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1 PR OA MI S EM CA D PROAMI PROGRAMA DE ATUALIZAÇÃO EM MEDICINA INTENSIVA 2 Estimado leitor É proibida a duplicação ou reprodução deste volume, no todo ou em parte, sob quaisquer formas ou por quaisquer meios (eletrônico, mecânico, gravação, fotocópia, distribuição na Web e outros), sem permissão expressa da Editora. E quem não estiver inscrito no Programa de Atualização em Medicina Intensiva (PROAMI) não poderá realizar as avaliações, obter certificação e créditos. Os autores têm realizado todos os esforços para localizar e indicar os detentores dos direitos de autor das fontes do material utilizado. No entanto, se alguma omissão ocorreu, terão a maior satisfação de na primeira oportunidade reparar as falhas ocorridas. A medicina é uma ciência em permanente atualização científica. À medida que as novas pesquisas e a experiência clínica ampliam nosso conhecimento, modificações são necessárias nas modalidades terapêuticas e nos tratamentos farmacológicos. Os autores desta obra verificaram toda a informação com fontes confiáveis para assegurar-se de que esta é completa e de acordo com os padrões aceitos no momento da publicação. No entanto, em vista da possibilidade de um erro humano ou de mudanças nas ciências médicas, nem os autores, nem a editora ou qualquer outra pessoa envolvida na preparação da publicação deste trabalho garantem que a totalidade da informação aqui contida seja exata ou completa e não se responsabilizam por erros ou omissões ou por resultados obtidos do uso da informação. Aconselha-se aos leitores confirmá-la com outras fontes. Por exemplo, e em particular, recomenda-se aos leitores revisar o prospecto de cada fármaco que planejam administrar para certificar-se de que a informação contida neste livro seja correta e não tenha produzido mudanças nas doses sugeridas ou nas contra-indicações da sua administração. Esta recomendação tem especial importância em relação a fármacos novos ou de pouco uso. Associação de Medicina Intensiva Brasileira Rua Domingos de Moraes, 814. Bloco 2. Conjunto 23 04010-100 – Vila Mariana - São Paulo, SP Fone/fax (11) 5575-3832 E-mail: cursos@amib.com.br http://www.amib.com.br SISTEMA DE EDUCAÇÃO MÉDICA CONTINUADA A DISTÂNCIA (SEMCAD®) PROGRAMA DE ATUALIZAÇÃO EM MEDICINA INTENSIVA (PROAMI) Artmed/Panamericana Editora Ltda. Avenida Jerônimo de Ornelas, 670. Bairro Santana 90040-340 – Porto Alegre, RS – Brasil Fone (51) 3025-2550 – Fax (51) 3025-2555 E-mail: info@semcad.com.br consultas@semcad.com.br http://www.semcad.com.br 3 PR OA MI S EM CA D PROAMI PROGRAMA DE ATUALIZAÇÃO EM MEDICINA INTENSIVA ORGANIZADO PELA ASSOCIAÇÃO DE MEDICINA INTENSIVA BRASILEIRA Diretores acadêmicos Cleovaldo T. S. Pinheiro Werther Brunow de Carvalho Artmed/Panamericana Editora Ltda. SISTEMA DE EDUCAÇÃO MÉDICA CONTINUADA A DISTÂNCIA 4 Reservados todos os direitos de publicação à ARTMED/PANAMERICANA EDITORA LTDA. Avenida Jerônimo de Ornelas, 670 – Bairro Santana 90040-340 – Porto Alegre, RS Fone (51) 3025-2550. Fax (51) 3025-2555 E-mail: info@semcad.com.br consultas@semcad.com.br http://www.semcad.com.br Capa e projeto: Tatiana Sperhacke Diagramação: Ethel Kawa Editoração eletrônica: João Batysta N. Almeida e Barbosa Coordenação pedagógica: Evandro Alves Supervisão pedagógica: Magda Collin Processamento pedagógico: Evandro Alves, Luciane Ines Ely e Michelle Freimüller Revisões: Israel Pedroso e Dinorá Casanova Colla Coordenação-geral: Geraldo F. Huff Diretores acadêmicos: Cleovaldo T. S. Pinheiro Professor adjunto do Departamento de Medicina Interna da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Doutor em Medicina pela UFRGS. Especialista em Terapia Intensiva, titulação pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB). Chefe do Serviço de Medicina Intensiva do Hospital de Clínicas de Porto Alegre. Coordenador do Programa de Residência em Medicina Intensiva do Hospital de Clínicas de Porto Alegre. Werther Brunow de Carvalho Professor livre-docente do Departamento de Pediatria da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Especialista em Medicina Intensiva Pediátrica, titulação pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) e Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Chefe das Unidades de Cuidados Intensivos Pediátricas do Hospital São Paulo, Hospital Santa Catarina e Beneficência Portuguesa de São Paulo. P964 Programa de Atualização em Medicina Intensiva (PROAMI) / organizado pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira. – Porto Alegre: Artmed/Panamericana Editora, 2004. 17,5 x 25cm. (Sistema de Educação Médica Continuada a Distância (SEMCAD) 1. Medicina intensiva – Educação a distância. I. Associação de Medicina Intensiva Brasileira. II. Título. CDU 616-084/-089:37.018.43 Catalogação na publicação: Mônica Ballejo Canto – CRB 10/1023 PROAMI. Programa de Atualização em Medicina Intensiva ISSN 1679-6616 5 PR OA MI S EM CA D Presidente José Maria da Costa Orlando Vice-Presidente Waldemar Henrique Fernal 1º Secretário Marcelo Moock 2º Secretário Luiz Alexandre Alegretti Borges 1º Tesoureiro Rosa Goldstein Alheira Rocha 2º Tesoureiro Afonso José Celente Soares Associação de Medicina Intensiva Brasileira Diretoria 2004/2005 Associação de Medicina Intensiva Brasileira Rua Domingos de Moraes, 814. Bloco 2. Conjunto 23 04010-100 – Vila Mariana - São Paulo, SP Fone/fax (11) 5575-3832 cursos@amib.com.br www.amib.com.br 6 7 PR OA MI S EM CA D MANEJO DAS SÍNDROMES CORONARIANAS AGUDAS 9 José Verri PROFILAXIA DAS HEMORRAGIAS DIGESTIVAS EM UTI 33 Mário Reis Álvares-da-Silva TÉTANO 57 Janete Salles Brauner ATUALIZAÇÃO EM FÁRMACOS ANALGÉSICOS, SEDATIVOS E BLOQUEADORES NEUROMUSCULARES UTILIZADOS EM UTI 81 Rachel Duarte Moritz PÓS-OPERATÓRIO DE CIRURGIAS DE CARDIOPATIAS CONGÊNITAS 109 Paulo Ramos David João e Fernando Faria Júnior AUTO-AVALIAÇÃO DO MÓDULO 4, DO CICLO 1 141 SUMÁRIO 8 9 PR OA MI S EM CA D MANEJO DAS SÍNDROMES CORONARIANAS AGUDAS Médico cardiologista e intensivista. Serviço de Medicina Intensiva do Hospital de Clínicas de Porto Alegre. JOSÉ VERRI INTRODUÇÃO Síndromes coronarianas agudas é a expressão usada para se referir ao es- pectro que compreende angina instável e infarto do miocárdio. Por uma questão prática, com implicações prognósticas e de estratégia terapêutica, dividem- se os infartos em dois tipos: ■■■■■ infartos sem elevação do segmento ST do eletrocardiograma (ECG); ■■■■■ infartos com elevação do segmento ST do ECG. A fisiopatologia, na grande maioria dos casos, é baseada na ruptura de uma placa aterosclerótica vulnerável e conseqüente formação de um trombo no local. Esse trombo é totalmente oclusivo nos casos de infarto com elevação do segmento ST e produz uma obstru- ção apenas parcial na angina instável e no infarto sem elevação do segmento ST. OBJETIVOS Ao final da leitura deste capítulo, você deverá será capaz de: ■■■■■ reconhecer itens que servem para identificação de pacientes de alto risco para apresentar a síndrome coronariana aguda; ■■■■■ identificar os principais pontos para o diagnóstico de síndromes coronarianas agudas; ■■■■■ reconhecer e aplicar técnicas de tratamento e manejo em casos de síndromes coronarianas agudas. 10 MA NE JO D AS SÍ ND RO ME S C OR ON AR IAN AS AG UD AS ESQUEMA CONCEITUAL Manejo das síndromes coronarianas agudas Síndromes coronarianas agudas: similaridades e diferenças Síndromes coronarianas agudas sem elevação do segmento ST Achados angiográficos Identificação de pacientes de alto risco Infarto do miocárdio com elevação do segmento ST Objetivos imediatos do manejo Alívio da dor Redução do MVO2 Otimizaçãoda perfusão miocárdica Estabilização hemodinâmica Choque cardiogênico Abordagem inicial Tratamento Arritmias Arritmias ventriculares SÍNDROMES CORONARIANAS AGUDAS: SIMILARIDADES E DIFERENÇAS A angina instável é definida pela ausência de elevação anormal e transitória de CK-MB ou troponinas (marcadores séricos de necrose miocárdica). A angina instá- vel caracteriza-se por dor torácica (angina) de recente começo, progressivamente mais freqüente, ou desencadeada por estímulos cada vez menores (até em repou- so). O infarto sem elevação do segmento ST tem um quadro clínico mais variável, cujo espectro abrange desde uma apresentação indistinguível daquela da angina instá- vel até a do infarto com elevação do segmento ST, diferenciando-se da primeira pela presença de marcadores séricos de necrose miocárdica e do último pela ausên- cia de elevação do segmento ST. 11 PR OA MI S EM CA D LEMBRAR O infarto com elevação do segmento ST geralmente tem apresentação mais dra- mática, com dor torácica intensa e prolongada (mais de vinte minutos), acompa- nhada de alguma combinação de sudorese, náuseas/vômitos, dispnéia e sensação de morte iminente. No infarto com elevação do segmento ST, o ECG mostra supradesnível de pelo menos 1mm do segmento ST, em pelo menos duas derivações contíguas (2mm nas derivações V1 a V3), ou bloqueio de ramo esquerdo novo (ou presumivelmente novo), além da presença de marcadores séricos de necrose miocárdica. A angina instável e o infarto sem elevação do segmento ST podem apresentar-se com: ■■■■■ ECG normal; ■■■■■ inversão de onda T; ■■■■■ infradesnível do segmento ST; ■■■■■ ou alguma combinação dos dois últimos. O prognóstico, incluindo a mortalidade hospitalar, é melhor na angina instável, inter- mediário no infarto sem elevação do segmento ST e mais reservado no infarto com elevação do segmento ST. É importante observar que um infarto com supradesnível do segmento ST não é sinôni- mo de infarto com onda Q; assim como infarto sem supradesnível do segmento ST não significa, necessariamente, infarto sem onda Q. A observação se faz pertinente porque a maioria (75 a 80%), mas não todos os casos de infarto com elevação do segmento ST, desenvolve ondas Q. Da mesma forma, cerca de um quarto dos pacientes com infarto sem elevação do segmento ST acaba por desenvolver ondas Q. A mortali- dade é maior no infarto com onda Q em relação ao infarto sem onda Q. Note-se que o aparecimento de ondas Q ocorre de várias horas a poucos dias após o início do quadro (tardiamente, portanto, em relação à instituição de importantes medidas terapêuticas iniciais). Como os achados laboratoriais que vão confirmar (ou refutar) definitivamente o diagnós- tico de infarto não são imediatamente disponíveis, o manejo inicial das síndromes coronarianas agudas é baseado no quadro clínico e no ECG. A angina instável e o infarto sem elevação do segmento ST (síndromes coronarianas sem elevação do segmento ST), que freqüentemente têm quadro clínico e ECG indistinguíveis (Figura 1), são abordados de maneira semelhante. O infarto com elevação do segmento ST (Figura 2), por sua vez, recebe, além de algu- mas medidas gerais em comum com as síndromes coronarianas sem elevação do seg- mento ST, tratamento específico que consiste de trombolítico ou angioplastia de emergência (primária), se o paciente for atendido em até doze horas a contar do início dos sintomas. 12 MA NE JO D AS SÍ ND RO ME S C OR ON AR IAN AS AG UD AS LEMBRAR Figura 1 - Infarto sem elevação do segmento ST. No paciente com síndrome coronariana aguda, o supradesnível do segmento ST ou bloqueio de ramo esquerdo devem ser prontamente reconhecidos por terem impor- tante e imediata implicação terapêutica. 1. Defina angina instável, infarto sem elevação do segmento ST e infarto com elevação do segmento ST, apontando similaridades e diferenças. ....................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ 2. Qual a importância da onda Q nos diferentes tipos de infarto? ....................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ SÍNDROMES CORONARIANAS AGUDAS SEM ELEVAÇÃO DO SEGMENTO ST A estratificação de risco que, nas síndromes coronarianas agudas sem supradesnível do seg- mento ST, pode identificar pacientes com prognósticos significativamente diferentes, deve permi- tir a seleção daqueles mais graves para monitorização intensiva e tratamento mais agressivo: ácido acetilsalicílico, heparina, inibidores da glicoproteína (GP) IIb/IIIa, doses máximas de antianginosos (incluindo nitroglicerina endovenosa [EV] contínua), e revascularização, quando apropriada. 13 PR OA MI S EM CA D LEMBRAR Por outro lado, os pacientes de baixo risco podem ser manejados fora da UTI e trata- dos menos agressivamente: ácido acetilsalicílico e antianginosos por via oral (VO), ape- nas. De fato, existe um subgrupo desses pacientes (sem dor torácica nas últimas seis horas, com ECG normal e sem marcadores séricos de necrose miocárdica), que podem ser submetidos a um teste de esforço; aqueles com o teste normal podem ser libera- dos da sala de emergência para casa. A estratificação de risco, nas síndromes coronarianas agudas, é um processo que se inicia quando da suspeita diagnóstica, e é atualizado freqüentemente durante a investigação, de acordo com a evolução clínica e a resposta ao tratamento. Estudos relativamente recentes têm mostrado que a freqüência de angina refratária, infarto e morte é muito baixa com o tratamento clínico agressivo; a maioria dos pacientes hospitalizados com angina instável torna-se assintomática com alguma com- binação de ácido acetilsalicílico, heparina, nitrato, antagonista de cálcio e betabloqueador. De fato, em um estudo de pacientes transferidos para um hospital terciário para manejo de angina refratária ao tratamento clínico, 83% tornaram-se assintomáticos quando um trata- mento clínico efetivamente agressivo foi instituído; angina instável realmente refratária ao tratamento clínico ocorreu em apenas 9% dos pacientes.3 Vários estudos recentes têm avaliado a eficácia da heparina de baixo peso molecular, inibidores da GP IIb/IIIa e estratégia invasiva precoce, em pacientes com síndrome coronariana aguda sem elevação do segmento ST. Os pacientes-controle desses estudos receberam tratamento clínico convencional: fármacos antianginosos, ácido acetilsalicílico e heparina. Nesses pacientes-contro- le, a incidência de morte (1 a 2%) e infarto (2%) foi relativamente baixa. ACHADOS ANGIOGRÁFICOS No estudo TIMI IIIb,4 740 pacientes foram submetidos a cateterismo cardíaco entre dezoito e 48 horas após a admissão: 19% não tinham estenose significativa, 38% tinham estenose de apenas um vaso, 29% tinham estenoses emdois vasos e 5% tinham estenoses nas três coronárias; apenas 4% apresentavam estenose de tronco de coronária esquerda. Entre as mulheres com angina de repouso e alterações eletrocardiográficas, 25% não tinham estenose significativa nas artérias coronárias. Apesar de muitos médicos acreditarem que a aparência angiográfica da estenose “culpada” permite identificar o paciente que vai morrer, ter infarto, angina recorrente ou necessidade de revascularização, estudos têm demonstrado que nem as carac- terísticas angiográficas e nem a presença de trombo são úteis para prever a proba- bilidade de eventos adversos subseqüentes nesses pacientes. 14 MA NE JO D AS SÍ ND RO ME S C OR ON AR IAN AS AG UD AS LEMBRAR IDENTIFICAÇÃO DOS PACIENTES DE ALTO RISCO A grande maioria dos pacientes hospitalizados com síndrome coronariana aguda sem elevação do segmento ST torna-se assintomática e não tem angina recorrente, (re)infarto ou morte; como resultado, não se beneficia de coronariografia sistemática. Assim, se pudermos identificar os pacientes de maior risco para complicações cardíacas subseqüentes, a coronariografia (e revascularização) pode ser usada seletivamente nesse grupo. Algumas variáveis clínicas, eletrocardiográficas e marcadores séricos são extre- mamente úteis para identificar os pacientes com síndrome coronariana aguda que es- tão sob maior risco para eventos cardíacos desfavoráveis. No âmbito das variáveis clínicas, por exemplo, pacientes com estertores pulmonares ou disfunção sistólica B3 como manifestação de insuficiência cardíaca e aqueles com hipotensão ou insufici- ência mitral têm mortalidade relativamente alta. Pacientes com recorrência da angina após 48 horas de hospitalização têm mortalidade de 20% em um mês, enquanto naqueles sem recorrência de angina, a mortalidade é de apenas 2%. Os achados eletrocardiográficos mais úteis para identificar os pacientes de alto risco são: ■■■■■ bloqueio de ramo esquerdo; ■■■■■ infradesnível do segmento ST. De fato, a flutuação de ST-T combinada com sintomas persistentes implica uma mortalidade de 42% em um ano; de outra forma, a mortalidade em dois anos é de apenas 5%. Em contraste, apenas anormalidades de onda T não conferem maior risco de morte ou infarto; além disso, pacientes com angina pós-infarto sem alterações de ECG têm prognóstico semelhante ao dos pacientes sem angina pós-infarto. Recentemente, as troponinas acrescentaram uma nova dimensão à estratificação de risco nas síndromes coronarianas agudas sem elevação do segmento ST. Troponina T e troponina I são proteínas reguladoras localizadas no aparato contrátil do miócito, que, quando detectadas em concentrações anormais no sangue, guar- dam uma relação direta com o risco de morte. O manejo das síndromes coronarianas agudas inclui certas intervenções farmacológicas es- pecíficas, que têm impacto favorável sobre a história natural da doença, além de algumas medi- das gerais, como o repouso absoluto no leito durante as primeiras doze horas; após esse período o paciente é, então, liberado para sentar em uma poltrona, enquanto permanecer clinica- mente estável. A dieta por via oral é reinstituída assim que o paciente apresentar estabilidade clínica, com as restrições pertinentes às suas necessidades individuais, como dia- betes. Não é necessária, por exemplo, a restrição de sal se não houver hiperten- são ou insuficiência cardíaca. 15 PR OA MI S EM CA D Tratamento Terapêutica antitrombótica (ácido acetilsalicílico, heparina e inibidores da GP IIb/IIIa) Fármacos antiisquêmicos (betabloqueadores, nitratos e/ou antagonistas de cálcio) Revascularização miocárdica (cirúrgica ou por cateter) Cirurgia Características Usada para impedir a progressão do trombo, permitindo que a fibrinólise endógena dissolva o coágulo e reduza o grau de estenose coronariana. Ácido acetilsalicílico é mantido indefinidamente, de maneira que, se novos eventos ocorrerem, serão menores o grau de trombose e a probabilidade de progressão para oclusão coronariana total. Diminuem o desequilíbrio entre a oferta e a demanda miocárdicas de oxigênio. Deve-se, no entanto, ter o cuidado de não usar antagonistas de cálcio do grupo da nifedipina sem um betabloqueador associado, bem como evitar o uso de diltiazem ou verapamil em pacientes com manifestações de insuficiência cardíaca. Reservada para aqueles pacientes com angina realmente refratária e/ou identificados como de alto risco e que, submetidos à coronariografia, tiverem achados anatômicos apropriados. Alternativa de escolha para os pacientes diabéticos e para pacientes com: • estenose de tronco de coronária esquerda; • estenoses em três vasos (especialmente com disfunção ventricular esquerda). Se o paciente demonstrar alguma ansiedade, comumente relacionada à situação clínica e ao ambiente de UTI, é útil uma sedação leve, com benzodiazepínico. Heparina, 5.000 U, via subcutânea (SC), a cada doze horas, reduz o risco de trom- bose venosa profunda e embolia pulmonar nos pacientes acamados por períodos prolongados, quando não estiverem sob efeito de outra forma de anticoagulação. Os objetivos do tratamento dos pacientes com síndrome coronariana aguda sem ele- vação do segmento ST (ver Quadro 1) estão focados em: ■■■■■ estabilização e “pacificação” da placa instável; ■■■■■ tratamento da isquemia residual; ■■■■■ prevenção secundária a longo prazo. Quadro 1 MODALIDADES DE TRATAMENTO DA SÍNDROME CORONARIANA AGUDA SEM SUPRADESNÍVEL DO SEGMENTO ST A hospitalização por síndrome coronariana aguda é uma oportunidade que se deve aproveitar para identificar os fatores de risco que levaram a este evento e iniciar a intervenção sobre aqueles modificáveis: fumo, dislipidemia e hipertensão. 16 MA NE JO D AS SÍ ND RO ME S C OR ON AR IAN AS AG UD AS Fármaco Ácido acetilsalicílico Enoxaparina Abciximab (inibidor da GP IIb/IIIa) Ticlopidina Clopidogrel Considerações Inicial: 200 a 300mg. Demais doses diárias: 100mg. Dosagem: 1mg/kg de peso, SC, a cada doze horas. É pelo menos tão eficaz e de uso mais prático que a heparina não-fracionada. Usado como tratamento adjuvante na angioplastia, reduz a incidência de complicações cardiovasculares recorrentes. 500mg, seguidos de 250mg a cada doze horas, por 2 a 4 semanas. 300mg, seguidos de 75mg/dia, por 2 a 4 semanas. LEMBRAR LEMBRAR As complicações como insuficiência cardíaca e arritmias graves, que ocorrem predominantemente nos pacientes com marcadores séricos de necrose miocárdica (infarto) e, mais freqüentemente, se houver história de infarto prévio, disfunção ventricular esquerda e/ou idade avançada, são manejadas como nos pacientes com infarto com elevação do segmento ST. No Quadro 2, a seguir, são apresentadas considerações sobre fármacos usados no tratamento da síndrome coronariana aguda sem supradesnível do segmento ST. Quadro 2 FÁRMACOS USADOS NO TRATAMENTO DA SÍNDROME CORONARIANA AGUDA SEM SUPRADESNÍVEL DO SEGMENTO ST Quando implantado um stent coronariano, antiplaquetários como ticlopidina e clopidogrel também podem ser usados no lugar do ácido acetilsalicílico, nos raros casos de real contra-indicação a este fármaco. 3. Defina que variáveis clínicas, eletrocardiográficas e marcadores séricos são impor- tantes na identificação das síndromes coronarianas agudas. ....................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................4. Com que regime antiplaquetário deve ser tratado um paciente com infarto com eleva- ção do segmento ST e história de intolerância (dispepsia) ao ácido acetilsalicílico? ....................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ 17 PR OA MI S EM CA D Figura 2 - Infarto com elevação do segmento ST. 5. Em um paciente com dor torácica aguda com trinta minutos de duração e sudorese, com elevação do segmento ST > 2mm em três derivações contíguas, qual a implicação dos marcadores séricos de necrose miocárdica no manejo inicial? ....................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ (Veja as respostas para as questões 4 e 5 ao final do capítulo). INFARTO DO MIOCÁRDIO COM ELEVAÇÃO DO SEGMENTO ST Metade das mortes por infarto do miocárdio ocorre nas primeiras duas horas de evolução, geralmente por fibrilação ventricular e, entre os pacientes que chegam com vida ao hospital, um quarto das mortes subseqüentes acontece nas primeiras 48 horas. Assim, justifica-se a imediata admissão do paciente em um ambiente com: ■■■■■ monitorização contínua do ritmo cardíaco; ■■■■■ disponibilidade para reanimação cardiopulmonar; ■■■■■ cardioversão elétrica. O prognóstico do paciente que se apresenta com infarto do miocárdio varia muito (mortalidade hospitalar média de 5 a 30%), mas pode ser estimado de maneira relativamente simples, ainda na sala de emergência. A classificação de Killip (Quadro 3) é extremamente útil na avaliação inicial do paciente com infarto. As características listadas abaixo permitem identificar pacientes com maior risco, mesmo antes de um exame físico mais detalhado: ■■■■■ idade avançada; ■■■■■ freqüência cardíaca maior do que 100bpm; ■■■■■ PA sistólica menor do que 100mmHg. 18 MA NE JO D AS SÍ ND RO ME S C OR ON AR IAN AS AG UD AS Classe I II III IV Exame do tórax Normal Estertores < 50% dos pulmões e/ou B3 Estertores em toda a extensão dos pulmões Choque Mortalidade (sete dias) 3% 12% 20% 60% Além dessas variáveis, também estão associadas a uma maior probabilidade de complicações: a localização (anterior) do infarto, história de diabetes ou infarto prévio. Quadro 3 CLASSIFICAÇÃO DE KILLIP OBJETIVOS IMEDIATOS DO MANEJO Os objetivos imediatos do manejo do paciente com infarto do miocárdio são: ■■■■■ o alívio da dor; ■■■■■ a redução do consumo miocárdico de oxigênio (MVO2); ■■■■■ a manutenção (ou otimização) da perfusão miocárdica; ■■■■■ a estabilização hemodinâmica. Idealmente, os dois primeiros objetivos são alcançados ainda na sala de emergência, e as medidas iniciais para a obtenção dos demais são instituídas também na sala de emergência ou na sala de cateterismo cardíaco, ou seja, antes da transferência do paciente para a UTI. Alívio da dor O alívio da dor é obtido, inicialmente, com oxigênio suplementar (quando a saturação da hemoglobina for menor que 90%), nitroglicerina e doses repetidas de morfina. Redução do MVO2 A redução do consumo miocárdico de oxigênio é obtida através da sedação e pelo próprio alívio da dor e, quando for o caso, pela redução da freqüência cardíaca para menos que 70bpm, e da pressão arterial média para cerca de 80mmHg, com uma com- binação de betabloqueador e nitroglicerina. Otimização da perfusão miocárdica A otimização da perfusão miocárdica inclui uso de ácido acetilsalicílico, na seguinte dosagem: 200 a 300mg VO, na admissão, e 100mg/dia. 19 PR OA MI S EM CA D LEMBRAR Para pacientes cuja elevação do segmento ST ou bloqueios de ramo esquerdo se apresenta em até 12 horas pós inicio dos sintomas, usa-se trombolítico (por exem- plo, estreptoquinase1.500.000U, EV, em uma hora) ou angioplastia primária. A escolha entre o uso de trombolíticos ou angioplastia primária deve levar em conta a disponibili- dade imediata de um e outro e a eventual presença de contra-indicação ao uso de trombolítico; mas a angioplastia é preferível em pacientes com choque cardiogênico ou idade superior a seten- ta anos. As contra-indicações para trombolíticos são hemorragia digestiva; dissecção aórtica; trauma ou cirurgia nas últimas duas semanas, gravidez, história de hemorragia cere- bral, ou qualquer acidente vascular cerebral no último ano. Em alguns casos são usados, ainda, outros antitrombóticos, como: ■■■■■ heparina (se o trombolítico usado for o tPA); ■■■■■ abciximab (com angioplastia); ■■■■■ ticlopidina ou clopidogrel (angioplastia com stent). Estabilização hemodinâmica A estabilização hemodinâmica, quando necessária, pressupõe a correção de hipotensão, congestão pulmonar e a síndrome de baixo débito. A hipotensão (e o baixo débito freqüentemente associado), quando não acompanhada de con- gestão pulmonar, em geral responde à administração de volume intravascular. A congestão pulmonar, em uma primeira instância, é tratada com: ■■■■■ Oxigênio suplementar, morfina e nitroglicerina; ■■■■■ Na ausência de resposta satisfatória, usa-se diurético (se não houver evidência de hipovolemia) e máscara de pressão positiva contínua (CPAP); ■■■■■ Algumas vezes, podem ser necessárias medidas mais agressivas, como intubação traqueal e ventilação mecânica e/ou balão intra-aórtico. A síndrome de baixo débito, quando não responsiva à reposição volêmica, ou quando associa- da à congestão pulmonar, é a forma extrema de insuficiência cardíaca (choque cardiogênico) e exige um manejo agressivo que inclui alguma combinação de: ■■■■■ fármacos inotrópicos (dobutamina, dopamina, milrinona); ■■■■■ balão intra-aórtico; ■■■■■ marca-passo (se houver bradicardia); ■■■■■ ventilação mecânica. 20 MA NE JO D AS SÍ ND RO ME S C OR ON AR IAN AS AG UD AS Fármacos Betabloqueadores Inibidores da enzima de conversão da angiotensina Procedimentos Após uma dose inicial EV de: • propranolol 0,15mg/kg; • atenolol 5-10mg; • ou metoprolol 15mg. Se não houver contra-indicação, administra-se propranolol, em dosagens crescentes, até 180-240mg/dia, VO. Alternativamente, pode-se utilizar atenolol 100mg/dia ou metoprolol 200mg/dia. Captopril é administrado na dose inicial de 6,25mg, se a pressão arterial média não for menor que 80mmHg, aumentando-se a cada oito horas, até 75mg/dia. Alternativamente, podem ser usados lisinopril (5-10mg/dia), ramipril ou trandolapril. LEMBRAR Nessa situação, as informações obtidas através do cateter de Swan-Ganz são úteis para orientar o manejo inicial e monitorizar a resposta e evolução subseqüentes. Além da monitorização contínua do ritmo cardíaco, o paciente é submetido a reavaliações clínicas freqüentes e à implementação contínua das medidas já instituídas, até que se obte- nha cada um dos quatro objetivos enumerados anteriormente. Alcançada a estabilizaçãodo qua- dro clínico, o manejo do infarto tem como racional a prevenção, a identificação precoce e o tratamento apropriado das eventuais complicações próprias das primeiras 48-72 horas de evolução. Devem receber anticoagulação “plena” (por exemplo, enoxaparina 1mg/kg de peso, SC, a cada doze horas) pacientes com: ■■■■■ infarto anterior extenso; ■■■■■ insuficiência cardíaca; ■■■■■ fibrilação atrial; ■■■■■ trombo no ventrículo esquerdo. No Quadro 4, a seguir, apresentamos os fármacos e seu uso na estabilização hemodinâmica. Quadro 4 ESTABILIZAÇÃO HEMODINÂMICA - FÁRMACOS E PROCEDIMENTOS O paciente com glicemia elevada, especialmente se maior que 200mg/dL, deve ser tratado com insulina EV contínua. Pacientes com angina pós-infarto, como outros pacientes com angina instável, são tratados com antianginosos (betabloqueador, nitrato e/ou antagonista de cálcio) e antitrombóticos (ácido acetilsalicílico e heparina). Se não houver controle satisfatório da angina, devem ser consideradas coronariografia e revascularização (por cateter ou cirurgia), quando esta for apropriada. 21 PR OA MI S EM CA D *PCP: pressão capilar pulmonar (em mmHg). **IC: índice cardíaco (em L/min/dm2). Classe I II III IV PCP* <18 >18 <18 >18 IC > 22 > 22 < 22 < 22 Mortalidade 2 % 10 % 22 % 56 % As complicações hemodinâmicas do infarto podem ser identificadas (ou suspeitadas) clinica- mente e confirmadas pela monitorização hemodinâmica invasiva (cateter de Swan-Ganz), que é útil em situações como: ■■■■■ hipotensão que não responda a medidas simples (elevação dos membros inferiores, adminis- tração de líquidos); ■■■■■ insuficiência cardíaca moderada à severa; ■■■■■ hipoxemia sem uma causa óbvia; ■■■■■ sopro sistólico novo. Estabelecida a monitorização hemodinâmica, o manejo subseqüente é determinado pela classi- ficação de Forrester (Tabela 1). Tabela 1 CLASSIFICAÇÃO HEMODINÂMICA DO INFARTO (FORRESTER) A partir da classificação de Forrester, veremos a seguir como se caracterizam os pacientes de cada classe: ■■■■■ Classe I - têm padrão hemodinâmico normal; ■■■■■ Classe II - têm hipertensão venocapilar pulmonar, são tratados com diurético e/ou nitrato, se apresentarem manifestações clínicas de congestão pulmonar; ■■■■■ Classe III - têm hipovolemia (absoluta ou relativa) e devem receber volume se tiverem hipotensão ou manifestações clínicas de hipoperfusão tecidual (pele fria, oligúria, alteração do estado mental); ■■■■■ Classe IV - têm choque cardiogênico, que será discutido, em separado, mais adiante. A hipotensão acompanhada de bradicardia é relativamente comum no infarto inferior, pode ser desencadeada ou agravada pelo uso de nitrato e responde à elevação passiva dos membros inferiores e administração de atropina (0,5 a 1mg, EV). O estado hiperdinâmico, caracterizado por taquicardia e hipertensão, é facilmente controlado com betabloqueadores. O comprometimento do ventrículo direito ocorre em dois terços dos casos de infarto inferior (do ventrículo esquerdo), sendo que, em metade das vezes, com alguma repercussão hemodinâmica (hipotensão e pressão venosa central elevada). O ECG mostra elevação do seg- mento ST em V4R. Esses pacientes são particularmente sensíveis à hipovolemia, bradicardia ou perda da sincronia atrioventricular (bloqueio átrioventricular de segundo ou terceiro grau). 22 MA NE JO D AS SÍ ND RO ME S C OR ON AR IAN AS AG UD AS LEMBRAR O manejo, quando do comprometimento do ventrículo direito, baseia-se nos seguintes procedimentos: ■■■■■ administração agressiva de volume (eventualmente com algum suporte inotrópico pela dopamina ou dobutamina); ■■■■■ manutenção do ritmo sinusal; ■■■■■ manutenção da seqüência atrioventricular (estimulação artificial com marca-passo seqüencial, se necessário). A falência ventricular esquerda pode apresentar-se sob a forma de congestão pulmonar e/ou baixo débito cardíaco. A monitorização hemodinâmica com cateter de Swan-Ganz facilita o manejo dos pacientes com falência ventricular esquerda, o qual inclui, como referido anteriormente, medidas para ga- rantir oxigenação adequada (cateter nasal, CPAP, ventilação mecânica) e, nos pacientes sem hipotensão significativa, alguma combinação de: ■■■■■ morfina; ■■■■■ diurético; ■■■■■ inibidor da enzima de conversão da angiotensina; ■■■■■ nitroglicerina ou nitroprussiato de sódio; ■■■■■ dobutamina; ■■■■■ balão intra-aórtico. Para os pacientes com hipotensão não-responsiva à administração de volume, o manejo inclui o uso de fármacos vasopressores (dopamina, noradrenalina) e balão intra-aórtico. A insuficiência mitral aguda ou a ruptura do septo ventricular quase sempre levam a uma situação de insuficiência cardíaca grave ou choque cardiogênico. Essas compli- cações geralmente são anunciadas por um sopro sistólico novo (freqüentemente com frêmito, no caso da segunda) e confirmadas pelo ecocardiograma. Além do manejo inicial da insuficiência cardíaca/choque cardiogênico, o tratamento quase sempre inclui cirurgia de urgência/emergência. A insuficiência mitral, por disfunção isquêmica de um dos músculos papilares ou deiscência de parte do aparelho subvalvular, está comumente associada a infartos relativamente pequenos. A ruptura completa é rara, envolve freqüentemente o músculo papilar póstero-medial, e geralmente ocorre no primeiro infarto. A comunicação interventricular (ruptura do septo ventricular) complica 1 a 3% dos infartos, ocorre com freqüências equivalentes no infarto anterior e inferior e é responsável por cerca de 5% dos óbitos hospitalares por infarto. O prognóstico de pacientes com insuficiência mitral é pior no infarto inferior, especial- mente se houver comprometimento extenso do ventrículo direito. 23 PR OA MI S EM CA DA ruptura da parede livre do ventrículo esquerdo responde por aproximadamente 10% dos óbitos hospitalares por infarto, geralmente ocorre na primeira semana de evolução e é mais freqüente no primeiro infarto, quando compromete a parede lateral, e em hipertensos, mas é rara em pacientes abaixo dos sessenta anos. 6. Elabore um algoritmo envolvendo os diversos procedimentos em jogo para a manu- tenção dos objetivos imediatos do paciente com infarto do miocárdio. 7. Em que ambiente deve ser manejado um paciente com síndrome coronariana aguda, assintomático, há mais de seis horas, com ECG normal, sem marcadores séricos de necrose miocárdica, se um teste de esforço não estiver disponível para estratificação de risco subseqüente? Como você trataria esse paciente? ....................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ 8. Em um paciente com síndrome coronariana aguda, que implicação tem o fato de um bloqueio de ramo esquerdo ser novo ou antigo (crônico)? ....................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................(Veja as respostas para as questões 7 e 8 ao final do capítulo). CHOQUE CARDIOGÊNICO O choque cardiogênico é a forma extrema de insuficiência cardíaca. Ocorre quando o coração é incapaz de manter a perfusão tecidual em repouso, como resultado do comprometimento da sua função de bomba, e acomete cerca de 8% dos pacientes com infarto. Achados de necropsia mostram que o choque cardiogênico tipicamente se instala quando ocorre a perda de pelo menos 40% da massa do ventrículo esquerdo em um único infarto ou, cumulativamente, se o paciente tem história de infarto(s) prévio(s). 24 MA NE JO D AS SÍ ND RO ME S C OR ON AR IAN AS AG UD AS LEMBRAR O choque resultante da incompetência inotrópica pura (isto é, na ausência de problemas me- cânicos) é mais comum em infartos de parede anterior. No entanto, um infarto inferior acom- panhado de significativo comprometimento do ventrículo direito também pode levar ao cho- que. Por outro lado, a perda de um componente funcional do coração (aparelho valvular mitral, parede livre ou septo ventricular), por isquemia ou necrose, pode resultar em choque cardiogênico, quer por seu efeito isolado, quer pela combinação desta com a perda concomitante de uma quan- tidade crítica de massa miocárdica. Pacientes cujo infarto complica com choque cardiogênico: ■■■■■ têm idade mais avançada; ■■■■■ apresentam principalmente infarto anterior; ■■■■■ freqüentemente têm história de infarto prévio, angina e insuficiência cardíaca, quando compa- rados a pacientes com infarto que não desenvolvem choque. Além disso, são achados relativamente comuns: ■■■■■ oclusão da artéria descendente anterior; ■■■■■ comprometimento de múltiplos vasos; ■■■■■ oclusão persistente da coronária relacionada ao infarto. Pacientes em choque cardiogênico apresentam baixo débito cardíaco associado à evidência de hipoxia tecidual na presença de volume intravascular adequado (classe IV de Forrester). A maioria dos pacientes com choque cardiogênico pode ser identificada pelo exame clínico através das seguintes características: ■■■■■ hipotensão arterial; ■■■■■ evidência de má perfusão periférica, como oligúria, cianose, pele fria e úmida, altera- ção do nível de consciência; ■■■■■ persistência do choque após a correção de fatores não miocárdicos como hipovolemia, arritmias, hipoxemia e acidose; ■■■■■ outras manifestações freqüentes incluem taquipnéia, taquicardia e pulso filiforme. Em um paciente com infarto, a combinação de hipotensão, turgência jugular e pulmões limpos sugere comprometimento maciço do ventrículo direito, ou, menos provavelmente, embolia pulmonar ou tamponamento cardíaco. A ausculta cardíaca freqüentemente mostra um ritmo de galope, sendo que o surgimento de um novo sopro sistólico deve sugerir insuficiência mitral ou ruptura do septo ventricular. 25 PR OA MI S EM CA D LEMBRAR É importante notar, no entanto, que o paciente com choque cardiogênico, justamen- te por apresentar baixo débito cardíaco, pode não ter fluxo sangüíneo suficiente para gerar um sopro, que de outra forma seria óbvio. Em situações de choque cardiogênico, a monitorização hemodinâmica mostra: ■■■■■ hipotensão arterial sistêmica, pressão sistólica < 90mmHg ou um valor 30mmHg abaixo do habitual para o paciente, por pelo menos trinta minutos; ■■■■■ diferença arteriovenosa de oxigênio aumentada, > 5,5mL/dL; ■■■■■ índice cardíaco reduzido (< 2,2 L/min/m2), em presença de uma pressão capilar pulmonar elevada (> 18mmHg). Somente 11% dos pacientes com choque cardiogênico apresentam-se à sala de emer- gência já em choque; os demais desenvolvem o choque após a admissão hospitalar. De fato, o choque cardiogênico geralmente se apresenta sob uma de três formas: ■■■■■ subitamente, nas primeiras quatro a seis horas de evolução do infarto, como resultado de dano miocárdico maciço ou ruptura da parede livre do ventrículo esquerdo; ■■■■■ progressivamente, ao longo de dias, por extensão ou expansão da área de infarto; ■■■■■ subitamente, entre dois e dez dias após a instalação do infarto, com o aparecimento de um novo sopro sistólico (insuficiência mitral ou ruptura do septo ventricular) ou dissociação eletromecânica (ruptura da parede livre do ventrículo esquerdo). Esses episódios podem ou não estar associados à dor torácica, mas são freqüentemente acom- panhados por dispnéia aguda e sensação de morte iminente. ABORDAGEM INICIAL Medidas básicas de ressuscitação e suporte devem ser iniciadas imediatamente enquanto se prossegue na avaliação diagnóstica, que inclui monitorização hemodinâmica invasiva e a utiliza- ção de métodos de imagem. O ecocardiograma é o método de eleição para a avaliação da função ventricular (global e segmentar) e para a identificação de eventual derrame pericárdico, disfunção valvular ou shunt intracardíaco. A monitorização hemodinâmica invasiva deve ser instituída tão logo o diagnóstico de choque cardiogênico seja considerado e consiste na cateterização da artéria pulmo- nar (cateter de Swan-Ganz). Outras medidas essenciais incluem: ■■■■■ monitorização contínua do ritmo cardíaco; ■■■■■ monitorização contínua da diurese; ■■■■■ mensurações repetidas da gasometria arterial, eletrólitos e hematócrito. 26 MA NE JO D AS SÍ ND RO ME S C OR ON AR IAN AS AG UD AS 9. Elabore um prontuário em que estejam contempladas as informações importantes na definição de um quadro de choque cardiogênico. ....................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ TRATAMENTO A mortalidade do choque cardiogênico tem permanecido excepcionalmente alta quando se utiliza uma estratégia contemplativa. Um manejo mais agressivo, que está associado a um melhor prognóstico, inclui o uso liberal de: ■■■■■ trombolítico; ■■■■■ balão intra-aórtico; ■■■■■ coronariografia precoce seguida de revascularização (cirúrgica ou por cateter) em caráter de urgência. São também partes essenciais do tratamento: ■■■■■ a manutenção do ritmo sinusal; ■■■■■ uma reposição volêmica cuidadosa (na ausência de edema pulmonar); ■■■■■ a garantia de ventilação e oxigenação adequadas; ■■■■■ a correção precoce de desequilíbrios eletrolíticos e ácido-base; ■■■■■ a instituição de analgesia e sedação, de acordo com as necessidades do paciente. Em presença de falência inotrópica sem hipotensão grave, a dobutamina (2-20μg/kg/ min, EV), agonista adrenérgico sintético, é o fármaco inotrópico sugerido, pois aumenta o fluxo coronariano diastólico, reduz a pressão de enchimento do ventrículo esquerdo e não causa vasoconstrição sistêmica (aumento da pós-carga). Se não houver resposta satisfatória, pode-se associar ou substituir a dobutamina pela milrinona, inibidor da fosfodiesterase, que não causa estímulo adrenérgico (dose de ataque: 50μg/kg em dez minutos, e infusão contínua de 0,375-0,750μg/kg/min). Em caso de hipotensão grave, a dopamina (5-20μg/kg/min) ou noradrenalina (2- 20μg/min) podem ser úteis para manter a pressão arterial sistêmica em níveis adequa- dos (priorizando a perfusão miocárdica e cerebral), às custas de estímulo alfaadrenérgico. Vasodilatadores podem ser benéficos para pacientes em choque cardiogênico, pelo efeito de redução da pré e pós-carga, mas devem ser usados com extremo cuidado, pelo risco de piorarem a hipotensão arterial,com redução do fluxo coronariano. São especialmente úteis em pacientes com insuficiência mitral ou ruptura do septo ventricular. 27 PR OA MI S EM CA D Os vasodilatadores nitroglicerina e nitroprussiato de sódio são as opções, sendo que a nitroglicerina é menos potente como vasodilatador arteriolar, mas tem a vantagem de não produzir o fenômeno do “roubo” coronariano (fluxo sangüíneo preferencial para áreas não-isquêmicas). O papel do digital no choque cardiogênico limita-se à modulação da freqüência ventricular no flutter e fibrilação atrial. O balão intra-aórtico é a forma de assistência mecânica da circulação mais comumente utilizada, diminuindo a impedância à ejeção do ventrículo esquerdo, com conseqüente diminuição do consumo de oxigênio pelo miocárdio e aumento na pressão diastólica de perfusão coronariana. O cateter-balão é introduzido na artéria femoral por técnica percutânea, e avançado retrogradamente até a aorta torácica descendente. Sincronizado com o ECG, o balão é inflado logo após o fechamento da válvula aórtica, e desinflado imediatamente antes do início da próxima sístole. Como resultado, ocorre uma diminuição das pressões do ventrículo esquerdo, aumento do débito cardíaco e da perfusão tecidual (aumento da diurese e diminuição dos níveis de lactato sistêmico e coronariano). Outras formas de assistência mecânica da circulação são: ■■■■■ oxigenadores de membrana extracorpóreos; ■■■■■ dispositivos de assistência ventricular; ■■■■■ sistemas de bypass cardiopulmonar; ■■■■■ dispositivos cardíacos mecânicos totais. A assistência mecânica da circulação pode ser uma medida temporária no choque cardiogênico de mecanismo potencialmente reversível ou, ainda, servir como “ponte” para o transplante cardíaco. Em pacientes com choque cardiogênico secundário à complicação mecânica do infarto (insuficiência mitral ou ruptura do septo ventricular), a cirurgia tem um papel definido. Não há consenso sobre a necessidade de uma coronariografia prévia à cirurgia para orientar uma eventual revascularização associada à correção do defeito mecânico. 10. Represente esquematicamente os procedimentos relativos ao tratamento de choque cardiogênico. 28 MA NE JO D AS SÍ ND RO ME S C OR ON AR IAN AS AG UD AS LEMBRAR ARRITMIAS A bradicardia sinusal é relativamente comum em infartos inferiores e, geralmente, não tem re- percussão hemodinâmica. Quando associada à hipotensão, deve ser tratada com atropina (doses repetidas de 0,5mg EV, até um total de 2,5mg) e/ou marca-passo temporário. O bloqueio atrioventricular de primeiro grau e o de segundo grau tipo I (Wenckebach) assintomático não requerem tratamento. Todos os pacientes com distúrbio da condução atrioventricular com repercussão hemodinâmica devem ser tratados com marca-passo temporário. Nos casos de bloqueio atrioventricular de segundo grau tipo II ou bloqueio atrioventricular total (terceiro grau), quando associados a infarto anterior, há relativo consenso com relação à necessidade de marca-passo, embora o prognóstico nesse último caso seja ruim, mesmo com a colocação do dispositivo. O bloqueio atrioventricular total assintomático, no infarto inferior, pode prescindir do marca- passo e é quase sempre reversível. Nas situações de bloqueios bi ou trifasciculares são contro- versas as indicações de marca-passo, mas nos casos de bloqueio de ramo direito e esquerdo alternados há unanimidade quanto à propriedade da colocação do mesmo. As taquicardias supraventriculares, no infarto, geralmente são secundárias à insuficiência car- díaca. Outras causas incluem distúrbios eletrolíticos, doença pulmonar obstrutiva crônica, hipoxemia, pericardite e embolia pulmonar. A taquicardia sinusal, quando não for secundária à dor ou ansiedade, ou a uma das situações mencionadas anteriormente, mais provavelmente é manifestação de síndrome hiperdinâmica e tem boa resposta aos betabloqueadores. Na fibrilação ou flutter atrial, se não houver repercussão hemodinâmica, basta modular a resposta ventricular com betabloqueador, verapamil ou digoxina. Se a arritmia for persistente, deve-se considerar a anticoagulação, e, se houver repercussão hemodinâmica, é necessária a cardioversão elétrica. Extra-sístoles supraventriculares não requerem tratamento específico, mas freqüentemente prenunciam uma taquiarritmia sustentada. 29 PR OA MI S EM CA DARRITMIAS VENTRICULARES As extra-sístoles ventriculares, o ritmo idioventricular acelerado e a taquicardia ventricular não-sustentada (menos de trinta segundos, sem repercussão hemodinâmica) não requerem tratamento específico. A taquicardia ventricular sustentada, sem repercussão hemodinâmica, deve ser tra- tada com lidocaína EV. Se houver instabilidade hemodinâmica, mas com pulso em artérias centrais, uma cardioversão elétrica (sincronizada), com carga inicial de 50J, deve ser realizada imediatamente. Na ausência de pulso em artérias centrais, a taquicardia ventricular é, tecnicamente, uma parada cardíaca e deve ser manejada como a fibrilação ventricular: desfibrilação (não-sincronizada) com 200, 200 a 300 e 360J. RESPOSTAS ÀS QUESTÕES Questão 4 Resposta: Ácido acetilsalicílico inicialmente (pelo rápido início de ação), substituído posterior- mente por ticlopidina ou clopidogrel se o paciente desenvolver dispepsia. Questão 5 Resposta: Nenhuma. O manejo inicial é baseado apenas no quadro clínico e no ECG. Questão 7 Resposta: Em hospital, mas não na UTI, pois se trata de paciente de baixo risco e tratamento com ácido acetilsalicílico e um antianginoso VO (betabloqueador, por exemplo). Questão 8 Resposta: Se o bloqueio de ramo esquerdo for novo (ou presumivelmente novo), o paciente é manejado como infarto com elevação do segmento ST (com trombolítico ou angioplastia primá- ria); de outra forma o tratamento é o de síndrome coronariana aguda sem elevação do segmento ST. 30 MA NE JO D AS SÍ ND RO ME S C OR ON AR IAN AS AG UD AS REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1. Theroux P, Fuster V. Acute coronary syndromes: unstable angina and non-Q-wave MI. Circulation 1998;97:1195. 2. Braunwald E. Unstable angina: an etiologic approach to management. Circulation 1998; 98:2219. 3. Grambow DW, Topol EJ. Effect of maximal medical therapy on refractoriness of unstable angina pectoris. Am J Cardiol 1992;70:577. 4. The TIMI IIIb Investigators. Results of the TIMI IIIb Trial. Circulation 1994; 89:1545. 5. Bar FW, Raynaud P, Renkin JP et al. Coronary angiographic findings do not predict clinical outcome in patients with unstable angina. JACC 1994; 24:1453. 6. Gazes PC, Mobly FM, Faris HM et al. 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O tema da prevenção será abordado de forma a desenvolver habilidades para a sua atuação em dois diferentes níveis: ■■■■■ profilaxia da recorrência do sangramento péptico e do sangramento secundário à hi- pertensão portal, ■■■■■ profilaxia das ulcerações de estresse. OBJETIVOS Ao final da leitura deste capítulo, espera-se que você possa: ■■■■■ reconhecer a importância do tema “profilaxia das hemorragias digestivas em UTI”; ■■■■■ ter melhores condições para avaliar um paciente com hemorragia digestiva; ■■■■■ ter elementos e desenvolver habilidades para abordar esse problema clínico, que é freqüente nas unidades de tratamento intensivo, com ênfase em sua adequada profilaxia. 34 PR OF ILA XIA D AS H EM OR RA GI AS D IG ES TIV AS EM U TI ESQUEMA CONCEITUAL Uso de agentes antiulcerosos na fase aguda Abordagem inicial Causas de sangramento Achados na endoscopia e prognóstico Profilaxia do ressangramento digestivo por doença péptica ou por hipertensão portal Uso de antibióticos Uso de fármacos vasoativos e tratamento endoscópico Profilaxia do sangramento digestivo por ulcerações de estresse Abordagem diagnóstica e terapêutica Uso de betabloqueadores e nitratos na prevenção do ressangramento Profilaxia das hemorragias digestivas em UTI O sangramento digestivo e sua origem Considerações iniciais sobre sangramento digestivo Abordagem do paciente com hemorragia digestiva Conclusão Formas de profilaxia 1. Quais seriam suas considerações iniciais sobre a profilaxia quanto a novo sangramento ou recorrência deste nas seguintes situações? Recorrência do sangramento decorrente de doença péptica - ....................................................................................................................................................... Novo sangramento em pacientes hepatopatas - ....................................................................................................................................................... Recorrência do sangramento decorrente de hipertensão portal - ....................................................................................................................................................... Casos de pacientes críticos com ulcerações de estresse - ....................................................................................................................................................... 35 PR OA MI S EM CA DCONSIDERAÇÕES INICIAIS SOBRE SANGRAMENTO DIGESTIVO Podemos conceituar hemorragia digestiva como a presença de sangue dentro da luz do tubo digestivo, e neste caso nos referimos não ao sangramento de pe- quena monta, o sangramento oculto, mas ao sangramento maciço. Esse quadro é claramente anormal e, de acordo com sua intensidade, expõe o indivíduo a risco de vida. A hemorragia digestiva é uma situação clínica comum, com prevalência de aproximadamente 170 casos por 100.000 adultos ao ano,1 sendo responsável por cerca de 350.000 hospitalizações anuais nos Estados Unidos,2 principalmente de indivíduos acima de sessenta anos.3 O sangramento digestivo alto é mais comum do que o baixo e leva a maiores taxas de internação hospitalar. Ambos vêm se tornando mais freqüentes nos pacientes que utilizam, aguda ou cronicamente, ácido acetilsalicílico ou outros agentes antiinflamatórios não-esteróides.2,4 Esta observação é importante, especialmente no contexto de uma unidade de trata- mento intensivo, em que muitos pacientes portadores de doenças cardiovasculares internam ainda recebendo aspirina ou outros medicamentos antiagregantes plaquetários. Embora seja autolimitada na maioria dos casos, a hemorragia fornece considerável risco. A mor- talidade geral associada ao sangramento alto situa-se entre 3,5 a 7% nos Estados Unidos e 14% no Reino Unido.2 Estudos recentes sugerem que a mortalidade média esteja em torno de 6 a 8%, a despeito dos recentes avanços na terapia do sangramento agudo.1 Um grande estudo prospectivo realizado na Holanda comparou as taxas de sangramento digesti- vo alto entre 1993 e 1994 com as do ano de 2000. Embora a incidência tenha diminuído de 61,7/ 100.000 pessoas para 47,7/100.000 entre os dois períodos, as taxas de ressangramento e a mortalidade não regrediram.5 Esperamos que você concorde com a idéia de que prevenir o sangramento, ao invés de tratá-lo,parece ser a melhor estratégia frente a esses dados. Você deve estar atento ao fato de que a mortalidade associada ao sangramento digestivo no contexto da Medicina Intensiva deve ser ainda maior. Ademais, a idade deve ser considerada: nos idosos, o prognóstico do sangramento digestivo é ainda pior.3,7 Resultados interessantes para reflexão foram publicados recentemente no JAMA (Journal of the American Medical Association) referentes a estudo patrocinado pelo Centers for Disease Control and Prevention, Atlanta, Estados Unidos, em que são apresentadas as causas de morte naquele país.6 Segundo o JAMA, o consumo de tabaco é a principal causa associada à morte (435.000/ano), seguida pelo sedentarismo e inadequação da dieta (400.000/ano). O consumo de álcool (85.000/ ano) e os agentes microbianos (75.000/ano) são as outras causas mais comuns. Ora, dentre estas quatro condições, as que com maior freqüência levam a população americana a óbito, o fumo e o álcool, são particularmente nocivos à mucosa gastroduodenal. 36 PR OF ILA XIA D AS H EM OR RA GI AS D IG ES TIV AS EM U TI Chama atenção, no entanto, que dentre as dez principais situações clínicas que levam diretamen- te o paciente a óbito não se encontre a hemorragia digestiva. Doenças cardíacas (710.760 mor- tes/ano) e as neoplasias malignas (553.091 mortes/ano) são as principais causas, seguidas pela doença cerebrovascular (167.661 mortes/ano) e as infecções do trato respiratório inferior (122.009 mortes/ano). Esses resultados são importantes e devem ser levados em consideração quando em frente a um paciente com sangramento digestivo agudo em UTI. Correto ou não, o raciocínio vai ao encontro da observação de que raramente a he- morragia digestiva promove a morte do indivíduo por exsanguinação.3 Não está aí a importância deste tema. Por outro lado, o sangramento pode contribuir decisiva- mente para a piora da doença de base do paciente e sua conseqüente evolução a óbito. O SANGRAMENTO DIGESTIVO E SUA ORIGEM Antes de analisarmos as causas de sangramento digestivo, é importante que você tenha em mente que nem todo o sangue eliminado pelo tubo digestivo tem nele a sua origem. Sangramentos de vias aéreas, como epistaxe e hemoptise, podem simular hemorragia digestiva quando esta for secundária ao sangue deglutido. Este dilema diagnóstico, no entanto, não é comum e pode ser sugerido pela expulsão de sangue vivo pela boca, sem que haja repercussão hemodinâmica significativa ou a presença de arcadas de vômito. A hemorragia digestiva alta tem sua origem proximal ao ligamento de Treitz (ângulo duodeno-jejunal), enquanto aquelas lesões distais ao ligamento, ou seja, da quarta por- ção do duodeno em diante (intestino delgado e, principalmente, cólon) promovem he- morragia digestiva baixa.3,7 As manifestações mais comuns do sangramento alto são hematêmese e melena. Hematêmese é o vômito de conteúdo sanguíneo, que pode variar de vermelho vivo ao aspecto característico do sangue semidigerido, tipo “borra de café”. A presença de hematêmese define a origem do sangramento como alta. Melena é a eliminação de fezes de coloração negra, pastosas e brilhantes, seme- lhantes a piche, e com odor característico. Melena requer a presença de ao menos 50 ou 100ml de sangue no trato gastrintestinal. Enterorragia, por sua vez, é a eliminação de sangue vivo pelo ânus, sendo suges- tiva de sangramento baixo. Melena pode surgir em casos em que a origem do sangramento está até no cólon ascendente. A enterorragia, por sua vez, pode ocorrer em até 10% dos casos de sangramento alto, quando, então, indica perda sangüínea muito significativa. 37 PR OA MI S EM CA D Apresentação Hematêmese Melena Enterorragia Hemorragia digestiva alta +++ ++ + Hemorragia digestiva baixa - + ++ LEMBRAR Reconhecer o provável local do sangramento pela sua apresentação é bastante útil para orientar a propedêutica e as atitudes terapêuticas a serem tomadas. Consideramos que a Tabela 1 possa ser útil para você alcançar este objetivo. Tabela 1 MANIFESTAÇÃO CLÍNICA E ORIGEM PROVÁVEL DO SANGRAMENTO DIGESTIVO Caso clínico 1 Raciocinemos frente a seguinte situação: indivíduo internado em UTI, com 75 anos de idade, com pneumonia nosocomial em tratamento, em ventilação mecânica e com insuficiência renal, apresentando sinais discretos de melhora nos últimos dias. Hemodinamicamente estável, sem necessidade de vasopressores. 2. Nesse contexto surge um sangramento digestivo. O que seria mais preocupante: esse sangramento ser manifestado por melena ou por hematêmese associada à enterorragia? ....................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ Nesse contexto de uma certa estabilidade, a significância de um sangramento digestivo manifes- tado apenas por melena certamente será bastante diferente daquela de um sangramento digesti- vo que se manifeste por hematêmese associada à enterorragia. A hematêmese é a mais temível entre as formas de apresentação de hemorragia digestiva, posto que indica sangramento muito volumoso. Certamente, podemos intuir que neste caso o indivíduo em questão teria uma evolução clínica bastante mais complexa e de risco. Mais adiante, seguiremos refletindo sobre este suposto caso. Como as lesões que levam à hemorragia digestiva baixa raramente são uma preo- cupação no contexto do sangramento digestivo em pacientes internados em UTI, a partir de agora todos os comentários serão focados para a hemorragia digesti- va alta. 38 PR OF ILA XIA D AS H EM OR RA GI AS D IG ES TIV AS EM U TI Variável Idade Choque Co-morbidades Pontos atribuídos conforme os achados 0 ponto < 60 anos FC < 100 bpm e PAS > 100 mmHg Nenhuma 1 ponto ≥ 60 e < 80 anos FC ≥ 100 bpm e PAS > 100 mmHg Nenhuma 2 pontos ≥ 80 anos PAS < 100 mmHg Insuficiência cardíaca, IAM ou doença coronariana, câncer. 3 pontos - - Insuficiência renal, doença hepática, câncer metastático. FC= freqüência cardíaca; PAS= pressão arterial sistólica; IAM= infarto agudo do miocárdio. Pontos máximos: 7. Estratificação do risco: escore < 4 indica risco baixo e mortalidade < 13%. Escore ≥ 4 indica alto risco e mortalidade > 20%. ABORDAGEM DO PACIENTE COM HEMORRAGIA DIGESTIVA ABORDAGEM INICIAL O passo inicial é clássico, porém imprescindível: avaliar a gravidade do episódio agudo. Isso pode ser feito de acordo com a repercussão hemodinâmica do sangramento. Uma pressão sistólica abaixo de 100mmHg (a despeito da freqüência cardíaca) identifica paci- entes de alto risco, com sangramento volumoso. Quando a freqüência cardíaca estiver acima de 100bpm com pressão sistólica acima de 100mmHg, o sangramento terá sido moderado. Pressão arterial e freqüência cardíaca normais sugerem hemorragia de pequena monta. Hipotensão postural é um achado importante e significativo, embora não específico de perda sanguínea, mas que deve ser valorizado. A queda acima de 10mmHg da pressão sistólica em ortostatismo sugere a redução de, ao menos, 20% do volume sanguíneo corporal. Indicam choque referente à perda de 40% do volume sanguíneo total (ou 2.000ml): ■■■■■ agitação ou letargia; ■■■■■ palidez; ■■■■■ hipotensão; ■■■■■ taquicardia.2,3,7,8 Na Tabela 2, você encontra elementos para estimara gravidade do sangramento e a mortalidade esperada, expressos em um escore de risco clínico publicado previamente.9 Tabela 2 ESCORE DE RISCO CLÍNICO APÓS HEMORRAGIA DIGESTIVA ALTA 39 PR OA MI S EM CA D LEMBRAR Retornando ao caso clínico 1, imaginemos que nosso paciente, ao apresentar hematêmese e enterorragia, tenha sido prontamente avaliado pela equipe assistente. A freqüência cardíaca era de 120bpm e a PAS caiu a 80mmHg. A hemoglobina sangüínea dosada logo após o sangramento era de 12,8g/dL. 3. Qual o risco estimado do paciente do caso clínico 1, segundo o escore apresentado na Tabela 2? ....................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ Ao aplicarmos em nosso paciente o escore de risco acima descrito, teremos: ■■■■■ quesito idade (um ponto), ■■■■■ quesito choque (dois pontos), ■■■■■ co-morbidades (três pontos). O escore será igual a seis, conferindo a ele um risco de morte elevado. Se o risco de mortalidade do paciente que chega ao hospital com hemorragia diges- tiva alta não tem decrescido nos últimos anos e é considerável, as taxas de óbito naqueles indivíduos que apresentam sangramento durante a sua hospitalização são ainda três vezes maiores.8 Hemoglobina e hematócrito iniciais pouco refletem a perda sangüínea e apenas devem ser verificados para comparação posterior. Após um período de 24 a 48 horas pode-se avaliar a extensão do sangramento pela repercussão no hematócrito.7,8 Na apresentação, a hematêmese define a origem alta do sangramento, conforme já destaca- do. Você pode, no entanto, se valer da aspiração nasogástrica para aqueles casos de dúvida. Este procedimento tem uma sensibilidade de 80% para a presença de uma lesão sangrante ati- va.7 Um aspirado negativo não afasta a origem alta, especialmente quando for um sangramento duodenal. Um erro freqüente é a realização de lavado gástrico. Esse procedimento não possui qualquer valor terapêutico.10 Não perca tempo com a realização do lavado gástrico. Embora se possa imaginar que a remoção do sangue de dentro da luz do tubo digestivo seja útil até para que se tenha melhores condições para o exame endoscópico, deixe isto para o próprio endoscopista. Caso ele considere neces- sário, procederá a intubação com tubo orogástrico de grosso calibre para remover o conteúdo no momento do exame. 40 PR OF ILA XIA D AS H EM OR RA GI AS D IG ES TIV AS EM U TI No Quadro 1, estão listados os principais fatores de risco em hemorragia digestiva, relaciona- dos que estão à morbimortalidade e risco de recidiva hemorrágica.2,11 Você deve estar atento a eles frente a um episódio de sangramento. Quadro 1 FATORES DE RISCO EM HEMORRAGIA DIGESTIVA • Gravidade clínica do sangramento: instabilidade hemodinâmica, sangramento persistente ou recorrente e necessidade de transfusão de grandes volumes • Idade avançada: > 60 anos • Doenças associadas • Coagulopatia • Início do sangramento durante hospitalização • Aspecto endoscópico da lesão • Necessidade de tratamento cirúrgico Caso clínico 2 Paciente feminina, 58 anos, com história de uso de antiinflamatórios não-esteróides por dor ósteo-articular crônica, interna por hematêmese e melena iniciadas há poucas ho- ras. Apresenta náuseas e dor epigástrica em queimação discreta. Não tem passado de doença péptica. Na chegada ao hospital, encontrava-se em bom estado geral, lúcida, porém agitada e taquicárdica. O exame do abdômen revelava apenas dor à palpação, porém sem defesa. A pressão arterial sistólica era de 110mmHg deitada e de 95mmHg quando em pé. 4. Você deve imaginar que a paciente do caso clínico 2 apresentou sangramento volu- moso. Quais seriam as medidas a serem tomadas neste caso? Quando deveria ser realizado o procedimento endoscópico? Os bloqueadores H2 e os inibidores da bomba de prótons são igualmente eficazes neste cenário? ....................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ 5. No caso acima, como impedir o ressangramento? ....................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ 6. Há algum papel do Helicobacter pylori nesta situação? ....................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ 41 PR OA MI S EM CA D LEMBRAR 7. Caso a paciente apresentasse ao exame físico estigmas de doença hepática, isso influenciaria a sua conduta? ....................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ Esperamos que os tópicos a seguir o auxiliem a resolver as questões propostas. Reflita um pouco sobre elas, pense no que você faria, e boa leitura. ABORDAGEM DIAGNÓSTICA E TERAPÊUTICA Uma vez que você tenha rapidamente estimado a gravidade e a origem do sangramento do seu paciente, o passo seguinte é a ressuscitação e o diagnóstico específico. Aqui cabe um lembrete: é essencial diferenciar entre as duas grandes categorias de sangramento em casos de hemorragia digestiva: ■■■■■ sangramento por lesões da mucosa gastroduodenal (esofagite, úlcera péptica e erosões, por exemplo); ■■■■■ sangramento relacionado à hipertensão portal. Você deve estar atento para o fato de que até a ressuscitação será diferente nes- ses doisgrupos. São bastante úteis, no diagnóstico diferencial, a história e o exame físico. Um passado de úlcera ou esofagite ou uso de antiinflamatórios não-esteróides sugere uma lesão péptica. Porém, se o seu paciente tem um passado de doença hepática, sabe-se portador de hepatite crônica ou é etilista (ou o tiver sido no passado), atente para a possibilidade de sangramento originado por varizes esofagogástricas. Aja da mesma forma se você encontrar estigmas de hepatopatia crônica no exame físico, especialmente aranhas vasculares, circulação colateral e ginecomastia. É interessante notar que a presença de aranhas vasculares é um fator de risco para sangramento varicoso em paci- entes com cirrose. Ao redor de 30% dos pacientes cirróticos sangram agudamente por fonte não relaciona- da à hipertensão portal. Em hepatopatas, a reposição deve ser mais lenta e cuidadosa, evitando-se elevar em demasia a volemia e, conseqüentemente, a pressão portal. Você deve compreender que as varizes de esôfago sangram porque a pressão portal elevada promove o seu rompimento. Quando o indivíduo sangra, isto faz com que a pressão caia e funcione como um fator protetor para evitar o ressangramento. O hematócrito deve ser mantido entre 25 e 30% no paciente cirrótico. 42 PR OF ILA XIA D AS H EM OR RA GI AS D IG ES TIV AS EM U TI Os agentes que interferem de alguma maneira na coagulação devem ser suspensos assim que possível. O exame endoscópico é essencial para o diagnóstico e deve ser realizado em todos os pacientes com sangramento digestivo alto. O momento da realização do exame endoscópico varia de acordo com a apresentação do sangramento. Ele será mais precoce naqueles pacientes com hematêmese e naqueles com me- lena e instabilidade hemodinâmica. O uso de fármacos específicos será discutido mais tarde. Imaginemos a mesma paciente descrita no caso clínico 2. Mesmo com história de uso de antiinflamatórios não-esteróides por dor ósteo-articular crônica e tendo interna- do por hematêmese e melena iniciadas há poucas horas, imagine se ela também apre- sentasse, ao exame do abdômen, aranhas vasculares, ascite e circulação colateral. Os demais aspectos de história e exame físico seriam os mesmos descritos anterior- mente, inclusive em relação ao sensório. 8. As suas providências seriam alteradas? Haveria algum outro cuidado a ser tomado? ....................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ 9. Caso fosse definido que o sangramento era devido a varizes de esôfago, como evitar a recidiva? ....................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ 10. Haveria alguma influência da doença hepática de base neste cenário? Se as medi- das farmacológicas e endoscópicas falhassem, o que você faria? Quando pensaria em transplante de fígado? ....................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ Esperamos que a seguir você possa ter resolvido as questões propostas. Inicialmente, considera- mos que o algoritmo a seguir possa ser útil para orientá-lo a agir frente a um quadro de hemorragia digestiva (Figura 1). 43 PR OA MI S EM CA DHemorragia digestiva Estimar gravidade do sangramento; definir origem provável (péptica? hipertensão portal?) Hematêmese, enterorragia ou melena com instabilidade Melena sem instabilidade Estabilização hemodinâmica de acordo com a suspeita Hipertensão portal Sem hipertensão portal Uso de fármacos vasoativos (terlipressina) e antibióticos Endoscopia digestiva alta em até doze horas Endoscopia digestiva alta em até 24 h Figura 1 - Algoritmo de abordagem terapêutica da hemorragia digestiva alta. 11. Qual será a importância da presença de antibióticos em um algoritmo de tratamento de sangramento digestivo? ....................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ Você deve ter notado que, nos casos de suspeita de sangramento por hipertensão portal, estão indicados os fármacos vasoativos. São medicamentos que têm capaci- dade de reduzir a pressão portal. O uso de fármacos vasoativos não requer pessoal especializado ou equipamentos sofisticados, permite início de tratamento imediato e facilita o exame e a terapia endoscópica. Ademais, pode ser mantido por alguns dias, reduzindo o risco de ressangramento.12 Há dois tipos principais de fármacos vasoativos: ■■■■■ vasopressina e seu análogo, terlipressina; ■■■■■ somatostatina e seu análogo, octreotida. Os dois tipos de fármaco diminuem a pressão portal por promover vasoconstrição esplâncnica. A vasopressina promove uma vasoconstrição disseminada, não só esplâncnica, motivo pelo qual está associada a quadros anginosos. 44 PR OF ILA XIA D AS H EM OR RA GI AS D IG ES TIV AS EM U TI Fármaco Vasopressina + nitroglicerina Somatostatina Octreotida Terlipressina Sucesso terapêutico +++ +++ ++++ ++++ Efeitos adversos +++ + + + LEMBRAR Na Tabela 3, você encontra um comparativo dos fármacos vasoativos empregados no controle do sangramento digestivo por varizes.12 Tabela 3 COMPARATIVO DOS FÁRMACOS VASOATIVOS EMPREGADOS NO CONTROLE DO SANGRAMENTO DIGESTIVO POR VARIZES A vasopressina foi abandonada pelos seus efeitos adversos. Os três medicamentos restan- tes têm sido aplicados no sangramento digestivo. A demonstração da perda de efeito da octreotida após os cinco minutos iniciais fez diminuir o entusiasmo com este fármaco.13 Por outro lado, os estudos que compararam diretamente somatostatina e terlipressina obtive- ram resultados comparáveis.14 Esteja atento para o fato de que terlipressina, o único dos fármacos em questão que se mostrou capaz de diminuir a mortalidade,é atualmente o fármaco de escolha.15 Talvez você tenha estranhado a presença de antibióticos em um algoritmo de trata- mento de sangramento digestivo. No entanto, infecção bacteriana é comum du- rante o intercurso da hemorragia digestiva alta por varizes. Estima-se que dois dias após o sangramento em torno de 20% dos pacientes apresentem infecção. Ademais, tem sido sugerido que a bacteremia portal possa ser o fator desencadeante do sangramento. O uso de antibióticos endovenosos, como ciprofloxacina, reduz significativamente a mortalidade e, por isso, deve fazer parte do tratamento da hemorragia digestiva, independente da abordagem endoscópica.8,16,17 12. Resuma, em um breve parágrafo, o algoritmo sobre a abordagem terapêutica da hemorragia digestiva alta, apresentado na Figura 1. ....................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ 45 PR OA MI S EM CA D Diagnóstico Erosões gástricas ou duodenais Úlcera duodenal Úlcera gástrica Varizes esofagogástricas Mallory-Weiss Esofagite Neoplasias Úlceras de boca anastomótica EUA (n= 2225) 29,2% 24,3% 21,3% 10,3% 7,2% 6,3% 2,9% 1,8% Reino Unido (n= 4185) 11% 35% * - 4% 5% 10% 4% - Brasil (n= 5345) 12,2% 31,4% 15% 24,3% 3,4% 2,8% 3,3% 1,3% LEMBRAR CAUSAS DE SANGRAMENTO Na Tabela 4, estão relacionadas as principais causas de sangramento digestivo alto. É interes- sante notar que em diferentes locais podemos encontrar estatísticas diversas. Tabela 4 CAUSAS DE SANGRAMENTO DIGESTIVO ALTO * Resultados apresentados como “úlcera péptica”, sem distinção de gástrica ou duodenal. Fonte: Adaptado de Elta, GG. Approach to the patient with gross gastrointestinal bleeding. In: Yamada T, ed, Textbook of Gastroenterology, 4th ed, Philadelphia, Lippincott Williams & Wilkins, 2003, pp 698-723; Rockall TA, Logan FRA, Devlin HB, Northfield TC, Steering Committee of the National Audit of Acute Upper Gastrointestinal Hemorrhage. Risk assessment after acute upper gastrointestinal haemorrhage. Gut 1996; 38: 316-321; Cordeiro F, França S, Siqueira ES. Hemorragia Digestiva. In: Castro LP & Coelho LGV, eds, Gastroenterologia, Rio de Janeiro, MEDSI, 2004, pp 115-144. ACHADOS NA ENDOSCOPIA E PROGNÓSTICO A endoscopia digestiva alta tem uma sensibilidade de 92% na identificação do local do sangramento, com especificidade que se aproxima de 100%. Caso haja muito sangue no estô- mago, a sensibilidade pode cair. Além de identificar a fonte de sangramento, o exame endoscópico é o principal preditor de prognóstico. Os achados endoscópicos são importantes na determinação da probabilidade de: ■■■■■ ressangramento; ■■■■■ morbidade; ■■■■■ mortalidade. Na Tabela 5, estão descritos os achados endoscópicos e o risco de mortalidade das lesões pépticas. 46 PR OF ILA XIA D AS H EM OR RA GI AS D IG ES TIV AS EM U TI Variável Classificação de Child-Pugh A B C Tamanho das varizes Pequeno calibre Médio calibre Grande calibre Sinais vermelhos Ausentes Leves Moderados Intensos Pontos a somar 6,5 13 19,5 8,7 13 17,4 3,2 6,4 9,6 12,8 Achado endoscópico Sangramento ativo Vaso visível Coágulo aderente Coágulo plano Base limpa Classificação de Forrest I A (em jato) e I B (em “babação”) II A II B II C III Risco de ressangramento (%) 55 43 22 10 5 Mortalidade (%) 11 11 7 3 2 Fonte: Adaptado de Jensen DM. Endoscopic screening for varices in cirrhosis: findings, implications and outcomes. Gastroenterology 2002; 122: 1620-1630. Tabela 5 RISCO DE RESSANGRAMENTO E ÓBITO DE ACORDO COM OS ACHADOS ENDOSCÓPICOS Fonte: Adaptado de Bjorkman DJ. Gastrointestinal hemorrhage and occult gastrointestinal bleeding. Goldman L & Ausiello D, eds. Cecil Textbook of Medicine, 22th edition, Philadelphia, Saunders, 2004, pp 795-800; Cordeiro F, França S, Siqueira ES. Hemorragia Digestiva. In: Castro LP & Coelho LGV, eds, Gastroenterologia, Rio de Janeiro, MEDSI, 2004, pp 115-144. O tratamento endoscópico é definido durante o procedimento e está relacionado à redução da mortalidade,1,7 mas não é nosso objetivo revisá-lo. A leitura do texto de Meaden e Makin, com alguns dados endoscópicos para o não especialista, poderá lhe ser útil.8 Em média, no entanto, 15% dos pacientes tratados endoscopicamente por sangramento se- cundário à doença péptica apresentam recorrência, em geral nos três primeiros dias após a apresentação.2 O prognóstico do sangramento digestivo por hipertensão portal está diretamente relacionado, por sua vez, à gravidade da doença hepática, aferida pela classificação de Child-Pugh. Recentemente, o índice NIEC (Northern Italian Endoscopic Club) tem demonstrado ser uma for- ma adequada de predizer o risco de sangramento.20 Veja Tabelas 6 e 7. Tabela 6 GUIA PARA CÁLCULO DO ÍNDICE NIEC 47 PR OA MI S EM CA D Classe de risco 1 2 3 4 5 6 Índice de NIEC < 20 20-25 25,1-30 30,1-35 35,1-40 >40 % de sangramento 9,5% 15,8% 22% 32% 50% 63,6% Tabela 7 ÍNDICE NIEC E RISCO DE SANGRAMENTO Fonte: Adaptado de Jensen DM. Endoscopic screening for varices in cirrhosis: findings, implications and outcomes. Gastroenterology 2002; 122: 1620-1630. 13. Comente a importância dos achados da endoscopia digestiva alta no prognóstico dos casos de sangramento digestivo. ....................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ FORMAS DE PROFILAXIA PROFILAXIA DO RESSANGRAMENTO DIGESTIVO POR DOENÇA PÉPTICA OU POR HIPERTENSÃO PORTAL O tratamento endoscópico é o principal fator associado à diminuição do ressangramento e está indicado em todos os casos de sangramento ativo e naque- les em que há sinais claros de que houve sangramento imediatamente anterior, tanto na hemorragia por doença péptica, quanto na secundária à hipertensão portal. USO DE AGENTES ANTIULCEROSOS NA FASE AGUDA A utilização de bloqueadores H2 ou inibidores da bomba de prótons é rotina, mas deve ser questionada. Neste ponto, também se encontra um erro freqüente. Os agen- tes antiulcerosos não têm a capacidade de controlar o sangramento. A sua utili- dade está na prevenção da recorrência. O objetivo do uso dos agentes antiulcerosos é evitar a dissolução do coágulo e permitir a cicatrização da lesão subjacente. Embora o coágulo não seja dissolvido pelo ácido, ele o é pelo suco gástrico, sugerindo que a pepsina tenha um papel importante. Você deve lembrar que a atividade da pepsina é pH-dependente. Assim, manter um pH elevado contribui para que o coágulo não seja dissolvido.2 48 PR OF ILA XIA D AS H EM OR RA GI AS D IG ES TIV AS EM U TI Os benefícios claros desta abordagem só foram encontradosrecentemente: os estudos comparativos entre esses fármacos vasoativos, para o controle do sangramento diges- tivo por varizes, demonstraram que devem ser usadas altas doses endovenosas ou orais de inibidores de bomba de prótons para ser atingido o objetivo de estabilização do coágulo.21 A administração de uma dose endovenosa em bolo seguida pela sua infusão contínua é a terapia recomendada nos pacientes submetidos a tratamento endoscópico. Podem ser usados tanto omeprazol quanto pantoprazol, 80mg em bolo e a seguir 8mg/h por 72 horas.1 Não está claro ainda se doses menores podem ser úteis. Os bloqueadores histamínicos, por sua vez, não conseguem estabilizar o coágulo e há pou- co suporte para seu uso nesta situação.8 Recente consenso concluiu que o uso de bloqueadores H2 não está recomendado para o manejo de pacientes com hemorragia digestiva alta.1 Na hemorragia secundária a varizes, a utilidade dos fármacos antiulcerosos, sejam eles inibidores de bomba de prótons ou bloqueadores H2 é limitada. Não há indicação de uso destes fármacos neste cenário. USO DE ANTIBIÓTICOS Todos os pacientes com hemorragia digestiva alta de origem não-varicosa devem ser testados para a presença de Helicobacter pylori.1,22 A positividade da pesquisa está associada a maiores taxas de ressangramento: Helicobacter pylori é um fator independente na predição de novo sangramento digestivo nesta população.23 Você deve estar avisado de que um resultado negativo na pesquisa realizada na fase aguda de sangramento, pela possibilidade de falso negativo, indica nova pesquisa mais adiante. Não se justifica tratar a infecção com antibióticos endovenosos. A terapia oral tradicio- nal pode ser prescrita a seguir, estando o paciente estável.1 Na hemorragia digestiva por hipertensão portal, é indicado o uso rotineiro de antibióti- cos. A infecção bacteriana pode interferir negativamente na hemostasia do paciente com sangramento por varizes esofagogástricas. Habitualmente, é recomendado norfloxacina 400mg por via oral por sete dias. Pode ainda ser usado ciprofloxacina, por via endovenosa, ou ainda amoxicilina com clavulanato. Recentemente, foi demonstrado que a antibioticoprofilaxia diminui as taxas de novo sangramento em pacientes que apresentaram hemorragia de origem varicosa.24 49 PR OA MI S EM CA DUSO DE FÁRMACOS VASOATIVOS E O TRATAMENTO ENDOSCÓPICO O fármaco de escolha é a terlipressina, na dose de 2mg por via endovenosa, em bolo, seguida de injeções de 2mg a cada quatro horas no primeiro dia. A seguir, a dose é reduzida para 1mg a cada quatro horas e deve ser assim mantida por dois a cinco dias. No entanto, o uso de terlipressina ainda não é unânime. Especialmente na literatura america- na, há restrições à terlipressina, com maiores referências à somatostatina e à octreotida. Há sugestões recentes de que a associação entre os diferentes fármacos vasoativos possa ser ainda mais efetiva, mas não há uma definição ainda clara sobre o tema. Os fármacos vasoativos não devem ser empregados isoladamente. Eles fazem parte de uma abordagem terapêutica que inclui o tratamento endoscópico. O tratamento endoscópico das varizes esofagogástricas pode ser feito através de: ■■■■■ ligadura (colocação de uma banda elástica em torno da variz); ou ■■■■■ esclerose (injeção intra ou paravaricosa de agente esclerosante). Quando comparado o tratamento endoscópico (escleroterapia) com o farmacológico, as taxas de controle e de recidiva do sangramento e a mortalidade foram semelhantes.15 Recentemente, no entanto, tem sido demonstrado que a combinação do tratamento endoscópico (escleroterapia ou ligadura) com o tratamento farmacológico promove ain- da melhores resultados e esta deve ser a abordagem utilizada.25 Há poucos dados sobre a avaliação da eficácia dos fármacos vasoativos em pacientes com hemorragia digestiva por varizes gástricas, da mesma forma que sobre o uso de betabloqueadores ou nitratos especificamente nesta população. Recomendamos a leitura de uma recente e extensa revisão sobre varizes gástricas e suas peculiaridades, para maiores detalhes.26 Há pacientes que sangram não por varizes esofagogástricas, mas sim por gastropatia hipertensiva, condição associada também à hipertensão portal. Não há ensaios clínicos randomizados em pacientes com sangramento agudo maciço por gastropatia hipertensiva.25 O tratamento farmacológico tem sido utilizado, nestes casos, à semelhança do sangramento por varizes de esôfago. Nos pacientes que não respondem ao tratamento médico e endoscópico, pode-se considerar a possibilidade de tamponamento com balão, em casos de sangramento muito volumoso, como ponte para outro método terapêutico. O tratamento com TIPS (Transjugular Intrahepatic Portosystemic Shunt = shunt porto- sistêmica por via transjugular) representa a primeira escolha nos pacientes em que não se obteve controle do sangramento. A derivação cirúrgica é a opção seguinte. 50 PR OF ILA XIA D AS H EM OR RA GI AS D IG ES TIV AS EM U TI LEMBRAR Lembre-se de que todo o paciente com hemorragia digestiva por varizes deve ser avaliado quanto à gravidade de sua doença hepática e a possível indicação de transplante de fígado. Nos casos recorrentes de sangramento, o paciente deve ser diretamente encaminhado a uma equipe de transplante hepático. Não há indicação para o uso de somatostatina ou octreotida nos pacientes com hemorragia digestiva alta de origem não varicosa.1 USO DE BETABLOQUEADORES E NITRATOS NA PREVENÇÃO DO RESSANGRAMENTO Os betabloqueadores não-seletivos (propranolol e nadolol), por diminuírem o fluxo sangüíneo portal, reduzem consideravelmente o risco de um novo episódio de sangramento - a chamada profilaxia secundária. Entretanto, esteja alerta para o fato de que, em torno de 25% dos pacien- tes, o uso é suspenso por paraefeitos (broncoespasmo, impotência, letargia ou insuficiência cardíaca). A dose deve ser ajustada até uma queda de 25% na freqüência cardíaca inicial ou até que a freqüência esteja abaixo de 55bpm.27 A redução do gradiente de pressão venosa hepática (GPVH) abaixo de 12mmHg ou mais que 20% do gradiente inicial é considera- da a melhor forma de monitorização,27 mas sua validade e aplicabilidade clínica ainda é discutível.28 Nos pacientes com paraefeitos ou ausência de resposta ao propranolol (clínica ou no GPVH) estudos sugerem que a associação com mononitrato de isossorbida, fármaco que libera óxi- do nítrico na circulação e promove diminuição na resistência hepática ao fluxo portal, seja uma boa opção.27,29 Você não estaria errado se associasse desde o início em todos os seus paci- entes um betabloqueador a nitrato: vários autores sugerem que isto seja feito. 29,30 Tanto o tratamento farmacológico quanto a ligadura endoscópica de varizes de esôfago são consideradas opções de primeira linha na profilaxia secundária, e ainda não está clara qual a melhor delas. Você deve atentar para o fato de que a taxa de ressangramento ainda é alta: 30 a 50% dos pacientes sangram novamente em até dois anos. A associação entre ligadura e tratamento farmacológico pode melhorar os resultados dos tratamentos isolados, mas ainda não é uma recomendação universal. A associação, no entanto, poderia ser feita especialmente nos casos de pacientes que sangraram enquanto recebiam profilaxia primária com betabloqueadores.30 A profilaxia primária é aquela feita em pacientes com varizes de esôfago de médio ou grande calibre, mas que nunca sangraram. 51 PR OA MI S EM CA D Modalidade Agentes antiulcerosos Antibióticos Fármacos vasoativos Tratamento endoscópico Betabloqueadores e nitratos Indicações e dosagens Contra-indicações e desvantagens Observações Nos portadores de varizes de pequeno calibre, não há evidências de benefício com a profilaxia. A principal arma terapêutica sãoos agentes betabloqueadores, cujo uso está relacionado à redução do risco do primeiro sangramento. Os nitratos, embora diminuam o risco do primeiro sangramento, são menos efetivos do que os agentes betabloqueadores.31 Uma recente metanálise demonstrou que o uso de propranolol reduz os riscos de sangramento digestivo inicial e recorrente, bem como a mortalidade total em pacientes com cirrose.32 A associação entre propranolol e mononitrato de isossorbida também tem sido estudada neste cenário e, se não parece ser mais efetiva, ao menos é segura.33 Essa é uma alternativa para os pacientes em que a freqüência cardíaca ou a pressão portal não caíram aos níveis desejados.25 A ligadura de varizes, embora superior na profilaxia primária quando comparada aos grupos em que apenas se observou a evolução clínica, só deve ser recomendada quando o tratamento medicamentoso não obtiver sucesso ou quando o paciente apresentar contra-indicações às medicações que o impeçam de ser tratado.25,30 A mortalidade do sangramento varicoso em cirróticos está em declínio pelo melhor manejo do paciente, incluindo a compensação cuidadosa das perdas sangüíneas, a prevenção das infecções e o controle do sangramento pelo uso de fármacos vasoativos e trata- mento endoscópico precoce. O risco de sangramento pela ruptura de varizes esofágicas também caiu dramaticamente desde o advento da profilaxia. O risco estimado em dois anos era de 20 a 30% para um primeiro sangramento e de 50 a 80% para a recidiva. Com o uso disseminado da profilaxia, têm sido descritos índices respectivamente de 13 e 38%.18 14. Complete o quadro com informações importantes sobre o uso e a especificidade das diversas modalidades terapêuticas em situação de profilaxia ao ressangramento digestivo por doença péptica ou hérnia portal. 52 PR OF ILA XIA D AS H EM OR RA GI AS D IG ES TIV AS EM U TI LEMBRAR PROFILAXIA DO SANGRAMENTO DIGESTIVO POR ULCERAÇÕES DE ESTRESSE As ulcerações de estresse são uma reconhecida causa de morbimortalidade em pacientes criticamente doentes. Na verdade, não são úlceras verdadeiras, mas sim lesões agudas da mucosa gástrica, em geral erosões superficiais. Elas podem surgir horas após cirurgias de grande porte ou complicações clínicas multissistêmicas.34 Sua incidência varia entre 5 e 25% dos pacientes internados em UTI e depende dos critérios usados para defini-la. É menor quando se considera o sangramento vivo ou clinicamente signifi- cativo e maior quando o sangramento oculto define a pesquisa de lesões endoscópicas. Há populações de risco reconhecido, como os grandes queimados (úlcera de Curling), os politraumatizados e os pacientes com doença ou trauma do sistema nervoso central (úlcera de Cushing).34,35 Os pacientes em ventilação mecânica por mais de cinco dias e os que apresen- tam coagulopatia são também considerados de alto risco para o desenvolvimento de ulcera- ções de estresse. As ulcerações de estresse estão relacionadas à hipoxia da mucosa gastroduodenal,36,37 mas o ácido parece desempenhar papel significativo.38 Não tem sido demonstrada rela- ção com a infecção por Helicobacter pylori.39 Ranitidina e sucralfato são fármacos largamente usados na profilaxia do sangramento em pacientes internados em UTI, inclusive em nosso meio.37 Várias recomendações sugerem o seu uso, mas tanto a agência norte-americana Food and Drug Administration (FDA), quanto similares européias não endossam essa atitude. É recomendável observar que, em recente metanálise, ranitidina e sucralfato não impediram adequadamente o sangramento, e que a ranitidina aumentou o risco de pneumonias nosocomiais.40 Esse é um dos grandes riscos da elevação do pH gástri- co e para o qual você deve estar atento se prescrever algum fármaco profilático. Em 1999, foram publicadas pela American Society of Health-System Pharmacists (ASHP) reco- mendações acerca da profilaxia.41 Desde então, a freqüência de sangramento significativo nos estudos publicados tem sido baixa. Em função disto, alguns autores sugerem que os avanços no cuidado ao paciente gravemente doente (controle da sepse, suporte ventilatório, nutrição) são mais importantes do que o uso de agentes profiláticos. A seleção do melhor método de prevenção continua em debate, embora a maior parte dos estu- dos recentes tenha utilizado inibidores da bomba de prótons com esta finalidade, especial- mente omeprazol. De fato, esses fármacos são mais efetivos do que os bloqueadores H2 no aumento do pH gástrico, mas este não é o desfecho principal que deve ser perseguido. Há, ainda, necessidade de mais estudos focados para o sangramento clínico significativo.42 53 PR OA MI S EM CA D REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Os estudos têm sido inconsistentes em demonstrar que a profilaxia reduz o sangramento digesti- vo. Ainda não está claro que o uso de agentes profiláticos seja benéfico, nem qual o melhor fármaco a ser usado, nem por qual via (oral ou parenteral). Talvez esteja havendo um uso exagerado de agentes antiulcerosos em pacientes críticos. Parece ser justificado prescrevê-los apenas em pacientes com alto risco de sangramento. É sugerido que cada UTI tenha seu protocolo de profilaxia, baseado na população para qual ela costuma estar voltada e no risco definido de ocorrência de hemorragia digestiva. CONCLUSÃO Com base no que foi apresentado e discutido, esperamos que você tenha elementos para preve- nir adequadamente o sangramento inicial ou recorrente em seus pacientes: ■■■■■ na prevenção da recorrência do sangramento por doença péptica: inibidores da bomba de prótons em altas doses e tratamento da infecção por Helicobacter pylori, caso presente; ■■■■■ na prevenção do sangramento inicial em pacientes hepatopatas: na presença de varizes de médio ou grande calibre: propranolol por via oral. Nos pacientes com contra-indicação aos betabloqueadores ou nos quais não houve efeito terapêutico, associar mononitrato de isossorbida ou proceder à ligadura endoscópica de varizes esofágicas; ■■■■■ na prevenção do ressangramento por hipertensão portal: terlipressina na fase aguda por dois a cinco dias, associado a tratamento endoscópico (ligadura ou escleroterapia) e antibióti- cos por sete dias, seguidos pelo uso de propranolol por via oral a longo prazo, associado ou não a mononitrato de isossorbida ■■■■■ na profilaxia das ulcerações de estresse em pacientes críticos: justifica-se o uso de agen- tes antiulcerosos, especialmente inibidores da bomba de prótons, naqueles indivíduos de alto risco (grandes queimados, politraumatizados, coagulopatas ou pacientes em ventilação mecâ- nica por mais de cinco dias). 1. Barkun A, Bardou M, Marshall JK. Consensus recomendation for managing patients with nonvariceal upper gastrointestinal bleeding. Ann Intern Med 2003; 139: 843-857. 2. Elta, GG. 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JANETE SALLES BRAUNER INTRODUÇÃO O tétano é uma doença grave, que afeta humanos e outros vertebrados, e que pode ser prevenida através de imunização. Trata-se de uma doença que tem sido descrita e que é bem reconhecida desde a antigüidade: nos papiros de Edwin Smith, um médico egípcio discu- te sobre um paciente com ferimento penetrante no crânio, no qual se desenvolveu trismo e rigidez de nuca. A despeito da disponibilidade da imunização passiva desde 1983 e da vacinação ativa desde 1923, o tétano permanece um dos maiores problemas de saúde pública nos países em desen- volvimento e ainda é encontrado em países desenvolvidos. OBJETIVOS Ao final da leitura deste capítulo, esperamos que você possa: ■■■■■ atualizar seus conhecimentos sobre tétano; ■■■■■ realizar o diagnóstico de tétano, bem como seu diagnóstico diferencial; ■■■■■ atualizar-se sobre a terapêutica para o tétano e sobre imunização passiva e ativa. 58 TÉ TA NO ESQUEMA CONCEITUAL Tétano Definição EpidemiologiaEtiologia Patogenia Manifestações clínicas Disfunção autonômica Classificação Fatores prognósticos Diagnóstico e diagnóstico diferencial Tratamento Manutenção da via aérea Neutralização da toxina Identificação da porta de entrada Imunoterapia Imunização passiva Imunização ativa Controle dos espasmos e contraturas Agentes antiespásticos Benzodiazepínicos Diazepam, lorazepam, midazolam Outros fármacos Propofol, Baclofen intratecal, Clorpromazina Bloqueio neuromuscular Brometo de pancurônio, vecurônio, atracurônio Controle da disfunção autonômica Morfina, clonidina, betabloqueadores e outros fármacos Nutrição Medidas gerais Complicações Conclusões 59 PR OA MI S EM CA DDEFINIÇÃO O tétano é definido como uma intoxicação do sistema nervoso central (SNC) cau- sada pela exotoxina (tetanospasmina) do bacilo anaeróbico Clostridium tetani. O tétano é caracterizado por persistente espasmo tônico, com violentas exacerbações rápidas. O espasmo pode começar na musculatura do pescoço e mandíbula, causando fechamento das mandíbulas (trismus) e depois abranger os músculos do tronco, que são mais envolvidos do que os músculos dos membros.1 EPIDEMIOLOGIA Cerca de um milhão de casos de tétano ocorrem por ano no mundo, sugerindo uma incidência de 18 por 100.000 pessoas por ano. No entanto, essa estimativa é incerta. As taxas de mortalidade soam provavelmente subestimadas.2 Cvjetanovic cita uma taxa de mortalidade anual de 28 por 100.000 pessoas na África, 15 por 100.000 na Ásia, 0,5 por 100.000 na Europa, e menos de 0,1 por 100.000 na América do Norte.3 Oitenta por cento dessas mortes ocorrem na África e sudeste da Ásia, e a doença continua endêmica em cerca de noventa países do mundo. O maior fator associado à endemia do tétano é a falta de vacinação e a vacinação incompleta na população de risco, bem como a qualidade do toxóide tetânico e a estocagem inadequada, que contribuem para a falha da vacinação. A mortalidade tem diminuído progressivamente a partir da década de 1940, refletindo a melhora no cuidado intensivo desses pacientes. A taxa atual de mortalidade por tétano é de aproximada- mente 45%.4 No tétano acidental grave, a mortalidade variou de 40 para 60% na década de 1980 5 e de 30% para 18% na década de 1990 para aqueles casos que necessitaram de ventilação mecânica.6,7 O tétano neonatal é responsável por cerca de metade dos casos de tétano em todo o mundo e tem uma mortalidade de 60-90%. Um estudo de mortalidade neonatal em Bangladesh mostrou que o tétano foi responsável por 112 de 330 mortes nessa faixa etária.8 Há uma grande variação geográfica na incidência e mortalidade na forma neonatal da doença, apresentando uma relação inversa entre a extensão da imunização materna e a incidência. Em 1999, a Organização Mundial da Saúde relatou a maior taxa de incidência de tétano neonatal na Somália: 16,5 mortes a cada mil nascimentos vivos. 60 TÉ TA NO LEMBRAR No Brasil, observa-se uma tendência de redução no número de casos de tétano neonatal e aci- dental principalmente devido ao Programa Nacional de Imunização, mas, também, devido ao Programa de Eliminação do Tétano Neonatal com a vacinação de mulheres em idade fértil e gestantes e com a melhora da vigilância epidemiológica ativa dos casos de tétano neonatal. Deve-se referir, no entanto, que a ocorrência de tétano no Brasil é variável entre as diferentes regiões e localidades do país, com coeficientes de internação para cada 100.000 habitantes de 0,81 para Região Norte, 0,65 para Região Nordeste, 0,25 para Região Leste, 0,41 para Região Sul e de 0,47 para Região Centro-Oeste.7,9 A distribuição do tétano por faixa etária relaciona-se ao índice de desenvolvimento de cada país. Nos países em que a vacinação da população não é sistemática, o tétano ocorre mais em crianças e adultos jovens. Ao contrário, nos países com desenvolvimento sócioeconômico e edu- cacional, a doença atinge grupos de indivíduos em idade mais avançada, compostos por pessoas não-vacinadas ou com imunização não adequada.4,9 Observa-se uma maior ocorrência no sexo masculino, na proporção de 2:1, provavelmente por maior exposição dos homens aos traumatismos. No entanto, em determinadas regiões, há predominância do sexo feminino, principalmente na idade mais avançada. Isso se deve a maior proteção dos homens pela vacinação durante o serviço militar.9 Em países mais desenvolvidos, não há diferença na incidência de tétano em ambos os sexos. ETIOLOGIA O tétano é causado pelo Clostridium tetani, um bacilo anaeróbico, Gram-positivo, cujo organismo, em sua fase madura, perde os flagelos e forma um esporo terminal. O Clostridium tetani é sensí- vel ao calor e não sobrevive na presença de oxigênio. Em contraste, os esporos são resistentes a extremos de temperatura, umidade e tensão de oxigênio, podendo sobreviver indefinidamente. Os esporos podem ser isolados nas fezes de muitos animais (cavalos, ovelhas, gatos, cachorros, ratos, galinhas), no solo e em tapetes. Também podem ser encontrados na superfície da pele e na heroína contaminada. Dessa maneira, qualquer quebra nas defesas da pele, como, por exemplo, queimaduras, feri- das, mordidas de animais e humanos e mesmo insetos pode permitir a inoculação de esporos.10 As portas de entrada mais comuns são: ■■■■■ os membros inferiores; ■■■■■ infecções uterinas pós-parto e pós-aborto; ■■■■■ injeções intramusculares não-estéreis. O tétano também tem sido relatado após injeções intravenosas, colocação de piercing e infecções crônicas como otite média e úlcera de decúbito. 61 PR OA MI S EM CA DNo Brasil, o bicho-de-pé (Tunga penetrans) não é uma causa incomum de tétano.9 As lesões podem ser triviais e, em mais de 50% dos casos, ocorrem dentro de casa e, por isso, não são consideradas graves. Em 15 a 30% dos casos, a porta de entrada não é identificada.11 1. Defina o tétano e descreva suas principais características. ....................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ 2. Segundo a autora, qual é o maior fator associado à endemia do tétano? ....................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ 3. Cite as portas de entrada mais comuns para a inoculação de esporos. ....................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................PATOGENIA Em condições de anaerobiose em tecidos infectados e necrosados, o bacilo encontra as condi- ções ideais para secretar duas toxinas: a tetanospasmina e a tetanolisina. A tetanolisina tem a capacidade de causar dano local a tecidos sadios para otimizar as condi- ções locais de multiplicação bacteriana. A tetanospasmina, por sua vez, é a toxina que desen- cadeia a síndrome clínica do tétano. O gene da tetanospasmina é codificado em um plasmídeo de 75kb e sintetizado como um polipeptídeo único ainda inativo, com um peso molecular de 150.000kD, o que pode corresponder a até 5% do peso total do bacilo. O polipeptídeo sofre uma clivagem por proteases teciduais em dois fragmentos ligados por uma ponte dissulfídica, formando uma cadeia leve (L = light) e uma cadeia pesada (H = heavy). O terminal carboxila da cadeia H, chamado Hc, medeia a ligação aos gangliosídeos (GD1b, e GT1b) nas membranas dos nervos periféricos, causando a entrada da toxina nos neurônios. Após a entrada da toxina, as pontes dissulfídicas que ligam as cadeias L e H são desfeitas, liberando a cadeia L. A cadeia L é uma metaloprotease de zinco capaz de quebrar a sinaptobrevina, um dos compo- nentes da membrana celular essencial para a fusão das vesículas sinápticas com a membrana pré-sináptica. Desta forma, com a destruição da sinaptobrevina pela cadeia L, a liberação de neurotransmissores fica prejudicada, sendo essa a principal ação intracelular da toxina tetânica.12 62 TÉ TA NO LEMBRAR Tetanolisina Tetanospasmina Após ser internalizada nos terminais axônicos, a toxina é transportada retrogradamente dentro dos axônios até o corpo do neurônio com uma velocidade de 70 a 250mm/dia. O transporte ocorre primeiro em nervos motores e, após, em nervos autonômicos e sensitivos. Uma vez no corpo do neurônio, a toxina pode se difundir para outros neurônios próximos. Se a dose de toxina produzida for muito grande, ela pode se ligar a nervos periféricos, entrar na corren- te sangüínea e se conectar a terminais nervosos em todo o corpo. Os efeitos da toxina são conseqüência do bloqueio da liberação de neurotransmissores pelos neurônios afetados. A toxina tem um efeito predominante nos neurônios inibitórios, inibindo desse modo a liberação de glicina e ácido gama-aminobutírico (GABA). Com a inibição da liberação do GABA, os neurônios motores α ficam sem controle inibitório e entram em descarga excitatória contínua, causando espasmos musculares característicos do té- tano. Mais tarde, por serem mais longos, os neurônios simpáticos pré-ganglionares, nos cornos laterais da medula, e os centros parassimpáticos são afetados. Na verdade, a toxina age na medula espinhal, no tecido cerebral, nos nervos perifé- ricos, nas junções neuromusculares e diretamente nos músculos.11 Uma vez que os neurônios motores sejam afetados, a liberação de acetilcolina nas junções neuromusculares fica diminuída, sendo esse efeito similar ao da toxina botulínica, que produz uma paralisia flácida. Porém, no tétano, o efeito desinibitório nos neurônios motores sobrepuja qualquer diminuição da função da junção neuromuscular, causando fraqueza considerável entre os espasmos, e poden- do, ainda, ser responsável pelas paralisias de nervos cranianos, observadas no tétano cefálico, e pela miopatia, observada nos pacientes após a recuperação.12 As descargas aferentes causam rigidez muscular intensa e espasmos, os reflexos inibitórios dos músculos antagônicos são perdidos, e grupos musculares antagônicos contraem-se simulta- neamente. Esses espasmos musculares são extremamente dolorosos e podem levar a fraturas e ruptura de tendões. Músculos maxilares, faciais e da cabeça podem ser envolvidos primeiro, por terem axônios mais curtos. O tronco e membros são envolvidos em seguida, porém, os músculos periféricos das mãos e pés são geralmente poupados.11,12 4. Cite as características das toxinas secretadas pelo bacilo do tétano: 63 PR OA MI S EM CA D LEMBRAR 5. Descreva o processo patogênico do tétano. ....................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS Os sintomas clínicos iniciam após um período médio de incubação de três a dez dias (variação de um a 54 dias). Entende-se por período de incubação o momento da inoculação até o aparecimen- to do primeiro sintoma. Esse período reflete o tempo necessário para a germinação dos esporos e proliferação da bactéria, para a produção da toxina e a quantidade de tetanospasmina liberada,9 e a distância que a toxina tem que percorrer no sistema ner- voso. Após o período de incubação, inicia-se o período de progressão, que compreende o período entre o primeiro sintoma e o primeiro espasmo muscular reflexo. O período de progressão reflete o tempo de transporte intraneural da toxina dos neurônios periféricos até o SNC, o que leva de dez a catorze dias. No tétano acidental, o tempo de incubação é, habitualmente, de 24 a 72 horas, e de doze a 24 horas, no tétano neonatal. Nesse período, observam-se as manifes- tações neurológicas da toxina tetânica. Na forma generalizada, incluindo a forma neonatal, o paciente torna-se agitado, pode apresentar cefaléia, dores muscula- res e rigidez muscular. O pescoço e a mandíbula são afetados precocemente, causando trismo (espasmo tônico com fechamento das mandíbulas) e dificuldade de deglutição. A disfagia pode ser o único sintoma presente. A hipertonia de certos grupos musculares confere feições características da doença como o riso sardônico (espasmo dos músculos faciais), opistótono, rigidez abdominal em tábua e rigidez de nuca.9 Há envolvimento progressivo dos grupos musculares até o aparecimento de espasmos generali- zados, sem perda de consciência e extremamente dolorosos que podem ser provocados por qualquer tipo de estímulo (luminoso, tátil ou acústico) ou surgirem espontaneamente. Pode haver comprometimento respiratório com obstrução de via aérea alta durante as contrações. A rigidez muscular e as contraturas levam a alterações restritivas da caixa torácica, modificando a fisiologia respiratória. A incapacidade de tossir adequadamente, a rigidez e a sedação predis- põem à formação de atelectasias, incrementando o risco de pneumonias. 64 TÉ TA NO A produção copiosa de saliva e de secreção respiratória, o espasmo faríngeo e a estase gástri- ca aumentam o risco de aspiração. Também são comuns distúrbios da ventilação/perfusão, sen- do a hipoxia um achado freqüente em casos moderados a graves, com gradiente alvéolo–arterial de oxigênio aumentado, mesmo com radiografias torácicas normais. Há descrição na literatura de síndrome da angústia respiratória aguda (SARA) como uma compli- cação específica do tétano. Pode haver envolvimento também do diafragma e musculatura abdo- minal, levando à apnéia em pacientes inadequadamente tratados.9,12,13 Antes do advento da ven- tilação mecânica, a insuficiência respiratória era a maior causa de óbito.14 Dessa forma, a primeira semana da doença é caracterizada por rigidez e contraturas musculares com progressivo aumento de intensidade. As contraturas costumam redu- zir após duas a três semanas, mas a rigidez muscular pode persistir consideravelmente por mais tempo. DISFUNÇÃO AUTONÔMICA As manifestações autonômicas, em pacientes com tétano grave, iniciam muitos dias após o início das contraturase persistem por uma a duas semanas ou mais. Os efeitos do tétano no sistema nervoso autônomo foram descritos como uma síndrome autonômica característica, com marcada instabilidade cardiovascular. Os achados incluem: ■■■■■ hipertensão; ■■■■■ taquicardia; ■■■■■ irregularidades do ritmo cardíaco; ■■■■■ marcada vasoconstricção periférica; ■■■■■ sudorese profusa; ■■■■■ hipertermia; ■■■■■ aumento da excreção urinária de catecolaminas (hiperatividade do sistema nervoso simpático). Há sugestões que a tetanospasmina tenha um efeito similar ao da enzima conversora da angiotensina e que o componente de hipertensão, nestes pacientes, possa estar relacionado à angiotensina II, uma vez que o captopril antagoniza o efeito da tetanospasmina.15 Estes achados podem ser alternados com o rápido desenvolvimento de hipotensão, bradicardia e parada cardíaca (envolvimento do sistema parassimpático). Estas alterações parecem resultar, predominantemente, de alterações rápidas da resistência vascular sistêmica e não devido ao volume de enchimento ou performance cardíaca.16 A bradicardia parece ter relação com alterações no núcleo basal induzidas pelo tétano, levando a uma ação vagal excessiva.17,18 Observa-se, também, salivação profusa, aumento da secreção brônquica, estase gástrica, íleo adinâmico e diarréia. Começa então o período de recuperação da doença, que ocorre aproximadamente em quatro semanas, refletindo provavelmente a síntese e transporte dos constituintes pré-sinápticos. Na ausência de antitoxina, a doença persiste enquanto for produzida a tetanospasmina.9,12 65 PR OA MI S EM CA D Período de inoculação Período de progressão No tétano leve, a função renal está preservada. Porém, em casos graves, pode ser observada uma diminuição da taxa de filtração glomerular. As causas incriminadas pela perda de função renal incluem: ■■■■■ desidratação; ■■■■■ sepse; ■■■■■ rabdomiólise; ■■■■■ alterações do fluxo sangüíneo renal. 6. Caracterize: 7. Qual é o tempo habitual de incubação do tétano neonatal? Quais os sintomas apre- sentados pelo paciente? ....................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ 8. Cite os efeitos do tétano no sistema nervoso central. ....................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ 9. Em casos graves de tétano, o que pode causar a perda da função renal? ....................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ CLASSIFICAÇÃO O tétano pode ser acidental ou neonatal. No primeiro, o evento segue-se a um ferimento acidental. O segundo ocorre por contaminação do neonato durante o parto. TÉTANO ACIDENTAL O tétano acidental é tradicionalmente classificado em três tipos, conforme os grupos muscula- res afetados (Quadro 1): ■■■■■ generalizado; ■■■■■ localizado; ■■■■■ cefálico. 66 TÉ TA NO Tétano generalizado (acidental) Tétano localizado Tétano cefálico Presença da tríade clássica de manifestações clínicas: rigidez, es- pasmos musculares; e, quando tétano grave, disfunção autonômica (já descrita neste capítulo). Os sintomas de dor e rigidez muscular estão limitados à área envolvi- da. Geralmente classificado como leve, o tétano localizado pode persistir por meses sem progressão e com resolução espontânea. Forma de tétano localizado, o tétano cefálico pode apresentar como primeiro sintoma dor ou paresia na face, sendo uma rara complica- ção de cáries dentárias ou procedimentos dentários Apresenta prognóstico reservado e alta mortalidade. Têm sido descri- tos casos de tétano leve associados à otite média. LEMBRAR Essas distinções são úteis, mas não refletem diferenças e sim variações do sítio de ação da toxina, que predomina ou na junção neuromuscular ou no sistema inibitório.12 Quadro 1 CLASSIFICAÇÃO DO TÉTANO CONFORME GRUPOS MUSCULARES AFETADOS TÉTANO NEONATAL O tétano neonatal (tetanus neonatorum ou “mal de sete dias”)é uma forma generalizada, secun- dária à contaminação do cordão umbilical por cuidados inadequados e ocorre em crianças cujas mães não são imunizadas. O quadro clínico aparece em torno de cinco a treze dias após a contaminação. O bebê apresenta dificuldade de sucção, surgindo após trismo e disfagia. Os membros superiores ficam em hiperflexão, junto ao tórax, com as mãos em flexão forçada. O opistótono pode ser intenso, acompanhado de riso sardônico, olhos cerrados, fonte pregueada e lábios contraídos.9 A síndrome autonômica é comum e, muitas vezes, a causa da morte.12,19 FATORES PROGNÓSTICOS O prognóstico no tétano se relaciona à gravidade da doença, idade do paciente e complica- ções associadas. As crianças e os idosos apresentam pior prognóstico, assim como o desenvol- vimento temporal dos sintomas. Independentemente do tipo de tétano, quanto menor for o período de incubação, pior será o prognóstico. Um período de progressão menor de 48 horas também prognostica tétano grave.9 A instabilidade autonômica que ocorre freqüentemente no tétano grave se associa com prognóstico reservado.14 67 PR OA MI S EM CA D Grupo Leve Moderada Grave Sintomas Rigidez e espasmos leves Rigidez e espasmos mais intensos e disfagia Rigidez e espasmos intensos e freqüentes, disfagia, insuficiência respiratóra ou apnéia Pontuação 0-1 2-3 4 5-6 Gravidade Leve Moderada Grave Muito grave Taxa de mortalidade (%) <10 10-20 20-40 >50 A porta de entrada é outro fator importante no prognóstico: as queimaduras, a infecção de cordão umbilical, os procedimentos cirúrgicos, as fraturas, o aborto séptico e as injeções intramusculares estão associadas a uma menor chance de recuperação. Aditos a narcóticos parecem desenvolver um tétano particularmente severo.20 Fatores prognósticos em tétano neonatal incluem: ■■■■■ idade menor de dez dias, ■■■■■ riso sardônico, ■■■■■ febre. Cerca de 30% de tétano neonatal ocorre em crianças nascidas de mães que já tiveram pelo menos uma criança com a doença, mostrando a falha na imunização das mães como maior contribuição para esta condição. Várias escalas têm sido desenvolvidas para definir gravidade e prognóstico. A seguir, apresenta- mos duas delas: a escala de Veronesi (Tabela 1) e a escala de Ablett (Quadro 2) modificada. Na escala de Veronesi, atribui-se 1 ponto para cada um dositens abaixo: A. Período de incubação < 7 dias. B. Período de progressão < 48 horas. C. Porta de entrada de alto risco. D. Tétano generalizado. E. Temperatura corporal > 40oC. F. Taquicardia (FC > 120bpm em adultos; > 150bpm em neonatos). Tabela 1 PONTUAÇÃO DA ESCALA DE VERONESI Exceções: tétano cefálico é grave ou sempre grave, e tétano neonatal é sempre muito grave. Quadro 2 ESCALA DE ABLETT MODIFICADA 68 TÉ TA NO DIAGNÓSTICO E DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL O diagnóstico do tétano é exclusivamente clínico, sendo que exames laboratoriais são utilizados para excluir outros diagnósticos ou determinar a imunidade. O tétano cefálico e o tétano generalizado são de fácil reconhecimento desde que se levante a suspeita. Já a forma neonatal inicial pode ser mais difícil de ser reconhecida, mas com a evolu- ção torna-se óbvia. O tétano localizado é mais difícil de ser detectado precocemente. Poucos pacientes têm apre- sentação atípica, sendo que a não identificação de uma porta de entrada não exclui o diagnóstico. Todos os pacientes devem ser avaliados no sentido de identificar a utilização de drogas parenterais, manipulação vaginal, injeções e procedimentos cirúrgicos recentes e pre- sença de otite.9,11,12 Entre os diagnósticos diferenciais, a intoxicação por estricnina é a que mais se assemelha ao tétano. No entanto, a falta de rigidez abdominal entre os espasmos pesa a favor de intoxicação por estricnina, e a presença de trismo favorece o diagnóstico de tétano. Quando houver suspeita de intoxicação por estricnina, devem ser realizadas análises bioquímicas séricas e urinárias do nível desse fármaco. Reações distônicas ao bloqueio da dopamina envolvem a presença de torcicolo e crises oculogíricas, que não fazem parte do diagnóstico de tétano. Na meningite, a rigidez de nuca pode lembrar a rigidez do tétano; no entanto, as outras manifes- tações resolvem o diagnóstico: lembrar que o liquor, no tétano, é normal. Os abscessos dentários podem simular trismo; no entanto, a presença de sinais inflamatórios, de dor e a ausência de espasmos e rigidez permitem o diagnóstico. Nos estados convulsivos com convulsões generalizadas, a perda de consciência, sem espas- mos, indica o diagnóstico. A síndrome do stiff-man (homem rijo) tem início insidioso, com envolvimento mínimo de pares cranianos, sem espasmo, com rigidez muscular flutuante, que alivia durante o sono.9,11,12 Algumas desordens psicogênicas podem simular alguns movimentos dos pacientes tetânicos, mas a postura é inconsistente e não há a rigidez característica. Quando disponíveis, os níveis séricos de antitoxina podem auxiliar no tratamento e diagnóstico. Níveis séricos ≥ 0,01 IU/mL são considerados protetores, tornando o diagnóstico de tétano me- nos provável.4 O diagnóstico diferencial no tétano neonatal deve ser feito com convulsões, sepse e meningite. 69 PR OA MI S EM CA D Tétano generalizado Tétano neonatal 10. Descreva as características de: 11. Cite as portas de entrada que são fatores importantes no prognóstico. ....................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ 12. Quais são os fatores prognósticos no tétano neonatal? ....................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ 13. Segundo o Quadro 2, quais são os sintomas do tétano grave? ..................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ 14. No diagnóstico do tétano, para qual finalidade são utilizados os exames laboratoriais? ....................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ 15. Qual deve ser a conduta frente à suspeita de intoxicação por estricnina no diagnós- tico diferencial? ....................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ 70 TÉ TA NO TRATAMENTO Os objetivos do tratamento do tétano são: 4,9-12 ■■■■■ Manutenção da via aérea; ■■■■■ Neutralização da toxina; ■■■■■ Controle dos espasmos e contraturas; ■■■■■ Controle da disfunção autonômica; ■■■■■ Nutrição. O paciente com tétano generalizado necessita de cuidados intensivos (devido ao envolvimento da musculatura respiratória), que são justificados devido à necessidade de anestesia geral com ventilação mecânica prolongada e de medicações tituladas. A instituição dessas medidas foram acompanhadas de redução das taxas de mortalida- de.14,19 MANUTENÇÃO DA VIA AÉREA O freqüente envolvimento da musculatura respiratória faz mandatória a manutenção de cuidados especiais com a via aérea pérvia. A indicação para a colocação de um tubo orotraqueal ou de realização de uma traqueostomia obedece aos mesmos princípios dos pacientes não-tetânicos. Se possível, a traqueostomia deve ser realizada à beira do leito para evitar estimulação desne- cessária, podendo-se optar pela traqueostomia peicutânea, se disponível. NEUTRALIZAÇÃO DA TOXINA Identificação da porta de entrada Devemos localizar a porta de entrada e, se houver indicação cirúrgica, fazer o desbridamento após o controle das contraturas. Este pode ser realizado nas primeiras 24 horas, preferencial- mente seis horas após a imunização. Quando o ferimento estiver infectado, indica-se o uso de antibióticos. Imunoterapia A imunoterapia,realizada para reduzir o curso da doença e sua gravidade, é obtida com a neutralização da tetanospasmina que ainda não entrou no sistema nervoso central, uma vez que a toxina que já se encontra no neurônio motor não está mais disponível para neutralização pelo anticorpo. O tratamento de pacientes com tétano baseia-se em estudos prospectivos e séries de caso. 71 PR OA MI S EM CA DImunização passiva A imunização passiva é realizada com a imunoglobulina humana ou eqüina, que deve ser administrada o mais rápido possível para bloquear a toxina circulante. A admi- nistração deve ser por via intramuscular na dose de 500 a 3.000 UI. Um trabalho randomizado com imunoglobulina antitetânica humana por via intratecal (1.000 UI) e intramuscular (3.000 UI) versus intramuscular isolada mostrou uma maior progressão da doença naqueles pacientes que receberam imunoglobulina intratecal junto com intramuscular.21 A administração de imunoglobulina intravenosa pode ser uma alternativa útil para pacientes em que a injeção intramuscular esteja contra-indicada, e somente com produto que tenha ativida- de antitetanospasmina. A imunoglobulina humana é isolada de um pool de plasma derivado de doadores imunes saudá- veis, e tem uma meia vida de 24 a 31 dias. A forma eqüina é mais disponível. Embora tenha uma maior incidência de reações anafiláticas e uma meia vida de apenas dois dias, é, porém, muito mais barata. Reações anafiláticas ocorrem em 20% dos casos e, em 1% deles, em grau grave o bastante para necessitar tratamento com adrenalina, anti-histamínicos e fluidos intravenosos. Se disponível, a imunoglobulina humana deve ser administrada. Imunização ativa Em adição à imunização passiva, a vacinação ativa com o toxóide tetânico precisa ser administrada a todos os pacientes. As imunizações passivas e ativas interagem para diminuir os efeitos da doença. Conforme a imunidade passiva diminui, inicia a imunidade humoral e celular, conferidas pela imunização ativa. A administração do toxóide e da imunoglobulina devem ser feitos em diferentes locais do corpo para evitar a interação no local da injeção. O toxóide tetânico é produzido através do tratamento da toxina com formaladeído e sua imunogenicidade é aumentada através da absorção com hidróxido de alumínio. O toxóide é dis- ponível em uma preparação única ou combinado com a vacina da difteria (pediátrica DT ou adulto Td) e com a vacina acelular da pertussis (DTaP). Reações ao toxóide tetânico ocorrem em um a cada 50.000 injeções, a maioria sem gravidade, como edema, calor local e sintomas gripais. Porém, reações graves têm sido descritas, como a síndrome de Guilliain-Barré. Ferimentos potencialmente contaminados em pacientes com história vacinal incerta ou que rece- beram de zero a duas doses de toxóide no passado, devem receber uma dose de 250 UI de imunoglobulina mais o toxóide tetânico. A Tabela 2 resume a recomendação para o manejo imune em pacientes com ferimentos: 72 TÉ TA NO História vacinal Desconhecida ou < 3 doses Três doses completas Td Sim Não* Feridas limpas e pequenas IGT Não Não Td Sim Não** Todas as outras feridas IGT Sim Não Diazepam Lorazepam A dose inicial é de 5 a 10mg EV, sendo aumentada progressivamente para controle das contraturas, em incrementos geralmente de 10mg por hora. Em pacientes adultos com tétano grave, têm sido usados até 800 a 3.200mg em 24 horas. Do ponto de vista teórico, pode ocorrer acidose metabólica com as altas doses pelo diluente (propileno-glicol) de sua formulação. Dose pediátrica: 0,1-0,8 mg/kg/dia, VO para pacientes com espasmos leves, e de 0,1-0,3 mg/kg, EV, a cada 4-8 horas nos casos moderados ou graves. O lorazepam é um benzodiazepínico de ação prolongada e pode ser nacessário em dose maior que 200mg por dia. A dose habitual de sedação é de 0,5 a 5mg/h, mas no tétano grave, a dose média é de 96mg/h, em infusão endovenosa contínua. O lorazepam endovenoso não está disponível no Brasil. A indusão endovenosa para sedação é feita com 10 a 15mg em adultos com velocidade de infusão de 0,1 a 0,3mg/kg. No tétano, a dose é variável de 0,6 a 4,6mg/kg por dia. Tabela 2 CONDUTA DE IMUNIZAÇÃO ATIVA EM PACIENTES COM FERIMENTOS Onde: Td = toxóide, IGT= Imunoglobulina tetânica. * = Sim, se > 10 anos desde a última dose. ** = Sim, se > 5 anos desde a última dose. Adaptado de The Centers for Disease Control and Prevention. Recommended childhood immunization schedule - United States, 2000.JAMA 2000; 283:876. CONTROLE DOS ESPASMOS E CONTRATURAS Agentes antiespásticos Os benzodiazepínicos (Quadro 3) são os melhores agentes para diminuir a espasticidade e produzirem relaxamento da musculatura. Esses fármacos são agonistas GABA e antagonizam indiretamente os efeitos da toxina nos sistemas inibitórios. A farmacocinética desses agentes não foi estudada no tétano, sendo excepcionais a dose e a duração utilizadas.4,19 Os fármacos desse grupo usados em tétano são diazepam, lorazepam e midazolam. Quadro 3 AGENTES ANTIESPÁSTICOS: BENZODIAZEPÍNICOS NOTA: Após a utilização endovenosa de benzodiazepínicos, eles devem ser administrados por via oral, de modo a permitirem uma retirada gradativa, pois podem produzir síndrome de abstinência. 73 PR OA MI S EM CA D Propofol Baclofen intratecal Clorpromazina O propofol é um sedativo que tem sido proposto como um adjunto útil devido a sua curta duração de ação. A dose de manutenção é de 0,3 a 3μμμμμg/kg/h. Agonista do GABA que pode diminuir a necessidade de sedação e de suporte ventilatório em pacientes tetânicos. Dose de 500-2000mg/dia. Em alguns casos não responsivos aos benzodiazepínicos, a associação com a clorpromazina pode auxiliar no controle das manifestações neuromusculares, nas doses de 50 a 300mg por via endovenosa por dia em adultos, ou 1mg/kg/dia em recém-nascidos. Outros fármacos No Quadro 4, são apresentados outros fármacos utilizados no controle de espamos e contraturas. Quadro 4 OUTROS FÁRMACOS ANTIESPÁSTICOS NOTA: Embora outros fármacos, como barbitúricos e neurolépticos, tenham sido empregados para sedação de pacientes tetânicos, eles são considerados agentes menos eficientes para esse propósito. Bloqueio neuromuscular Se a progressão das contraturas for muito importante e não controlada com o uso isola- do de benzodiazepínico (na dose de pelo menos 10mg/h) e se os espasmos interferi- rem com a ventilação mecânica, acrescenta-se um bloqueador neuromuscular, lem- brando-se de manter o paciente sedado. Brometo de pancurônio A dose inicial de 0,06-0,1mg/kg seguida de infusão contínua de 0,3 a 0,6μg/kg/min ou mais para conseguir o controle das contraturas. Pode causar taquicardia, hipertensão e elevação do débito cardíaco, sinais que podem ser confundidos com os efeitos autonômicos do tétano. Dose pediátrica: 0,04μg/kg/dose, EV, ou em infusão contínua. Vecurônio O vecurônio induz menor instabilidade autonômica. Pode ser utilizado na dose de ataque de 0,1 a 0,12mg/kg e de infusão contínua de 6-8mg/h. 74 TÉ TA NO Benzodiazepínicos: Outros fármacos: LEMBRAR Atracurônio O atracurônio tem sido utilizado em pacientes tetânicos, mas devido ao efeito convulsivante po- tencial do seu produto de degradação, a laudanosina, não está recomendado. Durante o bloqueio neuromuscular, o paciente deve estar adequadamente sedado. 16. Por que o paciente com tétano generalizado necessita de cuidados intensivos? ....................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................ ................................................................................................................................................................................................................................................................................................................ 17. Em que consiste a imunização passiva? ....................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ 18. Cite as principais características da imunização ativa. ....................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ 19. Qual é a ação dos agentes antiespásticos: 20. Por que os benzodiazepínicos devem ser administrados por via oral? ....................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ 21. Qual é a contra-indicação do brometo de pancurônio? ....................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ 75 PR OA MI S EM CA D Propanolol Labetalol Esmolol O propanolol tem sido questionado devido sua relação com morte súbita em pacientes tetânicos, provavelmente associada à insuficiência cardíaca decorren- te de miocardite tetânica. Quando utilizado, a dose deve ser baixa, de 10 a 30mg por via oral por dia. O labetalol tem sido preferido pela sua maior rapidez de ação e menor meia- vida. Tem efeitos α e β-adrenérgicos associados. Quando usado, a dose é de 0,25 a 1mg/min, por via endovenosa. O esmolol tem sido usado com sucesso no controle de taquicardias com fre- qüências maiores do que 200bpm em tétano neonatal. CONTROLE DA DISFUNÇÃO AUTONÔMICA O tratamento de escolha do estado de hiperatividade simpática do tétano é a reposição de volume para manter o volume circulante adequado, a sedação já mencionada e o bloqueio alfa e betaadrenérgico combinados. O bloqueio betaadrenérgico isolado permite uma resposta alfaconstritora sem oposição. Em alguns casos, porém, ocorre hiperatividade parassimpática, devendo ser utilizados bloqueadores parassimpáticos. Morfina A morfina tem se mostrado efetiva no distúrbio autonômico do tétano, embora seu mecanismo de ação seja incerto. Uma hipótese seria que a morfina possa compensar a liberação de opiáceos endógenos. A tetanospasmina inibe a liberação de encefalinas, o que poderia ter um papel na modulação do sistema autonômico. A dose de ataque utilizada é de 5mg seguida por infusão contínua de 0,05 a 0,1μg /kg/min ou 5mg de três em três horas, por via endovenosa. Parece ser mais efetiva quando associada à clonidina. Clonidina A clonidina faz estimulação dos receptores α 2-adrenérgicos no tronco cerebral, aumenta o tono vagal, produz sedação e diminuição da atividade motora espontânea por não bloquear os recep- tores adrenérgicos periféricos. Tem sido utilizada na dose de até 300mg/dia (em adultos). Nos Quadros 5 e 6, são apresentados exemplos de betabloqueadores e outros fármacos utiliza- dos no tratamento farmacológico do tétano. Quadro 5 BETABLOQUEADORES 76 TÉ TA NO LEMBRAR Sulfato de magnésio Atropina O sulfato de magnésio tem sido empregado para controlar a taquicardia supraventricular em pacientes tetânicos. Em altas doses, pode produzir blo- queio neuromuscular. A dose inicial empregada no tétano é de 37mg/kg, e a dose de manutenção de 25mg/kg/h, em infusão contínua. A atropina foi testada no tétano em infusão contínua, em doses altas de até 5g/ dia, com resultado satisfatório em uma série de casos. Além disso, nos pacien- tes com excessivo tono parassimpático, devemos considerar o uso de marca- passo se houver bradicardia ou assistolia. Quadro 6 OUTROS FÁRMACOS UTILIZADOS NO TRATAMENTO DO TÉTANO NOTA: O tratamento farmacológico do tétano baseia-se em séries e relatos de caso. NUTRIÇÃO A atividade muscular exagerada e a atividade autonômica excessiva produzem um gasto energético importante. Quando o paciente está sedado, as necessidades metabólicas são similares a dos outros pacientes criticamente enfermos. A dieta deve conter calorias e proteínas necessárias para manter um balanço nitrogenado positivo. O manejo nutricional habitual em tétano grave é feito por sonda nasoentérica, sendo que a dieta parenteral está indicada apenas se não houver possibilidade de usar essa via. MEDIDAS GERAIS Cuidados com a via aérea, fisioterapia respiratória e aspiração traqueal regular são necessários para evitar complicações ventilatórias, como atelectasias, colapso lobar e pneumonia, principal- mente pelo aumento da produção de secreção respiratória que ocorre no tétano. Deve ser atenta- mente observada a possibilidade de complicações infecciosas e outras relacionadas ao uso de cateteres. Quando possível, a gastrostomia endoscópica percutânea deve ser realizada, pois di- minui as complicações associadas com a sonda nasoenteral. A profilaxia da hemorragia digestiva deve ser considerada em todos os pacientes com tétano grave que necessitem de ventilação mecânica. São necessários hidratação adequada, correção dos distúrbios hidroeletrolíticos, controle laboratorial e manutenção do quarto silencioso para evi- tar estímulos externos. Devem ser estabelecidas medidas para evitar complicações tromboembólicas, através de meias elásticas, fisioterapia nos membros e heparina subcutânea. 77 PR OA MI S EM CA DCOMPLICAÇÕES As complicações do tétano grave podem ser decorrentes da doença, do tratamento, ou do su- porte de terapia intensiva. As complicações do tétano resultam da paralisia respiratória e da hipoxia secundária que podem ocorrer pelo tratamento inadequado ou tardio. A disautonomia pode levar a complicações cardiovasculares, incluindo arritmias e miocardiopatia. A insuficiência renal por rabdomiólise ocorre com cretininofosfoquinase maior que 5.000U/ml ou se for detectada mioglobinanúria. No entanto, hidratação e controle adequado das contraturas podem evitar esta complicação. Neuropatia frênica e laríngea e outras neuropatias podemocorrer. Cuidados especiais devem ser tomados com os pacientes curarizados e sedados para evitar a compressão e lesão do nervo fibular, o que produz o pé eqüino. Atualmente, as infecções do trato respiratório e urinário, associadas à utilização de ventilação mecânica prolongada e de cateteres, adiciona uma maior morbidez e mortalidade a esses pacien- tes. CONCLUSÃO O tétano é uma doença que demonstra uma disparidade de incidência entre os países desenvol- vidos e subdesenvolvidos. Apesar das medidas terapêuticas e do manejo em Medicina Intensiva diminuírem a mortalidade, as medidas de prevenção com vacinação universal e esquemas de vacinação simples poderiam evitar a morbidez e a mortalidade desta doença. 22. Quais são as indicações de uso da morfina no tratamento do tétano? ....................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ 23. Por que o uso do propanolol em pacientes tetânicos tem sido questionado? ....................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ 24. Qual deve ser a dieta indicada para pacientes tetânicos? ....................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ 78 TÉ TA NO 25. Quais as medidas necessárias para evitar complicações ventilatórias? ....................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ 26. O que deve ser feito para evitar complicações tromboembólicas? ....................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ 27. Cite as medidas gerais indicadas no cuidado do paciente tetânico. ....................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ 28. O que pode provocar complicações do tétano grave? ....................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ 29. Segundo a autora, qual é a mais eficiente medida de prevenção do tétano? ....................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1. Gowers WR. A manual of diseases of the nervous system. Philadelphia: Blackinton; 1888. 2. Edsall G. Proceedings of the fourth international conference on tetanus. In: Merieux F. editor. Dakar: Fondation Merieux; 1975. p. 19-20. 3. Cvjetanovic B. Public health aspects of tetanus control. In: Veronesi R. editor. Tetanus: important new concepts. Amsterdam: Excerpta Medica. 1981:1-7. 4. Dire JD. Tetanus [Internet]: eMedicine Journal; 2001. 5. Vieira SRR, Tedoldi CL, Costa MBG, Teixeira CG. Tétano - experiência de sete anos no tratamento de pacientes tetânicos. Rev Bras Terap Intens 1989; 1:13-7. 79 PR OA MI S EM CA D6. Bardenheier B, Prevots DR, Khetsuriani N, Melinda W. Tetanus surveillence - United States, 1995-1997. MMWR (Morbidity and Mortality Weekly Report CDC Surveillence Summ) 1998;47(SS-2):1-13. 7. MS/FNS/CENEPI ed. Informe Epidemiológico do SUS: MS; 1992. 8. Cvjetanovic B, Grab B, Uemura K, BB. Epidemiological model of tetanus and its use in the planning of immunization programmes. Int J Epidemiol 1972;1:125-37. 9. Veronesi R, Focaccia R, Tavares W, Mazza CC. Tétano. In: Veronesi RF. editor. Tratado de infectologia. São Paulo: Atheneu; 1999:887-913. 10.Brauner J, Vieira S. Tétano. In: David CM. editor. 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Mestre em Ciências Médicas e doutora em Engenharia de Produção pela UFSC. RACHEL DUARTE MORITZ INTRODUÇÃO A ansiedade dos pacientes internados em Unidade de Terapia Intensiva (UTI) é multifatorial. A inabilidade para a comunicação, o medo da morte, o sono inconstante e a própria dinâmica operacional das UTIs são fatores que contribuem para que os pacientes internados nesses setores se sintam extremamente angustiados e desenvolvam quadros depressivos ou psicóticos. Diminuir o desconforto desses pacientes tem-se tornado parte primordial da prática em medi- cina intensiva. Esse objetivo tem sido alcançado através do desenvolvimento de novos fármacos mas também tem sido buscado devido à constatação de que um maior conforto do paciente tem influência na morbimortalidade, no tempo de internação e no custo do tratamento do paciente crítico. Diante de um paciente agitado, o médico intensivista deve afastar causas reversíveis dessa agitação, tais como hipoxemia, hipoglicemia, hipotensão, dor, abstinência a fármacos, pneumotórax, etc. Entretanto, o profissional deve, concomitantemente, providenciar a admi- nistração da terapêutica analgésica e sedativa específica.1,2 OBJETIVOS Ao final da leitura deste capítulo, esperamos que você possa: ■■■■■ identificar os principais fármacos e dosagens usados para na sedação e analgesia em UTI; ■■■■■ empregar adequadamente técnicas de sedoanalgesia em situações clínicas comuns; ■■■■■ identificar os principais bloqueadores neuromusculares e seu uso em UTI. 82 AT UA LIZ AÇ ÃO D OS FÁ RM AC OS AN AL GÉ SIC OS , S ED AT IVO S E BL OQ UE AD OR ES N EU RO MU SC UL AR ES U TIL IZA DO S E M UT I ESQUEMA CONCEITUAL Atualização dos fármacos sedativos, analgésicos e bloqueadores neuromusculares em UTI Analgesia em UTI Objetivos Fármacos utilizados Opióides Outros fármacos Técnicas analgésicas Sedação em UTI Benzodiazepínicos Propofol α2-agonistas Quetamina Sedoanalgesia em situações clínicas comuns Bloqueadores neuromusculares Aminoesteróies Pancurônio Vecurônio Rocurônio Benzil-isoquinolínicos Atracúrio Cis-atracúrio Resumo Fármacos utilizados Morfina Fentanil Meperidina Remifentanil Tramadol Quetamina e α-agonistas AINES Antidepressivos Diazepam Lorazepam Midazolam Hipertensão intracraniana Instabilidade hemodinâmica SARA Broncoespasmo Ventilação mecânica no pulmão normal, sem instabilidade hemodinâmica Pós-operatório em ventilação mecânica, sem instabilidade hemodinâmica Desmame de ventilação mecânica Procedimentos invasivos Paciente em ventilação mecânica 83 PR OA MI S EM CA D1. A partir de sua prática médica, elabore um algoritmo contemplando conhecimentos e procedimentos quanto à sedoanalgesia em UTI. Caso clínico 1 Paciente sob ventilação mecânica há sete dias, sem perspectiva de desmame e sedoanalgesiado com midazolam (0,25mg/kg/h) e fentanil (3μg/kg/h). Apresenta-se agi- tado (Ramsay=1) taquicárdico e com níveis tensionais elevados. 2. Assinale a conduta terapêutica mais adequada: A) Aumentar a dose de midazolam para 0,3mg/kg.h. B) Aumentar a dose de fentanil para 3μg/kg/h. C) Associar quetamina ao esquema terapêutico. D) Associar clonidina ao esquema terapêutico. Justifique sua resposta. ....................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ (Veja a resposta e comentário para a questão 2 ao final do capítulo). ANALGESIA EM UTI Analgesia é definida como atenuação ou ausência de sensação dolorosa. Para- doxalmente, é freqüente, no âmbito hospitalar, a abordagem inadequada dos qua- dros álgicos, ignorando-se muitas vezes que todo paciente tem o direito à analgesia e ao manuseio adequado da dor. A multiplicidade de cenários clínicos observados nas UTIs exige que a hipnoanalgesia seja plane- jada e que a estratégia e o objetivo terapêutico sejam estabelecidos de modo personalizado.1-3 Alan Brook e colaboradores,4 em 1999, analisando o impacto da utilização de um protocolo de sedação e analgesia, assim como Mascia e colaboradores,5 em 2000, dirigindo um estudo farmacoeconômico, demonstraram que a uniformização da conduta para sedação, analgesia e bloqueio neuromuscular (BNM) implica redução significativa no tempo de ventilação mecânica (VM), na permanência na UTI e no custo do tratamento, sem interferir no índice de mortalidade. 84 AT UA LIZ AÇ ÃO D OS FÁ RM AC OS AN AL GÉ SIC OS , S ED AT IVO S E BL OQ UE AD OR ES N EU RO MU SC UL AR ES U TIL IZA DO S E M UT I Particularidade clínica • Hipertensão intercraniana. • Doenças cardiovasculares. • Doenças respiratórias. • Pós-operatório e trauma. • Delirium e agitação. • Tolerância e abstinência. • Insuficiência renal. • Insuficiência hepática. • Coagulopatia. • Gravidez. Quadro hemodinâmico • Hemodinamicamente estável. • Hemodinamicamente instável. Quadro ventilatório • Ventilação mecânica convencional • Suporte ventilatório avançado • Desmame ventilatório • Sem ventilação mecânica (IAM, pós-operatório) Intensidade da dor • Leve • Moderada • Intensa O nível de hipnoanalgesia a ser atingido deve ser definido de acordo com as particularidades de cada paciente. Essa definição é importante para que seja evi- tada a hiper e a hipoanalgesia. Subestimar a necessidade de sedação e analgesia implica: ■■■■■ hipermetabolismo; ■■■■■ retenção de água e sódio; ■■■■■ sobrecarga cardiovascular e respiratória; ■■■■■ íleo; ■■■■■ distúrbios de coagulação; ■■■■■ atraso na cicatrização de feridas. Por outro lado, o aprofundamento excessivo do nível de sedação, conseqüente à utilizaçãofreqüente de fármacos analgésicos e sedativos de meia-vida longa, poderá acarretar, aos pacientes: ■■■■■ trombose venosa; ■■■■■ infecção pulmonar; ■■■■■ tolerância; ■■■■■ síndrome de abstinência aos fármacos utilizados; ■■■■■ aumento no tempo da ventilação mecânica; ■■■■■ aumento no tempo de internação hospitalar, com conseqüente aumento do custo financeiro do tratamento instituído.1,5 Para que a terapêutica analgésica seja estabelecida, é necessário que o médico: ■■■■■ Reconheça o perfil (quadro clínico) dos seus pacientes (ver Quadro 1); ■■■■■ Estabeleça o objetivo da hipnoanalgesia (conforto ou terapêutico); ■■■■■ Defina, com base em escalas de monitoração, quais são os níveis desejados de sedação, analgesia e de atividade muscular; ■■■■■ Escolha o fármaco e a via de administração que melhor atendam às necessidades de analgesia do paciente. No Quadro 1, a seguir, você encontrará os itens a serem observados para reconhecimento do perfil clínico de um paciente internado em UTI. Quadro 1 PERFIL CLÍNICO DO PACIENTE INTERNADO EM UTI 85 PR OA MI S EM CA D ( ) hipermetabolismo. ( ) síndrome de abstinência aos fármacos utilizados. ( ) aumento no tempo da ventilação mecânica. ( ) sobrecarga cardiovascular e respiratória. ( ) tolerância. ( ) aumento no tempo de internação hospitalar. ( ) distúrbios de coagulação. ( ) íleo. ( ) trombose venosa e infecção pulmonar. ( ) atraso na cicatrização de feridas. OBJETIVOS DA ANALGESIA A terapia analgésica otimizada deve proporcionar conforto e auxílio terapêutico ao paciente. O conforto deve ser considerado como uma questão ética, pois o alvo de toda a atenção do médico é proporcionar bem-estar a seu paciente. O auxílio terapêutico é uma maneira importan- te de prevenir ou minorar as conseqüências da resposta metabólica ao estresse. O objetivo terapêutico fundamental da analgesia reside na modulação da demanda e do consumo tecidual de oxigênio, fundamental em pacientes com hipertensão intracraniana, instabilidade hemodinâmica, síndrome da angústia respiratória aguda (SARA), broncoespasmo grave ou naqueles sob desmame da ventilação mecânica.1 É importante ressaltar que a monitoração do controle da dor e do nível de sedação provocado pelos fármacos utilizados não pode ser deixada em segundo plano. A monitoração dos pacientes que não podem se comunicar deve ser feita a partir da observação dos movimentos ou da postura no leito e da expressão facial do paciente, assim como devem ser avaliadas a freqüência cardía- ca, a pressão arterial e a freqüência respiratória.1 3. Discrimine as seguintes implicações entre (S) - subestimação da importância da sedação e analgesia (hipoanalgesia) e (E) – excessivo nível de sedação (hiperanalgesia): 4. Que considerações são importantes para que a terapêutica analgésica seja estabelecida e atenda aos objetivos a ela preconizados? ....................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ 5. Quais os principais fármacos utilizados para analgesia venosa em UTI e quais seus efeitos colaterais? ....................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ 86 AT UA LIZ AÇ ÃO D OS FÁ RM AC OS AN AL GÉ SIC OS , S ED AT IVO S E BL OQ UE AD OR ES N EU RO MU SC UL AR ES U TIL IZA DO S E M UT I Vantagens Indicações Contra-indicações Dosagens Efeitos colaterais e desvantagens Promove analgesia adequada como agente único com pico de ação entre 45 e noventa minutos. Age por cerca de quatro horas após dose em bolo. Tem baixo custo financeiro. Analgesia de pacientes com dor moderada ou intensa, sem instabilidade hemodinâmica e sem broncopatias. Causa diminuição do retorno venoso no edema pulmonar cardiogênico. A morfina está contra-indicada em pacientes com instabilidade hemodinâmica, hipovolemia, asma brônquica e bronquite crônica. Ataque: 0,01 a 0,015mg/kg IV. Manutenção: 0,01 a 0,015mg/kg IV de 2/2 horas ou 0,07 a 0,5 mg/kg/h em infusão contínua. Devido à indução de liberação de histamina por parte da morfina, há o risco de broncoespasmo, hipotensão grave, prurido, sedação prolongada em pacientes com insuficiência renal, íleo adinâmico, vômitos, retenção urinária e depressão respiratória. Pacientes com insuficiência hepática podem não ter problemas com hiperssedação graças a sítios extra-hepáticos de metabolização da morfina. O espasmo de esfíncter de Oddi é menos freqüente com o uso de morfina. FÁRMACOS UTILIZADOS PARA ANALGESIA VENOSA EM UTI OPIÓIDES Os opióides são a base da analgesia efetiva em pacientes de terapia intensiva. Es- ses fármacos têm propriedades semelhantes às do ópio e agem em receptores es- pecíficos (mu, kappa, delta e sigma) no cérebro e na medula. Dentre os opióides, a morfina e o fentanil são os mais utilizados em UTI. Morfina1,2,6 A morfina foi isolada em 1806 e é considerada como fármaco padrão dos opióides. No Quadro 2, apresentamos as vantagens, indicações, contra-indicações, dosagens, efeitos colaterais e des- vantagens desse fármaco. Quadro 2 MORFINA 87 PR OA MI S EM CA D Vantagens Indicação Dosagens Efeitos colaterais e desvantagens O fentanil é muito lipossolúvel, portanto cruza a barreira hematoencefálica com muita rapidez, proporcionando um rápido início de ação (trinta segundos). Não induz à liberação de histamina, podendo ser utilizado em pacientes com instabilidade hemodinâmica e broncoespasmo. Analgesia potente dos pacientes gravemente enfermos, com instabilidade hemodinâmica. Ataque: 0,5 a 1,5mg/kg. Manutenção: 0,5 a 3mg/kg/hora. Estas doses devem ser tituladas conforme a resposta clínica. Hipotensão, que pode ocorrer em pacientes hipovolêmicos, não por depressão miocárdica ou vasodilatação provocada pelo fentanil, mas pela interrupção da resposta adrenérgica provocada pela dor. Bradicardia, por depressão direta do nó sinusal e da condução atrioventricular. Tolerância pelo uso prolongado. Outros efeitos indesejáveis do fentanil são sedação prolongada em pacientes com insuficiência hepática, íleo adinâmico, vômitos, espasmo do esfíncter de Oddi (3%), elevação da pressão das vias biliares (99%), retenção urinária, depressão respiratória e rigidez da musculatura torácica quando administrado, em altas doses e em bolo. Ressalta-se que a depressão respiratória pode ser um efeito colateral desejável nos pacientes sob VM. Fentanil1,2,6 Fentanil é um opióide sintético cerca de cem vezes mais potente do que a morfina. No Quadro 3, apresentamos as vantagens, indicações, dosagens, efeitos colaterais e desvantagens desse fármaco. Quadro 3 FENTANIL Meperidina1,2 Por seus efeitos colaterais, meripidina não está indicada em UTI, excetopara o controle de tremores secundários ao ato anestésico. No Quadro 4, encontraremos a indicação, dosagens, efeitos colaterais e desvantagens da meperidina. 88 AT UA LIZ AÇ ÃO D OS FÁ RM AC OS AN AL GÉ SIC OS , S ED AT IVO S E BL OQ UE AD OR ES N EU RO MU SC UL AR ES U TIL IZA DO S E M UT I Indicação Dosagens Efeitos colaterais e desvantagens Controle dos tremores pós-anestésicos. 50 a 100mg IV em bolo. Em torno de 90% da meripidina é metabolizada no fígado em normeperidina, que é excretada pelo rim. Seu efeito analgésico corresponde a 50% do efeito da meperidina. A normeperidina tem efeito tóxico sobre o sistema nervoso central, podendo causar delírio, agitação e convulsões quando utilizada por mais de 48 a 72 horas. A administração da meperidina está associada à grande liberação de histamina, podendo resultar em broncoespasmo e hipotensão. Há similaridade da sua estrutura com a da atropina, o que resulta em taquicardia e aumento da demanda metabólica miocárdica, fato que contra-indica a sua administração para a analgesia do paciente com infarto do miocárdio. Observa-se, também, diminuição de contratilidade de miofibrilas cardíacas em estudos, in vitro, com esse fármaco. Vantagens Indicação Contra-indicações Dosagens Efeitos colaterais e desvantagens Analgésico com ação breve. Permite a avaliação neurológica após sua suspensão. O seu metabolismo é plasmático, não havendo acúmulo em pacientes com insuficiência renal ou hepática. Analgesia breve e potente em procedimentos, analgesia em infusão contínua de pacientes com quadros neurológicos graves. Pacientes com instabilidade hemodinâmica, hipovolemia, asma brônquica e bronquite crônica. Ataque: 01mg/kg em pelo menos trinta segundos. Manutenção: 0,6 a 15mg/kg/hora. Pode causar bradicardia, depressão respiratória e induzir à queda da pressão arterial de 20% em pacientes normovolêmicos. Quadro 4 MEPERIDINA Remifentanil3,6 Remifentanil é um opióide de ação curta com potência similar à do fentanil. O seu metabolismo é plasmático, mediado por esterase não-específica. Foi recentemente aprovado na Europa para analgesia contínua em UTI, por mais de 72 horas. Entretanto, essa utilização não é justificada quando são comparados os benefícios com o custo financeiro da administração de remifentanil para a analgesia prolongada em UTI. No Quadro 5, apresentamos as vantagens, indicações, contra-indicações, dosagens, efeitos colaterais e desvantagens do remifentanil. Quadro 5 REMIFENTANIL 89 PR OA MI S EM CA D Vantagens Indicação Dosagens Efeitos colaterais e desvantagens O tramadol é tão eficaz quanto a morfina (dose equipotente 50mg de tramadol = 5mg de morfina) apresentando como vantagem o menor potencial de depressão respiratória. Analgesia para dor moderada. 50 a 100mg em bolo. Até 400mg ao dia, divididas em três a quatro aplicações. Vômitos, íleo, sonolência, raramente convulsão. OUTROS FÁRMACOS COM POTENCIAL ANALGÉSICO Tramadol2 Tramadol é um analgésico com baixa afinidade pelos receptores opióides e que tem a sua analgesia parcialmente revertida com o naloxone. Esse fármaco inibe a captação de monoaminas e interfe- re na transmissão dos impulsos nociceptivos (noradrenalina e serotonina). No Quadro 6, apresentamos as vantagens, indicação, dosagens, efeitos colaterais e desvanta- gens do tramadol. Quadro 6 TRAMADOL Quetamina e ααααα-agonistas1,2 Embora não estejam indicados para o uso rotineiro em UTI, tem crescido o interesse entre os médicos intensivistas sobre a utilização de quetamina e α-agonistas para a analgesia e sedação de pacientes gravemente enfermos, que será melhor especificada na seqüência deste texto. Antiinflamatórios não-esteróides - AINEs 1,2 Devido a seus efeitos colaterais, AINEs são fármacos pouco utilizados para a analgesia de paci- entes graves. Sua administração diminui o requerimento de opióides e está indicada em casos bastante específicos como a terapia adjuvante de pacientes pré-selecionados (analgesia no pós- operatório). Esses fármacos devem ser utilizados por no máximo cinco dias. No Quadro 7, apresentamos as vantagens, indicações, contra-indicações, efeitos colaterais e desvantagens dos AINEs. 90 AT UA LIZ AÇ ÃO D OS FÁ RM AC OS AN AL GÉ SIC OS , S ED AT IVO S E BL OQ UE AD OR ES N EU RO MU SC UL AR ES U TIL IZA DO S E M UT I Vantagens Indicações Contra-indicações Efeitos colaterais e desvantagens Não afligem depressão aos sistemas nervoso, cardiovascular e respiratório, permitindo reduzir as doses dos opióides. Para dor de intensidade moderada quando a prostaglandina está envolvida no fenômeno doloroso. Os antiinflamatórios não atuam sobre a prostaglandina já liberada, mas sim sobre a síntese da prostaglandina. Deste modo, sempre que possível, deve-se administrar os AINEs antes da agressão (cirurgia) para alcançar melhor benefício. Estão contra-indicados em pacientes vítimas de queimaduras, naqueles maiores de 65 anos, com história de doença péptica, com doença inflamatória intestinal, diabete ou em uso de anticoagulantes ou corticoesteróides, por aumentarem os riscos de hemorragia gastrintestinal. Nos pacientes do sexo feminino, idosos, hipovolêmicos, em uso de inibidores da enzima de conversão da angiotensina ou diuréticos, os AINEs estão contra-indicados por aumentarem as chances de lesão renal. Hemorragia gastrintestinal, insuficiência renal, distúrbio de coagulação, manifestações alérgicas. Têm menor potência analgésica do que os opióides. Quadro 7 AINEs Inibidores da COX-2: o benefício do uso destes novos AINEs em terapia intensiva ainda não está bem estabelecido. Antidepressivos7 Devido à permanência prolongada em UTI, pacientes têm desenvolvido quadros depressivos e tem sido avaliada a utilização de fármacos antidepressivos para o controle desses quadros. Os antidepressivos, particularmente a amitriptilina, têm mostrado efeitos benéficos em uma grande variedade de quadros dolorosos e tem crescido seu emprego em pacientes de UTI. O efeito dos antidepressivos ocorre em torno de duas a quatro semanas, o que constitui uma desvantagem para sua utilização em UTI. Podem-se citar como principais efeitos colaterais dos antidepressivos tricíclicos: constipação, retenção urinária e alterações visuais. Outro efeito colateral que pode ser relatado é a sonolên- cia que, em pacientes graves que necessitam de tratamento intensivo, pode ser considerada um efeito benéfico. 91 PR OA MI S EM CA D Técnicas Profilática Balanceada Regional Sistêmica em bolo PCA Objetivos Bloqueio da nocicepção antes do procedimento cirúrgico. Prevenção da sensibilização periférica e central. Combinação de fármacos e de vias de administração, visando a doses menores e menos efeitos secundários. Menor resposta ao estresse, < TVP, < efeitos cardiovasculares, > eficácia analgésica, < uso de opióide. Alívio rápido da dor antes de iniciar ou aumentar a infusão contínua. Evitar variações do grau de analgesia, permitindo a administração individualizada. Medicamentos Anestésico local, opióide e AINH. Associação de anestésicos locais, opióides (por via espinhal). Anestésicos locais, opióides e alfa-agonistas. Opióides. Opióides. DosagemFármacos Morfina Fentanil Meperidina Remifentanil Tramadol Quetamina e alfa-agonistas AINEs Antidepressivos Indicação Vantagens Contra- indicação Efeitos colaterais e desvantagens 6. Complete o quadro com informações sobre os principais fármacos utilizados para analgesia venosa em UTI: TÉCNICAS ANALGÉSICAS As principais técnicas analgésicas podem ser visualizadas no Quadro 8, a seguir: Quadro8 TÉCNICAS ANALGÉSICAS 92 AT UA LIZ AÇ ÃO D OS FÁ RM AC OS AN AL GÉ SIC OS , S ED AT IVO S E BL OQ UE AD OR ES N EU RO MU SC UL AR ES U TIL IZA DO S E M UT I SEDAÇÃO EM UTI Até o momento, ainda não foi encontrado o agente ideal para a sedação em pacientes submetidos à ventilação mecânica. Tal agente deveria ter rápido início de ação, sem efeito cumulativo, metabolizado independente da função hepática ou renal, com meia vida de eliminação T½β curta, sem efeito apreciável nos sistemas cardiovascular e respiratório e com efeito benéfico na patolo- gia de base. Os fármacos mais utilizados para a sedação em UTI, tanto em nível mundial,1 quanto nacional,2 são os benzodiazepínicos e o propofol. Nos últimos anos, os ααααα2-agonistas e a quetamina têm sido descritos como adequados para a sedoanalgesia de pacientes graves, em casos específicos. Para os quadros de delirium em UTI, o fármaco reco- mendado ainda é o haloperidol.1,2 Tanto os benzodiazepínicos quanto o propofol agem estimulando o ácido gama-aminobutírico (GABA), que é o mais importante neurotransmissor inibitório do sistema nervoso central (SNC). Esses fármacos são isentos de efeito analgésico. FÁRMACOS UTILIZADOS PARA SEDAÇÃO EM UTI BENZODIAZEPÍNICOS Benzodiazepínicos têm efeito sedativo, anticonvulsivante, ansiolítico, amnésico e relaxante mus- cular. Diazepam1,2 Fármaco pouco hidrossolúvel, mal absorvido quando administrado por via intramuscular, com um T½β longo e cuja biotransformação resulta em metabólitos farmacologicamente ativos. Nos dias de hoje, o emprego de diazepam para sedação a curto prazo não é aconselha- do, por causar sedação excessiva e de difícil monitoração se for administrado de forma intermitente e por demandar grande quantidade de diluente para ser administrado em infusão contínua. Lorazepam1,2 Benzodiazepínico de ação intermediária, menos lipofílico do que o diazepam, o que diminui o seu potencial de acúmulo periférico. Por apresentar uma distribuição lenta para o SNC, devido à sua baixa lipossolubilidade, seu início de ação, após administração endovenosa, é mais lento do que o do diazepam. Entretanto, o T½β do lorazepam é de aproximadamente dez a quinze horas, enquanto o do diazepam é de vinte a oitenta horas. Após metabolização hepática, não apresenta metabólitos 93 PR OA MI S EM CA D LEMBRAR ativos, o que caracteriza uma vantagem para sua utilização em UTI, principalmente a longo prazo. Esse fármaco não está disponível para administração endovenosa no Brasil. Midazolam1,2 Sintetizado na década de 80, o midazolam possui solubilidade em solução aquosa e T½β curto. De modo similar a outros benzodiazepínicos, o midazolam tem propriedade amnésica, cujo pico ocorre dois a três minutos após sua administração endovenosa. Enquanto o T½β do diazepam pode chegar a cem horas, o do midazolam é de uma hora, estando aumentado principalmente em pacientes com sepse, insuficiência renal ou hepática, e naqueles com peso acima do ideal. Quanto às interações do midazolam com outros medicamentos destaca-se que, quan- do associado ao fentanil, há potencialização da ação de ambos os fármacos com hipotensão grave e aumento da incidência de apnéia. Em animais de experimentação, foi constatada uma ação sinérgica entre o midazolam e agonistas α2-adrenérgicos. Deve ser destacado que clinicamente também foi detectada uma interação sinérgica entre o midazolam e o propofol em relação à hipnose, não sendo verificada essa interação em relação à queda da pressão arterial. PROPOFOL Introduzido na prática clínica como anestésico venoso a partir de 1980, a utilização de propofol em UTI começou a ser avaliada ainda naquela década. É apresentado sob a forma de uma emulsão lipídica à base de óleo de soja, glicerol e lecitina, similar ao Intralipid®, contendo uma caloria por mililitro. O propofol é biotransformado principalmente no fígado e, em menor proporção, no pulmão, no tubo digestivo e nos rins, produzindo um glicuronídeo hidrossolúvel e sulfatos conjugados, que são eliminados primariamente pela urina. Sua administração causa uma queda da pressão arteri- al (PA), principalmente quando efetuada em bolo. Têm sido relatadas desvantagens com a utilização prolongada de propofol em UTIs. Ressaltam-se as complicações inerentes ao uso prolongado de soluções lipídicas como hipertrigliceridemia e depósito de lipídios nos pulmões, fígado e outros órgãos. Em pacientes com insuficiência renal, não há alteração importante na farmacocinética do propofol. Embora a administração desse fármaco possa estar associada a um maior risco de infecção, não são descritas evidências clínicas relevantes de complicações infecciosas associadas à sua admi- nistração em UTI, desde que os cuidados assépticos sejam seguidos.1 94 AT UA LIZ AÇ ÃO D OS FÁ RM AC OS AN AL GÉ SIC OS , S ED AT IVO S E BL OQ UE AD OR ES N EU RO MU SC UL AR ES U TIL IZA DO S E M UT I LEMBRAR Existem relatos na literatura de que a adição do ácido etileno diamino tetracético (EDTA) ao propofol poderá levar a um menor risco de infecção associado a um menor índice de mortalidade por inibição da formação de radicais livres, inibição do influxo de cálcio com conseqüente diminuição da apoptose e morte celular.8 Na tentativa de diminuir os riscos de hipertrigliceridemia em decorrência da administração de propofol a 1%, foi disponibilizado no mercado o propofol a 2%. Estudos que avaliaram a efetividade dessa nova formulação mostraram que pacientes que receberam propofol a 2% apresentaram menos freqüentemente hipertrigliceridemia. Entretanto, esses pacientes necessitaram de uma maior dose desse fármaco, o que foi responsável por um maior custo financeiro do tratamento.9,10 Nos últimos anos tem sido descrito que a administração de altas doses de propofol (≥ 5mg/kg/h), por um tempo maior que 48 horas pode estar associada à falência cardíaca, rabdiomiólise, acidose metabólica grave e insuficiência renal. Esse quadro é conhecido como síndrome da infusão do propofol e está associado ao impedimento da utiliza- ção dos ácidos graxos e da atividade mitocondrial, com conseqüente necrose muscu- lar.8-14 Um estudo canadense que avaliou a sedação de pacientes internados em quatro UTIs terciárias, e comparou a efetividade do propofol com relação à do midazolam, concluiu que a sedação com o propofol está associada à extubação traqueal mais rápida, entretanto esse fato não interferiu no tempo de internação na UTI.15 ααααα2-AGONISTAS Os α2-agonistas têm despertado o interesse dos intensivistas devido à propriedade de promover ansiólise e hipnose e por serem dotados de propriedades analgési- cas. A clonidina e a dexmedetomidina são compostos imidazólicos que ativam os receptores α2-adrenérgicos. A clonidina, utilizada na prática clínica há mais de vinte anos, apresenta uma seletividade de 200/ 1 entre os receptores α2 e α1, enquanto a dexmedetomidina tem cerca de oito vezes mais afini- dade pelos α2-adrenoceptores do que a clonidina. Trabalhos experimentais realizados com a clonidina e com a dexemedetomidina comprovaram que os seus efeitos hipnóticos e antinoceptivos são mediados pela ativação dos receptores α2 localizados no locus ceruleus. Existem evidências de que os ααααα2-agonistas exercem uma ação GABA-mimética. A clonidina na dose de 40 a 80mg/kg é forte indutora do sono não-REM e interfere no sono REM (rapid eye movements), efeitos esses somente parcialmente revertidos com a administração de α2-antagonistas. 95 PR OA MI S EM CA DA analgesia promovida pelos α2-agonistas deve-se à ação desses fármacos ao nível da medula espinhal. Há dados experimentais que sugerem uma interação entre ααααα2-agonistas e agonistas de opióides.A clonidina administrada como pré-medicação anestésica pode diminuir a necessi- dade de opióides, atenuar as respostas adrenérgicas no transoperatório e a liberação de catecolaminas, secundária ao trauma cirúrgico, sem causar efeitos colaterais importantes, assim como pode controlar a disfunção autonômica e os sintomas de abstinência ao álcool ou de absti- nência e tolerância aos benzodiazepínicos e opióides. Estudos comparativos entre a clonidina e os opióides demonstram que a clonidina não interfere no trânsito gastrintestinal. Esse fármaco é rapidamente absorvido após sua administração oral, atingindo um pico plasmático entre sessenta e noventa minutos. A clonidina tem T½β de nove a doze horas, sendo a metade do fármaco metabolizada no fígado, em metabólitos inativos, e a outra metade excretada in natura pelo rim. Após administração prolongada da clonidina, sua suspensão abrupta pode causar um episódio hipertensivo grave. A administração endovenosa de dexmedetomidina tem mostrado efeitos sedativos analgésicos e ansiolíticos em voluntários saudáveis, em pacientes de pós-operatório internados em UTI e em pacientes em desmame da ventilação mecânica. A dose que tem mostrado eficácia clínica é a de 0,25 a 0,9μg/kg/h. Como efeitos colaterais, têm sido observadas diminuição da pressão arterial e da freqüência cardíaca.16-18 QUETAMINA Quetamina é um derivado da fenciclidina e promove um tipo de anestesia chamada de dissociativa, além de proporcionar excelente analgesia em doses subanestésicas. Esse fármaco cruza a bar- reira hematoencefálica rapidamente, tem um T½α de cerca de dezesseis minutos e um T½β de aproximadamente três horas. O T½β fica aumentado em pacientes com doença hepática. In vitro, a quetamina promove relaxamento da musculatura lisa das vias aéreas e antagonismo ao efeito espasmogênico da histamina. No que diz respeito ao aparelho cardiovascular, a quetamina promove uma elevação da freqüên- cia cardíaca e da pressão arterial e um aumento transitório do índice cardíaco sem alteração do volume sistólico. Esses efeitos são devidos à ativação adrenérgica conseqüente a uma inibição neuronal e extraneuronal da captação de catecolaminas. O principal mecanismo de ação da quetamina, no que concerne à sedação e analgesia, é o bloqueio competitivo na ativação dos receptores N-metil-D-aspartato (NMDA), cujo ligante endógeno é o glutamato. Uma vez que os receptores NMDA são responsáveis pelo processamento de informações sensitivas, inclusive da sensação de dor, é provável que, pelo menos em parte, a analgesia obtida com doses subipnóticas de quetamina seja justificada pelo bloqueio desses re- ceptores. Todavia, uma interação com receptores de opióides não pode ser descartada. 96 AT UA LIZ AÇ ÃO D OS FÁ RM AC OS AN AL GÉ SIC OS , S ED AT IVO S E BL OQ UE AD OR ES N EU RO MU SC UL AR ES U TIL IZA DO S E M UT I LEMBRAR Individualizar o tratamento Não- farmacológico Farmacológico • Ambiente de UTI • Dinâmica operacional • Trabalho em grupo • Sempre analgesia • Sedação mais superficial • Sono noturno • Evitar tolerância (co-sedoanalgesia) • Cuidar abstinência Figura 1 - Sedoanalgesia em UTI - novo modo de tratar. A quetamina raramente é utilizada em UTI, por serem comuns seus efeitos colaterais como alucinações, delírios ou convulsões do tipo pequeno mal. Entretanto, esses efeitos podem ser evitados com a utilização concomitante de benzodiazepínicos ou propofol. Seus efeitos respiratórios e cardiovasculares podem justificar a sua indicação em pacientes com doença pulmonar broncoespástica e/ou comprometimento hemodinâmico. Recentemente, tem se mostrado promissora a utilização da quetamina para a sedação e o contro- le da hipertensão endocraniana de pacientes vítimas de traumatismo craniencefálico. Pode tam- bém ser promissora a substituição da quetamina racêmica por seu isômero, que é mais potente e causa menor efeito psicodélico.19 Após a revisão da literatura, pode-se concluir que as principais vantagens do propofol são a possibilidade de promover uma sedação mais superficial, o seu rápido início de ação e a ausência de acúmulo, mesmo quando administrado em doses repetidas ou em infusão contí- nua, o que proporciona um rápido despertar e facilita o desmame da ventilação mecânica. Em contrapartida, os pontos positivos apontados para o midazolam são a tendência de propiciar uma maior estabilidade cardiovascular e o seu menor custo financeiro.20 Após a escolha do fármaco mais adequado, o médico intensivista deve ter em mente que a sedação contínua deve ser efetuada de maneira cuidadosa, para que seja evitado o acúmulo dos fármacos, com conseqüente sedação excessiva. Na tentativa de evitar essa sedação, e para que seja obtido um melhor controle da sedação dos pacientes gravemente enfermos, tem sido avaliada a importância da sus- pensão diária dos fármacos.21 Entretanto, a sedação individualizada (Figura 1), avali- ada freqüentemente, e a administração concomitante de vários agentes sedativos parece ser a melhor maneira de evitar quadros de tolerância ou abstinência. 97 PR OA MI S EM CA D Fármaco Diazepam Lorazepam Midazolam Propofol Clonidina Dexmedetomidina Quetamina Outras considerações T½α T½β Dosagem indicada 7. Complete o quadro com as principais características dos fármacos utilizados na sedação em UTI. 8. No que se refere à analgesia e à sedação do paciente grave, internado em UTI, uma preocupação atual é a tolerância que esses pacientes desenvolvem aos fármacos utili- zados. Nesse sentido, todas as afirmativas abaixo estão corretas, exceto: A) A interrupção regular da infusão contínua dos agentes sedativos pode diminuir o risco do desenvolvimento de tolerância. B) A infusão contínua dos fármacos permite uma sedação mais constante e um menor risco de tolerância. C) A utilização de monitoração da sedação e analgesia é útil para a prevenção da tole- rância. D) A associação de diferentes fármacos pode diminuir o risco do desenvolvimento de tolerância. Justifique sua resposta. ....................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ (Veja a resposta e comentário para a questão 8 ao final do capítulo). 98 AT UA LIZ AÇ ÃO D OS FÁ RM AC OS AN AL GÉ SIC OS , S ED AT IVO S E BL OQ UE AD OR ES N EU RO MU SC UL AR ES U TIL IZA DO S E M UT I Hipertensão intracraniana • Objetivo principal: conforto e diminuição da demanda metabólica de oxigênio. • Nível de sedação desejado: escala de Ramsay 4 a 6. • Técnica: endovenosa contínua. • Fármaco: fentanil ou remifentanil + propofol ou midazolam. • Associação sedoanalgésica possível: α2-agonistas. Instabilidade hemodinâmica • Objetivo principal: conforto e diminuição da demanda metabólica de oxigênio. • Nível de sedação desejado: escala de Ramsay 4 a 6. • Técnica: endovenosa contínua. • Fármaco: fentanil ou quetamina + midazolam. • Não usar: morfina, AINE, α2-agonistas, propofol. Síndrome da angústia respiratória aguda (SARA) • Objetivo principal: conforto e diminuição da demanda metabólica de oxigênio. • Nível de sedação desejado: escala de Ramsay 4 a 6. • Técnica: endovenosa contínua. • Fármaco: morfina(estável hemodinamicamente) ou fentanil ou quetamina + midazolam e/ ou propofol. • Associação analgésica possível: α2-agonistas (com objetivo de reduzir requerimento de opióide e evitar tolerância). Broncoespasmo grave • Objetivo principal: conforto e diminuição da demanda metabólica de oxigênio. • Nível de sedação desejado: escala de Ramsay 4 a 6. • Técnica: endovenosa contínua. • Fármaco: fentanil ou quetamina + propofol ou midazolam ou α2-agonistas. • Não usar: morfina. Ventilação mecânica no pulmão normal, sem instabilidade hemodinâmica • Objetivo principal: conforto. • Nível de sedação desejado: escala de Ramsay entre 2 e 3. • Técnica: endovenosa contínua. • Fármaco: morfina ou fentanil e/ou α2-agonistas. Continua ➜➜➜➜➜ SEDOANALGESIA EM SITUAÇÕES CLÍNICAS COMUNS No Quadro 9, a seguir, são apresentadas as características da sedoanalgesia em situações clíni- cas comuns. Quadro 9 CARACTERÍSTICAS DA SEDOANALGESIA EM SITUAÇÕES CLÍNICAS COMUNS 99 PR OA MI S EM CA DPós-operatório em ventilação mecânica, sem instabilidade hemodinâmica • Objetivo principal: conforto. • Nível de sedação desejado: escala de Ramsay entre 2 e 3. • Técnica e fármaco: regional (morfina ou fentanil e/ou α2-agonista), ou PCA (morfina ou fentanil e/ou α2-agonista), ou sistêmica contínua (morfina ou fentanil e/ou dexmedetomidina), ou sistêmica intermitente (morfina ou tramadol), ou associação analgésica possível (AINE). Pacientes em desmame de ventilação mecânica • Objetivo principal: diminuir a demanda metabólica de oxigênio, conforto. • Nível de sedação desejado: escala de Ramsay entre 2 e 3. • Técnica e fármaco: regional - se trauma ou pós-operatório. (morfina ou fentanil e/ou α2- agonista), ou PCA (morfina ou fentanil e/ou α2-agonista), ou sistêmica contínua (morfina ou fentanil e/ou dexmedetomidina), ou sistêmica intermitente (morfina ou tramadol). • Proporcionar sono noturno. Procedimentos invasivos • Objetivo principal: conforto. • Nível de sedação desejado: escala de Ramsay em 6. • Técnica: regional ou endovenosa. • Fármaco: anestésicos locais, ou fentanil, ou remifentanil, ou quetamina + propofol, ou dexmedetomidina. Pacientes em ventilação espontânea • Objetivo principal: conforto. • Nível de sedação desejado: escala de Ramsay entre 2 e 3. • Técnica: regional ou sistêmica: – Dor leve: dipirona ou paracetamol associado a ansiolítico. – Dor moderada: morfina ou tramadol associado a ansiolítico ou dexmedetomidina. – Dor intensa: morfina ou fentanil associado a ansiolítico ou dexmedetomidina. Figura 2 - Algoritmo de condução para sedoanalgesia em UTI. Internação <3 dias Paciente hipotenso Internação prolongada Desmame Pós-cirúrgico Mal asmático Quetamina + Midazolam Fentanil + Midazolam Clonidina Co-sedoanalgesia (midazolam + propofol + fentanil) Antidepressivos Clonidina - Dexmedetomidina ↓ progressivamente fármacos Abstinência Tolerância Dexmedetomidina Propofol + Fentanil Na Figura 2, a seguir, observe o algoritmo sobre sedoanalgesia em UTI. 100 AT UA LIZ AÇ ÃO D OS FÁ RM AC OS AN AL GÉ SIC OS , S ED AT IVO S E BL OQ UE AD OR ES N EU RO MU SC UL AR ES U TIL IZA DO S E M UT I 9. Compare a Figura 2 ao algoritmo solicitado a você no início deste capítulo e aponte semelhanças e diferenças entre estes, justificando sua resposta. ....................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ Caso clínico 2 Um jovem de 20 anos, vítima de acidente de carro, é internado na UTI por trauma de tórax. Necessita ventilação mecânica e após reposição volêmica adequada apresenta- se hipotenso. 10. Quanto à sedoanalgesia, qual a opção terapêutica mais adequada? A) Propofol + fentanil. B) Midazolam + quetamina. C) Midazolam + morfina. D) Dexmedetomidina. Justifique sua resposta: ....................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ Caso clínico 3 Paciente internado em UTI no pós-operatório imediato de toracotomia. Chega à UTI intubado, e a perspectiva é de que permaneça nesse setor por cerca de 24 horas. 11. Uma boa opção terapêutica para a sedoanalgesia desse paciente seria: A) Dipirona. B) Dexmedetomidina. C) Propofol. D) Antiinflamatório não-hormonal. Justifique sua resposta: ....................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ (Veja as respostas e comentários para as questões 10 e 11 ao final do capítulo). 101 PR OA MI S EM CA D LEMBRAR BLOQUEADORES NEUROMUSCULARES EM UTI Com a melhor adequação da sedação e analgesia nos pacientes gravemente enfermos associada ao desenvolvimento tecnológico dos ventiladores mecânicos, tornou-se cada vez menos necessário o tratamento com bloqueadores neuromusculares (BNM). A uti- lização rotineira de BNM em UTI ficou restrita ao tratamento dos pacientes com téta- no grave. Eventualmente, pacientes com insuficiência respiratória aguda, principalmente aqueles que ne- cessitam de modalidades ventilatórias desconfortáveis, tais como relação ins/ex invertida ou hipercapnia permissiva, pacientes com traumatismo craniencefálico (TCE) que necessitem do controle da hipertensão intracraniana ou pacientes em estado de mal epilético necessitam da administração contínua desses fármacos. Os BNM também podem ser administrados esporadicamente para facilitar a intubação orotraqueal ou para a adequação inicial da ventilação mecânica dos pacientes com IRA. Para que sejam evitados os efeitos colaterais decorrentes da administração dos BNM, recomenda-se a monitoração do bloqueio. O train-of-four (TOF) é o método que tem mostrado maior aplicabilidade prática para esse fim. O principal impedimento para que essa monitoração torne-se rotina nas UTIs é a falta de hábito dos intensivistas. Dificuldades inerentes à condição clínica do paciente, como edema e sudorese, também devem ser destacadas.2,21,23 FÁRMACOS UTILIZADOS PARA O BLOQUEIO NEUROMUSCULAR EM UTI Os BNM podem ser despolarizantes ou adespolarizantes. A succinil-colina é o único BNM despolarizante disponível para uso clínico. Sua administração é restrita a procedimentos rápidos como a facilitação da intubação orotraqueal. Os efeitos colaterais dessefármaco são bradicardia, hiperpotassemia, aumento da pressão intra-ocular e intracraniana, hipertermia maligna, dor mus- cular e fasciculações. Os BNM adespolarizantes são antagonistas da acetil-colina e, portanto, desprovidos de eficácia ou atividade intrínseca. Podem ser classificados em benzil-isoquinolínicos, responsáveis pela liberação de histamina, ou aminoesteróides, mais propensos a causar efeito prolongado. 102 AT UA LIZ AÇ ÃO D OS FÁ RM AC OS AN AL GÉ SIC OS , S ED AT IVO S E BL OQ UE AD OR ES N EU RO MU SC UL AR ES U TIL IZA DO S E M UT I AMINOESTERÓIDES Pancurônio Pancurônio é o BNM mais utilizado em UTI, sendo efetivo após a administração em bolo de 0,06-0,1mg/kg, com uma duração de ação de cerca de noventa minutos. Embora a sua admi- nistração também possa ser contínua, o modo intermitente é o mais utilizado. É vagolítico, cau- sando, em mais de 90% dos pacientes, um aumento da freqüência cardíaca ≥10bpm. Vecurônio O vecurônio possui estrutura semelhante ao pancurônio. Apresenta como vantagem a ausência do efeito vagolítico. A dose de 0,08-0,1mg/kg produz bloqueio neuromuscular em sessenta a noventa segundos que perdura por cerca de trinta minutos. A dose de manutenção indicada é de 0,8-1,2μμμμμg/kg/min. Tanto o pancurônio quanto o vecurônio dependem da metabolização hepá- tica e excreção renal, podendo ser responsáveis por paralisia prolongada nos pacientes com lesão desses órgãos. Rocurônio O rocurônio é um novo BNM não-despolarizante, com um rápido início de ação (dois minutos). A dose de ataque recomendada é de 0,6-1mg/kg e a de manutenção pode chegar a 10μμμμμg/kg/ min. Em pacientes críticos, o tempo entre a última administração do rocurônio e a recuperação do TOF varia de sessenta a cem minutos.2,22,23 BENZIL-ISOQUINOLÍNICOS Atracúrio O perfil farmacocinético do atracúrio torna-o um fármaco interessante para ser utilizado em UTI. Causa mínimos efeitos cardiovasculares que, quando ocorrem, estão associados à liberação de histamina, secundária à administração de altas doses desse fármaco. É inativado no plasma pela eliminação de Hofmann e, portanto, o seu metabolismo e a sua excreção são independentes das funções hepática e renal. Entretanto, a laudanosina, um metabólito do atracúrio com potencial convulsivante, pode so- frer acumulação em pacientes com insuficiência renal. A dose de atracúrio recomendada é de 10-20μμμμμg/kg/min, que deve ser ajustada através da monitoração do TOF. Apesar de não sofrer acumulação, mesmo quando administrado por um longo período de tempo, pode levar à tolerância, sendo necessário o reajuste da infusão ou a associação de outros agentes BNM ao esquema terapêutico. 103 PR OA MI S EM CA D LEMBRAR Uso contínuo Tétano grave Controle hipertensão endocraniana Facilitação ventilação mecânica Pancurônio Cuidar com efeito prolongado e ↑ FC Vecurônio Causa > estabilidade cardiovascular Cuidar com efeito prolongado Atracúrio ou Cis-atracúrio Preferencial em insuficiência hepática/renal Figura 3 - Bloqueio neuromuscular em UTI. Sedação e analgesia otimizados Necessidade de BMN? Uso esporádico Facilitação intubação (Succinil Colina) ou Adaptação inicial VM (Pancurônio) Importante – Avaliação clínica e monitoração (TOF) para evitar: Efeito prolongado de fármaco – atrofia muscular – dificuldade desmame VM Cis-atracúrio O cis-atracúrio é isômero do atracúrio. Produz maior estabilidade cardiovascular do que o seu predecessor.23 Em situações específicas, como diante de paciente com tétano que necessita da administração prolongada de altas doses de BNM, pode ser vantajosa a associação de dois fármacos com ação sinérgica, o que poderá diminuir os seus efeitos colaterais.22 Com exceção do atracúrio e do cis-atracúrio que, por possuírem uma meia-vida curta, devem ser administrados continuamente, a administração em bolo dos BNMs é estimulada, para que sejam evitados a tolerância e os riscos inerentes aos efeitos colaterais desses fármacos.23 Estudos em pacientes que necessitam de BNM para a facilitação da ventilação mecânica mos- tram que o tempo de recuperação do TOF é semelhante entre os pacientes que recebem atracúrio ou cis-atracúrio e maior para aqueles tratados com vecurônio.22,23 Os principais efeitos colaterais secundários à administração prolongada dos BNM são a atrofia com conseqüente fraqueza muscular, a dificuldade do desmame da ventilação mecânica e uma maior incidência de pneumonia nosocomial.2,22,23 104 AT UA LIZ AÇ ÃO D OS FÁ RM AC OS AN AL GÉ SIC OS , S ED AT IVO S E BL OQ UE AD OR ES N EU RO MU SC UL AR ES U TIL IZA DO S E M UT I • A analgesia dos pacientes internados em UTI deve ser uma meta terapêutica primordial. • A sedoanalgesia do paciente grave deve ser individualizada. • A sedação deve ser o mais superficial possível. • A associação de sedativos e analgésicos (co-sedoanalgesia) pode diminuir o efeito colateral dos mesmos, assim como o desenvolvimento de tolerância. • A retirada lenta ou a associação de um α2-agonista pode evitar a síndrome de abstinência a esses fármacos. • A monitoração da sedação e da analgesia pode diminuir o risco de sedoanalgesia excessiva ou insuficiente diminuindo os riscos do tratamento intensivo. • A indicação de BNM em UTI é limitada a pacientes com tétano grave ou para auxiliar, em casos específicos, no tratamento da insuficiência respiratória aguda e na hipertensão endocraniana. Fármacos Pancurônio Vecurônio Rocurônio Atracúrio Cis-atracúrio Contra- indicação Dosagem Efeitos colaterais e desvantagens Indicação Vantagens Continua ➜➜➜➜➜ 12. Resuma, em um breve parágrafo, o esquema exposto na Figura 3. ....................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ 13. Complete o quadro com informações sobre os principais fármacos utilizados para BNM em pacientes na UTI: RESUMO Observe, no Quadro 10, a seguir, os principais tópicos tratados neste capítulo. Quadro 10 TÓPICOS IMPORTANTES 105 PR OA MI S EM CA D LEMBRAR • A monitoração da administração dos agentes BNM com o TOF deve ser estimulada. • A succinil-colina está indicada para a facilitação da intubação orotraqueal. • O pancurônio pode ser administrado para a maioria dos pacientes que necessitam de BNM em UTI. • O atracúrio (5-10mg/kg/u) e, mais especificamente, o cis-atracúrio (1-5 mg/kg/u) são os BNM com perfil farmacocinético mais adequado para a administração contínua em pacientes gravemente enfermos. O custo farmacológico desses fármacos torna, muitas vezes, proibitiva a sua administração por um tempo prolongado. • A manutenção do ciclo circadiano do sono (sono noturno) deve ser priorizada. • O tratamento não deve ser somente farmacológico. A adequação do ambiente de UTI e de sua dinâmica operacional pode diminuir a necessidade da administração de fármacos sedativos e analgésicos. Os fármacos disponíveis para a sedação dos pacientes graves são os benzodiazepínicos, mais especificamente o midazolam, o propofol, os ααααα2-agonistas (clonidina e dexmedetomidina) e a quetamina. Nenhum desses fármacos é isento de efeito colateral.O midazolam e o propofol não possuem efeito analgésico e, em nível mundial, são os sedativos mais comumente utilizados. Estudos comparativos entre esses fármacos mostram que o propofol causa maior risco de hipotensão e que o midazolam promove uma sedação mais prolongada, com conseqüente maior tempo de ventilação mecânica. Destaca-se que o propofol não deve ser admi- nistrado em altas doses (+5mg/kg/h), por um longo período de tempo (mais do que dois dias). A associação dos fármacos sedativos e analgésicos (co-sedoanalgesia) pode diminuir seus efeitos colaterais. A administração concomitante da clonidina com o midazolam ou com o propofol pode evitar a tolerância e abstinência a esses fármacos. O uso da dexmedetomidina para a sedoanalgesia de pacientes graves mostra-se promissor, em- bora o custo farmacológico desse medicamento ainda seja bastante elevado. A administração da quetamina, em associação com o propofol ou o midazolam, pode ser indicada para a sedoanalgesia de pacientes com asma e/ou hipotensão grave. A sedação deve ser instituída de maneira individualizada, devendo ser estimulada a monitoração dos fármacos sedativos e a associação concomitante de analgésicos para o controle da dor. Os fármacos mais utilizados para esse fim são os opíóides, sendo a morfina indicada para a analgesia de pacientes com estabilidade hemodinâmica e o fentanil para aqueles com instabili- dade hemodinâmica ou com quadros álgicos muito importantes. Os BNM são pouco utilizados em UTI. A administração do pancurônio está indicada para a maioria dos casos. Quando há necessidade da administração contínua e prolongada de BNM, a administração do atracúrio ou do cis-atracúrio deve ser ava- liada, principalmente em pacientes com insuficiência renal ou hepática. 106 AT UA LIZ AÇ ÃO D OS FÁ RM AC OS AN AL GÉ SIC OS , S ED AT IVO S E BL OQ UE AD OR ES N EU RO MU SC UL AR ES U TIL IZA DO S E M UT I REPOSTAS E COMENTÁRIOS ÀS QUESTÕES Questão 2 Resposta: D. Comentário: o paciente já vinha recebendo as doses recomendas para a sedação e analgesia com midazolam e fentanil. Doses maiores poderão ser prejudiciais por seus efeitos colaterais. A administração dos fármacos citados por tempo prolongado pode causar tolerância. A administra- ção da quetamina pode causar hipertensão. A clonidina, além de possuir efeitos sedativos e anal- gésicos, pode evitar a tolerância ou os sintomas de abstinência ligados à administração prolonga- da dos opióides e benzodiazepínicos, sendo, portanto, o fármaco mais indicado para ser adminis- trado no paciente em questão. Questão 8 Resposta: B. Comentário: em pacientes graves internados em UTI, a via de administração dos fármacos seda- tivos e analgésicos mais aconselhada é a endovenosa contínua, uma vez que permite controlar mais facilmente a sedoanalgesia do paciente, modificar a taxa de administração segundo critérios clínicos, evitar picos e quedas das concentrações plasmáticas e, principalmente, evitar a reper- cussão hemodinâmica que é mais comum com a administração em bolo. Essa forma de adminis- tração pode trazer desvantagens, tais como a dosagem excessiva dos fármacos e a produção de tolerância. Têm sido sugeridos métodos que possam diminuir tais complicações, como a sedoanalgesia o mais superficial possível, avaliada através da monitoração dos pacientes, a com- binação de diferentes fármacos sedativos e analgésicos, ou a interrupção diária da sedação. Questão 10 Resposta: B. Comentário: tanto o propofol quanto a morfina e a dexmedetomidina podem causar hipotensão, não sendo indicada a sua utilização em pacientes em choque. A quetamina, por causar a inibição da recaptação da noradrenalina, pode ser benéfica quando administrada em pacientes hipotensos. Esse fármaco pode causar fenômenos disfóricos que podem ser evitados com a administração concomitante de um benzodiazepínico. Questão 11 Resposta: B. Comentário: o pós-operatório de toracotomia costuma ser bastante doloroso e o paciente pode necessitar permanecer sob ventilação mecânica no pós-operatório imediato. A dipirona e os de- mais antiinflamatórios não têm pouco poder analgésico e, por seus efeitos colaterais, são indica- dos raramente para a analgesia de pacientes internados em UTI. O propofol não possui efeito analgésico. A dexmedetomidina promove uma sedoanalgesia eficiente permitindo que o paciente permaneça acordado e conseqüentemente proporcionando um rápido desmame da ventilação mecânica, o que é benéfico no caso em questão. 107 PR OA MI S EM CA DREFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1. Jacobi J, Fraser GL, Coursin DB et al. Clinical Practice guidelines for the sustained use of sedatives and analgesics in the critically ill adult. Crit Care Med 2002; 30:119-141. 2. Amaral JLG (editor). Clínicas Brasileiras de Medicina Intensiva: Sedação, Analgesia e Bloqueio Neuromuscular em UTI. São Paulo: Atheneu, 1996. 3. Tonner PH, Weiler N, Paris A, Scholz J. Sedation and analgesia in the intensive care unit. Curr Opin Anaesthesiology 2003;16: 113-121. 4. Brook AD, Ahrens TS, Schaiff R et al. Effect of a nursing-implemented sedation protocol on the duration. Am J Crit Care 2000 Sep;9:352-359. 5. Mascia MF, Koch M, Medicis JJ. 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Rev Bras Terap Intens 2000; 12:173-81. 108 AT UA LIZ AÇ ÃO D OS FÁ RM AC OS AN AL GÉ SIC OS , S ED AT IVO S E BL OQ UE AD OR ES N EU RO MU SC UL AR ES U TIL IZA DO S E M UT I 17.Moritz RD, Klein AL. Dexmedetomidina para a sedação de pacientes sob desmame da ventilação mecâ- nica em Unidade de Terapia Intensiva. Rev Bras Terap Inten 2003; 15(2):64-9. 18.Bhana N, Goa KL, McClellan KJ. Dexmedetomidine. Drugs 2000 :59(2):263-8. 19.Bourgoin A, Albanese J, Wereszczynski N, Charbit M, Vialet R, Martin C. Safety of sedation with ketamine in severe head injury patients comparison with sufentanil. Crit Care Med 2003;31(3):711-7. 20.Ostermann MD, Keenan SP, Seiferling RA, Sibbald WJ. Sedation in the intensive care unit: a systematic review. JAMA. 2000; 15(11):1451-9. 21.Kress JP, Pohlman AS, O’Connor F, Hall JB. Daily interrruption of sedative infusions in critically ill patients undergoing mechanical ventilation. 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Algumas condições fazem com que, no HPPC, o resultado das intervenções cirúrgicas reali- zadas em crianças com cardiopatias congênitas ou adquiridas, principalmente nos recém- nascidos e lactentes jovens com cardiopatias complexas, apresente sensível melhora quando comparado com anos anteriores. Entre essas condições, podemos citar: ■■■■■ a evolução das condições de diagnóstico; ■■■■■ preparo da equipe clínica e cirúrgica; ■■■■■ existência de uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) equipada com monitorização mais avançada; ■■■■■ equipe da UTI com pessoal treinado em todas as áreas para realizar o pós-operatório de cirurgia cardíaca; ■■■■■ estrutura hospitalar adequada, oferecendo atendimento avançado em todas as especiali- dades pediátricas e paramédicas. Os dados deste trabalho foram obtidos através de revisão bibliográfica em sites de busca (Medline, MDconsult, PubMed), analisando as condutas sugeridas por diversos serviços fora do Brasil e comparando-as com a rotina de atendimento no Hospital Infantil Pequeno Príncipe de Curitiba, onde foram realizadas mais de 8.000 cirurgias cardíacas desde 1977. 110 PÓ S-O PE RA TÓ RIO D E C IRU RG IAS D E C AR DIO PA TIA S C ON GÊ NIT AS OBJETIVOS Após a leitura desse capítulo, o participante deverá: ■■■■■ identificar os passos da rotina de atendimento para crianças submetidas à cirurgia cardíaca, os principais cuidados no período pós-operatório e os itens de monitorização básica e invasiva do paciente; ■■■■■ identificar alterações decorrentes do ato cirúrgico importantes para o período pós-operatório; ■■■■■ reconhecer possíveis complicações pós-operatórias em cirurgias de cardiopatias congênitas; ■■■■■ identificar formas de tratamento para as complicações advindas das cirurgias cardíacas. ESQUEMA CONCEITUAL Pós-operatório de cirurgias de cardiopatias congênitas Alterações decorrentes do ato cirúrgico Cuidados no pós-operatório Monitorização Básica Invasiva Complicações no pós-operatório imediato Alterações do débito cardíaco Sistema respiratório Sistema renal Distúrbios hemorrágicos Balanço volêmico e hidroeletrolítico Problemas neurológicos Problemas do aparelho digestivo Infecções Outras complicações Sedação e analgesia Nutrição Conclusão Contratilidade miocárdica Pré-carga Pós-carga Hipertensão arterial sistêmica Hipertensão pulmonar Freqüência cardíaca 111 PR OA MI S EM CA D Diagnóstico da cardiopatia Procedimento realizado Tempo de cirurgia Anestésicos utilizados Tempo de circulação extracorpórea (CEC) Síndrome da resposta inflamatória sistêmica Tempo de oclusão aórtica Volume recebido de hemoderivados O diagnóstico da cardiopatia é fundamental para conhecermos as alterações hemodinâmicas apresentadas antes da cirurgia. Através do diagnóstico, devemos verificar: • A cardiopatia é cianótica ou acianótica • Existe hiperfluxo pulmonar? • A cardiopatia é simples ou complexa? Devemos determinar se a cirurgia é corretiva ou paliativa, a fim de sabermos quais são os parâmetros de monitorização e as alterações hemodinâmicas esperados. A cirurgia de grande porte e seu tempo prolongado levam a uma série de alterações metabólicas e hormonais, além de um aumento no metabolismo de 50 a 100%. Conhecendo a farmacologia dos anestésicos utilizados, esperamos alterações, como, por exemplo, a depressão miocárdica pelo halotano. A CEC faz com que o sangue proveniente das veias sistêmicas, geralmente das cavas, seja drenado para um oxigenador, que oferece oxigênio (O2) e retira gás carbônico (CO2), e faz com que o sangue arterializado volte para a raiz da aorta. Os circuitos da CEC são preenchidos por uma solução chamada perfusato, cuja composição pode ser cristalóide ou colóide, de acordo com o hematócrito desejado.5,6 Na síndrome da resposta inflamatória sistêmica, ocorre aumento da permeabilidade vascular com: • perda transendotelial de líquidos e proteínas; • aumento do líquido intersticial. Devido à exposição do sangue nas superfícies não- endotelizadas, há ativação de macrófagos, neutrófilos e plaquetas, e liberação de citocinas, como o fator de necrose tumoral e interleucinas, provocando lesão endotelial.9,10 O tempo de oclusão aórtica pode levar à isquemia em alguns órgãos. Refere-se a valores recebidos do sangue, plasma, plaquetas e crioprecipitado. Continua ➜➜➜➜➜ ALTERAÇÕES DECORRENTES DO ATO CIRÚRGICO Ao admitirmos o paciente na UTI, devemos verificar com o cirurgião e o anestesista vários itens de fundamental importância para um adequado pós-operatório, dispostos no Quadro 1. Quadro 1 ITENS DE IMPORTÂNCIA PARA CONDUÇÃO DO PÓS-OPERATÓRIO E ALTERAÇÕES ESPERADAS 112 PÓ S-O PE RA TÓ RIO D E C IRU RG IAS D E C AR DIO PA TIA S C ON GÊ NIT AS Intercorrências transoperatórias Infecções Entre as intercorrências transoperatórias, incluem-se: • baixo débito cardíaco ao sair de perfusão; • hipoxemia; • arritmias; • acidose; • lesão do ducto torácico; • embolias; • lesões de estruturas cardíacas; • anomalias cardíacas não verificadas anteriormente. Infecções que acometem o paciente antes da cirurgia podem aumentar a resposta inflamatória sistêmica e o seu tempo de internação. Durante a CEC, podemos ter as seguintes alterações: Hipotermia Hemodiluição Coagulopatia Retenção hídrica A hipotermia é utilizada para reduzir o consumo de O2 e, conseqüentemente, o metabolismo celular. Pode ser classificada como: • Hipotermia leve: temperatura entre 35 a 28oC. • Hipotermia moderada: temperatura entre 27 e 21oC. • Hipotermia profunda: abaixo de 20oC (parada cardiocirculatória total). A hipotermia acarreta acentuada perda calórica e alterações sistêmicas, como hipoxia tecidual, acidose láctica e aumento da resistência vascular periférica. Os tecidos podem recuperar-se com um tempo de parada cardiocirculatória de até 45 minutos. A hemodiluição ocorre quando se utilizam cristalóides no perfusato para diminuir a viscosidade sangüínea. A hemodiluição diminui as resistências vasculares periférica e pulmonar e a pressão coloidosmótica. Para evitar este último efeito, pode-se fazer uma hemodiluição parcial, acrescentando colóides no perfusato. A coagulopatia decorre da utilização da heparina e da neutralização inadequada com a protamina. Na coagulopatia, há consumo de fatores da coagulação, destruição ou aderência plaquetária aos tubos e fibrinólise. As alterações são maiores quanto maior o tempo de CEC. A retenção hídrica ocorre comum volume estimado ao redor de 30 a 60% da volemia do paciente. A retenção hídrica é decorrente do aumento da permeabilidade vascular, diminuição da pressão coloidosmótica do plasma e do aumento da renina e hormônio antidiurético. Esta retenção ocorre no compartimento intersticial, levando à formação de edema, principalmente ao nível pulmonar. 113 PR OA MI S EM CA DOutras alterações a serem consideradas são: ■■■■■ volume de diurese transoperatória, ■■■■■ fármacos vasoativos utilizados na cirurgia, ■■■■■ dificuldade de intubação traqueal, ■■■■■ presença de secreções na árvore respiratória. 1. No período pós-operatório, qual a importância, de conhecermos a farmacologia dos anestésicos utilizados nas cirurgias de cardiopatias congênitas? ....................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ 2. Quais alterações podem ocorrer durante a CEC? ....................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ 3. A partir dos pontos levantados no Quadro 1, elabore um protocolo que considere os pontos importantes quanto às alterações decorrentes do ato cirúrgico. ....................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ CUIDADOS NO PÓS-OPERATÓRIO O transporte do paciente do Centro Cirúrgico até a UTI necessita de cuidados especi- ais. A criança deve ser acompanhada de um membro da equipe cirúrgica e do anestesista. Devemos ficar atentos para que não ocorra perda de drenos, cateteres e sondas, hipoventilação ou extubação acidental e monitorizar o ritmo cardíaco e a pressão arte- rial. Apresentaremos, a seguir, a rotina de cuidados utilizados na UTI Cardiológica do Hospital Infantil Pequeno Príncipe de Curitiba. No momento da chegada da criança à UTI Cardiológica, as condutas iniciais são: ■■■■■ posicionar o paciente adequadamente no leito; ■■■■■ identificar os acessos vasculares: infusão de fármacos, hidratação venosa, catete- res para monitorizações da pressão venosa central (PVC), da pressão arterial média (PAM), da pressão de átrio esquerdo (PAE), etc; ■■■■■ proceder à abertura de drenos torácicos; ■■■■■ colocar os frascos de drenagem torácica em recipiente adequado; ■■■■■ verificar as sondas nasogástrica e vesical; 114 PÓ S-O PE RA TÓ RIO D E C IRU RG IAS D E C AR DIO PA TIA S C ON GÊ NIT AS ■■■■■ averiguar a posição de cânula traqueal, assim como sua fixação adequada; ■■■■■ averiguar a posição da sonda nasogástrica; ■■■■■ regular os parâmetros do aparelho de ventilação mecânica; ■■■■■ conectar o paciente ao aparelho de ventilação mecânica. Após a admissão do paciente na UTI, realizamos uma avaliação física inicial: ■■■■■ coloração da pele e mucosas, ■■■■■ enchimento capilar, ■■■■■ grau de hidratação, ■■■■■ ruídos adventícios, ■■■■■ fonese de bulhas, ■■■■■ exame físico geral. A seguir, solicitamos os exames de rotina: ■■■■■ gasometria arterial; ■■■■■ sódio; ■■■■■ potássio; ■■■■■ cálcio; ■■■■■ glicemia; ■■■■■ hematócrito e hemoglobina - três vezes ao dia nos dois primeiros dias e uma vez ao dia após extubação e estabilização hemodinâmica. ■■■■■ raio X de tórax, uréia e creatinina e estudo de coagulação - diariamente até a estabilização. Evidentemente, dependendo da situação clínica e hemodinâmica do paciente, esta rotina pode ser mudada. Logo após a realização da avaliação física inicial e dos exames de rotina, realizamos a antibioticoterapia profilática. Uso de cefazolina, 100mg/kg/dia durante 48 horas. Após estes cuidados, passamos à monitorização propriamente dita. Alguns serviços associam gentamicina em crianças com menos de 10kg.12 MONITORIZAÇÃO A monitorização de pacientes no pós-operatório das cirurgias de cardiopatias congêntias divide- se em básica e invasiva. Monitorização básica No Quadro 2, são apresentados os itens que devem ser observados na monitorização básica. 115 PR OA MI S EM CA D Ritmo cardíaco Pressão arterial Pressão venosa central Débito urinário Sonda nasogástrica Drenos de mediastino e/ou drenos pleurais Temperatura retal Parâmetros respiratórios O ritmo cardíaco é monitorizado através do osciloscópio com sistema de alarme de freqüência e detecção de arritmias cardíacas. A monitorização da pressão arterial é feita mediante a canulação da artéria radial, preferencialmente, ou, quando não é possível, da artéria pediosa ou femoral, fazendo assim a medida direta das pressões arteriais média, diastólica e sistólica. Essa linha é mantida através de um pressurizador, que fornece infusão contínua de heparina com soro fisiológico (1U/ml). Através da monitorização da pressão arterial, podemos ter uma idéia do estado hemodinâmico do paciente. A monitorização da pressão venosa central é realizada colocando-se um cateter ao nível da junção da veia cava superior com o átrio direito, por punção percutânea da veia jugular interna ou da subclávia.12 Muitas vezes, o cirurgião coloca o cateter no átrio direito e o exterioriza na parede torácica. A monitorização da PVC permite-nos avaliar a função do ventrículo direito e a pré-carga. A monitorização do débito urinário é realizada, no centro cirúrgico, através de uma sondagem vesical com sonda de Foley adaptada a um sistema fechado. Uma sonda nasogástrica é instalada no centro cirúrgico e mantida aberta pelo menos até seis horas após a extubação. São ajustados a coletores de drenagem em selo d’água e adaptados à aspiração contínua. A monitorização da temperatura retal permite uma avaliação mais acurada da temperatura interna da criança. Devem ser monitorizados os seguintes parâmetros respiratórios: • fração inspirada de oxigênio (FiO2); • fluxo; • freqüência respiratória; • volume corrente; • pressão inspiratória; • pressão expiratória final positiva (PEEP); • tempo inspiratório e expiratório; • além da oximetria de pulso, que é um método indireto de medir a oxigenação tecidual. Quadro 2 ITENS DE MONITORIZAÇÃO BÁSICA 116 PÓ S-O PE RA TÓ RIO D E C IRU RG IAS D E C AR DIO PA TIA S C ON GÊ NIT AS Itens Pressão de átrio esquerdo14 Pressão de artéria pulmonar14 Débito cardíaco Resistências vasculares sistêmica e pulmonar Ecocardiografia bidimensionalcom doppler Marca-passo Características O cateter é colocado pelo cirurgião no átrio esquerdo e exteriorizado pelo mediastino até a parede torácica. O cateter deve ser manuseado por pessoas com experiência, sendo proibido utilizá-lo para infusões. A monitorização de átrio esquerdo fornece uma boa avaliação da função ventricular esquerda. A pressão de artéria pulmonar é medida através da colocação do cateter de Swan-Ganz ou, como procedemos em nosso serviço, mediante a colocação, pelo cirurgião, de um cateter no tronco da artéria pulmonar. A pressão de artéria pulmonar é monitorizada nos casos em que há hipertensão pulmonar grave, ou seja, quando a pressão arterial pulmonar for maior do que a metade ou dois terços da pressão sistêmica. A monitorização do débito cardíaco é realizada por meio do cateter de Swan-Ganz e a avaliação é feita pelo método de termodiluição. Não costuma ser uma prática rotineira na maioria das UTIs brasileiras, principalmente por dificuldades técnicas. As resistências vasculares sistêmica e pulmonar são aferidas quando dispomos do cateter de Swan-Ganz, sendo calculadas a partir das medidas de AD, AE, PAM, AP e débito cardíaco. O doppler é procedimento de rotina em todos os pacientes, pelo menos uma vez ao dia, até a estabilização, quando passa a ser feito em períodos mais espaçados. É o método de escolha em nosso serviço para avaliarmos as câmaras cardíacas, o estado das correções realizadas, se restaram alterações residuais, a presença de derrames pericárdicos ou tamponamento cardíaco, análise global dos ventrículos, cálculo da fração de encurtamento ventricular esquerdo, estimativa da função ventricular e das pressões intracavitárias ou transvalvares. São colocados eletrodos para marca-passo nos casos em que há chance de lesar o sistema de condução como em correções de comunicação interventricular (CIV), tetralogia de Fallot, canal atrioventricular, que podem cursar com arritmias. MONITORIZAÇÃO INVASIVA A monitorização invasiva é, geralmente, utilizada nas cardiopatias mais graves ou comple- xas e nos casos que cursam com hipertensão pulmonar ou disfunção miocárdica. No Quadro 3, seguem os principais itens a serem observados na realização da monitorização invasiva. Quadro 3 ITENS DE MONITORIZAÇÃO INVASIVA 117 PR OA MI S EM CA D4. Discuta, a partir do exposto neste texto, as condutas iniciais à chegada do paciente infantil à UTI cardiológica. ....................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ 5. Qual a importância da monitorização dos parâmetros respiratórios e do estado hemodinâmico do paciente? ....................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ 6. Cite o método utilizado para: • Avaliar as câmaras cardíacas: .................................................................................................................................................................. • Avaliar a presença de derrames pericárdicos ou tamponamento cardíaco: ................................................................................................................................................................. • Analisar globalmente os ventrículos: .................................................................................................................................................................. • Calcular a fração de encurtamento ventricular esquerdo: .................................................................................................................................................................. • Estimar a função ventricular e as pressões intracavitárias ou transvalvares: ................................................................................................................................................................. COMPLICAÇÕES NO PÓS-OPERATÓRIO IMEDIATO ALTERAÇÕES DO DÉBITO CARDÍACO O débito cardíaco depende de quatro fatores: ■■■■■ contratilidade miocárdica; ■■■■■ retorno venoso (pré-carga); ■■■■■ resistência à saída do sangue do ventrículo esquerdo (pós-carga); ■■■■■ freqüência cardíaca. 118 PÓ S-O PE RA TÓ RIO D E C IRU RG IAS D E C AR DIO PA TIA S C ON GÊ NIT AS Alterações em qualquer um destes fatores levam à síndrome do baixo débito cardíaco, que é caracterizada por: ■■■■■ sudorese, ■■■■■ sinais de agitação psicomotora, ■■■■■ extremidades frias, ■■■■■ lábios cianosados ou pálidos, ■■■■■ pulsos periféricos ausentes ou filiformes, ■■■■■ hipotensão, ■■■■■ oligúria. Ao avaliarmos uma criança com baixo débito cardíaco, devemos também afastar outras situações que podem deprimir o miocárdio, como acidose, hipoglicemia, hipocalcemia e hipopotassemia. Contratilidade miocárdica As alterações da contratilidade miocárdica no pós-operatório podem ocorrer devido aos seguintes fatores: ■■■■■ defeito anatômico ou função cardíaca diminuída no pré-operatório; ■■■■■ ventriculotomia; ■■■■■ cardioplegia; ■■■■■ isquemia devida à CEC; ■■■■■ tempo de CEC; ■■■■■ anestésicos. As cardiopatias menos complexas e que não cursam com disfunção ventricular e/ou hipertensão pulmonar raramente causam baixo débito no pós-operatório, ao contrário das complexas. Se a criança não apresenta nenhum distúrbio ácido-básico ou metabólico, está bem oxigenada, com volemia normal, dor controlada, sem alterações da temperatura e com alteração da contratilidade miocárdica, está indicado o uso de fármacos inotrópicos. O digital normalmente é utilizado nas primeiras doze a 24 horas, na dose de 10μμμμμg/kg/dia, via oral, ou intravenosa, sem dose de ataque. O digital não deve ser utilizado quando há bradicardia e deve-se tomar cuidado com o uso concomitante de cálcio. A dopamina é o fármaco mais utilizado no pós-operatório devido a seus diversos efeitos. Veja, no Quadro 4, as dosagens e efeitos desse fármaco. 119 PR OA MI S EM CA D Dosagens 2 a 5μg/kg/min 5 a 10μg/kg/min > 10 μg/kg/min > 15μg/kg/min Efeitos Apresenta efeito delta, com vasodilatação periférica renal e esplâncnica, tendo discreto efeito inotrópico positivo; Tem efeito beta e inotropismo positivo mais acentuados e causa aumento da freqüência cardíaca sem aumentar a pressão arterial sistêmica. Tem efeito alfa acentuado com aumento da resistência vascular sistêmica, aumentando a pressão arterial e levando à vasoconstrição periférica, renal e esplâncnica. Existem relatos que efeitos inotrópico e cronotrópico positivos só ocorrem com essa dosagem cursando também com aumento da pressão de artéria pulmonar. LEMBRAR Quadro 4 DOSAGENS E EFEITOS DA DOPAMINA NO PÓS-OPERATÓRIO Em crianças pequenas, nas quais existem poucas fibras simpáticas no miocárdio, os efeitos da dopamina citados talvez ocorram com doses maiores. Um outrofármaco bastante usado é a dobutamina. A dobutamina é uma amina simpatomimética sintetizada a partir da dopamina que atua nos receptores β -1 miocárdicos e menos nos receptores β-2 e α periféricos. De uma maneira prática, antigamente, iniciava-se sempre com dopamina em dose de 5μg/kg/min e, quando não havia uma boa resposta, associava-se dobutamina 10μg/kg/min. Existe, hoje em dia, uma tendência em utilizar melhor a dopamina, ou seja, usá-la em dose até 10μg, quando teríamos o efeito dopa e o efeito beta da dobutamina. Trabalharíamos, assim, com monodroga, obtendo ambos os efeitos. Nos casos em que há disfunção miocárdica sem alterações periféricas, a escolha seria utilizar a dobutamina isolada. No Quadro 5, encontramos considerações sobre fármacos utilizados no pós-operatório e indica- ções de uso. 120 PÓ S-O PE RA TÓ RIO D E C IRU RG IAS D E C AR DIO PA TIA S C ON GÊ NIT AS Dobutamina Adrenalina Isoproterenol Vasodilatadores Derivados biperidínicos Dosagens e indicações Administrada na dose de 5 a 10μμμμμg/ kg/min e freqüentemente associada à dopamina em dose dopaminérgica, para obter os melhores efeitos desses fármacos. A adrenalina é usada nos casos que não respondem à dopamina ou dobutamina ou existe hipotensão arterial, na dose de até 0,3μμμμμg/kg/ min. Com doses maiores do que 0,3μg/ kg/min Quando há bradicardia grave e na dose de 0,1 a 1,0μg/kg/min. Utilizados quando os agentes inotrópicos usados isoladamente não melhoram a contratilidade miocárdica. O mais utilizado é o nitroprussiato de sódio (0,5 a 5,0μμμμμg/kg/min). Pode-se utilizar também nifedipina (1 a 2mg/kg) ou captopril (1 a 3mg/kg) Pode-se utilizar a amrinona e milrinona. Preferimos utilizar a milrinona por ter uma meia vida mais curta (duas a três horas) que a amrinona (seis a oito horas), na dose de ataque de 50μμμμμg/kg em três a cinco minutos. A seguir é feita uma infusão contínua de 0,75mg/kg/min.15 Considerações Melhora a contratilidade e tem menor efeito periférico quando comparada com a dopamina. A dobutamina pode causar taquicardia, quando administrada em doses maiores do que 10μμμμμg/ kg/min. Causa mais efeitos β-1 e β-2. Causa efeito alfa acentuado. Tem efeito beta acentuado, cursando com aumento da freqüência cardíaca e inotropismo positivo. Por aumentar muito a freqüência cardíaca, leva a um consumo maior de oxigênio pelo coração, com risco de arritmias. Com o uso prolongado, pode haver acúmulo de cianetos com repercussões no sistema nervoso central. Usados quando é possível utilizar a via oral. Possuem efeito inotrópico e atividade vasodilatadora periférica e pulmonar, simulando os efeitos dos fármacos usados em associação. Atuam inibindo a fosfodiesterase, aumentando a atividade AMP-3-cíclico e agindo diretamente sobre o coração e os vasos. Quadro 5 USO DE OUTROS FÁRMACOS NO PÓS–OPERATÓRIO 121 PR OA MI S EM CA D 1. Isoproterenol 2. Dopamina 3. Nitroprussiato de sódio 4. Adrenalina 5. Digital 6. Dobutamina ( ) De 5 a 10μg/kg/min, tem efeito beta e inotropismo positivo mais acentuados, e causa aumento da freqüência cardíaca sem aumentar a pressão arterial sistêmica. ( ) Com o uso prolongado, pode haver acúmulo de cianetos com repercussões no sistema nervoso central. ( ) Normalmente é utilizado nas primeiras doze a 24 horas, na dose de 10μμμμμg/kg/dia via oral ou intravenosa, se dose de ataque. Contra-indicado em caso de bradicardia e deve-se tomar cuidado com o uso concomitante de cálcio. ( ) Em doses maiores que 10μμμμμg/kg/min, pode causar taquicardia. ( ) Pode levar a arritmias. Usa-se em casos de braquicardia grave, na dose de 0,1 a 1,0μg/kg/min. ( ) Utilizada nos casos em que não se obtém resposta com dopamina ou dobutamina ou existe hipotensão arterial, em dosagem de até 0,3μg/kg/min. 7. Quais são as principais causas e que medidas devem ser adotadas pela equipe médica em caso de alteração do débito cardíaco? ....................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ 8. Correlacione as colunas. Pré-carga A pré-carga é definida como o enchimento diastólico final. Na ausência de lesão valvar atrioventricular, a pressão diastólica final corresponde à pressão média dos átrios. Dessa forma, podemos controlar a volemia através da pressão de átrio direito (PVC) e átrio esquerdo (PAE). O valor das pressões dos átrios considerado ideal é de até 15mmHg, com zero na linha axilar média, podendo chegar a 18mmHg no átrio direito e 20mmHg no átrio esquerdo, quando houver hipotrofia, hipocontratilidade, obstrução parcial das vias de saída ventriculares ou hiper- tensão pulmonar. No pós-operatório de correções de comunicação interatrial (CIA) ou cardiopatias com grandes dilatações de átrio direito, como drenagem anômala de veias pulmonares, o átrio direito é muito complacente e a PVC oscila entre 5 e 10mmHg. Nas cirurgias em que há anastomose cavopulmonar ou atriopulmonar, a PVC deve ficar entre 18 e 20mmHg. 122 PÓ S-O PE RA TÓ RIO D E C IRU RG IAS D E C AR DIO PA TIA S C ON GÊ NIT AS Tipo de cardiopatia indicada Cardiopatias acianóticas Cardiopatias cianóticas Blalock-Taussig Níveis de uso Hb 10, Ht 30 a 35% Hb 15, Ht 40 a 45% Hb 13 a 14, Ht 40%; para evitar obstrução do shunt O volume de líquidos ofertado nas primeiras 24 horas, em nosso serviço, é o seguinte: ■■■■■ 40% da necessidade básica na forma de soro glicosado com cálcio nas cirurgias com CEC; ■■■■■ 60% nas cirurgias sem CEC. Utilizamos colóides quando há perdas e para manter a hemoglobina (Hb) e o hematócrito (Ht) em níveis ideais para cada tipo de cardiopatia, conforme o Quadro 6. Quadro 6 USO DE COLÓIDES As perdas também podem ser repostas com solução cristalóide (soro fisiológico ou Ringer-lactato), quando não dispomos de imediato de colóides ou houve pouco sangramento ou perda protéica. Quando as crianças chegam edemaciadas: ■■■■■ utilizamos furosemida na dose de 1 a 4mg/kg/dia, verificando sempre se não exis- te hipoalbuminemia ou insuficiência renal. Esta infusão de líquidos não é uma norma rígida, e, dependendo da situação, pode ser modificada. Após a estabilização e extubação: ■■■■■ inicia-se a ingesta oral; ■■■■■ restringe-se mais a administração intravenosa de líquidos. Pós-carga A pós-carga é definida como a resistência à ejeção do volume sistólico dos ventrículos. A pressão arterial sistêmica (PAS) e a pressão pulmonar são os fatores relacionados à pós- carga. A PAS deve ser mantida, em seus limites máximos, 20% acima e 10% abaixo dos valores normais para a idade. A pressão de artéria pulmonar não deve ultrapassar metade da pressão arterial sistêmica. 123 PR OA MI S EM CA D LEMBRAR Hipertensão arterial sistêmica Existem vários fatores que podem aumentar a pressão arterial sistêmica no pós-operatório imedi- ato: ■■■■■ dor, ■■■■■ hipotermia, ■■■■■ hipoxia, ■■■■■ acidose, ■■■■■ hipovolemia incipiente, ■■■■■ descarga simpática relacionada ao despertar. A elevação da PAS pode causar ruptura das suturas ou provocar sangramentos. As medidas iniciais em caso de hipertensão arterial sistêmica são: ■■■■■ fazer uma sedação e uma analgesia adequadas; ■■■■■ corrigira volemia; ■■■■■ administrar fármacos. O fármaco de escolha no caso de hipertensão arterial sistêmica, inicialmente, é o nitroprussiato de sódio em infusão contínua na dose de 0,5 a 10μμμμμg/kg/min. Após 48 horas de uso do nitroprussiato de sódio, devemos nos preocupar com o nível do cianeto. Se a hipertensão persistir após a estabilização e com a criança já utilizando a via oral, podemos substituir o nitroprussiato por um dos seguintes fármacos: ■■■■■ hidralazina (3 a 5mg/kg/dia); ■■■■■ nifedipina (0,5 a 2mg/kg/dia); ■■■■■ captopril (1 a 3mg/kg/dia); ■■■■■ propanolol (1 a 4mg/kg/dia). O propanolol não é utilizado quando há hipocontratilidade. Hipertensão pulmonar A hipertensão pulmonar é uma alteração verificada nos pós-operatórios de crian- ças que já apresentavam pressão pulmonar aumentada previamente (acima da metade ou dois terços da pressão arterial sistêmica) ou que tinham cardiopatias com grande shunt esquerda-direita.17 124 PÓ S-O PE RA TÓ RIO D E C IRU RG IAS D E C AR DIO PA TIA S C ON GÊ NIT AS LEMBRAR Outros fatores, como dor, agitação, acidose, hipercapnia, aspirações traqueais podem aumentar a pressão arterial pulmonar. Nesses casos, as crianças devem sair da UTI com um cateter na artéria pulmonar para melhor avaliarmos as pressões. Clinicamente, a hipertensão pulmonar se manifesta como: ■■■■■ queda brusca do oxigênio (hipoxemia); ■■■■■ agitação; ■■■■■ taquicardia; ■■■■■ taquipnéia; ■■■■■ hipotensão arterial. Nos casos de hipertensão pulmonar, existe uma falha da função do ventrículo direito. Nos casos em que se espera a ocorrência de hipertensão pulmonar, as crianças já devem estar adequadamente sedadas nas primeiras 24-48 horas, até estabilização do quadro. Muitas vezes, a hipertensão pulmonar pode ocorrer no fechamento do tórax, o que nos leva a mantê-lo aber- to durante algum tempo após a cirurgia. O tratamento inicial consiste em hiperventilação (pCO2 entre 25 e 30), oxigenação e sedação adequada (utilizamos fentanil + midazolam). Em alguns casos, quando se deseja manter o pH em torno de 7,5, usa-se bicarbonato de sódio para alcalinizar. Diversos agentes foram utilizados e não mostraram ter eficácia em reduzir seletivamente a pressão pulmonar: tolazolina, nitroglicerina e nitroprussiato de sódio. Atualmente, os melhores resultados têm sido obtidos com a utilização do óxido nítrico inalado, que tem um efeito vasodilatador pulmonar seletivo.18 O óxido nítrico tem uma meia-vida média extremamente curta, devido a sua ligação com a hemoglobina, o que explica a ausência de efeitos sistêmicos. Para a administração do óxido nítrico, é necessário um aparelho adequado que é conectado ao circuito do aparelho de ventilação mecânica. Inicia-se com uma dose de 10ppm e aumenta-se progressivamente até obter-se uma melhor resposta, que pare- ce ser em torno de 20ppm (algumas vezes, aumenta-se até 60ppm e há relatos de até 80ppm). Ainda não se sabe qual seria o tempo ideal de uso e a melhor concentração a ser utilizada. Quando usamos óxido nítrico, devemos monitorizar os níveis de dióxido de nitrogênio e de metaemoglobina. Outro agente utilizado em casos de hipertensão pulmonar é o sildenafil IV (0,35mg/kg durante vinte minutos), que demonstrou reduzir a resistência vascular pulmonar principalmente quando associado ao óxido nítrico. Como efeitos colaterais, o sildenafil apresenta hipotensão sistêmica e piora da oxigenação arterial.33 125 PR OA MI S EM CA DUtilizamos também a milrinona, que diminui a pressão pulmonar além de melhorar o débito car- díaco. Quando não dispomos de óxido nítrico, a milrinona é uma boa opção para baixar a pressão pulmonar. Normalmente, é necessário o uso de um fármaco inotrópico nos casos de hiper- tensão pulmonar. 9. Quais são as condutas indicadas quando as crianças chegam à UTI edemaciadas? Represente esquematicamente. 10. Quais os agentes, dosagens e considerações em caso de hipertensão arterial sistêmica? ....................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ 11. Cite as características dos agentes atualmente utilizados em quadros de hiperten- são pulmonar: Óxido nítrico inalado - ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ Sildenafil IV - ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ Milrinona - ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ 12. Que outras considerações são importantes sobre pré-carga e pós-carga como complicadores no pós-operatório imediato? ....................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ 126 PÓ S-O PE RA TÓ RIO D E C IRU RG IAS D E C AR DIO PA TIA S C ON GÊ NIT AS Alterações da freqüência e ritmos cardíacos As arritmias são freqüentes no pós-operatório de cirurgia cardíaca e não são ape- nas decorrentes do ato cirúrgico. Podem ser causadas por distúrbios do potássio, hipoxia, acidose, hipercapnia ou disfunção ventricular. Quando decorrentes do ato ci- rúrgico, as arritmias são causadas por: ■■■■■ manipulação do sistema de condução; ■■■■■ presença de cateteres intracardíacos; ■■■■■ processos inflamatórios do pericárdio. A taquicardia sinusal pode ser decorrente de dor, ansiedade, febre, hipovolemia, insuficiência cardíaca, uso de inotrópicos, e pode ser revertida com o controle desses fatores. Em alguns casos, no entanto, só é controlada com digital. O ritmo juncional, ou dissociação atrioventricular, é comum em pós-operatório de cirurgias que manipulam o nó atrioventricular, como a cirurgia de Senning e Mustard para corrigir a transposição dos grandes vasos da base, a cirurgia de correção do defeito do septo atrioventricular ou CIV perimembranosa.19,29 As freqüências são muito elevadas (150-250bpm), levando a baixo débito cardíaco e acidose metabólica, que tornam o tratamento mais difícil. O fármaco que utilizamos nessa situação é a propafenona: ataque de 2mg/kg IV em duas horas e manutenção de 4 a 8μg/kg/min. Nos casos refratários, pode ser utilizada cardioversão ou emprego de marca-passosatriais. Na correção de defeitos do septo atrioventricular ou do septo interventricular da tetralogia de Fallot, é comum o aparecimento de bloqueio de ramo direito, que não tem repercussão clínica no início, a não ser que evolua para bloqueio AV total. A taquicardia atrial paroxística ou supraventricular ocorre em cirurgias que envolvem os átrios. O tratamento da taquicardia atrial paroxística consiste em manobras vagais, uso de adenosina na dose de 0,1 a 0,2mg/kg em bolo, cuja dose pode ser repetida. Como opção terapêutica, temos a amiodarona 5 a 10mg/kg infundida em uma hora, ou digital 10μμμμμg/kg/dia, dividido em duas doses. Nos casos em que há baixo débito cardí- aco ou má perfusão periférica, está indicada a cardioversão elétrica sincronizada na dose de 0,5 a 1J/kg, que pode ser repetida. O flutter atrial, quando ocorre, também é tratado com cardioversão, amiodarona ou digital. A fibrilação atrial, quando ocorre, pode também ser tratada com amiodarona, digital e nos casos instáveis, com cardioversão. A taquicardia ventricular é mais rara no pós-operatório, mas quando aparece pode ser grave. 127 PR OA MI S EM CA D Alterações de freqüência e ritmo cardíaco Taquicardia sinusal Ritmo juncional Taquicardia atrial paroxística Fibrilação atrial Flutter atrial Taquicardia ventricular Fibrilação ventricular Bradiarritmias Tratamento indicado Em casos de taquicardia ventricular, utiliza-se lidocaína na dose de 1 a 2mg/kg em bolo: se o paciente responde bem, passamos a 20 a 50μμμμμg/kg/min. Nos casos em que o paciente não responde ou há má perfusão, está indicada a cardioversão elétrica sincronizada na dose de 0,5 a 1J/kg, que pode ser repetida. A taquicardia ventricular, associada a baixo débito cardíaco, pode funcionar como fibrilação ventricular, nesse caso faz-se desfibrilação ou cardioversão assincronizada na dose 2J/kg, podendo, se não reverter, ser aumentada até 4J/kg. A conduta para a fibrilação é a mesma e, após duas desfibrilações, passamos a alternar adrenalina na dose de 0,01mg/kg, alternando com a desfibrilação, até reverter o quadro. Nas bradiarritmias, após suspensão de digital e betabloqueador, utiliza-se atropina 0,02mg/kg/dose ou isoproterenol em infusão contínua 0,1 a 1μμμμμg/kg/min. Quando o débito cardíaco estiver muito baixo (em bloqueios AV totais), está indicado o uso de marca-passo, conectado aos eletrodos epicárdicos colocados pelo cirurgião, até a reversão do quadro. Não havendo resposta, pode-se recorrer ao marca-passo transesofágico e, quando não há nenhuma melhora, ao marca-passo definitivo. No tratamento das arritmias, devemos inicialmente afastar as causas não-relacionadas à manipulação cirúrgica e corrigi-las quando necessário. 13. Quando não decorrentes do ato cirúrgico, que outras causas podem ser atribuídas ao surgimento das arritmias no pós-operatório de cirurgia cardíaca? ....................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ 14. Complete a tabela a seguir: 128 PÓ S-O PE RA TÓ RIO D E C IRU RG IAS D E C AR DIO PA TIA S C ON GÊ NIT AS LEMBRAR SISTEMA RESPIRATÓRIO As crianças submetidas a cirurgias cardíacas geralmente são transportadas intubadas para a UTI. Nas patologias mais simples, como persistência do canal arterial (PCA), CIA, e, algumas vezes, coarctação da aorta e CIV, os pacientes podem ser extubados no centro cirúrgico.21 Em outros casos, ou quando não há estabilização hemodinâmica completa, o ideal é extubar após avaliação clínica e laboratorial adequadas, estando a criança bem monitorizada. As alterações respiratórias no pós-operatório podem estar relacionadas a várias causas, como funções pulmonar e cardíaca no pré-operatório, CEC e grau de sedação da criança. Procedimento de atendimento na UTI à criança com alteração respiratória no pós-ope- ratório da cardiopatia: ■■■■■ colocação da criança no aparelho de ventilação mecânica, inicialmente em ventila- ção controlada; ■■■■■ avaliação clínica para verificar a expansão do tórax e a simetria do murmúrio vesicular; ■■■■■ ajuste de parâmetros, de acordo com a freqüência respiratória para a idade. Os outros parâmetros dependem da gasometria arterial. A FiO2 deve ser suficiente para manter uma PaO2 entre 80 e 90mmHg e uma saturação arterial de oxigênio (SaO2) acima de 90%. Nas cirurgias paliativas, como shunts aórtico-sistêmicos, a PaO2 deve ficar em torno de 45mmHg e a SaO2, em torno de 70%. Procuramos sempre oferecer a menor FiO2 para alcançar estes valores. A PaO2 só deve ser mais elevada nos casos de hipertensão pulmonar. A pressão inspiratória deve ser a menor possível para mantermos a PaCO2 entre 35 e 45mmHg, podendo ser mais baixa também nos casos de hipertensão pulmonar. A PEEP é mantida entre 3 e 4mmHg para evitar microatelectasias. Nos casos de grande comprometimento pulmonar e baixas SaO2, podemos melhorar a oxigenação aumentando a PEEP, e não às custas de aumento de pressão inspiratória e volume corrente, que são mais agressivos ao pulmão. A PEEP não deve exceder 12 a 15mmHg e não deve ser utilizada quando há baixo débito cardíaco ou na cirurgia de Fontan, pois pode diminuir muito o retorno venoso (pré-carga). Quando a criança encontra-se estável hemodinamicamente, não necessita de FiO2 maior do que 0,4 para manter PaO2e SaO2, está consciente e em condições de comandar sua respiração, não está utilizando muitos sedativos e está metabolicamente compensada, procedemos à extubação, oferecendo o oxigênio em cateter ou máscara. 129 PR OA MI S EM CA D Complicação Pneumotórax Atelectasias Edema de glote pós- extubação Paralisia diafragmática Pneumonias Síndrome do desconforto respiratório agudo (SDRA) Características Ocorre devido à abertura da pleura durante o ato cirúrgico. Deve ser drenado se for muito extenso ou hipertensivo. Podem ser prevenidas com fisioterapia adequada, mudança de posição no leito e PEEP. Deve-se sedar o paciente, utilizar dexametasona (0,6mg/kg/dia) e oxigênio umidificado. Se o edema não melhorar, reintuba-se o paciente com uma cânula de menor calibre, mantendo-se o corticóide, e extuba-se quando houver escape de ar pela cânula ou após laringoscopia. A traqueostomia está indicada para quando há estenose subglótica. Em nosso meio, após a extubação, fazemos inalação com adrenalina e, se houver intubação prolongada ( > 1 semana), utilizamos corticóide antes de extubar. Ocorre devido à hipotermia, inflamação ou lesão do nervo frênico. O diagnóstico pode ser mascarado enquanto a criança estiver intubada e ventilando. O diagnóstico de paralisia diafragmática é confirmado pela radioscopia. Deve-se realizar plicatura do diafragma quando não há melhora do quadro com tratamento conservador. São mais freqüentes quanto maior for o tempo de ventilação mecânica. Utilizam-se antibióticos de acordo com as culturas e perfil microbiológico do local. Faz parte da síndrome da resposta inflamatória sistêmica desencadeada pelo estresse de uma cirurgia de grande porte e pode ser causada pelas alterações na membrana alvéolo-capilar devidas à CEC. O tratamento visa a manter uma adequada PaO2 sem lesar o pulmão. Várias técnicas de ventilação protetora são utilizadas. Recém-nascidos e lactentes jovens, após a extubação, são mantidospor algum tempo em pressão positiva contínua de vias aéreas (CPAP). A fisioterapia respiratória, iniciada no primeiro dia após a chegada à UTI, contribui muito para a ventilação adequada e o sucesso da extubação. No Quadro 7, a seguir, são apresentadas as principais complicações relacionadas ao aparelho respiratório. Quadro 7 COMPLICAÇÕES RELACIONADAS AO APARELHO RESPIRATÓRIO22 130 PÓ S-O PE RA TÓ RIO D E C IRU RG IAS D E C AR DIO PA TIA S C ON GÊ NIT AS SISTEMA RENAL A insuficiência renal no pós-operatório de cirurgia cardíaca pode ser causada pelo baixo débito cardíaco e estar relacionada a outros fatores como idade, tempo de cirurgia e CEC e, também, ao uso de substâncias nefrotóxicas, como aminoglicosídeos. A insuficiência renal é mais comum nas cardiopatias cianóticas e pode fazer parte da disfunção de múltiplos órgãos e sistemas que ocorre nos casos que evoluem mal no pós- operatório, complicam com sepse, e nos quais a criança permanece muito tempo em baixo débito. Quando a diurese passa a ser menor que 1ml/kg/hora, há hematúria no coletor de urina, o potássio permanece acima de 5mEq/L e a creatinina passa de 1mg/dL, suspei- tamos que a criança está evoluindo para insuficiência renal. Havendo oligúria após correção da volemia, utilizamos furosemida na dose de 1mg/kg até o máximo de 6mg/kg/dia para tentar estimular a diurese. Tentamos algumas vezes usar manitol na dose de 0,25mg/kg para estimular o rim. Se, após estimulação e restrição hídrica, ainda há hipervolemia e os níveis de uréia e creatinina estão aumentando, indicamos a diálise peritoneal, que pode não ser eficaz em pacientes malperfundidos. Outro método que pode ser empregado é a hemofiltração, que causa menos alterações hemodinâmicas, quando comparada com a hemodiálise. Fatores associados com maior necessidade de diálise peritoneal no pós-operatório de crian- ças pequenas são parada cardiocirculatória, tempo de circulação extracorpórea e síndrome de baixo débito cardíaco.34 O uso da dopamina em dose “renal” (2,5μg/kg/min) mostrou não ser eficaz, não me- lhorando o fluxo urinário e nem tendo efeito inotrópico. Havendo a opção de empregar a dopamina, a dose deve ser a partir de 5μg/kg/min. 15. Com base no texto e em sua prática médica, represente esquematicamente os manejos de FiO2, PaCO2 e PEEP para manter a PaO2 e a SaO2 em condições satisfatórias em duas situações: ■■■■■ cirurgias paliativas (shunts aórtico-sistêmicos); ■■■■■ nas demais cirurgias. 131 PR OA MI S EM CA D 1. Pneumotórax 2. Atelectasias 3. Edema de glote pós- extubação 4. Paralisia diafragmática 5. Pneumonias 6. SDRA ( ) Ocorre devido à hipotermia, inflamação ou lesão do nervo frênico. O diagnóstico é confirmado pela radioscopia. ( ) O tratamento visa a manter uma adequada PaO2 sem lesar o pulmão. Várias técnicas de ventilação protetora são utilizadas. ( ) Ocorre devido à abertura da pleura durante o ato cirúrgico. Deve ser drenado se for muito extenso ou hipertensivo. ( ) São mais freqüentes quanto maior for o tempo de ventilação mecânica. Utilizam-se antibióticos de acordo com as culturas e perfil microbiológico do local. ( ) Podem ser prevenidas com fisioterapia adequada, mudança de posição no leito e PEEP. ( ) Deve-se sedar o paciente. Se não ocorrer melhora, reintuba-se o paciente com uma cânula de menor calibre, mantendo-se o corticóide, e extuba-se quando houver escape de ar pela cânula ou após laringoscopia. 16. Correlacione as colunas. 17. Com base no texto e em sua prática médica, represente esquematicamente os procedimentos diante de um quadro de insuficiência renal no pós-operatório de uma cirurgia cardíaca. DISTÚRBIOS HEMORRÁGICOS O sangramento no pós-operatório é uma das complicações mais freqüentes e neces- sita ser diferenciado quanto a sua etiologia: se é devido a distúrbio de coagulação ou à hemostasia cirúrgica inadequada. A CEC causa uma série de alterações na hemostasia devido à passagem do sangue pela su- perfície não-epitelizada. A heparina utilizada na anticoagulação da CEC inibe a formação de trombina e os fatores IX, X, XI, XII. Outras causas seriam as reações transfusionais, trombocitopenia, coagulação intravascular disseminada (CIVD) e a insuficiência hepática. Nas cardiopatias cianóticas devido à hipoxia e hiperviscosidade, ocorre uma maior chance de coagulopatia. No caso de coagulopatia, a solicitação de um estudo da coagulação, na chegada do paciente, é a conduta adequada. Se o estudo estiver alterado, inicialmente neutraliza- mos a heparina utilizada, ministrando 1mg de protamina para neutralizar 100U de heparina. 132 PÓ S-O PE RA TÓ RIO D E C IRU RG IAS D E C AR DIO PA TIA S C ON GÊ NIT AS LEMBRAR Se as provas da coagulação permanecerem alteradas, utilizamos os fatores de coagulação: ■■■■■ plaquetas: 1U/4kg quando a contagem estiver abaixo de 30.000/mm³; ■■■■■ plasma fresco: 10 a 20ml/kg e crioprecipitado 1 a 2U, se tivermos tempo de tromboplastina parcial ativada (TTPA) e tempo de trombina (TT) alterados. Na CIVD, usamos todos os fatores citados e devemos eliminar a causa básica. Não há estudos com outros fatores como proteína C-ativada e antitrombina III. A hemofiltração pode melhorar a coagulopatia devida à CEC.25 Quando existe sangramento com estudo de coagulação normal, fazemos a infusão de plasma e concentrado de hemácias ou sangue total e, havendo perda maior que 30% da volemia em uma hora, está indicada a reintervenção cirúrgica. BALANÇO VOLÊMICO E HIDROELETROLÍTICO Como já citado, o ato operatório leva à retenção de sódio e água. Por isso, no pós-operatório com CEC, oferecemos 40% das necessidades hídricas ao dia, sendo realizado o balanço hídrico e monitorizadas as pressões (PVC, PAE). As reposições são feitas inicialmente com cristalóides, de acordo com as perdas e o controle da diurese. Os colóides são utilizados também com freqüência (plasma ou albumina), dependendo do tipo das perdas, devendo-se tomar cuidado com a síndrome do desconforto respiratório agudo. O sódio não é utilizado no pós-operatório, a não ser que os controles mostrem hiponatremia refratária. O potássio também não é prescrito inicialmente, mas apenas quando estiver abaixo de 4mEq/L, na manutenção ou correção rápida, estando abaixo de 2,5mEq/L, lembrando sempre que há espoliação do potássio devido à CEC. Quando há hipercalemia, utilizamos cálcio, bicarbonato e glicose. O cálcio é prescrito, desde o início, na dose de 100 a 200mg/kg/dia. O cálcio pode estar baixo em recém-nascidos e lactentes e devido ao uso de citrato de sódio nos derivados sangüíneos. PROBLEMAS NEUROLÓGICOS As alterações neurológicas no pós-operatório de cirurgia cardíaca podem ser causadas por alguns fatores, tais como: ■■■■■ hipotermia e perfusão cerebral inadequada durante operação e durante a CEC, ■■■■■ tempo de parada cardíaca, ■■■■■ isquemia e hipoxia por embolias gasosas, ■■■■■ edema cerebral secundário à retenção hídrica, ■■■■■ distúrbios metabólicos como hipoglicemia, hipocalcemia, hiponatremia, acidose e hipomagnesemia.7,8 133 PR OA MI S EM CA D LEMBRAR As alterações neurológicas podem manifestar-se das mais variadas formas: agitação, convul- sões, coreoatetose29 (devido à CEC) e coma. Em pacientes com sedativos e analgésicos, torna-se difícil a avaliação neurológica. Quando há suspeita de algum dano ao cérebro, é necessário um exame neurológico adequado com a escala de coma de Glasgow e a solicitação de eletroencefalograma e tomografia computadorizada cerebral. O paciente precisa ser muito bem monitorizado, mantendo uma oxigenação e perfusão tecidual adequadas. Devem-se corrigir os distúrbios metabólicos, tratar o edema cere- bral e as convulsões da maneira habitual. Fatores de risco para lesãocerebral, no pós-operatório, são: ■■■■■ baixa idade, ■■■■■ malformações complexas, ■■■■■ acidose metabólica, ■■■■■ lactato alto.35 PROBLEMAS DO APARELHO DIGESTIVO O íleo paralítico é freqüente no pós-operatório, tem caráter transitório e ocorre pelo uso de anestésicos e pelo baixo fluxo durante a CEC. Nesse caso, o paciente deve sair do centro cirúrgico com a sonda nasogástrica. Nas cirurgias com CEC, é freqüente haver insuficiência hepática. Há elevação das transaminases e icterícia, que pode ocorrer também por hemólise nos circuitos da CEC. O uso de anestésicos como halotano pode piorar a lesão hepática. As hemorragias gastrintestinais ocorrem por distúrbios da coagulação ou por estresse. INFECÇÕES No nosso serviço, as infecções mais freqüentes no pós-operatório de cirurgia cardíaca são: ■■■■■ Pneumonias geralmente associadas à ventilação mecânica prolongada. ■■■■■ Infecções em cateteres centrais.23 ■■■■■ Infecção de pele e tecidos moles. ■■■■■ Sepse. Nas primeiras 24 horas, é comum o aparecimento de febre e hemograma com des- vio à esquerda decorrentes da resposta inflamatória sistêmica pela cirurgia.28 Por- tanto, não é um sinal precoce de infecção. 134 PÓ S-O PE RA TÓ RIO D E C IRU RG IAS D E C AR DIO PA TIA S C ON GÊ NIT AS Agente Cristalóides Colóides Sódio Potássio Cálcio Especificidade Quando suspeitamos de infecção, colhemos hemoculturas, cultura de material de ferida cirúr- gica (se houver), urocultura, cultura de lavado brônquica e dos cateteres. Iniciamos antibiótico empírico até receber o resultado das culturas, baseado no perfil epidemiológico do nosso hospi- tal. Em nosso serviço, os germes mais freqüentes são: ■■■■■ Staphylococcus aureus não produtor de betalactamase, ■■■■■ Pseudomonas aeruginosa, ■■■■■ Klebsiella pneumoniae. Há suspeita de outros germes Gram-negativos mais oportunistas e infecções fúngicas nos casos mais prolongados e de evolução mais arrastada. Em relação às infecções dos cateteres, procedemos à retirada dos mesmos se houver hipertermia ou secreção na pele no local da sua implantação. As culturas de cateteres são valorizadas quando cresce o mesmo germe na hemocultura de sangue periférico ou está positivando primeiro a cultu- ra colhida do cateter. 18. Comente o papel da heparina nas complicações do pós-operatório que envolvem distúrbios hemorrágicos. ....................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ 19. Complete o quadro com as especificidades e outras considerações importantes dos seguintes agentes nas complicações advindas do balanço volêmico e hidroeletrolítico. 20. Considere, a partir do texto e de sua prática médica, os pontos relevantes quanto aos problemas de ordem neurológica e de ordem do aparelho digestivo advindos do pós-operatório de cirurgia cardíaca. ....................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ 135 PR OA MI S EM CA D Complicação Quilotórax Tamponamento cardíaco Síndrome pós- pericardiotomia Síndrome da resposta inflamatória sistêmica 24 Caracterização / Causa Ocorre devido à lesão do ducto torácico na cirurgia. Caracteriza-se por abafamento de bulhas, ingurgitamento venoso cervical e baixo débito cardíaco. Manifesta-se com a presença de febre, atrito pericárdico, e, quando a criança pode informar, com dor precordial. Há liberação de fator de necrose tumoral e outras citocinas na circulação. Sua evolução pode levar à disfunção de múltiplos órgãos e sistemas. Há relatos de que a síndrome da resposta inflamatória sistêmica é mais acentuada quando existem fatores predisponentes no pré- operatório. Dianóstico Presença de líquido leitoso no dreno pleural, que mostra aumento de triglicerídeos. Ecocardiograma. Ecocardiograma mostra a presença de derrame pericárdico. Tratamento Geralmente é conservador com eliminação de gorduras da dieta ou oferta apenas de triglicerídeos de cadeia média. Raramente tem indicação cirúrgica. Deve ser realizada drenagem imediata. Drenagem e uso de corticosteróides. Melhora com o uso de metilprednisolona.26 21. Quais são os cuidados a serem tomados com relação à infecção dos cateteres? ....................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ OUTRAS COMPLICAÇÕES No Quadro 8, estão listadas outras complicações que podem ocorrer no pós-operatório. Quadro 8 OUTRAS COMPLICAÇÕES NO PÓS-OPERATÓRIO CARDIOVASCULAR 136 PÓ S-O PE RA TÓ RIO D E C IRU RG IAS D E C AR DIO PA TIA S C ON GÊ NIT AS LEMBRAR SEDAÇÃO E ANALGESIA As alterações decorrentes da dor ou agitação no período pós-operatório são bastante estuda- das.30 Rotineiramente, utilizamos um opióide para analgesia: ■■■■■ morfina - intermitente 0,1mcg/kg/dose cada duas horas ou contínua 20-50mg/kg/ hora; ■■■■■ fentanil - 2 a 5mg/kg/hora. A morfina deve ser evitada quando há hipotensão arterial, e o fentanil pode causar bradicardia e rigidez da parede torácica.31 Após as primeiras 24 horas com o paciente extubado e estável, diminui-se a analgesia. Se o paciente ainda está instável, muito agitado, dificultando o controle da hipoxemia e hiper- tensão pulmonar, ministramos, além da analgesia, sedação com midazolam – contínuo na dose inicial de 0,5μμμμμg/kg/min, que pode ser aumentada, conforme a necessidade, até 6mg/kg/ min. Algumas vezes, usa-se hidrato de cloral – 50μμμμμg/kg/dose. Em situações muito graves, em que não conseguimos sedar bem o paciente, utiliza- mos bloqueadores musculares por período curto. NUTRIÇÃO Iniciamos a alimentação assim que a criança apresente ruídos hidroaéreos, geralmente após as primeiras 24 horas. Nos casos leves, com o paciente extubado, estável e lúcido, iniciamos a dieta por via oral. Nos outros casos, preferimos a dieta enteral através da colocação de uma sonda pós-pilórica. O volume de líquidos infundidos é reduzido assim que a dieta é iniciada. Nos casos em que permanece a instabilidade hemodinâmica ou a dieta enteral não foi tolerada, utilizamos a alimentação parenteral total. CONCLUSÃO As crianças com cardiopatias, principalmente as cardiopatias complexas, devem ser encaminha- das para um local que sejacentro de referência e que proporcione condições para um atendimen- to global no pré, per e pós-operatório.1,2,3 137 PR OA MI S EM CA DAtualmente, com a melhoria e aperfeiçoamento das unidades de terapia intensiva pediátricas (UTIPs), as crianças portadoras de cardiopatias congênitas, mesmo as mais complexas, têm uma melhor sobrevida. Aliado a esse fato, o diagnóstico das cardiopatias tornou-se mais preciso e as alterações hemodinâmicas melhor compreendidas, permitindo, assim, um amplo conhecimento das condi- ções da criança a ser operada e também uma prevenção das alterações que encontraremos no pós-operatório. 22. Sintetize as considerações importantes sobre as seguintes alterações do pós-ope- ratório de cirurgias cardíacas: Quilotórax: ....................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................ Tamponamento cardíaco: ....................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................ Síndrome pós-pericardiotomia: ....................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................ Síndrome da resposta inflamatória sistêmica: ....................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................ 23. Resuma, em um breve parágrafo, as considerações sobre sedação e analgesia e sobre nutrição no período pós-operatório de cirurgias de cardiopatias congênitas: ....................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ ........................................................................................................................................................ 24. Represente esquematicamente as idéias principais discutidas nesse capítulo. 138 PÓ S-O PE RA TÓ RIO D E C IRU RG IAS D E C AR DIO PA TIA S C ON GÊ NIT AS Paciente no pós-operatório de canal atrioventricular, apresenta-se intubado, ventilação mecânica com freqüência de 24 mrm, FiO2 de 80%, pressão inspiratória de 20 cmH2O, PEEP de 5 cmH2O, sedado com midazolam e fentanil e com os seguintes parâmetros de monitorização: ■■■■■ freqüência cardíaca de 158 bpm, ■■■■■ temperatura axilar de 37,5oC, ■■■■■ pressão arterial sistêmica 90x54 mmHg, ■■■■■ pressão de artéria pulmonar 80x48 mmHg, ■■■■■ pressão venosa central de 18 cmH2O, ■■■■■ saturação periférica de oxigênio de 83%, ■■■■■ diurese de 1,8 ml/kg/hora e perfusão periférica ruim. Qual dos fármacos abaixo seria o mais indicado para ser utilizado nesta situação? A) dopamina 5 mcg/kg/min. B) milrinona 0,75 mcg/kg/min. C) dobutamina 10 mcg/kg/min. D) adrenalina 0,4mcg/Kg/min. Resposta: B. Comentário: Esse paciente citado encontra-se com hipertensão pulmonar (maior que 30% do valor da pressão arterial sistêmica) e com baixo débito cardíaco. Dos fármacos citados, a milrinona é o único que, além de melhorar o débito, baixa a pressão pulmonar. Os demais fármacos não possuem esses dois efeitos associados. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1. Chang RKR, Klitzner TS. Can regionalization decrease the number of deaths for children who undergo cardiac surgery? A theoretical analysis. Pediatrics 2002; 102 (2). 2. Risk factores for Adverse Postoperative outcomes in Children Presenting for Cardiac Surgery with Upper Respiratory Tract Infections. Anesthesiology 2003; 98(3). 3. Sirio CA, Martich GD. Who goes to the ICU Postoperatively? Chest 1999 115 (5): 125-32. 4. Lisbon A, Fink MP. Post-Cardiac Surgery Management. Kruse: Manual of Critical Care 1st ed. Elsevier; 2003. P. 500. 5. Riegger LQ, Voepel-Lewis MSN, Kulik T, Malviya S, Tait AR, Mosca RS, et al. 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Não apresenta outras co-morbidades. A conduta correta é: A) Observar e definir a necessidade de profilaxia conforme a evolução do paciente. B) Iniciar profilaxia para sangramento digestivo com ranitidina. C) Iniciar profilaxia para sangramento digestivo com sucralfato, pois se correlaciona menos à infecção respiratória. D) Iniciar profilaxia com omeprazol ou pantoprazol tem sido a conduta mais recomendada recentemente. 3. Uma criança de sete anos, previamente imunizada, sofre um ferimento, considerado limpo no seu domicílio. Qual a melhor conduta para a prevenção de tétano? A) Desbridamento e imunoglobulina (uma dose). B) Desbridamento, penicilina e toxóide tetânico (uma dose). C) Desbridamento, penicilina, imunoglobulina (uma dose), toxóide (uma dose). D) Curativo simples e observar. 4. Paciente com tétano grave, internado na UTI há três dias, recebeu sedação e analgesia com fentanil + clonidina + midazolam e vem recebendo doses altas de pancurônio para o bloqueio neuromuscular. Ao exame, constata-se Ramsay = 6 e TOF com três respostas. Entretanto, apresenta abalos musculares e episódios freqüentes de taquicardia e hipertensão. Qual a melhor opção terapêutica? A) Reajuste da dose de pancurônio e administração de atracúrio. B) Reajuste da dose midazolam e pancurônio. C) Reajuste da dose de midazolam e fentanil. D) Associação do propofol. 5. No pós-operatório de cirurgias de cardiopatias congênitas, qual dos seguintes parâmetros avalia melhor a função ventricular esquerda? A) Pressão venosa central. B) Pressão de átrio esquerdo. C) Pressão de artéria pulmonar. D) Resistência vascular sistêmica. AUTO-AVALIAÇÃO DO MÓDULO 3 DO CICLO 1 QUESTÕES 142 RESPOSTAS DA AUTO-AVALIAÇÃO MÓDULO 4 DO CICLO 1 1. Reposta: B. 2. Resposta: A. Comentário: Nem todos os pacientes em UTI necessitam receber profilaxia. No caso em questão, se o paciente se mantivesse em ventilação mecânica por mais de cinco dias, haveria indicação. 3. Resposta: D. 4. Resposta: A. Comentário: Com Ramsay =6 o paciente está profundamente sedado e não irá se beneficiar com o aumento das doses de sedativos ou analgésicos ou com a associação de novos fármacos sedativos. A disautonomia e os abalos musculares indicam a atividade da doença de base. O pancurônio pode piorar a taquicardia desse paciente. O atracúrio causa maior estabilidade cardiovascular. É um benzil-isoquinolínico e, por ser inativado pela eliminação de Hoffman, não sofre acúmulo. Portanto, o seu perfil farmacocinético é o mais adequado para o tratamento do paciente em questão. É importante ressaltar que pacientes com tétano, de difícil controle clínico, podem ser beneficiados com a associação de dois fármacos bloqueadores neuromusculares. 5. Resposta: B. Comentário: A colocação de um cateter para medir a pressão de átrio esquerdo é o parâmetro que melhor avalia o desempenho do ventrículo esquerdo.