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As Vítimas Algozes

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só do 
sentimento: há homens rudes que mal conhecem os lavores da sociedade, e que 
admiram pelo melindre e pelos delicados apuros do seu amor. 
Domingos Caetano escolhera aquela hora do crepúsculo, que era noite no quarto 
fechado, para falar a Florinda sobre o seu casamento, ouvir-lhe talvez uma terna 
confissão, poupando-a à claridade da luz que multiplica os vexames e as confusões do 
pudor. 
As confidências não foram longas. 
O pai falou como amigo, a mãe animou a filha, e esta com voz trêmula e sumida 
e com virginal acanhamento disse o mimoso segredo do seu coração: Hermano de Sales 
amava-a, e ela era sensível ao seu amor. 
Hermano era filho de um lavrador vizinho, que dispunha de poucos meios, mas 
de subida reputação de honestidade: trabalhador ativo como seu pai, agradável de figura 
e de trato, estimado geralmente no lugar pela nobreza de seu caráter, o mancebo era 
digno de Florinda. 
Domingos Caetano abençoou o amor de sua filha, e anunciou-lhe que seu 
casamento com Hermano se realizaria dentro de duas semanas. 
O pobre pai paralítico tinha pressa. 
 
XI 
 
Simeão andava triste e contrariado. 
A liberdade com que contava, demorava-se; e o dinheiro para o jogo, para os 
fados devassos, e para a vida desenfreada ia escasseando. 
Além disso o estado lamentável de Domingos Caetano exigia cuidada assíduos, 
companhia constante que o obrigavam a não se ausentar da fazenda. 
Era raro que o deixassem sair de dia, e as noites já não bastavam ao crioulo 
vadio e altanado. 
 16
A moléstia de Domingos Caetano dera a Simeão pela primeira vez trabalho 
atarefado e longo. 
O interesse que ele simulara por seu senhor, o concurso vigilante e dedicado que 
prestara ao tratamento do velho suposto moribundo nos dias e noites de mais iminente 
perigo, tinham recomendado o seu préstimo à família, que cheia de cega confiança o 
queria sempre junto do paralítico. 
Simeão não ousava desmascarar-se, e submetia-se, embora às vezes 
murmurando, ao cumprimento do dever que lhe impunham. 
O dever era santo, era todo de caridade, virtude que resume todos os 
mandamentos dados por Deus aos homens, como base de sua fraternidade na terra. 
Mas esse exercício da caridade que em um homem livre fora virtude católica, no 
escravo era obrigação material, e portanto não falava nem ao coração, nem a 
consciência. 
Simeão carregava seu senhor do leito para uma cadeira, da cadeira para o leito, 
como o burro carrega um fardo, e o boi puxa o carro. 
O trabalho forçado fazia aumentar a aversão que ele votava aos senhores. 
Quando o velho paralítico se arrastava agarrado ao seu braço, vinha-lhe às vezes 
o pensamento de fingir escorregar, e de cair para molestar o infeliz doente. Era só o 
cuidado da liberdade, da alforria que, conforme o pensar de todos, o esperava contida no 
testamento de Domingos, que o impedia de fazer aquele mal. 
No entanto Simeão era sempre perverso e até por diversão ou por infame e 
audacioso e revoltante entretenimento ainda era perverso. 
Desde o turvo dia do açoite seis vezes descarregado sobre suas costas, detestava 
Florinda; mas por satisfação do desrespeito, por luxo de ousadia e de descomedimento, 
por instinto brutal e gostosamente abusivo e insolente, também desde o acesso de dor 
enlouquecedora, em que vira no sublime desalinho filial os seios nus e formosos da 
senhora-moça, Simeão, preso, à força contido ao lado do velho paralítico, tomava por 
distração, que aliás disfarçava, o estudar os encantos físicos, a graça do andar, e a 
gentileza de Florinda, fazendo dessas observações objeto de conversação, e de atrevidas 
e obscenas ilações no inferno da cozinha. 
O crioulo malcriado e infrene pelos hábitos da impunidade não se atrevia, é 
certo, a sonhar desejo criminoso e horrível contra a pureza angélica da senhora-moça; 
mas no desprendimento licencioso da língua envenenada, e nas obscenas imaginações 
de escravo desmoralizado e só idea-dor de gozos materiais, apreciava a seu modo, e 
supunha exaltar, quando aviltava, as graças e os modos, o olhar, e o riso, as formas e os 
movimentos do corpo da senhora-moça; e no meio das risadas dos parceiros, fazia o 
elogio dos dotes físicos de Florinda, como se tratasse da escrava libidinosa e corrupta, 
com quem na noite antecedente dançara o fado que apenas precedera a lubricidade 
brutal. 
A palavra sacrílega da escravidão que se aperta e não pode sair dos horizontes 
baixos e sórdidos da imoralidade ofendia, ultrajava pois sem medir as proporções do 
ultraje a branca pureza da filha do senhor. 
Simeão distinguia em Florinda a senhora-moça da mulher materialmente 
considerada, e aborrecendo a senhora-moça, divertia-se em ofender por palavras de 
induções profanadoras a mulher que era ainda um anjo de inocência. 
O escravo nunca ou raramente ousa levantar os olhos sobre sua senhora e atentar 
contra sua honra; mas sua imaginação depravada muitas vezes se atreve a romper véus 
sagrados e a expor em nudez grosseira e escandalosamente ideado o corpo da esposa ou 
da filha de seu senhor. 
A escravidão é serpente: sua língua derrama sempre veneno. 
 17
 
XII 
 
À noite, mas um pouco tarde, Simeão corria à venda para compensar-se da tarefa 
diária junto do velho paralítico. 
Depois das dez horas da noite a venda achava-se sempre fechada; a porta, 
porém, abria-se pronta à voz de freguês conhecido. Dentro era certa a reunião de 
escravos e da pior gente livre da terra. 
Simeão preludiava com a conversação e com o jogo devassidões subseqüentes. 
A conversação era animada: na venda sabia-se de tudo, e a vida íntima das famílias se 
despedaçava ali aos dentes ferozes dos escravos, os atraiçoadores e caluniadores das 
casas. 
A moléstia de Domingos Caetano e suas inesperadas melhoras tinham sido por 
muitas vezes discutidas. 
Muitos lamentaram Simeão pelo adiamento da sua alforria: os escravos 
zombavam dele. 
Um só homem soube consolá-lo com um raio de esperança: foi o homem de 
imensa barba que vimos dormindo no banco da venda no dia em que Simeão fora 
mandado a chamar o médico. 
José Borges, que aliás era mais conhecido por José Barbudo, ou simplesmente 
por – Barbudo – tinha dito a Simeão: 
– Ataque de cabeça, quando deixa sinal, não tarda a voltar. 
O aforismo popular, que José Borges repetira, ficou na memória do crioulo que 
depois por mais de uma vez consultou o seu aforista. 
E o Barbudo começava a interessar-se muito por Simeão, com quem estreitara 
amizade, acompanhando-o em suas excursões noturnas, e partilhando seus deboches. 
O companheiro não podia ser pior: José Barbudo era uma celebridade turbulenta 
e suspeitosa; mais de uma acusação de crime pesava sobre sua cabeça, e pretendiam que 
havia em sua vida nódoas de sangue. 
Nenhum freguês da venda se atrevia a negar um copo de aguardente ao Barbudo 
e menos ainda exagerar com ele a disputa no jogo. O Barbudo tinha sua fama. 
Até então quase indiferente a Simeão, tornara-se em poucos dias seu íntimo 
camarada, e sempre que estavam juntos embebia nele seus olhos de tigre como serpente 
a magnetizar a presa. 
Era fácil de explicar aquela súbita amizade do Barbudo. 
O escravo é a matéria-prima com que se preparam crimes horríveis que 
espantam a nossa sociedade. No empenho de seduzir um escravo para torná-lo cúmplice 
no mais atroz atentado, metade do trabalho do sedutor está previamente feito pelo fato 
da escravidão. 
Não há, não pode haver escravidão sem a idéia da vingança, sem o sentimento 
do ódio a envenenar as almas dos escravos, e a vingança e o ódio têm sempre chegado 
de antemão à metade da viagem, quando soa a hora infernal da marcha pelo caminho do 
crime. 
Mas o Barbudo não deixava entrever projeto algum criminoso: bom amigo de 
Simeão, apenas manifestava por ele afeição e interesse. 
Uma noite, por exemplo, levou o crioulo a conversar no terreiro da venda.