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Apoìstila   Cirurgia Vascular

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O com-
partimento posterior superficial abriga os músculos 
gastrocnêmio e sóleo.
O compartimento posterior profundo contém o 
músculo tibial posterior, o flexor longo dos dedos e o 
flexor longo do hálux. Nesse compartimento estão si-
tuados os vasos tibiais posteriores e fibulares, além do 
nervo tibial.
Esses compartimentos são separados pelos 
septos intermusculares e pela membrana interós-
sea. O septo anterior separa os compartimentos 
anterior e lateral; o septo posterior, os comparti-
mentos lateral e posterior; o septo transverso, os 
compartimentos posteriores superficial e profundo; 
a membrana interóssea, os compartimentos ante-
rior e posterior.
Os compartimentos anterior e lateral são envol-
vidos por fáscias particularmente rígidas, sendo mais 
frequente a síndrome compartimental na região ante-
rior da perna por motivos anatômicos e fisiológicos.
5 Traumatismos vasculares
69
Aspectos	técnicos
Para que a síndrome compartimental seja tra-
tada adequadamente é necessário que a descom-
pressão seja feita em todos os compartimentos 
afetados. Várias técnicas podem ser empregadas, 
dependendo da gravidade e do número de compar-
timentos comprometidos.
Anestesia
A fasciotomia pode ser realizada sob anestesia 
local quando somente um compartimento necessi-
ta da intervenção. No caso de haver necessidade de 
descomprimir mais de um compartimento, é prefe-
rível empregar anestesia peridural ou raquidiana, 
ou mesmo geral.
Técnicas
Em casos selecionados de síndrome comparti-
mental isolada, pode-se lançar mão de incisões cutâ-
neas curtas para realizar a fasciotomia. Essas incisões 
devem ser estendidas pelo subcutâneo e incluir a fás-
cia muscular. Utilizando tesouras longas, secciona-se 
a fáscia sob a pele íntegra entre as duas pequenas inci-
sões. O músculo edemaciado se projeta pelas incisões, 
podendo se apresentar com aspecto congesto ou páli-
do, como se fosse carne de peixe. A viabilidade do teci-
do muscular é aferida pela coloração, pela presença de 
sangramento arterial e pela contratilidade, quando es-
timulado por corrente galvânica (eletrocautério). Todo 
tecido muscular não contrátil deve ser debridado para 
evitar infecção. A fáscia é deixada aberta, podendo-se 
suturar as incisões com alguns pontos separados.
No entanto, se o cirurgião perceber que, ape-
sar desse procedimento, o músculo ainda permanece 
comprimido, não deve hesitar em unir as duas incisões 
cutâneas, tornando-as uma única incisão cutânea lon-
ga. Nessa circunstância, a pele deve ser mantida aberta 
e suturada alguns dias após, se possível. Em alguns ca-
sos, havendo dificuldade em suturar primariamente a 
incisão, pode-se utilizar um enxerto de pele. Na maio-
ria dos casos em que a fasciotomia está indicada (trau-
mas extensos, revascularização retardada de membros 
isquêmicos, phlegmasia coerulea dolens), ela deverá ser 
feita interessando todos os compartimentos. Para tal 
fim, incisões longas tornam-se necessárias.
Para descompressão dos compartimentos 
anterior e lateral, utiliza-se incisão longitudinal 
extensa, iniciando logo abaixo da cabeça da fíbu-
la e se estendendo até a proximidade do maléolo 
lateral. Para os compartimentos posteriores, ou-
tra incisão é realizada cerca de 2 cm posterior-
mente à tíbia.
É possível descomprimir os quatro comparti-
mentos com uma única incisão, já descrita, para os 
compartimentos anterior e lateral. A fasciotomia 
desses compartimentos é realizada descolando a pele 
anteriormente. O procedimento para descomprimir 
o compartimento posterior superficial pode ser rea-
lizado ao expor a fáscia com descolamento posterior 
do retalho cutâneo. A descompressão do comparti-
mento posterior profundo é realizada com maior fa-
cilidade distalmente, pois os músculos gastrocnêmio 
e solear se tornam tendinosos. O músculo solear é 
dissecado e descolado da região posterior da fíbula, 
expondo-se a fáscia do compartimento profundo, 
que é, então, seccionada.
A fibulectomia para realização da fasciotomia 
dos quatro compartimentos foi utilizada na guerra 
do Vietnã, mas hoje é raramente utilizada por ser um 
procedimento mais agressivo e, na grande maioria dos 
pacientes, desnecessário.
Complicações
A sutura imediata e completa da incisão cutânea 
após a realização da fasciotomia invariavelmente re-
sulta em necrose da pele ou recorrência da hiperten-
são compartimental. O fechamento da pele deve ser 
feito de forma completa e o mais precocemente possí-
vel; enquanto isso não acontecer, o cuidado com a feri-
da deverá ser rigoroso, com curativos úmidos estéreis 
trocados com frequência. O debridamento de todo o 
tecido muscular necrótico é essencial para evitar in-
fecção, que pode inviabilizar o membro. A perda de um 
ou dois compartimentos musculares pode ser tolera-
da, requerendo posterior fisioterapia e muitas vezes 
o uso de órteses. Já a perda de mais de dois compar-
timentos musculares da perna resulta habitualmente 
em amputação.
Na síndrome compartimental diagnosticada tar-
diamente, em geral, há necrose muscular extensa e a 
amputação do membro deve ser feita precocemente, 
com a finalidade de salvar a vida do paciente, pois as 
alterações metabólicas decorrentes da rabdomiólise 
ocasionam o que Haimovici denominou síndrome me-
tabólica mionefropática. Nessa síndrome, a hemoglo-
binúria é um dos fatores que precisam ser reconheci-
dos e tratados agressivamente, pois pode resultar em 
grave insuficiência renal. A terapêutica dessa compli-
cação consta de expansão de volume, administração 
de manitol e diuréticos de alça e alcalinização da urina 
com bicarbonato de sódio para evitar a precipitação da 
mioglobina nos túbulos renais. Em alguns pacientes, 
pode ser necessário realizar hemodiálise, mas, em ge-
ral, a evolução da insuficiência renal aguda mioglobi-
núrica costuma ser favorável.
Clínica cirúrgica | Vascular
SJT Residência Médica - 201570
A
B C D
Figura 5.9 Fasciotomia do membro inferior através de uma única incisão anterolateral. A: incisão cutânea lateral do pescoço da fíbula até 3-4 cm 
próximos ao maléolo lateral. B: a pele é rebatida anteriormente e é efetuada uma fasciotomia dos compartimentos anterior e lateral. C: a pele é 
rebatida posteriormente e é efetuada uma fasciotomia do compartimento posterior superficial. D: o intervalo entre os compartimentos posteriores 
superficial e lateral é criado. O músculo flexor longo do hálux é dissecado subperiosteamente da fíbula e retraído posteromedialmente. O ligamento 
fascial do músculo tibial posterior à fíbula é incisionado para descomprimir o músculo. 
Fasciotomia
anterior
Fasciotomia
posterior
profunda
Fasciotomia
posterior
super�cial
Nervo e veia
safena
Tibia
Septo
intermuscular
anterior
Nervo
�bular
super�cial
Fasciotomia
lateral
Incisão postero-
medial
Incisão postero-
lateral
Figura 5.10 Fasciotomia do membro inferior através de incisões anterolateral e medial.
Secção transversa do antebraço
Incisão
volar
Incisão
volar
antebranquial
Incisão
dorsal
antebranquial
Incisão
dorsal
Fáscia
antebranquial
Nervo
mediano
Nervo
artéria ulnares
Artéria e nervo
interósseos
anteriores
Ulna
Membranosa
interóssea
Incisão na mão (para
descompressão de músculos
interósseos)
Nota: incisões fasciais
seguem as mesmas
linhas de tensão da pele
Cateter no
compartimento dorsal
Ramo profundo no
nervo radial
Artéria e nervo
interósseos
posteriores
Fáscia
antebranquial
Cateter no
compartimento volar
Artéria radial e
ramo super�cial do
nervo radial
Rádio
Figura 5.11 Fasciotomia de membro superior – descompressão dos compartimentos volar e dorsal do antebraço.
5 Traumatismos vasculares
71
Capítulo
insufi ciência venosa de 
membros inferiores
fi
6
6 Insuficiência venosa de membros inferiores
73
Anatomia
O retorno venoso dos membros inferiores reali-
za-se por meio de dois sistemas independentes e sepa-
rados por uma aponeurose, denominados superficial e 
profundo, os quais se relacionam (entre si) pelos vasos 
perfurantes (Figura 6.1). 
Desta forma, existem