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Direito Penal Parte Especial

Notas sobre Crimes contra a Pessoa — Homicídio (art.121 CP). Trata tipologia (caput e §§), penas, consumação, distinção com genocídio, homicídio simples, doloso privilegiado/qualificado, requisitos do privilégio (motivo social/moral, homicídio emocional) e decisões do STF.

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Crimes Contra a Pessoa – Título I
Obs.: Art. 59, Estatuto do Índio: causa de aumento de pena quando a vítima é índio não integrado. A pena é agravada de 1/3.
Homicídio, Art. 121
É a injusta morte de uma pessoa praticada por outrem. É o tipo central dos crimes contra a vida. É o ponto culminante na orografia dos crimes. É o crime por excelência (Nelson Hungria).
TOPOGRAFIA DO ART. 121 CP: 
Caput: homicídio doloso simples 
§ 1º: homicídio doloso privilegiado 
§ 2º: homicídio doloso qualificado 
§ 3º: homicídio culposo 
§ 4º: majorantes de pena 
§ 5º: perdão judicial 
§ 6º: majorante do grupo de extermínio ou milícia armada (Lei nº 12.720/12)
Obs.: o homicídio preterdoloso é sinônimo de lesão corporal seguida de morte e está previsto no art. 129, §3º, do CP (não é crime doloso contra a vida).
Obs²: não existe crime de homicídio de menor potencial ofensivo, porém o homicídio culposo admite a suspensão condicional do processo.
Homicídio vs. Genocídio (Lei 2.889/56)
Quem praticar genocídio matando membros do grupo (art. 1º, ‘a’, Lei 2.889/56), terá as penas do art. 121, §2º CP (homicídio doloso qualificado). O crime de genocídio tutela a diversidade humana e por isso tem caráter coletivo ou transindividual, não atraindo, por si só a competência do Júri. Ocorre que uma das formas de praticar genocídio é por meio da morte de membros do grupo. A competência constitucional para o julgamento de crimes contra a vida é do Júri. O STF decidiu que, havendo concurso formal entre genocídio e homicídio doloso, compete ao Tribunal do Júri, da Justiça Federal, o seu julgamento.
Homicídio simples (art. 121 caput)
Pena: 6 a 20 anos.
Em regra, não é crime hediondo, salvo quando praticado em atividade típica de grupo de extermínio.
É crime comum. No entanto, Magalhães Noronha, aponta o Estado como vítima, também imediata, do crime, pois o Estado tem interesse na conservação da vida humana, condição para a sua própria existência.
A conduta é tirar a vida de alguém (vida extrauterina). É de execução livre. Ceifar a vida intrauterina configura abortamento (aborto). Tirar a vida extrauterina pode configurar o infanticídio.
	Início do Parto
1ª Corrente: com o completo e total desprendimento do feto das entranhas maternas.
2ª corrente: o início do parto se dá com as dores típicas do parto.
3ª corrente: o início do parto se dá com a dilatação do colo do útero.
O crime é punido a título de dolo (eventual ou direto), sem exigir finalidade especial animando o agente. Alias, dependendo da finalidade, pode ser um privilégio ou uma qualificadora.
STF: A embriaguez ao volante com resultado morte, em regra, caracteriza homicídio culposo (culpa consciente, art. 302, CTB). No racha, com resultado morte, em regra, caracteriza o homicídio doloso (dolo eventual, art. 121 CP). Deve ser analisado o caso concreto.
A consumação se dá com a morte da vítima (crime material). A morte se dá com a cessação da atividade encefálica (Lei 9.434/97). É crime plurissubsistente (admite a tentativa, inclusive no dolo eventual).
Homicídio doloso privilegiado (art. 121, §1º, CP)
É uma causa de diminuição de pena (3ª fase do cálculo da pena). É direito subjetivo do réu (poder dever do magistrado). Presentes os requisitos (reconhecidos pelos jurados), o Juiz deve reduzir a pena de 1/6 a 1/3.
*Motivo de relevante valor social. O móvito deve ser relevante (somente motivos relevantes, de natureza social, podem gerar o privilégio). O valor social é aquele que atende aos interesses da coletividade. Por exemplo: matar o traidor da pátria, matar perigoso bandido que ronda a vizinhança.
*Motivo de relevante valor moral. O motivo deve ser relevante, sob pena de desaparecer o privilégio. O valor moral é aquele que atende interesses particulares do agente, ligados a sentimentos de compaixão, misericórdia ou piedade. Por exemplo: eutanásia (previsto na Exposição de Motivos do CP).
*Homicídio emocional. Deve haver a observância de 3 requisitos: 
a) domínio de violenta emoção (emoção intensa, absorvente, inconfundível com a mera influência emotiva)
	Domínio de violenta emoção: emoção violenta, intensa e absorvente. Caracteriza o privilégio do art. 121, 1º.
	Mera influência de violenta emoção: emoção mais leve, menos violenta, emoção passageira e momentânea. Caracteriza uma atenuante do art. 65.
b) reação imediata: é a reação sem intervalo temporal. Para a Jurisprudência, enquanto perdurar o domínio da violenta emoção, qualquer reação será considerada imediata.
c) injusta provocação da vítima. Não traduz necessariamente uma agressão, mas qualquer conduta desafiadora, ainda que atípica. Por exemplo, pai que mata estuprador da filha; marido que surpreende a esposa o traindo.
*Incomunicabilidade das privilegiadoras. Todas as privilegiadoras são subjetivas, pois relacionadas ao motivo do crime ou estado anímico do agente. As privilegiadoras são circunstâncias subjetivas incomunicáveis, nos termos do art. 30 do CP.
	Circunstâncias: são dados agregados ao tipo que alteram a pena, mas não o crime.
	Elementares: são dados agregados ao tipo que alteram o crime. Por exemplo, a violência contra pessoa agregada ao furto configura roubo.
Homicídio qualificado (art. 121, §2º, CP)
É crime hediondo, não importando a qualificadora presente (art. 1º, I, Lei 8.072/90).
Inciso I - Matar mediante paga ou promessa de recompensa, ou por outro motivo torpe (art. 121, §2º, I)
Motivo torpe é o motivo vil, ignóbil, repugnante, abjeto. O inciso trabalha com interpretação analógica (exemplos seguidos de encerramento genérico). O Legislador dá exemplos de torpeza, devendo haver uma similitude axiológica de outras situações consideradas torpe. Não viola o princípio da legalidade, desde que o intérprete encontre casos que guardem similitude com os exemplos do Legislador. 
A vingança e ciúme podem ser considerados como motivo torpe, a depender da análise das peculiaridade do caso concreto.
*Homicídio mercenário (homicídio mediante paga ou recompensa). É crime plurissubjetivo, de concurso necessário. Necessariamente há o mandante (quem paga ou promete) e o executor (quem realiza mediante a paga ou promessa de recompensa). O executor é chamado sicário. A qualificadora da torpeza, para a maioria da doutrina, é uma circunstância subjetiva incomunicável ao mandante, aplicando-se tão somente ao sicário. Já para o STF/STJ, trata-se de uma elementar subjetiva, comunicável ao mandante. Em se tratando da natureza da paga ou promessa de recompensa, prevalece que deve ter natureza econômica. Se não for recompensa econômica, pode incidir no encerramento genérico da torpeza.
Inciso II – Por motivo fútil
É a pequeneza do motivo. Uma real desproporção entre o crime e a sua causa moral.
Por exemplo, briga de trânsito.
*Ausência de motivos. Para a jurisprudência, a ausência de motivos equipara-se ao motivo fútil. Entende que se o motivo pequeno qualifica, mais ainda matar sem motivo algum. Para Bitencourt, a ausência de motivos, por falta de previsão legal, não se equipara a motivo fútil.
*Motivo injusto vs. Motivo fútil. O motivo injusto é integrante de qualquer crime (ilicitude).
*Compatibilidade entre dolo eventual e motivo fútil. O STJ entende que não há incompatibilidade entre o dolo eventual com o motivo fútil.
Inciso III – Com emprego de veneno, fogo, explosivo, asfixia, tortura ou outro meio insidioso ou cruel, ou de que possa resultar perigo comum.
O legislador trabalha com interpretação analógica (exemplos seguidos de encerramento genérico).
*Veneficio. Veneno: substância biológica ou química, animal, mineral ou vegetal capaz de perturbar ou destruir as funções vitais do organismo humano. Inclusive, açúcar para o diabético. No caso do veneficio, o agente deve empregar a substância de modo insidioso. Ou seja, para incidir a qualificadora, é imprescindível que a vítima desconheça estar ingerindo a substância letal (exige-se a insídia).
Inciso IV – Á traição, de emboscada, ou mediante dissimulação ou outro recursoque dificulte ou torne impossível a defesa do ofendido
O legislador trabalha com interpretação analógica (exemplos seguidos de encerramento genérico).
A traição é o ataque desleal, inesperado, como atirar pelas costas. A emboscada pressupõe o ocultamento do agente, que ataca a vítima com surpresa. A dissimulação pressupõe que o agente tenha ocultado a sua intenção, por meio de fingimento.
*Premeditação. Por si só, a premeditação não qualifica o homicídio.
*Idade da vítima. Por si só, a idade da vítima não qualifica o crime, pois constitui característica da vítima e não recurso utilizado pelo agente.
Inciso V – Para assegurar a execução, a ocultação, a impunidade ou vantagem de outro crime
a) Conexão teleológica: o agente mata para assegurar a execução de outro crime (futuro). Por exemplo, João mata segurança para estuprar Maria. O crime será qualificado ainda que o crime futuro não aconteça. O crime futuro não precisa ser, necessariamente, praticado pelo homicida (ele pode matar para assegurar a execução de crime futuro a ser pratico por outra pessoa).
b) Conexão consequencial. O agente mata para assegurar a ocultação, impunidade ou vantagem de outro crime (passado). Por exemplo, João mata testemunha de crime praticado em que figura como suspeito. O crime passado não exige identidade de sujeito ativo com o homicídio.
*Conexão ocasional. A conexão ocasional não qualifica o homicídio. O homicídio é praticado por ocasião de outro crime, sem vínculo finalístico. Por exemplo, o agente está estuprando a vítima quando surge o seu desafeto (o agente aproveita o ensejo e mata o desafeto).
*Contravenção penal. Matar para assegurar a execução, ocultação, impunidade ou vantagem de contravenção penal não qualifica o homicídio pelo inciso V, mas pode caracterizar a torpeza, futilidade, etc.
Homicídio qualificado com pluralidade de circunstâncias qualificadoras. Uma das circunstâncias atua como qualificadora e a outra atua como agravante de pena (prevalece).
Exemplo: condenação pelo art. 121, II (fútil – qualificadora); a outra qualificadora será utilizada como agravante de pena.
Privilégio vs. Qualificadora. Se os jurados reconhecerem o privilégio, estão prejudicadas as qualificadoras subjetivas. No entanto, é possível o homicídio privilegiado qualificado, desde que a qualificadora seja objetiva. Prevalece que o homicídio privilegiado qualificado não é hediondo, preponderando, nesse tanto, o privilégio (art. 67 CP – as circunstâncias subjetivas preponderam sobre as objetivas – analogia utilizada por alguns doutrinadores).
Homicídio doloso majorado
1) Art. 121, § 4º, 2ª parte, CP: “se o crime é praticado contra vítima menor de 14 ou maior de 60 anos”.
A análise da idade da vítima é considerada no momento da conduta e não no momento do resultado. É indispensável que o agente saiba da condição etária da vítima, evitando-se responsabilidade penal objetiva.
2) Art. 121, § 6º, CP: Homicídio praticado por milícia privada ou grupo de extermínio
É uma causa de aumento de pena incluída pela Lei 12.720/12. Essa lei também tipificou o crime de formação de milícia ou grupo de extermínio (art. 288-A, CP).
*Conceitos
Grupo de extermínio: reunião de pessoas, matadores, “justiceiros” (civis ou não) que atuam na ausência ou leniência do Poder Público, tendo como finalidade a matança generalizada, chacina de pessoas supostamente etiquetadas como marginais ou perigosas.
Milícia privada (armada): grupo armado de pessoas (civis ou não) tendo como finalidade devolver a segurança retirada das comunidades mais carentes, restaurando a paz. Para tanto, mediante coação, os agentes ocupam determinado espaço territorial. A proteção oferecida nesse espaço ignora o monopólio estatal de controle social, valendo-se de violência ou grave ameaça.
*Números de membros integrando o grupo ou a milícia. Para uma 1ª corrente, é necessário 3 pessoas, com base no art. 288 CP (3 pessoas – associação criminosa). Uma 2ª corrente interpreta que o número de membros é de acordo com as organizações criminosas (art. 1º, §1º, Lei 12.850/13 – 4 pessoas).
# Quando um grupo de extermínio promove a matança, os agentes respondem somente por homicídio majorado (art. 121, § 6º, CP) ou em concurso com o delito de formação de grupo de extermínio (arts. 121, § 6º, CP + art. 288-A CP)? Para Bitencourt, o agente somente deve responder pelo art. 121, §6º, de modo a evitar o bis in idem (dupla valoração do mesmo fato em prejuízo do réu). Para a Jurisprudência, o agente responde pelos dois crimes, em concurso material, pois são infrações autônomas, protegendo bens jurídicos distintos (esse raciocínio é aplicado pelo STF no caso do roubo majorado pelo concurso de agentes em concurso material com o crime do art. 288 CP).
Homicídio culposo – art. 121, §3º, CP
Pena: 1 a 3 anos (admite suspensão condicional do processo)
Ocorre o homicídio culposo quando o agente, com manifesta imprudência, negligência ou imperícia, deixa de aplicar a atenção ou diligência de que era capaz, provocando, com sua conduta, o resultado morte, previsto (culpa consciente) ou previsível (culpa inconsciente), jamais querido ou aceito pelo agente. A impudência é a precipitação, afoiteza, normalmente ligada a uma ação. A negligência é a ausência de precaução, geralmente relacionada a uma omissão. A imperícia é a falta de aptidão técnica para o exercício de arte, ofício ou profissão.
Observações: a culpa concorrente da vítima não exime o agente de responsabilidade, pois o direito penal não admite compensação de culpas. Ocorre que a culpa exclusiva da vítima não gera responsabilidade penal para o agente. O direito penal é marcado pela responsabilidade subjetiva (dolo ou culpa).
Causas de aumento no homicídio culposo – Art. 121, §4º - aumento de 1/3
“inobservância de regra técnica de profissão, arte, ofício; deixa de prestar imediato socorro; não procura diminuir as consequências do ato; ou foge para evitar prisão em flagrante”. A pena é aumentada de 1/3. Desse modo, o crime não mais admite suspensão condicional do processo (art. 89, Lei 9.099/95).
 a) Homicídio culposo majorado pela inobservância de regra técnica de profissão, arte ou ofício (negligência profissional). Não se confunde com a imperícia. Na negligência profissional, o agente tem aptidão para o exercício do mister, porém não observa os conhecimentos técnicos que possui. O agente é relapso com o conhecimento que detém. Por exemplo, médico que esquece instrumento cirúrgico no interior do paciente. Na imperícia, o agente não tem aptidão para exercício do mister. Por exemplo, um clínico geral que realiza cirurgia plástica.
Observação: a negligência profissional vai servir como modalidade de culpa (caracterizando o tipo culposo, art. 121, §3º) e ao mesmo tempo servirá como majorante de pena (art. 121, §4º). Para o STF (HC 86. 969/RS), não há que se falar em bis in idem. No entanto, o mesmo STF, no HC 95.078/RJ reconheceu o bis in idem, determinando a não aplicação da majorante.
b) Homicídio culposo majorado pela omissão de socorro. Se a omissão está majorando o homicídio culposo, não pode incidir o tipo omissivo puro do art. 135 do Código Penal, evitando o bis in idem.
A omissão de socorro atuará somente como causa de aumento. Trata-se de crime culposo majorado dolosamente. Há presença de culpa no antecedente e dolo no consequente. É o fenômeno exatamente oposto ao preterdolo (culpa antecedente, dolo no consequente).
Obs.: se a vítima é socorrida imediatamente por terceiro, não há incidência da majorante para o autor do homicídio culposo.
Obs²: morte instantânea da vítima impede a aplicação da causa de aumento.
Obs³: se o autor do crime, apesar de reunir condições de socorrer a vítima, não o faz, concluindo pela inutilidade da ajuda em face da lesão provocada, não escapa do aumento de pena (STF 84.380/MG).
c) Homicídio culposo majorado por não procurar diminuir as consequências do comportamento. Para Fragoso, trata-se de uma redundância com a omissão de socorro.
d) Homicídio culposo majoradopela fuga para evitar prisão em flagrante. As razões do legislador são: o agente que foge demonstra ausência de escrúpulos; fica mais difícil e incerta a punição do responsável. 
Críticas: boa parte da doutrina tem sustentado que é inconstitucional essa causa de aumento. Viola a garantia fundamental do cidadão de não produzir provas contra si mesmo (art. 5º, LXIII, CF e art. 8º, §2º, ‘g’, CADH – nemo tenetur se detegere) e obriga o agente a sucumbir ao instinto natural de liberdade.
Art. 121, §5º - Perdão Judicial
Na hipótese de homicídio culposo, se as consequências do crime atingir o agente de forma tão grave que a sanção penal se torne desnecessária, o Juiz pode deixar de aplicar a pena.
O perdão judicial é o instituto pelo qual o Juiz, não obstante a prática de um fato típico e antijurídico por um sujeito comprovadamente culpado, deixa de lhe aplicar, nas hipóteses taxativamente previstas em lei, o preceito sancionador cabível, levando em consideração determinadas circunstâncias que concorrem para o evento.
O perdão judicial representa o Estado perdendo o interesse de punir (extinção da punibilidade).
Observação: para o perdão judicial, é dispensável a relação de parentesco ou amizade entre os sujeitos do crime. Por exemplo, o agente que fica tetraplégico no acidente.
*Natureza jurídica da sentença que concede o perdão judicial. Para a 1ª corrente, trata-se de sentença condenatória. Desse modo, gera efeitos penais e extrapenais, como por exemplo, interrompe a prescrição, serve como título executivo (execução cível). Para a corrente prevalente (Súmula 18 STJ), trata-se de sentença declaratória extintiva da punibilidade, não gerando efeitos penais e extrapenais. Ou seja, não interrompe a prescrição, não serve como título executivo, etc.
Seguindo a corrente majoritária (declaratória extintiva da punibilidade), Fernando Capez ensina que o perdão judicial pode ser concedido na fase de inquérito policial. No entanto, é imprescindível o devido processo legal (comprovar que o sujeito é culpado), pois no inquérito não há contraditório e ampla defesa. Sabendo que o perdão judicial pressupõe culpa, não cabe na fase do inquérito, mesmo para a corrente majoritária (declaratória extintiva da punibilidade), pois no inquérito não há condições para se reconhecer a culpa de alguém.
Ensina Rogério Sanches que, o art. 120, CP, reconhece que a sentença que concede o perdão judicial é condenatória. A intenção do Legislador, ao redigir o art. 120 do Código Penal, foi conferir a sentença concessiva do perdão judicial, uma natureza condenatória, porém incapaz de gerar reincidência. Só assim existe razão para a redação do art. 120.
Perdão Judicial vs. Perdão do ofendido
Bagatela imprópria vs. Bagatela própria
Homicídio culposo do CTB (art. 302) vs. Homicídio culposo do CP (art. 121, §3º)
Aborto
Trata-se da interrupção da gravidez com a destruição do produto da concepção. É crime doloso contra a vida intrauterina.
*Aborto vs. Abortamento. Para os mais técnicos, abortamento é a conduta criminosa (interrupção da gravidez). Aborto é o resultado (feto sem vida). Para eles, teria o legislador agido com impropriedade técnica.
Pressuposto do aborto: gravidez.
*Termo inicial da gravidez. Para a 1ª corrente, o termo inicial é a fecundação. Para a corrente majoritária (entre os juristas), o termo inicial é a nidação (implantação do óvulo fecundado no endométrio). Isso tem importância em relação a pílula do dia seguinte. Ora, se o início da gravidez fosse com a fecundação, a pílula do dia seguinte seria considerada método abortivo.
Classificação do abortamento
a) Aborto natural: interrupção espontânea da gravidez. Não é fato típico.
b) Aborto acidental: é o decorrente de acidentes em geral. Não interessa para o direito penal. Obs.: pode até qualificar a lesão corporal culposa.
c) Aborto criminoso: está previsto nos artigos 124 (autoaborto ou consentido), 125 (sem o consentimento) e 126 (com o consentimento) do CP.
d) Aborto legal ou permitido: previsto no art. 128. No art. 128, I (aborto necessário) e no art. 128, II (aborto sentimental).
e) Aborto miserável ou econômico-social: praticado por razões de miséria, incapacidade financeira para sustentar a vida futura. No projeto do Novo CP será permitido, até a 12ª semana de gestação.
f) Aborto eugenésico ou eugênico: praticado em face dos comprovados riscos de que o feto nasça com graves anomalias psíquicas ou físicas. O aborto anencefálico é uma espécie de aborto eugênico. O STF autorizou uma espécie de aborto eugênico: o aborto do feto anencefálico (atipicidade).
g) Aborto honoris causa: realizado para ocultar gravidez adulterina. É crime.
h) Aborto ovular: praticado até a 8ª 
semana da gestação.
i) Aborto embrionário: praticado até a 15ª semana de gestação
j) Aborto fetal: praticado após a 15ª semana de gestação
Anunciar produtos abortivos: quem anuncia produtos ou métodos abortivos para venda não pratica crime, mas contravenção penal, prevista no art. 20 da Lei das Contravenções (“anunciar processo, substancia ou objeto destinado a provocar aborto”), punido com pena de multa.
Art. 124 – Autoaborto ou consentimento criminoso
“Provocar aborto em si mesma ou consentir que outrem lho provoque”. Pena: detenção, de um a três anos.
*O sujeito ativo só pode ser a gestante.
*Crime próprio ou de mão própria. Para C. R. Bitencourt é crime de mão própria, somente podendo ser praticado pela gestante, admitindo participação, mas não coautoria. O terceiro executor do crime (se houver) será punido pelo artigo 126 do CP. Para L. R. Prado, o crime é próprio, admitindo coautoria, porém o coautor (terceiro executor é punido na forma do art. 126 do CP (exceção pluralista a teoria monista). Na prática, não há importância.
*O sujeito passivo do abortamento, para a 1ª corrente, é apenas o Estado, pois o feto não é titular de direitos, salvo aqueles previstos na lei civil. Para a corrente majoritária, o feto (vida intrauterina) é o sujeito passivo do crime. Desse modo, na gravidez de gêmeos haverá concurso formal de crimes (art. 70 CP).
*Condutas punidas: 
a) autoaborto: a própria gestante provoca a interrupção da gravidez (valendo-se de qualquer meio).
b) consentimento para que outrem lho provoque: a gestante apenas consente, ficando a execução a cargo de terceiro provocados (autor do art. 126 CP).
*Aceleração do parto com finalidade de adquirir direitos no âmbito civil. Se o feto nasce com vida, é fato atípico. Agora, se o feto nasce sem vida, há duas hipóteses: a) se a gestante quis ou assumiu o risco da morte, é aborto criminoso; b) se não quis nem assumiu o risco da morte, é fato atípico (não existe aborto culposo).
*A consumação se dá com a morte do feto (crime material). Não importa se a morte ocorreu dentro ou fora do ventre materno, desde que decorrente das manobras abortivas. É crime plurissubsistente (admite tentativa).
Art. 125 – Aborto provocado por terceiro sem o consentimento da gestante
A pena é de 3 a 10 anos de reclusão.
O sujeito ativo pode ser qualquer pessoa. Não precisa ser profissional da medicina.
O sujeito passivo é a gestante e o feto (maioria). Trata-se de delito de dupla subjetividade passiva.
A conduta consiste em provocar o aborto (interromper a gravidez). Para a jurisprudência, quem desfere violento pontapé no ventre de mulher sabidamente grávida pratica crime de aborto, ainda que a título de dolo eventual.
A consumação se dá com a morte do feto. É crime plurissubsistente.
*Matar mulher sabidamente grávida. O agente deve responder pelo homicídio da mulher, a título de dolo direto, e pelo abortamento (art. 125) a título de dolo eventual ou dolo direto de 2º grau, em concurso formal impróprio.
Art. 126 – Aborto provocado com consentimento da gestante
Pena de 1 a 4 anos. Obs.: pelo p. único, aplica-se a pena do art. 125 se a gestante não é maior de 14 anos, ou é alienada ou débil mental, ou se o consentimento é obtido mediante fraude, grave ameaça ou violência (hipótese de dissenso presumido).#Gestante, depois de consentir, arrepende-se e manda o terceiro provocador interromper as manobras abortivas. O terceiro provocador não obedece, executando a morte do feto. O 3º provocador responde pelo art. 125, pois não interrompeu a execução após o arrependimento da gestante. A gestante responde pelo art. 124, pois o seu arrependimento não foi eficaz, podendo valer-se de alguma atenuante, se o Juiz assim entender.
Art. 126, p. único, CP: dissenso presumido
O agente responde nas penas do art. 125 (3 a 10 anos de reclusão).
O CP desconsidera a vontade positiva da gestante. É como se ela nunca tivesse consentido.
Observação: o dolo do agente provocador do abortamento deve compreender as qualidades da grávida ou o modo pelo qual o consentimento foi obtido, evitando-se responsabilidade penal objetiva.
#O namorado convence a namorada a interromper a gravidez. Conduz a namorada até o médico para realizar o abortamento. O namorado responde pelo art. 124, na qualidade de partícipe. A namorada responde pelo art. 124, por consentir. O médico responde pelo art. 126.
#O namorado convence a namorada a interromper a gravidez. Conduz a namorada até o médico para realizar o aborto. O namorado para o médico para realizar o procedimento. A namorada responde pelo art. 124 (por consentir). O médico responde pelo art. 126 (por realizar). O namorado responde pelo art. 126, na condição de partícipe, por ter concorrido para a realização de maneira efetiva (pagando o médico).
Art. 127, CP – Forma qualificada do abortamento (art. 125 e 126; o art. 124 não)
As penas do art. 125 e 126 são aumentadas de 1/3 se a gestante sofre lesão de natureza grave, e são duplicadas se a gestante sobrevém a morte.
Essa causa de aumento somente é aplicável aos terceiros provocadores e seus partícipes. Não incidem no art. 124 do CP, gestante ou partícipe. O direito penal não pune a autolesão.
*Resultados qualificadores (fruto de culpa):
a) lesão grave: art. 129, §§1º e 2º
b) morte
São resultados culposos. É o aborto (art. 125 ou 126) doloso seguido de lesão grave ou morte (culposa). Trata-se de uma majorante preterdolosa. Obs.: se o provocador quis ou assumiu o risco desses resultados, responde pelos dois crimes em concurso formal (aborto + lesão grave ou aborto + homicídio doloso).
#Prescindibilidade da morte do feto para incidência da majorante do art. 127. O que importa é que a lesão grave ou a morte sejam resultados presentes na gestante. Ainda que o crime de aborto não seja consumado, incidirá a qualificadora. A majorante exige o resultado “pelos meios utilizados para provocar o abortamento”.
# A gestante, durante o processo de abortamento realizado por terceiro, morre, mas o feto nasce com vida. Qual crime pratica o terceiro (sabendo que não quis nem aceitou a morte da gestante)? Para Capez: o agente deve responder pelo aborto consumado “qualificado” pela morte, pois Crime preterdoloso não admite tentativa. Aplica o mesmo raciocínio da súmula 610 STF: “Há crime de latrocínio (aborto), quando o homicídio se consuma, ainda que não se realize o agente a subtração de bens da vítima (o abortamento).” Pouco importa se houve interrupção da gravidez.
Para a corrente que prevalece, o terceiro provocador do aborto deve responder por aborto tentado qualificado pela morte. O aborto tem dolo, admitindo a tentativa. A morte é culposa e consumada. Para essa corrente, o preterdolo admite tentativa quando a parte frustrada da infração penal é a dolosa.
Art. 128 – Hipóteses de aborto legal
Inciso I – não se pune o aborto praticado por médico se não há outro meio de salvar a vida da gestante (caso especial de estado de necessidade)
Inciso II – não se pune o aborto praticado por médico se a gravidez resulta de estupro e o aborto é precedido de consentimento da gestante ou, quando incapaz, de seu representante legal (caso especial de exercício regular de direito)
*Natureza jurídica do art. 128, CP. Prevalece que é causa especial de exclusão da ilicitude. Trata-se de descriminante especial. Obs.: para os adeptos da tipicidade conglobante, no caso o inciso II, o fato sequer é típico (LFG).
Aborto necessário ou terapêutico – art. 128, I
Deve ser praticado por médico. 
*Requisitos:
a) praticado por médico
b) risco para a vida da gestante
c) inevitabilidade do comportamento lesivo (impossibilidade de uso de outro meio para salvar a gestante).
*Dispensabilidade do consentimento da gestante e de autorização judicial.
*Prática do aborto terapêutico por outro, que não o médico. Não incide o art. 128 do CP, porém pode o provocador alegar o estado de necessidade de terceiro (art. 24 CP).
Aborto sentimento, humanitário ou ético – art. 128, II
*Requisitos
a) praticado por médico
b) gravidez resultante de estupro. Obs.: abrange o estupro de vulnerável.
c) consentimento da gestante ou do seu representante legal.
*Dispensabilidade de autorização judicial. O STF tem julgados exigindo boletim de ocorrência do crime sexual.
*Prática do aborto “sentimental” por pessoa que não médico: é crime. Não incide estado de necessidade ou outra excludente de ilicitude.
#Prática do aborto “sentimental” pela própria gestante. Alguns doutrinadores defendem que se trata de hipótese de inexigibilidade de conduta diversa (causa supralegal de exclusão da culpabilidade).
Aborto de feto anencefálico
Feto anencefálico: embrião, feto ou recém-nascido que, por malformação congênita, não possui uma parte do sistema nervoso central, faltando-lhe os hemisférios cerebrais, possuindo uma parcela do tronco encefálico (Maria Helena Diniz).
*Código penal: Não permite essa espécie de aborto. 
- O projeto do CP admite. 
*Doutrina: Trabalhava a hipótese como mais um caso de inexigibilidade de conduta diversa (para evitar a punição da gestante). 
*Jurisprudência: Autorizava essa espécie de abortamento, desde que: 
1- Presente anomalia inviabilizando vida extrauterina. 
2- Anomalia atestada por perícia médica. 
3- Prova do dano psicológico da gestante. 
*STF: Na A.D.P.F. 54 (ajuizada pela Confederação Nacional dos trabalhadores da saúde), admitiu essa espécie de aborto. Argumentos: 
1- Diante de uma deformação irreversível do feto. Há de se lançar mão dos avanços médicos postos à disposição da humanidade, evitando sentimentos mórbidos. 
2- Argumentou a permissão com base nos princípios da dignidade da pessoa humana, legalidade, liberdade e autonomia da vontade. 
3- Implicitamente reconheceu a atipicidade da conduta, por ausência de viabilidade da vida extrauterina. 
*Conselho Federal de Medicina: regulamentou o procedimento. 
-Prevê exames de ultrassonografia a partir da 12ª semana de gestação (período com mais certeza do diagnóstico). 
-O laudo deve ser assinado por 2 médicos. 
-Consentimento da gestante. 
-Deve ser realizado em hospital público, privado ou em clínicas particulares com estrutura adequada. 
-Garante assistência médica constante durante esse período.
CAPÍTULO II
DAS LESÕES CORPORAIS
Art. 129 CP – Lesões corporais
O bem jurídico tutelado é a incolumidade pessoal do indivíduo, protegendo: a) saúde física; b) saúde fisiológica; c) saúde mental.
 
 Topografia da lesão corporal: 
129, caput CP: lesão dolosa leve
129, § 1º CP: lesão dolosa grave (possibilidade de preterdolo)
129, § 2º CP: lesão dolosa gravíssima (possibilidade de preterdolo)
129, § 3º CP: lesão corporal seguida de morte (genuinamente preterdoloso – homicídio preterdoloso)
129, §§ 4º e 5º CP: privilégio 
129, § 6º CP: lesão corporal culposa (leve, grave ou gravíssima)
129, § 7º CP: majorante (com a Lei 12.720/12)
129, § 8º CP: perdão judicial (lesão culposa) 	
129, §§ 9º, 10 e 11 CP: violência doméstica e familiar (vítima homem ou mulher)
Introdução
O sujeito ativo é comum. O sujeito passivo, em regra, é comum. Excepcionalmente, a lei exige condição ou condição especial do sujeito passivo: art. 129, §1º, IV (aceleração do parto) e o art. 129, §2º, V (aborto culposo)
O direito penal não pune a autolesão. No entanto,a autolesão pode ser meio para cometer um crime, como a fraude para recebimento de indenização ou seguro (art. 171, §2º, V)
A conduta do crime de lesão corporal consiste em ofender a incolumidade física do indivíduo, quer causando a lesão quer agravando uma lesão já existente (ferir ou agravar uma lesão já existente). A dor é dispensável para caracterizar o crime.
Voluntariedade: O art. 129 é punido a título de dolo (art. 129, caput e §§1º e 2º), culpa (art. 129, §6º) e preterdolo (art. 129, §§1º, 2º e 3º)
Consumação: se dá com a provocação do ferimento ou agravação da lesão preexistente. Ou seja, a consumação ocorre com a ofensa a incolumidade pessoal do indivíduo.
#Cortar cabelo contra a vontade da vítima: para uma 1ª corrente, caracteriza a lesão corporal, desde que provoque uma alteração desfavorável no aspecto exterior do indivíduo. Para uma 2ª corrente, configura o crime de injúria real (art. 140, 2º, CP), pois o corte busca humilhar a vítima e não causar lesão. Para a 3ª corrente, pode configurar o art. 129 ou o art. 140, §2º, a depender do dolo do agente.
#Agente que convence inimputável a se autolesionar: o inimputável conduzido a autolesão é vítima, figurando quem o induziu a autolesão como autor mediado do crime de lesões corporais. A incapacidade do inimputável é um instrumento nas mãos do agente (autor mediato).
#Pluralidade de ferimentos vs. pluralidade de crimes. Se a pluralidade de ferimentos advém do mesmo contexto fático, não desnatura a unidade do crime. O Juiz deverá considerar a pluralidade de ferimentos na fixação da pena base.
#Consentimento do ofendido vs. indisponibilidade do bem. Hoje, entende-se que a incolumidade do indivíduo é um bem relativamente disponível. Desde que: a) a lesão seja de natureza leve; b) não contrarie a moral ou os bons costumes.
#Equimoses e hematomas caracterizam lesão corporal? Prevalece que caracterizam lesão corporal.
#Eritemas: não constituem lesão corporal.
Obs.:
*Equimoses (manchas escuras ou azuladas, fruto de infiltração difusa de sangue no tecido subcutâneo), 
*Hematomas (acúmulo de sangue em um órgão ou tecido, normalmente causado por traumatismo) 
*Eritemas (mancha de cor avermelhada na pele causada pela dilatação de vasos sanguíneos)
#Lesões provocadas por médico em cirurgia de emergência, reparada ou estética.
a) Para Bento de Faria, é causa de atipicidade, pois as lesões estariam fora do alcance do tipo.
b) Para Francisco de Assis Toledo, não há dolo, pois o médico não teria o dolo de ofender a saúde do paciente, mas sim de curá-lo ou melhorá-lo.
c) Bitencourt ensina que é possível, na lesão leve, o consentimento do ofendido, excluindo o crime.
d) LFG se apoia a teoria da imputação objetiva, compreendendo que o médico não cria ou incrementa um risco proibido.
e) Para Zaffaroni, é causa de atipicidade, pois ausente a tipicidade conglobante (ato não é antinormativo)
f) Para Pierangeli, pode configurar descriminante comum (art. 23, CP).
Art. 129, caput – Lesão corporal dolosa de natureza leve
Pena: detenção de 3 meses a 1 ano.
É crime de Ação Penal Pública condicionada a representação da vítima (art. 88, Lei 9.099/95).
O conceito de lesão leve é dado por exclusão. Quando a lesão não é grave, gravíssima ou seguida de morte, ela será leve.
A doutrina moderna leciona que é possível a aplicação do princípio da insignificância nos casos de lesão levíssima, como em um mínimo arranhão.
Art. 129, §1º - Lesão corporal de natureza grave
Pena: reclusão, de 1 a 5 anos.
Art. 129, §1º, Inciso I: se da lesão resulta incapacidade para as ocupações habituais, por mais de 30 dias. 
-Ocupação habitual deve ser entendida como qualquer atividade corporal costumeira, não necessariamente ligada ao trabalho ou atividade lucrativa, devendo ser lícita, ainda que imoral. 
-Obs.: a prostituta pode ser vítima; um bebê de tenra idade também (impossibilidade de amamentação normal).
-Art. 168 CPP, §2º - 2 exames; um na data do fato; outro logo após o 30º dia, para atestar a incapacidade para as ocupações habituais (exame complementar). O prazo é penal, está vinculado a tipicidade, contado nos termos do art. 10 do CP.
Obs.: a relutância, por vergonha dos ferimentos, de praticar as ocupações habituais, não qualificam o crime de lesão corporal. E mais, a vergonha da lesão não corresponde a lesão à saúde mental.
Obs²: a figura pode ser preterdolosa. Ou seja, o agente queria lesionar, mas não incapacitar para as ocupações habituais.
Art. 129, §1º, Inciso II: se da lesão ocorre na vítima perigo de vida
É a probabilidade séria, concreta e imediata do êxito legal.
Obs.: não cabe presunção. A região da lesão não permite presumir perigo para a vida do ofendido, sendo imprescindível perícia atestando risco concreto de morte.
Obs²: conforme a maioria, trata-se de qualificadora necessariamente preterdolosa (art. 19, CP). A lesão é a título de dolo, o perigo de vida é necessariamente culposo. Se o agente quis ou assumiu o risco de morte, é punido por tentativa de homicídio (art. 14, II, CP).
Art. 129, §1º, Inciso III – se da lesão resulta debilidade permanente de membro, sentido ou função
Debilidade é o enfraquecimento ou redução da capacidade funcional. Permanente significa que a recuperação é incerta e por tempo indeterminado (ex: não ficou cego, mas teve a visão diminuída).
Obs.: a qualificadora persiste mesmo que o enfraquecimento possa ser atenuado por aparelhos ou próteses.
#Perda de dente por conta da lesão. É possível que caracterize a qualificadora, dependendo de perícia atestando se a perda causou redução do aparelho de mastigação.
#Perda de um dedo. Também depende de perícia.
Art. 129, §1º, Inciso IV – se da lesão resulta aceleração de parto.
Em decorrência da lesão, o feto é expulso com vida antes do tempo normal.
Pode ser fruto de preterdolo (art. 19, CP). Ou seja, o agente tem dolo na lesão, e culpa na aceleração do parto.
#Feto expulso sem vida: pode configurar aborto (art. 125) ou lesão corporal gravíssima (art. 129, §2º, V), dependendo do dolo do agente. É imprescindível, em qualquer caso, que o agente saiba ou tivesse condições de saber que a vítima é gestante, evitando responsabilidade penal objetiva.
Art. 129, §2º - Lesão corporal dolosa grave (gravíssima)
Pena: reclusão, de 2 a 8 anos.
	Art. 129, caput
	Art. 129, §1º
	Art. 129, §2º
	Infração de menor potencial ofensivo (art. 61, Lei 9.099/95)
Ação penal pública condicionada a representação (art. 88, Lei 9.099)
	Admite suspensão condicional do processo (art. 89, Lei 9.099)
Ação Penal Pública Incondicionada (art. 100, CP)
	Não tem instituto da Lei 9.099
Ação Penal Pública Incondicionada (art. 100, CP)
Art. 129, §2º, Inciso I – da lesão resulta incapacidade permanente para o trabalho 
A incapacidade deve ser absoluta.
#Trabalho de qual espécie? Para a maioria, a qualificadora exige a incapacidade para qualquer espécie de trabalho. Para a minoria, basta o ofendido ficar incapacitado para o trabalho que exercia antes das lesões.
Art. 129, §2º, II – se resulta enfermidade incurável
É a transmissão intencional de uma doença para a qual não existe cura no estágio atual da medicina. Para o STJ, a transmissão intencional do HIV é considerada como lesão gravíssima.
#Cura arriscada para a enfermidade. A vítima não está obrigada a arriscar-se, persistindo a qualificadora. Porém, se a vítima se arriscar e for curada, desaparece a qualificadora.
Art. 129, §2º, Inciso III – se da lesão resulta perda ou inutilização do membro, sentido ou função
Perda significa a amputação (procedimento cirúrgico) ou mutilação (ação do agressor). A inutilização indica que o membro, sentido ou função resta inoperante (sem qualquer atividade própria). Por exemplo, cegueira, surdez.
Obs.: tratando-se de órgãos duplos, a lesão, para ser qualificada como gravíssima, deve atingir ambos os órgãos.
#Impotência instrumental (coeundi) ou para gerar vida (generandi). Caracteriza lesão gravíssima. Por exemplo, laqueadura a revelia da mulher.
	Art. 129,§1º, III
	Art. 129, §2º, III
	Debilidade permanente
Diminuição da capacidade funcional
Exemplo: reduz a visão, reduz a audição
	Perda ou inutilização
Desaparece a capacidade funcional
Exemplo: fica cego, fica surdo
Art. 129, §2º, Inciso IV – se da lesão resulta deformidade permanente na vítima
Dano estético aparente, considerável, irreparável pela própria força da natureza e capaz de causar impressão vexatória (desconforto para quem olha e humilhação para quem ostenta). 
Para Nelson Hungria, a idade, o sexo e a condição social da vítima podem interferir na qualificadora.
#Reparação do dano por meio de cirurgia plástica. Afasta-se a qualificadora, permitindo-se inclusive a revisão criminal. Obs.: a lei brasileira não considera a qualificadora apenas nos casos de lesão no rosto, abrangendo partes não aparentes do corpo, como por exemplo, regiões aparentes somente nos momentos de maior intimidade.
#Vitriolagem: é a deformidade permanente pelo emprego de ácidos.
Art. 129, §2º, V – se da lesão resulta aborto
Trata-se de qualificadora necessariamente preterdolosa (art. 19, CP).
Obs.: não se pode confundir com o art. 127 do CP. No art. 127, tem-se o crime de aborto + lesão grave (culposa) na gestante. É necessário que o agente conheça a situação gravídica da vítima.
	Art. 129, 2º - lesão corporal grave (gravíssima)
	Inciso I
	Inciso II
	Inciso III
	Inciso IV
	Inciso V
	Dolo ou preterdolo
	Dolo ou preterdolo
	Dolo ou preterdolo
	Dolo ou preterdolo
	Só preterdolo
	Art. 127 – Aborto majorado pela lesão ou morte
	Art. 129, §2º, inciso V
	Aborto (doloso) + lesão grave (culposa) na gestante
	Lesão (dolosa) na gestante + aborto (culposo)
#Coexistência de qualificadoras do §1º com do §2º. Por exemplo, o ofendido ficou incapacitado para as ocupações habituais por mais de 30 dias (art. 129, §1º, I) e com deformidade permanente (art. 129, §2º, IV). O Juiz deve trabalhar com a qualificadora mais grave (pena de 2 a 8 anos). Porém, a circunstância do art. 129, §1º, I, pode servir como circunstância judicial desfavorável, majorando a pena base, nos termos do art. 59, CP.
Art. 129, §3º - Lesão corporal seguida de morte
Pena de 4 a 12 anos.
O agente não quis o resultado, também não assumiu o risco de produzir o resultado. Trata-se de figura preterdolosa (art. 19, CP). É o homicídio preterdoloso.
#Vias de fato seguida de morte culposa. Se o antecedente doloso consiste em meras vias de fato (art. 21, LCP), o evento morte, não querido ou aceito pelo agente, deve ser imputado ao agressor, a título de homicídio culposo (art. 121, §3º, CP), ficando a contravenção penal absorvida. Ou seja, o agente não responde pelo art. 129, §3º, CP; não responde pelo art. 21, LCP, pois resta absorvido pelo homicídio; o agente responde pelo art. 121, §3º do CP, ficando a contravenção penal absorvida pelo homicídio. Não há previsão de contravenção penal seguida de morte.
Art. 129, §4º - Diminuição de pena de 1/6 a 1/3
São as mesmas privilegiadoras do homicídio (art. 121, §1º, CP).
#Incidência em todas as formas de lesão dolosa. A diminuição de pena do art. 129, §4º, privilegia todas as formas de lesão dolosa (leve, grave, gravíssima e seguida de morte).
Art. 129, §5º - Substituição de pena
O juiz, não sendo graves as lesões, pode substituir a detenção por multa. O benefício da substituição da PPL por multa só tem cabimento na lesão dolosa leve (art. 129, §1º). Não incide nos §1º, §2º e 3º do art. 129.
*Pressupostos da substituição
a) lesão privilegiada (art. 129, §4º), ou;
b) lesões recíprocas
	Art. 129, §4º - Privilégio
	Art. 129, §5º - Substituição 
	Diminuição de pena
Art. 129, caput, §§1º, 2º, 3º - privilegia todas as formas
	Substituição de pena
Art. 129, caput – não cabe nas formas qualificadas
Art. 129, §6º - lesão corporal culposa
Pena e 2 meses a 1 ano (art. 61, Lei 9.099 + art. 88, Lei 9.099)
Obs.: a natureza da lesão (leve, grave ou gravíssima) não altera o tipo penal. Somente pode influenciar o magistrado na fixação da pena base (consequências para a vítima, art. 59, CP).
	Lesão dolosa
	Lesão culposa
	Pode ser leve (caput), grave (§1º) ou gravíssima (§2º)
	Seja leve, grave ou gravíssima, é o §6º sempre. O Juiz irá considerar a natureza na fixação da pena base
Lesão corporal culposa do CTB (art. 303, CTB) vs. Lesão Culposa do art. 129, §6º, CP
#Constitucionalidade da pena do art. 303, CTB. Quando se compara a pena do art. 303, CTB com a pena do art. 129, caput do CP (lesão leve culposa, com pena de 3 meses a 1 ano), passa a ser questionável a constitucionalidade da sua sanção penal. Quando comparada a lesão culposa do CP (art. 129, §6º) com a culposa do CTB (art. 303, CTB), é justificável a maior pena, tendo em vista o desvalor da conduta. No entanto, quando comparada a pena da lesão dolosa leve do CP (art. 129, caput), com pena de 3 meses a 1 ano, nada justifica a pena maior (dobro) da lesão culposa do CTB.
Art. 129, §7º - Aumento de pena
Aumenta-se a pena de 1/3 se ocorrer qualquer das hipóteses do §4º e §6º do art. 121.
Art. 129, §8º - Perdão Judicial à lesão culposa
Aplica-se o disposto no art. 121, §5º (perdão judicial do homicídio culposo)
Violência doméstica em lesões corporais (art. 129, §§9º, 10 e 11)
Situações que caracterizam a lesão corporal no ambiente doméstico e familiar
*O crime deve ser praticado contra:
a) ascendente, descendente ou irmão. É dispensável a coabitação entre os envolvidos.
b) cônjuge ou companheiro. Prevalece incidir a qualificadora mesmo em caso de separação de fato.
c) pessoa com quem conviva ou tenha convivido. Como por exemplo, república de estudantes.
d) ou quando o agente age prevalecendo-se das relações domésticas, de coabitação ou de hospitalidade.
*Nucci: ensina deve ser contra ascendente, descendente, irmão, cônjuge ou companheiro, com quem o agente tenha convivido. Ou seja, conforme Nucci, a expressão “com quem conviva ou tenha convivido o agente” deve ser analisada em conjunto com as situações anteriores, exigindo que agente e vítima convivam ou tenham convivido.
Observações:
a) para caracterizar as qualificadoras dos §§9º, 10 e 11, a vítima não precisa ser necessariamente mulher.
b) Se a vítima for mulher, além do CP, terá na sua proteção a Lei 11.340/06
c) Mesmo quando homem, se a vítima for vulnerável, é possível aplicar as medidas protetivas, constantes do art. 313, III, CPP (incluso com a Lei 12.403/11).
CAPÍTULO III
DA PERICLITAÇÃO DA VIDA E DA SAÚDE
Art. 135 – Omissão de socorro
Pena: 1 a 6 meses; aumento de metade se resulta lesão grave; triplicada, se resulta a morte (p. único, art. 135).
Em qualquer caso, seja forma simples ou qualificada, o crime permanece sendo infração de menor potencial ofensivo.
O sujeito ativo é comum.
O sujeito passivo é próprio. Deve ser: a) criança abandonada ou extraviada; b) pessoa inválida ou ferida; c) pessoa que se achar em grave e iminente perigo.
Obs.: o crime dispensa vínculo entre os sujeitos. Alias, dependendo do caso concreto, pode não caracterizar o delito de omissão de socorro. Se o omitente for garantidor (art.13, §2º, CP), poderá responder por homicídio, por lesão de socorro, etc.
Obs²: sabendo que o dever de assistência é imposição que recai sobre todos os cidadãos, sem distinção, alguns doutrinadores não admitem a coautoria. Ou seja, cada omitente é autor de sua omissão de socorro.
#4 pessoas observam a vítima em perigo. Um observador socorre. Responsabilidade dos demais. Tratando-se de obrigação solidária, o socorro prestado por um observador, desonera os demais observadores. Ou seja, o socorro prestado por um, beneficia os demais.
#Indispensabilidade que o sujeito ativo esteja na presença da vítima. Para Bitencourt, o sujeito ativo deve estar no mesmo lugar e momento em que o periclitante precisa de socorro. Se o sujeito ativo estiver ausente, não haverá crime. Ou seja, é indispensável a presença do sujeito ativo diante da vítima. Já para Damásio e a Jurisprudência, o sujeitoativo ausente também pode responder pelo crime, quando chamado ao local, para exercer o dever de assistência, sendo indispensável apenas que o omitente tenha consciência do grave e iminente perigo em que se encontra a vítima.
#Recusa de socorro pelo sujeito passivo. O dever de assistência persiste, pois cuida-se de bem jurídico irrenunciável, salvo quando a oposição da vítima impossibilitar o socorro.
Conduta punida: pune-se a inércia de alguém que tem o dever de socorrer. São duas as maneiras de praticar o crime:
a) o agente não presta auxílio à vítima (omissão de assistência imediata), ou;
b) o agente não solicita socorro da autoridade competente (omissão de assistência mediata).
Obs.: não compete ao agente a escolha entre uma ou outra forma de assistência, pois sendo possível a prestação pessoal, não pode valer-se da assistência mediata, sob o risco de responder pelo crime.
Elementar: “quando possível fazê-lo sem risco pessoal”. O art. 135, CP limita o dever de agir. Só há crime quando for possível o agente prestar socorro sem risco pessoal. Obs.: o risco meramente patrimonial ou moral não exclui a tipicidade. Somente o risco pessoal exclui a tipicidade (desaparece a elementar do tipo).
Obs.: o risco meramente patrimonial ou moral, a depender do caso concreto, pode configurar uma excludente de ilicitude, ou excluir a culpabilidade, como hipótese de inexigibilidade de conduta diversa.
É punido a título de dolo. Não existe modalidade culposa. A consumação se dá no momento da omissão (crime omissivo puro). Não se admite a tentativa (não é possível o fracionamento da execução).
Para a doutrina, em caso de criança abandonada ou extraviada, o crime é de perigo abstrato (perigo absolutamente presumido por lei). Nas demais hipóteses, o crime é de perigo concreto.
Majorante da Omissão de socorro – art. 135, p. único (preterdolosa)
Apesar de ser crime omissivo próprio, há um resultado naturalístico servindo como majorando. Esse resultado deve estar ligado a conduta omissiva. É o chamado nexo de não impedimento.
Mesmo que a omissão de socorro seja um crime omissivo próprio, que se consuma com a simples inatividade, nesse caso (art. 135, p. único), é indispensável que se analise o nexo. Deve ser comprovada a relação de não impedimento entre a omissão e o resultado ocorrido para legitimar o aumento. Exige-se para a incidência da majorante prova de que a conduta omitida seria capaz de impedir o resultado mais gravoso (nexo de não impedimento).
Omissão de socorro no CTB
a) como causa de aumento do homicídio culposo do CTB (art. 302, p. único, III)
b) como causa de aumento da lesão corporal culposa do CTB (art. 303, p. único)
c) como crime autônomo do agente envolvido em acidente (art. 304)
	Art. 302 e 303 do CTB são majorados pela omissão quando (requisitos):
a) omitente deve ser condutor de veículo automotor,
b) omitente se envolve em acidente de trânsito, e
c) omitente é culpado pelo acidente
	Art. 304, CTB
a) o omitente é condutor de veículo automotor
b) omitente também se envolve no acidente
c) porém, o omitente não é culpado pelo acidente
	Art. 135, CP (omissão de socorro genérica)
a) o omitente pode ou não ser condutor;
b) se condutor, não pode estar envolvido em acidente
Art. 135-A, CP – Condicionamento de atendimento médico-hospitalar emergencial
Pena: 3 meses a 1 ano; aumento de até o dobro se resulta lesão grave; aumento até do triplo, se resulta morte (p. único).
Princípio da intervenção mínima. Antes da Lei 12.653/12, esse comportamento já era considerado ilícito e abusivo.
a) art. 39, CDC: prática abusiva que expõe consumidor a desvantagem exagerada;
b) art. 171, II, CC: o negócio jurídico é anulável por vício resultante do estado de perigo.
c) Res. Normativa 44 ANS: vedava condicionar atendimento médico-hospitalar a garantias.
O fracasso dos demais ramos justifica a intervenção do direito penal
O sujeito ativo são administradores e funcionários de hospital particular. Se for servidor de hospital público, pode restar caracterizado a concussão (art. 316, CP).
#Se o funcionário apenas cumpre ordens do diretor, ocorrerá o concurso de pessoas, ambos respondem pelo crime.
O sujeito passivo é pessoa em estado de emergência.
A conduta consiste em negar atendimento emergencial, exigindo como condição para o atendimento:
a) cheque-caução, nota promissória ou qualquer garantia;
b) preenchimento prévio de formulários administrativos;
*Condutas cumulativas vs. Condutas alternativas. Para Nucci, o crime só se caracteriza com a exigência da garantia mais o preenchimento de formulários administrativos. Para R. Sanches, o agente se aproveita de um momento de extrema fragilidade da vítima, para, mediante uma, apenas, das indevidas exigências, garantir para o hospital o ressarcimento das despesas realizadas (garantia ou preenchimento de formulários).
É punido a título de dolo somente.
A consumação ocorre com a indevida exigência. A maioria da doutrina tem entendido que esse crime é de perigo concreto, exigindo a comprovação do efetivo risco, em razão do estado emergencial em que se encontra a vítima. A tentativa é possível.
Majorante - Art. 135-A, p. único
São resultados majorantes culposos
*Situação emergencial. A Lei 11.935/09, define a situação de emergência e situação de urgência.
#Exigência que ocorre em atendimento de urgência (e não de emergência). Para uma 1ª corrente, em uma interpretação teleológica, ensina estar abrangida pelo tipo a situação de urgência (Rogério Greco). Uma 2ª corrente, baseada na legalidade estrita, ensina que somente a emergência é elementar do tipo (Bitencourt).
#Exigência da garantia sem condicionar o atendimento. É fato atípico.
CAPÍTULO V
DOS CRIMES CONTRA A HONRA
O propósito do agente é prejudicar a vítima de qualquer forma: em sua fama, em seu nome, em sua honra.
O CP trabalha crimes contra a honra. A Legislação Extravagante também pode prever crimes contra a honra, que prevalecem sobre o CP. Por exemplo, o CPM, a Lei de Segurança Nacional, o Código Eleitoral, o Estatuto do Idoso.
#Imputação da prática de jogo do bicho. Jogo do bicho é contravenção penal (art. 50, LCP). Configura difamação, pois jogo do bicho não é crime.
*Concurso de crimes contra honra. Se praticados dois ou mais crimes contra a honra (ainda que diversos) em contextos fáticos distintos, é possível o concurso de crimes. O agente pode responder pelos três delitos.
#Crimes contra honra praticados no mesmo contexto fático. Para a 1ª corrente, configura o crime continuado (art. 71, CP), pois ofendem o mesmo bem jurídico (crítica: a continuidade delitiva exige o mesmo tipo penal e o mesmo bem jurídico). Para a 2ª corrente, o crime mais leve é absorvido pelo crime mais grave. Para a 3ª corrente, se atingirem honras diferentes (objetiva e subjetiva; injúria + calúnia ou injúria + difamação), é possível o concurso de crimes praticados no mesmo contexto fático.
Calúnia – art. 138
Consiste em imputar falsamente, determinado fato definido como crime. Pena: 6 meses a 2 anos.
O sujeito ativo é comum, ressalvadas as inviolabilidades. Determinados agentes são invioláveis nas suas opiniões e palavras, não praticando o crime (por exemplo, os congressistas). Obs.: o advogado não tem imunidade profissional quando ao crime de calúnia (somente quanto a difamação e a injúria).
O sujeito passivo é comum. 
#Em relação aos menores de 18 anos como sujeito passivo, uma 1ª corrente defende que não pode ser vítima de calúnia, mas de difamação. Já a 2ª corrente esclarece que caluniar é imputar fato definido como crime e o menor de 18 anos pode praticar fato definido como crime, chamado de ato infracional.
#Pessoa jurídica como sujeito passivo. Conforme o STF/STJ, a pessoa jurídica não pode ser vítima de calúnia, pois o ente coletivo não pratica crime. Obs.: isso está ultrapassado, pois a pessoa jurídica pode praticar crime ambiental (Lei 9.605/98). Obs²: para Mirabete, a PJ não pode ser vítima de crime contra a honra, poiso CP somente protege a honra da pessoa natural.
#Morto vítima de calúnia. Conforme o art. 138, §2º, é punível a calúnia contra os mortos. Quem figura como vítima é a família. O morto não é titular de direitos. Não pode ser vítima de crime.
#Autocalúnia. Pode caracterizar o crime de autoacusação falsa (art. 341, CP).
A conduta consiste em imputar determinado fato previsto como crime sabidamente falso. É um crime de execução livre, ou seja, pode ser praticado por meio de palavras, gestos, escrito, etc.
O crime se configura quando:
a) o fato imputado jamais ocorreu. Ou seja, a falsidade recai sobre o fato.
b) quando real o fato, não foi a pessoa apontada seu autor. É a falsidade que recai sobre a autoria do fato.
O crime é punido a título de dolo. É indispensável a vontade de ofender a honra objetiva da vítima.
Se o agente atua com a intenção de brincar (animus jocandi), aconselhar (animus consulendi), narrar fato como testemunha (animus narrandi), intenção de criticar (animus criticandi) ou defender-se (animus defendendi), não haverá crime por ausência de dolo.
Art. 138, §1º - na mesma pena incorre quem, sabendo falsa imputação, a propala ou divulga.
No art. 138, caput, o agente cria a calúnia. No art. 138, §1º, o agente divulga a calúnia criada por outrem.
O art. 138, caput é punido a título de dolo direto ou eventual. Já o §1º somente pune a título de dolo (expressão “sabendo falsa”).
A consumação de um crime contra honra depende da honra que se protege. A calúnia se consuma quando terceiro toma conhecimento do que foi dito (honra objetiva). Ou seja, consuma-se quando o terceiro tomar conhecimento da falsa imputação.
Trata-se de crime formal ou de consumação antecipada, sendo dispensável dano efetivo a reputação da vítima. A tentativa é possível na forma escrita.
Exceção da verdade – art. 138, §3º
É admitido que o réu faça prova da verdade do fato que imputou. A exceção da verdade é um meio de defesa (forma de defesa indireta através da qual o acusado tenta provar a veracidade do que alegou).
A falsidade da imputação é elementar do tipo. Se através da exceção da verdade, o agente prova que o fato imputado é verdadeiro, gera a absolvição por atipicidade (por ausência de elementar do tipo).
Proibição da exceção da verdade – incisos do §3º do art. 138
Inciso I - Se, constituindo o fato imputado crime de ação privada, o ofendido não foi condenado por sentença irrecorrível. 
Ex.: Fulano contou para terceiros que Beltrano teria praticado exercício arbitrário das próprias razões, sem violência contra Sicrano. 
Beltrano, considerando-se caluniado por Fulano, ajuíza queixa crime. 
#Não pode Fulano fazer prova da verdade. A vítima do crime de exercício arbitrário das próprias razões (art. 345, CP) é Sicrano (Ação Penal Privada, art. 345, p. único). Permitir a Fulano provar a verdade do crime de exercício arbitrário das próprias razões seria admitir a terceiro provar crime sobre o qual a própria vítima preferiu o silêncio. 
Cuidado: se Sicrano (vítima do art. 345) ajuizou a queixa crime contra Beltrano, é possível que Fulano faça prova da veracidade da imputação.
Inciso II - Se o fato é imputado a qualquer das pessoas indicadas no nº I do art. 141 (Presidente da República ou chefe de governo estrangeiro) 
Ex.: Fulano imputou ao Presidente da República fato determinado previsto como crime. 
MPF denuncia Fulano, pois o crime é de ação penal pública condicionada à requisição do Ministro a Justiça. 
#Pode Fulano, na ação penal, provar a verdade do fato imputado ao Presidente da República? 
Razões políticas impedem a exceção da verdade. No caso de calúnia contra chefe de governo estrangeiro, a proibição está fundamentada em motivos diplomáticos. 
Inciso III - Se do crime imputado, embora de ação pública, o ofendido foi absolvido por sentença irrecorrível. 
Ex.: Fulano imputou a Beltrano a autoria de um crime de roubo. 
Beltrano, no entanto, já foi absolvido definitivamente pelo crime patrimonial imputado. 
Beltrano, sentindo-se caluniado, ajuíza queixa crime contra Fulano. 
#Pode Fulano fazer prova da verdade do roubo, em tese praticado por Beltrano? 
Proclamada a absolvição de Beltrano, deve ser reconhecida a autoridade da coisa julgada, presumindo-se absolutamente a falsidade da imputação.
*Constitucionalidade da proibição da exceção da verdade. O CP, no art. 138, §3º, incisos I, II e III, limita o direito de defesa (veda uma espécie de defesa indireta). A CF, no art. 5º, LV, garante o direito de ampla defesa. Há uma jurisprudência minoritária (TJ/MG) entendendo que esse dispositivo (art. 138, §3º, CP) não foi recepcionado pela Constituição.
*Exceção de notoriedade (art. 523, CPP)
*Calúnia vs. Denunciação caluniosa (Art. 339, CP)
Art. 339 CP - Dar causa à instauração de investigação policial, de processo judicial, instauração de investigação administrativa, inquérito civil ou ação de improbidade administrativa contra alguém, imputando-lhe crime de que o sabe inocente: 
Pena - reclusão, de dois a oito anos, e multa. 
§ 1º - A pena é aumentada de sexta parte, se o agente se serve de anonimato ou de nome suposto. 
§ 2º - A pena é diminuída de metade, se a imputação é de prática de contravenção.
Art. 139, CP - Difamação
Pena: 3 meses a 1 ano, e multa.
Consiste em imputar a alguém, determinado fato ofensivo a honra.
O sujeito ativo é comum, ressalvados os casos de inviolabilidade. O advogado, com relação a difamação (e a injúria), tem imunidade profissional, conforme o art. 7º, §2º, EAOAB.
O sujeito passivo é qualquer pessoa. Para o STF/STJ, em que pese não admitir calúnia contra pessoa jurídica (jurisprudência antiga), a pessoa jurídica tem honra objetiva, podendo figurar como vítima do crime de difamação. Para Mirabete, pessoa jurídica não pode ser vítima de qualquer crime contra honra, pois o CP somente protege a honra da pessoa natural.
#Não é punível a difamação contra os mortos. É punível a calúnia contra os mortos (art. 138, §2º, CP).
A conduta consiste em imputar determinado fato, não previsto como crime, porém desonroso. É crime de execução livre. Obs.: imputar a alguém fato desonroso previsto como contravenção penal é difamação (art. 139), podendo configurar a denunciação caluniosa (art. 339, §2º, CP).
	José imputou a João determinado fato:
	a) previsto como crime – calúnia (art. 138)
	b) previsto como contravenção penal – difamação (art. 139)
	c) não previsto como crime ou contravenção, porém desonroso - difamação (art. 139)
#Agente propagador de difamação. Em relação a calúnia, quem cria responde pelo art. 138, caput. Quem propala a calúnia, responde pelo art. 138, §1º. Em relação a difamação, o agente que cria a difamação responde pelo art. 139, caput. O agente que propala a difamação, para a doutrina, não deixa de difamar, respondendo igualmente pelo art. 139, caput.
O crime de difamação é punido a título de dolo, sendo imprescindível a intenção de ofender a honra objetiva. 
Se o agente atua com a intenção de brincar (animus jocandi), aconselhar (animus consulendi), narrar fato como testemunha (animus narrandi), intenção de criticar (animus criticandi) ou defender-se (animus defendendi), não haverá crime por ausência de dolo.
O crime ofende a honra objetiva. Logo, consuma-se no momento em que terceiro toma conhecimento da imputação desonrosa. Trata-se de crime formal, sendo indispensável o efetivo dano a reputação da vítima.
*Exceção da verdade – art. 139, p. único
Na difamação, diferente da calúnia, o fato imputado pode ser verdadeiro ou falso. Conclusão: se alguém diz que outro faz programa todas as noites, haverá difamação, mesmo que verdadeira a imputação.
A exceção da verdade somente é admitida se o ofendido é funcionário público e a ofensa é relativas as funções exercidas.
A procedência da exceção da verdade, na calúnia (art. 138, §3º), faz desaparecer a elementar do tipo (falsidade da imputação), gerando absolvição por atipicidade. Na difamação (art. 139, p. único), a procedência geraabsolvição por ausência de ilicitude (forma especial de exercício regular de direito), pois a falsidade da imputação não é elementar do tipo. Isso se dá por que qualquer cidadão é fiscal natural dos servidores públicos (R. Sanches).
*Exceção de notoriedade: a difamação também admite a aplicação da exceção de notoriedade do art. 523, CPP. Caracterizaria hipótese de crime impossível.
Art. 140, CP – Injúria
Pena - detenção, de um a seis meses, ou multa.
O sujeito ativo é qualquer pessoa (crime comum). Ressalva para os casos de inviolabilidade. O advogado tem imunidade. A autoinjúria só é criem quando a injúria ultrapassar a órbita da personalidade do indivíduo (por exemplo: eu sou corno).
O sujeito passivo é qualquer pessoa capaz de entender o sentido da ofensa (pois a ofensa é dirigida a honra subjetiva). Por exemplo, criança de tenra idade, ébrios, loucos, não podem ser vítimas de injúria.
A pessoa jurídica não tem honra subjetiva, não podendo figurar como vítima de injúria.
A conduta consiste em atribuir qualidade negativa. A imputação de fato genérico, vago e indeterminado, é caracterizador da injúria. Por exemplo, dizer que determinada pessoa rouba bancos.
O crime é punido a título de dolo.
A consumação se dá quando o fato chega ao conhecimento da vítima, pois ofende a honra subjetiva. É crime formal. 
#Tentativa? Para a 1ª corrente (maioria brasileira), não é admitido, nem mesmo na modalidade escrita, pois sendo a vítima o titular da ação penal, inevitavelmente, para ingressar com a queixa-crime, tomará conhecimento do fato. Para a 2ª corrente (Zaffaroni, Pierangeli), é possível a tentativa, citando como exemplo, o injuriado que morre antes de tomar conhecimento da ofensa. A família da vítima ingressaria com a queixa-crime, descrevendo tentativa de injúria.
Observação: a língua portuguesa pode sofrer variações interferindo no crime de injúria.
a) variação diatópica: variação geográfica;
b) variação diastrática: variação sociocultural
c) variação diafásica: variação quanto ao modo.
-Injúria absoluta: a expressão tem por si mesma e para qualquer um, significado ofensivo, constante e unívoco.
-Injúria relativa: a expressão assume caráter ofensivo se proferida em determinadas circunstâncias ou formas
*Exceção da verdade: não é possível
*Exceção de notoriedade: não é possível, pois não há à imputação de fato determinado.
Art. 140, §1º, CP – Perdão Judicial
Inciso I - quando o ofendido, de forma reprovável, provocou diretamente a injúria. Por ex, José, depois de agredir com um tapa a filha de João, é xingado por João. João, ao ofender o agressor da filha (José), não pode alegar a legítima defesa (pois é agressão passada), porém pode ser perdoado pelo Juiz.
Inciso II - no caso de retorsão imediata, que consista em outra injúria. O sujeito injuriado provocou o agressor com outra injúria (injúria vs. injúria). Esse caso, ambos ofensores podem ser perdoados.
Art. 140, §2º, CP – Injúria real
Pena: 3 meses a 1 ano, e multa.
A injúria real é a violência ou vias de fato mais a injúria.
Nelson Hungria dizia: “mais que o corpo, é atingida a alma”. Por exemplo, um tapa para humilhar.
*Conclusões
a) a contravenção penal de vias de fato (art. 21, LCP) fica absorvida;
b) haverá concurso entre a injúria real e a violência. 
#Concurso? Para a 1ª corrente, trata-se de concurso material. Para a 2ª corrente, trata-se de concurso formal impróprio, pois é uma conduta que produz 2 ou mais resultados.
#Consideração da violência. Bis in idem? A violência é considerada para qualificar a injúria (a pena vai de 1 a 6 meses, para 3 meses a 1 ano) e o agente ainda vai responder pela violência correspondente. Defende a melhor doutrina que é hipótese de dupla valoração da violência em prejuízo do agente. É um bis in idem indisfarçável.
Art. 140, §3º, CP – Injúria racial/preconceituosa (ou racismo impróprio), ou Injúria qualificada pelo preconceito
Pena: 1 a 3 anos e multa (reclusão).
#Perdão Judicial na injúria racial. Impossibilidade. Prevalece não ser possível, uma vez que o preconceito manifestado não se reveste de simples injúria, tratando-se de grave violência à honra da vítima, violando uma das metas fundamentais do Estado Democrático de Direito.
Por exemplo, João agride a filha de José. Este, quando encontra aquele, profere xingamentos, fazendo referências a cor de José.
Art. 141, CP - Disposições comuns dos crimes contra honra
*Caput. Causas de aumento (1/3) que incidem sobre a calúnia, difamação e injúria
Obs.: a calúnia, majorada pelo art. 141, CP, deixa de ser de menor potencial ofensivo, porém permanece admitindo suspensão condicional do processo.
Obs²: a injúria qualificada pelo preconceito majorada pelo art. 141 não mais admite a suspensão condicional do processo.
Art. 141, Inciso I – contra o presidente da república, ou contra chefe de governo estrangeiro
a) Macular a honra do presidente da república é macular, indiretamente, todos os cidadãos.
b) Se a ofensa tiver motivação política, passa a ser crime contra segurança nacional (L. 7.170/83)
c) Ofender a honra de chefe de governo estrangeiro pode periclitar relações diplomáticas celebradas pelo Brasil.
d) A causa de aumento abrange chefe de estado estrangeiro.
e) Nesses casos, a ação penal é pública, condicionada a requisição do Ministro da Justiça (art. 145, p. único)
Art. 141, II – contra funcionário público, em razão de suas funções
a) Entende-se que o fundamento é que a ofensa, no caso, prejudica o andamento da vida funcional da Administração Pública como um todo.
b) Somente incide a causa de aumento se a ofensa for dirigida contra o servidor, em razão de sua função.
c) Não se pode confundir o crime contra a honra de funcionário público com o crime de desacato (art. 331, CP). O crime contra a honra do funcionário é praticado na ausência do servidor. O crime de desacato é praticado na presença do servidor (o servidor está no local, vendo ou ouvindo a ofensa).
Art. 141, III – na presença de várias pessoas, ou por meio que facilite a divulgação da calúnia, da difamação ou da injúria
a) a expressão “presença de várias pessoas” pressupõe no mínimo a presença de 3 pessoas, não se computando partícipes, autores e pessoas que não tem capacidade de compreender a ofensa.
b) se o agente ofende vários indivíduos no mesmo contexto temporal e fático, cada um será 3º em relação à ofensa dos demais, incidindo a causa de aumento
c) a expressão “meio que facilite a divulgação” abrange as ofensas por meio da imprensa.
Art. 141, IV – contra pessoa maior de 60 anos ou portadora de deficiência, exceto no caso de injúria
Art. 141, p. único – Ofensa mercenária
“Se o crime é praticado mediante paga ou promessa de recompensa, aplica-se a pena em dobro”.
Art. 142 – Hipóteses de exclusão do crime de injúria ou difamação
-Natureza jurídica do art. 142, CP. Para uma 1ª corrente, é uma causa especial de exclusão da ilicitude (hipótese especial de estrito cumprimento do dever legal ou exercício regular de direito). Para a 2ª corrente, é uma causa de exclusão de punibilidade (“não se pune”). Para a 3ª corrente, é causa de exclusão do elemento subjetivo do crime, pois não há intenção deliberada de ofender a honra.
Art. 142, I – a ofensa irrogada em juízo, na discussão da causa, pela parte ou seu procurador (imunidade judiciária)
a) a imunidade alcança a parte ou seu procurador.
b) o advogado tem imunidade prevista no art. 7º, §2º, do EAOAB
c) o MP tem imunidade prevista no art. 41, V, da Lei 8.625/93 (LOMP)
d) o Defensor Público tem imunidade judiciária na LONDP
e) o Juiz, na LOM, não tem imunidade. Ele pode alegar em seu benefício o art. 23, III, CP.
Observação: prevalece que essa imunidade judiciária (art. 142, I, CP) é relativa, desaparecendo quando inequívoca a intenção de ofender.
Art. 142, II – o opinião desfavorável da crítica literária, artística ou científica, salvo quando inequívoca a intenção de injuriar ou difamar (imunidade literária, artística ou científica)
a) a expressão “salvoquando inequívoca a intenção de ofender” evidenciar tratar de imunidade relativa
b) animus criticandi
Art. 142, III – o conceito desfavorável emitido por funcionário público, em apreciação ou informação que preste no cumprimento de dever do ofício (imunidade funcional)
a) conforme a maioria, trata-se de imunidade relativa
Art. 142, Parágrafo único - Nos casos dos ns. I e III, responde pela injúria ou pela difamação quem lhe dá publicidade.
Art. 143 – Retratação do agente (calúnia e difamação)
Extingue a punibilidade do agente.
Não alcança a injúria. Não se confunde com a confissão.
Trata-se de ato unilateral (independe de concordância da vítima).
*Não comunicabilidade da retratação. Trata-se circunstância subjetiva incomunicável aos demais concorrentes. Só o querelado que se retrata tem a punibilidade extinta (isenção de pena).
*Momento: deve ocorrer a retração até a sentença de 1º grau.
Art. 144 – Pedido de explicações
“Se, de referências, alusões ou frases, se infere calúnia, difamação ou injúria, quem se julga ofendido pode pedir explicações em juízo. Aquele que se recusa a dá-las ou, a critério do juiz, não as dá satisfatórias, responde pela ofensa”.
O pedido de explicações se deve, pois as vezes as imputações são vagas, com duplo sentido. É uma medida preparatória e facultativa para o oferecimento da queixa-crime quando, em virtude dos termos empregados, não se mostra evidente a intenção de ofender.
Obs.:
a) o pedido de explicações não suspende o prazo decadencial.
b) tanto o pedido de explicações como a sua resposta são facultativos.
c) para a maioria da doutrina, o procedimento é o procedimento das justificações avulsas (art. 861 a 866, CPC).
Art. 145 – Ação Penal dos Crimes contra Honra
Regra: Ação Penal de Iniciativa privada.
Exceções:
a) crime contra a honra do presidente da república ou chefe de governo estrangeiro. APP condicionada a requisição do Ministro da Justiça.
b) crime contra a honra de servidor público relacionado ao exercício da função. APP condiciona a representação do ofendido. Súmula 714 STF
c) injúria real com violência resultando lesão corporal. APP incondicionada. Obs.: as demais injúrias reais (que não resulta lesão corporal) é de Ação Penal Privada.
d) injúria preconceito. APP condicionada a representação da vítima. Obs.: a injúria qualificada preconceito, antes da Lei 12.039/09, era de ação penal de iniciativa privada. Essa mudança repercute no direito de punir do estado. Os fatos anteriores a Lei 12.039/09 permanecem dependendo de queixa. A queixa admite: perdão do ofendido, perempção, decadência e retratação do agente. A representação do ofendido (denúncia) somente admite a decadência.
“Súmula 714 STF: É concorrente a legitimidade do ofendido, mediante queixa, e do Ministério Público, condicionada à representação do ofendido, para a ação penal por crime contra a honra de servidor público em razão do exercício de suas funções.”. Dá ao servidor um direito de opção.
Obs.: feita a opção de uma via pela outra, haverá a preclusão da outra via.
	Quadro comparativo entre Calúnia, Difamação e Injúria
	
	Art. 138 – Calúnia
	Art. 139 – Difamação 
	Art. 140 – Injúria
	Imunidade do advogado
	Não tem
	Tem (art. 7º, §2º, EOAB)
	Tem (art. 7º, §2º, EAOAB)
	Pessoa jurídica como vítima
	Não pode ser vítima (jurisprudência desatualizada)
	Pode ser vítima
	Não pode ser vítima (não tem honra subjetiva)
	Conduta
	Imputação de determinado fato previsto como crime
	Imputação de determinado fato desonroso
	Atribuição de qualidade negativa. Abrange a imputação de fatos genéricos, vagos e indeterminados.
	Honra ofendida
	Objetiva
	Objetiva
	Subjetiva
	Consumação
	Quando 3º toma conhecimento do que foi dito
	Quando 3º toma conhecimento do que foi dito
	Quando a vítima toma conhecimento da atribuição 
	Exceção da verdade
	Em regra é possível (art. 138, §3º)
	Em regra, não é possível (art. 139, p. único)
	Não é possível em nenhuma hipótese
	Exceção de notoriedade
	É possível (art. 523, CPP)
	É possível (art. 523, CPP)
	Não é possível
	Exclusão do crime do art. 142, CP
	Não
	Sim
	Sim
	Retratação do art. 143
	Sim
	Sim
	Não
TÍTULO II
DOS CRIMES CONTRA O PATRIMÔNIO
CAPÍTULO I
DO FURTO
Art. 155 – Furto simples (caput)
Pena: 1 a 4 anos.
“Subtrair, para si ou para outrem, coisa alheia móvel”.
O agente possui um dolo específico (elemento subjetivo específico). Ou seja, o agente pratica a conduta com especial finalidade. Exatamente por isso, o furto de uso é fato atípico (ausente o elemento subjetivo específico). O furto de uso (dolo de usar e devolver) não se confunde com o arrependimento posterior (art. 16 – dolo de subtrair para si; após a consumação, o agente se arrepende e devolve a coisa, antes do recebimento da denúncia).
Sujeitos do tipo:
a) Ativo: é crime comum. Em relação ao concurso de pessoas, é crime monossubjetivo (crime de concurso eventual).
b) Passivos: o sujeito passivo imediato (direto, eventual) é a pessoa que tem a posse/propriedade da coisa subtraída, ou seja, o titular do bem jurídico a que se pretende tutelar (posse e propriedade); o sujeito passivo mediato (indireto, constante) é o Estado.
Objetos do tipo: o objeto jurídico (bem jurídico a ser tutelado) é a posse ou propriedade. O objeto material é a pessoa ou a coisa sobre a qual recai a conduta criminosa, ou seja, a coisa alheia móvel.
Núcleo do tipo (verbo da conduta criminosa): o furto é mononuclear.
A expressão “coisa alheia” exclui a coisa própria. O agente que “furta” coisa própria poderia incidir no crime do art. 345 (exercício arbitrário das próprias razões), a depender do seu dolo; poderia incidir na figura do erro de tipo (art. 20, CP) e consequente em apropriação indébita (art. 168).
A expressão “coisa alheia” exclui a coisa de ninguém (res nullius), a coisa abandonada (res derelicta), a coisa comum a todos (coisa que pertença a todo mundo, como a luz do sol, o ar oxigênio).
A expressão “coisa móvel”. A ideia de mobilidade é o sentido mais leigo da expressão. Móvel, para o direito penal, é qualquer coisa passível de remoção.
Por expressa disposição do CP, equipara-se a coisa móvel a energia elétrica e outras energias de valor econômico (art. 155, §3º). Obs.: o STF, em abril de 2011, entendeu que a subtração de sinal de TV à cabo é fato atípico, pois o sinal não é energia. O Projeto de Lei do novo CP equipara tanto o sinal de TV quando o wi-fi a coisa alheia móvel.
Classificação do furto
a) Privilegiado (art. 155, §2º): 
Tem dois requisitos. Exige-se que a coisa subtraída seja de pequeno valor (critério objetivo) e que o réu seja primário (critério subjetivo). Os dois critérios devem estar cumulados (congregados). Nesse caso, o Juiz poderá diminuir a pena, substituir a reclusão por detenção ou aplicar apenas pena de multa. Essa regra não se aplica para os crimes praticados mediante violência ou grave ameaça.
A jurisprudência tem entendido que o pequeno valor é verificado pelo salário mínimo à época do fato criminoso. A doutrina entende que deve-se analisar o caso concreto.
É aplicável ao furto qualificado também.
*Furto insignificante. A adoção do princípio da insignificância gera a atipicidade da conduta.
b) Furto Simples (art. 155, caput):
É definido por exclusão. Não sendo privilegiado, nem qualificado, é furto simples. É possível que haja a incidência de uma causa de aumento de pena. 
O §1º, art. 155, prevê uma majorante para o furto praticado durante o repouso noturno. Prevalece que somente incide no furto simples. O STJ entende que incide a causa de aumento ainda que não haja ninguém na residência (casa inabitada), pois entende que a ideia é “repouso da coletividade”. O repouso noturno é entendido como o período que vai das 18 horas, até as 06 da manha (critério cronológico), conforme a maioria. O professor Antonio Escarance Fernandes entende que deveria ser observado o critério da aurora (critério natural).
c) Furto Qualificado(art. 155, §4º e art. 155, §5º)
Art. 155, §4º, Pena: 2 a 8 anos, e multa
I – furto praticado com destruição ou rompimento de obstáculo à subtração da coisa. Em 2010, em decisão isolada, considerando a proporcionalidade no direito penal, o STJ entendeu que o subtração de bolsa dentro do caso mediante a quebra do vidro do carro, seria furto simples e não qualificado. Porém, prevalece o inverso.
II – furto com abuso de confiança, ou mediante fraude, escalada ou destreza; 
-abuso de confiança: pressupõe que haja relação de confiança entre o agente e a vítima. Não se pode presumir a relação de confiança. A situação deve ser verificada no caso concreto.
-mediante fraude: enganação, engodo, ludibriação. Não confundir com estelionato. O estelionatário emprega a fraude para que a vítima lhe entregue o bem (vantagem econômica). No furto mediante fraude, o agente emprega a fraude para reduzir a vigilância da vítima, para então subtrair com maior facilidade.
-escalada
-destreza: emprego de habilidade. É o famoso batedor de carteira (trombadinha – tromba para subtrair). No entanto, o STJ entendeu que a violência empregada pelo trombadinha (trombar) configura o crime de roubo.
III - com emprego de chave falsa; qualquer instrumento que possa substituir a chave autêntica.
IV - mediante concurso de duas ou mais pessoas. Pode haver tanto a coautoria quanto a participação.
Art. 155, §5º - Pena de 3 a 8 anos
A pena é de reclusão de três a oito anos, se a subtração for de veículo automotor que venha a ser transportado para outro Estado ou para o exterior.
*Furto qualificado privilegiado. É possível. Todas as qualificadoras são objetivas. No entanto, em relação ao §5º do art. 155, por ser veículo automotor, será praticamente impossível que o veículo automotor seja de pequeno valor.
Furto de coisa comum – art. 156
É o furto praticado pelo condômino, coerdeiro ou sócio de coisa que detenha legitimamente a coisa. Ou seja, a coisa é do agente também.
Pena: 6 meses a 2 anos.
AP privada: art. 156, §1º.
Não se trata de crime comum, pois somente pode ser praticado pelo condômino, pelo coerdeiro ou sócio. O sujeito passivo seria o outro condômino, coerdeiro ou sócio. O objeto material não é a coisa alheia, mas sim a coisa comum.
Art. 156, 2º. Não é punível a subtração de coisa comum fungível, que não ultrapasse a quota a que tenha direito.
Art. 157 - Roubo
Doutrinariamente, é chamado de crime complexo (tipo penal complexo), pois resulta da junção do furto (art. 155) com outro crime (art. 129 – violência, art. 147 – ameaça, art. 146 – constrangimento ilegal). Também é considerado de delito pluriofensivo, pois tutela mais de um bem jurídico (consuma-se mediante a ofensa a mais de um bem jurídico).
O roubo pode ser dividido em:
a) Roubo próprio (art. 157, caput), onde o sujeito realmente emprega a violência ou grave ameaça ou reduz a vítima a impossibilidade de resistência para roubar.
b) Roubo impróprio (art. 157, §1º), onde a subtração já se iniciara e o sujeito emprega a violência ou grave ameaça, a fim de assegurar a impunidade do crime. Faz-se necessário que a violência ou grave ameaça seja empregada no contexto da subtração
Consumação do crime de roubo (e furto): dá-se com a posse mansa. O STJ/STF adota a teoria da apreesio (ou amotio) e conforme essa, basta que o agente tenha a posse do bem, não exigindo a posse pacífica, ou seja, não se faz necessário que o bem saia da esfera de vigilância da vítima, mas exige-se que o bem saia da esfera de disponibilidade da vítima, ainda que não seja pacífica.
Art. 157, §2º - Roubo Majorado (roubo circunstanciado)
A pena aumenta-se de 1/3 até metade:
I – se a violência ou ameaça é exercida com emprego de arma. Entende-se, atualmente, que a apreensão e perícia da arma é desnecessária. O emprego da arma pode ser constatada de outra maneira. No entanto, se a arma for apreendida, faz-se necessário a constatação da aptidão para servir como “arma”. 
II – se há o concurso de duas ou mais pessoas. No furto essa hipótese é qualificadora. No roubo, é mera causa de aumento. A Súmula 442 STJ (inadmissibilidade de aplicar a majorante do roubo ao crime de furto qualificado).
III – se a vítima está em serviço de transporte de valores e o agente conhece tal circunstância.
IV – se a subtração for de veículo automotor que venha a ser transportado para outro Estado ou para o exterior. É necessário que o veículo automotor venha a ser transportado para outro estado ou país.
V – se o agente mantém a vítima em seu poder, restringindo sua liberdade. Não se trata do vulgarmente chamado de “sequestro relâmpago” (extorsão).
Concurso entre circunstâncias majorantes
*
Art. 157, §3º. Roubo qualificado
Se da violência resulta lesão grave, a pena é de 7 a 15 anos; se resulta morte, é de 20 a 30 anos.
Obs.: Para a doutrina, a violência propriamente dita é real e a grave ameaça seria uma violência moral. Desse modo, se a lesão grave ou a morte resultarem da grave ameaça não haverá a configuração do roubo qualificado.
A expressão latrocínio é utilizado pela doutrina e pela jurisprudência. Não é utilizada no CP, porém é utilizada na Lei de Crimes Hediondos. 
#Latrocínio culposo? O CP não é expresso. “Se da violência resulta morte”. A violência é empregada de forma dolosa. A doutrina e a jurisprudência entendem que se a morte é culposa, também é hipótese de latrocínio.
Súmula 603 STF: a competência para o processo e julgamento de latrocínio é do Juiz singular e não do Júri.
Súmula 610 STF: há crime de latrocínio, quando o homicídio se consuma, ainda que não se realize o agente a subtração de bens da vítima.
Art. 158 – Extorsão
Consiste em constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça e com intuito de finalidade econômica, a fazer, deixar de fazer ou tolerar que se faça alguma coisa. Pena de 4 a 10 anos.
O sujeito ativo é qualquer pessoa. O sujeito passivo é a vítima (imediato), tutelando-se o patrimônio e a integridade física ou higidez psíquica (crime pluriofensivo). 
É um crime formal, consumando-se com o mero constrangimento (“intuito de obter a vantagem”), ainda que não se obtenha a vantagem patrimonial.
Há o dolo específico de obter a indevida vantagem econômica.
*Diferença com o roubo: Nelson Hungria utilizava como crucial o comportamento da vítima. Hoje, prevalece que o crucial seja a imprescindibilidade ou não do comportamento da vítima. Ou seja, haverá o crime de extorsão quando o comportamento da vítima for imprescindível a atividade do criminoso.
Diferente do roubo, a extorsão é crime formal, pois a mera exigência já consuma o crime.
Art. 158, §1º - Causa de aumento: se o crime é cometido por duas ou mais pessoas, ou com emprego de arma, aumenta-se a pena de um terço até metade.
É o emprego de arma e o concurso de pessoas.
Art. 158, §2º. Na extorsão, se da violência resulta lesão corporal grave, a pena é de reclusão, de sete a quinze anos, além da multa; se resulta morte, a reclusão é de vinte a trinta anos, sem prejuízo da multa.
A extorsão seguida de morte é crime hediondo.
Art. 158, §3º. “Sequestro relâmpago”. Se o crime é cometido mediante a restrição da liberdade da vítima, e essa condição é necessária para a obtenção da vantagem econômica, a pena é de reclusão, de 6 (seis) a 12 (doze) anos, além da multa; se resulta lesão corporal grave ou morte, aplicam-se as penas previstas no art. 159, §§ 2o e 3o, respectivamente. É uma modalidade qualificada de extorsão. 
OBS: não é crime hediondo.
Art. 159 – Extorsão mediante sequestro (todas as modalidades são crimes hediondos)
A pena é de 8 a 15 anos.
É um tipo penal complexo, pois resulta da junção extorsão com o crime de sequestro ou cárcere privado (art. 148).
Em que pese o tipo mencionar “qualquer vantagem”, a doutrina ensina que essa vantagem deve ser econômica, pois o crime se encontra no rol dos crimes patrimoniais. 
O tipo exige o dolo específico de obter a vantagem (econômica).
*Lei 10.446/06: essa Lei trata das atribuições da Polícia Federal, e mencionaque a PF deverá agir na hipótese em que esse crime for praticado por motivação política ou por motivo de função pública. Obs.: deflagra a atribuição da polícia federal, mas não é de competência da Justiça Federal.
Art. 159, §1º. Qualificado: se o sequestro dura mais de 24 horas, se o sequestrado é menor de 18 ou maior de 60, ou se cometido por bando ou quadrilha. Pena: 12 a 20 anos.
Art. 159, §2º. Qualificado se resulta lesão grave. Pena de 16 a 24 anos.
Art. 159, §3º. Qualificado pela morte. Pena de 24 a 30 anos.
Art. 159, §4º. Delação premiada. Redução de 1 a 2/3. Faz-se necessário que a delação facilite a libertação do sequestrado. Esse benefício só será recebido se a delação contribuir para com a autoridade policial.
Art. 160 – Extorsão indireta.
Exigir ou receber, como garantia de dívida, abusando da situação de alguém, documento que pode dar causa a procedimento criminal contra a vítima ou contra terceiro:
Pena - reclusão, de um a três anos, e multa.
Art. 168. Apropriação indébita
O sujeito já tem a posse ou detenção da coisa, adquirida legitimamente. Após, o sujeito passa a agir com o chamado animus rem sibi habendi (intenção de haver a coisa para si, se apoderar da coisa).
Pena: 1 a 4 anos.
Se o sujeito, antes de obter a posse legítima, já tem a intenção de se apropriar, a posse não foi adquirida legitimamente. Se o sujeito levar a erro a vítima para obter a vantagem indevida, haverá o crime de estelionato (art. 171).
Se o sujeito, tinha a intenção de devolver o bem havido legitimamente, será hipótese de culpa. Não há modalidade culposa.
Na prática, a consumação é identificada a partir do momento em que o agente exterioriza a vontade se haver a coisa para si. Por exemplo, divulgar que está vendendo.
Art. 171. Estelionato.
Obter, para si ou para outrem, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil, ou qualquer outro meio fraudulento.
Pena: de 1 a 5 anos.
Em que pese não estar expresso, a doutrina entende que essa vantagem deve ser econômica. Por exemplo, se o sujeito leva a pessoa a erro para obter uma vantagem sexual, haverá o crime de violação sexual mediante fraude (art. 215, com pena de 2 a 6 anos).
A expressão “outro meio fraudulento” evidencia que o crime é praticado mediante enganação, fraude, etc. A fraude é empregada para que vítima lhe entregue a vantagem. A doutrina entende que o dolo bilateral não exclui o crime.
Art. 171, §1º. Estelionato “privilegiado”. Aplica-se o art. 155, §2º (furto privilegiado). Mesma ideia. Criminoso primário e coisa de pequeno valor.
Súmula 544 STF: o pagamento de cheque emitido sem provisão de fundos, após o recebimento da denuncia, não obsta o prosseguimento da ação penal. A contrário senso, se o cheque for pagado ate o recebimento da denúncia, não haveria a ação penal. Entende a doutrina que essa súmula continua valendo. O art. 16 se aplica para os outros crimes cometidos sem violência ou grave ameaça (redução de pena, arrependimento posterior).
Súmula 48 STJ: compete ao juízo da local da obtenção da vantagem ilícita processar e julgar o estelionato cometido mediante falsificação de cheque.
Súmula 521 STF, Súmula 244 STJ: o foro para o processo e julgamento do estelionato mediante cheque sem fundo é o local em que se deu a recusa pelo pagamento pelo sacado. Obs.: a recusa sempre se dá no local onde o agente tem a conta (é como se uma agência entrasse em contato com a outra).
Súmula 17 STJ: quando o falso se exaure no estelionato, sem mais potencialidade lesiva, é por este absorvido.
Crimes contra a dignidade sexual com violência. Art. 213
Diferente do que a Defensoria pretendia, o STJ entendeu que não houve abolitio criminis, que é a revogação formal e material da norma, tornando o fato atípico, mas sim hipótese de continuidade normativo-típica que implica migração do conteúdo criminoso para outro tipo penal, mantendo o caráter criminoso do fato.
O art. 213, é crime hediondo sempre, conforme o art. 1º, V, Lei 8.072/90, independente se estupro na modalidade simples ou qualificada. Vale observar que o estupro no CPM (art. 232) não é crime hediondo, por falta de previsão legal.
Com o advento da Lei 12.015/09, o sujeito ativo do crime de estupro pode ser tanto o homem como a mulher (“constranger alguém”). O sujeito passivo também passou a ser qualquer pessoa. No entanto, quando a prática do núcleo, permanece a separação. Tratando-se da conjunção carnal, pressupõe sujeitos heterossexuais, diferente dos atos libidinosos. 
A conduta consiste em constranger alguém a prática de atos libidinosos diversos da conjunção carnal e conjunção carnal. O constrangimento se dá mediante a violência (coação física, efetivo emprego de força física) ou mediante grave ameaça (coação moral). O tipo exige a ameaça grave. A simples ameaça não configura o crime, exigindo o tipo que a ameaça seja grave. Há duas correntes discutindo como se pode aferir a gravidade da ameaça. Para a 1ª corrente, a gravidade da ameaça é aferida pelo homem médio. A 2ª corrente trabalha com as circunstâncias do caso concreto, como condições de tempo, lugar, condições da vítima (instrução, idade, sexo).
Os atos libidinosos são assim entendidos a conjunção carnal, outras modalidades de sexo, etc.
O crime é punido a título de dolo. Uma 1ª corrente (Capez, maioria) entende que não se exige finalidade especial animando o agente. Uma 2ª corrente (Mirabete) defende que o crime é punido a título de dolo (constranger) mais a finalidade especial de praticar atos de libidinagem. Já uma 3ª corrente defende que o crime é punido a titulo de dolo mais a finalidade especial de satisfazer a lascívia.
A consumação se dá com a prática efetiva do ato de libidinagem pelo agente (crime material).
#Beijo lascivo. Há jurisprudência minoritária reconhecendo como crime. No entanto, a doutrina moderna prefere subsumir a conduta como constrangimento ilegal (art. 146, CP) ou importunação ofensiva ao pudor (art. 61, LCP). A doutrina prefere entender que um ato libidinoso é aquele que viola o bem jurídico do mesmo modo da conjunção carnal.
#Contato físico entre os sujeitos. Para uma 1ª corrente (majoritária), o contato físico é dispensável, como obrigar a vítima a se masturbar. Já uma 2ª corrente entende que o contato físico é indispensável. Sem contato físico pode haver outro crime, como por exemplo, constrangimento ilegal (art. 146, CP).
Qualificadoras do art. 213 (§§1º e 2º)
	Antes da Lei 12.015/09
	Depois da Lei 12.015/09
	§1º O fato da vítima ser menor de 18, porém maior de 14, era uma circunstância judicial desfavorável
	§1º Tornou-se qualificadora. Pena de 8 a 12 anos
	§1º “Se da violência resulta lesão grave”. Nesse caso, não abrangia a grave ameaça.
	§1º Se da conduta resulta lesão grave. Agora, abrange a grave ameaça. Pena de 8 a 12.
	Se do fato resulta morte (§2º). Era uma expressão muito ampla, abrangendo violência, grave ameaça ou qualquer outro fato.
	Agora, o §2º exige que a morte seja resultado da “conduta”, abrangendo a violência e a grave ameaça. Pena: 12 a 30 anos.
	Obs.: os resultados lesão grave e morte devem ser culposos. É um resultado preterdoloso.
Crimes contra a dignidade sexual com fraude. Art. 215
Violação sexual mediante fraude – Art. 215
O crime de violação sexual mediante fraude não é crime hediondo.
A Lei 12.015/09 fez a mesma coisa com esse dispositivo como fez com o art. 213 (reuniu as condutas em atos de libidinagem).
O sujeito ativo é comum. O sujeito passivo é comum. O tipo não exige condição especial da vítima. Ou seja, a prostituta pode ser vítima.
A conduta consiste no estelionato sexual. Atos de libidinagem mais fraude ou outro meio que impeça ou dificulte a livre manifestação de vontade da vítima. Ou seja, o sujeito busca os atos de libidinagem através de fraude ou outro meio de execução semelhante.
A fraude consiste em obter o ato de libidinagem mediante ardil. O agente oculta a sua finalidade ou identidade.“Outro meio que impeça ou dificulte a livre manifestação de vontade da vítima”. Assemelha-se aos vícios da vontade do direito civil: simulação e coação. Porém, a simulação configura fraude e a coação configura estupro. A doutrina cita como exemplo a ameaça não grave, como o temor reverencial.
Obs.: a fraude utilizada na execução do crime não pode anular a capacidade de resistência da vítima, sob pena de configurar o crime de estupro de vulnerável (art. 217-A, CP). Por exemplo, o uso de psicotrópicos.
O crime é punido a título de dolo. Se o crime é cometido com o fim de obter vantagem econômica, deve ser aplicado pena de multa (art. 215, p. único).
A consumação se dá com a prática do ato de libidinagem. A tentativa é possível, pois trata-se de crime plurissubsistente.
Crimes contra a dignidade sexual de vulnerável. Art. 217-A
#Vulnerabilidade é absolutamente presumida pelo art. 217-A? Para uma 1ª corrente, a vulnerabilidade do menor de 14 anos é absoluta. Pra essa corrente, sempre haverá estupro de vulnerável em relação sexual com menor de 14 anos. Para a 2ª corrente, a vulnerabilidade será absoluta ou relativa, a depender do caso concreto. Essa corrente sugere que, se estiver de vítima adolescente (12, 13 anos), a vulnerabilidade é relativa. Porém, estando diante de vítima criança (11 anos, ou menos) a vulnerabilidade é absoluta.
Hediondez do art. 217-A.
Antes da Lei nº 12.015/09, o STJ pacificou o entendimento de que o crime sexual só era hediondo quando praticado com violência real. Se praticado com violência presumida não era hediondo. Concluiu que estupro de vulnerável sem violência real não pode ser alcançado pelo caráter hediondo introduzido pela Lei nº 12.015/09, se praticado antes dessa lei.
O sujeito ativo do art. 217-A é qualquer pessoa. O sujeito passivo deve ser vulnerável.
A conduta consiste em manter ou praticar atos de libidinagem com vulnerável. Trata-se de crime de execução livre. Ou seja, pode ser praticado mediante violência, grave ameaça, fraude ou qualquer outro meio.
É punido a título de dolo, sem finalidade especial. É imprescindível que o agente tenha ciência de que age em face de pessoa vulnerável.
#Desconhecimento da condição de vulnerabilidade da vítima. Depende do modo de execução. Se o agente emprega violência ou grave ameaça, deixa de ser o art. 217-A, porém, configurando o art. 213. Se o agente emprega fraude, deixa de ser o art. 217-A, mas configura o crime do art. 215 (violação sexual mediante fraude). No entanto, se praticado sem violência, grave ameaça ou fraude, e o agente desconhecia que a vítima era vulnerável, o fato passa a ser atípico.
Qualificadoras (§3º e §4º)
Qualificam o crime quando a conduta resultar em lesão grave ou morte. São qualificadoras preterdolosas. A pena fica de 10 a 20 anos ou de 12 a 30 anos.
Ação Penal Nos crimes contra a dignidade sexual
Antes da Lei 12.015/09, em regra, esses crimes eram de ação penal de iniciativa privada. As exceções eram:
a) vítima pobre. A ação era condicionada
b) abuso de poder. A ação penal era pública incondicionada
c) resultado lesão grave ou morte. A ação penal era pública incondicionada
d) Súmula 608 STF: violência com lesão.
Agora, após o advento da lei, em regra, os crimes são de ação penal pública condicionada a representação. Será pública incondicionada se a vítima é menor de 18 anos ou pessoa vulnerável (art. 225, p. único).
#Obs.: é possível ação penal privada subsidiária da pública. É garantia fundamental do cidadão, previsto no art. 5º, LIX, CF.
#Nos casos em que a ação penal de iniciativa privada passou para pública, devem os fatos anteriores ser descritos em queixa-crime, oferecida pela vítima ou em denúncia, proposta pelo MP? A ação penal para os casos praticados antes da Lei 12.015/09 continuam sendo de iniciativa privada, em regra. Interpretação outra seria retirar do agente a possibilidade de causas extintivas da punibilidade que somente a queixa crime admite, como o perdão do ofendido, a perempção. O mesmo raciocínio deve ser aplicado aos casos em que a ação penal pública condicionada passou a ser incondicionada.
#Nas hipóteses de ação pública incondicionada que passaram para a regra (condicionada), entendemos que a análise exige separar duas situações: a) se antes da Lei 12.015/09, a denúncia já foi oferecida, trata-se de ato jurídico perfeito; b) se a denúncia ainda não foi oferecida, é indispensável a representação da vítima.
##Por fim, qual a ação penal nos casos em que da violência resulta na vítima lesão grave ou morte? 
Antes do advento da Lei 12.015/2009 era de ação penal pública incondicionada (podia e devia o Ministério Público atuar sem nenhuma manifestação da vítima). 
1ªC – no silencio, aplica-se a regra do art. 225, CP, ou seja, ação penal pública condicionada a representação (LFG).
2ªC – no silêncio, aplica-se a regra do CP (art. 100), ou seja, ação penal pública incondicionada (Bitencourt, maioria).
##A PGR ingressou com ADI (4.301), junto ao STF, solicitando o reconhecimento (inclusive liminar) da inconstitucionalidade do art. 225 do CP (sem redução de texto), para se admitir que a ação penal, no caso do estupro com resultado morte ou lesão corporal grave, seria pública incondicionada. 
Três foram os fundamentos invocados: 
1º) ação diversa da pública incondicionada viola a dignidade da pessoa humana
2º) ação diversa da publica incondicionada incentiva a proteção insuficiente do estado
3º) por fim, ação outra pode gerar a extinção da punibilidade em massa.
Crimes contra a paz pública
Art. 288 – Associação criminosa
Pena: 1 a 3 anos. 
p. único: aumenta-se a pena até a metade se for armada ou envolver adolescente.
A Lei nº 12.850/13 modificou o art. 288 do Código Penal em alguns aspectos. 
Inicialmente, o nomen iuris passou de quadrilha ou bando para associação criminosa. 
Além disso, alterou-se o número mínimo de agentes que devem se associar para caracterizar o crime, isso para diferenciá-lo da organização criminosa, agora definida e tipificada nos artigos 1º e 2º da Lei nº 12.850/13, e que exige o número mínimo de quatro agentes. 
Houve, também, mudança no parágrafo único, que antes dobrava a pena do crime quando sua prática envolvia agentes armados. Atualmente, a associação criminosa terá a pena aumentada até a metade se os agentes estiverem armados ou se houver a participação de criança ou adolescente.
O bem jurídico é a paz pública. O sujeito ativo é qualquer pessoa (tipo comum). É também um crime plurissubjetivo (concurso necessário). No número mínimo de 3 pessoas computam-se agentes não identificados ou eventuais inimputáveis. O sujeito passivo é a coletividade (crime vago).
A conduta punida consiste em associar 3 ou mais pessoas para o fim específico de cometer crimes (uma série indeterminada de crimes).
O crime é punido a título de dolo com a finalidade especial de cometer uma série indeterminada de crimes. A busca por lucro é dispensável (não se exige), apesar de, na prática, ser comum.
Consumação:
a) em relação aos fundadores, o crime se consuma no momento em que aperfeiçoada a convergência de vontades entre 3 ou mais pessoas
b) em relação aos agentes que integram a associação já formada, o crime se consuma com a adesão de cada qual.
Obs.: o crime do art. 288 se consuma independentemente da prática de qualquer crime pelo grupo criminoso.
É um crime permanente (flagrante a qualquer tempo durante a permanência; prescrição – art. 111, III; Súmula 711 STF).
A doutrina não admite a tentativa. Entende que convidar pessoas para integrarem associação criminosa, configura ato preparatório não punível.
Elementos estruturais do crimes:
a) Associação: associar-se significa reunir-se em sociedade para determinado fim (tornar-se sócio), havendo uma vinculação sólida, quanto à estrutura, e durável, quanto ao tempo (que não significa perpetuidade). É muito mais que um agrupamento ocasional ou encontro passageiro, transitório, típico do concurso de pessoas.
#Possibilidade de participaçãoem mais de uma associação criminosa. Se o agente integra diversas associações criminosas, viola por diversas vezes a lei, caracterizando concurso material de crimes. O que a lei pune é associar-se, e se o agente mais de uma vez se associa, caracteriza a pluralidade de crimes (Noronha).
b) Pluralidade de pessoas. Dispensa ordem ou hierarquia. 
Os seus membros não precisam se conhecer tampouco viver no mesmo local. Mas devem saber sobre a existência dos demais. Basta que o sujeito esteja consciente em formar parte de uma associação cuja existência e finalidades lhe sejam conhecidas.
O crime de organização criminosa (art. 1 e 2º da Lei 12.850/13) exige hierarquia e divisão de tarefas.
c) Para fim de praticar uma série indeterminada de crimes. Não importa a espécie de crimes, bastando que sejam dolosos. O crime de associação criminosa pressupõe a prática de crimes dolosos. Não abrange contravenção penal.
Obs.: o crime de organização criminosa abrange as contravenções penais com pena superior a 4 anos.
É imprescindível que a reunião seja efetivada antes da deliberação dos crimes. A reunião de pessoas com os crimes já deliberados enseja tão somente o concurso de pessoas. A reunião de pessoas antes da deliberação é que pretende a prática de infrações indeterminadas.
Questões:
#A associação de 3 pessoas que após, 1 dos integrantes se retira, restando apenas 2 pessoas, interrompe a continuidade delitiva.
#A manutenção da associação criminosa após a condenação (ou denúncia) constitui novo crime de associação criminosa, não se cogitando bis in idem, sob pena de impunidade (intervenção insuficiente ou deficiente do Estado).
Majorante do p. único do art. 288
Determina o aumento de pena de até a metade se a associação é armada ou tem participação de menor.
Para Hungria, basta um integrante armado. Para Bento de Faria, a maioria dos membros deve estar armada. Para Fragoso, considerando a quantidade de membros e a quantidade de armas, o Juiz, analisando o caso, decide se a associação é mais perigosa.
Constituição de milícia privada – Art. 288-A
Pena de 4 a 8 anos.
Obs.: grupo de extermínio configura o art. 288-A, CP. Não é crime hediondo. Agora, o homicídio em atividade típica de grupo de extermínio, este sim, é hediondo (art. 121, §6º, CP; art. 1º, I, L. 8.072/90).
O bem jurídico tutelado é a paz pública. O fundamento internacional da Lei 12.850/13 que criou o art. 288-A do CP está na Resolução 44/162 da assembleia geral das nações unidas.
O sujeito ativo é comum. É um crime plurissubjetivo. O sujeito passivo é a coletividade.
A conduta consiste em constituir, organizar, integrar, manter ou custear organização paramilitar, milícia particular, grupo ou esquadrão com finalidade de praticar qualquer dos crimes previstos no CP. Parte da doutrina tem criticado, alegando que viola o princípio da taxatividade, já que o tipo deve ser fácil compreensão.
#Organização paramilitar: são associações civis, armadas e com estruturas semelhantes à militar. Possuem as características de uma força militar, tem a mesma estrutura e a organização de uma tropa ou exército, sem sê-lo. 
Ex.: Forças revolucionárias colombianas (FARC). 
#Milícia particular: grupo de pessoas, civis ou não, tendo como finalidade devolver a segurança retirada das comunidades mais carentes. Para tanto, mediante coação, os agentes ocupam determinado espaço territorial. A proteção oferecida ignora o monopólio estatal de controle social, valendo-se de violência e grave ameaça. 
Ex.: Máfia.
#Grupo de extermínio: reunião de pessoas, matadores, justiceiros que atuam na ausência ou inércia do poder público, tendo como finalidade a matança generalizada, chacina de pessoas supostamente rotuladas como marginais ou perigosas. 
Ex.: Esquadrão da morte.
##Número de integrantes? Para C. R. Bitencourt, esse novo tipo penal (art. 288-A) deve ser interpretado conforme o art. 288 do CP. Ou seja, 3 integrantes, no mínimo. Já para Guilherme Nucci, pode constituir o crime do art. 288-A com apenas 2 pessoas. Para R. Sanches, o novo tipo penal deve ser interpretado de acordo com a lei 12.850/13, isto é, 4 pessoas, no mínimo (mesmo número de uma organização criminosa).
O crime do art. 288-A é punido a título de dolo, mais a finalidade especial de praticar qualquer dos crimes previstos no Código Penal.
Diferente do art. 288, o art. 288-1 exige que a associação criminosa seja organização paramilitar, milícia ou grupo de extermínio. E mais, o art. 288, exige que a finalidade seja a prática de crime. O art. 288-A exige que a finalidade seja a prática de crime previsto no CP.
Obs.: para não se confundir com o concurso de pessoas, a associação deve visar série indeterminada de crimes, previstos no CP. E mais, os crimes devem ter nexo com a finalidade do grupo. Por exemplo: grupo de extermínio para praticar roubo (impossibilidade; configura o art. 288 somente); grupo de extermínio para praticar crimes contra a pessoa (possibilidade do art. 288-A).
A consumação se dá com a prática de qualquer dos núcleos do art. 288-A. é um crime permanente. Não se admite a tentativa. É infração autônoma, pois independe da prática dos crimes pretendidos pela associação.
#Grupo de extermínio (art. 288-A) executa menor infrator (art. 121, §6º). Responsabilização: para Bitencourt, devem responder apenas pelo art. 121, 6º, do CP, de modo a evitar valorar duas vezes o grupo de extermínio (bis in idem). No entanto, para a Jurisprudência, os agentes devem responder pelo art. 288-A e o art. 121, §6º. Não há bis in idem, pois são infrações autônomas e independentes, e protegem bens jurídicos distintos.
##Exemplos
	I) Associam-se 3 pessoas, de forma estável e permanente, com hierarquia e divisão de tarefas, para o fim de praticar crimes de roubo: art. 288, CP. Apesar de apresentar hierarquia e divisão de tarefas não caracteriza organização criminosa, pois a associação só tem 3 agentes.
II) Associam-se 6 pessoas, de forma estável e permanente, sem hierarquia e divisão de tarefas, com o fim de praticar roubos a banco: art. 288, CP. Apesar de reunir mais de 3 pessoas, não há hierarquia e divisão de tarefas, impossibilitando a caracterização da organização criminosa.
III) Associam-se 7 pessoas, de forma estável e permanente, com hierarquia e divisão de tarefas, tendo como objetivo publicar anonimamente listas ofensivos à honra de moradores de uma cidade: apesar de ter mais de 3 pessoas e haver hierarquia e divisão de tarefas, não é possível configurar o crime de organização criminosa, pois a finalidade não busca vantagem de qualquer natureza e mais, os crimes visados pelo grupo não tem pena máxima superior a 4 anos. Configura o art. 288, CP.
IV) Associam-se 7 pessoas, de forma estável e permanente, com hierarquia e divisão de tarefas, tendo como objetivo praticar extorsões mediante sequestro: resta configurado o tipo do art. 2º da Lei 12.850/13.
V) Associarem-se 7 pessoas, de forma estável e permanente, com hierarquia e divisão de tarefas, tendo como objetivo a matança generalizada: configura o art. 288-A do CP, pois a finalidade “matança generalizada” identifica o crime de constituição de milícia privada.
Crimes contra a fé pública
Art. 297 – Falsificação de documento público
O bem jurídico tutelado é a fé pública no que tange a autenticidade dos documentos emanados da Administração Pública (ou equiparados).
A falsidade material pressupõe documento falso armazenando ideia verdadeira ou falsa (art. 297 ou 298). Já na falsidade ideológica, tem-se um documento verdadeiro que armazena ideia falsa (art. 299).
O sujeito ativo é comum. Obs.: se o agente é funcionário público e pratica o crime prevalecendo-se do cargo, a pena é aumentada de 1/6 (art. 297, §1º).
O sujeito passivo primário é o Estado. Secundariamente, é o eventual prejudicado pelo comportamento do agente.
A conduta consiste em falsificação material de documento público. A falsificação pode ser no todo (documento inteiramente criado) ou em parte (falsificação queaproveita os espaços em branco do documento). No alterar, o agente modifica o documento existente, substituindo ou alterando dizeres.
O objeto material é o documento público. Documento é peça escrita que condensa graficamente o pensamento de alguém, podendo provar um fato ou a realização de algum ato dotado de relevância jurídica. 
O documento público pode ser formal (quando emanado pela Administração) e substancialmente público (questões de interesse público), como documentos do legislativo, Executivo, Judiciário, MP, etc.
O documento pode ser formalmente público, mas substancialmente privado (emanado da Administração pública, questões de interesse privado), como os documentos emanados de tabeliães.
#Cópias reprográficas. Para Bitencourt, não são documentos as cópias reprográficas, pois não possuem a natureza jurídica de documento, sendo meras reproduções. Para Sanches, quando autenticadas por oficial público ou conferidas em cartório, com os respectivos originais, assumem a condição de documento público, podendo provar determinada situação jurídica (art. 365, III, CPC).
Obs.: a falsidade deve ser apta a iludir, sendo indispensável a perícia. Exceção: a perícia é dispensável quando se trata de substituição de fotografias.
*Documentos públicos por equiparação, para fins penais, nos termos do §2º do art. 297
a) Emanado de entidade paraestatal (ainda que a entidade paraestatal não seja de direito público - ex.: sociedade de economia mista). 
b) Título ao portador ou transmissível por endosso (se o título não puder ser transmissível por endosso por conta do decurso do prazo legal, esse documento não é mais público por equiparação). 
c) Ações de sociedade comercial (preferenciais ou não)
d) Livros mercantis (obrigatórios ou facultativos)
e) Testamento particular (não abrange codicilos)
#Falsificação de cartão de crédito ou débito. Não é documento público, sequer por equiparação. Alias, não é quer documento, no sentido jurídico. No entanto, a lei 12.737/12 equiparou o cartão de crédito ou débito há documento particular no art. 298, p. único.
Voluntariedade: é punido a título de dolo, sem finalidade especial animando o agente. Alias, dependendo da finalidade especial, outro pode ser o crime.
A consumação se dá com a falsificação ou alteração potencialmente lesivas aptas a iludir. Dispensa ao efetivo uso do documento. Se o falsificador usa o documento, responde pelo art. 297, CP, ficando o art. 304, CP, absorvido (post factum impunivel). Porém, se terceiro usa o documento, o falsificador responde pelo art. 297, CP e o terceiro responde pelo art. 304, CP. Obs.: se o terceiro concorre, de qualquer modo, para a falsificação, induzindo, instigando ou auxiliando, responderá pelo art. 297 do CP, restando o art. 304 absorvido.
#Súmulas:
Súmula 62 STJ: Compete à Justiça Estadual processar e julgar o crime de falsa anotação na Carteira de Trabalho e Previdência Social, atribuído à empresa privada. 
Súmula 104 STJ: Compete à Justiça Estadual o processo e julgamento dos crimes de falsificação e uso de documento falso relativo a estabelecimento particular de ensino. 
Súmula 107 STJ: Compete à Justiça Comum Estadual processar e julgar crime de estelionato praticado mediante falsificação das guias de recolhimento das contribuições previdenciárias, quando não ocorrente lesão à autarquia federal. 
A circunstância de ser o documento falsificado emanado de órgão federal (ex.: carteira de trabalho) não é bastante para determinar a competência federal. A jurisprudência do STJ tem exigido que a falsidade atinja bens, serviços ou interesses da União.
Cuidado: o art. 297 caput, §1º e §2º é falsidade material. O art. 297, §§3º e 4º trata de falsidade ideológica (ideia falsa em documento autêntico), inclusive dispensando a perícia.
*Princípio da especialidade na falsidade material de documento público.
1- Art. 348 Código eleitoral 
“Art. 348. Falsificar, no todo ou em parte, documento público, ou alterar documento público verdadeiro, para fins eleitorais (especializante): 
Pena - reclusão de dois a seis anos e pagamento de 15 a 30 dias-multa.” 
2- Art. 311 CP Militar 
“Art. 311. Falsificar, no todo ou em parte, documento público ou particular, ou alterar documento verdadeiro, desde que o fato atente contra a administração ou o serviço militar (especializante): 
Pena - sendo documento público, reclusão, de dois a seis anos; sendo documento particular, reclusão, até cinco anos.” 
Ex.1: Falsificar carteira de reservista para tomar posse em concurso público – não atenta contra a administração militar (competência não é da Justiça militar). 
Ex.2: Falsificar documento público para ser dispensado do serviço militar – a competência é da Justiça Militar.
Falsificação de documento particular – art. 298
Pena: 1 a 5 anos.
O sujeito ativo é comum. Diferente do art. 297, o fato de o agente ser servidor público e em razão da função não majora a pena.
O sujeito passivo primário é o Estado; secundário é o eventual terceiro prejudicado.
O conceito de documento particular se extrai por exclusão, isto é, todo aquele não compreendido como público ou equiparado a público. 
ATENÇÃO: a falsificação deve ser apta a iludir. Ou seja, é indispensável a perícia. Obs.: a substituição da fotografia parte integrante do documento dispensa a perícia, como a carteira de um clube.
O crime é punido por dolo, sem finalidade específica. Dependendo da finalidade especial que anima o agente, outro será o crime.
#E se o agente falsifica documento público, mesmo que por equiparação, imaginando tratar-se de documento particular? Ex.: João falsifica cheque do banco privado “X”, pensando tratar-se de documento particular. Não é erro de tipo (art. 20), pois João sabe o que faz. Não é erro de proibição (art. 21), pois João sabe que seu comportamento é ilícito. Trata-se do chamado erro de subsunção (interpretação jurídica equivocada). Logo, João responde pelo art. 297 do CP, podendo valer-se de atenuante de pena, em face do erro.
A consumação se dá no momento da contrafação ou alteração efetiva do documento, dispensando o uso do documento. A tentativa é possível.
*Princípio da especialidade 
1- Art. 349 Código Eleitoral 
“Ar. 349. Falsificar, no todo ou em parte, documento particular ou alterar documento particular verdadeiro, para fins eleitorais (especializante): 
Pena - reclusão até cinco anos e pagamento de 3 a 10 dias-multa.” 
2- Art. 311 CP Militar 
“Art. 311. Falsificar, no todo ou em parte, documento público ou particular, ou alterar documento verdadeiro, desde que o fato atente contra a administração ou o serviço militar (especializante): 
Pena - sendo documento público, reclusão, de dois a seis anos; sendo documento particular, reclusão, até cinco anos.” 
3- Lei nº 12.663/12 (lei da Copa) 
“Art. 30. Reproduzir, imitar, falsificar ou modificar indevidamente quaisquer Símbolos Oficiais de titularidade da FIFA: 
Pena - detenção, de 3 (três) meses a 1 (um) ano ou multa.” 
“Art. 34. Nos crimes previstos neste Capítulo, somente se procede mediante representação da FIFA.” 
“Art. 36. Os tipos penais previstos neste Capítulo terão vigência até o dia 31 de dezembro de 2014 (lei temporária – art. 3º CP).”
Falsidade ideológica – Art. 299, CP
Pena: de 1 a 5 anos. 
O bem jurídico é a fé pública.
Diferente do art. 297, 298 que pune a falsidade material (forma, exterior do documento), o art. 299 pune a falsidade ideológica (conteúdo de documento verdadeiro). Preocupa-se com a ideia do documento e não com a sua parte externa.
O crime é comum, podendo ser praticado por qualquer pessoa que tenha o dever jurídico de declarar a verdade. Porém se praticado por funcionário público valendo-se das funções, a pena é aumentada de 1/6 (p. único).
	Funcionário público, prevalecendo-se do cargo, pratica o
	Art. 297
	Art. 298
	Art. 299
	É causa de aumento de pena
	Não é causa de aumento de pena
	 É causa de aumento de pena
O sujeito passivo é o Estado (primário) e eventual prejudicado pelaconduta do agente.
A conduta consiste em 5 comportamentos alternativos.
1- Omitir declaração: o agente deixa de mencionar informação que deveria constar do documento (delito omissivo puro). 
2- Inserir declaração falsa: o agente introduz ideia falsa no documento que redige. 
3- Fazer inserir declaração falsa: falsidade mediata (o agente se vale de terceiro).
4- Inserir declaração diversa da que deveria ser escrita: o agente substitui conteúdo verdadeiro por outro (inverídico). 
5- Fazer inserir declaração diversa da que deveria constar: falsidade mediata. 
Atenção: a falsidade ideológica também deve ser apta a iludir.
Obs.: como a falsidade é da “ideia” e não do documento, dispensa a perícia (a falsidade é intrínseca).
Obs²: há jurisprudência no sentido de que não existe o crime de falsidade ideológica quando a falsa ideia recai sobre documento cujo conteúdo está sujeito a fiscalização da autoridade.
#Abuso de papel em branco assinado: depende da natureza da posse do documento; a) se o papel tiver sido confiado ao agente, tem-se o art. 299, CP; b) se o agente se apossou a revelia do signatário do documento, tem-se o crime do art. 297 ou art. 298.
“Súmula 387 STF: A cambial emitida ou aceita com omissões, ou em branco, pode ser completada pelo credor de boa-fé antes da cobrança ou do protesto.”
Conforme o STJ, o ato de firmar declaração inverídica de pobreza, por exemplo, para fins processuais, não constitui falsidade ideológica, pois a outra parte pode impugnar.
O crime do art. 299 é punido a título de dolo, mais finalidade especial de prejudicar direito, criar obrigação ou alterar a verdade sobre fato juridicamente relevante. A consumação se dá com a prática dos núcleos. Nas formas comissivas, é possível a tentativa.
Majorante do p. único do art. 299
a) funcionário público prevalecendo-se da função;
b) falsificação ou alteração de assentamento de registro civil. Nessa hipótese, tem-se o objeto material próprio, definido no art. 29 da Lei 6.015/73.
CUIDADO: lembrar que temos falsificação de assentamento de registro civil que não configura o art. 299 CP, mas tipos especiais (241 e 242 CP). 
*Registro de nascimento inexistente 
Art. 241 CP - Promover no registro civil a inscrição de nascimento inexistente: 
Pena - reclusão, de dois a seis anos. 
*Parto suposto. Supressão ou alteração de direito inerente ao estado civil de recém-nascido 
Art. 242 CP - Dar parto alheio como próprio; registrar como seu o filho de outrem; ocultar recém-nascido ou substituí-lo, suprimindo ou alterando direito inerente ao estado civil: 
Pena - reclusão, de dois a seis anos. 
Parágrafo único - Se o crime é praticado por motivo de reconhecida nobreza: 
Pena - detenção, de um a dois anos, podendo o juiz deixar de aplicar a pena.
PRINCÍPIO DA ESPECIALIDADE 
1- Art. 350 Código Eleitoral 
“Art. 350. Omitir, em documento público ou particular, declaração que dele devia constar, ou nele inserir ou fazer inserir declaração falsa ou diversa da que devia ser escrita, para fins eleitorais: 
Pena - reclusão até cinco anos e pagamento de 5 a 15 dias-multa, se o documento é público, e reclusão até três anos e pagamento de 3 a 10 dias-multa se o documento é particular. 
Parágrafo único. Se o agente da falsidade documental é funcionário público e comete o crime prevalecendo-se do cargo ou se a falsificação ou alteração é de assentamentos de registro civil, a pena é agravada.” 
2- Art. 312 CP Militar 
“Art. 312. Omitir, em documento público ou particular, declaração que dele devia constar, ou nele inserir ou fazer inserir declaração falsa ou diversa da que devia ser escrita, com o fim de prejudicar direito, criar obrigação ou alterar a verdade sobre fato jurìdicamente relevante, desde que o fato atente contra a administração ou o serviço militar: 
Pena - reclusão, até cinco anos, se o documento é público; reclusão, até três anos, se o documento é particular.” 
3- Art. 66, lei nº 9.605/98 
“Art. 66. Fazer o funcionário público afirmação falsa ou enganosa, omitir a verdade, sonegar informações ou dados técnico-científicos em procedimentos de autorização ou de licenciamento ambiental: 
Pena - reclusão, de um a três anos, e multa.”
Crimes contra a Administração Pública. 
Crimes funcionais
Observações:
a) aplica-se a extraterritorialidade incondicionada da lei penal (art. 7º, I, ‘c’, CP)
b) a progressão de regimes exige reparação do dano ou restituição ou devolução do produto do ilícito (art. 33, §4º, CP)
c) todo crime funcional corresponde a ato de improbidade administrativa; no entanto, tem todo ato de improbidade corresponde a um ato infracional.
d) princípio da insignificância. O STF admite o princípio da insignificância. O STJ não admite nos crimes funcionais.
Crimes funcionais. Espécies 
Os delitos funcionais são divididos em duas espécies: próprios e impróprios. 
Nos crimes funcionais próprios (puros ou propriamente ditos), faltando a qualidade de funcionário público ao autor, o fato passa a ser tratado como um indiferente penal, não se subsumindo a nenhum outro tipo incriminador – atipicidade absoluta – v.g., a prevaricação (art. 319 do CP). 
Já nos impróprios (impuros ou impropriamente ditos) desaparecendo a qualidade de servidor do agente, desaparece também o crime funcional, operando-se, porém, a desclassificação da conduta para outro delito, de natureza diversa – atipicidade relativa – v.g., peculato furto (art. 312, § 1º).
Conceito de funcionário público para efeitos penais 
Art. 327. Considera-se funcionário público, para os efeitos penais, quem, embora transitoriamente ou sem remuneração, exerce cargo, emprego ou função pública (funcionário público típico ou propriamente dito).
§ 1º Equipara-se a funcionário público quem exerce cargo, emprego ou função em entidade paraestatal, e quem trabalha para empresa prestadora de serviço contratada ou conveniada para a execução de atividade típica da Administração Pública (funcionário público atípico).
ATENÇÃO: 
Porém, não se pode confundir função pública com encargo público (munus publicum), hipótese esta não abrangida pela expressão “funcionário público”. Por exemplo: tutor, curador ou inventariante dativo. Obs.: o advogado dativo, para o STJ, é funcionário público para fins penais.
O §2º do art. 327 traz uma causa de aumento de pena, caso o funcionário público exerça cargo em comissão, função de direção ou assessoramento em órgão da administração direta, sociedade de economia mista, empresa pública ou fundação pública. A pena é aumentada de terça parte. Não abrange Autarquia.
Obs.: para o STF, chefes do executivo sempre terão incidência da majorante, pois exercem função de direção de órgão da Administração Direta.
Peculato
Peculato próprioa) Peculato apropriação – art. 312, caput, 1ª parte
b) Peculato desvio – art. 312, caput, 2ª parte
c) Peculato furto – art. 312, §1º
d) Peculato culposo – art. 312, §2º
e) Peculato estelionato (art. 313)
f) Peculato eletrônico (art. 313-A e 313-B)
Art. 312 – Peculato próprio (apropriação e desvio)
Pena: 2 a 12 anos
O sujeito ativo é funcionário público em sentido amplo (art. 327 e §1º). É admitido o concurso de pessoas, mesmo de pessoas estranhas ao quadro da Administração Pública. O concorrente pode ser outro servidor (intraneus) ou um particular (extraneus). 
Obs.: conforme o art. 552, CLT, o diretor de sindicato responde por esse crime quando praticar atos que importem em malversação ou dilapidação do patrimônio da entidade. Assim, apesar dos diretores não serem considerados funcionários públicos, sequer por equiparação, o fato por ele praticado fica igualado ao peculato (equiparação de fato).
O sujeito passivo é o Estado-Administração lesado no seu patrimônio material e imaterial. Se o bem apropriado for de propriedade particular, o proprietário figurará como vítima secundária.
Condutas:
a) Peculato apropriação 
Na primeira – apropriação –, o agente apodera-se de dinheiro, valor ou qualquer outro bem móvel que tem sob sua posse legítima, passando,arbitrariamente, a comportar-se como se dono fosse (uti dominus).
A conduta consiste em apropriar-se de dinheiro, valor ou qualquer outro bem móvel, público ou particular, de que tem a posse, em razão do cargo.
b) Peculato desvio 
Na hipótese do desvio (ou malversação), o funcionário dá destinação diversa à coisa, em benefício próprio ou de outrem, podendo o proveito ser material ou moral, auferindo vantagem outra que não necessariamente a de natureza econômica.
Pune-se a conduta dolosa, expressada pela vontade consciente do agente em transformar a posse da coisa em domínio (peculato apropriação) ou desviá-la em proveito próprio ou de terceiro (peculato desvio).
#Ânimo de uso: se a coisa for consumível, haverá o crime de peculato e ato de improbidade. Se a coisa não for consumível, será fato atípico e ato de improbidade.
Obs.: no caso de prefeitos, haverá crime, não importando se a coisa é consumível ou não, previsto no art. 1º, II, DL 201/67.
Consumação: o peculato apropriação consuma-se no momento em que o funcionário se apropria do dinheiro, ou então no momento em que ele se apropria do dinheiro, valor ou bem móvel, de que tenha posse em razão do cargo, agindo como se dono fosse, exteriorizando poder de proprietário, sendo admissível a tentativa. O peculato desvio consuma-se quando o funcionário altera o destino normal da coisa, empregando-a em fins outros. Também admite a tentativa.
Art. 312, §1º - Peculato furto (peculato impróprio)
É pressuposto do crime que o agente se valha, para galgar a subtração, de alguma facilidade proporcionada pelo seu cargo, emprego ou função. Sem esse requisito, haverá apenas furto (art. 155, CP).
A subtração facilitada pelo cargo é peculato furto (art. 312, §1º). Subtração não facilitada pelo cargo é furto (art. 155).
A pena é a mesma (2 a 12 anos).
No peculato próprio (art. 312, caput) o agente tem posse legítima em razão do cargo (ele se apropria ou desvia). No peculato impróprio (art. 312, §1º), o agente não tem a posse (ele subtrai ou concorre para que a posse seja subtraída).
Art. 312, §2º - Peculato culposo
“§ 2º Se o funcionário concorre culposamente para o crime de outrem”
A pena é de 3 meses a 1 ano (IMPO).
# Haverá o crime culposo se o agente público negligente concorre para a prática de delito não funcional, como, por exemplo, um furto? Uma 1ª corrente (majoritária) diz que o “crime de outrem” só pode ser peculato doloso (próprio ou impróprio). Crime que não seja peculato, ainda que se valha da negligência do funcionário, não configura o peculato culposo contra o funcionário. Já uma 2ª corrente entende que o “crime de outrem” abrange qualquer crime, mesmo que não funcional, desde que atente contra o patrimônio da Administração.
Reparação do dano e ação penal (art. 312, §3º)
§ 3º - No caso do parágrafo anterior, a reparação do dano, se precede à sentença irrecorrível, extingue a punibilidade; se lhe é posterior, reduz de metade a pena imposta.
Se a reparação ocorre antes da sentença irrecorrível, terá extinta a punibilidade. Se reparou depois, terá a pena reduzida pela metade.
Art. 316 – Concussão
Pena: 2 a 8 anos
O sujeito ativo é o funcionário público, no exercício da função; o funcionário público fora da função, mas em razão dela; o particular na iminência de assumir a função pública.
Obs.: se militar, o crime é o do art. 305, CPM. Se fiscal de rendas, o crime será o do art. 3º, II, Lei 8.137/90.
O sujeito passivo é o Estado, com ele concorrendo a pessoa constrangida pelo comportamento do agente.
A conduta típica consiste em exigir o agente, por si ou por interposta pessoa, explícita ou implicitamente, vantagem indevida, abusando da sua autoridade pública como meio de coação (metus publicae potestatis). 
“Exigir” não se confunde com solicitar (corrupção passiva, art. 317). Capez entende que se no exigir houver violência ou grave ameaça, a conduta migra para a extorsão (art. 158). Sanches entende que a grave ameaça pode sim caracterizar o crime de concussão, pois o exigir pressupõe alguma coercividade ou intimidação.
O agente exige, para si ou para outrem, direta ou indiretamente (interposta pessoa), explicita ou implicitamente, vantagem indevida (prevalece que pode ser de qualquer natureza).
Obs.: se a indevida vantagem for para a própria Administração, entende-se que a moralidade administrativa (bem jurídico imediatamente protegido) é do mesmo modo violado, caracterizando o crime do art. 316.
ATENÇÃO: Deve o agente deter competência para a prática do mal prometido. Faltando-lhe poderes para tanto, mesmo que servidor, outro será o crime (extorsão, art. 158).
Obs.: também configurará extorsão (art. 158) e não concussão (art. 316) o caso em que o agente apenas simula a qualidade de agente público, não ostentando, na realidade, os atributos anunciados.
O crime é punido a título de dolo.
A consumação se dá com a indevida exigência. Trata-se de crime formal ou de consumação antecipada. Dispensa a obtenção da indevida vantagem, que no caso aparece como mero exaurimento. A tentativa na forma escrita, como por exemplo, a carta concussionária interceptada.
Corrupção passiva 
Art. 317. Solicitar ou receber, para si ou para outrem, direta ou indiretamente, ainda que fora da função ou antes de assumi-la, mas em razão dela, vantagem indevida, ou aceitar promessa de tal vantagem: 
Pena – reclusão, de 2 (dois) a 12 (doze) anos, e multa. 
SUJEITOS DO CRIME 
SUJEITO ATIVO: 
Sujeito ativo do crime é o funcionário público, sem distinção de classe ou categoria, podendo ser típico ou equiparado (art. 327 do CP), ainda que afastado do seu exercício. Também aquele que ainda não assumiu o seu posto, mas em razão dele, solicita ou recebe a vantagem ou promessa de vantagem indevida, pratica o delito de corrupção. 
Caso o funcionário público ocupe cargo em comissão ou de função de direção ou assessoramento de órgão da administração direta, sociedade de economia mista, empresa pública ou fundação instituída pelo poder público, a pena sofrerá aumento de um terço. 
SUJEITO PASSIVO: 
Sujeito passivo é o Estado ou, mais especificamente, a Administração Pública, bem como a pessoa constrangida pelo agente público, desde que, é claro, não tenha praticado o crime de corrupção ativa. 
Aliás, convém lembrar que a conduta do corruptor subsumir-se-á ao disposto no art. 333 do CP, excepcionando-se, dessa forma, a teoria monista ou unitária do concurso de pessoas (art. 29 do CP). Comumente, o corruptor é pessoa alheia aos quadros da administração, o que não impede que um funcionário público pratique referida conduta criminosa. 
Conduta: 
São três as condutas típicas: solicitar (pedir), explícita ou implicitamente, vantagem indevida; receber referida vantagem; e, por fim, aceitar promessa de tal vantagem, anuindo com futuro recebimento. 
Todas as condutas típicas acabam por enfocar a mercancia do agente com a função pública. 
Classifica-se como imprópria a corrupção que visa a prática de ato legítimo, e, como própria, a que tiver por finalidade a realização de ato injusto. 
Se a vantagem ou recompensa é dada ou prometida em vista de uma ação, positiva ou negativa, futura, a corrupção denomina-se antecedente; se é dada ou prometida por uma ação, positiva ou negativa, já realizada, chama-se subsequente. 
Voluntariedade 
É o dolo, consistente na vontade consciente dirigida a qualquer dos verbos estampados no tipo. 
Consumação e tentativa 
Nas modalidades solicitar e aceitar promessa de vantagem, o crime é de natureza formal, consumando-se ainda que a gratificação não se concretize. Já na modalidade receber, o crime é material, exigindo efetivo enriquecimento ilícito do autor. 
§ 1º A pena é aumentada de 1/3 (um terço), se, em consequência da vantagem ou promessa, o funcionário retarda ou deixa de praticar qualquer ato de ofício ou o pratica infringindo dever funcional. 
Obs 1: O que seria mero exaurimento passou a ser considerado causa de aumento de pena (exaurimento penalizado). Aqui, o agente cumpre o prometido,realizando a pretensão do corruptor. 
Obs 2: Se a violação praticada pelo agente público constitui, por si só, um novo crime, haverá concurso formal ou material (a depender do caso concreto) entre a corrupção passiva e a infração dela resultante. Nessa hipótese, no entanto, a corrupção deixa de ser qualificada, pois do contrário estaríamos no campo do bis in idem, considerando-se o mesmo fato duas vezes em prejuízo do funcionário réu. 
§ 2º Se o funcionário pratica, deixa de praticar ou retarda ato de ofício, com infração de dever funcional, cedendo a pedido ou influência de outrem: 
Pena – detenção, de 3 (três) meses a 1 (um) ano, ou multa. 
Qual a diferença entre corrupção privilegiada e prevaricação? 
Prevaricação 
Art. 319. Retardar ou deixar de praticar, indevidamente, ato de ofício, ou praticá-lo contra disposição expressa de lei, para satisfazer interesse ou sentimento pessoal: 
Pena – detenção, de 3 (três) meses a 1 (um) ano, e multa.

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