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Desenvolvimento Humano e Social 1ª edição 2017 Desenvolvimento Humano e Social 3 Palavras do professor Caro aluno (a)! Seja bem-vindo (a) à disciplina de Desenvolvimento Humano e Social. Ao escolher uma profissão, estamos necessariamente atuando em socie- dade. Logo, precisamos compreendê-la para poder intervir e nos relacio- narmos de forma cada vez mais tolerante e respeitosa, sobretudo con- siderando que falar em sociedade é falar em complexidade.A disciplina Desenvolvimento Humano e Social trata exatamente dessa complexi- dade, pois, quando nascemos, imediatamente nos inserimos em um espaço social marcado pela cultura. Mas, afinal, o que é cultura? Qual a importância dessa disciplina para a sua atuação cotidiana e profissional? O estudo desse tema está dividido em oito unidades de aprendizagem, ao longo das quais refletiremos sobre a cultura e as formas de conceituá-la e interpretá-la. Dentro do terreno de estudos da Antropologia Cultural, que nasce voltada para explicar a diferença entre as sociedades humanas, os choques culturais entre perfis mais inovadores e outros mais conser- vadores, teremos a oportunidade de demonstrar como essas caracterís- ticas compõem a vida social. Falaremos, ainda, das diferentes matrizes religiosas, da indústria cultural, especificamente da mídia, da cultura e da comunicação de massa e da perspectiva crítica a essas matrizes. Discutiremos cientificamente, ainda nessa perspectiva, em que consis- tem o indivíduo, a organização social e os mecanismos de controle social, tanto os informais quanto os formais, como as leis. Isso porque, para com- preender uma cultura, entendemos que é preciso olhar para a formação social de um povo, das classes sociais e de suas hierarquizações. Por fim, daremos atenção aos movimentos sociais e a uma análise crítica das sociedades contemporâneas. O caminho é longo, mas o percorrere- mos juntos.Bom estudo! 1 4 Unidade 1 Cultura Para iniciar seus estudos Você está iniciando o estudo sobre o desenvolvimento humano e social. Está se sentindo preparado para as questões e reflexões sobre o curioso mundo cultural? Esta unidade trata da apresentação do conceito de cul- tura, de como ele surgiu, qual o impacto da cultura no desenvolvimento da vida social e quando exatamente marcamos a nossa passagem de um estado de natureza para um estado de cultura. Essa reflexão é muito ins- tigante. Vamos descobrir as respostas? Objetivos de Aprendizagem • Descrever o conceito e a importância da cultura, relatando suas nuances, características e como ela impacta a comunidade em que se encontra, bem como a regulação da convivência entre as pessoas que aí convivem. 5 Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 1 - Cultura 1.1 Como nos tornamos sujeitos de cultura? A discussão mais técnica quanto ao conceito de cultura é discutida na Antropologia, disciplina fundada no final do século XIX. A Antropologia, como matéria específica, buscou e ainda busca compreender e explicar as diferen- ças culturais existentes entre as sociedades e os homens.Nesse sentido, pode-se dizer que ela é o estudo calcado em dois pilares: a alteridade e a diferença. Antropologia: consiste em um nível comparativo amplo de vários aspectos da vida social. Glossário Os estudos antropológicos demonstram que as sociedades não são entes naturais, mas sim que emergem da cultura e, portanto, são construídas por vários núcleos sociais e em inúmeras sociedades. Podemos também definí-la enquanto hábitos sociais. Edward Tylor (1832-1917), em 1871, utilizou o termo cultura pela primeira vez e a definiu como todo comportamento aprendido, isto é, tudo aquilo que independe de transmissão gené- tica. De forma mais precisa, para Tylor (1975): A cultura da civilização tem um sentido etnográfico amplo, e um complexo conhecimento das crenças, da arte, da moral, do direito, dos costumes e qualquer outros hábitos e capacidades adquiridas pelo homem enquanto membro da sociedade. (TYLOR, 1975, p. 29) Edward Tylor estruturou suas pesquisas a partir do relato dos viajantes e buscou “similaridades” para comparar povos com o mesmo grau de “civilização” nas descrições realizadas por esses viajantes. O segundo passo reali- zado por ele foi classificar essas sociedades, inspirado no sistema de classificação de animais e plantas das ciên- cias naturais. Nesse aspecto, seu pensamento foi desenvolvido na dicotomia entre cultura e natureza. Sabemos que a natureza não dá saltos e, a partir de suas observações, Tylor (1975) procurou descrever e aproximar traços culturais de sociedades simples. Considera-se, nesse cenário, que a história da espécie humana é uma parte da história e da natureza, sendo que nossas vontades e ações se ajustam a leis concretas como as que a determi- nam. Nesse sentido, o progresso, a degradação, a sobrevivência e as modificações que ocorrem são “modos de conexão” que unem a complexa civilização. Para o autor, somos os criadores e os transmissores da cultura. Com a estruturação do conhecimento e das pesquisas, passamos a observar a cultura como fatos historicamente ordenados e como fruto da organização social. O mais importante dessa perspectiva é que, se os comportamen- tos são culturalmente apreendidos, podem também ser culturalmente modificados. 6 Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 1 - Cultura Figura 1.1 – Simbolização das diferentes culturas. Legenda: A figura expressa as diferentes culturas, simbolizando as escolhas que fazemos enquanto sociedade. Fonte: Plataforma Deduca (2018). Os viajantes, ainda no século XIV, foram os primeiros a praticar a alteridade ao entrarem em contato com diferentes culturas e as descreverem. Eles perceberam que somos todos humanos, cada qual com práticas culturais diferencia- das, e essa diferença exerceu grande fascínio na Europa, tanto em uma perspectiva positiva, que é a de conhecer o “outro”, como na de dominação e de imposição da sua cultura ou da sua forma de vida – o chamado etnocentrismo. Essa discussão, muito presente na literatura antropológica e histórica, incide em duas vertentes conflitantes: • uma fascinação com os “selvagens”; • o repúdio ao “estranho”. Etnocentrismo: ocorre quando um grupo, população ou sociedade observa o mundo a par- tir do seu ponto de vista e o coloca como a principal referência, consiste em se colocar no centro de tudo, entendendo que o que não está organizado de acordo com os seus valores é menor, e, portanto, é inferior culturalmente. É exatamente ao contrário da ALTERIDADE que é o exercício de se aprender com a diferença. Glossário É exatamente sobre essa dicotomia que a cultura se desenvolveu e a Antropologia nasceu, sendo queé impor- tante que todos esses aspectos despertem nossa reflexão acerca da nossa própria cultura. 7 Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 1 - Cultura Frank Lestringant (2006, p. 516) diz: “[...]A imagem da terra jamais havia exibido tal insta- bilidade[...]. Já não há mais um único continente, envolvendo o Mediterrâneo central, útero confortável onde se abrigavam as certezas dos antigos, mas uma poeira de ilhotas, arquipé- lagos, lascas de terra, que vogam à deriva num oceano desmesuradamente ampliado [...]”. Você concorda que essa citação cumpre o papel de nos retirar de uma zona de conforto? O homem, no sentido de humanidade, possui uma tendência inconsciente à religiosidade e também à autoafirma- ção, o que nos leva, enquanto indivíduos, a acreditar e a defender que o nosso modo de vida é mais desenvolvido do que o dos outros.Essa ação é um exercício etnológico que aprimorou as sociedades, a partir do qual se pode enten- der que a cultura é apreendida, ou seja, que ela não é natural e sim socialmente construída em cada sociedade. Etnologia: compara a vida social dos povos, demonstra que seus fundamentos são unifor- mes e verificaa existência de leis. Glossário 1.2 A passagem de um estado de natureza para um estado de cultura A passagem de um estado de natureza para um estado de cultura é uma das discussões mais presentes e deba- tidas na Antropologia e, por isso, é tão fascinante. O filósofo francês Michel de Montaigne (1533-1592) já nos ensinava que perceber o “selvagem” deveria ser um exercício. O intuito, por sua vez, não deveria ser de classificá- -lo como superior ou inferior e sim como diferente, isso constituindo a alteridade. E, quando falamos em alteri- dade, falamos de cultura. Ao usarmos a palavra “selvagens”, algumas imagens nos chegam à mente, imagens essas também socialmente construídas. Mas, a questão é: em que momento da história a humanidade saiu de um estado de natureza e pas- sou a um estado de cultura? Pois bem, resposta complexa para uma pergunta também complexa. Cumpre notar que, no entanto, não há uma resposta precisa e sim profunda, pois não há um marco histórico nesse sentido, uma data ou um século. O grande antropólogo Claude Lévi-Strauss (1908-2009) nos dá a resposta. Segundo ele, a passagem desse estado de natureza para um estado de cultura foi uma mudança de paradigma que não foi histórica e, sim lógica, pois o cultivo de hábitos e a sua reprodução levaram à construção de sociedades desde as mais simples às mais complexas. Genial, não? 8 Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 1 - Cultura Nessa lógica, a diversidade de processos históricos é o lócus privilegiado da cultura, que é formada a partir de inúmeras existências e resistências de cuja dialética emergem as sociedades.Um exemplo seria o homem quando passa a estabelecer relacionamentos.Isso pode ser entendido como algo natural, pois somos seres sociais e, quando estabelecemos uma sociabilidade, ela produz cultura, sendo que a própria relação humana é uma deri- vação dessa cultura. Assim, a cultura é um ambiente artificial criado pelo homem, em que ele é produtor e pro- duto dessa cultura. Interessante, não? Figura 1.2 – Simbolização das diferentes culturas. Legenda: A figura expressa as diferentes culturas, simbolizando as escolhas que fazemos, como estilo de óculos, corte e cores de cabelo e maquiagem. Fonte: Plataforma Deduca (2018). Sabemos que os homens (no sentido de humanidade) são seres biológicos, e, por isso, vêm da natureza. Mas, paralelamente, o indivíduo social é desenvolvido, formado e criado dentro de cada sociedade, e, portanto, de uma cultura, na medida em que o homem utiliza a vida e a transforma imprimindo novos ritmos, sabores, gostos e comportamentos. E é nisso que está a sua marca, a sua cultura. 9 Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 1 - Cultura Moda é cultura“[...] Georg Simmel (1859-1918), em 1904, [afirmou que] a moda era neces- sariamente uma expressão das classes superiores, que buscava ser copiada pelas classes inferiores formando, nesse movimento de distinção e imitação, aquilo que se conhece hoje como “moda”, com suas mudanças cíclicas. É a emulação, o desejo de superar ou igualar a outrem, que cria a dinâmica da moda [...]” (GUIMARÃES, 2008, p. 2). Uma das maiores expressões da cultura é a moda. Zygmunt Bauman (1905-2017) analisa a moda dentro de uma perspectiva crítica, que ele denomina de modernidade líquida. A moda é considerada um fenômeno social que vende signos sociais, uma vez que ela apresenta diferença, desigualdades, fragilidades e também discrimina- ções. Mas, ao mesmo tempo, pode ser libertadora.Ela é um fenômeno tão intenso de consumo, que se renova duas vezes ao ano seguindo as estações da primavera, verão, inverno e outono. Nessa perspectiva, a cultura é estudada por aqueles que a pesquisam por meio da observação dos indivíduos se comportando em face de outros indivíduos e em relação à natureza. Por exemplo, as pessoas falam umas com as outras, gesticulam, realizam determinados movimentos, ocupam determinados espaços e evitam outros. Trocam com seus parceiros e participam de conflitos, desenvolvem atividades sexuais e de subsistência. No nosso dia a dia, operamos basicamente com os códigos da nossa própria cultura. Nesse sentido, o exemplo da moda é perfeito. Nominamos as coisas com base em nossa realidade e convivência social e, nas sociedades ociden- tais, coincide o que entendemos por ser uma roupa feminina, um tênis infantil, uma roupa esportiva, um terno, uma gravata ou uma sandália. A definição e o uso dessas peças são, portanto, códigos da nossa própria cultura. Figura 1.3 – Simbolização da cultura por meio da moda. Legenda: A figura expressa que nada é mais cultural do que a moda. Fonte: Plataforma Deduca (2018). 10 Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 1 - Cultura Essa abordagem é um ensaio da complexa compreensão sobre cultura, cuja significação está em toda a parte, em todas as nossas ações, na esfera do trabalho, das relações conjugais, da produção econômica e artística, do sexo, da religião, das formas de dominação e de solidariedade. Absolutamente tudo nas sociedades humanas é constituído segundo os códigos e as convenções simbólicas que denominamos de cultura. 1.3 O que é cultura? Uma das formas de cultura é a linguagem verbal, que expressamos por meio dos mitos, dos cantos, das atividades de caça, de pesca, da lavoura, dos jogos, das cerimônias e, inclusive, da guerra. Essa é uma compreensão geral, mas, agora, para definir cultura em uma perspectiva mais contemporânea e crítica, nos apoiaremos nos estudos do sociólogo polonês Zigmunt Bauman, que parte, em suas reflexões, dos escritos de Pierre Bourdieu (1930- 2002), especialmente sobre os seus estudos de distinção social. Uma das ponderações presentes diz respeito ao fato de que a cultura, ao invés de criar uma “condição humana universal”, passou a utilizá-la como mecanismo de separação e não de integração entre os diferentes povos e tribos sociais urbanas.Um exemplo é a construção social do “bom” gosto como oposição ao “mau” gosto, o “refinado” em relação ao “vulgar”. Aqui não é difícil perceber que a cultura tanto pode integrar como segregar. Vejamos a citação de Bauman (2011): A elite cultural está viva e alerta; é mais ativa e ávida hoje do que jamais foi. Porém, está preo- cupada demais em seguir os sucessos e outros eventos festejados que se relacionam à cultura para ter tempo de formular cânones de fé ou a eles converter outras pessoas. Além do princípio de “Não seja Enjoado”, “Não seja exigente” e “Consuma Mais”, essa ideologia nada tem a dizer a multidão unívora situada na base da hierarquia cultural. (BAUMAN, 2011, p. 6) Bauman (2011) caracteriza como onívoro o indivíduo dos dias de hoje, pós-moderno, que consome de tudo, para atingir satisfação e felicidade. UNÍVORO: nos séculos passados, o consumo era caracterizado por uma escolha pormenorizada do que consumir, ao contrário do que acontece atualmente. Glossário A cultura, em Pierre Bourdieu, já aparecia como um dispositivo útil utilizado de forma consciente para marcar essas diferenças de classe e preservá-las com o intuito de proteger e manter as hierarquias sociais. Como exem- plo, nomear o que é belo ou feio é uma forma de impor essas categorias. A própria expressão artística funciona como uma distinção de classe quandoa arte se destina a um consumo estético que garante a segregação. No entanto, as transformações socioculturais criaram outro cenário em que surgiu o que Zygmunt Bauman deno- minou de modernidade líquida. 11 Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 1 - Cultura Figura 1.4 – Simbolização da modernidade líquida. Legenda: A figura expressa que a modernidade escorre entre nossos dedos, é o futuro imbricado com o passado. Fonte: Plataforma Deduca (2018). Na cultura líquida descrita por Bauman (2011), o objetivo predominante é conquistar consumidores. Esse pensa- mento fica muito claro quando ele discute oque é modernidade e a sua fluidez, principalmente nessa relação da construção dos valores culturais e do consumo vinculado a uma perspectiva estética. Cabe compreender exatamente a abordagem de Bauman (2011) sobre o caráter líquido da modernidade: a“[...]‘modernização’, compulsiva e obsessiva, capaz de impulsionar e inten- sificar a si mesma, em consequência do que, como ocorre com os líquidos, nenhuma das formas consecutivas de vida social é capaz de manter seu aspecto por muito tempo. ‘Dissol- ver tudo que é sólido’ tem sido a característica inata e definidora da forma de vida moderna desde o princípio [...]” (Bauman, 2011, p. 16). Nessa linha, qual é o papel do belo e do feio? Já vimos que tanto uma categoria como outra são constructos sociais, mas cabe aprofundar essa discussão observando a pós-modernidade. Bauman (2011), em um debate utilizando os escritos de Sigmund Freud (1856-1939), apresenta a seguinte questão: qual a função do belo em nossa sociedade? Ele afirma que não poderíamos existir enquanto civilização sem esse conceito, pois, ainda que o belo não tenha uma utilidade óbvia, ele existe. E, embora não seja uma necessidade cultural, ele é uma necessi- dade social, pois os binômios feio x bonito, elegante x deselegante e pobre x rico são estruturantes da vida social, organizam o mundo, afastam o requintado do Zé-ninguém. 12 Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 1 - Cultura Isso é muito interessante e ao mesmo tempo perturbador, você concorda? Cabe ainda apresentar a sucinta defi- nição de cultura apresentada pelo autor. Para ele, cultura “[...] é um conjunto de preferências sugerido, recomen- dado e imposto em função da sua correção, excelência ou beleza [...]” (BAUMAN, 2011, p. 7). O conceito também é muito fluido, mas suficientemente abrangente para nos dar apoio para refletir sobre o funcionamento das sociedades ocidentais. Uma sociedade pode ser tanto inclusiva e excludente ao mesmo tempo, na medida em que ela pode oferecer bilhetes para a arte, mas, ao mesmo tempo em que há oferta ampla, nem todos poderem acessá-la. Você com- preende? Essa contradição é a marca da nossa sociedade e nem sempre é fácil perceber e tampouco explicar dicotomias como essa, que dão base àvida social. De acordo com Bourdieu, principal referencial de Bauman, houve, no decorrer dos anos, uma ruptura com o con- ceito iluminista de cultura, que visava modificar o status quo e não o edificar, a título de uma busca pela condição humana universal (BAUMAN, 2011). Assim, o objetivo não era codificar, inventariar e escrever a vida comum social, mas sim apontar uma direção no futuro. O nome cultura foi, ainda, planejado para educar as massas e refinar os seus costumes e então aproximar o povo (a base social) da elite (aqueles que estão no topo). Ela seria, nesse viés, a luz que perpassava o que poderíamos chamar de dois mundos. Figura 1.5 – Simbolização da aproximação do povo da elite. Legenda: A figura expressa que o projeto iluminista, ao criar a categoria cultura, tinha por objetivo aproximar dois mundos tidos como distintos, o da elite e o do povo. Fonte: Plataforma Deduca (2018). A intenção assumida e declarada dessa elite era educar, esclarecer, elevar e enobrecer o povo, levando as pessoas ao status recente de cidadãos no também novo conceito de Estado-Nação. Nada mais ocorreu do que a tentativa de unir o Estado a uma Nação, sendo o primeiro guardião daquela condição– sabemos que uma Nação não é capaz de ser formada sem cidadãos e a cultura, nesse espaço, figura como o tempero dessa junção. Todavia, houve um problema com o projeto: nem todos os indivíduos se encaixavam naquele modelo e, dessa forma, sobraram pessoas, as chamadas franjas sociais, que não se enquadravam no almejado Estado-Nação. Em decorrência disso, efeitos indesejáveis ocorreram. Com a criação da ideia de que o “homem branco” teria uma missão, a de salvar aqueles que se encontravam em um estado de barbárie, percebemos deturpações da função da cultura, pois foi criada para ser inclusiva, mas, para gerar a inclusão, ela precisou excluir. Essa foi a justificativa utilizada. Você concorda com isso? Ou consegue visualizar um gap entre os objetivos e os meios para conquistá- -los? Será que, para causar o equilíbrio social, primeiramente a sociedade tem que passar por desequilíbrios? Continuaremos esse assunto no próximo tópico. 13 Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 1 - Cultura 1.4 Conceituando: a cultura como construção social No tópico anterior, em algumas passagens, apresentamos conceitos de cultura apresentados por Zygmunt Bauman e Pierre Bourdieu, bem como outrosdos mais aceitos no ambiente acadêmico pelos especialistas no tema, isto é, os antropólogos. Neste momento, nosso objetivo é “amarrar” esses conceitos e essas abordagens sobre cultura. Embora existam divergências conceituais quanto ao que se entende por cultura, o que sabemos é que todas são complexas. Um dos caminhos é considerar cada cultura como uma unidade e um processo histórico individual, atentando para que as feições culturais não são compreensíveis quando separadas do conjunto da sociedade, ou seja, o indivíduo deve ser compreendido como um ser que vive na sua cultura. Mas a cultura também passou por grandes transformações, como já vimos. A modernidade passou de sua fase “sólida” para uma fase “líquida”, de forma que Bauman (2011) rebatizou o conceito de modernidade por “moder- nidade líquida” denominada por outros autores como “pós-modernidade”, “modernidade tardia”, “segunda modernidade”, ou ainda, “hipermodernidade”. Mas qual é o impacto de atribuir novo conceito para explicar os fenômenos sociais?O próprio autor explica: O que torna “líquida” a modernidade, e assim justifica a escolha do nome, é sua “modernização” compulsiva e obsessiva, capaz de impulsionar e intensificar a si mesma, em consequência do que, como ocorre com os líquidos, nenhuma das formas consecutiva de vida social é capaz de manter seu aspecto por muito tempo. “Dissolver tudo o que é sólido” tem sido a característica inata e definidora da forma de vida moderna desde o princípio; mas hoje, ao contrário de ontem, as for- mas dissolvidas não devem ser substituídas (e não o são) por outras formas sólidas – consideradas “aperfeiçoadas”, no sentido de serem até mais sólidas e “permanentes” que as anteriores, e, por- tanto, até mais resistentes à liquefação. (BAUMAN, 2011, p. 11) Percebemos que essa sociedade se torno mais fluida. Pensem você: existe como controlar a água que jorra de uma mangueira ligada a uma torneira? Podemos, com as mãos, controlá-la? Ou com um jarro? Tarefa impossível, pois a água se esgueira e foge por tudo onde toca. Essa é a descrição feita por Bauman (2011). A cultura na modernidade líquida descrita pelo sociólogo é repleta de ofertas, propostas e nunca de normas, pois nada a retém. A cultura quer estimular o consumo, tentar seduzir, produzir desejos e criar necessidades, e nunca cumprir deveres. Ocorre um apelo à mudança constante, diferentemente da época do Iluminismo, em que se tinha um norte.Hoje, não há norte, não há caminho, não há direção, o que existe é um mercado de consumo cuja a única orientação é a rotatividade e a fluidez. 14 Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 1 - Cultura Figura 1.6 – Simbolização da busca desenfreada pelo consumo. Legenda: A figura expressa que o objetivo das pessoas é consumir sem ter um caminho claro a ser seguido. Fonte: Plataforma Deduca (2018). Somos uma sociedade de consumidores, em que os diversos artigos competem pela atenção, implicando em certa incapacidade de prender o foco dada a diversidade e o grande volume dessa competição. Todas essas interpretações e explicações de Bauman (2011) sobre a modernidade líquida deixam claro que a cultura é uma construção social. Cremos que, em relação a isso, não temos mais dúvidas,mas, para finalizar essa abordagem, é preciso compreender para explicar. Como afirma Bauman (2011), “[...] hoje, o [...] sinal de pertencimento a uma elite cultural é o máximo de tolerância e o mínimo de seletividade. O esnobismo cultural consiste agora na ostentosa negação do esnobismo. O princípio do elitismo cultural é onívoro – está à vontade em qualquer ambiente cultural, sem considerar nenhum deles seu lar, muito menos o único lar” (Bauman, 2011, p. 13). Nesse sentido, vamos recordar que o conceito de cultura surgiu na França com Edward Tylor, e, conforme descre- vemos, com o intuito de refinar o povo, aperfeiçoar e instruir, sendo essa vocação tomada por ações do próprio Estado após a Revolução, com a queda da Monarquia. No entanto, esse olhar se perdeu com a institucionalização de um Ministério da Cultura, que, ao invés de se preocupar em refinamento, em um caminho inverso, passou a investir nos próprios artistas e no aprofundamento de suas expressões individuais e isoladas. Dessa forma, houve um descolamento do pensamento originaliluminista eoEstado passou a tutelar os artistas. 15 Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 1 - Cultura Você consegue perceber a mudança no foco de atuação e as consequências que derivam na construção de uma sociedade do consumo? Houve um encapsulamento dos artistas e da arte, o quese tornou uma ação voltada de artistas para artistas e do Estado para os artistas e não para o povo naquele sentido original. O revolucionário, aqui, é transformar ideias em dominação, mecanismo discutido pelos autores da chamada Escola de Frankfurt. Da Escola de Frankfurt emerge uma teoria social criada por estudiosos componentes da Uni- versidade de Frankfurt, formada por cientistas sociais marxistas que entendiam que as ideias marxistas ortodoxas não davam conta de explicar a sociedade capitalista. Considerando isso, criaram uma visão alternativa para o desenvolvimento da sociedade, e, para explicá-la, cria- ram concepções alternativas que partiam das concepções marxistas, que, por meio de um processo de refinamento, culminaram na denominada Teoria Crítica. Dentro dessa discussão, qual seria a função da arte? A função da arte é mudar o mundo – questão que foi profun- damente debatida pelos autores da Escola de Frankfurt. No entanto, seguiremos como olhar de Bauman (2011), que identificou um conflito entre os administradores da arte e os artistas, dialética dentro da qual se construiu esse mundo da modernidade líquida. Ambos não discordam quanto à necessidade constante de mudanças e ajustes, mas há conflito quanto ao objeto dessas mudanças. Haja vista que a cultura vai além da satisfação da necessidade o incentivo ao consumo como necessidade corrompe a cultura criando um ciclo vicioso de consumo e de inserção social por esses mecanismos. Voltamos, com isso, àquela primeira discussão do indivíduo como onívoro e unívoro, e porque nos tornamos onívoros, e as implicações dessa mudança do ponto de vista de uma cultura de consumo. As culturas estão em um processo contínuo de modificação e isso quer dizer que a cultura não é algo estático, pois nós mudamos frequentemente. Podemos considerar que temos dois fluxos de mudança: um interno e um fruto do contato. O primeiro é resultado da própria dinâmica do sistema cultural. É uma mudança, em geral, lenta, mas que pode ser alterada por eventos históricos. Por exemplo, a inovação tecnológica causou grande impacto na sociabilidade, vide o papel das redes sociais como o Facebook, dentre outras. O segundo fluxo de mudanças emerge do contato de um sistema cultural com outro sistema cultural. O melhor exemplo é a aculturação, fenômeno amplamente divulgado e estudado em relação aos índios brasileiros em seu contato com os portugueses que aportaram no Brasil. Outro exemplo que vale a pena ser apresentado foi o forte impacto cultural da pílula anticoncepcional para as mulheres, para os casais, para as famílias, pela grande revolução sexual que causou. Certamente, em termos acadêmicos, esse segundo modelo é o mais estudado, tendo em conta o forte impacto na cultura e, por consequência, nas relações sociais. É possível perceber, a partir desses exemplos, o quanto a cul- tura é dinâmica, não estática, o tempo todo alimentada por informações sociais que estão em constante trans- formação, algumas mais lentas e outras mais intensas e revolucionárias. 16 Desenvolvimento Humano e Social | Unidade 1 - Cultura Figura 1.7 – Simbolização do processo de aculturação. Legenda: A figura expressa a cultura dos índios no Brasil, que confrontou fortemente com a cultura do homem branco europeu. Fonte: Plataforma Deduca (2018). Nessa abordagem, percebemos que somos sujeitos de cultura e somos afetados tanto internamente como externamente. Normalmente, os grandes impactos são mais amplamente estudados, mas ambos são muito importantes. Pare e pense! Lembre-se das roupas utilizadas pelos homens e mulheres da elite no final do século XVIII. Mulheres: vestidos compridos, pesados, fechados, cabelos longos e amarrados. Homens: cartola, bengala e ternos. E, hoje, calças jeans rasgadas propositalmente, decotes, camisetas e transparências. Foi uma mudança lenta, mas que ocorreu a partir da quebra de paradigmas entre os relacionamentos sociais. Por fim, a mensagem que fica é a de que somos sujeitos culturais. Sendo assim, a sociedade e a cultura são cons- truções sociais que variam de acordo com o desenvolvimento da sociedade em seus mais variados aspectos. 17 Considerações finais Nesta unidade, tivemos acesso a muitas informações e conteúdos impor- tantes em termos da formação da cultura, da cultura efetivamente como uma construção social e de todas as transformações que impactam em nosso comportamento social.Vamos retomar os pontos principais estu- dados até aqui? • A Antropologia é o estudo da cultura e tem como pilar a alteri- dade e a diferença. As sociedades não são naturais, elas são entes de cultura, que é a expressão de comportamentos apreendidos. O estudo da cultura requer a análise dos hábitos morais, religiosos, comportamentais e políticos do modo de vida dos seres humanos. • A cultura sempre teve como marco a passagem de um estado de natureza para um estado de cultura. Isso porque a Antropologia nasce fortemente influenciada pelas ciências naturais. As socie- dades criam e transmitem cultura e, uma importante reflexão nesse sentido, é a de que, se criamos a cultura, também podemos transformá-la. • Não existe uma data no calendário da humanidade que marque quando saímos do estado natural e passamos para o estado cul- tural. Essa passagem não é histórica e sim lógica, no que reside a complexidade de se estudar os fenômenos culturais. A cultura é um fenômeno artificial criado pelo homem, que imprime seu ritmo sobre aquela, reforçando a ideia de que a cultura é um cons- tructo social. • A moda é uma grande expressão da cultura e a sua volatilidade demonstra o quão sujeitos estamos aos fenômenos da cultura. O que comemos, vestimos, contamos, cantamos etc. revela muito da nossa identidade cultural. Além disso, a cultura é uma demons- tração da nossa reação aos fenômenos da natureza. • Em termos de classes sociais, a criação do gosto é uma expres- são da cultura. Vimos como o impacto do consumo impulsiona o funcionamento dessa sociedade. Descrevemos a mudança de paradigma detectado por Zygmunt Bauman e Pierre Bourdieau em relação a uma sociedade que se preocupava em educar o povo e que, na modernidade líquida, se preocupa em transformá-lo em simples consumidores. 18 • Cada cultura é única e teve o seu próprio caminho de formação, sendo cada uma é fruto de uma construção social. • O que constitui a cultura da modernidade líquida são as ofertas, as propostas e a criação da necessidade pelo consumo, nunca as normas ou os limites. Esta nãoé retida por nada. A cultura esti- mula o consumo, tenta, seduz, produz desejos e cria necessidades e nunca estimula o cumprimento de deveres ou de limites. • A cultura não é estática, mas sim está em constante modifica- ção e retroalimentação, especialmente por meio do estímulo ao consumo hoje em dia. A cultura é tanto reflexo de transforma- ções lentas e contínuas quanto de grandes mudanças que cau- sam impactos mais significativos e extensivos no comportamento humano. Podemos citar como exemplo a grande revolução cultu- ral causada pela integração da pílula anticoncepcional, que teve impacto na sociedade como um todo e mudou hábitos. • A cultura fica comprovada como uma construção social muito particular de cada sociedade, havendo um movimento interno e externo de alimentação desses modos de vida. Referências bibliográficas 19 BAUMAN, Z. A Cultura no Mundo Líquido Moderno. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2011. GUIMARÃES, M. E. A. Moda, cultura e identidades. 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