclasse, tecnologia de ensino e avaliação da aprendizagem. Disponível em: <http://www.editoraatlas.com.br/Atlas/webapp/detalhes_pro- duto.aspx?prd_des_ean13=9788522443925>. Acesso em: 24 abr. 2012. Ensino e Aprendizagem (parte 1 de 2) <http://www.youtube.com/watch?v=TFWFcJ0Xw2o>. Qual a importância do professor para a aprendizagem dos alunos? Assista a apresentação abaixo e conclua... <http://www.youtube.com/watch?v=7doZvxMKPJk&feature=fvsr>. DIDÁTICA 38 Complexidade e Aprendizagem: A Dinâmica Não Linear do Conhecimento Pedro Demo Editora: Atlas Edição: 1ª (2002) Páginas: 200 Sinopse: complexidade, tem ocupado lugar central do debate epistemo- lógico e teórico, representando, por isso mesmo, emblema principal da mudança de paradigma. Significa o reconhecimento de que é impraticável devassar o real, já que toda dinâmica complexa contém componentes re- fratários ao ordenamento metodológico. Como o procedimento científico, em grande parte e mesmo essencialmen- te, é esforço de formalização lógica, não alcança captar as dinâmicas não lineares ambíguas e ambivalentes em si mesmas. Na prática, capta ape- nas a ordem da desordem. Entretanto, a evolução biológica dotou-nos de outras formas de compreensão da realidade que, implicando grau maior ou menor de lógica, é capaz de decifrar dinâmicas ambivalentes, como é o caso do cérebro: de uma base material salta para dinâmicas imateriais, como pensamento, imaginação, esperança. Inteligência, portanto, não será apenas a habilidade de dedução sequen- cial, ao estilo algoritmo replicativo, mas, sobretudo, a capacidade de criar para além do dado, das teorias, dos conceitos, da sintaxe e dos códigos. É divisar ordem onde parece só haver desordem e vice-versa. É surpreender com saltos que não pareciam deriváveis de estágios anteriores. Essa idéia de complexidade é fundamental tanto para a epistemologia, que precisa aprender a adaptar ao real não linear, colocando o método a seu serviço, quanto para processos educativos, em particular para a aprendiza- gem. Recomeça a superação do instrucionismo – transmissão linear e auto- ritária do conhecimento – para possibilitar ao educando estilos formativos de dentro para fora, capazes de gerar autonomia. A Inteligência Artificial tem abusado da perspectiva linear dos computadores atuais, ao insistir, por exemplo, em hipertextos não lineares, quando, na prática, são procedimen- tos tipicamente algorítmicos. Disponível em: <http://www.editoraatlas.com.br/Atlas/webapp/detalhes_pro- duto.aspx?prd_des_ean13=9788522431779>. Acesso em: 24 abr. 2012. UNIDADE II A DIDÁTICA EM DIFERENTES TEMPOS HISTÓRICOS Professora Me. Ionah Beatriz Beraldo Mateus Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: • A didática tradicional • A didática da escola nova • A didática tecnicista Objetivos de Aprendizagem • Reconhecer as diferentes concepções didáticas nos diversos tempos históricos. • Apresentar as principais características do método didático tradicional. • Caracterizar o método didático tecnicista. • Analisar o método didático escolanovista. unidade II INTRODUÇÃO 42 Pensar atualmente sobre educação obriga-nos, a princípio, a falar em crise. Todo mundo já ouviu falar sobre as péssimas condições de ensino em nossas escolas e dos índices ainda elevados de evasão e reprovação escolar. Por outro lado, em períodos eleitorais, lemos frequentemente em jornais, re- vistas e outros veículos da mídia a afirmação de que a educação brasileira se en- contra em fase de avanço e expansão. O acesso à escola é hoje garantido a noventa e sete porcento da população segundo dados de Claudia Costin, Ex-ministra da Administração Federal e Reforma do Estado: Uma avaliação dos avanços no ensino fundamental no País poderia levar-nos a pressupor que o Brasil tenha progredido como deveria no campo da educação. Essa primeira impressão não poderia ser diferente, na medida em que o acesso à educação se tornou uma realidade para mais de 97% das crianças brasileiras. A universalização do ensino na faixa de 7 a 14 anos permitiu, realmente, que uma legião de excluídos tivesse pela primeira vez a oportunidade de frequentar uma sala de aula (COSTIN, 2006, p. 15). 43 Nesse sentido, concordo com a ex-ministra: em uma análise superficial e movida por uma primeira impressão podemos crer que o país progrediu no campo edu- cacional. No entanto, proporcionar o acesso à escola, não garante a continuidade dos estudos, não significa proporcionar o direito à educação, à qualidade de en- sino e à cultura em geral. A princípio, minha afirmação pode parecer descabida, visto que as funções esperadas da escola são estas citadas acima. Mas, o que quero ressaltar neste contexto é um papel desempenhado pela ins- tituição escolar, que não pode ser observado à primeira vista. Quero lhe mostrar seu papel de reprodutora e produtora da marginalização. E a didática, caro(a) aluno(a), é parte fundamental deste processo de exclusão. Primeiro, gostaria de esclarecer que estou utilizando o termo “marginaliza- do” no sentido literal da palavra; como aquele que está a margem, ou seja, fora, excluído do direito à educação. Com isso, pretendo analisar junto com você, qual é o papel da escola e da didática na produção e reprodução da exclusão educa- cional. Para isso, nos fundamentaremos principalmente na própria história da educação brasileira. DIDÁTICA 44 A luta pela democratização da escola é bas-tante antiga em nosso país. De acordo com Gadotti (2006), ela inicia-se na fase de 1930 em que o ensino oligárquico (na qual a Igreja detinha o monopólio da educação) estava sendo questionado pelos pioneiros da educação que reivindi- cavam uma educação fundamental, universal e laica. O direito de todos à educação decorria de uma reorganização social, que se opunha ao Antigo Re- gime e era representada por uma nova classe que se consolidara no poder: a burguesia. Para garantir a construção de uma sociedade democrática e superar a opressão do Antigo Regime, era necessário comba- ter a ignorância. Só mediante as instruções de uma cultura letrada era possível transformar os súditos em cidadãos, “redimindo os homens de seu duplo pecado histórico: a ignorância, miséria moral e a opressão, miséria política” (GADOTTI, 2006, p. 22). Nesse contexto, Saviani (2009) afirma que a marginalidade era identificada pela ignorância. É marginalizado da nova sociedade aquele que não é esclarecido. Assim, a escola surge como a cura para a falta de conhecimento e como tal, é apontada como solução para o caso da exclusão. Para isso, ela deve- ria promover a igualdade por meio da instrução, da transmissão dos conhecimentos acumulados pelos homens ao longo da história da humanidade. A escola que aqui estamos apontando adotou a didática da pedagogia tradicional para dar conta de suas funções. Nesse momento vocêpode estar se perguntando: por que devo estudar uma teoria, ou método didático do passado, que nem se aplica mais? A Didática Tradicional EDUCAÇÃO FÍSICA 45 Justamente porque caro(a) aluno(a), esse modelo ou paradigma educacional ainda é utilizado e não foi superado em muitas escolas. Cabe ressaltar ainda que um método não influencia apenas a escola. De acor- do com Behrens (2009), os paradigmas, ou modelos escolares, influenciam as organizações familiares, re- ligiosas e sociais. Assim, são formadores de atitudes, valores e crenças que norteiam as relações humanas. Na realidade, os paradigmas afetam todas as so- ciedades e principalmente a educação. No entanto, eles não são substituídos de forma linear, ou seja, trocados sempre que encontramos uma teoria nova. Eles vão sendo construídos e acabam se relacionan- do com novos pressupostos e novos referenciais que caracterizam a sociedade. Muitos segmentos profis- sionais adotam os métodos didáticos da escola. Entre esses profissionais encontramos empresários, políti- cos e comerciantes que fundamentam seus discursos e propostas nos paradigmas escolares. Portanto, ao conhecermos um modelo didático, estamos ana- lisando mais do que teorias de ensino. Estamos na realidade, refletindo sobre os valores, as atitudes e as crenças que fundamentam uma sociedade. Dito isso, podemos retomar nossa reflexão a res- peito da didática tradicional. De acordo com essa te- oria, o professor é considerado o centro do processo educativo. Sua função é transmitir o conhecimento por ele retido e aos alunos cabia assimilar. O mé- todo escolhido para fixação da aprendizagem era a memorização, repetição e imitação. Considerava-se compreendido o conteúdo quando o aluno era capaz de repeti-lo, tal como lhe foi ensinado. Behrens (2009, p. 41), esclarece que: O compromisso social dessa escola é a repro- dução da cultura. Caracterizada pela disciplina rígida tem como finalidade ser agência sistema- tizadora de uma cultura complexa e funciona como local de apropriação do conhecimento, por meio da transmissão de conteúdos e con- frontação com modelos e demonstrações. A es- cola é reprodutora dos modelos e apresenta-se como único local em que se tem acesso ao saber. Dessa maneira, a escola se apresenta como o único lugar em que a educação acontece. Diferentemente das discussões feitas na primeira unidade, a pers- pectiva tradicional de ensino não reconhece os co- nhecimentos prévios dos alunos. Suas experiências e vivências não são aceitas como saber, porque o único detentor do conhecimento é o professor. Essa concepção criou na escola um ambiente austero, conservador e cerimonioso. Nesse ambiente, o papel do professor era apre- sentar o conteúdo para seus alunos. No entanto, esse conteúdo não era construído junto com o aluno nem modificado por seus conhecimentos prévios. Ele era considerado pronto e acabado e por isso, não podia ser questionado nem contrastado com a realidade. Para ensinar, o professor devia repassar as informa- ções para o aluno da mesma forma que se encontravam nos livros. Assim, eles poderiam repetir e reproduzir de acordo com o modelo correto. Essa forma de ensino criava uma relação autoritária entre o professor e os alu- nos. O professor devia ser severo e rigoroso, mantendo um diálogo objetivo e profissional com os discentes. DIDÁTICA 46 Mizukami (2009, p. 13) ilustra da seguinte for- ma a figura docente: “Distante dos alunos, procura discipliná-los na sala de aula em nome da obediên- cia, da organização e do silêncio. Apresenta os con- teúdos de maneira fragmentada, com uma organi- zação em partes, enfocando o conhecimento como absoluto e inquestionável.” Diante dessa postura do educador, não fica difí- cil definir o papel do aluno. O aluno, no paradigma tradicional era um ser passivo e receptivo. Para isso, deveria obedecer sem questionar e realizar as tarefas solicitadas pelo professor. Aliás, essa é a função pri- mordial do aluno no processo educativo: realizar as tarefas sem questionar seus objetivos e finalidades. O aluno era visto como um miniadulto que deveria ser instruído para assimilar os conhecimentos pro- postos. Essa descrição de aluno nos remete a análise de Freire. O filósofo denominou a educação tradicional como educação bancária. Isso se deve ao fato de que o aluno passava a maior parte do seu tempo esco- lar sentado em um banco ouvindo passivamente o conteúdo exposto pelo professor. Ele denuncia que nessa abordagem a criança torna-se um depósito de informações, de conhecimentos e de fatos. Sempre que revejo a opinião de Freire, me vem à mente a imagem de uma criancinha, sentada em uma car- teira e com uma grande gaveta no lugar da cabe- ça. Enquanto ensina, o professor enche essa gaveta com muitos livros. Quando ele termina, basta fe- char a “gaveta-cabeça” e o aluno aprendeu. Quando a criança precisa dos conhecimentos armazenados, como no caso de uma prova, basta abrir a gavetinha cerebral e usar o necessário. Fácil não é? Não, ca- ro(a) aluno(a). Não é nada fácil aprender assuntos que não fazem sentido algum para nossas vidas. E mais difícil ainda é passar por provas ou avaliações desses conteúdos. As avaliações, por vezes, eram realizadas por bancas examinadoras, que questionavam o aluno oralmente. De outro modo, eram realizadas verifica- ções de aprendizagem, na qual o aluno deveria resol- ver os exercícios de acordo com o modelo ensinado em classe. Na construção hierarquizada das relações dentro dessa concepção, a disciplina era fundamental para criar um ambiente propício à concentração. E para garantir um modelo ideal de comportamento (o aluno receptivo) usavam-se castigos morais e físicos. Embora hoje nos pareça absurdo, os castigos físicos eram recursos aprovados pela metodologia tradicional. Era comum encontrar crianças isoladas do restante da classe escrevendo cem vezes alguma norma de comportamento como: devo obedecer ao professor. Outra prática frequente era ajoelhar os alunos em grãos de milho ou feijão. Acreditava-se que a dor era um excelente condicionador do com- portamento. Por isso, também utilizavam o recurso da palmatória. Aplicar a palmatória consistia em ba- ter na mão do aluno com uma régua. Normalmente, esse castigo era aplicado aos alunos que não faziam tarefas. E as suas tarefas, caro(a) aluno(a), estão fei- tas? Calma, felizmente, mesmo nas escolas tradicio- nais da atualidade, castigos físicos e morais são com- pletamente proibidos! EDUCAÇÃO FÍSICA 47 Logicamente que a metodologia tradicional não se baseava apenas em castigos. Ela também englo- bava a organização do ensino, o planejamento das aulas e os objetivos de ensino. As aulas tradicionais se baseavam enfatica- mente na exposição e na demonstração que o pro- fessor realizava para a classe. Dito de outro modo, o professor falava, ou discursava para a turma o assunto a ser ensinado. A matéria podia ser acom- panhada nos livros didáticos e para garantir a aprendizagem solicitava-se a prática de exercícios. Primeiro o professor demonstrava como resolver a atividade e o aluno depois de copiar o modelo passado no quadro, praticava sozinho. Essa práti- ca era suficiente para a aprendizagem. E, mesmo que não fosse, na abordagem tradicional, a ênfa- se no ensinar, não obrigava necessariamente em aprender. Myzukami (2009, p. 15) nos explica melhor sobre a relação de ensino e aprendizagem na es- cola tradicional: “A reprodução dos conteúdos feita pelo aluno de forma automática e sem va- riações, na maioria das vezes é considerada como um poderoso e suficiente indicador de que houve a aprendizagem e de que, portanto, o produto está assegurado.” O produto assegurado pela autora refere-se aos conteúdos ensinados. Para buscar a aprendizagem,as fórmulas prontas, a ordem e a repetição eram fundamentais para a metodologia tradicional. A au- toridade do professor também era um instrumento poderoso, pois servia de guia e orientação para os alunos. Como fator motivacional o professor deve- ria valorizar o comportamento dos alunos, a disci- plina e a obediência. Parte da preocupação com a aprendizagem im- plicava em organizar a matéria de forma sequencial e ordenadamente. Os conteúdos eram desvinculados das outras disciplinas e precisavam ser ensinados de acordo com a sequência estabelecida. Essa sequên- cia era estabelecida de modo a facilitar a memoriza- ção: fator primordial da aprendizagem. No entanto, essa concepção de escola começou a denunciar, rapidamente, sinais de crise. A rejeição pela rígida disciplina exigida e pela prática de casti- gos provocou inúmeras críticas. Consequentemente, o número de alunos evadidos mobilizou a reflexão de professores e intelectuais a repensar tais postu- ras. Logo se concluiu que a referida escola, além de não conseguir realizar a universalização do ensino, teve de se curvar diante do aumento da exclusão de crianças que não se “ajustavam” ao modelo de aluno desejado. Segundo Behrens (2009), as críticas formuladas à Escola Tradicional a partir do final do século XIX foram, aos poucos, dando origem a uma outra teoria da educação. Essa teoria mantinha a crença no po- der da escola de garantir a equalização social e dessa forma poderia corrigir o fenômeno da marginalida- de. Se a Escola Tradicional vinha ser demonstrando inadequada para tal função, uma escola com carac- terísticas opostas poderia ser eficaz. Toma corpo, então, uma ampla reforma do ensino, baseada nas concepções da didática escolanovista. DIDÁTICA 48 Behrens (2009) afirma que a didática da Es-cola Nova foi adotada no Brasil, por volta de 1930. Sua teoria se fundamentou nas ideias de Rogers, Montessori e Piaget. A principal característica desse paradigma é apresentar-se como um movimento de rejeição à didática tradicional. Para isso, busca embasar sua teoria nos estudos da biologia e da psicologia. Parte dos pressupostos desse método é a modi- ficação da aparência da escola. Como rejeição à es- cola séria e taciturna que castiga crianças, a Nova Escola deve imprimir um efeito contrário. Para tal, o espaço escolar precisa acolher o aluno. Sendo assim, as paredes assumiram cores alegres, com ilustrações atrativas e cartazes coloridos. As carteiras não preci- savam mais ser dispostas em fileiras e sim em círcu- los, grupos ou duplas. O aluno precisa sentir-se bem na escola e para tal a relação com o professor perde seu caráter hierarquizado para centrar-se na figura do aluno. Com o desenvolvimento de estudos nas áreas de biologia e psicologia, a meta fundamental passa a ser a compreensão de como a criança aprende e o reconhecimento das diferenças individuais entre os alunos. Essa tendência escolanovista provoca profundas mudanças no ensino. Os interesses pessoais de quem aprende passa a fazer parte dos conteúdos escolares e aos poucos a instituição escolar se “aproxima” mais da realidade dos alunos. O ensino conteudista tam- bém perde espaço para o desenvolvimento de sen- timentos comunitários e para a preocupação com a formação das crianças para uma vida democrática. A Didática da Escola Nova EDUCAÇÃO FÍSICA 49 Nesse sentido, o eixo do processo ensino-apren- dizagem é deslocado da figura do professor para a figura do aluno. Se anteriormente o professor era o principal sujeito do ensino, na Escola Nova o papel principal nos processos de ensino é do aluno. Afinal, são os seus interesses e necessidades que darão rit- mo e significado ao trabalho pedagógico. Mizukami (2009, p. 45) esclarece que: O foco da prática educativa passou a ser a criança. A formação de atitudes exige um clima favorável para estabelecer uma mudança den- tro do indivíduo. Com uma forte influência da psicologia do autodesenvolvimento, a meta real passou a ser a realização pessoal do aluno. Para alcançar a meta descrita acima, o método de aprendizagem passa a basear-se no interesse espon- tâneo e natural da criança pela aprendizagem. Cada aluno precisa ser respeitado em seu nível de desen- volvimento e em seu tempo pessoal de assimilação do conteúdo. De forma contrária à Escola Tradicio- nal, o conteúdo não é mais exposto pelo professor, a busca pela aprendizagem deve ser baseada nas ne- cessidades e interesses pessoais de cada aluno. Nesse sentido, o professor é apenas um colaborador, um incentivador da busca pelo saber. Em seu papel de incentivador, o professor deve auxiliar o desenvolvimento livre e espontâneo do aluno. Para isso, sua relação com a classe precisa ser positiva, acolhedora e fundamentada principalmen- te na democracia. O docente não precisa, e nem deve dirigir os estudos discentes, sua função é orientá-los e aconselhá-los em suas próprias buscas e curiosi- dades. Qualquer tentativa de instrução poderia ser prejudicial ao movimento de descobertas próprias dos alunos. Desse modo, a missão educativa do professor era a de apenas organizar e coordenar as atividades de interesse dos alunos. Para isso, cada professor tinha autonomia, inclusive em relação ao currículo, para criar seu próprio repertório de temas e assuntos. Lo- gicamente que estes precisavam ser autênticos para se relacionarem com o caráter individual de cada aluno. Já os alunos, não são mais vistos como adultos em miniatura e são tratados em suas particularida- des. Tornam-se seres únicos com necessidades indi- viduais. Eles também são os principais agentes do ensino. São, inclusive, responsabilizados pela pró- pria aprendizagem. Precisam descobrir sozinhos os caminhos e as experiências necessárias para a busca do conhecimento. Aliás, a experiência é o principal fator que leva a aprendizagem. Por meio dela o aluno passa a ser um sujeito ativo, independente e com liberdade para descobrir e aprender. Negando o conceito tradi- cional, de aluno ouvinte, o discente da escola nova aprende de maneira ativa e desenvolve iniciativa própria. Nesse novo processo de ensino, a autodetermi- nação e o autodesenvolvimento são os objetivos centrais. Por isso, ao invés de apresentar o conteúdo pronto e acabado para o aluno, o professor deve ins- tigar a aprendizagem mediante a resolução de pro- blemas, de questões instigadoras e motivadoras. No entanto, a resolução dos desafios deve ser feita no rit- DIDÁTICA 50 mo do aluno. Ou seja, o professor precisa respeitar o grau de maturidade e desenvolvimento de cada um. Pois, ao invés de valorizar os resultados obtidos, deve avaliar o real envolvimento e participação do edu- cando na busca por conhecimento. O principal prin- cípio norteador dessa tendência didática é o respeito à personalidade do aluno e de suas diferenças pesso- ais. Apregoa ainda que cada um deve se desenvolver de acordo com suas capacidades e esforço individual. Para dar conta desses princípios, o professor pre- cisava ter uma metodologia muito ampla e “aberta”. Dessa forma seria possível lidar com os diferentes interesses dos alunos, seus ritmos de trabalho e de desenvolvimento. Mas, algumas características gerais deviam ser observadas. De acordo com a idade, ou faixa etária de cada um, certas capacidades e habilida- des intelectuais deveriam estar prontas. Uma habili- dade bastante exigida era a competência de trabalhar em grupo e em atividades livres. O objetivo desses trabalhos era avaliar as atitudes dos alunos e verificar traços da personalidade e do caráter dos alunos. Para avaliar esse desenvolvimento a escola nova dispensava as provas formais e centrava-se na autoa- valiação. A função dessa prática avaliativa era verifi- car e estabelecer metas pessoais. Paratanto, as padro- nizações de ideias e ideais eram desprezados. Pois, conforme nos indica Mizukami (2009, p. 56) “o alu- no, consequentemente, deveria assumir responsabili- dades pelas formas de controle de sua aprendizagem, definir e aplicar os critérios para avaliar até onde es- tão sendo atingidos os objetivos que se pretende”. Os conhecimentos produzidos pela biologia e pela psicologia reforçavam a validade e importân- cia desse modelo avaliativo. Mas, os resultados des- sa prática trouxeram a baila uma questão nova para a escola, as crianças e alunos “diferentes”, que não aprendem de forma “normal”. Essa questão é de- senvolvida pelo escolanovismo como uma busca de aceitação da anormalidade, como uma necessidade de tolerar o diferente. Para Saviani (2009, p. 7), for- ja-se assim, “uma pedagogia que advoga um trata- mento diferencial a partir da descoberta das diferen- ças individuais. Eis a ‘grande descoberta’: os homens são essencialmente diferentes; não se repetem; cada indivíduo é único” (SAVIANI, 2009, p. 7). Sendo cada ser humano único e individual, pressupõe-se que cada um aprenda a sua manei- ra. No entanto, a escola ainda não sabe o que fazer com aqueles que dotados de alguma incapacidade não conseguem aprender. Segundo esse princípio, a marginalidade deixa de ser vista sob o ângulo da ignorância, isto é, a falta de conhecimentos e passa a figurar o anormal, o rejeitado. Portanto, Saviani (2009) nos aponta que os mar- ginalizados da Escola Nova, são os “anormais”, os de- sajustados. No entanto, essa “anormalidade” não deve EDUCAÇÃO FÍSICA 51 ser encarada como um aspecto negativo, mas sim- plesmente como uma diferença. Dessa forma, a edu- cação conseguirá ser um instrumento de equalização social e de correção da marginalidade, na medida em que conseguir adaptar estes sujeitos à sociedade, in- cutindo neles o sentimento de aceitação pelos demais. Esse tipo de escola descrito, não conseguiu alte- rar significativamente o quadro da educação brasi- leira. Além de outras razões, essa metodologia im- plicava em custos elevados e com isso a Escola Nova organizou-se em raros núcleos de escola experimen- tais e de iniciativa privada. Estes, no entanto, muito bem equipados, com reduzidos número de alunos em sala, apenas atenderam a uma pequena parcela da população: a elite. É necessário destacar que as consequências que esta concepção didática trouxe para a educação fo- ram mais negativas do que positivas, conforme nos esclarece Saviani (2009, p. 9): A Nova Escola acabou provocando um afrou- xamento da disciplina e despreocupação com a transmissão dos conhecimentos, acabou a ab- sorção do escolanovismo pelos professores, por rebaixar o nível de ensino destinado às camadas populares, as quais muito frequentemente têm na escola o único meio de acesso ao conheci- mento elaborado. Em contrapartida, a Escola Nova aprimorou a qualidade de ensino desti- nado às elites (p.9). Vê-se assim, que em lugar de resolver o proble- ma da marginalidade e da exclusão, a Nova Esco- la o agravou. Ao enfatizar a necessidade de melhor qualidade de ensino para manter crianças e jovens no interior da escola, o escolanovismo deslocou a discussão e a preocupação política do campo social para o campo didático, cumprindo uma dupla fun- ção. Conteve a expansão da escola para todos, visto que sua aplicação implicava em veicular mais verbas para a educação e desenvolveu um tipo de ensino adequado aos interesses da classe dominante. Assim sendo, ganhou força social a ideia de que é melhor uma boa escola para poucos do que uma escola de- ficiente para muitos. Após a primeira metade do século XX, a Esco- la Nova já apresentava sinais visíveis de decadência. O fracasso dessa teoria provocou nos meios educa- cionais uma preocupação didática excessiva com os métodos pedagógicos adequados e os instrumentos eficientes para o ensino. Articulava-se, com isso, uma nova teoria educacional: a Pedagogia e a Didá- tica Tecnicista. No entanto, antes de iniciarmos nossa análise sobre a didática tecnicista, gostaria que você conhe- cesse um pouco mais sobre uma antiga disputa entre Escola Tradicional versus Escola Nova. Leia o artigo abaixo de Rogério Miguel Puga, especialista em mé- todos didáticos. 52 LEITURA COMPLEMENTAR Escola nova e escola tradicional – Reflexões por entre rupturas e continuidades É já longo o debate, quer em termos de prática pedagó- gica quer em termos ideológicos, em torno das motiva- ções e objectivos das mudanças estruturais nos sistemas de ensino de todo o mundo. Os conceitos “escola nova” e “escola tradicional” têm vindo a ser estudados, sobre- tudo, desde o final do século XIX, a partir das obras de Preyer, Dewey e Ferrière, entre outros. No entanto, a ca- minhada foi longa. Já após a formação dos colégios dos Jesuítas, desde os séculos XVII-XVIII, e fruto da Revolução Científica, o dis- curso racionalista se tornara o discurso educativo da Re- forma e Contra-reforma. Conforme ilustra Ariès (1973, 184 - 185): “on s? efforce de pénétrer la mentalité des enfants pour mieux adapter à leur niveau les méthodes d? education”. Tornar o Homem mais racional é um pro- jecto iluminista, mas será apenas com a Educação Nova, reflexo, não só mas também, de diversas leituras de Rou- sseau (CANDEIAS, 1995, 14 - 15) que se “desenfaixa” a criança, cuja epistemologia se tenta conhecer cada vez mais, alterando-se, igualmente, a relação professor-alu- no. Rousseau afirma em Émile: “A criança recém-nascida tem necessidade de se entender e mexer” (76). É esta mesma acção/actividade que a “Escola nova” virá defender, afas- tando-se das concepções tradicionalistas da educação, menos dinâmicas e libertárias. As concepções pedagó- gicas alteram-se e vão-se atenuando imagens como os castigos corporais presentes, por exemplo, em Manhã Submersa de Vergílio Ferreira. Surge uma nova visão da criança/aluno, sendo o experimentalismo a legitimação científica do processo ensino-aprendizagem, originando modelos como os da escola de Summerhill, em que o professor, segundo Aguayo (1970, p. 63) deve “estimu- lar e dirigir discretamente o processo de aprendizagem”, atenuando a competição gratuita e negativa. Os métodos activos do professor-orientador substituem gradual e dificilmente, os métodos passivos da “educa- ção por modelos”, que, através da centralização no pro- fessor que dita, reproduz e perpetua valores vigentes e integra o aluno na sociedade de uma forma passiva. A criança passa, então, a ser o Homem livre no seio de uma escola de massas que se tornou a regra. No entanto, a nova escola relaciona-se com a vida e experiências pes- soais do aluno que é levado a entender e trabalhar ma- térias de uma forma crítica, numa escola que se deseja cada vez mais aberta e onde a individualidade e a voz de cada um se possa fazer ouvir de uma forma diferente. Bartolomeis (1984, p. 159) afirma a este respeito: “tirai à escola este carácter criador, esta atmosfera de coisas novas e interessantes (mesmo para o professor) e, em seu lugar só podereis encontrar tédio e desapontamen- to [...] um dever sem inspiração nem entusiasmo”. Há, portanto, que envolver o aluno holisticamente sem des- virtualisar o ensino. A motivação, a criatividade e a metacognição, quer do aluno quer do professor, as competências cognitivas e a autonomia devem ser levadas em conta na consecução 53 LEITURA COMPLEMENTAR do processo de ensino aprendizagem, daí a importância de repensar o papel de teorias como as de Piaget nes- te mesmo processo (SPRINTHALL s/d; CANDEIAS, 1994). É neste contexto ? o conferir uma maior autonomia ao aluno - que são teorizados e estimulados doismodelos didácticos não directivos: o do ensino pela descoberta (aprendizagem construtiva) e o do ensino por exposição (aprendizagem reconstrutiva ou significativa), com o fim de se atingirem determinados objectivos ao centralizar a aula, enquanto momento de (re)descoberta, cada vez mais, no aluno. No entanto, a “educação tradicional” não é apenas “cardos” e nem tudo se apr(e)ende apenas atra- vés da descoberta ou da experiência. O professor, en- quanto mediador de conhecimentos e saberes, deverá fazer uso de um know how/why que faça sentido ao alu- no, sem cair num “facilitismo” que entorpece, e no qual a avaliação formativa se pode, facilmente, tornar. Confrontando a teoria com a prática, poderemos afirmar que as mudanças conjunturais e estruturais levam o seu tempo, exigindo dos professores um posicionamento crítico e uma responsabilidade diferente perante os pro- cessos de ensino-aprendizagem e de socialização. Talvez o ideal seja a descoberta de um meio termo, cabendo ao docente fazer uso da sensibilidade e do bom-gosto para que haja flexilibilidade e oportunidade para o aluno se tornar mais responsável e consciente da sua apren- dizagem. Como afirma Candeias (1994, p. 475): “não são os métodos de ensino que fazem com que uma criança seja um ser activo, a criança é em si um ser activo ? será a própria significação que a criança consegue conferir àquilo que ouve, consequência de uma série de factores, entre os quais se destaca a forma como o professor con- segue estruturar e transmitir os conteúdos do ensino”. A dicotomia “Escola Tradicional/Nova” perde, então, algum do seu sentido quando temos em consideração a teoria piagetiana de que qualquer ser vivo é inatamente activo (CANDEIAS, 1994, p. 484). Há pois que repensar a Escola, transformá-la e adaptá- -la de uma forma contínua. Os dois conceitos de escola de que esta reflexão partiu podem contribuir para clari- ficar posições que não devem ser extremas quando se separa o trigo do joio, pois os princípios de uma didácti- ca activa/ecléctica são vários em qualquer estilo de ensi- no, pelo que o aluno ao desenvolver a sua mentalidade científica deverá ser motivado a aprender com afecto, e de uma forma o mais livre possível. É por aí que passa também a democratização do ensino e da própria Esco- la. A pluralidade e a diversidade devem ser constantes numa Escola Nova (NÓVOA, 1988, 9) que deve adaptar dos modelos educativos disponíveis as estratégias mais adequadas aos seus alunos, para que possa cumprir, de forma eficaz, as suas funções. Tal como as Educações Tradicional e Nova o foram a seu tempo, há que tomar atitudes cautelosas em relação aos problemas educati- vos e sociais dos tempos que vão mudando, tal como as vontades. Rogério Miguel Puga Disponível em: <http://www.apagina.pt/?aba=7&ca- t=100&doc=8325&mid=2>. Acesso em: 25 abr. 2012. DIDÁTICA 54 No final do “século XIX e começo do sé-culo XX, o pensamento social era enor-memente influenciado pelo positivismo” (GADOTTI, 2006, p. 55). Conhecemos por positivismo, a doutrina formulada pelo filósofo social Auguste Comte. Entre os principais princípios dessa doutrina podemos encontrar: • A ideia de que as ciências sociais devem co- nhecer as leis gerais do comportamento hu- mano. • A ênfase na quantificação e a rejeição de to- das as explicações baseadas em intenções pessoais ou em fatos subjetivos. Inspirada nesses e em outros princípios positivistas, como a racionalidade, eficiência e produtividade, a didática tecnicista pretendia atribuir à instituição escolar um caráter neutro, na qual o processo edu- cativo fosse reordenado para torná-lo operacional e objetivo. Para compreendermos esse processo, não podemos nos esquecer de refletir sobre as últimas consequências provocadas pela didática da Escola Nova. Vimos anteriormente que a interpretação errô- nea de seus princípios provocou uma desorganiza- ção dos processos de ensino. Norteados pelo prin- cípio da descoberta individual dos alunos, a grande maioria dos professores deixou de instruir e orientar os discentes em relação aos conteúdos e matérias do currículo. O próprio currículo “obrigatório” podia ser deixado de lado em nome da curiosidade e do interesse espontâneo do aluno. A Didática Tecnicista EDUCAÇÃO FÍSICA 55 Para reordenar os processos de ensino e apren- dizagem, buscou-se operar no trabalho pedagógico uma organização racional, que minimizasse as in- terferências sociais na educação sem colocar, com isso, em risco sua eficiência. Para tal, era necessário mecanizar os processos de ensino e padronizá-los. Para tanto, era imprescindível baixar instruções minuciosas de como proceder em sala de aula, como atender aos pais, como tratar o aluno, enfim, era ne- cessário expor as técnicas de ação para cada um dos agentes da escola para que as tarefas fossem cum- pridas com êxito. No entanto, nada disso era feito pelo professor ou pela comunidade escolar. Técnicos e especialistas, em sua maioria americanos, foram contratados para determinar cada passo a ser dado nas instituições escolares. No âmbito do ensino, os planejamentos foram esquematizados e previamente formulados para ajustarem-se às diferentes modali- dades de disciplinas e práticas didáticas. O controle de todo esse processo era feito a partir do preenchi- mento de formulários, o que provocou a burocrati- zação e a massificação do ensino. Sendo assim, o foco do ensino foi deslocado mais uma vez. O elemento principal não era nem o professor (como na escola tradicional), nem o aluno (como na escola nova). Mas sim a técnica, ou seja, a organização racional e esquematizada dos meios adequados para a aprendizagem. Essa forma tecnicista de ensinar, organizou as áreas do conhecimento de forma fragmentada e separada. As disciplinas propostas pelo currícu- lo deixavam mais uma vez de ter relações entre si. Consequentemente, o saber adquirido pelos alunos também era compartimentalizado e dividido. As- sim, o ensino e a aprendizagem deixaram de formar um todo contínuo e coeso para se tornar um siste- ma fechado e vazio. De acordo coma as palavras de Behrens (2009, p. 48) “a ênfase da prática educati- va recaiu na técnica pela técnica”. Mais importante do que dominar um saber necessário, era conhecer a técnica para determinada coisa e saber aplicá-la. Voltamos com isso, para o período de reprodução do conhecimento. Dentro dessa perspectiva de ensino, o papel da escola na tendência tecnicista era o de “treinar” os alunos. Esse treino também servia para “modelar” o comportamento dos alunos, de acordo com as ne- cessidades do mercado de trabalho. Vale ressaltar aqui que este foi um momento muito propício para o desenvolvimento dessa didática, visto que a Revo- lução Industrial provocou muitas mudanças sociais e econômicas. Mizukami (2009, p. 28-29) define a função escolar desse período da seguinte forma: “à educação escolar compete organizar o processo de aquisição de habilidades, atitudes e conhecimentos específicos, úteis e necessários para que o indivíduo se integre na máquina do sistema global”. A sociedade industrial e capitalista exigiu da es- cola a formação de homens capazes de participarem do sistema produtivo em massa. Para isso, transpôs para a instituição escolar a forma de funcionamento e as exigências de uma fábrica, perdendo de vista a ação educadora como um todo. Nessa “fábrica escola” o papel do professor era o de verificar se os educandos tinham as competên- cias necessárias para aplicar e desenvolver diferentes técnicas. Caso não tivessem, caberia a ele encontrar soluções adequadas e capazes de modificar o com- portamento atual do aluno. Os manuais técnicos do períodoindicavam que o estímulo e o reforço eram suficientes para melhorar todas as “performances”. O aluno, por sua vez, retomou seu papel de mero espectador frente à realidade. O ideal de co- nhecimento se resumia em possuir respostas pron- DIDÁTICA 56 tas e corretas. Estas habilidades eram um indicativo de competência e eficácia. Quesitos indispensáveis para o trabalho fabril, não é? Pode ser, mas para a educação, implicava em anular, em ser privado de qualquer tipo de senso crítico. Mas, para seguir à risca os manuais e instruções, não havia necessidade alguma de criticidade. A metodologia de ensino da didática tecnicista se baseava no treino. Com isso, o ensino tornou-se repetitivo e mecânico. A retenção do conteúdo era garantida pela prática. Não pela prática real ou de vivência, mas sim, pela prática contínua de exercí- cios e de repetições. Berhrens (2009, p. 50) reforça, afirmando: A transferência da aprendizagem depende do treino; é indispensável a retenção, a fim de que o aluno possa responder às situações novas de forma semelhante às respostas dadas em situ- ações anteriores. A ênfase na repetição leva o professor a propor cópia, exercício mecânicos e premiações pela retenção do conhecimento. Podemos notar, por meio das palavras da autora, que a didática tecnicista valoriza a resposta do aluno, es- pecificamente a resposta correta. Essa característica nos mostra que o erro devia ser repreendido com rigor. Isso porque, para essa metodologia, o erro não faz parte da aprendizagem, pelo contrário, ele indica incompetência e incapacidade. Outra característica dessa concepção é o desenvolvimento das discipli- nas teóricas e depois as teorias. Priorizava-se a teoria para que depois, o aluno fosse capaz de aplicá-la na prática. O distanciamento entre a teoria e a prática, provocou sérios problemas na formação acadêmica. O grande destaque da escola tecnicista se deu na área do planejamento. As atividades deviam ser organizadas mediante objetivos, conteúdos, procedi- mentos, recursos e avaliação. A descrição desses ele- mentos, além de organizar o trabalho pedagógico e melhorar sua qualidade, garantia também o controle do trabalho do professor com o aluno. Sendo enten- dido como um instrumento de controle, o planeja- mento não podia ser alterado no decorrer do proces- so de ensino. Era preciso segui-lo à risca e colocá-lo fielmente na prática. A capacidade de seguir e prati- car o planejamento na íntegra servia ainda como um instrumento de avaliação da competência docente. Já o aluno, era avaliado em duas etapas: um pré- -teste no início do conteúdo e um pós-teste, no final da matéria. O objetivo do pré-teste era verificar como o aluno entrou no início da aprendizagem, quais competências e habilidades já possuíam. O pós-teste, servia para confirmar o quanto o aluno evoluiu na aprendizagem e demonstrava também se o processo de ensino havia se desenvolvido de modo competen- te o bastante para atingir os objetivos planejados. Para participar dessas avaliações, o aluno precisa- va contar apenas com uma boa memória. Capacidades intelectuais de análise, síntese, comparação e críticas não faziam parte das competências a serem desenvol- vidas junto com os alunos. Embora fosse exigido dos discentes apenas boa memória e capacidade de reten- ção, segundo nos informa Mizukami (2009), a didáti- ca tecnicista ocasionou um alto índice de reprovação. A seguir, a autora nos aponta outras consequências acarretadas pela concepção tecnicista de ensino: Outro risco que o educando poderia correr é de que o educador(a) tente transformá-lo em um repetido de seu trabalho. Um verdadeiro edu- cador evitaria, a qualquer custo, transformar seus educandos(as) em indivíduos canalizados como objetivos que, por sua vez, irão reproduzir a obra, objetivos e aspirações da tentativa cien- tífica do educador (MIZUKAMI, 2009, p. 79). EDUCAÇÃO FÍSICA 57 A teoria pedagógica descrita produziu a especiali- zação do saber. Com isso, o conhecimento foi frag- mentado em diversas áreas que, por meio de espe- cializações deixaram de formar um todo contínuo e coerente. Nesse sentido, o professor capacitado de- veria ser um técnico ou especialista em seu conteú- do. Essa formação garantia o conhecimento didático necessário de técnicas adequadas para desenvolver a aprendizagem. Se para a Pedagogia Tradicional o foco do en- sino se concentrava na figura do professor e, para a pedagogia nova essa iniciativa se desloca para o aluno, na Pedagogia Tecnicista o elemento principal da didática passa a ser a organização racional dos meios. Assim, professores e alunos ocupam uma po- sição secundária, vistos que estes são meros execu- tores de um processo cuja concepção, planejamento, coordenação e controle ficam a cargo de especialis- tas neutros, objetivos e imparciais. Enquanto na Pedagogia Tradicional o professor decide quando e como ministrar um novo conteú- do, na Escola Nova essa escolha ficou a critério do aluno, de acordo com suas necessidades e interesses pessoais. Já na Pedagogia Tecnicista é o processo que decide o que professores e alunos devem fazer e, as- sim também, quando e como o farão. Compreende-se então que para a Pedagogia Tecnicista a marginalidade não está atrelada à igno- rância nem identificada pelos rejeitados por alguma anormalidade. Para Saviani, marginalizado será o incompetente, ou seja, o ineficiente e improdutivo. A educação estará contribuindo para superar o problema da marginalidade na medida em formar indivíduos eficientes, isto é, aptos a dar sua parcela de contribuição para o aumento da produtividade da sociedade. Assim estará ela cumprindo sua função de equalização social. Nesse contexto teórico, a equalização social é identificada como um equilíbrio do sistema. A marginalidade, isto é, a ineficiência e improdu- tividade, constituem-se numa ameaça a estabi- lidade do sistema. Cabe à educação proporcio- nar um eficiente treinamento para execução das múltiplas tarefas demandadas continuamente pelo sistema social (SAVIANI, 2009, p. 12). Atribuindo à educação o papel de reguladora social por meio de treinamento para as competências exigi- das pelo sistema, a Didática Tecnicista transpôs para a escola o sistema fabril. Com isso, perdeu de vista a especificidade da educação, ignorando que a arti- culação entre escola e a sociedade se dá por meio de complexas mediações. Nessas condições, a pedagogia tecnicista acabou por aumentar a desordem do cam- po educativo, gerando descontinuidade, fragmenta- ção e burocratização do conhecimento que pratica- mente inviabilizou o trabalho pedagógico. Com isso, o problema da marginalidade só tendeu a se agravar em face dos altos índices de evasão e repetência. Após esta passagem rápida e pela história da educação e suas concepções didáticas conservado- ras, nós podemos concluir que o caso da margina- lidade, ou da exclusão de boa parcela da população do ensino de qualidade não foi resolvido. Constata- mos que diante das mudanças didáticas das linhas teóricas que orientaram a educação, nenhuma de- las resolveu o problema, pelo contrário, algumas até agravaram esse processo. Vimos que as modificações pedagógicas provo- caram mudanças no perfil do marginalizado. Na Di- dática Tradicional, o marginalizado era o ignorante, aquele que não é esclarecido e por isso não pode conviver na nova sociedade urbanizada. Para a Di- dática Escolanovista ficaria à margem da educação aquele que por possuir alguma incapacidade não DIDÁTICA 58 aprende. E, finalmente, para a Didática Tecnicista, o excluído é o incompetente, é aquele que não contri- bui para o aumento da produção social. Nesse sentido, gostaria de lhe perguntar: será que a escola, tal como é concebida hoje, pode dar contade promover a igualdade social? O que evidenciamos em comum entre as três correntes didáticas analisadas é a concepção de educação como instrumento de equali- zação social e, portanto, de superação da marginalida- de. Percebemos facilmente que a figura da marginali- dade se altera a partir da forma como as concepções pedagógicas entendem as relações entre educação e so- ciedade. E parece-nos que todas concebem a sociedade como harmoniosa, tendendo a integração de todos os seus membros. A exclusão nesse sentido é um acidente, um desvio que não só pode como deve ser corrigido. A educação nesse contexto surge como instrumento de correção desses desvios, dessas distorções. Como você pôde ver, a didática das pedagogias até aqui expostas, no que diz respeito às relações entre educação e sociedade, concebem a educação com uma ampla autonomia em relação às influên- cias sociais. Tanto que lhe cabe o papel decisivo de evitar a segmentação de seus membros, garantindo a construção de uma sociedade igualitária. Por isso, gostaria de chamar sua atenção e ressal- tar que, falta a essas teorias pedagógicas uma com- preensão crítica da própria sociedade, percebendo-a como sendo marcada pela divisão de classes anta- gônicas, com interesses distintos que se manifestam fundamentalmente nas condições de produção da vida material. Seguindo essa visão, a marginalidade é entendida como consequência da dominação do grupo ou classe que detém maior força, principal- mente de capital, e assim se converte em classe do- minante. Portanto, a consequência é relegar os de- mais à condição de marginalizados. Sendo assim, a exclusão de um determinado grupo ou classe é con- dição da organização da própria sociedade capitalis- ta. Nesse contexto, a educação tem a função básica de reprodução social. Ou seja, ela mantém grande parte do grupo de dominados excluídos educacio- nalmente e, sem conhecimento suficiente, não po- dem exercer uma contra dominação. Nesse sentido, concordamos com Gadotti (2006, p. 100): Querer restaurar a dignidade humana através da escola me parece uma ilusão que não leva em conta o passado e o presente, a história do homem concreto. A pedagogia não-diretiva (conserva- dora) foge do homem histórico para se apagar (como faz o idealismo) a uma natureza humana boa. Sem a referência a um contexto mais amplo, a pedagogia não-diretiva acaba por isolar a práti- ca educativa tornando-a, portanto ineficaz. Se as pedagogias conservadoras, ou não diretivas (como denomina Gadotti), até aqui analisadas não levam em conta o fator histórico do homem e esse fator acaba por tornar a prática educativa ineficaz, o problema continua em aberto. A impressão que nos fica é que passamos de um poder ilusório dado à educação para uma sensação de impotência. Mas, “o aparente fracasso, é na verdade, o êxito da escola: aquilo que se julga uma disfunção é, antes, a função própria da escola” (SAVIANI, 2009, p. 27). Sendo ela instituição reprodutora da sociedade capitalista, necessariamente reproduz e produz a dominação, segregação e marginalização. Nesses termos, gostaria de lhe fazer outra per- gunta: é possível encarar a escola como uma reali- dade histórica, ou seja, passível de ser transforma- da intencionalmente mediante a ação humana? Eu acredito que sim. Mas esse tema será discutido com mais profundidade em nossa terceira unidade. 59 LEITURA COMPLEMENTAR Conheça um pouco mais sobre a história da pedagogia tecnicista lendo o artigo retirado do site: <http://sites.google.com/site/ged0611/tecnicista>. Acesso em: 25 abr. 2012. PEDAGOGIA TECNICISTA A pedagogia tecnicista aparece nos Estados Unidos na segunda metade do século XX e é introduzida no Brasil entre 1960 e 1970, onde proliferou o que se chamou de “tec- nicismo educacional” inspirado nas teorias behavioristas da aprendizagem e da abor- dagem sistêmica do ensino, buscando adequar a educação às exigências da sociedade industrial e tecnológica. Esta educação atua no aperfeiçoamento do sistema capitalista que é ordem social vi- gente, articulando-se diretamente com o sistema produtivo cujo interesse é produzir indivíduos “competentes” para o mercado de trabalho, onde é valorizado, nesta pers- pectiva, não o professor, mas sim a tecnologia. O professor passa a ser um mero espe- cialista, sendo, apenas, um elo entre a verdade científica e o aluno. A prática escolar nessa pedagogia tem como função especial adequar o sistema edu- cacional com a proposta econômica e política do regime militar, preparando, dessa forma, mão-de-obra para ser aproveitada pelo mercado de trabalho. É nesse período que o espírito crítico e reflexivo é banido das escolas. Para esta tendência, o ensino é um processo de condicionamento através do uso de reforçamento das respostas que se quer obter, sendo o conteúdo as informações objetivas que possam proporcionar, ao fim do processo, a adequada adaptação do indivíduo ao trabalho. Os conteúdos de ensino desta tendência são baseados em informações e princípios científicos de leis, estabelecidos e ordenados numa sequência lógico-psicológica, ou seja, eles devem ser mensuráveis eliminando qualquer sinal de subjetividade. Sendo assim, os conteúdos devem estar embasados na objetividade do conhecimento. Seus métodos são programados por passos seqüenciados, empregada na instrução programada, nas técnicas de micro ensino, multimeios, módulos inclusive a programa- ção de livros didáticos. 60 LEITURA COMPLEMENTAR Evidencia-se na relação professor-aluno que o professor administra as condições de transmitância da matéria. O aluno recebe, aprende e fixa não participando do progra- ma educacional e a comunicação entre ambos é puramente técnica, tendo objetivo de garantir a eficácia da transmissão do conhecimento. A avaliação se baseia na verificação do cumprimento dos objetivos propostos. No que diz respeito ao ensino-aprendizagem na tendência tecnicista podemos mencionar a ausência de fundamentos teóricos em detrimento do “saber construir” e saber expri- mir-se. Ou seja, é um processo de sujeição através do uso de reforçamento das respostas que se pretende obter visando o controle da conduta individual diante de objetivos prees- tabelecidos. A orientação sobre esta tendência pedagógica foi dada para as escolas pelos organis- mos oficiais durante os anos 60 e perduram até hoje, em muitos cursos, com a presen- ça de manuais didáticos com caráter estritamente técnico e instrumental. Segundo Libâneo, deduz-se que as tendências pedagógicas liberais, ou seja, a tradicio- nal, a renovada e a tecnicista, por se declararem neutras, nunca assumiram compro- misso com as transformações da sociedade, embora, na prática, procurassem legitimar a ordem econômica e social do sistema capitalista. Já as tendências pedagógicas progressistas, em oposição às liberais, têm em comum a análise crítica do sistema capitalista. 61 considerações finais Nesta unidade, analisamos as diferentes concepções didáticas por meio da história da educação. Nosso intuito foi demonstrar que as transformações sociais ocorridas ao longo do tempo, exigem da escola uma nova postura, com diferentes concepções de ensino, e com novos objetivos a serem alcançados por alunos e professores. O papel da di- dática frente a esses desafios é o de estudar e promover teorias e métodos capazes de garantir o ideal educativo do período. Os métodos estudados nesta unidade descreveram para nós o ideal de profes- sor, de aluno, de avaliação e de método desenvolvidos pelos estudos didáticos em diferentes períodos históricos. Para que você compreenda melhor a concepção didática da escola tradicional, da escola nova e da tecnicista, montei para você uma tabela comparativa. Nela você encontrará os principaistópicos abordados em todos os métodos estudados agora. Espero que você estude e analise essa tabela. Em seguida, procure tirar suas próprias conclusões. 62 considerações finais TABELA COMPARATIVA: Didática Tradicional Didática Escolanovista Didática Tecnicista Histórico Criada para garantir a reprodução cultural da sociedade. Embasada nas teorias de Rogers, Dewey, Mon- tessori e Piaget. Trazida ao Brasil em 1930. Fundamentada na doutrina positivista de Auguste Comte. Escola É o único local apro- priado para a trans- missão de conheci- mentos. Enfatiza o ensino cen- trado no aluno. Deve ser alegre e acolhedora. Tem o papel de treinar os alunos e regular o comporta- mento humano. Professor Detentor do conhe- cimento; constrói relações autoritárias com os alunos. É um facilitador da aprendizagem. Auxilia o desenvolvimento livre e espontâneo do aluno. Planeja e organiza as melhores técni- cas para o ensino eficaz e competente. Aluno Visto como depósito de informações. Mem- oriza sem quetionar os conteúdos. É sujeito ativo que aprende pela descober- ta e por experiências de iniciativa pessoal. Aprender por meio de estímulo e re- forço. É privado de senso crítico e deve seguir à risca manu- ais e instruções. Metodologia Baseada em aulas expositivas. Privilegia a lógica e a memo- rização. Deve por o ritmo indi- vidual de aprendizagem de cada um. Valoriza as experiências pessoais e o trabalho em grupo. Apresenta modelos a serem seguidos. O ensino é repetitivo e mecânico. Avaliação Busca respostas pron- tas. Impede o aluno de refletir e criar. É única e bimestral. Privilegia a autoavaliação e a busca de metas pessoais. Feita em duas etapas. Verifica o aluno antes de aprender e depois. O objetivo é alcançar metas. Fonte: elaborada pela autora. 63 atividades de estudo 1. Vimos nesta unidade, que para ensinar, o professor devia repassar as in- formações para o aluno da mesma forma em que se encontravam nos livros. Assim, eles poderiam repetir e reproduzir de acordo com o modelo correto. A partir dessa informação, explique com suas palavras qual seria o papel do aluno nesse modelo de ensino. 2. A Escola Nova foi adotada no Brasil, por volta de 1930. Sua teoria se fun- damentou nas ideias de Rogers, Montessori e Piaget. A principal caracte- rística desse paradigma é apresentar-se como um movimento de rejeição à didática tradicional. Reflita sobre essa afirmação e demonstre como a metodologia didática da escola nova rejeitou a didática tradicional. 3. A didática tecnicista propunha uma avaliação de aprendizagem baseada em duas etapas. Como se organizavam essas etapas e qual o objetivo de cada uma delas? DIDÁTICA 64 Democratização da escola pública: a pedagogia crí- tico-social dos conteúdos José Carlos Libâneo Editora: Loyola Ano: 1994 Edição: 12ª Número de Páginas: 149 Sinopse: neste livro, o autor desenvolve ideias-chave que orien- tam um fazer pedagógico crítico e auxiliam o professor a dimen- sionar seu trabalho no quadro da escola pública, permitindo pensar criticamente temas de didática, de psicologia da apren- dizagem, de metodologia de ensino. Disponível em: <http://portaldoprofessor.mec.gov.br/cultura. html?idEdicao=58&idCategoria=4>. Acesso em: 24 abr. 2012. História das ideias pedagógicas no Brasil Dermeval Saviani Editora: Autores Associados Edição: 3ª (2010) Páginas: 498 Sinopse: VENCEDOR DO PRÊMIO JABUTI 2008 NA CATEGORIA EDUCAÇÃO, PSICOLOGIA E PSICANÁLISE Resultado de uma ampla pesquisa desenvolvida com apoio do CNPq, o livro aborda a trajetória das ideias pedagógicas no Bra- sil desde as origens em 1549 até os dias atuais. À vista da densi- dade do conteúdo condensado em uma linguagem clara e aces- sível, a obra resulta útil tanto para os especialistas em história da educação como para professores e alunos de pós-graduação e de graduação. Disponível em: <http://www.autoresassociados.com.br/livro/358/ historia-das-ideias-pedagogicas-no-brasil>. Acesso em: 25 abr. 2012. EDUCAÇÃO FÍSICA 65 Assista ao vídeo abaixo e veja um pequeno trecho do filme Tempos Modernos de Charles Cha- plin. Em seguida, reflita sobre a relação desde filme com a Didática Tecnicista. <http://www.youtube.com/watch?v=tcadm3rOWQI>. Vimos que a didática tecnicista se fundamentou nas teorias do positivismo e no behavio- rismo. Assista a apresentação de slide show abaixo e reflita sobre a aplicabilidade dessas teorias na educação. <http://www.youtube.com/watch?v=KWiLzXGJIPA&feature=related>. A DIDÁTICA ATUAL E REAL Professora Me. Ionah Beatriz Beraldo Mateus Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: • A produção do conhecimento e os novos modelos didáticos • Abordagem sistêmica • Abordagem progressista • O ensino com pesquisa • Didática histórico-crítica Objetivos de Aprendizagem • Verificar a existência de teorias didáticas capazes de orientar práticas educativas transformadoras. • Analisar paradigmas educacionais inovadores. • Compreender os fundamentos teóricos e práticos da didática histórico-crítica. unidade III INTRODUÇÃO 68 Para iniciarmos esta unidade, gostaria de retomar uma questão deixada em aberto e de forma proposital em nossa segunda unidade: É possível encarar a escola como uma realidade histórica, ou seja, pas- sível de ser transformada intencionalmente mediante a ação humana? Eu acredito que sim. Essa crença também se manifesta na Pedagogia Libertária fundada a partir do pensamento e da prática pedagógica de Paulo Freire. Sua teoria didática é marcada pela ideia de que a trans- formação social virá pela emancipação das camadas populares, que se define pelo processo de conscientização cultural e política. Temos também a Pedagogia Libertária, centrada na ideia de que a escola deve ser instrumento de conscientização e organização política dos educandos. E mais recentemente, contamos com a Pedagogia Histó- rico-Crítica representada por Saviani. Sua teoria se baseia na igualdade de oportunidades para todos no processo educativo e na compreensão, de que a prática educacional, se faz pela assimilação e transmissão dos conteúdos sistematizados pela humanidade. Estes conhecimentos, por sua vez, exigem a aquisição de habilidades específicas que quando adquiridas, conduzem para a transformação prá- tica do contexto social. Também nos fundamentaremos na Pedagogia Histórico-Crítica para apontar algumas reflexões acerca do problema educacional. Não ousa- rei apontar saídas, tentarei apenas ultrapassar a fase meramente negativa da crítica, da denúncia, para aprofundar o desejo de ação. Para iniciar, gostaria de apresentar a você algumas das teorias didáticas capazes de concretizar a construção efetiva de novos conhecimentos. 69 DIDÁTICA 70 A análise de modelos didáticos e educa-cionais nos remete inevitavelmente a determinar objetivos e reformular ações. Para tanto, precisamos conhecer pro- fundamente para que educamos e quem educamos. Saviani (2008, p. 43) responde algumas dessas ques- tões afirmando que “a educação visa o homem”, ou melhor, dizendo, visa a promoção humana. A Produção do Conhecimento e os Novos Modelos Didáticos Uma breve reflexão histórica nos permite verifi- car que a ação educativa sempre esteve preocupada em formar um determinado tipo de homem. Como pudemos constatar em nossa segunda unidade, os ideais de homem variam com as diferenças e as exi- gências de cada época. Mas, a preocupação com a formação humana é constante. Portanto, a partir dessa concepção podemos apontar a condição bá- EDUCAÇÃO FÍSICA 71 Do ponto de vista da educação, o que significa então, promover o homem?Mais uma vez, é Saviani (2009, p. 46) quem nos indica a resposta: Significa tornar o homem cada vez mais capaz de conhecer os elementos de sua situação para intervir nela transformando-a no sentido de uma ampliação da liberdade, da comunicação e colaboração entre os homens. [...] O proces- so educativo deve indicar as expectativas, as aspirações que caracterizam o homem em seu esforço de transcender-se a si mesmo e à sua situação histórica (SAVIANI, 2009, p. 46). É dentro dessa perspectiva de educação que encon- tramos seu poder transformador. É capacitando o homem para se superar e para se realizar que torna- mos a transformação social possível. Aliás, não ape- nas a transformação social, mas também a pessoal e quem sabe, até a mundial... Para alcançar tais objetivos, os modelos didáti- cos estudados na unidade anterior não deram conta da tarefa. As causas também já sabemos: nenhuma delas levava em consideração o senso criador do ho- mem. Viam o homem como um ser passivo e condi- cionado por seu meio. Não consideravam a capaci- dade humana de transformar o próprio meio e a si mesmo em busca de seus ideais. Portanto, para que a tarefa educativa seja bem-sucedida, é preciso vis- lumbrar o homem em sua totalidade e em todo seu potencial. A seguir, conheceremos algumas teorias didáticas que respeitam essa visão. sica para alguém que deseja ser um bom educador: “ser um profundo conhecedor do homem” (SAVIA- NI, 2009, p. 44). Mas quem é o homem que desejamos educar? Segundo Saviani (2009), o homem é sempre um ser social. Isso significa que ele nasce em um meio, na qual conviverá com outras pessoas e para isso, seguirá regras e valores determinados por sua rea- lidade histórica. Esse meio de nascimento, (ou local) também o condiciona e determina sua existência. Afinal, o ho- mem depende de uma série de fatores físicos para sobreviver, como: o clima, a vegetação, o solo e ou- tros. Mas, não é só o meio físico que condiciona o homem. O meio cultural também é um forte deter- minante. Logo ao nascer, o homem depara-se com uma época cheia de características particulares, com uma língua já estruturada, com costumes e crenças definidos, com instituições sociais próprias, com uma vida econômica, com formas de governo... en- fim, todos esses fatores e muitos outros determinam a existência humana. Aliás, é dentro desses determinantes todos, que o homem precisa ser situado e retirar desse contexto os meios necessários para sua sobrevivência. Bem, se o homem precisa encontrar formas diferentes de suprir suas necessidades e sobreviver, isso nos indica que ele não é um ser passivo. Segundo Saviani (2009, p. 45), “ele reage perante a situação, intervém pesso- almente para aceitar, rejeitar ou transformar”. DIDÁTICA 72 A Produção do Conhecimento EDUCAÇÃO FÍSICA 73 As novas teorias didáticas negam, de ma-neira maciça, a reprodução do conheci-mento. A grande maioria acredita que os conhecimentos produzidos e acumula- dos ao longo da história da humanidade devem ser transmitidos às futuras gerações e que; a partir deles, devem-se produzir novos saberes. Essas teorias possuem também, uma nova con- cepção de conhecimento, que nega completamente a divisão dos saberes em áreas específicas; fruto do ensino tecnicista. A divisão dos conteúdos em diver- sas áreas impediu que o homem alcançasse a visão do todo, a visão holística. Por esse motivo, as teorias inovadoras encaram o homem por um outro prisma. Segundo Behrens (2009), elas propõem que o homem seja visto como um ser indiviso. O desafio atual, dos estudiosos e cientistas da educação é retomar uma prática peda- gógica que supere a fragmentação e a reprodução do conhecimento. Nesse sentido, nos alerta Behrens (2009, p. 55): O ensino como produção de conhecimento propõe enfaticamente o envolvimento do aluno no processo educativo. A exigência de tornar o aluno ativo, valoriza a reflexão, a ação, a curio- sidade, a provisoriedade, o questionamento, e exige reconstruir a prática educativa proposta em sala de aula. Sendo assim, o principal objetivo das teorias didá- ticas inovadoras é construir novos conhecimentos. Para tanto, é necessário formar alunos críticos que compreendam as informações como provisórias e inacabadas. Isso implica práticas pedagógicas que estimulem a análise, a capacidade de refletir, de es- tudar e instigar o aluno a reconhecer a realidade. Para fundamentar essas práticas pedagógicas podemos contar com o auxílio de três teorias di- dáticas inovadoras: a visão sistêmica, a abordagem progressista e o ensino com pesquisa. No entanto, essas teorias não podem ser aplicadas, nem ana- lisadas separadamente. Elas exigem uma aliança porque na realidade, são complementares. Behrens (2009, p. 56) justifica a importância do trabalho em conjunto: • A visão sistêmica: busca a superação da frag- mentação do conhecimento, o resgate do ser humano em sua totalidade, considerando o homem em sua totalidade, considerando o homem com suas inteligências múltiplas, le- vando a formação de um profissional huma- no, ético e sensível. • Abordagem progressista: tem como pressu- posto central a transformação social. Instiga o diálogo e a discussão coletiva como forças propulsoras de uma aprendizagem signifi- cativa e contempla os trabalhos coletivos, as parcerias e a participação crítica e reflexiva dos alunos e dos professores. • O ensino com pesquisa: pode provocar a su- peração da reprodução para a produção do conhecimento, com autonomia, espírito críti- co e investigativo. Considera o aluno e o pro- fessor como pesquisadores e produtores dos seus próprios conhecimentos. DIDÁTICA 74 A interconexão entre essas teorias pode ser apresentada na figura 2: Figura 2: elaborado pela autora Com o objetivo de conhecer melhor estas abordagens didáticas, apresentare- mos a seguir as principais características de cada uma delas. EDUCAÇÃO FÍSICA 75 O grande desafio dessa concepção peda-gógica é vencer o saber fragmentado, implantado nas instituições escolares por meio da divisão das disciplinas. Muitos autores afirmam que essa divisão se assemelha ao trabalho industrial, repartido em setores, na qual cada trabalhador se responsabiliza por um item da produção sem ter ideia do produto final. Por conse- quência, os homens passaram, na escola e no trabalho, a se restringir a tarefas divididas, ordenadas e sem a consciência global dos resultados. Nesse contexto, o maior desafio da escola nessa nova abordagem é superar a divisão do ensino e li- vrar-se da influência industrial. A didática sistêmica se fundamenta em uma visão globalizada do próprio aluno, concebendo-o em suas múltiplas dimensões como a razão, a sensação, a intuição, o sentimento e outros. Na realidade, se defende a visão holística de ho- mem e de mundo. Mysukami (2009, p. 87) nos ex- plica mais sobre esse conceito: Portanto, ser holístico, compreende saber res- peitar as diferenças, buscado a aproximação das partes no plano da totalidade. Porque superar não é fazer desaparecer mas progredir na reapro- ximação do todo. Pois o todo está em cada uma das partes e, ao mesmo tempo, o todo é qualitati- vamente diferente do que a soma das partes. Podemos notar que mediante essa visão, as reações humanas se constroem em forma de rede, de teia e a conjunção dessas partes forma um todo maior e interdependente. Assim, cada um desempenha um papel único e fundamental para a constituição dessa inter-relação. O papel do professor nessa perspectiva é auxiliar na construção dessa relação holística. Para tal, pre- cisa instigar os alunos a recuperar valores perdidos na sociedade moderna. O objetivo é superar a visão individualista e buscar justiça, solidariedade, igual- dade e principalmentehonestidade. Para atingir esses objetivos, o professor precisa enxergar o aluno como um ser pleno e com poten- Abordagem Sistêmica DIDÁTICA 76 cialidade para se desenvolver completamente. Isso implica também em abrir mão de relações autoritá- rias e de poder que oprimem tanto docentes como discentes. É preciso ainda, superar as competições infundadas, a falta de oportunidade de aprender com os erros e a insegurança para questionar e criar. Em outras palavras: O professor precisa estimular no aluno o de- senvolvimento harmonioso das dimensões da totalidade pessoal: física, intelectual, emocio- nal e espiritual. E este, por sua vez, participa de outros planos de totalidade: o comunitário, o social e o pessoal. [...] Portanto, a visão holística transcende o papel de ser professor, ampliando esse papel como indivíduo, como ser humano, preocupado com seus semelhantes e a vida na sociedade (BEHRENS, 2009, p. 65). O aluno, por sua vez, caracteriza-se como um ser social, que vive em um mundo complexo e coletivo. Mas, ao mesmo tempo é único, exclusivo e dotado de potencialidades particulares. Essas diferenças indivi- duais dos alunos precisam ser respeitadas pelo pro- fessor e a turma, criando um clima em sala de aula de respeito às pessoas e de tolerância pelo diferente. Para esse aluno, a escola não é a única instituição de acesso ao conhecimento e de informação. Pro- fessores e alunos dispõem de outros recursos para pesquisar e buscar novos saberes. No entanto, essa busca deve ser orientada para que todos acessem co- nhecimentos éticos, críticos e corretos. Nessa busca, docentes e alunos são parceiros e o objetivo central é o ensino de melhor qualidade e uma prática pedagógica produtiva e transformado- ra. Para isso, é preciso promover um encontro entre a teoria e a prática. Mais do que um encontro, é pre- ciso mostrar que ambas se completam, pois a teoria se constrói na prática e vice-versa. Para Behrens (2009, p. 69), a união entre a teoria e a prática se dá com o desenvolvimento de visões diferenciadas como: • Visão de totalidade – considera-se que a prática pedagógica deve superar a visão fragmentada, retomando as partes num todo significativo. • Visão de rede – considera-se que os fenôme- nos estão interconectados havendo uma rela- ção direta de interdependência entre os seres humanos. • Visão de sistemas integrados – considera-se que todos os seres humanos devem ter acesso ao mundo globalizado, aumentando assim as oportunidades para construir uma sociedade integrada, • Visão de relatividade e movimento – consi- dera-se que é essencial ter uma percepção de que os conhecimentos são relativos, não existindo verdades absolutas, e que esses co- nhecimentos estão em constante movimento. • Visão de cidadania e ética – considera-se que a formação dos seres humanos deve ser ali- cerçada na construção da cidadania com uma postura ética, onde exista o respeito aos valo- res pessoais e sociais. Para desenvolver essa abordagem, a educação preci- sa da participação de todos os interessados no ensi- no, professores, funcionários, pais e a comunidade em geral. EDUCAÇÃO FÍSICA 77 A abordagem progressista tem como pre-cursor o educador Paulo Freire. Na pro-posta de Freire, o homem é o sujeito da educação. Mizukami (2009, p. 87) nos explica melhor esse conceito: Situado no tempo e no espaço, inserido em um contexto socioeconômico e cultural, o homem chegará a ser sujeito através da reflexão sobre seu ambiente concreto: quanto mais ele refle- te sobre a realidade, mais se torna consciente e comprometido a intervir na realidade para mudá-la. Sendo assim, podemos identificar uma concepção educativa que considera o ser humano autor de sua própria história. Seu desenvolvimento se dá por meio do compartilhamento de ideias, informações, responsabilidades e decisões. A educação é então o cenário na qual o indivíduo constrói seu desenvolvi- mento intelectual, físico e mental. Para isso, a instituição escolar é desafiada a promover a vivência coletiva e ao mesmo tempo a individualidade de cada um. Essa é uma forma de demonstrar que cada pessoa do grupo desenvolve uma tarefa única, que se encaixa com suas habilida- des pessoais. No entanto, as tarefas individuais estão correlacionadas com o trabalho e os resultados do grupo todo. O principal objetivo dessa concepção didática é a transformação social. Esse processo é desenvolvi- do mediante conteúdos significativos que possuem uma forte relação com a realidade. O conteúdo teó- rico da escola apresenta-se como uma resposta teó- rica para os problemas e desafios da realidade e do cotidiano. Nesse sentido, o papel da escola progressista é instigar a reflexão e a participação de professores e alunos sobre questões atuais. A partir de suas inter- venções, conclusões e críticas, busca-se uma nova prática social. Essa concepção de ensino exige da escola e dos professores um forte compromisso polí- tico tanto para ensinar como para aprender. Segundo Behrens (2009, p. 73), a didática pro- gressista propõe: Valorização da escola como agência difusora dos conteúdos vivos, concretos, indissociáveis das realidades sociais; enquanto espaço especí- fico em que se dará a apropriação\desapropria- ção do saber; integrada no todo social, econô- mica e politicamente; capaz, por outro lado, de trabalhar visando à transformação dos interes- ses populares. Abordagem Progressista DIDÁTICA 78 Para atuar como agência difusora das transforma- ções sociais, a escola necessita da participação do professor democrático. Nessa concepção, o educa- dor estabelece uma relação horizontal com o aluno e não mais hierarquizada. Juntos, professores e alunos estabelecem as melhores regras para o trabalho em grupo e para a aprendizagem. O professor, por ser mais experiente e conhecer mais profundamente os aspectos críticos da reali- dade assume a função de orientador e mediador do conhecimento que o aluno já possui e os que ainda precisa alcançar. Para Mizukami (2009, p. 99), um professor engajado em uma prática transformadora “procurará desmistificar e questionar, com o aluno, a cultura dominante, valorizando a linguagem e a cultura deste, criando condições para que cada um deles analise seu contexto e produza cultura”. Acima de tudo, o professor dessa concepção di- dática respeita o aluno e negocia os limites de atu- ação de cada um e do próprio grupo por meio do diálogo. Ao negar qualquer forma de autoritarismo entre o docente e a turma, abrem-se novas possibi- lidades inclusive para o professor. Ao ensinar, ele pode também aprender e ao aprender, ele pode en- sinar. O aluno, por sua vez, é atuante e responsável pela ação educativa. Ele se envolve nos processos de in- vestigação, de levantamento de materiais e informa- ções necessários para a construção do conhecimen- to. Não espera que seu professor traga tudo pronto e simplesmente dê aula. A responsabilidade de con- duzir as aulas e discussões é de ambos. Logicamente que a responsabilidade maior é do professor, pois o aluno precisa, inclusive, ser ensinado a participar e pesquisar com qualidade. A metodologia da didática progressista se fun- damenta no diálogo, na pesquisa e na democracia. Mas, ao mesmo tempo é rigorosa e exigente com a prática pedagógica em geral. Saviani (2009) recomenda uma metodologia que tem como passo inicial, a prática social. Conheci- da a realidade, passa-se para a problematização e se desencadeia a instrumentalização. O fim do proces- so deve levar à catarse e ao retorno à prática social, considerando como ponto culminante da aprendi- zagem, as mudanças de comportamento e de consci- ência dos alunos. De acordo com essa visão, o ensino se baseia na discussão de temas centrais.O conteúdo passa então a ser analisado de acordo com seus aspectos polí- ticos e sociais. Essa análise proporciona aos alunos e professores o conhecimento dos problemas rela- cionados ao meio social, à cultura e à comunidade em que vivem. Dessa forma, a aprendizagem passa a fazer parte de um processo e deixa de ser encarada como um produto pronto e acabado. Concebendo a aprendizagem como um proces- so inacabado e contínuo, a avaliação precisa ser co- erente e condizente com tal concepção. Para isso, a avaliação perde seu caráter punitivo e classificatório para promover a participação individual e coletiva do aluno. Os critérios dessa avaliação podem ser es- tabelecidos com a participação de todo grupo. Co- nhecendo as metas e os pilares da avaliação, profes- sores e alunos passam a ser responsáveis e parceiros na busca pelo sucesso ou fracasso do grupo. A consolidação da didática progressista é um de- safio a ser transposto dia a dia. Behrens (2009, p. 79) afirma que a mudança na prática pedagógica não e tarefa fácil. “Apesar desses referenciais progressistas virem sendo propostos desde os anos 80, as escolas, de maneira geral, não conseguiram ultrapassar o en- sino conservador e permanecem restritas à reprodu- ção do conhecimento”. 79 LEITURA COMPLEMENTAR Vimos que a abordagem progressista de ensino se fun- damentou nas ideias do educador Paulo Freire. Conheça mais sobre a colaboração de Freire para a educação len- do o artigo abaixo retirado da revista Nova Escola. Paulo Freire, o mentor da educação para a cons- ciência O mais célebre educador brasileiro, autor da pedagogia do oprimido, defendia como objetivo da escola ensinar o aluno a “ler o mundo” para poder transformá-lo. Márcio Ferrari Paulo Freire (1921-1997) foi o mais célebre educador bra- sileiro, com atuação e reconhecimento internacionais. Conhecido principalmente pelo método de alfabetização de adultos que leva seu nome, ele desenvolveu um pen- samento pedagógico assumidamente político. Para Freire, o objetivo maior da educação é conscientizar o aluno. Isso significa, em relação às parcelas desfavorecidas da socie- dade, levá-las a entender sua situação de oprimidas e agir em favor da própria libertação. O principal livro de Freire se intitula justamente Pedagogia do Oprimido e os conceitos nele contidos baseiam boa parte do conjunto de sua obra. Ao propor uma prática de sala de aula que pudesse de- senvolver a criticidade dos alunos, Freire condenava o ensino oferecido pela ampla maioria das escolas (isto é, as “escolas burguesas”), que ele qualificou de educação bancária. Nela, segundo Freire, o professor age como quem deposita conhecimento num aluno apenas recep- tivo, dócil. Em outras palavras, o saber é visto como uma doação dos que se julgam seus detentores. Trata-se, para Freire, de uma escola alienante, mas não menos ideologizada do que a que ele propunha para despertar a consciência dos oprimidos. “Sua tônica fundamental- mente reside em matar nos educandos a curiosidade, o espírito investigador, a criatividade”, escreveu o educa- dor. Ele dizia que, enquanto a escola conservadora pro- cura acomodar os alunos ao mundo existente, a educa- ção que defendia tinha a intenção de inquietá-los. Aprendizado conjunto Freire criticava a idéia de que ensinar é transmitir saber porque para ele a missão do professor era possibilitar a criação ou a produção de conhecimentos. Mas ele não comungava da concepção de que o aluno precisa ape- nas de que lhe sejam facilitadas as condições para o au- to-aprendizado. Freire previa para o professor um papel diretivo e informativo - portanto, ele não pode renunciar a exercer autoridade. Segundo o pensador pernambu- cano, o profissional de educação deve levar os alunos a conhecer conteúdos, mas não como verdade absoluta. Freire dizia que ninguém ensina nada a ninguém, mas as pessoas também não aprendem sozinhas. “Os homens se educam entre si mediados pelo mundo”, escreveu. Isso implica um princípio fundamental para Freire: o de que o aluno, alfabetizado ou não, chega à escola levando uma cultura que não é melhor nem pior do que a do professor. Em sala de aula, os dois lados aprenderão juntos, um com o outro - e para isso é necessário que as relações sejam afetivas e democráticas, garantindo a todos a possibilida- de de se expressar. “Uma das grandes inovações da pe- dagogia freireana é considerar que o sujeito da criação cultural não é individual, mas coletivo”, diz José Eustáquio Romão, diretor do Instituto Paulo Freire, em São Paulo. 80 LEITURA COMPLEMENTAR A valorização da cultura do aluno é a chave para o pro- cesso de conscientização preconizado por Paulo Freire e está no âmago de seu método de alfabetização, formula- do inicialmente para o ensino de adultos. Basicamente, o método propõe a identificação e catalogação das pa- lavras-chave do vocabulário dos alunos - as chamadas palavras geradoras. Elas devem sugerir situações de vida comuns e significativas para os integrantes da comuni- dade em que se atua, como por exemplo “tijolo” para os operários da construção civil. Diante dos alunos, o professor mostrará lado a lado a pa- lavra e a representação visual do objeto que ela designa. Os mecanismos de linguagem serão estudados depois do desdobramento em sílabas das palavras geradoras. O conjunto das palavras geradoras deve conter as diferen- tes possibilidades silábicas e permitir o estudo de todas as situações que possam ocorrer durante a leitura e a es- crita. “Isso faz com que a pessoa incorpore as estruturas lingüísticas do idioma materno”, diz Romão. Embora a técnica de silabação seja hoje vista como ultrapassada, o uso de palavras geradoras continua sendo adotado com sucesso em programas de alfabetização em diversos pa- íses do mundo. Seres inacabados O método Paulo Freire não visa apenas tornar mais rá- pido e acessível o aprendizado, mas pretende habilitar o aluno a “ler o mundo”, na expressão famosa do educa- dor. “Trata-se de aprender a ler a realidade (conhecê-la) para em seguida poder reescrever essa realidade (trans- formá-la)”, dizia Freire. A alfabetização é, para o educa- dor, um modo de os desfavorecidos romperem o que chamou de “cultura do silêncio” e transformar a realida- de, “como sujeitos da própria história”. No conjunto do pensamento de Paulo Freire encontra-se a idéia de que tudo está em permanente transformação e interação. Por isso, não há futuro a priori, como ele gostava de repetir no fim da vida, como crítica aos inte- lectuais de esquerda que consideravam a emancipação das classes desfavorecidas como uma inevitabilidade 81 LEITURA COMPLEMENTAR histórica. Esse ponto de vista implica a concepção do ser humano como “histórico e inacabado” e conseqüente- mente sempre pronto a aprender. No caso particular dos professores, isso se reflete na necessidade de formação rigorosa e permanente. Freire dizia, numa frase famosa, que “o mundo não é, o mundo está sendo”. Três etapas rumo à conscientização Embora o trabalho de alfabetização de adultos desenvol- vido por Paulo Freire tenha passado para a história como um “método”, a palavra não é a mais adequada para definir o trabalho do educador, cuja obra se caracteriza mais por uma reflexão sobre o significado da educação. “Toda a obra de Paulo Freire é uma concepção de edu- cação embutida numa concepção de mundo”, diz José Eustáquio Romão. Mesmo assim, distinguem-se na teoria do educador pernambucano três momentos claros de aprendizagem. O primeiro é aquele em que o educador se inteira daquilo que o aluno conhece, não apenas para poder avançarno ensino de conteúdos mas principal- mente para trazer a cultura do educando para dentro da sala de aula. O segundo momento é o de exploração das questões relativas aos temas em discussão - o que permi- te que o aluno construa o caminho do senso comum para uma visão crítica da realidade. Finalmente, volta-se do abstrato para o concreto, na chamada etapa de proble- matização: o conteúdo em questão apresenta-se “disse- cado”, o que deve sugerir ações para superar impasses. Para Paulo Freire, esse procedimento serve ao objetivo final do ensino, que é a conscientização do aluno. Disponível em: <http://revistaescola.abril.com.br/historia/pratica-pedagogica/mentor-educacao-consciencia-423220. shtml?page=2>. Acesso em: 25 abr. 2012. DIDÁTICA 82 Libâneo (2008) afirma que o maior desafio da escola, desde o final do século XX, tem sido a efetivação da sociedade da informação. O desenvolvimento científico e tecnológico exige a cada dia uma nova reflexão sobre o ensino oferecido. Ações pedagógicas baseadas em atividades tradicionais, como: escute, leia, decore e repita, não são mais suficientes para garantir a formação humana. A instituição escolar não é mais a única porta de acesso ao conhecimento. A informação está disponí- vel em diversos meios de comunicação como a rede informatizada e a televisão. Por meio desses meios, o conhecimento rompeu com as barreiras da sala de aula e causou uma verdadeira revolução nas formas de ensinar. No entanto, o desafio que se impõe agora, não é mais pela busca da informação e sim, como aces- sá-la, como interpretá-la e colocá-la em prática de maneira ética e positiva. O caminho apontado para a realização dessa importante tarefa foi a pesquisa. A escola que adota a didática do ensino com pes- quisa, se consolida como um espaço produtivo que oferece tecnologia e informações capazes de colabo- rar com o exercício da cidadania e a formação éti- ca. Para isso, aponta Behrens (2009, p. 82), “a escola precisa proporcionar um ambiente em que os pro- fessores e alunos possam gestar projetos conjuntos e que propiciem a produção do conhecimento”. O trabalho com projetos interdisciplinares é o foco principal do ensino com pesquisa. Conduzir e construir temas de pesquisa coletiva exige, do pro- fessor, uma nova postura pedagógica. Ele precisa, a princípio, deixar de ser o “dono do saber” para ser um profissional que atua como orientador e parcei- O Ensino com Pesquisa EDUCAÇÃO FÍSICA 83 ro do aluno. Nessa parceria, o professor apresenta seu projeto de estudo e pesquisa aos alunos na bus- ca de envolvimento e participação dos estudantes. Ao envolver o aluno em projetos, o professor tem a possibilidade de instigar o posicionamento, a au- tonomia, a tomada de decisões e a construção de conhecimentos. O trabalho interdisciplinar e pautado em pes- quisa, exige do professor, segundo Demo (2007, p. 54-55): • Capacidade de pesquisa para corresponder desde logo ao desafio construtivo de conheci- mento, o que transmite em aula tem que fazer parte do processo de construção de conheci- mento, assumir tessitura própria em termos de mensagem, configurar componente de projeto autônomo, criativo e crítico. • Elaboração própria para codificar pessoal- mente o conhecimento que consegue criar e cariar, favorecendo a emergência do projeto pedagógico próprio. • Teorização das práticas, formação permanen- te e manejo de instrumentalização eletrônica. Os quesitos apontados acima, ressignificam a atua- ção do professor e dão a ele maior autonomia para organizar e orientar projetos próprios. Além de ser mediador do desenvolvimento humano, o docente contribui também para a produção da ciência e da tecnologia. O aluno, na visão da didática de ensino com pesquisa, também adquire mais autonomia e capa- cidade produtiva. Seu papel principal é o de inves- tigador. Sua participação no processo de pesquisa envolve a prática de saber ler e refletir criticamente DIDÁTICA 84 sobre o assunto desenvolvido. Nesse processo, o alu- no se apresenta atuando, problematizando e buscan- do consenso coletivo nas discussões. Nessa proposta de aluno, Demo (2007, p. 28) considera: É fundamental que os alunos escrevam, redi- jam, coloquem no papel o que querem dizer e fazer, sobretudo alcance a capacidade de for- mular. Formular, elaborar são termos essen- ciais da formação o sujeito, porque significam propriamente a competência, a medida que se supera a recepção passiva do conhecimento, passando a participar como sujeito capaz de propor e contrapor. Segundo as palavras de nosso autor, podemos notar que a escrita é parte fundamental da pesquisa. No entanto, a escrita precisa ganhar outro significado. Ela precisa se diferenciar da cópia. Dessa maneira, a própria pesquisa ganha outros valores. Mas, não se deve desprezar o fato de que a grande maioria en- tende por pesquisa a cópia dos conteúdos de livros didáticos. Outras vezes, constroem “colchas de retalhos” copiando diversas partes de trabalhos diferentes que estão publicados na internet. Essa “pesquisa” repro- dutiva não constrói conhecimentos, auxilia apenas, na memorização do que foi copiado. No entanto, a metodologia de ensino com pes- quisa não descarta esse nível de produção. Na rea- lidade, compreende-se que os estudantes não foram ensinados a produzir novos saberes a partir de suas opiniões e vivências de mundo. Para superar a pes- quisa reprodutiva, Demo (2007) propõe uma apro- ximação da teoria com a prática que se dá em cinco níveis: No primeiro nível o autor propõe a Interpreta- ção Reprodutiva. Para tal, o aluno deve ler o texto e identificar as principais informações com fidelida- de. Ou seja, precisa interpretar o que é importante e copiar. O objetivo é avaliar a percepção dos alunos e auxiliá-los a organizar as informações de maneira lógica. O próximo passo será dado para desafiar o aluno para que ele passe de copiador de conteúdos para produtor crítico. O segundo nível é denominado por Demo (2007) de Interpretação Própria. Aqui a proposta é a de tomar um texto e dar-lhe um significado pes- soal. Ou seja, o aluno irá interpretar as principais informações ou ideias de acordo com seus conhe- cimentos e experiências. O objetivo dessa etapa é EDUCAÇÃO FÍSICA 85 incentivar os estudantes a escrever, de forma livre, sem amarras. O terceiro nível é chamado de Reconstrução. Acostumado com sua escrita própria, por meio do desenvolvimento do segundo nível, o aluno agora pode reconstruí-la mediante os moldes da pesquisa. Isso implica em construir textos próprios, agregados a outros autores que confirmem sua produção. O quarto nível de pesquisa é chamado de Cons- trução. Esse nível de pesquisa demandaria “tomar o que existe como simples referência e abrir novos caminhos” (DEMO, 2007, p. 41). Nesse momento, o pesquisador pode avançar em seus estudos a partir de um caminho, ou linha de raciocínio já proposto por outro autor. Cabe então, dar ao novo trabalho, maior elaboração e profundidade analítica. Já o quinto e último nível é o da Criação e Desco- berta. Demo define como sendo a fase que pode pro- vocar a introdução de novos modelos metodológi- cos, teóricos ou práticos. O autor também alerta que poucos conseguem chegar a esse nível de pesquisa, pois exige inovação, criação de novos métodos e jus- tificativas para a produção do conhecimento. Uma metodologia adequada para possibilitar o desenvolvimento dos vários níveis de pesquisa ne- cessita reconhecer que o professor deve ser um exí- mio pesquisador e investigador. Sua postura e segu- rança serão fundamentais na busca pela produção do conhecimento. Um professor que não pesquisa, que não tem hábitos de leitura e investigação, encon- trará dificuldadeem indicar os melhores caminhos para o trabalho do aluno. Behrens (2009, p. 91) acredita que: A metodologia do ensino com pesquisa pode criar um ambiente inovador e participativo na escola e na sala de aula, pois se torna neces- sário reduzir espaço de aulas expositivas para pesquisar, buscando informações, acessando recursos informatizados e leituras para instru- mentalizar a elaboração de textos e a constru- ção de projetos. Sendo assim, podemos notar que o ensino por meio de projetos e pesquisa leva alunos e profes- sores a pensar, a refletir juntos e encontrar os me- lhores caminhos para aprender. Desperta ainda o senso crítico e constrói conhecimentos significati- vos que envolvem a participação de todos. Nesse contexto, o ensino se torna relevante, produtivo e transformador. 86 LEITURA COMPLEMENTAR Pedro Demo é um dos mais importantes estudiosos e di- vulgadores da abordagem de ensino com pesquisa. Leia a entrevista abaixo e conheça mais sobre suas perspecti- vas para a educação. “A criança é um grande pesquisador”. “Se a criança é levada a buscar seu material, a fazer sua elaboração, a se expressar argumentando, a buscar fundamentar o que diz, a fazer uma crítica ao que vê e lê, ela vai amanhecendo como sujeito capaz de uma proposta própria”. Não tente se vangloriar dos méritos de sua aula exposi- tiva diante do educador Pedro Demo. Ele é categórico: não há educação nenhuma em assistir a aulas, tomar notas e ser avaliado no final do bimestre. A isso ele chama ora de instrução, ora de transmissão de conhe- cimento. Pior: para instruir, os professores seriam dis- pensáveis. A eletrônica cumpriria esse papel sem maio- res problemas. Defensor da educação reconstrutiva, Pedro Demo sus- tenta que o “nível educacional se atinge quando aparece um sujeito capaz de propor, de questionar”. Para desper- tar esse espírito na criança, ele receita muita pesquisa e incentivo à elaboração própria de cada aluno. Nesse cenário, a aula tem papel coadjuvante. Indispensável mesmo só é a orientação e o acompanhamento atento do professor. Ele não acredita, porém, ser preciso insurgir-se contra a aula ou o modelo instrucionista. Sua morte está anuncia- da pela ascensão das novas tecnologias na educação. E prevê: “Vai ser muito difícil no futuro fazermos qualquer proposta educacional que não seja em parte virtual.” Mas não serão as novas tecnologias que vão salvar a pátria. Novamente, o grande desafio será inserir pesquisa e ela- boração própria em um espaço de aprendizagem virtual. Antes de embarcar para o Chile, onde desenvolve um trabalho na Universidade Educares, Pedro Demo conce- deu a seguinte entrevista. A primeira coisa que chama a atenção na educação reconstrutiva é o próprio nome. Por que não constru- tivismo simplesmente? Pedro Demo - Eu guardo um profundo respeito pela pro- posta piagetiana chamada construtivismo. Mas eu pre- firo o termo reconstrutivismo, porque é culturalmente mais plantado. Normalmente, a gente não produz conhe- cimento totalmente novo, no sentido de uma construção nova. Nós partimos do que já está construído, do que já está disponível, do conhecimento que está aí diante de nós e o refazemos, reelaboramos. Eu penso que o termo reconstrução é muito mais realista, só isso. O pilar desse conceito é a importância da pesquisa no processo educacional, independentemente do nível de ensino. Como ela pode ser incorporada nos níveis mais elementares? Pedro Demo - Primeiro, é preciso distinguir a pesquisa como princípio científico e a pesquisa como princípio educativo. Nós estamos trabalhando a pesquisa princi- palmente como pedagogia, como modo de educar, e não apenas como construção técnica do conhecimento. Bem, se nós aceitamos isso, então a pesquisa indica a necessi- dade da educação ser questionadora, do indivíduo saber 87 LEITURA COMPLEMENTAR pensar. É a noção do sujeito autônomo que se emancipa através de sua consciência crítica e da capacidade de fa- zer propostas próprias. Isso tudo tem por trás a idéia da reconstrução, mas também agrega todo o patrimônio de Paulo Freire e da “politicidade”, porque nós estamos na educação formando o sujeito capaz de ter história pró- pria, e não história copiada, reproduzida, na sombra dos outros, parasitária. Uma história que permita ao sujeito participar da sociedade. A pesquisa supõe uma reelaboração do conhecimen- to, ou seja, deve vir acompanhada de um processo de apreensão do conhecimento. Como a educação re- construtiva concilia pesquisa e ensino? Pedro Demo - Vamos colocar de outra maneira: você precisa de informação e de formação. Você não apren- de sem vasculhar o que já está disponível. Mas a edu- cação não é propriamente isso. Isso é meramente um processo informativo que pode ser feito pela eletrônica. Nem é preciso professor para meramente transmitir co- nhecimento. Mas o professor é absolutamente neces- sário para o processo reconstrutivo, como orientador, avaliador do aluno. A perspectiva muda bastante. O que nós estamos acostumados a ver no dia-a-dia é a proposta instrucionista, baseada no ensino, na instru- ção, no treinamento. Isso não é educação. Também é importante, também faz parte, mas o nível educativo se atinge realmente quando aparece um sujeito capaz de propor, de questionar. Precisamos de pesquisa e elabo- ração própria. São dois conceitos nos quais eu insisto bastante. Mas no campo das práticas pedagógicas, como a pes- quisa pode ser inserida no ensino fundamental, por exemplo? Pedro Demo - Primeiro, fazendo recuar a aula, porque a aula é bem o signo da instrução, sobretudo a aula me- ramente expositiva, em que as crianças são obrigadas a assistir, tomar notas e fazer provas. Se você olhar bem, aí não ocorre nenhuma educação. Agora, se a criança também é levada a buscar seu material, a fazer sua ela- boração, a se expressar argumentando, a buscar funda- mentar o que diz, a fazer uma crítica ao que vê e lê, aí ela vai amanhecendo como sujeito capaz de ter uma pro- posta própria. Isso é o que queria, na verdade, Piaget. Ele sempre disse que a criança é um grande pesquisador: é curiosa, quer ver as coisas, quebra os brinquedos para ver o que tem lá dentro, pergunta muito. A escola é que, não sabendo disso, abafa essa vontade de conhecer que a criança tem. Pedro Demo - Esta é uma das grandes competências do educador, saber aproveitar essa potencialidade enorme que a criança tem de querer conhecer, de aprender, de inventar coisas diferentes. Aí está então o que eu quero dizer com a pesquisa como princípio de todo o trajeto educativo. É claro que a pesquisa como princípio cientí- fico, da pessoa que está fazendo Ph.D., é muito diferen- te das pesquisas da pessoa que está na graduação e da criança que está no ensino fundamental, mas, se a gente aproxima a pesquisa como cultivo do saber pensar, ela deve estar em todos os atos educativos, seja da menor criança, seja da pessoa mais adulta. 88 LEITURA COMPLEMENTAR O que o senhor quer dizer ao afirmar que, na educa- ção reconstrutiva, a qualidade política deve prevale- cer sobre a qualidade formal? Pedro Demo - Eu acho qualidade formal muito impor- tante. Não estou dizendo com isso que ela é secundária, muito pelo contrário. As crianças precisam saber mate- mática, ciências, português, mas ainda mais importante é saber o que fazer com isso na vida, como interferir na sociedade, como mudar os seus rumos, como superar a condição de massa de manobra, como tomar o seu destino na mão, como fazer uma proposta. Isso é muito importante. Aí está o papel fundamental da educaçãoe do professor que sabe provocar essa reação na criança, uma reação de sujeito, não de objeto. O senhor faz uma distinção entre competência e co- nhecimento. Como a educação reconstrutiva se posi- ciona diante dessa dicotomia? Pedro Demo - Acho que não deve ser uma dicotomia, são coisas que convivem dialeticamente. Eu vejo a com- petência técnica como instrumental. O fim das coisas é a competência ética, política, quer dizer, formar uma socie- dade mais participativa, onde todos têm mais chances, onde os horizontes sejam compartilhados. Mas para ter- mos boas condições de intervenção política é muitíssimo importante manejar o conhecimento adequadamente. Ainda sobre o tema da competência, uma pressão que a escola sofre é a cobrança para que os alunos saiam de lá instrumentalizados, isto é, sabendo fa- zer. Que opinião o senhor tem a esse respeito? Pedro Demo - O saber pensar inclui sempre o saber in- tervir. Nós temos que recuperar um pouco a proximi- dade entre teoria e prática. Acontece que as escolas e universidades chamam de formação apenas o discurso teórico e incluem em seus currículos apenas uma peque- na parte prática, chamada estágio ou coisa do gênero, extremamente desproporcional. É preciso saber colocar a prática já no primeiro semestre. Eu acho que essa ex- pectativa é muito importante. Os alunos deveriam ter nas escolas a possibilidade de aplicar o conhecimento sem cair no utilitarismo. A melhor coisa para uma teoria é uma boa prática. E a prática que não volta para a teoria envelhece e fica caduca. Mas como diminuir essa distância? Pedro Demo - Nós temos uma tradição universitária de separar as duas coisas. Quando nós vamos estudar num campus, nós ficamos quatro anos longe da cidade, da vida, do trabalho para estudar. Acho que isso vai mudar muito no futuro, inclusive por causa da aprendizagem virtual. A gente não estuda só em certos momentos, em certas horas, em certos espaços, mas estuda a toda hora, 89 LEITURA COMPLEMENTAR durante a vida toda, com toda a parafernália disponível, sobretudo a eletrônica. Mas isso vai demandar uma re- forma curricular muito mais radical do que nós estamos imaginando, hoje chamada Parâmetros Curriculares. Um de seus últimos livros publicados trata da tele- ducação. Que papel têm as novas tecnologias nessa reforma radical a que o senhor se refere? Pedro Demo - Primeiro, uma coisa que quero crer que esteja garantida é que o futuro da educação está na te- leducação. Vai ser muito difícil no futuro fazermos qual- quer proposta educacional que não seja em parte virtual. Não apenas virtual, isso seria um erro. Mas também não vai dar para fazer educação apenas com presença física. O grande dilema, hoje muito pouco resolvido, é introdu- zir na teleducação uma real aprendizagem. As pessoas precisam aprender, não apenas ser informadas. Vou dar o exemplo da teleconferência. Se a gente olhar bem, ela é uma aula, não é nada mais que uma aula, muitas ve- zes expositiva. Agora, tem coisas bonitas, porque dá uma grande chance de participação num grande espaço. Você pode conhecer gente interessante, fazer perguntas, mas, se a gente lembrar que aprendizagem exige pesquisa e elaboração própria, então continua sendo uma aula. A teleconferência é um bom instrumento supletivo, é uma boa proposta de disseminação de conhecimento, mas não substitui, em hipótese nenhuma, a aprendizagem. Isso me faz pensar em outro conceito que o senhor trabalha, de que a aula não é o centro da aprendi- zagem. As novas tecnologias estão decretando o fim das aulas expositivas e abrindo espaço aos debates, às discussões? Pedro Demo - É, não precisa brigar com a aula, porque ela vai recuando naturalmente à medida que a eletrôni- ca assume o espaço da informação. Transmitir conheci- mento é uma coisa muito importante para a sociedade, mas o mundo eletrônico faz isso com mais graça, com mais disponibilidade que o professor. Daí não segue que o professor não seja importante. Ele é absolutamente indispensável para a aprendizagem do aluno, para a for- mação reconstrutiva, política do aluno. Por isso, a aula vai recuar. Eu até posso dizer que ela não vai desapare- cer, mas vai ser cada vez mais um componente supleti- vo do processo de aprendizagem. É impossível colocar a aula no centro da aprendizagem. Um dos exemplos que o senhor dá para desmistificar a importância da aula é o livro O Mundo de Sofia, de Jostein Gaardner. Por que um livro como esse conse- gue instigar o aluno a aprender e a aula expositiva não? Pedro Demo - Nós podemos trabalhar muito melhor também só com textos. Geralmente, no Brasil, só se faz fichar livros, o que não tem nada de reconstrutivo. E O Mundo de Sofia mostra bem como um professor “escon- 90 LEITURA COMPLEMENTAR dido” motiva, provoca a criança. Ela se desespera, traba- lha, dá duro, aprende muita coisa sem que o livro tenha uma aula, uma prova, e é uma aprendizagem soberba. Então, a escola tem que cuidar da aprendizagem e não dos apoios que os professores acham importantes, em particular ficar “escondido” atrás da aula. O professor de matemática tem o compromisso de fazer o aluno apren- der matemática. O primeiro compromisso dele é garan- tir que o aluno aprenda matemática. Ele não pode ficar satisfeito, realizado, se os alunos não aprenderem. Dar aula é fácil, é só despejar conhecimento, às vezes apenas copiado. Mas fazer um aluno aprender é a grande arte do professor. O senhor comentou anteriormente que o mundo eletrônico transmite informações com mais graça. Como o senhor vê o papel da motivação na aprendi- zagem? Pedro Demo - Eu penso que é preciso, de todos os mo- dos, motivar os alunos para a elaboração própria, para buscar a informação, para tomar a iniciativa. Porque se a gente tiver um ensino apenas passivo, como é usual hoje, as crianças não se preparam direito para a vida, pois não conseguem enfrentar coisas novas. Ao mesmo tempo, torna-se injusto com as novas gerações, que têm uma percepção muito maior pela imagem do que nós, da velha geração, que gostamos do texto. A nova geração se sentiria muito mais respeitada se pudesse construir o conhecimento através do texto, como é típico do mundo virtual. Então, os professores precisam se preparar para isso. Certamente os professores mais velhos terão mais dificuldade, mas nunca é tarde para aprender, e acho que a educação sempre teve diante de si esse desafio de aprender coisas novas. Não vai ser agora que nós vamos falhar nisso. Temos que dar conta das motivações que a nova geração prefere. O senhor considera que saber ler as imagens, com- preender a função que elas ocupam na transmissão do saber é uma área do conhecimento já desenvolvi- da, ou ainda há muito que fazer nesse campo? Pedro Demo - O mundo da informática, como o do cine- ma, está trazendo isso. Nós temos uma história do cine- ma com mais de cem anos. Mas a academia não aceita a imagem como argumento. E nós deveríamos nos abrir a isso. Quando o texto chegou na história da humanida- de, ele também foi taxado de intruso, de coisa esquisi- ta, e hoje ninguém mais acha estranho fazer um texto, um livro. Então nós não podemos estar fechados a essa nova perspectiva. Eu estou dizendo que é preciso saber pensar não só com texto. A nova geração possivelmente prefere pensar através de imagens. Isso ajudaria muito a escola, e o trajeto da formação em qualquer nível traria maior motivação e maior atualização. Vitor Casimiro Exclusivo para o Educacional Disponível em: <http://www.educacional.com.br/entre- vistas/entrevista0035.asp>. Acesso em: 25 abr. 2012.EDUCAÇÃO FÍSICA 91 Bem, caro(a) aluno(a), agora que você conhece teorias didáticas que po-dem transformar o ensi- no e a educação, você pode estar se perguntando: como colocar todas essas ideias e conceitos em prática? Será que tudo isso não passa de um monte de teorias que no fundo, não podem ser aplicadas na realidade de sala de aula? Não, garanto a você que essas abordagens teóricas podem ser praticadas e que produzem ótimos resultados. Quem nos auxiliará nessa tarefa é o professor doutor João Luiz Gas- parin. Ele faz parte de um grupo de estudiosos como Saviani, Mizukami e outros que acreditam no poder transformador da educação. Seus estudos foram compilados por meio da Pedagogia Histórico-Crítica e a seguir, conheceremos melhor sobre sua didática. DIDÁTICA 92 Analisando as inúmeras funções sociais atribuídas à escola na atualidade, per-cebemos que os avanços tecnológicos facilitaram e muito o acesso de alunos e professores às informações de forma geral. No entanto, ainda nos resta uma dúvida, o que hoje a escola faz e para que faz? A escola existe para propiciar a aquisição dos instrumentos que possibilitam o acesso ao saber científico. Aqui, nos parece importante ressaltar que a construção do saber científico se dá mediante os conteúdos escolares. Uma pedagogia inspirada na transformação social deve primar pela transmis- são e assimilação dos conteúdos. Isso porque, é por meio deles que imprimimos a humanidade deseja- da e garantimos às novas gerações a assimilação dos conhecimentos construídos ao longo da história dos homens. Didática Histórico-Crítica Isso implica em assumir uma nova postura dian- te dos conteúdos. Implica em trabalhá-los de forma contextualizada, ou seja, em evidenciar para os alu- nos que os conteúdos possuem diversas dimensões (científicas, históricas, econômicas, políticas etc.) que devem ser ensinadas e explicadas no processo de aprendizagem. Essa postura pedagógica permite ao aluno com- preender os conhecimentos em suas múltiplas faces dentro do contexto social. Cada conteúdo pode ser percebido em suas contradições, em suas ligações com outros conteúdos e com outras disciplinas. As- sim, cada parte do conhecimento passa a formar um todo contínuo, com sentido completo e inserido so- cialmente. Para Gasparin (2007), essa maneira de conduzir os conteúdos não permite que o conhecimento ad- quirido seja neutro e fragmentado, mas lhe atribui EDUCAÇÃO FÍSICA 93 uma expressão complexa com multideterminações capaz de responder, quer de forma teórica, quer de forma prática, aos novos desafios propostos. Assim, os conteúdos assumem para alunos e professores um significado real e político, capaz de produzir refle- xões, dúvidas, comparações e divergências em seu processo de assimilação. Tais capacidades desenvol- vem em alunos e professores o que chamamos de consciência crítica. O desenvolvimento desse nível de consciência é fundamental para compreender- mos a educação em sua realidade histórica e, por- tanto, passível de ser transformada intencionalmen- te por meio da ação humana. Mas ainda podemos perguntar: como fazer isso? Por onde começar? A Didática Histórico Crítica nos oferece algumas alternativas. O primeiro passo do método é chamado por seu autor, o professor Gasparin, de Prática Social Inicial do Conteúdo. Nesta etapa, realizamos uma primei- ra leitura da realidade, um primeiro contato com o conteúdo que será estudado. O professor deve então, mobilizar o aluno, bus- cando despertar seu interesse pelo assunto. O aluno precisa se sentir instigado, desafiado a conhecer o novo. Isso acontece com maior facilidade quando o educando percebe alguma relação entre o conteúdo e sua vida cotidiana. Daí, a necessidade de conhecer- mos a realidade de nossos alunos, as necessidades da comunidade escolar. Depois de estabelecer um vínculo entre o con- teúdo e a realidade do aluno, o professor precisa pesquisar o quanto do assunto seus alunos já conhe- cem. Chamamos isso de levantamento prévio de co- nhecimento do grupo ou classe. Isso pode acontecer de várias formas: em conversas informais, debates, questionários, ou ainda com dinâmicas e jogos. Este procedimento possibilita ao professor, o desenvolvi- mento de um trabalho pedagógico mais adequado. A função do mestre desta fase em diante, consiste em aprofundar, enriquecer e acrescentar outros co- nhecimentos aos seus alunos. Mas para isso, é neces- sário problematizar. A Problematização, segundo Gasparin (2007, p. 35), “é o elemento-chave entre a prática teóri- ca, isto é, o fazer cotidiano e a cultura elaborada”. Em outras palavras, é o elo entre o conhecimen- to prévio do aluno e o conteúdo científico. Nes- se momento, o professor deve explorar todos os aspectos do conteúdo, de acordo com o que já explicamos anteriormente. Dessa forma, o alu- no adquire a consciência da realidade e começa a vê-la como um todo, cheia de inter-relações e de interações. O segundo passo da problematização consiste no questionamento desta realidade e do conteúdo. Professores e alunos devem ser capazes de juntos, estabelecerem uma ligação entre o conteúdo e os aspectos sociais. Por isso, a escola deve trabalhar com as dificuldades e os desafios da sociedade atual. Assim, o conhecimento passa a ser entendido como uma forma teórica de responder, ou resolver as ne- cessidades da realidade. Gasparin (2007, p. 49) ainda esclarece que: A problematização representa um desafio para professores e alunos. Trata-se de uma nova for- ma de considerar o conhecimento, tanto em suas finalidades sociais quanto na forma de co- municá-lo e reconstruí-lo. Para o professor im- plica uma nova maneira de estudar e preparar o que será trabalhado com os alunos: o conteúdo é submetido a dimensões e questionamentos que exigem do mestre uma reestruturação do conhecimento que já domina. DIDÁTICA 94 A problematização também provoca uma reestrutu- ração do conhecimento do educando, uma vez que estando motivado, buscará soluções para as ques- tões levantadas. Assim, gradativamente a aprendiza- gem assume um significado individual para o aluno, embora a necessidade de conhecê-lo seja social. O terceiro passo do método didático histórico- -crítica é a Instrumentalização. Nessa etapa, o pro- fessor apresenta sistematicamente o conteúdo, ou seja, ensina. O aluno, por sua vez, para aprender, realizar conexões e ligações com os conhecimentos já adquiridos. O conhecimento prévio dos educandos é utili- zado como base para uma nova aprendizagem. O novo conteúdo é transformado quando os alunos são capazes de recriá-lo com suas palavras, com suas reflexões, tornando-o “seu”. Neste momento, a classe necessita de ações que reforce a aprendizagem. Para isso, devem: analisar, levantar hipóteses, criticar, de- duzir, classificar, explicar, conceituar etc. Masetto (2002, p. 144 - 145) explica que: Agindo desta forma, o professor se coloca como um facilitador ou motivador da aprendizagem [...] ativamente colabora para que o aprendiz chegue a seus objetivos. É a forma de apresen- tar e tratar um conteúdo ou tema que ajuda o aprendiz a coletar informações, relacioná-las, organizá-las, manipulá-las, discuti-las [...] com o professor e com outras pessoas, até chegar a produzir um conhecimento que seja significati- vo para ele, conhecimento que se incorpore ao seu mundo intelectual, vivencial e social. Para que o conhecimento seja significativo para o aluno, como nos aponta Masetto, os problemas sociais que foram detectados na prática social pre- cisam ser retomados e relacionados com os novos conhecimentos teóricos e práticos adquiridos pelo educando. Assim, ele compreende que o conteúdo foi ensinado e aprendido em função de uma deter- minadanecessidade social. Se na Instrumentalização a prática pedagógica que mais incentiva a aprendizagem significativa é a análise, na próxima etapa de nosso método, (a Ca- tarse) a atividade fundamental é a síntese. Nesta fase, o aluno manifesta tudo que aprendeu, assimilou e produziu. A catarse é a síntese de todas as etapas do processo de aprendizagem pelo qual ele passou até apropriar-se do novo conhecimento. Este também é o momento de realizarmos a ava- liação. No entanto, esta avaliação não pode ser vista como simples prova, ou teste. Ela precisa ser con- cebida como expressão de todas as etapas passadas para a construção de determinado conhecimento científico. Portanto, este tipo de avaliação não ocor- re só nesta fase, mas durante todo o processo de ensino. Para isso, o professor precisa estar atento e preparado para utilizar instrumentos e técnicas ade- quadas, capazes de demonstrar o que o aluno apren- deu e não o contrário. Na catarse, o educando é capaz de situar as ques- tões sociais levantadas no início e trabalhadas nas demais fases. Isto lhe oferece uma nova visão da rea- lidade, enxergando-a em sua totalidade e perceben- do que não aprendeu apenas um conteúdo a mais, mas algo que tem significado e utilidade para a sua vida. Precisamos deixar claro para nossos alunos que as matérias ensinadas na escola são produtos sociais e históricos. É preciso que eles saibam por que deter- minado conteúdo surgiu e como ele serve ainda hoje para a continuidade da nossa cultura. Compreendi- do isto, chegamos quase ao fim do nosso processo didático, na qual o aluno retorna a prática social. Gasparin (2007, p. 145) nos esclarece que a Prá- EDUCAÇÃO FÍSICA 95 tica Social Final “representa a transposição do teó- rico para o prático dos objetivos dados ao conteúdo e aos conceitos adquiridos”. Segundo as explicações de Gasparin (2007), po- demos perceber que docentes e discentes se trans- formaram durante o processo de construção de co- nhecimento. Eles passaram de um estágio de menor compreensão científica para outra fase de maior cla- reza. Saviani (1999) afirma que mesmo em pequena escala deve ser oferecido ao aluno condições para que o entendimento teórico se traduza em atos. So- mente assim, alcançaremos um novo uso social dos conteúdos aprendidos na escola. Vale esclarecer que, desenvolver ações reais, não significa somente ter atitudes práticas como reciclar o lixo, economizar água etc. Implica também em uma mudança de conduta, provocada por novos processos mentais como compreensão ampla da re- alidade, análise mais crítica das ideias e fatos. Signi- fica uma nova ação mental. Creio que assim, descobriremos como os conhe- cimentos escolares têm força e peso nas transforma- ções sociais. O ponto de partida para essa transfor- mação, não será a escola, nem a sala de aula, mas sim a realidade social ampla, como nos ilustra Gasparin (2007 p. 3-4): A leitura crítica dessa realidade torna possível apontar um novo pensar e agir pedagógicos. Deste enfoque, defende-se o caminhar da rea- lidade social, como um todo, para a especifici- dade teórica da sala de aula e desta para a tota- lidade social novamente, tornando possível um rico processo dialético de trabalho pedagógico. Essa ação pedagógica, destacada e explorada por Gasparin e na qual acredito, chamou minha aten- ção como docente e pesquisadora principalmente por seu objetivo transformador. A didática da Pe- dagogia Histórico-Crítica tem como primeiro pas- so reconhecer a prática social dos alunos, verificar seus percalços e problemas. Conhecer a vivência de nossos alunos, para além dos muros da escola, pos- sibilita uma tomada de consciência de ambas as par- tes. Após esta tomada de consciência, sobre nossa realidade social, professores e alunos devem iniciar a busca de conhecimentos científicos (conteúdos significativos) que ilumine e aponte soluções para a realidade cotidiana. Com efeito, como diz Sánchez Vázquez (1968, p. 206-207), A teoria em si não transforma o mundo. Pode contribuir para a sua transformação, mas para isso tem que sair de si mesma, e, em primei- ro lugar, tem que ser assimilada pelos que vão ocasionar, com seus atos reais, efetivos, tal transformação. Entre a teoria e a atividade prática transformadora se insere um trabalho de educação das consciências, de organização dos meios materiais e planos concretos de ação: tudo isso com passagem indispensável para de- senvolver ações reais, efetivas. Nesse sentido, uma teoria é prática na medida em que mate- rializa, através de uma série de mediações, o que só antes existia idealmente. Portanto, o trabalho essencial para a prática de uma didática ou de uma teoria de ensino transformadora é assumirmos como compromisso docente o ensi- no de conteúdos verdadeiros, capazes de construir conhecimentos verdadeiros. Infelizmente, não existe em nossa ação docente, critérios absolutos que nos indiquem uma direção segura. Acredito que se to- marmos as experiências e os interesses de nossos alunos como conteúdo primeiro de ensino, teremos, pelo menos, uma chance de não estarmos mais, no caminho errado. 96 considerações finais Nesta unidade, estudamos as principais teorias didáticas inovadoras. Ana- lisamos as características da abordagem sistêmica, progressista e de ensino com pesquisa. Durante essa análise, pudemos notar que essas teorias são complementares, pois possuem um fio condutor único: a produção de co- nhecimento para a transformação social. Para que você compreenda melhor essa construção, destacarei em forma de tópicos, as principais ações aponta- das por Behrens (2009, p. 109), para instrumentalizar a prática das teorias inovadoras. • Reduzir gradativamente o espaço das aulas teóricas, procurando utilizar o maior tempo disponível para a pesquisa, a busca de informações, o acesso a banco de dados, para fundamentar a construção de atividades de textos próprios. • Organizar atividades diferenciadas, de eventos que demandem criação, projetos desafiadores que provoquem enfrentamento, diálogo com autores e construção própria. • Buscar resultados consensuais, nos seminários, nas discussões coletivas, nas proposições de grupo, como exercício efetivo de cidadania, instru- mentalizando a vivência do voto e do consenso como recurso para a vida em comunidade. • Provocar a utilização dos meios eletrônicos, de informática, de multi- mídia e de telecomunicações com recursos disponíveis no complexo escolar. • Valorizar mais a elaboração própria, a construção coletiva, a apresentação de textos, as propostas criativas. Dar um peso muito menor a provas e questionários. • Dinamizar o espaço escolar aproveitando os recursos da comunidade, a experiência vivenciada dos alunos, dos pais e dos professores. 97 considerações finais • Estimular o uso da biblioteca e dos laboratórios para que os alunos pes- quisem, estudem, discutam e critiquem, aprendendo a ler de modo ques- tionador, construindo argumentos e textos, e discutindo com seus pares os caminhos conquistados. • Ter a preocupação de demonstrar e valorizar o lado prático dos conheci- mentos propostos. • Discutir acentuadamente os espaços nos quais os conteúdos serão utilizados. • Aliar procedimentos teóricos a vivência de práticas. • Propor construção própria de textos com os avanços detectados pelos es- tudantes em suas jornadas acadêmicas. • Criar, para o aluno, e com o aluno, uma escola que apresente um ambiente inovador, transformado e participativo, em que o aluno seja reconhecido como sujeito capaz de propor e inovar. • Reconhecer o aluno como um todo e como sujeito de sua própria apren- dizagem. • Correr riscos, ousar, ir em busca da plenitude do ensino. De acordo com essas propostas, o trabalho docente adquire um novo significado:o da mediação. Nesse papel, ele atua em parceria com os alunos, atende a cada um de forma diferenciada, instiga a busca e a investigação de novos caminhos de aprendizagem. As novas aprendizagens podem e devem oferecer instrumentos teóricos para os problemas da realidade. A resposta prática da aprendizagem não precisa ser apresentada apenas em eventos ou mediante projetos de pesquisa. Elas podem ser expressas também, por meio de mudanças de atitudes e de comportamentos. Nesse aspecto se concentra a transformação social: na possibilidade de formar por meio da escola cidadãos éticos, que queiram atuar na sociedade de forma mais justa, digna e humana. 98 atividades de estudo 1. Ao iniciarmos nossos estudos sobre a Didática, nos preocupamos em com- preender uma função social da escola conhecida como “marginalização”. De acordo com nossos estudos, explique como a escola se apresenta como reprodutora da marginalização. 2. A Pedagogia Histórico-Crítica defende a concepção histórica de homem e de educação. De acordo com essa teoria, explique esses dois conceitos. 3. Encontramos na Didática Histórico-Crítica, apresentada pelo Prof. João Luiz Gasparin, uma teoria marcada pela concepção crítica de homem, que leva em conta suas necessidades, anseios e culturas. Ela divide o processo de ensino e aprendizagem em cinco etapas. Explique, com suas palavras, como se desenvolve cada uma dessas etapas. EDUCAÇÃO FÍSICA 99 Aprender bem/mal Pedro Demo Editora: Autores Associados Edição: 1ª (2009) Páginas: 102 Analistas apressados continuam somando “anos de estudo”, ig- norando que se trata de “anos sem estudo” [...]. E se for progre- dido a cada série sem nada ter aprendido, estamos somando o nada. Aumentamos, assim mesmo, a escolaridade, mas isso quer dizer pouco, já que os alunos não aprendem minimamen- te. [...] Os problemas são grandes demais para pretendermos enfrentá-los com fórmulas simples ou prontas, sem falar que educação é política social sempre de longo prazo. Disponível em: <http://www.autoresassociados.com.br/li- vro/520/aprender-bememal>. Acesso em: 25 abr. 2012. O que se espera do educador diante de tantas abordagens de ensino? Assista ao vídeo abaixo e reflita! <http://www.youtube.com/watch?v=NpAJOtjY6J4&feature=related>. Entrevista com Paulo Freire: Assista a entrevista gravada com o educador Paulo Freire e co- nheça como sua teoria educacional pode ser colocada em prática e qual a importância desse processo para a transformação social. Acesse: <http://www.youtube.com/watch?v=MZQtP-7Ezbw>. O PLANEJAMENTO ESCOLAR Professora Me. Ionah Beatriz Beraldo Mateus Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: • Ressignificando as aulas • A importância do planejamento • Os principais tipos de planejamento Objetivos de Aprendizagem • Reconhecer a importância do planejamento escolar. • Analisar diferentes modelos de planejamento. • Identificar e diferenciar o plano de aula, o plano de ensino e o plano da escola. unidade IV INTRODUÇÃO 102 Ao conhecermos novas teorias pedagógicas e didáticas, adqui-rimos novas ferramentas para instrumentalizar nossa prática docente. Na unidade anterior, você conheceu diversos autores que se fundamentam na Didática Histórico-Crítica para me- lhorar e transformar nossa educação. Mas, nem sempre encontramos nas teorias explicações sobre as ações didáticas, necessárias aos professores, para aplicar determinada proposta teórica. A ausência de ações didáticas impede o professor de organizar um plano de ação, ou um plano de atividades, que procure colocar em prá- tica os princípios teóricos aprendidos. E por isso, muitas vezes a teoria fica apenas na teoria. Para transformar nossa prática docente é preciso iniciar pelo ele- mento central de nossa atividade pedagógica: nossas aulas. Elas precisam ser repensadas, analisadas e reorganizadas. Para dar conta dessa tarefa, precisamos contar com um grande e poderoso aliado: o planejamento. Nesta unidade, você verá como o planejamento pode organizar e provocar mudanças profundas em suas aulas. Verá ainda, que ao invés de ser um empecilho para o seu trabalho ele ajuda na organização do seu dia a dia e no cotidiano da sala de aula. Em seguida, analisaremos alguns modelos de planos que nos possi- bilitam integrar diversas disciplinas e colocá-las em ação, na forma de novos conhecimentos indispensáveis para a vida de nossos alunos. Espero que você leia esta unidade com atenção e que compare as in- formações aqui colocadas com sua prática docente. Afinal, suas próprias conclusões podem ser transformadoras... Bons estudos! 103 DIDÁTICA 104 A tarefa de planejar nem sempre é vista com bons olhos pelos professores. Digo isso me baseando em minha própria expe-riência docente. Ao longo dos dezesseis anos de minha carreira no magistério, vi o planeja- mento mudar inúmeras vezes e em muitas delas vi poucas ou nenhuma diferença. Constatei também por meio de cursos para docentes de diversos níveis como, graduação e pós-graduação, que a descrença no planejamento não era apenas minha. Observei ainda que o cerne do problema se en- contrava na burocratização do ensino e que o pla- nejamento não tinha significado algum além de cumprir o protocolo. Visto dessa forma, a ação de planejar é completamente nula, pois não retrada os problemas reais e com isso, não pode ser colocado em prática. Gasparin (2007, p. 152) acrescenta que os em- pecilhos de planejar são “sempre de dupla ordem: a) dificuldade em entender a teoria e seus fundamen- tos práticos e b) como passar dessa teoria a um pro- jeto de ensino e aprendizagem”. Para responder a essas e outras dificuldades é que me apego ao planejamento. Mas não ao plano burocrático que prevê apenas os conteúdos a serem ensinados. Baseio-me no planejamento crítico, que me obriga a refletir sobre a qualidade de minha aula e sobre como traduzo para a prática a teoria que adoto como princípio didático. Ressignificando as Aulas EDUCAÇÃO FÍSICA 105 Mas, planejar dentro dessa linha de trabalho às vezes é muito complexo. Isso porque, para muitos professores, o planejamento não é essencial para mi- nistrar suas aulas. Além disso, muitos planejamentos são feitos sem significado, ou seja, não respondem às questões da prática escolar. Exatamente por isso, é encarado por muitos, como perda de tempo. Muitos fatores justificam a postura incrédula de alguns docentes frente ao ato de planejar. Gaspa- rin (2007) nos mostra a dificuldade de organizar as ações pedagógicas quando a quantidade de aulas que o professor ministra para sobreviver é muito grande. Outro fator agravante é o número de colégios que o professor necessita percorrer para trabalhar e que nem sempre a postura metodológica dessas escolas é igual em relação ao planejamento. Mais um agravan- te é apontado pelo autor, ao analisar a quantidade de disciplinas que o docente assume para completar sua carga horária que acabam impedindo-o de exe- cutar e elaborar um plano mínimo de trabalho. Encaradas as dificuldades, precisamos iniciar a busca das soluções e a primeira apontada por Libâ- neo (2008), implica em ressignificar a aula. Para o autor, a aula é o centro do processo de ensino e por isso, precisa ser muito bem planejada. No entanto, na maioria das vezes que pensa- mos em uma aula, nos vem em mente a imagem de um professor expondo conteúdos e mais conteú- dos diante de uma sala inerte e silenciosa. É a típica imagem de uma aula expositiva e tradicional, muito comum ainda nos dias de hoje. De acordo com as discussões realizadas nas unidades anteriores, vimos que o momento em que o professor ensina, explica e expõe o conteúdo não pode ser deixado de lado, mas, ele não precisa ser feitosempre de forma ex- positiva. Existem muitas formas de se conduzir uma aula e a melhor opção didática, é encará-la como uma etapa no processo de estimulação dos alunos. Gil (2009) afirma que devemos entender a aula como um conjunto dos meios e condições pelos quais o professor dirige e estimula o processo de ensino em função da aprendizagem do aluno. O processo de ensino, mediante as aulas, possibilita o encontro entre os alunos e o conteúdo do ensino, preparada didaticamente por meio do planejamento. A realização desse tipo de aula exige uma orga- nização didática que se efetiva por meio do plane- jamento. Esse plano permite estabelecer etapas ou passos constantes que respeitam a sequência de en- sino e de aprendizagem de acordo com a matéria e segundo as características da turma de alunos. Para Libâneo (2008, p. 178), “cada aula é uma si- tuação didática específica, na qual objetivos e conte- údos se combinam com métodos e formas didáticas, visando fundamentalmente propiciar a assimilação ativa de conhecimentos e habilidades pelos alunos”. DIDÁTICA 106 De acordo com essa concepção de aula, o conceito não é utilizado apenas para denominar o momento em que o professor ensina ou expõe a matéria. O ter- mo aula é entendido, como uma ação conjunta en- tre alunos e professores em busca da aprendizagem. Para alcançar seu objetivo primordial – a aprendi- zagem – Libâneo (2008, p. 179) afirma que as aulas devem cumprir as seguintes exigências: • Ampliação do nível cultural e científico dos alunos, assegurando profundidade e solidez aos conhecimentos assimilados. • Seleção e organização de atividades dos alu- nos que possibilitam desenvolver sua inde- pendência de pensamento, a criatividade e o gosto pelo estudo. • Empenho permanente na formação de méto- dos e hábitos de estudo. • Formação de habilidades e hábitos, atitudes e convicções, que permitam a aplicação de conhecimentos na solução de problemas em situações da vida prática. • Desenvolvimento das possibilidades de apro- veitamento escolar de todos os alunos, dife- renciando e individualizando o ensino para atingir níveis relativamente iguais de assimi- lação da matéria. • Valorização da sala de aula como meio edu- cativo, para formar as qualidades positivas de personalidade dos alunos. • Condução do trabalho docente na classe, tendo em vista a formação do espírito de co- letividade, solidariedade e ajuda mútua, sem prejuízo da atenção às peculiaridades de cada aluno. EDUCAÇÃO FÍSICA 107 De acordo com essas exigências, a aula passa a ser um trabalho intencional e que exige muito planejamento, estruturação e organização para atingir os objetivos de ensino. No entanto, isso não significa que o plano en- rijeça as possibilidades didáticas, ao contrário, o pla- nejamento fornece informações e dados importantes capazes de selecionar o passo didático mais adequado para iniciar a aula, para escolher os recursos disponí- veis e avaliar os resultados obtidos. Por causa disso, se torna importante planejar e estruturar bem uma aula. Segundo Libâneo (2008), a estruturação didática de uma aula depende dos seguintes passos: prepa- ração e introdução da matéria, tratamento didático do assunto novo, consolidação e aprimoramento dos conhecimentos, aplicação, controle e avaliação. A preparação da matéria é a fase que determina desde a preparação e estudo do professor até a prepa- ração dos alunos e a efetivação dos objetivos selecio- nados. Para Libâneo (2008), ela inicia no momento em que o professor se organiza, se prepara, por meio do planejamento para dar aula. Essa preparação as- segura a qualidade do ensino e da própria aula, pois organiza a matéria, o tempo disponível para traba- lhá-la, mostra quais são os objetivos a atingir, as ati- vidades que serão aplicadas e os recursos auxiliares. Os alunos também precisam ser preparados para aprender. Por isso, no início das aula é necessário mo- bilizar a antenção dos alunos, motivá-los a estudar e conhecer o novo assunto. Vimos por meio da Didática Histórico-Crítica (unidade III) que isso se torna mais fácil quando relacionamos os conhecimentos prévios dos alunos com o novo assunto. Portanto, a motivação inicial pode ser feita mediante perguntas que indiquem ao professor o quanto da matéria os alunos já conhecem. Esse é o momento que, segundo Libâneo (2008), serve para estimular o raciocínio dos alunos, instigá-los a emi- tir opiniões e conceitos próprios, ligar o conteúdo a coisas ou acontecimentos do cotidiano. É nesse momento que se faz a introdução da ma- téria. Ela serve para ligar, conectar a matéria velha com a nova. Não é ainda a apresentação ou ensino propriamente dito da matéria nova. É o momento anterior de se estabelecer relações entre os conhe- cimentos que os alunos já possuem com o que será ensinado. Isso permite a criação de vínculos entre o conteúdo e as necessidades da prática, ou da experi- ência dos alunos. Libâneo (2008, p. 182) afirma que o melhor procedimento para isso é: Apresentar a matéria como um problema a ser resolvido, embora nem todos os assuntos se pres- tem a isso. Mediante perguntas, trocas de expe- riências, colocação de possíveis soluções, estabe- lecimento de relações causa-efeito, os problemas atinentes ao tema vão se encaminhando para tornar-se também problemas para os alunos em sua vida prática. Com isso vão sendo apontados conhecimentos que são necessários dominar e as atividades de aprendizagem correspondentes. Mediante as indicações do autor, citadas acima, o pro- fessor pode então reavaliar seus objetivos traçados. Dependendo do encaminhamento da matéria é pos- sível verificar se os objetivos estão adequados, se são viáveis e possíveis de serem atingidos. Feito isso, é pre- ciso apresentar os objetivos aos alunos e relembrá-los das metas a serem alcançadas a cada etapa do ensino. A próxima etapa de estruturação da aula se refe- re ao tratamento didático da matéria. Nessa etapa o propósito maior é a transmissão e a assimilação do conteúdo. Ela envolve ainda, a formação de concei- tos, o desenvolvimento das capacidades cognosciti- vas, a imaginação e o raciocínio dos alunos. Libâneo (2008, p. 187) nos propõem alguns pas- sos para o desenvolvimento do tratamento didático do conteúdo. São eles: DIDÁTICA 108 • Aproximação inicial do objetivo de estudo para ir formando as primeiras noções, através da atividade perceptiva, sensorial. Isso se faz, na aula, através da observação direta, conver- sação didática, explorando a percepção que os alunos têm do tema estudado; deve-se ir gradativamente esquematizando e sistemati- zando as noções. • Elaboração mental dos dados iniciais, tendo em vista a compreensão mais aproe fundada por meio da abstração e generalização, até con- solidar conceitos sobre os objetos de estudo. • Sistematização das ideias e conceitos de um modo que seja possível operar mentalmente com eles em tarefas teóricas e práticas, em função da matéria seguinte e em função da solução de problemas novos da matéria e da vida prática. Por meio desses passos, os conhecimentos vão sendo assimilados e isso exige frequentes exercícios, reca- pitulações e inclusive a volta às etapas citadas acima. Depois de transmitidos os conteúdos e iniciado o processo de assimilação, é preciso que eles sejam fixados na mente dos alunos. Com isso, entramos na terceira etapa proposta por Libâneo (2008) denomi- nada consolidação e aprimoramento dos conheci- mentos e habilidades. Nesse momento da estruturação da aula é im- portante aprimorar a formação de habilidades e há- bitos para a utilização independente e criadora dos conhecimentos. No entanto, nosso autor nos chama atenção para o fato de que este importante momento do ensino, tem sido reduzido namaioria das esco- las à repetição mecânica do ensinado. Esse processo garante apenas a memorização do conteúdo até a próxima prova e é feito de forma retilínea, mediante regras decoradas que não mobilizam atividades inte- lectuais como o raciocínio e a criticidade. Para que haja a consolidação dos conhecimentos é importante que existam exercícios de fixação, mas não apenas isso. O processo precisa ser mais rico e completo. É preciso envolver a recapitulação da ma- téria de diferentes formas, a tarefa de casa e o estu- do dirigido. Logicamente que todas essas atividades dependem de que o aluno tenha compreendido bem a matéria, do contrário podem servir de reforço aos erros ou desestimular o aluno em seus estudos. O objetivo central do aprimoramento de co- nhecimentos e habilidades é demonstrar o nível de compreensão dos alunos e desenvolver o raciocínio e o pensamento crítico. Por essa razão, as atividades trabalhadas nessa etapa devem promover tarefas e exercícios que deem a oportunidade aos alunos de estabelecer relações entre o conteúdo ensinado e novas situações. Assim, a turma pode comparar os conhecimentos obtidos com fatos da vida cotidiana, buscar soluções práticas e assim encontrar mais sig- nificado no estudo e na aprendizagem. Para Gil (2009), a aprendizagem ou consolidação da aprendizagem pode acontecer em qualquer etapa da es- truturação da aula. Ela pode acontecer de forma repro- dutiva, generalizada ou de forma criativa. A consolida- ção reprodutiva acorre por meio de exercícios. Ou seja, após compreender o conteúdo os alunos reproduzem o que compreenderam por meio de situações conhecidas. A consolidação generalizadora se refere à aplica- ção do assunto entendido em situações novas. Essa prática exige mais do aluno, pois implica no uso de capacidades intelectuais como estabelecer relações entre critérios, analisar fatos e fenômenos sob diver- sos pontos de vista. É necessário ainda, saber fazer a ligação do conteúdo aprendido com novas situações e fatos da vida social. Já a consolidação criativa se re- fere a tarefas que levem ao aprimoramento do senso crítico e do pensamento livre do aluno. EDUCAÇÃO FÍSICA 109 Entendida a matéria, podemos passar para a próxima etapa de estruturação da aula denominada por Libâneo (2008), de aplicação. Essa etapa consis- te em criar oportunidades para que os alunos utili- zem de diversas formas o conhecimento adquirido. O objetivo dessa fase é unir a teoria (escolar) e a prá- tica (social). Dessa forma, os estudantes podem es- tabelecer vínculos dos conhecimentos adquiridos na escola com as experiências vividas na prática social. Para que a aplicação cumpra sua função didáti- co-pedagógica, Libâneo (2008, p. 189), nos alerta a respeito de algumas responsabilidades do professor: • Formulação clara de objetivos e adequada seleção de conteúdos que propiciem conhe- cimentos científicos, noções claras sobre o tema em estudo, sistematização de conceitos básicos que formam a estrutura dos conhe- cimentos necessários à compreensão de cada tema. • Ligação dos conteúdos da matéria aos fatos e acontecimentos da vida social e aos conheci- mentos e experiências da vida cotidiana dos alunos, de modo que a realidade social con- creta suscite problemas e perguntas a serem investigados no processo de transmissão\as- similação da matéria e em relação aos quais se dá a aplicação de conhecimentos. Tendo claras as responsabilidades docentes, aponta- das por Libâneo, podemos partir para a última fase de ressignificação de nossas aulas: o controle e ava- liação dos resultados. Segundo Libâneo (2008, p. 190), “a avaliação do ensino deve ser vista sempre como um processo sistemático e contínuo”. Isso significa que todo per- curso da aula possui informações e manifestações de aprendizagem que devem ser observadas e registra- das pelo professor. Esses resultados parciais indicam aos alunos e professores se os objetivos construídos estão sendo alcançados e em que grau de desenvol- vimento se encontra os estudantes. No entanto, Libâneo (2008) acredita ainda que a avaliação cumpre ainda outras três funções: a fun- ção pedagógica, diagnóstica e de controle. A função pedagógica se refere ao cumprimento dos objetivos e a análise dos meios e das condições necessárias para atingi-los. Este, aliás, é o ponto de partida para as demais funções da avaliação. A fun- ção diagnóstica trata da análise das ações dos profes- sores e alunos com o objetivo de verificar os desvios e acertos ocorridos no processo de construção de conhecimentos. Por esse motivo, a avaliação per- meia todas as fases da aula e assegura a aplicação de métodos e conteúdos coerentes aos objetivos eleitos. Por fim, a função de controle se refere à compro- vação dos resultados da aprendizagem dos alunos. Por meio dessa etapa é possível verificar o aprovei- tamento escolar e atribuir valor, notas ou conceitos ao trabalho realizado pelos alunos. No entanto, essa nota, ou conceito, não avalia apenas o rendimento do aluno, ela reflete todo o trabalho conjunto de do- centes e discentes. Encarando a avaliação dessa forma, evitamos o erro de utilizá-la como um instrumento isolado, vista somente pelo aspecto classificatório e vazio. A avaliação completa e diagnóstica permite ao aluno, o controle e o conhecimento de suas próprias ati- vidades, uma vez que são sujeitos participantes e ativos no processo de aprendizagem. Por meio dessa proposta de ressignificação das aulas, podemos notar que esse processo fica inviá- vel sem um planejamento. Afinal, como iniciar um conteúdo, aplicá-lo na prática social e avaliar o ren- dimento dos alunos sem um plano claro e real? É exatamente isso que veremos agora... DIDÁTICA 110 Gadotti (2006) define o planejamento como uma tarefa docente que inclui tanto a previsão das atividades didáti-cas quanto a revisão e a adequação dos objetivos propostos no processo de ensino. Dessa forma, podemos notar que o plano é um instrumento capaz de programar as ações docentes, mas também se define como um momento de pesquisa, reflexão e avaliação. Diante do processo de planejar, encaramos o ato de ensinar como uma atividade consciente e or- ganizada. Tal postura nega completamente as con- cepções apontadas por alguns professores no início desta unidade. Ela rejeita o improviso, a falta de in- formações específicas, a incapacidade de orientar pesquisas e dúvidas. Mas, para que um plano seja um instrumen- to de orientação prática, ele precisa ser também compreendido em seu contexto social. Isso quer dizer que os elementos do planejamento, profes- sores e alunos, são integrantes de uma dinâmi- ca social atravessada por influências econômi- cas, políticas e culturais. Por essa razão, o plano é uma atividade de reflexão e de escolhas acerca de nossas opções e ações. Do contrário, nos alerta Gadotti (2006, p. 142), “se não pensarmos detida- mente sobre o rumo que devemos dar ao nosso trabalho, ficaremos entregues aos rumos estabe- lecidos pelos interesses dominantes na sociedade”. Isso significa que o ato de planejar se torna vazio quando nossas próprias práticas pedagógicas são vazias. Professores comprometidos, que fazem do ensino um ato político e libertador compreendem o quanto tais atividades exigem organização, mé- todos e pesquisas constantes. Dessa forma, a ação de planejar não se reduz ao preenchimento mecânico de formulários e outros documentos para controle administrativo. É antes, como afirma nosso autor, “uma atividade conscien- te de previsão das ações docentes, fundamentadas em opções político-pedagógicas, e tendo como referência permanente as situações didáticas con- cretas, ou seja, os problemas sociais” (GADOTTI, 2006, p. 143). A Importância do Planejamento EDUCAÇÃO FÍSICA111 Para Libâneo (2008, p. 223), o planejamento tem as seguintes funções: • Explicitar princípios, diretrizes e procedi- mentos de trabalho docente que assegurem a articulação entre as tarefas da escola e as exi- gências do contexto social e do processo de participação democrática. • Expressar os vínculos entre o posicionamen- to filosófico, político-pedagógico e profis- sional e as ações efetivas que o professor irá realizar na sala de aula, através de objetivos, conteúdos, métodos e formas de organizati- vas do ensino. • Assegurar a racionalização, organização e coordenação do trabalho docente, de modo que a previsão das ações docentes possibilite ao professor a realização de en- sino de qualidade e evite a improvisação e a rotina. • Prever objetivos, conteúdos e métodos a par- tir da consideração das exigências postas pela realidade social, do nível de preparo e das condições sócio-culturais e individuais dos alunos. • Assegurar a unidade e a coerência do tra- balho docente, uma vez que torna possível inter-relacionar, num plano, os elementos que compõem o processo de ensino: os objetivos (para que ensinar), os conteúdos (o que ensinar), os alunos e suas possibi- lidades (a quem ensinar), os conteúdos (o que ensinar), os alunos (a quem ensinar), os métodos e técnicas (como ensinar) e a avaliação, que está intimamente relaciona- da aos demais. • Atualizar os conteúdos do plano sempre que é revisto, aperfeiçoando-o em relação aos progressos feitos no campo de conhecimen- tos, adequando-o às condições de aprendiza- gem dos alunos, os métodos, técnicas e recur- sos de ensino que vão sendo incorporados na experiência cotidiana. • Facilitar a preparação de aulas: selecionar o material didático em tempo hábil, saber que tarefas professor e alunos devem executar, re- planejar o trabalho frente a novas situações que aparecem no decorrer das aulas. A partir das funções do plano indicadas acima por Libâneo, podemos tirar algumas conclusões. A pri- meira delas é que o planejamento serve de orien- tação para o professor. Ele assegura os meios e as diretrizes de realização do ensino. Auxilia ainda como um guia das relações práticas, mostrando as necessidades reais da sala de aula. Exatamente por isso é que o planejamento não pode se tornar um documento rígido, inflexível e absoluto. Afinal, o en- sino está sempre se transformando, as necessidades da turma e dos docentes estão sempre em movimen- to e são exatamente estas mudanças que garantem a autenticidade e a atualidade do planejamento. Sabemos que durante o ensino de um conteúdo as coisas não ocorrem exatamente como planejamos. Alguns conteúdos são aprendidos com mais facilida- de, outros exigem mais tempo do que o previsto para que seja bem desenvolvido. Por isso, o plano preci- sa ser flexível para que possa ser revisado e alterado sempre que necessário. Vamos conhecer mais sobre a necessidade de flexibilidade do planejamento lendo a reportagem editada na revista Nova Escola. 112 LEITURA COMPLEMENTAR O PLANEJAMENTO DEVE SER FLEXÍVEL Sustos, como descobrir que a turma não está no nível imaginado, pedem uma mudança de rumos. Arthur Guimarães (<novaescola@atleitor.com.br>) Por mais bem fundamentado que seja o planejamento escolar, o professor precisa ter consciência de que alguns imprevistos podem surgir ao longo do ano letivo (e esses sinais não devem ser ignorados). É importante que haja uma avaliação constante do processo de ensino, com o educador sempre alerta para diagnosticar obstáculos en- contrados e medir o ritmo de avanço das atividades sobre os temas programados. Os assuntos trazidos no dia-a-dia pelos alunos, como notícias da televisão ou dilemas pessoais e familiares, também precisam ter um tempo reservado para serem debatidos - se possível relacionando-os aos conteúdos curriculares, mas logicamente sem forçar conexões distantes. O cuidado de monitorar as aulas e o comportamento dos estudan- tes periodicamente é determinante para perceber a necessidade de pequenos ajustes, pausas, acelerações, mudanças de rota ou mesmo a retomada de algumas informações que não foram aprendidas de forma consistente pela turma. “É uma questão de bom senso. O planejamento inicial é feito sem que o docente conheça seus alunos. É com a interação e com o próprio tato que o educador vai perceber o que vai manter ou não”, explica Benigna Freitas, do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade de Brasília (UnB). As avaliações são a principal ferramenta para saber quando improvisar. Depois de cada aula, o professor pode criar o hábito de fazer anotações sobre o andamento das roti- nas, comparando o que foi inicialmente previsto e o que realmente aconteceu. Aqui, podem entrar observações a respeito de grupos mais avançados e até sobre conteúdos que pareciam totalmente dominados. A escrita leva a pensar. É inclusive um momento em que fica claro ao docente se suas explicações surtiram efeito ou não ajudaram no entendimento dos conceitos trabalhados. Nos registros, entram ainda as cartas que foram tiradas da manga para contornar eventuais sustos durante a aula. “Ao escrever, você cria uma distância do que foi feito, o que ajuda na reflexão sobre os procedimen- tos utilizados”, explica Neide Noffs, professora de Didática e Metodologia do Ensino da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). “É com essa prática que o 113 LEITURA COMPLEMENTAR profissional consegue ter noção dos limites da flexibilidade do planejamento. Ele deve se perguntar se sua explicação surtiu efeito e os objetivos foram alcançados. Se não foram, cabe cogitar alguma alteração de rota”, argumenta. A especialista cita o francês Yves Chevallard para embasar seu entendimento de que as mudanças de percurso são bem-vindas. “Um conteúdo de saber que tenha sido de- finido como saber a ensinar sofre, a partir de então, um conjunto de transformações adaptativas que irão torná-lo apto a ocupar um lugar entre os objetos de ensino. O ‘trabalho’ que faz de um objeto de saber a ensinar um objeto de ensino é chamado de transposição didática”, escreveu o educador. Neide acredita que conhecer a realidade dos alunos é um fator fundamental nessa transformação do saber. “O conhecimento científico, por exemplo, não deve ser repetido em classe exatamente do jeito como está nos livros. As informações precisam ser trabalhadas e preparadas para serem repas- sadas aos estudantes. E é elementar entender quem são esses estudantes. Por isso, enquanto se aprendem quem são eles e o que sabem, podem ocorrer desvios de rota”, analisa. Outros fatores, menos ligados ao nível de conhecimento dos alunos, também podem influenciar a rotina desenhada. A previsão inicial de que as atividades devem ter con- tinuidade com tarefas como a lição de casa pode não ser concretizada. “Por motivos variados, acontece de algumas crianças não conseguirem fazer essa extensão dos es- tudos, o que as deixaria desamparadas no trabalho com um conteúdo que demanda teoricamente um complemento do estudo fora da escola”, diz a professora da PUC-SP. Acontecimentos cotidianos relatados na mídia ou mesmo eventos marcantes na comu- nidade igualmente podem - e devem - ser relacionados aos conteúdos curriculares, o que muitas vezes pede uma interrupção no combinado. “Há uma falta de tempo para o educador se planejar. E os sistemas escolares burocratizam o ensino. Fica a impressão de que com um roteiro rígido e rotineiro se erra menos. O problema é que muitas vezes o aprendizado passa a ser significativo exatamente quando você faz uma pausa para contextualizar certo tema, fugindo do script”, diz Newton Bryan, professor de Planeja- mento e Gestão Educacional da Faculdade de Educaçãoda Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Segundo ele, no entanto, devem ser tomados cuidados na hora de incluir novos assun- tos na pauta. “Ignorar não é o caso. São muitos games, vídeos e seriados que podem 114 LEITURA COMPLEMENTAR servir de inspiração. Mas é preciso ter uma boa formação para dar guinadas conside- ráveis. Um docente que não tem total habilidade com a geografia poderia ser um fra- casso tentando relacionar os conteúdos da disciplina com a catástrofe causada pelas chuvas em Santa Catarina”, pondera o especialista. Benigna também foca nesse ponto. “A escola precisa saber o que é fundamental para ser trabalhado e o que é secundário. Não está certo deixar tudo de lado para discutir determinado assunto sem nenhuma programação nem vínculo com o currículo. O peso de cada coisa precisa ser medido pelo educador sem exageros”, avalia a professora da UnB. AS DICAS PARA ATRAVESSAR A CORDA BAMBA É preciso equilíbrio para percorrer o ano letivo sabendo mesclar as atividades essen- ciais com eventuais mudanças de percurso que se fizerem necessárias rumo ao obje- tivo final. O mais importante é saber (re)planejar sempre, estabelecer prioridades e, principalmente, nunca deixar de levar em conta as características e necessidades de aprendizagem dos estudantes. Para tanto... • Considere sempre o que os alunos aprenderam até o momento, a série em que estão e a relevância do conteúdo. • Avalie com que frequência o assunto estudado aparecerá novamente nos anos seguintes. Se não existe uma previsão de retomada do conteúdo no futuro, tal- vez não seja a hora de desviar de foco. • Pergunte a si mesmo: “Quem eu estou ensinando?” Defina aonde quer chegar, o que a turma realmente precisa e o que é possível fazer. • Escute com atenção os questionamentos que surgirem. Por que ser flexível: O professor que não faz um planejamento maleável corre o risco de não alcançar seus objetivos. • Os alunos são a referência para a elaboração de um plano. É preciso acompa- nhar o desenvolvimento deles. • O plano é uma previsão, sujeita a erros. Daí a importância em mudar. Disponível em: <http://revistaescola.abril.com.br/planejamento-e-avaliacao/planeja- mento/planejamento-flexivel-427866.shtml>. Acesso em: 25 abr. 2012. EDUCAÇÃO FÍSICA 115 Agora que já conhecemos mais sobre a ca-pacidade do planejamento de se adaptar a realidade do ensino, vamos retomar nossas conclusões a partir das funções do plano indicados por Libâneo. Outra questão que podemos verificar nos apon- tamentos do autor é que um planejamento precisa ter uma ordem, uma sequência lógica. Essa sequên- cia é que nos permite organizar os passos necessários para alcançar os objetivos de ensino. Sendo assim, o professor precisa estabelecer uma sequência lógica para que o aluno possa compreender o conteúdo em toda sua amplitude. Nosso autor demonstra também em seus apon- tamentos a necessidade de objetividade. Esta diz res- peito a capacidade do plano de se corresponder com a realidade. Ou seja, com a capacidade do planeja- mento de ser colocado em prática, em ação. De nada adianta fazer planos perfeitos, com teorias ótimas, mas que não se aplicam a realidade de nossas escolas ou que estão fora das possibilidades de nossos alu- nos. Muitos professores reclamam que não conse- guem executar seus planos porque os alunos vieram da série anterior sem os conhecimentos necessários para começar a matéria nova. Nesse caso, de nada adiantará criticar a professora do ano anterior ou culpar os alunos por não terem aprendido os pré-re- quisitos mínimos para o desenvolvimento do novo conteúdo. É preciso adequar o planejamento a essa realidade e retomar do ponto inicial para que a ma- téria seja bem compreendida. Em outras palavras: é preciso ensinar o que não foi aprendido. Para isso, o planejamento precisa ser ainda coeren- te. Ser coerente nos objetivos, nos conteúdos, métodos e avaliação. Para Gil (2009, p. 97), “coerência é a rela- ção que deve existir entre as ideias e a prática. É tam- bém a ligação lógica entre os componentes do plano”. Se dissermos que nosso objetivo é ensinar os alunos a refletir e a desenvolver suas competências intelectuais, a organização dos métodos e dos conteúdos de nosso planejamento precisa refletir esses propósitos. Outra característica importante do planejamen- to e que já discutimos nesta unidade é a flexibilidade. Como dissemos anteriormente, o plano é um guia e não um documento inflexível. O trabalho docente é permeado por muitas mudanças e o planejamento precisa estar sujeito a essas alterações. Entendidas as funções e as características do pla- nejamento podemos prosseguir nossa análise e co- nhecer mais sobre os tipos de plano. DIDÁTICA 116 Gil (2009) nos informa que existem três tipos básicos de planejamento: o plano da escola, o plano de ensino e o plano de aula. O plano de aula é um docu- mento mais formal e global que indica as intenções e orientações gerais do Projeto Político Pedagógico da escola. As orientações expressas por esse docu- mento devem estar em concordância com o plano de ensino. O plano de ensino destaca os objetivos e as tarefas a serem realizadas pelo professor no período de um ano ou um semestre. É no plano de ensino que se elege a metodologia adequada para cumprir com as tarefas apontadas nos objetivos gerais e específicos dos conteúdos. Já o plano de aula estabelece uma previsão das atividades realizadas em uma aula ou em um conjunto de aulas para dar conta de um conteúdo. Por esse motivo ele é bem específico. No entanto, Libâneo (2008) nos alerta que o planejamento, por si só, não assegura o andamento do processo de ensino. Como vimos na unidade II, os processos de ensino são muito mais complexos e dependem do trabalho conjunto entre direção, co- ordenação de ensino, professores, pais e alunos. Mas o fato é que a ação docente se torna muito mais efi- caz quando é bem planejada e de acordo com o que veremos a seguir, os diferentes tipos de plano apre- sentados nesta unidade são complementares e enri- quecem o trabalho pedagógico na medida em que o professor os analisa em conjunto e utiliza tais infor- mações para avaliar sua própria prática. A seguir, co- nheceremos mais profundamente o plano da escola. Os Principais Tipos de Planejamento EDUCAÇÃO FÍSICA 117 Segundo Libâneo (2008), o plano da escola é o plano pedagógico e administrativo da ins-tituição escolar. Nele se explicita a concepção pedagógica do corpo docente, a metodologia teórica adotada pela escola para organização didática, a contextualização social da instituição, ou seja, sua realidade cultural e política, as características de sua clientela, os objetivos educacionais gerais e a estrutura curricular. Esse documento mais formal deve ser elaborado com a participação ativa de todos os integrantes do ensino. As decisões e informações contidas no do- cumento devem ser consensuais e expressar as pos- sibilidades reais de trabalho. Para Libâneo (2008, p. 230), “o plano da escola deve expressar os pro- pósitos dos educadores empenhados numa tarefa comum”. Desenvolvido dessa forma, ele serve como um orientador dos processos de ensino e aprendi- zagem. Os professores principalmente precisam ter sempre em mãos esse plano mais abrangente para orientar seus outros planejamentos e garantir assim, a unidade teórico-metodológica do trabalho escolar. A seguir, apresentaremos um roteiro, elaborado por Libâneo (2008, p. 230), com sugestões para ela- boração do plano da escola. 1. Posicionamento sobre as finalidades da educa- ção escolar na sociedade e na nossa escola. 2. Bases teórico-metodológicas da organização didática e administrativa (expressar os enten- dimentos coletivos sobre). • O tipode homem que se quer formar. • As tarefas da educação geral. O Plano Escolar DIDÁTICA 118 • O significado pedagógico-didático do traba- lho docente: as teorias do ensino e da apren- dizagem. • As relações entre o ensino e o desenvolvimen- to das capacidades intelectuais dos alunos; • O sistema de organização e administração da escola. 3. Caracterização econômica, social, política e cultural do contexto em que está inserida nossa escola: • Panorama geral do contexto. • Aspectos principais desse contexto que inci- dem no processo de ensino e aprendizagem. 4. Características sócio-culturais dos alunos: • Origem social e condições materiais da vida. • Aspectos culturais: concepção de mundo, práticas de criação e educação das crianças, motivações e expectativas profissionais, lin- guagem, recreação, meios de comunicação etc. 5. Objetivos educacionais gerais da escola quanto à(s): • Aquisição de conhecimentos e habilidades. • Capacidades a serem desenvolvidas. • Atitudes e convicções. 6. Diretrizes gerais para a elaboração do plano de ensino: • Sistema de matérias – estrutura curricular. • Critérios de seleção de objetivos e conteúdos. • Diretrizes metodológicas gerais e formas de organização do ensino. • Sistema de avaliação. 7. Diretrizes quanto à organização e à administra- ção: • Estrutura organizacional da escola. • Atividades coletivas do corpo docente: reuni- ões pedagógicas, conselho de classe, ativida- des comuns. • Calendário e horário escolar. • Sistema de organização de classes. • Sistema de acompanhamento e aconselha- mento dos alunos. • Sistema de trabalho com os pais. • Atividades extra-classe: biblioteca, grêmio estudantil, esportes, festas, recreações, clubes de estudo, visitas a instituições e locais da ci- dade. • Sistema de aperfeiçoamento profissional do pessoal docente e administrativo. • Normas gerais do funcionamento da vida cole- tiva: relações internas na escola e na sala de aula. A partir desse modelo de plano escolar podemos notar a abrangência do documento e a necessidade da participação coletiva para que todas as informa- ções expressas nele contemplem a realidade da ins- tituição. Compreendido o plano da escola, podemos analisar e conhecer o plano de ensino. EDUCAÇÃO FÍSICA 119 Para Gil (2009) o plano de ensino é um rotei-ro que tem por função organizar os conte-údos didáticos de um ano ou semestre. Ele contém os seguintes componentes: justifi- cativa da importância da disciplina, objetivos gerais, objetivos específicos, conteúdos, tempo utilizado para desenvolver determinado conteúdo e desenvolvimento metodológico. Sua elaboração pode ser apresentada de acordo com o quadro 1. PLANO DE ENSINO SEMESTRAL Disciplina? Série: Ano: Número: Sementre letivo: Professor: Justificativa da disciplina: Objetivos Gerais: Objetivos Específicos Conteúdos N° de aulas Desenvolvimento Bibliografia Quadro 1: elaborado pela autora Agora que você compreendeu a estrutura do plano de ensino, cabe analisar as informações que devem ser colocadas em cada item dele. Começaremos pela justificativa. O Plano de Ensino Esse tópico do plano de ensino deve informar a importância e o papel da disciplina ou matéria no desenvolvimento do aluno. Em outras palavras, de- vemos informar para que serve a matéria e em que ela pretende capacitar os estudantes. Normalmente, iniciamos a justificativa com al- gumas considerações gerais sobre a função social e pedagógica da matéria. Em seguida, descrevemos brevemente os objetivos que desejamos alcançar no trabalho com os alunos. Podemos ainda indicar de forma sucinta os conteúdos básicos da disciplina des- tacando a importância política, social e cultural deles. Gil (2009) sintetiza a importância da justificati- va afirmando que ela deve responder a três pergun- tas básicas do processo didático: o porquê, o para quê e o como. O próximo passo do plano de ensino trata dos conteúdos. Para organizar melhor os conteúdos e objetivos de ensino, Libâneo (2008) nos aconselha a dividir a matéria em unidades didáticas. Essas uni- dades são um conjunto de temas inter-relacionados desenvolvidos a partir de um tema central que pode ser detalhado em tópicos. O objetivo primordial das unidades didáticas é formar um todo contínuo e coerente em torno de uma ideia central. Assim, a compreensão do conteú- do é facilitada e unificada. Conhecendo a linha mes- tra dos conteúdos, o aluno percebe que as unidades formam um todo contínuo e homogêneo. A seleção e organização dos conteúdos é uma tarefa docente de extrema importância. Ela deve DIDÁTICA 120 mostrar aos alunos que os conteúdos não são ape- nas um conjunto de conhecimentos, mas também de atitudes, convicções, capacidades e valores. Para a organização dos conteúdos Libâneo (2008, p. 234) indica os seguintes procedimentos: • Ter em mente a concepção de educação e de escola, bem como seu posicionamento sobre os objetivos sociais e pedagógicos em relação a disciplina que leciona. • Dividir os conteúdos em unidades didáticas fornecendo primeiramente uma visão geral dos temas a serem trabalhados. Em segui- da, organiza-se o programa de acordo com o nível de preparo dos alunos e das condições concretas de desenvolvimento das aulas. Fei- to isso é necessário verificar. • Se as unidades formam um todo homogêneo e lógico. • Se as unidades realmente contemplam o con- teúdo básico e essencial para a aprendizagem dos alunos. • Se o tempo provável de desenvolvimento de cada unidade é realista em relação às condi- ções de aprendizagem dos alunos. • Se os tópicos de cada unidade realmente pos- sibilitam o entendimento da ideia central contida nessa unidade. • Se os tópicos de cada unidade podem ser trans- formados em conhecimentos e habilidades. A partir das orientações de Libâneo podemos no- tar que quanto mais cuidadosamente for formu- lado o conjunto dos conteúdos, mais facilmente podemos extrair deles os objetivos específicos e os métodos de ensino. Aliás, nossa próxima etapa do plano de ensino será a elaboração de objetivos específicos. Como já vimos anteriormente, os objetivos es- pecíficos vão orientar o trabalho do professor em re- lação à aprendizagem. Eles podem, inclusive, alterar os conteúdos e métodos para que sejam alcançados. Exatamente por ter essa força, é que devem ser sem- pre comunicados aos alunos. Esse processo orienta também o esforço da turma para que atuem em con- junto e não percam a direção. Ao descrever os objetivos, devemos registrá-los em linguagem afirmativa, deixando claro, o resulta- do esperado dos alunos ao fim daquela unidade di- dática. Os resultados se referem às habilidades, ou conhecimentos necessários aos alunos para desen- volver suas capacidades intelectuais. Por isso, os ob- jetivos devem ser selecionados e escritos com muita clareza, indicando pontualmente o que o aluno deve realmente aprender. Os objetivos precisam ainda ser realistas, ou seja, manifestar resultados que são possíveis de ser alcançados no tempo e nas condições existentes para o ensino. Sua formulação e seu conteúdo devem EDUCAÇÃO FÍSICA 121 corresponder ao nível de aprendizagem dos alunos e levar em conta a faixa etária e o desenvolvimen- to mental dos mesmos. Caso estes aspectos passem despercebidos pelo professor, os objetivos podem desmotivar os alunos ou tornarem-se utópicos. Vejamos alguns exemplos do registro dos objeti- vos no plano de ensino: • Observar e identificar, em diferentes ambien- tes (casa, comércio, escola), a utilidade da água. • Reconhecer os diferentes tipos de água como salgada, potável, poluída, doce e outros. • Demonstrar a importância da água para os seres vivos em geral.• Saber aplicar adequadamente medidas de preservação da água. Nesses exemplos podemos notar que os objetivos se referem a operações mentais simples como obser- var, identificar, demonstrar, reconhecer e operações mais complexas como saber aplicar na prática con- ceitos e comportamentos aprendidos. Alguns outros verbos auxiliam no registro de atividades mais sim- ples e outras mais complexas esperadas dos alunos. São eles: apontar, localizar, desenhar, nomear, desta- car, diferenciar, classificar, utilizar, organizar, men- cionar, formular etc. Depois de estipulados os objetivos, podemos passar para o desenvolvimento metodológico. Ele é o complemento do plano que dará vida aos objeti- vos. Indica o que os alunos e professores farão no decorrer da aula. O desenvolvimento metodológico estabelece a linha teórica a ser seguida no ensino para alcan- çarmos nossos objetivos em relação ao conteúdo. Na unidade III de nosso livro, escolhemos a didáti- ca histórico-crítica para efetivar nossa prática do- cente. Seguindo essa teoria como desenvolvimento metodológico devemos então descrever os passos a ser seguidos para o ensino da matéria. Podemos descrever de forma breve, os cinco passos (Prática Inicial do Conteúdo, Problematização, Instrumen- talização, Catarse e Prática Final do Conteúdo) in- dicados por Gasparin para desenvolver o conteúdo. Qual a utilidade social do conteúdo? Que ativida- des serão aplicadas para que os alunos aprendam o conteúdo? Que recursos serão utilizados no ensino da matéria? Ao final da descrição, teremos apresentado de maneira geral quais os métodos e procedimentos utilizados para o ensino dos conteúdos escolhidos. Também informaremos quais as principais ações a serem realizadas por professores e alunos para o de- senvolvimento das aulas. Compreendido as etapas que formam o plano de ensino, podemos partir para o plano de aula. DIDÁTICA 122 Vimos no início desta unidade que a aula é o centro do processo de ensino. Ela é a forma predominante de estruturação do ensino e para isso, devemos organizar e criar condições necessárias para que haja aprendiza- gem. Sendo assim, o plano de aula é um detalhamento do plano de ensino. As unidades (ou tópicos) previstas no plano de ensino serão agora mais detalhadas e es- pecificadas para uma situação real de sala de aula. O plano de aula é o momento em que o professor prepara e organiza sua aula. Essa é uma tarefa indispensável do professor pois, além de oferecer orientações teó- ricas e práticas, permite ao docente revisar e avaliar o desenvolvimento do ensino. Segundo Gil (2009), para a elaboração do plano de aula é preciso levar em conta primeiro que a aula tem um tempo previsto de desenvolvimento. Dificil- mente damos conta de uma matéria em uma aula, pois o processo de ensino e aprendizagem se com- põe de várias fases interligadas. Portanto, o que de- vemos fazer no plano de aula é organizar as noções básicas que serão desenvolvidas em um conjunto de aula. Devemos ainda, segundo Libâneo (2008) sele- cionar os temas da matéria em uma sequência lógi- ca, na forma de conceitos, problemas e ideias. Dessa maneira, estaremos organizando um conjunto de atividades que permite ao aluno ter uma visão clara e coordenada sobre o assunto. Para cada conteúdo selecionado o professor pode estabelecer um (ou mais) objetivo(s), levan- do em conta os resultados esperados na aquisição de habilidades ou conhecimentos. Com o intuito de assegurar a conquista dos objetivos elencados, o professor deve realizar constantes avaliações. No en- tanto, são indispensáveis a aplicação da avaliação no início de cada fase do plano de aula e no final dele. A avaliação inicial tem o intuito de coletar infor- mações a respeito do quanto os alunos já conhecem do conteúdo. Essa informação é bastante importante para que o docente inicie a matéria do ponto ideal, ou seja, nem acima do que os alunos necessitam e nem abaixo. Já a verificação final pretende avaliar o rendimento do aluno, destacando seus pontos fracos e fortes em relação à matéria. Essa avaliação permite ao professor conhecer o quão do conteúdo foi assi- milado e se existe a necessidade de novas explica- ções e revisões. Libâneo (2008, p. 243) nos lembra: O professor consciencioso deverá fazer uma avaliação da própria aula. Sabemos que o êxito dos alunos não depende unicamente do profes- sor e de seu método de trabalho, pois a situação docente envolve muitos fatores de natureza so- cial, psicológica, o clima geral da dinâmica da escola etc. Entretanto, o trabalho docente tem um peso significativo ao proporcionar condi- ções efetivas para o êxito escolar dos alunos. Concordando com nosso autor, gostaria ainda de esclarecer que a avaliação das próprias aulas é o que garante ao professor a consciência de seu próprio trabalho, de seu fazer pedagógico. É mediante a au- toavaliação que adquirimos instrumentos que nos orientam sobre a realidade de nosso desempenho, sobre o comprometimento e a competência de nos- sas aulas. Plano de Aula EDUCAÇÃO FÍSICA 123 Para exemplificar tudo o que foi dito até aqui, analisaremos um modelo de plano de aula indicado e elaborado por Gasparin (2007, p. 125-126). PLANO DE AULA Objetivos Conteúdos Dimensões Ações Recursos Conhecer ci- entificamente a água para distingui-la de outros líquidos do cotidiano. Estados físicos: sólido, líquido e gasoso. Conceitual, Histórica, Social. Exposição oral do professor. Experiéncias em laboratórios; Pesquisa Bibli- ográfica. Laboratórios; Água quente, fria e gelada; Livros, revistas e filmes Objetivos Conteúdos Dimensões Ações Recursos Entender a água como um recur- so natural em suas dimensões econômicas, políticas e histórica. Importância da água para as pessoas e para a agricultura. Conceitual; Social; Econômica; Política. Visitas às es- tações de água. Entrevistas. Discussões sobre a cota de água. Filmes. Estação de tratamento de água . Livros. Analisar o ciclo da água, buscan- do compreender sua influência sobre o homem. Ciclo da água na natureza. Conceitual; Científica; Social. Debate sobre um filme relacio- nado ao tema . Realização de experiências em laboratórios. Pluviômetro. Filme. Laboratório. Aplicar os conhecimentos adquiridos economizando água, não poluindo os rios, as fontes e praias. Poluição e purificação da água. Conceitual; Científica; Estética; Social. Visitas a rios poluídos e a rios limpos. Debate sobre a poluição da água. Rios. Entrevista com autoridades. Amostras de água limpa e poluida. Tabela 1. Agora que você já conhece diferentes tipos de planejamento, analise um pouco sobre a importância de cada um deles lendo a entrevista com Celso Vasconcellos, um importante pesquisador da área de planejamento educacional. 124 LEITURA COMPLEMENTAR CELSO DOS SANTOS VASCONCELLOS FALA SO- BRE PLANEJAMENTO ESCOLAR Especialista critica a burocracia e diz que o coordenador pedagógico deve se aliar a outros colegas para não se sentir sozinho. Paula Takada (<paula.takada@abril.com.br>) Celso dos Santos Vasconcellos já foi professor, coor- denador pedagógico e gestor escolar. Ao longo de sua extensa carreira de educador, participou de inúmeros processos de planejamento nas escolas e gosta de di- zer que aprendeu muitas lições. “Às vezes, há uma ten- tação enorme de ficar gastando tempo com problemas menores, quase sempre da esfera administrativa ou burocrática. Justamente por isso é tão importante plane- jar o planejamento”, afirma. Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo, mestre em História e Filoso- fia da Educação pela Pontifícia Universidade Católicade São Paulo e autor de diversos livros sobre esse assunto, o especialista fala na entrevista a seguir a respeito dos meandros do processo de elaboração das diretrizes do trabalho da escola. Por onde se deve começar um bom planejamento? CELSO VASCONCELLOS Depende muito da dinâmica dos grupos. Existem três dimensões básicas que precisam ser consideradas no planejamento: a realidade, a finali- dade e o plano de ação. O plano de ação pode ser fruto da tensão entre a realidade e a finalidade ou o desejo da equipe. Não importa muito se você explicitou primeiro a realidade ou o desejo. Então, por exemplo, não há pro- blema algum em começar um planejamento sonhando, desde que depois você tenha o momento da realidade, colocando os pés no chão. Em alguns casos, se você co- meça o ano fazendo uma avaliação do ano anterior, o grupo pode ficar desanimado - afinal, a realidade, infe- lizmente, de maneira geral, é muito complicada, cheia de contradições. Às vezes, começar resgatando os sonhos, as utopias, dependendo do grupo, pode ser mais pro- veitoso. O importante é que não se percam essas três dimensões e, portanto, em algum momento, a avaliação, que é o instrumento que aponta de fato qual é a realida- de do trabalho, vai aparecer, começando o planejamento por ela ou não. É possível realizar um processo de ensino e aprendizagem sem planejar? VASCONCELLOS É impossível porque o planejamento é uma coisa inerente ao ser humano. Então, sempre temos al- gum plano, mesmo que não esteja sistematizado por escri- to. Agora, quando falamos em processo de ensino e apren- dizagem, estamos falando de algo muito sério, que precisa ser planejado, com qualidade e intencionalidade. Planejar é antecipar ações para atingir certos objetivos, que vêm de necessidades criadas por uma determinada realidade, e, so- bretudo, agir de acordo com essas ideias antecipadas. 125 LEITURA COMPLEMENTAR Em alguns contextos, o planejamento ainda é encarado como um instrumento de controle? VASCONCELLOS Sim, em algumas escolas e redes, ele ainda é um instrumento burocrático e autoritário. Em um sistema autoritário, o planejamento é uma arma que se volta contra o professor porque o que ele disser - ou alguém disser por ele - que vai ser feito tem que ser cumprido. Caso contrário, ele foi incompetente. E, nem sempre, conseguimos fazer o que planejamos. Por diversas razões, inclusive por falha nossa, mas não uni- camente por isso. No entanto, o movimento da socie- dade e o processo de redemocratização tem favorecido o conceito de planejamento como real instrumento de trabalho e não como uma ferramenta de controle dos professores. Qual a relação entre o planejamento e o projeto político-pedagógico? VASCONCELLOS Nesse processo de planejar as ações de ensino e aprendizagem, existem diversos produtos, como o projeto político-pedagógico, o projeto curricular, o projeto de ensino e aprendizagem ou o projeto didáti- co, que podem ou não estar materializados em forma de documentos. O ideal é que estejam. Quando falamos do planejamento anual das escolas, temos como referência o projeto político pedagógico. É possível fazer um planejamento sem conhecer o projeto político-pedagógico da escola? VASCONCELLOS Um projeto, a escola sempre tem, mesmo que ele não esteja materializado em um documento. Agora, o ideal é que esse projeto seja público e explicitado. Na hora do planejamento anual, ele deve ser usado como algo vivo, como um termômetro para toda a comunidade escolar sa- ber se o trabalho que está sendo planejado está se aproxi- mando daqueles ideais políticos e pedagógicos ou não. Como evitar que o tempo dedicado ao planeja- mento anual não seja desperdiçado? VASCONCELLOS Nas escolas, o coordenador pedagógico é o responsável por esse processo. É preciso prever mo- mentos específicos para cada tipo de assunto e ser firme na coordenação. Às vezes, há uma tentação muito grande em ficar gastando tempo do planejamento com proble- mas menores, administrativos ou burocráticos. Então, é muito importante planejar o planejamento, reservando momentos específicos para cada assunto, e ser rigoroso no cumprimento dessa organização. Ele precisa ser um coordenador pedagógico forte, mas onde buscar apoio para se fortalecer? Em alguns casos, há o apoio da direção, mas é muito importante que ele faça parte de um grupo com outros profissionais no mesmo cargo para trocar ex- periências e sentir que não está sozinho nesse trabalho. 126 LEITURA COMPLEMENTAR Com que frequência as ações do planejamento anual devem ser revistas pela equipe? VASCONCELLOS Eu insisto muito na reunião pedagógica semanal. Na minha opinião, esse encontro não deve ser por área, e sim com todos os professores daquele ciclo, daquele período. Se todos os professores, por exemplo, do ciclo II do Ensino Fundamental do período da manhã estão presentes no mesmo momento, em um dia fixo da semana, no período da tarde, durante cerca de duas horas, o coordenador pedagógico pode montar reuniões por área, ou por nível ou gerais, conforme as necessida- des. Esse momento de encontro é imprescindível para planejar um trabalho de qualidade com coerência entre os professores. Além de ser um momento de socializa- ção. Existem professores que descobrem coisas excelen- tes que vão morrer com ele porque não foram sistema- tizadas nem ele compartilhou aquelas descobertas. E, na hora do planejamento, há a possibilidade de reservar um momento para isso. Existe algum momento que deve ser planejado com mais cuidado? VASCONCELLOS Sim, as primeiras aulas. Principalmente das séries iniciais. Existem estudos que mostram que a boa relação professor/aluno pode ser decidida nessas aulas. Há pesquisas que vão além e apontam os primei- ros instantes da primeira aula como determinantes do sucesso da atividade docente. Então, se o professor tem de preparar bem todas as aulas, as primeiras precisam de mais cuidado. E não é só determinar os conteúdos a ser abordados, os objetivos a atingir e a metodologia mais adequada. É, sobretudo, se preparar, tornar-se dis- ponível para aqueles alunos, acreditando na possibilida- de do ensino e da aprendizagem, estando inteiramente presente naquela sala de aula, naquele momento. Disponível em: <http://revistaescola.abril.com.br/planejamento-e-avaliacao/planeja- mento/planejar-objetivos-427809.shtml>. Acesso em: 30 abr. 2012. 127 considerações finais Em toda trajetória de nosso livro, temos abordado os principais temas da didática. Por esse motivo, o conteúdo desta nossa quarta unidade se torna indispensável. Ao conhecermos mais sobre o planejamento, estamos também analisando a qualidade da educação, da escola e do ensino. Os autores que fundamentaram nossa unidade iniciam as discussões afirmando que o planejamento é um instrumento transformador da prática docen- te. Ele atua diretamente na qualidade do ensino e da aprendizagem, quesitos que estão no cerne da me- lhoria da escola. Isso quer dizer que toda mudança desejada na escola ou na educação começa na sala de aula, entre professores e alunos. A partir desta conscientização, o ideal seria se todos os docentes e auxiliares envolvidos no processo de ensino parti- cipassem da construção dos diversos tipos de plano executados na escola. Dessa forma, é possível com- partilhar dos mesmos objetivos e crenças em relação à aprendizagem. Vimos ainda que a escola se organiza a partir de uma filosofia. Essa linha metodológica deve ser com- partilhada, com uma linguagem única e praticada por todos. A melhor forma de compartilhar essa fi- losofia é por meio do planejamento.O plano unifica as ações didáticas e organiza os processos de ensino. Esta união possibilita reflexões sobre questões fun- damentais, como: estilo de ensino, habilidades para o ensino, recursos necessários, autoavaliação, forma- ção continuada e outras questões. Mas, para que o planejamento seja um instru- mento de uso real e prático nas escolas, ele deve se pautar em alguns itens apresentados ao longo desta unidade. A seguir, apresentarei resumidamente os aspectos mais importantes do planejamento: • Desenvolvimento de uma linguagem compar- tilhada sobre os principais objetivos em rela- ção ao ensino e a aprendizagem. • Possuir um repertório variado de técnicas de ensino que possibilitem o alcance dos objeti- vos selecionados. • Selecionar conteúdos capazes de serem adap- tados aos interesses sociais e pessoais dos alu- nos. • Explorar e conhecer as diferentes formas pe- los quais os alunos aprendem. • Utilizar diferentes recursos de aprendizagem: explorar de maneira mais significativa os re- cursos tecnológicos, a biblioteca, vídeos e jo- gos de apoio. • Avaliar em todas as etapas do plano: infor- mar ao aluno seu desempenho durante o de- senvolvimento do conteúdo e após avaliação formal indicar os pontos fracos e fortes na aprendizagem de cada um. • Propor desafios apropriados à idade, ao ní- vel de desempenho dos alunos e seguindo os conteúdos que já foram trabalhados. • Criar ambientes propícios para aprendiza- gem: organização da sala, clima de coopera- ção, mostras interativas. • Monitorar o ensino e aprendizagem mediante reflexões críticas, observações, autoavaliação, pesquisas e outros. Por meio destas práticas, podemos produzir planeja- mentos possíveis de serem praticados e comprome- tidos com a criação de uma cultura de aprendizagem dinâmica e capaz de demonstrar resultados reais. 128 atividades de estudo 1. Vimos nesta unidade que muitos professores não acreditam na função di- dática do planejamento. Analise essa informação e descreva algumas das principais dificuldades sentidas pelos professores no momento de plane- jar suas aulas. 2. Sabemos que o planejamento é um poderoso instrumento de transforma- ção da prática docente. Demonstre, por meio de exemplos, a importância do ato de planejar o ensino. 3. Gil (2009) nos informa que existem três tipos básicos de planejamento: o plano da escola, o plano de ensino e o plano de aula. A partir dessa infor- mação, explique os principais objetivos de cada tipo de plano citado por Gil. EDUCAÇÃO FÍSICA 129 Planejamento: Projeto de Ensino-Aprendizagem e Projeto Político- -Pedagógico Celso Vasconcellos Editora: Libertad Ano: 2008 Sinopse: por uma série de distorções históricas, o planejamento, seja como Projeto de Ensino-Aprendizagem ou Projeto Político-Pedagógico, acabou ficando marcado, na re- presentação dos educadores, tanto pelo “Impossível” (não é possível planejar de forma autêntica), quanto pelo “Contingente” (não é necessário, da maneira como vem aconte- cendo não resolve). Nosso desafio é resgatá-lo como “Necessário” e “Possível”. Entende- mos que é preciso superar a adesão deslumbrada (que considera o planejamento como uma espécie de panaceia), ou a pura e simples rejeição (que considera-o como empulha- ção), compreendendo-o como prática humana contraditória, tendo lucidez de seus limi- tes (constrangimentos naturais, sociais ou inconscientes, concepções equivocadas), mas também de suas potencialidades (tomada de consciência, elemento articulador da ação). Na sua essência, a educação é projeto, e, mais do que isto, encontro de projetos; en- contro muitas vezes difícil, conflitante, angustiante mesmo; todavia altamente provo- cativo, desafiador, e, porque não dizer, prazeroso, realizador. Mais do que sistematizar e disponibilizar ferramentas, esperamos estar colaborando para romper bloqueios e apontar caminhos, a fim de fazer do Planejamento um Mé- thodos de Trabalho do educador (pessoal e coletivamente), que o ajude na tarefa tão urgente e essencial de transformar a prática, na direção de um ensino mais significativo, crítico, criativo e duradouro, como mediação para a construção da cidadania, na pers- pectiva da autonomia e da solidariedade. Que o planejamento efetivamente deixe de ser visto como função burocrática, formalista e autoritária, e seja assumido como forma de resgate do trabalho, de superação da alienação, de reapropriação da existência. Aborda os seguintes aspectos: • A problemática atual do Planejamento na Educação • Ressignificação da Prática do Planejamento • Fundamentos Histórico-Antropológicos do Planejamento • Processo de Planejamento • Tipos e níveis de Planejamento • Estrutura e Elaboração do Projeto de Ensino-Aprendizagem • Estrutura e Elaboração do Projeto Político-Pedagógico Este livro é essencial para as instituições que estão elaborando ou revisando seus Projetos Político-Pedagógicos (concepção e metodologia de elaboração do Projeto). Disponível em: <http://www.celsovasconcellos.com.br/index_arquivos/Page592.htm>. Acesso em: 30 abr. 2012. DIDÁTICA 130 Como o planejamento pode auxiliar o professor? Para refletir mais sobre o tema assista ao vídeo abaixo: <http://www.youtube.com/watch?v=7XKWgidh4B0>. UNIDADE V AVALIAÇÃO ESCOLAR Professora Me. Ionah Beatriz Beraldo Mateus Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: • Definindo a avaliação escolar • Características da avaliação • Diferentes formas de avaliar Objetivos de Aprendizagem • Conceituar e reconhecer a importância da avaliação escolar. • Analisar diferentes formas de avaliação. • Conhecer as principais características da avaliação escolar. unidade V INTRODUÇÃO 134 Em nossa unidade anterior vimos que o planejamento é um impor-tante instrumento capaz de transformar a prática docente. Mas, para que isso seja possível, ele precisa estar sempre concatenado com a realidade, precisa ser aplicável e comprometido com o ensino e a aprendizagem. E você sabe como manter seu planejamento sempre atualizado? A resposta é simples, por meio de constantes avaliações. Aliás, esse é o assunto de nossa última unidade: a avaliação. Conhe- ceremos melhor o conceito das verificações escolares, sua importância e formas responsáveis de avaliar. Veremos que a avaliação é um instrumento pelo qual o professor de- tecta os níveis de aprendizagem atingidos pelos alunos e trabalha para que consiga a qualidade necessária para um ensino eficaz. Vamos ver também, que o processo de ensino não termina na avalia- ção. Pelo contrário, depois de atribuído um valor para a aprendizagem, a avaliação continuada exige uma tomada de posição a favor ou contra o resultado obtido. Os resultados de uma avaliação exigem necessaria- mente uma ação e assim, somos conduzidos a manter a aprendizagem como está ou atuar sobre ela. Encarando a avaliação dessa forma, podemos romper com a prática atual da maioria das escolas. Em geral, elas utilizam as provas e notas para classificar os alunos por meio de sua aprovação ou reprovação. As- sim, além de não contribuir para a melhoria do ensino e da aprendiza- gem, a avaliação impõe aos alunos consequências negativas. Você está interessado em mudar essa situação? Então, siga em frente e discutiremos mais sobre isso. 135 DIDÁTICA 136 Segundo o professor Luckesi (2005), um dos mais renomados pesquisadores da área ava-liativa, a avaliação é uma apreciação quali-tativa sobre dados relevantes do processo de ensino e aprendizagem que auxilia o professor a tomar decisões sobre o seu trabalho. Os resultados dessa prática devem ser encarados como manifestações das situações didáticas, nas quais o professor e os alunos estão empenhados em atingir os objetivos de ensino. A análiseda qualidade desses dados, feita por meio de Definindo a Avaliação Escolar provas, exercícios, tarefas, respostas dos alunos etc., permite uma tomada de decisão para o que deve ser feito em seguida. No entanto, poucas escolas brasileiras encaram a avaliação dessa forma. Segundo Gil (2009), ela ain- da é um aspecto crítico da educação. Em uma pes- quisa realizada pelo autor, ele aponta as principais críticas em relação às provas e aos exames realizados em nossas escolas. A seguir, apontarei os resultados obtidos por Gil. EDUCAÇÃO FÍSICA 137 1. A avaliação é fonte de ansiedade e de stress: na maioria das escolas brasileiras prevalece a tradição de realizar provas ou exames finais de diferentes disciplinas em poucos dias. Isso gera um clima de tensão que normalmente é piorado por professores que utilizam as pro- vas para ameaçar ou se “vingar” dos alunos. 2. A avaliação conduz a injustiças: muitas pro- vas são elaboradas contendo apenas uma ou duas perguntas, escolhidas muitas vezes mais pela facilidade de correção do que por sua importância real no contexto da matéria. Por outro lado, há questões que abrangem todo o conteúdo da disciplina, correndo muitas ve- zes o risco de transformar a prova em uma verdadeira maratona. 3. A avaliação privilegia o controle e a retenção do conhecimento: avaliar aquilo que o alu- no foi capaz de memorizar é muito mais fá- cil do que avaliar aquilo que ele efetivamente aprendeu ou que pode aplicar em situações práticas. 4. Muitas avaliações tem pouco a ver com o que foi ensinado: imagine um professor que tenha trabalhado conteúdos através de discussões e promovido pesquisas. Mas, nas provas pro- ponha questões que não se relacionam com a forma como o conteúdo foi abordado. Mesmo sendo inadmissível, isso é muito frequente e denota a falta de conhecimentos didáticos para elaborar provas. 5. A avaliação tradicional favorece o imobilis- mo social: as provas tradicionais têm servi- do muito mais para selecionar pessoas pela qualificação social do que pela qualificação técnica. Para Luckesi (2005), a avaliação ao longo dos últimos séculos vinculou-se qua- se que exclusivamente à função seletiva da escola. As notas obtidas na escola seguem as pessoas por toda vida, definindo de alguma forma o seu grau na hierarquia profissional, o seu nível de remuneração e o poder de que irá dispor. 6. As avaliações são influenciadas pelos estere- ótipos dos professores: os estereótipos acon- tecem de forma consciente e de forma incons- ciente. O professor corrige inicialmente uma avaliação com resultados medíocres e tende a achar que todas as demais provas terão o mes- mo resultado. Também pode ocorrer do do- cente valorizar as respostas de um aluno que ele considera bom e fazer da prova desse alu- no, modelo de correção para outras. 7. As provas enfatizam mais a forma do que o conteúdo: a forma como o aluno escreve ou escolhe para se exprimir, é muitas vezes mais valorizada do que o conteúdo abordado em sua escrita. Nesse caso, a forma é mais valo- rizada do que os conhecimentos específicos. 8. As avaliações desestimulam a expressão dos juízos pessoais dos alunos: é natural que os alunos estudem pensando nas provas, dire- cionando-se para aquilo que acreditam ter maior probabilidade de cair nos testes. Além disso, tendem a responder às questões pen- sando na maneira como o professor gostaria que respondessem. Como consequência, os estudantes são desestimulados a exprimir ju- ízos pessoais. 9. As avaliações recompensam aprendizagens efêmeras: muito do conhecimento que é aprendido com a finalidade de ser avaliado desaparece algum tempo depois da prova. Esta situação pode ser explicada pelo fato de que estímulo maior não foi para o aprendiza- do, mas para a obtenção da aprovação. Logo após o objetivo ter sido alcançado, o estímulo desaparece. DIDÁTICA 138 10. As avaliações contribuem para encurtar o período letivo: para ser adequada a avaliação não pode se restringir à prova final. Quando são aplicadas várias provas ao longo do ano ou semestre, o tempo destinado ao ensino di- minui consideravelmente, sem contar que as provas normalmente são antecedidas por um período de preparação e sucedidas por um período de esgotamento. 11. Os exames tradicionais desestimulam o tra- balho em grupo: esses exames exaltam os resultados individuais e, consequentemente, o egoísmo. Muitos professores sentem difi- culdade para justificar o trabalho em grupo durante as aulas, já que as avaliações serão individuais. 12. As provas tradicionais incentivam a frau- de: há estudantes que ao invés de estudar para as provas dedicam seu tempo para preparar “colas”. Na atualidade, esse pro- blema é ainda mais grave em função da aplicação das modernas tecnologias de co- municação. 13. A exigência da avaliação dificulta o avanço dos estudantes: como o professor tem um progra- ma a cumprir, cujo aprendizado dos estudantes será objetivo de avaliação, ele não os encoraja a avançar segundo seu próprio ritmo. A pesquisa de Gil é reveladora e nos obriga a refletir e considerar muitos aspectos desagradáveis e até mes- mo injustos do processo de avaliação. No entanto, a avaliação é um elemento necessário para a aprendi- zagem e faz parte da vida e lógica social. Para que ela seja expressa como um instrumento saudável e útil, Libâneo (2008) atribui três tarefas para a avaliação: a verificação, a qualificação e a apreciação qualitativa. A verificação acontece com a coleta de dados so- bre o aproveitamento dos alunos. Isso pode ser feito mediante atividades individuais e coletivas, exercícios, tarefas, pesquisas e não apenas por meio da prova for- mal. A qualificação ocorre com a comprovação dos resultados alcançados em relação aos objetivos. Se ne- cessário pode ou não haver atribuição de nota ou valor. Já a apreciação qualitativa exige uma análise dos resul- tados obtidos para a redefinição dos padrões de apren- dizagem. Nesse caso, a avaliação dita propriamente os resultados e a partir deles, se reorienta o ensino. Encarada dessa forma, a avaliação deixa de ser um processo estático e classificatório e passa a assumir funções didáticas e pedagógicas. Ela passa a garantir ainda o cumprimento dos objetivos gerais e específicos selecionados pelo professor. Ao se comprovar os resul- tados do processo de ensino, o professor tem a oportu- EDUCAÇÃO FÍSICA 139 nidade de avaliar também seu próprio trabalho e ana- lisar se os alunos se encontram ou não preparados para as exigências sociais e culturais. Para Libâneo (2008), a avaliação também favorece a criação de atitudes mais responsáveis dos alunos em relação a seus estudos, possibilitando ainda a correção dos erros cometidos. Outra função da avaliação destacada por nosso autor é a de identificar progressos e dificuldades dos alunos e dos professores. Essa função é conhecida como diagnóstica e segundo Libâneo (2008, p. 197): Na prática escolar cotidiana, a função diagnós- tica da avaliação é a mais importante porque é a que possibilita a avaliação do cumprimento da função pedagógico-didática e a que dá novo sentido a função de controle. A avaliação diag- nóstica ocorre no início, durante e no final do desenvolvimento das aulas e conteúdos. Como podemos perceber por meio das palavras do autor, a avaliação diagnóstica ocorre em todo o pro- cesso de ensino e em diversas etapas. Na etapa ini- cial, sua função é a de verificar os conhecimentos e experiências já disponíveis nos alunos. Esses dados serão utilizados pelo professor como pré-requisitos para a sequência ideal dos conteúdos. Durante o processo de ensino, os alunos são ava- liados com o objetivo de acompanhar seus progressos, corrigir as falhas, esclarecer dúvidas e estimulara apren- dizagem. Ao mesmo tempo, essa avaliação fornece pre- ciosas informações a respeito de como o professor está conduzindo seu trabalho. É possível verificar se o ritmo do conteúdo está adequado ao ritmo de aprendizagem dos alunos, se os métodos e técnicas utilizados estão de acordo com os objetivos elencados, se os materiais es- colhidos estão de acordo com o nível de compreensão e linguagem dos alunos etc. E, finalmente, a avaliação realizada ao final do conteúdo tem como objetivo espe- cífico verificar a aprendizagem da matéria ou conteúdo. Mediante as constantes avaliações, notamos que aos poucos, vamos tendo maior controle das situa- ções que envolvem o processo de ensino. Esse con- trole permite ao professor observar como os alunos estão se saindo na assimilação de novos conheci- mentos e de novas habilidades. Nesse caso, a atribui- ção de notas não é necessária, pois a finalidade é a de fornecer informações relevantes para o professor. Entendido o conceito e as principais funções da avaliação vamos conhecer mais sobre sua impor- tância para a educação. Leia a entrevista e fique por dentro desse assunto. 140 LEITURA COMPLEMENTAR AVALIAÇÃO 10 respostas sobre a avaliação de seu filho Por que é importante avaliar as crianças? É preciso mesmo atribuir notas? Especialistas tiram as dúvidas sobre este tema Texto Marina Pastore Seu filho vai ser avaliado. Não importa qual seja a série, a escola ou o sistema de ensino: ele receberá uma nota - nem sempre boa - por seu desempenho. Mas isso é mes- mo necessário? Sim, dizem os especialistas, a avaliação é a melhor maneira de medir o rendimento do aluno. Mas ela é mais do que isso: também pode revelar ao professor se o método de ensino que ele está utilizando é eficiente. Agora, atenção: avaliação não é igual a prova. Há muitas maneiras de ver se o conteúdo foi aprendido que não passam necessariamente pelos exames, chamadas orais e outros “cabeludos” que tanto assustam os estudantes. Alguns exemplos: atividades em sala, trabalhos em gru- po e individuais, pesquisas, lição de casa. E provas, claro. Tire suas dúvidas sobre lendo os itens a seguir: PARA QUE SERVE A AVALIAÇÃO A avaliação mede o nível de aprendizado de cada aluno e também busca identificar possíveis problemas no mé- todo de ensino. Isto quer dizer que ela não serve apenas para aprovar ou reprovar: a avaliação deve detectar as facilidades e as dificuldades de aprendizagem que pos- sam ser acompanhadas em longo prazo. “A nota informa a família, o aluno, mas deveria informar principalmente o professor, para permitir o acompanhamento: mostrar precisamente o que o aluno sabe; o que falta saber; e, portanto, o que precisa ser ensinado”, diz o professor Oci- mar Munhoz Alavarse, da Faculdade de Educação da USP. É por isso que o Conselho Nacional de Educação reco- menda que a avaliação dos alunos seja contínua e cumu- lativa. Afinal, uma nota isolada nem sempre contém a informação necessária ao professor, isto é, a medida precisa de quanto o aluno realmente sabe. COMO A AVALIAÇÃO DEVE SER FEITA A forma de avaliação - prova, trabalho, atribuição de no- tas ou conceitos - depende muito do conteúdo trabalha- do e das necessidades da classe. Por isso, cabe ao pro- fessor decidir qual o método mais adequado em cada caso. Mesmo assim, de maneira geral, o Conselho Nacio- nal de Educação recomenda que as formas mais contínu- as de avaliação (como a observação do comportamento do aluno e exercícios em classe) tenham peso maior do que resultados mais específicos, como os de provas fi- nais. Dessa forma, mais do que promover o aluno para o próximo ano, a avaliação pode ajudar a identificar as maiores dificuldades de aprendizagem. É importante no- tar que a avaliação serve, também, para detectar proble- mas no próprio ensino: por isso, o Conselho recomenda que a família e o aluno tenham direito de discutir os re- sultados com os professores e gestores escolares. Assim, os próprios procedimentos de ensino e avaliação podem ser revistos de acordo com as necessidades dos alunos. COMO A NOTA DEVE SER ESTABELECIDA Além dos resultados de provas e testes, o professor pode levar em conta outros fatores para estabelecer a nota, como o comportamento e a participação em sala, o de- sempenho em atividades em grupo, em exercícios e lições de casa, entre outros. Para Maria Teresa de Oliveira Lima, 141 LEITURA COMPLEMENTAR coordenadora das séries finais do Ensino Fundamental do Colégio São Domingos, a avaliação não deve ser ape- nas o momento da prova, mas um processo: “Ela inclui o trabalho com diferentes competências, procedimentos, conteúdos. Ela ocorre cotidianamente no olhar apurado dos professores e colegas, nas devolutivas dadas, nas revisões feitas pelos próprios alunos e também inclui momentos específicos, de sistematização das aprendiza- gens: avaliações que exigem uma disciplina de estudos, organização e tempo de concentração. Em relação aos critérios, também são muitos, desde apresentação esté- tica, respeito aos prazos, passando pelo uso adequado dos conceitos, dos termos específicos da disciplina até a produção de textos coesos, completos e coerentes”. Em geral, o resultado de todos estes fatores é resumido num sistema de classificação: algumas escolas usam no- tas de 0 a 10, outras utilizam os conceitos A, B, C, D e E, ou outros sistemas. O princípio de todos é o mesmo, ou seja, registrar o desempenho do aluno. A principal dife- rença é que, em geral, uma nota de 0 a 10 é baseada no rendimento objetivo do aluno em provas e testes. Já os conceitos (A, B, C, D e E) tendem a considerar também fa- tores mais subjetivos, que dificilmente são medidos em números, como o comportamento e a dedicação do alu- no. No colégio São Domingos, por exemplo, o conceito A significa que, além de ter atingido os objetivos propos- tos, o aluno destacou-se pelo seu comprometimento e pela qualidade de seu trabalho; já o conceito E não quer dizer apenas que o rendimento do aluno foi baixo, mas também que ele pode estar num momento de rejeição ao trabalho escolar, indicando a necessidade de diálogo entre pais, professor e coordenação. A PARTIR DE QUE IDADE A CRIANÇA DEVE COMEÇAR A SER AVALIADA “Este processo deve começar a partir do momento em que a criança entra no ambiente de formação”, diz a pro- fessora Nadia Aparecida de Souza, coordenadora do Pro- grama de Mestrado em Educação da Universidade Esta- dual de Londrina (UEL). Isto não significa que o aluno já deva ser cobrado no Ensino Infantil da mesma forma que será quando for mais velho, e sim que as dificuldades de aprendizagem já devem começar a ser percebidas desde cedo. “Existe uma grande confusão quando dizem que submeter uma criança a um teste seja avaliação. Avalia- ção é todo procedimento que o professor implementa para perceber as facilidades e dificuldades enfrentadas pela criança na apropriação do saber e no seu desen- volvimento. Percebendo um problema, o educador o analisa e toma medidas que levem à superação desse problema. Não importa se é criança, jovem ou adulto: as dificuldades têm que ser superadas”, completa a profes- sora. A AVALIAÇÃO PODE GERAR COMPETITIVIDADE ENTRE AS CRIANÇAS O início dos processos pode levar à competitividade por- que gera um processo classificatório, que envolve mérito expresso em notas e elogios. “Existe um ranking no qual alguns estão no topo e outros estão na base. É uma pre- paração para a sociedade, que nos diz que alguns mere- cem o topo e outros não. Essa noção existe nas pessoas, estabelecendo um ambiente competitivo desde tenra ida-de”, diz a professora Nadia Aparecida de Souza, coorde- nadora do Programa de Mestrado em Educação da UEL. 142 LEITURA COMPLEMENTAR Para lidar com este tipo de situação em sala de aula, o próprio educador deve ter em mente que todos os seus alunos podem aprender e que não cabe a ele di- zer se um aluno é bom ou ruim, e sim fazer com que cada um atinja o seu melhor. “O professor deve ser um exemplo de respeito para todos: se ele trata me- lhor o aluno que responde melhor a ele, já começou a discriminação”, explica a professora Nadia. “Para construir um ambiente não competitivo, o professor pode investir em trabalhos em grupo, em atividades de engajamento social, na convivência com realidades diferentes, com outras escolas. Estas trocas são im- portantes”. QUAIS AS DIFERENÇAS ENTRE OS PROCESSOS DE AVA- LIAÇÃO NAS DIFERENTES SÉRIES As formas de avaliação devem sempre ser adequadas à faixa etária e às características de desenvolvimento do aluno. Na Educação Infantil, por exemplo, como as crian- ças estão em fase de alfabetização, devem ser avaliadas com um olhar muito específico: a Lei de Diretrizes e Ba- ses da Educação Nacional recomenda que, neste perío- do, a avaliação seja feita por acompanhamento e registro do desenvolvimento da criança, “sem o objetivo de pro- moção, mesmo para o acesso ao Ensino Fundamental”. Já no Ensino Médio, é natural que sejam cobrados de for- ma mais objetiva os conteúdos que serão abordados nas provas do vestibular, mas as formas de avaliação não devem deixar de fora habilidades que serão tão ou mais importantes para o aluno na vida adulta, como o traba- lho em equipe. Em todas as séries, é importante que a avaliação não seja simplesmente um meio de demonstrar à família o conteúdo que foi dado, e sim uma garantia do aprendi- zado que está sendo construído. “Tenho de mostrar a evolução do aluno, independente da expectativa do pai. Só posso dimensionar qualquer resultado quando vejo a evolução”, diz a professora Nadia Aparecida de Souza, coordenadora do Programa de Mestrado em Educação da UEL. Afinal, a aprendizagem propriamente dita é di- ferente da simples retenção do conhecimento: em qual- quer série, a tarefa proposta pelo professor não deve verificar se o aluno sabe reproduzir o que foi ensinado, e sim verificar o que ele realmente aprendeu. “Por isso é preciso pensar em novas estratégias avaliativas; a prova pode fazer parte, ela não é ruim por si. Ruim é o uso que se faz dela”, completa a professora. UM TESTE PODE AJUDAR NO PROCESSO DE APRENDI- ZAGEM Sim! Uma prova pode até servir para ajudar a fixar o conteúdo: em janeiro de 2011, a revista norte-americana Science publicou um estudo demonstrando que o apren- dizado é maior para alunos que respondem a questões sobre a matéria estudada. Esta conclusão foi baseada numa pesquisa realizada com duzentos alunos, divididos em grupos, cada um com um método de estudo dife- rente: alguns faziam uma prova; outros apenas liam o conteúdo; outros, ainda, elaboravam resumos e diagra- mas. Ao final do estudo, foi constatado que os alunos que respondiam questões retinham cerca de 50% mais informações do que os demais. 143 LEITURA COMPLEMENTAR POR QUE É IMPORTANTE QUE OS PAIS ACOMPANHEM O BOLETIM ESCOLAR Os pais devem estar sempre atentos às dificuldades de aprendizagem dos filhos, para garantir que elas sejam abordadas com profundidade pelo professor e, assim, superadas. Ao acompanhar o boletim ao longo do tem- po, é possível perceber, para cada matéria, se houve evo- lução ou se a dificuldade se manteve: neste caso, os pais podem procurar aulas de reforço (de preferência dentro da própria escola), além de acompanhar com mais aten- ção o estudo do aluno em casa. Pode acontecer também que os pais vejam o esforço dos filhos em casa, mas que esta dedicação não se manifeste em notas melhores: neste caso, é importante falar com o professor para saber que métodos de avaliação estão sen- do utilizados e perceber se o aluno tem outras dificuldades em sala, como problemas de comportamento ou nervosis- mo na hora das provas. A parceria e o diálogo entre família, alunos e professores é sempre importante, como destaca Maria Teresa de Oliveira Lima, coordenadora das séries finais do Ensino Fundamental do Colégio São Domingos: “Acreditamos que esses encontros não só compõem o processo de discussão de estratégias individuais, mas são fundamentais para a reflexão coletiva. A troca de experi- ências permite que tracemos juntos novas estratégias de ação que possibilitem que as aprendizagens caminhem”. E PARA QUE SERVEM OS SISTEMAS NACIONAIS DE AVA- LIAÇÃO Alguns testes são aplicados a escolas do Brasil inteiro, para que o Governo Federal possa avaliar o rendimento escolar de todos os alunos do país, definindo prioridades e caminhos para a melhoria da qualidade do ensino. Os resultados destas avaliações devem servir de base para direcionar as práticas de cada escola, saber o que está funcionando e o que tem que melhorar. Mas a maior parte destas provas aborda uma parcela restrita do que é ensinado em sala de aula; por isso, serve como refe- rência, mas não substitui o projeto pedagógico da escola. Enem (Exame Nacional do Ensino Médio): realizado em todo o Brasil, este exame avalia os alunos que estão con- cluindo ou já concluíram o Ensino Médio. Ele não é obri- gatório, mas hoje é utilizado como forma de seleção para muitas universidades brasileiras, sozinho ou combinado ao vestibular da própria instituição. Podem participar alunos e ex-alunos de todas as escolas de Ensino Médio, públicas ou particulares. A prova tem questões de múlti- pla escolha e uma redação, e avalia competências como o domínio da linguagem, a construção de uma boa ar- gumentação, a interpretação e resolução de problemas. Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica): é aplicado a cada dois anos entre alunos do 5º e 9º anos do Ensino Fundamental e do 3º ano do Ensino Médio. A 144 LEITURA COMPLEMENTAR participação de escolas públicas e privadas é voluntária - as escolas participantes são escolhidas por sorteio - e consiste na realização de testes de Língua Portuguesa e Matemática, além de questionários com informações so- bre o contexto cultural, social e econômico dos alunos. A partir das informações deste teste é que as Secretarias de Educação podem avaliar se suas políticas são eficazes e, se necessário, reformulá-las. Prova Brasil: é aplicada pelo MEC aos alunos do 5º e 9º anos do Ensino Fundamental da rede pública e urbana. A participação também é voluntária; a adesão ao teste é feita pelas Secretarias Estaduais e Municipais de Edu- cação. Assim como o Saeb, a Prova Brasil aborda conte- údos de Língua Portuguesa e Matemática. As notas de cada escola neste teste servem de base para o Ideb (Índi- ce de Desenvolvimento da Educação Básica). O QUE FAZER QUANDO AS NOTAS SÃO BAIXAS Quando o aluno erra, está manifestando uma dificulda- de de aprendizagem. A nota baixa deve ser vista como uma oportunidade de ajudá-lo a entender seu erro e su- perá-lo. Para isso, tanto os pais quanto a própria família devem se envolver na aprendizagem, buscando não ape- nas que o aluno tenha um bom desempenho, traduzido em notas e elogios, mas que ele efetivamente aprenda. A avaliação é uma parte deste processo, que ajuda a identificar o que ainda não foi aprendido. É por isso que a professora Nadia Aparecida de Souza, coordenadora do Programa de Mestrado em Educação da UEL, diferen- cia a avaliação formativa - aquela que busca identificar as dificuldadesdo aluno e ajudá-lo a superá-las - da avalia- ção classificatória, que organiza os alunos segundo rótu- los e notas. “O grande problema é que grande parte dos professores não sabe executar a avaliação formativa, ou seja, não sabe se valer da maior riqueza que o aluno for- nece: as dificuldades de aprendizagem, manifestas nos seus erros”, diz a professora. “Toda vez que o aluno erra, é por um bom motivo. Se o professor não entender qual é esse motivo, não vai conseguir ajudar o aluno”. Disponível em: <http://educarparacrescer.abril.com.br/aprendizagem/7-respostas-so- bre-avaliacao-escolar-625072.shtml>. Acesso em: 30 abr. 2012. EDUCAÇÃO FÍSICA 145 No início desta nossa unidade, apresen-tamos uma pesquisa do professor Gil (2009) que nos mostrou os principais aspectos críticos da avaliação. Esse mes- mo autor nos apontará agora, alguns argumentos a favor da avaliação. 14. A avaliação pode ser feita com alto grau de cientificidade: durante muito tempo, a ava- liação da aprendizagem foi feita de maneira intuitiva e sem grande fundamento científi- co. “Graças, porém, a aplicação de princípios fornecidos pela Estatística e pela Psicologia, pode-se nos dias atuais desenvolver procedi- mentos de avaliação escolar com amplo res- paldo científico” (GIL, 2009, p. 244). 15. A aprendizagem pode ser mensurada com razoável precisão: nem sempre é possível atribuir uma escala de valores, ou notas para o domínio de atitudes e de outras habilidades intelectuais. Na avaliação educacional isso se torna possível quando as prioridades e os ob- jetivos são claramente definidos. 16. O processo de avaliação fornece dados ne- cessários à melhoria da aprendizagem e do ensino: é por meio da avaliação que se veri- fica se de fato estão ocorrendo mudanças no comportamento dos estudantes, bem como em que medida estas mudanças estão ocor- rendo. Caso a aprendizagem não esteja sendo eficaz, pode-se definir que mudanças podem ser feitas para assegurar sua eficácia. 17. A avaliação inclui muito mais procedimentos além do rotineiro exame escrito: o desconhe- cimento dos múltiplos procedimentos dispo- níveis para avaliação da aprendizagem tem levado muitos professores a se valer exclusiva- mente de exames escritos. Os procedimentos avaliatórios devem variar de acordo com as características dos estudantes e os objetivos de aprendizagem. 18. A avaliação envolve todo o processo de aprendizagem: a avaliação tende a ser vista unicamente como atividade que se envolve ao final do processo de aprendizagem. A avalia- ção em um contexto moderno pode ser diag- nóstica, formativa e somativa. 19. A avaliação constitui traço fundamental de nossa civilização: uma sociedade em que nenhuma pessoa tivesse que ser avaliada po- deria ser altamente desejável. Mas, também poderia formar pessoas incapazes de tomar decisões e realizar escolhas. Torna-se, por- tanto desejável, que os estudantes saibam participar e fazer avaliações. 20. A avaliação favorece a integração dos conhe- cimentos: como as avaliações envolvem vá- rios domínios do conhecimento, estimulam os estudantes a construir sínteses que os le- vam a notar a estrutura do todo, a relação en- tre as partes e os diversos pontos em comum existentes entre as diferentes disciplinas. 21. A avaliação permite que os estudantes se si- tuem em relação aos outros: um resultado Características da Avaliação Escolar DIDÁTICA 146 desfavorável em uma avaliação pode causar um choque no estudante. Mas possibilita-lhe situar-se em relação aos demais, oferecendo, dessa forma, um meio para descobrir as cau- sas e as consequências de suas fraquezas. 22. A avaliação fornece feedback para o profes- sor: a informação acerca do desempenho é fundamental para a obtenção de mais eleva- dos níveis de eficácia profissional. A avalia- ção bem executada constitui uma das poucas maneiras de verificar a pertinência do ensino que ministra e a validade de suas ações. 23. A avaliação serve para avaliar a ação do professor e da própria instituição: as avalia- ções e seus resultados são capazes de cons- tituir importantes elementos para verificar em que medida foram cumpridas as funções docentes. Apresentadas as defesas necessárias para o uso da avaliação no processo educativo, precisamos ressal- tar que dentro do contexto estudado, não é qualquer forma de avaliação que cumpre com sua função educativa e não punitiva. Por esse motivo, devemos conhecer as principais características que marcam e formam a avaliação consciente. Vamos a elas... O professor Libâneo (2008) sintetiza para nós as principais características da avaliação: refletir a unidade dos objetivos, conteúdos e métodos, pos- sibilitar a revisão do plano de ensino, ajudar a de- senvolver capacidades e habilidades, voltar-se para a atividade dos alunos, ser objetiva, ajudar na auto- percepção do professor e refletir valores e expectati- vas do professor em relação aos alunos. Para que a avaliação reflita a unidade dos objeti- vos e métodos de ensino, Libâneo (2008) nos alerta que ela deve ser encarada como parte integrante do processo de ensino. Isso significa que ela deve refle- tir, mesmo que de forma implícita, os conhecimentos, habilidades e atitudes esperadas dos alunos. Esses as- pectos denotam os objetivos a serem atingidos e quais métodos e teorias serão escolhidos para alcançá-los. Os resultados devem ser obtidos mediante exercícios, provas, conversação didática e trabalho independente. Outra característica da avaliação consciente é possibilitar a revisão do plano de ensino. Ela pode ser feita por meio da sondagem dos conhecimentos prévios dos alunos, por meio da identificação dos progressos e deficiências de assimilação e nas veri- ficações parciais e finais. Os resultados obtidos per- mitem ao docente atualizar e tornar cada vez mais real o seu plano de ensino e de aula. Segundo Libâneo (2008), a avaliação ajuda ainda a desenvolver capacidades e habilidades. Isso acon- tece porque todas as atividades avaliativas visam o desenvolvimento dos alunos e podem ainda, diag- nosticar como a escola e o professor estão contri- buindo para tal desenvolvimento. O objetivo do processo de ensino e de avaliação é que todas as crianças desenvolvam suas capa- cidades físicas e intelectuais, seu pensamento independente e criativo, tendo em vista tarefas teóricas e práticas, de modo que se preparem positivamente para a vida social (LIBÂNEO, 2008, p. 201). Mediante às palavras do autor, negamos o aspecto punitivo e classificatório das provas e testes. Ao in- vés de oprimir e subjulgar, eles devem desenvolver e aprimorar novos conhecimentos. Para tanto, é im- portante ressaltar que nem todos os alunos apren- dem de maneira igual. Alguns possuem um ritmo de aprendizagem mais lento, outros possuem dificul- dade de transcrever em palavras o que sabem... por isso, é necessário ressaltar a importância de avaliar de diversas formas, por meio de atividades teóricas, práticas e também de maneira formal. EDUCAÇÃO FÍSICA 147 Outro argumento que defende a necessidade de provas diversificadas é a característica apontada por Libâneo (2008) de voltar-se para a atividade dos alunos. Sendo assim, ela deve centrar-se no entendi- mento de que os alunos expressam suas capacidades em diversas atividades didáticas e não apenas du- rante a prova. Por essa razão, é insuficiente aplicar provas apenas no final do bimestre ou do conteúdo. As provas também precisam ser objetivas, ou seja, precisam ser capazes de comprovar os conhe- cimentos e as habilidades esperadas e assimiladas pelos alunos. O autor ressalta que para isso não é necessário excluir questões subjetivas, mas é neces- sário formulá-las com mais cuidado e atenção para que elas possam representar, mesmoque de forma subjetiva, os objetivos concretos. Outra característica fundamental da avaliação é funcionar como “um termômetro dos esforços do professor” (LIBÂNEO, 2008, p. 202). Isso significa que ao analisar os resultados de rendimento dos alu- nos, o professor obtém também informações sobre o seu próprio trabalho. Vale estar atento a questões, como: • Meus objetivos estão claros para mim e para meus alunos? • Os conteúdos que ensino são acessíveis aos alunos e possuem significado para eles? • Estou comunicando o conteúdo de maneira adequada aos alunos? • Estou dando a atenção necessária aos alunos mais lentos ou com dificuldades? • Estou dando oportunidades iguais para que todos aprendam e desenvolvam suas habili- dades? • Estou ajudando meus alunos a ampliarem seus conhecimentos e aspirações? Todas essas questões devem ser analisadas porque outra característica da avaliação é a de refletir valo- res e expectativas do professor em relação aos alu- nos. Por isso, a maneira de ser do professor, de en- sinar e de se relacionar com os alunos indicam seus anseios em relação a eles. Libâneo (2008, p. 203) nos alerta que: Se o professor dá mostras de desatenção a algu- ma das crianças, isso pode estar indicando uma discriminação com essa criança. Se não se em- penha na organização dos alunos, nos hábitos de higiene, no relacionamento entre as crian- ças, indica que não valoriza esses aspectos. Nas palavras de nosso autor podemos notar a con- cepção de que a avaliação é um ato pedagógico. Por meio dela, o professor deixa implícito seus va- lores e seus propósitos. Por isso, é preciso ter sem- pre propósitos definidos e claros que atenda não somente às exigências curriculares, mas também às necessidades sociais. Libâneo (2008, p, 203) ar- remata essa questão afirmando que “o professor precisa ter convicções éticas, pedagógicas e so- ciais”. Essas são as potencialidades necessárias aos professores que desejam fazer valer o uso da ava- liação consciente. 148 LEITURA COMPLEMENTAR Conheça mais sobre os resultados práticos da aplicação de avaliações conscientes lendo o artigo abaixo. Você pode acessá-lo na íntegra por meio do site: <http://www. gestiopolis.com/Canales4/ger/avaliacao.htm>. Avaliação da aprendizagem como processo construtivo de um novo fazer Autor: Maria Elisabeth Pereira Kraeme MODELO TRADICIONAL DE AVALIAÇÃO VERSUS MODELO MAIS ADEQUADO Gadotti (1990) diz que a avaliação é essencial à educação, inerente e indissociável enquanto concebida como pro- blematização, questionamento, reflexão, sobre a ação. Entende-se que a avaliação não pode morrer. Ela se faz necessária para que possamos refletir, questionar e transformar nossas ações. O mito da avaliação é decorrente de sua caminhada his- tórica, sendo que seus fantasmas ainda se apresentam como forma de controle e de autoritarismo por diversas gerações. Acreditar em um processo avaliativo mais efi- caz é o mesmo que cumprir sua função didático-pedagó- gica de auxiliar e melhorar o ensino/aprendizagem. A forma como se avalia, segundo Luckesi (2002), é crucial para a concretização do projeto educacional. É ela que si- naliza aos alunos o que o professor e a escola valorizam. O autor, na tabela 1, traça uma comparação entre a con- cepção tradicional de avaliação com uma mais adequada a objetivos contemporâneos, relacionando-as com as im- plicações de sua adoção. 149 LEITURA COMPLEMENTAR Tabela 1 – Comparação entre a concepção tradicional de avaliação com uma mais adequada Modelo tradicional de avaliação Modelo adequado Foco na promoção - o alvo dos alunos é a promoção. Nas primeiras aulas, se discutem as regras e os modos pelos quais as notas serão obtidas para a promoção de uma série para outra. Implicação – as notas vão sendo observadas e regis- tradas. Não importa como elas foram obtidas, nem por qual processo o aluno passou. Foco na aprendizagem - o alvo do aluno deve ser a aprendizagem e o que de proveitoso e prazeroso dela obtém. Implicação - neste contexto, a avaliação deve ser um auxílio para se saber quais objetivos foram atingidos, quais ainda faltam e quais as interferências do profes- sor que podem ajudar o aluno. Foco nas provas - são utilizadas como objeto de pressão psicológica, sob pretexto de serem um ‘ele- mento motivador da aprendizagem’, seguindo ainda a sugestão de Comenius em sua Didática Magna criada no século XVII. É comum ver professores utilizan- do ameaças como “Estudem! Caso contrário, vocês poderão se dar mal no dia da prova!” ou “Fiquem qui- etos! Prestem atenção! O dia da prova vem aí e vocês verão o que vai acontecer...” Implicação - as provas são utilizadas como um fator negativo de motivação. Os alunos estudam pela ameaça da prova, não pelo que a aprendizagem pode lhes trazer de proveitoso e prazeroso. Estimula o desenvolvimento da submissão e de hábitos de com- portamento físico tenso (estresse). Foco nas competências - o desenvolvimento das competências previstas no projeto educacional devem ser a meta em comum dos professores. Implicação - a avaliação deixa de ser somente um objeto de certificação da consecução de objetivos, mas também se torna necessária como instrumento de diagnóstico e acompanhamento do processo de aprendizagem. Neste ponto, modelos que indicam passos para a progressão na aprendizagem, como a Taxionomia dos Objetivos Educacionais de Benjamin Bloom, auxiliam muito a prática da avaliação e a orien- tação dos alunos. Os estabelecimentos de ensino estão centrados nos resultados das provas e exames - eles se preocupam com as notas que demonstram o quadro global dos alunos, para a promoção ou reprovação. Implicação - o processo educativo permanece oculto. A leitura das médias tende a ser ingênua (não se bus- cam os reais motivos para discrepâncias em determi- nadas disciplinas). Estabelecimentos de ensino centrados na quali- dade - os estabelecimentos de ensino devem preocu- par-se com o presente e o futuro do aluno, especial- mente com relação à sua inclusão social (percepção do mundo, criatividade, empregabilidade, interação, posicionamento, criticidade). Implicação - o foco da escola passa a ser o resultado de seu ensino para o aluno e não mais a média do aluno na escola. 150 LEITURA COMPLEMENTAR O sistema social se contenta com as notas - as notas são suficientes para os quadros estatísticos. Resultados dentro da normalidade são bem vistos, não importando a qualidade e os parâmetros para sua ob- tenção (salvo nos casos de exames como o ENEM que, de certa forma, avaliam e “certificam” os diferentes grupos de práticas educacionais e estabelecimentos de ensino). Implicação - não há garantia sobre a qualidade, somente os resultados interessam, mas estes são rel- ativos. Sistemas educacionais que rompem com esse tipo de procedimento tornam-se incompatíveis com os demais, são marginalizados e, por isso, automatica- mente pressionados a agir da forma tradicional. Sistema social preocupado com o futuro - já alertava o ex-ministro da Educação, Cristóvam Buarque: “Para saber como será um país daqui há 20 anos, é preciso olhar como está sua escola pública no presente”. Esse é um sinal de que a sociedade já começa a se preocu- par com o distanciamento educacional do Brasil com o dos demais países. É esse o caminho para reverter- mos o quadro de uma educação “domesticadora” para “humanizadora”. Implicação - valorização da educação de resultados efetivos para o indivíduo. Mudando de paradigma, cria-se uma nova cultura avalia- tiva, implicando na participação de todos os envolvidos no processo educativo. Isto é corroborado por Benvenut- ti (2002), ao dizer que a avaliação deve estar comprome- tida com a escolae esta deverá contribuir no processo de construção do caráter, da consciência e da cidadania, passando pela produção do conhecimento, fazendo com que o aluno compreenda o mundo em que vive, para usufruir dele, mas sobretudo que esteja preparado para transformá-lo. EDUCAÇÃO FÍSICA 151 Vimos no decorrer de nossas discussões que a avaliação vem se modificando ao longo dos tempos. Aos poucos, as es-colas têm conseguido incorporar nesse processo as novas tecnologias e as novas filosofias que trazem uma diversidade cada vez maior de for- mas avaliativas. A seguir, conheceremos as principais maneiras de avaliar. A forma mais conhecida pela própria história da educação, segundo Gil (2009), é a prova discursiva. Sua principal característica é a apresentação de te- mas ou questões para que os alunos respondam. Gil (2009) informa que existem duas modalida- des de prova discursiva: a dissertativa e a prova de perguntas curtas. A prova dissertativa é formada por um único tema na qual o aluno deve demonstrar, por meio da escrita, tudo o que conhece a respeito do conteúdo. Normalmente, existe um tempo limi- tado para a produção do texto. Esse modelo de avaliação, segundo Gil (2009, p. 253), é adequado para avaliar: • O raciocínio lógico dos estudantes; • A capacidade de analisar, hierarquizar e sin- tetizar ideias. • A justificativa e a defesa de opiniões. • A clareza de expressão. • A criatividade e a originalidade das ideias. Mas, mesmo sendo ainda muito utilizado, o autor salienta que esse tipo de prova possui algumas limi- tações, como: o grande gasto de tempo com a cor- reção, a influência da subjetividade na correção do professor, a dificuldade de avaliar de forma comple- ta a matéria ensinada, a interpretação adequada dos propósitos dos alunos e a dificuldade de fornecer um retorno específico de rendimento para os alunos. DIDÁTICA 152 Nas provas de respostas curtas, o professor formula algumas questões para que os alunos respondam. Na for- mulação dessas questões deve ficar claro o que se espera do aluno, ou seja, os comandos devem ser específicos e contextualizados. Luckesi (2005) alerta que a prova dissertativa não pode limitar-se a cobrar dos alunos as repetição do que foi ensinado ou do que está no livro didático. Ela deve oferecer uma oportunidade para que o aluno expresse, mediante suas apalavras o que real- mente aprendeu. Para que isso seja possível, é necessário cobrar nas avaliações somente atividades ou habilidades que foram trabalhadas e desenvolvidas anteriormente, do contrário; esse tipo de prova torna-se inútil. Veja a seguir, alguns exemplos de habilidades que podem ser cobradas nas provas escritas: ■ Descrever semelhanças e diferenças entre o assunto estudado. ■ Explicar com suas próprias palavras algum con- ceito científico. ■ Demonstrar as consequências de algum fato analisado nas aulas. ■ Comparar características do conteúdo desenvolvido. Mas, para que as provas dissertativas tenham quali- dade, Gil (2009, p. 257) nos aconselha a tomarmos alguns cuidados: 24. Não utilizá-la como único instrumento ava- liativo do conteúdo: como esse tipo de prova não permite que o aluno demonstre todos os conhecimentos e habilidades adquiridos no processo de ensino, aconselha-se a avaliar os alunos de diversas maneiras. 25. Apresentar a tarefa a ser realizada com pre- cisão: para que os estudantes compreendam sobre o que devem escrever é necessário ser muito específico na apresentação do tema e evitar ambiguidades e más interpretações. 26. Advertir os estudantes acerca da influência dos erros de ortografia e de pontuação: como um dos objetivos desse modelo de avaliação é avaliar a clareza de expressão do aluno, é razoável cobrar dos alunos uma boa apresen- tação das ideias, com a escrita correta das pa- lavras e pontuação coerente. No entanto, não se deve atribuir pesos muito significativos para que a forma não tenha mais peso do que o conteúdo. 27. Corrigir a prova sem identificar o aluno: quando o professor sabe de quem é a prova, tende a dar a nota segundo seu comporta- mento e segundo o que ele julga que o aluno pode saber. Como a nota não deve ser prêmio e nem castigo para ninguém, o fato de não conhecer seu autor, ajuda o professor a livrar- -se de julgamentos pessoais. 28. Organizar um plano de correção: esse plano pode especificar as questões importantes que devem ser consideradas no processo de cor- reção das avaliações. Em sua elaboração pode conter aspectos, como: clareza na apresen- tação das ideias, desenvolvimento do tema principal, se o aluno examinou e atendeu a cada item pedido na questão, se justificou seu pensamento, se apresentou conclusões pró- prias, se citou exemplos etc. 29. Escrever comentários nas provas: ao invés de apenas apontar os erros, ou corrigi-los, é im- portante que o professor escreva um pequeno comentário em cada prova, não apenas para justificar a nota, mas também para que o alu- no tenha clareza de seu rendimento. Por meio dos cuidados indicados acima, é possível produzir e corrigir as provas com critérios mais homo- gêneos e justos. Além das provas dissertativas, também existem as provas objetivas. Essas provas, segundo Luckesi (2005), atendem apenas as necessidades básicas de brevidade da resposta e exatidão da correção. Portanto, ela contém EDUCAÇÃO FÍSICA 153 restrições ainda maiores em relação a seu uso. Mas, são muito utilizadas em vestibulares e concursos públicos. A aplicação desse tipo de prova nas escolas, segundo Gil (2009), tem sido muito criticada. O principal argu- mento contra esse modelo de prova é a questão de avaliar apenas a capacidade de memorização do aluno. Outro ponto contra é o da inibição da capacidade cria- tiva dos alunos, que são desestimulados a escrever. Também se critica muito o fator “sorte”, que pode per- mitir que o estudante assinale a resposta correta mesmo sem conhecer o conteúdo. Diante desse quadro, não há como negar as limitações apresentadas pela prova objetiva. Mas, Gil (2009) nos alerta que um dos maiores problemas da prova objetiva se encontra na sua elabo- ração. Muitas provas têm sido elaboradas com tão pouca competência que seus resultados não servem como ins- trumento avaliativo. Portanto, é necessário conhecer bem os principais tipos de questões objetivas. São elas: questões de lacuna, certo ou errado, múltipla escolha, associação e ordenação. Gil (2009) afirma que as questões de lacuna são constituídas por frases incompletas, cujo espaço em branco deve ser preenchido por uma ou mais palavras. Nas questões de certo ou errado, o aluno precisa assi- nalar se julga certa ou errada cada uma das questões apresentadas na prova. Já as questões de múltipla escolha são geralmente mais aceitas pelos críticos de avaliação por exigir mais raciocínio e análise por parte dos alunos. De acordo com Gil (2009, p. 259), “questões dessa natureza permitem o exame de resultados complexos, como compreensão de leitura, raciocínio dedutivo e indutivo, julgamento de valor e habilidade para utilizar instrumentos de estudo”. Ainda de acordo com Gil (2009, p. 260), a elabo- ração de questões de múltipla escolha exige bastante competência e técnicas específicas. Especialistas na área de elaboração dessas provas definem uma série de pro- cedimentos a serem observados em sua construção: 1. Garanta que cada questão apresente uma única resposta correta. 2. Inclua cinco opções e não quatro. Dessa forma, a probabilidade de acerto devido ao acaso cai de 25% para 20%. 3. Expresse o enunciado da questão em lin- guagem positiva. 4. Inclua no enunciado o máximo de palavras, mantendo as opções de respostas mais curtas. 5. Faça variar a posição da resposta correta ao longoda prova. 6. Não sobrecarregue o enunciado com infor- mações inúteis. 7. Verifique se o enunciado do problema com- porta tantas soluções quanto são as opções pretendidas. 8. Não retire frases completas de livros ou apostilas. 9. Faça com que todas as alternativas se- jam gramaticalmente concordantes com o enunciado. 10. Formule primeiramente a pergunta e sua resposta correta. 11. Elabore opções com aproximadamente a mesma extensão, pois é evidente a tendência para que a resposta certa fique mais longa. 12. Evite termos como sempre, nunca, somente e todos, pois sugerem escolhas incorretas. 13. Não inclua opções que expressem a mesma coisa, pois nesse caso, nenhuma das duas poderá estar certa. DIDÁTICA 154 Também podemos elaborar questões de associação. Nelas, o aluno precisa estabelecer relações entre elementos apresentados em dois grupos como, por exemplo: Coloque dentro dos parênteses da coluna B o nú- mero correspondente à capital do Estado que está na coluna A: COLUNA A COLUNA B (1) Paraná ( ) Belo Horizonte (2) São Paulo ( ) Curitiba (3) Bahia ( ) Florianópolis (4) Santa Catarina ( ) Salvador (5) Minas Gerais ( ) São Paulo ( ) Rio Grande do Sul ( ) Recife Entendida a formulação e o uso das provas ob- jetivas, podemos seguir adiante a analisar as provas práticas. Segundo Libâneo (2008), muitos professo- res acreditam que só podem fazer uso dessa moda- lidade de prova quando o assunto em questão não pode ser medido com provas escritas. Mas, o fato é que todas as disciplinas e a grande maioria dos con- teúdos podem ser avaliadas de maneira prática. Mesmo sendo pouco utilizada, a prova prática é um ótimo instrumento avaliativo. Ela possibilita a observação da execução da atividade e a análi- se de seus resultados. A prova prática é bem mais simples do que a maioria dos professores pensa. Ela pode acontecer por meio de um seminário prepa- rado e apresentado pelos alunos, pode ser realizado durante um experimento no laboratório e o resulta- do pode referir-se a um desenho, pintura, escultura, cartazes, maquetes etc. Um dos cuidados indispensáveis para a aplica- ção desse estilo de avaliação é a organização, por parte do professor, dos itens que devem ser observa- dos durante os procedimentos práticos. Esses itens podem ser expostos para os alunos para que eles tenham conhecimento dos aspectos em que serão observados. Gil (2009) aconselha que sejam orga- nizadas fichas individuais para cada aluno. O pro- fessor pode anotar os resultados primordiais de sua observação e posteriormente analisar, comparar e mensurar os resultados obtidos. O último tipo de avaliação que analisaremos é a prova oral. Luckesi (2005) afirma que esse estilo de prova já foi muito utilizado no Brasil, mas sem- pre com a finalidade de seleção ou promoção. Atu- almente, vem sendo aplicada aos alunos portadores de necessidades especiais. EDUCAÇÃO FÍSICA 155 A prova oral também pode ser utilizada para verificar habilidades cognitivas, de locução e expo- sição. Pode ser aplicada na forma de debates, con- versas didáticas, entrevistas e questionamentos. Mas você pode estar se perguntando: como avaliar um aluno em um debate? Bem, a resposta você já co- nhece... é preciso organizar um plano de avaliação. Nele, você delimita os aspectos que serão observa- dos como a defesa do tema, a capacidade de argu- mentação, a justificativa das ideias, o respeito pela opinião alheia, a capacidade de arguição, a relevân- cia das informações debatidas, enfim. O importante é que os alunos conheçam antecipadamente os itens no qual serão avaliados. Depois de feitas as anota- ções, o estudante precisa receber um retorno de seu desempenho e conhecer seus pontos fortes e fracos. Após conhecer os modelos de avaliação mais utilizados nas escolas, espero que você tenha com- preendido que nenhuma delas cumpre sua função educativa quando utilizada de forma descontextu- alizada e deslocada. Na realidade, as formas ava- liativas aqui apresentadas trabalham em conjunto. Elas possibilitam um resultado positivo quando são utilizadas de forma complementar. Juntas, elas são capazes de avaliar as diferentes competências, habi- lidades e conhecimentos dos alunos. Essas modalidades de prova também permitem avaliar o desempenho do professor. A análise da prática pedagógica dos docentes é muito importan- te, pois possibilita uma reflexão acerca da maneira como se está conduzindo os processos de ensino. Por meio dessa reflexão podemos perceber que mui- tas dificuldades de aprendizagem não se referem apenas ao desempenho insuficiente do aluno. Às ve- zes, o problema se encontra no planejamento inade- quado das aulas, na rigidez dos conteúdos, na inade- quação da metodologia de ensino, na complexidade do material utilizado ou mesmo à falta de atenção dispensada aos estudantes. Desse modo, Luckesi (2005, p. 85) afirma que, os encaminhamentos adotados para a prática da avalia- ção destinam-se a servir de base para a tomada de decisões. Essas decisões devem se encaminhar para a construção “com e nos educandos de conhecimen- tos, habilidades e hábitos que possibilitem o seu efe- tivo desenvolvimento, por meio de assimilação ativa do legado cultural da sociedade”. 156 considerações finais Ao final desta unidade, espero que você tenha compreendido que a avaliação é um instrumento pelo qual o professor detecta os níveis de aprendizagem atingidos pelos alunos e trabalhe para que atinjam a qualidade necessária. E sendo assim, ela não pode ser utilizada como um instrumento isolado e solto. O planejamento define os resultados e os meios a serem atingidos. A exe- cução constrói os resultados e a avaliação serve de ferramenta para a verifi- cação dos resultados planejados, assim como para fundamentar decisões que devem ser tomadas para que os resultados sejam construídos. Nessa perspectiva, a avaliação da aprendizagem é um mecanismo comple- mentar do planejamento e da prática docente. Para Luckesi (2005), é uma ati- vidade que não existe nem subsiste por si mesma. Ela só faz sentido na medida em que serve de diagnóstico da execução e dos resultados que estão sendo buscados e obtidos por alunos e professores. A avaliação deve funcionar como um instrumento auxiliar da melhoria dos resultados. Segundo Luckesi (2005), se a avaliação não assumir a forma diagnóstica, ela não poderá estar a serviço da proposta política de fazer com que os alunos aprendam e se desenvolvam. Se a avaliação continuar com o caráter classifica- tório, como tem sido utilizado hoje, não viabiliza uma tomada de decisão para a construção de novos resultados. A avaliação tem apenas classificado o aluno em um grau de desenvolvimento e dessa forma não auxilia no seu avanço e na construção de resultados esperados. 157 atividades de estudo 1. Vimos em nossa unidade que a avaliação não pode ser considerada um ato isolado e descontextualizado da realidade escolar. A partir dessa informa- ção, explique por que a avaliação é um processo contínuo. 2. A avaliação diagnóstica se baseia na coleta de dados, por meio de instru- mentos avaliativos. Esses dados devem ser lidos e analisados com rigor para que se conheça o nível de desenvolvimento do aluno. Reflita sobre essa afirmação e explique como deve ser efetivada, na prática, a avaliação diagnóstica. 3. Analise as principais características da avaliação e formule um gráfico ca- paz de demonstrar suas funções no processo de ensino e aprendizagem. 158 conclusão geral CONCLUSÃO GERAL Caro(a) aluno(a), Ao final deste livro, desejo que você tenha encontra- do nele conteúdos e informações úteis para trans- formar sua prática docente. Afinal, como vimos na unidade I, a atuação do professor é extremamente importante na aprendizagem do aluno.Estudamos nessa unidade também, os campos de atuação da didática e pudemos perceber que ela age diretamente na formação humana. Por isso, ao orga- nizarmos as melhores formas de ensino para nossos alunos, temos que ter em mente o ideal de homem que desejamos formar. Por meio desse ideal é que permeamos o ato de ensinar com intenções políticas, sociais e econômicas. No entanto, além dessas intenções, o ato de ensinar precisa ser orientado por conteúdos científicos. A princípio, os temas científicos podem não interes- sar aos alunos. À primeira vista, eles podem pare- cer muito distantes da realidade dos estudantes. Por isso, é necessário instigar nos alunos a vontade de aprender. Isso acontece mais facilmente quando os conhecimentos científicos são relacionados com as experiências que eles já possuem por aprendizagem casual. Ao relacionar um conceito científico com o que já aprenderam por experiência própria e pessoal estamos, na realidade, contextualizando o conheci- mento e o conteúdo para os alunos. Na unidade II de nosso livro estudamos as diferentes concepções didáticas utilizadas nos diferentes perío- dos da história da educação. A primeira metodologia analisada foi a didática da escola tradicional. Nota- mos que com a intenção de expandir os conhecimen- tos, a didática tradicional provocou na realidade um alto índice de evasão. Os alunos assustados com os castigos e humilhações aplicadas em nome da apren- dizagem e do bom comportamento, simplesmente abandonavam a escola. Para solucionar o problema da evasão foi adotado no Brasil a didática escolanovista. Com ela, a escola se tornou mais acolhedora e com uma aparência muito mais agradável. O problema é que as mudanças não passaram das aparências... com a escola nova, o en- sino tornou-se um ato individualizado e que deveria acontecer segundo a vontade e o interesse do aluno. Essa concepção provocou um “esvaziamento” das funções do professor, afinal, ele não deveria interfe- rir em nada, pois o aluno devia aprender sozinho. Procurando reorganizar os processos de ensino e aprendizagem, a escola nova foi substituída pela di- dática da escola tecnicista. Para a escola tecnicista o mais importante era a eficácia, a eficiência e a téc- nica. O conhecimento técnico se fundamentava na repetição, na memorização e na prática de exercícios. Para ensinar, o professor devia seguir à risca os pla- nejamentos e os manuais didáticos. Dessa forma, aos poucos a escola internalizou o modelo e os ideais fa- bris. Na unidade III, estudamos diferentes concepções di- dáticas que negam a reprodução do conhecimento. Em sua maioria, as teorias sistêmica, progressista e ensino com pesquisa acreditam no poder transfor- mador da educação. E esse poder se expressa me- diante o ensino de conteúdos científicos que devem ser analisados, questionados, criticados e transfor- mados. 159 gabarito Para esclarecer melhor e orientar os professores na tarefa de produzir novos conhecimentos nos funda- mentamos na didática da pedagogia histórico-críti- ca. Essa teoria, pesquisada e comprovada pelo pro- fessor Saviani e Gasparin nos orienta a ensinar por meio de cinco passos: a prática inicial do conteúdo, a problematização, a instrumentalização, a catarse e a prática social final. O objetivo maior dessa teoria é, além de produzir novos conhecimentos, ser capaz de colocá-los em prática. Diante disso, a escola deixa de ensinar conte- údos vazios e passa a selecioná-los de acordo com as necessidades dos alunos, da escola, do bairro, enfim, da própria sociedade. Já na unidade IV, analisamos a importância do pla- nejamento e concluímos que além de mero instru- mento burocrático ele pode ser uma ferramenta transformadora da prática educativa. Afinal, segun- do Gadotti (2006), o planejamento é uma tarefa do- cente que inclui a previsão e a revisão das ativida- des didáticas. É justamente por meio da revisão dos planos que garantimos a atualidade necessária para tornar o planejamento real e aplicável. Dessa forma, podemos notar que o plano é um ins- trumento capaz de programar as ações docentes, mas também se define como um momento de pesquisa, reflexão e avaliação. Mediante o planejamento, torna- mos o ato de ensinar uma atividade consciente e orga- nizada. Tal postura nega completamente o improviso, a falta de preparação e as atividades didáticas vazias. Finalmente, em nossa última unidade, tratamos da avaliação. Vimos que a avaliação tem sido aplicada de forma apenas classificatória. Utilizada dessa maneira ela serve apenas para quantificar a aprendizagem do aluno e não melhora em nada seu desempenho. Analisando a avaliação de forma mais conscien- te, concluímos que ela deve ser um instrumento de aperfeiçoamento dos conhecimentos dos alunos e dos professores. Nomeamos esse tipo de avaliação de diagnóstica. A avaliação diagnóstica deve forne- cer resultados a professores e alunos para que juntos, possam tomar decisões sobre a melhora ou a conti- nuidade do processo de ensino e aprendizagem. Jus- tamente por isso ela não deve ser aplicada apenas ao final do bimestre ou semestre. Pelo contrário, deve ser utilizada sempre e por meio de diferentes ativi- dades. Para conhecer as melhores formas de avaliar nos- sos alunos conhecemos os tipos de provas mais in- dicados para cada situação didática. Vimos que es- sas provas não devem ser aplicadas de forma solta ou descontextualizada. As atividades avaliativas são complementares e trazem diferentes oportunidades para os alunos demonstrarem suas habilidades e co- nhecimentos. Agindo dessa maneira, conseguimos superar as provas punitivas ou de premiação. A nota passa a ser então apenas mais um meio de quantifi- car a aprendizagem, mas o fundamental é sempre o que se aprende. E por falar em aprendizagem, espero que a sua não pare por aqui. Como professores conscientes, a lei- tura e a pesquisa são fundamentais para uma práti- ca docente comprometida com a transformação da educação e da sociedade. E você, caro(a) aluno(a), é uma peça fundamental desse enorme “quebra-cabe- ça”... continue se aperfeiçoando sempre e que o su- cesso faça parte de todas as suas jornadas! Um forte abraço, Prof.ª Ionah Beatriz Beraldo Mateus 160 referências BEHRENS, Marilda Aparecida. O paradigma emergente e a prática pedagógica. 3. ed. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2009. CANDAU, Vera Maria (Org). A didática em questão. 29. ed. 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