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O papel do psicólogo na organização industrial

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O papel do psicólogo na organização industrial (notas sobre o “lobo mau” em psicologia)*
Wanderley Codo
O movimento social nos últimos tempos tem se mostrado com tendência inequívoca a uma concentração urbana industrial, graças ao desenvolvimento do capitalismo no Brasil, cada vez mais e mais operários concentram-se em grandes indústrias, o que por si só é relevante para os psicólogos, incumbidos por missão e profissão a compreender e/ou transformar o comportamento humano. Mas, além do argumento meramente estatístico, há uma razão ainda mais forte e igualmente evidente, a indústria é o motor da sociedade, o locus onde se geram as relações entre as pessoas, entre as classes. A atuação do psicólogo dentro da indústria deveria ser a menina dos olhos deste profissional, os postos mais cobiçados entre os estudantes. A realidade não é esta.
Ao contrário, quanto mais cresce a importância da indústria na sociedade contemporânea, mais crescem as críticas que a Psicologia, principalmente no âmbito acadêmico, faz à atuação do psicólogo na indústria. Embora seja muito difícil operacionalizar estas formulações, sente-se claramente que os professores e alunos de Psicologia referem-se a esta especialidade como uma espécie de irmã menor da Psicologia, um misto de asco e comiseração comum à mãe (prendada) que se refere a uma filha que se prostituiu.
(*) Os dados deste trabalho foram coletados do vol. I da tese de Doutoramento de Wanderley Codo, "A Transformação do Comportamento em Mercadoria", PUC, São Paulo, 1981.
O exame desta contradição nos obriga a recorrer à teoria e à prática do psicólogo industrial, assim como as críticas que são feitas à sua atuação,
A começar pela função teórica do psicólogo industrial: o departamento de seleção de pessoal se orienta pelo pressuposto fundamental de “combinar os indivíduos com as ocupações com as quais se habilita".1 
(1) Tiffin, Joseph e McCormick, Ernest J., Psicologia Industrial, São Paulo, Ed, Herder, 1969, p. 113.
O pré-requisito básico para o cumprimento deste papel é que haja uma determinação explícita de funções, um fluxograma da empresa, tanto a nível de tarefa quanto a nível de produção. A partir daí, a seleção deve elaborar teses capazes de detectar habilidades e/ou características que possam prever o grau de adaptação do indivíduo à tarefa, objetivando, por um lado, aumentar a satisfação no trabalho e, por outro, aumentar a produtividade reduzindo o turn-over.
Paralelamente ao desenvolvimento dos métodos de seleção, deve ocorrer, como aconselham os manuais de Psicologia Industrial, uma avaliação periódica de desempenho, com a função de orientar as possíveis promoções e, ao mesmo tempo, funcionar como teste periódico, avaliando os critérios da seleção e retroalimentando o sistema. O resultado previsto é o aumento da eficiência, partindo do pressuposto de que um indivíduo desempenha tanto melhor quanto melhor adaptado estiver à sua função.
No treinamento mantêm-se os motivos e mudam os métodos. Trata-se de ensinar ao trabalhador as especificidades de um trabalho determinado, aumentando seu rendimento na medida em que o capacita para o trabalho.
Quer na seleção, quer no treinamento, o princípio que vigora é o de manter o homem certo no lugar certo, e, também, adequar o homem à máquina, reduzindo ao mínimo a probabilidade de erro.
Sobre a crítica da função teórica do psicólogo industrial, já se transformou em lugar comum as afirmações de que estas atividades, descritas sucintamente acima, são intrinsecamente reacionárias, o psicólogo se coloca a serviço da indústria como instrumento adicional de exploração do trabalhador, ao invés de transformar a estrutura produtiva para que venha a satisfazer as necessidades do ser humano; transforma o ser humano à imagem e semelhança da indústria, invertendo, portanto, sua missão de contribuir para a felicidade do homem e corroborando na alienação do trabalhador, transformando-o em dócil e pacato objeto de exploração do Capital.
Alguns críticos mais afoitos chegam a responsabilizar toda a Psicologia, acusando-a de estar a serviço das classes dominantes, servindo como instrumento destas contra o trabalhador.
De passagem, é bom frisar que não é privilégio da Psicologia, muito menos da Psicologia Industrial, o seu compromisso com as classes dominantes. É fato, já sobejamente conhecido, que o domínio de uma classe sobre a outra traz como decorrência o domínio das idéias da classe que está no poder, e que a ciência não escapa através de algum exercício mágico de neutralidade. Pelo contrário, ao produzir conhecimento que necessariamente implica poder, a ciência é apropriada pelas classes dominantes e utilizada em seu benefício.
No entanto, ao constatarmos esta relação entre ciência e poder, não podemos correr o risco de “jogar a criança fora com a água do banho". Vejamos: se o psicólogo, ao declarar que a Psicologia Industrial está a serviço da grande indústria, se recusa a trabalhar na área, está fazendo coro pelo avesso a velhas cantilenas que proclamam a neutralidade da ciência, isto sim, produto ideológico típico das classes dominantes. Em outras palavras, a crítica que produz a não intervenção é uma crítica caolha, covarde, que lava as mãos e se recusa em inverter o papel da ciência, que não se submete a correr os riscos do poder para tentar subvertê-lo.
Ê verdade que o psicólogo industrial é um empregado do patrão, contratado para fazer frente ao operário. Por isto mesmo, o psicólogo consciente deveria estar na indústria refletindo conscientemente para tentar subverter suas funções. Franzindo o nariz e se recusando a cumprir tão “vil papel", os defensores deste tipo de crítica fazem coro exatamente ao sistema, pois reivindicam pelo avesso a neutralidade da ciência, que denunciam como falsa, e poupam os industriais do incômodo de ter entre suas fileiras um profissional preocupado com a defesa dos direitos do trabalhador.
Imaginemos que um operário, ao tomar consciência da exploração a que é submetido, se recusasse a trabalhar na fábrica ao invés de organizar sua classe dentro da fábrica. Triste e irônico conluio entre a consciência e a covardia, em uma palavra, falsa (pseudo)consciência, que se traduz em omissão.
Mas não é apenas no plano genérico que estas críticas se mostram débeis. Tivemos oportunidade de fazer um estudo do caso reproduz no plano de treinamento a mesma ideologia da seleção. O que se vê na fábrica quando o objeto de estudo são os operários, 
quantitativamente a esmagadora maioria dos trabalhadores e qualitativamente os responsáveis diretos pela produção, não é nenhuma tentativa de adaptação do indivíduo à indústria, pelo contrário, trata-se da eliminação do indivíduo que trabalha, pelo menos do ponto de vista psicológico.
Em outras palavras, trata-se de transformar o trabalho do operário em força de trabalho e utilizá-la como qualquer outra força (elétrica, mecânica) no processo produtivo. Esbulhar o comportamento produtivo da sua dignidade, expropriar o trabalhador do controle do próprio processo de trabalho, transformar o gesto produtivo, humano por excelência, em força de tração.
É que a filosofia do right man in the right place tem sentido em um capitalismo em expansão, com taxas de crescimento superiores, ao crescimento vegetativo da oferta de mão-de-obra, máquinas funcionando a todo vapor, novos ramos industriais em expansão. Estamos vivendo em uma outra fase do capitalismo: recessão, desemprego em larga escala, crescimento dos setores financeiros da economia em detrimento das industriais, aumento da capacidade ociosa das unidades produtivas em funcionamento, falência de pequenas e médias empresas. Em uma palavra, vivemos numa estagflação, nome teórico que os economistas encontraram para batizar uma situação onde combinam-se altas taxas de inflação com a estagnação da economia.
O modo de operação de uma economia capitalista, na medida em que repousa sobre a produção coletivizada e a posse individual dos meios de produção, carrega em si a contradição de necessitar, por um lado,de mão-de-obra especializada, ao mesmo tempo que deve operar para retirar dos trabalhadores o poder que é inerente à especialização, o que faz (teoricamente) da Psicologia organizacional um instrumento importante na administração dos conflitos entre capital e trabalho. Um quadro de recessão e desemprego aumenta em muito a oferta de mão-de-obra e os investimentos em tecnologia que fazem o pêndulo oscilar em direção a uma mão-de-obra cada vez mais descartável. Se alguma frase puder substituir o right man in the right place, sugiro em oposição qualquer coisa semelhante a nowhere man in any place.
Tal situação que em síntese promove a transformação do trabalho, eliminando a dignidade do trabalhador, coloca os críticos da ideologia da adaptação, do homem ao trabalho, na posição de Dom Quixote, a lutar contra moinhos de vento, ou como já disse o poeta, tentando matar amanhã o velhote, inimigo que morreu ontem.
 Se, durante o período de recessão houvesse uma política industrial que efetivamente selecionasse e treinasse os operários em suas funções, o que ocorreria seria uma valorização do operário, através da valorização dos postos de trabalho, dificultando a substituição de um homem por outro, ao mesmo tempo que aumentaria a segurança psicológica do trabalhador na sua própria capacidade. Em uma palavra, contribuiria no sentido de fortalecer o operário perante a indústria, ao invés de enfraquecê-lo.
Imaginemos que os psicólogos bem pensantes, ao invés de franzir o nariz para a Psicologia Industrial, procurassem ocupar os postos que lhes cabem na fábrica e cumprissem exatamente as suas funções:
1) buscando selecionar e classificar de fato homens mais capacitados para exercício de suas funções, estendendo a seleção a cada operário da fábrica e, como reza a nossa ética profissional, informando ao candidato os resultados dos testes a que foi submetido, assim como os critérios que subjazem sua aprovação ou reprovação;
2) conquistando a extensão da avaliação de desempenho para todas as funções na fábrica, o que, ato contínuo, implicaria a definição de critérios objetivos para a promoção, rebaixamento ou demissão de cada operário;
3) atuando efetivamente no sentido de treinar os operários não apenas na sua função específica mas, também, mostrando o funcionamento da estrutura toda de produção.
Sem dúvida, o psicólogo que assim agisse estaria contribuindo para a conscientização do operário, para o aumento do seu poder de barganha perante a fábrica e para a segurança e dignidade, enquanto ser humano, tão escassas nas condições atuais. Tudo isto sem precisar brandir a teoria marxista de fora da fábrica e nem, ao menos, reinventar a Psicologia neutra, com as vantagens de trocar as velhas cantilenas murmuradas pelos cantos da Universidade por uma atuação direta com o operariado, classe revolucionária por excelência, que, se não for favorecida com o auxílio técnico dos psicólogos, pelo menos, auxilia-os a compreender melhor a história, Em outras palavras, é hora de fazer a crítica da crítica da atuação do psicólogo industrial que, para ser competente, necessita ser empreendida de dentro da própria fábrica, locus sem dúvida menos confortável do que as escrivaninhas da Universidade, mas, por isto mesmo, concreta.
É evidente que tal atuação está longe de ser possibilitada sem riscos; os psicólogos dispostos a atuar dentro da indústria precisariam, ato contínuo, de uma organização enquanto categoria, com força o suficiente para zelar pela manutenção do próprio emprego e pela observância dos princípios éticos em suas atuações.
Como sempre, é possível que todas as nossas considerações estejam erradas. Se for o caso, a única forma de percebermos é na prática, o que termina por revalidar pelo avesso as conclusões acima. Temos certeza de que o debate que vier a aprofundar, acatar ou recusar as reflexões que expomos pode nos clarear o caminho, se for baseado no operário concreto, na fábrica real e na atuação do psicólogo fidedigna. Estaremos, sem dúvida, melhor embasados na prática e menos suscetíveis às armadilhas próprias dos contos de fada.

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